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A Falha Fatal

da Teologia por trás do


Batismo Infantil
&
O Dicotomismo Pactual:
Continuidade e Descontinuidade
dos Pactos de Deus

1ª Edição

Jeffrey Johnson
Título Original
The Fatal Flaw of the Theology Behind Infant Baptism & Covenantal Dichotomism:
Continuity and Discontinuity of the Divine Coventants.

Por Jeffrey D. Johnson


Copyright © 2010, 2017 Jeffrey D. Johnson. Todos os direitos reservados.

Publicado por free Grace Press
Conway, AR, 72034. United States.

Copyright © 2018 Editora O Estandarte de Cristo
São Paulo, SP, Brasil

1ª edição em português: 2018.
ISBN: 978-85-85200-03-9

Todos os direitos em língua portuguesa reservados por Editora O Estandarte de Cristo.
Proibida a reprodução por quaisquer meios, salvo em breves citações, com indicação da
fonte.

Salvo indicação em contrário e leves modificações, as citações bíblicas usadas nesta
tradução são da versão Almeida Corrigida Fiel | ACF • Copyright © 1994, 1995, 2007,
2011 Sociedade Bíblica Trinitariana do Brasil.

Tradução: William e Camila Rebeca Teixeira
Revisão ortográfica: Helen Bampi
Editor: William Teixeira
Capa: William Teixeira
Imagem da capa: The banishment of Hagar and Ishmael (Adriaen van der Werff, 1696-7)

***

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)


Johnson, Jeffrey D., 1976-.
J67f A falha fatal da teologia por trás do batismo
infantil e o dicotomismo pactual [recurso eletrônico]
: continuidade e descontinuidade dos pactos de Deus
/ Jeffrey Johnson; tradutores Camila Rebeca Vieira
de Almeida Teixeira, William Teixeira Pedrosa. –
São Paulo (SP): O Estandarte de Cristo, 2018.

Formato: Mobi
Requisitos de sistema: Adobe Digital Editions
Modo de acesso: World Wide Web
Inclui bibliografia
Título original: The Fatal Flaw of the Theology Behind Infant Baptism &
Covenantal Dichotomism
ISBN 978-85-85200-03-9

1. Batismo – Igrejas batistas. 2. Teologia batista. I. Teixeira, Camila Rebeca


Vieira de Almeida. II. Pedrosa, William Teixeira. III. Título.

Elaborado por Maurício Amormino Júnior – CRB6/2422

***
Sumário
PREFÁCIO
AGRADECIMENTOS

PARTE 1
A Falha Fatal da Teologia Por Trás do Batismo Infantil

INTRODUÇÃO
A Antiguidade do Pedobatismo
AS DIVISÕES DO PEDOBATISMO
Fides Aliena
Fides Infusa
Fides Infantium
Simbolismo Sacramental
Pré-Credobatismo
Regeneração Presumível
Regeneração Batismal
Pedofé
A POSIÇÃO SOB CRÍTICA E POR QUÊ

1 | AS INFERÊNCIAS QUE APOIAM O BATISMO INFANTIL


Nenhum Mandamento no Novo Testamentário
O Argumento para o Batismo Infantil
Pontos Fortes e Pontos Fracos das Inferências Indiretas
A AMBIGUIDADE DESTAS INFERÊNCIAS
A Singularidade Dessas Inferências
Crianças são Impedidas de Participar à Mesa
Uma Transição Difícil entre a Antiga e a Nova Alianças
Muita Confusão na Igreja Primitiva
Os Gentios Eram Ignorantes Quanto ao Significado da Circuncisão
Conclusão
2 | O QUANTO O BATISMO É ANÁLOGO À CIRCUNCISÃO
AS DIFERENÇAS
Exclusividade Masculina
Cidadania Judaica
Adultos Incrédulos
Filhos de Incrédulos
Não Idêntico Quanto ao Significado
Participantes Diferentes
Objeção
AS SIMILARIDADES
Reflexões Conclusivas
O Objetivo deste Estudo
3 | CONTINUIDADE: A ESSÊNCIA DA TEOLOGIA PACTUAL
PEDOBATISTA
Continuidade entre a Antiga e a Nova Alianças
Evidência de Continuidade
Por que o Pedobatismo está Enraizado na Continuidade entre a Antiga e a Nova
Alianças
O Gancho que Une o Batismo Infantil
4 | A NATUREZA DA ANTIGA ALIANÇA
Distinção Racial
Afiliação Nacional
Perpetuidade Racial
Cabeça Federal
Indicado por uma Marca Física
Não Assegurava a Salvação Pessoal
Odre Antigo e Vinho Novo
Conclusão
5 | A ANTIGA ALIANÇA: BASEADA EM OBRAS
O Pacto Mosaico era Condicional
O Pacto Mosaico Continha Maldições
O Pacto Mosaico Foi Quebrado
Termos que Resumem o Pacto Mosaico
Uma Objeção Esperada
Conclusão
6 | GÁLATAS 4:21-31 ENSINA DESCONTINUIDADE
A Alegoria Apresentada
Ismael Representa a Aliança das Obras
Isaque Representa a Aliança da Graça
A Alegoria Explicada
A Escrava Representa a Antiga Aliança
A Mulher Livre Representa a Nova Aliança
A Alegoria Aplicada
A Verdadeira Identidade dos Filhos das Obras
A Verdadeira Identidade dos Filhos da Promessa
A Objeção Pedobatista Declarada
Conclusão
7 | UM SISTEMA DOUTRINÁRIO INCONSISTENTE
O Pacto da Graça é Incondicional
A Fé é a Condição do Pacto da Graça
O Pacto da Graça é Tanto Condicional Como Incondicional
O Pacto da Graça tem Termos de Incondicionalidade
Conclusão
8 | REDUCTIO AD ABSURDUM
O Pacto da Graça Requer Fidelidade Recíproca
O Pacto da Graça Requer Fidelidade Pactual
A Unificação da Lei e o Evangelho
A Unificação dos Pactos das Obras e da Graça
A Eliminação do Pacto de Obras
A Eliminação do Pacto da Graça
Conclusão
9 | A FALHA FATAL DA TEOLOGIA DO PACTUAL PEDOBATISTA
O Problema com os Quebradores do Pacto no Pacto da Graça
A Dificuldade de Resolver este Problema
Apóstatas da Nova Aliança
A Falha Fatal
Algumas Objeções Respondidas
Conclusão
10 | AS DEFICIÊNCIAS DA ANTIGA ALIANÇA
O Pacto Abraâmico era Espiritual em sua Natureza
A Antiga Aliança Não era Eterna
A Antiga Aliança foi Incapaz de Cumprir as Promessas Abraâmicas
Conclusão
11 | O PROPÓSITO DA ANTIGA ALIANÇA
O Pacto Mosaico Manifestou Culpa
O Pacto Mosaico Apontou para Cristo
O Pacto Mosaico foi um Meio de Preservação Nacional
O Pacto Mosaico Estabeleceu a Necessidade de Genealogias
O Pacto Mosaico Estabeleceu a Salvação
A NOVA ALIANÇA CUMPRE AS PROMESSAS ABRAÂMICAS
Conclusão
12 | A DESCONTINUIDADE ENTRE A ANTIGA E A NOVA
ALIANÇAS
Participantes Diferentes
Substâncias Diferentes
Durações Diferentes
Conclusão
13 | DIFERENTES EM EFICÁCIA
A Falha e a Morte de Israel
A Ascensão e Sucesso da Igreja
A Justificação é Estabelecida pela Nova Aliança
A Santificação é Estabelecida pela Nova Aliança
A Lei na Nova Aliança
Graça no Antigo Testamento
Conclusão
14 | A NATUREZA DA NOVA ALIANÇA
Cabeça Federal
Teocracia
Perpetuidade Racial
O BATISMO INFANTIL E A NOVA ALIANÇA
Expiação Substitutiva
A Eficácia do Batismo Infantil
A Natureza da Igreja
Conclusão
15 | O SIGNIFICADO DA CIRCUNCISÃO
A Circuncisão de Abraão e a Circuncisão Infantil
O que Romanos 4:11 Não Ensina
O Pacto Representado pela Circuncisão Infantil
Conclusão
16 | O ERRO DE INTEGRAR A CARNE COM O ESPÍRITO
REALIDADES NATURAIS E ESPIRITUAIS
Descendências Naturais e Espirituais
Preservação Natural e Perpetuidade Espiritual
Unidades Familiares Naturais e Espirituais
Conclusão

PARTE 2
O Dicotomismo Pactual: Continuidade e
Descontinuidade dos Pactos de Deus

INTRODUÇÃO
1 | ABRÃO
Descendências Naturais e Espirituais
Tipos e Antítipos
Incondicional e Condicional
Conclusão
2 | OS DOIS FILHOS DE ABRAÃO
John Bunyan
Nehemiah Coxe
R.B.C. Howell
Charles Hodge
Conclusão

3 | ABRAÃO E MOISÉS
Continuidade
Descontinuidade
Conclusão

4 | ABRAÃO E CRISTO
Continuidade
Descontinuidade
Conclusão

5 | MOSÉS E CRISTO
Continuidade
Descontinuidade
Conclusão
6 | ABRAÃO, MOISÉS E CRISTO
Cristo Cumpriu as Condições do Pacto Abraâmico
Cristo Cumpriu o Pacto Mosaico
Cristo Cumpriu as Promessas do Pacto Abraâmico

7 | DAVI
Conclusão

8 | CONTINUIDADE/DESCONTINUIDADE
Continuidade
Descontinuidade
Conclusão

Apêndice:
A LEI DE MOISÉS E A LEI DE CRISTO
Inseparável
A Distinção

BIBLIOGRAFIA
PREFÁCIO
A teologia pactual tem uma história longa e nobre como uma frutífera rubrica
para a interpretação bíblica. Os pactos avançam a linha da história bíblica
quando Deus fez promessas a várias pessoas, a maioria delas incluindo a
promessa: “Eu serei o seu Deus e eles serão o meu povo” (Gênesis 17:7 –
Apocalipse 21:2-3). Adão é certamente tratado como um representante
pactual em Romanos 5 e 1 Coríntios 15. Oséias 6:7 o considera como o
primeiro que transgrediu a exigência humana em um pacto divino. Noé é
recebido em um pacto em nome de todas as pessoas de todos os tempos, no
que concerne à destruição do mundo por um dilúvio (Gênesis 9:8-17). A
Abraão é dado um pacto referente a um povo ou povos terrenos, e também a
uma descendência espiritual (Gênesis 12:1-3; 15:1-6, 17-21; 17:1-8;
Gálatas 3:5-9). Este pacto abraâmico é renovado para Isaque e Jacó. Um
pacto é feito com Moisés, que inclui a entrega do código da lei moral escrito
(Êxodo 19:5; Deuteronômio 4:23; 5:2-3; 29:1). O pacto é restringido em seu
cumprimento que Deus promete a Davi que um de seus descendentes ocupará
para sempre o trono e reinará sobre o povo de Deus (2 Samuel 7). Isaías,
Jeremias e Ezequiel dão testemunho de uma ocasião em que Deus fará uma
nova aliança que será acompanhada pelo poder de cumprir as suas provisões
condicionais para seus participantes e conceder bênçãos superabundantes
(Isaías 54; Jeremias 31:31-39; Ezequiel 36:22-38). Todas essas parecem ser
expressões da aliança eterna mencionada em Hebreus 13:20-21, segundo a
qual Cristo morreu e dá ao Seu povo tudo o que eles precisam para a vida e a
piedade (“operando em vós o que perante ele é agradável” [Cf. 2 Pedro 1:3-
5]).
Já no livro de Barnabé (entre 70 e 132 d.C.), a ideia bíblica de aliança
governava a percepção da igreja sobre o lidar de Deus com o Seu povo e a
inclusão dos gentios. Gabriel Biel (1415-95) usou o conceito de aliança para
apoiar a sua teologia nominalista de mérito. Ulrico Zuínglio, Heinrich
Bullinger e João Calvino usaram os pactos como um modo de ver um
princípio coerente governando toda a Escritura e explicando as várias facetas
das ações de Deus para com o homem. Embora no século XVII tanto os
presbiterianos quanto os batistas, juntamente com outros grupos do
protestantismo reformado, edificassem a sua eclesiologia sobre uma teologia
dos pactos, embora eles discordassem em certas aplicações da doutrina
pactual bíblica; os presbiterianos, junto com os reformados holandeses,
seguindo uma trajetória de interpretação que vai de Zuínglio (1525) até
Gaspar Oleviano (1585), criam que os pactos, especialmente no que diz
respeito às promessas feitas a Abraão, davam garantia bíblica para a inclusão
de crianças no pacto e que isso deveria ser reconhecido pela continuação do
batismo infantil; os batistas, enfatizando as provisões espirituais e eficazes da
Nova Aliança, afirmavam e praticavam adequadamente que somente os
crentes deveriam ser batizados e admitidos à membresia da igreja.
Esses desacordos têm produzido uma longa tradição de interação
literária, às vezes combativa e provocadora, mas esperançosamente com um
interesse fraterno profundo e permanente pela verdade, a respeito das
diferenças de interpretação sobre os pactos. Jeffrey Johnson produziu uma
interação minuciosa, vigorosa e impressionante com a teologia pactual,
enquanto usada como apoio para o batismo infantil. Ele expôs uma análise
detalhada de cada parte do sistema, aprovou o que era biblicamente
fundamentado, desafiou o que é indefensavelmente inventado e ofereceu
alternativas convincentes para cada parte do sistema que ele desafiou. Ele não
parou nisso, mas ofereceu uma interpretação alternativa da relação entre os
pactos. Ainda que o leitor teológico sério queira desafiar a proposta de
Johnson, deve certamente reconhecer que a proposta do autor é séria e precisa
ser ouvida nas discussões atuais entre pedobatistas reformados e credobatistas
reformados.
— Tom J. Nettles
AGRADECIMENTOS
Muitas peças precisaram se encaixar para a publicação desta obra. Por essa
razão, gostaria de expressar minha gratidão a todos que desempenharam um
papel importante na publicação deste livro. Sou especialmente grato a Ben e
Susie Lemoine, cuja contribuição generosa ajudou a financiar os custos de
publicação. Eu também quero agradecer a T.J. Gentry, pastor da Covenant
Presbyterian Church (Heber Springs, AR), pelas muitas horas gastas
respondendo às minhas perguntas e me desafiando a cavar ainda mais fundo
do que eu teria feito sozinho. A Richard Belcher que investiu horas
incontáveis revisando o meu manuscrito e ofereceu muitas sugestões e
correções perspicazes que melhoraram muito a apresentação geral desta obra.
Por isso, estou em dívida com ele. A Gilbert Barr, pastor da Sovereign Grace
Baptist Church (Simmesport, LA), que deu-me o encorajamento necessário
para concluir este estudo. Suas palavras bondosas afastaram muito desânimo,
pelo que sou profundamente grato. Também desejo agradecer a Jeff e Lisa
Plair, Brian Nicholson e Sarah Ashwood por sua alegre revisão enquanto
liam arduamente os meus rascunhos, corrigindo muitos erros. Acima de tudo,
quero agradecer a minha amável esposa, Letha, a quem dedico este livro, por
seu amor, apoio e incentivo durante todo o processo.
A Falha Fatal
da Teologia Por Trás do
Batismo Infantil
INTRODUÇÃO
Papistas, anglicanos, luteranos e presbiterianos são todos chamados de
pedobatistas, porque todos batizam os seus filhos infantes, contudo o fazem
por diferentes razões.[1] Para tornar as coisas mais complicadas, dentro do
presbiterianismo existem grandes distinções.[2]
Tradicionalmente, a doutrina do pedobatismo tem sido restrita a dois
grupos: aqueles que ensinam que o batismo comunica graça salvífica aos
bebês (ex opere operato, “pela obra operada”), e aqueles que creem que o
batismo infantil não comunica salvação, mas essa é uma grande simplificação
do assunto. Dentro desses dois ramos, existem muitos subgrupos.
Para compreender as múltiplas divisões dentro do pedobatismo, é
proveitoso rever a história doutrinária do batismo infantil — observar a
progressão, o desenvolvimento e as mudanças dentro da prática — e
particularmente destacar como a relação entre o batismo infantil e a fé tem
mudado ao longo dos anos. Isso ocorre porque a conexão entre a fé e o
batismo infantil é exatamente o que distingue os vários grupos uns dos
outros, como veremos.
A Antiguidade do Pedobatismo
Sem dúvida, o pedobatismo é uma prática muito antiga e histórica na
igreja. Pode-se questionar se a prática era apostólica, mas ninguém pode
negar com credibilidade a sua antiguidade.[3] Embora nenhum dos escritos
patrísticos e lecionários[4] da igreja do primeiro e segundo séculos se refira ao
batismo infantil, o registro histórico data a prática desde o início do terceiro
século, onde pelo menos algumas igrejas foram observadas seguindo a
prática.
O primeiro tratado existente sobre o assunto vem das obras de
Tertuliano de Cartago. Em sua obra, “Sobre o Batismo”[5] (início do terceiro
século), Tertuliano procurou desacreditar a validade do batismo infantil. A
segunda referência (cronologicamente) relativa ao batismo de infantes é a
“Tradição Apostólica”, de Hipólito (meados do terceiro século). Nessa obra,
Hipólito afirmou que apenas os catecúmenos eram candidatos apropriados ao
batismo, indicando a exclusão de bebês.
Cipriano de Cartago é o primeiro autor a escrever em apoio ao batismo
infantil. Na “Epístola 58”, ele se referiu a uma decisão de um sínodo africano
em 253 d.C., que exige o batismo infantil.[6] Para Cipriano, o batismo infantil
não era uma opção, mas um dever.[7]
Com o passar do tempo, a prática cresceu em popularidade. Embora
parecesse pelos escritos de Tertuliano e Hipólito que a prática foi
originalmente recebida com oposição, no quarto século, os pais da igreja
escreveram quase exclusivamente em favor do pedobatismo.
É discutível até que ponto a evidência patrística apoia o batismo
infantil.
A questão, portanto, não é tanto se a igreja primitiva batizava os seus
bebês, mas por que eles os batizavam?
AS DIVISÕES DO PEDOBATISMO
Para simplificar, restringi as diferentes posições pedobatistas em oito
divisões:
1. Fides Aliena: A igreja supre a fé necessária para o batismo do
infante.
2. Fides Infusa: O batismo infunde fé no infante.
3. Fides Infantium: A fé dos próprios infantes está presente no batismo.
4. Simbolismo Sacramental: A legitimidade do batismo infantil é
independente da fé.
5. Pré-Credobatismo: O batismo precede a fé no infante, mas não a
garante.
6. Regeneração Presumida: A igreja presume que os seus infantes
batizados têm fé até que se prove o contrário.
7. Regeneração Batismal: O batismo comunica fé a todos os infantes
(incluindo os não eleitos).
8. Pedofé: Os infantes têm fé antes do batismo.
Fides Aliena
Muitos dos pais da igreja primitiva ensinaram que o batismo lavava os
pecados.[8] No entanto, esses mesmos pais da igreja não concordaram com os
tipos de pecados perdoados no batismo. Somente os pecados cometidos antes
do sacramento são perdoados,[9] ou o batismo também limpa pecados futuros?
Embora a igreja não estivesse universalmente convicta, os pais da igreja
concordaram que o batismo era um meio de graça efetivo para lavar ao
menos os pecados passados.[10]
Contudo, vendo que os pais da igreja não criam que as crianças eram
culpadas de pecado pessoal, então “que necessidade havia para batizar
crianças inocentes?”, esta foi a primeira pergunta que fizeram a si mesmos.[11]
Além disso, porque a igreja primitiva administrava o batismo de adultos
somente àqueles que confessavam sua fé — uma confissão que expressava fé
em Cristo e arrependimento dos pecados — para ela a fé e o batismo eram
inseparáveis.[12] Com isso em mente, os primeiros pais patrísticos tinham
outra pergunta a responder: como as crianças são capazes de ter a fé
necessária para o batismo? Orígenes procurou responder à primeira pergunta,
enquanto Agostinho, à segunda.
Se as crianças eram inocentes, por que precisavam de perdão? De
acordo com Orígenes (aprox. 185-254), embora as crianças não tivessem
pecado pessoal, elas ainda compartilhavam o pecado original de Adão.
Portanto, bebês não batizados, embora inocentes, estavam em perigo. Por
quê? Porque, se acontecesse de morrerem em sua infância, levariam a culpa
de Adão para o túmulo. Por causa desse perigo, os bebês precisavam do
batismo. Desta maneira, a igreja no terceiro século estabeleceu a necessidade
teológica para o pedobatismo.
Se a fé e o batismo estão ligados, qual é a justificativa para batizar
crianças que são incapazes de ter fé? Sim, elas precisam de perdão, mas como
podem ser candidatas apropriadas ao batismo sem a fé? Esse foi um
verdadeiro problema teológico para a igreja primitiva.
Uma resposta adequada não veio até o início do quinto século.
Diferentemente de Orígenes, Agostinho (aprox. 354-430) não cria que as
crianças eram inocentes. Não apenas elas precisam de perdão em relação à
culpa de Adão, mas também precisam que seus pequenos corações
depravados sejam purificados. Para Agostinho, as crianças têm necessidade
dupla do batismo.[13]
De acordo com Agostinho, o sacramento do batismo não apenas
remove a culpa do pecado de Adão, ele purifica o coração da sua depravação
interior.[14] O batismo é um signa visibilia invisibilis gratiae (um sinal visível
da graça invisível). Agostinho afirmou: “A água toca o corpo e purifica o
coração”.[15] Em A Cidade de Deus, ele chegou a chamar o tanque batismal de
“a pia da regeneração”.[16] Por exemplo, ele escreveu: “criancinhas, que, pela
pia da regeneração, foram libertadas das amarras do pecado original em que
estavam presas”.[17]
No entanto, Agostinho reconheceu que a fé é o pré-requisito para o
batismo e as crianças são incapazes de exercer fé. Então como elas podem
receber perdão se não são capazes de crer? Qual foi a solução de Agostinho?
Foi bem simples: a igreja é capaz de cumprir esse pré-requisito pelas
crianças. Ou seja, a igreja crê no lugar do infante incrédulo, fides aliena (“fé
de outro”).[18]
Em resumo, por que a igreja primitiva batizava infantes? Orígenes
alegou que as crianças necessitam do batismo por causa da culpa de Adão,
enquanto Agostinho afirmou que tal batismo é permitido porque a igreja
supre a fé necessária para o batismo. Desta forma, a necessidade teológica e
os fundamentos do pedobatismo foram estabelecidos.
Vemos, então, que dois dos mais notáveis defensores do batismo
infantil lançaram as bases para considerar o batismo infantil como um meio
de graça, ensinando que o batismo lava os pecados e concede perdão para os
seus participantes.
Fides Infusa
Este fundamento para o batismo infantil foi suficiente para a igreja por
vários séculos, mas no novo milênio os teólogos escolásticos levantaram
questões adicionais. Para citar Jonathan Rainbow:
Se a fides aliena resolve o problema da falta de fé do infante, introduz
uma nova questão: quem de fato crê? Os primeiros escolásticos
contavam com a possibilidade de que pais ou padrinhos não cressem
de verdade. Nesse caso, o ato de crer recai sobre a igreja como um
todo, como Agostinho havia dito. Mas e se toda a igreja estivesse
errada? Então, disseram os primeiros escolásticos, é a fé da ecclesia
triumphans, a igreja que já está no céu, que é suficiente. Mas a igreja
triunfante não necessita de fé; como pode “crer”? Resposta: a sua fé
está depositada no tesouro de mérito.[19]
Foi através desse fluxo de pensamento que a igreja mudou na Idade
Média de fides aliena para fides infusa (vertus infusa baptisme, uma virtude
infundida pelo batismo). Em vez de os infantes confiarem na fé de outro, eles
recebem a fé como um dom no batismo a partir do tesouro da igreja.
Primeiro, isso significa que dentro do sacramento do santo batismo há
um depósito de graça divina. Como Tomás de Aquino afirmou: “os
sacramentos contêm graça”.[20] Segundo, significa que a igreja, por meio da
administração do batismo, tem o poder de conferir essa graça aos infantes ex
opere operato.[21] “Se consideramos que um sacramento é uma causa
instrumental da graça”, argumentou Tomás de Aquino, “devemos admitir que
haja nos sacramentos um certo poder instrumental de produzir os efeitos
sacramentais”.[22] E quais são os efeitos do batismo? Segundo Aquino, o
batismo opera perdão dos pecados e a purificação da alma.
Assim, de Agostinho a Aquino, vemos a ascensão e o desenvolvimento
do sacramentalismo. Sim, o sacramentalismo tem suas raízes na era patrística,
mas encontra a sua expressão mais completa aqui na Idade Média.
Para uma compreensão do sacramentalismo, o professor R.A. Webb
ofereceu uma boa explicação quando disse:
Deus depositou toda a graça salvífica nos sacramentos da igreja, de
modo que, como podemos dizer sobre o Filho de Deus, que Ele estava
encarnado em Jesus Cristo, podemos dizer, de um modo paralelo,
sobre a graça do Espírito, que está ensacramentada nestas ordenações
eclesiásticas; através dos sacramentos da igreja, toda a verdadeira
justiça começa, e somente por eles é aumentada e, em caso de queda,
restaurada; essas ordenanças sacramentais são indispensáveis para a
salvação de qualquer ser humano e conferem, de fato, a graça salvífica,
ex opere operato […] Essas ordenanças, quando administradas
adequadamente e sendo devidamente recebidas, são eficientes para
comunicar a graça ex opere operato, ou seja, em virtude de serem
administradas.[23]
O sacramentalismo tornou-se o ensino oficial da Igreja Católica sobre a
eficácia do batismo. O Concílio de Florença (1439) confirmou que o santo
batismo opera perdão dos pecados originais e pessoais, enquanto o Concílio
de Trento (1546-63) confirmou que os sacramentos comunicam graça ex
opere operato.
Até hoje, a Igreja Católica ainda não se retratou. O Catecismo da Igreja
Católica, um subproduto do Vaticano II (1962-65),[24] afirma: “O batismo
não apenas purifica de todos os pecados, mas também torna o neófito ‘uma
nova criatura’, um filho adotivo de Deus, que tornou-se um ‘participante da
natureza divina’, membro de Cristo e coerdeiro com ele, e um templo do
Espírito Santo”.[25] Scott Hahn, um popular apologista Católico, reafirma essa
doutrina: “Todo sacramento produz seu efeito pelo poder de Cristo
somente… O termo teológico latino para isso é ex opere operato —
literalmente, ‘pelo próprio fato da ação sendo realizada’ — o que denota o
seu poder e eficácia intrínsecos”.[26]
Fides Infantium
A transição de fides aliena para fides infusa não ocorreu sem ressaltar
outro problema teológico. Jonathan Rainbow explica:
Enquanto a doutrina da fides infusa evitou a casuística da fides aliena
por tornar a fé batismal própria da criança, abriu novamente o
problema que a aliena havia resolvido, a saber, as exigências dos
textos do Novo Testamento que descrevem a fé como pré-requisito
para o batismo. Claramente, a fé não pode ser tanto o pré-requisito para
o batismo quanto o dom concedido pelo batismo.[27]
Martinho Lutero procurou ajustar a doutrina do batismo infantil,
procurando resolver o antigo problema entre o batismo infantil e a fé. Sua
solução foi simples. Os infantes são capazes de exercer a sua própria fé. Em
vez de os infantes receberem a fé do tesouro da igreja, eles creem por si
mesmos.
Segundo Lutero, a justificação é somente pela fé; portanto, para que o
pedobatismo seja eficaz quanto à lavagem dos pecados, a fé pessoal do
infante deve estar presente no batismo. “No batismo, os próprios infantes
creem e têm a sua própria fé”.[28] Os infantes são justificados porque creem.
Desse modo, a fé da igreja é intransferível. De acordo com Lutero, se eles
não creem, seu batismo é inútil.
Como os infantes são capazes de ter fé quando ainda precisam
desenvolver algum pensamento cognitivo? Para Lutero, isso não era um
problema. A fé é irrefletida na criança; pode existir sem a mente ter
consciência disso.[29] De acordo com Lutero, “a razão de modo algum
contribui para a fé”.[30] Habilidades de raciocínio não desenvolvidas não
impedem a fé, antes, de acordo com Lutero, tornam os infantes “receptores
mais adequados e apropriados para o batismo”.[31]
De acordo com esta visão, como as crianças recebem fé no batismo?
Embora as Escrituras ensinem que a fé vem pelo ouvir e ouvir a Palavra de
Deus, isso não significa que a fé deva advir de uma compreensão cognitiva
da Palavra. Ouvir, no sentido comum de compreender o pensamento
proposicional, não é necessário para a pedofé. Pelo contrário, a fé é um dom
de Deus comunicado pelo poder sobrenatural do Espírito Santo que opera
através da Palavra. Ou seja, a Palavra de Deus confere fé ao infante
sobrenaturalmente, sem a cooperação da criança. Como afirma Lutero: “A fé
vem pela Palavra de Deus, quando é ouvida; crianças pequenas ouvem essa
Palavra quando recebem o batismo, e com isso também recebem fé”.[32] A fé
é um dom de Deus recebido no batismo, independentemente da vontade e
compreensão do infante. Em resumo, a Palavra no sacramento cria fé na
criança, não o poder do intelecto.
Portanto, o batismo nas águas é um sinal vazio sem ser acompanhado
pela Palavra na cerimônia batismal. É a Palavra unida às águas do batismo
que inicia a fé no infante.
Desta forma, o reformador alemão procurou se afastar do ex opere
operato. Lutero alegou: “Ninguém se beneficia de cerimônias…
simplesmente por ex opere operato, ou seja, pelo simples ato de fazer ou
observar”.[33]
Embora a doutrina pedobatista de Lutero seja uma mudança da posição
católica romana, permanece um meio de graça sacramental, “pelo qual Deus
oferece, comunica e assegura a Sua graça aos homens”.[34] O poder da
Palavra na cerimônia batismal transforma e muda o interior dos infantes.
Lutero escreveu em seu Catecismo Menor que o batismo “opera o perdão dos
pecados, liberta da morte e do diabo e confere salvação eterna a todos os que
creem”.[35] O sucessor de Lutero, Filipe Melanchthon, manteve essa posição
quando declarou: “… nós confessamos que o batismo é necessário para a
salvação, que as crianças devem ser batizadas e que o batismo de infantes não
é inefetivo, mas é necessário e eficaz para a salvação”.[36] Ainda em relação
ao batismo infantil, ele também afirmou: “As crianças precisam do perdão
dos pecados; elas carregam consigo a miséria da fraqueza humana e
desobediência inata. Agora, Deus ordenou à igreja que perdoasse os pecados
e oferecesse tal perdão através dos sacramentos. Daí resulta que há o dever de
oferecer perdão às crianças por meio do batismo”.[37] Além disso, o bispo
Hans Martensen (1808-1884) disse: “Ao sustentarmos isso, o significado
mais profundo do termo, dizemos que o batismo não é meramente o penhor,
nem meramente a promessa e a declaração da graça de Deus, mas o lavar da
regeneração”.[38]
Simbolismo Sacramental
O reformador suíço Ulrico Zuínglio, ao se afastar de uma posição ex
opere operato, se dirigiu ao outro extremo do espectro. Para Zuínglio, o
batismo nas águas é um rito “exterior” que não tem influência sobre a obra
“interior” do Espírito. Não apenas os infantes são incapazes de fé, mas a fé é
desnecessária. Porque o batismo é apenas um sinal, ele não tem eficácia.
“Nada exterior pode nos tornar puros e justos”.[39] Portanto, visto que o
batismo não é um meio de fé, a sua administração não tem relação alguma
com a fé.
Zuínglio tentou resolver o grande dilema de como o batismo infantil se
harmoniza com a fé excluindo a fé por completo. De acordo com Zuínglio, os
teólogos, ao longo da história da igreja, têm procurado resolver um problema
que de fato não era um problema. “Nesta questão do batismo — se posso ser
perdoado por dizer isso — apenas consigo concluir que todos os doutores têm
errado desde o tempo dos apóstolos”.[40]
A solução de Zuínglio foi separar o símbolo daquilo que é significado
pelo símbolo. Em outras palavras, Zuínglio procurou separar o batismo
“exterior” do batismo “interior”. O batismo nas águas deve ser distinguido e
mantido separado da lavagem da regeneração do mesmo modo que a
circuncisão da carne deve ser distinguida da circuncisão do coração. A
ordenança exterior da Antiga Aliança não salvava mais as crianças judias do
que o batismo nas águas na Nova Aliança salva os filhos dos crentes.
Com essa distinção entre exterior e interior, Zuínglio separou o batismo
infantil da fé. As referências bíblicas que vinculam a fé ao batismo referem-
se apenas à lavagem interior e espiritual da regeneração, não ao batismo nas
águas. O batismo espiritual e o batismo nas águas são diferentes. Portanto,
eles devem ser distinguidos e mantidos separados cronologicamente.
Para Zuínglio, o batismo nas águas não tem relação com a fé e a
regeneração. Nesse sentido, o batismo nas águas é apenas um símbolo
exterior.
Ainda assim, Zuínglio ensinou que os infantes precisavam do batismo.
Por quê? Não porque o batismo esteja ligado à fé, mas porque corresponde à
circuncisão do Antigo Testamento. Se os infantes na Antiga Aliança eram
circuncidados, então os infantes pertencentes à Nova Aliança precisam ser
batizados. O batismo não comunica fé salvífica, mas coloca os bebês na Nova
Aliança, da mesma forma que a circuncisão colocava os infantes na Antiga
Aliança. Se a Nova Aliança é em essência a mesma que a Antiga Aliança,
então o que foi praticado na Antiga deve ser praticado na Nova. Portanto, a
continuidade das alianças exige o batismo infantil, e não a fé.
Pré-Credobatismo
Os teólogos da Assembleia de Westminster desenvolveram a
compreensão de Zuínglio sobre o pedobatismo; isto é, no que diz respeito à
continuidade pactual entre a circuncisão e o batismo.
Contudo, ao contrário de Zuínglio, eles buscaram aproximar a fé do
batismo infantil. Os teólogos de Westminster não se contentaram em ver o
batismo como meramente um sinal ou símbolo exterior. O batismo é também
um selo da graça de Deus.
Embora o batismo não salve ex opere operato, há eficácia e graça reais
conferidas no sacramento. Por exemplo, o capítulo 28 e parágrafo 5 da
Confissão de Fé de Westminster (CFW) deixa claro que o batismo não
concede fé ou salvação pela cerimônia em si: “Posto que seja grande pecado
desprezar ou negligenciar esta ordenança, contudo a graça e a salvação não se
acham tão inseparavelmente ligadas com ela, de modo que sem ela ninguém
possa ser regenerado e salvo, ou que sejam indubitavelmente regenerados
todos os que são batizados”. O parágrafo 6, por outro lado, explicita que o
batismo é mais do que apenas um sinal exterior; a graça é oferecida,
manifestada e conferida nas águas do batismo também:
A eficácia do batismo não se limita ao momento em que é
administrado; contudo, pelo devido uso desta ordenança, a graça
prometida é não somente oferecida, mas realmente manifestada e
conferida pelo Espírito Santo àqueles a quem ele pertence, adultos ou
crianças, segundo o conselho da vontade de Deus, em seu tempo
apropriado.
Até que ponto o batismo infantil é eficaz? Exatamente quando e como a
graça é conferida no batismo? De acordo com a CFW, a eficácia do batismo
infantil “não se limita ao momento em que é administrado”. Ou seja, os
efeitos do batismo são frequentemente adiados. Como a confissão afirma, a
regeneração vem no “tempo apropriado” de Deus.
Parece que a CFW ensina que o batismo infantil pode acompanhar ou
preceder a regeneração, mas não a confere. Em algum momento, os filhos da
aliança devem crer por si mesmos para que o batismo tenha algum efeito.
Expandindo esse ponto, Charles Hodge observa: “O batismo, sem fé, não tem
efeito”.[41] A fé deve ser acrescentada.[42] Além disso, James Bannerman
(1807-1868) afirma que o infante “carrega consigo, em virtude de seu
batismo, um direito de propriedade às promessas do seu Deus; e lançando
mão desse direito, e pleiteando-o a Deus em fé, ele pode acrescentar-lhe o
direito de possessão, e assim entrar no pleno gozo da salvação que ele suplica
para sua alma”.[43]
Ainda assim, o texto da confissão permanece ambíguo. Quão próxima a
fé está vinculada ao batismo infantil? Como o batismo confere graça? A
CFW não oferece uma resposta precisa, e não há muita explicação do que
realmente ocorre no momento do batismo. O grau em que o batismo é eficaz
para a fé futura não é claramente expresso na confissão.[44] Isso significa que
a eficácia do batismo espera pela fé, ou a fé (mesmo que adiada) é conferida
de alguma forma pelo batismo?[45]
Por causa dessa ambiguidade, os presbiterianos ficam divididos sobre
como interpretar o capítulo 28 e parágrafo 6 da CFW, e muitos diferem em
como veem os seus bebês batizados.
A Igreja Presbiteriana na América, por exemplo, discordou sobre essa
questão no século XIX. Os presbiterianos do norte, fortemente influenciados
pelos teólogos de Princeton, viam os filhos da aliança com menos suspeita do
que seus colegas do sul. Charles Hodge, por exemplo, estava disposto a ver
os filhos da aliança na mesma luz que seus pais crentes. “Não afirmamos a
sua regeneração, ou que são verdadeiros membros do corpo de Cristo; nós
apenas afirmamos que eles pertencem à classe de pessoas que somos
obrigados a considerar e tratar como membros da igreja de Cristo. Esse é o
único sentido em que mesmo os adultos são membros da igreja, no que se
refere aos homens”.[46] Isto é, a igreja deve considerá-los como crentes e
membros genuínos.
No sul, por outro lado, James Henly Thornwell não foi tão generoso.
Segundo ele, a igreja deve tratar bebês batizados
exatamente como ela trata todos os outros homens impenitentes e
incrédulos; ela deve exercer o poder das chaves e excluí-los da
comunhão dos santos. A igreja deve excluí-los de todos os privilégios
do santuário interior. Deve excluí-los de sua herança até que se
mostrem aptos a possuí-la… Eles não são escravos do pecado e do
Diabo, existindo em uma comunidade livre com o propósito de serem
instruídos para a liberdade dos santos? Até que eles se aproximem de
Deus, ela distintamente ensina que devem ser tratados como a igreja
trata todos os inimigos de Deus.[47]
Embora tenham existido discordâncias sobre a eficácia do batismo
infantil, todos aqueles que sustentam uma interpretação histórica da CFW
confirmam que o batismo infantil não regenera os seus participantes ex opere
operato.
Regeneração Presumível
Do outro lado do Mar do Norte, a Igreja Reformada da Holanda buscou
aproximar ainda mais a fé do batismo infantil, quase tão perto quanto a Igreja
de Roma. Ao contrário dos teólogos de Westminster, os teólogos holandeses
não se contentaram em separar cronologicamente o batismo infantil da fé e da
salvação.
Contudo, a Igreja Reformada Holandesa estava ciente de que nem todos
os bebês batizados se tornam verdadeiros crentes. Este foi um problema para
a Igreja Reformada. Como a igreja pode crer que o pedobatismo comunica fé
salvífica se o batismo não concede de modo universal a fé a todos os que
recebem o sacramento?
Abraham Kuyper tentou resolver esse dilema ensinando que nem todo
batismo é um “batismo verdadeiro”. Os bebês não eleitos recebem apenas
água no batismo; para os tais, o sacramento é ineficaz. Isso é o que Kuyper
chama de “pseudobatismo”. “Às vezes, há um pseudobatismo, como quando
ocorre um pseudonascimento entre os homens, de modo que nenhum batismo
aconteceu ou nenhuma criança nasce”.[48] Por outro lado, os bebês eleitos são
imediatamente regenerados pelas águas do batismo.
Como a igreja deve ver os seus filhos da aliança? Porque o Pacto
promete aos crentes que a sua descendência pertence a Deus, a igreja deve
presumir que os seus filhos estão entre os eleitos de Deus. Visto que a igreja
presume que eles estão entre os eleitos, eles também devem presumir a sua
regeneração.
Essa doutrina é conhecida como regeneração presumível. Embora não
seja certo que o batismo regenere todas as crianças, a igreja presume a
regeneração delas até que haja prova do contrário. Dessa forma, o batismo
infantil é eficaz para a salvação, mas apenas para os eleitos.
Regeneração Batismal
Em nossos dias, aqui nos Estados Unidos da América, houve um
movimento teológico recente dentro dos círculos presbiterianos reformados
para voltar a uma compreensão ex opere operato sobre o batismo. Em janeiro
de 2002, em Monroe, Louisiana, um pequeno grupo de pastores — Douglas
Wilson, John Barach, Steve Wilkins e Steve Schlissel — falou na conferência
anual de pastores da Auburn Avenue Presbyterian Church sobre as
implicações práticas e pastorais do aliancismo reformado. As opiniões
expressas nesta conferência ficaram conhecidas como Auburn Avenue
Theology [Teologia da Evenida Auburn], ou mais recentemente identificadas
pelo nome de Visão Federal.
Em relação ao batismo infantil, os defensores da Visão Federal ensinam
que o batismo regenera todos os filhos da aliança. Eles chegaram a essa
conclusão porque acreditam que o batismo efetua exatamente o que ele
significa. “A promessa de Deus nos assegura que existe uma unidade básica e
fundamental entre o símbolo e a coisa significada. A água e o Espírito não
podem ser divididos”.[49]
Zuínglio separou completamente o batismo “exterior” do batismo
“interior”, alegando que o batismo nas águas não tem eficácia para a
salvação. O símbolo retrata a regeneração, mas não a produz. Os teólogos de
Westminster não estavam dispostos a afirmar que o batismo regenera; para
eles, o símbolo da regeneração e o ato de regeneração nem sempre ocorrem
cronologicamente juntos. Kuyper e a Igreja Reformada da Holanda não
estavam dispostos a afirmar que o batismo infantil regenera os não eleitos.
Estes recebem o símbolo da regeneração, mas para eles é um símbolo vazio
ou falso, conhecido como um pseudobatismo. Os defensores da Visão
Federal, por outro lado, afirmam que não há separação entre o símbolo da
regeneração e o ato da regeneração. “Um símbolo por si só não é um
sacramento. Um sacramento, por definição, inclui a outorga das coisas
significadas. Assim, não pode haver tal coisa como um batismo ‘interior’ que
ocorre à parte de um símbolo exterior, assim como não pode haver nenhum
batismo ‘exterior’ ou ‘ritual’ que seja apenas um símbolo, sem qualquer obra
do Espírito que o acompanhe”.[50]
O que isso significa em relação ao batismo infantil? Significa que o
batismo infantil regenera universalmente todos os bebês devidamente
batizados, eleitos e não eleitos. Isso significa que os infantes entram no
batismo secos e incrédulos e saem molhados e crentes.
A Visão Federal vai além da posição Reformada Holandesa de
regeneração presumível. Em seu livro principal, The Federal Theology [A
Teologia Federal], eles argumentam:
Para Kuyper, alguns infantes recebem o símbolo exterior do batismo,
enquanto outros recebem o símbolo e a realidade interior. Mas dividir
o sacramento em dois deste modo é profundamente problemático tanto
filosófica quanto biblicamente. A regeneração presumível não assegura
aos pais que os seus filhos da aliança são regenerados. Kuyper não
conseguiu lidar com o imenso e insolúvel problema pastoral que o seu
ponto de vista causou, a saber, se alguns batismos são falsos, todos os
batismos ficam sob suspeita.[51]
Ao contrário da opinião de Kuyper, não há presunção na regeneração
batismal. “Considerar e tratar os nossos filhos batizados como cristãos não é
uma questão de fingimento ou presunção”. Como John Barach afirma
ousadamente: “Não há espaço para presunção na aliança de Deus”.[52]
O argumento básico deles parece ser este: se Deus não regenera todos
os filhos da aliança no batismo, então eles não pertencem a Deus. Se os filhos
da aliança não pertencem a Deus, então Deus é infiel à promessa da aliança.
A promessa da aliança é que Deus será o Deus dos crentes e de sua
descendência. Portanto, o batismo infantil deve ser eficaz para todos os filhos
da aliança, independentemente de serem eleitos.[53]
Porque o batismo regenera todos os filhos da aliança, os defensores da
Visão Federal: “Aprendamos a tratar os nossos filhos batizados como os
cristãos que são”.[54]
Como eles respondem ao fato de que nem todos os bebês batizados
crescem como cristãos? Eles alegam que nem todos os filhos da aliança
permanecem na fé. Embora todos os infantes batizados recebam a salvação,
incluindo a união com Cristo, nem todos perseveram até o fim. “Uma pessoa
batizada é cristã até e a menos que tenha apostatado”.[55] Como Mark Horne
afirma em seu livro recente sobre pedobatismo:
A verdade é clara: Deus quer que os cristãos considerem seus filhos
como cristãos. Isso não significa que eles irão automaticamente para o
céu, continuem acreditando ou não no Evangelho. Assim como todos
os cristãos mais velhos, as crianças devem continuar na fé, mas o ponto
é que as crianças não são pequenos incrédulos que precisam ser
convertidos. Elas não são inimigas de Cristo. Elas são crentes que
precisam ser discipulados e encorajados a crescer em graça e
maturidade por toda a vida.[56]
Em outras palavras, os infantes, se não permanecerem fiéis à aliança,
caem da graça, perdem a sua salvação e negam a fé que lhes foi dada em seu
batismo. A Visão Federal torna a salvação condicional à fidelidade à aliança,
que alguns dos regenerados de Deus não mantêm. No entanto, o batismo
regenera todos os filhos da aliança, e eles permanecerão nesse estado a menos
que apostatem.
Pedofé
Alguns dentro do campo da Visão Federal são ainda mais extremos em
sua visão da salvação infantil e da doutrina da regeneração batismal. Por
exemplo, Rich Lusk, em seu livro Paedofaith [Pedofé], vai um passo além;
ele afirma que todos os filhos da aliança são regenerados desde o ventre. Eles
têm fé antes de seu batismo. “O batismo não cria a fé (como na teologia
Luterana), mas oferece Cristo à fé já presente no coração da criança”.[57] Sem
qualquer ambiguidade, ele afirma que “Deus nos dá filhos com fé. Os filhos
da aliança começam a vida como crentes, não precisando de conversão, mas
de perseverança (cf. Hebreus 10:36). Eles devem ser recebidos e criados
como filhos de Deus”.[58]
Lusk olha para o antigo problema de como a fé se encaixa com o
batismo infantil e, essencialmente, afirma que os credobatistas estão certos; a
fé deve preceder o batismo.
Como a pedofé se relaciona com o pedobatismo? Simplesmente não
faz sentido dizer que Deus nos autorizou a batizar incrédulos. Tudo nas
Escrituras parece conectar a fé ao batismo (cf. Marcos 16:16). Na
medida em que o pedobatismo é considerado como o batismo sem a fé
mais frequentemente do que não, a prática se esvai e o argumento
batista é fortalecido. Se o pedobatismo tem base bíblica, a pedofé deve
ser uma realidade.[59]
Em outro lugar, ele diz: “Batizar pessoas incrédulas profanaria e seria
um abuso do batismo, tanto quanto convidar incrédulos à mesa do Senhor
seria um abuso da refeição sacramental. Nós nunca batizaríamos
conscientemente adultos incrédulos, então por que batizar uma criança a
menos que tenhamos alguma razão para considerá-la como crente?”.[60]
Quando e como os infantes recebem fé, Lusk não explica
completamente: “Como Deus trabalha na mente e no coração da criança
simplesmente não faz parte da revelação de Deus para nós e não há muita
esperança de que cientistas ou psicólogos possam ajudar aqui em um
caminho definitivo e totalmente satisfatório (cf. Eclesiastes 11:5)”.[61] Ainda
assim, em outro lugar, ele fala como se os pais fossem, de algum modo, um
meio ou canal da graça de Deus. “No máximo, podemos supor que Deus
opera através dos pais de uma maneira misteriosa para comunicar-se com a
criança”.[62] De alguma forma, o Espírito Santo, através da mãe, concede fé à
criança. Referindo-se ao Salmo 22:9, Lusk afirma: “Parece que Davi está
indicando que a aliança de Deus santifica os laços naturais entre pai e filho,
de modo que o cuidado ‘natural’ que os pais dão ao filho se torna um meio de
graça para ele. De maneira misteriosa, a amamentação alimenta não apenas o
corpo de Davi, mas também a sua fé”.[63]
A relação entre o batismo infantil e a fé mudou e foi alterada ao longo
da história da igreja. Este tem sido (e continua sendo) um problema teológico
para os pedobatistas. Tornou-se um círculo completo, começando com a
posição católica (ex opere operato) até a posição de Zuínglio, que é
exatamente a posição oposta, depois volta a uma posição ex opere operato,
mantida pelos adeptos da Visão Federal.

A POSIÇÃO SOB CRÍTICA E POR QUÊ


Para manter nossos pensamentos e argumentos alinhados, é importante
distinguir as várias divisões do pedobatismo. Uma crítica da posição luterana
ou mesmo da posição católica não pareceria a mesma que a dirigida à Visão
Federal. Alguns dos argumentos seriam sem dúvida semelhantes, mas a
direção fundamental de cada crítica pareceria bem diferente.
Como cada divisão constrói o seu argumento para o batismo infantil de
modo diferente, cada divisão deve ser refutada de modo diferente. Neste
livro, no entanto, me concentrarei apenas na posição presbiteriana. Por que os
presbiterianos em particular? Porque o propósito deste trabalho não é tanto
convencer o pedobatista obstinado quanto é ajudar a persuadir os amigos
credobatistas de sua posição, pois parece que há duas razões comuns de que
tais pessoas se desviem para o presbiterianismo. Em primeiro lugar, eles
fazem a transição para o presbiterianismo porque muitos estudantes da Bíblia
acham que é o próximo passo lógico depois de aceitar o calvinismo — muitos
credobatistas, que aceitaram a fé reformada através de muito estudo e luta,
muitas vezes têm abraçado a posição pedobatista sem muito estudo ou luta.
Em segundo lugar, porque não é frequente que os batistas calvinistas se
convertam ao catolicismo ou ao luteranismo; é principalmente a posição
presbiteriana que geralmente atrai os nossos jovens pastores e pregadores.
Outras razões parecem incluir o fato de que o pedobatismo apoiado
pela Confissão de Westminster não é tão distante de um salto teológico
quanto outras posições pedobatistas; uma pessoa não precisa acreditar que o
batismo salva crianças para ser presbiteriana. Além disso, muitos dos grandes
autores lidos pelos batistas calvinistas são presbiterianos, e o peso desses
estudiosos é muito influente. Os presbiterianos também fazem um bom
trabalho educando e atraindo jovens pregadores batistas para seus seminários
e escolas de ensino superior. Muitos entram como batistas e se graduam
como presbiterianos.
Com todas essas razões em mente, estreitei meu foco para a posição
presbiteriana do batismo infantil, pois é essa divisão do pedobatismo que é a
mais preocupante, e parece ser de grande influência para o crente batista.
Como pretendo refutar de modo mais específico a posição
presbiteriana, espero não levantar muitas das objeções mais familiares contra
o pedobatismo — há muitos livros excelentes já escritos a partir dessa
abordagem para que haja uma necessidade legítima de outro.[64] O principal
objetivo deste livro não será abordar as várias falhas do “batismo infantil”,
mas sim fazer um ataque direto e pontual à própria estrutura pactual na qual o
pedobatismo está enraizado. Em vez de tentar cortar todos os ramos da árvore
do batismo infantil, eu buscarei golpear a sua fundação. Para erradicar a
árvore do batismo infantil, suas raízes mais profundas devem ser exumadas,
examinadas e refutadas.
O fundamento para o batismo infantil, pelo menos do ponto de vista
presbiteriano, é a teologia pactual pedobatista. A teologia pactual pedobatista
(também conhecida como teologia federal) é mais do que apenas uma
doutrina isolada e independente. É uma hermenêutica bíblica, uma grade ou
matriz teológica na qual a Escritura é interpretada e compreendida. Nesse
sentido, é uma doutrina fundamental, uma doutrina pela qual as outras
doutrinas, como o batismo, são explicadas.
Portanto, ao tentar esclarecer a falha fatal da teologia por trás do
batismo infantil, procurarei expor a falha fundamental do batismo infantil.
Embora esta seja uma crítica da teologia pactual pedobatista, este livro
não é inteiramente negativo. Como aqueles que escavam um terreno antes de
edificarem sobre ele, eu tenho trabalhado para remover apenas o cascalho
solto, de modo que aquilo que é sólido permaneça. Por isso, muito deste livro
é positivo e instrutivo. Ou seja, ao lê-lo, você deve não apenas esperar ouvir
argumentos contra a teologia pactual pedobatista, mas ouvir ensinamentos
positivos sobre a natureza da Antiga e da Nova Alianças — descobrindo
como elas diferem e se relacionam adequadamente uma com a outra.
Além disso, não tentei refutar todos os aspectos da teologia pactual
pedobatista. Muito, se não a maioria, do que a teologia pactual pedobatista
ensina é inamovível. Há muitas pedras robustas que devem ser preservadas.
Por exemplo, a teologia pactual pedobatista enfatiza como Deus lida com o
homem exclusivamente através de alianças, como a revelação da redenção de
Deus tem sido progressiva, como cada um dos pactos de Deus ao longo da
história acrescentou luz ao plano eterno da redenção divina e como Deus não
mudou os Seus planos ou mudou de ideia ao longo da história; antes, Deus
tem cumprido constante e progressivamente um plano pactual coeso e
unificado. Em relação a essas importantes verdades pactuais, J.I. Packer
escreve:
A doutrina bíblica, do começo ao fim, tem a ver com os
relacionamentos pactuais entre Deus e o homem; a ética bíblica
envolve expressar as relações pactuais de Deus para conosco em
relacionamentos de aliança entre nós e os outros; e a religião cristã tem
a natureza da vida pactual, na qual Deus é o objeto direto de nossa fé,
esperança, amor, culto e serviço, todos animados por gratidão pela
graça.[65]
Por essa razão, é com muita hesitação que uso o termo “teologia
pactual” nessa crítica. Este livro não é um ataque à importância dos pactos de
Deus, nem um ataque a um sistema de teologia pactual coeso.[66] Além disso,
hesito em usar esse rótulo, porque minha posição é muito semelhante, se não
idêntica, a uma forma de teologia pactual articulada por muitos batistas
pactuais.[67] É a teologia pactual como definida pela maioria dos pedobatistas
presbiterianos que esta obra procura desafiar, e não uma estrutura pactual
coesa da história da redenção.[68] Há uma distinção entre a teologia pactual
batista e a presbiteriana; portanto, é devido à clareza que identifiquei a
teologia pactual que está sob crítica como teologia pactual pedobatista.
Além disso, com toda a sinceridade, não escrevi este livro por nenhum
desejo de provocar controvérsia. Entristece-me (como deveria acontecer com
todos nós) ver disputas e discussões entre o precioso povo de Deus. Deve ser
com muita calma, prudência, amor e longanimidade que atacamos a crença de
outro cristão em uma questão secundária da fé. Muitas pessoas são
excessivamente ansiosas para entrar em batalhas verbais com seus irmãos e
irmãs em Cristo.
Assim, embora esta obra seja um pouco polêmica por natureza, busquei
evitar o uso de qualquer observação depreciativa ou incisiva, que muitas
vezes incita uma hostilidade desnecessária. Eu tenho muitos amigos
presbiterianos valiosos demais para perdê-los devido a argumentos
precipitados e acalorados. Meu objetivo final é edificar, não derrubar.
Alguns dos cristãos mais piedosos e sábios eram e são presbiterianos.
Se não fosse por minha consciência, eu não ousaria, em minha fraqueza,
discordar de homens piedosos e sábios como João Calvino, Jonathan
Edwards, Charles Hodge e muitos outros teólogos louváveis. Você e eu, no
entanto, não devemos curvar nossos joelhos a meros homens, mas à Palavra
de Deus. Independentemente de quanto podemos admirar esses teólogos, eles
de fato são mortais e nunca devemos permitir que a influência deles ofusque
o ensino da Palavra viva.
Portanto, tenho inflexivelmente prosseguido com uma consciência
limpa (não tendo nenhum desejo de romper a comunhão com qualquer um
dos meus amigos pedobatistas, mas simplesmente falar a verdade em amor),
para que eu possa de alguma forma ajudar aqueles que estão se esforçando
para chegar a uma conclusão sobre esse assunto importante. E, por último,
encomendo esta obra às mãos de Deus, que é capaz de usar os argumentos
mais fracamente construídos para a Sua glória e para o bem do Seu reino.
1
AS INFERÊNCIAS QUE APOIAM O
BATISMO INFANTIL

“É verdade”, admitiu o teólogo pactual B.B. Warfield, “que não há ordem


expressa para batizar crianças no Novo Testamento, nenhum registro
expresso de batismo de infantes e nenhumas passagens tão rigorosamente o
implicam que devamos inferir delas que bebês foram batizados”.[69]
Nenhum Mandamento no Novo Testamentário
Admitir que não há um mandamento do Novo Testamento para o
batismo infantil é uma confissão incrível, visto que o batismo é claramente
uma doutrina neotestamentária.[70] Fora do Novo Testamento, não há outros
escritos inspirados ou autoritativos sobre o batismo. Com isso em mente,
parece natural que devemos estabelecer a doutrina do batismo somente pelo
corpus do Novo Testamento. O propósito, os efeitos e os participantes do
batismo devem ser verificados inteiramente dentro dos limites do Novo
Testamento.
Portanto, Warfield parece estar prejudicando as suas próprias crenças
sobre o batismo infantil quando confessou que não há aprovação
neotestamentária para elas. A total falta de apoio do Novo Testamento ao
pedobatismo parece selar o caso contra ele.
Warfield, no entanto, passou a dizer:
Se tal ordem fosse necessária para justificar a prática, deveríamos ter
de deixá-la incompletamente justificada. Mas a falta desta ordem
expressa é algo que está longe de proibir o rito; e se a continuidade da
igreja através de todas as eras puder ser bem feita, a ordem para o
batismo infantil não deve ser buscada no Novo Testamento, mas no
Antigo Testamento, quando a igreja foi instituída, e nada menos do que
uma proibição real dela no Novo Testamento poderia nos obrigar a
omiti-lo agora.[71]
Em outras palavras, Warfield reabriu sua argumentação em favor do
batismo infantil apelando para as evidências contidas no Antigo Testamento.
O Argumento para o Batismo Infantil
O argumento típico para o batismo infantil é semelhante a este: Embora
não existam mandamentos expressos no Novo Testamento para batizar
infantes, a igreja ainda é comissionada a fazê-lo com base na clara conexão
entre o Israel do Antigo Testamento e a igreja do Novo Testamento. A Antiga
e Nova Alianças são essencialmente uma e a mesma. A “igreja” no Antigo
Testamento circuncidava os seus bebês, e o batismo é a substituição da
circuncisão. Mais claramente, a circuncisão era o sinal e selo do Pacto da
Graça no Antigo Testamento, enquanto o batismo é o sinal e selo do Pacto da
Graça no Novo Testamento. Visto que a circuncisão era necessária para a
entrada na “igreja” do Antigo Testamento, e o batismo é necessário para a
entrada na igreja do Novo Testamento, e, desde que os infantes tiveram
permissão para entrar na “igreja” no Antigo Testamento, a eles não deve ser
negada a entrada na igreja do Novo Testamento. Se os pequeninos foram
acolhidos no Pacto da Graça sob sua antiga administração, como poderiam
ser excluídos do Pacto da Graça sob sua nova administração? Este argumento
é resumido por Joseph Pipa Jr.:
Existe apenas um Pacto da Graça e uma administrador desse pacto, o
Senhor Jesus Cristo. Em todo Pacto da Graça, Deus sempre lidou com
os crentes e com seus filhos. Toda aliança ao longo das Escrituras é
tanto com a pessoa com quem Deus faz a aliança como com os seus
descendentes.[72]
Desta forma, o mandato para o batismo infantil não é derivado de
qualquer passagem particular ou ordem expressa no Novo Testamento, mas
sim por várias passagens “indiretas”, ou como John Murray se referiu a elas,
“boas e necessárias inferências”, derivadas das páginas do Antigo
Testamento.[73]
O batismo infantil, embora ausente do ensino do Novo Testamento, é
evidente para qualquer estudante da Bíblia que compreenda a unidade entre a
Antiga e a Nova Alianças e a relação análoga entre a circuncisão e o batismo.
A partir disso, os pedobatistas pactuais alegam que o mandato bíblico para o
batismo infantil está claramente estabelecido.
Alguém pode se perguntar, por que não há tal ordem no Novo
Testamento? A.A. Hodge alegou que era porque “Os apóstolos tomaram [o
batismo infantil] por garantido como auto-evidente e universalmente
admitido”.[74] O erudito estudioso de Genebra, François Turretini, declarou
que: “Não havia necessidade de que um preceito particular concernente ao
batismo de infantes fosse dado porque era do conhecimento dos discípulos
que as crianças foram circuncidadas”.[75] Louis Berkhof o expressou desta
forma: “Se as crianças recebiam o sinal e selo da aliança na antiga
dispensação, a suposição é que elas certamente têm o direito de recebê-lo na
nova”.[76] Já que os bebês eram circuncidados na Antiga Aliança, deve-se
presumir que a igreja primitiva sabia, sem qualquer instrução adicional, que
eles deveriam batizar os seus filhos também. Em suma, os autores do Novo
Testamento não abordaram diretamente o tema do batismo infantil, porque
sentiram, por assim dizer, que ele era uma “obviedade”. O mandato era tão
óbvio a partir das inferências do Antigo Testamento, que não havia
necessidade de nenhuma ordem ou explicação no Novo Testamento.
Além disso, pedobatistas argumentam que, em vez de o silêncio do
Novo Testamento desacreditar a validade do batismo infantil, ele o apoia. Em
outras palavras, essas deduções do Antigo Testamento são tão claras, que,
para impedir os bebês do batismo, seria necessário um mandamento direto do
Novo Testamento que as proibisse. Por exemplo, o teólogo escocês Douglas
Bannerman afirmou: “A menos que uma ordem expressa de revogação e
proibição do antigo privilégio possa ser apresentada, a conclusão natural é
que a antiga regra permaneceu em vigor no que diz respeito ao lugar dos
filhos pequenos de crentes dentro da comunhão visível de fé à qual os seus
pais pertencem”.[77] Ainda mais diretamente, A.A. Hodge disse: “Um
mandamento explícito para batizar [bebês] implicaria dúvidas sobre os
antigos direitos eclesiais dos infantes”.[78]
Deste modo, os pedobatistas viram a mesa. Em vez de o silêncio
neotestamentário ser um ataque contra o batismo infantil, é um ataque contra
o batismo de crentes. Como James Bannerman afirmou: “A ausência de
qualquer fórmula expressa que imponha o batismo infantil nas Escrituras é
mais especial e enfaticamente para ser considerada não como um argumento
contra a prática, mas sim um argumento a seu favor”.[79] O teólogo francês
Pierre Charles Marcel declarou: “O silêncio do Novo Testamento a respeito
do batismo infantil milita em favor da prática, e não contra ela”.[80] Assim, os
pedobatistas habilmente viram a mesa e colocam o ônus da prova sobre os
credobatistas. Como R.L. Dabney concluiu: “O silêncio das Escrituras não
constitui refutação; e o ônus da prova… repousa sobre o imersionista”.[81]
Pontos Fortes e Pontos Fracos das Inferências Indiretas
Ambos os lados, portanto, usam o silêncio do Novo Testamento como
evidência para apoiar a sua visão. Quem está certo? Tudo depende de quão
claras e óbvias são essas “inferências indiretas” realmente são. A falta de
quaisquer declarações positivas ou preceitos diretos sobre o batismo infantil
faz com que essas inferências do Antigo Testamento sejam o único
fundamento para o pedobatismo. O batismo infantil, certo ou errado, repousa
sobre as inferências extraídas da relação entre a circuncisão e o batismo.
Portanto, precisamos examinar essas inferências. Precisamos colocá-las
sob a luz e perguntar a nós mesmos: quão seguras são essas deduções? Elas
falam alto o suficiente para anular o silêncio do Novo Testamento? O batismo
é semelhante o suficiente à circuncisão para que justifique o batismo de
bebês? Por outro lado, essas inferências são tão ambíguas, que o óbvio
silêncio do Novo Testamento fala mais claramente e com muito mais
autoridade contra a prática?
A única maneira de examinar a validade dessas inferências é
estabelecer a relação entre a circuncisão e o batismo. Em outras palavras,
devemos verificar o grau em que a circuncisão é análoga ao batismo. Este é o
coração do debate.
Antes de fazermos isso, entretanto, seria de alguma ajuda examinar o
peso dessas inferências do Antigo Testamento à luz do silêncio do Novo
Testamento. Precisamos questionar se essas deduções do Antigo Testamento
são evidentes o suficiente para anular a ausência de qualquer sanção
neotestamentária.
O foco deste capítulo é sobre a ambiguidade dessas inferências da
Antiga Aliança. No próximo capítulo, vamos nos aprofundar e examinar a
analogia entre a circuncisão e o batismo na qual essas “inferências indiretas”
estão enraizadas.
A AMBIGUIDADE DESTAS INFERÊNCIAS
Independentemente do que os pedobatistas afirmem, a ausência de qualquer
instrução explícita sobre o batismo infantil no Novo Testamento é difícil de
ser superada. Para que eles superem esse silêncio, precisam mostrar que há
evidências suficientemente fortes no Antigo Testamento para justificar a
prática. Ou seja, sem qualquer sanção expressa do Novo Testamento, a
autenticidade do batismo infantil torna-se predicada em seu mandamento ser
óbvio (ou pelo menos ser um pouco discernível) a partir das inferências
indiretas do Antigo Testamento. Não se pode esperar que a igreja pratique
algo que não é em algum grau evidente nas páginas da Escritura.
Além disso, o silêncio do Novo Testamento não é o único obstáculo no
caminho. Há problemas históricos na igreja apostólica que também fazem
com que essas deduções do Antigo Testamento pareçam obscuras e
insuficientes.
Os pedobatistas afirmam que as inferências do Antigo Testamento são
claras o suficiente para anular o silêncio e qualquer outro obstáculo
encontrado no Novo Testamento. No entanto, como veremos, essas deduções
são, na melhor das hipóteses, nuvens escuras, que estão repletas de muita
incerteza, por várias razões.
A Singularidade Dessas Inferências
O batismo infantil não parece óbvio, porque não existem outros
mandamentos ou exigências para a igreja local que estejam fora das
Escrituras do Novo Testamento. Não somente a igreja local teve seus
primórdios nos primeiros dias dos apóstolos, mas todas as exigências,
funções e atividades necessárias da igreja local foram completamente
formuladas naqueles dias apostólicos. Além do batismo infantil, que é negado
por muitos, não lemos nenhuma outra obrigação relativa ao governo da igreja
fora do Novo Testamento.
Se o batismo infantil é uma ordenança legítima para a igreja do Novo
Testamento, por que não é mencionado no Novo Testamento, quando todas
as outras ordenanças e funções da igreja local são registradas nestas páginas?
Todos os artigos sobre governo, culto, conduta, doutrina, disciplina e
atividade da igreja estão contidos nos limites do Novo Testamento. Em vista
disso, não parece provável que o mandato para o batismo infantil seja
encontrado nas páginas do Antigo Testamento.
Além disso, na dispensação do Antigo Testamento, o batismo não era
nem mesmo um assunto bíblico. Portanto, como Walter Chantry pergunta:
“Como pode uma ordenança tipicamente do Novo Testamento ter sua
plenitude — ou melhor, o seu único fundamento — na Escritura do Antigo
Testamento?”. Isso não parece apenas improvável, segundo Chantry, “Isso é
contrário a qualquer sentido da teologia bíblica e vai contra todas as regras de
interpretação”.[82]
Crianças são Impedidas de Participar à Mesa
Não parece óbvio que os filhos da aliança participem da ordenança do
batismo sem que seja igualmente óbvio que eles observem a ceia do Senhor.
Na Antiga Aliança, não apenas as crianças eram circuncidadas, mas também
participavam da refeição da páscoa (Êxodo 12:24). Os pedobatistas não
apenas afirmam que o batismo substituiu a circuncisão, mas novamente
afirmam que a ceia do Senhor substituiu a páscoa. Isso é verdade. No entanto,
muitos deles são inconsistentes em sua hermenêutica. O argumento que eles
usam para apoiar o pedobatismo é invertido e usado para negar a
pedocomunhão. Nisso, assim como não há mandamentos expressos contra o
batismo infantil no Novo Testamento, não há mandamentos expressos contra
os filhos da aliança participarem do vinho e do pão à mesa do Senhor.
Mesmo assim, eles negam um enquanto aceitam o outro. Por exemplo, Louis
Berkhof afirmou: “As crianças, embora tivessem permissão para comer a
páscoa nos dias do Antigo Testamento, não podem participar da mesa do
Senhor, uma vez que não podem cumprir os requisitos para uma participação
digna”.[83] Isso é inconsistente. O mesmo argumento é usado contra o
pedobatismo. Assim como os bebês não podem cumprir os requisitos para a
ceia do Senhor: uma profissão de fé e autoexame, eles também não podem
cumprir os requisitos para o batismo: fé e arrependimento (Mateus 16:16).
Parece natural que o que os pedobatistas creem em relação a um eles
devem crer em relação ao outro. Muitos deles, no entanto, não aceitam essa
regra, tornando-os inconsistentes em seu ensino.[84] O uso que eles fazem
dessa boa e necessária inferência se aplica apenas ao batismo, não à ceia do
Senhor.[85]
Uma Transição Difícil entre a Antiga e a Nova Alianças
O batismo infantil não parece ser um mandamento óbvio, porque não
houve uma transição fácil entre a Antiga e a Nova Alianças. A igreja
primitiva parecia confusa a respeito de cada pequeno detalhe relativo às
diferenças e semelhanças entre a Antiga e a Nova Alianças. Repetidamente, o
apóstolo Paulo precisou corrigir os vários erros durante esse período de
transição. Duas epístolas foram escritas para este propósito: Gálatas e
Hebreus. Com isso em mente, parece estranho que a igreja primitiva estivesse
confusa em quase tudo relacionado à economia do Antigo Testamento
(Colossenses 2:16-18), e ainda perfeitamente convencida de que seus filhos
descrentes deviam ser batizados, e isso totalmente baseado em deduções
extraídas de uma prática pactual antiga. À luz de toda a confusão, devemos
acreditar que a questão do batismo infantil foi uma transição suave e fácil que
não necessitava de atenção?
Muita Confusão na Igreja Primitiva
Não é como se a circuncisão fosse uma questão menor no Novo
Testamento. Os judeus continuavam a ter muitos conceitos errados de seu
novo papel e função dentro da igreja da Nova Aliança. Paulo dedicou muito
tempo e energia corrigindo ideias falsas relacionadas a isso. Os judaizantes
achavam que a circuncisão era necessária para que os gentios se tornassem
parte do povo de Deus (Atos 15:1). O próprio Paulo indicou que ele já havia
crido nessa falsa noção (Filipenses 3:8).
Esta foi uma questão tão importante, que resultou no primeiro concílio
geral da igreja. Nesse concílio, os líderes da igreja expuseram o novo papel
que a circuncisão teria durante esse período de transição. Eles mostraram a
sua nova função na igreja cristã. Portanto, à luz disso, pareceria natural que
eles tivessem explicado como o batismo havia substituído essa ordenança da
Antiga Aliança e agora precisa ser administrado aos crentes e seus filhos. No
entanto, em sua conclusão, não encontramos essa ideia articulada.
Meu ponto é que a igreja apostólica não parecia ter uma compreensão
clara acerca da circuncisão. Eles não pareciam entender que se tratava de um
sinal da Antiga Aliança. Eles não pareciam entender a conexão entre a
circuncisão e o batismo. Assim, como poderiam ter chegado à suposição
correta de que seus filhos incrédulos precisavam ser batizados?
Os pedobatistas acreditam que a ideia do batismo infantil era óbvia e
universalmente entendida pela igreja primitiva, mas, quando lemos sobre toda
a confusão na igreja, esse não parece ser o caso.
Os Gentios Eram Ignorantes Quanto ao Significado da Circuncisão
Embora o experiente teólogo pactual possa ver a questão do batismo
infantil como algo simples e fácil de entender, esse não era provavelmente o
caso para a maioria dos gentios ignorantes nos primeiros dias da igreja. Os
gentios não tinham conhecimento prévio do significado da circuncisão. Eles
não foram circuncidados e pouco ou nada sabiam sobre Moisés e a aliança
mosaica. Mesmo antes de o apóstolo Paulo ter usado a sua pena inspirada, os
gentios convertidos superaram em muito o número dos judeus convertidos.
As igrejas primitivas estavam cheias de gentios incircuncisos, e os
pedobatistas ainda afirmam que o batismo infantil era tão óbvio, que não
precisava ser discutido. Com a igreja de Corinto, cheia de gentios e erros
doutrinários, devemos acreditar que os apóstolos deixaram o mandamento de
batizar os bebês ser dado de boca em boca a partir dos cristãos judeus?
Novamente, isso é difícil de acreditar, se não totalmente inacreditável.
Conclusão
Ao buscar levantar dúvidas sobre a clareza dessas deduções do Antigo
Testamento, deve-se perceber que os pedobatistas têm seus próprios
argumentos. Principalmente, eles insistem que o núcleo de todas as igrejas
primitivas consistia de judeus e gentios convertidos que eram prosélitos
anteriores da religião judaica. Mesmo assim, ainda parece difícil acreditar que
este importante mandato não necessitasse de atenção no Novo Testamento.
Independentemente disso, a força ou a fraqueza dessas deduções não
residem completamente nesses argumentos especulativos acima. Enquanto
eles mostram a improbabilidade do batismo infantil, não demonstram a sua
impossibilidade.[86] É por isso que devemos mergulhar mais profundamente e
estudar a natureza e a extensão da relação entre a circuncisão e o batismo.
Até que ponto eles estão relacionados? Essa é a ênfase do próximo capítulo.
2
O QUANTO O BATISMO É ANÁLOGO À
CIRCUNCISÃO

