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ENLEVOS

ECOS DO PASSADO

Novo céu nova terra,


Quantas coisas serão,
Juízo estás no Livro, e chegarás,
Profetas disseram...!
Bradam pastores ungidos,
Dão de ombros ateus não remidos,
Que dormem em macios sofás.

Do místico céu descerá,


A nova Jerusalém...
Como entender simbolismos,
De um Livro a revelar,
A sabedoria de antanho,
Se caminham em rebanho,
Os escravos dos modismos?

Mundo da diversidade,
Inúteis palavras da comunicação,
Festas, heróis e sodomias,
Princípio do fim,
Delírios levianos,
Mentes sem luz ou arcanos,
Vidas, loucuras, fantasias.

Nuvem sobre nuvem,


Tecnologia sem amor,
Hipnose coletiva,
Moedas – trilhões, quatrilhões,
Como em silos como em grão,
Só bem menos restarão,
Da fronteira evasiva.
...

ÁGUAS E FOGO

Filete que nasce de alta montanha,


Riacho que chora e vem percorrer,
Desce, e mais desce, e mais outro arrebanha,
Outro, e mais outro, e mais águas crescer.

Brilho que desce d’estrela distante,


Espaço ele rasga e nada a impedir,
Pousa solene, viajor, viajante,
Na noite silente em mundo a dormir.
E as águas do rio a correr, desbravar,
Terra deserta ou floresta sem fim,
Em queda se lança e depois navegar,
E rolando e rolando e assim vai assim.

Brilho que imparte d’estrela d’além,


Em raios milhões e por tudo espraiar,
Lagos e mares – por terra também,
Em prados, campinas, em chão ao luar.

Ao sol ressecante ou no frio invernal,


Desliza, sussurra um canto de amor,
Suave, gracioso, apesar sobernal,
Águas moventes suportam a dor.

Segue o bom vai o mau seu destino a ser,


Ao olhar estelar sob luz d’alvorada,
Segue o mau sua besta o sinal de haver,
Vai em paz - o outro vai - com a sua domada.

Rio que acaba no encontro com o mar,


Manto em beleza – holocausto de morte,
Luz de uma estrela na terra a aportar,
Caminho do astral – oferta da sorte.

...

DEZEMBRO, QUASE VINTE E CINCO

Dezembro, quase vinte e cinco,


Ansiedade, apinhamento,
Sol castiga, ardência,
Nada amaina; brisa quente,
Prova de tormento!

Magazines, encantamentos,
Sinos, luzezinhas, isopor,
Heróis, presépios, histórias,
Símbolos que são e que vêm,
Tento e consigo transpor!

Comemora a emoção,
Envolve o clima, abraça a festa,
Sob o céu Halley cometa,
E viagens siderais.
Terra. Véus escuros sobre esta!

Sinos dobrarão solenes,


Dentro em pouco mesas fartas,
Também fome, expiação.
Hóstias e surdos homens,
Poucas Marias e tantas Martas!

Som terrível se avizinha,


Ouço, presto atenção,
E trombetas são ouvidas,
Clangores! Besta dos Mares,
Apocalipse, João!

Velho céu, velho planeta,


Olho, vejo, quase entendo.
Melhor..., entendo sim,
Atlântida, Jerusalém,
E a matéria aqui regendo!

O círculo que se fecha,


O caminho que se estreita,
O Rei sugado e deposto,
Deus de novo crucificado,
A morte que vem e que espreita!

Da alma a luz, da Terra a ciência.


No tempo aspiro a tudo ver,
Respiro, espasmo, a sombra entra,
E o alento após se esvai,
Conseguirei viver?

Magnífico João!
Novamente o profeta,
Doze tribos, Israel,
Cento e quarenta e quatro mil,
De quantos mais será a meta?

Volvo o rosto sem sentir,


Vago assim e inda divago,
Mesmas faces, corações,
Morte e Vida a quem as queira,
Acabo, entro, compro, pago.

...

