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Que as mulheres aprendam em silêncio na

comunidade
Reflexões bíblicas quanto à liderança feminina na
obra estudantil e na igreja

Angelit G de Meza


psicóloga
participou da equipe regional da IFES para a América Latina
coordenou a equipe de hermenêutica da IFES

Leandro Guimarães Faria Corcete D


tradutor
11 de Dezembro de 2011

Conteúdo
1 As controvérsias 4
⒈1 O que nos parece controverso . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 4
⒈2 A reconstrução da identidade da mulher . . . . . . . . . . . . . . . . . 4
⒈⒉1 A roupa . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 5
⒈⒉2 O aprender em silêncio . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 6
⒈⒉3 Aprender com toda submissão . . . . . . . . . . . . . . . . . . 7
⒈⒉4 A salvação da mulher . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 8

Uma confissão a respeito deste tema, especialmente enfocado a partir desta passagem
das Escrituras: tem‐me sido motivo de muita luta. E como é eqüente em tais situações,
quis evitá‐lo pelos sentimentos de surpresa, confusão, indignação e temor que sempre me
provocou essa passagem de I Timóteo ii:9–15 e outras similares. Surpresa porque me pa-
receu estranho que na Bíblia se pudessem afirmar essas coisas que ‘soam’ tão opressoras
contra a mulher. Confusão porque essas passagens não me pareciam coerentes com a posi-
ção geral que se pode observar na Bíblia de dignificação dos pobres, das viúvas, dos órfãos
e, em geral, de todos os depreciados de nossas sociedades. Indignação porque não me pa-
reciam justos os argumentos para proibir a liderança da mulher. ¿Que mensagem podia ter
uma passagem assim para a comunidade da igreja e, especificamente, para a Comunidade

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Internacional de Estudantes Evangélicos? Como poderíamos aceitar que o papel das mu-
lheres se reduza a que ‘aprendamos em silêncio com toda submissão’? E ¿como poderíamos
aceitar a razão que se nos dá para essa limitação? E como se essas perguntas não fossem
suficientes, resta outra: ¿como se pode colocar aqui que a mulher se salvará tendo filhos?
Esses três aspectos — o silêncio, a sujeição e a redução da mulher ao papel de mãe de
família — têm sido, por anos, motivo de luta não apenas de setores radicais do feminismo
mas também doutros movimentos de libertação e luta pelos direitos humanos dos mais
desfavorecidos; incluindo grupos de inspiração cristã que se têm empenhado nessa causa
de libertar a mulher dessa condição injusta.
Calar as mulheres tem sido instrumento de dominação dos poderosos e tem sido muito
mais destrutivo quanto exercido em situações de aprendizado, como o expressa nitidamente
a promotora social peruana María Emilia Yanaylle García em seu inquietante artigo, ‘ Mejor
callarse… ¡¡Y todas se callaron‼’ (Melhor calar‐se… ¡¡E todas se calaram‼). Ali, a autora nos
faz ver como as situações de manipulação têm sustento num aprendizado anterior da mulher,
no qual a voz e a visão são instrumentos de submissão. Para isso, cita Alicia Miller em
seu comentário: ‘…o afortunado que disponha duma voz capaz de reproduzir os humores
e impulsos anímicos mais diversos terá recebido da mãe natureza um feliz instrumento de
castigo do qual dispor nesta vida… Assim, pois, há que se cultivar a obediência mediante
o exercício do poder por parte do educador, o qual leva a olhares sérios, palavras decididas
e, eventualmente, coação física… se esse tratamento se leva a cabo de forma conseqüente e
numa idade suficientemente jovem, cumprir‐se‐ão todos os requisitos para que um cidadão
possa viver sob uma ditadura sem soer, e inclusive consiga se identificar euforicamente
com ela.’
Assim, encontramos aqui que por muito tempo ante as palavras opressoras e o grito
dominador, à mulher tem tocado calar‐se. ¿Como poder, então, aceitar sem indignação que
Paulo diga que a mulher tem de aprender em silêncio e em toda sujeição? E menos ainda
sabendo que não é Paulo que o diz, mas Deus por meio dele. Talvez seja desagradável pensar
que Paulo tenha sido um machista, mas ¡que Deus o seja é simplesmente insuportável!
Sou mulher, e dói‐me a situação das mulheres em geral: não só das pobres que, além
de quebrar a cerviz com um trabalho duro e amiúde mal pago, têm de suportar caladas a
violência dos maridos alcoólatras que as abusam e engravidam impunemente; mas também
das de condição média, profissionais que trabalham insuportável jornada quádrupla fora e
dentro de casa, e que se dobram a um macho autoritário que exige‐lhes eficiência, beleza e
bom caráter, chantageando‐as emocionalmente com o abandono por outra mais disponível
e terna se ‘não prestam’. Também das ricas que matam o tédio e a solidão nas ocupações
ívolas, viciando‐se na bebida, nas conversas telefônicas, nas compras ou na televisão, ou
que recorrem à desocupação enlouquecedora e empobrecedora quando não lhes resta nada
além da evasão do mundo irreal em que vivem, cheio de cristais mas vazios.
Todas essas mulheres optaram por calarem‐se, submeter‐se e cumprir o papel de espo-
sas e mães como fuga do vazio e agilidade de suas vidas. Todas têm em comum o mesmo
drama: ter de se submeter. ¿Como aceitar, então, que a Palavra de Deus não tenha uma
mensagem radicalmente diferente da mensagem que sustentou uma das situações mais pe-
caminosas e vergonhosas da história de nossa civilização? Como se o homem precisasse
dalguma legitimação de seu domínio sobre todo o Universo; afinal, é ‘lei’, desda selva, que
o macho coma até saciar‐se e a fêmea espere passivamente para comer só se sobra algo
depois da voracidade do dono da manada.

