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Estruturação dos diversos níveis de atenção à saúde mental

A Política Nacional de Saúde Mental é uma ação do Governo Federal,


coordenada pelo Ministério da Saúde, que compreende as estratégias e diretrizes
adotadas pelo país para organizar a assistência às pessoas com necessidades de
tratamento e cuidados específicos em saúde mental. Abrange a atenção a pessoas com
necessidades relacionadas a transtornos mentais como depressão, ansiedade,
esquizofrenia, transtorno afetivo bipolar, transtorno obsessivo-compulsivo etc, e
pessoas com quadro de uso nocivo e dependência de substâncias psicoativas, como
álcool, cocaína, crack e outras drogas.

O acolhimento dessas pessoas e seus familiares é uma estratégia de atenção


fundamental para a identificação das necessidades assistenciais, alívio do sofrimento e
planejamento de intervenções medicamentosas e terapêuticas, se e quando
necessárias, conforme cada caso. Os indivíduos em situações de crise podem ser
atendidos em qualquer serviço da Rede de Atenção Psicossocial, formada por várias
unidades com finalidades distintas, de forma integral e gratuita, pela rede pública de
saúde.

CAPS

Definição

O CAPS é um serviço de saúde aberto e comunitário do SUS, local de referência


e tratamento para pessoas que sofrem com transtornos mentais, psicoses, neuroses
graves e persistentes e demais quadros que justifiquem sua permanência num
dispositivo de atenção diária, personalizado e promotor da vida.

Os CAPS podem ser de tipo I, II, III, álcool e drogas (CAPSad) e infantojuvenil
(CAPSi). Para sua implantação deve-se primeiro observar o critério populacional, cujos
parâmetros são definidos da seguinte forma (Ref.:Portaria GM nº. 336, de 19/02/02):

- Municípios até 20.000 habitantes – rede básica com ações de saúde mental;

- Municípios entre 20.000 e 70.000 habitantes – CAPS I e rede básica com ações de
saúde mental;

- Municípios entre 70.000 e 200.000 habitantes – CAPS II, CAPS ad e rede básica com
ações de saúde mental;

- Municípios com mais de 200.000 habitantes – CAPS II, CAPS III, CAPSad, CAPSi e
rede básica com ações de saúde mental e capacitação do SAMU. Deve-se ainda
observar a realidade local, para a escolha do tipo de CAPS mais adequada ao porte do
município.
Tipos

 CAPS I: Atendimento a todas as faixas etárias, para transtornos mentais graves


e persistentes, inclusive pelo uso de substâncias psicoativas, atende cidades e
ou regiões com pelo menos 15 mil habitantes.

 CAPS II: Atendimento a todas as faixas etárias, para transtornos mentais graves
e persistentes, inclusive pelo uso de substâncias psicoativas, atende cidades e
ou regiões com pelo menos 70 mil habitantes.

 CAPS i: Atendimento a crianças e adolescentes, para transtornos mentais graves


e persistentes, inclusive pelo uso de substâncias psicoativas, atende cidades e
ou regiões com pelo menos 70 mil habitantes.

 CAPS ad Álcool e Drogas: Atendimento a todas faixas etárias, especializado em


transtornos pelo uso de álcool e outras drogas, atende cidades e ou regiões com
pelo menos 70 mil habitantes.

 CAPS III: Atendimento com até 5 vagas de acolhimento noturno e observação;


todas faixas etárias; transtornos mentais graves e persistentes inclusive pelo uso
de substâncias psicoativas, atende cidades e ou regiões com pelo menos 150 mil
habitantes.

 CAPS ad III Álcool e Drogas: Atendimento e 8 a 12 vagas de acolhimento


noturno e observação; funcionamento 24h; todas faixas etárias; transtornos pelo
uso de álcool e outras drogas, atende cidades e ou regiões com pelo menos 150
mil habitantes.

Objetivos

O objetivo dos CAPS é oferecer atendimento à população de sua área de


abrangência, realizando o acompanhamento clínico e a reinserção social dos usuários
pelo acesso ao trabalho, lazer, exercício dos direitos civis e fortalecimento dos laços
familiares e comunitários. É um serviço de atendimento de saúde mental criado para ser
substitutivo às internações em hospitais psiquiátricos.