O caso do batismo infantil é geralmente baseado em várias inferências


extraídas do Antigo Testamento, contudo a força e o valor subsequente
dessas inferências dependem do quanto a circuncisão é comparável ao
batismo. É a assim chamada unidade entre circuncisão e batismo que produz
essas inferências. Portanto, em vez de enfatizar o debate sobre o silêncio do
Novo Testamento, precisamos mergulhar mais fundo e determinar até que
ponto a circuncisão é análoga ao batismo.
Pois, se essas inferências indiretas usadas para apoiar o batismo infantil
são inequívocas (idênticas) em seus participantes, então os bebês devem ser
batizados da mesma maneira que os bebês foram circuncidados. Mas, se eles
são equívocos (não idênticos) em seus participantes, então não há garantia
para a prática sem sanção clara do Novo Testamento. Isso buscaremos provar
enquanto avançamos.
AS DIFERENÇAS
Podemos seguramente assumir que tanto o pedobatista quanto o credobatista
concordariam que a relação entre a circuncisão e o batismo é de fato análoga.
Ambos os lados do argumento concordariam com essa conclusão. Mas só
porque algo é análogo não significa que seja idêntico. Mesmo em um
relacionamento análogo, existem diferenças envolvidas. Assim como uma
maçã pode ser semelhante a uma laranja porque é uma fruta e é redonda, não
se pode negar que existem algumas diferenças distintivas e claras entre as
duas. Da mesma forma, embora exista uma ligação entre a circuncisão e o
batismo, isso não os torna inequívocos. A questão é: onde estão essas
diferenças?
Portanto, antes de examinar as semelhanças entre a circuncisão e o
batismo, identificaremos as suas diferenças. Ao ressaltar essas diferenças, o
erro de assumir que nenhum mandamento do Novo Testamento é necessário
para transferir a circuncisão infantil para o batismo se tornará aparente.
Aqui estão algumas das diferenças mais notáveis:
Exclusividade Masculina
A diferença mais óbvia é que a circuncisão só foi administrada aos
homens. Se o batismo de bebês substituiu a circuncisão infantil, o batismo
infantil não deveria ser restrito aos meninos? Em nenhum lugar das
Escrituras, Antigo ou Novo Testamento, a igreja é ordenada a batizar as suas
filhas. Deus encarrega a igreja de batizar todos os discípulos (homens e
mulheres) que tenham uma profissão de fé, mas em nenhum lugar a igreja é
comissionada a batizar meninas que não fazem tal profissão.
Cidadania Judaica
A circuncisão, não a fé, era a exigência de cidadania na comunidade de
Israel. Embora Deus exigisse fé, nunca foi uma qualificação para a cidadania
em Israel. A adesão ao povo nacional de Deus na Antiga Aliança nunca foi
baseada na fé salvífica. A maioria dos israelitas jamais possuiu fé em Deus
(Hebreus 3:18), mas isso não revogou a sua cidadania. Os judeus incrédulos
permaneciam filhos de Abraão e cidadãos do Israel nacional durante toda a
sua vida, independentemente de professarem fé pessoal em Deus. A fé nunca
foi um pré-requisito para fazer parte de Israel. Incrédulos poderiam entrar e
permanecer na aliança por toda a sua vida. Até mesmo os seus filhos
entrariam na aliança, não com base em sua fé ou mesmo na fé de seus pais,
mas em virtude de sua árvore genealógica e de sua circuncisão.
Portanto, se o batismo admite infantes incrédulos no povo de Deus na
Nova Aliança — a igreja — esses filhos incrédulos podem permanecer como
parte do povo de Deus sem a fé? Geralmente, aqueles que apoiam o batismo
infantil alegam que os bebês são obrigados a crer quando amadurecem, isto é,
se desejam permanecer na aliança. Contudo, essa condição não se aplica
àqueles circuncidados na Antiga Aliança. Devemos assumir que esse aspecto
da circuncisão mudou quando não há um mandamento do Novo Testamento
que revogue essa prática do Antigo Testamento?
Adultos Incrédulos
Os bebês não eram os únicos incrédulos comissionados a serem
circuncidados. “Todo o homem entre vós será circuncidado” (Gênesis 17:10-
14). Isso implica que os homens incrédulos de todas as idades deveriam ser
circuncidados. Por exemplo, não somente Ismael tinha 13 anos antes de ser
circuncidado, mas todos os servos de Abraão também foram circuncidados,
mesmo aqueles que foram comprados como estrangeiros pagãos
(Gênesis 17:27). Além disso, seria um exagero pensar que todos esses
homens tinham evidência de fé antes de sua circuncisão. Sabemos que
muitos, se não a maioria, dos israelitas circuncidados como adultos no
deserto eram incrédulos. Como podemos ter tanta certeza? Porque não
somente aquela geração em particular morreu incrédula, mas Moisés afirma
que eles sempre foram pessoas incrédulas e de dura cerviz. Isso implica que,
mesmo antes da circuncisão, Moisés nunca teve qualquer confiança neles. O
ponto é que a fé não parecia ser um pré-requisito para a circuncisão de
adultos mais do que um pré-requisito para a circuncisão infantil.[87]
Portanto, devemos presumir que filhos adolescentes e incrédulos de
cristãos recém-convertidos são velhos demais para serem batizados? Quem
decide qual idade é o limite de corte? Os pedobatistas afirmam que os adultos
devem ter uma profissão de fé antes de poderem ser batizados. E quanto às
crianças de 2 anos de idade, os pré-adolescentes ou mesmo adolescentes?
Essas crianças ainda estão sob a autoridade de seus pais. Tudo isso se torna
arbitrário, e uma suposição pessoal não é mais autoritária do que a próxima.
Filhos de Incrédulos
A circuncisão não foi administrada apenas à primeira geração de
crianças, mas também foi administrada às gerações sucessivas. “Todo homem
entre vós será circuncidado” (Gênesis 17:10-14).
Portanto, se a igreja deve transferir a circuncisão infantil para o
batismo, o que limita a administração do batismo à primeira geração de pais
crentes? Vendo que a circuncisão foi realizada até a terceira e quarta geração
e além, que escritura do Novo Testamento proíbe que os avós crentes tenham
os seus netos incrédulos batizados?[88]
Se a circuncisão é um padrão para o batismo, por que não batizar
crianças com base na fé dos seus avós? O que o Novo Testamento ensina
expressamente contra o batismo de netos de crentes? Em nenhum lugar no
Antigo Testamento é ensinado que o pré-requisito para a circuncisão é um pai
crente. Se permitirmos que as inferências da circuncisão do Antigo
Testamento sejam nossa autoridade sobre o batismo, então as crianças não
precisam de um pai crente para serem batizadas. Essa inferência do Antigo
Testamento não é válida? O que era praticado no Antigo deve ser praticado
no Novo, ou essa regra hermenêutica não se aplica a todas as situações?
Não Idêntico Quanto ao Significado
Embora a circuncisão tivesse um significado espiritual, também tinha
um significado nacional e tipológico. Ou seja, a circuncisão representava e
significava afiliação judaica. Era uma das marcas de identificação que
separavam os judeus dos gentios. Significava etnia judaica. O batismo, por
outro lado, não significa nenhum vínculo étnico, nacional ou físico. Essa é
uma grande diferença.
Em sua defesa, o pedobatista Kenneth Gentry afirma: “Infelizmente, os
cristãos frequentemente consideram a circuncisão como um sinal puramente
nacional e racial de bênçãos e privilégios exteriores e não espirituais. No
entanto, a circuncisão era o sinal da aliança em seu significado espiritual
mais profundo”.[89] Gentry prossegue dando três exemplos. Um, a circuncisão
“era um sinal da união com Deus”. Dois, “a circuncisão era um sinal da
remoção da contaminação”. Três, “a circuncisão era o selo da justiça da fé”.
[90]

Independentemente de Gentry estar certo, não faz diferença. Embora a


circuncisão apontasse para realidades espirituais, isso não muda o fato de que
a circuncisão também identificava um povo racial e nacional. Um significado
espiritual não anula o seu significado nacional.
O problema com o argumento pedobatista é que ele não reconhece o
significado nacional e político da circuncisão. Os pedobatistas agem como se
essa importante distinção não tivesse relação com o assunto. Stephen Wellum
está correto quando afirma:
A tentativa pedobatista de reduzir o significado da circuncisão
meramente ao seu significado espiritual é um exemplo clássico de ler
realidades da Nova Aliança na Antiga sem antes analisar o rito do AT
em seu próprio contexto pactual e depois cuidadosamente pensar nas
questões de continuidade e descontinuidade entre os sinais pactuais.[91]
Embora a circuncisão e o batismo possam significar muitas das mesmas
coisas, o batismo não distingue ou identifica um povo físico, nacional e
racial. Os pedobatistas não podem mudar este fato. J.L. Dagg concluiu:
Quando vemos a natureza e o modo dos dois ritos à luz das Sagradas
Escrituras, descobrimos que a circuncisão era destinada aos
descendentes literais de Abraão, mas aquela descendência literal de
Abraão, sem fé, não dava direito ao batismo. Seja qual for o acordo
que possa ser traçado entre as duas cerimônias em outros aspectos,
suas diferenças neste particular destroem a analogia, exatamente no
ponto em que somente ela pode ser útil para a causa do batismo
infantil.[92]
A circuncisão sinalizava um povo nacional, já o batismo, um povo
espiritual. Por causa disso, eles não são idênticos em seu significado. Essa
distinção deve ser mantida, especialmente quando se trata de discernir os
participantes de cada um.
Participantes Diferentes
A partir de todas essas diferenças, aprendemos que a admissão para o
batismo não é a mesma para a circuncisão, e as qualificações para o batismo
são mais restritas do que eram para a circuncisão — a fé não era nem mesmo
um pré-requisito para a circuncisão. Consequentemente, os sujeitos
apropriados da circuncisão não são idênticos ao batismo.
Pedobatistas, no entanto, argumentam que desde que o batismo
substituiu a circuncisão, a porta de admissão ao batismo deve ser tão ampla e
abrangente quanto o escopo de admissão era para a circuncisão. James
Bannerman afirmou que, se o Pacto da Graça “era gracioso o suficiente e
amplo o suficiente para compreender dentro de seus limites infantes sob a
antiga economia [a Antiga Aliança], ele ainda o faz [sob a Nova Aliança]”.[93]
Douglas Bannerman, outro eminente teólogo, perguntou: “Existe alguma
razão para acreditar que a ordenação posterior da admissão [batismo] não
tinha, de acordo com a mente de Cristo, a mesma amplitude e plenitude de
significado e aplicação que a anterior [circuncisão]?”.[94] De acordo com
Matthew Henry: “O desígnio da dispensação do Novo Testamento era
ampliar, e não estreitar, as manifestações da graça divina; tornar a porta mais
larga, e não a tornar mais estreita”.[95] Em outras palavras, a porta da
admissão ao batismo não pode ser mais estreita do que a porta da admissão à
circuncisão. Joel Beeke concorda: “É inconcebível que na plenitude da era do
Evangelho os filhos da igreja do Novo Testamento tenham menos
participação na aliança do que os filhos de Israel no Antigo Testamento”.[96]
Isso pode soar como uma dedução lógica e uma boa e necessária
inferência, mas os pedobatistas não mencionam que a circuncisão também foi
corretamente administrada a bebês de não crentes. Eles constroem o seu
argumento com base na premissa de que a circuncisão era apenas
administrada adequadamente aos filhos dos crentes. Esse, contudo, não foi o
caso. Deus comissionou a nação de Israel a circuncidar todas as crianças do
sexo masculino. A circuncisão nunca foi restrita àquelas crianças que tinham
pelo menos um pai ou mãe crente. Pelo contrário, era administrada a todos os
descendentes de Abraão sem exceção. Os incrédulos estavam sob a mesma
obrigação de circuncidar seus filhos, tanto quanto os crentes.
Portanto, os pedobatistas são inconsistentes em seu argumento. Eles
negam a admissão do batismo aos bebês que não têm pelo menos um dos pais
crentes, quando a circuncisão era administrada apropriadamente às crianças,
ainda que não tivessem pais crentes. Ao fazê-lo, os pedobatistas não
substituem totalmente as inferências retiradas da circuncisão para determinar
os participantes apropriados do batismo.
Os pedobatistas acusam os batistas de negligência. As práticas da
Antiga Aliança permanecem válidas, a menos que sejam proibidas pelo
corpus do Novo Testamento. Os presbiterianos, contudo, também
negligenciam transferir todo aspecto da circuncisão para o batismo. Eles
também são culpados de limitar o escopo do batismo àqueles, e somente
àqueles, que têm pelo menos um dos pais crente.
Independentemente de alguém ser credobatista ou pedobatista, a
admissão ao batismo não é tão ampla ou abrangente quanto o escopo
daqueles que foram comissionados a serem circuncidados. Pelo fato de que
os filhos de incrédulos eram circuncidados, os sujeitos da circuncisão não
podem ser idênticos ao batismo. Assim, a circuncisão infantil não valida o
batismo infantil.
Objeção
Pedobatistas podem argumentar que essas modificações são derivadas
da natureza da Nova Aliança. Embora não exista nenhum ensino bíblico
expresso a respeito do batismo de meninas, fica evidente, pela natureza da
Nova Aliança, que as meninas devem ser batizadas. Em outras palavras, a
inclusão de meninas em idade infantil, a exclusão de servos adultos
incrédulos e as outras alterações são mudanças óbvias, adequadas e
necessárias, implícitas na natureza da Nova Aliança.
Em resposta, eu observaria que, se os pedobatistas usam o Novo
Testamento e a natureza da Nova Aliança como sua autoridade para
determinar as alterações entre a circuncisão e o batismo, como deveriam,
então eles não têm motivos para manter alguns aspectos da circuncisão
completamente no fundamento do Antigo Testamento. Se cada detalhe sobre
o batismo e a circuncisão fossem os mesmos, se a circuncisão e o batismo
fossem perfeitamente idênticos e se não houvesse discrepâncias entre os dois,
então, e somente então, o Antigo Testamento teria autoridade igual ao Novo
Testamento ao pronunciar quem são os participantes apropriados do batismo.
No entanto, porque os participantes da circuncisão não são idênticos aos
participantes do batismo, algo precisa ocorrer. Considerando que eles
discordam uns dos outros, ambos os testamentos não podem ser igualmente
autoritativos em relação ao batismo. Assim, um ou outro deve ser a
autoridade final, caso contrário a autoridade final torna-se arbitrária.
Por exemplo, porque o Novo Testamento é silencioso sobre a questão
do batismo infantil, os pedobatistas recorrem ao Antigo Testamento. No
Antigo Testamento, no entanto, há certos aspectos relativos à circuncisão que
os pedobatistas não transferem para o batismo. Portanto, ao fazer esses
ajustes, eles reconhecem que o Novo Testamento (e a natureza da Nova
Aliança) é a autoridade final sobre o batismo. Uma vez que admitem isso, no
entanto, eles não têm motivos para voltar e dizer que o Antigo Testamento é a
autoridade final sobre o batismo. Por quê? Porque, se o Antigo Testamento
fosse a autoridade final sobre o batismo, então tudo relacionado à circuncisão
deveria ser transferido ao batismo sem exceção. E isso eles não estão
dispostos a fazer. No entanto, uma vez que os pedobatistas concordam que o
Novo Testamento é a autoridade final sobre o batismo, eles não têm motivos
para transferir os ensinos do Antigo Testamento sobre a circuncisão para o
batismo; ou seja, sem garantia clara e expressa do Novo Testamento. Caso
contrário, isso se torna a caixa de Pandora: tome isso do Antigo Testamento,
mas não aquilo, extraia isso do Novo Testamento, mas deixe aquilo de lado.
[97]
Por fim, em vez de o Antigo ou o Novo Testamento ser a autoridade sobre
o assunto, a autoridade final se tornou aqueles que decidiram quais aspectos
da circuncisão são e quais não são transferíveis.
Ainda mais importante, de acordo com o ensino claro do Novo
Testamento, a Nova Aliança consiste apenas de crentes nascidos de novo
(Hebreus 8:11). O Novo Testamento não é apenas silencioso sobre a questão
do batismo infantil, ele específica e abertamente ensina que aqueles que
foram regenerados são os únicos membros da Nova Aliança (Hebreus 8:7-
13), não deixando absolutamente nenhum espaço para crianças não
convertidas. Assim como o Novo Testamento anula quaisquer restrições às
mulheres, também revoga qualquer inclusão de crianças incrédulas. Uma vez
que alguém use o Novo Testamento e a natureza da Nova Aliança como os
fundamentos finais para decidir quais aspectos da circuncisão são e quais não
são transferíveis para o batismo, não há motivos para transferir a circuncisão
infantil para o batismo.
A Antiga Aliança abria espaço para os incrédulos, pois Deus
estabeleceu essa aliança com um povo nacional e físico; mas a Nova Aliança
é algo novo em que “todos conhecerão o Senhor, desde o menor até ao maior
deles”. Deus estabeleceu a Nova Aliança com um povo espiritual. Isso
somente deve moldar a nossa compreensão de quem são os candidatos
apropriados ao batismo.
Essas diferenças mostram que as coisas pertencentes à circuncisão não
podem e não devem ser universalmente equiparadas e cegamente transferidas
para o batismo. A circuncisão e o batismo simplesmente não são idênticos.

AS SIMILARIDADES
Isso nos leva às semelhanças entre a circuncisão e o batismo. Existe uma
conexão que liga a circuncisão ao batismo. Credobatistas não negam que
existe relação entre os dois. Apenas porque eles não são inequívocos
(idênticos) não significa que eles não sejam equívocos (análogos).
O que a circuncisão e o batismo têm em comum? David Kingdon, em
seu livro Children of Abraham [Filhos de Abraão], faz um excelente trabalho
explicando a correlação entre esses sinais do Antigo e do Novo Testamento.
Paul King Jewett concluiu:
Experimentar a circuncisão de Cristo no despojar-se do corpo da carne
é o mesmo que ser sepultado com Ele e ressuscitado com Ele no
batismo por meio da fé. Se for assim, a única conclusão pode ser
considerada a contrapartida do Antigo Testamento do batismo cristão.
James Bannerman, por exemplo, afirma: o que você pode dizer sobre a
circuncisão, você pode dizer sobre o batismo, porque o seu significado
é idêntico. É a essa identidade de significado que eu me oponho, mas
não à analogia em si.[98]
A analogia entre a circuncisão e o batismo não é o problema. O
problema é que os pedobatistas tentam tornar a circuncisão e o batismo
idênticos. Como explicado por Kingdon:
A questão crucial é, em minha opinião, não que haja uma analogia,
mas, antes, a natureza da analogia que existe! (…) Pedobatistas
reformados frequentemente consideram a circuncisão, para todos os
efeitos práticos, de um significado idêntico ao batismo. James
Bannerman, por exemplo, afirma que o que você pode dizer sobre a
circuncisão, você pode dizer sobre o batismo, porque o seu significado
é idêntico. É a essa identidade de significado que eu me oponho, mas
não à analogia em si.[99]
Os pedobatistas baseiam as suas “boas e necessárias inferências” na
falsa premissa de que a circuncisão e o batismo são idênticos. Por exemplo,
Calvino alegou que a única diferença entre a circuncisão e o batismo era a
cerimônia exterior. “Portanto, concluímos que, além da diferença na
cerimônia visível, tudo o que pertence à circuncisão também pertence ao
batismo”.[100] Randy Booth, outro pedobatista, também reivindica a perfeita
identidade entre a circuncisão e o batismo, e usou essa identidade como apoio
ao batismo infantil. “Esta conexão clara entre os dois sinais pactuais, a
circuncisão e o batismo, cria um problema difícil para os adversários do
batismo infantil, pois qualquer argumento contra o batismo infantil é
necessariamente um argumento contra a circuncisão infantil”.[101]
No entanto, apenas porque existem alguns paralelos entre a circuncisão
e o batismo não significa que eles sejam perfeitamente os mesmos. As
semelhanças entre os dois sinais não significam que todos os aspectos da
circuncisão do Antigo Testamento devem ser transmitidos e equacionados ao
batismo do Novo Testamento.
Segundo Jewett, esse é o erro básico dos pedobatistas.
É nossa opinião que os pedobatistas, ao formularem o seu grande
argumento da circuncisão, falharam em manter o desenvolvimento
histórico significativo com um foco claro. Partindo do postulado
basicamente correto de que o batismo está no lugar da circuncisão, eles
argumentaram usando essa analogia de forma distorcida. Eles até agora
têm insistido na unidade da aliança de modo a suprimir a diversidade
de sua administração… É este o movimento duplo dentro do
argumento da circuncisão: ler o Novo Testamento como se fosse o
Antigo e o Antigo como se fosse o Novo.[102]
Como mencionado acima, o Novo Testamento deve estabelecer os
limites da analogia entre a circuncisão e o batismo. Kingdon fez exatamente
isso:
Isso para mim constitui o coração da nossa resposta àqueles que
argumentam que a analogia da circuncisão e do batismo nos dá um
mandato para batizar crianças. Fica claro, a partir de um exame da
interpretação da circuncisão no Novo Testamento, que são seus
significados espirituais, não seu aspecto carnal, que estão em primeiro
plano. Quando Paulo diz em Efésios 2:11-12 que, em sua condição
pré-cristã, seus leitores estavam em um estado de incircuncisão, ele
não estava se referindo à sua falta do sinal em sua carne. Em vez disso,
ele quis dizer que em seu estado não regenerado eles estavam “sem
Cristo, separados da comunidade de Israel, e estranhos às alianças da
promessa”. Assim, “estar em Cristo deve ser possuir aquelas bênçãos
das quais a circuncisão na carne não era menos certamente o sinal no
Antigo Testamento do que o batismo no Novo”. Por isso, o apóstolo
pode descrever os cristãos gentios como a circuncisão que adora a
Deus em Espírito (Filipenses 3:3) e como aqueles que são judeus no
interior (Romanos 2:29).[103]
Kingdon acreditava que esse era o problema essencial do argumento
pedobatista:
É minha opinião que aqui o argumento pedobatista está seriamente
errado. Esses textos do Novo Testamento demonstram que a
circuncisão no Antigo Testamento é o tipo da qual a circuncisão
interior, ou seja, a regeneração, é o antítipo. Se é assim, como se pode
argumentar que o batismo é equivalente em significado à circuncisão,
quando a circuncisão no Novo Testamento está claramente relacionada
à regeneração? Nenhuma prova do Novo Testamento pode ser
encontrada para a alegação de que o batismo e a circuncisão são
idênticos, e estamos, portanto, impedidos de inferir que o batismo deve
ser aplicado aos bebês.[104]
O Novo Testamento ensina enfaticamente que o substituto da
circuncisão pela Nova Aliança é a circuncisão interior do coração
(Romanos 2:28-29; Colossenses 2:1). Externamente, a circuncisão carnal
feita pelas mãos do homem concedia entrada a uma pessoa no povo nacional
de Deus na Antiga Aliança. Na Nova Aliança, a circuncisão interior e
espiritual (realizada pelo Espírito Santo) concede para o povo de Deus
espiritual e celestial. No passado, não se podia ser membro da nação de Israel
sem ser circuncidado na carne; no presente não é possível ser um cidadão do
reino de Deus e estar entre o povo da Nova Aliança sem ser circuncidado no
coração.
Quanto à extensão da conexão entre a circuncisão exterior e o batismo
nas águas, pode-se concordar plenamente com a conclusão de Abraham
Booth e Philip Mauro. Abraham Booth explicou da seguinte maneira:
O estado diferente das coisas sob a antiga e a nova economia, e a
distinção do apóstolo entre a descendência carnal e a descendência
espiritual de Abraão, sendo devidamente considerados, o argumento da
analogia será assim: Como, sob a Antiga Aliança, a circuncisão
pertencia a todos os descendentes masculinos naturais de Abraão;
assim, sob a Nova Aliança, o batismo pertence a toda a descendência
espiritual de Abraão, que é conhecida como tal somente por uma
profissão crível de arrependimento e fé.[105]
Philip Mauro concordou:
A analogia entre a circuncisão e o batismo é clara. Os bebês eram
elegíveis para a circuncisão porque cada um dos filhos de Israel estava,
por seu nascimento natural, dentro dos termos da promessa de Deus a
Abraão, a Isaque e a Jacó. Nenhuma obra de Deus em um israelita era
necessária para torná-lo um da descendência natural de Abraão. O
nascimento natural fazia dele um israelita e, portanto, um sujeito
apropriado para a circuncisão. Mas, para trazer um pecador ao escopo
da Nova Aliança, confirmada no sangue de Cristo, é necessária uma
obra de Deus no coração. A pessoa deve nascer do alto; e então
imediatamente, mas não antes disso, pode ser “sepultada com Cristo”
no batismo, e comprometer-se a “andar em novidade de vida”. O
nascimento espiritual é requerido para tornar qualquer indivíduo um
sujeito apropriado do batismo. A analogia é tão simples, que me
pergunto se alguém pode deixar de vê-la.[106]
Reflexões Conclusivas
Para resumir, já que a circuncisão e o batismo não são idênticos quanto
aos seus participantes, a circuncisão infantil não pode ser transferida para o
batismo, ou seja, não baseada nas inferências do Antigo Testamento. Muitas
modificações e mudanças ocorreram entre a Antiga e a Nova Alianças para
assumir que o que era verdadeiro na Antiga automaticamente deve ser
verdadeiro na Nova. O Antigo Testamento não pode ser a autoridade sobre a
natureza do batismo. Por causa dessas diferenças, a natureza da Nova Aliança
deve estabelecer a relação entre a circuncisão e o batismo. As coisas que são
e as que não são transferíveis da circuncisão para o batismo devem ser
determinadas pelo ensino do Novo Testamento.
Além disso, se quisermos basear os participantes do batismo na
natureza da Nova Aliança, somos obrigados a restringir os participantes
àqueles que “conhecem o Senhor”. Como a Escritura diz enfaticamente a
respeito da Nova Aliança: “Porque todos me conhecerão, desde o menor até
ao maior deles, diz o Senhor; porque lhes perdoarei a sua maldade, e nunca
mais me lembrarei dos seus pecados” (Jeremias 31:34). Esta declaração e
explicação da Nova Aliança estão se referindo claramente aos crentes
somente. Ao contrário da Antiga Aliança, a Nova não deixa espaço para
participantes incrédulos. Visto que esse é o caso, as inferências do Antigo
Testamento não superam o silêncio do Novo Testamento e a natureza da
Nova Aliança.
O Objetivo deste Estudo
Contudo, entendemos que essa linha de argumentação não será
suficiente para a maioria dos pedobatistas. Embora observar as fraquezas
dessas inferências do Antigo Testamento e a descontinuidade entre a
circuncisão e o batismo seja suficiente para resolver a questão para alguns,
geralmente não é suficiente para persuadir aqueles que estão convictos da
teologia pactual pedobatista. Isso ocorre porque o batismo infantil não é
totalmente baseado em quaisquer inferências diretas e indiretas associadas à
circuncisão. Pelo contrário, está fundamentado na concepção geral de que há
continuidade e unidade entre a Antiga e a Nova Alianças, e a noção de que a
igreja no Novo Testamento é a mesma que a “igreja” (a nação de Israel) no
Antigo Testamento.
A clareza do batismo infantil não está baseada em nenhuma declaração
clara nas Escrituras, mas na crença de que existe unidade entre a Antiga e a
Nova Alianças. Portanto, para ter sucesso em refutar o batismo infantil,
precisamos cavar mais fundo e examinar a continuidade e a descontinuidade
entre a Antiga e a Nova Alianças, bem como a relação entre o Israel do
Antigo Testamento e a igreja do Novo Testamento. Mostrar as diferenças
entre a circuncisão e o batismo não é suficiente; as diferenças entre a Antiga e
a Nova Alianças também devem ser estabelecidas.
Na minha tentativa de fazê-lo, desejo com a ajuda do Senhor, de um
modo amoroso e gracioso, mostrar a falha fatal da teologia pactual
pedobatista e, ao fazê-lo, mostrar o erro do batismo infantil.
3
CONTINUIDADE: A ESSÊNCIA DA
TEOLOGIA PACTUAL PEDOBATISTA

A teologia pactual pedobatista é um sistema amplo e profundo de pensamento


que inclui toda a história da redenção. Buscar aprofundá-la seria ir além do
propósito deste estudo. No entanto, para entender por que alguns batizam
bebês, precisamos ter pelo menos um conhecimento geral de seus princípios
básicos. Depois de estabelecer o conceito central da teologia pactual,
defendida pela maioria dos pedobatistas, tentarei mostrar onde os
pedobatistas pactuais se desviam, e concluo este estudo respondendo a uma
objeção esperada.
A teologia pactual pedobatista “geralmente reconhece dois pactos
relativos à bem-aventurança eterna da humanidade: um Pacto de Obras,
anterior à queda, estabelecida com Adão, o cabeça e representante da
humanidade, e condicionada à sua perfeita obediência; e um Pacto da Graça,
revelado a Adão assim que ele caiu”.[107] O Pacto de Obras, também
conhecido como o pacto da criação (foederus naturae), baseava-se na lei. O
Pacto da Graça (foederus gratiae), por outro lado, não se baseia no mérito
humano, mas na graça de Deus.[108]
Embora a teologia pactual pedobatista alegue que existem dois pactos
diferentes e distintos, um antes da queda e outro depois da queda, sua ênfase
principal é sobre o último, o Pacto da Graça (foederus gratiae).
De acordo com os pedobatistas pactuais, o Pacto da Graça, que foi
formado pelo Deus triuno na eternidade passada, foi primeiramente
manifestado no protoevangelium em Gênesis 3:15. É aqui que o Senhor
prometeu um salvador a partir da descendência da mulher. Por mais vaga que
tenha sido, essa promessa em Gênesis foi a manifestação inicial do Pacto da
Graça. À medida que a história da redenção começou a se desenvolver,
gradativamente o Pacto da Graça foi levado a manifestações mais claras;
primeiro pelo pacto noético, e mais tarde pelos pactos abraâmico, mosaico e
davídico. Finalmente, o Pacto da Graça foi plenamente manifestado em todo
o seu resplendor na era evangélica sob a Nova Aliança. Todos esses pactos
(noético, abraâmico, mosaico, davídico e a Nova Aliança) fazem parte da
revelação progressiva do Pacto da Graça, cada qual acrescentando luz
adicional à graça de Deus na redenção do homem.
Portanto, a premissa básica da teologia pactual pedobatista é a noção de
que há continuidade entre os pactos. Cada pacto se baseia no anterior; cada
um está enraizado na graça de Deus, culminando na Nova Aliança na pessoa
de Cristo, a descendência da mulher.
Alguns historiadores da igreja consideram Ulrico Zuínglio como o pai
da teologia pactual pedobatista. Ele foi um dos primeiros grandes teólogos a
articular a ideia de unidade básica entre os pactos.[109]
João Calvino também ajudou no desenvolvimento inicial da teologia
pactual pedobatista. Nas Institutas, ele afirmou que a Antiga e a Nova
Alianças são idênticas em sua essência. “A aliança de todos os pais está tão
longe de diferir substancialmente da nossa, que é a mesma. Apenas a
administração varia”.[110]
Outro famoso reformador, Johann Heinrich Bullinger (1484-1531),
também falou sobre a unidade dos pactos. “Quanto à própria substância,
verdadeiramente, você não encontra diversidade; a diferença entre eles
consiste no modo de administração”.[111] Bullinger foi o primeiro a organizar
a teologia cristã em torno do tema da “unidade pactual”.[112] Por esse meio,
Bullinger defendeu o batismo infantil dos ataques dos anabatistas.
Gaspar Oleviano e Zacarias Ursino, coautores do Catecismo de
Heidelberg, estavam envolvidos no desenvolvimento contínuo da ideia de
unidade pactual. Oleviano escreveu The Substance of the Covenant of Grace
between God and the Elect [A Substância do Pacto da Graça entre Deus e os
Eleitos], e Ursino aplicou o conceito pactual em seu Catecismo Maior (1612).
Ursino via os pactos como:
Um em substância, mas dois em circunstâncias; ou é um no que se
refere às condições gerais sobre as quais Deus entra em um
compromisso conosco, e nós com ele; e é dois com relação às
condições que são menos gerais, ou como alguns dizem, com respeito
ao modo de sua administração.[113]
Depois desses reformadores, vieram os primeiros puritanos ingleses
Thomas Cartwright, John Preston, Thomas Blake, John Ball e William Ames.
[114]
William Ames, por exemplo, poderia falar por todos esses homens
quando afirmou que a Nova Aliança era: “Nova, não em essência, mas em
forma”.[115]
A teologia pactual pedobatista obteve status confessional em 1646 na
Confissão de Fé de Westminster: “Não há, portanto, dois pactos da graça,
diferentes em substância, mas um e o mesmo, sob várias dispensações”.[116]
O erudito reformado holandês Johann Koch (Cocceius), em 1648,
elaborou a primeira teologia bíblica organizada em torno do conceito de
teologia pactual, The Doctrine of the Covenant and Testament of God [A
Doutrina da Aliança e Testamento de Deus]. De acordo com Koch, a unidade
pactual é a cola que sustenta a história da redenção.
O contemporâneo e companheiro holandês de Koch, Herman Witsius,
adotou uma abordagem mais sistemática ao articular a unidade básica entre
os pactos. A teologia pactual pedobatista alcançou uma de suas expressões
mais claras e poderosas na obra de Witsius, The Economy of the Covenants
between God and Man [A Economia dos pactos entre Deus e o Homem]. Por
muitos anos, essa foi uma das obras definitivas sobre o assunto. Nesse livro,
ele concordou com os pedobatistas pactuais que o precederam: “O Antigo e o
Novo Testamento” são meramente “economias diferentes deste único
testamento da graça que eles compõem…”.[117]
John Murray, um proponente mais recente da teologia pactual
pedobatista, embora desviando-se ligeiramente de sua forma tradicional,[118]
manteve o conceito central da unidade pactual:
Como a revelação pactual progrediu através dos tempos, alcançou a
sua consumação na Nova Aliança, e a Nova Aliança não é totalmente
diversa em princípio e caráter dos pactos que a precederam e a
prepararam, antes ela é o completo cumprimento e incorporação
daquela graça soberana que era o princípio constitutivo de todos os
pactos.[119]
Owen Palmer Robertson, ex-professor do Covenant Theological
Seminary, reafirmou sua posição sobre a unidade dos pactos em seu livro
Christ of the Covenants [Cristo dos Pactos]:
A evidência cumulativa das Escrituras aponta definitivamente para o
caráter unificado dos pactos bíblicos. Os múltiplos vínculos de Deus
com o Seu povo acabam por se unir em um único relacionamento.
Detalhes específicos dos pactos podem variar. Uma linha definida de
progresso pode ser notada. Contudo, os pactos de Deus são um.[120]
Continuidade entre a Antiga e a Nova Alianças
Ao unificar os pactos noético, abraâmico, mosaico, davídico e a Nova
Aliança em uma aliança universal, a teologia pactual pedobatista unifica a
Antiga Aliança com a Nova Aliança. Isso significa, portanto, que a Antiga
Aliança era um Pacto de Graça. Por exemplo, depois de se referir à ira de
Deus que caiu sobre Israel por sua desobediência ao pacto mosaico, Edward
Young declarou: “Deve-se ter claramente em mente que a revelação da lei no
Monte Sinai deve ser considerada como uma administração do Pacto da
Graça”.[121] Também, James Buchanan, em sua excelente obra sobre a
doutrina da justificação, afirmou: “A economia de Moisés,
independentemente da proeminência dada à lei, foi inquestionavelmente uma
dispensação do Pacto da Graça”.[122] Johannes Wollebius chega a dizer:
“Estão enganados, então, aqueles que fazem distinções paralelas do Antigo e
do Novo Testamentos; do Pacto de Obras e do Pacto da Graça; da lei e do
Evangelho: pois em ambos o Testamento ou Aliança é o Pacto da Graça; em
ambos a lei e o Evangelho são instados”.[123]
Embora alguns pedobatistas pactuais (por exemplo, Hodge e Kline)
vejam (em um grau ou outro) que houve uma republicação do Pacto de Obras
no Monte Sinai, eles ainda ensinam que o pacto mosaico era um pacto de
graça.[124] Para Hodge e Kline, a republicação do Pacto de Obras dentro do
pacto mosaico se relacionava apenas com a administração (as propriedades
acidentais) do pacto, não com a sua natureza essencial. Independentemente de
quanto o pacto mosaico enfatizasse a lei, permanecia em sua natureza
essencial um pacto de graça. Embora a Antiga e a Nova Alianças possam
diferir em suas propriedades acidentais (partes não essenciais), elas
concordam perfeitamente em sua substância.
É fundamental compreender isso. Não se pode aceitar consistentemente
a teologia pactual como expressa pelos pedobatistas sem também aceitar o
ensino de que a Antiga e a Nova Alianças são essencialmente a mesma
aliança. Para ser franco, não se pode aceitar essa forma de teologia pactual
sem acreditar que o pacto que foi estabelecido no Monte Sinai fazia parte do
Pacto da Graça.
Evidência de Continuidade
Percebendo que este seria o ponto de ataque de muitos antipedobatistas,
Robert Dabney se esforça para estabelecer a unidade básica entre a Antiga e a
Nova Alianças. Em suas aulas aos seus alunos, ele tentou provar que a Antiga
Aliança é “substancialmente idêntica àquela da Nova, nas coisas prometidas,
nas partes, nas condições e no mediador”.[125]
João Calvino, por outro lado, vinculou a Antiga Aliança com a Nova
pelo seu objetivo comum, a partir da declaração de Deus, quando Ele diz: “E
ser-me-eis por povo, e eu vos serei por Deus”.[126] John Murray concordou:
“Nada poderia ser mais pertinente à perspectiva que é indispensável para a
compreensão adequada da revelação pactual do que o reconhecimento de que
o elemento central da bênção envolvida no Pacto da Graça é a relação
expressa nas palavras ‘E ser-me-eis por povo, e eu vos serei por Deus’”.[127]
Em suma, a Antiga e a Nova Alianças são essencialmente as mesmas, porque
a promessa de ser o povo de Deus está incluída em ambas.
Em suma, o que marca a teologia pactual pedobatista é a noção de que
os pactos noético, abraâmico, mosaico e a Nova Aliança são manifestações
progressivas do Pacto da Graça; que essas alianças são essencialmente a
mesma aliança sob várias administrações.
Por que o Pedobatismo está Enraizado na Continuidade entre a Antiga e a
Nova Alianças
Com essa concepção sistemática da unidade dos pactos, é fácil ver
como os pedobatistas transferem e implementam conceitos e práticas da
Antiga Aliança na igreja da Nova Aliança. Exatamente porque o Novo
Testamento é silencioso sobre a questão do batismo infantil, isso não descarta
o mandato bíblico para tal prática. Se a Nova Aliança é uma extensão da
Antiga Aliança, então os princípios básicos da economia mosaica
permanecem os mesmos na Nova Aliança. Isso significa que as antigas
práticas pactuais permanecem válidas na igreja da Nova Aliança. Ou seja, a
menos que seja revogado de outra forma pelo claro e direto ensino do Novo
Testamento. Como James Bannerman argumentou de modo enérgico:
O Pacto da Graça sob as dispensações anteriores compreendia dentro
dos seus limites os infantes das partes envolvidas nele, bem como as
próprias partes. Isso é inegável. E o pacto deve ser alterado
essencialmente quanto à sua extensão — deve ser um pacto diferente
com relação às partes com quem é feito — se uma porção tão grande
dos membros incluídos nele antigamente, como os bebês estavam,
devesse ser excluída sob a igreja do Novo Testamento… A menos que
o Pacto da Graça, em suma, sob a igreja do Novo Testamento seja
outro pacto diferente do que aquele sob o Antigo Testamento, os
infantes devem ter um lugar nele agora tanto quanto tinham antes.[128]
Portanto, como a citação acima sugere, a unidade pactual é o
fundamento para o batismo infantil. Robert Reymond, ex-professor de
Teologia Sistemática no Knox Theological Seminary, reconheceu isso quando
afirmou: “A posição pedobatista reformada é, naturalmente, baseada na
unidade do Pacto da Graça e na unidade do povo de Deus em todas as eras”.
[129]
Contudo, esse não é apenas o sentimento de Reymond, mas parece ser a
posição universal para todos os pedobatistas pactuais. Por exemplo, John
Murray concluiu: “A premissa básica do argumento para o batismo infantil é
que a economia do Novo Testamento está se desenvolvendo e cumprindo o
pacto feito com Abraão e que a implicação necessária é a unidade e
continuidade da igreja”.[130] Murray resumiu todo o debate sobre batismo
infantil a isso, quando disse: “Na teologia pactual, o argumento para o
batismo infantil tem o seu lugar no esquema que a unidade orgânica e a
continuidade da revelação da aliança proporcionaram”.[131]
O Gancho que Une o Batismo Infantil
Antes de chegarmos a qualquer conclusão, devemos primeiro olhar
para a natureza da Antiga Aliança e seus participantes — os israelitas — e
depois compará-los com a natureza da Nova Aliança e seus participantes — a
igreja. Em outras palavras, devemos fazer uma análise paralela dos judeus
com os santos do Novo Testamento, e uma comparação do pacto mosaico
com a Nova Aliança, e ver se esses dois pactos se alinham um com o outro.
Existe uma unidade básica? Os participantes de ambos os pactos são
essencialmente os mesmos?
A legitimidade do batismo infantil se baseia inteiramente nessa
comparação. Ela se apoia na continuidade da Antiga e a Nova Alianças, sobre
a “igreja” sendo virtualmente a mesma sob ambas as alianças. Se tais alianças
são em essência as mesmas, então o batismo infantil pode ser justificado
biblicamente. Se, no entanto, as duas alianças são fundamentalmente
diferentes, se a nação de Israel não é essencialmente idêntica à igreja do
Novo Testamento, então o batismo infantil cai completamente, pois fica
evidente que não possui base bíblica (quer no Antigo ou no Novo
Testamento). Toda a controvérsia se resume a isso, para usar as palavras de
Charles Hodge: “Se a igreja é uma em ambas as dispensações; se os infantes
eram membros da igreja sob a teocracia, então eles são membros da igreja
agora, a menos que o contrário possa ser provado”.[132]
4
A NATUREZA DA ANTIGA ALIANÇA

Antes de julgarmos se a Antiga e a Nova Alianças são essencialmente as


mesmas, devemos primeiro estabelecer a natureza da Antiga Aliança.
Primeiramente, Deus intencionou e julgou os participantes da Antiga Aliança
coletivamente, em vez de separadamente como indivíduos.[133] O vínculo de
um judeu com Deus era o seu vínculo com a nação de Israel. É por isso que a
circuncisão — a marca da identidade nacional, registros familiares e
documentos eram tão importantes (Neemias 7:61-64). Independentemente do
pai, da família extensa, da tribo e da nação, um judeu não era oficialmente
parte do povo da aliança de Deus.
Distinção Racial
O pacto mosaico era uma aliança racial. A Antiga Aliança foi
estabelecida não com qualquer indivíduo, mas com toda uma raça de pessoas.
Deus não fez esta aliança com Abraão ou Moisés, mas com a nação de Israel
(Êxodo 19: 6-8; Deuteronômio 29:10-12).
Além disso, a Antiga Aliança estava restrita a uma raça: os judeus.
Como consequência, se alguém estava fora desse grupo étnico, estava fora do
pacto mosaico (Efésios 2:12).
Além disso, embora os gentios ocasionalmente fossem admitidos na
comunidade da aliança (por exemplo, Raabe e Rute), o povo da Antiga
Aliança de Deus não foi comissionado para ter uma mentalidade missionária.
Como o teólogo pactual Geerhardus Vos declarou: “A teocracia nunca teve a
intenção de ser uma instituição missionária em seu estado no Antigo
Testamento”.[134]
Um dos propósitos da Antiga Aliança era manter a genética familiar de
Abraão pura, em vez de ser misturada pela infiltração das nações gentias
(Esdras 9–10). A preservação da descendência de Abraão (por exemplo, o
Messias) era da maior importância.
Nesse sentido, a Antiga Aliança era exclusivamente uma aliança racial.
[135]

Afiliação Nacional
Como mencionado pela citação de Vos, acima, o pacto mosaico não era
apenas uma aliança racial, era uma aliança nacional. O povo de Deus no
Antigo Testamento estava sob uma teocracia onde a religião e o estado
estavam unidos. Isso significava que os cidadãos do estado eram membros do
povo da aliança de Deus, independentemente de terem fé interior ou um
coração circuncidado. O que os colocava no pacto não era o novo
nascimento, mas o seu nascimento físico. Até prosélitos da religião judaica
tinham que se tornar cidadãos da nação judaica. Isso porque, como um todo
coletivo, o vínculo de Israel com Deus era a sua nacionalidade. Se uma
pessoa estivesse fora dessa nação, também estava fora das promessas da
aliança (Efésios 2:12).
Por consequência, a fé nunca foi um pré-requisito para ser um filho
físico de Abraão e um cidadão do Israel nacional, assim como a fé não é
necessária para ser um brasileiro. Deus pode ter exigido fé deles, mas a falta
dela não mudava o fato de que eles eram descendentes de Abraão. Os filhos
dos hebreus, pelo seu direito de nascimento, nasciam automaticamente dentro
na Antiga Aliança e recebiam as responsabilidades, exigências e promessas
da aliança.
Perpetuidade Racial
A perpetuidade do pacto mosaico ocorreu através do processo natural
da geração de filhos. Por ser uma aliança racial e nacional, a descendência de
Israel era automaticamente imposta ao pacto mosaico. Dessa maneira, a
Antiga Aliança continuaria de uma geração a outra perpetuamente. John
Owen expressou isso da seguinte maneira: “A ‘igreja do Antigo Testamento’
continuava pela ‘geração carnal’ e ‘circuncisão’”.[136] Owen conclui: “Por
essas causas e por esses meios… a igreja-estado sob o Antigo Testamento foi
preservada”.[137]
Como a Antiga Aliança era de natureza étnica e física, era natural que
fosse perpetuada e preservada por geração carnal.
Novamente, a fé não era necessária. Por quê? Porque a perpetuidade da
aliança era baseada na geração carnal, não na regeneração espiritual, caso
contrário o pacto mosaico cessaria quando a primeira geração de membros
morresse no deserto em incredulidade.
Cabeça Federal
O pacto mosaico consistia em múltiplos níveis de cabeças federais. Um
cabeça federal é um representante legal. Isso inclui não apenas autoridade,
mas também responsabilidade.
Aos olhos da lei mosaica, o cabeça federal e aqueles representados pelo
cabeça federal eram legalmente um só. Isso significava que o status legal do
cabeça federal (herança/dívida) também era o status legal de todos aqueles
sob seus cuidados legais. Não somente os cabeças federais eram responsáveis
pelas ações daqueles que representavam, mas aqueles representados eram
responsabilizados pelas ações de seus cabeças federais.[138] Isso poderia
funcionar para o bem, como no caso daqueles sob o cabeça federal Cristo, ou
para o mal, como aqueles sob o cabeça federal Adão.
Os vários níveis de cabeças federais incluíam reis, governadores,
anciãos, líderes e chefes de família. Assim como todas as crianças estavam
sob a autoridade dos seus pais, todos os cidadãos de Israel estavam sob a
autoridade dos seus respectivos cabeças. Em última análise, todos os
cidadãos estavam sob a autoridade do seu rei. O rei representava a nação
inteira.
Portanto, Deus abençoaria ou amaldiçoaria a nação de acordo com o
comportamento de seu cabeça federal. Quando o rei Davi pecou ao contar o
povo, ele foi punido com a morte de 70 mil dos seus súditos. Esse princípio
está presente em toda a história de Israel. Quando um rei piedoso estava no
trono, a nação inteira prosperava; da mesma forma, quando um rei ímpio
reinava, a nação era atormentada por guerras e pestes.
Por causa desse princípio, Deus julgava legalmente os israelitas de
modo coletivo de acordo com seu cabeça federal. Como o relacionamento de
Deus com Israel se baseava no princípio do representante federal, quando
uma pessoa violava a lei, a sua família sofria as consequências: “Porque eu, o
Senhor teu Deus, sou Deus zeloso, que visito a iniquidade dos pais nos filhos,
até a terceira e quarta geração daqueles que me odeiam” (Êxodo 20:5).
Nós vemos o principal exemplo disso no pecado de Acã. Tudo estava
indo bem com a nação de Israel em sua conquista da Terra Prometida, até que
um homem entre eles transgrediu um dos mandamentos de Deus. Em vez de
Deus punir apenas Acã por seu pecado, ele puniu e afligiu toda a nação de
Israel. Além disso, uma vez que Acã foi apontado como a causa dos
problemas de Israel, os israelitas pelo mandamento de Deus não apenas
apedrejaram Acã, mas submeteram a sua esposa e os seus filhos à mesma
morte sangrenta. A execução não terminou até que Acã e tudo o que estava
sob os seus cuidados legais foram enterrados sob um monte de pedras.
Essa era a natureza e o tipo de relacionamento que a nação de Israel
tinha com Deus. Jeremias entendeu este princípio quando lamentou: “Nossos
pais pecaram, e já não existem; e nós levamos as suas maldades”
(Lamentações 5:7). É muito importante lembrar disso quando chegamos à
natureza da Nova Aliança.
Indicado por uma Marca Física
Uma distinção racial, uma teocracia de estado religioso, a perpetuidade
da geração por um meio carnal e o princípio do cabeça federal eram todos
indicados por um ato exterior na carne: a circuncisão. A circuncisão era o
sinal exterior de que os judeus estavam de fato entre o povo de Deus da
Antiga Aliança.
Se um homem fosse ser introduzido à cidadania da comunidade de
Israel, era necessário que primeiro se submetesse à circuncisão. O mesmo
acontecia com os meninos recém-nascidos. Isso porque a circuncisão não era
apenas o sinal do pertencimento à Antiga Aliança, mas também selava a sua
condição de membro. “E o homem incircunciso, cuja carne do prepúcio não
estiver circuncidada, aquela alma será extirpada do seu povo; quebrou a
minha aliança” (Gênesis 17:14). É por isso que a circuncisão era tão
importante. Nenhuma circuncisão é o mesmo que nenhuma participação na
aliança. Claro e simples!
Esse ato exterior na carne não concedia a nenhum dos seus
participantes uma relação pessoal ou salvífica com Deus; tudo o que fazia era
admiti-los em um relacionamento nacional com o Senhor. É por isso que
Moisés diz àqueles que já foram circuncidados na carne que deveriam
circuncidar os prepúcios de seus corações (Deuteronômio 10:16-17). Eles
eram separados exteriormente, mas isso não significava que o Espírito os
purificara interiormente. Além disso, Paulo de modo repetido exorta os
judeus a não confiarem em sua circuncisão (Romanos 2:25-29; 1 Coríntios
7:19; Gálatas 5:6, 6:15).
Não Assegurava a Salvação Pessoal
É importante notar, e é quase impossível exagerar, que, mesmo que o
pacto mosaico tenha sido estabelecido com Israel e sua descendência, a
participação neste pacto não garantia ou assegurava um relacionamento
pessoal com Deus. Por seu nascimento natural, os judeus nasciam
privilegiados, mas não “nasciam de novo”. Herman Witsius testificou sobre
isso: “Contudo, nenhuma dessas coisas (isto é, vantagens: Romanos 3:1-2 e
9:4-5), nem todas juntas, se considerarmos apenas a confederação exterior,
eram suficientes para a salvação; porque ‘nem todos os que são de Israel são
israelitas; nem por serem descendência de Abraão são todos filhos’”.[139]
Apenas porque os descendentes de Abraão nasciam na nação de Israel,
eram circuncidados na carne e colocados automaticamente sob as demandas e
exigências do pacto mosaico não significava que estavam em um
relacionamento salvífico com Deus. A circuncisão na carne não garantia um
coração circuncidado. Em outras palavras, nascer em um relacionamento
nacional com o Senhor não é o mesmo que nascer de novo e entrar em um
relacionamento pessoal com o Senhor. Cristo e o apóstolo Paulo deixam isso
bem claro para os descendentes de Abraão. Cristo diz aos judeus que não
confiem no fato de que Abraão era o seu pai/cabeça federal (Mateus 3:9);
Paulo lhes diz para não confiarem em sua circuncisão (Romanos 2:25), em
sua posse da lei de Moisés (Romanos 2:12) e em sua nacionalidade
(Romanos 2:28). Quando se trata de nascer de novo, essas coisas não têm
valor (João 3:5-6).
Além disso, aprendemos que a maior parte dos israelitas nunca possuiu
um relacionamento pessoal com Deus (Romanos 9). O relacionamento
pactual de Deus com os judeus era com a nação de modo coletivo. A maioria
de Israel era uma nação “incircuncisa de coração endurecido”, que adorava
ídolos pagãos. Havia um remanescente de acordo com a eleição, que foi salva
pela fé por meio da graça (por exemplo, Abraão, Isaque, Davi etc.), mas
como um todo, Israel era um povo rebelde, que nunca entrou no descanso
celestial de Deus (Salmos 73; Hebreus 3:18), e assim nunca conheceu a Deus
salvificamente.
O único tipo de relação que a circuncisão era capaz de prover aos
judeus era uma relação corporativa ou nacional com o Senhor. Enquanto eles
estavam entre o povo corporativo de Israel, eram incluídos no povo da
aliança de Deus. Seu status de aliança com Deus estava inteiramente centrado
em seus laços nacionais com o reino de Israel. É claro, houve algumas
exceções, como o pequeno remanescente reservado por Deus.[140] No entanto,
de um modo geral, a relação que o hebreu comum desfrutava com Deus
repousava inteiramente em Abraão, seu cabeça federal.
Como o pacto mosaico era uma teocracia e continuaria de geração em
geração, um filho de pais ímpios ainda seria um israelita nativo e, assim,
ainda seria considerado como estando sob o pacto mosaico (Isaías 1:4). Os
pais judeus colocavam os infantes no pacto, não pais crentes. Essa era a
natureza da Antiga Aliança; portanto, por mais ímpios que esses judeus
pudessem ter sido, enquanto a Antiga Aliança permanecesse, eles e seus
filhos ainda eram considerados nacionalmente como o povo da aliança de
Deus. Ou seja, enquanto a Antiga Aliança permanecesse.
Odre Antigo e Vinho Novo
Como a teologia pactual pedobatista une a Antiga e a Nova Alianças,
ela considera o povo de Deus da Nova Aliança sob os mesmos princípios da
Antiga Aliança. Os judeus entravam na Antiga Aliança por meio do
nascimento físico e circuncisão. Assim, se os princípios do Antigo
Testamento se aplicam à igreja da Nova Aliança, então filhos de pais crentes
também entram no Pacto da Graça por meio de seu nascimento físico. Filhos
de crentes estão no Pacto da Graça não porque tenham um relacionamento
pessoal e salvífico com Deus, mas por causa de sua ligação com o
relacionamento de seus pais com Deus. As crianças estão sob a autoridade
dos seus pais.
Por isso, Deus não os vê independentemente de seus representantes
legais. Pais e filhos são legalmente um só. Portanto, eles são batizados na
membresia da igreja e recebem o sinal e selo da graça, não necessariamente
porque a graça está em seus corações, mas porque está no coração dos seus
pais.
Aqueles que defendem a teologia pactual pedobatista veem
essencialmente a igreja da Nova Aliança sob a mesma teocracia étnica,
nacional e física de Israel da Antiga Aliança. Por exemplo, o teólogo pactual
Geerhardus Vos declara: “Jeová lidava primeiramente com a nação e através
da nação com o indivíduo, como agora no Pacto da Graça Ele lida com
crentes e os seus filhos nas contínuas gerações”.[141] B.B. Warfield explicou a
representatividade federal desta maneira:
Deus faz do homem a cabeça da mulher — obriga a esposa a sujeitar-
se ao marido — e faz com que os pais ajam em favor de seus filhos
menores. Ele, de fato, requer fé individual para salvação; mas Ele
organiza o Seu povo em famílias primeiro; e depois em igrejas,
reconhecendo em sua própria estrutura e composição a constituição
familiar.[142]
Em outra passagem, Warfield afirmou: “Podemos acreditar que o status
dos pais determina o status do filho — na igreja de Deus cuja promessa é
‘para vós e vossos filhos’”.[143] Charles Hodge foi ainda mais direto: “Para
Deus, os pais e os filhos são um só. Os primeiros são os representantes
autorizados destes últimos; os pais agem pelos filhos; eles contraem
obrigações em nome deles. Em todos os casos, portanto, quando os pais
entram em um pacto com Deus, eles trazem os seus filhos consigo”.
Novamente, Hodge declarou: “E, assim, quando um crente aceita o Pacto da
Graça, ele traz os seus filhos para dentro desse pacto, no sentido que Deus
promete dar a eles, em seu devido tempo, todos os benefícios da redenção,
contanto que eles não renunciem voluntariamente aos compromissos
batismais deles”.[144] John Owen foi ousado o suficiente para dizer que o
Pacto da Graça é mantido e perpetuado pela descendência física dos seus
participantes. “Os privilégios do pacto, ou seja, da igreja, são assim
comunicados através da descendência infantil dos crentes, a qual é de
preocupação especial do Pacto da Graça de Deus, de modo que ele jamais
acabe completamente”.[145] Douglas Bannerman também imputou o princípio
do cabeça federal da Antiga Aliança à igreja da Nova Aliança.
O chamado do Senhor para a comunhão com Seu povo na terra até
então inquestionavelmente envolvia os pais e seus filhos pequenos; “o
sinal da circuncisão, selo da justiça da fé” era para os dois. O Salvador
durante a Sua vida terrena mostrou favor especial aos pequenos por
palavras e sinais. Novamente, Ele concedeu bênçãos a um filho
inconsciente, expressamente com base na fé dos pais.[146] Ele havia
reconhecido e agido de acordo com esse princípio de representação, ou
liderança pactual, tão familiar à mente judaica, como vimos, desde os
tempos do Antigo Testamento. O pai ou mãe era o cabeça da família.
As crianças eram tratadas em relação ao privilégio e à bênção como
sendo, de muitas maneiras, uma com os pais.[147]
Conclusão
Os pedobatistas pactuais enfatizam a continuidade entre a Antiga e a
Nova Alianças. Por causa disso, eles veem a igreja da Nova Aliança contendo
os mesmos princípios que pertenciam à nação de Israel. O que era verdade na
Antiga Aliança deve ser verdadeiro na Nova Aliança, a menos que seja
diretamente revogado no Novo Testamento. O batismo infantil, portanto, é
um mandamento da Nova Aliança — não por causa de qualquer ordem no
Novo Testamento, mas porque a Nova Aliança é edificada sobre o
fundamento do pacto mosaico.
Mas esse é exatamente o problema. A falha fatal da teologia por trás do
batismo infantil é a noção de que o pacto mosaico é uma manifestação do
Pacto da Graça. Essa teologia erra ao declarar que a Antiga e a Nova
Alianças são o mesmo pacto sob duas administrações diferentes. As
distinções óbvias entre a Antiga e a Nova Alianças são confundidas com esse
princípio hermenêutico da unidade pactual. Embora a Nova Aliança seja o
Pacto da Graça, o pacto mosaico não o era. A equiparação do pacto mosaico
com o Pacto da Graça e a edificação da igreja neotestamentária sobre o
fundamento da teocracia de Israel são o único fundamento para o batismo
infantil, mas são também a sua falha fundamental.
Para expandir esse argumento, veremos primeiro, nos próximos dois
capítulos, como o pacto mosaico não era um pacto de graça. Observaremos, a
seguir, nos capítulos sete e oito, como a teologia pactual pedobatista na
verdade destrói o próprio pacto que busca promover. Nos capítulos nove e
dez, veremos como o pacto mosaico não era uma extensão das promessas
eternas e espirituais do pacto abraâmico. Nos capítulos onze e doze,
descobriremos como a Antiga e a Nova Alianças não são essencialmente as
mesmas, mas são diferentes quanto aos seus participantes, substância,
duração e eficácia. E finalmente, no capítulo treze, veremos como os antigos
princípios pactuais, como distinção racial, teocracia nacional, perpetuidade
racial e representação federal, não correspondem à natureza da Nova Aliança.
É um erro unir aquilo que Deus separou. Se a Nova e a Antiga Alianças não
são as mesmas, então a teologia pactual pedobatista é grandemente falha.
5
A ANTIGA ALIANÇA: BASEADA EM
OBRAS

