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obrigando os indivíduos à deslimitação gradual do conteúdo do tral se encontrará a demonstração de que se podem atribuir de fato

reconhecimento recíproco, visto que só por esse meio eles podem às diferentes formas de reconhecimento recíproco diversas etapas
conferir uma expressão social às pretensões de sua subjetividade, de auto-relação prática do ser humano, o que se sugere a traços vagos
que sempre se regenetam. Nesse sentido, 0 processo da individuação, na psicologia social de Mead. Com base nessa tipologia é possível
discorrendo no plano da história da espécie, está ligado ao pressu- começar a abordar também a segunda tarefa, que Hegel e Mead nos
posto de uma ampliação simultânea das relações de reconhecimen- deixaram porque não clarificaram de maneira suficiente uma im-
to mútuo. A hipótese evolutiva assim traçada, porém, só pode se plicação decisiva de sua concepção teórica. Pois ambos os pensa-
tornar a pedra angular de urna teoria da sociedade na medida em dores, em igual medida, não estiveram em condições de definir de
que ela é remetida de maneira sistemática a processos no interior forma mais adequada as experiências sociais sob cuja pressão a
da práxis da vida social: são as lutas moralmente motivadas de gru- asseverada luta por reconhecimento deve se originar no processo
pos sociais, sua tentativa coletiva de estabelecer institucional e cul- histórico: tanto em Hegel como em Mead não se encontra uma
turalmente formas ampliadas de reconhecimento recíproco, aquilo consideração sistemática daquelas formas de desrespeito que podem
por rneio do qual vem a se realizar a transformação normativamente tornar experienciável para os atores sociais, na qualidade de um equi-
gerida das sociedades. Hegel efetuou esse passo, desenvolvendo a valente negativo das correspondentes relações de reconhecimento,
teoria do reconhecimento até chegar a um modelo de conflito, de o fato do reconhecimento denegado. Por isso, no capítulo subseqüen-
maneira idealista; Mead o fez de uma maneira que já se pode dizer te, tentaremos fechar essa lacuna, diferenciando as diversas espé-
“materialista”; em contraposição à tradição teórica que vai de Ma- cies de rebaixamento e de ofensa por que passam os homens; nesse
quiavel até Nietzsche, passando por Hobbes, os dois pensadores contexto, a remissão à tipologia das formas de reconhecimento resul-
deram à luta social uma interpretação na qual ela pôde se tornar tará da tese segundo a qual as formas de desrespeito podem ser dis-
uma força estruturante na evolução moral da sociedade. Antes po- tinguidas lançando-se mão do critério de saber qual nível de auto-
rém de eu poder esboçar, ao menos em alguns traços básicos, esse relação de uma pessoa, intersubjetivamente adquirida, elas respec-
complexo central da teoria da sociedade em vista, é preciso primei- tivamente lesam ou chegam a destruir33.
ro clarificar sistematicamente dois pressupostos que se encontram Embora não se tenha encontrado nos escritos de Mead um
inscritos nas teorias do reconhecimento de Hegel e Mead, mas não substituto adequado para o conceito romântico de “amor”, sua
desdobrados. Por um lado, a tripartição que ambos os autores pa- teoria, como a de Hegel, desemboca também na distinção de três
recem realizar em comum nas formas do reconhecimento recípro- formas de reconhecimento recíproco: da dedicação emotiva, como
co carece de uma justificação que vá além do que foi dito até o a conhecemos das relações amorosas e das amizades, são diferen-
momento: em que medida uma tal distinção na estrutura das rela- ciados 0 reconhecimento jurídico e o assentimento solidário como
ções da vida social acerta realmente em algo é o que se deve mos- modos separados de reconhecimento. já em Hegel são atribuídos
trar, independentemente dos textos aduzidos, fazendo-a concordar respectivamente a esses três padrões de reciprocidade conceitos es-
aproximativamente com os resultados da pesquisa empírica. Na se-
qüência, isso acontecerá na forma de uma tipologia fenomenológica
que procura descrever os três padrões de reconhecimento de modo °"3 Uma primeira
- - elaboraçao
- dessa tese, ainda
. . .
panoramica, eu apresentei.
que eles se tornem empiricamente controláveis, recorrendo~se aos em “Integrität und Mifšachtung. Grundmotive einer Moral der Anerlcennung”.
estados de coisa expostos pelas ciências particulares; no ponto cen- In: Merkur, vol. 501, 1990, p. 143 ss.

155 Axel I-Ionneth Luta por reconhecimento 157