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FACULDADE DE DIREITO SANTO AGOSTINHO - FADISA

JOÃO HENRIQUE COELHO FERREIRA

EMANCIPAÇÃO VOLUNTÁRIA E A RESPONSABILIDADE


CIVIL DOS PAIS POR ATOS ILÍCITOS PRATICADOS PELO
FILHO MENOR

MONTES CLAROS/MG
MAIO/2016
1

JOÃO HENRIQUE COELHO FERREIRA

EMANCIPAÇÃO VOLUNTÁRIA E A RESPONSABILIDADE


CIVIL DOS PAIS POR ATOS ILÍCITOS PRATICADOS PELO
FILHO MENOR

Trabalho de Conclusão de Curso de


apresentado à Faculdade de Direito Santo
Agostinho – FADISA, como requisito parcial
para obtenção do título de Bacharel em
Direito.
Orientadora: Paulo Ricardo Caldeira Dias

MONTES CLAROS/MG
MAIO/2016
2

FACULDADES DE DIREITO SANTO AGOSTINHO – FADISA

A monografia EMANCIPAÇÃO VOLUNTÁRIA E A RESPONSABILIDADE CIVIL


DOS PAIS POR ATOS ILÍCITOS PRATICADOS PELO FILHO MENOR,
apresentado pelo acadêmico João Henrique Coelho Ferreira, com exigência para
obtenção do grau de bacharel em Direito, foi julgada ___________________ por
todos os membros da banca Examinadora.

Montes Claros – MG ______ de __________________ de 2016.

Izabela Alves Drumond


Supervisora de monografia

Banca Examinadora

Presidente: Paulo Ricardo Caldeira Dias


Membro:
Membro:
3

Agradeço a Deus por ter me dado saúde e força para superar


as dificuldades. A minha mãe, pelo carinho, incentivo e amor,
meu apoio incondicional. Agradeço a Paulo Ricardo, que me
orientou com toda paciência, me dando o suporte necessário a
realização deste trabalho, pelas suas correções e incentivos.
Aos meus amigos da Faculdade, em especial Luis Victor, pelo
companheirismo, a ajuda e por terem sempre acreditado em
meu potencial. E a todos que direta ou indiretamente fizeram
parte da minha formação acadêmica deste o meu ingresso nos
estudos, o meu muito obrigado. Desejo a todas essas pessoas
muito sucesso.
4

“A vida lhe deu muitos dons e você os transformou em talentos;


lhe deu uma chance e você transformou em oportunidade; ela
lhe deu luz e força e você traçou um caminho rumo ao
sucesso.”
5

RESUMO

Esta pesquisa realizou um estudo sobre a Responsabilidade Civil, com o objetivo de


compreender a responsabilidade dos pais por atos ilícitos praticados pelo filho
menor, em casos de emancipação voluntária. Desta forma, elucidando se os
genitores são responsáveis pelos danos causados pelo filho emancipado
voluntariamente, e, em caso afirmativo, buscou-se compreender quais os motivos
dessa responsabilidade. Esta proposta de estudo surgiu na faculdade, a partir do
conhecimento adquirido através de leituras, pesquisas e conteúdos ministrados em
sala. Assim, o presente estudo analisou o instituto da responsabilidade civil e da
emancipação no âmbito do poder familiar, uma vez que este se trata de instituto de
fundamental importância para a educação dos filhos até atingirem a capacidade
plena. Como metodologia, optou-se pela revisão das doutrinas, de artigos
pertinentes ao tema, e também das jurisprudências. Após a realização das análises,
os resultados apontaram para a responsabilidade dos pais, entretanto, constatou-se
que em algumas situações, é possível que o filho responda de forma subsidiária.

Palavras-chave: emancipação; poder familiar; ato ilícito; responsabilidade civil.


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SUMÁRIO

INTRODUÇÃO ............................................................................................................ 7

1 DA RESPONSABILIDADE CIVIL ............................................................................ 8


1.1 Disposições conceituais e a função da responsabilidade civil............................... 8
1.2 Diferenças entre obrigação e responsabilidade .................................................. 12
1.3 Ato ilícito .............................................................................................................. 14

2 O PODER FAMILIAR ............................................................................................. 19


2.1 Conceito, titularidade e caracteristicas do poder familiar .................................... 19
2.2 Extinção e suspensão do poder familiar .............................................................. 23
2.3 Emancipação....................................................................................................... 27

3 A RESPONSABILIDADE CIVIL DOS PAIS POR ATOS ILÍCITOS PRATICADOS


PELO FILHO MENOR NA EMANCIPAÇÃO VOLUNTÁRIA .................................... 31
3.1 Disposições gerais .............................................................................................. 31
3.2 Imputabilidade ..................................................................................................... 33
3.3 A responsabilidade civil dos pais na emancipação voluntária ............................. 36

CONSIDERAÇÕES FINAIS ...................................................................................... 41


REFERÊNCIAS ......................................................................................................... 42
7

INTRODUÇÃO

O presente trabalho tem como tema a emancipação voluntária e a


responsabilidade civil dos pais por atos ilícitos praticados pelo filho menor, estando a
problemática abordada relacionada a esta responsabilidade civil dos pais em
decorrência de dano causados pelo filho emancipado voluntariamente.
O objetivo da pesquisa foi esclarecer as dúvidas relativas à
responsabilidade dos pais quanto ao ato ilícito cometido pelo filho menor, uma vez
que foi emancipado voluntariamente, de modo que se identifique o motivo pelo qual
aqueles não se eximirão de suas responsabilidades quando do cometimento de tais
atos. Além disso, também será analisada a responsabilidade do filho emancipado
quanto ao ato danoso.
A escolha do tema tem grande relevância social atualmente, pois os atos
ilícitos que causam danos a outrem, especialmente os cometidos por menores, pelas
implicações legais pertinentes afetam, sobremaneira, o cotidiano da sociedade.
Sendo assim, surge a necessidade de se apurar, de fato, o limite da
responsabilidade dos pais sobre o filho, quando existir o cometimento de ato danoso
a outrem, mesmo que o menor esteja emancipado voluntariamente.
Como metodologia, as análises serviram-se das doutrinas, de artigos
científicos pertinentes à temática estudada, bem como das jurisprudências.
No primeiro capítulo, procurou-se apresentar o conceito de
responsabilidade civil, suas funções, as diferenças entre obrigação e
responsabilidade e o que é ato ilícito para o ordenamento jurídico.
No segundo capítulo, fez-se necessário uma abordagem sobre o poder
familiar, titularidade e características. Foi possível observar que os pais possuem
direitos e deveres que lhe são inerentes, sendo responsáveis pela educação dos
filhos, pois devem oferecer-lhes criação e ensinamentos que servirão para a
preservação da integridade física da criança ou adolescente até que esse venha a
atingir a maioridade civil.
O terceiro capítulo versou sobre a responsabilidade civil dos pais por atos
ilícitos praticados pelo filho menor na emancipação voluntária, fazendo uma análise
sobre o que é a imputabilidade e quem são os inimputáveis perante a lei, inclusive
trazendo precedentes jurisprudenciais.
8

1 DA RESPONSABILIDADE CIVIL

1.1 Disposições Conceituais E A Função Da Responsabilidade Civil

A responsabilidade civil funciona como uma garantia para as relações


humanas, protegendo os atos dos indivíduos e preservando um convívio social
equilibrado, regulamentado através de leis que punem os atos que estão em
desconformidade. Perante os atos que são contrários à lei, os sujeitos ficam
obrigados a assumirem as consequências de reparação do bem do ofendido.
A responsabilidade civil está disposta na Lei n° 10.406/02, atual Código
Civil, que, nos casos de indivíduo lesado, garante o cumprimento da obrigação de
indenizar. Para Diniz (2014), a responsabilidade civil acarreta na aplicação de
medidas às quais o indivíduo fica submetido, resultando na reparação do dano em
razão do próprio ato praticado.
Para Gonçalves (2012), o que se busca com a aplicação dessas medidas
é que haja um retorno ao estado anterior em que se encontrava a coisa lesada ou
danificada, desta forma, recompondo-a. Pinto (2014, p.644), por sua vez, acredita
que a responsabilidade civil nada mais é do que “a reparação dos injustos,
resultante da violação de um dever de cuidado”. Assim, está ligada a um
comportamento que provoque o dano, sendo obrigatório o dever de indenizar.
Para Stolze e Pamplona Filho (2012, p. 46):

A acepção que se faz de responsabilidade, portanto, está ligada ao


surgimento de uma obrigação derivada, ou seja, um dever jurídico
sucessivo, em função da ocorrência de um fato jurídico lato sensu.