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Por isso, lutei com essa passagem e, pela graça de Deus, duma atitude inicial de rejeição
passei a uma atitude similar à de Jacó quando lutou com o anjo e lhe disse ‘não te deixarei
até que me bendigas’. Semelhantemente, disse a Deus: não deixarei esta passagem até que
me bendigas com ela, e até que nos bendigas como comunidade. E, tendo essa disposição,
enentei outros problemas que tinham a ver com minhas ferramentas hermenêuticas.
Era óbvio que não estava neutra a abordar a passagem, que todos os sentimentos,
reflexões e conclusões que compartilher inicialmente estavam presentes, de modo que,
seguindo a recomendação que nos dá René Padilla, de incorporar a cosmovisão ao processo
hermenêutico, me propus a incorporar todo esse pano de fundo, e o achei particularmente
enriquecedor porque agregou perguntas, questionamentos, sensibilidade e problematização
tanto pessoal como compartilhada com outras mulheres, anelo por uma mensagem para a
mulher de hoje, para nós como líderes, para as mulheres em relação com os homens.
Me adverti de que esta cosmovisão converter‐se‐ia numa defesa, uma muralha que
me impediria de alcançar a profundidade da passagem se não tivesse o cuidado de usar
outras duas ferramentas hermenêuticas que são muito valiosas e amplamente aceitas: os
princípios da harmonia e do sentido original, cujas sistematizações devemos a João Stott,
e que têm sido bastante usadas nos diversos tratamentos hermenêuticos dessas passagens
sobre a mulher.
Pelo princípio da harmonia, partimos do pressuposto de que não há contradição na
Bíblia, e que há que se interpretar as passagens difíceis e obscuras à luz das claras. Aplicando
o princípio a essa passagem, tenho de interpretá‐la à luz da perspectiva libertadora da
Escritura toda e lembrar de Débora, Priscila, Raabe, a samaritana e todas outras mulheres
que exerceram liderança e foram libertadas por sua fé. Quando se extrema essa perspectiva,
chega‐se à afirmação de que ‘Jesus era feminista’ (Leonard Swidler). Se bem que seja
correto partir da harmonia, a posição extrema pode nos impedir de detectar as controvérsias
que há nesta passagem.
Pelo princípio do sentido original, sabemos que para uma interpretação adequada pre-
cisamos levar em conta as realidades originais a que, em princípio, se dirigiu a mensagem.
Por esse princípio, então, não podemos entender a passagem sem saber quem eram as
coríntias e as efésias. Essas mulheres se caracterizaram por serem revoltosas, ex‐pitonisas,
ex‐prostitutas, que conservavam invictos o caráter e a língua. São princípio que efeti-
vamente nos ajuda a entender o público original da epístola. Conhecemos melhor como
eram essa mulheres quando reparamos na advertência que faz o mesmo Paulo a Timó-
teo: ‘despreza as fábulas profanas e de velhas’, ou quanto também lhe descreve os falsos
mestre que seduzem ‘as mulherzinhas que, carregadas de pecados e arrastadas por diver-
sas concupiscências, aprendem sempre sem nunca chegar ao conhecimento da verdade’. É
compreensível que não se aceite que esse tipo de mulheres tenham acesso a uma liderança
pública e que se lhes exorte a guardar silêncio e não exercer domínio sobre o homem (não
se precisaria tampouco permitir a ‘homenzinhos’ exercer a liderança). E, outra vez, sendo
um princípio são, nos poderia levar a captar a mensagem que tem para todas as mulheres,
ainda que não compartilhemos esses defeitos e esse passado tão duvidoso.
Quando cheguei a este ponto, começou a abrir‐se todo um mundo que não vira rantes
nesta parte das Escrituras, e que me permitiu algo supreendente: ¡descobrir que, longe de
ser uma passagem de legitimização da opressão da mulher, é uma passagem profundamente
liberadora, aportanto elementos para a reconstrução de sua identidade como pessoa, como

