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MANUELA CARNEIRO DA CUNHA (ORG.

)
FRANCISCO M. SALZANO
NIÉDE GUIDON
ANNA CURTENIUS ROOSEVELT
GREG URBAN
BERTA G. RIBEIRO
LÚCIA H. VAN VELTHEM
BEATRIZ PERRONE-MOISÉS
ANTÓNIO CARLOS DE SOUZA LIMA
ANTÓNIO PORRO
FRANCE-MARIE RENARD-CASEVITZ
ANNE CHRISTINE TAYLOR
PHILIPPE ERIKSON
ROBIN M. WRIGHT
NÁDIA FARAGE
PAULO SANTILLI
MIGUEL A. MENÉNDEZ
MARTA ROSA AMOROSO
TERENCE TURNER
BRUNA FRANCHETTO
ARACY LOPES DA SILVA
CARLOS FAUSTO
MARY KARASCH
MARIA HILDA B. PARAÍSO
BEATRIZ G. DANTAS
JOSÉ AUGUSTO L. SAMPAIO
MARIA ROSÁRIO G. DE CARVALHO
SILVIA M.SCHMUZIGER CARVALHO
JOHN MANUEL MONTEIRO
SÓNIA FERRARO DORTA

HISTÓRIA
DOS ÍNDIOS
NO BRASIL
2? edição

FaPESP
Fundação DE AMPARO Á Pesquisa
^fefe. _SMC
y, -T^ i i ltlUsicir«i o! Ti in s
DO ESTADO Dt SÃO PAuuí COMHAN H A DaS
I LiriRAS iD... JL1"l>.. 1 ..,
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C:op>rinht © 1992 hy os Autores

Projeto editorial:
NrCIS.O DF. HISTÓRIA INDÍGF^A E DO INDIGENISMO

Capa e projeto gráfico:


Motmd CMvakanti

Assistência editorial:
Mjrta Rosa Amoroso

Edição de texto:

Otanlío Fernando Nunes Jr.

Mapas:
Alíàa Roíla
Tuca Capelossi

Mapa das etnias:


Clame CA)hn

FJmundo Peggion

índices:
Beatriz Perrvne- Moisés
Clame C^hn
Edgar Theodoro da Cunha
Edmundo Peggion

Sandra Cristina da Silva

Pesquisa iconográfica:
Manuela Cimeiro da Cunha
Marta Rosa Amoroso
Oscar Cuilávia Saéz
Beatriz Calderari de Miranda

Revisão:
Cármen Simões da Costa
FJiana Antonioli

1^ edição 1992

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (iip)

(Câmara Brasileira do Lixro, sp. Brasil)

História dos índios no Brasil / organização Manuela Carneiro

da Cunha. —São Paulo Companhia das letras


:
Se-
AL BR
cretaria Municipal de Cultura f*pf.sp. 1992 :

Bibliografia
F2519
ISBN S5-7164-260-5
.H57
1998x
1. índios da América do Sul
— Brasil — História 1

Cunha. Manuela Carneiro da.

(Di>-980.41
921393

índices para catálogo sistemático


1 Brasil índios História 980 41

1998

Todos os direitos desta edição leservados à


KDl rC)R.\ St:H\\ARt J'. l.Tlí.V

Rua Bandeira Paulista. 702, cj. 72


04532-002 — São Paulo — SP

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índios livres e índios escravos
Os princípios da legislação indigenista

do periodo colonial (séculos XVI a XVIII)

Beatriz Perrone-Moisés

Contraditória, oscilante, hipócrita: são dúvidas quanto à escravidão indígena que Var-
esses os adjetivos empregados, de for- nhagen (1981:336) atribui o início do incre-
ma unânime, para qualificar a legis- mento à importação de escravos africanos à di-
lação e a política da Coroa portugue- ficuldade que encontravam os moradores em
sa em relação aos povos indígenas do Brasil co- legitimar a posse dos índios. A profusa legis-
lonial. Desde o trabalho pioneiro de João Fran- lação indigenista e a farta correspondência tro-
cisco Lisboa (1852), as análises da situação le- cada entre a metrópole e a colónia acerca dos
gal dos índios durante os três séculos de colo- problemas colocados pela relação com os po-
nização reafirmaram o caráter ineficaz ou vos indígenas comprovam a preocupação e re-
fi-ancamente negativo das leis.
fletem o debate. O conjunto das ideias expres-
As leis coloniais relativas aos índios pare- sas ou subjacentes à questão ainda é um cam-
cem constituir o locus de um debate que en-
po a ser explorado.
volve as principais forças políticas da colónia.
A dificuldade de acesso aos documentos, ja-
No Brasil colonial, a questão da liberdade dos
mais compilados (para uma primeira tentati-
índios ocupa um lugar central: João Francis-
va de compilação e organização dos documen-
co Lisboa caracteriza-a como "questão abra-
tos, verAnexo "Legislação indigenista", pp;
sadora" do período (a expressão tornou-se cé-
531-65), aliada à ideia de que Portugal teria
lebre, e é retomada por vários autores) e Stuart
dado pouco interesse à questão jurídica colo-
Schwartz apresenta-a como responsável pela
nial e, principalmente, a ideia de que o estu-
transformação do Brasil num "caldeirão de in-
do das leis, demasiado formal, pouco teria a
teresses conflitantes" (1979:108), para citar
revelar, fizeram com que os estudos de legis-
apenas dois exemplos, distantes no tempo, mas
lação indigenista colonial privilegiassem o as-
semelhantes na imagem. Como eles, todos os
autores que se dedicam, com interesses e
pecto político-económico da questão em de-
trimento de seu aspecto propriamente jurídico.
abordagens diversas, ao estudo do período co-
lonial reconhecem na questão da liberdade As ideias subjacentes às velhas legislação e

dos índios o "motor" da história colonial. política indigenistas são em geral deixadas de
Embora em geral se considere que o deba- lado, pelo parti pris da cedendo lu-
hipocrisia,

te jurídico colonial português foi muito me- gar a uma análise que vê nas mero reflexo
leis

nos elaborado do que na Espanha (opinião ex- de pressões políticas exercidas junto à Coroa
pressa já desde o século XVII, em Ferreira pelos dois grandes grupos de atores na ques-

(1693), entre outros, e igualmente em Otávio tão indígena colonial: jesuítas e colonizadores

(1946) e Thomas (1982)), a "questão abrasa- (chamados, na época, moradores). Os primei-


dora" não podia deixar de envolver discussões ros são elogiados por conduzirem a Coroa no
em Portugal. No Brasil, eram de tal porte as reto caminho cristão dajustiça, de que a des-
UG IIISTOKIV IX)S INOIOS Ml BK\SII.

\ iam os moradores, "arrastando-a, a seu pesar", políticas em


de determinados interesses,
favor
como diz Malheiro (1866:225). a concessões. principalmente económicos. Se, por um lado,
Fonte primária dessa legislação incoeren- são inegáveis as pressóes económicas ligadas
te, a Coroa oscilava, segundo essas aniílises, ao à questão indígena, é preciso, por outro lado,
tentar conciliou- projetos incompatíveis, embo- resgatar o aspecto jurídico da colonização,
ra igiuilmente importantes para os seus inte- aprofundando nosso conhecimento acerca dos
resses. Os gentios cuja conversão justificava a princípios invocados e manipulados pelos ato-
própria presença europeia na América eram res políticos em presença, através de estudos
a mão-de-obra sem a i^ual não se podia culti- mais detalhados dos próprios textos legais e
var a terra, detendè-la de ataques de inimigos de inúmeros documentos conexos (cartas, pa-
tanto europeus cjuanto indígenas, enfim, sem receres, propostas) que refletem e influenciam
a quiil o projeto colonial era in\ iãvel. Os mis- a legislação.
sionários, principalmente jesuítas, defendiam Neste artigo, procurarei descrever em ter-

a liberdade dos índios, mas eram acusados pe- mos gerais as ideias fundamentais da política
los colonos de quererem apenas garantir o seu indigenista portuguesa no Brasil, expressas na
controle absoluto sobre a mão-de-obra e legislação. Estarei, aqui, privilegiando um as-
impedi-los de utilizá-la para permitir o flores- pecto que tem sido deixado de lado e, justa-
cimento da colónia. Os jesuítas defendiam mente por isso, só será possível traçar um qua-
e, além disso,
princípios religiosos e morais dro amplo que possa servir de referência a es-
mantinham os índios aldeados e sob controle, tudos que, aprofundando o conhecimento de
garantindo a paz na colónia.Os colonos garan- situaçóes históricas dadas a partir de uma
tiam o rendimento económico da colónia, ab- abordagem tanto económica quanto histórica
solutamente vital para Portugal, desde que a e jurídica, nos permitam compreender melhor
decadência do comércio com a índia tornara as relaçóes entre brancos e índios no período
o Brasil a principal fonte de renda da metró- colonial. Entre o projeto colonial expresso nas
pole. Di\ idida e pressionada de ambos os la- leis e a prática há, nem é preciso dizer, uma
dos, concluem tais análises, a Coroa teria pro- grande distância. A outros caberá falar sobre
duzido uma legislação indigenista contraditó- o que dele efetivamente resultou.
ria, oscilante e hipócrita. Não existiu um direito colonial brasileiro in-
As "pretendidas e subentendidas regras de dependente do direito português. O Brasil era
direito" de que fala Malheiro (1866:206) não regido basicamente pelas mesniiis leis que a
são, de modo geral, explicitadas e analisadas; metrópole (compiladas nas Ordenações Ma-
são consideradas secundárias porque não de- nuelinas e, a partir de 1603, nas Ordenações
senvolvidas em Portugal (cujos teóricos não te- Filipinas), acrescidas de legislação específica
riam criado um
pensamento original nesse para questões locais. Na colónia, o prinoip;il
campo, apenas repetindo o que se dizia na Es- documento legal eram os Regimentos dos go-
panha) e, mais do que isso, porque subordina- V ernadores gerais. O rei os iissinava, assim co-
das a interesses económicos. Mas o sistema ju- mo às Cartas Régias, Leis, .\lv"iU'iís em fonnu
rídico é um dos fundamentos das açóes dos de lei e Provisões Régias, auxiliado por cor-
homens. As ideias nele contidas são muito pos consultiv os dedicados a questões coloniiús,
mais do que mera retórica destinada a permi- O primeiro desses conselhos foi a Mesa de
tir a realização da vontade de um ou outro gru- Consciência e Ordens, criado em 1532. Segiii-
po político. \os momentos críticos, em que as ram-se o Conselho da índia (1603) e seu su-
leis são discutidas, colonos e jesuítas recorrem cessor, oConselho Ultramarino (^1643). Estes
a princípios comuns, pertencentes a uma mes- emitiiun piU"eceres que pcxliiun, e tx^stiunavam
ma tradição jurídica. ser, sancionados pelo rei, passando a ter v ulor