A responsabilidade civil, como cita Cavalieri Filho (2012), parte do


princípio do NEMINEM LEADERE, que, para Silva (2014, p. 1446), significa:

A ninguém ofender é o que se traduz da locução latina neminem


laedere, um dos três juris praecepta, insertos na Institutas de
Justiniano, na expressão alterum non laedere (a outrem não
ofender). O neminem laedere fundando um dever social, elementar à
própria ordem jurídica, impõe, em princípio, que não se deve lesar a
ninguém, respeitando os direitos alheios, como os outros devem
respeitar os direitos de todos.
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De outro modo, Gonçalves (2012) diz que do ato que gera a lesão, vem
consigo, em seu bojo como fato social, o problema da responsabilidade. Assim, esta
se destina a restabelecer a harmonia que foi violada pelo dano que constituiu a fonte
geradora da responsabilidade civil, sendo cabível a esta realizar a indenização.
Quanto à responsabilidade civil, Venosa (2013) relata que, a princípio,
busca-se restaurar o equilíbrio patrimonial e moral violados, funcionando como
objetivo no ordenamento moderno. Além disso, busca expandir cada vez mais o
dever de indenizar, para diminuir gradativamente os prejuízos irressarcidos. Na
definição de Pinto (2014), esta responsabilidade e a conduta que resulta em ato
ilícito estão em conexão, constituindo-se um dever de indenizar o indivíduo após a
lesão.
Por decorrer de uma conduta voluntária, Gonçalves (2012) vê a
responsabilidade civil como violadora do dever jurídico, pois surge da prática de um
ato jurídico, que pode ser lícito ou ilícito. O ato jurídico possui espécie de “fato
jurídico”, que são situações do cotidiano consideradas relevantes pelo direito. Os
que não repercutem em algo no âmbito jurídico são considerados como meros fatos,
dos quais o direito não pretende se ocupar por não se constituírem fatos jurídicos.
Para uma caracterização, Venosa (2013) faz menção a alguns requisitos
que configuram também o dever de indenizar, a ação ou omissão voluntária, a
relação de causalidade ou nexo causal, o dano e a culpa – que em alguns
momentos podem ser dispensados, possuindo a noção de culpa presumida. Por ser
caracterizado como prejuízo causado a outrem, se desdobra para ser econômico ou
moral. Em casos de dano patrimonial, este deve ser reparado, para restaurar o
equilíbrio do patrimônio danificado.
Segundo Cavalieri Filho (2012, p. 76), "o dano é sem dúvida, o grande
vilão da responsabilidade civil. Não haveria que se falar em indenização, nem em
ressarcimento, se não houvesse o dano". Portanto, a responsabilidade civil é
entendida como um dever que nasce a partir de um dano causado, sendo
necessário repará-lo. Deste modo, deve-se observar sempre o resultado do dano,
existindo, conjuntamente com este, o nexo de causalidade entre conduta e o dano
causado.
Assim, a ideia de ressarcimento tem por objetivo garantir uma relação
jurídica equilibrada. A função exercida pela responsabilidade civil é unicamente a de
10

reparar o dano causado à vítima, retornando a situação ao estado que antes se


encontrava, configurando assim como uma espécie de ressarcimento. Segundo
Ulhoa (2012), o objetivo primeiramente é a recomposição do patrimônio, já que o
indivíduo tem direito ao recebimento da compensação. Através da pecúnia, pode-se
reconhecer este direito ou não, resultando na redução do patrimônio do devedor
causador do dano ou quem por ele for responsável. Torna-se visível uma
desigualdade no dever de recomposição da coisa, ocasionando à redução do
patrimônio de quem lesa, custeando este a reforma do patrimônio do lesado.
Obriga-se então a reparação dos prejuízos ao agente causador do dano.
Para Cavalieri Filho (2012), isto ocorre inspirando-se no elemento justiça, por haver
o rompimento do equilíbrio jurídico-econômico existente entre causador e a vítima.
Assim, surge a necessidade de retomar o bem ao estado em que se encontrava,o
que é feito através da indenização que é fixada proporcionalmente ao dano.
Rosenvald (2013, p. 65) complementa informando que "o ressarcimento será a
consequência negativa (sanção) do acertamento da responsabilidade".
Pode-se observar na responsabilidade civil uma função punitiva do
indivíduo, que se constitui em outro fator mencionado por Gonçalves (2012) e se
torna de relevante importância o fato deste ato de punição induzir o autor do dano ao
não cometimento de novas condutas danosas.
Na doutrina, a responsabilidade civil se divide em subjetiva e objetiva,
como se assevera Stolze e Pamplona Filho (2012), segundo os quais (2012, p. 59):

[...] a responsabilidade subjetiva provém do dano causado em função


de ato doloso ou culposo. [...] na objetiva o dolo ou culpa na conduta
do agente causador do dano é irrelevante juridicamente, haja vista
que somente será necessária a existência do elo de causalidade
entre o dano e a conduta do agente responsável para que surja o
dever de indenizar.

Ulhoa (2012) elucida que ambas as responsabilidades – a objetiva ou a


subjetiva –, possuem função compensatória, seja no dano de responsabilidade do
devedor ou na atribuição de responsabilidade por ato lícito. Essa função
compensatória visa tão somente reequilibrar o que a lesão danificou. O referido
autor (2012, p. 545) dispõe que:
11

Seja na hipótese de dano causado por culpa do devedor, seja na


imputação de responsabilidade por ato ilícito a função da regra
constitutiva do vínculo obrigacional é transferir do patrimônio do
devedor para o do credor bens que neutralizem os prejuízos por este
ultimo experimentado.

Cavalieri Filho (2012, p. 14) pondera que impera no campo da


responsabilidade civil o princípio da restitutio in integrum, desta forma, tal como
possível, repõe-se a vítima à situação anterior à lesão, sendo estipulada a
compensação proporcionalmente ao dano causado.
Deixando de fundamentar a responsabilidade civil somente na culpa,
Gonçalves (2012) aponta que esta pode ser encontrada também no próprio fato da
coisa e no exercício de atividades perigosas, que multiplicam o risco de ocorrer o
dano e, por isso, deve ocorrer a indenização, tornando-se uma questão prioritária de
justiça, paz, ordem e segurança para o direito.
Após aproximadamente um século de argumentos acerca da culpa,
Cavalieri Filho (2012) pautou-se como o fundamento válido que a responsabilidade
civil deve buscar a obrigação de reparar na quebra do equilíbrio econômico-jurídico
provocado pelo dano – esta existirá a partir da culpa, e não do dano.
Em casos de dano que possuem caráter patrimonial, Ulhoa (2012)
informa que a indenização se equivalerá ao estrago, possuindo o causador do
prejuízo a obrigação de custeio em caso de danos morais, mais conhecidos como
“dano extrapatrimonial”.
O que será custeado não estará em comparação ao dano, sendo o dano
moral considerado pelo autor acima (2012) não passível de avaliação em dinheiro.
Com o intuito de deixar o lesado ressarcido dos prejuízos, a responsabilidade civil
recompõe-no, observando a mesma proporção do dano, sendo dotado também de
caráter preventivo.
Segundo o autor supracitado (2012), além de possuírem diferentes
conceitos, a responsabilidade subjetiva e objetiva cumprem funções de prevenção
de modos distintos: enquanto a subjetiva penaliza atos ilícitos, a objetiva indeniza
mesmo não existindo ato ilícito, não se faz comprovado neste o dolo e tal qual a
subjetiva, há culpa, sendo necessário comprovar o nexo de causalidade do fato.
Sobre ambas as responsabilidades – subjetivas e objetivas –, Gonçalves (2011, p.
27) elucida que:
12

Diz-se ser subjetiva a responsabilidade quando se esteia na idéia de


culpa. A prova da culpa passa a ser pressuposto necessário do dano
indenizável. O ônus dessa prova incumbe à vítima. Em não havendo
culpa (dolo ou culpa em sentido estrito), não há responsabilidade [...]
Prescinde da culpa e se satisfaz apenas com o dano e o nexo de
causalidade. Denominada objetiva ou do risco, tem como postulado
que todo dano é indenizável, e deve ser reparado por quem a ele se
liga por um nexo de causalidade, independentemente de culpa.

Nos danos morais trazidos por Ulhoa (2012), classificados também como
danos extrapatrimoniais, Rosenvald (2013, p. 65) pontua que "quando cogitamos do
fundamento da responsabilidade civil, remete-se às razões jurídicas pelas quais
alguém será responsabilizado por um dano, patrimonial ou extrapatrimonial". Para
ele, o ressarcimento tem por finalidade neutralizar as consequências do ilícito,
assim, enquanto a responsabilidade permite a imputação de um fato danoso, o
ressarcimento estabelece o montante e o modo de compensação àquele ofendido.
A responsabilidade civil mantém um equilíbrio entre as relações pessoais,
isto pode ser observado quanto à sua função, tendo como objetivo a reparação,
prevenção de danos e a punição do indivíduo, regida pelo ordenamento jurídico, ou
mais especificamente o atual Código Civil, demonstrando situações que fazem jus
ao uso da responsabilidade.

1.2 Diferenças entre obrigação e responsabilidade

A obrigação se encontra anterior à responsabilidade, é vista como uma


obrigação inicial podendo caracterizar-se em uma obrigação de fazer, não fazer,
entregar coisa certa ou incerta. Com o não cumprimento da obrigação
convencionada a responsabilidade civil será ativada, ou seja, o dever de
indenizarem prol de dano, ato ou obrigação. Em consonância com este raciocínio,o
art. 389 do CC dispõe que, “não cumprida a obrigação, responde o devedor por
perdas e danos...”. Esta responsabilização por perdas e danos expressa na lei é a
chamada obrigação sucessiva, que é conhecida como a obrigação de indenizar
pleiteada na responsabilidade civil. Para Azevedo apud Taturce (2014, p. 19):
13

[...] a obrigação é a relação jurídica transitória, de natureza


econômica, pela qual o devedor fica vinculado ao credor, devendo
cumprir determinada prestação positiva ou negativa, cujo
inadimplemento enseja a este executar o patrimônio daquele para a
satisfação de seu interesse.

Stolze e Pamplona Filho (2012) acreditam que, em sentido amplo, a


obrigação é uma relação jurídica pessoal, sendo que a parte devedora fica obrigada
a cumprir, espontânea ou coativamente, uma prestação patrimonial em função da
existência da parte credora na relação. A responsabilidade, como trata Ulhoa (2012,
p. 510):

Classifica-se como obrigação não negocial, porque sua constituição


não deriva de negócio jurídico, isto é, de manifestação de vontade
das partes (contrato) ou de uma delas (ato unilateral). Origina-se, ao
contrário, de ato ilícito ou de fato jurídico.

