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18/11/2018 Adorno e a crítica à razão iluminista: a «anticultura» da indústria cultural – Pensamento Extemporâneo

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Adorno e a crítica à razão


iluminista: a «anticultura»
da indústria cultural

 admin  29 de novembro de 2011 | 3

Fábio Avelar Salmen

Um dos aspectos do pensamento de Adorno[1]


abordado de forma crítica e objetiva na obra
Dialética do Esclarecimento refere-se à
indústria cultural[2] contemporânea,
responsável pelo empobrecimento e
ideologização da cultura, deturpando seu
signi cado essencial como elemento de
caracterização e difusão de tradições e valores.

Segundo Rabaça (2004, p. 16-18), a origem da


dialética do esclarecimento é encontrada na
negação do mito pela razão, sendo o interesse
pelo conhecimento a consequência do
sentimento de medo das forças da natureza e
da violência social. Considera o autor que a
dialética do esclarecimento, entretanto,
implica em consequências para o ser humano,
porquanto, traduzindo a conversão da
natureza em objetividade, ele aumenta seu

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domínio sobre ela, mas dela também se aliena


de forma crescente. Na sociedade industrial
avançada, o indivíduo se torna supér uo. O
sistema administrativo e a cultura de massas
convergem na uniformização da percepção e
da linguagem.

O progresso da razão apresenta-se, portanto,


como um paradoxo na história da humanidade,
enquanto tomado na perspectiva de progresso
inevitável e desejável para o desenvolvimento
humano, mas contraposto ao que nos
permitimos chamar de perda de identidade das
pessoas. Rüdiger (2004) escreve que tal
progresso é “gerador de um avanço que não
pode ser separado da criação de novas
sujeições e dependências, responsáveis pelo
aparecimento de sintomas regressivos na
cultura e de uma silenciosa coisi cação da
humanidade” (RÜDIGER, 2004, p.21).

Reale e Antiseri (2006, p. 472) encontram na


crítica à razão instrumental a motivação
principal para a composição da Dialética.
Segundo esses autores, esse tipo de razão,
preterindo a função de expor o fracasso da
sociedade capitalista, incorpora a
determinação por atingir ns desejados e
controlados, de forma a “racionalizar o mundo
para torná-lo manipulável e subjugável por
parte do homem”. De forma coerente com tal
visão, a indústria cultural, constituída pelos
variados e amplos meios de comunicação de
massa, como a televisão, o rádio e a
publicidade, dentre outros, transforma-se em
meio de imposição de “valores e modelos de
comportamento, cria necessidades e
estabelece a linguagem”.

A crítica de Adorno e Horkheimer (1985, p. 37-


39) ao esclarecimento vigente aponta para seu
caráter totalitário, comparando-o a outros
sistemas e identi cando sua inverdade na
antecipação do que deve ser decidido. O pensar
é então preterido em sua essência e torna-se

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vítima de rei cação em um processo


automático e autônomo que implica a
subordinação obediente da razão ao
imediatamente dado, descaracterizando o
primado do conhecimento em favor de sua
restrição a um caráter repetitivo e carente de
criatividade. Assim, con gura-se a regressão
do esclarecimento à mitologia, que re etia a
repetição cíclica dos eventos naturais.

 O preço da dominação não é meramente a


alienação dos homens com relação aos
objetos dominados; com a coisi cação do
espírito, as próprias relações dos homens
foram enfeitiçadas, inclusive as relações de
cada indivíduo consigo mesmo […] O
animismo havia dotado a coisa de uma
alma, o industrialismo coisi ca as almas. O
aparelho econômico, antes mesmo do
planejamento total, já provê
espontaneamente as mercadorias dos
valores que decidem sobre o
comportamento dos homens. […] As
inúmeras agências da produção em massa e
da cultura por ela criada servem para
inculcar no indivíduo os comportamentos
normalizados como os únicos naturais,
decentes, racionais. De agora em diante, ele
só se determina como coisa, como elemento
estatístico […] (ADORNO; HORKHEIMER,
1985, p. 40).