Os CAPS visam:

• prestar atendimento em regime de atenção diária;

• gerenciar os projetos terapêuticos oferecendo cuidado clínico eficiente e


personalizado;

• promover a inserção social dos usuários através de ações intersetoriais que


envolvam educação, trabalho, esporte, cultura e lazer, montando estratégias conjuntas
de enfrentamento dos problemas. Os CAPS também têm a responsabilidade de
organizar a rede de serviços de saúde mental de seu território;

• dar suporte e supervisionar a atenção à saúde mental na rede básica, PSF


(Programa de Saúde da Família), PACS (Programa de Agentes Comunitários de
Saúde);

• regular a porta de entrada da rede de assistência em saúde mental de sua


área;

• coordenar junto com o gestor local as atividades de supervisão de unidades


hospitalares psiquiátricas que atuem no seu território;

• manter atualizada a listagem dos pacientes de sua região que utilizam


medicamentos para a saúde mental.

Profissionais

CAPS I

1 médico psiquiatra ou médico com formação em saúde mental.

1 enfermeiro.

3 profissionais de nível superior de outras categorias profissionais: psicólogo, assistente


social, terapeuta ocupacional, pedagogo ou outro profissional necessário ao projeto
terapêutico.

4 profissionais de nível médio: técnico e/ou auxiliar de enfermagem, técnico


administrativo, técnico educacional e artesão.

CAPS II

1 médico psiquiatra

1 enfermeiro com formação em saúde mental.

4 profissionais de nível superior de outras categorias profissionais: psicólogo, assistente


social, terapeuta ocupacional, pedagogo, professor de educação física ou outro
profissional necessário ao projeto terapêutico.

6 profissionais de nível médio: técnico e/ou auxiliar de enfermagem, técnico


administrativo, técnico educacional e artesão.

CAPS III

2 médicos psiquiatras
1 enfermeiro com formação em saúde mental.

5 profissionais de nível superior de outras categorias profissionais: psicólogo, assistente


social, terapeuta ocupacional, pedagogo, professor de educação física ou outro
profissional necessário ao projeto terapêutico.

8 profissionais de nível médio: técnico e/ou auxiliar de enfermagem, técnico


administrativo, técnico educacional e artesão.

CAPSi

1 médico psiquiatra, ou neurologista ou pediatra com formação em saúde mental. 1


enfermeiro

4 profissionais de nível superior entre as seguintes categorias profissionais: psicólogo,


assistente social, enfermeiro, terapeuta ocupacional, fonoaudiólogo, pedagogo ou outro
profissional necessário ao projeto terapêutico.

5 profissionais de nível médio: técnico e/ou auxiliar de enfermagem, técnico


administrativo, técnico educacional e artesão.

CAPSad

1 médico psiquiatra.

1 enfermeiro com formação em saúde mental.

1 médico clínico, responsável pela triagem, avaliação e acompanhamento das


intercorrências clínicas.

4 profissionais de nível superior entre as seguintes categorias profissionais: psicólogo,


assistente social, enfermeiro, terapeuta ocupacional, pedagogo ou outro profissional
necessário ao projeto terapêutico.

6 profissionais de nível médio: técnico e/ou auxiliar de enfermagem, técnico


administrativo, técnico educacional e artesão.

Ações realizadas

Oficinas terapêuticas

As oficinas terapêuticas são uma das principais formas de tratamento oferecido


nos CAPS. Os CAPS têm, freqüentemente, mais de um tipo de oficina terapêutica.
Essas oficinas são atividades realizadas em grupo com a presença e orientação de um
ou mais profissionais, monitores e/ou estagiários. Elas realizam vários tipos de
atividades que podem ser definidas através do interesse dos usuários, das
possibilidades dos técnicos do serviço, das necessidades, tendo em vista a maior
integração social e familiar, a manifestação de sentimentos e problemas, o
desenvolvimento de habilidades corporais, a realização de atividades produtivas, o
exercício coletivo da cidadania.

De um modo geral, as oficinas terapêuticas podem ser:

• Oficinas expressivas: espaços de expressão plástica (pintura, argila, desenho


etc.), expressão corporal (dança, ginástica e técnicas teatrais), expressão verbal
(poesia, contos, leitura e redação de textos, de peças teatrais e de letras de música),
expressão musical (atividades musicais), fotografia, teatro.

• Oficinas geradoras de renda: servem como instrumento de geração de renda


através do aprendizado de uma atividade específica, que pode ser igual ou diferente da
profissão do usuário. As oficinas geradoras de renda podem ser de: culinária,
marcenaria, costura, fotocópias, venda de livros, fabricação de velas, artesanato em
geral, cerâmica, bijuterias, brechó, etc.

 Oficinas de alfabetização: esse tipo de oficina contribui para que os usuários que
não tiveram acesso ou que não puderam permanecer na escola possam
exercitar a escrita e a leitura, como um recurso importante na (re)construção da
cidadania.

Outras atividades

São atividades comuns nos CAPS:

• Tratamento medicamentoso: tratamento realizado com remédios chamados


medicamentos psicoativos ou psicofármacos.