Gonçalves (2012) defende que a responsabilidade civil começou na


Alemanha, deixando detalhado na relação obrigacional dois momentos distintos: o
débito (schuld), e a obrigação e a responsabilidade (haftung), possuindo o credor a
faculdade de querer executar o devedor devido a eventuais prejuízos causados.
Nesse caso, por estar associada ao direito obrigacional, a responsabilidade ativa
seus efeitos após a prática do ato ilícito, surgindo a obrigação de reparação. Em sua
obra, Cavalieri Filho (2012, p. 4) faz menção ao ato ilícito, segundo o qual:

Sempre se disse que o ato ilícito é uma das fontes da obrigação, mas
nunca a lei indicou qual seria essa obrigação. Agora o Código diz –
aquele que comete ato ilícito fica obrigado a indenizar. A
responsabilidade civil opera a partir do ato ilícito, com o nascimento
da obrigação de indenizar, que tem por finalidade tornar indemne o
lesado, colocar a vítima na situação em que estaria sem a ocorrência
do fato danoso.

Por assim entender, Gonçalves (2012)ainda preceitua que ao praticar um


ato, quem incorrer numa omissão que tenha resultado em lesão, deve suportar os
encargos. É como um preceito que se segue, em prol de um equilíbrio social, no
qual se vê, segundo o referido autor (2012) que a responsabilidade funciona como
forma de organização social.
14

A responsabilidade civil exerce uma função essencial nas relações


humanas ou interpessoais. Por ser proveniente do inadimplemento da obrigação
principal ou inicial, esta responsabilidade traz consigo o ressarcimento, oferecendo
um seguro à vítima, não correndo esta o risco de ficar irressarcida de eventuais
prejuízos sofridos. A obrigação se distingue da responsabilidade por ser tratar de
uma relação jurídica, estando o devedor vinculado ao credor na relação, devendo
este cumprir com o que foi minuciosamente pactuado.

1.3 Ato ilícito

Como se sabe, a partir do dano, surge o dever de indenizar,culminando


na análise da conduta do agente caso tenha ocorrido uma relação de causalidade ou
nexo causal. O ato ilícito é importante, pois se configura como o fato gerador a dar
início à responsabilidade civil do indivíduo. A respeito do ato ilícito, Venosa (2013, p.
24) pontua:

[...] são os que promanam direta ou indiretamente da vontade e


ocasionam efeitos jurídicos, mas contrários ao ordenamento. O ato
voluntário é, portanto, o primeiro pressuposto da responsabilidade
civil [...] O ato de vontade, contudo, no campo da responsabilidade
deve reverter-se de ilicitude. Melhor diremos que na ilicitude há,
geralmente, uma cadeia ou sucessão de atos ilícitos, uma conduta
culposa. Raramente a ilicitude ocorrerá com um único ato. O ato
ilícito traduz-se em um comportamento voluntário que transgride um
dever. Como já analisamos, ontologicamente o ilícito civil não difere
do ilícito penal; a principal diferença reside na tipificação estrita deste
último.

Neste sentido, tem-se o ato ilícito como componente existencial da


responsabilidade civil, em razão da conduta praticada pelo indivíduo, que é passível
de controle através do ato de vontade da pessoa, ou seja, do agente.
O ato ilícito é decorrente da conduta reprovável do agente, com isso, o
atual código civil, no art. 186 dispõe que a conduta se mostra através da “ação ou
omissão voluntária, negligência ou imprudência”. Nesse sentido, Ulhoa (2012, p.
15

803) complementa informando que, “desse modo, será ilícita a conduta de qualquer
sujeito que importar o desrespeito a direito titularizado por outrem”.
Sobre a ação ou omissão do agente, Stolze e Pamplona Filho (2012,
p.78) informam:

[...] a ação (ou omissão) humana voluntária é pressuposto necessário


para a configuração da responsabilidade civil. Trata-se, em outras
palavras, da conduta humana, positiva ou negativa (omissão), guiada
pela vontade do agente, que desemboca no dano ou prejuízo. Assim,
em nosso entendimento, até por um imperativo de precedência
lógica, cuida-se do primeiro elemento da responsabilidade civil a ser
estudado, seguido do dano e do nexo de causalidade.

Em relação à conduta humana acima citada, Cavalieri Filho apud


Gonçalves (2014, p. 317) apresenta outra visão:

[...] que o ato ilícito, tal como o lícito, é também uma manifestação de
vontade, uma conduta humana voluntária, só que contrária à ordem
jurídica. Observa que, todavia, enquanto os atos jurídicos podem se
restringir a meras declarações de vontade, como, por exemplo,
prometer fazer ou contratar etc., o ato ilícito é sempre uma conduta
voluntária. Se é ato, nunca o ato ilícito consistirá numa simples
declaração de vontade. Importa dizer que ninguém pratica ato ilícito
simplesmente porque promete a outrem causar-lhe um prejuízo.

Por conseguinte, Gonçalves (2014) aduz que, o ato ilícito é ato consciente
e voluntário do indivíduo que viola um dever jurídico e que não havendo consciência
do ato que se pratica não poderá se constituir em ato ilícito.
Em relação ao dano, o autor acima citado (2014), fala na existência de
uma corrente que não considera o dano como elemento integrante do conceito de
ato ilícito, contrariando grande parte da doutrina que sempre o identificou designada
pela lesão a um bem jurídico, sendo este elemento inseparável do ato ilícito, sem o
qual não existiria.
Para Dantas; Gomes e Coelho apud Gonçalves (2014, p. 318):

o dano é elemento indispensável do ato ilícito, podendo alguém violar


dever jurídico, e, assim, o direito de outrem, e não causar dano. Não
haveria aí ato ilícito, pois o principal efeito do ato ilícito é justamente
a reparação do dano, nesta hipótese inexistente. Na célebre frase de
16

HENRI LALOU, ‘pas de préjudice, pas de responsabilité civil’.


Reforçando ainda mais esta ideia, o novo Código (diferentemente do
anterior, que falava em violação de direito ou dano) identifica o ato
ilícito pela violação de direito e dano.

O ato ilícito possui dois embasamentos ditos, os quais são abordados por
Diniz (2014), que é o da infração de um dever preexistente e a imputação do
resultado à consciência do agente. Entretanto, para se caracterizar como tal é
necessário haver uma ação ou omissão voluntária, violando esta norma jurídica
protetora de interesses alheios ou um direito subjetivo individual, tendo ciência da
ilicitude do ato praticado, agindo com dolo – se houve a intenção de lesão –, ou
culpa – se tem ciência dos prejuízos que advêm do seu ato –, assumindo o risco de
estar provocando o fato danoso.
De acordo com Tartuce, (2014, p. 235) o ato ilícito:

é o ato praticado em desacordo com a ordem jurídica violando


direitos e causando prejuízos a outrem. Diante da sua ocorrência a
norma jurídica cria o dever de reparar o dano, o que justifica o fato de
ser o ato ilícito fonte do direito obrigacional.

O autor supramencionado (2014) informa ainda que o ato ilícito é


considerado como fato jurídico em sentido amplo por produzir consequências
jurídicas não desejadas pelo indivíduo, porém, apenas aqueles impostos pela lei,
sendo, desta maneira, titulados de involuntários. Contudo,caso o agente cometa um
ato ilícito, existirá a infração de um dever e a imputação de um resultado.
Ulhoa (2012, p.602-603) demonstra diferentes tipos de responsabilidade
civil por atos ilícitos:

No plano criminal, os delitos (crimes ou contravenções) são punidos


com penas privativas de liberdade. No administrativo, as infrações
punem-se com multa e medida de satisfativas (fechamento de
atividade, remoção de bens etc.). No âmbito civil, sancionam-se as
condutas culposas pela imposição ao autor do dano da obrigação de
indenizá-lo.

Por sua vez, Tartuce (2014) argumenta que deve-se ater ao ilícito civil,
sendo de fundamental importância abarcar os casos em que a conduta do agente irá
17

ofender. Para ele, o ato ilícito esta relacionado à conduta humana, ferindo direitos
subjetivos privados que estão em desacordo com o ordenamento.
Os atos ilícitos, de acordo com Gonçalves (2012, p. 32), se dividem em:
“ato jurídico em sentido estrito (ou meramente lícito), negócio jurídico e ato-fato
jurídico”. Ainda de acordo com o autor (2012, p. 32):

Nos dois primeiros, exige-se uma manifestação de vontade. No


negócio jurídico, a ação humana visa diretamente alcançar um fim
prático permitido na lei, dentre a multiplicidade de efeitos possíveis.
Por essa razão, é necessária uma vontade qualificada, sem vícios.
No ato jurídico, o efeito da manifestação da vontade está
predeterminado na lei (notificação, que constitui em mora o devedor,
por exemplo), não havendo, por isso, qualquer dose de escolha da
categoria jurídica. A ação humana se baseia não numa vontade
qualificada, mas em simples intenção, como ocorre quando alguém
fisga um peixe, dele se tornando proprietário graças ao instituto da
ocupação.

Para Cavalieri Filho (2012, p. 13), o ato ilícito se configura como:

[...] comportamento voluntário que infringe um dever jurídico, e não


que simplesmente prometa ou ameace infringi-lo, de tal sorte que,
desde o momento em que um ato ilícito foi praticado, está-se diante
de um processo executivo, e não diante de uma simples
manifestação de vontade. Antes, pelo contrário, por ser um ato de
conduta, um comportamento humano, é preciso que ele seja
voluntário [...] Em conclusão, ato ilícito é o conjunto de pressupostos
da responsabilidade.

Tartuce (2014) acrescenta que a ideia de ato ilícito alonga-se,


considerando como pioneiro da responsabilidade civil o ato praticado em irregular
exercício com o direito. Assim sendo, o ato inicialmente é lícito, mas foi praticado
além dos limites impostos pelo seu fim econômico ou social, pela boa-fé objetiva ou
pelos bons costumes.
Cavalieri Filho (2012) demonstra que ao praticar o ato ilícito, tem-se como
consequência à obrigação de indenizar, de caráter personalíssimo, informando que
a responsabilidade civil está ligada ao direito obrigacional, por este motivo é que o
ato ilícito é considerado umas das fontes da obrigação ao lado da lei e do contrato e
da declaração unilateral de vontade.
18

Para Gonçalves (2012, p. 33), o ato ilícito é considerado como fonte das
obrigações:

[...] a de indenizar ou ressarcir o prejuízo causado (CC, art. 927). É


praticado com infração a um dever de conduta, por meio de ações ou
omissões culposas ou dolosas do agente, das quais resulta dano
para outrem.