A teologia pactual pedobatista está profundamente enraizada na ideia de que


a Antiga e a Nova Alianças são essencialmente as mesmas; que ambas as
alianças são manifestações do Pacto da Graça. Contudo, esse simplesmente
não é o caso. O pacto estabelecido no Monte Sinai foi fundado sobre a lei.
Foi fundado sobre os mandamentos de Deus, mediante a frase: “Portanto, os
meus estatutos e os meus juízos guardareis; os quais, observando-os o
homem, viverá por eles. Eu sou o Senhor” (Levítico 18:5).[148] A Antiga
Aliança não era um pacto de graça, porque não estava enraizado na graça,
nem prometia ou dispensava graça aos seus participantes. Pelo contrário, era
um pacto condicional baseado em obras — que acabou levando à condenação
de seus participantes. Para expressá-lo claramente, o pacto mosaico não fazia
parte do Pacto da Graça, mas do Pacto de Obras.
O Pacto Mosaico era Condicional
Encontramos provas inegáveis de que o pacto mosaico era um pacto de
obras em Êxodo 19:5-6, quando o pacto mosaico foi estabelecido com a
nação de Israel. Na inauguração do pacto mosaico, Deus expressamente
baseou Seu relacionamento com os israelitas sob uma condição. Ele disse-
lhes, nos termos mais claros: “Agora, pois, se diligentemente ouvirdes a
minha voz e guardardes a minha aliança, então sereis a minha propriedade
peculiar dentre todos os povos, porque toda a terra é minha. E vós me sereis
um reino sacerdotal e o povo santo. Estas são as palavras que falarás aos
filhos de Israel”. De acordo com essa passagem, a promessa era condicional
(quid pro quo). Os israelitas seriam o povo de Deus e Deus seria o Deus
deles, se obedecessem e guardassem as condições pactuais. De acordo com
Moisés, a condição era: “Se diligentemente ouvirdes a minha voz e
guardardes a minha aliança, então sereis meu povo”.
Em Deuteronômio, quando Moisés repete a lei, ele explica novamente a
natureza condicional da Antiga Aliança. “Guarda, pois, os mandamentos e os
estatutos e os juízos que hoje te mando cumprir. Será, pois, que, se ouvindo
estes juízos, os guardardes e cumprirdes, o Senhor teu Deus te guardará a
aliança e a misericórdia que jurou a teus pais” (Deuteronômio 7:11-12).
Vários anos depois, Jeremias ecoa o que disse Moisés, ensinando sobre
a verdadeira natureza da Antiga Aliança. Jeremias fala em nome de Deus,
quando diz: “Mas isto lhes ordenei, dizendo: Dai ouvidos à minha voz, e eu
serei o vosso Deus, e vós sereis o meu povo; e andai em todo o caminho que
eu vos mandar, para que vos vá bem” (Jeremias 7:23). Mais uma vez ele diz:
“Ouvi as palavras desta aliança, e cumpri-as” (Jeremias 11:6).
No entanto, depois que os filhos de Abraão ouviram os termos da
aliança no sopé do Monte Sinai, todos eles responderam a Deus
unanimemente, dizendo: “Tudo o que o Senhor falou nós faremos”
(Êxodo 19:8). Assim, Meredith Kline está certo quando afirma que o pacto
sinaítico “tornou a herança legal, não por promessa e nem pela fé, mas pelas
obras”.[149]
O Pacto Mosaico Continha Maldições
Depois de explicar as condições pactuais, Moisés adverte sobre as
terríveis consequências de quebrá-las. “Eis que hoje eu ponho diante de vós a
bênção e a maldição; a bênção, quando cumprirdes os mandamentos do
Senhor vosso Deus, que hoje vos mando; porém, a maldição, se não
cumprirdes os mandamentos do Senhor vosso Deus, e vos desviardes do
caminho que hoje vos ordeno, para seguirdes outros deuses que não
conhecestes” (Deuteronômio 11:26-28).
Sendo um profeta, Moisés adverte severamente os israelitas quanto à
certeza dessas maldições:
Todos os mandamentos que hoje vos ordeno guardareis para os
cumprir; para que vivais… Guarda-te que não te esqueças do Senhor
teu Deus, deixando de guardar os seus mandamentos, e os seus juízos,
e os seus estatutos que hoje te ordeno… Será, porém, que, se de
qualquer modo te esqueceres do Senhor teu Deus, e se ouvires outros
deuses, e os servires, e te inclinares perante eles, hoje eu testifico
contra vós que certamente perecereis. Como as nações que o Senhor
destruiu diante de vós, assim vós perecereis, porquanto não queríeis
obedecer à voz do Senhor vosso Deus. (Deuteronômio 8:1, 11, 19-20).
Jeremias afirma o seguinte:
Ouvi as palavras desta aliança, e falai aos homens de Judá, e aos
habitantes de Jerusalém. Dize-lhes, pois: Assim diz o Senhor Deus de
Israel: Maldito o homem que não escutar as palavras desta aliança, que
ordenei a vossos pais no dia em que os tirei da terra do Egito, da
fornalha de ferro, dizendo: Dai ouvidos à minha voz, e fazei conforme
a tudo quanto vos mando; e vós sereis o meu povo, e eu serei o vosso
Deus (Jeremias 11:2-4).
O pacto mosaico não continha apenas uma bênção prometida: “Eu serei
o vosso Deus, e vós sereis o meu povo”, mas também havia uma maldição
prometida: “Maldito aquele que não confirmar as palavras desta lei, não as
cumprindo” (Deuteronômio 27:26). Ou, como é expresso no Novo
Testamento: “Maldito todo aquele que não permanecer em todas as coisas
que estão escritas no livro da lei, para fazê-las” (Gálatas 3:10).
Nós encontramos uma relação de todas as maldições terríveis em
Deuteronômio 28. No meio da longa lista, Moisés alerta Israel: “E todas estas
maldições virão sobre ti, e te perseguirão, e te alcançarão, até que sejas
destruído; porquanto não ouviste a voz do Senhor teu Deus, para guardares
os seus mandamentos, e os seus estatutos, que te tem ordenado; e serão entre
ti por sinal e por maravilha, como também entre a tua descendência para
sempre” (Deuteronômio 28:45-46).[150] Depois que Moisés profere todas as
maldições, conclui: “Estas são as palavras da aliança que o SENHOR
ordenou a Moisés que fizesse com os filhos de Israel” (Deuteronômio 29:1).
Essas maldições da Antiga Aliança não apenas ameaçavam Israel com
a expulsão da Terra Prometida, elas finalmente ameaçavam impedi-los do
descanso celestial de Deus, pois está escrito: “Toda a maldição escrita neste
livro pousará sobre ele; e o Senhor apagará o seu nome de debaixo do céu”
(Deuteronômio 29:20). Calvino estava certo quando afirmou: “É bem certo
que as principais promessas, que continham aquela aliança ratificada com os
israelitas por Deus sob o Antigo Testamento, eram espirituais e se referiam à
vida eterna”.[151]
Em vez de o pacto mosaico se alinhar com a promessa graciosa do
protoevangelho, se alinha melhor com a promessa condicional que Deus fez
com Adão antes da queda. No jardim, Deus prometeu a Adão que, se algum
dia ele desobedecesse, “certamente morreria” (Gênesis 2:17). Esta promessa
é paralela à promessa que Deus fez a Israel: se desobedecerdes, “certamente
perecereis” (Deuteronômio 8:19). Até mesmo John Owen (tardiamente em
sua vida) chegou a essa conclusão:
A Antiga Aliança… renovou os mandamentos do Pacto de Obras, e
isso em seus termos originais. O pecado impedia (ou seja, todo e
qualquer pecado, em substância e modo) a dor da morte; e concedeu a
promessa de vida somente em virtude da obediência perfeita e
impecável.[152]
Owen continuou afirmando:
Ele [o pacto mosaico] reavivou a sanção do primeiro pacto, na
maldição ou sentença de morte que é anunciada contra toda
transgressão. A morte era a penalidade da transgressão do primeiro
pacto: “porque no dia em que dela comeres, certamente morrerás”. E
essa sentença foi revivida e apresentada novamente na maldição pela
qual este pacto foi ratificado: “Maldito aquele que não confirmar as
palavras desta lei, não as cumprindo”.[153]
Em contraste, não encontramos condições relacionadas às obras
vinculadas à Nova Aliança. As condições da Nova Aliança são cumpridas em
Cristo. Uma aliança baseada na graça e na fé, independente de obras, sem
ameaças ou maldições anexadas. Nela, os membros da Nova Aliança não são
ameaçados de morte devido à desobediência.
O. Palmer Robertson, em defesa da teologia pactual pedobatista,
afirmou que as advertências contidas no livro de Hebreus correspondem aos
“ses” do pacto mosaico. “Os mesmos ‘ses’ tão aparentes sob a administração
mosaica enquanto aplicados a Israel no deserto se manifestam com ainda
maior perspectiva de juízo em caso de falha sob a Nova Aliança (cf.
Hebreus 3:7, 14, 15; 4:1, 2, 11; 6:4-6)”.[154] Em outras palavras, essas
advertências da Nova Aliança mostram a continuidade básica entre a Antiga e
a Nova Alianças.
Em primeiro lugar, as advertências em Hebreus alertam contra a
incredulidade, desviar-se da fé e voltar às práticas da Antiga Aliança. Cada
advertência, quando examinada, alerta contra a incredulidade. Portanto, os
“ses” da Nova Aliança são “se não perseverardes na fé”. Por outro lado, os
“ses” do pacto mosaico não alertam contra a incredulidade. As condições do
pacto mosaico eram “se obedeceres à minha voz e guardardes a minha
aliança”. Consequentemente, as advertências da Nova Aliança, embora reais,
não correspondem à natureza condicional da Antiga Aliança. Porque a Nova
Aliança é baseada na fé e a Antiga Aliança é baseada nas obras, unificá-las é
um erro.
Em segundo lugar, uma das principais razões pelas quais essas
advertências no livro de Hebreus foram necessárias era porque os cristãos
judeus estavam tentados a abandonar a suficiência que há em Cristo, voltando
às ordenanças, cerimônias, ritos e sacrifícios da Antiga Aliança. Por causa da
perseguição judaica, muitos cristãos judeus buscavam alívio retornando aos
seus antigos costumes religiosos judaicos. Contudo, não apenas a Nova
Aliança é superior à Antiga, a Antiga Aliança foi divinamente terminada. Por
causa disso, o autor de Hebreus adverte os seus leitores que, se eles se
afastassem da Nova Aliança (a suficiência que há em Cristo), voltando à lei,
seria impossível outra vez renová-los à fé:
Porque é impossível que os que já uma vez foram iluminados, e
provaram o dom celestial, e se fizeram participantes do Espírito Santo,
e provaram a boa palavra de Deus, e as virtudes do século futuro, e
recaíram, sejam outra vez renovados para arrependimento; pois assim,
quanto a eles, de novo crucificam o Filho de Deus, e O expõem ao
vitupério (Hebreus 6:4-6).
Essa advertência é muito semelhante ao alerta de Paulo aos Gálatas.
Por causa da influência dos judaizantes, muitos cristãos professos estavam
sendo tentados a buscar a justiça por meio da identidade judaica e da
observância do pacto mosaico (Atos 15:1). Como aqueles a quem o livro de
Hebreus se dirigia, as igrejas na Galácia estavam sendo pressionadas a
abandonar os ensinos e princípios da Nova Aliança, retornando às práticas
obrigatórias da Antiga Aliança, neste caso, a circuncisão. Assim, Paulo os
adverte: “Eis que eu, Paulo, vos digo que, se vos deixardes circuncidar,
Cristo de nada vos aproveitará. E de novo protesto a todo o homem, que se
deixa circuncidar, que está obrigado a guardar toda a lei. Separados estais de
Cristo, vós os que vos justificais pela lei; da graça tendes caído. Porque nós
pelo Espírito da fé aguardamos a esperança da justiça” (Gálatas 5:2-5).
Ambas as advertências são muito semelhantes. Elas alertam os cristãos
professos contra o perigo de negar a Cristo por retornarem às leis, ordenanças
e cerimônias da Antiga Aliança. Caso isso signifique algo, é a
descontinuidade entre as alianças que o autor de Hebreus está estabelecendo.
Portanto, essas advertências não provam a continuidade entre a Antiga e a
Nova Alianças, mas sim o oposto.
O Pacto Mosaico Foi Quebrado
Em uma tentativa de definir a Antiga Aliança como um pacto de graça,
Geerhardus Vos tentou explicar a natureza condicional do pacto mosaico.
Isso ele o fez alegando que o pacto era, em última instância, inquebrável. A
desobediência de Israel ao pacto resultava em infortúnios temporais, mas,
devido ao seu status de aliança, Deus sempre graciosamente restaurou-os de
volta ao Seu favor. Geerhardus Vos alegou que essa restauração sempre
ocorreu pela graça de Deus, e não pelo mérito de Israel:
Embora as exigências da lei tenham sido cumpridas imperfeitamente
várias vezes, contudo, durante muito tempo Israel permaneceu na
fruição do favor de Deus. E, mesmo quando o povo como um todo se
torna apóstata e foi para o exílio, Jeová, por causa disso, não permite
que a berith [aliança] falhe. Depois do devido castigo e
arrependimento, Ele conduz Israel de volta ao Seu favor.
Esta é a prova mais convincente de que a observância da lei não é o
fundamento meritório da bem-aventurança. Deus em tais casos
simplesmente repete o que Ele fez no princípio, isto é, recebe Israel em
Seu favor sobre o princípio da livre graça.[155]
O argumento de Vos parece bom, mas vai diretamente contra o ensino
irrefutável da Escritura. A aliança de Israel com Deus não era apenas
condicional, mas foi quebrada por Israel. Aprendemos no Salmo 78:10 que
“não guardaram a aliança de Deus, e recusaram andar na sua lei”. O profeta
Oséias registra: “Mas eles transgrediram a aliança, como Adão” (Oséias 6:7).
Jeremias também reconhece isso: “a casa de Israel e a casa de Judá
quebraram a minha aliança, que tinha feito com seus pais. Portanto assim diz
o Senhor: Eis que trarei mal sobre eles, de que não poderão escapar”
(Jeremias 11:10-11). Isso concorda com a profecia de Moisés: “O Senhor
mandará sobre ti a maldição… até que sejas destruído”
(Deuteronômio 28:20).
Independentemente disso, descobrimos que Deus foi longânimo com
essa nação rebelde até que a promessa de Abraão foi cumprida na pessoa de
Jesus Cristo — a descendência de Abraão. “E como antes disse Isaías: Se o
Senhor dos Exércitos nos não deixara descendência, teríamos nos tornado
como Sodoma, e teríamos sido feitos como Gomorra” (Romanos 9:29).[156]
Esta é a razão pela qual Deus não se retirou completamente de Israel. Foi o
pacto abraâmico que preservou Israel, não o pacto mosaico. Como Michael
Horton explica: “Assim, sempre que Deus demonstra misericórdia ao não
executar as maldições da aliança diante das transgressões de Israel, a base de
tal misericórdia nunca é a aliança sinaítica em si, mas a abraâmica… Não há
misericórdia no pacto sinaítico em si mesmo.”[157] Isso está de acordo com as
Escrituras: “Porém o Senhor teve misericórdia deles, e se compadeceu deles,
e tornou-se para eles por amor da sua aliança com Abraão, Isaque e Jacó, e
não os quis destruir, e não os lançou ainda da sua presença” (2 Reis 13:23).
Após o cumprimento do pacto abraâmico — que é quando Cristo, a
descendência prometida, veio — Deus cumpriu as terríveis promessas do
pacto mosaico; Ele desencadeou integralmente todas as maldições da aliança
sobre Israel. Como o autor de Hebreus afirma: “como não permaneceram
naquela minha aliança, eu para eles não atentei, diz o Senhor” (Hebreus 8:9).
Como Cristo diz aos judeus: “Eis que a vossa casa (linhagem racial) vai
ficar-vos deserta” (Mateus 23:38).[158] Paulo, posteriormente, afirma que “a
ira de Deus caiu sobre eles até ao fim” (1 Tessalonicenses 2:16).[159]
O pacto feito com a nação de Israel no Monte Sinai prometeu às
crianças hebreias que Deus seria o seu Deus e elas seriam o Seu povo, mas
essa promessa não se baseava na graça, na fé ou no novo nascimento, mas
nas obras. Não era baseado na circuncisão espiritual, mas na circuncisão
carnal. Em suma, a promessa de Deus para os tais era: “Se guardardes a
minha aliança, então ser-me-eis por povo, e eu vos serei por Deus”.
John Bunyan, ao se referir ao pacto mosaico, explica o rigor do pacto
quando diz: “As promessas da lei são condicionais e, portanto, não são
cumpridas, a menos que haja uma obediência plena e contínua a cada detalhe
dela, e sem o menor pecado”.[160] À luz disso, os judeus não apenas
quebraram a aliança em parte, mas no todo. Eles simplesmente eram
incapazes de guardar a lei de Deus transmitida a eles por meio de Moisés
(Romanos 3:9-10). Como Pedro conclui, esse jugo era pesado demais para
eles suportarem (Atos 15:10).
Calvino estava errado,[161] portanto, ao alegar que a Antiga Aliança é
basicamente a mesma que a Nova Aliança, porque contêm a mesma
promessa: “Eu serei o vosso Deus e vós sereis o meu povo”. Elas podem ter a
mesma promessa, mas não a mesma condição. Adão pode ter tido a mesma
promessa de vida antes da queda, como teve depois, mas a promessa anterior
era baseada em obras, e a última, na graça. Mesmo Herman Witsius não
negou que a Antiga e a Nova Alianças contivessem a mesma promessa com
condições diferentes: “De ambos os lados, a promessa de vida é a mesma, e
proposta nas mesmíssimas palavras… Mas o apóstolo coloca toda a
diferença, não naquilo que é prometido, mas na condição para se obter a
promessa”.[162]
Portanto, se o pacto mosaico estava baseado na graça, como poderia ser
quebrado? O fato de ser quebrável exige que seja condicional e, por ser
condicional, deve significar que era um pacto de obras.
Termos que Resumem o Pacto Mosaico
Além disso, as Escrituras identificam continuamente o pacto mosaico
pela palavra lei. A palavra lei é emblemática do pacto mosaico. As Escrituras
nunca descrevem a natureza ou essência dessa aliança pelas palavras graça
ou fé. Em Deuteronômio, Moisés resume o pacto, dizendo: “Então vos
anunciou ele a sua aliança que vos ordenou cumprir, os dez mandamentos, e
os escreveu em duas tábuas de pedra” (Deuteronômio 4:13). Ou seja, as dez
palavras encapsulam a própria essência do pacto mosaico. Em Gálatas, Paulo
concorda com a afirmação de Moisés, pois ele identifica especificamente o
pacto mosaico com a palavra lei. “Mas digo isto: Que tendo sido a aliança
[mosaica] anteriormente confirmada por Deus em Cristo, a lei, que veio
quatrocentos e trinta anos depois [da aliança abraâmica]” (Gálatas 3:17).
Nesta declaração, Paulo resume o pacto mosaico chamando-o de lei. Além
disso, no capítulo 4 de Gálatas, Paulo associa o pacto do Sinai ao Pacto de
Obras (explicarei isso no próximo capítulo). Novamente, em 2 Coríntios 3:7,
o pacto mosaico, que foi “gravado com letras em pedras”, é chamado por
Paulo de “ministério da morte”. Por que ele o chama assim? Porque está
escrito: “Maldito todo aquele que não permanecer em todas as coisas que
estão escritas no livro da lei, para fazê-las” (Gálatas 3:10).
Uma Objeção Esperada
As promessas do pacto feito com Abraão não eram incondicionais? As
promessas incondicionais não foram feitas com Abraão e sua descendência?
Em caso afirmativo, como é possível que Israel seja menos do que os filhos
da promessa? As condições não anulam promessas incondicionais? A nação
de Israel deve ser o cumprimento do pacto abraâmico; caso contrário, as
promessas não foram cumpridas, e as promessas de Deus a Abraão são
anuladas. O apóstolo Paulo antecipa esse argumento e o refuta dizendo:
Não que a palavra de Deus [ou seja, as promessas de Deus a Abraão]
haja faltado [sido anulada], porque nem todos os que são de Israel são
israelitas; nem por serem descendência de Abraão são todos filhos;
mas: Em Isaque será chamada a tua descendência. Isto é, não são os
filhos da carne que são filhos de Deus, mas os filhos da promessa são
contados como descendência (Romanos 9:6-9:6).
Em outras palavras, embora a maioria do Israel físico não tenha
herdado as promessas de Abraão, isso não anulou o pacto abraâmico. Por
quê? Porque Deus nunca pretendeu que a descendência prometida incluísse
todo descendente circuncidado e biológico de Abraão, nem pretendia que a
descendência prometida fosse limitada a “Israel segundo a carne”.
Antes, nesse mesmo livro, Paulo afirma que os participantes da Antiga
Aliança não eram necessariamente os filhos da promessa:
Porque a promessa de que havia de ser herdeiro do mundo não foi feita
pela lei a Abraão, ou à sua posteridade, mas pela justiça da fé. Porque,
se os que são da lei são herdeiros, logo a fé é vã e a promessa é
aniquilada. Porque a lei opera a ira. Porque onde não há lei também
não há transgressão. Portanto, é pela fé, para que seja segundo a graça,
a fim de que a promessa seja firme a toda a posteridade, não somente à
que é da lei, mas também à que é da fé que teve Abraão, o qual é pai
de todos nós (Romanos 4:13-16).
Os verdadeiros filhos da promessa são aqueles que têm fé: “Sabei, pois,
que os que são da fé são filhos de Abraão” (Gálatas 3:7).
Essas passagens bíblicas ensinam que o nascimento físico e a
circuncisão exterior são inúteis.[163] Isso não colocava infantes não
convertidos no Pacto da Graça no passado, e não os colocará no Pacto da
Graça agora. Como podemos ter tanta certeza? Ismael e Esaú eram
descendentes físicos de Abraão, mas a sua circuncisão e vínculo genético
com Abraão não deram a nenhum deles a entrada no Pacto da Graça. Embora
Ismael e Esaú fossem descendência de Abraão, circuncidados na carne e sob
a autoridade de Abraão, eles não eram “herdeiros [de Abraão] de acordo com
a promessa”. Como as Escrituras dizem em outra passagem: “Isto é, não são
os filhos da carne que são filhos de Deus, mas os filhos da promessa são
contados como descendência” (Romanos 9:8). Em outras palavras, a
descendência prometida de Abraão não são os seus filhos naturais, mas os
seus filhos espirituais (Gálatas 3:29).
Paulo declara que é a eleição que determina quem está entre o
verdadeiro (espiritual) Israel de Deus, não as genealogias naturais ou a
genética física. A eleição e livre graça de Deus são imparciais quanto a todas
essas circunstâncias exteriores. Portanto, a partir disso, devemos aprender
que o nascimento físico, os atos externos da circuncisão ou aspersão não
reivindicam a entrada no pacto da promessa. Somente aqueles escolhidos por
Deus antes da fundação do mundo, os quais com o tempo experimentam a
graça de Deus em seus corações, estão no Pacto da Graça e entre o verdadeiro
povo espiritual de Deus.
O que torna uma pessoa um verdadeiro judeu e a coloca entre o
verdadeiro povo de Deus não é o nascimento físico, o princípio do cabeça
federal, ser parte da nação física de Israel ou estar sob o pacto mosaico, mas
apenas graça e graça somente. “Porque não é judeu o que o é exteriormente,
nem é circuncisão a que o é exteriormente na carne. Mas é judeu o que o é no
interior, e circuncisão a que é do coração, no espírito, não na letra; cujo
louvor não provém dos homens, mas de Deus” (Romanos 2:28-29).
Contudo, a teologia pactual pedobatista considera o pacto mosaico
como parte do Pacto da Graça. Assim, os descendentes físicos de Abraão, por
seu nascimento natural, pertencem ao Pacto da Graça. Os pedobatistas não o
afirmam abertamente, mas isso significa que os infantes de crentes entram no
Pacto da Graça não pelo novo nascimento, mas pela genética e pelos laços
familiares.
Os pedobatistas muitas vezes negam essa acusação alegando que os
filhos da aliança entram no Pacto da Graça pela promessa da aliança, não pela
genética. Por exemplo, eles se referem aos seus filhos adotivos. As crianças
adotadas são incluídas no pacto não devido à genética natural, mas porque
Deus prometeu aos crentes que Ele seria o Deus de seus filhos. Eles buscam
substanciar essa afirmação voltando à promessa feita a Abraão.
Mesmo assim, isso ainda é uma mistura da descendência física de
Abraão com a descendência espiritual de Abraão. Em nenhuma parte da
promessa abraâmica é dito “a descendência dos crentes”. Isso é ler a
promessa tomando aquilo que se aplicava aos filhos naturais de Abraão e
aplicá-lo a nós mesmos como filhos espirituais de Abraão. Como gentios
crentes, somos a descendência espiritual de Abraão. No entanto, Deus não
prometeu que nossos filhos naturais pertencem automaticamente a Ele mais
do que Ele nos prometeu que nossos descendentes serão tão numerosos
quanto as estrelas. Não temos a intenção de herdar nenhuma propriedade no
Oriente Médio; por que então tomamos a promessa dada a Abraão e sua
descendência natural (“tu e tua descendência”) e achamos que isso se aplica a
nós e à nossa descendência natural? Fazer isso é misturar a descendência
física de Abraão com a descendência espiritual de Abraão. Isso é exatamente
o que Paulo buscou distinguir em seus escritos.
Conclusão
Neste capítulo, examinamos quatro razões pelas quais o pacto mosaico
não era um pacto de graça: Primeira, ele continha uma condição relacionada
às obras. Segunda, continha maldições. Isto é, Deus prometeu amaldiçoar
Israel se falhasse em cumprir a condição. Terceira, não apenas era passível de
ser quebrado, mas foi quebrado por seus participantes. Quarta, as Escrituras
se referem à Antiga Aliança por vários rótulos e termos que a descrevem
como um pacto de obras, como lei e ministério da condenação. Se a Antiga
Aliança fosse baseada na graça, ela não poderia ter sido quebrada. Visto que
foi quebrada, que outra conclusão podemos tirar? Se a participação no pacto
é, em última instância, determinada pela obediência pactual, ela deixa de ser
um pacto de graça, pois a graça prevalece sobre toda a infidelidade pactual
(Romanos 11:6).
A próxima razão pela qual a Antiga Aliança não é um pacto de graça é
encontrada em Gálatas 4:21-31, que é o foco do próximo capítulo.
6
GÁLATAS 4:21-31 ENSINA
DESCONTINUIDADE

O apóstolo Paulo ensina claramente que a Antiga Aliança era um pacto de


obras. Em Gálatas 4:21-31, ele faz uma análise comparativa entre a Antiga e
a Nova Alianças. Além disso, em vez de unificá-las sob o guarda-chuva do
Pacto da Graça, ele as define como sendo duas alianças distintas e separadas.
Ele faz isso contrastando as duas descendências de Abraão e mostrando como
cada uma simbolicamente representa duas alianças diferentes. Sua
descendência natural e física simbolizam a Antiga Aliança das obras,
enquanto sua descendência espiritual e sobrenatural simboliza a Nova
Aliança da graça. A partir disso, ele segue ligando o pacto mosaico ao Pacto
das Obras e a Nova Aliança ao Pacto da Graça.
Se este é o significado por trás de Gálatas 4:21-31, então esta passagem
sozinha refuta a tese central da teologia pactual pedobatista. A Antiga e a
Nova Alianças não são o mesmo pacto sob duas administrações diferentes.
Mais importante ainda, a Antiga Aliança não é um pacto de graça. Vamos
examinar essa passagem analisando alguns versículos de cada vez para ver se
esse é realmente o caso.
A Alegoria Apresentada
Paulo começa sua alegoria afirmando que os dois filhos de Abraão,
Ismael e Isaque, representam cada um duas alianças separadas.
Porque está escrito que Abraão teve dois filhos, um da escrava, e outro
da livre. Todavia, o que era da escrava nasceu segundo a carne, mas, o
que era da livre, por promessa. O que se entende por alegoria; porque
estas são as duas alianças (Gálatas 4:22-24).
Nesses versículos acima, o apóstolo Paulo não apenas tipifica os dois
filhos de Abraão, mas também mostra como cada uma de suas mães e a
natureza de seus nascimentos são simbólicas também. Ismael, a natureza de
seu nascimento e sua mãe, Agar, representam a aliança de obras/carne. Por
outro lado, Isaque, a natureza de seu nascimento e sua mãe, representam a
aliança da graça/promessa. Segundo Paulo, a principal diferença entre esses
dois filhos é a maneira como eles nasceram; um nasceu pelas obras da carne,
enquanto o outro nasceu sobrenaturalmente pelo poder do Espírito Santo.
Ismael Representa a Aliança das Obras
Há duas razões pelas quais Paulo assemelha Ismael à aliança das obras:
uma, por causa de sua mãe; e duas, por causa da natureza do seu nascimento.
Primeira razão, Ismael tipifica a aliança de obras por causa de sua mãe.
Agar era “a escrava”. Da mesma forma, todos aqueles que nasceram na
aliança das obras nascem escravizados. Assim como Ismael nasceu na
escravidão, assim acontece com toda pessoa que nasceu segundo a carne.
Cada pessoa que é nascida segundo a carne nasce sob a lei e, portanto, sob o
domínio do pecado (Romanos 6).
Segunda razão, Ismael representa a aliança das obras, por causa da
natureza de seu nascimento. O nascimento de Ismael retrata a aliança das
obras de duas maneiras. Primeira, Ismael “nasceu segundo a carne”. Isto é,
não havia nada de sobrenatural no seu nascimento. Da mesma forma, todos
aqueles que nascem naturalmente nascem na aliança das obras. Para entrar
nesta aliança, basta o “nascimento natural”. Por outro lado, para entrar no
reino de Deus, é necessário nascer de novo (João 3:5). Como o Senhor Jesus
disse: “O que é nascido da carne é carne, e o que é nascido do Espírito é
espírito” (João 3:6). Segunda, o nascimento de Ismael retrata o Pacto das
Obras, porque não exigia fé da parte de Abraão. Portanto, Ismael não era o
filho da promessa. Isto é, quando Deus prometeu a Abraão um filho, Ismael
não era o filho que Ele tinha em mente. Pelo contrário, Ismael era um
subproduto das obras humanas, não da promessa. Ele não era a
“descendência” prometida, e assim é com todos aqueles que não são nascidos
de novo pelo Espírito através da fé. Paulo afirma isso em Romanos 9:8: “Isto
é, não são os filhos da carne que são… os filhos da promessa”.
Isaque Representa a Aliança da Graça
Os detalhes do nascimento de Isaque eram o oposto do de Ismael. Ele
representa a aliança da graça. Primeiro, ele nasceu da mulher livre; segundo,
ele era o filho da promessa; terceiro, ele nasceu sobrenaturalmente. Essas
características são verdadeiras para todos aqueles que nasceram de novo pelo
Espírito de Deus na aliança da graça.
Embora o filho da mulher escrava e o filho da mulher livre fossem
ambos a descendência física de Abraão e circuncidados na carne, um era o
filho da carne, enquanto o outro era o filho da promessa, e um nasceu pelas
obras, enquanto o outro nasceu do espírito.
Sendo isso alegórico, mostra a grande diferença entre a Aliança das
Obras e a Aliança da Graça. Na primeira se entra através do nascimento
natural (por ser “nascido segundo a carne”), enquanto a entrada na segunda é
através do nascimento sobrenatural do Espírito.
A Alegoria Explicada
No entanto, Paulo não termina sua alegoria aqui. Ele prossegue
explicando como essas duas crianças representam o Israel da Antiga Aliança
e a igreja da Nova Aliança. Isto é, nesta passagem, Paulo mostra a diferença
básica entre a Antiga e a Nova Aliança, bem como a diferença entre Israel e a
igreja. Ao fazê-lo, Paulo liga a nação de Israel ao Pacto das Obras enquanto
liga a igreja da Nova Aliança ao Pacto da Graça.
O que se entende por alegoria; porque estas são as duas alianças; uma,
do Monte Sinai, gerando filhos para a servidão, que é Agar. Ora, esta
Agar é Sinai, um monte da Arábia, que corresponde à Jerusalém que
agora existe, pois é escrava com seus filhos. Mas a Jerusalém que é de
cima é livre; a qual é mãe de todos nós. Porque está escrito: Alegra-te,
estéril, que não dás à luz; esforça-te e clama, tu que não estás de parto;
porque os filhos da solitária são mais do que os da que tem marido
(Gálatas 4:24-27).
Nos dois primeiros versículos, o foco de Paulo foi o nascimento desses
dois filhos, mas aqui ele se concentra em suas mães.
A Escrava Representa a Antiga Aliança
Agar, a escrava egípcia, obviamente representa a aliança das obras, pois
ela “é escrava com seus filhos”. Agar mostra que todos os que “nascem
segundo a carne” nascem sob o domínio do pecado.
Aqui está o golpe esmagador para a teologia pactual pedobatista, pois
nestes versículos Paulo não liga o pacto mosaico com Sara ou Isaque, mas
com Ismael e sua mãe Agar. Mais enfaticamente, ele não conecta a aliança
mosaica com a Aliança da Graça, mas sim com a Aliança das Obras. Ele faz
isso quando ele diz, a aliança “do Monte Sinai, gerando filhos para a
servidão, que é Agar. Ora, esta Agar é Sinai, um monte da Arábia”. Isto está
claramente se referindo à aliança mosaica. Assim como Agar teve sua origem
nas areias desoladas da Arábia, o local de nascimento da Antiga Aliança foi
em um alto monte árido naquele mesmo deserto seco. Como um autor explica
corretamente:
O monte Horebe também denota secura e desolação… A lei,
considerada em si mesma, é mais seca e estéril para o homem pecador
do que qualquer rocha ou deserto arenoso, da qual nem mesmo uma
gota de verdadeira piedade pode penetrar nos corações dos homens;
também forma um horrível deserto e desolação por suas ameaças e
maldições, com as quais, como com muitos espinhos, pica e fere a
consciência do pecador.[164]
Depois de ligar a Antiga Aliança com o Pacto das Obras, Paulo faz
mais uma comparação, ao dizer: “Ora, esta Agar é Sinai, um monte da
Arábia, que corresponde à Jerusalém que agora existe, pois é escrava com
seus filhos”. Nesta conexão, aprendemos que o Israel físico (a descendência
natural de Abraão) está em escravidão. Por quê? Porque Paulo afirma que a
aliança mosaica está “gerando filhos para a servidão”. Isso está de acordo
com o testemunho de nosso Senhor Jesus. Em João capítulo 8, há um certo
grupo de judeus, que acreditam que, por serem filhos de Abraão, “nunca
foram escravos de ninguém”. Jesus responde a essa falsa noção dizendo: “Em
verdade, em verdade vos digo que todo aquele que comete pecado é escravo
do pecado” (João 8:33-34). Não importa se os judeus têm Abraão como pai,
eles ainda estão em estado de escravidão. Isto é, a menos que sejam nascidos
de novo pelo Espírito de Deus e entrem na aliança da promessa pela fé.
A Mulher Livre Representa a Nova Aliança
Em contraste, Sara e seu filho Isaque representam a Nova Aliança: uma
aliança baseada na graça. Por quê? Porque Sara, ao contrário de Agar, era (1)
uma mulher livre e (2) a mãe do filho da promessa. Com relação a Isaque, ele
nasceu (1) como o filho da promessa e (2) sobrenaturalmente. Ao contrário
de Ismael, Isaque nasceu da fé, não das obras. Isaque, portanto, representa
todos aqueles que nascem da “Jerusalém que é de cima”. Assim como Isaque,
todos os que nascem de cima nascem livres.
Paulo contrasta a “Jerusalém que é de cima” com a “Jerusalém que
agora existe”. Esse contraste mostra a diferença fundamental entre a
descendência natural e a descendência espiritual de Abraão. A “Jerusalém
que agora existe” refere-se aos descendentes carnais de Abraão, que nascem
segundo a carne (um nascimento natural). A “Jerusalém que é de cima”
refere-se aos filhos espirituais de Abraão, que nascem de cima
sobrenaturalmente.
Como uma pessoa se torna filha da mulher livre, a “Jerusalém que é de
cima”? Como alguém passa a fazer parte do número dos filhos da promessa?
Ao nascer de novo “pelo Espírito”. Somente aqueles que são nascidos de
cima são libertos da escravidão do pecado. Como Paulo declara: “Mas a
Jerusalém que é de cima é livre; a qual é mãe de todos nós”. “De maneira
que, irmãos, somos filhos, não da escrava, mas da livre. E, se sois de Cristo,
então sois descendência de Abraão, e herdeiros conforme a promessa”
(Gálatas 4:31, 3:29). Portanto, somente aqueles que nasceram de cima são os
verdadeiros filhos da aliança da promessa.
A diferença é clara entre:
▪ Agar e Sara
▪ Ismael e Isaque
▪ A Antiga e a Nova Alianças
▪ O Pacto das Obras e o Pacto da Graça
▪ A Nação de Israel e a igreja
▪ A descendência física de Abraão e a descendência espiritual de
Abraão
▪ Os filhos da carne e os filhos da promessa
▪ Aqueles que são “nascidos segundo a carne” e aqueles que são
“nascidos segundo o Espírito”
Os primeiros eram “nascidos segundo a carne” e estavam debaixo de
servidão, enquanto os últimos nascem sobrenaturalmente pelo Espírito e são
livres.
A Alegoria Aplicada
Isso está em harmonia com a aplicação e conclusão de Paulo a essa
analogia:
Mas nós, irmãos, somos filhos da promessa como Isaque. Mas, como
então aquele que era gerado segundo a carne perseguia o que o era
[que nasceu] segundo o Espírito, assim é também agora. Mas que diz a
Escritura? Lança fora a escrava e seu filho, porque de modo algum o
filho da escrava herdará com o filho da livre. De maneira que, irmãos,
somos filhos, não da escrava, mas da livre (Gálatas 4:28-31).
A Verdadeira Identidade dos Filhos das Obras
Muitos cristãos acreditam que os judeus, como uma raça, ainda são o
povo de Deus, apesar de eles haverem, de forma geral, rejeitado o Messias e
estarem morrendo em seus pecados. Embora Deus tenha derrubado a parede
de separação que estava no meio e eliminado todas as distinções raciais,
alguns ainda acreditam que Israel está acima da igreja e é atualmente a
menina dos olhos de Deus.
O apóstolo Paulo, no entanto, não tem uma opinião tão elevada sobre
sua própria nação. De acordo com Romanos 9, ele ama seus parentes, mas
não está disposto a afirmar que todos são filhos da promessa: “Não são os
filhos da carne que são filhos de Deus” (Romanos 9:8). Como um todo, ele os
coloca na mesma categoria com Ismael e os ismaelitas. De acordo com
Jonathan Edwards, “eles foram rejeitados e abandonados por não serem mais
o povo visível de Deus. Eles foram quebrados do tronco de Abraão, e desde
então não têm mais a reputação de serem seus descendentes do que os
ismaelitas ou os edomitas, que são sua descendência natural tanto quanto
eles”.[165]
Ismael era filho de Abraão; ele era sua “descendência”. No entanto,
Ismael não era o filho da promessa. Por causa disso, depois que Isaque
nasceu, por ordem de Deus, Ismael e sua mãe Agar foram expulsos para o
deserto, porque está escrito: “De modo algum o filho da escrava herdará com
o filho da livre” (Gálatas 4:30). Embora isso fosse verdade para Ismael,
quando Paulo diz: “De modo algum o filho da escrava herdará com o filho da
livre”, ele não está se referindo a Ismael ou aos ismaelitas, mas aos israelitas,
isto é, “a Jerusalém que agora existe”, ou seja, aqueles que “nasceram
segundo a carne”. Assim como Ismael não era a descendência que Deus tinha
em mente quando prometeu um filho a Abraão, Israel também não era os
verdadeiros filhos da promessa (Romanos 9:8).
Por causa disso, por ordem de Deus, Abraão levou Agar e seu filho
Ismael para o deserto, abandonando a escrava egípcia e o filho da escravidão
nas areias do deserto. Da mesma forma, Deus abandonou a casa de Israel.
“Eis que a vossa casa vai ficar-vos deserta” (Mateus 23:38) — ereemos é a
palavra traduzida aqui por deserta, também pode significar abandonada.
“Lança fora a escrava e seu filho, porque de modo algum o filho da escrava
herdará com o filho da livre” (Gálatas 4:30). O ponto é que a aliança sinaítica
foi estabelecida no deserto e seus membros, porque eram os filhos da
escravidão, foram finalmente abandonados ali também.
Paulo explica que, assim como os ismaelitas perseguiram os israelitas,
agora os israelitas são os perseguidores da igreja. “Mas, como então aquele
que era gerado segundo a carne perseguia o que o era segundo o Espírito,
assim é também agora”. E, assim como Ismael não tinha herança com Isaque,
a nação de Israel não tem verdadeira herança espiritual com aqueles que
foram vivificados juntamente com Cristo.
A Verdadeira Identidade dos Filhos da Promessa
Em conclusão, Paulo ensina que a maioria dos filhos físicos de Abraão,
porque nasceram das obras da carne, são filhos da escravidão. Eles não eram
os filhos da promessa, pois não havia nada de sobrenatural no seu
nascimento.
Por outro lado, a igreja, porque consiste apenas daqueles que nascem de
cima, é o verdadeiro cumprimento da promessa feita a Abraão. A “Jerusalém
que é de cima”, consistindo de judeus e gentios convertidos, é o cumprimento
real do pacto abraâmico. Eles são os que nascem livres. Aqueles que estão em
Cristo são os verdadeiros filhos da promessa, como Paulo diz em vários
lugares: “Mas nós, irmãos, somos filhos da promessa como Isaque”
(Gálatas 4:28); “E, se sois de Cristo, então sois descendência de Abraão, e
herdeiros conforme a promessa” (Gálatas 3:29); “De maneira que, irmãos,
somos filhos, não da escrava, mas da livre” (Gálatas 4:31). Nossa mãe é a
Jerusalém que é de cima; porque não chegamos ao Monte Sinai, “mas
chegastes ao Monte Sião, e à cidade do Deus vivo, à Jerusalém celestial, e
aos muitos milhares de anjos; à universal assembleia e igreja dos
primogênitos, que estão inscritos nos céus” (Hebreus 12:22-23).
Essa é a diferença fundamental entre a Antiga e a Nova Alianças, entre
a descendência física e a descendência espiritual de Abraão. Uma nasce da
carne, através da escrava, e a outra nasce do Espírito, através da mulher livre.
Em resumo, de acordo com essa passagem, o pacto mosaico não é parte do
Pacto da Graça, mas parte do Pacto das Obras.
A Objeção Pedobatista Declarada
Geralmente, os teólogos pactuais pedobatistas se opõem a essa
interpretação de Gálatas. Eles afirmam que a epístola de Paulo aos
Gálatas não pode ser entendida adequadamente fora de seu contexto
histórico. O pacto mosaico em sua forma original (como foi dado por Deus
através das mãos de Moisés) nunca foi destinado a ser um contrato legalista
baseado em mérito pessoal ou corporativo. Pelo contrário, ao longo dos anos,
especialmente durante o período entre a construção do templo de Herodes e
sua destruição em 70 d.C. (Judaísmo do Segundo Templo), muitos rabinos
judeus, fariseus e especialmente os essênios desenvolveram um falso
entendimento desse pacto, ensinando que ele era baseado em mérito/obras.
[166]

Esse era o problema teológico básico dos judaizantes. Era a sua


interpretação legalista e falsa acerca de Moisés que Paulo está tentando
confrontar e corrigir nesta epístola. Como Herman Witsius argumentou:
A intenção do apóstolo, portanto, naquele lugar, não é nos ensinar que
a aliança do Monte Sinai não era nada além de um pacto de obras,
totalmente oposto ao pacto do Evangelho; mas ensinar sobre como os
israelitas entenderam a mente de Deus de forma errada e grosseira, e
vilmente abusaram de Sua aliança; assim como todos os que buscam a
justiça pela lei.[167]
O. Palmer Robertson montou a mesma objeção:
Como esta “fórmula de equivalências” é considerada, deve ser
enfatizado que a compreensão da lei mosaica com a qual Paulo está
contendendo não pode ser vista como o propósito intencionado por
Deus ao dar a lei no Sinai… O verdadeiro propósito da lei de Deus no
Sinai não encontrou a sua manifestação apropriada nos judaizantes do
primeiro século… “lei” e “Sinai”, neste contexto, deve referir-se à má
compreensão legalista do propósito de Deus em dar a lei, em vez da
correta apreensão da revelação da lei de Deus.[168]
Em outras palavras, Witsius e Robertson afirmam que Paulo, nesta
passagem, não está ligando o pacto mosaico a “Agar”, a “Ismael”, a
“escravidão” e “as obras da carne”, ao contrário, está comparando o
legalismo e o falso entendimento dos judaizantes acerca do pacto mosaico
com estas coisas.
Essa objeção, no entanto, não corresponde à evidência interna da
Escritura. Primeiro, Paulo não culpa os judaizantes por uma falsa
compreensão do pacto mosaico. Nenhuma vez Paulo ataca a visão judaizante
do pacto mosaico. Em vez disso, ele ataca seu desejo de implementar os
princípios do pacto mosaico, juntamente com suas condições, na Nova
Aliança — principalmente o sinal da Antiga Aliança, a circuncisão. Ele
adverte contra a transferência da necessidade da circuncisão sob a Antiga
Aliança para a igreja do Novo Testamento. Os judaizantes não tinham uma
visão legalista da circuncisão, pois as Escrituras do Antigo Testamento
dizem: “E o homem incircunciso, cuja carne do prepúcio não estiver
circuncidada, aquela alma será extirpada do seu povo; quebrou a minha
aliança” (Gênesis 17:14). Esta não é uma visão errada da circuncisão. A
circuncisão era necessária no Antigo Testamento para que alguém estivesse
entre o povo pactual de Deus. É simplesmente errado aceitar essa necessidade
do Antigo Testamento e aplicá-la à Nova Aliança, como os judaizantes
estavam fazendo.
Em segundo lugar, essa objeção não concorda com Moisés ou a
explicação de Paulo da Antiga Aliança. Se os judaizantes acreditavam que o
pacto mosaico era legalista, então Moisés e Paulo também o fizeram. A
Antiga Aliança prometia vida àqueles que obedeciam a todas as suas
exigências. “Portanto, os meus estatutos e os meus juízos guardareis; os
quais, observando-os o homem, viverá por eles” (Levítico 18:5). Esta
proclamação do Antigo Testamento é repetida uma vez em Números (9:29) e
três vezes em Ezequiel (20:11, 13, 21). Como em outro lugar ele diz: “Todos
os mandamentos que hoje vos ordeno guardareis para os cumprir; para que
vivais” (Deuteronômio 8:1). Não só a Antiga Aliança prometia vida pela
perfeita retidão, como prometia a morte como recompensa para qualquer
coisa que não fosse a perfeição. Moisés também escreveu: “Maldito aquele
que não confirmar as palavras desta lei, não as cumprindo. E todo o povo
dirá: Amém” (Deuteronômio 27:26).
Além disso, estas são as próprias palavras de Moisés — palavras
citadas por Paulo para explicar a diferença entre a Antiga e a Nova Alianças
(Gálatas 3:9-18). Em outras palavras, quando Paulo contrasta a lei e a fé em
Gálatas, ele não se refere aos ensinamentos dos judaizantes, mas aos
ensinamentos de Moisés. Ele cita Moisés, não os judaizantes! Citando a Torá,
ele dá sua interpretação inspirada do pacto mosaico. Em essência, ele ensina
que este era o oposto da Nova Aliança. Como nas palavras de Paulo:
Maldito todo aquele que não permanecer em todas as coisas que estão
escritas no livro da lei, para fazê-las. E é evidente que pela lei ninguém
será justificado diante de Deus, porque o justo viverá pela fé. Ora, a lei
não é da fé; mas o homem que fizer estas coisas, por elas viverá
(Gálatas 3:10-12).
Paulo compreende plenamente que o pacto mosaico prometia vida e
morte com base no mérito. Foi nossa desobediência à lei que pregou Cristo
na cruz, pois Paulo continuou dizendo: “Cristo nos resgatou da maldição da
lei, fazendo-se maldição por nós; porque está escrito: Maldito todo aquele
que for pendurado no madeiro” (Gálatas 3:13-14).[169] Devemos nos
perguntar, portanto, se a lei não é de obras, por que Cristo recebeu as
maldições da lei?
É claro, alguns podem objetar. Existem duas maneiras de receber a
vida: uma pela lei e outra pela fé?
A resposta seria sim e não. Porque todos morreram em Adão, a
obediência à lei é impossível e, portanto, a morte é inevitável. Por outro lado,
havia uma pessoa que podia e guardou o pacto mosaico por seu próprio
mérito pessoal (Romanos 8:3-4). As obras da lei estabeleceram a vida eterna.
O homem Jesus Cristo realizou isso por Sua vida obediente e Sua morte
sacrificial. Ele não apenas obedeceu à lei em Sua vida, mas também suportou
as maldições da lei em Sua morte. Portanto, Ele cumpriu a lei e recebeu a
bênção prometida (por exemplo, a vida) em Sua ressurreição. Porque Cristo
cumpriu todas as exigências da Antiga Aliança, Ele obteve a vida, a mesma
vida que a Antiga Aliança prometia àqueles que a mantinham. “E por isso é
Mediador de um novo testamento, para que, intervindo a morte para remissão
das transgressões que havia debaixo do primeiro testamento, os chamados
recebam a promessa da herança eterna” (Hebreus 9:15). Cristo é o único que
viveu pela lei (Levítico 18:5). E pelo mérito de Cristo, nós (à parte de nosso
próprio mérito) podemos receber esta vida pela fé, “porque o fim da lei é
Cristo para justiça de todo aquele que crê” (Romanos 10:4).
No entanto, Paulo explica a verdadeira natureza do pacto mosaico
contrastando-a com a Nova Aliança. Em vez de a Antiga e a Nova Alianças
serem essencialmente as mesmas, elas estão em oposição direta, pois uma é
um pacto de obras e a outra é um pacto de fé. A Antiga Aliança diz:
“Portanto, os meus estatutos e os meus juízos guardareis; os quais,
observando-os o homem, viverá por eles”. Mas a Nova Aliança diz que “o
justo viverá pela fé”. Assim, a Antiga Aliança ensina que a pessoa obtém a
vida guardando os estatutos de Deus, enquanto a Nova Aliança ensina que
alguém obtém a vida pela fé. Como Michael Horton explica:
A obediência pessoal aos mandamentos é uma base radicalmente
diferente para uma herança do que a fé em uma promessa. Embora as
Escrituras defendam a lei moral como o modo permanente de vida para
o povo redimido de Deus, ela nunca pode ser um caminho para a vida.
Cada pacto tem duas partes, e nós assumimos as responsabilidades de
participantes fiéis, mas a base da aceitação para com Deus é a guarda
da aliança realizada por outro, o Servo do Senhor; e por causa de Sua
fidelidade nós agora herdamos todas as promessas somente pela fé,
como filhos de Sara e cidadãos da Jerusalém celestial.[170]
Em terceiro lugar, os judaizantes eram muito fracos em sua visão do
rigor do pacto mosaico. Sim, eles estavam ensinando que o pacto mosaico
continha certas condições, mas condições que eram factíveis (por exemplo, a
circuncisão). Paulo não questiona a visão dos judaizantes de que o pacto
mosaico era condicional, mas procura corrigir seu entendimento sobre a
gravidade dessas condições. Ele começa sua analogia afirmando: “Dizei-me,
os que quereis estar debaixo da lei, não ouvis vós a lei?” (Gálatas 4:21), isto
é, se vocês querem seguir a Moisés, certifiquem-se de que compreenderam
plenamente as suas exigências. Como John Brown explicou: “Se vocês,
gálatas, que aspiram a circuncisão e sujeição à lei mosaica como um
privilégio, houvessem entendido a verdadeira natureza da lei, como descrita
no relato inspirado dela, vocês não estariam tão ansiosos para trazer o jugo da
lei sobre si mesmos”.[171] Em outras palavras, os judaizantes não entendiam o
quão estrito e sem misericórdia o pacto mosaico realmente era. Por causa
disso, Paulo quer que os gálatas saibam que o pacto mosaico continha
condições; condições que levavam ao cativeiro em vez de à liberdade, e à
condenação em vez de à justificação. Se você quer seguir o caminho da
circuncisão, a morte é o que você deve esperar. Em vez de os judaizantes
tornarem a Antiga Aliança mais exigente, como Witsius e Robertson
afirmam, eles a tornavam mais relaxada e realizável.
Além disso, e por último, essa visão enfraquece todo o significado
dessa passagem. Paulo procura explicar a diferença entre o nascimento
natural e o nascimento espiritual. Ao procurar incluir o pacto mosaico no
Pacto da Graça, Witsius e Robertson argumentam que o nascimento natural
concede entrada no Pacto da Graça. Esta é a mesma coisa que aquela contra a
qual Paulo argumenta: nascer como filho físico de Abraão, ter pertencido ao
pacto mosaico, possuir a lei de Deus e ser circuncidado (batizado) não fazia
da pessoa um verdadeiro filho da promessa (Romanos 9:7-8). O pacto
mosaico, sendo o “ministério [administração] da morte” (2 Coríntios 3:7),
não gerava filhos para a liberdade, mas para a escravidão. Paulo sabe disso, e
é por isso que ele contrasta a Antiga com a Nova e Israel com a igreja. Em
suma, o nascimento natural não é o mesmo que o nascimento espiritual.
Os pedobatistas pactuais consideram seus filhos como sendo filhos da
aliança (embora sejam “nascidos segundo a carne”), como nascidos dentro do
Pacto da Graça, independentemente de terem “nascido do Espírito” e de
fazerem parte da “Jerusalém que é de cima”. Eles chegam a essa conclusão
porque não conseguem manter a Antiga e a Nova Alianças separadas; eles
misturaram e fundiram a descendência física e a descendência espiritual de
Abraão. No entanto, a diferença é clara: uma descendência nasce “segundo a
carne”, enquanto a outra é “nascida segundo o Espírito”.
Conclusão
Gálatas 4:21-31 refuta singularmente a ideia central da teologia pactual
pedobatista. Paulo, nesta passagem, separa a Antiga e a Nova Alianças. O
pacto mosaico era (1) condicional, (2) continha maldições terríveis e (3) foi
quebrado por seus participantes. Como um todo corporativo, os israelitas
finalmente não encontraram graça aos olhos de Deus. Não graça, mas a ira
ardente de Deus caiu sobre eles (1 Tessalonicenses 2:16). Por essas razões, o
pacto mosaico não era um pacto de graça.
No entanto, porque a teologia pactual pedobatista unifica esse pacto
com a Nova Aliança, ela redefine a natureza do Pacto da Graça. Para que a
teologia pactual pedobatista seja coesa, a Nova Aliança deve se parecer com
a Antiga Aliança. Tem que abrir espaço para as condições, as maldições e as
quebras de aliança dentro do Pacto da Graça. Esta é a falha essencial da
teologia por trás do batismo infantil.
7
UM SISTEMA DOUTRINÁRIO
INCONSISTENTE

Em sua tentativa de unificar coisas diferentes, a teologia pactual pedobatista


deixa de ser coesa. A teologia pactual pedobatista se orgulha de ser uma
abordagem unificada e sistemática das Escrituras. No entanto, como veremos
neste capítulo, a teologia pactual pedobatista não é um sistema consistente de
pensamento.
Existem algumas inconsistências importantes e insolúveis no sistema.
Primeiramente, a teologia pactual pedobatista enfraquece o seu próprio
fundamento, destruindo o próprio pacto que busca promover. Ao buscar
unificar a Antiga e Nova Alianças, o Pacto da Graça deixa de ser
incondicional. A graça deixa de ser graça (incondicional e eficaz) para pelo
menos alguns dos membros do pacto. Em resumo, a teologia pactual
pedobatista interpreta de forma errada o Pacto da Graça.
Agarrando-se ao motivo de que a Antiga e a Nova Alianças são
essencialmente as mesmas, os teólogos pactuais pedobatistas veem a Nova
Aliança através das lentes da natureza condicional da Antiga Aliança. Por
consequência, uma vez que a Antiga Aliança incluía os não eleitos e
condições claras, isso deve significar que a Nova Aliança também contém
essas coisas. Se a Nova é essencialmente a mesma que a Antiga, então as
condições e os quebradores da aliança devem ser artificialmente impostos à
Nova Aliança.
Este é o maior dilema para os pedobatistas pactuais. Como eles fazem o
Pacto da Graça parecer um pacto de obras, ou vice-versa? Para lidar com esse
dilema (condições e quebradores da aliança na Antiga Aliança), vários
aliancistas têm proposto várias soluções. Existem quase tantas soluções
propostas quanto proponentes individuais da teologia pactual pedobatista. Já
no século XVII, Anthony Burges confessou: “Eu não em nenhum ponto da
teologia homens instruídos tão confusos e perplexos (ficando como o
cordeiro de Abraão, presos em um arbusto de espinhos pela cabeça) como
aqui”.[172] Então, parece que o cordeiro de Abraão apenas ficou mais
emaranhado.
Embora muitos afirmem que o Pacto da Graça é monopleural
(incondicional), outros afirmam que é dipleural (condicional). Essas
condições variam muito entre os vários proponentes da teologia pactual
pedobatista. Alguns dizem que as condições incluem fé e arrependimento,
enquanto outros dizem que as condições também incluem obediência à lei. A
mesma obediência exigida na Antiga Aliança é exigida na Nova Aliança, mas
permanece um pacto de graça porque Deus oferece a graça necessária para
que os participantes satisfaçam essas condições. Ainda assim, outros dizem
que os membros da aliança são obrigados a guardar as condições do Pacto da
Graça.
Por que eles são incapazes de concordar uns com os outros e sustentar
uma solução unificada? Porque não é fácil fazer um pacto de graça incluir
condições que alguns membros do pacto são incapazes de cumprir. Um pacto
condicional e frágil não soa como um pacto de graça. Se eles apenas
mantivessem o pacto mosaico e a Nova Aliança separados, o problema seria
resolvido, mas eles não poderiam fazê-lo sem destruir o princípio
hermenêutico que guia a sua compreensão das Escrituras. Ao abrir espaço
para o batismo infantil, eles também devem abrir espaço para as condições e
para os quebradores do pacto na Nova Aliança.
Vamos examinar essas duas coisas mais de perto. O foco dos dois
capítulos seguintes está na dificuldade de impor condições ao Pacto da Graça.
Como o Pacto da Graça pode ser condicional? Não é fácil para os
pedobatistas pactuais responderem a isso — o que é evidenciado pela
incapacidade deles de chegarem a um acordo unificado.
O Pacto da Graça é Incondicional
Alguns afirmam que o Pacto da Graça é incondicional. Os pedobatistas
pactuais que fazem tal afirmação incluem homens como John Saltmarsh,
Tobias Crisp, Herman Witsius e Herman Bavinck. Herman Witsius, por
exemplo, declarou: “De nossa parte, concordamos com aqueles que pensam
que o Pacto da Graça, para falar com exatidão, com relação a nós, não tem
condições propriamente ditas”. Ele prosseguiu explicando por quê:
Uma condição de um pacto, propriamente dita, é aquela ação que,
sendo executada, dá ao homem o direito à recompensa. Mas que tal
condição não pode ser exigida de nós no Pacto da Graça é auto-
evidente; porque o direito à vida não é, nem de fato pode estar,
fundamentado em qualquer ação nossa, mas somente na justiça de
nosso Senhor; quem, tendo cumprido perfeitamente a justiça da lei para
nós, nada pode, em justiça, ser exigido de nós realizarmos a fim de
adquirirmos um direito já totalmente adquirido para nós.[173]
Além disso,
Pois o que quer que possa ser concebido como uma condição, também
está incluído na universalidade da promessa. Se Deus apenas prometer
a vida eterna, pode haver alguma pretensão de dizer que o
arrependimento, a fé e coisas semelhantes são as condições do pacto.
Mas, considerando que Deus ao mesmo tempo ratifica tanto o começo,
o progresso, a continuidade ininterrupta e, em uma palavra, a
consumação da nova vida, nada permanece nesta universalidade da
promessa que possa ser visto como uma condição de todo o pacto.[174]
Eu concordo plenamente com Witsius — o Pacto da Graça deve ser
incondicional para ser um pacto de graça. Entretanto, vendo que o pacto
mosaico era condicional, como pode Witsius afirmar que ele também era uma
manifestação do Pacto da Graça? Essa é uma enorme inconsistência.
Como Witsius lidou com esse problema? Ele fez algo muito incomum.
Ele colocou a Antiga Aliança nesta mesma categoria. Referindo-se ao pacto
mosaico, ele disse: “Se alguém me perguntar de que tipo, se é de obra ou de
graça? Vou responder, formalmente nem de um nem de outro; mas um pacto
de piedade sincera, que supõe ambos”.[175]
O que Witsius quis dizer com isso? Ele quis dizer que o pacto mosaico
não era formalmente um pacto de obras nem um pacto de graça, mas continha
aspectos de mérito e graça. Em outras palavras, o pacto mosaico não se
encaixa oficialmente em nenhum dos pactos. Embora não fosse nem um
pacto de graça nem um pacto de obras, continha certas características de cada
um destes. Ele representava o Pacto de Obras na medida em que “no
ministério de Moisés havia uma repetição da doutrina concernente à lei do
Pacto de Obras”.[176] E também descrevia certos aspectos do Pacto da Graça:
“Ali, de modo semelhante, junto à entrega da lei houve a repetição de
algumas coisas pertencentes ao Pacto da Graça”.[177] De que maneira? Witsius
afirmou que era gracioso porque era um pacto de amizade entre Deus e os
pecadores. No entanto, embora houvesse aspectos tanto de um pacto de obras
quanto de um pacto de graça no pacto mosaico, formal ou tecnicamente, ele
não era nenhum dos dois. Como Witsius explicou:
O que era, então? Um pacto nacional entre Deus e Israel, pelo qual
Israel prometeu a Deus uma obediência sincera a todos os Seus
preceitos, especialmente aos Dez Mandamentos; Deus, por outro lado,
prometeu a Israel que tal observância seria aceitável para ele e não
ficaria sem recompensa, tanto nesta vida quanto na vindoura, quanto à
alma e ao corpo. Essa promessa recíproca supunha um pacto de graça.
Pois, sem a assistência do Pacto da Graça, o homem não pode
sinceramente prometer essa observância; outrossim, que uma
observância imperfeita seja aceitável a Deus é totalmente devido ao
Pacto da Graça. Supunha também que a doutrina do Pacto de Obras,
cujo terror era aumentado por aqueles tremendos sinais que a
acompanhavam, deveriam motivar a aceitação daquele pacto de Deus.
Este concerto, portanto, é um consequente tanto do Pacto da Graça
como do de Obras; mas formalmente não era nem um nem outro.[178]
Desta forma, Witsius afirmou que a Antiga Aliança não era
oficialmente um pacto de obras nem um pacto de graça. Ele parecia
compreender o principal problema da teologia pactual pedobatista. Ele não
podia oficialmente chamar o pacto mosaico de Pacto de Obras sem
comprometer a integridade da teologia pactual pedobatista. A unidade dos
pactos seria severamente prejudicada. Por outro lado, devido à natureza
condicional do pacto mosaico, ele não estava inteiramente disposto a chamá-
lo de Pacto da Graça. Como observado anteriormente, ele cria que o Pacto da
Graça é incondicional.
Devido às condições da Antiga Aliança, é fácil entender por que ele
não queria oficialmente chamá-la de Pacto da Graça. No entanto, quais foram
as razões dele para distingui-lo formalmente do Pacto de Obras? Com todas
as suas condições, como era possível que ele não o chamasse de Pacto de
Obras?
Segundo Witsius, a Antiga Aliança não era um Pacto de Obras, porque
é impossível renovar o Pacto das Obras com os pecadores por duas razões.
Primeiro, é impossível que os pecadores cumpram uma justiça perfeita.
Então, por que estabelecer um pacto que está fadado ao fracasso antes mesmo
de começar? Segundo, por causa do primeiro motivo, ele afirmou que “Deus
não exigiu uma obediência perfeita de Israel, como uma condição do pacto,
como motivo para reivindicar uma recompensa; mas obediência sincera,
como evidência de reverência e gratidão”.[179] Nesse sentido, é um tipo de
pacto gracioso que requer apenas obediência parcial. Por essas duas razões,
Witsius negou que a Antiga Aliança fosse oficialmente um pacto de obras.
Ela se assemelhava ao Pacto da Graça, porque não exigia obediência
perfeita e oferecia graça para ajudar no desempenho; mas, por ainda conter
exigências ou condições, também se assemelhava ao Pacto de Obras.
Contudo, na realidade, não era nem um nem outro.
Em primeiro lugar, Witsius se contradiz. Anteriormente, na mesma
obra, ele afirmou que o Pacto de Obras não foi revogado após a queda de
Adão; simplesmente pelo fato de que o homem é moralmente incapaz de
cumprir as suas exigências não significa que ele não esteja mais sob suas
exigências e maldições.[180] “Desde então, essas três coisas, a lei, a promessa
e as ameaças, as quais constituem toda a natureza do pacto [de obras], como
proposto por Deus, permanecem firmes; pode-se concluir que o homem
realmente quebrou o pacto, mas nenhuma anulação do pacto é feita da parte
de Deus”.[181] O arminianismo afirma que Deus não pode exigir aquilo que o
homem não pode realizar. Afirmar que Deus não poderia exigir perfeita
obediência dos pecadores é uma contradição ao que ele mesmo afirmou de
modo claro anteriormente.
Em segundo lugar, Witsius também afirmou que Deus deu a lei no
Monte Sinai para mostrar a Israel a sua incapacidade moral e apontá-los para
Cristo. Ou, como ele afirmou: “Para mostrar a natureza da lei, a qual, ao
exigir obediência perfeita e pelo acréscimo de terríveis ameaças, atinge
maravilhosamente o coração dos pecadores, e, sem qualquer mistura da graça
do Evangelho, leva ao desespero, e é para eles o ministério da morte e da
condenação”.[182] Por outro lado, se o pacto mosaico, como ele disse, “não
exigia obediência perfeita de Israel”, mas apenas uma “obediência sincera,
como evidência de reverência e gratidão”, então essa condição é uma obra
humana que Israel poderia realizar. Como isso é contraditório? Em vez de a
lei mostrar a Israel a sua incapacidade moral, encoraja-os a confiar em si
mesmos. Isso é exatamente o oposto do que a lei foi intencionada a fazer.
Em terceiro lugar, Witsius confundiu lei e graça colocando a Antiga
Aliança em uma categoria própria. Em vez de ser um pacto de graça ou um
pacto de obras, torna-se uma mistura dos dois (nomismo pactual). Isso, no
entanto, é impossível. Ou seja, é impossível estar, ao mesmo tempo, em
ambos os grupos de pessoas.
Um pacto ou é um pacto de graça ou de obras, mas não pode ser ambos.
É impossível que qualquer pacto exija apenas obediência parcial, mesmo com
o auxílio da graça. Acrescentar esforço humano transforma o pacto em um
pacto de obras. Eu concordo com G.H. Kersten quando declarou: “Um pacto
de graça condicional não é um pacto de graça”.[183] Antes, como Kersten
continuou dizendo: “Um pacto de graça condicional é na verdade um Pacto
de Obras”.[184]
Adicionar a menor estipulação perverte o Pacto da Graça. Como Paulo
explica: “E de novo protesto a todo o homem, que se deixa circuncidar, que
está obrigado a guardar toda a lei” (Gálatas 5:3). John Brown fez um
excelente trabalho elucidando isso:
Sempre que um homem tira o fundamento de sua esperança em
qualquer grau da obra consumada de Jesus Cristo — sempre que ele
depende de qualquer coisa que tenha feito, ou deve fazer — ele se abre
para uma reivindicação de completa obediência e satisfação à lei, pela
obediência a essa lei, obediência pela qual ele está buscando a
justificação. Depender de obras é absurdo, a menos que tenhamos
obras perfeitas. Devemos escolher entre os dois princípios: justificação
pela fé ou justificação por obras — justificação como um dom gratuito
ou justificação como recompensa merecida. Não há combinação destes
dois princípios.[185]
Consequentemente, ou a salvação é pela graça ou pelas obras; não pode
ser uma mistura dos dois. “Mas se é por graça, já não é pelas obras; de outra
maneira, a graça já não é graça” (Romanos 11:6).
Ao colocar o pacto mosaico em sua própria categoria separada, Witsius
não apenas se contradisse, mas ele finalmente fez da Antiga Aliança um
pacto de obras. Enquanto um pacto contiver condições, mesmo que seja a
obediência auxiliada pela graça, é um pacto de obras. O menor esforço
humano acrescentado à equação destrói a doutrina da graça gratuita e
imerecida. Witsius, embora tenha tentado, não conseguiu contornar essa
conclusão.
A Fé é a Condição do Pacto da Graça
No entanto, não são muitos os aliancistas que defendem a posição de
Witsius. Antes, um grande número deles tenta resolver o problema
transformando a fé na condição do Pacto da Graça.[186] Robert Rollock, por
exemplo, afirmou:
O próprio nome do Pacto da Graça pode parecer não requerer nenhuma
condição, pois é chamado de pacto gratuito, porque Deus livremente e,
como pode parecer, sem qualquer condição, promete aqui justiça e
vida… Mas nós devemos entender que a graça aqui, ou a expressão
“livremente”, não exclui qualquer condição, mas somente aquela que
está no Pacto de Obras, que é a condição da força da natureza, e de
obras naturalmente justas e boas… que não podem de modo algum
coexistir com a livre graça de Deus em Cristo Jesus.[187]
Qual é a condição do Pacto da Graça? Rollock respondeu:
Considerando que Deus oferece a justiça e a vida sob a condição da fé,
contudo ele não enfatiza a fé em nós, que é também o seu próprio dom,
tanto quanto ele enfatiza o objeto da fé, que é pela fé… Portanto, a
condição do Pacto da Graça não é a fé somente, nem o objeto da fé
somente, que é Cristo, mas a fé em Cristo, ou seja, a fé que deve
apossar-se de Cristo.[188]
Ao alegar que a fé é a condição, Rollock claramente manteve as obras e
a obediência separadas da fé.
Outro teólogo pactual que vê a fé como a condição do Pacto da Graça é
Mark Horne. Referindo-se a Colossenses 1:23, onde se lê: “Se, na verdade,
permanecerdes fundados e firmes na fé, e não vos moverdes da esperança do
evangelho que tendes ouvido”, Mark Horne afirma: “Aqui temos a declaração
mais clara possível de que a Nova Aliança é uma aliança condicional”.[189]
Se falamos sobre a fé salvífica que foi merecida pela morte de Cristo
(Efésios 1:20) e dada a nós pelo Espírito Santo como o meio instrumental da
salvação (Efésios 2: 8), então pode ser aceitável chamar a fé de a condição do
Pacto da Graça. Eu concordo com Robert Rollock. Não a circuncisão, não o
batismo, não as obras, não a fé mais as obras, porém a fé e a fé somente é o
meio instrumental da salvação (Gálatas 2:16). Se a fé é uma condição, é a
única condição que não contradiz a livre graça de Deus. A fé afasta a visão de
si mesma e confia na perfeita justiça de Cristo para a salvação. Nisto, a
salvação é pela graça por meio da fé.
O problema, no entanto, é que a condição da Antiga Aliança não era a
fé somente. Como pode o Sola Fide ser unido às palavras de Moisés, “faça e
viva”?
É aqui que Robert Rollock e Mark Horne cometem erros. Ao tentar ver
a Antiga Aliança como um pacto de graça, eles transformam a fé na condição
exclusiva do pacto mosaico. Eles percebem que o pacto mosaico não poderia
ter sido baseado no mérito/obras, e permanecer sendo uma manifestação do
Pacto da Graça. Portanto, quando o pacto mosaico diz: “Se obedecerdes,
então sereis meu povo”, isso deve ser entendido como: “Se perseverardes na
fé, então sereis meu povo”. Toda condição baseada na lei do pacto mosaico
deve ser reinterpretada para significar fé perseverante. Dessa forma, eles
mudam e trocam a condição do pacto mosaico das obras para a fé. Por
exemplo, Mark Horne faz essa troca sem nenhuma hesitação:
Mas o pacto está condicionado à perseverança na fé: “Se, pois, a
incircuncisão guardar os preceitos da lei, porventura a incircuncisão
não será reputada como circuncisão?” (Romanos 2:26). Assim,
somente aqueles verdadeiramente regenerados pelo Espírito, que são
fiéis até o fim, mostram ser os verdadeiros israelitas.[190]
No entanto, sabemos que a circuncisão foi uma estipulação necessária e
imposta a todo o Israel no Antigo Testamento. “E o homem incircunciso, cuja
carne do prepúcio não estiver circuncidada, aquela alma será extirpada do seu
povo; quebrou a minha aliança” (Gênesis 17:14). Também sabemos que a
circuncisão é uma obra. O livro de Gálatas torna isso extremamente claro.
Além disso, a circuncisão não era a única obra exigida de Israel. “Se, pois, a
incircuncisão guardar os preceitos da lei, porventura a incircuncisão não será
reputada como circuncisão?” (Romanos 2:26). A condição da Antiga Aliança
era completa obediência: “Maldito aquele que não confirmar as palavras
desta lei” (Deuteronômio 27:26). Portanto, como Mark Horne pode
interpretar a condição da Antiga Aliança como Sola Fide? É impossível. No
entanto, isso é exatamente o que ele faz em sua tentativa de unificar a Antiga
e a Nova Alianças.
Se a fé é a única condição do Pacto da Graça, então a Antiga Aliança,
porque exigia mais do que apenas fé, não pode ser um pacto de graça.
O Pacto da Graça é Tanto Condicional Como Incondicional
A posição que está mais próxima da posição de um batista pactual é a
defendida por Charles Hodge, Meredith Kline e um influxo recente de vários
estudiosos contemporâneos (por exemplo, J.V. Fesko, Bryan D. Estelle e
S.M. Daugh). Essa posição afirma que as condições devem ser aplicadas
exclusivamente à administração sinaítica do Pacto da Graça, e não à
administração da Nova Aliança.
Segundo Hodge, a Antiga Aliança era um pacto de graça em sua
natureza essencial, mas continha uma republicação do Pacto de Obras como
uma administração legal. Nesse sentido, a Antiga Aliança é tanto um pacto de
graça como de obras. Como Hodge o expressou: “A economia mosaica foi
projetada para cumprir diferentes objetivos e, portanto, é apresentada nas
Escrituras sob diferentes aspectos. Logo, o que é verdadeiro sob um aspecto
não é verdadeiro sob outro”.[191] O resultado da hipótese de Hodge é
significativo, porque “ele tanto matava ou dava vida, de acordo com a luz em
que era visto”.[192] Quanto às condições da Antiga Aliança, Hodge disse:
A lei de Moisés foi, em primeiro lugar, uma reencenação do Pacto de
Obras. Um pacto é simplesmente uma promessa dependente de uma
condição. O Pacto de Obras, portanto, nada mais é do que a promessa
de vida dependente da condição de perfeita obediência.[193]
Concernente à Antiga Aliança ser um pacto de graça, Hodge supôs:
Como o Evangelho contém uma nova revelação da lei, a lei de Moisés
continha uma revelação do Evangelho. Apresentava em seu sacerdócio
e sacrifícios, como tipos do ofício e obra de Cristo, o método gratuito
de salvação através de um Redentor. Isso supõe necessariamente que a
fé, e não as obras, é a condição da salvação”.[194]
Deve ser ressaltado aqui que Hodge vê a Antiga Aliança como um
Pacto de Obras e um Pacto da Graça dependendo das perspectivas:
Quando, portanto, o apóstolo falou da Antiga Aliança sob seu aspecto
legal, e especialmente quando fala àqueles que rejeitaram o Evangelho
e se apegaram à lei de Moisés como lei, então ele diz que mata, ou é o
ministério de condenação. Mas quando o vê, e especialmente quando
fala daqueles que o veem como estabelecendo a grande doutrina da
redenção através do sangue de Cristo, ele o representa como ensinando
sua própria doutrina [como um Pacto de Graça].[195]
Em outras palavras, o pacto mosaico foi uma administração legal do
Pacto da Graça. A republicação do Pacto de Obras no Monte Sinai mostrou a
incapacidade moral do homem de obter a vida pela lei e, portanto, a
necessidade de um Redentor. De acordo com Hodge, a Antiga Aliança era,
em sua administração, um pacto de obras que prometia vida sob a condição
de obediência, mas em sua natureza fundamental permanecia um pacto de
graça porque continha o Evangelho apontando os pecadores para Cristo. Por
esse meio, Hodge abre espaço para condições dentro da Antiga Aliança,
enquanto as remove da Nova.
O conhecimento recente da teologia pactual “pegou a capa” de Hodge e
trouxe nova perspectiva em relação à natureza condicional do pacto mosaico.
Por exemplo, Meredith Kline, Michael Horton e Kim Riddlebarger afirmam
que a Antiga Aliança foi uma republicação do Pacto de Obras. Além disso,
uma obra recente, The Law is Not Faith [A Lei não é Fé], trouxe uma
perspectiva adicional às condições do pacto mosaico.[196]
Embora os colaboradores desse livro, The Law is Not Faith, difiram um
pouco em sua compreensão do pacto mosaico, todos eles concordam que ele,
de alguma forma ou modo, é uma republicação do Pacto de Obras. A obra
deles identifica essa interpretação como “a doutrina da republicação”. Em
suma, essa doutrina sugere que o pacto mosaico reeditou as exigências da lei
como um pacto de obras a fim de levar pecadores a Cristo. No entanto,
porque os sacrifícios de animais, em última análise, apontavam para Cristo,
permanecia uma parte do Pacto da Graça. “De maneira sucinta”, segundo os
editores, “a forma do pacto mosaico era o Pacto de Obras, mas a sua
substância era o Pacto da Graça”.[197] Buscando apoio da Confissão de Fé de
Westminster, a introdução desse livro expande as suas reivindicações:
Os sacerdotes viram que a lei dada a Adão era uma parte daquilo que
foi dado a Israel no Sinai. Em outras palavras, em algum sentido, o
Pacto de Obras foi republicado no Sinai. Não foi republicado, no
entanto, como o Pacto de Obras em si, mas como parte do Pacto da
Graça, que apontava para a pessoa e obra de Cristo.[198]
Além disso, Byron Curtis afirma:
A tese da republicação reconhece que, em seu contexto bíblico maior,
o pacto mosaico é a administração mais antiga do Pacto da Graça; mas,
em relação à questão de como Israel reterá a posse da Terra Prometida,
a tese da republicação afirma que ele funcionou como um pacto de
obras.[199]
Outro colaborador de The Law is Not Faith, S.M. Baugh concorda:
Eu certamente concordo que o pacto mosaico mais amplamente
considerado além de suas estipulações tipológicas era um pacto de
graça, particularmente em seu status sacerdotal e sacrificial… Mas,
quando falamos de uma republicação do Pacto de Obras na lei
mosaica… estamos falando mais estritamente sobre o pacto mosaico.
[200]

