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Jürgen Moltmann: teólogo e pastor

A busca constante pelo sentido da vida


e da esperança junto ao povo

Geoval Jacinto da Silva


Jorge Schütz Dias

Resumo

O artigo procura estudar Jürgen Moltmann como “Um


teólogo com alma e espírito de pastor” a partir do
viés da vida e esperança em duas de suas obras: “A
Fonte da Vida. O Espírito Santo e a Teologia da Vida”
e “Paixão Pela Vida”. Paixão pela vida é o resulta-
do de suas preleções quando esteve aqui em Rudge
Ramos a convite da Faculdade de Teologia da Igreja
Metodista.

Palavras-chave

Vida – esperança – conversão – pastor - sofrimento.

Geoval Jacinto da Silva, bispo


metodista honorário e professor
do Programa de Pós-Graduação
em Ciências da Religião e da
Faculdade de Teologia – UMESP.
Pós-doutorado pela Universidade
Metodista de Piracicaba.
Endereço eletrônico:
geoval.silva@metodista.br

Jorge Schütz Dias:


Doutorando do Programa de
Pós-Graduação em Ciências da
Religião – UMESP.
Moltmann: Theologian and pastor

A constant search for the meaning of life and hope along


with the people

Geoval Jacinto da Silva


Jorge Schütz Dias

Abstract

This article tries to study Jürgen Moltmann as a “the-


ologian who has a pastor’s soul and spirit” based on
the aspect of life and hope in two of his books: “The
source of life – The Holy Spirit and the theology of
Life” and “The Passion for Life”. The passion for life is
the result of the lectures he taught while he was here
in Rudge Ramos invited by the Faculty of Theology of
the Methodist Church.

Keywords

Life – hope – conversion – pastor – suffering.

Geoval Jacinto da Silva: Bishop of


the Methodist Church, professor
in the Post Graduation Program
in Religous Studies and at the
Faculty of Theology – UMESP.
Electronic address:geoval.silva@
metodista.br

Jorge Schütz Dias:


Doctor Degree student in the
Post Graduation Program in
Religous Studies – UMESP.
Moltmann: teólogo y pastor

La busca constante por el sentido de la vida y de la


esperanza junto al pueblo

Geoval Jacinto da Silva


Jorge Schütz Dias

Resumen

El artículo busca estudiar a Jürgen Moltmann como


“Un teólogo con alma y espíritu de pastor” a partir del
bies de la vida y esperanza en dos de sus obras: “La
Fuente de la Vida. El Espíritu Santo y la Teología de
la Vida” y “Pasión por la Vida”. Pasión por la vida es
el resultado de sus ponencias cuando estuvo aquí en
Rudge Ramos como invitado de la Facultad de Teolo-
gía de la Iglesia Metodista.

Palabras clave

Vida – esperanza – conversión – pastor – sufrimiento.

Geoval Jacinto da Silva: Obispo,


profesor del Programa de
Posgraduación en Ciencias
de la Religión y de la Facultad
de Teología – UMESP.
Correo Electrónico:
geoval.silva@metodista.br

Jorge Schütz Dias:


Doctorando del Programa de
Posgraduación en Ciencias de la
Religión – UMESP.
Introdução pensadores. Tem diversas publicações
e, dentre elas, algumas obras em por-
tuguês. Sua história de vida é marcada
Quando Jürgen Moltmann veio ao Bra-
por diversos acontecimentos que possi-
sil em 1978, eu estava em San José, na
bilitaram a germinação de uma fé e tes-
Costa Rica, realizando estudos em nível
temunho de vida cristãos em momentos
de pós-graduação. Nesse período estudei
de muitos limites, alguns dos quais mar-
Moltmann a partir de seu livro “Teologia
cados com sinais de morte tanto física
da Esperança”. Sua preocupação com os
como espiritual. Ele relata sua experiên-
temas da “vida e da esperança”, que estão
cia de vida afirmando que:
presentes em seus escritos, sempre me
chamou a atenção. Em 1944, com a idade de dezessete
anos, fui mandado para a guerra. Co-
Moltmann volta ao Brasil trinta anos locaram-me num campo de prisioneiros
depois, e por certo vai encontrar um país juntamente com massas de meu povo.
que vem experimentando muitas mudan- Foram três anos de trabalho forçado.
Perdemos os nomes e nos transforma-
ças, sendo algumas para melhor. O próprio
mos em números. Ficamos órfãos de lar
espaço acadêmico que o recebe deixou de e de pátria; perdemos a esperança, a
ser um Instituto para ser uma Universida- autoconsciência, e a própria comuni-
de dentro do contexto da região metropo- dade. Experimentamos, então, o que
poderíamos chamar de ochlos, ou seja,
litana da grande São Paulo e do ABCD. a massa humana desorganizada, prisio-
Desta forma, as obras que estarão neira, sem educação, sofredora, sem
face, sem liberdade e sem história (...)
dando sustentação teórica a este artigo
(Moltmann, 1978, p. 33).
são: “A Fonte da Vida, O Espírito Santo e
a Teologia da Vida” e “Paixão Pela Vida”.
A Pergunta que não quer calar: “meu
Paixão pela vida é fruto de suas preleções
Deus, onde estás”?
de quando esteve em Rudge Ramos a
convite da Faculdade de Teologia da Igre- Moltmann, em sua obra “Fonte da
ja Metodista. Essa mesma instituição foi Vida”, a exemplo de um pastor que ama
a proponente da concessão do titulo de o rebanho a quem Deus tem confiado a
“Doutor Honoris Causa” que ele irá rece- graça do pastoreio, entendendo pastoreio
ber, marcando, assim, um maior vínculo com a comunidade, que no entendimento
entre Moltmann e a Universidade Metodis- do Apóstolo Paulo é a “comunidade que
ta de São Paulo – UMESP. É bem verdade vive da graça”, parte de uma experiência
que sua presença extrapola tanto os laços bíblica do episódio da luta de Jacó no vale
acadêmicos quanto institucionais. do Jaboque (Gn 32-25-32) e nos envolve
para com ele caminhar reforçando a figura
O artigo, portanto, percorrerá as obras
do pastor que caminha como o seu povo.
de Moltmann, conforme indicadas, com o
Moltmann afirma que:
olhar sobre a formação espiritual, atuação
pastoral e acadêmica, fortalecendo assim Nos anos em que fui prisioneiro de guer-
a perspectiva de uma vida pastoral dire- ra, de 1945 a 1948, a história bíblica da
luta de Jacó com o anjo do Senhor no
cionada pela esperança.
Jaboq sempre foi para mim a história de
Deus na qual reencontrei minha própria
A formação espiritual pequena história de ser humano. Entrá-
vamos nos pavores do fim da guerra e
na miséria insolúvel das prisões do pós-
Jürgen Moltmann nasceu na cidade guerra e lutávamos com Deus para so-
de Hamburgo em 1926, doutorou-se em breviver nos abismos do absurdo e da
teologia em 1952, sendo considerado culpa. Saímos daqueles anos, “mancan-
como teólogo de uma nova geração de do de uma coxa”, porém abençoados
(...) (Moltmann, 2002, p. 9-10).