Ainda resta muito a fazer para que se pos- legal. Na colónia, os governadores gorais emi-
sa entender melhor as relaçóes entre índios tiam Decretos, .\lvarás e Bandos, aplicando a
e colonizadores no Brasil. É preciso (jue se legislação emitida pela Coroa. Para o exame
prossiga o esforço, já iniciado, de, mediante de ciuestões especifuMS que e\igi»un oonluvi-
análises pontuais, aprofundar o conhecimen- mentos locais de que a metrópole não dispu-
to de situaçóes históricas definidas, em (}ue um nha, o rei ordtMi.wa a formação do lunt;is \^».\n«-
conjunto de ideias específicas molda atuaçõt^s pivstas do autoridades oc^loniais o ivligio,s»is\
índios livkes e índios escravos ir

entre as quais a mais importante era a Junta dutível entre "índios amigos" e "gentio bra-
das Missões, cujas decisões deviam ser-lhe en- vo" corresponde um corte na legislação e po-
viadas para apreciação e eventual aprovação. lítica indigenistas que, encaradas sob esse pris-
O que mais chama a atenção nos documentos ma, já não aparecem como uma linha tortuo-
legais relativos à questão indígena é o fato de sa crivada de contradições, e sim duas, com
disposições emanadas diretamente da Coroa oscilações menos fundamentais. Nesse senti-
referirem-se em muitos casos a questões bas- do, pode-se seguir uma linha de política indi-
tante específicas e locais tanto quanto os atos genista que se aplica aos índios aldeados e alia-
administrativos coloniais. dos e uma outra, relativa aos inimigos, cujos
Tomada em conjunto, a legislação indige- princípios se mantêm
ao longo da colonização.
nista é tradicionalmente considerada como Nas grandes de liberdade, a distinção en-
leis

contraditória e oscilante por declarar a liber- tre aliados e inimigos é anulada e as duas po-

dade com restrições do cativeiro a alguns ca- líticas se sobrepõem.

sos determinados, abolir totalmente tais casos


legaisde cativeiro (nas três grandes leis de li-
ÍNDIOS LIVRES; ALDEADOS E ALIADOS
berdade absoluta: 1609, 1680 e 1755), e em Aos índios aldeados e aliados, é garantida a li-
seguida restaurá-los. Quando se olha mais de- berdade ao longo de toda a colonização. Afir-
talhadamente as disposições legais, percebe- ma-se, desde o início, que, livres, são senho-
se,porém, que ao tomá-las em conjunto, as- res de suas terras nas aldeias, passíveis de se-
sim como aos "índios" a que se refere, sim- rem requisitados para trabalharem para os
plifica-se bastante o quadro. O próprio modo moradores mediante pagamento de salário e
como Malheiro (1866), por exemplo, glosa os devem ser muito bem tratados. Deles depen-
textos legais opera generalizações que acen- dem reconhecidamente o sustento e defesa da
tuam a imagem de contradição: nele, assim co- colónia. Se não se alteram os princípios bási-
mo naqueles que se fundamentam em seu tra- cos, vão-se modificando, por outro lado, as po-
balho, fala-se de "liberdade dos índios" e "es- líticas efetivas destinadas a garanti-los: quem
cravização dos índios" como se, em ambos os administra as aldeias, como serão regulamen-
casos, as leis se referissem a todos os indíge- tados o seu trabalho e seus salários, quem e
nas do Brasil, indistintamente. como lhes administrará a justiça. É evidente
Havia, no Brasil colonial, índios aldeados que os efeitos, por exemplo, da passagem da
e aliados dos portugueses, e índios inimigos administração das aldeias dos jesuítas para os
espalhados pelos "sertões". A diferença irre- capitães de aldeia, de que falaremos abaixo.

S. Luís do
Maranhão no
século XVII. Carta
onde se vê a
localização de
aldeamentos
indígenas próximos
às povoações
..•.•.»**" coloniais.

V->,
HS nisTouu oi>s i\nu)s no i?k\sii.

são acentuados, e esse é uni tema que ainda de 26/7/1596, Carta Régia de 21/10/1653, Re-
está à espera de aprofundamento. gimento das Missóes, de 1686), ora pelos ad-
A politica para esses "índios de pazes", "ín- ministradores seculares das aldeias (Lei de
dios das iildeias" ou "índios amigos" segue o 1611), ora permitidos a moradores.' Mas a
seguinte itinerário ideal: em primeiro lugar, presença de missionários é sempre exigida, le-

devem de suas
ser "descidos", isto é, trazidos vando inclusi\ e a distorções quando estes, por
aldeias no interior ("sertão") para junto das po- sua presença, davam aval a ilegalidades.
\oações portuguesas: lá de\eni ser catequiza- Os métodos recomendados são invariavel-
dos e ci\ ili/.ailos, de modo a tornarem-se "vas- mente a persuasão e a brandura: os padres de-
salos úteis", como dirão documentos do sécu- \em convencer os índios a acompanhá-los es-
lo WIII. Deles dependerá o sustento dos pontaneamente, dizendo-lhes que serão lixres.

moradores, tanto no trabalho das roças, pro- senhores de suas terras nas aldeias, e que es-
duzindo géneros de primeira necessidade, tarão melhor nas aldeias do que no sertão, "de
quanto no trabalho nas plantações dos colo- tal modo [diz o Abará de 26/7/1596] que não

nizadores. Serão eles os elementos principais possa o gentio dizer, que o fazem descer da
de novos descimentos, tanto pelos conheci- serra por engano, nem contra a sua vontade".
mentos que possuem da terra e da língua Os que não forem assim convencidos não de-
quanto pelo exemplo que podem dar. Serão vem em hipótese alguma ser forçados a des-
eles, também, os principais defensores da co- cer, como dizem expressamente a Lei de

lónia, constituindo o grosso dos contingentes 10/9/1611 e o Regimento das Missões, de


de tropas de guerra contra inimigos tanto in- 21/12/1686. A ilegalidade da coação ao desci-
dígenas quanto europeus. mento continuará sendo afirmada até o sécu-
lo XVIII.- Mesmo em caso de entradas de
DESCIMENTOS guerra, é possí\el aos bárbaros \oluntariamen-
Constantes e incentivados ao longo da colo- te aceitar a sujeição e, assim, serem descidos
nização (desde o Regimento de Tomé de Sou- e aldeados. Possibilidade que não se estende,
sa de 1547 até o Diretório Pombalino de 1757), porém, como \eremos abaixo, aos po\"OS ini-
os descimentos são concebidos como desloca- migos autores de hostilidades.
mentos de povos inteiros para novas aldeias Tal "convencimento" inclui a celebração de
próximas aos estabelecimentos portugueses. pactos em que se garante aos índios a liberda-
De\ em resultar da persuasão exercida por tro- de nas aldeias, a posse de suas terras, os bons
pas de descimento lideradas ou acompanha- tratos e o trabalho assalariado para os mora-
das por um sem qualquer tipo de
missionário, dores e para a Coroa. ^ A proibição categóri-
de
violência. Trata-se convencer os índios do ca de violar tais pactos é alirmada em MÍrios
"sertão" de que é de seu interesse aldear-se documentos, como a Carta Régia de 3/2A701
junto aos portugueses, para sua própria pro- sobre o descimento de Aruans no Manuihão.
teção e bem-estar. que manda guardar "iin iola\ elmente tod;is as

A obrigatoriedade da presença de missio- promessas, que se lhe fizeram, e pactos com


nários junto às tropas de descimento é expres- que desceram".
samente estabelecida desde a Lei de 24/2/1587
e reafirmada mesmo quando lhes é tirada a ex-
ALDE.WIENTC)
clusividade na condução dos descimentos (Lei A lociíliziíção dos iildeiuuentos olHH.4ece a con-
de 1611, por exemplo). Oque go-
respeito de siderações de \ árias ordens. Para incenti\"ar o
zam junto aos gentios, o conhecimento da lín- contato com os portugueses, tacilitando ;Lssini

gua e o fato de o principal intento do desci- tanto a civilização dos índios qu;uito a utihiui-
mento ser a conversão explicam a importân- ção de seus sen iços, são em geral situados
cia atribuída à presença de missionários, próximo das po\oações coloniais ^^AKara de
exclusivamente jesuítas, em vários momen- 21/8/1582 e ProN isão Régia de I 41680. entrt^
tos,ou outros, como na Lei de 1()/9A611. As outros). Na Lei (\c 1611 serão expressamente
disputas entre jesuítas e moradores tarão com situadiis a uma distância sutuMcntcmcnte si^
que os descimentos devam ser feitos ora ex- gura de núcleos dt> poxoamento brantH>s piíra

clusivamente pelos primeiros (Lei de 1587, Re- qut> uns não possam prejudicar aos outivs. O
gimento do go\ ernador geral de 1588, AK ará iildeamcnto em locais estratégicos distantes
'