OLHARES DE EGO

Estúpido eu sou,
Rocio, alvorada,
Orvalhar, madrugada.
Solene mover, mistério Ser!
Repetir-se, esvaecer...
Matutina – estrela linda,
Vênus prata, em astro ainda,
Dalva aurora, ao sol nascente,
Vésper guia, ao sol poente.

Estúpido eu sou,
Segredos de Gaia,
Ardores brotando, magias de Maia,
Terras e húmus assim como estão,
Tempo, outro tempo, essas terras serão,
Eflúvios e cheiros, coisas benditas,
Mulheres, feitiços, coisas malditas.
Pedras, esfinges, portas, portais,
Nuvens e brumas e seres costais.

Estúpido eu sou,
Caminhos da lida,
Árvore, ramos, sementes de vida,
Frutos do bem e do mal,
Tibi sunt Malkuth – a ordem real,
Reino, poder e glória, são meus,
Bato à porta, não podem ser teus.
Idílios, amantes, Maithuna sem fim,
Sem gozo, com gozo, importa-me assim.

Estúpido eu sou,
Magia de templos,
Invoco, evoco seguidos exemplos,
Só creio que eu faço: aqui eu serei,
Mente, sentença: poderes terei!
Caminhos se mostram de outros trilhar,
Me prendo, ignoro eu quero ficar.
Não saio, protejo, apreendo e guardo,
Alivio meu ego ou aumento meu fardo?

Estúpido eu sou,
Tempos são outros,
Procuro olhares a ver novos rostos,
Busco lá fora sentir Nova Era,
Coisa sem nexo eis tudo me espera.
Mídia danada às imagens guiar,
Almas sem guarda do não despertar,
Não mantos internos; paixões e gaiolas,
Tsunamis a vista e ondas e olas.

Estúpido eu sou,
Brasil minha terra.
Profético sonho que aqui se encerra,
Homens, governo, déspota mão,
Dinheiro a rodo a falta do pão,
Crimes de mortes, coisas horrendas,
Povo que implora novas contendas,
Treva grassante haverá dissipar,
Comunas de frente não hão de ficar.

Estúpido eu sou,
Pensar que é saber,
Coisa tão fácil jamais pode ser,
Análise, cruz, aresto, implosão,
Palavras ferinas, sem dó, compaixão.
Juras não servem, não sei mais dizer,
Ego impoluto que mais posso ser,
Perdão meu amigo, agora me vou,
Estúpido eu sou, estúpido eu sou!

...

IMPLOSÕES

Unidades carbono,
Milhares, bilhões,
Ideias travadas.

Terras inférteis,
Corpos andantes,
Cabeças domadas.

Vidas sem vida,


Ciclos sem fim,
Almas dopadas.

Sangue impiedoso,
Lágrimas frias,
Em vão derramadas.

Mortes e mortes,
Preces sem ecos,
Graças negadas.

Mapa do jogo,
Cavalos, peões,
Peças jogadas.

Rainhas e reis,
Espúrias as leis,
As mãos ocultadas.

Promessas de paz,
Mentiras sagazes,
Guerras forjadas.

Humanos robôs,
Dinheiro a rodo,
Panelas furadas.

Dias de medo,
Planeta ferido,
Pessoas caladas.

Moloch bem vivo,


Tortura infantil,
Crianças levadas.

Olhos sem ver,


Ateus congelados,
Mentes lacradas.

Venenos no ar,
Dragão pelos céus,
Bestas amadas.

Templos escuros,
Rezas e fúrias,
Janelas fechadas.

Astros, perigos,
Ciência sem luz,
Razões apagadas.

Núpcias do Pai,
Noiva estelar,
Idades douradas.

Terror escondido,
Portas abertas,
Cortinas rasgadas.

.
.
.

CRISÁLIDAS

Quem sois,
A desejar viajar ao mundo e sofrer por nós?
A este planeta cheio de generais,
De falsos heróis a pseudo santos,
De pregadores políticos a roqueiros sem lar,
Mensageiros de todas as espécies,
De profetas eletrônicos,
A tantos milhares de Barrabás?
Dizei-me, dizei-me ..., se sois capaz!
Com pés no chão e olhos presos no horizonte,
Sem a mente ilusionada por diversas vacilações,
Nem códigos, credos e sutras,
Lidos, relidos, sortidos,
Quantos dizeres terrenos, ó nosso Pai,
Amalgamados às nostalgias do tempo,
Que não vos ecoem mais?

