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Um diálogo entre as concepções de

disciplina de K ant , D ewey e F reire


a dialogue between Kant, Dewey and Freire’s conceptions
of discipline
Resumo A disciplina é um elemento indispensável para o bom desen-
volvimento dos processos educativos. Entretanto, é ao mesmo tempo
paradoxal: se por um lado é capaz de proporcionar maior direciona-
mento, concentração e autocontrole ao aluno, por outro é vista como
controladora e autoritária, inibindo, muitas vezes, o desenvolvimento
autônomo do indivíduo. Este artigo tem por objetivo principal apre-
sentar as concepções de disciplina em Kant (1724-1804), Dewey (1859-
1952) e Freire (1921-1997), a partir do enfoque da Filosofia da Educação,
promovendo um diálogo entre os autores e suas concepções. Perce-
bemos, nesse sentido, que, enquanto para Kant a disciplina pode ser
compreendida, em certa medida, como um meio para se atingir um de-
terminado fim educacional e formativo, para Dewey ela é considerada
a própria finalidade do processo educativo, no sentido de desenvolver
no aluno um espírito investigativo e autônomo, preparando-o para
uma vida de aprendizagens. Já para Freire, as duas concepções são
possíveis e convergem, funcionando como elementos necessários ao A rmando L ourenço F ilho
desenvolvimento pessoal e ao reconhecimento da autoridade docente. Pontifícia Universidade Católica
de Campinas (PUCC)
Mas, como ponto comum nos três autores, percebemos, na disciplina,
professorarmando@hotmail.
a presença de uma virtude necessária ao desenvolvimento da autono-
com
mia do educando, direcionando-o à condição de cidadão.
Palavras-chave disciplina; filosofia da educação; Kant; Dewey; Frei-
B árbara C arvalho M arques
re.
T oledo L ima
Pontifícia Universidade Católica
Abstract Discipline is an essential element in the successful develop-
de Campinas (PUCC)
ment of educational processes but at the same time it is paradoxical:
barbara_mt@yahoo.com.br
on the one hand it is able to provide direction, focus and self-control to
students, on the other it is seen as authoritarian and controlling, inhibi- G ustavo H enrique
ting the development of the individual autonomy. The main objective E scobar G uimarães
of this article is to present the conceptions of discipline in Kant (1724- Pontifícia Universidade Católica
1804), Dewey (1859-1952) and Freire (1921-1997), from the perspective de Campinas (PUCC)
of philosophy of education, promoting a dialogue between the authors gheguimaraes@gmail.com
and their conceptions. So we realize that, if Kant understands discipli-
ne as a way to achieve a particular purpose in education and training,
Dewey sees it as the purpose of the educational process in order to
develop in students a spirit of investigation and autonomy, preparing
them for a lifetime of learning. Freire understands that both views are
possible and converge, working as necessary elements to personal de-
velopment and recognition of the teacher’s authority. As a common
point of view of the three authors, we see discipline as a necessary
virtue for the development of autonomy, driving the student to the
condition of citizen.
Keywords discipline; philosophy of education; Kant; Dewey; Freire.
Introdução logo sobre a questão da disciplina, tratando-

O
atual contexto em que percebemos -se de suas abordagens.
a educação nacional, fortemente in-
fluenciado por episódios midiáticos Quadro 1 – Obras consultadas
que demonstram e exploram faces de uma
Edição Edição
violência, às vezes explícita, outras não, leva- Autor Obra origi- adota-
-nos a propor uma reflexão, ainda que pro- nal da
pedêutica, sobre a relevância da disciplina, Resposta à pergunta:
entendida em suas diversas acepções como 1783 2008
Immanuel o que é o esclareci-
pauta veemente dos esforços e ações edu- Kant mento?
1803 1996
cacionais evidenciados nas perspectivas do Sobre a pedagogia
filósofo alemão Immanuel Kant, do filósofo e A escola e
a sociedade
educador norte-americano John Dewey e do 1900 2002
John Democracia
filósofo e educador brasileiro Paulo Freire. 1916 2007
Dewey e educação
1938 2010
Dessa forma, delimitamos nosso recorte Experiência
metodológico, imbuídos do compromisso de e educação
retomar, ou redimensionar, o entendimento
Paulo Pedagogia
e as contribuições relativas à disciplina, op- Freire da autonomia
1996 2002
tando por investigar as obras: Sobre a peda-
gogia (1996), de Kant; A escola e a sociedade Fonte: quadro elaborado pelos autores.
(2002), Democracia e a educação (2007) e
Experiência e educação (2010), de Dewey; e, A disciplina em Kant 1
Pedagogia da autonomia (2002), de Freire, Com o propósito de discutir a possibili-
propondo um diálogo entre as características dade do diálogo sobre a questão da discipli-
e contribuições projetadas à disciplina no con- na em Kant, Dewey e Freire, iniciamos nossas
texto educacional e, talvez, uma unanimidade reflexões com o autor do imperativo cate-
entre estes no cenário social. górico, respeitando a cronologia e trajetória
A fim de direcionar para uma primeira dos pensadores selecionados. O esforço em
perspectiva conceitual sobre o vocábulo “dis- contextualizar a obra de um autor significa o
ciplina”, encontramos em Houaiss (2009) uma 1
Immanuel Kant (1724–1804) foi um importante
associação a sinônimos que remetem à obedi- filósofo alemão da fase inicial da era moderna,
ência às regras, ao cumprimento da ordem e sendo também um dos principais expoentes
do regulamento, uma conduta que assegure do movimento da Ilustração. Além de filósofo,
interessado nas questões de lógica e metafísica,
o bem-estar ou o adequado funcionamento
Kant também era reconhecido como educador,
de uma organização de indivíduos ou, ainda, tornando-se catedrático da Universidade de
referências ao comportamento metódico, Königsberg. É conhecido como o criador da filosofia
constante e determinado. O dicionário de fi- crítica e da revolução copernicana, o que, segundo
Dalbosco (2011, p. 13), proporcionou importantes
losofia de Abbagnano relaciona a disciplina a
transformações pedagógicas, “provocando uma
uma “função negativa ou coercitiva de uma reviravolta no âmbito das teorias educacionais:
regra ou de um conjunto de regras, que im- ela desbanca a posição soberana e autoritária dos
pede a transgressão à regra” (2007, p. 289). educados, exigindo que o educando seja concebido
como sujeito ativo no processo pedagógico, e não
Nesse sentido, propomo-nos o compro-
mais como um espectador passivo”. Esta questão foi
misso de, ao explorar as obras dos autores aqui apresentada justamente pelo caráter paradoxal
identificados (quadro 1), subsidiar uma discus- que a disciplina, objeto deste estudo, assume para
são sobre a possível e profícua contribuição o autor. Por um lado, Kant a concebe – mesmo em
sua forma negativa, de proibições e coerções – como
que possam estar contidas nas ideias, teses e
necessária ao desenvolvimento humano, mas, por
reflexões a que estes, por si sós, nos remetem outro, prega a necessidade do desenvolvimento da
ao questionarmos se há possibilidade de diá- autonomia do educando.