Portanto, além de ser considerado como fonte do direito obrigacional,o


ato ilícito se liga a conduta do agente que o pratica em exercício irregular do
direito.É o ato violador do ordenamento jurídico por força do art. 927 do CC, sendo
obrigatório ao indivíduo a reparação dos danos nas formas da lei. O entendimento
do ato ilícito é valioso para as pessoas no cotidiano, uma vez que tal ato pode
acontecer com qualquer indivíduo. Contudo, havendo a possibilidade do
acontecimento de uma conduta lesiva ao patrimônio, resta saber que, através da
responsabilidade civil, é possível ter seus danos devidamente ressarcidos.
19

2 O PODER FAMILIAR

2.1 Conceito, titularidade e características do poder familiar

O poder familiar se encontra no Código Civil de 2002 nos artigos 1630 a


1638, que trazem disposições gerais acerca do conteúdo, como o exercício e as
causas de suspensão e extinção do poder familiar. Pode-se dizer que o Estado
opera na assistência do interesse dos filhos e da família,sendo a família dotada de
especial proteção do Estado, como assevera o art. 226 da Constituição Federal de
1988, agindo o Estado em prol do bem estar desta.
Como alude Dias (2015), o filho passa de objeto de poder a sujeito de
direito, ensejando na modificação da temática concernente ao poder familiar em face
do interesse social que evolve, não se tratando do exercício de uma autoridade, mas
de um dever imposto através da lei aos pais.
Para Nader (2016, p. 553), o poder familiar “é o instituto de ordem pública
que atribui aos pais à função de criar, prover a educação de filhos menores não
emancipados e administrar seus eventuais bens”. Complementando este raciocínio,
a Constituição Federal de 1988 traz a proteção da família como dever do Estado,
elencado em seu bojo no art. 226, § 7º a seguinte disposição:

Art. 226. A família, base da sociedade, tem especial proteção do


Estado.
§7º Fundado nos princípios da dignidade da pessoa humana e da
paternidade responsável, o planejamento familiar é livre decisão do
casal, competindo ao Estado propiciar recursos educacionais e
científicos para o exercício desse direito, vedada qualquer forma
coercitiva por parte de instituições oficiais ou privadas.

Para Gonçalves (2012), o poder familiar que é conferido aos pais


constitui-se em um aglomerado de direitos e deveres relativo à pessoa e aos bens
dos filhos menores, cabendo a estes alimentar e assegurar um desenvolvimento
adequado à criança. Seguindo esta linha de raciocínio, Tartuce (2014, p. 393) afirma
que o poder familiar é “exercido pelos pais em relação aos filhos, dentro da ideia de
família democrática, do regime de colaboração familiar e de relações baseadas,
sobretudo, no afeto”.
20

Segundo Gonçalves (2012), antigamente, o Direito Romano criou a


denominação de pátria potestas, prevalecendo-se o interesse do chefe da família
que possuía o direito de escolha sobre a vida e a morte do filho, podendo matá-lo ou
entregá-lo a preço de indenização. Ao decorrer do tempo, estes recursos foram
sendo restringidos, abandonando o termo pátria potestase adotando-se a ideia de
poder familiar, composto por deveres conferidos pelo Estado, sendo de próprio
interesse que os pais eduquem os filhos.
Para Venosa (2014), o pátrio poder ou pátrio dever visa essencialmente à
proteção dos filhos menores, portanto, o convívio do grupo familiar não deve ser
fundado em supremacia, mas sim em diálogo, compreensão e entendimento. Sobre
os direitos do exercício do poder familiar, Dias (2015, p. 462) afirma que este é
“irrenunciável, intransferível, inalienável e imprescritível é decorrente da paternidade
natural, da filiação legal e da socioafetiva e as obrigações que dele fluem são de
caráter personalíssimo”.
Apesar de Venosa (2014) concordar que o poder familiar é indivisível, o
autor faz uma ressalva quanto a seu exercício, informando que, se tratando de pais
divorciados no exercício do poder familiar, a responsabilidade se dividirá entre
ambos.
Segundo Ulhoa (2012), a preparação dos filhos à vida adulta é de
responsabilidade dos pais, transmitindo-os seus valores, sua visão do mundo e não
atendendo a todos os chamados do filho, pois assim, não estarão sendo preparados,
e sim, sendo iludidos ao transmitir a ideia que as coisas podem ser conseguidas
sem esforço.
O poder familiar que os pais exercem sobre os filhos enquanto menores
está ligado à paternidade ou maternidade, que servirá para a preservação da
integridade física da criança ou adolescente até que este venha a atingir a
maioridade civil, enquanto isso, os pais são responsáveis pelo seu crescimento e
educação.
Gonçalves (2012) expõe que, para que se constitua titular do poder
familiar, o filho deve estar registrado pelo pai e pela mãe, na ausência de um deles,
ficará com o que estiver presente, e não sendo capaz, nomear-se-á um tutor.
Para configurar-se titular desse poder, Ulhoa (2012) afirma que é
necessário que seja pai ou mãe e caso o genitor não reconhecer sua prole, não terá
21

nenhum poder sobre ele, devido ao entendimento que o poder familiar deriva da
filiação e não de um vínculo biológico.
Segundo Gonçalves (2012), tanto a titularidade quanto o exercício do
poder familiar pelos cônjuges, consolidou-se com base na Constituição Federal de
1988, art. 226, §5°, deliberando que os direitos e deveres relativos à sociedade
conjugal são realizados em posição de igualdade pelo homem e pela mulher.
Stolze e Pamplona Filho (2013) entendem que, através do princípio da
isonomia, não há superioridade ou prevalência do homem em detrimento da mulher,
não levando em conta o estado civil de quem desempenha a autoridade parental.
Para Gonçalves (2012), os filhos tidos fora do casamento e que forem
reconhecidos ficarão sob o poder de ambos os pais. Quando ambos se configurarem
titulares, a guarda observará qual deles revelará ter melhores condições para
exercê-la. O juiz escolherá o tutor à criança para acompanhá-la até que seja
alcançada a maioridade, quando esta tiver somente a mãe e esta for desconhecida
ou incapaz.
Em relação aos direitos decorrentes do poder familiar, Ulhoa (2012, p.
423) pontua que “ao poder familiar correspondem direitos titulados pelos pais em
relação aos filhos, tais como o de dirigir-lhes a criação e educação, impor obediência
e respeito, tê-los em sua companhia e guarda”.
Deste modo, a titularidade é o poder conferido aos pais com a finalidade
única de proteção do filho, sendo levado em consideração perigos que possam
existir, bem como sua preparação para a vida.
Os bens dos filhos menores – enquanto estes estiverem sob o poder
familiar –, ficam sob a administração dos genitores, o que é estabelecido no artigo
1.689 do Código Civil. Além do usufruto e administração, para Ulhoa (2012) compete
aos pais a conservação dos bens enquanto o filho for absolutamente incapaz. A
declaração de suas vontades é feita pelos pais, sua opinião é irrelevante e caso
dado negócio jurídico relacionado à administração dos bens for considerado
pertinente, poderão os pais adotá-lo.
Ainda a respeito da administração dos bens, Gonçalves (2012, p. 368)
reitera:

Os pais, em igualdade de condições, são, pois, os administradores


legais dos bens dos filhos menores sob sua autoridade. Havendo
22

divergência, poderá qualquer deles recorrer ao juiz para a solução


necessária (CC, arts. 1.689, II, e 1.690, parágrafo único). Não
podem, porém, praticar atos que ultrapassem os limites da simples
administração.

Caso os pais ultrapassem a mera administração dos bens, ou seja,


pratiquem atos que os excedam, Ulhoa (2012) afirma que estes serão considerados
nulos e se houver alienação do imóvel, sem a autorização do juiz, retornará o bem
ao devido patrimônio do menor, conferindo ao comprador o poder de exigir dos pais
a devolução do preço do imóvel.
Segundo Ulhoa (2012, p. 429), “os bens do patrimônio do filho são
administrados pelos pais, enquanto não alcançada a maioridade. Sobre esses bens,
além disso, titulam os pais direitos de usufrutuários”.
De acordo com Dias (2015), não é obrigatório aos pais a prestação de
contas em relação aos bens do filhos, sob a sua administração, tendo em vista que,
por serem os pais administradores por mandato legal, os rendimentos que provierem
lhe pertencerão.
Gonçalves (2012) elucida ser concernente aos pais o direito de
usufrutuários nas rendas dos bens dos menores, configurando como uma
compensação dos encargos decorrentes de sua criação e educação, tratando-se de
usufruto legal. Em relação aos bens do menor, Tartuce (2014, p. 359) informa:

No plano dessa administração, os pais não podem alienar ou gravar


de ônus real os imóveis dos filhos, nem contrair, em nome deles,
obrigações que ultrapassem os limites da simples administração (art.
1.691 do CC). Isso, salvo por necessidade ou evidente interesse da
prole (Best interest of the child – maior interesse da criança),
mediante prévia autorização do juiz.

Como o Tartuce (2014) expôs, caso sejam realizados sem a autorização


do juiz, os atos mencionados deverão ser tidos como nulos, havendo previsão de
nulidade textual. Assim como dispõe o parágrafo único do art. 1.691 do CC, é norma
de ordem pública, tutelando os vulneráveis. Rodrigues apud Gonçalves (2012, p.
369) informa que:

Se é verdade que aos pais incumbem as despesas com a criação


dos filhos quando estes não as possam atender, justo é também que,
23

tendo os filhos bens para criarem-se e educarem-se, usem as rendas


dos mesmos bens para este fim.

