Você está na página 1de 5

VIAGEM*

Por todas as tão diversas conceituações e experiências571 de poesia que


apareceram no movimento literário brasileiro do Modernismo pra572 cá, Cecília
Meireles tem passado, não exatamente incólume573, mas demonstrando firme
resistência a qualquer adesão passiva. Ela é desses artistas que tiram seu ouro onde o
encontram, escolhendo por si, com rara independência. E seria este o maior traço da
sua personalidade, o ecletismo, se ainda não fosse maior o misterioso acerto, dom
raro, com que ela se conserva sempre dentro da mais íntima e verdadeira poesia.
Viagem,574 guardando poemas que abrangem quase uma década de vida
criadora, apresenta enorme variedade e é boa prova desse ecletismo sábio, que
escolhe de todas as tendências apenas o que enriquece ou facilita a expressão do ser.
Creio porém que a poetisa devia ter datado os seus poemas pra575 que melhor a gente
pudesse lhe apreciar a evolução e as viagens exteriores. Não o quis fazer e misturou
tudo num bordado búlgaro que nem sempre me pareceu feliz. Há um bocado de tudo
no livro, talvez com exceção única dos processos parnasianos. Salva-se sempre a
poesia, é certo, mas não salva-se o estado de graça do leitor, jogado a todo instante
pra576 mundos bem distintos uns dos outros. Se escute577 este ASSOVIO:

Ninguém abra a sua porta


Para ver que aconteceu:
Saímos de braço dado,
A noite escura mais eu.

*Versão na primeira edição d’O empalhador de passarinho (São Paulo: Livraria Martins editora, 1946,
p.139-142). Anteriormente publicada em Diário de Notícias. Rio de Janeiro, 26 de novembro de 1939.
As variantes encontradas em relação a esta publicação no jornal serão designadas pela sigla DNT.
571
DNT: “exeperiencias”
572
DNT: “para”
573
DNT: “incoluem”
574
DNT: “(Edit. Império, Lisboa, 1939)”
575
DNT: “para”
576
DNT: “para”
577
DNT: “Escute-se”

275
( …………………………. )
Vou pelo braço da noite,
Levando tudo que é meu:578
A dor que os homens me deram.
E a canção que Deus me deu.

Já o poema que segue a esta simplicidade popularesca, tem requintes579 de


pensamento refinado, que nem este:

Para pensar em ti me basta


O próprio amor que por ti sinto:
És a ideia serena e casta,
Nutrida do enigma do instinto.

(Aliás, este requinte às vezes se exagera um pouco. O raro da expressão parece


então buscado por si mesmo, como em certa qualificação à Guilherme de Almeida, de
“Anunciação”580, e especialmente o poema ESTRELA…) .
Mais eis que no admiráve1 poema anterior a ASSOVIO, nem sutilezas
requintadas de pensamento, nem simplicidades popularescas, porém, vaguezas muito
sensíveis581 poderosamente intensas mas tênues, quase obscuras, em que a palavra se
esgarça em seu sentido intelectual, readquirindo todo o seu poder sugestivo:

Com esta boca sem pedidos


E esperanças tão ausentes,
E esta névoa nos ouvidos complacentes
Oh mãos, por que sois ardentes? –
Tudo são sonhos dormidos
Ou dormentes!

Pois macacos me mordam se não temos aqui três terras de poesia e três datas
estéticas distintas. Não é porém com poemas como ASSOVIO que Cecília Meireles

578
DNT: [.]
579
DNT: “requites”
580
Livro ou poema? BUSCAR
581
DNT: [,]

276
prova ser o poeta notável que é. Coisas assim,582 eu temo que outros583 poetas possam
fazer,584 desque verdadeiros. É poesia mas ainda não é exclusivamente a poesia de
Cecília Meireles.585
Onde a poetisa se torna extraordinária e admirável586 é nos poemas que eu diria
de poesia pura:

Asa da luta587
Quase parada,
Mostra-me a sua
Sombra escondida
Que continua
A minha vida
Num chão profundo
Raiz prendida
A um outro mundo?

Ninguém entre nós pra588 captar assim momentos de sensibilidade, quase livres,
de rápida fixação consciente, em que o assunto como que parece totalmente sem
assunto. Um prurido, um aflar leve mas grave de sensibilidade que apenas se define.
Este o encanto excepcional, a adivinhação magnífica de muitas líricas metrificadas da
atual Cecília Meireles.
Poucas vezes, aliás, tenho sentido metrificação e rima tão justificáveis como
nestes poemas da poetisa. Me parece que o seu princípio estético, em última análise,
é o mesmo que leva o povo a metrificar e rimar. O metro é apenas um elemento de
garantia formalística que permite à gente se isentar de preocupações construtivas.
Para a poetisa, como para o povo, o metro não é uma prisão, mas liberdade. Fixada
numa fórmula embalante (ela só emprega normalmente os esquemas métricos mais
musicais) a poetisa está livre, e o movimento lírico se expande em sua delicadeza
582
DNT: “bastante faceis,”
583
DNT: “eu temo que muitos poetas possam fazer.”
584
DNT: “fazer. Como o sr. Adelmar Tavares, por exemplo. E se não prejudicam Cecília Meirelles,
prejudicam o sr. Adelmar Tavares.” [trecho suprimido n’O empalhador de passarinho].
585
Nota da edição: trecho acrescentado n’O empalhador de passarinho: “desque verdadeiros. É poesia
mas ainda não é exclusivamente a poesia de Cecília Meireles.”
586
DNT: “, a meu ver,”
587
DNT: “lua”
588
DNT: “para”