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líder e em relação ao homem!
É a partir dessa reconstrução que podemos responder às perguntas que saem das con-
trovérsias geradas pela passagem:

1 As controvérsias
Não é problema aceitar o impedimento de exercer domínio sobre o homem. Afinal, sendo
que o sentido original de ‘domínio’ é violência destrutiva, é totalmente aceitável que se
proíba à mulher fazer tal coisa com o homem. Sabemos que, quando uma mulher exerce
o poder violentamente, pode usar duma ieza, inflexibilidade ou severidade muito maiores
que as do homem; recordemos que, no caso do Sendero Luminoso, são as mulheres que
davam os tiros de misericórdia, e que as mulheres dominantes em casa são veras ‘viúvas
negras’. Assim, a controvérsia não está nessa proibição de dominar até destruir.

1.1 O que nos parece controverso


Primeiro, que se diga que a mulher não pode ensinar sem aprender em silêncio e em toda
sujeição. Segundo, que a razão é que Adão foi formado primeiro. Claro que é verdade
que Eva foi formada depois, mas ¿porque essa deve ser a razão pela qual à mulher não se
permite dominar o homem? Terceiro, que a outra razão para impedir a liderança de ensino
da mulher seja que Adão não foi enganado, mas sim que Eva, sendo enganada, incorreu
em transgressão. Diante disso nos perguntamos: ¿o fato de que Adão não foi enganado,
por acaso o inocenta da transgressão?
E, quarto, é que coloque como via de ‘salvação’ para a mulher o gerar filhos, se perma-
necer em fé, amor e santidade modestamente.
Como dissemos, encontramos algumas pistas para respondermos a essas perguntas,
que compartilhamos a seguir:

1.2 A reconstrução da identidade da mulher


Numa entrevista, Antoinette Fouque, psicoanalista, professora de Literatura, fundadora
do Movimento ancês de libertação da mulher, reconhece que um dos erros cometidos
pelo feminismo foi afirmar uma idéia de liberdade dirigida a negar as diferenças. Advertiu:
‘dizia‐lhes que se não afirmam que são mulheres, em vez de feministas, perder‐se‐ão num
caminho sem saída, uma ideologia, que é um impasse. O impasse do feminismo foi o
feminismo, quer dizer, abandonar ou não trabalhar suficientemente na elaboração duma
identidade própria das mulheres.
Efetivamente, para liberarmo‐nos, as mulheres precisamos duma reconstrução de nossa
identidade, e não simplesmente de ‘lutar contra os homens’. E essa reconstrução começa
por assumir que, ainda que iguais como humanos, somos diferentes como homens e mu-
lheres. John Gray o expressa provocativamente ao nos dizer que ‘os homens são de Marte,
as mulheres de Vênus’, usando esse engenhoso artifício literário para mostrar quão dife-
rentes são os homens das mulheres, e quão equentemente isso é esquecido, gerando‐se
conflitos.