Impulso, Piracicaba • 23(56), 61-72, jan.-abr. 2013 • ISSN Impresso: 0103-7676 • ISSN Eletrônico: 2236-9767
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cuidado em atribuir coerência a seus escritos Segundo Kant (1996), a disciplina cons-
e, no caso de Kant, em particular, é absolu- titui-se em um elemento indispensável na
tamente fundamental que tenhamos como formação humana, impedindo que o homem
pano de fundo o contexto da Ilustração. desvie-se de seus propósitos e ajudando a
No final do século XVIII, iniciou-se na controlar sua natureza inquieta. Contudo, o
Europa grande discussão sobre os problemas autor ressalta que isso precisa ocorrer o mais
pedagógicos com a intenção de delinear e re- cedo possível em sua vida:
gulamentar algumas das principais questões
escolares e educacionais dos estados iluminis- as crianças são mandadas cedo à
tas (cf. MAINKA, 2004). escola, não para que aí aprendam
O filósofo alemão Immanuel Kant alguma coisa, mas para que aí se
(1724–1804), instigado, sobretudo, pelas con- acostumem a ficar sentadas tranqui-
tribuições de Rousseau (por intermédio da lamente e a obedecer pontualmente
obra que foi considerada o primeiro grande àquilo que lhes é mandado, a fim de
clássico da pedagogia moderna, Emílio ou da que no futuro elas não sigam de fato
educação), envolve-se no debate da educa- e imediatamente cada um de seus
ção, ministrando, regularmente, aos alunos caprichos. (KANT, 1996, p. 13).
do curso de Pedagogia na Universidade de
Königsberg, uma série de preleções sobre a Nesse sentido, o filósofo alemão suge-
temática, que ofereceram material para a ela- re uma educação que contemple a disciplina
boração do livro Sobre a pedagogia (1996).2 e a obediência, e que promova a regulação
A afirmação de Kant de que “o homem e o controle sobre as vontades desde a in-
é a única criatura que precisa ser educada” fância, pois, de acordo com Zatti (2007, p.
(KANT, 1996, p. 11), que abre a referida obra, 32), “aos poucos a disciplina se interioriza e
demonstra o caráter essencial e formativo com a criança passa a obedecer a si mesma […].
que qualificava a educação. O filósofo de Köni- Torna-se então uma obediência voluntária,
gsberg afirma ainda que o ser humano tem a não fundada na autoridade do outro, mas na
necessidade, tanto de ser instruído quanto de obediência à razão”.
ser corrigido, pois relata que “quando se dei- Kant (1996) dedica uma atenção espe-
xou o homem seguir plenamente a sua vonta- cial à questão da potencialidade da razão
de durante toda a juventude e não lhe resistiu humana, dizendo que o homem, diferen-
em nada, ele conserva uma certa selvageria por temente dos animais, tem a obrigação e a
toda a vida” (KANT, 1996, p. 13). Assim, para o necessidade de exercitar e aprimorar suas
filósofo, “a disciplina transforma a animalidade capacidades cognitivas, bem como ampliar o
em humanidade” (KANT, 1996, p. 11) e é capaz alcance de sua própria razão. Em suma, como
de aperfeiçoar e elevar o sujeito, livrando-o do não pode contar com os instintos, dado que
estado latente de selvageria e direcionando-o o propósito da humanização é justamente
ao status de cidadão. Gadotti (2002, p. 91) afir- a superação do estado selvagem, o homem
ma que “Kant sustentava que o homem não precisa tornar-se esclarecido.
pode ser considerado inteiramente bom, mas A definição da palavra esclarecimento é
é capaz de elevar-se mediante esforço intelec- dada como “a saída do homem de sua mino-
tual contínuo e respeito às leis morais”. ridade, pela qual ele próprio é responsável”
(KANT, 2008, p. 11). Inferimos, assim, que é
A obra Über Pädagogik (Sobre a pedagogia), de
2 preciso aprender a pensar por si mesmo sem
Kant, foi organizada e publicada por Theodor Rink a dependência ou a manipulação de outros, é
em Königsberg no ano de 1803, apresentando o preciso, de fato, assumir a responsabilidade
conteúdo das preleções conferidas pelo autor, no
curso de Pedagogia, entre os anos de 1776 e 1787 na
pelos próprios pensamentos e atitudes. Dal-
Universidade de Königsberg (KANT, 1996). bosco (2011, p. 30) afirma que, para Kant, “a