Felizmente o pacto mosaico está sendo reexaminado por pedobatistas


pactuais. Ressaltar a descontinuidade entre a Antiga e a Nova Alianças é um
passo na direção certa.
O problema, no entanto, é que essa posição ainda está longe de
responder ao dilema de um Pacto da Graça condicional. Embora essa posição
sustente que a Antiga Aliança era um pacto de obras em sua forma exterior,
ainda ensina que ela permanecia uma administração do Pacto da Graça em
sua essência. Contudo, se o pacto mosaico fazia parte do Pacto da Graça (na
forma ou em essência), como isso corresponde ao fato de que Israel como um
todo e os israelitas como indivíduos eram incapazes de cumprir as condições
do pacto? A maldição pactual não foi a simples expulsão da Terra Prometida,
mas a morte eterna (Levítico 18:5). Bryan Estelle, um colaborador de The
Law is Not Faith, faz um grande esforço para provar este ponto. Ele declara:
“O Targum entende que a recompensa é a vida eterna, não apenas a bênção
temporal”.[201] A questão é que aqueles sob a lei de Moisés morreram em seus
pecados. O fim do pacto mosaico foi juízo e condenação, não graça e perdão.
O pacto matou os seus membros. Como pode ser dito que ele, em essência, é
um pacto de graça?
Além disso, o sacerdócio de Israel e os sacrifícios de animais em si e
por si mesmos foram incapazes de salvar as almas deles. Esses sacrifícios
tipológicos apontavam para Cristo, mas como essas lições pedagógicas
equivaliam a pertencer ao Pacto da Graça? Ver animais sacrificados não
colocava os israelitas no Pacto da Graça mais do que ouvir o Evangelho
coloca pecadores na Nova Aliança. Aqueles que defendem essa posição ainda
precisam explicar como estar sob o pacto mosaico equivalia a pertencer ao
Pacto da Graça. Os poucos entre Israel que foram salvos por Deus
alcançaram a salvação olhando para trás em fé para o Evangelho dado a
Abraão e olhando para a frente em fé no Messias prometido. Somente pela fé
e pelo nascimento sobrenatural eles foram capazes de entrar no Pacto da
Graça. No entanto, nem o nascimento natural na comunidade israelita nem o
pacto mosaico simplesmente sendo declarado a eles conduziram alguém à
graça salvífica. O pacto mosaico estabelecia a morte, não a vida a todos os
seus membros. Portanto, a Antiga Aliança não poderia ter sido um pacto de
graça em sua essência ou forma.
A posição da republicação, então, estende a membresia do Pacto da
Graça a todos aqueles sob a lei que simplesmente ouviram o Evangelho.
Porém, na realidade, o Pacto da Graça é restrito apenas àqueles que
individualmente recebem o Evangelho. Aqueles que são a favor da teoria da
republicação ignoram o fato de que o Pacto da Graça é um pacto entre um
Deus soberano e somente aqueles que foram salvos por Sua graça soberana.
Em contraste, aqueles que estão sob o pacto mosaico podem ter visto o
Evangelho nas cerimônias levíticas, mas isso não equivalia à sua salvação.
Assim, é uma conclusão falha afirmar que a Antiga Aliança era um pacto de
graça simplesmente porque apontava para Cristo através dos seus sacrifícios
de animais.
O Pacto da Graça tem Termos de Incondicionalidade
Ray Sutton, outro pedobatista, tenta resolver essa inconsistência de
outro modo. Como? Alegando que, embora o Pacto da Graça seja
incondicional, maldições e apóstatas ainda são realidades no Pacto. Para
Sutton, a Nova Aliança contém as mesmas maldições que a Antiga Aliança, e
essas maldições não são hipotéticas. Os membros infiéis da Nova Aliança
caem sob a ira de Deus da mesma maneira que os israelitas descrentes caíram
na Antiga Aliança.
Contudo, se isso for verdade, como o Pacto da Graça permanece
incondicional? Sutton responde a isso afirmando que existem “termos de
incondicionalidade”. Por exemplo, Sutton afirma: “Isso não significa que as
pessoas no pacto não possam apostatar. Entramos em um pacto
incondicional, mas existem termos de incondicionalidade”.[202] Em outras
palavras, embora o pacto seja incondicional, não significa que não haja
obrigações a serem cumpridas, nem significa que essas obrigações serão
seguramente cumpridas por todos os membros do pacto. Quebrar o pacto
incondicional é uma possibilidade real. Assim, Sutton tenta explicar como o
Pacto da Graça pode ser incondicional e quebrável ao mesmo tempo.
No entanto, se o pacto é incondicional, como pode haver termos de
incondicionalidade? O que, afinal, significa termos de incondicionalidade?
Isso não é apenas mais uma maneira de falar condições de
incondicionalidade? Por exemplo, se esses termos devem ser cumpridos
pelos membros do pacto em seu próprio poder — o que deve ser o caso, uma
vez que alguns membros do pacto apostatam — então os chamados termos de
incondicionalidade não são nada menos do que condições. Se a graça não
anula toda a infidelidade e o fracasso, o pacto já não permanece um pacto de
graça. Sutton afirma que o pacto era incondicional, mas acaba restabelecendo
as condições para abrir espaço para os quebradores da aliança. Ele afirma que
o pacto é incondicional, mas realmente não tem esse significado. Isso não é
apenas inconsistente, mas também é autorrefutável.
A explicação de Sutton parece ingênua, mas não podemos deixar de
sentir muito por ele. É extremamente difícil fazer com que a Antiga e a Nova
Alianças pareçam ser uma e a mesma. Como a Antiga Aliança continha
condições, os pedobatistas pactuais devem encontrar um meio de abrir espaço
para condições na Nova Aliança. Isso não pode ser algo fácil.[203]
Conclusão
Porque a Antiga Aliança estava baseada na lei e a Nova Aliança na
graça, uma unificação consistente dessas alianças é biblicamente impossível.
Neste capítulo, observamos quatro tentativas fracassadas de fazer exatamente
isso. Como a teologia pactual pedobatista não consegue reconciliar as
condições da Antiga Aliança com a graça da Nova Aliança, ela deixa de ser
coesa. O sistema não consegue se sustentar.
No próximo capítulo, veremos mais duas tentativas de unificar a Antiga
e a Nova Alianças. Contudo, em vez de nos concentrarmos na inconsistência
da teologia pactual pedobatista, começaremos a ver para onde a consistência
conduz.
8
REDUCTIO AD ABSURDUM

Aonde a teologia pactual pedobatista conduz quando suas pressuposições são


trabalhadas até suas conclusões naturais? Neste capítulo, olhamos para este
caminho perigoso para mostrar que uma síntese completa da Antiga e Nova
Alianças se torna um completo absurdo (reductio ad absurdum).
Felizmente, no entanto, a maioria dos pedobatistas pactuais é
inconsistente consigo mesmos. No último capítulo, vimos sua inconsistência.
Vimos como é difícil para os teólogos pactuais pedobatistas implementarem
as condições no Pacto da Graça.
Neste capítulo, queremos permanecer sobre o mesmo assunto (o
problema das condições dentro do Pacto da Graça) e examinar mais duas
tentativas de conciliar a Antiga e a Nova Alianças. No entanto, em vez de
focar principalmente na inconsistência da teologia pactual pedobatista, nós
queremos olhar para onde esta consistência desenvolvida conduz.
Essas duas próximas tentativas são mais consistentes em suas
unificações da Antiga e da Nova Alianças. O problema, entretanto, é que sua
consistência leva a teologia pactual a um caminho perigoso e não ortodoxo.
O Pacto da Graça Requer Fidelidade Recíproca
John Murray levou a teologia pactual pedobatista um passo mais perto
da consistência (embora eu não tenha certeza se ele estava plenamente
consciente do perigo que estava por vir).
As condições da Antiga Aliança são claramente um problema na
teologia pactual pedobatista. O que fazer com elas não é fácil para o
pedobatista pactual decidir. Como Murray reconciliou tais condições com o
Pacto da Graça? De acordo com Murray, “Quanto mais aprimorada nossa
concepção de graça soberana for admitida, mais somos obrigados a postular
fidelidade recíproca por parte do receptor”.[204] Isto é, quanto mais graciosa a
aliança, mais fidelidade recíproca é requerida.
O que ele quis dizer com fidelidade recíproca? Ele explicou: “As
exigências de apreciação e gratidão aumentam com o comprimento, a
largura, a profundidade e a altura do favor concedido. E tais demandas
assumem uma forma prática concreta na obrigação de obedecer aos
mandamentos de Deus”.[205] Em outras palavras, a fidelidade recíproca inclui
a obediência aos mandamentos de Deus. Para Murray, no entanto,
“obediência aos mandamentos de Deus” é perfeitamente consistente com o
Pacto da Graça. “A necessidade de manter o pacto por parte dos homens não
interfere no monergismo divino da dispensação. A necessidade de manter é
apenas a expressão da magnitude da graça concedida e da espiritualidade da
relação constituída”.[206]
Se Murray quis dizer que a obediência aos mandamentos de Deus é um
subproduto da gratidão e agradecimento do cristão, então isso não parece tão
perturbador. Embora a salvação não seja por obras, não é algo destituído de
obras. No entanto, é isso que Murray quis dizer? A fidelidade recíproca é
exigida como condição do pacto, ou é meramente uma resposta de “apreço e
gratidão”? A obediência é o subproduto da graça ou a condição da graça?
Em certo sentido, Murray não estava disposto a chamar a fidelidade
recíproca de uma condição do Pacto da Graça.
Não é muito congruente, contudo, falar dessas condições como
condições do pacto. Pois quando falamos assim somos claramente
passíveis de ser entendidos como implicando que o pacto não deve ser
considerado como dispensado até que as condições sejam cumpridas e
que as condições sejam parte integrante do estabelecimento da relação
pactual. E isso não forneceria uma explicação verdadeira ou precisa do
pacto. O pacto é uma dispensação soberana da graça de Deus. É graça
concedida e uma relação estabelecida. A graça dispensada e a relação
estabelecida não esperam o cumprimento de certas condições por parte
daqueles a quem a graça é dispensada. A graça é concedida e a relação
estabelecida pela soberana administração divina.[207]
Em outras palavras, a fidelidade recíproca não é a condição para entrar
no Pacto da Graça. Os participantes receberam sua participação apenas pela
graça soberana.
Por outro lado, Murray também não estava disposto a dizer que o Pacto
da Graça é incondicional. “Como, então”, perguntou Murray, “devemos
interpretar as condições de que falamos?”. Sua resposta é bastante
surpreendente: “O gozo continuado desta graça e a relação estabelecida
dependem do cumprimento de certas condições”.[208] Isso significa que o
Pacto da Graça é celebrado pela graça, mas mantido pelas obras (fidelidade
recíproca). Murray prosseguiu dizendo: “À parte do cumprimento dessas
condições, a graça concedida e a relação estabelecida são sem significado”.
Ele concluiu: “Ao quebrar o pacto, o que está quebrado não é a condição de
concessão de favor, mas a condição de fruição consumada”.
Portanto, a fidelidade recíproca não é meramente uma resposta de um
coração agradecido, mas uma condição necessária que deve ser cumprida
para permanecer em boa posição pactual para com Deus. Essencialmente, é
assim que Murray inseriu as condições no Pacto da Graça. O Pacto da Graça
é celebrado pela graça, mas mantido pela fidelidade recíproca.
Isso é o que chamamos de nomismo pactual.[209] Um pacto nomista é
aquele em que alguém entra pela graça, mas que deve permanecer por graça
mais obras. Este método, no entanto, apenas parcialmente resolve o
problema. Faz entrar no pacto monergístico (tudo pela graça — independente
da cooperação humana), mas faz com que a permanência no pacto seja
sinergística (cooperação divina/humana).
Murray disse: “Quanto mais aprimorada nossa concepção de graça
soberana for admitida, mais somos obrigados a postular fidelidade recíproca
por parte do receptor”. Quanto mais graciosa a aliança, mais condicional ela
se torna? Isso não parece um pacto de graça. É impossível para um pacto de
graça (se é ele de pura graça) exigir obediência condicional para obter graça
ou permanecer na graça. Se assim for, a graça deixaria de ser graça. Ou o
Pacto da Graça é um pacto de graça inteiramente ou é um pacto de obras. Se
a graça, por si só, não nos introduz e nos mantém, então o pacto deixa de ser
um pacto de graça. Uma vez que o esforço humano é adicionado à graça, ele
a destrói completamente.
Felizmente, Murray não aplicou seu entendimento dos pactos de forma
consistente à sua doutrina soteriológica. A justificação (por exemplo, uma
posição pactual segura e favorável para com Deus) é obtida e mantida apenas
pela graça soberana.
No entanto, esse é o problema com a solução de Murray. Em última
análise, ela destrói a doutrina da justificação, quando é aplicada de forma
consistente. Isso é evidente por aqueles que o seguiram. Murray não estava
disposto a levar a sua conclusão até o seu fim lógico. Aqueles que vieram
depois dele, no entanto, não eram tão hesitantes. Eles viajaram com
entusiasmo e consistência por esse caminho e acabaram abandonando a
ortodoxia de Murray.
O Pacto da Graça Requer Fidelidade Pactual
Esses homens são parte de um movimento conhecido como Visão
Federal. A Visão Federal procura resolver o problema das condições
unificando consistentemente a Antiga e a Nova Alianças. Tradicionalmente,
as condições da Antiga Aliança têm sido um problema teológico para os
pedobatistas pactuais. A dificuldade com as condições é que elas não
correspondem à graça de Deus na salvação. A Visão Federal, por outro lado,
nega que isso seja um problema. Segundo a Visão Federal, as condições não
são contrárias à graça de Deus. Os defensores da Visão Federal não apenas
admitem que o pacto mosaico era condicional, eles também afirmam que a
salvação é condicional. Com base no pressuposto central da teologia pactual
pedobatista (de que a Antiga e a Nova Alianças são essencialmente uma e a
mesma), elas permanecem consistentes e afirmam que as condições da lei
mosaica e a graça gratuita oferecida no Evangelho são essencialmente as
mesmas também.
Em vez de romper com o sistema, o que exigiria reconsiderar os
fundamentos do batismo infantil, a Visão Federal mergulha mais fundo em
sua tentativa de ser coesa. No entanto, eles o fazem à custa da doutrina da
graça e da justificação gratuitas somente pela fé. No final, a obediência fiel
ao pacto é aquela que, em última análise, mantém a salvação.
A Unificação da Lei e o Evangelho
Norman Shepherd foi um dos primeiros teólogos pactuais a percorrer
este caminho perigoso. Foi professor no Seminário de Westminster
(Filadélfia) e ministro da Igreja Presbiteriana Ortodoxa em meados da década
de 1970, quando surgiu uma controvérsia em relação a seus ensinamentos
sobre fé e justificação. Ao unificar Moisés com Cristo, o pastor combinou a
fé com a obediência. Em vez de fé olhando e confiando inteiramente na obra
consumada de Cristo, ela, através da graça, olha para Cristo, obedecendo a
Deus e permanecendo fiel às obrigações da aliança.[210]
Seguindo o exemplo de Shepherd, Steve Schlissel afirma que a teologia
pactual tem sido tradicionalmente dispensacionalista e batista. De acordo com
Guy Waters, Schlissel sente que os teólogos pactuais do passado
… Inconscientemente seguiram a bifurcação de Lutero em relação ao
Antigo e ao Novo Testamentos. Ao fazê-lo, os reformados haviam
negligenciado o gênio de sua principal percepção bíblica: o pacto.
Schlissel perguntou, então: “O que há de novo no Novo Testamento?
Graça? NÃO. Fé? NÃO. Cristo? Não. A novidade do Novo
Testamento é que gentios são incorporados a Israel. ‘É isso’. O Novo
Testamento, por exemplo, não trata principalmente da questão de
“salvação pela fé em oposição a obras”, mas “salvação que incluía
gentios como gentios”.[211]
Se a Antiga e a Nova Alianças são um, então fé e lei também devem ser
um. Em suma, Schlissel acredita: “Esta dicotomia lei/evangelho é falsa. É
antibíblica”.[212]
Douglas Wilson também se junta à causa em seu livro, “Reformed” is
Not Enough [“Reformado” Não é Suficiente]. Nesse livro, ele sutilmente
tenta quebrar toda a distinção entre lei e Evangelho. A única distinção entre
lei e Evangelho é que os pecadores veem o Evangelho como lei, enquanto os
cristãos veem a lei como o Evangelho. Lei e Evangelho são essencialmente
os mesmos; a única diferença está em perspectiva. Por exemplo, Wilson
afirma: “Para o coração crente, a Palavra de Deus em sua totalidade vem
como Evangelho, trazendo o pecador à salvação… [Isto é] verdade em
relação aos Dez Mandamentos, que são alegres palavras de libertação e
salvação (Êxodo 20:1)”.[213]
Rich Lusk, outro defensor da Visão Federal, também tenta unificar
Moisés com Cristo. Ele afirma: “A lei mosaica era simplesmente o Evangelho
em forma pré-cristã. Ou, em outras palavras, a Nova Aliança é apenas a
Antiga Aliança em forma madura e glorificada”.[214]
A teologia pactual pedobatista afirma que a Antiga e a Nova Alianças
são essencialmente as mesmas. Se isso é verdade, então a Visão Federal está
aplicando apenas este pressuposto e desenvolvendo-o até o seu fim lógico.
Ou seja, uma unificação completa da Antiga e da Nova Alianças é a teologia
pactual pedobatista consistentemente aplicada.
A Unificação dos Pactos das Obras e da Graça
Essa unificação tem muitas consequências. Em última análise, isso
significa que não pode haver nem um Pacto de Obras estrito e nem um Pacto
de Graça estrito. Se a lei e o Evangelho são os mesmos, então todas as
alianças se tornam uma mistura de lei/evangelho, uma espécie de híbrido
sinergístico. Para toda lei, há graça para ajudar na performance; e junto com a
graça existem leis/condições de obediência.
A Eliminação do Pacto de Obras
Primeiro, sob este esquema não pode haver uma aliança estritamente
baseada no mérito/obras. Como James Jordon conclui: “Não há teologia de
‘mérito’ na Bíblia. Não há “pacto de obras”.[215]
Daniel P. Fuller lidera a acusação ao redefinir o Pacto de Obras. Em
sua obra Gospel and Law: Contrast or Continuum? [Evangelho e Lei:
Contraste ou Continuação?], Fuller afirma que Deus não lida com os homens
com base na justiça estrita.[216] De acordo com Fuller, não há contraste de
obras/graça em qualquer um dos pactos de Deus. Pelo contrário, toda aliança,
sem exceção, é graciosa por natureza. Isso significa que o pacto da criação foi
gracioso. O defensor da Visão Federal Ralph Smith explica isso da seguinte
maneira:
Se o jardim em si é o santuário e o lugar de bênção, então para
verdadeiramente haver um Pacto de Obras, o Éden e todas as suas
bênçãos teriam que estar fora dos limites até que Adão e Eva
obtivessem mérito pelo qual seriam justificados e, portanto,
qualificados para desfrutar das recompensas do pacto.[217]
O que Adão fez nesse pacto? De acordo com a Visão Federal, Deus não
exigiu que Adão merecesse a vida eterna; antes, ele deveria crescer e
amadurecer nessa relação pactual com Deus, pela graça, por meio da
“fidelidade pactual”. O evangelho de Adão era a proibição de comer o fruto
da árvore proibida. Pela graça, mediante a fé, ele foi obrigado a crer e
obedecer a esse evangelho. Assim, de acordo com a Visão Federal, a
condição da aliança da criação era “fidelidade pactual”, ou fidelidade pactual,
e o objetivo era a maturidade pactual.[218]
Se isso fosse verdade em relação ao pacto prelapsariano feito com
Adão, isso também deve ser verdadeiro com relação a Jesus Cristo e Suas
obrigações pactuais. Ele também não poderia estar sob qualquer pacto de
obras. Como Rich Lusk afirma:
A construção do Pacto de Obras ataca a natureza filial do pacto. Adão
era filho de Deus, não seu empregado. Ele não ganharia nada. A vida
escatológica era uma herança prometida, não algo a ser merecido.
Quando Jesus é colocado em cena, os problemas com o Pacto das
Obras são ainda maiores. Jesus é o Filho de Deus em um sentido ainda
mais profundo. Reduzir seu relacionamento com o Pai a um
relacionamento empregador/empregado, em que Jesus ganha salários,
ataca o cerne das relações intratrinitárias. O Filho nunca precisa ganhar
o amor do Pai, e sugerir o contrário parece virtualmente blasfemo. A
filiação de Adão e, por trás disso, do Logos, simplesmente descarta
teologias de estilo do Pacto de Obras. Os filhos nunca merecem nada
dos pais, na Trindade ou na criação.[219]
Portanto, sem nenhuma distinção lei/evangelho, Jesus não mereceu a
justiça legal por meio de Sua obediência, ao contrário, em Sua morte e
ressurreição Ele entrou em um relacionamento maduro com Deus. Como?
Pela graça de Deus através da “fidelidade pactual”. Sua condição de aliança
era a mesma que a de Adão. Ele foi chamado para confiar e obedecer.
James Jordon é inflexível sobre o fato de que Cristo não mereceu
retidão, vida eterna ou qualquer outra coisa de Deus:
Isso levanta a questão da “obediência ativa e passiva” de Jesus. A
teologia do mérito às vezes supõe que Jesus recebeu uma recompensa
ativa e foi passivamente à cruz. Essa noção não resiste ao exame…
Mesmo quando essa visão é refinada para dizer que a obediência ativa
e passiva de Jesus é inseparável, como dois lados de uma moeda, a
noção permanece de que o lado ativo de Sua obediência era meritório.
Parece não haver nada na Bíblia que implique que recebamos a vida
terrena de Jesus e depois também a Sua morte. Sua vida terrena era
“para nós” no sentido de que era a precondição de Sua morte, mas não
é dada “a nós”. O que recebemos não é Sua vida terrena e Sua morte,
mas Sua morte e Sua vida glorificada. O que recebemos não são os
méritos de Jesus, mas a Sua maturidade, a Sua glorificação.[220]
Em outras palavras, o que Cristo fez por nós em Sua morte foi alcançar
a maturidade pactual.
Consequentemente, isso altera fundamentalmente a doutrina da
justificação somente pela fé. O que Deus imputa aos pecadores não é a justiça
legal e forense de Cristo, mas a Sua vida madura. Pela fé, os pecadores
entram em um relacionamento pactual maduro com Deus (o relacionamento
que Cristo recebeu em Sua ressurreição). Nesta visão, a justificação é
seriamente distorcida. Em vez da imputação da justiça legal de Cristo, os
pecadores recebem Sua maturidade e glorificação pactuais.[221]
A Eliminação do Pacto da Graça
Em segundo lugar, e consequentemente, isso significa que os membros
da Nova Aliança estão sob as mesmas obrigações pactuais sob as quais Cristo
esteve. Os membros da aliança ainda são obrigados a perseverar na fidelidade
pactual. A morte de Cristo e a Sua vida ressurreta não consumaram
completamente as coisas para vocês. Cristo pode ajudá-los a entrar na
aliança, mas isso não garante que todos permanecerão nela. Os cristãos não
podem confiar completamente em Cristo; eles também devem seguir o Seu
exemplo. Pela graça, eles devem permanecer fiéis. Embora sua imperfeita
fidelidade pactual seja compensada pela perfeita fidelidade de Cristo, os
membros da aliança ainda são obrigados, em algum grau, a permanecer fiéis
às suas obrigações pactuais. Lusk explica isso desta maneira:
A obediência perfeita não é exigida de nós para sermos considerados
como guardadores da lei ou guardadores da aliança (por exemplo,
Lucas 1:6), nem para receber as bênçãos da aliança que pertencem a
esta vida e à vida futura (por exemplo, Efésios 6:3). A própria Torá fez
provisão para o pecado e prenunciou o Evangelho de Cristo
(Hebreus 10:1). Além disso, Deus realmente está satisfeito com a
obediência imperfeita de Seus filhos crentes. Isso não significa que
Deus está nos oferecendo a salvação a preço de barganha (uma “lei
relaxada”); antes, com base na morte, ressurreição e intercessão de
Cristo, nossas obras realmente podem ser consideradas “boas” e
“santas” aos olhos de Deus (CFW 16.5-6).[222]
Assim, não apenas o significado da justificação é alterado, o papel que
a fé desempenha na justificação também é distorcido. A fé não justifica
porque olha completamente para fora de si mesma e confia na justiça forense
de Cristo somente (Sola Fide), mas olha para Deus em uma vida obediente. A
fé é obedecer a Deus seguindo Seus mandamentos.[223]
A Visão Federal é enganosa, na medida em que afirma que a
justificação é obtida não pelo mérito, mas pela graça e fé. O problema é que
os apoiadores da Visão Federal usam as palavras graça e fé, como
tradicionalmente se aplicam à santificação, e não à justificação. No entanto,
os papéis que a fé e a graça desempenham na justificação não são os mesmos
que eles desempenham na santificação. A fé na justificação olha
completamente para fora de si mesma para a perfeita justiça de Cristo; a fé na
santificação, por outro lado, olha para Cristo, como Ele opera em e através de
nós. Da mesma forma, a graça na justificação é alguém ser declarado
legalmente justo independentemente de qualquer coisa que o crente tenha
feito; no entanto, a graça na santificação é uma obra dinâmica neles,
capacitando seu crescimento espiritual. Fé é fé e graça é graça, mas quando
se trata de justificação e santificação elas têm duas funções diferentes.
Infelizmente, tudo isso, no entanto, é confundido na Visão Federal.
A justificação ocorre fora do crente, enquanto a santificação ocorre
dentro do crente. Confundir essas duas coisas é um erro grosseiro. No
entanto, faz sentido que, à medida que a Visão Federal mistura Moisés com
Cristo e a lei com o Evangelho, a justificação e a santificação também se
misturem no processo. A justificação se torna mais uma justiça infundida do
que imputada. No entanto, uma vez que a justificação e a santificação sejam
unificadas, a fé e as obras devem ser também. Ouça estas palavras ousadas de
Lusk:
As obras são os meios pelos quais nos tornamos possuidores da vida
eterna. O caminho da obediência é o caminho que devemos trilhar se
quisermos ser justificados no último dia.[224]
As obras não justificam por direito próprio, uma vez que nunca podem
resistir ao escrutínio da inspeção de Deus. Mas também não nos
justificaremos sem elas. Elas não são meramente evidenciais (por
exemplo, prova de nossa fé), mas até causais ou instrumentais
(“meios”) no que diz respeito à salvação final.[225]
A justificação final, no entanto, está de acordo com as obras. Este ápice
da justificação leva em consideração a totalidade de nossas vidas — a
obediência que prestamos, os pecados que cometemos, a confissão e o
arrependimento que desempenhamos.[226]
No final das contas, a Visão Federal — pelo fato de ensinar que há
aqueles que não permanecem fiéis à aliança — acaba tornando a justificação
dependente da fidelidade pactual. Isso pode ser gracioso, mas não é um pacto
de pura graça (Sola Gratia). Não é uma fé que olha somente para Cristo (Sola
Fide) e nem uma justificação que nos declara justos puramente com base na
justiça imputada de Cristo somente (Solus Christus). O sinergismo (isto é, a
cooperação divino-humana) é o resultado. Assim, a glória não é só de Deus
(Soli Deo Gloria).
Para eliminar as distinções entre Lei e Evangelho, a Visão Federal
acaba alterando as justas exigências da lei e modificando a definição bíblica
de fé. Eles fazem isso para combinar os dois, mas o que acabam criando é
uma visão distorcida da justificação e da fé salvífica. A unificação do Pacto
da Graça com o Pacto das Obras acaba destruindo ambos. Eles deixam a
ortodoxia a fim de serem coerentes. Este é o nomismo pactual de John
Murray consistentemente aplicado à doutrina da salvação. Entre pela graça.
Permaneça pela fidelidade pactual.
Conclusão
A razão pela qual eu expus brevemente a Visão Federal é que seus
defensores expõem um problema real para a teologia pactual pedobatista. Se
a Antiga e a Nova Alianças são essencialmente uma e a mesma, se as
condições devem encontrar um lugar no Pacto da Graça, então os defensores
da Visão Federal estão apenas sendo consistentes. Se Moisés e Jesus devem
ser unidos, então a lei de Moisés não pode ser diferente do Evangelho de
Cristo. Essa consistência, no entanto, confunde a importante linha divisória
entre lei e Evangelho e, assim, compromete a doutrina da justificação pela fé
somente.
É até este ponto que a coesão na teologia pactual pedobatista conduz —
reductio ad absurdum. Felizmente, como já afirmei, a maioria dos teólogos
pedobatistas permanece inconsistente.
9
A FALHA FATAL DA TEOLOGIA DO
PACTUAL PEDOBATISTA

A falha fatal da teologia pactual pedobatista é sua tentativa de rotular o pacto


mosaico como um pacto de graça. O problema é que o pacto mosaico
continha condições e quebradores do pacto, e essas duas coisas são contrárias
a uma aliança baseada na graça. Em um esforço para tornar o Pacto da Graça
condicional, os teólogos pactuais pedobatistas acabaram tornando-o
quebrável. Essa inconsistência é um grande problema teológico para os
pedobatistas pactuais, o que nos leva ao nosso próximo dilema na teologia
pactual pedobatista — os quebradores da aliança.
O Problema com os Quebradores do Pacto no Pacto da Graça
A quebra da Antiga Aliança é a maior dificuldade para a teologia
pactual pedobatista. Por causa disso, a teologia pactual pedobatista é forçada
a abrir espaço para os quebradores do pacto na Nova Aliança.
Se a condição é a obediência, é difícil ver como isso é um pacto de
graça. Se a condição é fé, então isso deve significar que os quebradores do
pacto nunca receberam esse dom do Espírito. Embora Deus seja capaz de
suprir a graça necessária para crer e perseverar na fé, Ele não está obrigado a
fornecer essa graça a todos os membros do pacto. Há alguns no Pacto da
Graça que receberam graça suficiente e alguns que não a receberam. Isso
implica, consequentemente, que alguns dos membros bonafide [em boa-fé]
do Pacto da Graça são obrigados a satisfazer a condição desta aliança por seu
próprio esforço humano, sem um suprimento suficiente da graça salvífica e
perseverante de Deus. Isso é assim se a fé é a condição do pacto.
Tecnicamente falando, no entanto, Jesus Cristo cumpriu todas as
condições do pacto. A vida eterna é alcançada somente por Cristo (Solus
Christus). Assim, tudo que é exigido dos crentes é satisfeito em Cristo, até
mesmo a fé (Atos 3:16). No entanto, se alguns membros do Pacto da Graça
não vivem eternamente, então as condições do pacto não foram cumpridas.
Se Cristo não cuidou de todas as condições na cruz, então os membros do
pacto são legalmente responsáveis por cumpri-las por si mesmos. Se isso é
verdade, como isso pode ser uma aliança graciosa?
Em suma, o problema é que, se o Pacto da Graça é verdadeiramente
uma aliança baseada na graça, como ela pode ser quebrável?
A Dificuldade de Resolver este Problema
De acordo com Peter Golding, “este é um dos problemas mais difíceis
da teologia”.[227] Por causa disso, é difícil definir em que os presbiterianos
pactuais acreditam. Eles parecem não ter solução universal para essa
dificuldade. Como Golding explica:
Uma das principais razões pelas quais os teólogos reformados não
preferiram falar do pacto como sendo confinado aos apenas eleitos em
todos os sentidos do termo é porque “isso não faria nenhuma
concessão para o fato de haverem os quebradores do pacto”.
Consequentemente, todos os tipos de distinções foram traçados para
lidar com essa dificuldade: uma aliança interna e externa; um pacto
condicional e incondicional; uma aliança externa e interna; um pacto
em essência e em administração.[228]
Embora Golding seja um defensor da teologia pactual, ele continua a
refutar essas conclusões. Primeiro, ele afirma: “Todas essas sugestões de
solução são, em alguma medida, insatisfatórias, e isso em grande parte se
deve à sua artificialidade — as Escrituras nunca parecem fazer tais
distinções”.[229] Segundo, ele afirma: “A impressão é de que existe um pacto
no qual o homem pode assumir uma posição inteiramente correta sem a fé
salvífica; mas a Bíblia não conhece tal aliança”.[230] Em terceiro lugar,
Golding conclui com este argumento de Louis Berkhof:
Mas, de acordo com Berkhof, isso ainda não resolve o problema,
porque com essa visão os não eleitos e os não regenerados são
meramente apêndices externos do pacto, e são simplesmente
considerados como filhos da aliança por nós por causa de nossa
incapacidade de ler o coração, ao passo que eles não são filhos da
aliança aos olhos de Deus. Consequentemente, eles não estão
realmente no pacto e, portanto, não podem realmente tornar-se
quebradores do pacto.[231]
A teologia pactual pedobatista não tem uma boa resposta para esse
problema. Eles parecem confusos. Abraham Kuyper acreditava que esses
quebradores do pacto “não são essencialmente participantes do pacto,
embora estejam realmente nele”.[232] O quê? Eles não estão essencialmente no
pacto, mas, por outro lado, estão realmente nele.
Seja qual for o caso, a teologia pactual pedobatista é forçada a ver os
participantes do Pacto da Graça como sendo uma mistura de almas
regeneradas e não regeneradas. No entanto, o Novo Testamento não sabe
nada sobre uma associação mista. A Bíblia diz claramente que todos os que
estão na Nova Aliança conhecem o Senhor e foram perdoados de seus
pecados (Hebreus 8:11-12).
Apóstatas da Nova Aliança
Para ensinar que a Antiga e a Nova Alianças são essencialmente uma e
a mesma, os pedobatistas pactuais devem tornar inquebrável a Antiga
Aliança, nos moldes de Geerhardus Vos (veja capítulo 5), ou então tornar a
Nova Aliança quebrável. Devem escolher um ou outro. A maioria dos
pedobatistas tenta a última opção.
Por exemplo, muitos se esforçam para provar a quebra da Nova Aliança
comparando a apostasia de Israel no Antigo Testamento com as advertências
de apostasia no Novo Testamento. Os avisos de apostasia no Novo
Testamento costumam usar Israel infiel como exemplo (por exemplo, as
advertências em Hebreus). Por causa disso, os pedobatistas pactuais
argumentam que a Nova Aliança é quebrável da mesma forma que a Antiga
Aliança. Referindo-se a 1 Coríntios 9:24 e 10:13, Mark Horne faz exatamente
isso:
Aqui temos uma advertência dada aos coríntios com base no exemplo
negativo dos israelitas no deserto. Observe que Paulo não nega que os
israelitas que morreram em seus pecados eram membros do pacto
mosaico. Pelo contrário, eles foram batizados em Moisés, comeram
comida espiritual e beberam água espiritual do próprio Cristo. Mas os
israelitas não perseveraram no que lhes foi dado. Em vez disso, eles
apostataram e caíram sob a ira de Deus.
A Nova Aliança da qual os coríntios fazem parte é como a Antiga.
Paulo não contrasta a possibilidade de apostasia sob Moisés com a
impossibilidade sob Cristo. Muito pelo contrário, o ponto principal da
passagem é que devemos estar cientes da possibilidade do exemplo do
Antigo Testamento e termos certeza de que estamos perseverando na
fé, para que também não pereçamos como quebradores do pacto.[233]
No começo, isso parece um bom argumento. Os rebeldes israelitas que
caíram no deserto são uma advertência para os cristãos professos. Porque eles
caíram depois de experimentarem tantas coisas, cristãos professos que
pensam estar de pé devem prestar atenção para que não caiam também. Isso é
verdade. No entanto, embora esta passagem mostre algumas semelhanças
entre a incredulidade de Israel e a apostasia no Novo Testamento, isso não
prova que a Nova Aliança é a mesma que a Antiga. As advertências contra a
apostasia são reais e devem ser levadas a sério. Para entender isso, tudo o que
temos a fazer é observar os benefícios espirituais que Israel experimentou
quando foram libertados da escravidão. Esses israelitas receberam muitos
benefícios, mas não puderam entrar na Terra Prometida por causa de sua
incredulidade. Suas vantagens e privilégios externos não resultaram em
salvação. É claro, isso é uma advertência para os cristãos professos. Isso nos
ensina que experiências e benefícios religiosos passados não garantem a
salvação. Nem a membresia da igreja nem o batismo podem ser totalmente
confiáveis. A fé ativa e perseverante em Cristo deve estar presente na vida
dos cristãos para que eles tenham qualquer segurança real.
No entanto, o argumento de Mark Horne é um pouco enganador. Ele lê
a passagem e acaba ensinando como isso implica que os apóstatas eram
membros reais do Pacto da Graça. Mas ele diz isso enquanto a passagem não
diz absolutamente nada sobre a perdição de membros da Nova Aliança. A
apostasia é real, mas isso não significa que aqueles que se desviaram eram,
simultaneamente, membros reais da Nova Aliança. Os apóstatas não estavam
mais no Pacto da Graça do que foram regenerados pelo Espírito Santo. A
Bíblia claramente nos ensina que, se eles se apartaram de nós, é porque eles
nunca foram dos nossos (1 João 2:19). Eles pareciam pertencer ao reino. Eles
experimentaram muitos dos benefícios do reino, mas eram apenas joio
plantado pelo inimigo. Por algum tempo, eles pareciam ter as mesmas
características externas de um verdadeiro cristão, mas, quando o cachorro
retorna ao seu vômito, a verdadeira natureza desses apóstatas finalmente se
manifesta.
Como alguns caem, esse aviso é para todos. A única maneira pela qual
qualquer cristão professo pode ter a verdadeira certeza de que ele ou ela
pertence à Nova Aliança é ter fé presente e perseverante. Todos os cristãos
devem certificar-se de seu chamado e eleição. Isso não significa, no entanto,
que a Nova Aliança seja frágil. Jeremias deixou bem claro que isso é uma
impossibilidade (Jeremias 31:31-32).
A Falha Fatal
A introdução de quebradores do pacto no Pacto da Graça destrói esse
pacto. Independentemente de como os pedobatistas pactuais tentem explicar
os quebradores do pacto, eles acabam fazendo uma de duas coisas: primeira,
fazendo de Cristo um cabeça federal pobre, ou, dois, destruindo o poder, o
valor e a bem-aventurança do pacto. Ambos são grandes erros.
O primeiro grande erro de colocar os quebradores do pacto na Nova
Aliança é que faz de Cristo um cabeça federal pobre. Os pais são
responsáveis por quaisquer itens que seus filhos quebrem em uma loja. Os
pais e seus filhos são legalmente um, sendo os pais a parte responsável. Da
mesma forma, Cristo é o cabeça federal do Pacto da Graça. Ele é legalmente
responsável por pagar pelos pecados daqueles que Ele representa. Cristo é até
mesmo responsável por pagar pelo pecado da incredulidade e da infidelidade.
[234]
Se alguns que estão no pacto não perseveram na fé, isso deve significar
que Cristo não assumiu a responsabilidade legal por eles. Ele os deixou para
que se defendam por si mesmos. Ele não pagou pelos seus pecados, não
interveio em seu favor e não os abençoou com todas as bênçãos espirituais.
Ele era simplesmente um cabeça federal pobre para alguns daqueles que por
um momento estiveram sob Seus cuidados legais. Isso torna o pacto em si
defeituoso, de uma ou duas maneiras.
Primeira, isso cria um Pacto de Graça que não é uma aliança real, legal
e obrigatória, concedendo graça salvífica a todos os seus participantes. Faz
com a promessa de que “crentes e sua descendência” pertencem a Deus,
enquanto é afirmado que isso não têm referência à salvação. É um Pacto de
Graça no nome, mas não no poder. Se este é o caso, o que os membros do
pacto fazem mais do que serem criados na igreja? Nada! A filhos não
convertidos de incrédulos é prometida a salvação se eles crerem. Que
benefícios a membresia no pacto acrescenta a esta promessa, se ela não
assegura a graça necessária para que seus participantes sejam convertidos e
perseverem até o fim? Isso torna o ser participante da Nova Aliança algo sem
sentido.
Dois, isso cria um Pacto da Graça que deve ser dividido entre aqueles
que estão legalmente no pacto e aqueles que estão dentro, mas não
completamente. No entanto, isso também desvaloriza o pacto. Que bem faz
estar na metade do Pacto da Graça, se a graça não for vitoriosa até o fim?
Além disso, se os quebradores do pacto nunca estiveram totalmente no
Pacto da Graça, então eles nunca estiveram totalmente fora do Pacto das
Obras. Se seus pecados nunca foram perdoados, então eles sempre estiveram
sob a lei e, portanto, sob sua condenação legal. Isto é, se eles quebram o
Pacto da Graça, eles nunca estiveram verdadeiramente fora do Pacto das
Obras. Eles ainda são representados pelo primeiro Adão, e não pelo segundo
Adão. No entanto, a Bíblia não conhece nada a respeito de uma participação
simultânea em duas alianças. Uma pessoa está sob a lei ou sob a graça: ele ou
ela não pode ser um membro de ambas as duas alianças ao mesmo tempo.
Este é o erro básico da teologia pactual pedobatista.[235]
A teologia pactual pedobatista argumenta que os credobatistas batizam
os professos que acabam se desviando. É verdade que os credobatistas
batizam aqueles que não são verdadeiramente nascidos de novo. No entanto,
eles geralmente não acreditam que o batismo nas águas coloque os pecadores
no Pacto da Graça. A regeneração, e somente a regeneração do Espírito
Santo, pode colocar os pecadores em uma aliança legal e obrigatória de graça
gratuita. Portanto, os professos apóstatas (embora batizados) nunca estiveram
no Pacto da Graça, mais do que eles estiveram em uma união legal com
Cristo Jesus. Por um tempo, eles pareciam ser filhos da graça, mas, por seu
abandono da fé, manifestaram que nunca foram verdadeiramente filhos da
aliança (1 João 2:19).
O livro de Hebreus deixa claro que a Nova Aliança, ao contrário da
Antiga, não pode ser quebrada. Todos os seus membros conhecem o Senhor e
têm seus pecados (passados, presentes e futuros) perdoados (Hebreus 8:11-
12).
A falha crítica da teologia pactual pedobatista é que ela destrói e
desvaloriza o Pacto da Graça — ela subverte o próprio pacto que procura
promover. Para que os pedobatistas pactuais mostrem que o pacto mosaico
era parte do Pacto da Graça, eles devem provar que o Pacto da Graça tem
uma condição relacionada às obras e aos verdadeiros membros bonafide, mas
que, ainda assim, nunca obedecem a esta condição. Eles devem transformar o
Pacto da Graça em um pacto de obras. Eles precisam encontrar uma maneira
bíblica de provar que há membros reais e legítimos do Pacto da Graça que
nunca recebem eficazmente a graça salvífica de Deus, mas isso até agora eles
não foram capazes de fazer.[236]
Algumas Objeções Respondidas
De certa forma, para responder a algumas objeções, alguns
esclarecimentos precisam ser feitos.
1. Os santos do Antigo Testamento foram salvos por obras?
Não. A Bíblia não ensina que a salvação alguma vez foi possível pelas
obras da lei. A salvação sempre foi pela graça através da fé somente. Aqueles
que foram salvos na dispensação do Antigo Testamento foram salvos pela
graça e pela graça somente. Eles foram regenerados pelo Espírito Santo e
tiveram fé no Messias prometido. Eles foram circuncidados no coração
(Deuteronômio 10:16). Eles se transformaram da descendência natural de
Abraão para a descendência espiritual de Abraão por meio do novo
nascimento. Entre os descendentes naturais de Abraão, havia alguns, um
remanescente segundo a eleição, que foram salvos da mesma forma que
Abraão foi, por fé e graça, assim como somos hoje.
2. Se o pacto mosaico é uma aliança de obras, e se a salvação sempre
foi pela graça, como podem os santos do Antigo Testamento (por exemplo,
Moisés, Davi, Elias etc.) estar sob o pacto mosaico?
Isso não poderia acontecer; todos os crentes (não importa o tempo em
que viveram) pertencem ao Pacto da Graça, pois é impossível estar em dois
pactos ao mesmo tempo.
Paulo explica que, embora eles (crentes do AT) fossem filhos do Pacto
da Promessa/Graça (por exemplo, herdeiros das promessas do pacto
abraâmico), eles ainda eram tratados como escravos.
Digo, pois, que todo o tempo que o herdeiro é menino em nada difere
do servo, ainda que seja senhor de tudo; mas está debaixo de tutores e
curadores até ao tempo determinado pelo pai. Assim também nós,
quando éramos meninos, estávamos reduzidos à servidão debaixo dos
primeiros rudimentos do mundo (Gálatas 4:1-4)
Os crentes na dispensação do Antigo Testamento tecnicamente não
eram escravos da lei; eles não eram escravos do pecado. Como crentes, eles
pertenciam ao Pacto da Graça. Contudo, exteriormente, eles ainda estavam
“reduzidos à servidão debaixo dos primeiros rudimentos do mundo”, que
faziam parte do pacto mosaico. Calvino explica isso dizendo: “Nesse aspecto,
os pais sob o Antigo Testamento, sendo filhos de Deus, eram livres; mas não
possuíam liberdade, enquanto a lei ocupava o lugar do tutor e os mantinha
sob seu jugo”.[237]
Em outras palavras, os santos do Antigo Testamento eram membros
internos do Pacto da Graça, mas por fora eles ainda estavam sob a guarda da
lei mosaica. Moisés, Josué, Davi, Ezequias e os demais crentes do Antigo
Testamento, embora herdeiros das promessas pela fé, estiveram sujeitos a
“rudimentos fracos e pobres” e tinham que “guardar dias, e meses, e tempos,
e anos” (Gálatas 4:9-11).
Mas, vindo a plenitude dos tempos, Deus enviou seu Filho, nascido de
mulher, nascido sob a lei, para remir os que estavam debaixo da lei, a
fim de recebermos a adoção de filhos… Assim que já não és mais
servo, mas filho; e, se és filho, és também herdeiro de Deus por Cristo
(Gálatas 4:4-7).
Em outras palavras, os santos da Nova Aliança conseguem desfrutar do
pleno status da vida adulta e da liberdade na qual os santos do Antigo
Testamento nunca entram plenamente. Na dispensação da Nova Aliança,
todos os elementos misericordiosos do pacto mosaico encontraram seu
cumprimento em Cristo. Portanto, o povo de Deus não está mais debaixo dos
tipos e sombras do sistema da Antiga Aliança, mas agora eles experimentam
um nível de liberdade que os crentes do Antigo Testamento nunca
conheceram.
3. Se o pacto mosaico era uma aliança de obras, por que ele tinha
sacrifícios de animais e outras demonstrações da misericórdia e da graça de
Deus?
Embora o pacto mosaico fosse um pacto de obras, ele tinha alguns
aspectos graciosos. Deus graciosamente estabeleceu o pacto mosaico com a
nação de Israel. O pacto mosaico foi gracioso na medida em que mostrou a
Israel seus pecados e sua fraqueza moral. Foi gracioso à medida que apontou
os pecadores para Cristo através das várias sombras e tipos. Os ineficazes
sacrifícios de animais foram graciosos, pois apontavam para a eficaz
expiação substitutiva do futuro Messias. Os sacrifícios de animais não
expiaram o pecado de Israel, “porque é impossível que o sangue dos touros e
dos bodes tire os pecados” (Hebreus 10:4). Eles prenunciaram, no entanto, a
futura expiação em Cristo (Hebreus 10:1-3). Isso foi gracioso, mas não
propiciatório ou eficaz. Em suma, a lei foi graciosa na medida em que era um
aio para levar Israel ao seu Messias.
Contudo, dizer que, porque o pacto mosaico tinha alguns aspectos
graciosos, deve, portanto, ser uma aliança de graça, é uma conclusão
incorreta. Pregar as pesadas exigências da lei aos pecadores é uma graça, mas
isso não significa que os pecadores, ao ouvirem a lei, tenham entrado no
Pacto da Graça. A pregação da lei é graciosa porque mostra a penalidade do
pecado e a necessidade do Salvador. Pregar a lei é algo misericordioso,
porque aponta os pecadores para Cristo. No entanto, a lei pregada não salvará
nem poderá salvar os pecadores. Não há graça na lei. Embora seja um
privilégio gracioso ouvir, ele não oferece e nem provê graça para o ouvinte.
Da mesma forma, embora o pacto mosaico tenha sido uma provisão graciosa
do Senhor, isso não faz dele uma parte do Pacto da Graça.
4. Se o pacto mosaico era um pacto de obras, onde estava o Evangelho
no Antigo Testamento?
O Evangelho, embora coberto por sombras espessas, estava presente
durante todo o período do pacto mosaico. Além disso, o Evangelho é visível
nos próprios escritos de Moisés (Lucas 24:44). Foi publicado pela primeira
vez no Jardim do Éden (Gênesis 3:15) e republicado mais claramente para
Abraão (Gálatas 3:8). Até a própria lei apontou para Cristo. Como Cristo
explica aos judeus: “No volume do livro está escrito a meu respeito”
(Hebreus 10:7, KJV) e “se vós crêsseis em Moisés, creríeis em mim; porque
de mim escreveu ele” (João 5:46). Além disso, o autor de Hebreus deixa claro
que o Evangelho pregado a nós é o mesmo Evangelho pregado àqueles que
viveram durante a dispensação da Antiga Aliança (Hebreus 4:2).
No entanto, a existência do Evangelho no Antigo Testamento não
transforma o pacto mosaico em uma aliança de graça. Por exemplo, o
apóstolo Paulo explica que “agora se manifestou sem a lei a justiça de Deus,
tendo o testemunho da lei e dos profetas” (Romanos 3:21).
O que é essa justiça? É a justiça de Deus que é revelada ou manifestada
pelo Evangelho (Romanos 1:16-17), uma justiça que é pela fé sem as obras
da lei.
O ponto é que, embora os escritos do Antigo Testamento (a lei e os
profetas) falassem do Evangelho, o Evangelho foi estabelecido à parte da lei
e à parte dos profetas: “A justiça de Deus sem a lei é manifestada”. Em outras
palavras, embora a lei falasse sobre o Evangelho e apontasse para ele, a lei
não estabeleceu o Evangelho. A lei de Moisés não é o Evangelho!
Devemos sempre manter uma clara distinção entre lei e Evangelho.
Embora a lei fale do Evangelho, é um erro pensar que a lei é a mesma coisa
que o Evangelho. “Porque a lei foi dada por Moisés; a graça e a verdade
vieram por Jesus Cristo” (João 1:17).
Além disso, dizer que, devido à presença do Evangelho no Antigo
Testamento, o pacto mosaico deve fazer parte do Pacto da Graça é o mesmo
que dizer que a Nova Aliança deve ser uma aliança de obras, devido ao fato
de que o Pacto das Obras está presente nos escritos do Novo Testamento.
Conclusão
Porque o pacto mosaico foi baseado em uma condição (uma condição
que foi quebrada), deve-se concluir que ele não era um pacto baseado na
graça. Para entender o pacto mosaico como um pacto de graça, é preciso
introduzir forçosamente as condições e os quebrantadores do pacto na Nova
Aliança. Isso não se opõe apenas ao ensino das Escrituras, mas também é
autorrefutável. Se as condições e os quebradores do pacto pertencem ao Pacto
da Graça, este deixaria de ser um pacto enraizado na graça. Para que a
premissa original da teologia pactual pedobatista (de que todas as alianças
têm que ter uma unidade básica) seja correta, ela acaba forçando o pé do
pacto mosaico para caber em um sapato que é muito apertado — contendo
condições que querem rasgar as costuras.
Mas a próxima pergunta que cruza nosso caminho é: se o pacto
mosaico não é um pacto de graça, por que Deus o estabeleceu com os filhos
naturais de Abraão? Os próximos dois capítulos procurarão responder a essa
pergunta. No próximo capítulo, procuraremos examinar as deficiências da
Antiga Aliança, e o capítulo 11 examinará seu propósito.
10
AS DEFICIÊNCIAS DA ANTIGA
ALIANÇA