índios livres k índios kscravos 19

das povoações coloniais, com vistas à defesa, do governador geral do Maranhão e Grão-Pará
é disposto em Cartas Régias de 6/12/1647 e de 14/4/1655, reiterado no Regimento das Mis-
6/3/1694 e aconselhado pelo Conselho Ultra- sões de 1686, e ainda o Diretório de 1757 e
marino em Consultas de 2/12/1679 e 16/2/1694. a Direção de 1759.
O Regimento das Missões, de 1686, dispõe que Para que as aldeias possam ser transferidas
sejam deixados em suas terras os índios que para locais melhores, ou em que serão mais
não quiserem descer, em primeiro lugar por- úteis ou de doutrinar, é preciso, como
fáceis
que não podem ser obrigados a fazê-lo no — para o descimento, insistir no convencimento
que retoma recomendações anteriores e, — e obter a anuência dos índios (Provisão Régia
além disso, por ser interessante que "as aldeias de 1/4/1680 para o Maranhão; Carta Régia de
se dilatem pelos sertões". Em alguns casos, 18/10/1690 para o Rio de Janeiro; Cartas Ré-
além dessas considerações, leva-se expressa- gias de 19/1/1701 para o estado do Brasil e de
mente em conta a qualidade das terras que se 3/2/1701 para o Maranhão).
propõe aos índios para se aldearem, como na
Carta Régia de 27/9/1707, aprovando um local
ADMINISTRAÇÃO DAS ALDEIAS
em que há "bastantes terras para [os índios] Da administração das aldeias são inicialmen-
lavrarem suas lavouras, e rio com abundância te encarregados os jesuítas, responsáveis, por-
de peixe". tanto, não apenas pela catequese ("governo es-
As terras das aldeias são garantidas aos ín- piritual") como também pela organização das
dios desde o início. A expressão "senhores das aldeias e repartição dos trabalhadores indíge-
terras das aldeias, como o são na serra", de- nas pelos serviços, tanto da aldeia, quanto pa-
claração dessa garantia, aparece pela primei- ra moradores e para a Coroa ("governo tem-
ra vez no Alvará de 26/7/1596 e será retomada poral"). A Lei de 1611 mantém a jurisdição es-
nas Leis de 1609 e 1611.^ Várias Provisões tra- piritual dos jesuítas, estabelecendo, porém, a
tam da demarcação (presente desde o Alvará criação de um capitão de aldeia, morador, en-
de 26/7/1596) e garantia de posse dessas ter- carregado do governo temporal. A Lei de
ras (p. ex.: Provisão de 8/7/1604, Carta Régia 9/4/1655 para o estado do Maranhão proíbe ex-
de 17/1/1691, Diretório de 1757, pars. 19, 80). pressamente que se ponham capitães nas al-
De modo geral, nas aldeias devem viver deias, que devem ser governadas pelos missio-
apenas os índios e os missionários, a não ser nários e chefes indígenas, ou "principais de
quando as leis instituem a administração lei- sua nação". Os principais serão encarregados
ga (vide abaixo). A política pombalina, procu- da administração temporal também em Pro-
rando assimilar definitivamente os índios al- visão de 17/10/1653 e na Lei de 12/9/1663, fi-
deados, incentiva a presença de brancos nas cando os missionários com a administração es-
aldeias para acabar com a "odiosa separação, piritual unicamente. O mesmo declara a Lei
entre uns e outros" (Diretório de 1757 para de 1755, mas o Diretório de 1757 e a Direção
o Maranhão e Grão-Pará, pars. 80-8; Direção de 1759, considerando os índios incapazes de
18/5/1759 para Pernambuco e capitanias ane- se autogovernarem, instituirão os diretores das
xas, pars. 84-90). A reunião de tribos diferen- povoações de índios. O governo temporal vol-
tes nas aldeias está expressamente condicio- tará às mãos dos jesuítas (juando se entende
nada à vontade dos índios em questão e as al- que a conversão, intento primordial do aldea-
deias devem preferencialmente ser formadas mento, só pode ser feita desse modo (Cartas
por indivíduos da mesma "nação", de modo Régias de 6/12/1647 e 26/8/1680 para o estado
que o horror da convivência com inimigos não do Brasil, Carta Régia de 2/9/1684 para o es-
leve os índios a fugirem de suas aldeias, retor- tado do Maranhão, Regimento das Missões de
nando à barbárie (Regimento das Missões de 1686). E será dada aos moradores (juando es-
1686; Carta Régia de 1/2/1701, citada no Di- tes, reclamando junto à Coroa da falta de bra-
retório de 1757 (par. 77) e na Direção de ços para a lavoura, dada a resistência dos mis-
18/5/1759 (par. 81), (^ue a reiteram). A neces- sionários em fornecê-los, alegam que, idem dis-
sidade de se fazerem aldeias grandes, para fa- so, haviMão de encarregar-se da ci\ ilização dos

cilitar o trabalho de conversão e também au- índios tão bem (juanto os primeiros, ou talvez
mentar sua "utilidade" aparece em vários do- até melhor. Em (fartas Régias de 17/1/1691 e
cninentos,como a Lei de 1611, o Regimento 13/5/1691 proíbein-se as administrações secu-
120 inSTORU IX>s l\nK)S \o bkasii.

e Grão-Pará de 14/4/1655, no Diretório de


1757, para citar apenas os documentos mais
importantes. Disposições quanto a ta.\a e for-
ma de pagamento se encontram na Lei de
1611, no Regimento do go\ernador geral de
1655. Pro\isão Régia de 12/7/1656. Regimen-
to das Missões de 1686, Regimento das Aldeias

de São Paulo de 1734, Diretório de 1757 e Di-


reção de 1759, entre outros. Muitos desses do-
cumentos mencionam o fato de os índios das
iildeias (|ue trabalham para particulares por sa-

lário fazerem-no "\oluntariamente" ou '"de


bom grado".''
A repartição da mão-de-obra de\e ser feita
de modo a que as aldeias possam prosperar e
prevê-se, assim, a permanência constante de
uma parte dos aldeados para cuidar de sua
própria sobrevi\ ência. Em alguns momentos
estabelece-se uma repartição da 'terça parte":
índios de aldeia, liires das aldeias. Em alguns momentos con- um terço permanece na aldeia, um terço ser-
representados i\em administrações por particulares, por câ-
\ ve à Coroa (guerra, descimentos). o restante
basicamente como
Tupis — com rede. maras, por missionários, aldeias dos missioná- é repartido entre os moradores (Proxisão Ré-
maraca, e rios, aldeias da Coroa, aldeias de repartição. gia de 1/4/1680; Carta Régia de 21/4/1702; Or-
praticando o
A administração das aldeias é objeto de mui- dem Régia de 12/10/1718). Noutros momentos
canibalismo
(este um topos tas discussões e um dos pontos em que se en- é a metade do contingente das aldeias que de-
obrigatório) versus contra, realmente, uma grande oscilação. Na ve ser repartida pelos moradores, sempre pa-
índios Tapuia, nus.
pessoa dos administradores diis aldeias, encon- ra trabalho remunerado e temporário (Regi-
sem animais
domésticos. tram-se investidos os dois grandes moti\ os de mento das Missões, de 1686; Diretório de
pintados toda a colonização, marcados, na prática, pela 1757; Direção de 1759). O tempo de ser\iço
grosseiramente...
contradição: a conversão e civilização dos ín- é igualmente regulamentado de modo a que
dios e sua utilização como mão-de-obra es- os índios "de repartição" possam cuidiU" de seu
sencial. próprio sustento nas roças das aldeias: dois
meses (Abará de 26/7/1596: Lei de L416S0\
TR.\BALHO seis meses por ano no máxima em periodos

O aldeamento é a realização do projeto colo- alternados de dois meses (Regimento do giv


nial, pois garante a comersão, a ocupação do \ernador geral do Maranhão e Grão-Pará de
território, sua defesa e uma constante reser\a 14/4/1655). seis meses no Pará e ciuatro no Ma-
de mão-de-obra para o desenvoK imento eco- ranhão, já que os dois meses pre\istos não Ixis-
nómico da colónia. Como diz o Regimento das tam para os trabalhos de coleta nessas regiões
Missões de 1686, é preciso "que haja nas di- (Regimento das Missões de 1686).
tas aldeias índios, que possam ser bastantes, São muitos os documentos que tratam da
tanto para a segurança do Estado, e defensas repartição dos índios das ;ildeias "pelos servi-
das cidades, como para o trato e serv iço dos ços",reafirmando tempos e salários, dispon-
moradores, e entradas dos sertões". do quanto ao sistema de repartiçãa nomean-
O trabalho dos índios das aldeias é, desde do repartidore.s, instituindo a obrigatoriedade
o início, remunerado, já que são homens li\ res. de licenças para retirar índios das vildeias etc.
Sejam as aldeias administradas por missioná- (Pro\ isão Régia de 4 12 1677. C^uta Regia do
rios ou por moradores, as leis prevêem o esta- 3m/1679, Cartas Régias de 30 e 31/3/16811 Car-
belecimento de uma taxa, os modos de paga- tas Régias de 17 e 19^11681. Carta Regia de

mento e o tempo de ser\ iço. O pagamento de 9/9/1684). Preocupação cjue não suqtitHMule.
salário é afirmado desde a Lei de 1587, reafir- datla a importância \ ital dessa mãi>-dt^>bra,
mado no .\l\ará de 1.596, na Lei de 1611, no reconluvida tMU \ ários diXMunentos, e o difun-
Regimento do governador geral do Maranhão dido desrespeiti> às ni>rmas ile sua ivpartição
ÍNDIOS I l\Ki;S K índios KSf:K\\OS 21

e utilização, por parte de moradores que, co-


mo foi mencionado acima, tentam manter ín-
dios das aldeias como escravos. A liberdade é
violada, o prazo estipulado desobedecido e os
salários não são pagos; há vários indícios de
que os índios das aldeias acabavam ficando em
situação pior do que os escravos: sobrecarre-
gados, explorados, mandados de um lado pa-
ra outro sem que sua "vontade", exigida pelas
leis, fosse considerada.
O bom tratamento dos índios repartidos é
sempre recomendado (Regimento das Minas
de 8/8/1618 e Carta Régia de 1/2/1701, por
exemplo), não apenas porque são homens li-
vres, mas, principalmente, porque dele depen-
de a sua conversão e civilização. Nesse senti-
do, para evitar que os índios recém-descidos
repugnem o aldeamento e a civilização devi-
do ao trabalho, são dispensados dele durante
os dois primeiros anos de aldeamento (Regi- sistena amizade dos índios", como diz a Car- ...É curioso notar
Régia de 24/02/1686, é preciso manter essa o aspecto
mento das Missões; Diretório de 1757). ta
estacionário dos
amizade, evitando qualquer tipo de agressão índios de aldeia
ALIADOS e providenciando recompensas para selá-la. contrastando com
Uma das principais funções atribuídas aos ín- a ideia de
JUSTIÇA movimento e
dios aldeados é a de lutar nas guerras mo\i- nomadismo que
das pelos portugueses contra índios hostis e Dada a evidente tendência dos colonizadores marca a gravura
Além dos sobre os Tapuia.
estrangeiros. índios das aldeias, são a desrespeitar as condições de utilização da
Estas gravuras são
também chamadas a lutar nessas guerras "na- mão-de-obra aldeada, um procurador dos ín- rearranjos dos
ções aliadas" cuja aliança deve ser reafirma- dios é nomeado já em assento de 1566. Men- quadros de Ekhout
(ver caderno em
da nos momentos em que há necessidade de cionado sempre como alguém encarregado de
cores, entre as
grandes contingentes de guerreiros, o que nem requerer a justiça por quem não a pode refjue- pp. 110 e 111).
sempre podiam fornecer (Carta do
as aldeias rer por deve ser, e alguns documentos di-
si,