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exigência de pensar por conta própria perma- para cada atividade existe uma ocasião e uma
neceu como linha dorsal de suas ideias e de duração adequadas.
sua experiência pedagógica”. Assim, para o Para Kant, é patente a noção de discipli-
filósofo alemão, essa é a principal finalidade na e a clareza quanto ao que são direitos e de-
da educação. No entanto, Kant admite que, veres do ser humano. Dalbosco (2011) afirma
muitas vezes, o homem não consegue supe- que Kant vivenciava pessoalmente sua teoria
rar essa condição em virtude da covardia, pre- antes mesmo de escrevê-la, tal era a rigidez
guiça ou comodismo, reforçando, mais uma da disciplina que seguia em seu dia a dia. Por
vez, a necessidade da educação e da disciplina isso, Kant (1996, p. 16) dizia que “a falta de
para uma boa formação humana: “o homem disciplina é um mal pior que a falta de cultura,
não pode tornar-se um verdadeiro homem se- pois esta pode ser remediada mais tarde, ao
não pela educação. Ele é aquilo que a educa- passo que não se pode abolir o estado selva-
ção dele faz” (KANT, 1996, p. 15). gem e corrigir um defeito de disciplina”. Para
O princípio da pedagogia, defendido por ele, a vida disciplinada produziria, como de-
Kant (1996), propõe que as crianças devam corrência, uma vida saudável e feliz.
ser educadas, não de acordo com o presente Nesse sentido, de acordo com Oliveira:
estado da humanidade, mas a partir de uma
projeção futura, idealizada, visando a um Kant discorda que a felicidade seja
estado mais desenvolvido, buscando metas associada à satisfação de todos os
mais elevadas e que ainda não se mostram, nossos desejos e inclinações, pois a
de fato, possíveis; assim, deve-se educar o ho- vida moral torna-nos dignos de ser
mem pensando no porvir, formando, na crian- felizes, mas não constitui a felicida-
ça de hoje, o homem e o cidadão de amanhã. de em si, sendo felicidade e bonda-
Nesse sentido, para conseguir apresen- de coisas bem distintas. Todo o ser
tar um bom desenvolvimento no aspecto humano tem o desejo da felicidade,
educacional, o ser humano precisaria ser dis- porém não deve sobrepor esse de-
ciplinado para dominar as paixões do corpo sejo ao cumprimento do dever, de
e para vencer o estado latente de selvageria; forma que se o dever fosse subor-
precisaria tornar-se culto e adquirir vários co- dinado à felicidade, a atitude moral
nhecimentos e habilidades, ampliando suas estaria transformando-se num ato
capacidades; precisaria aprender a tornar-se interesseiro. (2008, p. 4832).
prudente, para conquistar e manter um lugar
na sociedade, construindo bons relaciona- Assim, a principal função da disciplina é
mentos e apresentando modos corteses e, permitir que o homem consiga controlar seus
por fim, precisaria ser moralizado, compre- impulsos utilizando-se de uma obediência
endendo os princípios, aprendendo a esco- racional; nesse sentido, ela é compreendida
lher o bem ao mal. como um meio para a conquista de determi-
Kant considera fundamental que as crian- nadas finalidades educativas e formativas do
ças recebam uma educação para a índole, que homem. No entanto, Kant afirma que a disci-
abranja os cuidados da disciplina, como noções plina, embora muitas vezes possa impedir os
de direitos e deveres. Segundo o autor, “a edu- defeitos do caráter, não produz, por si mes-
cação deve ser impositiva; mas nem por isso ma, efeitos duradouros, daí a importância que
deve ser escravizante” (KANT, 1996, p. 66). A ele atribui à educação moral, pois as máximas
criança pode e deve se divertir, mas precisa, e os princípios ensinam a pensar, a decidir en-
também, conhecer sua contrapartida, adquirir tre o que é certo ou errado, e isso poderá ser-
responsabilidades e conhecer o peso de uma vir para toda a vida. Dessa forma, “a obediên-
obrigação. Ela precisa aprender a ter limites, a cia cega da criança deve, desde que possível,
respeitar horários e saber, por exemplo, que ceder lugar à obediência voluntária do adoles-