A titularidade do poder familiar é exercida igualmente pelo pai e pela mãe,


e não havendo concordância entre eles, poderá ser resolvido na justiça. Cabe aos
pais ainda usufruir dos bens do menor durante o tempo em que este não possui a
capacidade para administrá-los, sendo compreendidos os pais como usufrutuários
legais, possuindo estes o dever de cuidado e preservação dos bens, não cometendo
atos que resultem na diminuição do patrimônio. Segundo Gonçalves (2012),isto
também é do interesse do Estado – principal responsável pela fixação das normas –
,já que o bom funcionamento e exercício do instituto configura-se como múnus
público, assim, estes deveres são irrenunciáveis, ou seja, os pais não podem se
abdicar de cumpri-los, além disso, possuem caráter indelegável, não podendo
ambos os genitores transferir ou renunciar a outrem tal poder.
Para Tartuce (2014), esta regra tem uma exceção – que está estatuída na
Lei 8.069/90 (Estatuto da Criança e do Adolescente), artigo 166 –, nos casos de
pedido de colocação do filho em família substituta, que pode ser feita diretamente
em cartório, em petição assinada pelos próprios requerentes e a família substituta,
que, de acordo com o §7°, receberá a devida orientação.
De acordo com Gonçalves (2012), se o genitor não pratica o poder
familiar, não o perde por ser imprescritível, podendo perdê-lo somente nos casos
previstos em lei. Faz-se incompatível com a tutela, pois se os pais não foram
suspensos ou destituídos do poder, não se pode nomear tutor ao menor.
Portanto, enquanto menores, os filhos estão sob o poder familiar de seus
genitores, sendo este exercício o poder familiar abrigado de deveres impostos pelo
Estado, não podendo descumpri-lo, tendo como objetivo tutelar o interesse da
criança, existindo no seio familiar uma relação de harmonia e cuidados.

2.2 Extinção e suspensão do poder familiar

Expressar sobre a extinção do poder familiar é o mesmo que falar em seu


desaparecimento, sendo cabível demonstrar as causas dessa extinção, que podem
ocorrer devido a fatos naturais e/ou motivos que geraram a supressão completa
deste instituto.
24

No artigo 1.635 do Código Civil, são expostos os motivos de extinção do


poder familiar, quais sejam:

Art. 1635. Extingue-se o poder familiar:


I – pela morte dos pais ou do filho;
II – pela emancipação, nos termos do art. 5º, parágrafo único;
III – pela maioridade;
IV – pela adoção;
V – por decisão judicial, na forma do art. 1638.

Segundo Gonçalves (2012), a extinção se constitui pela perda ou


destituição do poder familiar, expressa no Código Civil no artigo 1.635, inciso V e
que se dá por decisão judicial, na forma do artigo 1.638 do mesmo código.
Por haver a extinção do poder familiar, Diniz (2013) alude que esta não
rompe com o vínculo de parentesco. Entretanto, sendo destituído, o genitor não
poderá admitir que sejam preservados os direitos sucessórios com relação ao filho.
Todavia, a herança do pai, estende-se ainda aos direitos do filho.
No caso de falecimento dos pais, Gonçalves (2012) informa que
desaparecem os titulares do direito, e o poder fica concentrado no cônjuge
sobrevivente, ou ocorrendo a morte de ambos, nomear-se-á tutor para dar
prosseguimento à proteção dos interesses pessoais e patrimoniais do órfão.
Lôbo (2011) complementa este raciocínio, afirmando que, só se extinguirá
o poder familiar através da morte de ambos os pais. O pai ou mãe sobrevivente
detém-no de modo exclusivo enquanto viverem e o filho não atingir a maioridade.
Ocorrendo a morte do filho, encerra-se o poder familiar, por ser este peça
fundamental para sua existência.
Por assim dizer, através da emancipação, da maioridade ou ocorrendo a
morte do filho, desaparecerá o motivo de existência do poder familiar que tem como
objetivo a assistência e o amparo do menor.
Em relação à adoção Gonçalves (2012, p. 371-372) preceitua que:

A adoção extingue o poder familiar na pessoa do pai natural,


transferindo-o ao adotante. Tal circunstância é irreversível, de acordo
com o que chancelam os tribunais, sendo ineficaz posterior
arrependimento daquele se a criança foi entregue em adoção
mediante procedimento regular.
25

A emancipação vem estabelecida no Código Civil no artigo 5°, parágrafo


único e incisos. Citando o Código Civil, Gonçalves (2012) diz que, a emancipação
dar-se-á “por concessão dos pais, homologada pelo juiz, se o menor tiver dezesseis
anos completos”. Esta emancipação pode se concedida devido a alguns
acontecimentos previstos no próprio artigo 5°, parágrafo único, incisos II a V.
Os filhos são dependentes dos pais, devendo obediência a eles e
recebem proteção enquanto menores, isto ocorre até que estes sejam emancipados
ou atinjam a maioridade cível, onde cessará totalmente a proteção dada pelos pais e
a subordinação que deviam os filhos.
Para Lôbo (2011, p. 306):

A referência à maioridade deve ser entendida como abrangente das


demais hipóteses de cessação da incapacidade, ou seja, pelo
casamento, pelo exercício de emprego público, pela relação de
emprego que faça o menor desenvolver economia própria, pelo
estabelecimento civil ou comercial e pela colação de grau científico,
de difícil realização.

Para Gonçalves (2012, p. 373), é adequado dizer que “o pai ou a mãe que
contrai novas núpcias, ou estabelece união estável, não perde o poder familiar sobre
os filhos do relacionamento anterior”. Complementando, Gonçalves (2012) menciona
que, apesar da existência da norma, pode-se observar que o pai ou a mãe,
contraindo novas núpcias ou união estável e levando-se em conta que somente
detém o poder familiar sobre o menor quem o registrou, em novo relacionamento
não caberia ao cônjuge o exercício deste poder por não haver nenhuma ligação
entre eles.
A suspensão do poder familiar na doutrina se difere das causas de
extinção, não podendo ser confundidas, pois são expressamente diferenciadas e
cada uma possui na lei suas hipóteses descritas em artigos distintos.
Para Lôbo (2011), enquanto a extinção do poder familiar se dá pela
perda, a suspensão – a qual não deve ser confundida –, impede o exercício do
poder familiar durante um lapso de tempo. Para Diniz (2013), a suspensão constitui
em sanção aplicada aos pais, por infração aos deveres a eles inerentes, ainda que
ao pai faltoso, não sirvam como pena.
26

Lôbo (2011, p.307), evidencia dois tipos de suspensão, sendo elas a total
ou parcial. De acordo com o autor:

A suspensão pode ser total ou parcial, para a prática de


determinados atos. Esse é o sentido da medida determinada pelo
juiz, para a segurança do menor e de seus haveres. A suspensão em
relação a um dos pais concentra o exercício do poder familiar no
outro, salvo se for incapaz ou falecido, para o que se nomeará tutor.
A suspensão total priva o pai ou a mãe de todos os direitos que
emanam do poder familiar.

Os elementos caracterizadores dos deveres inerentes aos pais, segundo


Gonçalves (2012), não estão somente elencados no Código Civil. Em visão mais
abrangente, pode-se observar que os deveres encontram-se esparsos na legislação,
sendo citado com especial apreço o Estatuto da Criança e do Adolescente, que vem
tratar dos direitos fundamentais do menor. Além disso, há na Constituição Federal
os que dizem respeito à guarda, sustento e educação; bem como os que visam
tutelar o direito à vida e à saúde; os que impedem a violência contra o menor e os
que garantem a eles uma convivência familiar e comunitária.
Bianca apud Lôbo (2011, p. 308) informa que “a suspensão é um remédio
aplicável quando se caracteriza a inidoneidade do genitor a gerir apropriadamente
os interesses econômicos do filho”, ou seja, acontece quando fica demonstrado que
o menor não está recebendo a devida proteção dos genitores, que deveriam cumprir
com seu dever legal, neste caso, há a suspensão do poder familiar.
Para Dias (2015, p. 471) a suspensão do poder familiar:

[...] é medida menos grave, tanto que se sujeita a revisão. Superadas


as causas que a provocam, pode ser cancelada sempre que a
convivência familiar atender ao interesse dos filhos. A suspensão é
facultativa, podendo o juiz deixar de aplicá-la. Podendo ser decretada
com referencia a um único filho e não a toda a prole.

Seguindo esta lógica, Gonçalves (2012, p. 375) informa que “a suspensão


do poder familiar constitui sanção aplicada aos pais pelo juiz, não tanto com intuito
punitivo, mas para proteger o menor”. Esta intervenção judicial sempre deve ser feita
em prol do menor, resguardando seus interesses e protegendo-os.
27

Segundo Lôbo (2011), a suspensão pode ser revista quando os motivos


que a ensejaram tenham sido sanados. Esta medida deve ser adotada pelo juiz caso
não houver nenhuma outra a ser adotada por não produzir o mesmo efeito desejado,
visando o interesse da segurança do menor e de seus haveres. Portanto, cessando
os motivos que levaram a esta suspensão, o genitor impedido volta a exercer o
poder familiar sobre o menor, podendo ocorrer algumas restrições determinadas
pelo juiz.
Há hipóteses de perda do poder familiar no Estatuto da Criança e do
Adolescente e no Código Civil. Gonçalves (2012) afirma que pode ser permanente a
perda do poder familiar, mas não se pode dizer que esta seja definitiva, podendo os
pais recuperá-lo em procedimentos judiciais de caráter contencioso, cabendo a
quem perdeu o poder provar a cessação dos motivos que a engendraram.
Sobre a suspensão, Dias (2015, p. 471) dispõe:

A suspensão do exercício familiar cabe nas hipóteses de abuso de


autoridade (CC 1.637): faltando os pais aos deveres a eles inerentes
ou arruinando os bens dos filhos. Os deveres dos genitores são de
sustento, guarda e educação dos filhos, cabendo assegurar-lhes (CF
227): vida, saúde, alimentação, educação, lazer, profissionalização,
cultura, dignidade, respeito, liberdade, convivência familiar e
comunitária, além de não poder submetê-los a discriminação,
exploração, violência, crueldade e opressão. Ainda que, modo
expresso, tenha o genitor o dever de sustento da prole, o
descumprimento desse encargo não justifica a suspensão do poder
familiar, pois a falta ou carência de recursos materiais não constitui
motivo suficiente para a perda nem para a suspensão do poder
familiar (ECA 23).