governador geral do Brasil de 1/10/1654, por zem-no expressamente, alguém que não pos-
exemplo). Presente desde o Regimento de To- sua nenhmna espécie de interesse a ser pro-
mé de Sousa de 1548, o incentivo à obtenção tegido, para que isso não interfira em seu jul-
e manutenção de alianças também se revela gamento. O procurador dos índios é mencio-
nos vários títulos honoríficos e recompensas nado no Abará de 26/7/1596, na Lei de
dados aos aliados (Carta Régia de 17/9/1630, 9/4/1655 e no Regimento das Missões de 1686.
Carta do governador geral do Brasil de Na tentativa de garantir a observância das leis
16/10/1654, Carta Régia de 11/4/1702). um desses procuradores
favoráveis aos índios,
Praticamente todas as vezes em que se fala chega a ser perseguido e preso no Maranhão
de guerra, fala-se também na necessidade de e uma Ordem Régia (5/7/1701) é enviada ao go-
convocar os "índios das aldeias" ou "tapuias vernador geral do estado para (}ue seja respei-
amigos". Os aldeados e aliados são encarrega- tado e tratado "conforme o lugar (lue ocupa".
dos de defender as vilas e plantações dos ata- Além dos procuradores, os ou\ idores gerais são
(jues do gentio e as fronteiras dos atacjues dos chamados a \ erificar se todas as ordens relati-

inimigos europeus. Povos estratégicos, são as vas aos índios estão sendo respeitadas (Alvará
"muralhas dos sertões", barreira viva à pene- de 21/8/1587, Lei de 1/4/1680). Os casos de ca-
tração de inimigos de todo tipo. tiveiro são julgados pelas já mencionadas jun-
CJomo os aldeados, os aliados são homens tas (Lei de 9/4/1655, entre outros), (jue tam-
livres (jue devem ser bem "K porcjue
tratados. bém são encarregadas de fiscalizar a legisla-
a segurança dos sertões e das mesmas povoa- ção trabalhista (CJarta Régia tle 3/2/1701).

ções do Nhiranhão e de toda a .-Vinérica con- O luiuionainento desse sistema jiode ser
122 mSTOUI\ IX>S INPKíS NO BK\S11

aptMuis entrevisto em docuineutos legais que pacífico dos índios aldeados baseia-se, até o
tratam de escra\ ização, garantia de terras, pa- início do século X\ III, em razões de ordem re-
gamento de saliíiios. de\ olii(;ão de índios às al- ligiosa: a comersão, objeti\o primeiro da co-
deias. Cartas de Sesmaria de 7/9/1562 e de lonização, só poderia ser conseguida com bran-
31/10/1580 apresentam petições feitas pelos dura, e só seria efeti\a se os cristãos dessem
próprios índios, apresentadas por um repre- aos índios o bom exemplo de seu próprio com-
sentante não especificado. O Alvará de portamento. Tais motivos se enconti-am expres-
6/2/1691 pre\ è que "sendo os mesmos índios sos desde o Regimento do goxemador geral de
que demmciem a injustiça de seus cati\eiros 1548, apesar de os próprios jesuítas terem, em
(como podem fazer)", receberão a metade da iilguns momentos, advogado a força como úni-
multa paga por quem os catixar. A Carta Ré- co meio de converter e civilizar. A partir do
gia de 13/3/1697 considera queixas apresenta- início do século .\\ III, além da civilização dos
das pelos índios contra um missionário, cujo índios serão invocados os interesses económi-
mérito não é julgado por "não justificarem [os cos da colónia sempre que se trata de reco-
índios] a mesma quei.xa com documentos ju- mendar brandura no tratamento com os índios,
rídicos". A Pro\isão Régia de 10/4/1658, rea- evitando a todo o custo "vexá-los" com maus-
firmando leis anteriores quanto aos casos de tratos que podem esvaziar as aldeias e preju-
cati\eiro lícito, dispõe "que os índios que se dicar o projeto colonial como um todo.
ti\erem por livres, e que são injustamente ca- A catequese e a civilização são os princí-
ti\os possam tratar de sua liberdade na forma pios centrais de todo esse projeto, reafirma-
da Lei de 653, dando para isso as provas ne- dos ao longo de toda a colonização: justificam
cessárias, e justificando-o diante das pessoas o próprio aldeamento, a localização das aldeias,
para isso deputadas". É um dos pontos mais as regras de repartição da mão-de-obra aldea-
ricos para desenvoKimento, a partir dos do- da, tanto a administração jesuítica quiuito a se-
cumentos judiciários, como os que tratam do cular, escravização e o uso da torça em alguns
julgamento de cativeiros e requerimentos de casos.Todo o projeto baseia-se na crença de
^ liberdade, de que podem ser citados como que o que se oferece aos indígenas realmente
exemplos a "Carta de Alforria de Paula Índia representa um bem piua eles. No século X\ III.

de gentio pitigoar" de 11/11/1628 e os docu- o \alor máximo que até então era a salvação
mentos analisados por Sweet (1981) e Cunha da alma será substituído pela ideia de felici-
(1985). dade inerente à \ ida ci\ ilizada e sujeita a leis
positivas. De qualquer moda trata-se de tra-
BONS TR.\TOS zer os índios àquilo que é considerada pelos
Como foi mencionado, o tratamento "bondo- europeus, como um bem niiiior.

so e pacífico" é recomendado para todos os A política para aldeados-aliados se mantém,


índios aldeados e aliados. O tratamento pre- e em certos momentos se estende aos inimi-
ferencial é recomendado para trazer os índios gos, porque os primeiros são tratados ct>mo ini-
à conversão e aldeamento, e para garantir as migos. Os moradores desrespeitam ;is leis re-
alianças.As razões apontadas para justificiu^ os lati\as à utiliziíção da mão-de-obra inimig-a. fa-

bons desde os mais


tratos são variadas, indo zem guerras e resgates ilegais, em smna.
básicos princípios de direito até uma alegada tratam aliados (efeti\os ou potenciiiis) como
inconstância dos índios, que pode levá-los a inimigos. Diante dissa a Coaxi Hiz cessiir a dis-
retornar aos matos e à "gentilidade", se forem tinçãa estendendo a libenlade a tcxlos |xmi ga-
maltratados. Xiolência e desrespeito podem re- rantir a dos altleados-aliado.s, a quem ela ja-
sultar no abandono das aldeias, altamente pre- mais foi negada. Isso se depreende clanunen-
judicial para "o bem comum", e muitos docu- te dos textos das "grandes leis de lil^eulade".
mentos declaram expressamente a necessi- Os "priN ilégios dos uulios das aldei;Ls '. ex-
dade de se manterem os índios aldeados con- pressão pivsente nos próprios textos legiiis. são
fiantes e satisfeitos (Regimento do go\ernador reatírmailos no fato de índií^s escravos de ní«.>-

geral do Maranhão e Cirão-Pará de 14/4/1655, radores muitas \ezes se ivtugiaivíu nas »ildei.i.s

Lei de 1/4/1680, Carta Régia de imOA707, Di- para se libertarem. Inui atitude que gt^ra \"á-

retório de 1757 e Direção de 1759). rios tipt>s lie ».lisposições; dependendo da loi

A recomendação de tratamento bondoso e \igente quanto ai> catixeiní licita esses tora-
índios mvres e índios escravos 123

gidos serão ou mantidos nas aldeias, ou devol- índios escr-Wos; os inimigos


\ (Regimento das Aldeias
idos a seus senhores E os CATnOS DOS ÍNDIOS
de São Paulo, 10/5/1734), coisa que os missio- Se a liberdade é sempre garantida aos aliados
nários, de modo geral, se recusam a fazer A
e aldeados, a escravidão é, por outro lado, o
identificação entre aldeamento e liberdade
destino dos índios inimigos. Os direitos de
também fica clara quando se estabelece que guerra são objeto de grande elaboração, reco-
os moradores culpados de escravização ilícita
nhecidos mesmo momentos em que se de-
nos
serão punidos, entre outros, com o envio de
clara a liberdade de homens que, segundo
"seus" índios às aldeias, isto é, sua libertação
princípios assentes de direito, seriam justa-
Câmara de São Paulo de 28/5/1635,
(Quartel da
mente escrav izados. Nesses momentos (Leis
Regimento das Missões, Bando do governador
de 1609, 1680 e 1755), as leis expressamente
do Rio de Janeiro de 14/8/1696). E, ainda,
consideram o direito de guerra secundário
quando os próprios índios das aldeias são pas-
diante da importância da salvação das almas,
síveis de escravização se as abandonarem. Os
civ ilização ou defesa da liberdade natural dos
moradores, por sua vez, usam de todos os
índios, constantemente ameaçadas pelos des-
meios para manter os índios das aldeias de que
respeitos dos colonos às leis.
podem se ser\ ir temporariamente contra pa-
As "justas razões de direito" para a escra-
gamento de salário como escravos. O expe-
vização dos indígenas, de que fala por exem-
diente mais comum é o casamento desses ín-
plo a Lei de 1680, são basicamente duas: a
dios com escravas, contra o qual dispõem mui-
guerra justa e o resgate.
tos documentos (Regimento das Missões,
Alvará de 23/3/1688 para o estado do Mara- GUERRA JUSTA
nhão, Carta Régia de 30/11/1698 para a capita-
nia do Rio de Janeiro); outro, mais simples, é
O principal caso reconhecido de escravização
legal é o que procede da guerra justa. Con-
a não-devolução dos índios às aldeias após o
ceito já antigo, a guerra justa é motivo de muita
prazo estipulado, que as leis tentam igualmen-
discussão a partir do século .\\'I, quando de-
te, repetidas vezes, coibir (Provisão Régia de
ve ser aplicada a povos que, não tendo conhe-
1/4/1680 para o estadodo Maranhão, Carta Ré-
cimento prévio da fé, não podem ser tratados
gia de 26/8/1680 para o estado do Brasil, Car-
ta Régia de 13/1/1734 para a capitania de São
como infiéis.