24 Geoval Jacinto da SILVA, Jorge Schütz DIAS, Jünger Moltmann: teólogo e pastor
A alma e o espírito de pastor de Molt- duzentos, nada mais me diziam, em-
mann foram marcados no seu processo bora os recitasse com freqüência. Meu
sonho fora estudar matemática e física.
de conversão. Segundo Santo Agostinho,
Meus heróis eram Einstein e Heisen-
conversão é um processo de mudança berg. Naquele lugar, porém, esse sonho
na vida de uma pessoa, ela pode aconte- se despedaçou: para que tudo isso?
cer de diferentes formas. Na história da (Moltmann, 2002, p. 11).
Memórias das noites de insônia. E de-
Igreja, há uma série de personagens que
pois aquelas noites de insônia, quando
experimentaram o processo de conversão me assaltavam as recordações tortu-
como algo dinâmico dentro da perspectiva rantes dos tanques que rolaram sobre
de conversão como processo. nós nas cercanias de batalha de Ar-
nheim, de modo que eu acordava su-
Moltmann descreve os passos que ando frio, quando surgiam as faces dos
antecederam seu processo de conversão companheiros tombados, fitando-me
como alguém que foi sendo encontrado com olhares apagados. Transcorreram
em um caminho marcado pela miséria e cerca de cinco anos até que eu sentisse
uma certa cura dessas recordações(...)
o desalento. Para ele, o processo de con-
Naquelas noites estávamos “sozinhos”,
versão possibilitou encontrar caminhos em como Jacó, e lutávamos contra poderes
direção a um crescimento de novidade de e potestades que nos pareciam som-
vida e esperança. Seu processo de conver- brias e perigosas. Somente mais tar-
de, depois que aquilo passou, pudemos
são é por ele descrito assim:
compreender quem lutava conosco.
Éramos como sobreviventes. Foi da “Como é pequeno aquilo com que nos
morte em massa da guerra mundial que debatemos, como é grande o que luta
escapamos. Para cada um que sobrevi- conosco...” (Moltmann, 2002, p. 11).
veu a isso caem centenas de mortos.
Para que sobrevivemos a isso e não Moltmann, fala de uma “transformação
estamos mortos como os demais? Em imerecida” da qual ele participou plena
julho de 1943 fui ajudante da Força Aé-
rea numa bateria antiaérea no centro
em sua vida. Essa transformação imere-
de Hamburgo, e por pouco sobrevivi ao cida pode ser entendida também como a
ataque desfechado pela “operação Go- metanóia que ele pode vivenciar em situa-
morra” da Royal Air Force no leste da- ção de muitas privações e humilhações. A
quela cidade. O amigo que estava a meu
transformação aconteceu dentro de duas
lado no equipamento de comando foi
estraçalhado pela bomba que me pou- perspectivas: por um lado, graças à Bíblia
pou. Aquela noite, clamei pela primeira e, por outro por meio de encontros com
vez por Deus: Meu Deus, onde estás? pessoas. Ele descreve essas transforma-
(Moltmann, 2002, p. 10). ções a partir de cinco momentos, dos
Esperanças perdidas – lembranças tor-
turantes. Havíamos escapado da mor-
quais elenco dois deles:
te, mas éramos prisioneiros de guerra.
1. A recepção de uma Bíblia. No campo
Estive primeiro no miserável acampa-
de trabalhos na Escócia, pela primeira
mento 2226 em Zedelgem, próximo de
vez na vida, recebi, como outros deti-
Ostende (Holanda), e depois no campo
dos surpresos, uma Bíblia de um bem-
de trabalhos 22 em Kilmarnock/Ayshi-
intencionado capelão militar. Muitos
re; cheguei a Norton Camp somente em
teriam preferido cigarros. Eu, porém,
julho de 1946.(..). Havíamos escapado,
lia sem compreender muito, até que
porém perdêramos qualquer esperança.
encontrei os salmos de lamentação. O
(Moltmann, 2002, p. 11).
Salmo 39 me cativou: “Calei-me, mais
Esperanças perdidas: o alimento de
do que convinha. Minha dor tornou-
minha alma havia sido os poemas de
se insuportável... A duração de minha
Goethe e seu Fausto que minha irmã
vida é quase nada diante de ti... Ouve
me dera: o “fausto de bolso” para sol-
a minha oração, Senhor, e meu grito, e
dados. Esses poemas haviam desperta-
presta ouvido às minhas lágrimas, não
do meus sentimentos de jovem, porém
permaneças surdo, pois não passo de
agora, preso num pavilhão com outros
um migrante junto a ti, um hóspede