Embora as promessas do pacto abraâmico fossem tipificadas por realizações


terrenas e temporárias no Antigo Testamento, o Novo Testamento mostra-nos
como elas, em última análise, falaram de bênçãos eternas e espirituais.
Portanto, para que o pacto mosaico seja uma extensão dessas promessas
eternas e espirituais, ele precisaria ser espiritual e eterno também em
natureza… mas o pacto mosaico não era (1.) espiritual nem (2.) eterno, e,
portanto, (3.) não pode cumprir as promessas abraâmicas.
O Pacto Abraâmico era Espiritual em sua Natureza
Primeiro, as promessas eternas de Deus a Abraão eram, em última
análise, de natureza espiritual.[238] Uma das promessas dadas a nosso pai
Abraão era que sua descendência seria um povo santo para Deus. No entanto,
a nação de Israel, em toda a sua história, provou ser uma nação perversa.
Além disso, eles, como nação, rejeitaram seu Messias. A maior parte dos
filhos naturais de Abraão de modo algum era espiritual. Portanto, parece que
essa promessa abraâmica foi anulada pelo fracasso e incredulidade de Israel.
Paulo, no entanto, explica que esse não era o caso. “Se alguns foram
incrédulos, a sua incredulidade aniquilará a fidelidade de Deus?”, o fracasso e
a incredulidade de Israel anularam as promessas de Deus a Abraão? “De
maneira nenhuma; sempre seja Deus verdadeiro, e todo o homem mentiroso”
(Romanos 3:3-4). “Não que a palavra [promessas] de Deus haja faltado[239]”
(Romanos 9:6). Em outras palavras, o fracasso de Israel não anulou as
promessas de Deus. As promessas espirituais de Deus para Abraão eram
incondicionais. Assim, a fidelidade de Deus superou o fracasso de Israel.
Em vez de as promessas não serem cumpridas, Deus estabeleceu a
descendência de Abraão como o “povo de Deus” (Romanos 4:16, 15:8). Mas
como? Como a descendência de Abraão pode ser o povo de Deus, quando
Israel rejeitou a Deus? Paulo explica como quando diz: “Não que a palavra
[promessa] de Deus haja faltado, porque nem todos os que são de Israel são
israelitas” (Romanos 9:6). Isto é, a promessa de que Abraão teria uma
descendência piedosa não se referia a todos os descendentes físicos de
Abraão. Como Paulo prossegue para esclarecer: “Porque nem todos os que
são de Israel são israelitas; nem por serem descendência [física] de Abraão
são todos filhos… Isto é, não são os filhos da carne que são filhos de Deus,
mas os filhos da promessa são contados como descendência” (Romanos 9:7-
8). Através deste comentário divino sobre o pacto abraâmico, Paulo ensina
que “os judeus” não são os verdadeiros filhos da promessa.
Se os descendentes físicos de Abraão não são os filhos da promessa,
então quem são os filhos da promessa? Para responder a essa pergunta,
precisamos entender as letras miúdas do pacto abraâmico. “Ora, as promessas
foram feitas a Abraão e à sua descendência. Não diz: E às descendências
(sperpmasin), como falando de muitas, mas como de uma só: E à tua
descendência (espermática), que é Cristo” (Gálatas 3:16). Ao lançar uma luz
brilhante sobre esse pequeno, mas importante, detalhe, Paulo mostra que o
pacto abraâmico não foi cumprido pelos descendentes naturais de Abraão (os
judeus), mas pelo seu distante descendente: Jesus Cristo. Jesus Cristo é a
verdadeira descendência prometida.
No entanto, Deus prometeu a Abraão que sua descendência seria o
“povo de Deus”, e eles então seriam tão numerosos quanto as estrelas. Uma
pessoa, portanto, não pode atender a essa qualificação. Se a descendência
prometida estava se referindo a Cristo, como pode Ele somente cumprir essa
promessa? A resposta é encontrada no novo nascimento. Ao nascer de novo
sobrenaturalmente, tanto judeus como gentios tornam-se participantes das
promessas de Abraão. Os verdadeiros filhos de Abraão são aqueles
vivificados pelo Espírito e aqueles que têm a fé de Abraão (Romanos 4:16).
E, quando colocamos nossa fé em Cristo, desde que nos tornamos legalmente
um, tudo o que pode ser dito de Cristo pode ser dito daqueles que estão em
união com Ele; se Jesus é o filho legal de Abraão, então aqueles que estão em
união com Ele também são filhos de Abraão: “E, se sois de Cristo, então sois
descendência de Abraão, e herdeiros conforme a promessa” (Gálatas 3:29).
Este, e somente este, é o único caminho para se tornar um dos filhos da
promessa.
Portanto, a verdadeira natureza do pacto abraâmico é espiritual:
“Porque não é judeu o que o é exteriormente, nem é circuncisão a que o é
exteriormente na carne. Mas é judeu o que o é no interior, e circuncisão a que
é do coração, no espírito, não na letra; cujo louvor não provém dos homens,
mas de Deus” (Romanos 2:28-29). “Porque a circuncisão somos nós, que
servimos a Deus em espírito, e nos gloriamos em Jesus Cristo, e não
confiamos na carne” (Filipenses 3: 3).
Os verdadeiros filhos de Abraão são aqueles que são seus filhos pela fé.
“Porque a promessa de que havia de ser herdeiro do mundo não foi feita pela
lei a Abraão, ou à sua posteridade, mas pela justiça da fé. Porque, se os que
são da lei são herdeiros, logo a fé é vã e a promessa é aniquilada… Portanto,
é pela fé, para que seja segundo a graça, a fim de que a promessa seja firme a
toda a posteridade, não somente à que é da lei, mas também à que é da fé que
teve Abraão, o qual é pai de todos nós” (Romanos 4:13-16).
Embora a nação de Israel, como um todo, fosse uma nação ímpia, a
promessa de que a descendência de Abraão seria o “povo de Deus” se tornou
realidade. Como Paulo explica: “Digo, pois, que Jesus Cristo foi ministro da
circuncisão, por causa da verdade de Deus, para que confirmasse [isto é,
cumprisse][240] as promessas feitas aos pais” (Romanos 15:8). Em outras
palavras, as promessas feitas a Abraão foram cumpridas em Cristo. Portanto,
a incredulidade e a desobediência de Israel não anularam as promessas de
Deus, pois Deus não estabeleceu Suas promessas com a descendência natural
de Abraão, mas com a descendência de Abraão: que é Cristo e todos aqueles
que estão em união com Ele.
Além disso, Deus não somente prometeu a Abraão uma descendência,
Ele prometeu a Abraão uma herança — um pedaço de terra — e que ele seria
o pai de muitas nações. Aprendemos que essas promessas foram tipificadas
em seus cumprimentos naturais e temporais. Isaque nasceu de Abraão, os
descendentes terrenos de Abraão herdaram a terra de Canaã e Abraão tornou-
se pai de muitas nações físicas. No entanto, descobrimos no Novo
Testamento que o cumprimento verdadeiro e real dessas promessas não
estava em suas sombras terrenas, mas nas realidades espirituais e eternas, que
foram trazidas pelo estabelecimento da Nova Aliança.
Em relação à Terra Prometida, Abraão pela fé não estava procurando
por herança terrena. Concernente à promessa de Abraão ser o pai de muitas
nações, isso também não foi cumprido espiritualmente até o estabelecimento
da Nova Aliança. “Sabei, pois, que os que são da fé são filhos de Abraão”
(Gálatas 3:7). “Portanto, é pela fé, para que seja segundo a graça, a fim de
que a promessa seja firme a toda a posteridade, não somente à que é da lei,
mas também à que é da fé que teve Abraão, o qual é pai de todos nós (como
está escrito: Por pai de muitas nações te constituí)” (Romanos 4:16-17).
Embora essas promessas tivessem um cumprimento natural e temporal
no Antigo Testamento, elas eram espirituais e eternas em sua verdadeira
natureza. Os cumprimentos naturais foram parciais e de curta duração,
enquanto os verdadeiros cumprimentos são espirituais e eternos. Portanto,
essas promessas não encontram seu verdadeiro cumprimento até o
estabelecimento da Nova Aliança. Além disso, devemos lembrar que todas as
promessas sem exceção são cumpridas em Cristo Jesus (Efésios 1:3).
Fora de uma união vital com Cristo, uma pessoa não pode desfrutar de
nenhuma das promessas de Deus. Como a maior parte dos descendentes
físicos de Abraão vivia fora de um relacionamento salvífico com o Senhor,
eles não podem ser considerados como filhos da promessa. Um hebreu ímpio
pode ter tomado posse de um pedaço de terra em Canaã, mas nenhum
hebreu/judeu jamais entrará na Terra de Beulá se não estiver em um
relacionamento salvífico com Cristo Jesus. Por outro lado, se os gentios estão
em Cristo, eles têm a livre graça de Deus e entraram na herança de Abraão:
“E, se sois de Cristo, então sois descendência de Abraão, e herdeiros
conforme a promessa” (Gálatas 3:29). Em Cristo, tanto judeus como gentios
herdam todas as promessas de Abraão (Efésios 2:11-15). Dessa maneira,
aprendemos que as promessas feitas a Abraão eram espirituais em vez de
físicas.
Abraão, pela fé, parecia entender a verdadeira natureza espiritual das
promessas, pelo menos em parte. Ele sabia que essas promessas eram
espirituais e eternas. Por exemplo, ele não estava procurando por uma cidade
terrena, mas por uma cidade celestial. Pela fé, ele também foi capaz de ver
sua descendência prometida (Jesus Cristo), como é manifestado pelo
testemunho de Abraão dado por Cristo. “Abraão, vosso pai, exultou por ver o
meu dia, e viu-o, e alegrou-se” (João 8:56). Embora Abraão tenha morrido
sem nunca receber estas promessas, pela fé ele foi capaz de vê-las de longe.
“Todos estes morreram na fé, sem terem recebido as promessas; mas vendo-
as de longe, e crendo-as e abraçando-as” (Hebreus 11:13).
Em resumo, as realidades espirituais da Nova Aliança, com seus
participantes espirituais e piedosos, são as verdadeiras realizações do pacto
abraâmico, não a aliança temporal com seus participantes terrenos e (na
maioria das vezes) ímpios.
A Antiga Aliança Não era Eterna
A segunda razão pela qual a Antiga Aliança não era uma extensão do
pacto abraâmico é que a Antiga Aliança era temporal. Assim, o pacto
mosaico foi incapaz de cumprir as promessas espirituais feitas a Abraão.
(Pelo fato de eu lidar com isso mais detalhadamente no próximo capítulo,
farei aqui apenas uma breve alusão.)
Para que o pacto mosaico fosse uma extensão ou desenvolvimento do
pacto abraâmico, ele precisaria ser uma aliança eterna; uma aliança
caracterizada por termos, condições e promessas que nunca expiram. As
promessas e os participantes do pacto abraâmico estão vigentes ainda hoje. A
Nova Aliança, da mesma forma, é uma aliança eterna (Hebreus 13:20). As
promessas dessas alianças não têm prazo de validade.
No entanto, aprendemos com o Novo Testamento que a Antiga Aliança
não foi projetada para durar para sempre. Ela era um professor que deveria se
aposentar depois de seus alunos se formarem, a Antiga Aliança iria passar
com o estabelecimento da Nova Aliança. A circuncisão, a nação física de
Israel, o sacerdócio, o templo e os sacrifícios de animais eram todos
temporários. O pacto exterior e carnal, que foi estabelecido no Monte Sinai,
deveria durar até que Jesus, a descendência prometida de Abraão, chegasse, e
então ele foi projetado para ser abolido. “Dizendo Nova aliança, envelheceu a
primeira. Ora, o que foi tornado velho, e se envelhece, perto está de acabar”
(Hebreus 8:13).
Até mesmo o pedobatista Peter Golding entende a diferença entre a
duração dos pactos abraâmico e mosaico:
Em nenhum lugar a Nova Aliança é contrastada individualmente com a
aliança abraâmica. Cristo fez da aliança mosaica “velha”, quando se
referiu à Nova Aliança em Seu sangue, mas a aliança abraâmica nunca
é considerada revogada. Ela ainda permanece e se concretiza na Nova.
Consequentemente, o Novo Testamento não diz que a aliança
abraâmica passou. Pelo contrário, a aliança com Abraão abençoa todas
as nações da terra, e os crentes cristãos de todas as raças são descritos
como “filhos de Abraão” (Gênesis 12:3; Gálatas 3:29).[241]
Em outras palavras, o pacto abraâmico ainda está em vigor, enquanto o
pacto mosaico foi revogado.
Se isso é assim, como poderia o pacto mosaico ser uma extensão das
promessas espirituais feitas a Abraão? Se o pacto mosaico fazia parte do
mesmo Pacto da Graça estabelecido anteriormente com Abraão, como os
termos, condições e promessas do pacto mosaico poderiam ser revogados? O
protevangelho não foi revogado, o pacto noético não foi revogado, o pacto
abraâmico não foi revogado, o pacto davídico não foi revogado e a Nova
Aliança nunca será revogada. No entanto, por alguma estranha razão, as
condições, a participação e as promessas do pacto mosaico não são mais
válidas (Hebreus 8:13).
A Antiga Aliança foi Incapaz de Cumprir as Promessas Abraâmicas
A terceira razão é que Deus nunca pretendeu que a Antiga Aliança
estabelecesse as promessas do pacto abraâmico. Paulo deixa isso claro em
sua epístola aos gálatas:
Irmãos, como homem falo; se a aliança de um homem for confirmada,
ninguém a anula nem a acrescenta. Ora, as promessas foram feitas a
Abraão e à sua descendência. Não diz: E às descendências, como
falando de muitas, mas como de uma só: E à tua descendência, que é
Cristo. Mas digo isto: Que tendo sido a aliança anteriormente
confirmada por Deus em Cristo, a lei, que veio quatrocentos e trinta
anos depois, não a invalida, de forma a abolir a promessa. Porque, se a
herança provém da lei, já não provém da promessa; mas Deus pela
promessa a deu gratuitamente a Abraão (Gálatas 3:15-18).
Os pedobatistas pactuais, no entanto, usam essa passagem para apoiar a
continuidade entre o pacto abraâmico e o pacto mosaico. Eles argumentam
que o pacto mosaico não poderia ter sido um pacto de obras sem que isso
anulasse o pacto de graça abraâmico. Por exemplo, se um credor prometesse
perdoar livremente a dívida de um homem pobre, mas depois exigisse o
pagamento integral, essa mudança de mentalidade não seria apenas errada,
seria uma anulação da promessa anterior. Da mesma forma, depois que Deus
estabeleceu um pacto de graça com Seu povo nos dias de Abraão, Ele foi
obrigado a sempre honrar Sua promessa. Por isso, pedobatistas afirmam que
o pacto mosaico não poderia ter sido uma aliança de obras sem anular o pacto
de graça feito com Abraão. Como é visto nas palavras do próprio Calvino:
Deus nunca é inconsistente consigo mesmo, nem é diferente de Si
mesmo. Ele, então, que uma vez fez um pacto com Seu povo
escolhido, não mudou Seu propósito como se tivesse esquecido de Sua
fidelidade. Segue-se, então, que o primeiro pacto era inviolável; além
disso, Ele já havia feito seu pacto com Abraão e a lei era uma
confirmação dessa aliança. Como, então, a lei dependia do pacto que
Deus fez com Seu servo Abraão, segue-se que Deus nunca poderia ter
feito um novo pacto, isto é, um pacto contrário… Sem dúvida, essas
coisas mostram suficientemente que Deus nunca fez outro pacto senão
o que Ele fez anteriormente com Abraão e depois amplamente
confirmou pela mão de Moisés.[242]
Este argumento, no entanto, baseia-se na falsa noção de que o pacto
mosaico e o pacto abraâmico foram estabelecidos com o mesmo grupo de
pessoas. É verdade que Deus estava obrigado a cumprir Sua promessa a
Abraão, mas isso não significa que Deus foi obrigado a entrar em um pacto
de graça com a descendência natural de Abraão ao pé do Monte Sinai. Por
exemplo, se um credor promete perdoar livremente a dívida de um homem
pobre, e alguns dias depois exige que um homem rico pague sua dívida
integralmente, o pagamento justo exigido do homem rico não afeta ou anula a
promessa graciosa anterior feita para o pobre homem. Da mesma forma, o
estabelecimento do pacto de obras mosaico com a nação de Israel não
interferiu ou anulou as promessas graciosas de Deus feitas a Abraão e sua
descendência (singular). “Logo, a lei é contra as promessas de Deus? De
nenhuma sorte” (Gálatas 3:21). Por quê? Porque o Pacto das Obras foi
emitido para a descendência biológica de Abraão (plural), enquanto o Pacto
da Graça foi dado a Abraão e à sua única descendência — Jesus Cristo.
Claramente, isso incluiria todos aqueles que estão unidos a Cristo pela
fé. Como o pacto abraâmico e a Antiga Aliança não foram estabelecidos com
o mesmo grupo de pessoas, Deus não voltou atrás em suas promessas a
Abraão. Ele não estava legalmente obrigado a entrar em um pacto de graça
com a descendência natural de Abraão depois que Ele fez uma aliança de
promessa com Abraão e a sua descendência — singular.
Este é exatamente o ponto que Paulo enfatiza. Nesta passagem, ele
mostra como o pacto abraâmico não foi suplantado nem expandido pelo pacto
mosaico: “Irmãos, como homem falo; se a aliança de um homem for
confirmada, ninguém a anula nem a acrescenta” (Gálatas 3:15). Paulo
continua a dar três razões pelas quais o pacto mosaico não anulou ou
estendeu as promessas dadas a Abraão. Primeira, esses dois pactos foram
feitos com dois grupos diferentes de pessoas: “Ora, as promessas foram feitas
a Abraão e à sua descendência. Não diz: E às descendências, como falando de
muitas, mas como de uma só: E à tua descendência, que é Cristo”
(Gálatas 3:16).
Os sujeitos de cada pacto são claramente diferentes
(Deuteronômio 5:2). Segunda, os dois pactos foram estabelecidos em épocas
diferentes: “Mas digo isto: Que tendo sido a aliança anteriormente
confirmada por Deus em Cristo, a lei, que veio quatrocentos e trinta anos
depois, não a invalida, de forma a abolir a promessa” (Gálatas 3:17).
Terceira, os dois pactos são diretamente opostos um ao outro: “Porque, se a
herança provém da lei, já não provém da promessa; mas Deus pela promessa
a deu gratuitamente a Abraão” (Gálatas 3:18).
Unificar as promessas feitas a Abraão com a lei de Moisés inverte o
significado dessa passagem. Paulo não está procurando explicar a
continuidade entre Abraão e Moisés, mas a descontinuidade. Ele afirma que o
pacto mosaico foi baseado na lei, enquanto o pacto abraâmico foi baseado em
uma promessa. O ponto principal é que a lei não anulou ou colocou um
adendo à promessa. A promessa do pacto abraâmico era o Evangelho da
graça gratuita em Cristo Jesus: “Todas as nações serão benditas em ti”
(Gálatas 3:8). Embora a lei não seja o Evangelho, ela não pode restringir,
dificultar ou impedir o Evangelho.
Por que Paulo estava preocupado com a descontinuidade entre os
pactos abraâmico e mosaico? Porque os judeus físicos achavam que (com
base em sua ligação genética com Abraão, sua circuncisão e sua
recepção/obediência à lei de Moisés) eles eram o verdadeiro cumprimento do
pacto abraâmico. É por isso que os judaizantes estavam tão preocupados com
a circuncisão. Eles não podiam entender como os gentios convertidos
poderiam ser participantes das promessas de Abraão sem se identificarem
com Israel através da circuncisão.
É esse tipo de pensamento que Paulo procura desmascarar em suas
cartas aos Romanos e Gálatas. Nestas duas epístolas, ele estabelece pelo
menos cinco coisas: Primeira, que as promessas feitas a Abraão eram de
natureza espiritual. Segunda, que as promessas foram baseadas na fé, não na
circuncisão e nem nas obras da lei (Gálatas 6:15-6). Terceira, que os judeus
físicos não eram a verdadeira descendência de Abraão (Romanos 2:28-29).
Eles eram um tipo, mas não a realidade da promessa. Quarta, que o pacto
mosaico (incluindo a circuncisão e a nação de Israel) não anulou as
promessas espirituais do pacto abraâmico. Embora a descendência natural
viesse antes da descendência espiritual, isso não impediu ou dificultou o
cumprimento do pacto abraâmico. Quinta, e mais importante, não apenas o
pacto mosaico foi incapaz de anular o pacto abraâmico, como também não foi
capaz de estabelecer o pacto abraâmico.
Por que o pacto mosaico foi incapaz de estabelecer as promessas do
pacto abraâmico? Porque as promessas feitas a Abraão foram baseadas na fé
e no novo nascimento, e não na lei e nem no nascimento natural. Se o pacto
abraâmico pudesse ter sido cumprido pela lei, teria anulado a fé, como Paulo
declara: “Porque, se a herança provém da lei, já não provém da promessa;
mas Deus pela promessa a deu gratuitamente a Abraão” (Gálatas 3:18).
Em outras palavras, embora a lei não anulasse o pacto abraâmico, ela
também não o estabeleceu. O apóstolo explica isso com mais detalhes em sua
epístola aos Romanos:
Porque a promessa de que havia de ser herdeiro do mundo não foi feita
pela lei [da Antiga Aliança] a Abraão, ou à sua posteridade, mas pela
justiça da fé. Porque, se os [judeus] que são da lei [que estão sob a
Antiga Aliança] são herdeiros, logo a fé é vã e a promessa é aniquilada.
Porque a lei opera a ira. Porque onde não há lei também não há
transgressão. Portanto, é pela fé, para que seja segundo a graça, a fim
de que a promessa seja firme a toda a posteridade, não somente à que
é da lei [judeus], mas também à que é da fé que teve Abraão [todos os
crentes, judeus e gentios], o qual é pai de todos nós (Romanos 4:13-
16).
Nesta passagem aprendemos que a lei era incapaz de cumprir as
promessas por pelo menos três razões: Primeira, a fé seria anulada e as
promessas, aniquiladas. Segunda, a lei “opera a ira” em vez da graça.
Terceira, as promessas precisavam ser estabelecidas pela fé para que Abraão
fosse o pai não só dos judeus, mas o pai de todos os que têm fé.
Conclusão
Para concluir, a Antiga Aliança não alterou, adicionou ou cumpriu o
pacto abraâmico. Ao contrário do pacto abraâmico, ela não era nem espiritual
nem eterna. Por causa disso, foi incapaz de realizar as promessas eternas e
espirituais que Deus fez a Abraão.
Então, se o pacto mosaico não estabeleceu as promessas do pacto
abraâmico, qual era sua função? Como isso se encaixa nas promessas
incondicionais de Deus? Deus estava fazendo uma digressão em Sua
revelação do Pacto da Graça? O Pacto de Obras (pacto da criação) já não
existia antes do pacto mosaico? A humanidade já não estava espiritualmente
morta e declarada injusta? Se sim, que necessidade haveria para Deus reeditar
o Pacto das Obras? Mais importante ainda, Deus estava procurando trazer
justificação pelas obras da lei? Se o pacto mosaico não era uma extensão do
pacto da promessa, se a lei era incapaz de cumprir ou de ajudar no
cumprimento das promessas, qual era o seu propósito? Essas perguntas serão
respondidas no próximo capítulo, quando procurarmos descobrir o verdadeiro
propósito do pacto mosaico.
11
O PROPÓSITO DA ANTIGA ALIANÇA

Já que o pacto mosaico não estabeleceu as promessas do pacto abraâmico,


qual era a sua função? Como isso se harmoniza com as promessas
incondicionais de Deus? Deus estava divagando em Sua revelação do Pacto
da Graça? O Pacto de Obras (pacto da criação) já não existia antes do pacto
mosaico? A humanidade já não estava espiritualmente morta e declarada
injusta? Caso sim, que necessidade haveria para Deus reeditar o Pacto de
Obras? Mais importante ainda, Deus estava procurando operar justificação
pelas obras da lei? Se o pacto mosaico não era uma extensão do pacto da
promessa, se a lei era incapaz de cumprir ou de ajudar no cumprimento das
promessas, qual era o seu propósito?
Para responder a essa pergunta, devemos nos voltar para as epístolas de
Paulo aos Romanos e aos Gálatas. A partir destes dois livros, aprendemos o
verdadeiro propósito do pacto mosaico.
O Pacto Mosaico Manifestou Culpa
O pacto mosaico manifestou a culpa do homem. Como Paulo explica:
“Logo, para que é a lei? Foi ordenada por causa das transgressões, até que
viesse a posteridade a quem a promessa tinha sido feita; e foi posta pelos
anjos na mão de um medianeiro” (Gálatas 3:19). Foi uma ministração da
morte. “Porque pela lei vem o conhecimento do pecado” (Romanos 3:20).
“Veio, porém, a lei para que a ofensa abundasse” (Romanos 5:20). Em outras
palavras, a lei foi dada “para que toda a boca esteja fechada e todo o mundo
seja condenável diante de Deus” (Romanos 3:19).
Para ser mais claro, isso não significa que o Pacto de Obras era
inexistente antes do pacto mosaico. Lei e morte existiam antes do Monte
Sinai (Romanos 5:14). A transgressão de Adão trouxe a morte universal, não
o pacto mosaico. Por essa razão, John Owen afirmou que o pacto mosaico
não trouxe (por si só) morte a ninguém.[243]
Contudo, sem uma manifestação visível (revelação) do Pacto de
Obras, a humanidade teria dificuldade em se considerar “morta para o
Senhor”. John Bunyan deu uma boa explicação para isso:
A própria substância dos Dez Mandamentos foi dada no Jardim, antes
de serem recebidos do Sinai; porém, eles estavam tão obscurecidos no
coração do homem, que os seus pecados não foram mostrados de modo
tão claro quanto posteriormente. “A lei foi acrescentada (ou mais
claramente dada no Sinai em tábuas de pedra) para que a ofensa
abundasse”, ou seja, pudesse ser manifestada e aparecer mais
claramente.[244]
Os ímpios se veem cegamente como sãos, vivos e justos diante do seu
Criador. Uma manifestação clara do Pacto de Obras era necessária, não para
matar, mas para mostrar a todo o mundo — a Israel em particular — que eles
já estavam mortos, doentes e necessitados de um médico. Como Lutero
observou: “A natureza humana é tão cega, que não conhece a sua própria
força — ou melhor, doença; além disso, sendo orgulhosa, acha que sabe e
pode fazer qualquer coisa. Deus não pode curar esse orgulho e ignorância por
meio de nenhum remédio mais rápido do que o anúncio de Sua lei”.[245] O
pacto mosaico fez exatamente isso. Não trouxe a condenação do homem, mas
a manifestação da condenação do homem.
Assim, para Deus revelar a Nova Aliança da graça antes de revelar a
Antiga Aliança das obras seria como tentar pregar o Evangelho da salvação
para aqueles que ainda não estão perdidos.[246]
O Pacto Mosaico Apontou para Cristo
Não só o pacto mosaico foi um “ministério da condenação”, foi dado
para direcionar os doentes até o grande médico. O pacto mosaico apontou
uma luz brilhante em Cristo: Primeiro, mostrando a necessidade universal do
homem de um salvador. Segundo, como já explicamos em detalhes,
figurando Cristo por meio de várias sombras e tipos. Desta forma, a lei é
como o pano preto por trás do diamante cintilante; sua condenação é o
contraste perfeito para iluminar a graça de Deus que está em Jesus Cristo
(usus paedagogicus).
O Pacto Mosaico foi um Meio de Preservação Nacional
Porque a descendência prometida (Cristo Jesus) deveria ser o
descendente de Abraão, os filhos de Abraão precisavam ser preservados. Para
ajudar a manter viva a descendência de Abraão, Deus estabeleceu um pacto
de obras com os seus filhos. Como a lei ajudou a preservar Israel?
Em primeiro lugar, a lei ajudou na preservação nacional ao organizar
Israel como uma nação. Os filhos de Abraão não eram oficialmente um povo
nacional até que receberam a lei no Monte Sinai. Isso foi importante para
proteger a descendência de Abraão; estabeleceu fronteiras e limites nacionais,
protegendo a descendência da intrusão e interpolação de gentios.
Em segundo lugar, a lei governou essa nação política (usus politicus).
As leis judiciais estabeleciam ordem e paz. Isso foi importante para proteger
a nação de Israel das facções internas e da autodestruição.
Em terceiro lugar, a lei separou Israel de outras nações; separou-o
como o progenitor nacional da descendência prometida (Nesse sentido, Israel
era uma “linhagem santa” [Esdras 9:2]). A lei ajudou a distinguir Israel de
todos os outros grupos étnicos. Por exemplo, muitas das leis cerimoniais e
judiciais (que são abolidas na Nova Aliança) foram concebidas, não apenas
para fazer uma clara distinção entre judeus e gentios, mas também para
mantê-los separados.[247] As várias lavagens cerimoniais, leis alimentares,
dias santos e outros estatutos semelhantes isolavam Israel do restante do
mundo. Estes eram marcadores de limites, que os separavam dos impuros.
Todos os outros grupos étnicos poderiam ser classificados sob um único
título — “gentios”, ou, ainda mais degradante, “os incircuncisos”. Todavia, a
lei separava Israel do mundo, e assim era um meio de preservar a prometida
descendência de Abraão.
Em quarto lugar, a lei restringia Israel de casamentos mistos com
nações pagãs, o que teria ofuscado, se não apagado, a linhagem de Abraão.
Ao proibir os casamentos inter-raciais, a lei foi um meio de impedir que
Israel se misturasse com outros grupos de pessoas do mundo.
Em quinto lugar, a lei dava a Israel algumas restrições exteriores.
“Logo, para que é a lei? Foi ordenada por causa das transgressões, até que
viesse a posteridade a quem a promessa tinha sido feita” (Gálatas 3:19). Ou
seja, a lei não apenas aponta o pecado, ela restringe o pecado. O pecado é a
razão pela qual todas as nações caem e se autodestroem. Por causa disso, os
filhos de Israel precisavam ser protegidos de si mesmos. Era necessário haver
algum tipo de preservação para proteger a descendência prometida (que é
Jesus Cristo). Embora a lei não impedisse Israel de transgredir, ela os
restringia. Nesse sentido, a lei ajudou a preservar a nação de Israel,
protegendo, assim, a descendência prometida. Por esses meios exteriores, a
lei foi um meio de preservação nacional.
O Pacto Mosaico Estabeleceu a Necessidade de Genealogias
Como Deus prometeu a Abraão, Isaque, Jacó, Judá e, finalmente, a
Davi, que o herdeiro deles seria o Messias prometido, precisava haver algum
tipo de provisão para manter cada uma das famílias de Israel separadas. Os
progenitores do Messias não incluíram todos os filhos hebreus. José, Moisés,
Jônatas e quase todos os outros israelitas não tinham a promessa de que a sua
descendência seria o Messias. Deus escolheu apenas um dos doze filhos de
Jacó para ser o progenitor. Com o tempo, Deus reduziu o progenitor à família
de Davi.
Com isso em mente, era necessário haver algum tipo de provisão para
manter essas famílias distintas e separadas umas das outras. Além disso,
quando o Salvador chegou, precisou haver algum tipo de método que
comprovasse legalmente a descendência de Sua família. A lei estabeleceu
uma provisão para essas coisas. Um dos propósitos do pacto mosaico era
estabelecer a necessidade de manter registros genealógicos estritos.
Genealogias seriam importantes para provar que Cristo era o filho de Davi
(Mateus 1:1-17). Um rabino judeu do início do século XIX, Joseph Frey —
um convertido ao cristianismo — em seu livro Joseph and Benjamin [José e
Benjamim], explicou isso:
Não posso prosseguir sem observar e admirar a provisão maravilhosa
que foi feita para este propósito na lei de Moisés. Nossa nação [Israel]
não foi apenas dividida em várias tribos, mas cada tribo em várias
famílias. E como toda tribo tinha uma herança distinta, que os obrigava
a manter genealogias de suas várias famílias, de modo a torná-los mais
exatos e pontuais neste registro, nenhuma alteração de herança foi
permitida, por mais tempo do que o ano do Jubileu, que retornava a
cada cinquenta anos. E, então, todos que pudessem elucidar a sua
linhagem e identificar o seu direito à herança de seus ancestrais seriam
reintegrados a ela. Isso fez com que todos se interessassem em
preservar a sua genealogia. Porém, o que ainda mais contribuiu para
esse fim e os tornou mais cuidadosos quanto ao assunto foi a lei dos
recuos lineares. Por esta lei, após a perda de um herdeiro em qualquer
família, o parente próximo seria o herdeiro legal. Assim, cada tribo
estimulava não apenas a cuidar de sua própria genealogia, mas também
das várias famílias de seus parentes que, conhecendo os vários graus de
proximidade de seu sangue, poderiam, a qualquer momento, devido à
perda de um herdeiro, identificar o seu direito à herança das suas
gerações, de forma que, quando a plenitude do tempo chegasse, o
Messias viria e Ele poderia por este modo, fácil e certamente, provar a
sua descendência linear, desde a descendência de Abraão, da tribo de
Judá e da família de Davi.[248]
Sem a documentação cuidadosa dos registros familiares, seria
impossível provar que o Senhor Jesus era da família de Davi. De modo
providencial, Deus fez uma provisão para isso no pacto mosaico.
O Pacto Mosaico Estabeleceu a Salvação
Mais importante ainda, a lei estabeleceu um meio para a salvação. Isto
é, a salvação é impossível sem o cumprimento da lei. Deus não poderia
justificar os pecadores sem que as justas exigências da lei fossem cumpridas
(Romanos 3:26).
Os pecadores, é claro, são incapazes de obedecer às severas exigências
da lei. Felizmente, porém, havia um homem que não tinha pecado: o homem
Jesus Cristo. Ele, e somente Ele, obedeceu à lei. Por Sua vida e morte, Ele
atendeu a todas as suas exigências. Por Sua vida, Ele mereceu perfeita justiça;
pela Sua morte, Ele cumpriu as exigências penais da lei.
Não foi apenas qualquer lei, mas a lei mosaica que Cristo cumpriu.
“Não cuideis que vim destruir a lei ou os profetas: não vim abrogar, mas
cumprir. Porque em verdade vos digo que, até que o céu e a terra passem,
nem um jota ou um til jamais passará da lei, sem que tudo seja cumprido”
(Mateus 5:17-18). Nesse sentido, o Pacto de Obras trouxe o Pacto da Graça.
Cristo mereceu a salvação. Um homem dentre nós obedeceu à lei e cumpriu
todas as suas exigências.
Por essa razão, sem o Pacto de Obras, não haveria esperança para a
humanidade. Permita-me explicar. Como mencionado acima, Deus não pode
imputar justiça aos pecadores sem o cumprimento da lei (Romanos 3:26). A
lei (em e de si mesma) implica um Deus soberano que tem o direito de
governar os Seus súditos criados. A lei estabelece um relacionamento legal
entre Deus e o homem, e esse relacionamento legal não pode ser nada menos
do que um relacionamento pactual. Por exemplo, um Deus justo tem o direito
legal de emitir ordens autoritativas para os Seus súditos criados. O homem,
em contrapartida, é legalmente responsável por obedecer. Visto que Deus é
justo, Ele baseia o Seu relacionamento com o homem de acordo com essa lei
(por exemplo, morte ou vida). Nesse sentido, a lei de Deus não pode existir
fora de um pacto, e todo relacionamento entre Deus e o homem é de natureza
pactual.[249]
Com isso em mente, qualquer recompensa recebida por obediência à lei
é recebida apenas dentro dos limites de um pacto. Calvino explica esse
princípio quando diz: “Exceto por meio de um pacto com Deus, nenhuma
recompensa é devida às obras”.[250] Esse pacto legal baseado em
recompensas/punições é nada menos do que o Pacto de Obras.
Isso significa que era necessário que o Pacto de Obras estivesse em
vigor durante a vida de Cristo. Para que Cristo merecesse justiça, Ele
precisava nascer debaixo da lei; ou seja, nascer sob um pacto de obras legal.
Para ser mais claro, Ele não poderia ter nascido sob o Pacto da Graça, ou Ele
não teria morrido naquele madeiro maldito. Samuel Petto percebeu isso
quando afirmou:
O Pacto de Obras tendo sido quebrado por nós no primeiro Adão, era
de grande preocupação para nós que a satisfação fosse feita a este
pacto, pois, a menos que a sua justiça fosse desempenhada por nós, a
vida prometida era inatingível; e a menos que a sua penalidade fosse
sofrida por nós, a morte ameaçada (Gênesis 2:17) era inevitável.[251]
Michael Brown, comentando a visão de Petto sobre o pacto mosaico,
afirma: “O Sinai deu ao Filho a oportunidade de cumprir, por meio de Sua
obediência ativa e passiva como um verdadeiro ser humano, a justiça que o
pacto original exigia”.[252]
É importante notar que os requisitos que Deus estabeleceu com Abraão
e Moisés são os mesmos requisitos que Ele estabeleceu com Adão, pois
consistia na mesma lei moral, acompanhada das mesmas bênçãos e
maldições. Vida e morte escatológicas estavam na essência de ambos. O
pacto mosaico não era um novo pacto de obras, mas apenas uma
reproclamação do Pacto de Obras que foi previamente estabelecido com
Adão. Como Edward Fisher afirmou: “A lei entregue no Monte Sinai, e
anteriormente gravada no coração do homem, era uma e a mesma; de modo
que no Monte Sinai o Senhor não entregou algo novo”.[253] Além disso, John
Owen declarou:
[O pacto mosaico] reavivou a sanção da primeira aliança, na maldição
ou sentença de morte que é anunciada contra toda transgressão. A
morte era a penalidade da transgressão da primeira aliança: “Porque no
dia em que dela comeres, certamente morrerás”. E esta sentença foi
retomada e apresentada novamente na maldição pela qual esta aliança
foi ratificada: “Maldito aquele que não confirmar as palavras desta lei,
não as cumprindo”.[254]
Consequentemente, Cristo não poderia ter merecido a vida sem nascer
sob o Pacto de Obras. Caso contrário, não haveria pacto para recompensá-lO
por Sua justiça. Como Calvino conclui: “Por consequência, onde não há
pacto divino, nenhuma declaração de aceitação é encontrada; nenhuma obra
poderá ser praticada para justificação”.[255]
Em suma, depois que a sentença de morte foi passada para Adão e toda
a sua posteridade, a única esperança de salvação era que quatro coisas
acontecessem. Primeira, o Pacto de Obras precisava continuar a prometer
vida e ameaçar a morte de toda a posteridade de Eva. Segunda, precisava
haver um filho de mulher que não fosse amaldiçoado pelo pecado de Adão.
Terceira, este homem precisaria nascer sob a obrigação do Pacto de Obras.
Quarta, esse homem precisaria cumprir o Pacto de Obras. Sem essas quatro
coisas, a redenção do homem seria impossível.
Felizmente, isso é o que vemos ocorrendo na história da redenção. O
homem Jesus Cristo veio ao mundo sem herdar o juízo de Adão (por
exemplo, a depravação), mas porque nasceu um filho de uma mulher, Ele
nasceu sob as obrigações do Pacto de Obras. Como a Escritura diz: “Mas,
vindo a plenitude dos tempos, Deus enviou seu Filho, nascido de mulher,
nascido sob a lei, para remir os que estavam debaixo da lei, a fim de
recebermos a adoção de filhos” (Gálatas 4:4-5). O Filho do Homem satisfez
as exigências negativas e positivas da lei de Moisés, operando justiça a todos
os que nEle creem.
Ao cumprir o antigo Pacto de Obras, Cristo herdou a bênção prometida
da vida eterna. Quando a lei de Moisés disse: “faça e viva”, Jesus fez, e agora
Ele vive,[256] e pela fé aqueles que são justificados também viverão
(Romanos 1:17). Nesse sentido, o Pacto de Obras estabeleceu o Pacto da
Graça. Nas palavras de Herman Witsius:
O Pacto da Graça não é a abolição, mas sim a confirmação do Pacto de
Obras, na medida em que o Mediador cumpriu todas as condições
desse pacto, de modo que todos os crentes possam ser justificados e
salvos, de acordo com o Pacto de Obras, cuja satisfação foi realizada
pelo Mediador.[257]
Este é o objetivo principal do pacto mosaico: lembrar ao homem o que
é necessário para ter um relacionamento com Deus. Graças a Deus, esse foi o
pacto em que Cristo nasceu e o pacto que Ele satisfez plenamente.
Então, qual foi o propósito da Antiga Aliança? Ela foi projetada por
Deus para apontar o mundo para Jesus Cristo. Foi dada para estabelecer a
necessidade universal de um Salvador ao condenar o pecado no mundo.
Apontou para Cristo por meio de figuras em sombras da cruz em todos os
sacrifícios sangrentos. Mais importante ainda, foi o meio legal para Cristo
merecer a justiça, que Ele poderia então imputar ao Seu povo. Isso não é uma
digressão no Pacto da Redenção, mas uma progressão.
A NOVA ALIANÇA CUMPRE AS PROMESSAS
ABRAÂMICAS
Na Nova Aliança, as promessas espirituais de Abraão, prefiguradas pela
Antiga, são finalmente cumpridas. O estabelecimento da Nova Aliança
produziu a manifestação da Jerusalém celestial, o verdadeiro “Israel de Deus”
e as demais realidades eternas e espirituais. Dessa forma, a Nova Aliança é
uma aliança melhor, baseada em melhores promessas.
Assim como Moisés conduziu Israel à Terra Prometida, mas ele mesmo
não pôde entrar, a lei de Moisés é incapaz de conduzir Israel ou qualquer
outra pessoa ao descanso espiritual de Deus. Assim como Moisés antes de
sua morte foi autorizado a subir uma montanha, de onde poderia ter um
vislumbre daquela Terra Prometida, da mesma forma o melhor que a lei pode
fazer é conduzir os pecadores a uma montanha alta, porém “terrível”, de onde
eles possam ver a Cristo. Como Moisés, aqueles que (pela fé) veem Cristo,
todos morrem no topo dessa montanha (Deuteronômio 34:5; Romanos 7:9).
A ordem parece sempre ser primeiro o natural e depois o sobrenatural,
o físico e depois o espiritual. Assim como o nascimento natural vem antes do
nascimento espiritual, Ismael veio antes de Isaque e Esaú veio antes de Jacó.
Da mesma forma, os tipos físicos do Antigo Testamento vieram antes das
realidades espirituais do Novo Testamento. O templo físico, os sacrifícios de
animais e a lei escrita em pedra, tudo veio antes do corpo de Cristo, a morte
de Cristo e a lei escrita no coração. Os judeus e a circuncisão exterior eram
tipos da circuncisão espiritual do verdadeiro “Israel de Deus”. Assim como o
evangelista prega a lei antes de pregar o Evangelho, Deus revelou o Monte
Sinai antes de revelar o Monte Calvário.
Conclusão
Em conclusão, o pacto mosaico não era um pacto de graça, porque
era incapaz de cumprir as promessas espirituais a Abraão. Antes, o pacto
mosaico era apenas uma (1) aliança física, (2) que foi estabelecida para
condenar o pecado e apontar os pecadores a Cristo (não para cumprir o pacto
de Abraão), e (3) foi introduzido temporariamente até que o Messias
prometido viesse e cumprisse as promessas de Abraão com o estabelecimento
da Nova Aliança.
12
A DESCONTINUIDADE ENTRE A
ANTIGA E A NOVA ALIANÇAS

A teologia pactual pedobatista não só é falha porque ensina que a Antiga


Aliança é uma manifestação do Pacto da Graça, mas também é falha ao
ensinar que a Antiga e a Nova Alianças são essencialmente uma e a mesma
aliança sob duas administrações diferentes.
Porque o pacto mosaico não era um pacto de graça, não é
essencialmente o mesmo que a Nova Aliança da graça; a diferença entre a
Antiga e a Nova Alianças é que a primeira é de obras e a segunda, de graça.
A natureza de cada uma dessas alianças não poderia ser mais diferente. Não
apenas diferem em suas naturezas, mas diferem em seus participantes,
substâncias, durações e eficácias. Além disso, essas quatro coisas não são
características periféricas que pertencem apenas às administrações dessas
alianças, mas componentes fundamentais que pertencem a suas próprias
essências. Se esses quatro elementos (participantes, substância, duração e
eficácia) não são os mesmos na Antiga e na Nova Alianças, então é
impossível que elas sejam essencialmente idênticas.
Neste capítulo, nos concentraremos nos três primeiros — os
participantes, a substância e a duração de cada aliança, e no capítulo seguinte
examinaremos suas diferentes eficácias.
Participantes Diferentes
Os presbiterianos afirmam que ao longo da história os membros do
Pacto da Graça sempre foram “crentes em sua descendência”. Os
presbiterianos argumentam que se o Pacto da Graça incluiu crianças em cada
uma de suas manifestações no passado, então a presente manifestação (a
Nova Aliança) também deve incluí-las. Como James Bannerman declarou:
“A menos que o Pacto da Graça, em resumo, sob a igreja do Novo
Testamento seja outro pacto do que era sob o Antigo Testamento, os infantes
devem ter um lugar agora tanto quanto tiveram então”. Novamente,
pedobatistas argumentam que, se as crianças não estão incluídas na Nova
Aliança, então “a aliança deve ser alterada essencialmente em sua extensão
— deve ser uma aliança diferente para as partes com quem é feita”.[258]
É verdade que Deus fez o pacto abraâmico com Abraão e sua
descendência. No entanto, aprendemos com o Novo Testamento que esta
descendência não estava se referindo aos judeus incrédulos, mas a Cristo
Jesus e aqueles que estão em união com Ele. A “aliança da promessa” foi
estabelecida com Abraão e sua esposa Sara; pela fé, eles foram capazes de
abraçar as promessas de Deus, “sem terem recebido as promessas; mas
vendo-as de longe, e crendo-as e abraçando-as” (Hebreus 11:13). Isaque e
Jacó também estão incluídos nos participantes originais do pacto abraâmico.
No entanto, quando Deus pessoalmente renovou esse pacto com eles, eles,
como Abraão, criam em Deus. Assim, eles também eram verdadeiros crentes.
É verdade que o pacto abraâmico foi estabelecido com os crentes.[259] Isso
também é verdade em relação à Nova Aliança; a Nova Aliança é constituída
de crentes. Nenhum dos lados do debate nega isso.
No entanto, isso não era verdade em relação ao pacto mosaico. Embora
o pacto abraâmico e a Nova Aliança tenham sido estabelecidos com os
crentes, esse não foi o caso do pacto mosaico. Ao contrário da teologia
pactual pedobatista, a extensão e a natureza da membresia do pacto mosaico
não era a mesma que a do pacto abraâmico ou da Nova Aliança. Deus
simplesmente não estabeleceu o pacto mosaico com um grupo de crentes.
Pelo contrário, foi instituído com os descendentes incrédulos, ímpios e
carnais de Abraão segundo a carne. O livro de Hebreus deixa isso
extremamente claro. A maioria dos participantes iniciais do pacto mosaico
nunca confiou nas promessas de Deus. Aqueles que receberam o pacto
mosaico ao pé do Monte Sinai, em sua maior parte, morreram no deserto e
em sua incredulidade (Hebreus 3:19). Eles estavam na Antiga Aliança, mas
não em Cristo. Abraão, Isaque e Jacó eram todos verdadeiros crentes, mas o
pacto mosaico não foi estabelecido com eles:
E chamou Moisés a todo o Israel, e disse-lhes: Ouve, ó Israel, os
estatutos e juízos que hoje vos falo aos ouvidos; e aprendê-los-eis, e
guardá-los-eis, para os cumprir. O Senhor nosso Deus fez conosco
aliança em Horebe. Não com nossos pais fez o Senhor esta aliança,
mas conosco, todos os que hoje aqui estamos vivos
(Deuteronômio 5:1-3).
Não só Moisés distinguiu entre os patriarcas e a assembleia reunida ao
pé do Monte Horebe, mas ele prossegue dizendo que os primeiros
destinatários do pacto mosaico e seus descendentes eram e sempre foram uma
raça ímpia e iníqua de pessoas sem fé em Deus:
Pois tu és povo obstinado. Lembra-te, e não te esqueças, de que muito
provocaste à ira ao Senhor teu Deus no deserto; desde o dia em que
saístes do Egito até que chegastes a esse lugar, rebeldes fostes contra o
Senhor; pois em Horebe provocastes à ira o Senhor, tanto que o Senhor
se indignou contra vós para vos destruir (Deuteronômio 9:6-8).
“Falou-me ainda o Senhor, dizendo: Atentei para este povo, e eis que
ele é povo obstinado; Deixa-me que os destrua, e apague o seu nome de
debaixo dos céus” (Deuteronômio 9:13-14); novamente, ele lhes disse:
“Rebeldes fostes contra o Senhor desde o dia em que vos conheci”
(Deuteronômio 9:24). “Por isso me indignei contra esta geração, e disse:
“Estes sempre erram em seu coração, e não conheceram os meus caminhos.
Assim, jurei na minha ira que não entrarão no meu repouso” (Hebreus 3:10-
11). “E a quem jurou que não entrariam no seu repouso, senão aos que foram
desobedientes? E vemos que não puderam entrar por causa da sua
incredulidade” (Hebreus 3:18-19). “E disse: Esconderei o meu rosto deles,
verei qual será o seu fim; porque são geração perversa, filhos em quem não
há lealdade” (Deuteronômio 32:20).
Olhando para os pais da Antiga Aliança, Jeremias refere-se a eles como
desobedientes quebradores da aliança.
Porque deveras adverti a vossos pais, no dia em que os tirei da terra do
Egito, até ao dia de hoje, madrugando, e protestando, e dizendo: Dai
ouvidos à minha voz. Mas não ouviram, nem inclinaram os seus
ouvidos, antes andaram cada um conforme o propósito do seu coração
malvado; por isso trouxe sobre eles todas as palavras desta aliança que
lhes mandei que cumprissem, porém não cumpriram (Jeremias 11:7-8).
Toda a história de Israel é marcada pela desobediência. Não só os
primeiros membros do pacto mosaico percorreram os caminhos da
impiedade, como as sucessivas gerações de Israel continuaram a marchar na
mesma estrada idólatra da incredulidade. De Moisés a Samuel, Israel
permaneceu desobediente ao seu compromisso pactual. Por exemplo, depois
que Israel exigiu um rei, o Senhor fez esta acusação contra eles:
E disse o Senhor a Samuel: Ouve a voz do povo em tudo quanto te
dizem, pois não te têm rejeitado a ti, antes a mim me têm rejeitado,
para eu não reinar sobre eles. Conforme todas as obras que fizeram
desde o dia em que os tirei do Egito até ao dia de hoje, a mim me
deixaram, e a outros deuses serviram, assim também fazem a ti
(1 Samuel 8:7-9).
Amós, um contemporâneo de Isaías, clamou contra Judá: “Assim diz o
Senhor: Por três transgressões de Judá, e por quatro, não retirarei o castigo,
porque rejeitaram a lei do Senhor, e não guardaram os seus estatutos, antes
se deixaram enganar por suas próprias mentiras, após as quais andaram seus
pais” (Amós 2:4). O Senhor novamente julgou e caracterizou Israel como
uma nação iníqua e ímpia pelo profeta Isaías:
Ouvi, ó céus, e dá ouvidos, tu, ó terra; porque o Senhor tem falado:
Criei filhos, e engrandeci-os; mas eles se rebelaram contra mim… Ai,
nação pecadora, povo carregado de iniquidade, descendência de
malfeitores, filhos corruptores; deixaram ao Senhor, blasfemaram o
Santo de Israel, voltaram para trás (Isaías 1:2, 4).
Alguns anos depois, Jeremias repetiu essa acusação contra Israel:
Disse-me mais o Senhor: Uma conspiração se achou entre os homens
de Judá, entre os habitantes de Jerusalém. Tornaram às maldades de
seus primeiros pais, que não quiseram ouvir as minhas palavras; e eles
andaram após outros deuses para os servir; a casa de Israel e a casa de
Judá quebraram a minha aliança, que tinha feito com seus pais.
Portanto, assim diz o Senhor: Eis que trarei mal sobre eles, de que não
poderão escapar; e clamarão a mim, mas eu não os ouvirei
(Jeremias 11:9-11).
Daniel, setenta anos depois, confirma esta acusação contra Israel
(Daniel 9:11).
De Daniel até o final do cânon do Antigo Testamento, essa nação ímpia
nunca melhorou. Uma das últimas coisas que o Senhor disse aos judeus,
precedendo os quatrocentos anos de silêncio, é que eles foram e
permaneceram um povo desobediente: “Desde os dias de vossos pais vos
desviastes dos meus estatutos, e não os guardastes” (Malaquias 3:7).
Desde o começo até o fim, Israel havia sido uma nação ímpia. Em
Atos 7, Estevão prega uma mensagem centrada na desobediência contínua e
desenfreada dos judeus. Neste sermão, ele afirma o testemunho de Moisés,
Samuel, Amós, Isaías e Malaquias. Pregando aos líderes de Israel, Estevão
faz um resumo da história do povo judeu. Começando com a vida de Abraão,
ele resume muitos dos principais momentos da história de Israel. Em tudo
isso, seu foco não é tanto sobre a história de Israel, como sobre a rebelião
contínua e atual de Israel. O clímax de sua mensagem vem quando ele culpa
os atuais líderes de Israel da mesma desobediência que caracterizou seus pais:
Homens de dura cerviz, e incircuncisos de coração e ouvido, vós
sempre resistis ao Espírito Santo; assim vós sois como vossos pais. A
qual dos profetas não perseguiram vossos pais? Até mataram os que
anteriormente anunciaram a vinda do Justo, do qual vós agora fostes
traidores e homicidas; vós, que recebestes a lei por ordenação dos
anjos, e não a guardastes (Atos 7:51-53).
Não foi apenas este entendimento de Estevão, mas este foi o do
apóstolo Paulo. Em sua epístola aos Romanos, Paulo afirma que Israel
sempre foi e continua sendo “um povo rebelde e contradizente”
(Romanos 10:21). Portanto, os participantes do pacto abraâmico e do pacto
mosaico são claramente diferentes. O primeiro foi feito com crentes, o
último, com não crentes.
A pergunta 31 do Catecismo Maior de Westminster diz: “Com quem
foi feito o Pacto da Graça?”. Sua resposta é: “O Pacto da Graça foi feito com
Cristo como o segundo Adão e nEle com todos os eleitos como Sua
descendência”. Se isso é verdade, então o pacto mosaico não poderia ter sido
um pacto de graça pela razão óbvia de que seus membros não correspondem
à resposta a essa pergunta. Em outras palavras, para que o pacto mosaico
fizesse parte do Pacto da Graça, os israelitas descrentes e rebeldes, que
viveram fora de Cristo, deviam ser verdadeiros participantes e membros
oficiais do Pacto da Graça. Isso deixa um problema para a teologia pactual
pedobatista, pois não apenas ensina que os infantes não convertidos estão no
Pacto da Graça, mas também inclui seus pais incrédulos no mesmo pacto.
Isso, é claro, vai contra a resposta da pergunta 31 do Catecismo Maior de
Westminster.
Portanto, se o pacto mosaico era um pacto de graça, os pedobatistas
pactuais precisam responder a esta pergunta: Os israelitas não regenerados
eram membros oficiais e verdadeiros do pacto mosaico? Se disserem “não”,
então eles têm muitas passagens das Escrituras para explicarem. Se disserem
“sim”, então eles colocaram os pecadores não convertidos no Pacto da Graça,
o que torna o Pacto da Graça incapaz de realizar o que promete; eles fizeram
dele um Pacto de Graça apenas no nome, mas não no poder.
Como o Pacto da Graça é um pacto que traz salvação aos seus
participantes apenas pela graça, é evidente que o pacto mosaico não é um
pacto de graça, porque não garantiu a salvação aos seus participantes. É
evidente que a Antiga e a Nova Alianças não têm o mesmo tipo de
participantes: uma inclui apenas os crentes, enquanto a outra inclui
descrentes. Portanto, a Antiga e a Nova Alianças não são essencialmente a
mesma no que diz respeito aos seus membros.
Substâncias Diferentes
A substância da Antiga e da Nova Alianças é diferente. Elas não são
essencialmente a mesma; a Antiga Aliança era um pacto exterior e carnal,
enquanto a Nova Aliança é um pacto interior e espiritual. Ainda buscando
estabelecer a continuidade e a descontinuidade da Antiga e da Nova Alianças,
devemos salientar que a Antiga Aliança, embora de natureza física, continha
muitas coisas terrenas que prenunciavam as realidades espirituais da Nova
Aliança.

Antiga Aliança Nova Aliança


Entrada por nascimento físico Entrada pelo novo nascimento
Circuncisão era física e um ato exterior na
carne Circuncisão do Espírito no coração
Lei foi escrita sobre pedra Lei escrita sobre o coração
Adoração cerimonial exterior Adoração em espírito e em verdade
Um reino físico Um reino espiritual
Herança terrena Cidade celestial (Hebreus 11:10)
Temporal Eterna

Entretanto, o livro de Hebreus deixa claro que os membros da Nova


Aliança não devem se agarrar àquelas antigas sombras externas, agora que
herdaram a coisa real. John Brown, de Edimburgo, expôs isso:
Agora, não são as bênçãos prometidas na Nova Aliança estabelecida,
da qual Jesus Cristo é o mediador, incomparavelmente melhores do
que as bênçãos prometidas no estabelecimento da Antiga Aliança? O
que é o corpo comparado à alma? O que é Canaã comparada ao céu? O
que são sacrifícios e cerimônias e toda a pompa do culto levítico
comparados ao culto de uma mente iluminada, uma consciência
pacificada e um coração purificado?[260]
Apesar disso, os pedobatistas pactuais procuram se apegar à sombra da
circuncisão infantil. Ao fazê-lo, eles misturam as sombras ineficazes e
temporárias da Antiga Aliança com as realidades eternas e o poder da Nova
Aliança. Como eles fazem isso? Eles fazem isso conectando a circuncisão
infantil (um sinal de pertencimento a um povo terreno e físico) com o
batismo (o sinal de pertencimento a um povo celestial e espiritual). Como o
povo da Antiga Aliança era um povo físico e nacional, era apropriado que
seus infantes não convertidos fossem circuncidados e admitidos aos
privilégios nacionais de Israel.
Agora que a Nova Aliança foi estabelecida e as sombras da Antiga
Aliança foram removidas, o que filhos das trevas não convertidos têm a ver
com os filhos da luz? Agora que os sacrifícios levíticos, o templo físico e a
nação de Israel foram todos substituídos por realidades mais firmes, o que a
circuncisão infantil tem a ver com o batismo da Nova Aliança? Nada! O
primeiro ato significava que aquelas pessoas estavam entre os membros do
reino de Israel, enquanto o último ato significa que aquelas pessoas são
membros do reino de Deus.
Como a Antiga Aliança era uma sombra, pessoas não convertidas e
iníquas eram contadas entre o povo nacional de Deus. Porque a Nova Aliança
é a coisa real, nenhum filho da ira pode ser incluído entre o povo pactual de
Deus. O povo de Deus não pode mais ser visto como um povo físico ou uma
nação terrena (João 18:36).
A circuncisão infantil fez um bom trabalho ao sinalizar quem pertencia
ao antigo povo pactual nacional de Deus, mas o sinal da Nova Aliança só
deveria ser recebido por aqueles que conhecem pessoalmente o Senhor
(Hebreus 8:11).
Embora um objeto e sua sombra possam ser semelhantes, na medida
em que possuem a mesma forma exterior, são, no entanto, fundamentalmente
diferentes em substância. A Antiga Aliança é uma figura da Nova Aliança.
Uma imagem pode parecer o objeto que ela representa, mas não tem a
profundidade e a realidade da coisa real. Desta forma, a Antiga Aliança era
uma forma visível exterior das realidades espirituais da Nova Aliança. O
Israel ímpio pode ter simbolizado a igreja cristã, mas isso não significa que
eles são essencialmente os mesmos. A Antiga Aliança consistia
principalmente de incrédulos, mas somente aqueles que conhecem o Senhor
pertencem à Nova Aliança (Jeremias 31:34). A Nova pode parecer a Antiga
de várias maneiras; no entanto, permanece fundamentalmente diferente.
Portanto, a Antiga e a Nova Alianças não são equivalentes. A diferença é que
a Antiga Aliança não tem a realidade e o poder da Nova Aliança.
Durações Diferentes
A Antiga e a Nova Alianças não são o mesmo pacto sob duas
administrações, nem a Nova Aliança é uma manifestação mais completa da
Antiga Aliança. Por quê? Porque elas têm durações diferentes. A primeira
aliança, sendo abolida pela Nova Aliança, tinha uma duração fixa. A Nova
Aliança, por outro lado, nunca pode ser abolida enquanto Cristo permanecer
como seu cabeça legal. Em resumo, a Antiga era temporal, enquanto a Nova é
eterna.
Os pedobatistas pactuais afirmam que a Antiga Aliança não passou.
Eles dizem que foi ampliada e expandida pela Nova Aliança. Embora a Nova
Aliança seja uma aliança melhor e baseada em melhores promessas, eles
dizem que ela não substitui as promessas e condições da Antiga Aliança. A
Nova Aliança apenas torna a Antiga Aliança mais clara. Segundo eles, ela
não é uma aliança inteiramente nova; é apenas uma nova administração.
Embora Paulo declare que a glória da Antiga Aliança estava
desaparecendo (2 Coríntios 3:3-18), eles argumentam que permanece
brilhante, embora brilhando menos intensamente em contraste com a luz da
Nova Aliança. A antiga manifestação do Pacto da Graça é simplesmente mais
obscura em comparação com o brilho da manifestação do Novo Testamento.
Mas, novamente, devemos alinhar nossos pensamentos com a Palavra de
Deus. De acordo com Paulo, a Antiga Aliança era uma aliança temporária
(não uma administração) imposta a Israel até que a descendência prometida
de Abraão chegasse (Gálatas 3:19). Uma vez que Cristo estabeleceu a Nova
Aliança pelo derramamento de Seu sangue, a Antiga Aliança passou. Como
declara o autor de Hebreus, “a primeira [aliança]… Consistindo somente em
comidas, e bebidas, e várias abluções e justificações da carne, impostas até ao
tempo da correção” (Hebreus 9:1, 10). A correção, é claro, aconteceu quando
Cristo derramou Seu sangue e estabeleceu a Nova Aliança (Mateus 26:28).
“Dizendo Nova aliança, envelheceu [pepalaioke, obsoleto] a primeira. Ora, o
que foi tornado velho, e se envelhece, perto está de acabar [afanisten,
destruído]” (Hebreus 8:13). Literalmente, este versículo diz que a Antiga
Aliança estava envelhecida, tendo atingido o ponto em que precisava ser
jogada fora. Como um par de sapatos gastos, a Antiga Aliança não tinha mais
nada a oferecer. A Antiga Aliança não foi modificada nem reformada; ela foi
completamente anulada e substituída por uma totalmente nova. O que é dito
da regeneração também pode ser dito da substituição da Antiga pela Nova
Aliança: “as coisas velhas já passaram; eis que tudo se fez novo”
(2 Coríntios 5:17). Teria sido um erro derramar vinho novo em odres velhos
(Marcos 2:22).
O edifício da Antiga Aliança foi construído com materiais terrestres:
terra, pedra e madeira; ela foi estabelecida sobre um monte físico, escrita em
tábuas de pedra terrestres e centrada em torno de um templo feito pelas mãos
do homem. A Nova Aliança, por outro lado, é estabelecida sobre um
fundamento espiritual e celestial, e é construída pelo Espírito Santo a partir
de “pedras vivas” (1 Pedras 2:5). Isso é o que significa quando a Bíblia diz
que não chegamos a uma montanha terrena, isto é, o Monte Sinai que poderia
ser tocado com o braço da carne. “Mas chegastes ao Monte Sião, e à cidade
do Deus vivo, à Jerusalém celestial… e a Jesus, o Mediador de uma nova
aliança” (Hebreus 12:22-24). Em outras palavras, aqueles que entraram na
Nova Aliança não vieram ao Monte Sinai, uma aliança que é física e tangível,
mas ao Monte Sião, uma aliança que é espiritual e invisível.
Assim como houve uma agitação terrena na inauguração da Antiga
Aliança no Monte Sinai, o autor de Hebreus diz que, de acordo com a
profecia de Ageu, haveria outro tremor. Desta vez, porém, Deus não apenas
abalaria a terra (aquelas coisas que eram feitas de terra, pedra e madeira), mas
também abalaria os céus. Por quê? De acordo com nosso autor, para
significar “a mudança das coisas móveis, como coisas feitas, para que as
imóveis permaneçam” (Hebreus 12:27). Assim como um terremoto destrói
prédios feitos de materiais terrenos, esse tremor celestial era para eliminar
todas as sombras terrenas do Antigo Testamento. Foi para derrubar tudo o
que é tangível. Por quê? Para deixar para trás as coisas que não podem ser
movidas. “Por isso, tendo recebido um reino que não pode ser abalado”
(Hebreus 12:28). Isso, é claro, significa a remoção da Antiga Aliança pelo
estabelecimento da Nova.
Agora que a Antiga Aliança desmoronou, tudo o que resta são aquelas
coisas que não podem ser abaladas. A lei escrita nas pedras terrenas, que
foram quebradas, está agora escrita em tábuas de carne. O templo terrestre,
que foi derrubado em 70 d.C. pelo exército romano, é agora substituído pelo
templo celestial, que não pode ser atacado por nenhum exército. O antigo
reino pactual de Israel foi espalhado ao vento, enquanto o novo reino pactual,
consistindo no verdadeiro “Israel de Deus”, é um reino eterno que não tem
fim. A circuncisão nos prepúcios da carne, que foi produzida pelas obras das
mãos do homem, agora foi substituída pela circuncisão do coração, que
somente o Espírito efetua. A Antiga Aliança (consistindo em coisas que eram
terrenas, tangíveis e temporais) foi descartada e substituída por uma aliança
melhor, espiritual e mais duradoura. Como Brown observou, “tudo na nova
dispensação é sólido. Nós não temos o emblema da Divindade, mas o próprio
Deus; não é uma expiação típica, mas uma expiação real; não purificações
corporais, mas santidade espiritual: tudo é espiritual, tudo é real, tudo é
permanente”.[261]
Sim, essas realidades espirituais estavam presentes antes da Nova
Aliança, mas foram obscurecidas e encobertas pelas sombras terrenas e
temporais da Antiga Aliança. No entanto, agora que a Nova Aliança foi
estabelecida, a nação de Israel não é mais considerada o povo pactual de
Deus; o Senhor tirou o Reino deles e o deu a outro (Mateus 21:43). A partir
de agora, o Novo Testamento identifica a descendência de Abraão como
aqueles que creem (Romanos 2:28-29). As nuvens negras foram revertidas e
a glória do verdadeiro povo de Deus foi revelada.
A Antiga Aliança foi fundada sobre a lei, enquanto a Nova Aliança é
fundada sobre a fé. Como resultado, (1) a Antiga Aliança permaneceu até que
a fé fosse revelada e (2) a nação de Israel permaneceu até que a Antiga
Aliança fosse abolida e o verdadeiro povo espiritual de Deus fosse revelado.
A lei (Antiga Aliança) durou até que a fé fosse revelada. Como diz a
Escritura: “Antes que a fé viesse, estávamos guardados debaixo da lei, e
encerrados para aquela fé que se havia de manifestar. De maneira que [a
Antiga Aliança, isto é,] a lei nos serviu de aio, para nos conduzir a Cristo,
para que pela fé fôssemos justificados” (Gálatas 3:23-24). “Concluímos, pois,
que o homem é justificado pela fé sem as obras da lei” (Romanos 3:28).
“Mas, depois que veio a fé, já não estamos debaixo de aio. Porque todos sois
filhos de Deus pela fé em Cristo Jesus” (Gálatas 3:25-26). “Porque a lei foi
dada por Moisés; a graça e a verdade vieram por Jesus Cristo” (João 1:17).
Agora que a fé é revelada, os limites do povo de Deus foram abertos
para toda a raça humana. A nação de Israel não tem mais direitos exclusivos
às promessas da aliança de Deus. “É porventura Deus somente dos judeus? E
não o é também dos gentios? Também dos gentios, certamente, visto que
Deus é um só, que justifica pela fé a circuncisão, e por meio da fé a
incircuncisão” (Romanos 3:29-30). “Portanto, é pela fé, para que seja
segundo a graça, a fim de que a promessa seja firme a toda a posteridade, não
somente à que é da lei, mas também à que é da fé que teve Abraão, o qual é
pai de todos nós” (Romanos 4:16). “Porque todos quantos fostes batizados
em Cristo já vos revestistes de Cristo. Nisto não há judeu nem grego; não há
servo nem livre; não há macho nem fêmea; porque todos vós sois um em
Cristo Jesus. E, se sois de Cristo, então sois descendência de Abraão, e
herdeiros conforme a promessa” (Gálatas 3:27-29). Para citar John Brown:
Ela [a lei mosaica] fez duas coisas; servira ao seu propósito como
figura e como aio; e também mostrou que não poderia servir ao grande
propósito de uma economia salvífica; e, portanto, foi removida para
fora do caminho — um fim honroso foi colocado para ela, e em todas
as suas requisições ela tem sido cumprida em Cristo.[262]
Deste modo, a Antiga Aliança e a nação de Israel foram eliminadas e
substituídas por uma melhor aliança e por um povo melhor; uma aliança
baseada na “fé, para que seja segundo a graça”, e um povo que seria de fato
um tesouro particular para Deus (1 Pedro 2:9). “Porque, se o que era
transitório foi para glória, muito mais é em glória o que permanece”
(2 Coríntios 3:11).
Deve-se notar e entender que Deus não eliminou a Antiga Aliança e as
exigências da lei para tentar algo novo ou diferente (Salmos 89:34). Não foi
como se Deus tivesse cometido um erro no primeiro passo e precisasse tentar
novamente com uma aliança melhor. Deus não estava tentando estabelecer a
justiça pela lei, e quando isso falhou teve que voltar para a prancheta e então
decidiu substituir a lei pela graça. Não, para que a justiça seja estabelecida o
Pacto das Obras tem que ser cumprido primeiro (Mateus 5:18). Este foi o
único caminho. Como John Owen afirmou com firmeza: “Nada disso [Pacto
de Obras] poderia ser removido até que tudo fosse cumprido. Era mais fácil
remover o céu e a terra do que remover a lei, quanto ao seu direito e título
para governar as almas e consciências dos homens, antes que tudo fosse
cumprido”.[263]
Portanto, a pergunta que devemos fazer é como Deus poderia remover
o Pacto das Obras e substituí-lo por um Pacto de Graça? Não havia outra
maneira além de o homem executar e satisfazer todas as Suas exigências. O
pacto mosaico não poderia ter sido removido até que fosse perfeitamente
cumprido. Como isso aconteceu? Pela vida, morte e ressurreição de Jesus
Cristo. Cristo veio não para destruir a lei, mas para cumpri-la (Mateus 5:17).
Uma vez satisfeitas as maldições e exigências da lei, ela não tinha mais
autoridade legal. O que mais a lei pode exigir do que aquilo que foi
estabelecido por Cristo Jesus?
Visto que o Pacto das Obras é cumprido, ele não pode mais ameaçar e
governar o povo de Deus. Em virtude disso, era impossível que a Antiga
Aliança continuasse. Uma vez que a justiça foi estabelecida, a Antiga Aliança
foi removida e substituída por uma melhor aliança: uma aliança baseada em
melhores promessas. Portanto, o povo de Deus não está mais sob a lei, mas
sob a graça.
Conclusão
A teologia pactual pedobatista não pode estar certa porque a Antiga e
a Nova Alianças não são essencialmente uma e a mesma. Neste capítulo,
observamos as diferenças no que diz respeito aos seus participantes, às suas
substâncias e às suas durações. Mais importante ainda, como veremos no
próximo capítulo, elas diferem em suas eficácias.
13
DIFERENTES EM EFICÁCIA