Portanto, o poder familiar é exercido pelos pais, estes possuem o dever


de preservar o crescimento do filho com dignidade e cuidados, administrando seus
bens de forma a conservá-los até a maioridade do filho, devendo educar e servirem
de exemplo, visando sempre o melhor interesse da criança e devendo-lhes a
assistência necessária.

2.3 Emancipação

Além de ser especificada nas doutrinas de direito civil – parte geral, a


emancipação é tratada no atual código civil, no parágrafo único do art. 5°, trazendo
28

situações de ocorrência da emancipação, além de estar estabelecida no próprio


caput a idade para que o menor alcance a capacidade plena. Clóvis apud Gonçalves
(2014, p.87) explica que a emancipação nada mais é do que a:

[...] aquisição da capacidade civil antes da idade legal. Consiste,


desse modo, na antecipação da aquisição da capacidade de fato ou
de exercício (aptidão para exercer, por si só, os atos da vida civil.
Pode decorrer de concessão dos pais ou de sentença do juiz, bem
como de determinados fatos a que a lei atribui esse efeito.

Seguindo o mesmo raciocínio, Venosa (2013) afirma que a maioridade


ocorre aos 18 anos, e antes de alcançar a idade legal, o indivíduo pode contrair a
capacidade plena através da emancipação, que é vista como algo vantajoso. A
concessão é dada por ambos os pais, e na falta do outro progenitor, poderá ser feita
por meio daquele que se encontrar presente. Para que ambos emancipem, precisa-
se constar no registro o reconhecimento dos dois.
Ulhoa (2012, p. 389-390) ressalta que, para haver a emancipação, “exige-
se que o menor tenha 16 anos completos”, e que o “absolutamente incapaz não
pode ser emancipado por outorga dos pais”. Além disso, dispõe que “os pais devem
manifestar a decisão concessiva de capacidade num cartório de notas” e a “escritura
pública será, depois, registrada no registro civil”, conforme dispõe do art. 9°, inc. II
do CC. Em relação ao ato da emancipação, Gonçalves (2014, p. 116) apresenta o
seguinte ponto de vista:

Trata-se, geralmente, de ato formal e solene, eis que o Código Civil


de 2002 passou a exigir instrumento público, como regra, sendo
certo que a codificação anterior possibilitava a emancipação por
instrumento particular.

Em relação à impossibilidade da presença de um dos pais no ato, Venosa


(2013, p.156) afirma que “por qualquer motivo, deverá ser dirimida pelo juiz no caso
concreto”, contudo, caso um deles se negue a emancipar o menor, mesmo existindo
a autorização do outro, a vontade do recusado poderá ser suprida judicialmente,
ficando provado que o motivo da recusa era mera emulação, portanto injustificada.
A respeito da emancipação, Gonçalves (2014, p. 116) informa que esta
possui como regra geral ser:
29

[...] definitiva, irretratável e irrevogável. De toda sorte, conforme se


depreende de enunciado aprovado na V Jornada de Direito Civil, de
novembro de 2011, a emancipação por concessão dos pais ou por
sentença do juiz está sujeita a desconstituição por vício de vontade
(Enunciado n. 397). Desse modo, é possível a sua anulação por erro
ou dolo, por exemplo.

Caso a emancipação seja feita contra o interesse do menor, segundo


Ulhoa (2012), não será válida e estará configurando abuso de direito. Neste sentido,
preceitua o autor (2012) que constitui anulável o ato considerado ilícito quando o
menor for emancipado pelos pais sem que ainda não possua maturidade suficiente,
em uma tentativa de se exonerarem de qualquer responsabilidade civil pelos atos do
filho.
A emancipação disposta no art. 5º parágrafo único do Código Civil, se
divide em três tipos: a voluntária, judicial e legal. A voluntária, segundo Gonçalves
(2014), se dá pela vontade dos pais sendo efetivada através de instrumento público,
não dependendo de homologação judicial, podendo se concedida por quem se
encontra na titularidade do poder familiar. A outorga é feita por ambos os genitores,
na ausência ou impossibilidade de um dos pais é feita pelo outro. Esta
impossibilidade deve ser devidamente justificada e em caso de discordância entre os
pais, poderá ser suprimida pelo juiz.
A judicial, para Tartuce (2014), é concedida mediante sentença do
juiz,quando houver discordância de um dos pais em conceder a emancipação.
Assim como a emancipação voluntária, esta modalidade de emancipação não
necessita de escritura pública, sendo registrada em cartório de Registro Civil das
Pessoas Naturais, podendo ambas não produzir efeitos, sob pena do art. 107, § 1º,
da Lei nº 6.015/73, Registros Públicos, porém, a emancipação legal produz efeito
independente desse registro.
Por fim, a emancipação legal se encontra nos incisos II ao V do art. 5º,
parágrafo único do CC, que aborda o casamento. Nesta concepção, Gonçalves
(2014) compreende que, desde que seja válido, produzirá o efeito da emancipação
do filho, e caso ocorra a dissolução por motivos de viuvez, acabando assim com a
sociedade conjugal, o ato não se desfaz. Em caso de nulidade ou anulabilidade,
haverá o retorno do filho à situação de incapaz, exceto se a adquiriu de boa-fé.
30

Observando o inciso III, que faz menção ao exercício de emprego público


efetivo, Venosa (2013) elucida que, de acordo com o ordenamento jurídico brasileiro,
não há a possibilidade do menor de 18 anos ser nomeado em cargo público efetivo.
Para Gonçalves (2014), alguns fatores indicam que o menor tenha maturidade e
discernimento, como a admissão em serviço público, a existência da relação de
emprego com o estabelecimento de economia própria, a colação de grau em curso
de ensino superior (inciso IV) e o estabelecimento civil ou comercial (inciso V), por
isso, para o autor, estas características são consideradas razões suficientes para a
emancipação.
Portanto, para que a emancipação seja concedida e considerada válida,
esta precisa estar em conformidade com art. 5°, parágrafo único, respeitando as
formalidades do art. 9°, inc. II, do Código Civil, e, por fim, não deve se configurar
como abuso de direito – que é quando os pais almejam a emancipação do menor
com o intuito de ficarem isentos de qualquer responsabilidade civil destes.
31

3 A RESPONSABILIDADE CIVIL DOS P AIS POR ATOS


ILÍCITOSPRATICADOS PELO FILHO MENOR NA EMANCIP AÇÃO
VOLUNTÁRI A

3.1 Disposições gerais

A responsabilidade civil cuida das situações que geram dano a outrem,


responsabilizando quem o causou de forma proporcional ao dano sofrido.Esta
responsabilidade funciona como uma obrigação secundária nas situações de
descumprimento da obrigação principal.
Para a responsabilidade civil, em análise a Cavalieri Filho (2012),
somente responderá pelos danos quem os causou, compreendendo a
responsabilidade por fato próprio ou individual que se encontra elencado no art. 186
do CC. Todavia, há casos em que existirá a responsabilidade por atos de terceiros,
sendo chamada de “responsabilidade por atos de outrem”, como salienta Tartuce
(2014), cujo sujeito pode vir a responder por ato ilícito de outrem, por estar o
responsável ligado por força do dever de guarda. Amparado a isso o artigo 932 do
Código Civil, dispõe sobre as hipóteses da responsabilidade civil:

Art. 932. São também responsáveis pela reparação civil:


I - os pais, pelos filhos menores que estiverem sob sua autoridade e
em sua companhia;
II - o tutor e o curador, pelos pupilos e curatelados, que se acharem
nas mesmas condições;
III - o empregador ou comitente, por seus empregados, serviçais e
prepostos, no exercício do trabalho que lhes competir, ou em razão
dele;
IV - os donos de hotéis, hospedarias, casas ou estabelecimentos
onde se albergue por dinheiro, mesmo para fins de educação, pelos
seus hóspedes, moradores e educandos;
V - os que gratuitamente houverem participado nos produtos do
crime, até a concorrente quantia. (grifos do autor)

Existem tipos variados de responsabilidade civil por atos de outrem,


entretanto, neste momento, priorizou-se o enfoque à responsabilidade civil dos pais,
que segundo Cavalieri Filho (2012, p. 208):
32

Essa espécie de responsabilidade, tem por fundamento o vínculo


jurídico legal existente entre pais e filhos menores, o poder familiar,
que impõe aos pais obrigações várias, entre as quais a de
assistência material e moral (alimentos, educação, instrução) e de
vigilância, sendo esta nada mais que um comportamento da obra
educativa.