A indústria cultural con gura-se como o


elemento de transformação da realidade,
privando o sujeito de sua prerrogativa
fundamental de protagonista de sua
construção. No dizer de Duarte (1997, p. 57), a
realidade constituída encontra suas raízes em
uma “exploração pulsional dos indivíduos”, de
maneira que as opções de diversão e lazer que a
indústria cultural lhes oferece veicula a falsa
impressão de satisfação da demanda de seus
desejos, trazendo, concomitantemente, lucros
a seus agentes e reforço ao conteúdo
ideológico do sistema dominante.

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Vários aspectos do processo de massi cação


aplicado pela indústria cultural são abordados
por Adorno e Horkheimer (1985, p. 117-119),
revelando o trágico enfraquecimento do senso
crítico dos indivíduos diante do que lhes é
apresentado. Por exemplo, a velocidade da
apresentação dos lmes é tal que impedem a
atividade intelectual do telespectador, caso
não se disponha a perder os próximos fatos da
sequência. Também a inutilidade do novo é
apontada, pois dá lugar à imitação e à
repetição, como em canções de sucesso ou
novelas que ressurgem ciclicamente, cujo
conteúdo só varia na aparência e, não
obstante, encontram eco na aceitação do
público alienado de sua capacidade de
percepção.

A letargia da qual é acometido o pensar


encontra espaço na diversão, cujo propósito
seria o de oferecer um escape ao trabalho
mecanizado, como que restabelecendo forças
para a rotina que desmotiva. Os autores,
entretanto, registram (1985, p. 128) a
impossibilidade desse alcance, uma vez que as
próprias opções de entretenimento também
pressupõem a aceitação passiva do conteúdo,
estipulando a não necessidade de pensamento
próprio e de raciocínio lógico. Assim, o
propósito de divertir transforma-se em
instrumento que serve aos interesses da
indústria cultural:

 Na medida em que os lmes de animação


fazem mais do que habituar os sentidos ao
novo ritmo, eles inculcam em todas as
cabeças a antiga verdade de que a condição
de vida nesta sociedade é o desgaste
contínuo, o esmagamento de toda
resistência individual. Assim como o Pato
Donald nos cartoons, assim também os
desgraçados na vida real recebem a sua sova
para que os espectadores possam se
acostumar com a que eles próprios recebem.
[…]

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Cada espetáculo da indústria cultural vem


mais uma vez aplicar e demonstrar de
maneira inequívoca a renúncia permanente
que a civilização impõe às pessoas. […]

Tanto técnica como economicamente, a


publicidade e a indústria cultural se
confundem. […] Lá como cá, sob o
imperativo da e cácia, a técnica converte-
se em psicotécnica, em procedimento de
manipulação das pessoas. […]

Mas a liberdade de escolha da ideologia, que


re ete sempre a coerção econômica, revela-
se em todos os setores como a liberdade de
escolher o que é sempre a mesma coisa.
(ADORNO; HORKHEIMER, 1985, 130-156).

Um contraponto interessante à crítica feita à


indústria cultural é colocado por Rüdiger
(2004, p. 210), quando sugere que “os
mecanismos de sujeição capitalistas não se
baseiam na força nem na ideologia, mas na
produção de prazer com o consumo de bens e
serviços”.  De acordo com este autor, a
submissão dos indivíduos acontece porque
assim alcançam satisfação. Sem discutirmos o
mérito da questão ideológica, entendemos tal
opção pela satisfação alcançada como um tipo
de alienação da realidade, enquanto entendida
como condição de esclarecimento
amadurecido.