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como todos os meus antepassados”. 1. Um espaço de formação como mos-
Eram palavras que brotavam de minha teiro. Para nós, Norton Camp era uma
alma e a atraíam para Deus. Depois espécie de clausura de mosteiro, exclu-
cheguei à história da Paixão. Quando li ded from time and world (excluído do
o grito de Jesus ao morrer: “Meu Deus, tempo e do mundo), como escreveu
por que me abandonaste?”, soube com Gerhard Noller em 1948 na carta de
certeza: está ali o único que me com- despedida. O dia começava às seis e
preende. Comecei a compreender o meia com um sinal de trompete (por-
Cristo atribulado, porque sentia que era que quando fomos presos nos tiraram
compreendido por ele: o irmão divino os relógios) e terminava ás dez e meia
na aflição, que leva consigo os cativos da noite, quando os ingleses desliga-
em seu caminho para a ressurreição. vam as luzes. Subitamente tínhamos
Recobrei o ânimo de viver. Fui tomado tempo, muito tempo e, totalmente fa-
de uma grande esperança. Também vivi mintos de atividade intelectual, nos vi-
paz quando outros foram “repatriados” mos diante de uma maravilhosa biblio-
e eu não. Desde então nunca mais se teca que a Associação Cristã de Moços
apartou e mim essa antiga comunhão havia instalado naquele tempo. Li de
com Jesus, o irmão no sofrimento e o tudo: poesias e romances, matemáti-
redentor da culpa. Nunca tomei uma ca e filosofia e grandes quantidades de
“decisão” por Cristo, como muitas vezes teologia, praticamente de manhã até a
se exigia. Contudo, tenho certeza de noite. As riquezas encontradas nos pla-
que, naquele tempo e naquele lugar, ele nos de ensino das disciplinas.
me encontrou no buraco negro de minha 2. Os Planos letivos dos semestres eram
alma. O abandono de Cristo por Deus ricos e nós, afinal, queríamos aprender
me mostrou onde Deus está, onde ele tudo. Estudei hebraico com Waletr Haa-
estava comigo em minha vida. ren e Gerhard Noller. Gerhard Friedrich
2. O segundo fator foi a cordialidade nos introduziu no Novo Testamento. De-
com que nos tratavam os escoceses e pois, vieram os visitantes: Anders Ny-
ingleses, antigos inimigos. Em Kilmar- gren ficou quatorze dias e nos ensinou
nock, os mineiros e suas famílias nos teologia sistemática, o professor Soe, de
acolheram com uma hospitalidade que Copenhague, fez o mesmo em relação
nos envergonhou profundamente. Não à ética cristã. Werner Milch, emigrado,
ouvíamos acusações. Não nos atribuíam mais tarde professor em Marbug, apre-
nenhuma culpa. Éramos aceitos como sentou-nos de forma contagiante uma
seres humanos, embora não passásse- história da literatura do século XX. Fritz
mos de números e ostentássemos nas
Blanke veio de Zurique e Matthew Bla-
costas as lapelas de prisioneiros. Expe-
ck, da escócia. Tempos depois, voltei a
rimentamos perdão da culpa sem con-
encontrá-lo em St. Andrews. Sem dúvi-
fissão de culpa de nossa parte. Foi isso
da, éramos um acampamento “vitrine”,
que nos possibilitou viver com o passa-
e não sem motivo. Contudo, também
do de nosso povo e com as sombras de
fomos ricamente presenteados e honra-
Auschwitz, sem reprimi-las e sem endu-
dos pelas visitas e palestras de Birger
recermos. Por longo tempo continuei a
Forell, John Mott, Willem Visser’t Hooft,
me corresponder com a família Steele.
Martin Niemoller e outros.
3. A recordação das pregações. Não por
Motmann define que o seu processo ultimo, lembro das pregações impactan-
de formação teológica foi um espaço ec- tes de nossos pastores do acampamen-
to, Rudolf Halver e Wilhelm Burckert.
lético que contribuiu de forma significa-
Foram as primeiras pregações que ouvi
tiva para o seu crescimento. Os estudos em minha vida e várias delas eu ainda
oferecidos em “Norton Camp”, apesar de hoje seria capaz de repetir, especial-
todas as limitações pela forma pedagó- mente a mensagem de Halver sobre a
gica e metodológica do ensino, transfor- magna peccatrix (grande pecadora) de
10 de agosto de 1947. Vejo à minha
mou-se em um espaço de bênção e cres-
frente a longa fila de presos no cami-
cimento para sua maturidade teológica e nho da igreja de Cuckney ou da igreja
pastoral. Ele descreve, em três momen- metodista de Frank Baker, a quem pude
tos, como que o processo de educação reencontrar mais tarde na Duke Univer-
aconteceu naquele espaço: sity, em Durrham (EUA).