Fundamentando-se Nery Junior e Nery (2014), destaca-seque a


responsabilidade dos pais possui presunção de culpa por causa do pátrio poder,
denominado poder familiar. Mesmo estando ausentes na época do fato, aos pais
não alteram a presunção, observando a falta de empenho paterno na preparação do
filho.
Gonçalves (2012) salienta que, até quando o filho possuir ausência de
discernimento, a responsabilidade dos pais não é afastada. Além disso, Gonçalves
(2012) a divide em duas correntes: os subjetivistas e os objetivistas. Os primeiros
defendem que a culpa está diretamente relacionada aos genitores, em razão da falta
de vigilância. Os objetivistas, por sua vez, defendem que o risco e a reparação do
prejuízo sofrido pelo outro – com o objetivo de equilíbrio dos patrimônios –, é injusta.
Ainda de acordo com o autor, a responsabilidade paterna não dependerá de culpa
para ser constituída – como, por exemplo, o pai que autoriza o filho menor de 18
anos a sair com o automóvel e este provoca um acidente culposamente, neste caso,
o lesado possui o direito de acionar o pai para fazer a indenização pelos prejuízos.
A responsabilização dos pais tem força no art. 933 do CC, deixando
concluso pelo entendimento do artigo que a responsabilidade é objetiva, assim, “as
pessoas indicadas nos incisos I e V do artigo antecedente, ainda que não haja culpa
de sua parte, responderão pelos praticados pelos terceiros ali referidos”. Ulhoa
(2012) informa que não é necessário aos pais a comprovação de culpa,
demonstrando somente a culpa do menor.
Com efeito, na responsabilidade objetiva que cerca os pais em relação ao
menor, Ulhoa (2012, p. 753) confirma que “os pais respondem objetivamente pelos
atos dos filhos menores que estiverem em sua companhia e sob sua autoridade”.
Neste sentido, Cavalieri Filho (2012, p. 208) destaca que:

Objetiva é a responsabilidade dos pais e não a dos filhos menores,


pelos quais são responsáveis. Importa dizer que para os pais serem
responsabilizados será preciso a prova de uma situação que, em
tese, em condições normais, configura a culpa do filho menor. [...]
33

Ter o filho sob sua autoridade e em sua companhia significa tê-


lo sob o mesmo teto, de modo a possibilitar o poder de direção
dos pais sobre o menor e a sua eficiente vigilância.

Pode-se observar que o dispositivo legal tem por objetivo a indenização


da vítima pelos pais caso o menor não disponha de meios suficientes, porém o art.
928 do CC, expressa a possibilidade do menor responder por seus atos ilícitos, caso
os pais não possuam a obrigação e não dispuserem de meios suficientes para supri-
la.
Com isso, Tartuce (2014) afirma que o menor possui uma
responsabilidade subsidiária e mitigada, ou seja, não é considerado o principal
responsável, e pode vir a ser chamado se o responsável direto não puder, devendo
a indenização ser equitativa. Tartuce (2014, p. 531) dispõe ainda que:

Diante da sistemática do novo Código Civil, que seja a pessoa


relativamente ou absolutamente incapaz, sua responsabilidade será
subsidiária sempre que seus representantes tiverem o dever de
indenizar os danos por ela causados, bem como dispuserem de
meios para fazê-lo.

Gonçalves (2012, p. 107), por sua vez, pontua:

Fora isso, a responsabilidade será exclusivamente do pai, ou


exclusivamente do filho, se aquele não dispuser de meios suficientes
para efetuar o pagamento e este puder fazê-lo, sem privar-se do
necessário (responsabilidade subsidiaria e mitigada, como já dito)

Portanto, os pais respondem solidariamente, diretamente e objetivamente


pelo ato ilícito do filho menor, independente da culpa, e caso os genitores não
tiverem como custear o prejuízo causado, o filho menor responderá
subsidiariamente e de forma equitativamente.

3.2 Imputabilidade
34

Neste tópico, faz-se necessário um estudo sobre a imputabilidade, para


se compreender melhor o tema que cerca a responsabilidade civil dos pais perante
os filhos, no cometimento de ato ilícito por ele praticado.
Primeiramente, Gonçalves (2012) alude que o Código Civil de 1916, no
artigo 156, tratava como “menor púbere” – ou seja, relativamente capaz –, aqueles
que tinham entre 16 e 21 anos, sendo considerado “menor impúbere” ou que obtém
a incapacidade absoluta aqueles abaixo dos 16 anos. Em consonância a este texto,
o artigo 1521 trata da responsabilização dos pais em relação aos atos praticados
pelo menor que estiver sob sua guarda, deixando claro que a vítima não ficaria
irressarcida do ato danoso, sendo os pais responsáveis pelos menores de 21 anos.
Sob a ótica de Venosa (2014, p. 79):

Como critério objetivo, o Código de 1916 instituiu que os menores de


16 anos eram inimputáveis, respondendo por eles os pais, se
estiverem sob sua guarda. O menor entre 16 e 21 anos era
equiparado ao maior no tocante às obrigações por ato ilícito em que
fosse culpado (art. 156).

Porém, para efeito o código civil de 2002, permaneceu como sendo


inimputáveis os menores de 16 anos, passando a tratar como menor púbere os que
adentravam a idade de 16 até os 18 anos. Neste espeque, Beviláqua apud
Gonçalves (2014, p. 74-75) faz uma ressalva ao dito anteriormente ponderando que:

[...] a propósito, que não se deve ter em vista, nesse caso, a aptidão
para procriar, mas o desenvolvimento intelectual e o poder de
adaptação às condições da vida social. O Código de 2002 também
considera que o ser humano, até atingir essa idade, não tem
discernimento suficiente para dirigir sua vida e seus negócios e, por
essa razão, deve ser representado na vida jurídica por seus pais,
tutores ou curadores.

Para fins de conceito, Cavalieri (2012, p. 26-27) informa:

“Imputar” é atribuir a alguém a responsabilidade por alguma coisa.


Imputabilidade é, pois, o conjunto de condições pessoais que dão ao
agente capacidade para poder responder pelas consequências de
uma conduta contrária ao dever; imputável é aquele que podia e
devia ter agido de outro modo.
35

Assim, nas palavras de Cavalieri Filho (2012), não se pode falar em


responsabilizar qualquer pessoa pela prática do ato ilícito se,ao praticar o ato, o
indivíduo não possuir o discernimento para entender o caráter reprovável da conduta
por ele praticado.
Venosa (2014) considera como inimputáveis aqueles indivíduos que
possuem o discernimento mental reduzido, os que, desde o Código Civil de 1916,
são chamados e classificados pela jurisprudência como “loucos” de todos os
gêneros, sendo seus curadores responsabilizados por eles, assemelhando-se assim
aos pais. Contudo, Venosa (2014) informa que na modernidade há uma tendência
do “amental” responder ao dano, quando possuir bens suficientes, e quando não
tiver responsável por ele, levando em consideração a proteção social ampla no que
toca a recuperação do prejuízo.
Ulhoa (2012, p. 754-755) traz uma observação acerca dos desprovidos de
discernimento. Segundo o autor:

Houve tempo em que se equiparavam ao caso fortuito os danos


derivados de conduta de amental, por na ter o agente a inteira
compreensão das consequências de seus atos. A agressão de um
louco era vista, no enquadramento jurídico do fato, como algo
semelhante à do ataque de animal selvagem sem dono. O principio
da indenidade e a imputação de responsabilidade objetiva aos
curadores, hoje, fornecem a base para a indenização da vítima pelos
danos causados por amental.

Cavalieri apud Venosa (2014) informa que a solução seria possível no


ordenamento jurídico brasileiro quando estiver em lei expressa, criando-se assim
uma nova modalidade de responsabilidade civil objetiva, na qual não podendo
responder pela culpa, não seria ensejado aos amentais a obrigação de reparação.
Gonçalves (2012, p. 480) evidencia que:

Observe-se que a vítima somente não será indenizada pelo curador


se este não tiver patrimônio suficiente para responder pela
obrigação. Não se admite, mais, que dela se exonere, provando que
não houve negligência de sua parte. O art. 933 do novo diploma
prescreve, com efeito, que as pessoas indicadas nos incisos I a V do
artigo antecedente (pais, tutores, curadores, empregadores, donos
de hotéis e os que gratuitamente houverem participado nos produtos
36

do crime) responderão pelos atos praticados pelos terceiros ali


referidos, “ainda que não haja culpa de sua parte”.

Por conseguinte, Rodrigues apud Venosa (2014) argumenta sob a ótica


dos doutrinadores, que compreendem que, nos casos excepcionais ou de lei ainda
não aprovada, o juiz poderá, por equidade, citar o patrimônio do amental para que
responda pelo dano por ele causado a outrem, uma vez que, caso isto não ocorra, a
vítima ficará irressarcida. Em caso de alienado mental que não tem curador
nomeado, Dias apud Gonçalves (2012, p. 481) destaca que:

[...] não tem curador nomeado, mas vive em companhia do pai, este
responde pelo ato do filho, não com base no art. 932, I, do Código
Civil, mas sim no art. 186, pois decorre de omissão culposa na
vigilância de pessoa privada de discernimento, não a fazendo
internar ou não obstando ao ato danoso. E, se o amental não está
sob o poder de ninguém, responderão seus próprios bens pela
reparação, pois “a reparação do dano causado por pessoas nessas
condições se há de resolver fora dos quadros da culpa”. Seria, neste
caso, uma hipótese de responsabilidade objetiva.

Essa argumentação tem como basilar contemporâneo, o art. 928 do CC,


do qual é possível destacar como razão a ideia de que a responsabilidade civil
busca o equilíbrio entre o dano e a indenização. Vale relembrar que a
responsabilidade do amental se dará quando o seu curador não dispuser de meios
suficientes, pois em regra, acontece o que está expresso no art. 933 do CC, em
relação aos incisos do artigo antecedente.
Portanto, pode-se dizer que a responsabilidade do menor é subsidiária
em relação aos genitores, e que estes possuem responsabilidade solidária em
relação aos filhos – vindo a ocorrer primeiramente e de forma objetiva –,
obedecendo à regra expressa na lei, respeitando o patrimônio dos genitores, e caso
não suficiente, o menor terá que responder de forma equitativa.

3.3 A responsabilidade civil dos pais na emancipação voluntária

A responsabilidade dos pais em caso de emancipação voluntária


concedida ao filho menor, como está expresso no CC, art. 5, parágrafo único, inciso
37

I, quando o filho completa 16 anos, irá permanecer ou será excluída. Venosa (2013,
p. 75) afirma:

Quanto à emancipação dos menores, se esta é voluntária por parte


dos pais, não se liberam eles da responsabilidade por atos
praticados pelos filhos. O mesmo não ocorre se a emancipação
decorre de casamento ou de outras causas previstas no art. 5°,
parágrafo único, do Código Civil.

