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História, Memória, Literatura: O testemunho na era das catástrofes – Márcio

Seligmann Silva

Literatura de Testemunho, Trauma e Real

A Literatura de testemunho é uma face nova da literatura que vem à tona em nossa
época de catástrofes. Frente a tantas formas de violências no século XX, a título de
exemplo: 1ª Guerra Mundial; 2ª Guerra Mundial; Ditaduras Militares; Revolução Russa,
Cubana e Chinesa, Guerra do Vietnã, dentre tantas outras atrocidades, surge o campo que
indaga sobre a representatividade dessa violência na escrita, se questiona sobre os limites
da palavra e como as marcas da violência inscrevem-se na forma literária.
Esta literatura é fundamentalmente marcada pelos conceitos freudiano de real e
trauma. É importante destacar que o primeiro conceito não deve ser confundido com
realidade, o conceito de real psicanalítico se refere ao resto não simbolizável, algo que
resiste a representação, todavia.
Em 1920, Freud publica o artigo Além do princípio do prazer1. Neste texto, ele
definirá o trauma como uma ruptura no escudo protetor do aparelho psíquico, que pode
ser causado por uma grande carga de estímulos. Esse excesso de estímulo excede a
capacidade de assimilação do nosso aparelho psíquico, é devido a este excesso
inassimilável que nós nos assustamos, entramos em choque. Portanto, no trauma, devido
ao fator surpresa que o aparelho psíquico é pego no momento de uma grande descarga de
estímulo, o eu não consegue prontamente uma representação para este evento.
O aparelho psíquico diante deste excesso intraduzível, manifesta-se por meio do
fenômeno da repetição, daí começam os sonhos traumáticos, flashbacks, etc. Vejamos
que a repetição é uma tentativa do próprio aparelho psíquico de lidar com este material
que não foi representado. Nas palavras de Seligmann-Silva (2008, p. 69): “[...] o trauma
é caracterizado por ser uma memória de um passado que não passa”.
Não devemos nos esquecer que aqueles que viveram inteiramente a violência dos
campos de concentração, das ditaduras e das revoluções não puderam testemunhar, isto
é, o testemunho que nos chega é sempre parcial, incompleto, faltoso em todos os sentidos.
Conforme afirma Levi (1990, p. 47) “Repito, não somos nós, os sobreviventes, as
autênticas testemunhas”. Deste modo, temos a importância dos relatos ficcionais frente
essas situações de extrema violência, a imaginação, a ficção é uma maneira de

1
Jenseits des Lustprinzips.
testemunhar o acontecido por aqueles que não mais podem e não deixar a memória ser
apagada, silenciada.
Obviamente, “essa impossibilidade de criar comparações e metáforas, em suma,
de simbolizar o real, é que torna o trabalho de luto e de perlaboração uma tarefa sem fim,
ao menos do ponto de vista das vítimas”. Isto é, o Holocausto trouxe consigo um novo
paradigma para a história, a literatura, temos um evento limite onde a palavra, a razão,
não consegue penetrar sozinha. Talvez as artes, sejam uma das possíveis formas de se
trabalhar essa questão onde a palavra deixa de representar algo.