Você está na página 1de 9

A Política, escrita pelo filósofo grego Aristóteles, discípulo de Platão, é

um dos clássicos da filosofia. O livro é dividido em oito partes e subdividido

em capítulos. Essa obra desenvolve temas como escravidão, família, formas

de governo, além de fazer diversas críticas à estados e pensadores.

A obra de Dante Alighieri, intitulada de “Monarquia”. É dividida em três

livros e descreve, o que seria o governo ideal para o autor, por ter sido escrito

em uma época onde o poder do clero era muito forte e ter um forte discurso

enaltecedor do estado laico, o livro ficou proibido durante um longo período.

Aristóteles começa o livro III afirmando que para encontrar o conceito

de estado, antes de tudo, precisa-se encontrar do que é ser um cidadão. Este

é um assunto complexo, pois, segundo o autor, a cidadania muda

dependendo dos locais, por causa das formas de governos. Além disso, o

autor diz que, em sua concepção, há os cidadão imperfeitos, como se pode

ver na seguinte citação: “Não é a residência que constitui o cidadão: os

estrangeiros e os escravos não são "cidadãos", mas sim "habitantes".

Tampouco é a simples qualidade de julgável ou o direito de citar em justiça.

Para isso, basta estar em relações de negócios e ter ao mesmo tempo alguma

coisa a resolver. Mesmo assim, há muitos lugares em que os estrangeiros

não são admitidos nas audiências dos tribunais senão quando apresentam

uma caução.”(ARISTÓTELES, p30). Além daqueles que são muito velhos ou

muito novos e isso acaba os restringindo. Ele diz que para ser cidadão o

indivíduo tem que ter uma parte legal na autoridade deliberativa e na

autoridade judiciária.
Nesse sentido, para que a cidade funcione, esses cidadãos precisam

agir em sociedade, como afirma a citação de Dante “a suprema perfeição da

humanidade é a faculdade intelectiva e como essa faculdade não pode ser

atualizada total e simultaneamente por um só homem, deve haver,

necessariamente, na raça humana uma multidão de homens por quem

realmente atualize esse poder.” (DANTE, p21). Ou seja, usando um conceito

de Aristóteles, o autor afirma que a capacidade intelectual do ser humano é

perfeita, pois foi dada por Deus, os deixando abaixo dele e isso é suficiente

para a tomada de decisões e para a administração de uma cidade,

explanando, também, a ideia que virá mais adiante de um estado laico.

Ademais, Aristóteles afirmou que existem governos que são inferiores

e outros superiores e que, para ele, a democracia não cumpre com todas as

suas obrigações quando antecede uma tirania ou oligarquia, pois evita usar

da violência em momentos “necessários” e se isenta de fazer as tarefas que

vieram de outros estados.

Dante também mostrará descontentamento com a democracia e, para

o autor, o regime monárquico é a melhor opção, pois ele defende que este

governo é o único que dará liberdade aos cidadãos. Isso ocorre ao querer

separar o “temporal” do “espiritual”, ou seja, separar o estado da igreja,

formando assim uma monarquia independente e gerando o livre arbítrio, que

é o primeiro princípio para a liberdade. Soma-se a isto, o autor diz que o

julgamento fica entre a apreensão e o julgamento, porque primeiro você

apreende a coisa, depois disso é julgado, bem ou mal e, consequentemente,

o juiz que a segue ou rejeita. Além disso, quanto mais o monarca amar os
homens mais ele irá querer que eles se tornem bons, pois o ideal seria um

estado direto com bons cidadãos.

Este “Império” de Dante se estabelece na teoria de que o governo não

deveria sofrer interferências da igreja para controlar o estado, ou seja, o poder

que a igreja exerce na política não deveria existir, pois ele traz uma série de

problemas para o estado. Dante reforça sua visão na seguinte citação: “...se

tratando de um reino particular, cujo o final é o mesmo que o da cidade, porém

com maiores expectativas de tranquilidade, é necessário que haja apenas um

rei que governe.” (DANTE, p22), pois, segundo o autor, ao “dividir o governo”

no que seria o estado e a igreja o poder seria descentralizado e a cidade

ficaria devastada.