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Reconhecida essa necessidade, surge a pergunta seguinte: ¿como o fazer? com que
elementos nos reconstruimos? Paraaseando Jean Rosteand, ‘à imagem de que mulher
temos de nos recriar, e ¿donde aprenderemos o ofício de Deus?’
À luz de I Timóteo, descobrimos que essa recriação que Deus quer efetuar em nós tem
como matéria‐prima os seguintes elementos:

1.2.1 A roupa
¡Como conhecia Paulo as mulheres! Sabe que uma de nossas aquezas é a roupa. E é sobre
essa aqueza que se constroem os grandes impérios da moda. O vestido se converteu na
obsessão da mulher. Muitas investem grandes somas e dedicam seu maior esforço para
encher seu guarda‐roupas. As mulheres com altas condições econômicas gastam sua renda
principalmente com roupas. As de condições econômicas modestas não têm recursos para
isso, mas sonham fazê‐lo, como mostram diversos estudos das expectativas das populações
pobres, que refletem ânsia por usar roupas ou sapatos de marca como expressão máxima
de progresso. Essas fantasias são alimentadas em boa parte pela publicidade intoxicante
de nossos tempos, e são reconhecidas tanto nos contos de fadas como nas telenovelas e
programas ‘femininos’ de nossos dias latinoamericanos: o sonho de muitas mulheres lati-
noamericanas é ver‐se ‘magnífica’.
Então a Palavra de Deus põe o dedo na primeira chaga, que lacera e aprisiona a mulher.
A roupa se converte numa prisão quando é sinônimo de ostentação, de luxo, de falta de
vergonha ou de provocação sexual. É uma prisão porque se converte numa máscara para
ocultar o vazio, a agilidade emocional, a solidão, a miséria interna. O fato de que o que se
opõe à ostentação, ao luxo e à superficialidade sejam as ‘boas obras’ nos diz que o vestido é
mais que o que oculta notra ‘nudez física’ e que, paradoxalmente, o vestido nos ‘desnuda’.
Diz‐se que ‘o hábito não faz o monge’, diríamos também que ‘o hábito reflete o monge’
porque os brilhos suntuosos da roupagem podem refletir nitidamente quão opaca está a
vida.
Isto não é um convite ao mau gosto ou à apatia no vestir, como pensaram muitas
vezes mulheres cristãs bem intencionadas, mas a colocar o foco da vida no verdadeiramente
importante: as obras que praticamos. E, falando biblicamente, o sentido de obra inclui
não só as ações como, também, a motivação e o propósito com que as praticamos. Boas
obras são ter a vida empenhada em obras de justiça.
Quando a mulher é liberada da prisão da roupa, descobre uma nova ética e estética
da roupa. Os critérios de seleção agora são o decoro, a modéstia e o pudor. O decoro
nos fala da formosura no vestir (‘decoradas’, ‘embelezadas’), a modéstia nos fala do sentido
de vergonha e de reserva (ter vergonha de esbanjar o dinheiro, ter vergonha de gastar a
vida em trivialidades), e o pudor nos fala do desejo de se expressar como mulheres, não de
provocar sexualmente.
Não o fazer é convertermo‐nos em mulheres‐objeto que obtém o contrário, como o
ezpressa agudamente a novelista chilena Marcela Serrano: ‘a modernidade nos esia a
todos. Ademais, como as mulheres nos masculinizamos, lutamos pelo prazer, tomamos a
iniciativa nos jogos sexuais, sabemos o que queremos, nos tornamos menos eróticas aos
olhos dos homens, para quem o pudor era um elemento de sedução’. E, claro, a forma de
tomar a iniciativa nos jogos sexuais começa pela roupa.
Olhando assim, podemos afirmar que temos um valiosíssimo elemento de reconstrução

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de nossa identidade. Passa pelo vestido e o ultrapassa, porque basicamente tem a ver com
o estilo de vida. Assim, podem servir‐nos de modelo em sua relação com a roupa tanto
Teresa de Calcutá com seu rosto lavado e seu hábito de eira, como a rainha Ester, porque
ambas puderam colocar o centro de sua vida em praticar boas obras, não deixando que sua
feminilidade se reduzisse a uma vestimenta esplêndida: Teresa optou pelo hábito, Ester
não deixou que ‘os vestidos de ouro’, que tinha de usar em sua condição especial, lhe
deformassem a alma.