A Antiga e a Nova Alianças são diferentes. Elas são duas alianças distintas.
Elas não somente têm diferentes participantes, substâncias e durações, mas
também têm diferentes eficácias. A Antiga Aliança não continha ou oferecia
graça (misericórdia imerecida — justificação, ou poder interior —
santificação) a seus membros, enquanto a Nova Aliança o faz. Ao contrário
da Antiga, a Nova Aliança é um pacto de graça, porque é eficaz em salvar
todos aqueles que são feitos seus membros. Primeiro, quem é feito
participante da Nova Aliança é justificado e, segundo, quem está nela
também é santificado.
No último capítulo, examinamos as três primeiras distinções entre a
Antiga e a Nova Alianças; neste capítulo, nos voltamos para a quarta e mais
importante distinção — uma distinção no poder.
A promessa que Deus fez com a nação de Israel foi baseada na
condição: “Se” você guardar meus mandamentos, “então” você, como nação,
será estabelecido como “meu povo”. A promessa do pacto mosaico não
apenas continha uma bênção: vida, mas continha uma maldição: morte.
Como Moisés elucida à nação de Israel, “te tenho proposto a vida e a morte, a
bênção e a maldição” (Deuteronômio 30:19). Vida e morte dependiam da
perfeita submissão obediente.
Isso era verdade em relação a Adão antes da queda e, é claro, ainda
permanece verdadeiro hoje para todo pecador que vive fora de Cristo.[264]
Assim como os judeus do passado, todo indivíduo nasce no Pacto das Obras.
Os pecadores nascem debaixo da lei e serão julgados de acordo com ela. O
salário da justiça é a vida, enquanto o salário do pecado é a morte.
Pela lei, Paulo achava que ele poderia obter a vida. Antes de sua
conversão, Paulo tinha a mesma mentalidade que o “jovem rico”. Com uma
visão elevada de suas próprias habilidades morais e uma baixa visão do rigor
da lei, ele sentiu que poderia obter a vida por sua própria justiça. Ele
acreditava estar vivo para Deus; isto é, até que ele percebesse o quão rigorosa
e exigente a lei realmente era. “E eu, nalgum tempo, vivia sem lei, mas, vindo
o mandamento, reviveu o pecado, e eu morri” (Romanos 7:9). Pela lei, ele viu
sua própria depravação e pecaminosidade.
Depois dessa iluminação, Paulo percebeu que a lei era incapaz de
conceder vida. Poderia prometer vida àqueles que pudessem obedecer, mas
não poderia proporcionar vida àqueles que não pudessem. “E o mandamento
que era para vida”, prosseguiu Paulo, “achei eu que me era para morte”
(Romanos 7:10). Isto é, onde estava escrito: “Faça isto e viverás”,[265]
também foi escrito: “Maldito todo aquele que não permanecer em todas as
coisas que estão escritas no livro da lei, para fazê-las” (Gálatas 3:10).
Portanto, Paulo concluiu que, em vez de o pacto mosaico ser uma
administração para a vida, era uma administração para “morte” e
“condenação” (2 Coríntios 3:7, 9). John Owen explicou:
O Antigo Testamento, absolutamente considerado, não tinha: [1.]
Nenhuma promessa de graça, para comunicar a força espiritual, ou
para auxiliar na obediência; nem [2.] qualquer vida eterna, a não ser
como estava contida na promessa do Pacto das Obras: “o homem que
fizer estas coisas, por elas viverá” [Gálatas 3:12].[266]
Em outras palavras, a lei escrita apenas sobre pedra nunca pode mudar
o coração de pedra. É capaz de apontar o pecado, mas nunca pode corrigi-lo
desde dentro. Mostra o padrão, mas depois deixa o homem desamparado.
Além disso, a lei não apenas é incapaz de ajudar os não regenerados, como
também os provoca a pecar. Não que a lei seja a causa do pecado. A lei não
força os pecadores a quebrar os mandamentos de Deus. A lei não é o
problema. A lei é perfeitamente santa (Romanos 7:12). Tudo o que a lei faz é
ordenar aos pecadores “o que fazer” e “o que não fazer”. Em vez de os
pecadores serem encorajados a se submeter e obedecer, por sua própria
natureza eles são provocados pela audição da lei a se rebelar. Isso é porque,
por sua própria natureza, eles odeiam ter qualquer autoridade sobre eles.
Portanto, devido ao fato de a humanidade ser tão orgulhosa, eles usarão a lei
de Deus como um motivo adicional para o pecado. Como Paulo pessoalmente
testifica: “Mas o pecado, tomando ocasião pelo mandamento, operou em mim
toda a concupiscência” (Romanos 7:8).
Aqui está o problema básico com o pacto mosaico; mesmo que esta
aliança seja boa e santa (baseada na lei justa de Deus), ela é incapaz de
conceder a vida porque é impossível para os pecadores manterem-na.
Portanto, a fraqueza da aliança não estava em suas leis, mas na depravação de
seus participantes: “Era impossível à lei, visto como estava enferma pela
carne” (Romanos 8:3).
A Falha e a Morte de Israel
Os descendentes físicos de Abraão, a nação de Israel, foram incapazes
de realizar a tarefa impossível de guardar os preceitos da Antiga Aliança.
Como o livro de Hebreus nos diz, “não podiam suportar o que se lhes
mandava” (Hebreus 12:20). Como o salmista declara: “Não guardaram a
aliança de Deus, e recusaram andar na sua lei” (Salmos 78:10). Ao longo de
sua história, Israel nunca cumpriu as exigências da aliança. Momentos antes
de sua morte, Estevão testificou dessa verdade, dizendo como Israel nunca
cumpriu a lei que lhes foi dada (Atos 7:53).
Como a lei não podia ajudar os judeus a cumprir os mandamentos, a
nação de Israel quebrou o pacto. Isso foi significado no princípio por Moisés
quebrando as duas tábuas de pedra em que a lei estava escrita. Israel, apenas
alguns dias depois de aceitar os termos do pacto, fez um bezerro de ouro e
transgrediu a própria lei que eles acabaram de comprometer-se a observar.
“Depressa se tem desviado do caminho que eu lhe tinha ordenado”
(Êxodo 32:8). O desejo de Deus de destruir Israel no deserto era justo. Deus
lhes disse: no dia em que vocês transgredirem o meu pacto, “certamente
perecereis” (Deuteronômio 8:19).
Além disso, Deus não estava obrigado pelo pacto abraâmico a conter
Sua ira. Para cumprir o pacto abraâmico, tudo o que Deus precisava fazer era
manter Moisés vivo e gerar uma nação a partir dele. Já que Moisés era filho
de Abraão, a descendência prometida (Jesus Cristo) poderia ter descendido
dele.
No entanto, Moisés intercedeu por Israel; e, embora Deus não tenha
desviado sua ira de Israel, Ele permitiu que a geração má vivesse um pouco
mais — não por causa deles, mas para preservar a descendência de Abraão.
Pois “Se o Senhor dos Exércitos nos não deixara descendência, teríamos nos
tornado como Sodoma, e teríamos sido feitos como Gomorra”
(Romanos 9:29), como Isaías predisse.
Embora Deus não tenha exterminado a nação de Israel naquele tempo,
Ele considerou esses israelitas particularmente responsáveis por seus pecados
e derramou sobre eles as maldições da lei a seu tempo. Eles foram
autorizados a viver um pouco mais, mas não encontraram graça aos olhos de
Deus. Antes, como Deus declarou a Moisés: “Aquele que pecar contra mim,
a este riscarei do meu livro. Vai, pois, agora, conduze este povo para onde te
tenho dito; eis que o meu anjo irá adiante de ti; porém, no dia da minha
visitação visitarei neles o seu pecado” (Êxodo 32:33-34). Em vez de a lei
trazer vida, ela trouxe a morte. Prova disso é que a primeira geração do pacto
mosaico morreu no deserto em sua incredulidade.
Portanto, desde o princípio, Israel quebrou a lei de Deus e desde o
princípio Deus os cegou e entregou a um coração de incredulidade. Quando
Moisés desceu do monte, ele foi forçado a se cobrir com um véu. A razão
disso, Paulo declara, era porque “suas mentes estavam cegas”.[267] Moisés
percebeu isso, pois lhes disse: “Porém, não vos tem dado o Senhor um
coração para entender, nem olhos para ver, nem ouvidos para ouvir, até ao
dia de hoje” (Deuteronômio 29:4). Ao longo de toda a sua história, Israel
nunca melhorou. Como Jeremias proclama:
Disse-me mais o Senhor: Uma conspiração se achou entre os homens
de Judá, entre os habitantes de Jerusalém. Tornaram às maldades de
seus primeiros pais, que não quiseram ouvir as minhas palavras; e eles
andaram após outros deuses para os servir; a casa de Israel e a casa de
Judá quebraram a minha aliança, que tinha feito com seus pais.
Portanto, assim diz o Senhor: Eis que trarei mal sobre eles, de que não
poderão escapar; e clamarão a mim, mas eu não os ouvirei
(Jeremias 11:9-11).
Portanto, Deus comissionou Isaías, dizendo: “Engorda o coração deste
povo, e faze-lhe pesados os ouvidos, e fecha-lhe os olhos; para que ele não
veja com os seus olhos, e não ouça com os seus ouvidos, nem entenda com o
seu coração, nem se converta e seja sarado” (Isaías 6:10). “Mas o meu povo
não quis ouvir a minha voz, e Israel não me quis. Portanto eu os entreguei aos
desejos dos seus corações, e andaram nos seus próprios conselhos”
(Salmos 81:11-12).
Mesmo no tempo de Paulo, esta cegueira permaneceu. Como Paulo
explica: “Deus lhes deu espírito de profundo sono, olhos para não verem, e
ouvidos para não ouvirem, até ao dia de hoje… Escureçam-se-lhes os olhos
para não verem, E encurvem-se-lhes continuamente as costas”
(Romanos 11:8, 10). Com exceção do pequeno remanescente que Deus
reservou para Si mesmo (o verdadeiro Israel espiritual), “Israel segundo a
carne” foi entregue à incredulidade universal desde o princípio — “Pois quê?
O que Israel buscava não o alcançou; mas os eleitos o alcançaram, e os outros
foram endurecidos” (Romanos 11:7).
Se não fosse por Deus preservar Israel por causa da descendência
prometida — Jesus Cristo — Ele teria destruído a nação de Israel há muito
tempo. No entanto, na plenitude dos tempos, com o cumprimento do pacto
abraâmico na pessoa de Cristo, todas as restrições foram removidas. Com a
abolição da Antiga Aliança e o estabelecimento da Nova, Deus finalmente
desencadeou todas as maldições da lei sobre a nação de Israel. A ira de Deus
“caiu sobre eles até ao fim (eis telos)” (1 Tessalonicenses 2:16).[268] Isto é,
porque “não permaneceram naquela minha aliança”, Deus, “para eles não
atentou” (Hebreus 8:9), e deixou sua “casa (linhagem familiar) deserta”
(Mateus 23:38). O pacto mosaico não só era incapaz de ajudar Israel a
cumprir a lei, como não oferecia piedade quando a lei foi quebrada. Bunyan
explicou isso com alguma clareza em seu livro The Doctrine of Law and
Grace Unfolded:
A lei, como é um pacto de obras, não permite qualquer arrependimento
para a vida, para aqueles que vivem e morrem sob ela. Porque a lei,
uma vez quebrada por você, nunca fala de bem a você e nem Deus
atenta para você, se você estiver debaixo dessa aliança, não obstante
todos os seus arrependimentos ou suas promessas de não voltar a fazer
aquilo novamente. “Não”, diz a lei, “você pecou, portanto eu devo
amaldiçoar-lhe, pois isso é minha natureza, e nada mais posso fazer
além de amaldiçoar, todo aquele que em algum ponto comete uma
transgressão contra mim” (Gálatas 3:10). “Como não permaneceram
naquela minha aliança, eu para eles não atentei, diz o Senhor”
(Hebreus 8:9). “Deixe-os clamar, não vou atentar para eles; deixe que
se arrependam, eu não os considerarei; quebraram a minha aliança e
fizeram aquilo em que eu não tenho prazer; portanto, por essa aliança,
amaldiçoo e não abençoo; condeno, e não salvo; franzo a testa, e não
sorrio; rejeito, e não acolho; cobro o pecado, e não o perdoo”.[269]
Em vez de o “princípio do cabeça federal” ser uma bênção, era o meio
supremo de destruir a nação de Israel. Isso pode ser visto nas palavras de
Cristo contra o Seu próprio povo: “Para que desta geração seja requerido o
sangue de todos os profetas que, desde a fundação do mundo, foi derramado;
desde o sangue de Abel, até ao sangue de Zacarias, que foi morto entre o altar
e o templo; assim, vos digo, será requerido desta geração” (Lucas 11:50-51).
Sabemos que essa profecia se concretizou, porque a teocracia judaica
perdeu sua aprovação divina, quando o véu do templo se partiu ao meio.
Jonathan Edwards afirmou: “A maior parte do povo [os judeus] foi entregue à
cegueira judicial e à dureza de coração”.[270] Jesus diz aos judeus que o reino
seria tirado deles e dado a outro povo que produziria o fruto da justiça
(Mateus 21:43). Novamente, Ele disse: “Mas eu vos digo que muitos virão do
oriente e do ocidente, e assentar-se-ão à mesa com Abraão, e Isaque, e Jacó,
no reino dos céus; e os filhos do reino serão lançados nas trevas exteriores”
(Mateus 8:11-12). Jesus advertiu acerca da certeza do julgamento, quando
disse: “Porque dias virão sobre ti, em que os teus inimigos te cercarão de
trincheiras, e te sitiarão, e te estreitarão de todos os lados; e te derrubarão, a ti
e aos teus filhos que dentro de ti estiverem, e não deixarão em ti pedra sobre
pedra, pois que não conheceste o tempo da tua visitação” (Lucas 19:43-44).
Podemos ler sobre a ira de Deus, que Paulo declara estar sobre a nação de
Israel, com mais detalhes na obra antiga sobre a história dos judeus escrita
por Flávio Josefo.[271]
Em vez de o pacto mosaico tornar os descendentes de Abraão um povo
verdadeiro, espiritual e celestial, Deus trouxe mais condenação sobre suas
cabeças, dando mais luz a seus corações cegos. Em vez de Israel receber as
bênçãos da aliança, eles receberam suas maldições.
Em resumo, o pacto mosaico não oferecia graça (misericórdia ou
ajuda). O problema, no entanto, não foi com o pacto, mas com a “fraqueza da
[de Israel segundo a] carne”.
Isso nos apresenta um problema. Deus prometeu a Abraão uma
descendência piedosa. Ele prometeu a Abraão que sua descendência seria o
“povo de Deus”. Se o pacto mosaico fosse incapaz de estabelecer um povo
espiritual, devido à “fraqueza da carne”, como Deus iria cumprir o pacto
abraâmico? A resposta é encontrada nos livros de Jeremias e de Hebreus.
O livro de Hebreus explica que o fracasso de Israel desencadeou dois
eventos importantes: primeiro, o estabelecimento da Nova Aliança e,
segundo, a revogação da Antiga Aliança.
Primeiro, porque Israel foi incapaz de manter a lei, Deus fez uma Nova
Aliança com a descendência de Abraão. “Se aquela primeira fora
irrepreensível, nunca se teria buscado lugar para a segunda. Porque
encontrado falta neles, lhes diz: Eis que virão dias, diz o Senhor, em que com
a casa de Israel e com a casa de Judá estabelecerei uma nova aliança”
(Hebreus 8:7-9, ESV).
Segundo, porque a descendência natural de Abraão foi incapaz de
cumprir o pacto mosaico, Deus aboliu o pacto mosaico: “Porque o precedente
mandamento é abrogado [anulado, revogado] por causa da sua fraqueza e
inutilidade” (Hebreus 7:18).
Aprendemos que a primeira aliança era fraca e inútil. Embora a Antiga
Aliança fosse uma boa aliança, baseada em uma lei santa, era completamente
impotente para perdoar o pecado e transmitir a justiça: “Pois a lei nenhuma
coisa aperfeiçoou” (Hebreus 7:19). No entanto, a fraqueza não estava na lei,
mas naqueles que estavam sob a lei (Romanos 8:3). Devido à incapacidade e
depravação dos israelitas, a primeira aliança foi falha e, portanto, tornou-se
“inútil”.
Porque a primeira aliança foi “inútil” no que diz respeito a estabelecer
um povo para Deus, ela precisava ser abolida e substituída por uma nova e
melhor aliança. Essa nova aliança, é claro, precisaria se basear em melhores
promessas (Hebreus 8:6).
Mais importante ainda, seria necessária uma aliança que pudesse
superar a “fraqueza [e pecaminosidade] da carne”. Porque todos pecaram e
estão destituídos da glória de Deus, a fim de que a Nova Aliança possa
estabelecer um povo justo para Deus, seria necessário ser capaz de perdoar
pecados e transmitir uma justiça que fosse alheia aos seus participantes. A
Nova Aliança precisaria ser capaz de fazer o que a Antiga Aliança não
poderia fazer.
A Ascensão e Sucesso da Igreja
Anos antes da revogação da Antiga Aliança, a Nova Aliança foi
prevista e explicada pelo profeta Jeremias, do Antigo Testamento. Em
Jeremias 31, o profeta, depois de notar a falha contínua de Israel em
satisfazer as exigências da aliança mosaica, falou de um dia em que Deus
faria uma Nova Aliança com a casa de Israel. Jeremias continua explicando
que essa Nova Aliança não seria igual à aliança mosaica. Seria uma aliança
diferente.
Eis que dias vêm, diz o Senhor, em que farei uma aliança nova com a
casa de Israel e com a casa de Judá. Não conforme a aliança que fiz
com seus pais, no dia em que os tomei pela mão, para os tirar da terra
do Egito; porque eles invalidaram a minha aliança (Jeremias 31:31-32).
Como Jeremias disse que a Nova Aliança seria diferente? Os
participantes da Antiga Aliança quebraram o pacto. A Nova Aliança, por
outro lado, seria inquebrável. Seria incondicional. Mais importante ainda,
seria eficaz para chamar um povo justo para Deus. Seria bem sucedida em
estabelecer a descendência de Abraão como “o povo de Deus”. “Mas esta é a
aliança que farei com a casa de Israel depois daqueles dias, diz o Senhor:
Porei a minha lei no seu interior, e a escreverei no seu coração; e eu serei o
seu Deus e eles serão o meu povo” (Jeremias 31:33).
Além disso, aprendemos, à luz do Novo Testamento, que a diferença
entre a Antiga e a Nova Alianças é a mesma que existe entre a lei e a graça. A
lei da Antiga Aliança era ineficaz para chamar um povo para Deus, enquanto
a graça da Nova Aliança seria eficaz em estabelecer um povo para Ele. A
graça dá aos seus destinatários o poder de se tornarem “povo de Deus”,
enquanto a lei era completamente impotente para fazê-lo: “Porquanto o que
era impossível à lei, visto como estava enferma pela carne, Deus, enviando o
seu Filho em semelhança da carne do pecado, pelo pecado condenou o
pecado na carne” (Romanos 8:3). Em outras palavras, a diferença entre lei e
graça é a mesma diferença entre a fraqueza e o poder. Os benefícios da Nova
Aliança (justificação, regeneração e santificação) demonstram esse poder.
A Justificação é Estabelecida pela Nova Aliança
A justiça, que é tão urgentemente necessária para se tornar um
participante do “povo de Deus”, é efetuada pelo poder regenerador do
Espírito Santo. Pela fé, os filhos espirituais de Abraão são justificados aos
olhos de Deus. Eles obtiveram a justiça pela graça “sem as obras da lei”
(Romanos 3:28). “Porquanto o que era impossível à lei, visto como estava
enferma pela carne, Deus, enviando o seu Filho em semelhança da carne do
pecado, pelo pecado condenou o pecado na carne; para que a justiça da lei se
cumprisse em nós, que não andamos segundo a carne, mas segundo o
Espírito” (Romanos 8:3-4).
Portanto, em vez de procurar viver e obter a vida pela lei, “o justo
viverá pela fé” (Gálatas 3:11). Deste modo, a Nova Aliança traz o perdão dos
pecados: “porque lhes perdoarei a sua maldade, e nunca mais me lembrarei
dos seus pecados” (Jeremias 31:34).
Essa é a diferença fundamental entre a Antiga e a Nova Alianças. A
Antiga Aliança condenou o homem ao apontar seu pecado, enquanto a Nova
Aliança livra o homem cobrindo e purificando o pecado, “porque a letra mata
e o espírito vivifica” (2 Coríntios 3:6).
A Santificação é Estabelecida pela Nova Aliança
A graça da Nova Aliança, no entanto, não termina na justificação; leva
à regeneração e à santificação. Pela graça, o Espírito de Deus escreveu a lei
sobre os corações daqueles que são justificados. Esta inscrição interna da lei
de Deus (acompanhada pela influência do Espírito Santo) capacita os filhos
de Deus com amor divino. Esse amor não apenas torna os filhos de Deus
dispostos, mas também capazes de cumprir os mandamentos libertadores de
Deus.
O fim da lei é o amor de um coração puro (Romanos 13:9;
Gálatas 5:14). Portanto, a lei escrita sobre o coração é nada menos do que o
amor de Deus derramado no coração do homem. O amor é o poder motivador
por trás de toda a obediência: “Porque este é o amor de Deus: que guardemos
os seus mandamentos; e os seus mandamentos não são pesados” (1 João 5:3).
Em outras palavras, aqueles que têm o amor de Deus em seus corações não
podem deixar de amar a Deus e a todos os Seus mandamentos. Esta é a nova
natureza.
A descendência física entrou no pacto mosaico por meio do nascimento
natural; a descendência espiritual entra na Nova Aliança por meio de novo
nascimento. Por causa disso, a descendência física possuía apenas seus
poderes naturais e físicos para ajudá-los a manter a lei. Por outro lado, a
descendência espiritual é auxiliada pelo poder regenerador e santificador do
Espírito Santo. “Mas agora temos sido libertados da lei, tendo morrido para
aquilo em que estávamos retidos; para que sirvamos em novidade de espírito,
e não na velhice da letra” (Romanos 7:6).
A Nova Aliança, ao contrário da Antiga, não deixa seus membros
impotentes. Equipa-os escrevendo a lei sobre seus corações e capacitando-os
com graça, uma dinâmica que os ensina a negar a impiedade e as
concupiscências mundanas, a viver sóbria, justa e piedosamente no mundo
presente (Tito 2:12). “E dar-vos-ei um coração novo, e porei dentro de vós
um espírito novo; e tirarei da vossa carne o coração de pedra, e vos darei um
coração de carne [regeneração]. E porei dentro de vós o meu Espírito, e farei
que andeis nos meus estatutos, e guardeis os meus juízos, e os observeis”
(Ezequiel 36:25-27).
Pedro explica aos seus leitores cristãos que eles são o cumprimento da
profecia de Jeremias: “Mas vós sois a geração eleita, o sacerdócio real, a
nação santa, o povo adquirido, para que anuncieis as virtudes daquele que vos
chamou das trevas para a sua maravilhosa luz; vós, que em outro tempo não
éreis povo, mas agora sois povo de Deus; que não tínheis alcançado
misericórdia, mas agora alcançastes misericórdia” (1 Pedro 2:9,10). Como
Paulo declara: “Como também diz em Oséias: Chamarei meu povo ao que
não era meu povo; e amada à que não era amada. E sucederá que no lugar em
que lhes foi dito: vós não sois meu povo; aí serão chamados filhos do Deus
vivo” (Romanos 9:25-26). “Mas, a todos quantos o receberam, deu-lhes o
poder de serem feitos filhos de Deus, aos que creem no seu nome; os quais
não nasceram do sangue, nem da vontade da carne, nem da vontade do
homem, mas de Deus” (João 1:12-13).
A promessa de que a descendência de Abraão seria o “povo de Deus”
encontrou seu cumprimento com o estabelecimento da Nova Aliança
(Romanos 15:8). Isso porque, como já aprendemos, a descendência espiritual
de Abraão é a verdadeira descendência prometida de Abraão. Em uma
palavra, a Nova Aliança fez o que a Antiga Aliança não conseguiu. O
objetivo é o mesmo, mas a eficácia é fundamentalmente diferente. Como
John Owen observou:
Pois a fraqueza e imperfeição da primeira [Antiga] Aliança foi
evidenciada por este meio, que aqueles com quem foi feita não
continuaram nela. Nisto Deus para eles não atentou e o pacto se tornou
inútil, ou pelo menos mal sucedido quanto ao fim geral de continuar a
relação entre Deus e eles, para que Deus fosse seu Deus, e eles, o Seu
povo… Aquilo que a primeira Aliança não poderia efetuar, Deus
prometeu realizar em e pela Nova [Aliança].[272]
A Lei na Nova Aliança
Não é como se a Nova Aliança não tivesse lugar para a lei; não é uma
aliança sem lei. O Pacto da Graça, assim como o Pacto das Obras, inclui a lei
moral de Deus. O padrão de justiça tem sido o mesmo ao longo da história da
redenção. “A tua justiça é uma justiça eterna” (Salmos 119:142). Como a lei
é um reflexo da bondade moral e da justiça de Deus, a essência da lei não
pode mudar a menos que haja uma mudança na imutabilidade de Deus.
Portanto, o que era pecaminoso antes do pacto mosaico era pecaminoso
durante o pacto mosaico e continua sendo pecaminoso na Nova Aliança.
Como diz o salmista: “A justiça dos teus testemunhos é eterna”
(Salmos 119:144). Com isso em mente, as definições de pecado e justiça não
mudaram com o estabelecimento da Nova Aliança e a revogação da Antiga.
O padrão moral de Deus é inalterável.
Embora a Nova Aliança não alterasse a essência da lei moral de Deus,
ela dava a esta uma função diferente. Na Antiga Aliança, a lei foi escrita em
tábuas de pedra e colocada sobre o pecador. Por causa disso, o pecador estava
debaixo da lei; portanto, estava obrigado pela lei a guardá-la para ser justo
aos olhos de Deus. Porque Israel estava indisposto e moralmente incapaz de
manter a lei, ela não trouxe nada além de condenação sobre eles. Por outro
lado, na Nova Aliança, a essência da lei moral de Deus foi escrita em tábuas
de carne. Nesse sentido, a lei não é mais colocada sobre o pecador, mas
dentro dele. As pessoas da Nova Aliança, em outras palavras, não estão
debaixo da lei, mas debaixo da graça. No entanto, esta graça não leva ao
pecado (Romanos 6:1-2). A graça realiza duas coisas: primeira, traz o perdão
do pecado pelo mérito da justiça de Cristo e, segunda, produz um desejo
verdadeiro e a capacidade interior de obedecer à lei de Deus. Dessa forma, a
Nova Aliança não elimina a lei de Deus, mas a estabelece.
É por isso que a lei tem dois rótulos diferentes. Na Antiga Aliança, é
chamada a lei da escravidão (Romanos 7:1; Gálatas 4:3-5, 3:21-25), enquanto
na Nova Aliança é chamada a lei da liberdade (Tiago 1:25, 2:12). A lei na
aliança mosaica levou à escravidão, porque exigia uma justiça que os
pecadores não podiam realizar, enquanto a lei na Nova Aliança leva à
liberdade, porque não encontra culpa naqueles que se firmam pela fé na
justiça de Cristo. A lei escrita em tábuas de pedra levou à escravidão, porque
se opunha aos corações teimosos e rebeldes dos israelitas; inversamente, a lei
na Nova Aliança é libertadora porque instrui os cristãos sobre como expressar
o amor que eles têm por Deus e por seus próximos. Os cristãos não se opõem
de modo algum a nenhum dos mandamentos normativos de Deus; eles se
deleitam nos estatutos de Deus, tanto quanto se deleitam no próprio Deus.[273]
No entanto, é por isso que a Antiga Aliança é chamada
“ministração/ministério da condenação”, enquanto a Nova Aliança é chamada
de “ministração/ministério da justiça” (2 Coríntios 3:9).
Houve uma mudança; a mudança não estava na lei de Deus, mas no
coração do homem. De acordo com Herman Witsius: “Toda a mudança está
no estado do homem, nenhuma na lei da aliança, segundo a qual o homem,
em qualquer estado que ele seja, é julgado”.[274]
Em resumo, tanto a Antiga quanto a Nova Alianças contêm a lei moral
de Deus, mas somente a última contém a graça necessária para estabelecer
essa lei no coração. Aquela coloca a lei sobre a pessoa e a deixa impotente; a
outra coloca a lei dentro da pessoa e capacita-a a amar e a obedecer à lei de
Deus. A Antiga Aliança trouxe condenação, enquanto a última Aliança
estabeleceu a justificação pela fé em Cristo Jesus. É a mesma lei, mas
aplicada a dois corações diferentes: um coração de pedra comparado a um
coração de carne.[275]
Graça no Antigo Testamento
Além disso, não é como se o Pacto da Graça estivesse inoperante sob o
reinado do pacto mosaico, mais do que o Pacto das Obras está agora
inoperante sob o reinado da Nova Aliança. Todos aqueles que foram salvos
no Antigo Testamento foram salvos pela graça, sem as obras da lei. Samuel,
Davi, Daniel e outros semelhantes nasceram todos como membros do pacto
mosaico, mas pela fé se tornaram membros do Pacto da Graça. Eles foram
circuncidados no coração (Deuteronômio 10:16) pelo Espírito de Deus e,
consequentemente, tornaram-se amantes interiores da lei (Salmos 119).
Conclusão
Em resumo, a aliança mosaica e a Nova Aliança não são a mesma
aliança. Elas não são a mesma aliança com algumas pequenas variações, mas
sim alianças completamente diferentes. Elas são diferentes em seus
participantes, substância, duração e poder.
14
A NATUREZA DA NOVA ALIANÇA

A árvore do batismo infantil está profundamente enraizada na continuidade


da Antiga e da Nova Alianças; contudo, de acordo com as Escrituras, o pacto
mosaico não era um pacto de graça, nem é o mesmo pacto que a Nova
Aliança. Os pedobatistas pactuais estão enganados em pensar o contrário.
Além disso, os princípios da Antiga Aliança (cabeça federal, uma teocracia
nacional e a distinção e perpetuidade racial), que foram identificados pela
circuncisão infantil, não correspondem à natureza da Nova Aliança.
Transferir a circuncisão infantil para o batismo é transferir os princípios
naturais da Antiga Aliança, que foram abolidos, para uma aliança nova e
espiritual na qual eles não se encaixam.
Cabeça Federal
Sob o pacto mosaico, as crianças não eram vistas independentemente
de seus cabeças federais. O povo de Deus da Antiga Aliança era
consistentemente recompensado ou punido coletivamente. Se o cabeça
federal (o rei) fazia aquilo que era correto aos olhos de Deus, a nação de
Israel era abençoada. No entanto, se o rei fazia o que era mau aos olhos de
Deus, a nação era amaldiçoada. O princípio do cabeça federal é a maneira
pela qual Deus lidou com a nação de Israel e com as famílias individuais nela
contidas. A justiça ou pecaminosidade do cabeça federal era imputada
àqueles que estavam sob ele. “Que guarda a beneficência em milhares; que
perdoa a iniquidade, e a transgressão e o pecado; que ao culpado não tem por
inocente; que visita a iniquidade dos pais sobre os filhos e sobre os filhos dos
filhos até a terceira e quarta geração” (Êxodo 34:7).
Por outro lado, Jeremias afirma que o princípio do cabeça federal (isto
é, com exceção do papel de cabeça federal desempenhado por Cristo) seria
completamente erradicado na Nova Aliança. “Naqueles dias nunca mais
dirão: Os pais comeram uvas verdes, e os dentes dos filhos se embotaram.
Mas cada um morrerá pela sua iniquidade; de todo o homem que comer as
uvas verdes os dentes se embotarão” (Jeremias 31:29-30). Em vez de julgar
os filhos pelo relacionamento legal ou pactual de seus pais com Deus, eles
são vistos independentemente e responsabilizados por seus próprios pecados:
“Mas cada um morrerá pela sua iniquidade” (Jeremias 31:30).
A descendência física de Israel por nascimento foi automaticamente
incluída no pacto mosaico. Jeremias, no entanto, deixa claro que o princípio
do cabeça federal e da perpetuidade nacional não se aplicaria à Nova Aliança.
[276]

No pacto mosaico, a maioria de seus participantes não conhecia a Deus.


Muitos adoravam ídolos pagãos e ofereciam orações ao sol e às estrelas, mas
pouquíssimos conheciam a Deus de uma maneira experimental. Os filhos
nasceriam no pacto, seriam circuncidados e, ainda assim, muitos, se não a
maioria, cresceria, viveria e morreria sem nunca ter um verdadeiro
conhecimento salvífico de Yahwéh. A diferença na Nova Aliança é que não
há quem não conheça o Senhor: “E não ensinará mais cada um a seu
próximo, nem cada um a seu irmão, dizendo: Conhecei ao Senhor; porque
todos me conhecerão, desde o menor até ao maior deles, diz o Senhor; porque
lhes perdoarei a sua maldade, e nunca mais me lembrarei dos seus pecados”
(Jeremias 31:34). Sabemos que isso se refere a um relacionamento salvífico,
porque Jeremias prossegue dizendo: “porque lhes perdoarei a sua maldade, e
nunca mais me lembrarei dos seus pecados”. Essa é a diferença entre a Antiga
e a Nova Alianças.
No entanto, a teologia pactual pedobatista afirma que os “filhos da
aliança” não convertidos são membros da Nova Aliança. Isso, no entanto, não
é o que a Palavra de Deus ensina. A noção de que filhos incrédulos estão na
Nova Aliança é contrária à natureza da Nova Aliança e é uma negação do
ensino expresso e enfático de Jeremias e do autor do livro de Hebreus do
Novo Testamento (Hebreus 8:8-13).
Teocracia
Outra grande diferença, que não deve ser menosprezada, é que a nação
de Israel era uma teocracia física, enquanto a igreja é um reino espiritual. Na
teocracia da Antiga Aliança, os judeus tornaram-se membros do povo
exterior de Deus pelo seu nascimento físico. Na Nova Aliança, os pecadores
da igreja se tornam parte do povo espiritual de Deus por seu nascimento
espiritual. Israel era uma nação carnal e física — uma teocracia. A igreja, por
outro lado, é um reino espiritual e uma nação celestial. Tudo o que era
necessário para entrar no primeiro era o nascimento natural, mas para obter
admissão na segunda o nascimento sobrenatural é necessário. Isso é o que
Jesus quer dizer quando afirma: “Na verdade, na verdade te digo que aquele
que não nascer da água e do Espírito não pode entrar no reino de Deus. O que
é nascido da carne é carne, e o que é nascido do Espírito é espírito” (João 3:5-
6).
Por que os filhos não convertidos são incapazes de entrar no reino de
Deus? Porque, ao contrário da nação de Israel, o reino dos céus não é nem
físico nem político, como Jesus explica aos judeus desorientados: “Meu reino
não é deste mundo” (João 18:36). Até mesmo o pedobatista pactual, Henri
Blocher, admite que “a falta de distinção entre igreja e nação leva a uma forte
afirmação do caráter misto da membresia (visível) da igreja”.[277]
O batismo infantil seria razoavelmente administrado às crianças, se a
igreja fosse um reino físico e terreno, contudo, tratando-se de um reino
espiritual e celestial, isso não tem lugar. O batismo infantil pode ter sido
adequado para a igreja da Inglaterra, sob a autoridade do rei Henrique, mas
não para a igreja de Deus, sob a autoridade do rei Jesus.
Perpetuidade Racial
Além disso, o princípio da “geração carnal” ou “perpetuidade racial”
não se aplica à Nova Aliança. O pacto mosaico foi perpetuado por uma
“geração carnal”. A gravidez e a maternidade foram o meio direto pelo qual
Deus ordenou manter viva a Antiga Aliança. Era natural que uma aliança
física e exterior fosse mantida por meios externos e físicos. No entanto, isso
não é verdade em relação à Nova Aliança.
A perpetuidade racial significa que as crianças entraram no Antigo
Pacto não pela fé de seus pais, mas pela nacionalidade deles. Por causa disso,
até filhos de incrédulos entraram no pacto mosaico. Geração após geração de
reis perversos governaram Israel. No entanto, os descendentes desses
governantes incrédulos ainda nasceram legalmente dentro do pacto mosaico.
Outrossim, a circuncisão era um sinal desse princípio.
Em contraste, na Nova Aliança não há distinções raciais. A Nova
Aliança se estende a todas as nações e tribos de pessoas. No reino de Deus
“não há grego, nem judeu, circuncisão, nem incircuncisão, bárbaro, cita,
servo ou livre; mas Cristo é tudo, e em todos” (Colossenses 3:11).
Como a Nova Aliança é capaz de transcender todas as barreiras raciais?
Porque, ao contrário da Antiga Aliança, ela não se perpetua pela raça, mas
pela fé. Ela é perpetuada pela obra contínua do Espírito Santo circuncidando
os corações de todos aqueles a quem Deus chamou para Si mesmo. A igreja
continua através do novo nascimento. Cristo prometeu que mesmo as portas
do inferno com todos os poderes das trevas seriam incapazes de prevalecer
contra ela. Enquanto o mundo continuar, o Espírito Santo estará trabalhando,
vivificando a quem Ele quiser e transmitindo fé salvífica aos novos membros
da Nova Aliança. Por fazer isso, até o fim dos tempos, Cristo não deixará de
lado a edificação de Sua igreja. Deste modo, e somente deste modo, a Nova
Aliança e a igreja do Novo Testamento são perpetuadas.
A diferença entre a Antiga e a Nova Alianças é que as pessoas entram
na Nova Aliança não por nascerem de uma determinada raça, mas por serem
“renascidas” em uma certa família — a família de Deus. A Antiga Aliança
teve sua continuação através da geração carnal; a Nova Aliança é sustentada
por meio da regeneração espiritual. Assim, a diferença fundamental entre a
Antiga e a Nova Alianças é a mesma que existe entre a carne e o espírito: “O
espírito é o que vivifica, a carne para nada aproveita” (João 6:63).[278]
Transferir a geração carnal para a igreja da Nova Aliança é
simplesmente um erro. Embora ter pais cristãos seja uma bênção e muitas
vezes é um meio usado por Deus para trazer crianças perdidas a Cristo, isso
não garante uma entrada automática na Nova Aliança, nem dá a nenhuma
criança um direito especial a ela; somente a regeneração espiritual pode
fazer isso.
O BATISMO INFANTIL E A NOVA ALIANÇA
Não só a Nova Aliança não deixa espaço para esses princípios da
Antiga Aliança, mas também o batismo infantil é contrário à natureza da
Nova Aliança. O batismo infantil não se harmoniza consistentemente com
algumas das doutrinas fundamentais do Novo Testamento, incluindo (1.) a
expiação substitutiva, (2.) a graça soberana de Deus na salvação e (3.) a
natureza da igreja.
Expiação Substitutiva
Cristo é o cabeça legal e o representante do Pacto da Graça. Portanto,
todos os membros do Pacto da Graça estão sob o encabeçamento federal de
Cristo Jesus. No primeiro Adão (cabeça federal do Pacto das Obras), todos
morreram. Da mesma forma, no segundo Adão (cabeça federal do Pacto da
Graça), todos foram vivificados (1 Coríntios 15:22; Romanos 5:19).
Thomas Boston, em sua famosa obra sobre o Pacto da Graça, explicou
a conexão entre os participantes do pacto e a expiação limitada: “Pois se o
Pacto da Graça foi feito com Cristo como representante, e os eleitos eram
somente a parte representada por Ele no pacto, então, certamente, as
condições do pacto, Sua execução e morte foram cumpridas apenas em favor
deles; e Ele não morreu por nenhum outro”.[279] Esta é uma confissão incrível
para um pedobatista.
No entanto, Thomas Boston estava certo. Cristo representou apenas os
membros verdadeiros e legais do Pacto da Graça em Sua morte substitutiva.
Assim, nenhum daqueles que morrem em seus pecados, embora
circuncidados/batizados como crianças, poderia ter sido membro do Pacto da
Graça. Isso porque, uma vez que uma pessoa está no pacto, Cristo é para
sempre Seu representante. Uma vez que Cristo se torne o seu representante
legal, é impossível que Cristo o abandone.
Portanto, é impossível que os não eleitos (em qualquer tempo) sejam
incluídos no Pacto da Graça. Cristo, o cabeça federal deste pacto, nunca
permitiria que qualquer pessoa de Sua descendência espiritual (aquelas a
quem Ele representava) enfrentasse a ira da punição eterna.
Por causa disso, os pedobatistas pactuais não apenas são obrigados a
dar espaço aos quebradores da aliança, mas, para serem consistentes, eles
também são forçados a dizer que Cristo não é o cabeça federal de cada
membro da aliança. Alguns dos membros bonafide do Pacto da Graça só têm
o primeiro Adão como seu cabeça federal; alguns dos membros terão que
enfrentar Deus no julgamento sem poderem contar com a intercessão de
Cristo.
Isso torna confuso o Pacto da Graça. Alguns de seus membros são
representados por Cristo, enquanto outros não são; alguns estão
completamente no pacto, enquanto outros apenas desfrutam parcialmente do
pacto. Mas em nenhum lugar as Escrituras falam de uma posição
“intermediária”. As pessoas estão no primeiro Adão ou no segundo Adão.
Elas estão perdidas ou salvas, na luz ou na escuridão, debaixo da lei ou
debaixo da graça. Elas estão no Pacto das Obras ou no Pacto da Graça. Os
pedobatistas não podem ter as duas coisas.
A Eficácia do Batismo Infantil
Dentro da teologia pactual pedobatista, há muita disputa sobre a
eficácia exata do batismo infantil. Até que ponto os filhos da aliança são
membros da aliança não é uma questão resolvida entre os pedobatistas
pactuais.
R.B. Kuiper foi ousado o suficiente para dizer que, quando Deus vai
decidir sobre para quem comunicar a graça salvífica, o relacionamento
familiar é uma das coisas consideradas em Sua decisão. “Mas isso nós
sabemos: na concessão da graça salvífica aos pecadores, Deus, embora não
esteja preso pelos relacionamentos familiares, ainda assim os leva em conta”.
[280]

A maioria dos pedobatistas pactuais evita tais comentários. No entanto,


muitos acreditam que os filhos da aliança são membros reais do Pacto da
Graça. Por exemplo, Robert Reymond, referindo-se ao Catecismo de
Heidelberg e à Confissão de Fé de Westminster, observa: “De acordo com
esses credos reformados, não apenas os pais crentes consideram seus filhos
como bênçãos de Deus, mas também devem considerá-los bonafide membros
do Pacto da Graça e da igreja de Deus”.[281]
Embora Reymond tenha alegado que esses bebês são membros
bonafide do Pacto da Graça, nem todos os pedobatistas pactuais os colocam
completamente neste pacto. Alguns são rápidos em apontar que, embora os
filhos da aliança tenham uma reivindicação legítima da aliança, eles não
possuem a posse dela até que se apropriem das promessas da aliança pela fé.
James Bannerman isso da seguinte maneira: “O bebê, aspergido com a água
do batismo… tem direito de propriedade nas bênçãos que o pacto contém; e
durante sua vida ele pode, por seu próprio ato pessoal, suplementar seu
direito de propriedade por um direito de posse obtido através da fé”.[282]
Bannerman continuou a dizer que, quando o bebê é mais velho, “ele carrega
consigo, em virtude de seu batismo, um direito de propriedade às promessas
do seu Deus; e lançando mão desse direito, e pleiteando-o a Deus em fé, ele
pode acrescentar-lhe o direito de possessão, e assim entrar no pleno gozo da
salvação que ele suplica para sua alma”.[283]
Embora muitos presbiterianos não acreditem que o batismo na água
seja um meio eficaz de regeneração, eles o veem como o sinal e o selo de que
os bebês, juntamente com seus pais crentes, entraram (percorreram todo o
caminho, ou pelo menos até a metade do caminho) no pacto. Na escada para
o céu, os filhos da aliança podem não estar no topo, eles podem não ter
subido tão alto quanto os cristãos verdadeiros, no entanto eles não estão, de
acordo com a teologia pactual pedobatista, por subir no primeiro degrau
como o restante dos filhos das trevas não batizados. Os filhos da aliança não
convertidos, embora sejam tão depravados quanto os outros filhos das trevas,
estão acima deles, de tal modo que podem pleitear por seu “direito de
propriedade” do Pacto da Graça.
Em tudo isso, não importa em que medida o batismo leva as crianças ao
Pacto da Graça: o menor grau compromete a graça. Uma coisa é ter nascido
privilegiado, outra bem diferente é nascer com direitos especiais à graça de
Deus. Embora muitos daqueles que apoiam o batismo infantil sejam os
defensores da doutrina da graça soberana de Deus — que diz que Deus
mostra misericórdia a quem Ele decide mostrar misericórdia,
independentemente de qualquer coisa dentro ou fora do indivíduo — nessa
área eles permanecem inconsistentes. Isso porque, de acordo com as
Escrituras, não há direito à graça gratuita de Deus. Isso é algo que acontece
estritamente por misericórdia; a fé de nossa mamãe e de nosso papai não
influencia a soberania de Deus nessa questão da salvação. Caso contrário,
isso enfraquece o próprio significado da graça livre e soberana. Além disso,
no Pacto da Graça não pode haver graus de participação. Os indivíduos estão
na graça ou fora da graça, no reino ou fora do reino, na luz ou na escuridão
(2 Coríntios 6:14). Cristo e Seu povo não podem ser divididos.
Isso não é negar que Deus em Sua soberania usa meios externos para
salvar os filhos de pais cristãos. A educação piedosa dos pais cristãos é uma
grande vantagem para qualquer criança. Ser criado na igreja e ouvir o
Evangelho é um grande benefício; ninguém negaria isso. No entanto, essas
bênçãos externas não dão a nenhuma criança um direito especial ou único à
graça gratuita de Deus. Nem lhes confere participação na Nova Aliança, mais
do que aos cônjuges incrédulos (1 Coríntios 7:14).
Pela fé, os filhos dos crentes podem alcançar e se apossar da salvação
em Cristo Jesus. Esta promessa de salvação, no entanto, não é mais especial
ou real para eles do que para qualquer outro filho das trevas que ouça a
mensagem do Evangelho. Qualquer criança perdida que ouve o Evangelho
pode vir a crer e ser salva. O Evangelho é tão gratuito para filhos de
incrédulos quanto para os filhos de crentes. “Porque a promessa” não diz
respeito somente “a vós, a vossos filhos”, mas também “a todos os que estão
longe, a tantos quantos Deus nosso Senhor chamar” (Atos 2:39). Sim, a
promessa de salvação é gratuita para nossos filhos, “vós e vossos filhos”, mas
não é mais gratuita para eles do que para aqueles “que estão longe”.
Colocar os filhos da aliança em um relacionamento especial com Deus
e colocar seus pés a meio caminho da porta de entrada no Pacto da Graça é
dar-lhes mais direito à salvação do que outra criança perdida que ouve o
Evangelho, e isso é contrário à doutrina da graça livre e soberana.
A Natureza da Igreja
Além disso, a continuidade da teologia pactual pedobatista força os
pedobatistas pactuais a chamar a nação de Israel de igreja. Embora muitas de
nossas Bíblias em inglês identifiquem as crianças dos hebreus no deserto
como a “igreja” (ekklesia, assembleia), essa frase em Atos 7:38 pode ser
facilmente entendida e traduzida como a congregação de Israel. De qualquer
maneira, quando se olha para o modo como o Novo Testamento define a
igreja de Deus, é difícil ver como a nação ímpia de Israel se encaixa nessa
descrição. A admissão de crianças não convertidas à membresia da igreja do
Novo Testamento é ainda mais estranha à definição bíblica da igreja.
Como a Bíblia define a igreja? Creio que Calvino está certo quando
afirma: “A igreja cristã é a massa ou reunião de todos aqueles que creem em
Cristo, que vivem na unidade do Espírito, da fé, da esperança e do amor; é
por isso que é chamada de comunhão dos santos”.[284] O puritano inglês
William Dell deu uma descrição bíblica da igreja quando afirmou:
[A] igreja é a comunhão dos santos, que é a comunhão que os crentes
têm uns com os outros; não nas coisas do mundo, nem nas coisas do
homem, mas nas coisas de Deus. Porque, assim como os crentes têm
sua união no Filho e no Pai, também neles eles têm sua comunhão; e a
comunhão que eles têm uns com os outros em Deus não pode ser em
suas próprias coisas, mas nas coisas de Deus, mesmo em Sua luz, vida,
justiça, sabedoria, verdade, amor, poder, paz e alegria. Esta é a
verdadeira comunhão dos santos, e esta comunhão dos santos é a
verdadeira igreja de Deus.[285]
As definições acima são admitidas tanto por pedobatistas como por
credobatistas. Contudo, os pedobatistas são forçados a adicionar um adendo;
juntamente com os verdadeiros crentes, eles anexam a frase: “e… seus
filhos”.[286] Isso significa que a igreja não é apenas a comunhão dos santos,
mas também a comunhão dos santos junto com seus filhos não convertidos.
Para justificar essa definição, eles dividem a igreja em dois aspectos, a igreja
interior, consistindo apenas dos eleitos, e a igreja exterior, que consiste tanto
dos eleitos como dos não eleitos.
Embora a Bíblia retrate a igreja como sendo universal e local, nunca
fala da igreja como uma mistura de santos e pecadores. A igreja é sempre
vista como a comunhão dos santos, como o corpo de Cristo e como o
tabernáculo de Deus tanto em seu contexto universal quanto em seu contexto
local. Sim, a igreja local indubitavelmente tem alguns não convertidos entre
seus membros. O joio sempre crescerá ao lado do trigo. No entanto, o Novo
Testamento nunca dá à igreja local qualquer autoridade de consciente e
propositalmente adicionar um filho das trevas na comunhão dos “chamados
para ser povo” de Deus. Uma coisa é ter falsos professos que sorrateiramente
entraram pela porta de trás, mas outra coisa completamente diferente é
admitir deliberadamente pela porta da frente pessoas que nunca professaram
a fé. Como o estudioso francês Alfred Kuen declarou:
Admitir como membros regulares da igreja aqueles homens, mulheres
e crianças que não experimentaram pessoalmente o arrependimento e o
novo nascimento, que nunca professaram a fé em Jesus como seu
Salvador e Senhor, é ignorar e destruir esta fronteira traçada por Jesus
e os apóstolos; é misturar “pessoas que estão fora” com “aquelas que
estão dentro”, é misturar os estranhos com os “membros da casa de
Deus”.[287]
Portanto, parece que o princípio hermenêutico da teologia pactual
pedobatista não apenas altera o ensinamento do Novo Testamento sobre o
batismo, como modifica o ensino do Novo Testamento sobre a natureza da
igreja cristã.
Conclusão
Em conclusão, o batismo infantil depende da unidade e continuidade
entre o pacto mosaico e a Nova Aliança. Como os teólogos pactuais
pedobatistas afirmam: “Se a igreja é uma em ambas as dispensações; se os
bebês eram membros da igreja sob a teocracia, então eles são membros da
igreja agora, a menos que o contrário possa ser provado”.[288]
Não, o pacto mosaico e a Nova Aliança não são o mesmo pacto. Eles
são construídos sobre princípios totalmente diferentes. A igreja do Novo
Testamento não é o mesmo que o Israel da Antiga Aliança. Os bebês foram
incluídos na Antiga Aliança porque ela foi construída sobre o princípio do
cabeça federal, um estado religioso teocrático, distinção racial e
perpetuidade física. A igreja da Nova Aliança, sendo de natureza espiritual,
eliminou todos esses princípios carnais. Ela é antes uma aliança que inclui
somente aqueles que conhecem o Senhor: “Porque todos me conhecerão,
desde o menor até ao maior deles, diz o Senhor; porque lhes perdoarei a sua
maldade, e nunca mais me lembrarei dos seus pecados” (Jeremias 31:34).
Uma vez que o pacto mosaico não faz parte do Pacto da Graça, e a
igreja do Novo Testamento não é a mesma que a nação de Israel, a
circuncisão infantil não pode ser conectada e transferida para o batismo.
15
O SIGNIFICADO DA CIRCUNCISÃO

Há alguns pedobatistas que objetam dizendo que a circuncisão não foi


inicialmente instituída com Moisés, mas com Abraão. Mesmo que o pacto
mosaico não faça parte da manifestação do Pacto da Graça, a circuncisão foi
dada a Abraão, e o pacto abraâmico é definitivamente um pacto de graça, eles
dizem. Essa objeção é alegada por Matthew Henry, que, depois de distinguir
entre os pactos abraâmico e mosaico, afirmou: “Nós construímos os direitos
pactuais dos infantes sobre a promessa feita a Abraão”.[289]
Portanto, os pedobatistas podem protestar dizendo que,
independentemente do pacto mosaico, a circuncisão foi estabelecida com
Abraão. O pacto abraâmico era um pacto de graça, e a circuncisão foi dada a
Abraão como sinal e selo deste pacto. Visto que o batismo é o substituto da
circuncisão, ainda é apropriado administrar o selo do Pacto da Graça à
descendência dos crentes. O que era verdade para Abraão e sua descendência
física deve ser verdade para os filhos espirituais de Abraão e sua
descendência física. Essa objeção é baseada principalmente em dois
versículos:
Esta é a minha aliança, que guardareis entre mim e vós, e a tua
descendência depois de ti: Que todo o homem entre vós será
circuncidado (Gênesis 17:10).
E [Abraão] recebeu o sinal da circuncisão, selo da justiça da fé
(Romanos 4:11).
Por exemplo, Jonathan Edwards uniu esses dois versículos quando
afirmou: “A circuncisão era um selo do Pacto da Graça, como aparece na
primeira instituição, já que temos um relato disso em Gênesis 17… E somos
expressamente ensinados que esta era um selo da justiça da fé
(Romanos 4:11)”.[290]
Esses versículos, no entanto, não dão apoio ao batismo infantil por pelo
menos dois motivos: Primeiro, a circuncisão da descendência de Abraão não
era um sinal ou selo do Pacto da Graça. Segundo, você não pode justificar o
batismo de infantes sem misturar a descendência natural de Abraão com a
descendência espiritual de Abraão. Neste capítulo, veremos Romanos 4:11 e,
no próximo capítulo, voltaremos nossa atenção para Gênesis 17:10.
Uma das inferências, sobre as quais o batismo infantil é edificado, é a
noção de que a circuncisão era o selo do Pacto da Graça no Antigo
Testamento. Os pedobatistas ensinam que a circuncisão era o sinal e selo do
Pacto da Graça no Antigo Testamento, enquanto o batismo é o sinal e selo do
Pacto da Graça no Novo Testamento. A partir dessa premissa, concluem que,
uma vez que os infantes receberam o sinal do Pacto da Graça na antiga
dispensação, o sinal do Pacto da Graça não deve ser negado a eles na nova
dispensação.
Portanto, baseado em Romanos 4:11, “[Abraão] recebeu o sinal da
circuncisão, selo da justiça da fé”, os pedobatistas supõem basicamente duas
coisas: Primeira, o que era verdadeiro sobre a circuncisão de Abraão também
deve ser verdadeiro sobre a circuncisão dos filhos de Abraão; e segundo,
porque os filhos de Abraão foram circuncidados, eles também devem ter tido
o mesmo selo da justiça da fé como teve Abraão.
Em resposta a essas duas suposições, devemos fazer a seguinte
reiteração: Primeiro, a natureza da circuncisão de Abraão não pode ser
perfeitamente comparada e unida à circuncisão da descendência de Abraão. A
circuncisão de Abraão e a circuncisão infantil não são idênticas. Segundo,
esta passagem não ensina que a circuncisão infantil era “um selo da justiça da
fé”, mas apenas ensina que a circuncisão de Abraão era “um selo da justiça
da fé”.[291] Terceiro, e por causa dessas coisas, a natureza da circuncisão
infantil e a aliança que ela significa devem ser verificadas para além de
Romanos 4:11. Em resumo, embora a circuncisão de Abraão fosse “um selo
da justiça da fé”, isso não significa que a circuncisão infantil também
significasse essa verdade.
A Circuncisão de Abraão e a Circuncisão Infantil
Quando os pedobatistas usam a circuncisão de Abraão como o
paradigma no qual eles podem basear o significado de toda circuncisão, eles
não enfatizam a ordem da circuncisão de Abraão em relação à fé de Abraão.
O apóstolo Paulo, no entanto, ao explicar o significado da circuncisão de
Abraão, não ignora o fato de que a circuncisão de Abraão ocorreu depois que
ele creu nas promessas de Deus. Paulo faz uma grande argumentação a partir
desse pequeno detalhe histórico. “E [Abraão] recebeu o sinal da circuncisão,
selo da justiça da fé, quando estava na incircuncisão” (Romanos 4:11). Essa
não é uma questão pequena para o apóstolo Paulo. Neste texto, ele se esforça
para esclarecer a ordem cronológica da fé de Abraão em relação à circuncisão
de Abraão.
Por que Paulo está tão preocupado com o momento da circuncisão de
Abraão? Ele explica a sequência da fé, da justificação e da circuncisão de
Abraão para demonstrar pelo menos duas coisas: Primeira, a circuncisão de
Abraão era diferente da circuncisão dos seus filhos. Segunda, para mostrar a
razão pela qual a circuncisão de Abraão é chamada de “selo da justiça da fé”.
1. A Diferença entre a Circuncisão de Abraão e a Circuncisão Infantil
A primeira razão pela qual Paulo está tão preocupado com o momento
da circuncisão de Abraão é mostrar aos judeus a distinção da circuncisão de
Abraão. O que é significativo nesse versículo é a singularidade da circuncisão
de Abraão. Isto é, há algo sobre a circuncisão de Abraão que não pode ser
dito sobre a circuncisão dos filhos de Abraão. Qual é a singularidade da
circuncisão de Abraão? Segundo Paulo, é que ela ocorreu após a sua fé, e não
antes. Essa importante distinção, portanto, indica que a circuncisão do crente
não é necessariamente a mesma que a circuncisão infantil. Por que Paulo está
tão preocupado em destacar a singularidade da circuncisão de Abraão? Para
demonstrar como os gentios incircuncisos podem ser filhos de Abraão.
Os judaizantes não conseguiam entender como os gentios poderiam ser
incluídos entre o povo da aliança de Deus sem serem circuncidados. Isso é
porque a circuncisão não era uma opção para os judeus. “E o homem
incircunciso, cuja carne do prepúcio não estiver circuncidada, aquela alma
será extirpada do seu povo; quebrou a minha aliança” (Gênesis 17:14). Para
ser considerado parte da família de Abraão, era necessário mais do que
apenas o nascimento natural. Os filhos de Abraão precisavam ser
circuncidados na carne ao oitavo dia. Os judeus sabiam disso e, portanto, não
podiam entender como os incircuncisos podiam entrar legitimamente para a
família de Deus.
É por isso que Paulo se esforça tanto para elucidar o momento da
circuncisão de Abraão. Ele quer explicar, a partir das páginas do Antigo
Testamento, como os gentios incircuncisos podem ser membros da família de
Abraão. Ele fez isso examinando o próprio Abraão, o pai dos judeus: “E
recebeu o sinal da circuncisão, selo da justiça da fé, quando estava na
incircuncisão, para que fosse pai de todos os que creem, estando eles também
na incircuncisão; a fim de que também a justiça lhes seja imputada”
(Romanos 4:11).
Em outras palavras, a circuncisão de Abraão explica como Abraão
poderia ser o pai de todos os crentes, tanto judeus como gentios,
independentemente de terem ou não sido circuncidados na carne. Como
Paulo declara em outra passagem: “Porque em Jesus Cristo nem a circuncisão
nem a incircuncisão tem valor algum; mas sim a fé que opera pelo amor”
(Gálatas 5:6). Como os gentios incircuncisos podem entrar para a família de
Deus? Pelo mesmo motivo que Abraão: pela fé.
Assim sendo,
▪ A circuncisão de Abraão mostra como os gentios pela fé podem fazer
parte do povo espiritual de Deus sem serem circuncidados, enquanto
▪ a circuncisão infantil mostra como os judeus podem fazer parte do
povo nacional de Deus sem a fé.
Nesse sentido, a circuncisão de Abraão tem mais em comum com o
batismo de crentes do que com a circuncisão infantil. Por exemplo, Robert
Haldane observou que a circuncisão de Abraão “foi designada como uma
figura ou sinal de sua paternidade, literalmente com relação a uma numerosa
descendência e espiritualmente de todos os crentes”.[292] Ou seja,
Romanos 4:11 mostra como a circuncisão de Abraão significa que ele é o pai
do Israel espiritual, e não simplesmente o pai do Israel nacional. Esta é a
primeira razão pela qual a circuncisão de Abraão é diferente da circuncisão
infantil.
Em segundo lugar, a circuncisão de Abraão, ao contrário da circuncisão
infantil, mostra como a descendência espiritual de Abraão pode ser declarada
justa sem ser circuncidada na carne. A circuncisão infantil era exigida da
descendência física de Abraão para obtenção da justiça da lei. Como nós
sabemos disso? Porque a circuncisão não era uma opção para a descendência
de Abraão. Eles eram obrigados por Deus a ser circuncidados na carne.
Contudo, isso por si só não prova que a circuncisão era necessária para a
justiça, mas, anexada às palavras de Paulo, não pode haver outra conclusão:
“Porque a circuncisão é, na verdade, proveitosa, se tu guardares a lei; mas, se
tu és transgressor da lei, a tua circuncisão se torna em incircuncisão”
(Romanos 2:25). Em outras palavras, Paulo está dizendo aos judeus que a
circuncisão deles é proveitosa apenas se estiver ligada à perfeita justiça.
Porém, nas mentes dos judeus, a circuncisão era de grande proveito.
Isso lhes dava entrada na aliança. Isso lhes conferia cidadania e status legal
na nação de Israel. Ela lhes era proveitosa na medida em que os separava dos
pagãos, dos bárbaros e dos gentios impuros e imundos. Ela lhes era
proveitosa na medida em que os separava do restante do mundo — “os
incircuncisos”. Portanto, como Paulo poderia dizer que a circuncisão não
tinha valor ou proveito, a menos que estivesse ligada a uma perfeita
obediência à lei de Deus? A questão é que Paulo só poderia dizer isso se a
circuncisão estivesse de alguma forma ligada à lei de Deus. Isso está de
acordo com as palavras de Cristo em outro lugar. “Se o homem recebe a
circuncisão no sábado, para que a lei de Moisés não seja quebrantada…”
(João 7:23). Portanto, deve-se concluir que a circuncisão, embora tem sido
instituída com Abraão, é inseparável da lei de Moisés.[293]
No entanto, ao enfatizar o momento da circuncisão de Abraão, Paulo
está apontando que uma pessoa pode ser declarada justa sem ser
circuncidada. “E recebeu o sinal da circuncisão, selo da justiça da fé, quando
estava na incircuncisão, para que fosse pai de todos os que creem, estando
eles também na incircuncisão; a fim de que também a justiça lhes seja
imputada” (Romanos 4:11). Paulo explica que existe outro jeito de ser
perfeito. Assim como Abraão foi justificado pela fé, os judeus e gentios
também podem ser declarados justos pela fé, à parte da obediência à lei de
Moisés e sem serem circuncidados na carne. Ao explicar a ordem da fé de
Abraão em relação à circuncisão de Abraão, Paulo prova que a circuncisão
não é necessária para a imputação da justiça.
Essa é a diferença entre a circuncisão de Abraão e a circuncisão
infantil. A circuncisão de Abraão mostra como uma pessoa pode ser
justificada à parte do ato da circuncisão, a circuncisão infantil não pode
significar essa verdade.
Por estas duas razões, a circuncisão de Abraão foi única.
2. A Importância dessa Diferença
Paulo não apenas indica que Abraão foi declarado justo antes de ser
circuncidado, mas também chama a circuncisão de Abraão de selo da justiça
da fé. A circuncisão infantil nunca é dita ser um selo de justiça da fé.
Reivindicar que o que era verdade sobre Abraão deve ser verdadeiro em
relação aos seus filhos é simplesmente uma alegação. Dizer que a circuncisão
infantil no Antigo Testamento era “um selo da justiça da fé” é ler esse texto e
ignorar a ênfase que Paulo colocou no momento da circuncisão de Abraão.
Faz sentido que a circuncisão de Abraão fosse “um selo da justiça da
fé”, porque ele foi declarado justo e tinha fé antes do selo. A razão pela qual a
circuncisão de Abraão é chamada de “um selo da justiça da fé” é porque ele
foi “justificado pela fé” (Romanos 5:1). Sua circuncisão era uma marca
exterior testificando e selando essa realidade interior.
O que Romanos 4:11 Não Ensina
Visto que Romanos 4:11 enfatiza as diferenças entre a circuncisão de
Abraão e a circuncisão infantil, este versículo não prova que a circuncisão
infantil era um selo da “justiça da fé”. Embora Romanos 4:11 ensine que a
circuncisão de Abraão é um sinal da fé, isso não significa que o mesmo seja
verdade em relação à circuncisão infantil.
Os pedobatistas, contudo, usam este versículo como um texto de prova
para apoiar o batismo infantil, mas eles o fazem sem antes verificar o seu
significado. Eles leem esse versículo rapidamente e fazem certas suposições,
mas falham em expor a ênfase principal de Paulo: o momento da circuncisão
de Abraão em relação à sua fé. Ao usar este versículo como apoio ao seu
argumento, eles falham em destacar esse detalhe tão importante.
Devido a essa distinção, é um erro usar Romanos 4:11 como um texto
de prova para apoiar o batismo infantil. Ele não tem relação alguma com a
explicação do significado da circuncisão infantil. Parece óbvio, após um
exame mais cuidadoso de Romanos 4:11, que não há evidências suficientes a
partir desse texto para supor que o que era verdadeiro para Abraão deve ser
igualmente verdadeiro para os filhos infantes de Abraão. Se a circuncisão
infantil é idêntica à circuncisão de Abraão, então Romanos 4:11 não é a
passagem para provar isso.
O Pacto Representado pela Circuncisão Infantil
Em terceiro lugar, por causa do que foi dito acima, o pacto
representado pela circuncisão infantil deve ser verificado fora de
Romanos 4:11. Que pacto era representado pela circuncisão da descendência
física de Abraão? A circuncisão infantil representa o Pacto da Graça, como
alegam os pedobatistas, ou representa outro pacto?
Vendo que essa é uma questão dupla, devemos primeiro olhar para a
descendência natural de Abraão, e depois olhar para a circuncisão da
descendência natural de Abraão.
1. O Pacto Representado pela Descendência Natural de Abraão
Primeiro, sobre a descendência de Abraão, existem dois tipos de
pessoas representadas: um povo físico e um povo espiritual. De acordo com
Paulo, essas duas descendências de Abraão representam duas alianças
diferentes: a aliança da promessa/Pacto da Graça e a aliança da
escravidão/Pacto de Obras (Gálatas 4:24). Sempre houve duas descendências:
a descendência da mulher e a descendência da serpente. Todavia, em Abraão
também há duas descendências, a saber, Ismael e Isaque. Ismael era a
descendência de Abraão e foi circuncidado, mas porque ele não era a
descendência prometida, ele representa todos aqueles que estão no Pacto de
Obras. Ele nasceu pelas obras da carne e por meio da mulher escrava. Em
outras palavras, Ismael nasceu da carne, e não do Espírito. Por outro lado,
Isaque, ao contrário de Ismael, era o filho da promessa. Ele nasceu de modo
sobrenatural, nasceu da mulher livre, e assim ele representa todos aqueles que
estão no Pacto da Graça. Mesmo assim, Paulo prossegue ilustrando a
verdadeira natureza das duas descendências de Abraão — natural e espiritual.
Ele explica que os filhos naturais e biológicos de Abraão representam aqueles
que estão na aliança da escravidão (Gálatas 4:25). Isso é porque a verdadeira
descendência sobrenatural, a descendência prometida, é Jesus Cristo e todos
aqueles que foram vivificados juntamente com Ele. “Ora, as promessas foram
feitas a Abraão e à sua descendência. Não diz: E às descendências, como
falando de muitas, mas como de uma só: E à tua descendência, que é Cristo”.
“E, se sois de Cristo, então sois descendência de Abraão, e herdeiros
conforme a promessa” (Gálatas 3:16;29).
Os filhos naturais de Abraão nasceram da carne e foram circuncidados
na carne. Assim, porque os judeus, como nação e como um todo, não
nasceram de novo pelo Espírito e não foram circuncidados no coração, eles
não eram o verdadeiro cumprimento do pacto da promessa mais do que
Ismael ou Esaú (Romanos 9:10-13). Como o Apóstolo Paulo enfaticamente
explica quando examina o cumprimento do pacto abraâmico: “Isto é, não são
os filhos da carne que são filhos de Deus, mas os filhos da promessa são
contados como descendência” (Romanos 9:8).
Além disso, assim como a descendência da serpente persegue a
descendência da mulher, os ismaelitas perseguiram os judeus ao longo de sua
história (Gênesis 16:12). E assim como os ismaelitas perseguiram os judeus,
os israelitas na época de Paulo perseguiam os cristãos: “Mas como então
aquele que era gerado segundo a carne perseguia o que o era segundo o
Espírito, assim é também agora” (Gálatas 4:29). Isso indica que a nação
judaica, em vez de ser a descendência da mulher, era e é a descendência da
serpente, como Jesus disse a um grupo de judeus que se gloriavam por serem
filhos de Abraão: “Vós tendes por pai ao diabo” (João 8:44). Assim, devemos
concluir que a descendência física de Abraão representa a aliança da
escravidão, enquanto a descendência espiritual de Abraão representa a
aliança da promessa.
2. O Pacto Representado pela Circuncisão Infantil
Em segundo lugar, sobre a circuncisão da descendência física de
Abraão, ela também representa a aliança da escravidão. Como alguém pode
ser tão ousado a ponto de fazer tal afirmação? Porque, como o Senhor
explicou aos judeus: “E o homem incircunciso, cuja carne do prepúcio não
estiver circuncidada, aquela alma será extirpada do seu povo; quebrou a
minha aliança” (Gênesis 17:14).
Com isso em mente, a circuncisão significa tudo para a descendência
natural de Abraão, mas não significa nada para a descendência espiritual de
Abraão: “Porque em Jesus Cristo nem a circuncisão nem a incircuncisão tem
valor algum; mas sim a fé que opera pelo amor” (Gálatas 5:6). Portanto,
como pode a circuncisão ser um sinal e selo da graça, se ela tinha proveito
aos filhos de Abraão se eles guardassem toda a lei? Por que os filhos naturais
de Abraão precisavam ser circuncidados se quisessem entrar e permanecer no
pacto? Em suma, como a circuncisão infantil pode ser um sinal e um “selo da
justiça da fé” se era requerido primeiro que esses infantes fossem
circuncidados e, em segundo lugar, que guardassem toda a lei?
Os pedobatistas pactuais ensinam que a circuncisão era o sinal e selo da
graça na Antiga Aliança. Isso é verdade no caso especial de Abraão, que
recebeu a graça antes de ser circuncidado, mas seria errado a circuncisão ter
esse significado para os seus filhos não regenerados e incrédulos. De fato, em
nenhum lugar as Escrituras afirmam que a circuncisão da descendência de
Abraão foi um sinal e selo do Pacto da Graça. Alguns podem apontar para
Romanos 4:11, mas, como já examinamos, essa é uma leitura irresponsável
do texto. Para uma explicação mais completa, veja a parte 2 deste livro.[294]
Por esta razão, não é apropriado tomar a circuncisão infantil e transferi-
la para o batismo, especialmente quando não há nenhum fundamento no
Novo Testamento para fazê-lo.
Conclusão
Embora a circuncisão de Abraão significasse a fé, isso não significa
que a circuncisão infantil também significasse a fé. Paulo está tão focado na
ideia de Abraão ter sido circuncidado depois de ter crido, que nós assumimos
que o que era verdade para Abraão também deve ser verdadeiro para a sua
descendência natural. Apenas porque ambos foram circuncidados não
significa que ambos eram membros do Pacto da Graça. E Romanos 4:11
mostra por que Abraão é o pai dos crentes; ele foi circuncidado como um
crente. Portanto, em vez de apoiar o batismo infantil, esse versículo dá mais
credibilidade ao batismo de crentes.
16
O ERRO DE INTEGRAR A CARNE COM
O ESPÍRITO