• Atendimento a grupo de familiares: reunião de famílias para criar laços de


solidariedade entre elas, discutir problemas em comum, enfrentar as situações difíceis,
receber orientação sobre diagnóstico e sobre sua participação no projeto terapêutico.

• Atendimento individualizado a famílias: atendimentos a uma família ou a


membro de uma família que precise de orientação e acompanhamento em situações
rotineiras, ou em momentos críticos.

• Orientação: conversa e assessoramento individual ou em grupo sobre algum


tema específico, por exemplo, o uso de drogas.

• Atendimento psicoterápico: encontros individuais ou em grupo onde são


utilizados os conhecimentos e as técnicas da psicoterapia.
• Atividades comunitárias: atividades que utilizam os recursos da comunidade e
que envolvem pessoas, instituições ou grupos organizados que atuam na comunidade.
Exemplo: festa junina do bairro, feiras, quermesses, campeonatos esportivos, passeios
a parques e cinema, entre outras.

• Atividades de suporte social: projetos de inserção no trabalho, articulação com


os serviços residenciais terapêuticos, atividades de lazer, encaminhamentos para a
entrada na rede de ensino, para obtenção de documentos e apoio para o exercício de
direitos civis através da formação de associações de usuários e/ou familiares.

• Oficinas culturais: atividades constantes que procuram despertar no usuário um


maior interesse pelos espaços de cultura (monumentos, prédios históricos, saraus
musicais, festas anuais etc.) de seu bairro ou cidade, promovendo maior integração de
usuários e familiares com seu lugar de moradia.

• Visitas domiciliares: atendimento realizado por um profissional do CAPS aos


usuários e/ou familiares em casa.

• Desintoxicação ambulatorial: conjunto de procedimentos destinados ao


tratamento da intoxicação/ abstinência decorrente do uso abusivo de álcool e de outras
drogas.

Público alvo

As pessoas atendidas nos CAPS são aquelas que apresentam intenso


sofrimento psíquico, que lhes impossibilita de viver e realizar seus projetos de vida.
São, preferencialmente, pessoas com transtornos mentais severos e/ou persistentes, ou
seja, pessoas com grave comprometimento psíquico, incluindo os transtornos
relacionados às substâncias psicoativas (álcool e outras drogas) e também crianças e
adolescentes com transtornos mentais.

Os usuários dos CAPS podem ter tido uma longa história de internações
psiquiátricas, podem nunca ter sido internados ou podem já ter sido atendidos em
outros serviços de saúde (ambulatório, hospital-dia, consultórios etc.). O importante é
que essas pessoas saibam que podem ser atendidas e saibam o que são e o que
fazem os CAPS.

Programas

Programa de Volta para Casa

O programa

O Programa "De Volta para Casa", criado pelo Ministério da Saúde, vem realizar
a regulamentação do auxílio-reabilitação psicossocial para assistência,
acompanhamento e integração social, fora da unidade hospitalar, de pessoas
acometidas de transtornos mentais com história de longa internação psiquiátrica (dois
anos ou mais de internação).

Importância

O programa irá atender a um segmento da população brasileira quase


integralmente desprovido de meios de amparo social e dos benefícios assegurados na
legislação que dispõe sobre o bem-estar social e proteção do trabalho. Assegura ainda
um meio eficaz de suporte social, evitando o agravamento do quadro clínico e do
abandono social.

Objetivo

Contribuir efetivamente para o processo de inserção social dessas pessoas,


incentivando a organização de uma rede ampla e diversificada de recursos
assistenciais e de cuidados, facilitadora do convívio social, capaz de assegurar o bem-
estar global e estimular o exercício pleno de seus direitos civis, políticos e de cidadania.

Este programa faz parte do processo de Reforma Psiquiátrica, que visa reduzir
progressivamente os leitos psiquiátricos; qualificar, expandir e fortalecer a rede extra-
hospitalar - Centros de Atenção Psicossocial (CAPS),Serviços Residenciais
Terapêuticos (SRTs)e Unidades Psiquiátricas em Hospitais Gerais (UPHG)- e incluir as
ações da saúde mental na atenção básica e Saúde da Família.

Auxílio-reabilitação psicossocial

O auxílio-reabilitação psicossocial é o principal componente do Programa "De


Volta para Casa", estratégia do Governo Federal para estimular a assistência extra-
hospitalar, criado em 31.07.2003, na lei n° 10.708.

O pagamento mensal do auxílio é realizado diretamente ao próprio beneficiário,


no valor de R$ 240,00, por um período de um ano, podendo ser renovado caso a
pessoa não esteja ainda em condições de se reintegrar completamente à sociedade.