As causas legítimas de guerra justa seriam


Paulo).
de liberdade, os mo- a recusa à conversão ou o impedimento da pro-
Para reagirem às leis

radores não apelam apenas para a premente


pagação da Fé, a prática de hostilidades con-
tra V assalos e aliados dos portugueses (espe-
necessidade de braços sem os quais a colónia
cialmente a V iolência contra pregadores, liga-
não sobreviverá. Invocando os próprios prin-
cípios básicos dessas leis, a saber, a salvação da à primeira causa) e a quebra de pactos
das almas e a civilização dos índios, afirmam celebrados. Como precursor da doutrina da

a impossibilidade de realizá-los através da li-


guerra justa em Portugal é sempre citado o

berdade, dada a barbárie em que se encontram franciscano Álvaro Pais que, no século .\I\', a

os gentios. Só o cativeiro, dirão, permitirá rea- havia definido em função de vários fatores: só

lizar a conversão e civilização dos índios e por haveria guerra justa se preexistisse uma injus-
isso, principalmente, deve ser legitimado. Ale- tiça do adversário, se fosse conduzida com
gam também que os missionários encarrega- boas intenções (não seria justa a guerra movi-
dos das aldeias não cumprem sua parte, da por ambição, ódio ou v ingança), se fosse de-
recusando-se a fornecer índios aos moradores clarada por uma autoridade competente (um
e, aciui também, movem-se no universo jurídico. príncipe ou a Igreja) (cf Merea, 1917:351-3).
Em alguns casos, porém, trata-se de gente A mera recusa à aceitação da fé não pare-
tão feroz, bárbara e violenta, que meio algum ce ter sido reconhecida legalmente como mo-
existe de realizar nela o grande projeto da co- tivo de guerra chega a ser explicita-
justa, e

lonização, e sua própria existência coloca em mente negada, por exemplo, no parecer de um
risco a possibilidade de continuação de tal pro- deseml)íu^ador sobre guerra e escraviziíção de
jeto: em relação a eles, resta apenas a saída — prisioiuMios, datado de 160.5, e na Lei de
legal — da guerra. 9/4/1655 para o estado do Maranhão (jue afir-
IIA lll>TOKI\ 1H)> INOIDS \l> UKVSII

ma não poderem os índios "ser constraniíidos tra infiéis (in Costa Brochado, 1949:44-5),
«.'om armas a aceitá-lo e crè-lo [o E\angellu)]'". apóiam-se na argumentação de que, sendo
lais iilinnações contonnam-se à doutrina do uma ofensa à lei natural, é passível de justifi-
jesuíta Luís de Molina, professor em Coimbra, car uma guerra. Igualmente favorável ao pa-
ijue em 1593 atirma\a não poderem ser os in- recer de que a antropofagia justifica uma guer-
fiéis obrigados a abraçiir o cristianismo, em- ra é Molina,mas por outras razões: suas viti-
bora tossem ol)rigados a permitir sua pregação. mas são "inocentes", e a defesa de inocentes
O impedimento à pregação é apontado co- não só a guerra, como também a es-
justifica
mo causa justificada de guerra já em 1596, em A questão pode, portanto, ser en-
cra\ ização.''
Consulta da Mesa de Consciência e Ordens carada sob dois aspectos: o direito/de\er de se
que reconhece ao rei o direito de punir e cas- impedir o canibalismo enquanto tal, e uma su-
tigar todos aqueles que pusessem obstáculo à posta obrigação que teriam os cristãos de sal-
propagação da fé, na Pro\ isão de 17/10/1653, var os inocentes que seriam sacrificados ou co-
na Lei de 9/4/1655 e no Abará Régio de midos. Mas o tratado a que me referi acima,
2S/4A688. por exemplo, afirma, como Francisco de \ i-
As hostilidades cometidas, consideradas co- tória, que essa justificativa não pode ser acei-

mo justa razão de guerra por todos os teólogos- ta; pois, se nem os cristãos que cometem pe-

juristas são, como \eremos, a causa apontada cados mortais podem ser legitimamente pri-
por todos os documentos que a requerem, jus- vados do "domínio do que têm", quanto mais
tificam ou reconhecem como justa. A quebra os gentios... A julgar pelo que os documentos
de pactos celebrados, reconhecida como jus- afirmam, não parece que a antropofagia fosse
ta causa de guerra no parecer de 1605 men- considerada causa suficiente para uma guer-
cionado acima, reaparece na Provisão Régia ra, mas apenas uma agravante, quando a prin-
de 17/10/1653 e em vários outros documentos. cipal causa, esta sim juridicamente fundamen-
Dois outros motivos aparecem nas discus- tada de modo claro e inconteste, seria a exis-
sões sobre a guerra justa: a saKação das almas tência de hostilidades prév ias por parte dos
e a antropofagia. Embora os próprios jesuítas indígenas, mencionada acima. Apenas a Pro-
defendessem em certos momentos a violência documento que estabele-
visão de 17/10/1653,
como único meio de converter, o Regimento ce o maior número de causas de guerra justa,
de Tomé de Sousa já considerava a violência aponta como uma dessas causas a antropofa-
como prejudicial à conversão, e foi sempre a gia, isoladamente, mas quando praticada por
comprovada existência de hostilidades o mo- "súditos" do rei, o que complica ainda mais
ti\ o apontado para a guerra. Outra dúvida na a discussão.
doutrina da guerra justa é a questão de saber Sendo a guerra justa possibilidade indiscu-
se a salvação da alma justificaria a guerra. Os tívelde escravização lícita, pode-se imaginar
próprios documentos dão margem a discus- o interesse que sua declaração tinha piU~a os
sões, pois se, em geral, os textos legais não de- colonizadores. Para ev itar que se mo\;un guer-
fendem esse ponto de vista, há outros docu- ras injustas e se escravizem seus prisioneiros,
mentos, como cartas de Anchieta e Nóbrega os reis \ ão limitando cada vez m;ús a possibi-
(in Leite, 1940 e 1956), que defendem a guerra lidade de declará-las. chegando a estal>elecer
e a sujeição como único meio de converter os que serão justas apenas as guerras que o rei.
indígenas. Essas dúvidas relati\as à doutrina de próprio punho, declarar tais ^Lei de
da guerra justa ser\em para dar uma ideia das 11/11/1597; Lei de 9/4/1655) e exigindo invaria-

dificuldades jurídicas enfrentadas na coloni- velmente testemunhos, documentos e piuvoe-


zação, e do de esclarecimento (jue se po-
tipo res (lue comprovem as causiLs vilt^adas para tal

de esperar dos documentos da época. declaração. Diante desses documentos, os rt^is

A antropofagia constitui uma questão mais chegam a declarar injustas guerras já movid;u>
complicada e controxersa, mas não parece cjue e liv res seus prisioneiros ^^como acontece, ^H^r
tenha jamais constituído causa suficiente de exempla nas C^artas Regias de 22 9 1605 e
guerra. As opiniões fa\ oráveis à justificatixB da 17A/1691 e na Consulta do CAinselho lUraiua-
antropofagia, segundo um tratado português rino de 27/4/1731).'' Os ivis, em geral, itxxv

anónimo de meados do século .\\ intitulado 1 nuMulam ijue se tente a paciticaçào antes de
Por que causas se pode mover guerra justa con- cjualquer guerra, pois, se o ;ildeamento è a rtw-
índios i.ivkks k índios i;sc;havos 125

lização do projeto colonial, a guerra é, ao con- têm de provar a inimizade dos po\os a quem
trário, sua negação. pretendem mover guerra. Para tanto, descre-
É inegável que houve guerras movidas por vem longamente a "fereza", "crueldade" e
necessidade económica e para as quais foram "barbaridade" dos contrários, que nada nem
encontradas justificativas a posteriori. Mas é ninguém pode trazer à razão ou à civilização.
igualmente inegável c^ue tais guerras se faziam Nos documentos relativos às guerras, trata-se
no contexto de uma discussão acalorada acer- sempre de provar a presença de um inimigo
ca dos fundamentos teológicos e jurídicos da real. Tudo leva a crer que muitos desses ini-
justiça das guerras contra os indígenas brasi- migos foram construídos pelos colonizadores
leiros, que a questão preocupava bastante a
e cobiçosos de obter braços escravos para suas
Coroa, permanecendo um ponto controverso fazendas e indústrias. Com essa suspeita, a Co-
(cf. Carneiro da Cunha, 1986:152 ss.). roa chegou a proibir totalmente as guerras e es-

HOSTILIDADES E GUERRA JUSX\


A •.-S^i^^?''*!^!,^
preexistência de hostilidades por parte do
inimigo será, sempre, a principal justificativa
de guerra. Hostilidades são invocadas por to- ^'1 .
^N
Y
í>-
dos os documentos que se referem a guerras
contra os índios, desde o Regimento de Tomé
de Sousa (15/12/1548). A Lei de 16U limita cla-
ramente a guerra justa aos casos em que o gen-
tio se mostrasse hostil, movendo "guerra, re-
^ ^^^'^h^
_J^
''^^'^

belião e levantamento". A Carta Régia de


11/10/1707 para o Maranhão considera "muito
conveniente que se faça guerra ao Gentio do
Corço que tem feito tantas mortes e extorsóes".
Cartas do vice-rei do Brasil de 1723 e 1726 pe-
dem índios das aldeias "para fazer uma cam-
panha ao gentio bárbaro que hostiliza aos vas-
salos de sua majestade", e os exemplos pode-
riam ser multiplicados. vi*-"

Para justificar esse que é considerado pela


Coroa como último recurso, os colonizadores iJt

=-?^^;zj Detalhes
da aquarela
representando o
ataque à aldeia
grande dos índios
Barbados (6 de
de 1726),
janeiro
onde aparecem
índios aliados e
aldeados, cercando
a aldeia de índios
inimigos.