Segundo o pedobatismo pactual, os crentes devem batizar seus filhos porque


Abraão circuncidou seus filhos. Eles dizem que o sinal do Pacto da Graça
mudou da circuncisão para o batismo e que os pactos de Deus sempre foram
estabelecidos com os crentes e sua descendência. O que era verdade com
respeito a Abraão também é verdadeiro no que diz respeito a todos os crentes.
Para apoiar esse argumento, os pedobatistas se apoiam fortemente em
Gênesis 17:10 e Romanos 4:11.
No último capítulo, examinamos Romanos 4:11 e concluímos que o
que é verdadeiro em relação à circuncisão de Abraão não é necessariamente
verdadeiro em relação à circuncisão infantil. Neste capítulo, voltamos nossa
atenção para Gênesis 17:10: “Esta é a minha aliança, que guardareis entre
mim e vós, e a tua descendência depois de ti: Que todo o homem entre vós
será circuncidado”. Este é o outro principal versículo fortemente usado por
pedobatistas pactuais. Supostamente, esse versículo indica que Deus
estabelece todos os Seus pactos com “crentes e sua descendência”. Visto que
Abraão aplicou o sinal do pacto aos seus filhos, os crentes da Nova Aliança
devem fazer o mesmo.
Neste capítulo, procuraremos provar a impossibilidade de aplicar este
versículo ao batismo da Nova Aliança sem misturar as realidades físicas e as
realidades espirituais no processo.
REALIDADES NATURAIS E ESPIRITUAIS
É impossível apoiar o batismo infantil baseado em Gênesis 17:10 sem
integrar e confundir a descendência natural de Abraão com a descendência
espiritual de Abraão. Como veremos, essas duas descendências distintas
(natural e espiritual) devem ser mantidas distintas e separadas. A fim de
construir o argumento para o batismo infantil, os pedobatistas ensinam que o
que era verdade a respeito da descendência natural de Abraão também é
verdadeiro em relação à descendência espiritual de Abraão. Eles unificam
aquilo que deve ser mantido separado.
Ao usar Gênesis 17:10 como apoio para o batismo infantil, os
pedobatistas pactuais assumem três coisas básicas:
▪ O que era verdade sobre a descendência de Abraão deve ser verdade
para cada descendência de um crente da nova Aliança
▪ O que era verdade a respeito dos pactos do Antigo Testamento deve
ser verdadeiro com relação à Nova Aliança
▪ O que era verdade a respeito das famílias do Antigo Testamento deve
ser verdadeiro a respeito das famílias da Nova Aliança.
Descendências Naturais e Espirituais
A teologia pactual pedobatista ensina que os crentes devem batizar seus
filhos porque Abraão circuncidou seus infantes. Eles afirmam que o que era
verdadeiro para a descendência de Abraão deve ser igualmente verdadeiro
com relação à descendência dos crentes da Nova Aliança. No entanto, isso é
simplesmente misturar o que é natural com o que é sobrenatural. Por
exemplo, John Owen não conseguiu distinguir entre a descendência física e
descendência espiritual de Abraão quando afirmou: “As promessas feitas aos
pais eram que sua descendência infantil deveria ter uma participação igual na
aliança com eles”. Disto, Owen concluiu: “Os filhos dos pais crentes, que têm
cumprido a aliança de Deus, como a igreja de Israel o fez (Êxodo 24:7-8),
têm o mesmo direito e interesse com seus pais no pacto”.[295] O que era
verdade então deve ser verdade agora. Em outras palavras, o que era
verdadeiro em relação ao físico deve ser verdadeiro com relação ao espiritual.
Owen começou usando a palavra descendência com referência aos
descendentes naturais de Abraão e terminou usando o termo descendência
fazendo referência aos descendentes naturais dos descendentes espirituais de
Abraão. Contudo, ele fez essa mudança sem possuir nenhum fundamento
bíblico para tal. Deixe-me explicar.
Se a circuncisão da descendência física de Abraão em Gênesis 17:12
for usada como um mandamento para o batismo infantil, devemos determinar
se o significado da palavra descendência neste versículo está se referindo aos
descendentes naturais de Abraão ou seus descendentes espirituais. Embora a
palavra descendência possa ser aplicada a ambos, ela não pode ser aplicada a
ambos da mesma maneira e ao mesmo tempo. Confundir os dois é misturar
descendências diferentes (Levítico 19:19; Deuteronômio 22:9).
Se o termo descendência está se referindo à descendência natural de
Abraão, é limitado apenas aos judeus. Por quê? Porque a descendência física
dos crentes gentios não pode ser contada entre os descendentes naturais de
Abraão. Ser filho de pais cristãos não faz do bebê uma parte da etnia de
Israel. Isso é óbvio. Por outro lado, se o termo descendência está se referindo
à descendência espiritual de Abraão, isso exclui todos aqueles que não são
nascidos do Espírito. Judeus incrédulos não têm mais direito a terem Abraão
como seu pai espiritual do que as pedras (Mateus 3:9). Essa distinção entre a
descendência natural e a descendência espiritual de Abraão parece simples,
mas a distinção é confundida pelos pedobatistas. Como David Kingdon
observou: “O Novo Testamento em nenhum lugar nos permite operar com o
conceito de uma descendência literal no contexto da igreja, mas isso é
exatamente o que os pedobatistas constantemente tentam fazer”.[296]
No entanto, se os pedobatistas dizem que o Pacto da Graça inclui os
filhos incrédulos, independentemente do novo nascimento, então eles fazem a
Nova Aliança incluir todos os judeus de hoje. Por quê? Porque os judeus
ainda são a descendência física de Abraão. Se eles disserem que a
descendência natural de Abraão não está mais no Pacto da Graça, então não
há garantia para dizer que qualquer filho natural (à parte da fé) esteja no
Pacto da Graça. Por quê? Porque o termo descendência em Gênesis 17:12 se
refere ou à descendência natural de Abraão ou à sua descendência espiritual,
nunca a uma mistura das duas. O termo descendência não pode significar a
descendência física da descendência espiritual; isto é, os filhos naturais dos
crentes nascidos de novo.
Em conclusão, o termo descendência em Gênesis 17:12 refere-se à
descendência natural de Abraão ou à sua descendência espiritual. É preciso
escolher. É impossível ter as duas coisas. Não pode se referir à descendência
natural da descendência espiritual de Abraão. Não há princípios
hermenêuticos que nos permitam inserir os descendentes da descendência
espiritual de Abraão neste versículo. Fazer isso seria um salto exegético
injustificado. Aqueles que usam a circuncisão da descendência natural de
Abraão como base para batizar os filhos dos crentes fazem isso misturando a
descendência física de Abraão com a descendência física da descendência
espiritual de Abraão, e essa é uma mudança injustificável.
Preservação Natural e Perpetuidade Espiritual
Em segundo lugar, os pedobatistas argumentam que o relacionamento
pactual de Abraão com Deus estabeleceu um precedente para todos os pactos
do passado. No passado, os relacionamentos pactuais de Deus sempre
consistiam em “crentes e sua descendência”. Deus sempre estabeleceu
relações com a unidade familiar. Todos os vários pactos do Antigo
Testamento foram feitos com a unidade familiar (“crentes e sua
descendência”). Por causa disso, os pedobatistas dizem que é altamente
improvável que a Nova Aliança seja diferente. O que era verdadeiro com
relação aos pactos do Antigo Testamento deve ser verdadeiro com relação à
Nova Aliança. Contudo, isso também está baseado em um fracasso em
manter separado o natural do espiritual.
No Antigo Testamento desde o início, Deus prometeu reverter os
efeitos da queda e redimir um povo eleito pela descendência física da mulher.
Por causa disso, foi necessário que os pactos do Antigo Testamento
incluíssem uma descendência natural entre seus participantes, isso em
preparação da vinda do Messias — a descendência prometida.
A razão pela qual esses pactos (noético, abraâmico e davídico)
incorporaram uma descendência física foi para preservar a raça humana de
ser obliterada pela ira de Deus, e isso aconteceu para preservar a
descendência natural (Jesus Cristo) da mulher.
Primeiro, se não fosse pela descendência prometida (Jesus Cristo), Noé
e sua família teriam sido colocados sob o dilúvio com o resto da humanidade.
Deus poupou Noé e seus descendentes físicos não porque eles eram justos em
si mesmos, mas porque Deus determinou estabelecer a justiça pela
descendência da mulher. Portanto, Noé e sua família foram poupados para
preservar essa descendência prometida. Isto é, se Noé e sua descendência
tivessem sido destruídos, então Cristo nunca teria nascido. Ou, vice-versa, se
não houvesse nenhuma descendência prometida, Noé e sua família teriam
perecido no dilúvio com o resto da humanidade. Além disso, se a raça
humana (uma descendência) não fosse preservada, todos aqueles homens de
fé que viveram antes de Noé, como Abel e Enoque, certamente também
teriam perecido em seus pecados sem um salvador. Portanto, nesse sentido, a
raça humana foi salva da aniquilação pela promessa da vinda de Jesus Cristo.
A preservação da família natural de Noé manteve a descendência da mulher
viva. A promessa de Deus em Gênesis 3:15 tornou isso possível.
Depois do dilúvio, Deus fez um pacto de preservação com Noé e sua
descendência natural. Deus jurou não destruir o mundo novamente com água.
Por que a descendência natural de Noé foi incluída nessa aliança? Deus
incluiu os descendentes de Noé para garantir a preservação de toda a raça
humana. Se a raça humana fosse eliminada antes da chegada da descendência
prometida, não haveria esperança de salvação para nenhum dos filhos de
Adão. Assim como aconteceu com os anjos caídos, ninguém seria salvo.
Assim, a descendência física (plural) de Noé foi incluída no pacto noético
para preservar a descendência singular — Cristo Jesus.
Além disso, um pouco mais tarde, Deus fez um pacto com Abraão e sua
descendência física. Por que a descendência física de Abraão foi incluída?
Por dois motivos. Primeiro, porque o Salvador do mundo deveria nascer de
uma mulher e Deus prometera a Abraão que ele seria o pai terreno dessa
descendência. Isto é, Cristo deveria ser a descendência física de Abraão. Em
vez de a descendência prometida vir de outro, Deus assegurou a Abraão que a
promessa seria cumprida nele (Gálatas 3:8). Por causa disso, o pacto
abraâmico foi feito com a descendência de Abraão (singular); “Ora, as
promessas foram feitas a Abraão e à sua descendência. Não diz: E às
descendências, como falando de muitas, mas como de uma só: E à tua
descendência, que é Cristo” (Gálatas 3:16). Portanto, a primeira razão pela
qual o pacto abraâmico incorporou uma descendência física foi devido ao
fato de que Cristo deveria ser o filho físico de Abraão. Em segundo lugar, os
descendentes naturais foram incluídos no pacto abraâmico não porque fossem
“os filhos da promessa”, mas porque seriam parte da linhagem genética da
qual Cristo viria. Como aconteceu com os pactos anteriores, a descendência
natural seria um meio de preservação. Quase dois mil anos se passariam antes
que o pacto abraâmico fosse cumprido. Portanto, a descendência de Abraão
(árvore genealógica) precisava ser protegida durante as gerações vindouras.
Sem haver algum tipo de proteção ou promessa, nada teria impedido Deus de
destruir os judeus. Sem haver uma descendência prometida [Jesus Cristo], os
filhos de Abraão teriam perecido sob a ira de Deus. “E como antes disse
Isaías: Se o Senhor dos Exércitos nos não deixara descendência, teríamos nos
tornado como Sodoma, e teríamos sido feitos como Gomorra”
(Romanos 9:29). Em suma, Deus incluiu a descendência natural de Abraão
não porque eles (como um todo) eram exclusivamente os “filhos da
promessa”, mas porque Deus desejava manter a descendência natural de
Abraão para preservar a verdadeira descendência prometida — Jesus Cristo.
Finalmente, o último grande pacto do Antigo Testamento foi o pacto
davídico. Ele também foi feito com Davi e sua descendência física. Por quê?
Pela mesma razão: preservar a casa de Davi até a chegada da descendência
prometida. Como sabemos, se não fosse por essa descendência prometida,
Deus teria destruído a linhagem de Davi muitas vezes.
O ponto é que, após a chegada da descendência prometida — Cristo
Jesus (a descendência da mulher) — não havia necessidade de a Nova
Aliança ser feita com uma descendência natural. Todos os pactos do Antigo
Testamento foram preservados e propagados pelos filhos naturais de seus
participantes. A razão disso era proteger a descendência prometida (Jesus
Cristo). No entanto, agora que a descendência prometida chegou, a
necessidade de preservação natural e perpetuidade carnal não são mais
necessárias. Por essa razão, a preservação natural e a perpetuidade carnal dos
antigos pactos foram revogadas.
O pacto com Noé preserva o mundo de ser novamente destruído pela
água, mas agora que Cristo veio nada impede que o mundo seja destruído
pelo fogo. A propagação do pacto abraâmico através da descendência natural
de Abraão também terminou em Cristo. Agora que a promessa foi cumprida,
o pacto abraâmico não é mais mantido através da descendência natural de
Abraão. A preservação judaica não é mais necessária para que todas as
nações do mundo sejam abençoadas. A perpetuidade carnal da aliança
davídica também terminou em Cristo. Uma vez que o Filho de Davi, Jesus
Cristo, nasceu, nenhum outro descendente de Davi jamais se assentará no
trono de Davi. Cristo não teve descendentes naturais; Ele sozinho sentará
para sempre e governará o trono davídico. Nenhum outro filho de Davi
jamais substituirá o rei Jesus (Isaías 9:7).
Portanto, comparar a perpetuação das várias alianças do Antigo
Testamento com a Nova Aliança é comparar as coisas naturais com as coisas
espirituais. Os pactos no Antigo Testamento foram preservados pela geração
carnal, enquanto a Nova Aliança é preservada pela regeneração espiritual.
Unidades Familiares Naturais e Espirituais
A terceira inferência baseada em Gênesis 17 é muito semelhante. Esse
argumento diz que o que era verdadeiro em relação à unidade familiar do
pacto abraâmico deve ser verdadeiro em relação à unidade familiar na Nova
Aliança. Por exemplo, James Oliver Buswell afirmou: “No Antigo
Testamento, a circuncisão era o sinal da relação pactual entre Deus e a
família piedosa…”.[297] Então, saltando da circuncisão para o batismo,
Buswell concluiu: “A consideração mais importante relacionada com a
discussão do batismo infantil é que Deus estabelece uma aliança com uma
família cristã”.[298] Da mesma forma, concernente à circuncisão, O. Palmer
Robertson declarou: “A relação íntima deste selo da aliança com a
propagação da raça indica que Deus intenciona lidar com as famílias…”. A
partir disso, ele também conclui: “A promessa da aliança, selada pelo ritual
de iniciação da circuncisão, se dirige à solidariedade da unidade familiar”.[299]
Ao fazer essas afirmações, no entanto, Buswell e Robertson fazem um
salto da unidade racial para a unidade familiar sem qualquer explicação. Sim,
Abraão circuncidou os seus filhos pequenos. No caso de Abraão, era verdade
que Deus lidou com os filhos de Abraão no contexto da unidade familiar. No
entanto, o lidar de Deus com a casa de Abraão não cessava com seus filhos
imediatos, estendia-se aos seus netos e aos filhos destes. A circuncisão
continuava a ser administrada às gerações seguintes. Portanto, o que começou
como uma prática familiar acabou por ser uma prática racial. A nação de
Israel era, em essência, uma grande família. “Ouvi esta palavra que o
SENHOR fala contra vós, filhos de Israel, contra toda a família que fiz subir
da terra do Egito, dizendo: De todas as famílias da terra só a vós vos tenho
conhecido” (Amós 3:1-2).
Por causa disso, os filhos da aliança de pais judeus não crentes tinham
o direito legal e a responsabilidade de serem circuncidados. Esse ritual não se
baseava na fé incomunicável dos pais, mas no sangue de Abraão correndo
pelas veias dos participantes infantis. Como Abraão era o cabeça pactual dos
judeus, os descendentes distantes de Abraão tinham o direito de ser
circuncidados. Porque muitos (se não a maioria) dos judeus do Antigo
Testamento tinham pais incrédulos, não era o vínculo deles com seus pais
imediatos que lhes dava o direito de serem circuncidados, mas sua ligação
com o seu avô distante — Abraão.
Por outro lado, Cristo é o cabeça pactual da Nova Aliança. Portanto,
não é pelo sangue de Abraão, mas pelo sangue de Cristo que os participantes
da Nova Aliança entram em um relacionamento com Deus. É necessário
nascer de novo pelo Espírito e ser lavado pelo sangue do Cordeiro para obter
a membresia na Nova Aliança (João 3:5-6).
Ao contrário de Abraão, Cristo não tem filhos terrenos. Portanto, na
Nova Aliança, a unidade familiar não é física. Pelo contrário, trata-se de uma
família celestial. A família de Cristo consiste naqueles que fazem a vontade
de Deus (Marcos 3:35). Esta família não é física em absoluto e, portanto, não
pode ser propagada por meios físicos.
O povo da Antiga Aliança de Deus não era apenas uma família, mas era
uma raça distinta de pessoas. A adesão à Nova Aliança, por outro lado, não
segue linhagens familiares e raciais. Todas as distinções raciais foram
abolidas. Além disso, o Evangelho nem sempre une a família, às vezes a
divide, como o próprio Senhor predisse: “Porque eu vim pôr em dissensão o
homem contra seu pai, e a filha contra sua mãe, e a nora contra sua sogra; e
assim os inimigos do homem serão os seus familiares” (Mateus 10:35-36).
Embora Deus muitas vezes possa salvar famílias inteiras, não há promessa
que garanta que os filhos não convertidos dos crentes um dia pertencerão a
Deus. Como Paulo explica aos judeus em Romanos 9, os decretos de Deus
(por exemplo, a eleição) não são limitados pelas relações familiares.
Embora a Nova Aliança não seja uma aliança baseada em laços naturais
ou genéticos, suas bênçãos não ficam aquém dos pactos do Antigo
Testamento. Os participantes da Nova Aliança têm Deus como o seu pai, a
Jerusalém celeste como mãe e muitos irmãos e irmãs espirituais no Senhor.
Portanto, sim, a Nova Aliança contém a unidade familiar, mas é muito
diferente da unidade familiar/racial terrena da aliança abraâmica. A primeira
era uma família natural e uma raça física, a segunda é uma família celestial e
uma nação santa.
Dizer que o que era verdadeiro em relação à família terrena de Abraão
deve ser verdadeiro em relação à família terrena do cristão é simplesmente
uma comparação desconexa. É comparar uma aliança natural com uma
aliança espiritual, e isso deve ser evitado.
Em resumo, dizer que a descendência natural dos crentes nascidos de
novo está incluída na Nova Aliança baseado no fato de que o pacto
abraâmico incluiu a descendência natural de Abraão é uma associação
injustificada. Há uma grande diferença entre os pactos do Antigo Testamento
e a Nova Aliança. Em uma palavra, a diferença é a mesma que existe entre a
carne e o espírito.
Conclusão
Em vez de a Nova Aliança ser feita com um povo terreno, físico,
político, étnico e nacional, é feita com um povo espiritual. A Nova Aliança
não está ligada a um reino terreno, mas a um reino espiritual. Ela é baseada
sobre o novo nascimento, não sobre o nascimento natural, sobre a
regeneração espiritual, não sobre a geração carnal e sobre a lei de Deus
escrita sobre o coração dos seus membros, não sobre tábuas de pedra.
Embora a Antiga Aliança seja um tipo físico e exterior do reino
espiritual de Deus, ela não faz parte do Pacto da Graça. Ela pode apontar para
o Pacto da Graça, mas isso não significa que era um pacto de graça. Isso
ocorre porque a Antiga Aliança estava baseada na obediência à lei, na
distinção étnica, na perpetuidade genética e no princípio do cabeça federal,
enquanto a Nova Aliança está enraizada na graça — o oposto de todas essas
coisas. A Nova Aliança é constituída de um povo celestial e é continuada e
perpetuada durante toda a era do Evangelho, não pelo nascimento natural,
mas pelo novo nascimento. Finalmente, é uma aliança na qual todos os que
estão incluídos conhecem ao Senhor e receberam o perdão dos pecados.
A teologia pactual pedobatista conduz ao batismo infantil porque falha
em manter a Antiga e a Nova Alianças separadas. Por causa disso, eles
combinam os aspectos físicos e exteriores da nação de Israel com o reino
espiritual de Deus — a igreja. Ao mesclar essas duas alianças, eles misturam
a circuncisão infantil: o sinal de ter nascido em uma nação física, com o
batismo nas águas: o sinal de ter nascido em uma nação espiritual. Considerar
o pacto mosaico como uma manifestação do Pacto da Graça é uma peça
importante do quebra-cabeças da teologia pactual pedobatista, mas é também
a sua falha fatal.
O Dicotomismo Pactual:
Continuidade e Descontinuidade
dos Pactos de Deus
INTRODUÇÃO

A teologia sistemática não pode ser evitada para aqueles que procuram
entender o todo da Escritura. A analogia da fé (analogia fidei)[300] exige que
comparemos a Escritura com a Escritura na formação de nossas posições
doutrinárias. Evitar passagens pertinentes ao estabelecer uma doutrina em
particular é, na melhor das hipóteses, ser um teólogo pobre. A Bíblia é um
cânon completo e, portanto, em sua totalidade deve moldar nossas crenças e
práticas doutrinárias.
Quando se trata de uma visão sistemática e holística da Escritura, nada
é mais vital do que uma compreensão adequada do relacionamento entre os
pactos de Deus — principalmente o relacionamento entre a Antiga e a Nova
Alianças. A teologia pactual molda o entendimento da soteriologia, da
eclesiologia e da escatologia, e, em particular, a visão da natureza e do futuro
de Israel, do reino de Deus, da igreja, das ordenanças e da natureza do retorno
de Cristo. Além disso, observar como a Bíblia é dividida em dois
Testamentos (o Antigo e o Novo) e compreender a continuidade e a
descontinuidade entre eles é primordial para o teólogo sistemático.
A parte 2 desta obra — Dicotomismo Pactual: A Continuidade e a
Descontinuidade dos Pactos de Deus — é uma apresentação sistemática das
relações entre os pactos de Deus. O objetivo desta seção é explicar a
continuidade e a descontinuidade entre a Antiga e a Nova Alianças, em que é
revelada a natureza dicotômica do pacto abraâmico.
O dicotomismo pactual enfatiza a importância do Pacto das Obras e um
Pacto de Graça no todo da história da redenção. Esses dois pactos (partes
dicotômicas) são ambos vitais no singular e único plano redentivo de Deus.
Mais particularmente, o dicotomismo pactual representa a natureza dual do
pacto abraâmico. O pacto de Deus com Abraão tem duas dimensões distintas
— uma natural, temporal e condicional, e outra espiritual, eterna e
incondicional. O pacto abraâmico é como uma moeda, um pacto único com
dois lados. Como veremos, essa é a chave para entender a continuidade e a
descontinuidade dos pactos de Deus.
1
ABRÃO

A chave para entender a continuidade e a descontinuidade entre a Antiga e a


Nova Alianças é encontrada em uma compreensão adequada da natureza do
pacto abraâmico. Depois de desvelarmos o pacto abraâmico, torna-se muito
mais fácil ver a conexão entre ele e os outros dois principais pactos: o pacto
mosaico e a Nova Aliança. Em outras palavras, ao procurar verificar a relação
entre a Antiga e a Nova Alianças,

é vital entender a natureza do pacto abraâmico e sua ligação com o pacto


mosaico
e sua ligação com a Nova Aliança.

Portanto, antes de procurarmos entender a continuidade e a


descontinuidade entre a Antiga e a Nova Alianças, devemos primeiro
compreender adequadamente a natureza do pacto abraâmico. Em nossa busca
para compreender a continuidade e a descontinuidade entre a Antiga e a Nova
Alianças, é crucial a compreensão da natureza do pacto abraâmico. Sem uma
visão precisa do pacto que Deus fez com Abraão, é quase impossível
entender o relacionamento entre os vários pactos da Bíblia. Devemos
procurar assegurar nossa fundação antes de construirmos sobre ela. Para fazer
isso, devemos começar aqui com o pacto abraâmico.
O pacto abraâmico incluía pelo menos quatro grandes promessas:
▪ Uma descendência
▪ Uma terra de descanso
▪ Que Abraão seria o pai de muitas nações
▪ E, finalmente, que os filhos de Abraão seriam o “povo de Deus”.
A chave para entender essas promessas é distinguir seu cumprimento
em dois níveis. Ou seja, há uma natureza dual ou dicotômica no pacto
abraâmico. Portanto, as promessas do pacto abraâmico devem ser vistas de
duas perspectivas. Cada promessa deve ser interpretada como tendo um lado
natural e um lado espiritual. Como chegamos a essa conclusão? Ao olhar para
a maneira como essas promessas foram cumpridas. Ao estudar o Antigo e o
Novo Testamentos, aprendemos que há um cumprimento físico e espiritual
para cada uma dessas promessas. As mesmas promessas têm dois
cumprimentos distintos.
Incluídos dentro dos cumprimentos naturais estiveram:
1. Uma descendência natural
2. Tipos e sombras
3. Uma condição
Incluídos dentro dos cumprimentos espirituais estão:
1. Uma descendência espiritual
2. Realidades espirituais
3. Uma garantia incondicional.
Confundir a natureza dual do pacto abraâmico é acabar com a
continuidade e a descontinuidade dos pactos. Procuraremos provar isso à
medida que avançamos, mas, por ora, é vital estabelecer o fato de que as
promessas do pacto abraâmico têm dois cumprimentos distintos.
Descendências Naturais e Espirituais
Primeiro de tudo, havia dois tipos de descendências (natural e
espiritual) representadas no pacto abraâmico. O Senhor disse a Abraão: “E
estabelecerei a minha aliança entre mim e ti e a tua descendência depois de ti
em suas gerações, por aliança perpétua, para te ser a ti por Deus, e à tua
descendência depois de ti” (Gênesis 17:7). A partir do Antigo e do Novo
Testamentos, aprendemos sobre o duplo cumprimento desta promessa.

1. Descendência Natural
Primeiro, havia a descendência natural de Abraão:
Esta é a minha aliança, que guardareis entre mim e vós, e a tua
descendência depois de ti: Que todo o homem entre vós será
circuncidado (Gênesis 17:10).
2. Descendência Espiritual
Em segundo lugar, há a descendência espiritual de Abraão:
Ora, as promessas foram feitas a Abraão e à sua descendência. Não
diz: E às descendências, como falando de muitas, mas como de uma
só: E à tua descendência, que é Cristo (Gálatas 3:16).
E, se sois de Cristo, então sois descendência de Abraão, e herdeiros
conforme a promessa (Gálatas 3:29).
Tipos e Antítipos
Além dos dois tipos de descendências, existem dois tipos de realizações
em relação às outras promessas abraâmicas. Existem as sombras da Antiga
Aliança e as realidades da Nova Aliança.

Deus cumpriu as promessas a Abraão de duas maneiras distintas.


Primeiro, o Senhor trouxe o cumprimento das promessas naturais, que
incluíam Isaque, a nação física de Israel e Canaã. Mais tarde, na plenitude dos
tempos, Deus cumpriu as promessas espirituais, que são encontradas nas
realidades da Nova Aliança. Esses cumprimentos espirituais incluem Jesus
Cristo, aqueles que estão em Cristo pela fé e o descanso celestial, que se
encontra em Cristo Jesus.
Não obstante, os cumprimentos naturais do Antigo Testamento
prenunciaram as realizações espirituais do Novo Testamento. Os reais
cumprimentos são as promessas espirituais a Abraão, que são reveladas na
Nova Aliança. Por reais, quero dizer eternos. Os cumprimentos naturais,
consistindo dos tipos e sombras temporários, não cumpriram as promessas
eternas e espirituais do pacto abraâmico. Isaque foi a descendência de
Abraão, mas não importa o quão abençoado foi enquanto filho, ele não pode
se comparar a Jesus Cristo, que é o verdadeiro cumprimento da descendência
prometida. Da mesma forma, o restante das realizações naturais não
corresponde às promessas espirituais dadas a Abraão. Embora a nação de
Israel fosse o povo externo de Deus, eles não podem se comparar ao
verdadeiro “Israel de Deus”, os santos, que são de fato o povo interno de
Deus.
Incondicional e Condicional
Em terceiro lugar, o pacto abraâmico era incondicional e condicional.
Era incondicional para a descendência espiritual de Abraão, mas condicional
por sua descendência terrena.
Embora as promessas de Deus em relação à descendência espiritual de
Abraão fossem incondicionais, para que sua descendência natural
permanecesse dentro do pacto ele deveria alcançar uma certa condição,
conforme registrado na inauguração do pacto abraâmico.
Disse mais Deus a Abraão: Tu, porém, guardarás a minha aliança, tu,
e a tua descendência depois de ti, nas suas gerações. Esta é a minha
aliança, que guardareis entre mim e vós, e a tua descendência depois
de ti: Que todo o homem entre vós será circuncidado. E circuncidareis
a carne do vosso prepúcio; e isto será por sinal da aliança entre mim e
vós. O filho de oito dias, pois, será circuncidado, todo o homem nas
vossas gerações; o nascido na casa, e o comprado por dinheiro a
qualquer estrangeiro, que não for da tua descendência. Com efeito será
circuncidado o nascido em tua casa, e o comprado por teu dinheiro; e
estará a minha aliança na vossa carne por aliança perpétua. E o homem
incircunciso, cuja carne do prepúcio não estiver circuncidada, aquela
alma será extirpada do seu povo; quebrou a minha aliança
(Gênesis 17: 9-14).

Inversamente, o lado espiritual do pacto abraâmico foi prometido a


Abraão e sua descendência espiritual com base na fé, sem quaisquer
condições.
Porque a promessa de que havia de ser herdeiro do mundo não foi feita
pela lei a Abraão, ou à sua posteridade, mas pela justiça da fé. Porque,
se os que são da lei são herdeiros, logo a fé é vã e a promessa é
aniquilada (Romanos 4:13-14).
Portanto, é pela fé, para que seja segundo a graça, a fim de que a
promessa seja firme a toda a posteridade, não somente à que é da lei,
mas também à que é da fé que teve Abraão, o qual é pai de todos nós
(Romanos 4:16).
O qual, em esperança, creu contra a esperança, tanto que ele tornou-se
pai de muitas nações, conforme o que lhe fora dito: Assim será a tua
descendência. E não enfraquecendo na fé, não atentou para o seu
próprio corpo já amortecido, pois era já de quase cem anos, nem
tampouco para o amortecimento do ventre de Sara. E não duvidou da
promessa de Deus por incredulidade, mas foi fortificado na fé, dando
glória a Deus, e estando certíssimo de que o que ele tinha prometido
também era poderoso para o fazer. Assim, isso lhe foi também
imputado como justiça (Romanos 4:18-22).
Para evitar quebrar o pacto abraâmico, os filhos de Abraão tiveram que
ser circuncidados. Se eles quebrassem esta aliança, deixariam de fazer parte
do povo da aliança de Deus (Gênesis 17:7). No entanto, aprendemos que
Abraão foi considerado justo antes de sua circuncisão. Pela fé, ele creu nas
promessas de Deus e depois foi circuncidado. Portanto, em relação à herança
espiritual, Abraão foi capaz de recebê-la pela fé sem obedecer a nenhuma
condição. Além disso, embora a descendência natural de Abraão fosse
obrigada a ser circuncidada, a circuncisão não tem nada a ver com a
descendência espiritual de Abraão (Gálatas 5:6).
Vem, pois, esta bem-aventurança sobre a circuncisão somente, ou
também sobre a incircuncisão? Porque dizemos que a fé foi imputada
como justiça a Abraão. Como lhe foi, pois, imputada? Estando na
circuncisão ou na incircuncisão? Não na circuncisão, mas na
incircuncisão. E recebeu o sinal da circuncisão, selo da justiça da fé,
quando estava na incircuncisão, para que fosse pai de todos os que
creem, estando eles também na incircuncisão; a fim de que também a
justiça lhes seja imputada; e fosse pai da circuncisão, daqueles que não
somente são da circuncisão, mas que também andam nas pisadas
daquela fé que teve nosso pai Abraão, que tivera na incircuncisão
(Romanos 4:9-12).
Pela fé, à parte da circuncisão, Abraão viu a Cristo (sua descendência
prometida) e se alegrou (João 8:56), pela fé ele buscou o verdadeiro descanso
espiritual (Hebreus 11:10) e pela fé ele se tornou o pai de muitas nações
(Romanos 4:17).
Portanto, aprendemos que duas descendências distintas são
representadas no pacto abraâmico. Isso está de acordo com o testemunho do
apóstolo Paulo: “Porque está escrito que Abraão teve dois filhos, um da
escrava, e outro da livre. Todavia, o que era da escrava nasceu segundo a
carne, mas, o que era da livre, por promessa”.
Nessa passagem, Paulo assemelha Ismael ao pacto mosaico, e Isaque à
Nova Aliança. “O que se entende por alegoria; porque estas [as duas
descendências] são as duas alianças” (Gálatas 4:22-24). Quais são essas duas
alianças? Eles são as duas alianças que brotam do pacto abraâmico, a aliança
das obras e a aliança da graça.
Conclusão
Em suma, a circuncisão era necessária para a descendência natural de
Abraão entrar no pacto abraâmico. Para o judeu natural, o pacto abraâmico
era condicional. Por outro lado, o pacto abraâmico é incondicional para
Abraão e sua descendência espiritual. Eles recebem as bênçãos do Pacto da
Graça através da fé.
2
OS DOIS FILHOS DE ABRAÃO

Entender a natureza dual do pacto abraâmico não é uma ideia nova. Muitos
estudiosos da Bíblia ensinaram isso ao longo dos séculos. Neste capítulo,
revisaremos alguns dos teólogos que dividiram o pacto abraâmico em duas
partes.
John Bunyan
John Bunyan, em seu livro The Doctrine of Law and Grace Unfolded,
fez um trabalho excepcional explicando a importância da natureza dual do
pacto abraâmico. Uma vez que mostraremos seu argumento com mais
detalhes no capítulo 6, apenas o aludimos aqui.
Em resumo, Bunyan não acreditava que o pacto abraâmico fosse dois
pactos separados, mas um pacto com duas partes.[301] Lei e graça foram
incluídas no pacto. Por um lado, sua condição foi cumprida pelas
obras/justiça de Cristo. Isso fez dele um pacto de obras. Por outro lado, ele
concede graça sem obras para aqueles que estão em Cristo pela fé. Nesse
sentido, é um pacto de graça. Como uma moeda, ele é um pacto singular
contendo dois lados.[302]
Nehemiah Coxe
Nehemiah Coxe foi o filho de Benjamin Coxe, que foi instrumental
para A Primeira Confissão de Fé Batista de Londres de 1644. Neemias, ele
próprio, foi ordenado ministro do Evangelho na igreja de Bedford sob o
célebre John Bunyan. Como seu pai antes dele, teria um papel influente em
outra monumental confissão de fé, A Segunda Confissão de Fé Batista de
Londres de 1689. Em seu livro, A Discourse of the Covenants that God made
with men before the Law [Um Tratado sobre os Pactos que Deus fez com os
homens antes da Lei], Coxe procurou estabelecer a verdadeira natureza do
pacto abraâmico.
Embora não adentremos na plenitude de seu conteúdo, este livro servirá
aqui para dar um breve resumo de seu pensamento geral sobre a dupla
natureza do pacto abraâmico.
Abraão deve ser considerado de duas maneiras: ele é o pai de todos os
verdadeiros crentes e o pai e raiz da nação dos israelitas. Deus entrou
em aliança com ele para ambas as descendências, e, visto que elas são
formalmente distinguidas uma da outra, seu interesse [ou participação]
na aliança deve, necessariamente, ser diferente e ser considerado de
maneira distinta. As bênçãos apropriadas a cada uma devem ser
transmitidas conforme seu peculiar e respectivo interesse na aliança.
Confundir essas coisas é um perigo manifesto às mais importantes
verdades da Religião Cristã.[303]
Coxe prosseguiu explicando que Deus havia estabelecido duas alianças
distintas com Abraão em dois períodos diferentes em sua vida. Abraão
recebeu um pacto de graça em Gênesis 12 e um pacto de circuncisão/obras
em Gênesis 17. Vinte e cinco anos separaram essas duas alianças uma da
outra. Segundo Coxe, a primeira aliança era um pacto de graça e a segunda
era um pacto de obras, que foi chamada de aliança da circuncisão. O Pacto
da Graça prometia a Abraão que nele todas as nações seriam abençoadas.
Isso foi em referência à descendência espiritual de Abraão, que incluiria
crentes de todas as raças de pessoas. A aliança da circuncisão, por outro lado,
prometia bênçãos a uma única nação. Esta nação estava limitada à
descendência física de Abraão.
Ao contrário de Coxe, eu acredito que as promessas de Deus a Abraão
em Gênesis 12 e 17 não podem ser separadas. Acredito que essas promessas
registradas nesses dois capítulos são parte do mesmo pacto. Ou seja, o pacto
tem dois cumprimentos, dois participantes e duas condições. Como David
Kingdon afirma: “O pacto feito com Abraão contém elementos pertencentes à
então presente dispensacional e elementos que vão além dela. Ele tem tanto
um aspecto temporal quanto um aspecto eterno, uma substância terrena e uma
substância celestial”.[304] Dessa forma, a natureza dupla do pacto abraâmico é
incorporada e revestida pelas mesmas promessas. Para Abraão e sua
descendência espiritual, foi uma aliança incondicional de graça. Para a
descendência natural de Abraão, incluindo Cristo Jesus, foi uma aliança de
obras. Isso é descrito nas duas descendências, que lutaram no ventre de
Rebeca: “Duas nações há no teu ventre, e dois povos se dividirão das tuas
entranhas, e um povo será mais forte do que o outro povo, e o maior servirá
ao menor” (Gênesis 25:23).
No entanto, embora eu discorde de Coxe nesse ponto menor, estou em
pleno acordo com sua principal premissa: o pacto abraâmico não pode ser
entendido adequadamente sem diferenciar e separar as duas alianças, que
brotam das promessas que lhe foram dadas. Coxe passou a afirmar:
Não há como evitar confusão e embaraços em nossa concepção dessas
coisas exceto mantendo perante nossos olhos a distinção entre as
descendências carnal e espiritual de Abraão, e as respectivas promessas
pertencentes a cada uma.[305]
Para ajudar a manter essas duas alianças distintas, Coxe demonstra
quatro diferenças entre elas:
A. Participantes Distintos
A primeira foi feita com Abraão e sua descendência espiritual, a última
foi feita com Abraão e sua descendência natural. A diferença é que a primeira
aliança (Pacto da Graça) incluiu todas as nações, enquanto a segunda aliança
(Pacto das Obras) incluiu apenas uma única nação. Coxe explicou isso:
Esta aliança da circuncisão adequada e imediatamente pertence à
descendência natural de Abraão… o Pacto da Graça dado
anteriormente a Abraão, que é: “Serás o pai de muitas nações”. Isso é
principalmente para ser entendido como se referindo à sua
descendência de fé recolhida indiferentemente de todas as nações como
aparece em Romanos 4:17.[306]
B. Meios de Entrada Distintos
A segunda razão pela qual o Pacto da Graça e a aliança da circuncisão
não devem ser confundidas é que a participação em uma delas não garante a
participação na outra:
Pois toda esta aliança da circuncisão dada à descendência carnal não
pode mais transmitir bênçãos espirituais e eternas a eles, como tal, do
que agora pode dar direito a um crente (embora um filho [espiritual] de
Abraão) às bênçãos temporais e típicas na terra de Canaã… apesar do
relacionamento que essa aliança [da circuncisão] tem com o Pacto da
Graça, ela ainda permanece distinta dele. Não pode conceder mais do
que bênçãos externas e típicas a uma descendência típica.[307]
O judeu tinha uma grande vantagem e havia proveito na circuncisão…
E, no entanto, tudo isso está aquém de um direito real, pessoal e
salvífico no Pacto da Graça.[308]
C. Alianças Distintas
A terceira razão pela qual não devemos confundir essas duas alianças é
que a aliança da circuncisão feita com a descendência carnal de Abraão não
impediu ou aboliu a Aliança da Graça feita com a descendência espiritual de
Abraão:
A aliança com a descendência carnal, que ocorreu primeiro, e aquele
muro de separação que seria levantado entre eles e outras nações (a
pedra angular que agora não deveria ser colocada na circuncisão) não
deveriam anular ou abolir o Pacto da Graça, ou o direito e privilégio da
descendência espiritual expressa nele, ou de qualquer parte dele. Em
vez disso, o primeiro foi adicionado e tornou-se subserviente ao grande
final deste último. A fonte da Nova Aliança de misericórdia, que Deus
antes havia aberto a todas as nações, não deveria ser calada novamente
por essa aliança. Os pagãos também não foram excluídos de herdar as
bênçãos de Abraão através da fé em Jesus Cristo por qualquer
privilégio ou direito conferido ao judeu. Assim, quando a aliança da
circuncisão foi dada à descendência carnal para separá-la
completamente de outras nações, aprouve a Deus reviver a lembrança
da promessa do Pacto da Graça que, no devido tempo, traria a salvação
aos gentios.[309]
D. Condições distintas
As diferentes condições das duas alianças são a quarta razão pela qual
Coxe as separa. Concernente ao Pacto da Graça, Coxe declarou: “Este é um
pacto que transmite a graça da vida aos pobres pecadores por uma promessa
livre e graciosa que não admite outra restituição para a participação no pacto,
exceto o crer”.[310] Concernente à aliança da circuncisão, Ele observa: “Pelo
pacto da circuncisão devemos entender aquele pacto de que a circuncisão era
o sinal ou símbolo ou aquele pacto no qual uma reestipulação era requerida
pela observação deste rito ou ordenança, como está em Gênesis 17:9-11”.[311]
R.B.C. Howell
Outro teólogo batista que defendeu um caráter dual do pacto abraâmico
é R.B.C. Howell. Howell foi um dos primeiros fundadores dos batistas do
Sul. Em seu livro The Covenants [Os Pactos], ele explicou que Deus fez três
pactos com Abraão. O primeiro pacto era a aliança da promessa
(Gênesis 12). O segundo pacto era a aliança da terra (Gênesis 15). O terceiro
pacto era a aliança da circuncisão (Gênesis 17). A primeira aliança era uma
aliança de graça, enquanto as outras duas eram alianças de obras.[312]
A aliança da promessa era o Evangelho. Baseou-se na graça e incluiu
todas as nações: “E em ti serão benditas todas as famílias da terra”
(Gênesis 12:3). As alianças da terra e da circuncisão eram ambas alianças da
lei e eram restritas a uma única nação: “E o homem incircunciso, cuja carne
do prepúcio não estiver circuncidada, aquela alma será extirpada do seu
povo” (Gênesis 17:14).
Embora a aliança da terra e a aliança da circuncisão não fossem
alianças de graça, separaram a descendência de Abraão do resto das nações
— os incircuncisos. Além disso, de acordo com Howell, esses pactos foram
planejados para “certificar o cumprimento da ‘promessa de Deus em Cristo’ a
Abraão”.[313] Isto é, essas alianças da lei não eram apenas salvaguardas que
protegiam a descendência prometida da interpolação dos gentios; elas
estavam verificando que Deus iria cumprir Sua promessa. Por causa dessas
alianças, os filhos de Abraão “estavam mais perfeitamente isolados, e havia
provas seguras, pelas quais as afirmações do Messias seriam estabelecidas”.
[314]

Charles Hodge
Por incrível que pareça, existe um influente teólogo pedobatista do
século XVIII que também entendeu a natureza dual do pacto abraâmico,
Charles Hodge. Embora ele não tenha consistentemente aplicado isso a toda
divisão de sua teologia sistêmica, ele separou as promessas de Abraão em
duas alianças distintas. A natureza dual do pacto abraâmico não poderia ter
sido mais claramente articulada por um credobatista. Na Princeton Review,
Hodge afirmou:
Deve ser lembrado que havia duas alianças feitas com Abraão. Por
uma, seus descendentes naturais através de Isaque constituíram uma
nação, uma comunidade externa; pela outra, seus descendentes
espirituais foram constituídos em uma igreja, [invisível, é claro, já que,
naquela época, a única organização formal era a da lei]. As partes da
Antiga Aliança eram Deus e a nação; em relação à outra, Deus e Seu
verdadeiro povo. As promessas da aliança nacional eram bênçãos
nacionais; as promessas da aliança espiritual (isto é, o Pacto da Graça)
eram bênçãos espirituais, como reconciliação, santidade e vida eterna.
As condições de uma aliança [a Antiga] eram a circuncisão e a
obediência à lei; as condições da outra eram, e sempre foram, fé no
Messias, como a descendência da mulher, o Filho de Deus, o Salvador
do mundo. Não pode haver um erro maior do que confundir a aliança
nacional com o Pacto da Graça [isto é, a Antiga Aliança com a Nova] e
a comunidade fundada em uma, com a igreja fundada na outra. Quando
Cristo veio, a comunidade foi abolida e nada foi colocado em seu
lugar. A igreja [agora visível] permaneceu. Não havia aliança externa,
nem promessa de bênçãos externas, sob a condição de ritos externos e
submissão. Havia uma sociedade espiritual, com promessas espirituais,
sob a condição de fé em Cristo. A igreja é, portanto, em sua natureza
essencial, uma companhia de crentes, e não uma sociedade externa,
exigindo meramente a profissão externa como a condição para a
membresia.[315]
Assim, alguém pode ter a certeza de que não estou tirando algo novo
das Escrituras. Esta visão tem sido mantida e propagada por muitos mestres
fiéis ao longo da história da igreja.
Embora alguns tenham objetado, como Pierre Charles Marcel, a
qualquer divisão do pacto abraâmico. Em defesa do batismo infantil, Marcel
afirmou:
O dispositivo pelo qual é feita uma tentativa de dividir o pacto
abraâmico em dois ou três pactos distintos um do outro, a fim de que,
para se adequar à conveniência de certas pessoas, um elemento carnal
possa ser inserido nele, não tem justificativa, pois quando a Bíblia se
refere ao pacto com Abraão sempre fala dele no singular e diz aliança,
e não alianças.[316]
Marcel, no entanto, não reconheceu a referência de Paulo em Gálatas às
duas alianças que surgiram de Abraão (Gálatas 4:22-24).
Conclusão
A natureza dual do pacto abraâmico deve ser entendida
adequadamente antes que se possa determinar o relacionamento bíblico entre
os pactos de Deus. Visto que expomos a natureza dual do pacto abraâmico,
podemos agora passar para o seu relacionamento com o pacto mosaico.
3
ABRAÃO E MOISÉS

Alguns ensinam que quase não há diferença entre os pactos abraâmico e


mosaico, enquanto outros ensinam que não há semelhanças entre eles. Existe
um elo entre os pactos abraâmico e mosaico? Ou eles estão completamente
desarticulados? Qual é a continuidade e a descontinuidade entre esses pactos?
Essas são perguntas que precisamos responder a seguir.
Os dispensacionalistas enfatizam a descontinuidade entre o pacto
abraâmico e mosaico, enquanto os pedobatistas pactualistas enfatizam a
continuidade entre esses dois pactos. Quem está certo? Nenhum dos dois.
Pelo contrário, assim como o pacto abraâmico tem um lado natural e outro
espiritual, há continuidade e descontinuidade entre os pactos abraâmico e
mosaico.
Continuidade
Com relação à continuidade, o pacto mosaico estendeu o lado natural
do pacto mosaico. Isto é, há um elo genealógico e histórico entre esses dois
pactos. Embora o pacto mosaico não seja o mesmo que o pacto abraâmico,
ele foi estabelecido com os descendentes naturais de Abraão. O pacto
mosaico não foi estabelecido apenas com qualquer raça de pessoas, foi
instituído com a descendência de Abraão. No sopé do Monte Sinai,
quatrocentos anos após o pacto abraâmico, o pacto mosaico foi estabelecido
com os filhos físicos de Abraão. Isso cria uma conexão histórica e natural
entre esses dois pactos. Além disso, o pacto mosaico continha as mesmas
promessas do pacto abraâmico. A promessa final é que a descendência de
Abraão seria o povo de Deus.
Entretanto, ao contrário do pacto abraâmico, o pacto mosaico não tinha
uma natureza dual: era estritamente uma aliança baseada em obras. O pacto
mosaico diz:
Agora, pois, se diligentemente ouvirdes a minha voz e guardardes a
minha aliança, então sereis a minha propriedade peculiar dentre todos
os povos… E vós me sereis um reino sacerdotal e o povo santo. E veio
Moisés, e chamou os anciãos do povo, e expôs diante deles todas estas
palavras, que o Senhor lhe tinha ordenado… Então todo o povo
respondeu a uma voz, e disse: Tudo o que o Senhor tem falado,
faremos (Êxodo 19:5-8).
Nisso vemos o relacionamento e a unidade entre os pactos abraâmico e
mosaico. Assim como a descendência natural de Abraão foi obrigada a ser
circuncidada para permanecer no pacto abraâmico, assim também é essa
condição a ser satisfeita no que diz respeito ao pacto mosaico. Mas a lei
mosaica explicava mais claramente a natureza da obediência que Deus exigia
dos filhos físicos de Abraão. Não só os machos eram obrigados a ser
circuncidados, eles eram obrigados a obedecer à totalidade da lei. “Porque a
circuncisão é, na verdade, proveitosa, se tu guardares a lei; mas, se tu és
transgressor da lei, a tua circuncisão se torna em incircuncisão”
(Romanos 2:25). Deste modo, o pacto mosaico continuou os aspectos
naturais e condicionais do pacto abraâmico.
O pacto mosaico, assim como o lado natural do pacto abraâmico,
continha (1.) uma descendência exterior e física, (2.) os vários tipos e
sombras das realidades da Nova Aliança e (3.) uma condição baseada nas
obras.
O pacto mosaico não só prometeu certas bênçãos, mas também
prometeu certas maldições. Como Moisés explica à nação de Israel: “A
bênção, quando cumprirdes os mandamentos do Senhor vosso Deus, que hoje
vos mando; porém, a maldição, se não cumprirdes os mandamentos do
Senhor vosso Deus, e vos desviardes do caminho que hoje vos ordeno, para
seguirdes outros deuses que não conhecestes” (Deuteronômio 11:27-28).
“Todos aqueles, pois, que são das obras da lei estão debaixo da maldição;
porque está escrito: Maldito todo aquele que não permanecer em todas as
coisas que estão escritas no livro da lei, para fazê-las” (Gálatas 3:10).
É claro que o Pacto das Obras não foi estabelecido com a descendência
física de Abraão, a fim de torná-los justos, mas para mostrar-lhes os seus
pecados e direcioná-los para Cristo. E alguns durante esse tempo se voltaram
para Cristo, um remanescente segundo a graça, e ao fazê-lo aqueles que
compunham este remanescente tornaram-se não apenas os filhos físicos de
seu pai Abraão, mas também se tornaram filhos espirituais. A salvação
sempre foi pela graça através da fé; a Bíblia deixa isso bem claro.
Descontinuidade
Em relação à descontinuidade, o pacto mosaico não continuou nem
cumpriu o lado espiritual do pacto abraâmico.[317] O lado natural do pacto
abraâmico, bem como o pacto mosaico, foi feito com toda a descendência
natural de Abraão (Deuteronômio 5:3). Em contrapartida, o lado espiritual do
pacto abraâmico foi feito com a descendência espiritual de Abraão (Abraão e
sua descendência — Jesus Cristo). O primeiro foi estabelecido com a
descendência natural de Abraão, enquanto o segundo foi estabelecido com a
descendência espiritual de Abraão. Em essência, portanto, Deus estabeleceu
esses dois pactos com dois grupos distintos.
Os descendentes físicos de Abraão podem ter tido o direito através da
circuncisão às promessas naturais do pacto abraâmico, mas a circuncisão e o
direito de primogenitura não lhes deram uma posse automática das promessas
espirituais do pacto abraâmico. O Novo Testamento deixa isso claro quando
diz aos judeus que não devem confiar (1.) no fato de que eles são filhos de
Abraão (Mateus 3:9), (2.) em sua circuncisão (Romanos 2:28) ou (3.) em sua
posse da lei (Romanos 2:17).
O pacto mosaico também difere enormemente do pacto abraâmico na
medida em que não continha promessas incondicionais. O pacto abraâmico
era tanto um pacto de graça quanto de obras, mas o pacto mosaico era
estritamente um pacto de obras. As promessas feitas a Abraão, devido à sua
fidelidade de Deus, tinham que ser cumpridas, enquanto, por outro lado, o
pacto mosaico dependia inteiramente da obediência de Israel à lei. Portanto,
nesse sentido, os dois pactos são muito diferentes, não relacionados e
separados.
Conclusão
Porque o pacto mosaico estendeu e expandiu o lado natural e
condicional do pacto abraâmico, há continuidade. Porque o pacto mosaico era
completamente condicional, há descontinuidade. A Antiga Aliança foi
incapaz de cumprir qualquer uma das promessas espirituais dadas a Abraão.
4
ABRAÃO E CRISTO

Vimos a relação entre os pactos abraâmico e mosaico. Agora devemos voltar


nossa atenção para o relacionamento entre o pacto de Abraão e a Nova
Aliança. Qual é a relação entre essas duas alianças? A relação é que a Nova
Aliança estabeleceu e cumpriu as promessas espirituais do pacto abraâmico.
Continuidade
Assim como o lado natural do pacto abraâmico foi reafirmado e
desenvolvido no pacto mosaico, as promessas espirituais de Abraão não
foram cumpridas até o tempo de Cristo e o estabelecimento da Nova Aliança.
Ora, as promessas foram feitas a Abraão e à sua descendência. Não
diz: E às descendências, como falando de muitas, mas como de uma
só: E à tua descendência, que é Cristo. Mas digo isto: Que tendo sido a
aliança anteriormente confirmada por Deus em Cristo, a lei, que veio
quatrocentos e trinta anos depois, não a invalida, de forma a abolir a
promessa. Porque, se a herança provém da lei, já não provém da
promessa; mas Deus pela promessa a deu gratuitamente a Abraão
(Gálatas 3:16-18).
Em primeiro lugar, este texto explicitamente ensina que as promessas
foram feitas a Abraão e à sua descendência (singular). Todas as promessas
espirituais de Abraão são cumpridas exclusivamente em Cristo Jesus. Fora de
uma união viva com Cristo, não há desfrute das promessas. No entanto, se
alguém está em Cristo, judeu ou gentio, eles são herdeiros das promessas de
Abraão: “E, se sois de Cristo, então sois descendência de Abraão, e herdeiros
conforme a promessa” (Gálatas 3:29).
A segunda razão pela qual o pacto mosaico (a lei) não cumpriu as
promessas de Abraão foi porque a lei teria anulado as promessas: “Porque, se
a herança provém da lei, já não provém da promessa; mas Deus pela
promessa a deu gratuitamente a Abraão”. “Porque a promessa de que ele
deveria ser herdeiro do mundo não era para Abraão, ou para a sua
descendência, pela lei, mas para a justiça da fé. Porque, se os que são da lei [a
descendência natural] são herdeiros, a fé é vã e a promessa, de nenhum efeito.
Portanto, é da fé, que seja pela graça; a toda a descendência; não somente
àquilo que é da lei [judeus], mas também àquilo que é da fé de Abraão
[gentios]; que é o pai de todos nós”.
Porque a promessa de que havia de ser herdeiro do mundo não foi feita
pela lei a Abraão, ou à sua posteridade [espiritual], mas pela justiça da fé.
Porque, se os que são da lei [a posteridade natural] são herdeiros, logo a fé é
vã e a promessa é aniquilada. “Portanto, é pela fé, para que seja segundo a
graça, a fim de que a promessa seja firme a toda a posteridade, não somente à
que é da lei [judeus], mas também à que é da fé que teve Abraão [gentios], o
qual é pai de todos nós” (Romanos 4:13-14, 16). Dizendo isso de forma mais
simples, promessas incondicionais não podem ser cumpridas pelas obras da
lei.
À luz disso, a nação de Israel (como um todo) nunca verdadeiramente
experimentou o cumprimento das promessas espirituais de Abraão. Por
exemplo:
1. Com relação à descendência prometida de Abraão, aprendemos que
a verdadeira descendência de Abraão são seus filhos espirituais, que possuem
fé e foram circuncidados no coração, não apenas seus descendentes naturais
circuncidados (Romanos 2:28-29).
2. Com relação à promessa de ser pai de muitas nações, aprendemos
com o Novo Testamento que isso incluía mais do que apenas entidades
nacionais e políticas. De acordo com Paulo, Abraão é o pai espiritual de todos
os que creem em todas as nações, tribos e povos (Romanos 4:18).
3. No que diz respeito à terra de repouso, isso também não pode se
referir inteiramente a uma parcela física de terra deste lado da glória. Isso é
porque a verdadeira terra da promessa é celestial, em natureza. Os aspectos
naturais e condicionais do pacto abraâmico prometiam um pedaço de terra
material, que seria um lugar de descanso para os descendentes físicos de
Abraão. A condição para este “descanso” foi ampliada no pacto mosaico,
incluindo toda a lei de Moisés. Segundo o pacto mosaico, para que Israel
obtivesse, possuísse e permanecesse na terra prometida, eles deveriam manter
as condições da aliança (Deuteronômio 8:1, 11:8, 30:16; 1 Crônicas 28:8).
Pelo fato de Moisés haver quebrado as duas tábuas de pedra, devemos
entender que a nação de Israel foi incapaz de manter essas condições e,
portanto, incapaz de entrar no descanso de Deus. “Onde vossos pais me
tentaram, me provaram, e viram por quarenta anos as minhas obras. Por isso
me indignei contra esta geração, e disse: Estes sempre erram em seu coração,
e não conheceram os meus caminhos. Assim jurei na minha ira que não
entrarão no meu repouso” (Hebreus 3:9-11). Entretanto, Deus foi gracioso e
preservou uma linhagem nacional por causa da promessa incondicional, que
Ele havia feito anteriormente com Abraão, e permitiu que Israel tomasse
posse de Canaã. No entanto, aprendemos com o livro de Hebreus que esse
país não era a verdadeira terra prometida: “Porque, se Josué lhes houvesse
dado repouso, não falaria depois disso de outro dia. Portanto, resta ainda um
repouso para o povo de Deus” (Hebreus 4:8-9). Se Canaã fosse o verdadeiro
descanso, depois que Israel tomasse posse dele, Deus não teria falado de
outro descanso por vir. Até Abraão percebeu pela fé que esse descanso era
algo mais do que uma herança terrena; ele andou como peregrino nesta terra,
vivendo em tendas, esperando a cidade que tem fundamentos, da qual o
artífice e construtor é Deus (Hebreus 11:10).
4. A promessa final que Deus fez a Abraão foi que sua descendência
seria o “povo de Deus”. Com respeito a essa promessa, Paulo nos diz em sua
carta aos Romanos que o verdadeiro povo de Deus é Seu povo eleito, “porque
nem todos os que são de Israel [físico] são israelitas [espirituais]”
(Romanos 9:6). Para que os descendentes naturais de Abraão fizessem parte
do povo exterior de Deus, eles deveriam ser circuncidados na carne
(Gênesis 17:10-14). O pacto mosaico estendeu essa exigência condicional,
acrescentando as Dez Palavras da lei (Êxodo 19:5-8). A nação de Israel, é
claro, foi incapaz de manter esse pacto. Por causa de seu fracasso, eles foram
finalmente desconsiderados por Deus: “Como não permaneceram naquela
minha aliança, eu para eles não atentei, diz o Senhor” (Hebreus 8:9). É por
isso que o reino de Deus foi tirado deles e dado a outro povo, um povo que
produziria seus frutos (Mateus 21:43). Em vez de os descendentes físicos
receberem as bênçãos da lei, eles acabaram recebendo todas as suas
maldições. Em vez de manterem seu status e título de “povo de Deus”, eles
foram entregues a si mesmos. Como Cristo Jesus declara: “Eis que a vossa
casa vai ficar-vos deserta” (Mateus 23:29-39). Assim, cumprindo a profecia
de Oséias sobre a nação de Israel, “porque vós não sois meu povo, nem eu
serei vosso Deus” (Oséias 1:9). Como isso poderia acontecer, quando Deus
fez uma promessa incondicional a Abraão de que seus filhos seriam o “povo
de Deus”? Para cumprir essa promessa incondicional, Deus fez uma Nova
Aliança com os descendentes de Abraão. No entanto, desta vez, foi a
descendência espiritual de Abraão que seria a destinatária das bênçãos da
aliança. Ao contrário de Israel, eles seriam um povo verdadeiro e justo.
Porque, repreendendo-os, lhes diz: Eis que virão dias, diz o Senhor, em
que com a casa de Israel e com a casa de Judá estabelecerei uma nova
aliança, não segundo a aliança que fiz com seus pais no dia em que os
tomei pela mão, para os tirar da terra do Egito; como não
permaneceram naquela minha aliança, eu para eles não atentei, diz o
Senhor. Porque esta é a aliança que depois daqueles dias farei com a
casa de Israel, diz o Senhor; porei as minhas leis no seu entendimento,
e em seu coração as escreverei; e eu lhes serei por Deus, e eles me
serão por povo; e não ensinará cada um a seu próximo, nem cada um
ao seu irmão, dizendo: Conhece o Senhor; porque todos me
conhecerão, desde o menor deles até ao maior. Porque serei
misericordioso para com suas iniquidades, e de seus pecados e de suas
prevaricações não me lembrarei mais. Dizendo nova aliança,
envelheceu a primeira. Ora, o que foi tornado velho, e se envelhece,
perto está de acabar (Hebreus 8:8-13).
Assim como Oséias previu a queda de Israel, ele também previu o
enxerto dos gentios na linhagem de Abraão. “Como também diz em Oséias:
Chamarei meu povo ao que não era meu povo; e amada à que não era amada.
E sucederá que no lugar em que lhes foi dito: vós não sois meu povo; aí serão
chamados filhos do Deus vivo” (Romanos 9:25-26). O verdadeiro “Israel de
Deus” (Gálatas 6:16), portanto, é uma “geração eleita, o sacerdócio real, a
nação santa, o povo adquirido” (1 Pedro 2:9), consistindo apenas daqueles
que “conhecem o Senhor” (Hebreus 8:11).

