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Grant Morrison, hipersigilo e a

magia da arte
POR: LUCIO MANFREDI 10 OUTUBRO, 2017 1 COMENTÁRIO EM MULTIVERSO 2155 VIEWS 1

Em setembro de
1994, aquele
ano distante do
milênio passado,
quando a
Internet ainda
engatinhava e o
World Trade
Center existia,
as bancas de
jornais foram
tomadas de
assalto pelo primeiro número de Os Invisíveis, uma história em
quadrinhos escrita por Grant Morrison, sobre um grupo de agentes
que usava magia para combater entidades demoníacas que
queriam impedir a libertação espiritual da humanidade.
Por sua narrariva não-linear, referências obscuras e ideias
escandalosamente heréticas, Os Invisíveis divide opiniões até
hoje, entre os que acham a história pretensiosa e confusa e os que,
como este que vos fala, a consideram uma obra-prima.
O que pouca gente sabia na época, mas o próprio Grant Morrison
não demorou a tornar público, é que, mais do que apenas uma
história em quadrinhos, Os Invisíveis era um artefato mágico,
destinado a remodelar a realidade.
Morrison batizou esse tipo de artefato de hipersigilo.
Não é novidade a união, talvez até identidade, entre arte e magia,
muito pelo contrário. Segundo algumas teorias, as próprias
pinturas pré-históricas, mais de dez mil anos atrás, já tinham um
propósito mágico, nem que fosse ajudar na caça. E quase todas as
artes se originaram num contexto mágico ou religioso: os primeiros
contadores de histórias, músicos e dançarinos foram os xamãs, o
teatro se originou dos Mistérios de Elêusis grego, a função original
da arquitetura era a construção de templos, e assim por diante.
O que diferencia os hipersigilos é que eles surgiram no contexto da
Magia do Caos, e trazem em seu DNA a atitude punk, anarquista,
DIY, que é uma das marcas registradas desse ramo de magia que
surgiu na década de 1970, como uma reação direta ao rococó
excessivo e complicações desnecessárias que a magia cerimonial
jurava de pés juntos serem imprescindíveis para a prática de
magia. Dando uma solene banana para a magia tradicional, os
caoístas (como ficaram conhecidos) reduziram a prática da magia
a seu núcleo-base e jogaram de escanteio os complicados sistemas
de correspondências simbólicas desenvolvidos pela Golden Dawn e
outras sociedades secretas. Em vez deles, o mago era estimulado
a desenvolver e usar seu próprio simbolismo pessoal, com
elementos relevantes para o seu inconsciente que, na visão da
Magia do Caos, é quem verdadeiramente opera a magia.
A principal ferramenta da Magia do Caos para ressignificar a teoria
e prática da magia é a técnica de sigilização, desenvolvida no início
do século XX pelo mago inglês Austin Osman Spare (que aparece
como personagem em Promethea, de Alan Moore, outro
hipersigilo foderoso, apesar do barbudão provavelmente preferir
morrer a aplicar à sua obra um termo criado por Morrison).
Contemporâneo de Aleister Crowley, de quem chegou a ser muito
próximo, antes do rompimento definitivo entre os dois, Spare
preferiu seguir um caminho independente, à margem de
organizações, seitas e sociedades secretas, alegando ter sido
iniciado por uma velha bruxa inglesa que lhe transmitiu segredos
tradicionais da prática. O interessante, já que o tema deste artigo
é arte e magia, é que Spare foi um artista plástico, e muitos de
seus desenhos são assumidamente sigilos, que Spare criava por
meio de desenho automático.

Muito resumidamente, um sigilo é um símbolo que representa o


intento do mago, o objetivo que ele espera atingir. Há várias
formas de se codificar o intento sob a forma de sigilo, o que, na
terminologia mágica, é denominado sigilização. Incorporar o
intento a uma obra de arte é só uma delas, mas que abre todo um
universo de perspectivas e possibilidades a serem exploradas pelo
artista/mago.
Toda obra de arte criada com um intento mágico é um hipersigilo?
Aqui, a coisa complica um pouco. A definição “oficial” de hipersigilo
é dada por Grant Morrison em “Pop Magic!”, artigo escrito
originalmente para o <strong>The Book of Lies: Disinformation
Guide to Magick and the Occult</strong>, e que deveria ter sido o
embrião para um livro maior, que Morrison nunca chegou a
escrever (ainda tá em tempo, ô careca!):
“O hipersigilo ou supersigilo“, escreve Morrison, “desenvolve o
conceito de sigilo para além da imagem estática, incorporando
elementos como caracterização, drama e plot.”
Em matemática e na física, o prefixo hiper é usado para se referir
à quarta dimensão (por exemplo, um hipercubo, também chamado
de tesseract, é um cubo de quatro dimensões) e, desde a Teoria
Geral da Relatividade de Einstein, nos acostumamos a pensar na
quarta dimensão como sendo o tempo. E é esse o sentido que
Morrison atribui ao hiper em hipersigilo:
“O hipersigilo é um sigilo estendido através da quarta
dimensão. Os Invisíveis, minha série em quadrinhos, foi um sigilo
de seis anos de duração, sob a forma de uma história de aventuras
ocultistas, que consumiu e recriou minha vida durante o período de
sua composição e execução.”
De acordo com essa definição, então, pinturas, esculturas e outras
formas de arte que constróem uma imagem estática, inclusive os
desenhos mágicos de Austin Osman Spare, não seriam hipersigilos.
De fato, mais adiante, no mesmo texto, ao convidar o leitor a fazer
suas próprias experiências com a técnica, Morrison cita vários
exemplos de hipersigilos, todos os quais se desdobram ao longo de
um período de tempo:

“O hipersigilo pode tomar a forma de um poema, uma história,


canção, dança ou qualquer outra atividade artística estendida que
você quiser tentar.”

No entanto, uma ambiguidade no texto do Morrison abre a porta


para considerarmos como hipersigilo qualquer obra de arte criada
com um intento mágico:
“É importante se tornar totalmente absorvido pelo hipersigilo à
medida que ele se desdobra; isso requer um alto grau de absorção
e concentração (que pode levar à obsessão, mas e daí? Você
sempre pode banir no final), como a maioria das obras de arte.”
Quem deve se deixar absorver totalmente pelo hipersigilo? O
artista ao criar? O espectador, cuja atenção vai energizar e ativar
o sigilo? Ambos? Minha aposta vai para ambos, o que significa que,
digamos, um artista plástico que leva horas, dias, anos para criar
um desenho, quadro, escultura ou até uma instalação, satisfaz
plenamente o critério estabelecido por Morrison para um
hipersigilo. Afinal, como o próprio Morrison observa:
“Esta é uma tecnologia recém-desenvolvida, de modo que os
parâmetros ainda estão por explorar.”

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