[iiaLLLÍ'jjJ-jT!Gij'
126 msroKiv nt>s inhu^s \o hkvsii

ora\ i/avões tio iiulíiítMuis, "soininclo a porta aos mesma guerra, o governador geral do Brasil re-
pretextos, simulações e dolo com que a malí- comenda que os inimigos sejam seguidos "até
cia, abusando dos casos em que os cativeiros lhes queimarem, e destruírem as aldeias, e eles
são justos, introduz os injustos", como diz a Lei ficarem totalmente debelados, e resultar da sua
de 1/4/1680, um dos momentos de declaração extinção, não só a memória, e temor de seu
de liberdade de todos os indígenas do Brasil. castigo, mas a tranqiiilidade, e segurança com
De modo a contiginar o bárbaro inimigo, que sua majestade quer que vivam, e se con-
a Carta Régia de 2/3/1686 afunia (jue os gen- servem seus vassalos". Uma Carta Régia de
tios fazem "iileivosias e extorsões" aos mora- 25/10/1707 ordena se faça guerra ao Gentio do
dores "sem mais causa que a sua ruim incli- Corço no Maranhão "procurando fazè-la crua-
nação"; uma Carta do go\"ernador geral do es- mente ao tal gentio que se matem e cativem
tado do Brasil de 14/3A688 espera "(lue tiquem todos os que se entende'" podem ser danosís-
as lu-mas de sua majestade mais gloriosas na simos a essas terras, para que o temor desse
destruição dos bárbaros do que seus \assalos destroço amoderente os mais a que se abste-
foram ofendidos nas insolências de sua fero- nham de os assaltarem". L'ma Carta do \ ice-
cidade"; a Resolução de 6/10/1688 fala em "ter- rei do Brasil de 30/6/1721 diz que tendo o "gen-

ror do inumerá\el poder dos bárbaros", o que tio bárbaro" atacado, "é preciso procurar
faz pensar na construção, mencionada acima, e.xtingui-los, fazendo-se-lhes veemente guer-
de um inimigo especialmente poderoso. A ra".As recomendações de destruição total dos
Carta Régia de 25/10/1707 menciona docu- inimigos são numerosas no século Wii e iní-
mentos recebidos da colónia que comprovam cio do X\III, e os documentos falam de guer-
"os grandes e atrozes delitos e horríveis extor- ra "rigorosa", "total", "veemente", a ser mo\i-

sões [sic]" dos gentios, declarando-lhes guer- da "cruamente", fazendo aos inimigos "todo
ra. E os exemplos poderiam se multiplicar o dano possível", de preferência até a sua "ex-
tinção total".
GL'ERR.\ TOTAL AO GENTIO BÁRB.VRO
Uma vez estabelecida a hostilidade e configu- ESCRWTZAÇÃO DECORRENTE DE GUERR.\
rado o bárbaro inimigo, é preciso "conter a fe- O principal caso de escravização lícita é. co-
reza dos contrários" e a guerra justaque se mo foi dito acima, o decorrente de guerra jus-
lhes pode mover é arrasadora. Já o Regimen- ta. Afirmam o cativeiro lícito neste caso a Lei
to Tomé de Sousa, em 1548, recomenda que de 20/3/1570 e a de ll/U/1595, que ilustnuu as
os Tupinambá, que atacaram portugueses "e constantes tentativas da Coroa de conter os
fizeram guerra [sejam] castigados com muito "abusos" e escrav izações ilícitas limitando ca-
rigor [...] destruindo-lhes suas aldeias e povoa- da \ ez mais o poder de declará-his; na primei-
ções e matando e cativando aquela parte de- ra, este é restrito ao rei e ao governador geral

que vos parecer que basta para seu castigo


les mas, como os abusos prosseguem, na segim-
e exemplo".O Regimento de 24/12/1654, de da o rei declara escravos legítimos unic;unen-
uma entrada a ser feita na Bahia para castigar te "aqueles que se cativarem na guerra que
o gentio bárbaro por suas "insolências", reco- contra eles eu houver por bem que se taça, a
menda "desbaratar", queimar e destruir totiil- qual se fiuá somente por Prov isão minha para
mente aldeias inimigas, escravizando a todos esse particuliu" por mim assinada". A Lei de
e matando a quem de algum modo resistir. 30/6/1609 declarará a libenlade de tixios os m-
Uma Carta do governador geral do Brasil so- diosdo Brasil, sem exceções, para. como toi

bre a assim chamada Guerra dos Bárbaros na mencionado acima, coibir as escrav i/.;\ções ilí-

capitania do Rio Grande, de 14/3/1688, reco- citas. Como os índios cometem hostilidades,
menda a um dos capitães-mores que "dirija a a Lei de 10/9/1611 restaura a escrav idão dos ín-

entrada e guerra que há de fazer aos bárbaros dios capturados em gxierra justa, julgada t;il jx^
como bem entender que possa ser mais ofen- lo rei. Considerando que a demora dess;i au-

siva degolando-os, e seguindo-os até os extin- torização possa piM' em risci> os colonos, estu-
guir,de maneira que fique exemplo desse cas- bt^lece (.lue se possa fazer guerra seni ela; os
tigo a todas as mais nações que confederadas escravos assim obtidos não pixien\ix txMitudix
com eles não temiam as armas de sua majes- ser V endidos até que o jvi apiw e a justiça da
tade". Em .\Kará de 4/3/1690. relativo a essa guerra t\ ixMlantu seu cativeiív "e oontu-man-
índios livres e índios escr.\vos 127

do-o eu, poderão fazer deles o que lhes bem tabelece que do montante obtido com a ven-
estiver, como seus cativos, que ficarão sendo da dos escravos se pague a despesa feita na
livremente, e não o confirmando, se cumprirá guerra, os impostos "quintos" que tocam à Co-
o que sobre isso mandar". Na Lei de 9/4/1655 roa "e sobrando alguma coisa, se há de dar jóia
essa distinção entre guerras declaradas pelo ao governador e o mais repartido pelos cabos,
rei e guerras declaradas pelo governador, a se- oficiais e soldados". Se os participantes da
rem julgadas, reaparece sob o nome de "guerra guerra podem apenas esperar alguma sobra,
ofensiva" e "guerra defensiva", com os mesmos é de imaginar o interesse que teriam em apri-

resultados quanto aos prisioneiros: são escra- sionar o maior número de índios possível! Do
\os definitivamente os de guerra ofensiva e mesmo modo, de 25/5/1624 previa
a Provisão
provisoriamente os de guerra defensiva, até que se pagasse o quinto das "peças" trazidas
que o rei envie sua decisão quanto à justiça do sertão, incentivando a escravização em larga
da guerra em questão. O Alvará de 28/4/1688 escala.
Ao longo do
estabelece que em caso de guerra justa "po- século XVIII vão se
RESGATES
derão ser cativos os índios no tempo que
infiéis tornando cada vez
A escravidão não é apenas para os bár- mais frequentes as
durar o conflito das guerras, e fora deles se não lícita
tabelas de
poderão fazer as ditas guerras, nem se pode- baros hostis. Também podem ser escravos ho-
população indígena
rão admitir os ditos cativeiros". A especifica- mens que não são inimigos, mas sendo cati- aldeada, algumas
vos dos índios forem comprados, ou "resgata- delas incluindo,
ção "índios infiéis" é aqui importante, pois re-
como esta, o
mete a casos em que prisioneiros de guerra, dos", para serem salvos. O "resgate" é, como número de índios
sendo não serão escravizados, mas tra-
cristãos, a guerra justa, um caso de escravização fun- "descidos".

tados "como o são os que são tomados nas


guerras da Europa", como acontece na Carta 5^ ass
Régia de 17/10/1680 que trata de guerra aos ín-

dios das missões jesuíticas espanholas.


Quando os inimigos são autores comprova-
dos de violências e atrocidades a guerra é jul-
gada justa. Mesmo que se rendam, o máximo
que podem esperar é que se lhes poupem as
mmm^^:^^^^^^^
vidas, em cativeiro: "não só se hão de matar
todos os índios que na dita guerra resistirem,
mas cativar aos que se renderem e que estes
cativos se hão de vender em praça pública"
(Carta Régia de 25/10/1707), formulação que
se apresenta idêntica em vários documentos
desse período (final do século XVII, início do
XVIII). E, em geral, só podem esperar isso as
mulheres e crianças, já que os homens, capa-
zes de se rebelar novamente, devem ser mor-
tos. A Carta do governador geral do Brasil de

14/3/1688, já mencionada, diz que tendo o go-


vernador declarado que os prisioneiros de
guerra seriam escravos daqueles que os cati-
vassem, como "estímulo para o gosto dos sol-
dados", é preciso que o capitão dessa entrada
cuide "em não consentir que deixem de de-
golar os bárbaros grandes só por os cativarem,
o que principalmente farão aos pequenos, e
às mulheres, de quem não pode haver perigo,
que ou fujam, ou se levantem".
Tais escravos de guerra poderão ficar nas
mãos dos vencedores, ou ser vendidos. A Car-
ta Régia de 25/10/1707, mencionada acima, es-
128 mSTÒKlV IXÍS INOUW NO IMUSIl

daiuentadi) por regras de direito correntes, deradas injustas, diz a Lei de 9/4/1655 que "se
sendo siui liceidade aceita até mesmo pelo pa- poderão contudo os ditos índios resgatar para
dre Meira (cf. Carta de 20/5/1653 in Vieira, se servirem deles por espaço de cinco anos
1948). Esses indi\ íduos "presos à corda", co- que o direito limita por bastante para satisfa-
mo dizem os documentos, são cativos legíti- ção do preço que por eles se deu e passados
mos expressamente desde a Lei de 1587, e o os cinco anos serão postos nas aldeias dos li-

princípio do resgate como justificativa de es- vres sem encargo algum, advertindo que isto
cravização retomado em Regimento de não terá lugar havendo resistência da parte dos
21/2/1603. na Lei de 1611, na Provisão Régia índios, porque havendo-a e sendo resgatado
de 17/10/1653, no Alvará de 28/4/1688 e em sem embargo dela ficará livre e sem obriga-
muitos outros momentos. O Regimento de ção alguma da sua parte".
25/5/1624 declara que só poderão ser escravi- A obrigatoriedade da anuência do "resga-
zados "os que estiverem em cordas". São as- também no .\ssento
tado", presente nessa lei (e
sim resgatados indivíduos que seriam comidos, de 1574, entre outros), faz com que se possa
para que se lhes salve a vida, e a alma. pensar o resgate como uma modalidade da
Aqueles que os resgatam podem servir-se venda de si mesmo, caso também reconheci-
deles contanto que os convertam e civilizem, do de cativeiro legal, igualmente motivo de
e os tratem bem. O cativeiro decorrente de debate (ver Carneiro da Cunha, 19S5a), po-
resgate não é, aliás, ilimitado: uma vez pago rém menos recorrente na legislação.
em trabalho o preço do resgate, o cativo será
livre, a não ser em alguns momentos em que
CONCLUSÃO
se considera que tendo sido pago um preço Várias questões relativas à legislação e políti-
acima do estipulado, o comprador possa valer- ca indigenistas deixaram de ser abordadas ou
se dos serviços do resgatado pelo resto de sua aprofundadas aqui, em primeiro lugar porque
vida. \a Lei de 10/9/1611, o tempo definido é uma exposição mais detalhada dos v ários iis-