Não obstante algumas décadas já tenham


transcorrido desde a produção de Dialética e
Esclarecimento, o horizonte delineado pela
obra, que aponta para o enfraquecimento da
razão crítica das pessoas, permanece, a nosso
ver, tristemente atual e preocupante,
crescentemente alimentada pela dominação do
homem pelo próprio homem. Entretanto,
entendemos ser necessário crer em um resgate
da esperança quanto à transformação da
realidade social, haja vista o permanente
histórico esforço losó co, a exemplo de
Adorno e Horkheimer, para multiplicação do
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estado de esclarecimento e a não raras vezes


latente demanda do homem para conferir
maior sentido à sua existência.

Referências

ADORNO, Theodor W.; HORKHEIMER, Max.


Dialética do Esclarecimento: fragmentos
losó cos. Tradução de Guido Antônio de
Almeida. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1985.

COTRIM, Gilberto. Fundamentos da loso a.


São Paulo: Saraiva, 2000.

DUARTE, Rodrigo. Adorno: nove ensaios sobre


o lósofo frankfurtiano. Belo Horizonte:
UFMG, 1997.

RABAÇA, Sílvio Roberto. Variantes críticas: a


dialética do esclarecimento e o legado da
escola de Frankfurt. São Paulo: Annablume,
2004. Disponível em:
<http://books.google.com/books?
id=dTJOAZmrbfIC&pg=PA13&dq=dial%C3%A9
tica+esclarecimento+cr%C3%ADtica&hl=pt-
BR&ei=-
rVTTrr7Iei20AHx9_DtBQ&sa=X&oi=book_res
ult&ct=result&resnum=1&ved=0CCoQ6AEwAA
#v=onepage&q=dial%C3%A9tica%20esclareci
mento%20cr%C3%ADtica&f=false>. Acesso
em: 23 ago. 2011.

REALE, G., ANTISERI, D. História da Filoso a:


de Nietzsche à escola de Frankfurt, v. 6.
Tradução de Ivo Storniolo. São Paulo: Paulus,
2006. Disponível em: <
http://www.4shared.com/get/Tla71tg7/Histria
_da_Filoso a_-_Volume_.html>. Acesso
em: 27 out. 2011.

RÜDIGER, Francisco. Theodor Adorno e a crítica


à indústria cultural: comunicação e teoria
crítica da sociedade. Porto Alegre: EDIPUCRS,
2004. Disponível em:
http://books.google.com.br/books?
id=zVxj_5HYXaAC&pg=PA134&dq=compreend

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er+adorno&hl=pt-
BR&ei=7ZKpTuHXA8TcgQft8PAO&sa=X&oi=b
ook_result&ct=result&resnum=10&ved=0CFo
Q6AEwCQ#v=onepage&q=compreender%20ad
orno&f=false. Acesso em: 27 out. 2011.

[1] Theodor Wiesengrund Adorno (1903-1969)


nasceu em Frankfurt, Alemanha. Considerado
um dos expoentes da chamada Escola de
Frankfurt, escreveu, em conjunto com Max
Horkheimer, A dialética do esclarecimento, uma
de suas principais obras, em que faz a crítica
da razão iluminista e do processo de
massi cação das pessoas.

[2] Indústria cultural é um termo difundido


por Adorno e Horkheimer para designar a
indústria da diversão vulgar. Por meio desta e
da diversão seriam obtidas a homogeneização
de comportamentos (COTRIM, 2000, p. 225).

Categorias Adorno, Fábio Avelar Salmen


Tags Esclarecimento, Iluminismo, indústria
cultural

 O argumento da linguagem privada Gadamer e o resgate do preconceito 


em Wittgenstein

3 Comentários

Irinelson Menezes
11 de janeiro de 2012 (12:55) #

Muito apropriado este texto para o momento que estamos vivendo< Excelente!

Responder

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Irinelson Menezes
3 de abril de 2012 (14:57) #

Magní co texto!

Responder

Luiz Carvalho
9 de março de 2014 (01:05) #

Fabio Avelar salmen, vc foi intuitivo, simples e direto. Parabéns.

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