1.2.2 O aprender em silêncio


Uma primeira reflexão quanto ao silêncio. Não é um calar‐se por timidez, incapacidade ou
temor ao castigo. Não é, portanto, um silêncio opressor. É, antes, um silêncio libertador.
As mulheres precisamos descobrir o poder do silêncio e não o ver como um ‘deixar de
falar’, mas como um ‘dispor‐se a escutar e aprender’. Contrariamente ao que as mulheres
pensávamos e buscávamos, amiúde nosso acesso à palavra no plano doméstico e no público
se converteram numa nova prisão. Porque se, antes fôra o ter que ‘mantermo‐nos caladas’,
agora é o ‘não podemos calar’, produzindo um ruído que impede de ouvir ao outros e até a
nós mesmas. As mulheres temos um desespero de falar, e quem se desespera amiúde ultra-
passa as onteiras e arrasa. De novo, Marcela Serrano nos inquieta com a surpreendente
reflexão: ‘as mulheres somos caóticas e nossa maneira de falar deve ter algo desse devaneio.
Oscila entre o obsessivo e o sintético, a verborragia e o silêncio. Temos de alcançar um
equilíbrio. E é verdade que, por séculos, não lho nos permitiram, mas também que nossa
psicologia não é apenas produto social, mas também parte de nossa natureza.
Temos crido que a solução estava em falar; e é tão triste ver uma mulher esmagada
e coagida em sua capacidade de expressão como ver uma mulher verborrágica que fala
compulsivamente e tem a fantasia de ser livre. A primeira, pelo menos, sabe que é oprimida;
a segunda crê que já se libertou. E não podemos calar, porque pressupomos que calar é
render‐se incondicionalmente, é claudicar. Claro que muito das injustiças dos homens
reforçam essa triste situação: quanto menos eles nos querem ouvir, mais queremos falar.
Assim, o círculo vicioso se reforça.
Uma segunda reflexão: não se nos diz que guardemos silêncio total, mas que ‘aprenda-
mos’ em silêncio. Olhando calmamente, é uma proposta pedagógica mui sábia: nos fala da
necessidade de ‘considerar’, verbo que fala da base de todo verdadeiro aprendizado: tomar
em conta, escutar, meditar, entender, que requerem disposição e quietude incompatíveis
com a turbulência das palavras.
Uma terceira reflexão: o silêncio, na perspectiva da Palavra de Deus, tem as seguintes
virtudes:
- O Salmo l:16–21 nos diz: ‘ao ímpio diz Deus: Que fazes tu em recitares os meus
estatutos, e em tomares o meu pacto na tua boca, visto que aborreces a correção, e lanças
as minhas palavras para trás de ti? Quando vês um ladrão, tu te comprazes nele; e tens
parte com os adúlteros. Soltas a tua boca para o mal, e a tua língua trama enganos… Estas
coisas tens feito, e eu me calei; pensavas que na verdade eu era como tu; mas eu te argüirei,
e tudo te porei ã vista.’ Então, uma das virtudes do silêncio é que podemos escutar a Deus.
- No Sl lv:20–21 lemos: ‘Aquele meu companheiro estendeu sua mão contra os que
tinham paz com ele; violou seu pacto. Sua fala era macia como manteiga, mas no seu
coração havia guerra; suas palavras eram mais brandas do que azeite, todavia eram espadas

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desembainhadas.’ Outra razão para aprender em silêncio é que, em silêncio, podemos re-
parar em nossas próprias contradições. Assim, o silêncio é a base para escutar, meditar e
entender a Deus, Sua Palavras e a nós mesmas. Muitas das impulsividades da mulher vêm
precisamente por falta de meditação. A meditação na Palavra produz sabedoria, que não é
só conhecimento e compreensão da verdade mas, também, prudência para atuar sobre esse
conhecimento.