de dez anos para que os "resgatados" fiquem pectos e instituições não caberia nos limites
livres, a não ser que o preço pago por eles se- deste capítulo. Questões como a "administra-
ja superior ao declarado pelo "governador e ção de particulares" precisam ser aprofunda-
os adjuntos". Porque é o preço o que define das à luz de novos documentos, inclusive no
se um indivíduo resgatado será escravo por al- que diz respeito à sua comparação com iis "en-
guns anos ou pelo resto de sua vida, as pró- comiendas" da .\mérica Espanhola (explícita
prias transações de venda têm de ser regula- numa Consulta do Conselho L^ltramarino de
mentadas, como, por exemplo, na Carta Ré- 9/6/1687). A efetiva reiílização (ou não) das de-
gia de 16/2/1691. De qualquer modo, o resgate terminações legais quanto aos indígenas em
é estabelecido pela salvação da vida dos pri- casos específicos será, certamente, abordada
sioneiros dos índios e o cativeiro permitido noutros capítulos deste livro. Os documentos
porque, como o dizem claramente certos do- mencionados como exemplo sãcx do mesmo
cumentos (entre os quais a Lei de 1611), se os modo, apenas uma iunostra do enoniie corpus
moradores não encontrarem nisso nenhuma legislativ o sobre a questão, tendo sido escolhi-
\antagem não hão de querer pagar pelos cati- dos emfunção de sua importância na hienir-
vos dos índios, que não poderão ser salvos. As quia legislativ a e/ou representativ idade quan-
transgressões a essas disposições legais são, to a datas e regiões.
aqui também, muitas, e só no ano de 1707 o A luz dos documentos, compreende-se que
rei envia duas Cartas Régias ao governador do as assim chamadas "exceções" cjue teriam j>er-
Maranhão sobre punição de excessos cometi- mitido a escravização indiscriminada mesmo
dos por tropas de resgate. quando se declarava a liberdade são mais do
Podem também ou "resga-
ser comprados, que exceções: não se aplicam aos indigeuvis do
tados", prisioneiros dos índios tomados em Brasil como um todo e constituem, ao ct>ntrá-
guerras intertribais consideradas justas, apa- rio, principieis fundamentais de diivito e da It^

rentemente segundo os mesmos princípios gislaçâo iiuligcnista. tanto quanto a lilHMxlade.


aplicáveis ao julgamento das guerras movidas Resgate e guerra just.i serãa ao longi^ de tixla

por portugueses contra os índios. Nesse caso, a colonização, os dois casos ivconhecidos de
porém, mesmo que tais guerras sejam consi- cativ tMn> legal. au\bos fundamentados em ptin-
ÍNDIOS LIVRES E ÍNDIOS ESCKAVOS 129

cípios que não modificam (ao lado deles


se
aparecerá às vezes a venda de si mesmo). No

caso do resgate, a salvação da vida se antepõe (<*///'^í/'fj^^/'^r-(^r^ rrtci-f/^o t/juj:ílír «y><^/Vf^ yy/^ ,/'^^r/»rr^'^/'-r

a tudo. Já no caso da guerra, trata-se de toda


uma elaboração jurídica relativa ao relaciona-
^T^iU^^^, <4^^>! e^e^y y^^j^^^rt-^ yy,a,^i^ r^J-^y '-^'^ ' ^
mento com povos inimigos. É porque os mo- //ír^rjt^i^'
.AyJcy>
^^fn*rt^^ ^M^/>
radores procuram, o tempo todo, enquadrar ,.i>*^x;^— ^Z-*-*"
nesses casos juridicamente legítimos de cati-
(^^^fd> T^^'UI>''^-^
veiro todos os índios, alegando resgates onde
há mera violência, construindo inimigos on-
de não os há e às vezes simplesmente violan-
do os direitos dos aldeados, que a Coroa de- re^^t f^'s.
clara a liberdade irrestrita de todos os indíge-
nas do Brasil, estendendo a todos a política
aplicada aos aldeados e aliados. Quando volta
a instituir a possibilidadeda escravização de
prisioneiros de guerra, é porque, dada a exis-
tência de inimigos, torna-se "dificultosíssimo
e quase impossível de praticar dar-se liberda-
de a todos sem distinção", como explica a Pro-
^
visão Régia de 17/10/1653. Se não se pode tra-
des coloniais pedir o descimento e aldeamento Nesta Carta Régia,
tar a todos os indígenas do Brasil do mesmo exemplar típico no
de seus povos. Outros, sem abandonarem seus
modo, é porque eles não reagem à coloniza- género, datada de
territórios ou se aldearem, uniram-se aos por- 19 de junho de
ção do mesmo modo.
tugueses ou a seus inimigos europeus em suas 1760, o governador
É preciso aprofiindar e refinar a análise da-
guerras; firmaram tratados de paz e tornaram-
da capitania do
quilo que chamamos aqui de duas políticas in- Maranhão é
se nações aliadas. Outros ainda resistiram a to- instruído a tentar
digenistas básicas, aquela para os índios
do e qualquer tipo de relação com os coloni- todos os meios
aldeados-aliados e aquela para o gentio bár- persuasivos para
zadores, movendo-lhes guerra até sua extinção
baro inimigo. E é também preciso considerar a pacificação dos
total; incorrigíveis, foram massacrados e escra- Timbiras, antes de
que a existência de duas linhas de política in-
prosseguir contra
vizados. Os mesmos povos podem ter modifi-
digenista está provavelmente relacionada às eles na guerra.
cado sua posição ao longo do tempo.
duas reações básicas à dominação colonial por-
Ao responder a realidades políticas diver-
tuguesa: a aceitação do sistema ou a resistên-
cia. Se, por um lado, faz-se necessário apro-
sas, efetivas ou construídas" —
já que não se
pode esquecer que o interesse económico dos
fundar o conhecimento de todas as discussões
colonizadores os terá feito, muitas vezes, for-
legais e princípios nela presentes para se en-
jar realidades para obter da Coroa leis que lhes
tender em
maior profundidade, para além da
mera necessidade económica, o que era, para fossem favoráveis — , a legislação não oscila em
seus princípios tanto quanto podia parecer. São
os portugueses, o projeto de colonização, é
também necessário ultrapassar, nesse sentido,
diferentes os princípios aplicáveis a cada uma
uma ótica puramente colonizadora, e dar lu- das situações: aldeamento, aliança, guerra. A
gar aos povos indígenas como atores dessa co- política indigenista não é mera aplicação de
lonização.Sem, no entanto, esquecer de mo- um projeto a uma massa indiferenciada de ha-
do ingénuo que a força aplicada para a reali- bitantes da terra. É, como toda política, um
zação do projeto colonial fazia a balança processo vivo formado por uma interação en-

pender indiscutivelmente para o lado europeu. tre vários atores, inclusixe indígenas, várias si-

Ao considerar em bloco as populações in- tuações criadas por essa interação e um cons-
dígenas e também as disposições legais a elas tante diálogo com valores culturais. A legislação
referidas, perdem-se de vista especificidades do mesmo modo. é muito mais
(jue a define,

históricas e culturais dos povos em contato. Al- do (}ue mero projeto de dominação mascara-
guns povos indígenas se aldearam pacifica- do em discussão jurídica, e merece ser olhada
mente, por assim dizer, e os documentos men- com outros olhos, para (}ue dela se possa tirar
cionam muitos chefes (jue vieram às autorida- toda a informação (pie ela pode nos fornecer.
130 mSTORl\ 1X>S IMIIOS \t> BK\Sll

Mapa manuscrito FONTES documentos relati\os a índios, mas encontram-


do Tapajós, de
se, de modo geral, exauridas, .\lgumas publi-
meados do século Os documentos aqui mencionados encontram-
XVIII. Governo e
se listados e indexados por tema, etnia e área
cações periódicas são especialmente ricas em
jesuítas documentos relativos à questão indígena, en-
controlavam as geográfica em Perrone-Moisés (1990a), em que
tre as quais citaremos os Documentos históri-
tx>cas dos rios: se encontram indicadas as fontes, permitindo
estabelecimentos, cos e os Anais da Biblioteca Nacional do Rio
o acesso do pesquisador aos próprios textos
fortalezas e de Janeiro, os Documentos interessantes e Do-
aldeamentos dos documentos. As principais fontes manus-
cumentos avulsos do -ArquiNO do Estado de São
reunindo índios critas ali presentes são códices do Arquivo Na-
que iam sendo Paulo e a Revista do Instituto Histórico e Geo-
cional do Rio de Janeiro, alguns códices do
"descidos" dos gráfico Brasileiro.
altos nos e dos Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro e
afluentes. Aqui se
Alémdestas, algumas obras fornecem tex-
da Biblioteca Nacional de Lisboa. Fontes ma-
vêem cinco aldeias tos dos documentos nelas mencionados ou
na
jesuíticas
nuscritas inéditas a serem exploradas se en-
analisados, entre as quais citaremos Studart
embocadura do contram na Biblioteca Nacional do Rio de Ja-
Tho-
(1904-21), Dias (1921-4), Leite (1937-49).
Tapajós à sombra
neiro e nos arquixos dos estados. Os arquixos como
de uma fortaleza. mas (1982) e Beozzo (1983). Obras de as
A língua geral era portugueses (Biblioteca Nacional de Lisboa,
Lisboa (1852) e Malheiro (1866) apresentam
um veículo de Torre do Tombo, Arquivo Histórico Ultrama-
alguns trechos dos textos a que se referem, e
homogeneização
dessas etnias:
nem é preciso dizer, contêm igual-
rino etc),
em geral apenas glosam os documentos.
porém, acima das mente documentos a serem explorados. Para O primeiro esforço de síntese da legislação
primeiras alguns desses arquivos, existem inventários de e política indigenista coloniais foi feito pelo
cachoeiras, a
diversidade étnica
documentos que em muito podem auxiliar a "pioneiro" João Francisco Lisboa, em seu 71-
se mantinha. pesquisa, como é o caso de Sousa (s.d.), Simões mon maranhense, publicado em 1S52 ^^incluí-
de Paula (1952) e Pereira (1955). Os proces- do na publicação de suas Obras). Em sua aná-
sos jurídicos, que se encontram em geral nos lise detalhada da política indigenista colonial
arquivos dos estados, são, como foi menciona- portuguesa, Lisboa transcreve trechos ou gkv
do, uma rica fonte a ser explorada. sa os principais documentos. Nesse clássico se
Entre as fontes de documentos publicadas, encontram a caracterização da legislação in-
as mais importantes compilações de documen- digenista coloniiil como oscilante, hipix^rita e
tos legais referentes especificamente à ques- contraditória e o elogio da ptilítica pomlxili-
tão indígena são Naud. 1970 e 1971, os Docu- na. cjue serão i-etomados a p,uiir de entua .\iíi-