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cente, que reconhece o dever de obedecer à de disciplina e, de forma breve, procuraremos
lei moral” (OLIVEIRA, 2008, p. 4836). mostrar nexos entre estes pensadores, na
Immanuel Kant explica que a aplicação busca de resposta à pergunta deste artigo.
da disciplina como forma de punição, ou re-
lacionada à conquista de recompensas e prê- A disciplina em Dewey 3
mios, para dirigir e reforçar o comportamen- A visualização do diálogo entre Kant e
to da criança pode promover atitudes sérias Dewey sobre o conceito de disciplina pode
e levianas: ser observada quanto ao cumprimento de
uma ordem, ou mesmo na busca de um fim,
se a castigamos, quando procede como veremos ao longo deste item. No
mal, e a recompensamos, quando entanto, a disciplina, para o filósofo norte-
procede bem, então ela fará o certo -americano, não se restringe à dimensão do
para ser bem tratada. Quando mais dever no sentido heterônomo. Influenciado
tarde entrar no mundo, onde as coi- por Kant, a busca da autonomia constitui
sas acontecem de modo diverso, aspecto essencial do conceito de disciplina.
isto é, onde ela poderá fazer o bem Estabelecendo uma aproximação com a visão
sem recompensa e o mal sem rece- apresentada por Kant (1996), é possível deli-
ber castigo, então ter-se-á um ser near uma primeira matriz, em Dewey (2002),
humano que só visará como sair- em que a disciplina é tratada, tanto como um
-se bem no mundo, e será bom ou cumprimento da ordem necessária ao desen-
mau, conforme melhor lhe parecer. volvimento das ações educacionais propostas
(KANT, 1996, p. 80). quanto uma conduta, um comportamento
metódico a ser adotado diante da nova con-
Por outro lado, quando a criança apren- cepção de sala de aula oferecida pelo autor.
de, de fato, um princípio, ela pode tomar suas Em Dewey (2002) são apresentadas as
decisões por conta própria, independente- características de uma nova ideia de educação,
mente do resultado obtido em determinada capaz de transformar a sala de aula num
situação, pois ela escolhe entre fazer o que é espaço para o exercício de novos membros
certo e o que é errado, entre o bem e o mal. da sociedade, impregnada de um espírito al-
Dessa forma, Kant (1996, p. 28) explica que truísta e fornecedora de instrumentos para
“não é suficiente treinar as crianças, urge que autonomia, destacando-se, não a passividade
aprendam a pensar. Devem-se observar os dos alunos, mas, sim, uma postura ativa, com
princípios dos quais todas as ações derivam”. o intuito de individualizar-se por meio da ação,
Daí a importância de ensinar por meio devidamente orientada pelo professor.
dos exemplos e das atitudes pessoais. Para
a pedagogia de Kant, o desenvolvimento da 3
John Dewey (1859–1952) é notoriamente reconhecido
moral tem aspecto central, já que esta não é como um dos importantes filósofos da Educação na
uma característica inata, mas pode ser desen- era moderna. É Ph.D. pela Universidade John Hopkins,
doutor em Ciências Jurídicas pela Universidade de
volvida de acordo com a aprendizagem que o Wisconsin e Vermont, membro da Universidade
sujeito recebe, favorecendo o aparecimento de Chicago e chefe do departamento unificado de
de uma reflexão crítica baseada na compreen- Filosofia, Psicologia e Educação, criador do laboratório
são dos princípios morais. experimental ou laboratório-escola, professor titular
de Filosofia do Instituto Superior de Formação de
Nesse sentido, perguntamos: “há Professores da Universidade de Columbia. É autor de
diálogo possível quanto à questão da discipli- 38 obras (livros) e 815 artigos e breves tratados, dentre
na, em se tratando das abordagens de Kant, os quais, A escola e a sociedade (2002); Democracia
Dewey e Freire?” Passamos à exposição de e educação (2007) e, Experiência e educação (2010),
são referenciadas a fim de oferecer, na perspectiva
aspectos da trajetória de John Dewey, na bus- do próprio Dewey, as características e o tratamento
ca de elementos que evidenciem o conceito concedido à disciplina nessas obras.