1.2.3 Aprender com toda submissão


Não por debilidade ou dependência. A Palavra é libertadora porque quer nos tirar doutra
prisão: a da tirania. Outra das áreas em que se expressa o ‘caos’ feminino é a das relações
sociais. Ela se debate no devaneio entre a submissão e o autoritarismo. A palavra que Paulo
usa aqui é ‘authentein’, que significa ‘poder absoluto’ e que os gregos usavam para descrever
um assassino. Logo, se manteve o sentido dum poder que é uma arma destruidora.
Daí que o mandato seja: que a liderança das mulheres não destrua. É tão triste ver a
mulher submetida quanto vê‐la tirana. Aprender com toda submissão e sem exercer uma
liderança destrutiva significa aprender humildemente. A base do domínio destruidor é a
soberba. Convida‐se‐nos a jogar limpo, a pôr as cartas sobre a mesa e não se esconder,
na famosa ase ‘por trás dum grande homem está uma grande mulher’, nossas soberbas,
das quais cremos firmemente que a grandeza dele é apenas produto da nossa. Conhece‐se
a anedota que conta que, certa vez, Hillary e William ‘Bill’ Clinton passeavam de carro:
quando chegavam a um posto, Hillary comentou: o entista foi meu noivo. Bill comentou:
‘¡Do que te livraste!’, ao que ela respondeu, ‘¡Não! do que te livraste!’, porque se eu me
tivesse casado com ele, ele seria o presidente dos Estados Unidos.
Essa anedota nos pinta de corpo inteiro, tanto a homens quanto a mulheres. As mu-
lheres falsamente liberadas pensam (escondidas ou a alta voz) que nada seria o mesmo sem
elas. Corremos o risco de passar dum sentimento são de dignidade e realização a uma sen-
timento de soberba e de ser indispensável, que fundamentam toda tirania. Aprender com
toda submissão, sem ensinar nem exercer domínio sobre o homem devido ao que ocorreu
na Criação e na Queda.
Como sabemos, a criação é a expressão dos grandes propósitos de Deus, a queda,
a ruptura desses propósitos, e a redenção em Cristo, sua recuperação. Eva, a primeira
mulher, condensa toda a glória e a miséria da mulher. Por isso, é muito importante que
desentranhemos o mistério de sua participação na condenação da raça humana. Eva foi
criada como ajuda idônea, companheira de vida e de trabalho. Era a expressão feminina
do ser humano. Foi criada depois, porque formada para ser a companheira do homem em
sua tarefa de viver e criar cultura. Marcela Serrano novamente dá uma versão digamos,
‘secular’, dessa realidade básica, ou essencial, da mulher: ‘a busca do próprio centro é
uma condição feminina. Os homens nasceram centrados e nunca acharam que se lhes
faltava’ — muito de acordo com a realidade refletida na história bíblica da criação e da
queda. Isso que Serrano chama ‘centro’ seria aquilo que, aqui, chamamos de identidade e
vocação no mundo. O homem nasceu com esse ‘centro’, mas efetivamente, como produto
da queda, perdeu o sentido de sua importância. A mulher se empenha em buscar seu
centro e pagou um alto custo para alcançá‐lo: se converteu numa ameaça para o homem,
e assim terminaram mais separados que nunca, e por isso mesmo nenhum dos dois está
verdadeiramente liberto, mas de lados opostos.

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O drama da queda nos mostra dois tipos de perda para a mulher: dessa unidade básica
e de sua própria vocação no mundo. A participação da mulher na queda tem a ver com o
que são, por sua vez, suas virtudes que, exageradamente, se convertem em seus defeitos.
Ernesto S o expressa, em sua obra Heterodoxia, que poderia causar mal‐estar a mais
de uma mulher ‘liberada’: ‘Disse La Rochefoucauld que os defeitos nascem do exagero das
virtudes, e as virtudes da mulher são o altruísmo pela espécie, a capacidade de sacrifício
pessoal pelos filhos e homens sob seu cuidado. Por isso mesmo, seu mundo é concreto,
pessoal, vital, mas dali às pequenezas, pior, à pequenez, é um passo: e ao egoísmo de for-
miga, ao discurso pequeno, aos zelos viscerais. O homem se equivoca, mas ao menos se
equivoca fazendo uma guerra mundial ou um sistema filosófico’. E diríamos que, com a
queda, vemos como as virtudes tipicamente femininas da sensibilidade intuitiva, a curiosi-
dade base da capacidade de observação detalhista, a despreocupação base da capacidade de
gozar e brincar se converteram em não‐me‐toques, sensualismo, imprudência e insensatez.
Guiar‐se pelos sentidos estimulados por aparências e não se perguntar das conseqüências
das ações é uma das maiores debilidades da mulher.
Convidar, e não obrigar, o homem a segui‐la nisto, também é nossa responsabilidade.
O erro do homem foi atender a mulher nessa debilidade. E desde esse primeiro episódio,
o homem protagonizou, com a mulher, novas quedas, não querendo assumir nenhum dos
dois sua parte no drama humana. A libertação começa quando conhecemos a verdade sobre
nós mesmos.