mentos para a história do açúcar, o Livw ipxisso da em meados do século \l.\. Pealigão Ma-
do Maranhão publicado nos Anais da Biblio- lheiro escre\erá o outa> gnuide cUissicv^: A €"3?-

teca Nacional, n?' 66-7. Compilações de leis cnnulão no Bnisil. Ensaii^ históru\>-fti''uik\>-

gerais, como a de Sil\a (1865), contêm ulgmis six^ial. um irruule painel da escnnidão nt^pii
ÍNDIOS LIVRES E ÍNDIOS ESCRAVOS 131

em duas partes (a segun-


e indígena, dividido O resgate do aspecto jurídico da coloniza-
da dedicada
parte, à escravidão indígena, foi ção, abrindo possibilidades para um novo en-
publicada em 1867). Malheiro utiliza Lisboa foque da legislação, encontra-se em Carneiro
como principal fonte de informações para a le- da Cunha (1985a, 1985b, 1986, 1987).
gislação; através dele, Lisboa constituirá a ba- Outros trabalhos importantes dedicados à
se de quase todas as análises subseqiientes. de Kiemen
política indigenista colonial são os
Entre o final do século XIX e o início do XX, (1948, 1954), Alden (1983) e Arnaud (1984,
vários autores abordam a legislação indigenista 1985) para a região amazônica (estado do Ma-
colonial em textos de caráter político, para pro- ranhão), e Thomas (1982) para o estado do Bra-
por novas e positivas leis indigenistas. Basea- sil. Sumários da legislação indigenista para o

dos em Malheiro, seguem basicamente o seu estado do Brasil podem ser encontrados em
itinerário e sua análise. Entre eles Pitanga Hemming (1978) e Alden (1969). Interessan-
(1899), Souza (1910), Miranda e Bandeira tes discussões sobre a política indigenista e a
(1911). Em 1946, Rodrigo Otávio escreve uma escravização encontram-se em Dean (1984),
obra intitulada Os selvagens americanos peran- Farage (1991), Marchant (1980), Monteiro
te o direito, na qual a legislação indigenista co- (1988, 1989), Schwartz (1979) e Sweet (1974).
lonial portuguesa continua sendo considera- Para as muitas outras obras que contêm da-
da contraditória e hipócrita. No Brasil, painéis dos importantes acerca da questão indígena,
gerais da política indigenista só reapareceriam inclusive no tocante à aplicação da política in-
bem mais tarde, nos trabalhos de César (1985) digenista, remeto aos valiosos guias bibliográ-
e Bellotto (1982). ficos de Monteiro e Moscoso (1990).

NOTAS què, além de serem "naturalmente insolentes e atre-


vidos", não têm razão alguma para "aceitar pazes com
(1)Os pedidos de descimentos feitos por moradores lhes oferecerem terras fronteiras de que eles são se-
são amplamente debatidos na legislação do início do nhores assim pelas suas setas como pela sua nature-
século XVIII. Quando a Coroa os permite, insistirá za". O mesmo poder-se-ia dizer da posse garantida das
sempre que "não há de ser a título de administrador", terras nas aldeias e da liberdade prometida para aque-
ou seja, que o morador não poderá ter tais índios sob les que concordam em descer e se aldearem...
seu controle, como se fossem escravos, mas deverá (4) E interessante notar que a política para as aldeias
entregá-los para que sejam aldeados de acordo com se mantém inalterada na Lei de 1611 que restabelece
as diretrizes correntes para os aldeamentos (catequese, a possibilidade de escravização, em relação à de 1609,
salários, tempo de serviço), e que "o prémio que se que declara a liberdade de todos os índios do Brasil,
há de dar às pessoas que os descerem à sua custa se- por serem essas duas leis apontadas como um dos ca-
rá o de se repartirem só com elas durante a sua \ ida". sos flagrantes de contradição e oscilação.
Várias Cartas Régias nesse sentido, com textos prati- (5) Contrariando tais determinações, uma ordem do
camente idênticos, são enviadas tanto para o estado governador da Bahia de 1/8/1682 manda reunir duas
do Brasil quanto para o do Maranhão e Grão-Pará en- aldeias, mesmo que os índios não queiram, pelo bem
tre 1702 e 1707. Tais termos de concessão de desci- da catequese, mais importante que tudo. Do mesmo
mentos a particulares parecem ter sido reafirmados modo, várias determinações de autoridades coloniais
na década de 1780 (cf MacLachlan, 1973:213). colocam a proteção às aldeias e aos jesuítas (que lhes
(2) A Ordem Régia de 9/3/1718 para o estado do Ma- é ordenada) acima da liberdade dos próprios índios
ranhão e Grão-Pará parece constituir a única exce- aldeados, mandando procurar índios ausentes das al-

ção nesse ponto, ao estabelecer dois tipos de desci- deias e trazê-los mesmo que seja à força. Esse tipo
mentos, um voluntário, (jue não apresenta problemas, de diferença entre o que é ordenado pela Coroa e
"e o outro de os descer contra a sua vontade proce- aquilo que as autoridades coloniais —
interj^retando
dendo a ameaços, ou obrigando-os por força a que des- as ordens recebidas de um modo que aparentemente
çam", legalizado para os selvagens e antropófagos. E as contraria — decidem é um dos temas (jue mere-
importante que se prossiga a compilação dos textos cem ser analisados.
legais de modo a saber se se trata de uma única exce- (6) Os documentos cjue se referem às taxas e formas
ção, tentando então relacioná-la a conjunturas espe- de pagamento são muito ehcidatixos (juanto às reais
cíficas, na medida em que contraria princípios recor- condições de trabalho dos índios das aldeias: de seus
rentes (juanto ao tratamento das poj^ulações indígenas. "salários", em geral |iagos ao adnúnistrador das aldeia.s,

(3) A do que se lhes promete para cjue desçam


iroiúa os índios costumam receber apenas uma Iração, e em
ou aceitem a pacificação é apontada pelo secretário espécie. .Mguns documentos refereni-se claramente
Bernardino Vieira Ravasco em (Jarta de .5/8/1694. Nela ao baixo custo da reunuieração dos índios, lembran-
o secretário advoga a guerra como único meio de fa- do os comentários dos primeiros cronistas, mara\ ilha-
zer cessar as hostilidades de "uns bárbaros valorosos" dos diante do lato de os índios trocarem bens \alios()S
132 mSTORU DOS ÍNDIOS \0 BRASIL

por bugigangas". Sobre o baixo \alor dos salários" recomendação de destruição de todas as aldeias de
pagos aos índios, ver também Alden (1983:96). que pode descer" gentio hostil, que se encontra no
(7) "Pri\ ilégios" duvidosos quando se considera a fre- Regimento de 24/12/1654 de entrada na Bahia, certa-
quência das fugas de índios das aldeias, cujo constante mente daria margem à destruição e escraxização de
esNUzianiento. causado em grande parte por essas fu- outros indígenas além daqueles responsáveis pelas
gas. le%'a a incentixar noxus descimentes para repo\oá- hostilidades que justificavam tais guerras... Para evi-
las. Mas é preciso considerar que tal evasão é, de mo- tar esse tipo— proN ável — de abuso, a Carta Régia
do geral, causada por maus-tratos por parte de mora- de 13/8/1665 recomenda ao \ice-rei do Brasil que trate
dores ou administradores das aldeias, segiuido o que de impedir que se cometam violências contra índios
se depreende dos documentos. Resta saber se a rea- que não forem os autores comprovados das hostilida-
lização do sistema de aldeamentos tal qual estava pre- des, reafirmando a Lei de 1611.
\ista na legislação a teria e\ itado. Instruções de 19/1/1749 são um exemplo claro
(11) .\s

(8) Nas pala\ ras de Molina: "é lícito impedir aos in- dos efeitos de respostas (ou imagens) indígenas diver-
fiéis e a quaisquer outros homens os pecados que re- sas sobre o projeto colonizador: declaram guerra aos
dundam em injúria dos inocentes. Se não quiserem Paiaguá e aos Ka>~apó, qualificados como 'o gentio
abster-se deles, ha\ erá justamente causa para lhes mo- mais bárbaro e alheio a toda cultura e civilidade que
ver a guerra [...]. Por exemplo, se sacrificam os ino- até agora se descobriu no Brasil", mas não aos Pareci
centes ou lhes dão a morte para se alimentarem das e outras nações "pacíficas" e consideradas próprias
suas carnes (...]" (apud J. S. S. Dias, 1982:199, n? 214). para a civilização. Os Paiaguá e os Kavap>ó, juntamen-
(9) Esse parecer, considerando as informações que re- te com os Mura, Guaicuru e Kadiwéu ficaram famo-
cebeu acerca da guerra mo\ida na região do rio Ne- sos por sua reaçào violenta à colonização e constitui-
gro por Belchior Mendes, na década de 1720, não a rão exatamente os casos de e.xceção à liberdade de-
julga justa, declarando ilegais os cati\ eiros dela de- clarada pela Carta Régia de 12/5/17S9. Os Pareci, por
correntes: "a falsidade da causa expressa nas senten- sua V ez, já eram v elhos conhecidos dos paulistas que,
ças anula as mesmas sentenças [de cativeiro]". dada a sua "docilidade", os vinham escravizando ha-
(10) A expressão "que se entende", assim como a