Além disso, o autor de “A Política” elabora ao decorrer dos últimos

capítulos do livro três os tipos de governos e a forma como é centralizado o

poder para alguns deles. Segundo a citação “Estas três formas podem

degenerar: a monarquia em tirania; a aristocracia em oligarquia; a república

em democracia. A tirania não é, de fato, senão a monarquia voltada para a

utilidade do monarca; a oligarquia, para a utilidade dos ricos; a democracia,

para a utilidade dos pobres.”(ARISTÓTELES, p73), o autor deixa claro que

não concorda com essas formas de governo, pois o governo deve ser voltado

para o povo e, na sua visão, nenhum deles visa o público.

Nesse sentido, o autor discorre sobre a monarquia, a colocando como

um grande governo, ele cita que no estado da Lacedemônia o poder do rei

não é absoluto e isso é posto como um defeito, focando sobre ela a parte

das guerras e do comando militar. Dante concordaria com o autor, pois para
ele o estado tem que ser legitimo e supremo. Inclusive, o autor de “Monarquia”

enfatiza que deve-se haver uma “monarquia universal”, também chamada de

império, pois, só desta forma a “paz universal” seria alcançada. Em sua

concepção um governo monárquico, universal e com a separação do plano

espiritual do terreno (sem interferência do estado) seria perfeito, pois criaria

uma harmonia no mundo, o que o autor chama de “paz universal” e justiça.

Além disso, o autor elabora essa questão da justiça ao dizer que toda

a jurisdição é anterior ao seu juiz, porque o juiz é ordenado à jurisdição, e não

ao contrário; mas o “Império” é a jurisdição que engloba toda a jurisdição

temporário, então, a jurisdição é anterior ao seu juiz, que é o Imperador,

porque o Imperador é ordenado a ela, e não o contrário.

Aristóteles e Dante divergem no que diz respeito as leis. Para o

segundo, com a monarquia universal as leis, também, deveriam ser

universais, pois caso o contrário se criaria um colapso. Já o primeiro, pensa

que, não deve haver uma constituição ou uma mesma lei para todos, pois

nem todos seguiriam da mesma forma.

Mesmo depois de séculos que a “Monarquia” foi escrita, muitos países

ainda não possuem estado laico, como é o caso do Brasil, alguns chegam a

possuir por lei, porém atuando, apenas, de fachada. Essa laicidade brasileira

foi muito influenciada pela corrente ”Positivista”, no período republicano,

porém, infelizmente, cresce de forma muito lenta e gradativa.

Isso tudo interfere de forma direta no nosso tipo de governo, porque,

por mais que na teoria seja uma democracia e a pressão recaia sobre o
presidente da república, o grande poder fica sobre as “mãos” do parlamente,

que, como foi dito anteriormente, tem grande massa cristã e conservadora.

Tanto Dante quanto Aristóteles teriam diversas críticas para fazer ao

período político atual. Isso é visível, porque a constituição, por mais que tenha

sido escrita impecavelmente, muitas vezes, não é seguida. Um exemplo disso

é o forte poder da bancada religiosa na Câmara dos Deputados, que acabam

por, muitas vezes, barrar diversas propostas por, simplesmente, falso

moralismo.

O livro de Dante é ótimo para nos fazer repensar sobre o poder que os

cristãos têm politicamente em um país que deveria ser laico. Por exemplo, a

questão do aborto, diversos países, após acontecer a legalização, tiveram as

taxas de aborto diminuindo depois de um certo tempo. Porém, a legalização

do aborto, no Brasil, parece algo cada vez mais distante a medida que

seguidores de religiões mais conservadoras vão aumentando e a relevância

da bancada religiosa.

Além de tudo isso, o espaço político que a religião ocupa acaba

refletindo nas escolas, pois, enquanto existe um grande preconceito com

ensinos de outras religiões, o cristianismo, muitas vezes, é dado em sala de

aula.