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É no âmbito desta organização Mais precisamente na dimensão da dis-
que encontraremos o princípio da ciplina como uma conduta, figurando como
disciplina ou da ordem escolares. uma das próprias finalidades do processo
Obviamente, a ordem é apenas algo educativo, Dewey (2002) discorre sobre os
que se refere a um fim. Se o fim em estímulos necessários à promoção dos inte-
vista é pôr quarenta ou cinquenta resses da criança e caracteriza a disciplina
crianças a decorar determinadas como uma forma de canalizar as energias,
lições que depois serão recitadas a desenvolver a paciência, a persistência e a
um professor, o tipo da disciplina vivacidade – virtudes obtidas por meio do
imposta deve assegurar esse exercício da disciplina, em que a criança
resultado. Mas se o fim em vista é aprende a superar os obstáculos pelo pró-
o desenvolvimento dum espírito prio esforço. Enfim, a disciplina do educando
de cooperação social e de vida o conduz a uma postura autônoma diante do
comunitária, a disciplina deve aprendizado, permitindo que ele consiga de
emergir deste objectivo e a ele ser fato “aprender a aprender” durante todo o
relativa. (DEWEY, 2002, p. 25). percurso de sua vida.
Em Dewey (2007), a disciplina é tratada
No excerto acima, é possível destacar na mesma perspectiva do desenvolvimen-
que a concepção de disciplina, em Dewey to natural, cultural e social, objetivando, em
(2002), está atrelada ao resultado que se pre- suma, a conduta moral, tornando-se, assim,
tende atingir; tanto é que, mais adiante, ele imprescindível ao desenvolvimento do indiví-
assume certa ausência de ordem nas ativida- duo como membro valioso dessa sociedade
des de execução de determinadas tarefas, que a educação visa construir; é compreen-
contudo, a ênfase no trabalho construtivo dida a partir de um refinamento pessoal e do
molda uma disciplina peculiar. aprimoramento do caráter, atuando nos “as-
A mudança de foco na percepção da pectos do desenvolvimento da capacidade de
criança no processo educacional metaforica- compartilhar, de maneira elevada, experiên-
mente equivaleria à mudança operada por cias equilibradas” (DEWEY, 2007, p. 130).
Copérnico em relação ao eixo gravitacional da Na obra a Experiência e a educação,
Terra, onde a criança, simbolicamente, pas- mais precisamente no capítulo V, Dewey
sa a ser o sol, o centro, dos quais os instru- (2010) apresenta-nos as faces do controle
mentos da educação gravitariam ao redor. A social e, por sua vez, discorre sobre a pre-
criança que naturalmente é ativa e dinâmica sença e necessidade dele, explícita ou impli-
precisaria vivenciar o maior número de possi- citamente, nas ações desenvolvidas em sala
bilidades da vida social, com a devida gestão de aula, sobretudo a partir dos princípios da
sobre as atividades, conferindo-lhes rumos continuidade e interação que devem embasar
específicos, estruturando-se como cerne do a experiência e subsidiar seu entendimento,
processo educativo (cf. DEWEY, 2002). distinguindo a experiência educativa da não
Quando Dewey se posiciona a favor de educativa ou, ainda, da “deseducativa”.
uma escola ativa, está em defesa de um aluno Para Dewey (2010), o controle social
que deve ter iniciativa, originalidade e ações não restringe a liberdade individual, e, a fim
cooperativas, cabendo, ao professor, dirigir o de ilustrar esta ideia, recorre aos jogos desen-
ensino por meio do estímulo ao pensamento volvidos entre as crianças no recreio, e afirma
reflexivo a partir de situações que favoreçam o que todo jogo requer regras e estas organi-
fluxo de ideias. O professor reflexivo assume a zam os comportamentos. De forma seme-
função daquele que cria estratégias pedagógi- lhante, no livro A escola e a sociedade, Dewey
cas que instiguem os alunos a serem produto- (2002) já chamava atenção para que a sala
res do conhecimento (cf. BECHI, 2011). de aula fosse capaz de reproduzir o espírito

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coletivo vivenciado pelas crianças no recreio, do aluno deve-se ao contato social, principal-
numa espécie de cimento social. mente entre ele e o educando, cuidando para
Quanto aos jogos, já convencido de que que, na condução dessas experiências, não
eles não existem sem as devidas regras e, haja uma imposição disfarçada de fora para
mudando-se as regras, muda-se o jogo, Dewey dentro. A experiência não acontece apenas
(2010) elege três princípios que devem ser ob- dentro das pessoas, mas é construída nas re-
servados: 1) as regras são partes do jogo; 2) o lações exteriores com as outras pessoas, coi-
indivíduo que joga pode objetar, sentindo-se sas e o próprio mundo.
injustiçado, mas seu apelo não pode tornar-se Por fim, por mais perigosa que seja a
a regra; e 3) as regras e a condução do jogo expressão, referindo-se àquilo que detém o
são padronizadas. interesse deste texto, Dewey (2010) apre-
senta como um óleo que reduz atritos, as
Portanto, a conclusão geral a que boas maneiras para conduzir determinados
posso chegar é que o controle das grupos, o cuidado da polidez e a cortesia
ações individuais é afetado por nessas interações.
toda a situação em que os indiví- Passamos agora a analisar o conceito
duos estão envolvidos e da qual de disciplina em Freire, na busca de respos-
são partes cooperativas ou em in- ta à questão: “Há diálogo possível quanto à
teração. […] não é a vontade ou questão da disciplina em se tratando das pers-
o desejo de uma única pessoa que pectivas de Kant, Dewey e Freire?”
estabelece a ordem, mas sim, o es-
pírito dominante em todo o grupo. A disciplina em Freire 4
(DEWEY, 2010, p. 55). A possibilidade do diálogo entre os auto-
res abordados neste artigo, quanto ao concei-
Sobre o papel do professor neste cená- to de disciplina, indica uma concepção funda-
rio, Dewey (2010) adverte que há uma nítida mental que perpassa suas obras, qual seja, a
distinção entre uma ação arbitrária, quando de autonomia. Embora não tenhamos desen-
numa intervenção por parte do professor volvido este conceito para Kant e Dewey de
com características de uma exibição pessoal forma sistemática, reconhecemos este ponto
de poder e, quando há uma ação justa e ne- como articulador para compreensão da disci-
cessária, com uma fala e um agir com firmeza plina nos três autores.
em prol do interesse de todo o grupo. Ao pro- Para Freire (1989), o conceito de disci-
fessor caberá o papel de líder, não de ditador, plina sempre esteve muito ligado à questão
pois neste caso as crianças rejeitariam esta da autoridade. Entretanto, antes mesmo de
figura de imposição e autoridade. Assim, ao expor o que o educador define por disciplina,
conceber uma educação como essencialmen- é fundamental apresentar sua reflexão acerca
te social, o professor, “como membro mais da autonomia.
amadurecido do grupo, […] tem a respon-
sabilidade especial de conduzir as interações 4
Paulo Freire (1921-1997) foi um educador e filósofo
e intercomunicações que constituem a pró- brasileiro que dedicou seus estudos e trabalhos
pria vida do grupo enquanto comunidade” principalmente à classe popular. Foi um grande crítico
(DEWEY, 2010, p. 60). de sua realidade, preocupado com a democracia, no
sentido do acesso aos direitos básicos, em específico o
Para Gonzatto (2011), uma das funções da educação posicionando-se politicamente. Lecionou
do educador é preparar o ambiente para que em escolas e universidades, dando ênfase especial à
novas experiências aconteçam, verificando os alfabetização de jovens e adultos. Publicou, durante
rumos que as experiências dos alunos estão sua trajetória de vida, mais de 35 obras sobre temas
e assuntos diversos, dentre as quais destacamos sua
tomando e observando o trajeto. O educador preocupação com a consciência crítica dos educandos,
não pode ignorar que a experiência humana com vistas à conquista da cidadania.