26 Geoval Jacinto da SILVA, Jorge Schütz DIAS, Jünger Moltmann: teólogo e pastor
É percebível que Moltmann tem muita Meu traje de luto mudaste
facilidade de assimilar os sinais do tempo em traje de festa.
Por isso a alma te cante
de Deus para sua vida e transformá-los
sem cessar.
em momentos de graça, vida e esperan- Senhor, meu Deus,
ça. A partir de sua visão do vale de Ja- eu te darei graças
boq, ele caminha como que marcado, não para sempre
(Moltmann, 2002, p. 16-17).
para morrer, mas marcado para a vida,
como ele mesmo relata: “mancando de
uma coxa, porém abençoado”, e assim
ele descreve:
Atuação pastoral
O que no inicio parecia ser um desti- e acadêmica
no cruel tornou-se para nós uma bên-
ção de riqueza imerecida. Começou na
noite da guerra, mas quando chegamos Nos dois livros estudados, em especial
em Norton Camp, raiou o sol para nós. em suas primeiras partes, Moltmann dei-
Chegamos com almas feridas, e, quan-
xa explicito sua alma e espírito de pastor.
do saímos, “minha vida foi salva”. Sem
dúvida não vimos, como Jacó naquele Suas experiências de vida nos campos de
lugar no Iaboq, “Deus face a face”. De concentração foram bastante suficientes
acordo com a tradição bíblica, isso será para assimilar um pastorado de compro-
reservado apenas a poucos “amigos de
misso e de entrega ao povo, que resultou
Deus”. A todos os demais, porém, isso
foi prometido somente para o grande por certo, em criatividade pastoral, e pos-
dia da ressurreição, quando veremos sibilitou o desenvolvimento de seu cres-
“face a face” e “conheceremos como cimento de solidariedade e de atividades
somos conhecidos” (1 Cor 13,12). Ocor- academias e teológicas.
reu o inverso: foi Deus quem olhou para
nós com os “olhos radiantes” de sua Certa vez o teólogo e pastor Gustavo
alegria eterna. A bênção e o espírito da Gutierrez, indagado por algo que lhe dava
vida têm sua origem no “olhar o juízo de prazer respondeu:
Deus” que está fundado na “face ocul-
ta de Deus“ (bester panim) e a rejeição (...) o que me dá mais alegria é o tra-
no “olhar desviado de Deus”. Aquilo que balho pastoral. Sinto que essa é a mi-
vivenciamos foi, para muitos de nós, a nha função primária como sacerdote.
mudança do “rosto oculto” para a “face Não fui ordenado para fazer teologia,
resplandecente de Deus”. Experimenta- mas para proclamar o Evangelho. Con-
mos sua ocultação e sua distância com sidero a teologia somente uma ajuda
dor e sentimos que ele olhou para nós para isso, nada mais (Pedroso Mateus,
com “olhar resplandecente”, e senti- 1989, p. 81).
mos o calor de seu amor.
Após cinqüenta anos, reunimo-nos
aqui para enaltecer o Deus oculto, e Moltmann entende que sua proposta
mesmo assim, tão misericordioso, por acadêmica é para o povo e com o povo,
tudo o que experimentamos dele. Com- desta maneira, como acadêmico, faz a se-
parecemos também para lembrar com
guinte advertência aos acadêmicos menos
gratidão as pessoas que vieram ao en-
contro de nós, prisioneiros, com tanta avisados:
disposição de perdoar e com tanta hos-
A teologia acadêmica, além de erudita,
pitalidade. Jamais esqueceremos Birger
é também pastoral. Meus alunos uni-
Forell e John Barwick, que organizaram
versitários procedem de diversas es-
Norton Camp, e continuamos devedores
colas secundárias. Vivem igualmente
da ACM, que organizou aquela genero-
separados do povo que não pode mais
sa ajuda aos prisioneiros de guerra,
freqüentar escolas e, certamente, a
que nos restaurou. Encerro com pala-
Universidade (...) Procuramos interpre-
vras do Salmo 30.12s, confessando:
tar conceitos teológicos de experiências
Senhor, transformaste
passadas, mas raramente trazemos as
meu luto em dança,