1.2.4 A salvação da mulher


A condição de salvação que Paulo menciona nesta passagem não se refere à salvação no
sentido de justificação, mas no sentido de libertação da realidade em que a mulher vive
e que foi acentuada após a queda. Se salvará dessa sensação de pequenez, dessa perda de
centro, de sua aqueza pelas aparências, do vazio, da armadilha da provocação sexual, da
tirania, dos devaneios entre a verborragia e o silêncio e entre a submissão e a tirania. E o
que propõe como fonte de salvação é algo supreendente: ter filhos.
A salvação pela maternidade tem uma condição: permanecer em fé, amor e santidade.
Não é a maternidade sozinha, mas a espiritualidade da maternidade. Quem expressou
profundamente o vazio da vida da mulher circunscrita a exercer seu papel como esposa e
mãe foi Gabriel G Márquez em seu artigo ‘As esposas felizes se suicidam às seis’:
‘às vezes me entretenho no supermercado observando as donas de casa que vacilam ente
às gôndolas enquanto decidem o que comprar. As vejo vagar com seus carrinhos pelos
labirintos de artigos expostos a sua curiosidade, e sempre me pergunto, ao final do exame,
qual delas é a que se suicidará naquele dia, às seis da tarde. Esse mau costumo me vem
dum estudo médico do qual me falou há alguns anos uma boa amiga, e segundo o qual as
mulheres mais felizes das democracias ocidentais, ao fim duma vida fecunda de matriarcas
segundo o Evangelho, depois de ajudarem seus maridos a sair do pântano e formarem
seus filhos com pulso firme e coração terno, terminam por se suicidarem quando todas as
dificuldades pareciam superadas, e deviam navegar nas cenas agradáveis de seu outono. A
maioria delas, segundo as estatísticas, se suicidam ao entardecer.’
Esse quadro é, literalmente, deprimente. Para escaparmos dessa morte final, e para
buscar nossa libertação, abandonamos e renegamos a maternidade. Não apenas a mater-
nidade biológica, mas também a maternidade como traço de nossa feminilidade. O papel

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de esposa e mãe foi desprestigiado, e nenhuma profissional que se ache liberada ou de-
senvolvido poderia reduzir seu mundo às aldas e panelas. Nem sempre se abandonou o
lar por necessidade econômica ou por se achar que o desenvolvimento da mulher além dos
confins domésticos fosse necessário à sua própria vocação no mundo. Amiúde foi porque
eram ocupações de segunda categoria. ¿E que nova forma de alienação e opressão a mu-
lher encontrou nesse tipo de esterilização emocional? Perdeu um de seus traços femininos
básicos. E não perdeu só ela, mas perderam os filhos, a humanidade inteira. Para perder
esse traço, teve de reprimir‐se psicologicamente e fisiologicamente, porque seus hormô-
nios lembram, a gritos, sua vocação fundamental. Vocação que não se reduz a gerar e criar
filhos biológicos, mas se expressa na totalidade das relações humanas.
A primeira característica é que a mulher‐mãe é a fonte e o modelo de ternura. Paulo
aprendeu a incorporar a ternura a sua liderança como missionário, inspirado pela mu-
lher‐mãe (I Ts ii:11). Mas a ternura nos envergonha. Não apenas os homens se envergo-
nham de serem ternos mas, o que é pior as mulheres, que são sua fonte. Esquecemos que
a humanidade tem, como diz o dr. Restrepo, ‘o direito à ternura. Incorporou‐se a idéia
de que ser terno é ser aco. O modelo de liderança que preferimos seguir incorpora os
traços de firmeza, objetividade, força. A ternura não entra nesse esquema. Recuperá‐la
significa adicionar ao ministério o poder da dedicação amorosa e carinhosa, da entrega, da
misericórdia, da compreensão e da empatia, do cuidado e da defesa dos filhos espirituais
— lição que nos lembram nossas colegas no mundo animal, cujo instinto as leva a defender
seus filhotes até com a própria vida.
Outra característica da mulher maternal é o caráter nutridor. O salmo cxxxi:1 e 2
expressa, em linguagem poética, que o ser humano ente ao criador é como o menino
que tomou o peito maternos: profundamente satisfeito, relaxado, feliz, confortável e, so-
bretudo, cheio de alimento delicioso e mui benéfico para seu desenvolvimento. Há um
potencial construtivo muito importante a aplicar à liderança o caráter nutritivo. A mãe
tem um sentido comunitário. Ante a recente maternidade de Madonna, Sharon Stone
manifestou que tem vontade de ter seu filho e que busca um banco de sêmen para isso, já
que não quer a convivência. Essa atitude da atriz é símbolo da alienação de nosso tempo,
uma pseudomaternidade, que quer o filho mas rejeita assumi‐lo em casal, em equipe com o
homem. Não se pode pensar em ‘gerar filhos na fé’ sem que homens e mulheres trabalhem
em equipe.
A mãe ‘cultiva a personalidade do filho’. A verdadeira mãe é capaz de individualizar: ela
não massifica; ainda que, por problemas de tensões, ‘confunda o nome de seus filhos’, não
confunde suas personalidades. O proverbialista o expressa nitidamente (Pv iv:3) quando
se refere a sua mãe: ‘tenro e único em estima diante de minha mãe’. Outro traço que
renegamos nestes tempos em que se impõe, sobretudo pelos meios de comunicação, a
visão massificadora do homem. A líder maternal busca ver nas pessoas o delicado e único.
A mãe é paciente. Se empenha nos esforços de longo prazo. Não é imediatista. A
mãe não pode ser pragmatista porque não vê somente o que convém ao momento mas o
que dará utos duradouros. Neste momento também se desvaloriza esse tipo de esforços
porque vivemos num mundo competitivo que busca resultados imediatos, visíveis e espe-
taculares. Por isso é que requeremos, como mulheres líderes, desenvolver e trazer a nossas
comunidades de fé esse traço que está na base de esforços pacientes como o discipulado. O
homem tende a encarregar‐se das tarefas que não demandam uma relação mais prolongada,
como por exemplo a repreensão. A mulher assume o papel de mestra paciente, edificadora