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A autoridade e a liberdade, diferente- so, um amadurecimento que ocorre todos os
mente de autoritarismo e licenciosidade, es- dias, não de um dia para o outro.
tão diretamente relacionadas ao ato de ensi- É válido lembrar que não se adquire
nar. Freire (2002) afirma que quando se tem primeiro a autonomia para que, então, o alu-
um conteúdo pragmático a propor, a maior no tome uma decisão; ela vai sendo constru-
preocupação que se deve ter é sobre como ída nas próprias decisões que são tomadas
esses conteúdos serão expostos (de forma nas experiências da vida. Mas, para que isso
dialógica ou autoritária) e sobre a responsabi- aconteça, o professor precisa oportunizar ao
lidade da liberdade que se assume. aluno a participação nessas decisões (cf. FREI-
A autoridade deve vir como aprendiza- RE, 2002).
do da autonomia do educando. Esta, por sua Dessa forma, o “escutar” do professor,
vez, é construída ao preencher o espaço que para Freire (2002), torna-se imprescindível.
ocupa a dependência. O aluno que exercita Não o escutar auditivo, mas a disponibilida-
sua liberdade assume sua responsabilidade de de permitir a fala, o gesto e as diferenças
de decidir, de romper, e assim, assume sua au- do outro. O professor que escuta dúvidas e
tonomia (cf. FREIRE, 2002). Autonomia, neste receios seus alunos aprende com eles a falar,
sentido, diz respeito ao posicionamento do pois é escutando bem os alunos que se pre-
indivíduo ante as situações do cotidiano. para para melhor colocar seu ponto de vista.
Assim, respeitar a liberdade do aluno é Oferecendo-lhe o discurso, sem preconceitos,
questão primordial, devendo-se reconhecer o professor coloca sua posição com desenvol-
que, na sua liberdade, está inserido o germe tura, e porque escuta o aluno, sua posição ou
para sua autonomia. contraposição nunca é autoritária.
A partir destas reflexões, podemos en-
Como professor, tanto lido com mi- veredar para a questão da disciplina em Frei-
nha liberdade quanto com minha re, no sentido de buscar a possibilidade de
autoridade em exercício, mas tam- diálogo com Kant e Dewey. Uma das tarefas
bém diretamente com a liberdade da autoridade é assumir a disciplina como ne-
dos educandos, que devo respeitar, cessidade, trabalhando para que nela se en-
e com a criação de sua autonomia contre a liberdade (cf. FREIRE, 1989).
bem como com os ensaios de cons- Para o educador, a disciplina é funda-
trução da autoridade dos educan- mental para o crescimento do aluno, exigindo
dos. Como professor não me é possí- que sempre haja uma autoridade paterna e
vel ajudar o educando a superar sua docente, pois é esta autoridade que permi-
ignorância se não supero permanen- te ao aluno perceber que a disciplina é uma
temente a minha. Não posso ensinar necessidade, não só individual, mas também
o que não sei. […] É concretamente social. A criança precisa assumir a disciplina
respeitando o direito do aluno de independentemente de haver ou não um adul-
indagar, de duvidar, de criticar que to por perto. Mas esta não é uma tarefa fácil,
“falo” desses direitos. (FREIRE, principalmente porque a cultura de nossa so-
2002, p. 95). ciedade é marcada pelo autoritarismo. Para
entender melhor esta questão, Freire (1989)
Ao defender a ideia de que ninguém é su- apresenta um exemplo bem concreto: para
jeito da autonomia alheia, Freire (2002) revela uma criança é bem mais fácil perceber a sua
que uma pedagogia que promova a autonomia necessidade de um pedaço de pão (que é uma
deve estar centrada nas experiências de toma- necessidade biológica) do que de disciplina
da de decisão e de responsabilidade do aluno e (que é uma necessidade bem mais abstrata).
que respeitem sua liberdade. E estas experiên- E, apesar de bem concretas, as consequências
cias vão acontecendo por meio de um proces- da disciplina nem sempre são percebidas com