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experiências religiosas contemporâneas Nem sempre fui professor de Teologia.
do povo que sofre e luta ao âmbito de Por mais de cinco anos, trabalhei como
uma nova conceitualização. Assim, o pastor de uma comunidade rural. Nes-
nosso trabalho teológico nos separa do ses anos experimentei o que qualquer
povo. Por isso o povo não nos entende pastor da “Igreja para o povo”, Preguei,
e vê professores e estudantes com pro- ensinei, batizei, fiz casamentos, enter-
funda desconfiança (Moltmann, 1978, ros, visitei lares e enfermos. Na medida
p. 31-32). do possível, vivi no meio do povo, com
ele e por ele. Nessa situação, não ha-
via separação entre a Universidade e a
Moltmann, quando veio ao Brasil, en-
congregação, muito embora haja sem-
controu-nos vivendo a plenitude dos con- pre uma diferença entre os membros da
ceitos da Teologia da Libertação, ou Teolo- igreja e seu pastor, o povo com suas
gia Latino-américana, que procurava fazer roupas de operários e o pastor com
suas vestes litúrgicas. Espera-se que
a passagem de “uma perspectiva desen-
o pastor exista para eles, mas jamais
volvimentista para uma perspectiva de li- lhe será possível estar entre eles como
bertação” (Pedroso Mateus, 1989, p. 89). se lhes fosse igual. Pode anunciar-lhes
Na verdade, o que se estava fazendo era esperanças e luta. Essas experiências
pastorais ajudam-me hoje no meu tra-
teologia de um modo diferente, que signi- balho de professor de teologia. Sinto-
ficava reconhecer a legitimidade de novos me mais perto do povo. (Moltmann,
desafios com que se defrontava o trabalho 1978, p. 32).
teológico a partir de um novo sujeito his-
tórico, isto é, um povo que no decorrer da Maraschin (1978) apresenta o Livro
história havia perdido o sentido da vida e Paixão Pela Vida afirmando que
da esperança. Neste aspecto, Moltmann se
o primeiro capítulo é um sermão em
expressa assim: que a temática fundamental impõe-se
de maneira muito clara. Mais pastor do
Quem sou eu? “Em que qualidade venho que teólogo, chama-nos insistentemen-
falar-vos sobre a esperança na luta do te a uma vida apaixonada, capaz de
povo”? Ninguém consegue sair da pró- vencer a apatia e suas conseqüências
pria pele, mas temos todos mais do que destruidoras. Por isso, nos dá uma ver-
uma pele. Estou agora falando como são de Deus que nada tem a ver com
professor de teologia, como acadêmico, as definições tradicionais escolásticas
e nada posso fazer para mudar essa re- de inspiração filosófica. Fundamenta-
alidade. Também não posso deixar de se nas Escrituras para nos mostrar um
falar como pastor. Entretanto, tentarei Deus patético, que se expressa em atos
falar como prisioneiro do povo, empre- de amor pela liberdade.
gando minhas experiências de pastor e
as possibilidades de professor a serviço
de minha comunidade de origem que Desta forma Moltmann procura des-
exerceu em minha vida influências mais crever como Deus foi trabalhando em sua
profundas do que qualquer outro evento vida a partir das imagens de Deus no An-
posterior (Moltmann, 1978, p. 33).
tigo Testamento. Para ele:

Naquele momento, em que fazer teolo- O Deus de que falam os homens do


gia estava direcionada aos compromissos Antigo Testamento, baseados nas pró-
prias experiências, não é um poder frio
acadêmicos e as viagens proporcionadas
e silencioso, no céu, que permanece
pelo movimento ecumênico institucional, auto-suficiente, distribuindo graciosa-
Moltmann, como conhecedor de uma pas- mente esmolas aos súditos (Moltmann,
toral como ação da vida da igreja, pontu- 1987, p. 14).
aliza sua trajetória afirmando que sua pri-
meira trincheira de luta em favor do reino Afirma ele:
de Deus nasceu no meio do povo, em uma
Quem vive em comunhão com este
comunidade bem concreta, e diz: Deus apaixonado não pode permanecer

28 Geoval Jacinto da SILVA, Jorge Schütz DIAS, Jünger Moltmann: teólogo e pastor
apático. Determina-se por ele. Sofre o para o resto da vida”, reconhece que a
como sofrimento de Deus no mundo; dor tenha contribuído para o seu amadure-
alegra-se com suas alegrias. Unindo-
cimento cristão e para os postulados teo-
se ao amor de Deus, participa inten-
samente desses sentimentos (...) Seu lógicos e pastorais (Pedroso Mateus, 1989,
pequeno sofrimento acha sentido no p. 76-77). Foi Stanley Jones que identifi-
imenso sofrimento de Deus em favor cou que através do sofrimento de Cristo
de um mundo livre e salvo (Moltmann,
a humanidade se beneficia diante de sua
1978, p. 15).
graça, pois “A única maneira de fugir do
sofrimento é fugir da própria vida” (Jones,
Para ele as imagens do Cristo estão
1965, p. 15). Moltmann afirma que:
presentes na história do Novo Testamento,
um Cristo que experimenta o sofrimento Como pode o sofrimento de Jesus fa-
humano e, portanto, tal sofrimento tem lar hoje a nós? Conhecemos os relatos
que ser visto e entendido não só pelo lado da crucificação. Teria ele também fra-
cassado? Não terá vida, então, outro
humano, mas na dinâmica da paixão que a sentido além da morte na qual, afinal,
torna possível. Assim, “na paixão de Cris- termina? Nesse caso, não deveríamos
to a paixão de Deus confunde-se com a amar apenas com cuidado, para que a
nossa. Nela, eu sinto o amor de Deus e as morte venha a ser menos terrível? Não
acredito que Jesus tenha fracassado no
dores do meu próprio corpo” (Moltmann,
final. (...) A paixão que nos liberta para
1978, p. 15). Partindo de três perguntas, a vida só se efetiva ao se sacrificar. No
ele desenvolve antigos conceitos de apro- fundo, os ferimentos só se curam pelos
ximação a vida de Jesus, são elas: Primei- próprios ferimentos. Jesus cria vida en-
ro: Que tem de especial a vida de Jesus? tre os que sofrem porque os ama e não
por causa do grande poder. (...) O Novo
Segundo: Por que nos chama atenção? Testamento resume a paixão e o sofri-
Terceiro: O que é paixão? Afirma Molt- mento de Jesus nas palavras do profe-
mann, em forma de resposta às questões ta sobre o servo sofredor (Moltmann,
suscitadas, que: 1978, p. 16-17).