Sobre o tema, o Min. Rel. Eduardo Ribeiro julgou o seguinte recurso


especial no STJ1:

Suspensão do processo. Justifica-se sustar o curso do processo civil,


para aguardar o desfecho do processo criminal, se a defesa se funda
na alegação de legítima defesa, admissível em tese. Dano moral.
Resultando para os pais, de quem sofreu graves lesões,
consideráveis padecimentos morais, têm direito a reparação. Isso
não se exclui em razão de o ofendido também pleitear indenização a
esse título. Responsabilidade civil. Pais. Menor emancipado. A
emancipação por outorga dos pais não exclui, por si só, a
responsabilidade decorrente de atos ilícitos do filho.

O caso acima narrado pela Abdalla (2011)2 é um recurso que foi negado
em primeiro grau, uma vez que o filho tinha sido emancipado voluntariamente. Trata-
se de uma tentativa de homicídio, que teve como resultado lesões corporais,
posteriormente, o autor entrou pedindo ressarcimento cível e acionando a
responsabilidade dos pais perante o menor. Contudo, os Ministros que estavam
juntos ao Min. Eduardo Ribeiro concordaram com este através de votação pelo
reconhecimento – em partes –, do recurso, objetivando reformar a parte que nega a
indenização à parte autora, bem como a que exclui a responsabilidade dos pais do
menor. Assim, neste caso, depreende-se que os Ministros concordaram que a
emancipação voluntária do filho não retira dos pais o dever da responsabilidade.
Cavalieri (2012, p. 210), cita o Enunciado n° 41 da Jornada de Direito Civil
promovida pelo Centro de Estudos do Conselho da Justiça Federal (Brasília,

1 Disponível em: http://stj.jusbrasil.com.br/jurisprudencia/457354/recurso-especial-resp-122573-pr-


1997-0016473-0. Acesso em 16 de mar de 2016.
2 Disponível em: http://tcconline.utp.br/wp-content/uploads/2012/04/A-RESPONSABILIDADE-CIVIL-

DOS-PAIS-NA-EMANCIPACAO-VOLUNTARIA.pdf. Acesso em 24 de maio de 2016.


38

setembro/2002): “A única hipótese em que poderá haver responsabilidade solidária


do menor de 18 anos com seus pais é ter sido emancipado nos termos do Art. 5º,
parágrafo único, inciso I, do novo Código Civil”. Nesse sentido, Gonçalves (2012, p.
40) afirma que:

Se os pais emancipam o filho, voluntariamente, a emancipação


produz todos os efeitos naturais do ato, menos o de isentar os
primeiros da responsabilidade pelos atos ilícitos praticados pelo
segundo, como proclama a jurisprudência. Tal não acontece quando
a emancipação decorre do casamento ou das outras causas
previstas no art. 5º, parágrafo único, do Código Civil.

Tartuce (2014, p. 531), por sua vez, também argumenta sobre o


Enunciado n° 41, afirmando:

Esse último enunciado recebe críticas contundentes da doutrina,


pois, ao prever que os pais só respondem solidariamente em caso de
emancipação voluntária dos filhos, acaba por presumir a má-fé dos
primeiros, o que é inadmissível em uma codificação que abraça
como um dos princípios fundamentais a boa-fé objetiva.

Nos casos em que os genitores possuam filhos menores e este se


equiparem a um “delinquente contumaz” ou rebelde, menciona Tartuce (2014) que,
não poderíamos dizer que a emancipação voluntária será feita para o afastamento
da responsabilidade dos pais, o que iria conduzir à responsabilidade solidária. Caio
Mário apud Venosa (2014, p. 95) informam:

[...] reforça esse entendimento, que a emancipação voluntária não


exonera os pais, porque um ato de vontade não elimina a
responsabilidade que provém da lei. Nesse caso estabelece-se, sem
dúvidas, uma responsabilidade solidária entre o menor e seus pais.

Seguindo esta lógica, Cavalieri (2012, p. 210) afirma: “Até mesmo a


emancipação que se revelar como ato impensado não tem o condão de afastar a
responsabilidade dos pais, segundo a melhor doutrina.” O autor se refere ao caso
dos menores que são emancipados pelos pais com o objetivo de não responderem
solidariamente pelos atos ilícitos por estes praticado.
39

Por conseguinte, a Min. Maria Isabel Gallotti, em agravo regimental 3


afirma:

AGRAVO REGIMENTAL. AGRAVO DE INSTRUMENTO. AÇÃO DE


INDENIZAÇÃO. ATROPELAMENTO. LESÕES CORPORAIS.
INCAPACIDADE. DEVER DE INDENIZAR.REEXAME DE MATÉRIA
DE FATO. REVISÃO DO VALOR DA INDENIZAÇÃO POR DANO
MORAL. PENSÃO MENSAL. BENEFÍCIO PREVIDENCIÁRIO.
CUMULAÇÃO. POSSIBILIDADE. JULGAMENTO ULTRA PETITA.
OCORRÊNCIA. RESPONSABILIDADECIVIL DOS PAIS.
EMANCIPAÇÃO.
1. Não cabe recurso especial por alegada ofensa a dispositivos
constitucionais.
2. A emancipação voluntária, diversamente da operada por força de lei, não
exclui a responsabilidade civil dos pais pelos atos praticados por seus filhos
menores.
3. Impossibilidade de reexame de matéria de fato em recurso especial
(Súmula 7 do STJ).
4. Admite a jurisprudência do Superior Tribunal de
Justiça,excepcionalmente, em recurso especial, reexaminar o valor fixado a
título de indenização por danos morais, quando ínfimo ou
exagerado.Hipótese, todavia, em que o valor foi estabelecido na instância
ordinária, atendendo às circunstâncias de fato da causa, de forma condizente
com os princípios da proporcionalidade e razoabilidade.
5. A percepção de benefício previdenciário não exclui o pagamento de
pensão mensal como ressarcimento por incapacidade decorrente de ato
ilícito. Precedentes.
6. Indevidos décimo terceiro e férias, não postulados na inicial, uma vez que
o autor não era assalariado, desenvolvendo a atividade de pedreiro como
autônomo.
7. Agravo regimental parcialmente provido.

O recurso acima foi interposto contra o acórdão na ação de indenização


por causa de atropelamento. A Ministra deixa claro que a emancipação voluntária,
diversamente da operada por força de lei, não exclui a responsabilidade civil dos
pais pelos atos praticados por seus filhos menores.
Em contrapartida, Stoco (2007) entende ser uniforme a hipóteses de
emancipação elencadas no art. 5º, parágrafo único, incisos I ao V do CC/02, que
cessa a incapacidade e permite o pleno gerenciamento da vida e dos bens pelo
emancipado. Segundo Stoco (2007), se pelos motivos de emancipação o menor, por
ficção jurídica, é comparado ao maior de 18 anos, então, não possui justificativa

3 Disponível em: http://stj.jusbrasil.com.br/jurisprudencia/22583055/agravo-regimental-no-agravo-de-


instrumento-agrg-no-ag-1239557-rj-2009-0195859-0-stj. Acesso em 16 de mar de 2016.
40

plausível que por seus atos os pais continuem a responder, visto que a indignidade
do filho no recebimento da outorga não anula ou reverte à concessão feita.
Portanto, apesar da existência de correntes contrarias, a majoritária
entende que aos pais não é permitido emancipar voluntariamente sua prole com o
objetivo de afastar de si as responsabilidades, essa responsabilidade dos genitores
é objetiva, mesmo os filhos sendo considerados como deliquentes ou rebeldes,
respondendo eles de forma subsidiaria e mitigada.
41

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Em virtude dos fatos expostos, conclui-se que os pais devem manter-se


responsáveis mesmo ocorrendo a emancipação voluntária do filho menor. Na
responsabilidade dos pais pelos atos dos filhos menores, o poder familiar encontra-
se posto em relação ao filho que não possua os 18 anos completos. Ademais, a
responsabilidade é objetiva, ou seja, o fator culpa dos genitores é irrelevante para
caracterizar o dever de reparação do ato ilícito causado.
Nesse espeque, a responsabilidade civil dos pais é direta, fazendo com
que eles sejam responsabilizados pelos danos. Entretanto, deve-se destacar o
entendimento de que os filhos podem responder de forma subsidiária e mitigada
pelos danos causados a terceiros, salvo se seus pais não possuírem meios ou
condições suficientes pra suprir com o dano.
Enfim, como o problema da presente pesquisa residiu em analisar a
responsabilidade dos pais quanto aos atos praticados pelos filhos emancipados
voluntariamente, observa-se a prevalência do entendimento de que a
responsabilidade dos genitores permanecerá inalterada.
Portanto, diante do que foi pesquisado, conclui-se que, mesmo não sendo
um entendimento uníssono, a responsabilidade civil dos pais não é eliminada
quando o filho é emancipado voluntariamente, em decorrência de atos ilícitos
praticados por estes. Ademais, os pais não podem emancipar os filhos com o
objetivo de ficarem isentos de tais obrigações, inclusive quando são considerados
possíveis delinquentes ou rebeldes, persistindo a responsabilidade civil pelos atos
ilícitos praticados pelo menor até a aquisição da maioridade.
42

REFERÊNCI AS

ABDALLA, Karime Martins Curi. A responsabilidade civil dos pais na emancipação


voluntaria. Disponível em:http://tcconline.utp.br/wp-content/uploads/2012/04/A-
RESPONSABILIDADE-CIVIL-DOS-PAIS-NA-EMANCIPACAO-VOLUNTARIA.pdf.
Acesso em 24 de maio de 2016.

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http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/2002/l10406.htm. Acesso em 25 de
novembro de 2015.

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