Quem pode se beneficiar

- Pessoas acometidas de transtornos mentais egressos de internação psiquiátrica em


hospitais cadastrados no SIH-SUS, por um período ininterrupto igual ou superior a dois
anos, quando a situação clínica e social não justifique a permanência em ambiente
hospitalar e indique a possibilidade de inclusão em programa de reintegração social
desenvolvido pelo município;

- Pessoas inseridas em moradias caracterizadas como serviços residenciais


terapêuticos ou egressas de Hospital de Custódia e Tratamento Psiquiátrico, em
conformidade com a decisão judicial (Juízo de Execução Penal), por igual período de
internação, também podem ser beneficiárias do auxílio.

Importante: Todos os beneficiários devem possuir condições clínicas e sociais que não
justifiquem a permanência em ambiente hospitalar, avaliadas por equipe de saúde
mental local, assim como expresso consentimento do paciente ou de seu representante
legal em se submeter ao programa.

Residências Terapêuticas

O que é

O Serviço Residencial Terapêutico (SRT) – ou residência terapêutica ou


simplesmente "moradia" – são casas localizadas no espaço urbano, constituídas para
responder às necessidades de moradia de pessoas portadoras de transtornos mentais
graves, institucionalizadas ou não.

O número de usuários pode variar desde 1 indivíduo até um pequeno grupo de


no máximo 8 pessoas, que deverão contar sempre com suporte profissional sensível às
demandas e necessidades de cada um.

O suporte de caráter interdisciplinar (seja o CAPS de referência, seja uma equipe


da atenção básica, sejam outros profissionais) deverá considerar a singularidade de
cada um dos moradores, e não apenas projetos e ações baseadas no coletivo de
moradores. O acompanhamento a um morador deve prosseguir, mesmo que ele mude
de endereço ou eventualmente seja hospitalizado.

O processo de reabilitação psicossocial deve buscar de modo especial a


inserção do usuário na rede de serviços, organizações e relações sociais da
comunidade. Ou seja, a inserção em um SRT é o início de longo processo de
reabilitação que deverá buscar a progressiva inclusão social do morador.

Quem pode se beneficiar

- Portadores de transtornos mentais, egressos de internação psiquiátrica em hospitais


cadastrados no SIH/SUS, que permanecem no hospital por falta de alternativas que
viabilizem sua reinserção no espaço comunitário.

- Egressos de internação em Hospital de Custódia e Tratamento Psiquiátrico, em


conformidade com decisão judicial (Juízo de Execução Penal).

- Pessoas em acompanhamento nos Centros de Atenção Psicossocial (CAPS), para as


quais o problema da moradia é identificado, por sua equipe de referência, como
especialmente estratégico no seu projeto terapêutico. Aqui se encontram aquelas
localidades que, a despeito de não possuírem hospitais psiquiátricos, freqüentemente
se defrontam com questões ligadas à falta de espaços residenciais para alguns
usuários de serviços de saúde mental.

- Moradores de rua com transtornos mentais severos, quando inseridos em projetos


terapêuticos especiais acompanhados nos CAPS.

Tipos de SRTs existentes

Cada casa deve ser organizada segundo as necessidades e gostos de seus


habitantes: afinal é uma moradia! Por isso, a rigor, deverão existir tantos tipos de
moradias quanto de moradores. No entanto, pensando em termos bem gerais, temos
dois grandes tipos de SRTs:

SRT I – O suporte focaliza-se na inserção dos moradores na rede social existente


(trabalho, lazer, educação, etc.). O acompanhamento na residência é realizado
conforme recomendado nos programas terapêuticos individualizados dos moradores e
também pelos Agentes Comunitários de Saúde do PSF, quando houver. Devem ser
desenvolvidas, junto aos moradores, estratégias para obtenção de moradias definitivas
na comunidade. Este é o tipo mais comum de residências, onde é necessário apenas a
ajuda de um cuidador (pessoa que recebe capacitação para este tipo de apoio aos
moradores: trabalhador do CAPS, do PSF, de alguma instituição que faça esse trabalho
do cuidado específico ou até de SRTs que já pagam um trabalhador doméstico de
carteira assinada com recursos do De Volta Para Casa).

SRT II – Em geral, cuidamos de nossos velhos, doentes e/ou dependentes físicos,


inclusive com ajuda de profissionais: o SRT II é a casa dos cuidados substitutivos
familiares desta população institucionalizada, muitas vezes, por uma vida inteira.
O suporte focaliza-se na reapropriação do espaço residencial como moradia e na
inserção dos moradores na rede social existente. Constituída para clientela carente de
cuidados intensivos, com monitoramento técnico diário e pessoal auxiliar permanente
na residência, este tipo de SRT pode diferenciar-se em relação ao número de
moradores e ao financiamento, que deve ser compatível com recursos humanos
presentes 24h/dia.