277
maravilhosa. Jamais a poesia nacional alcançou tamanha evanescência589 tanto verbal
como psíquica. E surgem poemas como GRILO, SOM, a magistral MEDIDA DE

SIGNIFICAÇÃO (em metro livre, este), a SERENATA. A todo instante brotam estrofes
como esta:

A primavera foi tão clara


Que se viram novas estrelas,
E soaram no cristal dos mares
Lábios azuis de outras sereias.

Citaria ainda o LUAR, como esta quadra, aparentemente tão claro e


compreensível, mas de um poder sugestinador quase miraculoso – essa faculdade que
Cecília Meireles agora adquiriu de inventar as palavras precisas pra590, dentro da
claridade, guardar um mundo riquíssimo de miragens e milagres sensíveis. Neste
sentido, ainda o poema TERRA é das coisas mais esplêndidas da poetisa: definição
forte, cheia de drama, lírica, firme, rija e volúvel como o que há de melhor em Paul
Valery. E nessa volubilidade591 lírica, em que fragmentos paisagísticos se entrelaçam
aos dados de pensamento ou mesmo os592 substituem, como símbolos593, abundam
necessariamente os temas psicológicos que perseguem a poetisa: o mar que é a sua
grande obsessão, a música. E, femininamente, além das lágrimas,594 a angustiada
volúpia de ter um nome, o que para a mulher é sempre uma preocupação. Uma das
vezes ela confessa:

Surgi do meio dos túmulos


Para aprender o meu nome.

Apesar de versos livres belíssimos como PAUSA, prefiro Cecília Meireles nos
seus poemas medidos. Com ela é visível que a fórmula estrófica nasce
espontaneamente do moto lírico, formando o corte formal da primeira estância:

589
DNT: “fluidez”
590
DNT: “para”
591
DNT: “fluidez”
592
Nota da edição: [acréscimo n’O empalhador de passarinho]: “os”
593
DNT: “alegorias”
594
DNT: “E, femininamente, os espelhos e as lagrimas. E, (mais femininamente ainda...)”

278
Eu canto porque o instante existe
E a minha vida está completa.
Não sou alegre nem sou triste:
Sou poeta.

A sua grande técnica é depois repetir essa fórmula (de algum jeito livre595, pois
nascida sem predeterminação) nas estâncias seguintes, sempre num perfeito equilíbrio
entre o sentimento e sua expressão, sem palavra a mais596:

Se desmorono ou se edifico,
Se permaneço ou me desfaço,
Não sei, não sei. Não sei se fico
Ou passo.

E dentro de sua grande técnica, eclética e energicamente adequada, se move a


alma principal de Cecília Meireles. Alma grave e modesta, bastante desencantada,
simples e estranha ao mesmo tempo, profundamente vivida. E silenciosa. Porque é
extraordinária a faculdade com que a poetisa sabe encher de silêncio as suas palavras.
Cecília Meireles está numa grande plenitude da sua arte. Com Viagem ela se firma
entre os maiores poetas nacionais.597

595
DNT: “de alguma forma livre”
596
DNT: “sem palavra demais”
597
DNT: “Obras recebidas Edições da livraria do Globo, Porto Alegre: Erico Veríssimo. “Viagem a
aurora do mundo” e “Aventuras no mundo da hygiene”; Vianna Moog. “Heroes da decadência”; Luiz
da Camara Cascudo “Vaqueiros e cantadores”; Edições da Livraria José Olympio, Rio de Janeiro: J. C.
Macedo Soares, “Fronteiras do Brasil no regime colonial”; Álvaro Lins, “Historia litteraria de Eça de
Queiroz”; Companhia editora nacional, São Paulo: Nelson Werneck Sodré, “Panorama do segundo
império”; Vecchi Editor, Rio de Janeiro: P. J. Launay, “A bem-aventurada” (trad. Dias da Costa e
Abelardo Romero); Federação das Academias de Letras do Brasil: “Machado de Assis” (conferencias
por diversos acadêmicos); Comp. Brasil Edit., Rio de Janeiro: Ignácio Raposo, “A tomada do
Almoroul”; Edit. La Facultad Buenos Aires: L. E. Azarola Gil, “La amanta amarga”; Edit. A Imprensa,
João Pessoa: Ascendino Leite, “Esthetica do Modernismo”. ”

279