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incansável. Lemos novamente do proverbialista: ‘meu pai me repreende, minha mãe me
ensina’. Precisa‐se do equilíbrio da repreensão com ensino. As conseqüências duma re-
preensão sem ensino são nefastas. Às vezes, as mulheres também nos temos envergonhado
de nossa disposição de ensinar, e como nem sempre se vêem os resultados, amiúde desani-
mamos e sucumbimos à impaciência. Esse tipo de tarefa não é espetacular, mas sabemos
quanto é necessário e quanto perderia o mundo sem esse traço em ação; quanta paternidade
irresponsável e distante pode se gerar.
Não cedamos à tentação de perder esse sentido da maternidade. Que não nos suceda o
que adverte outra vez Fouque: ‘o problema no feminismo é algo que chamo de esterilização
da mulher, quer dizer, um tipo de mímese do homem pela mulher, de imitação, uma espé-
cie de lesbianismo mental, de autoesterilização…’. Com essa autoesterilização assumimos
uma identidade distorcida e, a partir dela, geramos lideranças desprovidas desses traços
maternais. Esses não têm sido desejáveis e respeitáveis. A moral desse descobrimento é
que as mulheres possamos recuperar nossa capacidade de sermos férteis, e que a vivamos
em todos os planos de relacionamento. ¡Que o S mesmo nos fertilize! Ele nos dê a
sabedoria para sermos maternais e não ‘maternalistas’ asfixiantes. Que nos livre de ‘gerar
um tolo, para sua tristeza’ (Pv xvii), e nos permita gozar por haver dado à luz (Pv xxiii:22).
A salvação da mulher está em recuperar esse sentido de maternidade sob o marco duma
vigorosa espiritualidade: se permanecemos em fé, amor e santidade. Quer dizer, quando
sua vocação maternal tem como finalidade fundamental a glória de Deus. Fazê‐lo com
toda modéstia é a condição para não cair em presunção. A reserva, o gozo íntimo e não
presunçoso, a vergonha que é gêmea da dignidade e nos livra da necessidade.
Creio que valeu à pena não fugir da luta com essa passagem. Claro que restam pen-
dentes muitas questões. O que fica claro é que o centro de nossa luta, se queremos uma
verdadeira libertação, não está em buscar a responsabilidade do outro mas começar pela
nossa. A busca central da mulher tem de ser a sabedoria e não as posições de poder. Tam-
bém se tira dessa reflexão que o aprender em silêncio é um convite a uma atitude de vida,
não um impedimento ao exercício do ensino pela mulher. Em todo caso, essa passagem
nos abre novas possibilidades de ensino que rompem os esquemas opressores que conhece-
mos. Alegra‐nos ver uma saída, uma luz no fim do túnel para mudar não só nosso vestido
ou aroma mas também nossa pele e entranhas, e sermos recriadas com o poder da fé como
essa passagem bíblica nos propõe. Sempre teremos de nos arriscar a que essa nossa luta
seja aproveitada ou malentendida. Mas isso não deve nos desanimar. Mais, convidemos e
incentivemos aos homens, só que desta vez façamo‐lo com uma uta verdadeira, deliciosa
e permitida: a busca de sua própria reconstrução como homens. Só assim, em comunhão
e cada um assumindo sua própria responsabilidade perante Deus, a criação e si mesmos,
seremos ‘verdadeiramente livres’.

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