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a sua ausência, o que não ocorre com o pe- disciplina. Quero dizer, a indisciplina é a licen-
daço de pão que, por sua ausência, provoca a ciosidade, é fazer o que quero, porque que-
necessidade e a fome. ro” (1989, p. 12). Outro aspecto destacado em
É importante destacar que, em um país suas discussões, sobre o alicerce da disciplina
marcado pelo autoritarismo, há, no Brasil, é a necessidade da autodisciplina, pois “não
uma séria tendência a se considerar negativa há disciplina que não gere ao mesmo tempo o
a questão da autoridade, como extensão des- movimento de dentro pra fora […]. O sujeito
se autoritarismo. Entretanto, é preciso distin- da disciplina tem de se disciplinar” (FREIRE,
guir estas duas concepções, pois o conceito 1989, p. 12). Para o educador, a disciplina re-
de autoridade relaciona-se com a liberdade, quer, fundamentalmente, a presença da auto-
enquanto o de autoritarismo com a licencio- ridade, pois esta permite que aconteça o mo-
sidade e desordem (cf. FREIRE, 1989). Embo- vimento interno e externo da disciplina, em
ra esta definição possa parecer retrógrada, que o aluno faz aquilo que pode, o que deve e
considerando que não vivemos uma ditadura o que precisa fazer.
no Brasil, observamos que a ênfase de Freire Longe de dar por encerrada a discussão
sobre questões relativas à dimensão política em torno da temática da disciplina em Kant,
relaciona-se com seu contexto histórico. Nes- Dewey e Freire, pretendemos, em nossas con-
te sentido, na medida em que Freire buscou siderações finais, elaborar possíveis conexões
se posicionar contrariamente em relação aos entre as teorias destes três autores.
abusos de poder, então, aparentemente,
a questão da disciplina pode ser analisada Considerações finais
como menor; no entanto, argumentamos que Ao longo destas reflexões buscamos
se trata de tema central de seu pensamento, mostrar fundamentos do conceito de disci-
seja para a conquista da autonomia por meio plina em Kant, Dewey e Freire para a tarefa
da liberdade, seja por meio da busca da eman- de investigar a possibilidade de diálogo entre
cipação política. estes autores quanto a esta temática. Ocorre
Dessa forma, a disciplina entra em cena que, simultaneamente à análise da trajetória
pela necessidade de autoridade e jamais de cada um, mesmo que de forma propedêu-
como forma de autoritarismo. A ausência da tica, observamos uma preocupação com o
disciplina pode, inclusive, provocar o autori- conceito de autonomia; então podemos afir-
tarismo. Existem nexos desta concepção de mar que o diálogo entre estes autores, quan-
disciplina com aquela desenvolvida por Kant to à disciplina, aponta para a questão da auto-
e Dewey? Eis a nossa tarefa para as considera- nomia discente em primeiro lugar.
ções finais deste artigo. Entretanto, antes dis- Entendemos, e consideramos necessária,
so, é importante reforçar o fato de que, para a articulação de algumas ideias que nos pare-
Freire (2002), a liberdade precisa de limites cem ora próximas, ora complementares, mas,
para que não proporcione o autoritarismo, o em raras exceções, compondo um diálogo a
que ocorreria, por exemplo, com as atitudes partir das diferentes perspectivas apresenta-
de indisciplina, pois não há como permitir que das acima, sem, contudo, a pretensão de en-
a apropriação equivocada da liberdade dese- cerrar ou dar por finalizadas as possibilidades
quilibre todo o contexto pedagógico e pre- de interlocução entre Kant, Dewey e Freire.
judique seu funcionamento. A liberdade que Em linhas gerais, no que diz respeito à fi-
não tem limite é negada, bem como a liberda- nalidade da disciplina – dadas e consideradas
de que é castrada. Neste sentido, Freire não é as devidas proporções de espaço e tempo,
um adepto da liberdade como aquilo que dá compreendidas neste todas as interfaces e di-
ocasião para libertinagem. mensões sócio, políticas e culturais –, estabe-
Assim, Freire sustenta a ideia de que “na lecemos uma segunda proximidade entre as
indisciplina tu não tens autodisciplina nem concepções dos três autores: todos parecem