Não se trata de meros desejos da alma Moltmann, com sua visão pastoral,
por uma vida sem dores no céu nem de
percebe que toda a crise que vem experi-
um amor pelo reino de Deus no além,
nem ainda a aspiração pela permanên- mentando os segmentos da Igreja na so-
cia da vida depois da morte, mas, isso ciedade está de certa forma vinculada à
sim, da vontade de viver a plenitude da forma de entendimento e vivencia da cris-
vida mesmo antes da morte, até mes-
tologia que a Igreja vem desenvolvendo.
mo contra a morte, que transborda da
vida de Jesus. A vida se faz presente Indica ele: “por trás da crise política e
onde os doentes estão curados, os le- social da igreja na sociedade moderna, es-
prosos aceitos, e os pecadores perdoa-
conde-se a crise cristológica: de onde vem
dos. Essa vida divina, salva, faz-se pre-
sente hoje em nosso meio. (Moltmann, a força da igreja? Quem é Jesus Cristo, re-
1978, p. 16). almente, para nós, hoje? Na crise de iden-
tidade do cristianismo oculta-se a questão
Moltmann apresenta um legado signifi- de Deus: que Deus governa a existência
cativo de sua estrutura pastoral a partir de cristã, o crucificado ou os ídolos da religião
uma cristologia que apresenta um Cristo , classe, da raça e sociedade? (Moltmann,
que, através do seu sofrimento, continua 1978, p. 49). Distanciar-se de Cristo pro-
ainda falando aos nossos dias. Gustavo voca a mudança e o fogo do entendimen-
Gutierrez diz que “a dor amadurece” e que to do Deus Trino, pois o entendimento de
ele, em seu sofrimento, vitima de uma Deus “só pode ser realizado no seguimen-
“osteomielite que o prendeu à cama e à to de Jesus e a partir dele” . Portanto, “só
cadeira de rodas por seis anos, marcando- quando se caminha segundo o Espírito é

Revista Caminhando v. 13, n. 22, jul-dez 2008 29


possível pensar e anunciar o amor gratuito primeira de sua preocupação pastoral e
do Pai de Jesus Cristo” (Pedroso Mateus, teológica, como ele bem sinaliza a partir
1989, p. 79), por meio da pessoa humana de Bertold Brecht, na peça O Bom Homem
e de seus atos, quando ela se encontra com de Sezuan, “Quem ajuda os perdidos são
Deus e com o próximo, em especial com os os próprios perdidos”.
mais necessitados, daí então surge o sen-
tido de uma cristologia que se faz presente
em uma práxis cristã transformadora. Referências bibliográficas

JONES, S. Cristo e o sofrimento humano.


Considerações finais São Paulo: Imprensa Metodista,
1965.
Este artigo teve como objetivo primor- MOLTMANN, J. Teologia da esperança. Ed.
dial destacar a alma e o espírito de Jür- Helder, 1971.
gen Moltmann como “teólogo e pastor”, a MONTMANN, J. Paixão pela vida. São
partir das primeiras impressões colhidas Paulo: ASTE, 1978.
em duas obras relacionadas, bem como MONTMANN, J. A Fonte da vida. O
de sua vida. Os escritos que serviram Espírito Santo e a teologia da vida.
como referencial teórico teológico e pas- São Paulo: Loyola, 2002.
toral foram de forma precisa indicando a PEDROSO MATEUS, O. Gustavo Gutiérrez:
verdade pastoral nas atitudes acadêmicas pastor e teólogo. IN: Estudos de
e do seu envolvimento como povo, objeto Religião n. 6, 1989.

30 Geoval Jacinto da SILVA, Jorge Schütz DIAS, Jünger Moltmann: teólogo e pastor