Dizei-me, dizei-me ..., se sois capaz!


Eu vos imploro: do fundo de vosso coração,
Onde a mágoa escondida,
Mexe e remexe, sempre viva,
Pulsa, machuca, sangra e drena
Exatamente como antes,
Queimando-vos em brasas alquímicas,
E não vos deixa jamais!

Dizei-me, dizei-me ..., se sois capaz!


De adentrar livremente um caminho interno,
Até agora por ninguém exatamente trilhado,
Como o Único e Primeiro fez,
A Quem tudo deveis,
E decidistes segui-Lo sem prantos,
Que por Ele um dia morrestes,
E morrestes muitos dias mais?

Dizei-me, dizei-me..., se sois capaz!


Para essa viagem transcendente,
Ao caminho que ainda não palmilhastes,
Sem bagagens temporais,
Não vos incomodem as conquistas passadas,
As glórias, amores, os risos e flores,
Que à margem, sem resquícios deitastes,
Com todas as magias ancestrais?

Dizei-me, dizei-me ..., se sois capaz!


De jurar ao seu próprio coração,
Abjurar a todas as fantásticas quimeras,
E aspirar sem anseios esta nova terra,
E findo o milagre da transmutação,
Nos cascalhos abrolhos a um canto deixar,
Vossas vestes surradas, suadas, sem cor,
Que nenhuma vos serve mais?

Dizei-me, dizei-me..., se sois capaz!


Que nada vos prenda aqui e agora,
Simples, desnudo, indiferente,
Qual doce criança, ou noviço confiante,
Um novo universo, em vidas miríades,
E depois, nesta terra que agora sois vós,
Estareis às manhãs, às tardes, às noites,
Em ofertas sinceras daquilo que traz?

Dizei-me, dizei-me ..., se sois capaz!


De morrer via crucis sem nada pedir,
Nem nada impedir o que a vós predestina,
Mágoas, rancores, perdidos amores,
Lançados ao fogo da renovação,
E nas cinzas deixadas a história sereis,
Lágrimas róseas, douradas, azuis,
Crisálidas vivas em parto de paz?

Dizei-me, dizei-me ..., se inda sois capaz!

...

AS COISAS QUE SÃO

Que éter-luz, claro e belo,


Que da fronte irradia,
E aos meus olhos tocar!

Que ar puro mais leve,


Que se espraia ao redor,
De um aroma sem par!

Que calor me invade,


Que ao peito me aquece,
E à minh’alma a acender!

Que sorriso altaneiro,


Que ao rosto contempla,
Sem motivo eu saber!

Que voz linda em cascata,


Que ao silêncio sussurra,
E me ensina a cumprir!

Que sabor vem, eu sinto,


Que me toma ao meu corpo,
E o deixa a fremir!

Que carícia de seda,


Que me passa, suave,
Sutil, sem ardor!

Que alegria incontida,


Que me chega e alivia,
Dos lanceiros da dor!
Que leveza gostosa,
Que comigo flutua,
Embalando o meu ser!

Que esperança e amiga,


Que aconchega dizendo,
Para sempre eu a ter!

Que tal força hercúlea,


Que me impele adiante,
Para aquilo onde eu quis!

Que instante sublime,


Que ao vislumbre do Anjo,
Me deixou mais feliz!

Que energia em cores,


Que lá dentro, bem fundo,
Se matiza em amor!

Que paz mansa e serena,


Que abraça e me ama,
Muito além do fervor!

Que suspiro me traga,


Que em asas me leva,
A conhecer, conhecer!

Que lar amplo e perfeito,


Que depois noutra Terra,
Inda hei merecer....!

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ENLEVOS
Autoria de Rayom Ra

Rayom Ra
http://arcadeouro.blogspot.com.br

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