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conceber uma disciplina que se destina a con- tica da disciplina, como temos dito ao longo
tribuir para a formação do novo membro que destas reflexões.
comporá a sociedade, seja ele essencialmente Freire (2002) e Kant (1996) parecem
governado pela razão, ou guiado pela solidez também apresentar uma mesma sintonia no
das experiências ou, ainda, envolvido de for- que diz respeito à importância de se assumir a
ma ativa em sua vida política. Há evidências disciplina como uma necessidade para a cons-
de uma preocupação com o desenvolvimento trução da liberdade e para a emancipação do
moral, trabalhado e entendido por cada um homem. Cabe destacar que a liberdade, para
dos autores em uma perspectiva. o filósofo de Könisberg, aponta para o espírito
Kant (1996) e Dewey (2002; 2010) pare- da Ilustração,5 ou seja, a conquista da liberdade
cem conjugar ideias muito próximas naquilo diz respeito à concepção de um homem que se
que remete à postura polida e gentil que o ho- assume como racional e pronto para a crítica
mem deve assumir na sociedade, ainda que, da sociedade de seu tempo. Para o educador
em alguns momentos, haja divergência, sobre- brasileiro, por outro lado, ela diz respeito à
tudo quando Dewey (2002) admite a possibili- possibilidade de conquista de direitos básicos,
dade de certa “desordem” intencional para o na acepção política. Temos claro que a busca
início de determinadas atividades, que lhe con- do diálogo entre estes autores não nos dá ele-
ferem a defesa de uma disciplina peculiar, algo mentos para a plenitude da acepção conceitu-
aparentemente inconcebível em Kant (1996), al, isto é, não é pelo fato de que observamos
que defende, quando necessário, a possibili- nexos entre as abordagens que suas diferen-
dade de certa imposição em relação a algumas ças passam a não existir. Elas existem e, tam-
atividades em educação. Assim, se Dewey, bém por esta razão, justificam estes autores
Kant e Freire destacam a importância da dis- como clássicos do pensamento educacional.
ciplina, compreendida na esfera da educação, Considerando os posicionamentos dos
para o compromisso de formação do cidadão três autores, parece-nos que Freire (2002)
de amanhã, cada um concebe este processo a assume uma perspectiva mais política ao re-
partir de sua própria perspectiva. lacionar a questão da disciplina às suas pos-
Sobre o papel do professor, Dewey síveis implicações. Em alguns momentos isso
(2002) estabelece que seja importante a ocorre de maneira sutil, mas em outros, de
atenção aos interesses demonstrados pela forma mais nítida; ele assume especulações
criança, a fim de identificar e nortear a ex- que podem ser tidas como oriundas de um
ploração do conhecimento, algo que parece posicionamento partidário, talvez peculiar ao
ir ao encontro da perspectiva apresentada contexto social em que viveu.
por Freire (2002) em que o professor precisa Entendemos que toda e qualquer ini-
auxiliar na construção do conhecimento do ciativa que nos remeta a ressignificar, repen-
aluno a partir das oportunidades de decisões sar e retomar a discussão sobre a disciplina
que ele consegue criar. As ideias de liberda- discente, não como clichê a ser abolido por
de e licenciosidade em Freire (2002) parecem uma geração que ainda colhe frutos de outra,
estar próximas à ideia de Dewey, (2002) em então negada e subtraída em seus direitos,
que a ordem ou o controle social não neces-
sariamente restringem a liberdade individual, Uma das características mais marcantes da Ilustração
5

mas, sim, dão caminhos morais à exterioriza- ou Iluminismo era a presença de um discurso
apologético sobre o desenvolvimento da razão
ção; também próximos aparecem os concei- humana e sobre a liberdade do indivíduo, sobretudo,
tos e experiências extraídos da própria vida, frente aos poderes controladores do Estado e da
que devem estar presentes na sala de aula. Igreja. Os pensadores da época discutiam sobre as
Com isto não queremos, dizer que Freire é um desigualdades sociais e a necessidade do oferecimento
de uma educação laica, gratuita e de qualidade para
adepto do pragmatismo. Nosso olhar na bus- todos, como responsabilidade do Estado, levantando
ca deste diálogo coloca-se na dimensão temá- assim uma bandeira democrática e humanista.

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far-nos-á avançar pragmaticamente em ações abordagens de Kant, Dewey e Freire?”, apoia-
que reduzam a insatisfação da ausência dos mo-nos na visão desses autores, e afirmamos
limites e arbitrariedades cometidas entre que, no nosso entendimento, pensar em um
pessoas dentro e fora de uma sala de aula. mundo melhor, construído pela via da edu-
Assim, respondendo afirmativamente nossa cação, pressupõe a necessidade da disciplina
indagação inicial: “Há diálogo possível quanto como ponto de partida para a construção da
à questão da disciplina em se tratando das cidadania e da autonomia do educando.

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Dados dos autores

Armando Lourenço Filho


(Pontifícia Universidade Católica de Campinas – PUCC)
Mestre em Educação pela PUCC
Graduado em Educação Física pela UNICAMP
professorarmando@hotmail.com

Bárbara Carvalho Marques Toledo Lima


(Pontifícia Universidade
Católica de Campinas – PUCC)
Mestre em Educação pela PUCC
Graduada em Pedagogia pela PUCC
barbara_mt@yahoo.com.br

Gustavo Henrique Escobar Guimarães


(Pontifícia Universidade Católica de Campinas – PUCC)
Mestre em Educação pela PUCC
Pós-Graduado em Gestão de Pessoas pela UNISAL
Graduado em Psicologia pela UNISAL
gheguimaraes@gmail.com

Recebido: 20/08/2012
Aprovado: 25/04/2013

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