Agora que a Nova Aliança está estabelecida, as promessas espirituais


de Deus a Abraão foram cumpridas. Mesmo que os aspectos físicos da Antiga
Aliança tenham prefigurado as realidades do Novo Testamento, eles ficam
aquém de cumprir as promessas espirituais do pacto abraâmico.[318]
Assim, vemos a continuidade entre o pacto abraâmico e a Nova
Aliança.
Descontinuidade
Não há muito a distinguir entre esses dois pactos, além do fato de que a
Nova Aliança não possui a natureza dual do pacto abraâmico. O pacto
abraâmico consistia em dois lados distintos, um lado natural e um lado
espiritual. O pacto mosaico era apenas unidimensional, na medida em que se
baseava em obras. Da mesma forma, a Nova Aliança é unidimensional; é
baseada inteiramente na graça. É claro, isso não significa que a Nova Aliança
é sem lei e sem boas obras. Os pecadores não são salvos pelas obras, mas
salvos para as boas obras. A participação na Nova Aliança é evidenciada por
boas obras, não somos inseridos ou mantidos na nova Aliança pelas boas
obras.
Além disso, embora a Nova Aliança não esteja centrada em coisas
terrenas e materiais, isso não significa que a Nova Aliança não abarque as
coisas terrenas. Cristo redimiu toda a criação. Não apenas receberemos um
novo corpo, mas a criação também receberá um novo corpo (1 Coríntios
15:21).
Conclusão
A Nova Aliança não está centrada em coisas terrenas e materiais, mas
em coisas celestiais. Trata-se de um povo celestial, um reino espiritual e uma
Jerusalém celestial. Felizmente, todos os tipos e sombras do Antigo
Testamento são oficialmente substituídos por melhores realidades e com
melhores promessas.
5
MOSÉS E CRISTO

Quando a continuidade e a descontinuidade são discutidas, o que é mais


frequentemente debatido é a relação entre o pacto mosaico (Antiga Aliança) e
a Nova Aliança. Agora que a ligação entre os outros pactos foi estabelecida,
será mais fácil ver a relação entre a Antiga e a Nova Aliança. Qual é a relação
entre essas duas alianças?

Continuidade
Embora os contrastes entre elas sejam vastos, existe um elo que as
conecta. Qual é esse elo? É Jesus Cristo. Em Sua vida, Ele cumpriu os
requisitos justos da lei de Moisés; em Sua morte, Ele cumpriu as maldições
da lei. Ao fazer essas duas coisas, Ele cumpriu a lei do pacto mosaico e
estabeleceu a Nova Aliança. Portanto, pode-se dizer que a Nova Aliança
cumpriu as promessas incondicionais do pacto abraâmico, por meio do pacto
mosaico das obras. Isso será explicado com mais detalhes conforme
prosseguimos.
Descontinuidade
A descontinuidade é vista no fato de que a Antiga Aliança era um Pacto
de Obras, enquanto a Nova Aliança é um Pacto de Graça. Além disso, em vez
de estender o pacto mosaico, a Nova Aliança trouxe sua revogação. “Dizendo
Nova aliança, envelheceu a primeira. Ora, o que foi tornado velho, e se
envelhece, perto está de acabar” (Hebreus 8:13). Agora que a fé foi revelada,
o povo de Deus não está mais sob a tutela de tipos e sombras da Antiga
Aliança. Eles não estão mais debaixo da lei, mas debaixo da graça.

Conclusão
Aqui reside a continuidade e a descontinuidade entre a Antiga e a Nova
Alianças. O pacto mosaico foi abolido e os tipos e sombras do Antigo
Testamento foram cumpridos pelas realidades da Nova Aliança. O povo de
Deus não é mais considerado uma entidade nacional e externa, mas um povo
interior e espiritual. O reino foi tirado dos judeus e dado a outro. O povo da
Nova Aliança excede a nação de Israel, na medida em que eles são a
verdadeira descendência de Abraão, herdeiros do descanso celestial e, mais
importante, o verdadeiro “povo de Deus”.
6
ABRAÃO, MOISÉS E CRISTO

Como o pacto abraâmico, o pacto mosaico e a Nova Aliança se encaixam? À


medida que as promessas feitas a Abraão foram baseadas na fé. Nesse
sentido, essas promessas eram de natureza absolutamente incondicional. Elas
certamente se desenvolvem baseadas inteiramente na fidelidade de Deus. Por
outro lado, a descendência natural de Abraão era obrigada a ser circuncidada
na carne para permanecer dentro do pacto abraâmico. Como está escrito: “E o
homem incircunciso, cuja carne do prepúcio não estiver circuncidada, aquela
alma será extirpada do seu povo; quebrou a minha aliança” (Gênesis 17:14).
Nesse sentido, o pacto abraâmico era uma aliança condicional. O pacto
mosaico estendia o lado natural e condicional do pacto abraâmico, enquanto a
Nova Aliança cumpria o lado incondicional e espiritual. Portanto, tanto o
pacto mosaico quanto a Nova Aliança, de diferentes maneiras, são extensões
do pacto abraâmico.
Tanto o pacto mosaico como a Nova Aliança nasceram do pacto
abraâmico. O pacto abraâmico foi estabelecido com Abraão e sua
descendência. O pacto mosaico foi estabelecido com a nação de Israel, que
consistia da descendência natural de Abraão. A Nova Aliança, por outro lado,
foi feita com Cristo e aqueles que estão em união com Ele. Assim, a Antiga
Aliança foi estabelecida com a descendência natural de Abraão, enquanto a
Nova Aliança foi estabelecida com a descendência espiritual de Abraão.
Embora tanto o pacto mosaico como a Nova Aliança sejam extensões
do pacto abraâmico, a Nova Aliança não é uma extensão do pacto mosaico.
Isso ocorre porque o pacto mosaico foi baseado em obras, enquanto a Nova
Aliança é baseada na fé.

O Pacto da Graça

O Pacto das Obras[319]


Como o pacto abraâmico pode ser tanto um pacto de obras quanto um
pacto de graça? Isso não é uma fala dúplice? Deus é bajulador em sua
maneira de lidar com o homem? A resposta é simples: Jesus Cristo. Você vê,
Jesus Cristo cumpriu totalmente o pacto abraâmico em ambos os seus
aspectos, naturais e espirituais. Em Cristo, aprendemos que o pacto
abraâmico era natural e sobrenatural, físico e espiritual, incondicional e
condicional.
Cristo Cumpriu as Condições do Pacto Abraâmico
Primeiro, com relação aos aspectos naturais do pacto abraâmico, Cristo
é o verdadeiro cumprimento. Cristo é a descendência física e natural de
Abraão. Cristo também cumpriu os aspectos condicionais do pacto
abraâmico. O pacto abraâmico exigiu que seus participantes fossem
circuncidados ao oitavo dia. Esta condição foi, naturalmente, cumprida pelo
Senhor oito dias após o Seu nascimento (Lucas 2:21).
Cristo Cumpriu o Pacto Mosaico
O pacto mosaico expandiu os aspectos condicionais do pacto
abraâmico. Exigia não apenas a circuncisão, mas a perfeita justiça. A pena
por quebrar o pacto era a morte: “Maldito todo aquele que não permanecer
em todas as coisas que estão escritas no livro da lei, para fazê-las”. Cristo
Jesus não só foi circuncidado no oitavo dia, mas viveu uma vida sem quebrar
nenhuma das leis da Antiga Aliança. Deste modo, Cristo cumpriu a lei. “Não
cuideis que vim destruir a lei ou os profetas: não vim abrogar, mas cumprir.
Porque em verdade vos digo que, até que o céu e a terra passem, nem um jota
ou um til jamais passará da lei, sem que tudo seja cumprido” (Mateus 5:17-
19).
Não somente Cristo cumpriu o Pacto das Obras, Ele também suportou
as maldições da lei. “Todos aqueles, pois, que são das obras da lei estão
debaixo da maldição; porque está escrito: Maldito todo aquele que não
permanecer em todas as coisas que estão escritas no livro da lei, para fazê-
las” (Gálatas 3:10). “Cristo nos resgatou da maldição da lei, fazendo-se
maldição por nós; porque está escrito: Maldito todo aquele que for pendurado
no madeiro” (Gálatas 3:13). “E por isso é Mediador de um novo testamento
[aliança], para que, intervindo a morte para remissão das transgressões que
havia debaixo do primeiro testamento [aliança], os chamados recebam a
promessa da herança eterna” (Hebreus 9:15).
Ao fazê-lo, Cristo cumpriu as promessas espirituais do pacto
abraâmico, satisfazendo os aspectos naturais e condicionais deste pacto. Em
outras palavras, Cristo estabeleceu a Nova Aliança da graça cumprindo o
pacto mosaico das obras.
Assim, nesse sentido, a salvação foi consumada pelo cumprimento do
Pacto das Obras. Os descendentes naturais de Abraão foram incapazes de
manter o pacto, exceto um — Jesus Cristo. Jesus Cristo foi capaz de
obedecer, manter e cumprir o pacto mosaico. Jesus, o descendente de Abraão
segundo a carne, obedeceu às condições tanto do pacto abraâmico como do
pacto mosaico. Dessa maneira, a descendência de Abraão cumpriu o lado
natural do pacto abraâmico.
Cristo Cumpriu as Promessas do Pacto Abraâmico
Não somente Cristo cumpriu os aspectos naturais e condicionais dos
pactos abraâmico e mosaico, como também cumpriu os aspectos espirituais e
incondicionais do pacto abraâmico.
Ora, as promessas foram feitas a Abraão e à sua descendência. Não
diz: E às descendências, como falando de muitas, mas como de uma
só: E à tua descendência, que é Cristo (Gálatas 3:16).
Ao estabelecer a Nova Aliança com o Seu sangue, Cristo estabeleceu as
promessas espirituais do pacto abraâmico. Por causa da realização de Cristo
na cruz, as promessas espirituais do pacto abraâmico se concretizaram. Isso
significa que, pela fé sem obras, Abraão, com todo o restante de sua
descendência espiritual, pode desfrutar da participação nas promessas de
Deus. “Sabei, pois, que os que são da fé são filhos de Abraão” (Gálatas 3:7).
“De sorte que os que são da fé são benditos com o crente Abraão”
(Gálatas 3:9). “E, se sois de Cristo, então sois descendência de Abraão, e
herdeiros conforme a promessa” (Gálatas 3:29).
Como poderia o pacto abraâmico ser tanto natural quanto espiritual,
bem como condicional e incondicional? Ele pode ser simultaneamente um
pacto de graça e um pacto de obras porque Cristo estabeleceu o Pacto da
Graça cumprindo o Pacto das Obras.
Em resumo, o Pacto da Graça tinha uma condição; essa condição foi
cumprida por Cristo Jesus. Assim, para Cristo, o pacto abraâmico era um
pacto de obras, mas para os crentes é um pacto de graça. Desta forma, as
promessas feitas a Abraão foram baseadas tanto na fé como nas obras.
Abraão e sua descendência espiritual recebem as promessas pela fé, porque as
promessas foram estabelecidas por obras através da descendência natural de
Abraão — Jesus Cristo.
7
DAVI

A natureza do pacto davídico é a mesma que a do pacto abraâmico. Deus


prometeu a Davi que sua descendência reinaria permanentemente assentada
em seu trono. Essa promessa foi incondicional. O pacto davídico era,
portanto, um pacto de graça ou um pacto de obras? Deus assegurou a Davi
que essa promessa seria cumprida; assim, para Davi, o pacto era
incondicional. Por outro lado, nenhum dos filhos de Davi recebeu promessas
incondicionais. Como veremos, eles foram obrigados a obedecer a Deus, se
desejassem permanecer no trono.
Assim como aconteceu com o pacto abraâmico, o pacto davídico deve
ser visto de duas perspectivas. Representado no pacto davídico, esteve a
descendência natural e sobrenatural de Davi. Salomão e seus descendentes
foram a descendência natural de Davi, enquanto Cristo Jesus é a
descendência sobrenatural de Davi. Além disso, a promessa do pacto era
tanto condicional quanto incondicional. Incondicional na medida em que foi
baseado na fidelidade de Deus; condicional na medida em que continha uma
exigência humana para Salomão e seus descendentes obedecerem:
E aproximaram-se os dias da morte de Davi; e deu ele ordem a
Salomão, seu filho, dizendo: Eu vou pelo caminho de toda a terra;
esforça-te, pois, e sê homem. E guarda a ordenança do Senhor teu
Deus, para andares nos seus caminhos, e para guardares os seus
estatutos, e os seus mandamentos, e os seus juízos, e os seus
testemunhos, como está escrito na lei de Moisés; para que prosperes
em tudo quanto fizeres, e para onde quer que fores. Para que o Senhor
confirme a palavra, que falou de mim, dizendo: Se teus filhos
guardarem o seu caminho, para andarem perante a minha face
fielmente, com todo o seu coração e com toda a sua alma, nunca,
disse, te faltará sucessor ao trono de Israel (1 Reis 2:1-4).
Como poderia existir um pacto incondicional e condicional? Para Davi,
não havia condição, mas, para que sua descendência continuasse governando
assentada no trono, havia um requisito relacionado às obras. Embora Davi
tivesse a garantia de que sua descendência reinaria sobre seu trono para
sempre, nenhum dos demais descendentes de Davi tinha certeza de que eles
permaneceriam no trono. A exigência de uma regra eterna era a obediência
perfeita.
É claro que nenhum dos descendentes de Davi poderia cumprir essa
condição, isto é, até o nascimento de Cristo. A regra temporária de todos os
precedentes descendentes de Davi não se baseava em sua adesão à lei, mas
foi porque Deus prometeu a Davi que sua descendência [Jesus Cristo]
governaria assentada em seu trono (1 Reis 15:4). Se não fosse por essa
promessa incondicional, a linhagem real de Davi teria sido destruída muitas
vezes ao longo da história de Judá (por exemplo, 2 Crônicas 21:7). No final,
os descendentes de Davi foram destronados por Deus por causa de sua
incapacidade de manter o pacto.
Ouve a palavra do Senhor, ó rei de Judá, que te assentas no trono de
Davi… Assim diz o Senhor: Exercei o juízo e a justiça, e livrai o
espoliado da mão do opressor; e não oprimais ao estrangeiro, nem ao
órfão, nem à viúva; não façais violência, nem derrameis sangue
inocente neste lugar. Porque, se deveras cumprirdes esta palavra,
entrarão pelas portas desta casa os reis que se assentarão em lugar de
Davi sobre o seu trono, andando em carros e montados em cavalos,
eles, e os seus servos, e o seu povo. Mas, se não derdes ouvidos a estas
palavras, por mim mesmo tenho jurado, diz o Senhor, que esta casa se
tornará em assolação. Porque assim diz o Senhor acerca da casa do rei
de Judá: Tu és para mim Gileade, e a cabeça do Líbano; mas por certo
que farei de ti um deserto e cidades desabitadas… E muitas nações
passarão por esta cidade, e dirá cada um ao seu próximo: Por que
procedeu o Senhor assim com esta grande cidade? E dirão: Porque
deixaram a aliança do Senhor seu Deus, e se inclinaram diante de
outros deuses, e os serviram (Jeremias 22:1-9).
O Salmo 132 é um ótimo texto para exibir a dualidade do pacto
davídico — sendo incondicional para Davi, mas condicional para sua
descendência:
O Senhor jurou com verdade a Davi, e não se apartará dela: Do fruto
do teu ventre porei sobre o teu trono. Se os teus filhos guardarem a
minha aliança, e os meus testemunhos, que eu lhes hei de ensinar,
também os seus filhos se assentarão perpetuamente no teu trono
(Salmos 132:11-12).
Todos os descendentes de Davi, exceto Cristo, foram incapazes de
guardar a aliança. No entanto, o pacto davídico foi cumprido, porque suas
condições foram cumpridas em Cristo. Portanto, como Deus prometeu a
Davi, ele nunca deixará de ter um filho em seu trono.
Outro ponto interessante de similaridade entre os pactos abraâmico e
davídico está nos tipos e sombras do Antigo Testamento e nas realidades da
Nova Aliança. Salomão é o tipo, enquanto Cristo Jesus é a realidade do pacto
davídico. Salomão trouxe a Israel uma medida de descanso de seus inimigos,
estendendo a área geográfica do reino de Israel ao seu ponto mais alto. Além
disso, Salomão construiu uma morada terrena para Deus — o templo.
Naturalmente, todos esses tipos do Antigo Testamento apontam para Cristo.
Cristo é o verdadeiro templo, Emanuel, a glória de Deus, habitando em um
tabernáculo terrestre. Finalmente, Cristo Jesus é o verdadeiro e eterno Rei de
Israel.
Salomão, no entanto, falhou miseravelmente em manter as condições
do pacto. “Assim disse o Senhor a Salomão: Pois que houve isto em ti, que
não guardaste a minha aliança e os meus estatutos que te mandei, certamente
rasgarei de ti este reino, e o darei a teu servo” (1 Reis 11:11). Por outro lado,
a ressurreição de Cristo provou que Ele obedeceu à lei sem uma única falha.
Por causa da impecabilidade de Cristo, o aperto da morte foi incapaz de
segurá-lO na sepultura. Cristo, portanto, levantou- Se do túmulo para assumir
Seu lugar de direito no trono de Seu Pai. O reino nunca será tirado do Rei
Jesus — “Ao qual Deus ressuscitou, soltas as ânsias da morte, pois não era
possível que fosse retido por ela; porque dele disse Davi: Sempre via diante
de mim o Senhor, porque está à minha direita, para que eu não seja
comovido” (Atos 2:24-25).
O cumprimento do pacto davídico ocorreu com a ressurreição de
Cristo:
Homens irmãos, seja-me lícito dizer-vos livremente acerca do patriarca
Davi, que ele morreu e foi sepultado, e entre nós está até hoje a sua
sepultura. Sendo, pois, ele profeta, e sabendo que Deus lhe havia
prometido com juramento que do fruto de seus lombos, segundo a
carne, levantaria o Cristo, para o assentar sobre o seu trono [de
Davi], nesta previsão, disse da ressurreição [não a segunda vinda] de
Cristo (Atos 2:29-31).
E que o ressuscitaria dentre os mortos, para nunca mais tornar à
corrupção, disse-o assim: As santas e fiéis bênçãos de Davi vos darei
(Atos 13:34).
Conclusão
A diferença, no entanto, entre o pacto davídico e o pacto abraâmico é que
Cristo foi o substituto de toda a descendência espiritual de Abraão,
ganhando-lhes o direito de desfrutar as promessas de Abraão; enquanto no
pacto davídico somente Cristo governa o reino de Deus no trono de Davi.
Embora os santos governem e reinem em lugares celestiais com Cristo Jesus,
somente Cristo é o Rei dos reis e o Senhor dos senhores.
8
CONTINUIDADE/DESCONTINUIDADE

Depois de examinar a natureza do pacto abraâmico e seu relacionamento com


a Antiga e a Nova Alianças, estamos agora mentalmente equipados para
entender adequadamente a continuidade e a descontinuidade dos pactos de
Deus.
Continuidade
A continuidade dos pactos poderia ser explicada desta maneira: no
pacto abraâmico, Deus fez certas promessas incondicionais a Abraão. Essas
promessas foram estabelecidas com a descendência natural de Abraão
também, mas para elas as promessas eram condicionais. Para Israel continuar
na aliança, eles foram obrigados a serem circuncidados. O pacto mosaico
veio junto e adicionou a esta condição, dando à descendência natural de
Abraão a lei. Israel seria de fato o povo verdadeiro de Deus… se eles
pudessem manter essa condição. É claro, eles eram incapazes de fazê-lo,
assim Deus para eles não atentou (Hebreus 8:9).
No entanto, porque Deus fez uma promessa incondicional a Abraão,
Ele não rejeitaria Israel até que a “descendência prometida” de Abraão
chegasse. Na plenitude do tempo, Cristo veio. Como filho biológico de
Abraão, Ele estava sob as condições da aliança; por Seu próprio mérito, Ele
cumpriu a lei do pacto mosaico com suas demandas e punições. Depois que o
pacto mosaico foi cumprido, então foi abolido. Desde que a justiça foi
estabelecida, não há necessidade de restabelecê-la.
Além disso, quando Cristo cumpriu o pacto mosaico em Sua morte,
estabeleceu as promessas incondicionais do pacto abraâmico. Com isso, a
Nova Aliança foi firmemente estabelecida. Através desse meio, pela fé,
Abraão e sua descendência espiritual herdaram todas as promessas sem as
obras da lei.
Desta forma, aprendemos que a única maneira de as pessoas se
tornarem herdeiras das promessas é pela fé, sem as obras da lei. É por isso
que Paulo exorta os judeus a não confiar em sua circuncisão, na lei de Moisés
ou em sua ligação genética com Abraão. Para se tornar uma parte do
verdadeiro povo de Deus, é preciso circuncidar-se no coração e nascer do
alto. Não importa que os judeus tenham Abraão como seu pai terreno, se eles
não o têm como seu pai espiritual.
Porque não é judeu o que o é exteriormente, nem é circuncisão a que o
é exteriormente na carne. Mas é judeu o que o é no interior, e
circuncisão a que é do coração, no espírito, não na letra; cujo louvor
não provém dos homens, mas de Deus (Romanos 2:28-29).
Assim, o cumprimento dos pactos abraâmico e mosaico trouxe a Nova
Aliança. Pela vida e morte de Cristo, a Nova Aliança foi estabelecida: uma
aliança não mais baseada nas obras da lei, mas na graça e na fé.

Em uma palavra, Cristo, ao estabelecer a Nova Aliança, estabeleceu as


promessas espirituais do pacto abraâmico por meio do cumprimento das
condições do pacto mosaico.
Descontinuidade
Esta é a continuidade e a descontinuidade entre a Antiga e a Nova
Alianças. A continuidade é que tanto a Antiga Aliança como a Nova Aliança
são cumprimentos do pacto abraâmico. A descontinuidade, no entanto, é que
o pacto mosaico e a Nova Aliança cumprem o pacto abraâmico de maneiras
diferentes e distintas. O pacto mosaico lidava com os aspectos naturais e
condicionais do pacto abraâmico, enquanto a Nova Aliança lida com os
aspectos incondicionais e espirituais do pacto abraâmico. A Antiga Aliança
era um pacto de tipos e sombras, mas a Nova Aliança é um pacto de
realidades espirituais. O pacto mosaico é um pacto de justiça pelas obras,
enquanto a Nova Aliança é um pacto de justiça pela graça. A Antiga Aliança
passou, enquanto a Nova Aliança permanece.
Naturalmente, tudo isso deve ser colocado no topo da ideia de que, ao
longo da história, sempre houve duas alianças paralelas — o Pacto de Obras e
o Pacto da Graça.
Ao estabelecer os vários pactos da Bíblia (adâmico, noético, abraâmico,
mosaico, davídico e a Nova Aliança), Deus manifestou esses dois pactos
paralelos.
O pacto abraâmico, por causa de sua natureza dual, era uma
reafirmação tanto do Pacto das Obras quanto do Pacto da Graça. A partir
daqui, na revelação progressiva da redenção, Deus passou a manifestar esses
dois pactos com mais detalhes.
Quatrocentos anos após o pacto abraâmico, mais luz foi acrescentada à
natureza do Pacto das Obras. Com o estabelecimento do pacto mosaico, Deus
deu ao Pacto das Obras sua plena expressão. Embora o Pacto das Obras tenha
sido publicado pela primeira vez no Jardim do Éden, as exigências e as
consequências da lei não foram plenamente expressas até Moisés. No jardim,
o Pacto das Obras foi revelado pelo mandamento: “Não comerás da árvore do
conhecimento do bem e do mal”. No Monte Sinai, Deus deu maior clareza ao
Pacto das Obras, escrevendo os Dez Mandamentos sobre tábuas de pedra; o
pacto mosaico lançou a luz mais brilhante sobre o Pacto das Obras.
Finalmente, na plenitude do tempo, sob a dispensação da Nova Aliança,
o Pacto da Graça foi manifestado em sua plenitude. Embora o Pacto da Graça
existisse antes da vinda de Cristo, ele não foi plenamente manifestado até o
estabelecimento da Nova Aliança. Foi publicado pela primeira vez após a
queda, mas apenas em parte. Embora o pacto abraâmico fosse uma expressão
mais elevada da graça de Deus, não foi até a Nova Aliança que vemos a Sua
plena glória.
A Antiga Aliança era a mais completa expressão do Pacto das Obras,
mas a Nova Aliança é a mais completa expressão do Pacto da Graça.
A questão é que, ao longo da história (passado, presente e futuro), o
Pacto das Obras e o Pacto da Graça coexistiram. O Pacto da Graça estava
vivo durante o reinado do pacto mosaico das obras; e, inversamente, o Pacto
das Obras vive sob o reinado da Nova Aliança da graça. Só porque o pacto
mosaico era uma manifestação do Pacto das Obras, não significava que o
Pacto da Graça estava inoperante durante esse tempo. Cada israelita
convertido foi circuncidado no coração pelo Espírito Santo e colocado no
Pacto da Graça. De maneira semelhante, embora a Nova Aliança tenha sido
estabelecida e a Antiga Aliança tenha passado, o Pacto das Obras ainda está
presente. E Ele é tão forte e vivo hoje quanto no Jardim. Todo pecador
nascido neste mundo nasce no Pacto das Obras e é condenado sob suas
pesadas exigências. A lei é sem misericórdia. Não se importa se os pecadores
são incapazes de obediência. Dessa maneira, cada um desses pactos coexistiu
ao longo da história da redenção.
Conclusão
Em conclusão, existem duas alianças distintas que correm lado a lado
ao longo da história da redenção — o Pacto das Obras e o Pacto da Graça.
Ambos estão incluídos na redenção porque sem eles não haveria salvação.
Naturalmente, nenhum pecador pode ser salvo pelas obras da lei. No entanto,
sem as maldições da lei e o cumprimento da justiça da lei, não pode haver
salvação. Como os pecadores são salvos? Eles são salvos pelo filho de
Abraão, a “descendência” da mulher, vindo em carne e osso, vivendo uma
perfeita vida de obediência e suportando as maldições da lei. Isso é o que
Cristo fez: não por amor de Si, mas por causa de Abraão e toda a sua
descendência espiritual. Ao fazê-lo, Cristo, pela Sua vida, morte e
ressurreição, cumpriu o Pacto das Obras e assim estabeleceu o Pacto da
Graça — o mesmo pacto prometido há muito tempo no Jardim, agora
finalmente realizado. Você vê, precisamos tanto do Pacto das Obras quanto
do Pacto da Graça. Sem eles, não há salvação. Sem eles, não há esperança.
Sem eles, não há Evangelho.
APÊNDICE

A LEI DE MOISÉS E A LEI DE


CRISTO

Baseado em Mateus 5; 1 Coríntios 9:19-23; Gálatas 6:2; João 13:34-35,


15:12-13 e 1 João 2:7-8, a Teologia da Nova Aliança (TNA) não apenas
distingue, mas separa a lei de Moisés da lei de Cristo. O Decálogo foi
substituído pelos mandamentos de Cristo — o novo legislador.
A TNA assume duas coisas sobre a lei de Moisés: A primeira, os
aspectos morais, cerimoniais e judiciais da lei não podem ser separados. Eles
estão conectados como uma corrente, se um elo (por exemplo, a lei
cerimonial) for quebrado, os outros elos (por exemplo, judicial e moral)
necessariamente também têm o mesmo destino. A segunda, a lei de Moisés
estava apenas preocupada com a obediência externa ou externa, enquanto a
lei de Cristo se concentra na obediência interior do coração. Por exemplo, no
Sermão do Monte, Jesus explica: “Ouvistes que foi dito aos antigos… Eu,
porém, vos digo…”.
Inseparável
No entanto, uma completa separação da lei de Moisés da lei de Cristo é
uma conclusão falha por pelo menos seis razões.
Primeira, a lei de Moisés pode e deve ser dividida entre mandamentos
morais, cerimoniais e judiciais. Samuel dividiu a lei cerimonial da lei moral
quando disse a Saul: “Tem porventura o Senhor tanto prazer em holocaustos
e sacrifícios, como em que se obedeça à palavra do Senhor? Eis que o
obedecer é melhor do que o sacrificar” (1 Samuel 15:22). Cristo também
separou os dois aspectos da lei, quando disse: “Sacrifício e oferta, e
holocaustos e oblações pelo pecado não quiseste, nem te agradaram (os quais
se oferecem segundo a lei). Então disse: Eis que aqui venho, para fazer, ó
Deus, a tua vontade” (Hebreus 10:8-10). Em ambas as declarações a lei moral
é exaltada acima da lei cerimonial e, portanto, só porque os aspectos
cerimoniais e judiciais da lei foram revogados, não significa que a lei moral
também tenha sido revogada.
Segunda, quando Jeremias profetizou que a lei seria escrita no coração
dos membros da Nova Aliança, o contexto de Jeremias 31:31-33 exige que a
própria lei que um dia será escrita nos corações dos participantes da Nova
Aliança seja a mesma lei (moral) que Israel quebrou na Antiga Aliança.
Terceira, a lei de Moisés diz respeito a mais do que apenas a obediência
externa ou aparente; o Décimo Mandamento só pode ser observado
internamente. Além disso, a essência do Decálogo é o amor (como expresso
no famoso Shema Yisrael, Deuteronômio 6:5), e o amor não pode ser
expresso sem a participação do coração.
Quarta, a lei moral de Deus, sendo um reflexo da essência e caráter de
Deus, não pode mudar sem que haja uma mudança na imutabilidade de Deus.
Portanto, o padrão de justiça deve ser o mesmo em ambos os Testamentos.
Quinta, a essência da lei de Moisés e da lei de Cristo é a mesma —
amor. A essência da lei de Cristo (Gálatas 6:2; João 13:34) é amor. O Novo
Testamento exige que amemos a Deus e aos nossos próximos. Até que ponto?
“Com todo seu coração, mente e força”. Qual é a essência da lei moral da
Antiga Aliança? A mesma — amor (Levítico 19:18, 34; Deuteronômio 6:5).
De fato, Paulo apela para os Dez Mandamentos, quando ele diz: “A ninguém
devais coisa alguma, a não ser o amor com que vos ameis uns aos outros;
porque quem ama aos outros cumpriu a lei. Com efeito: Não adulterarás, não
matarás, não furtarás, não darás falso testemunho, não cobiçarás; e se há
algum outro mandamento, tudo nesta palavra se resume: Amarás ao teu
próximo como a ti mesmo. O amor não faz mal ao próximo. De sorte que o
cumprimento da lei é o amor” (Romanos 13:8-10). Portanto, a lei (moral) de
Moisés e a lei de Cristo não diferem no que elas comandam.
Sexta, os autores do Novo Testamento referem-se a vários
mandamentos do Antigo Testamento em seus escritos e os tratam como
autoritativos.
A Distinção
Se a lei de Moisés e a lei de Cristo não diferem no que elas comandam,
então como elas diferem? Por que o Novo Testamento faz distinção entre a
lei de Moisés e a lei de Cristo? Por que Paulo se refere à lei como a lei de
Cristo (Gálatas 6:2)?
A diferença é que Moisés quebrou a lei enquanto Cristo a cumpriu
(Mateus 5:17-18). A razão pela qual Paulo se refere à lei como a “lei de
Cristo” é porque a lei está incorporada na pessoa e na vida de Cristo. Cristo
viveu perfeitamente todas as exigências da lei. Portanto, não somente somos
obrigados por Deus a seguir a lei moral em sua forma proposicional ou
escrita, mas também somos obrigados a seguir o exemplo de Cristo. Sua vida
exemplar é uma lei para nós. Sua vida nos instrui, repreende e nos encoraja a
viver em retidão.
A diferença é que a lei de Moisés pode ser lida, enquanto a lei de Cristo
pode ser vista. “Um novo mandamento vos dou: Que vos ameis uns aos
outros”. Como isso é um novo mandamento, quando Moisés ordenou a
mesma coisa (Levítico 19:18, 34)? Cristo explica: “Como eu vos amei a vós,
que também vós uns aos outros vos ameis” (João 13:34-35). A diferença é
que os membros da Nova Aliança têm o exemplo de Cristo a seguir. Algo que
Moisés foi incapaz de demonstrar. Novamente, Ele diz: “O meu mandamento
é este: Que vos ameis uns aos outros, assim como eu vos amei” (João 15:12-
13). “Ora, se eu, Senhor e Mestre, vos lavei os pés, vós deveis também lavar
os pés uns aos outros. Porque eu vos dei o exemplo, para que, como eu vos
fiz, façais vós também” (João 13:14-15).
O apóstolo João explica isso com mais detalhes quando ele diz:
“Irmãos, não vos escrevo mandamento novo, mas o mandamento antigo, que
desde o princípio tivestes”. Isto é, nada há de novo exigido de nós do que
aquilo que foi expresso por Moisés, pois João prossegue dizendo: “Este
mandamento antigo é a palavra que desde o princípio ouvistes”. No entanto,
no versículo seguinte ele escreve: “Outra vez vos escrevo um mandamento
novo”. João está confuso? Não, pois ele prossegue explicando que a novidade
não está naquilo que é ordenado, mas na realidade desses mandamentos
sendo exemplificados ou cumpridos em Cristo. É por isso que João diz:
“Outra vez vos escrevo um mandamento novo, que é verdadeiro nele”
(1 João 2:7-8).
Em resumo, a lei de Cristo é nada menos do que a lei de Moisés
cumprida na vida de Cristo. Vamos, portanto, obedecer à lei moral de
Moisés, seguindo o exemplo de Cristo.[320]
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Young, Edward J. A Commentary on Daniel. Edinburgh: Banner of Truth,
1997.
A editora O Estandarte de Cristo é fruto de um
trabalho que começou a ser idealizado por volta
do início de 2013, por William e Camila Rebeca,
com o propósito principal de publicar traduções
de autores bíblicos fiéis. Fizemos as primeiras
publicações no dia 2 de dezembro de 2013
(publicação de 4 e-books). De lá para cá já são
quase 5 anos e centenas de traduções de autores
bíblicos fiéis, sobre diversos temas da Fé Cristã.
Somos uma editora de fé cristã batista reformada
e confessional. Estamos firmemente
comprometidos com as verdades bíblicas
fielmente expostas na Confissão de Fé Batista de
1689.

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Adquira também “Os Distintivos da Teologia Batista Pactual”, por Pascal Denault,
também publicado pela editora O Estandarte de Cristo.

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[1]Pedobatistas (do grego pais significando “criança”) são aqueles que advogam a prática
do batismo infantil.
[2]Há tal ampla gama de discordância, que alguns presbiterianos possuem mais em comum
com credobatistas (do latim, credo, “eu creio” — aqueles que acreditam que o batismo é
reservado somente para crentes) do que com outros presbiterianos.
[3]
Veja Steven A. McKinion, Baptism in the Patristic Writings: Believer’s Baptism [O
Batismo nos Escritos Patrísticos: O Batismo de Crentes. Edited by T. Schreiner & S.D.
Wright (Nashville, TN: B&H Publishing, 2006), 163-88.
[4]
Esta é uma evidência substancial, visto que esses primeiros lecionários deram instruções
sobre como administrar os sacramentos.
[5] Escrito entre os anos 200 e 206 A.D.
[6] Veja Steven A. McKinion, Baptism in the Patristic Writings.
[7]
Cipriano também escreveu em defesa da pedocomunhão [= infantes devem participar da
Ceia do Senhor].
[8]Veja Phillip Schaff. History of the Christian Church [História da Igreja Cristã]. 8 Vols.
(Peabody, MA: Hendrickson Publications, Inc., 1996), 2:253.
[9]Essa era a visão de Hermas e Justino Mártir. Assim, a razão pela qual Constantino e
muitos outros daquele tempo esperaram até o leito de morte para serem batizados para
garantir que o maior número possível de pecados fosse perdoado.
[10] Veja Ibid., 254.
[11] Ibid., 3:834.
[12] Veja Kenneth Scott Latourette. A History of Christianity [Uma História do
Cristianismo]. 2 Vols. (Peabody, MA: Prince Press, 2001), 1:193.
[13]Veja Peter Brown, Augustine of Hippo [Agostinho de Hipona] (Berkeley, CA:
University of California Press, 2000), 344.
[14]John Owen argumenta, no entanto, que Agostinho não acreditava na regeneração
batismal. Veja Biblical Theology [Teologia Bíblica] (Morgan, PN: Soli Deo Gloria
Publications. 2002), 621.
[15]
Como citado em Tomás de Aquino, Summa Theologica [Suma Teológica], 3rd Parte, P.
64 Art. 1, Obj. 3.
[16] The City of God [A Cidade de Deus], livro XX. Capítulo 8. (Itálicos pelo presente
autor.)
[17] Ibid,. 11:14.
[18]
Veja Jonathan Rainbow, “Confessor Baptism”: The Baptismal Doctrine of the Early
Church [Batismo de Confessores: A Doutrina Batismal da Igreja Primitiva], Edited by T.
Schreiner & S. D. Wright (Nashville: B&H, 2006), 188.
[19] Ibid., 191.
[20] Summa Theologica, 3rd Part, P. 64. Art. 3. Resposta à Obj. 3.
[21]
Charles Hodge, “O fogo produz combustão porque é ordenado por Deus e imbuído de
poder para esse fim. Os sacramentos conferem graça porque são dotados de eficácia para
conceder a graça e são ordenados por Deus para esse propósito” (Systematic Theology
[Teologia Sistemática], Vol. 3. 508.).
[22] Summa Theologica, 3rd Part, P. 64. Art. 4. Obj. 4.
[23]
The Theology of Infant Salvation [A Teologia da Salvação Infantil] (Harrisonburg, VA:
Sprinkle, 1981), 236.
[24] Comissionado pelo papa João Paulo II, em 1986.
[25] Parte II, 1265.
[26] Swear to God [Juro por Deus] (New York: Doubleday, 2004), 19.
[27] Ibid.
[28]Citado em Jonathan H. Rainbow, “Confessor Baptism”: Believer’s Baptism, eds.
T. Schreiner & S.D. Wright (Nashville, TN: B&H Publishing, 2006), 163-88, 193.
[29]Geoffrey Bromiley: “Como a fé é a operação sobre-humana do Espírito, ela pode ser
dada mesmo quando não há uma consciência normal dela e mesmo quando a
autoconsciência como tal não se desenvolveu”. Children of the Promise: The Case For
Baptizing Infants [Filhos da Promessa: O Argumento para Batizar Infantes], 72-24.
[30]Martin Luther’s Table Talk [Conversas à Mesa de Lutero], 353. A posição de Lutero
sobre a fé está intimamente alinhada com o fideísmo, que afirma que a razão não é
necessária para a fé. A fé aceita aquilo que a razão sozinha é incapaz de acreditar. “Pois a
razão”, Lutero ensinou, a razão “é o maior inimigo que a fé tem: nunca vem em auxílio de
coisas espirituais, mas — com mais frequência do que o oposto — luta contra a Palavra de
Deus”. Ibid., 353.
[31] Ibid.
[32] Ibid.
[33]
Apology of the Augsburg Confession], XXIV.5. Sept. 1531. Book of Concord [Livro da
Concórdia], eds. Robert Kolb and Timothy J. Wengert (Minneapolis: Fortress Press, 2000),
258.
[34] Luther’s Small Catechism [Catecismo Menor de Lutero], 242.
[35] Parte IV, seç. 2.
[36] “Apology of the Augsburg Confession”, in The Book of Concord, 183.
[37] Loci Communes 1555 (Grand Rapids, MI: Baker, 1965), 213.
[38]Citado em R.A. Webb, The Theology of Infant Salvation [A Teologia da Salvação
Infantil], (Harrisonburg, VA: Sprinkle, 1981), 241. A compreensão de Lutero da natureza
da fé vai contra toda definição bíblica de fé. Sem uma compreensão cognitiva da
mensagem do Evangelho (o objeto da fé), como o infante coloca sua confiança em Cristo?
Como a fé pode existir sem um objeto? Em outras palavras, como pode haver fé sem uma
aceitação mental e confiança em Cristo? Fé sem conhecimento não é fé de modo algum.
[39] Of Baptism [Sobre o Batismo], 130. Citado em Ibid,. 198.
[40]
De Baptismo [Sobre o Batismo], (1525). Citado em Jonathan H. Rainbow, “Confessor
Baptism”, em Believer’s Baptism, Ed. by T. Schreiner & S.D. Wright (Nashville: B&H,
2006), 163-188.
[41] Charles Hodge, Systemic Theology (Grand Rapids: Eerdmans, 1991), 3:590.
[42]
Mas isso significa que a eficácia do batismo espera pela fé, ou a fé tardia é de algum
modo conferida pelo batismo? A confissão não parece dar uma resposta direta.
[43]
James Bannerman, The Church of Christ [A Igreja de Cristo] (Edinburgh: Banner of
Truth, 1960), 1:115.
[44]Os filhos da aliança batizados têm maior probabilidade de crer em Cristo do que os
filhos não batizados que são criados nas igrejas Batistas? Até que ponto o batismo infantil
confere graça à criança? Não parece haver nenhuma resposta clara na confissão.
[45]R.B. Kuiper afirma: “Embora nem todos os filhos dos crentes sejam regenerados, ainda
assim é um ensinamento claro das Escrituras que muitos deles são. Alguns nascem de novo
enquanto meros bebês, outros enquanto adolescentes, outros ainda como adultos. O
momento exato quando agrada ao soberano Deus conceder a graça da regeneração a um
dado filho da aliança, não temos como dizer. Mas isto nós sabemos: na concessão da graça
salvífica aos pecadores, Deus, embora não esteja preso pelos relacionamentos familiares,
ainda assim os leva em conta. Ele é e se manifesta como o Deus dos crentes e seus filhos.
Essa verdade está no coração da doutrina do Pacto da Graça encontrada na Escritura. A
conclusão é justificada à medida que pode ser assumido que os filhos da aliança, de modo
geral, são ou serão regenerados”. The Glorious Body of Christ [O Corpo Glorioso de
Cristo] (Edinburgh: Banner of Truth, 2001), 211-12.
[46]
“The General Assembly” [A Assembleia Geral], in Biblical Repertory and Princeton
Review 20 [Repertório Bíblico e Resenhas de Princeton] (1848), 351.
[47]
Citado em Rich Lusk, “Paedobaptism and Baptismal Efficacy”, in The Federal Vision
[Pedobatismo e Eficácia Batismal, em A Visão Federal], Ed. by Steve Wilkins and Duane
Garner (Monroe, LA: Athanasius Press, 2004), 84.
[48] Citado em Ibid., 101.
[49] Ibid., 97.
[50] Ibid., 101.
[51]Rich Lusk, “Paedobaptism and Baptismal Efficacy: Historic Trends and Current
Controversies” [Pedobatismo e Eficácia Batismal: Tendências Históricas e Controvérsias
Correntes] in The Federal Vision, eds. Steve Wilkins and Duane Garner (Monroe, LA:
Athanasius Press, 2004), 101.
[52]
“Covenant and Election” [Pacto e Eleição] in The Federal Vision, eds. Steve Wilkins
and Duane Garner (Monroe, LA: Athanasius Press, 2004), 39.
[53]O defensor da Visão Federal, Peter Leithart, tem uma visão ligeiramente diferente da
eficácia do batismo infantil. A eficácia do batismo infantil depende em grande medida da
educação cristã. “Parentes e outros que tratam um bebê batizado como cristão estão
reafirmando seu status, aprimorando o rito do batismo, tornando-o efetivo. O status de
‘membro de Cristo’ conferido no batismo torna-se assim internalizado à medida que o
batizado, tratado como crente, vê a si mesmo como os outros o veem e passa a aceitar as
obrigações que o rito lhe impôs”. Mais uma vez, ele diz: “A eficácia do batismo infantil
está ligada ‘ao modo como se considera e se trata’ as crianças batizadas como crentes (The
Baptized Body. Moscou, ID: Canon Press, 2007., 128-29.).
[54]Rich Lusk, “Paedobaptism and Baptismal Efficacy: Historic Trends and Current
Controversies”, in The Federal Vision, Ed. by Steve Wilkins and Duane Garner (Monroe,
LA: Athanasius Press, 2004), 112.
[55] Ibid,.
[56]
Mark Horne, Why Baptize Babies? [Por que Batizar Bebês?] (Monroe, LA: Athanasius
Press, 2007), 21.
[57] Ibid., 44.
[58] Ibid., 5.
[59] Ibid., 108.
[60] Lusk, Paedofaith [Pedofé] (Monroe, LA: Athanasius Press, 2005), 5.
[61] Ibid.
[62] Ibid., 52.
[63]Ibid., 7. Seja qual for o caso, para Lusk, as crianças obtêm fé independentemente da
Palavra de Deus. O “ouvir da fé” mencionado por Paulo (Gálatas 3:2) não é válido para os
filhos da aliança. Ao contrário de Lutero, que torna a Palavra essencial para o pedofé, Lusk
exclui a necessidade da Palavra e coloca os pais da aliança em seu lugar.
[64]Veja Abraham Booth, Paedobaptism Examined [Pedobatismo Examinado]. 3 vols.
(Baptist Standard Bearer, 2006). Paul K. Jewett, Infant Baptism & the Covenant of Grace
[Batismo Infantil e Pacto da Graça] (Grand Rapids: Eerdmans, 1977). David Kingdon,
Children of Abraham [Filhos de Abraão] (Carey Publications, 1973). Fred Malone, The
Baptism of Disciples Alone [Batismo de Discípulos Somente] (Cape Coral, FL: Founders
Press, 2003). And, Believer’s Baptism [O Batismo de Crentes], edited by Thomas R.
Schreiner and Shawn D. Wright (Nashville: B&H, 2006).
[65]
Citado no prefácio de Herman Witsius, The Economy of the Covenants between God
and Man [A Econômia dos Pactos entre Deus e o Homem] (Phillipsburg, NJ, P&R, 1990).
[66]Também hesito em usar o termo “teologia do pacto”, porque o termo é um tanto
ambíguo. Nem sempre significa o mesmo para todos os que se colocam sob o seu guarda-
chuva. Muitos teólogos pedobatistas (por exemplo, John Owen, Meredith G. Kline,
Michael Horton e Kim Riddlebarger) são identificados como pactuais, mas negam a ideia
central da teologia pactual Presbiteriana histórica — unidade essencial entre a Antiga e a
Nova Alianças. Muitos Batistas Reformados também afirmam ser pactuais, mas se
pressionados eles também geralmente negarão que a Antiga e a Nova Alianças são
essencialmente a mesma (veja o capítulo 3). Até eu me considero como pactual em
oposição à dispensacional.
[67]
Veja James M. Renihan’s em sua introdução a Nehemiah Cox e John Owen, Covenant
Theology [Teologia Pactual], ed. by Ronald D. Miller, James M. Renihan, and Francisco
Orozco (Palmdale, CA: RBAP, 2005).
[68]Não é preciso ser dispensacional para rejeitar a principal ideia central da teologia
pactual pedobatista. De fato, minha posição é muito semelhante à posição pactual de
Meredith Kline, Michael Horton e Kim Riddlebarger.
[69]
Warfield, The Works of Benjamin B. Warfield [As Obras de Benjamin B. Warfield]
(Grand Rapids: Baker, 2003), 9:399-400.
[70]O pedobatista Frank Colquhoun afirma: “Pode ser dito com franqueza que, enquanto
nos determos somente no Novo Testamento e ignorarmos o Antigo Testamento, é
impossível provar essa doutrina [o batismo infantil]”. Is Infant Baptism Scriptural? [O
Batismo Infantil é Escriturístico?] (Falcon Booklets, 1962), 9., citado em David Kingdon,
Children of Abraham [Filhos de Abraão], 40.
[71] Ibid., 400.
[72]
Joseph A. Pipa, Jr., The Covenant and Our Children [O Pacto e Nossos Filhos], em The
Covenant [O Pacto], editado por Joseph Pipa, Jr. e C.N. Willborn (Taylors, SC:
Presbyterian Press, 2005), 77.
[73] Murray, Christian Baptism [Batismo Cristão], 69.
[74]
Hodge, Outlines in Theology [Esboços em Teologia] (Edinburgh: Banner of Truth,
1991), 621.
[75]Turretini, Institutas of Elenctic Theology [Compêndio de Teologia Apologética]
(Phillipsburg: P&R, 1997). v. iii, 418.
[76]
Berkhof, Systematic Theology [Teologia Sistemática] (Grand Rapids: Eerdmans, 1994),
634.
[77]
Bannerman, The Scripture Doctrine of the Church [A Doutrina Bíblica da Igreja]
(Londres: Tentmaker Publications, 2005), 232.
[78] Hodge, Outlines in Theology (Edinburgh: Banner of Truth, 1991), 621.
[79] Bannerman, The Church of Christ (Edinburgh: Banner of Truth, 1974), 2:101.
[80]Marcel, The Biblical Doctrine of Infant Baptism [A Doutrina Bíblica do Batismo
Infantil] (London: James Clarke, 1953), 191. Trad. por Philip Edgcumbe Hughes (1950).
Citado em Children of Abraham, 25.
[81]Dabney, Lectures in Systematic Theology [Lições em Teologia Sistemática] (Grand
Rapids: Baker, 1985), 787. Dabney não foi consistente com essa regra hermenêutica
específica: “O que era praticado na Antiga Aliança deveria ser praticado na Nova Aliança a
menos que seja diretamente proibido pelo Novo Testamento”. Para o pedobatismo, nenhum
testemunho do Novo Testamento é necessário para Dabney. Por outro lado, o uso de
música instrumental no culto público não foi permitido. Por quê? Porque Dabney afirmou
que não há nenhum mandamento do Novo Testamento para tal prática. Ao contrário do seu
argumento contra os credobatistas, Dabney usou o testemunho silencioso do Novo
Testamento contra aqueles que apoiam o uso da música instrumental no culto público. Ele
é inconsistente. Embora o Antigo Testamento legitime o uso de instrumentos no culto
público e o Novo Testamento não tenha nenhum testemunho contra isso, Dabney ainda se
opunha à prática. Para o caso da música instrumental no culto público, os mandatos do
Antigo Testamento não são apoio suficiente. De acordo com Dabney, muita coisa mudou
da economia nacional do Antigo Testamento para a igreja espiritual do Novo Testamento
para aceitarmos cegamente toda prática do Antigo Testamento sem uma autorização
explícita do Novo Testamento. “A igreja agora não é uma nação”, afirmou Dabney, “mas
puramente um reino espiritual que não é desse mundo. Por isso, não há mais espaço em seu
culto para trombetas de chifres, harpas e órgãos, do que para espadas e apedrejamentos em
seu governo”. Ele prosseguiu afirmando que “o ônus da prova recai sobre eles [aqueles que
usam instrumentos em seu culto público]. “São eles”, argumentou Dabney, “quem devem
provar afirmativamente que Deus designou e exigiu o seu uso [de instrumentos] em seu
culto do Novo Testamento” (“Discussions” [Discussões], 5:325-26). Isso é exatamente o
oposto do que ele diz sobre o batismo infantil: “O ônus da prova… recai sobre o
imersionista”.
[82] Baptism and Covenant Theology [Batismo e Teologia Pactual], 4.
[83] Berkhof, Systematic Theology (Grand Rapids: Eerdmans, 1994), 656.
[84]Este argumento é mais completamente desenvolvido e articulado no capítulo dois do
livro de Fred A. Malone, The Baptism of Disciples Alone [O Batismo de Discípulos
Somente].
[85]Muitos argumentam que a diferença entre o batismo e a Ceia do Senhor é a mesma que
há entre um ato ativo e um ato passivo. Os infantes são batizados porque permanecem
passivos em todo o processo, ao passo que não devem participar da mesa do Senhor porque
isso exigiria que eles se envolvessem de modo ativo. No entanto, o batismo não é tratado
nas Escrituras como um ato passivo. A Bíblia ordena que os pecadores se arrependam e
sejam batizados, indicando que o batismo é um ato que deve ser realizado de modo ativo
pelo crente arrependido. De modo voluntário, os crentes devem se submeter ativamente a
esse ato de obediência; que, a propósito, não pode ser ativamente obedecido por infantes
incrédulos que não estão conscientes do seu batismo.
[86]
Logicamente, é muito difícil, se não impossível, refutar uma negação.
[87] James Oliver Buswell afirmou: “Para os de fora, a regra era: ‘Creia e seja
circuncidado’” (A Systematic Theology of the Christian Religion [Uma Teologia
Sistemática da Religião Cristã], 261). No entanto, em nenhum lugar do Antigo Testamento
isso é dito. Essa é uma afirmação que lê o Novo Testamento no Antigo.
[88]O Halfway Covenant (pacto do meio-termo) foi um verdadeiro ponto de discórdia na
Nova Inglaterra entre os anos 1634-1828. Durante esse tempo, muitas igrejas
congregacionais na Nova Inglaterra estavam batizando filhos de incrédulos. O problema
surgiu porque as igrejas diminuíram seu padrão de membresia. A primeira geração de
igrejas puritanas na América exigia uma experiência de conversão e uma confissão de fé de
todos os membros adultos. Somente aqueles que atendessem a essas qualificações
poderiam participar da Ceia do Senhor e ter os seus filhos batizados. Esse padrão, no
entanto, foi rebaixado com o tempo em algumas das igrejas congregacionais na região. Por
exemplo, Solomon Stoddard (1643-1728) ensinou que aqueles que cresceram na igreja, que
não eram escandalosos, poderiam ter comunhão e ter os seus filhos batizados, mesmo sem
uma profissão de fé. A falta de uma profissão não revoltou completamente a membresia da
igreja. Em vez disso, eles receberam a membresia parcial (pacto do meio-termo) que
permitia que eles e seus filhos participassem dos sacramentos, mas os impedia de votar em
qualquer decisão da congregação.
[89]Nourishment from the Word: Select Studies in Reformed Doctrine [Alimentando-se da
Palavra: Estudos Selecionados na Doutrina Reformada] (Ventura, CA: Nordskog, 2008),
18. Na medida em que a circuncisão significa a “união de Israel com Deus” e a “remoção
de sua contaminação”, isso deve ser verdade. Contudo, a pergunta deve ser feita: Essa
“união” e “remoção da contaminação” está se referindo à união e santificação individual,
pessoal e espiritual, ou apenas a uma união nacional e a um ambiente físico separado? Isto
é, a circuncisão significava a lei escrita no coração, ou uma nação física separada para o
propósito de Deus? Em relação à circuncisão infantil significar “a justiça da fé”, não há
base bíblica para essa afirmação (veja o capítulo 15).
[90] Ibid., 19.
[91]
Thomas R. Schreiner e Shawn D. Wright, editores. Believer’s Baptism (Nashville:
B&H, 2006), 121.
[92]
Dagg, Manual of Church Order [Manual de Ordem da Igreja] (Harrisonburg, VA: Gano
Books, 1990), 195.
[93] James Bannerman, The Church of Christ (Edinburgh: Banner of Truth, 1974), 2:101,
74.
[94]
Douglas Bannerman, The Scripture Doctrine of the Church (London: Tentmaker,
2005), 232.
[95]The Complete Works of Matthew Henry [As Obras Completas de Matthew Henry], vol.
I. (Grand Rapids: Baker, 1997), 514.
[96]
Beeke, Bringing the Gospel to Covenant Children [Levando o Evangelho para os Filhos
da Aliança] (Grand Rapids: Reformation Heritage Books, 2001), 6.
[97]“A apologética pedobatista”, argumentou David Kingdon, “é muito difícil de controlar
e, por essa razão, muda do Novo para o Antigo e do Antigo para o Novo, sem a devida
atenção ao desdobramento histórico da graça redentora” (Children of Abraham, 42).
[98] Baptism and Confirmation [Batismo e Confirmação], 158-59.
[99] Children of Abraham, 28.
[100] Institutas, 4.16.4.
[101] Randy, R. Booth, Children of the Promise [Filhos da Promessa], 109 (grifos dele).
Citado em Stephen J. Wellum, Believer’s Baptism (Nashville: B & H, 2006), 123.
[102] Ibid., 42.
[103] Children of Abraham, 33.
[104] Ibid., 33-34.
[105]
Booth, Paedobaptism Examined [Pedobatismo Examinado], 265. Citado em Children
of Abraham, 33-34.
[106] Mauro, Baptism [Batismo] (Swengel, PA: Reiner Publications, 1977), 98-99.
[107]
Malcolm Watts, Introduction [Introdução], em Thomas Boston, A View of the
Covenant of Grace [Uma Visão do Pacto da Graça] (Ross-shire, UK: Christian Focus, ii.
[108]
Recentemente tem havido um movimento dentro da teologia pactual para se afastar de
qualquer forma de um pacto de obras. Esse movimento tem buscado unificar todos os
pactos, negando a existência do Pacto de Obras.
[109]Muitos dos pais da igreja primitiva, como Barnabé, Justino Mártir e Tertuliano,
enfatizaram a descontinuidade entre os pactos. Esses homens ensinaram que o pacto
mosaico era um pacto distinto que havia sido anulado e substituído pela Nova Aliança
(Barnabé, The Epistle of Barnabas [A Epístola de Barnabé], 14:146; Justino Mártir,
Dialogue with Tryrho [Diálogo com Trifão], 11:199-200; Tertuliano; An Answer to the
Jews [Resposta aos Judeus], 6:157).
[110] Institutas, 2.10.2.
[111]
Citado em Peter Golding, Covenant Theology [Teologia Pactual] (Glasgow, UK:
Mentor, 2004), 23.
[112]
Of the One and Eternal Testament or Covenant of God [Sobre o Único ou Eterno
Testamento ou Pacto de Deus] (1534).
[113]The Commentary of Dr. Zacharias Ursinus on the Heidelberg Catechism [O
Comentário do Dr. Zacarias Ursino sobre o Catecismo de Heidelberg]. Traduzido por G.W.
Willard (Phillipsburg, NJ: P&R, n. d.), 99.
[114]Houve um grupo de puritanos que ensinavam que o pacto mosaico não era um pacto de
graça, como William Pemble, Nehemiah Coxe, John Bunyan e John Owen. Eles criam que
o pacto mosaico era antes uma manifestação do Pacto de Obras. Por causa disso, esses
homens não se encaixam adequadamente no campo da teologia pactual pedobatista. Esses
puritanos podem ter compartilhado muitas crenças comuns com a teologia pactual
pedobatista, mas sua crença a respeito da natureza do pacto mosaico elimina o próprio
fundamento da teologia pactual pedobatista. Qual é esse fundamento? É a crença de que a
Antiga e a Nova Alianças são essencialmente o mesmo pacto sob duas administrações.
[115]
Ames, The Marrow of Theology [A Essência da Teologia] (Durham, NC: The
Labyrinth Press, 1983), 206.
[116] Cap. 7. seç. 6.
[117] Witsius, The Economy of the Covenants between God and Man, 3.3.4.
[118]
Murray colocou todos os pactos de Deus (incluindo o pacto da criação) sob o guarda-
chuva central do Pacto da Graça.
[119] Murray, The Covenant of Grace [O Pacto da Graça], 31-32.
[120]
Robertson, Christ of the Covenants [Cristo dos Pactos] (Phillipsburg, NJ: P & R,
1980), 28.
[121]
Edward Young, A Commentary on Daniel [Um Comentário sobre Daniel] (Edimburgo:
Banner of Truth, 1997), 16.
[122]
James Buchanan, The Doctrine of Justification [A Doutrina da Justificação]
(Edinburgh: Banner of Truth, 1997), 39.
[123]Johannes Wollebius, Compendium of Christian Theology [Compêndio de Teologia
Cristã]. Disponível em: <http://sites.google.com/site/themosaiccovenant/johannes-
wollebius-1>.
[124]Veja os capítulos 1 e 3 em The Law is Not Faith [A Lei Não é Fé], ed. Bryan D.
Estelle, J.V. Fesko e David VanDrunen (Phillipsburg, NJ: P&R, 2009).
[125]
Dabney, Systematic Theology [Teologia Sistemática] (Edinburgh: Banner of Truth,
1996), 441. Ver nota de rodapé 11 na página 4.
[126] Institutas, 2.10.7.
[127] The Covenant of Grace, 4.
[128] Bannerman, The Church of Christ (Edinburgh: Banner of Truth, 1974), vol. ii. 74.
[129]
Robert L. Reymond, A New Systematic Theology of the Christian Faith [Uma Nova
Teologia Sistemática da Fé Cristã] (Nashville: Thomas Nelson, 1998), 937. (itálicos pelo
presente autor).
[130] Ibid. 937.
[131]
Murray, The Collected Writings of John Murray [Os Escritos Selecionados de John
Murray] (Edimburgo: Banner of Truth, 2005), p. 4:240.
[132]Hodge, Systematic Theology (Grand Rapids: Eerdmans, 1981), 3:555 (itálicos pelo
presente autor).
[133]Houve algumas exceções a essa regra: os profetas, sacerdotes, reis e os poucos
verdadeiros crentes que, pela fé, tinham comunhão diária com Deus; mas estes foram as
exceções, não a regra.
[134] Biblical Theology [Teologia Bíblica], 125-26.
[135] Ao Cristo dizer à mulher samaritana que “a salvação vem dos judeus”, Ele faz uma
clara distinção entre judeus e samaritanos. Os samaritanos eram descendentes de Abraão,
mas por causa dos seus casamento mistos com os gentios perderam os seus privilégios
pactuais.
[136]Ele ainda diz que a “igreja-estado” continuou também através da “separação do povo
do restante do mundo, por meio de inumeráveis ordenanças divinas, impossibilitando a sua
coalizão”.
[137]
John Owen, “An Inquiry into the Original, Nature, Institution, Power, Order, and
Communion of Evangelical Churches” [Uma Investigação da Origem, Natureza, Poder,
Ordem e Comunhão de Igrejas Evangélicas] in The Works of John Owen (Edinburgh:
Banner if Truth, 1998), 15:248.
[138]
A lei puniu a Cristo submetendo-O a uma morte sangrenta pelos pecados de todos
aqueles que Ele representava, enquanto aqueles representados recebem o mérito da Sua
justiça.
[139] The Economy of the Divine Covenants between God and Man, 4.11.4.
[140]Romanos 2:29: “Mas é judeu o que o é no interior, e circuncisão a que é do coração, no
espírito, não na letra; cujo louvor não provém dos homens, mas de Deus.
[141] Biblical Theology [Teologia Bíblica], 128.
[142]
Warfield, “The Polemics of Infant Baptism” [A Polêmica do Batismo Infantil] em The
Works of Benjamin B. Warfield (Grand Rapids: Baker, 2003), 9:406.
[143] Ibid., 403.
[144] Systematic Theology, 3:555.
[145]Owen estava se referindo ao pacto mosaico, mas isso ainda é muito alarmante, visto
que ele chama esse pacto de Pacto da Graça (John Owen, Biblical Theology [Teologia
Bíblica]. Morgan, PA: Soli Deo Gloria, 2002., 366). Todavia, no momento em que Owen
escreve o seu comentário sobre Hebreus, ele não mais chama o pacto mosaico de Pacto da
Graça, mas, antes, do oposto: um pacto de obras.
[146]Esta é uma suposição ousada. Quem pode afirmar que essas crianças tinham pais
crentes?
[147]
Bannerman, The Scripture Doctrine of the Church (Stoke-on-Trent, UK: Tentmaker,
2005), 320.
[148]
Itálicos pelo presente autor. Todas as citações bíblicas desta tradução nos capítulos 5 e
6 são extraídas da ACF.

[149]
Kline, By Oath Consigned [Por Juramento Consignado] (Grand Rapids: Eerdmans,
1968), 23.
[150] Itálicos pelo presente autor.
[151] Institutas, 4.16.11.
[152]
John Owen, Hebreus 8:6. Citado em Covenant Theology [Teologia Pactual] (Palmdale,
CA: Reformed Baptist Press Press, 2005), 202. Depois de explicar a natureza do pacto
mosaico, Owen observa de forma contundente: “Essa é a natureza e a substância do pacto
que Deus fez com esse povo; um pacto particular e temporário, e não uma mera
dispensação do Pacto da Graça” (Ibid., 199, itálicos pelo presente autor).
[153] Ibid., 189.
[154] Robertson, Christ of the Covenants (Phillipsburg, NJ: P&R, 1980), 217.
[155] Biblical Theology, 128.
[156] Veja Isaías 6:9-13.
[157]Horton, God of Promise: Introducing Covenant Theology [Deus da Promessa:
Introdução à Teologia Pactual] (Grand Rapids: Baker, 2006), 50.
[158] oikos, metaforicamente se refere à casa de Israel (oikou Israel), veja Mateus 10:6.
[159]
De acordo com os escritos de muitos dos primeiros pais da igreja, os primeiros cristãos
perceberam que a destruição de Jerusalém em 70 d.C. não foi por acaso, mas foi a ira de
Deus sendo derramada sobre a nação de Israel. Por quê? Porque Israel quebrou
coletivamente o pacto de Deus e rejeitou o Messias prometido. Eusébio o registra desta
maneira: “O juízo de Deus finalmente alcançou aqueles que cometeram tais ultrajes contra
Cristo e seus apóstolos, e destruiu totalmente aquela geração de homens ímpios”. Os judeus
“encontraram a destruição nas mãos da justiça divina”. The Nicene and Post-Nicene
Fathers [Os Pais Nicenos e Pós-Nicenos], vol. I. (Grand Rapids: Eerdmans, 1976), 138.
Edward Gibbon afirma que a destruição do templo e da cidade de Jerusalém foi atribuída
pelos primeiros cristãos “à ira do Deus Supremo”. The Christians, and the Fall of Rome
[Os Cristãos e a Queda de Roma] (New York: Penguin, 1994), 11.
[160]Bunyan, The Doctrine of Grace and Law Unfolded [A Doutrina da Lei e da Graça
Exposta], em The Works of John Bunyan [As Obras de John Bunyan] (Edinburgh: Banner
of Truth, 1999), 1:503.
[161] Phillip Schaff, um pedobatista, afirma que Calvino não faz uma distinção
suficientemente nítida entre a Antiga e a Nova Alianças, e entre a igreja e o estado.
Comentando a visão de Calvino sobre a liberdade cristã, Schaff observa que a visão
moderna da separação entre igreja e estado “segue legitimamente de uma discriminação
mais nítida entre a esfera secular e a espiritual, entre o Antigo e o Novo Testamento, entre a
Lei de Moisés e o Evangelho de Cristo, e do espírito e exemplo dAquele que disse: ‘Meu
reino não é deste mundo’” (The Creeds of Christendom [Os Credos da Cristandade], vol. I).
[162] Witsius, The Economy of the Covenants between God and Man (Phillipsburg, PA:
P&R, 1990), 1:74.
[163]
Tanto pedobatistas quanto dispensacionalistas falham em aplicar consistentemente em
sua teologia. Os pedobatistas colocam sua semente biológica em um relacionamento
especial com Deus, enquanto que os dispensacionalistas ainda colocam a semente biológica
de Abraão em um relacionamento especial com Deus. Veja Hal Brunson, The Rickety
Bridge and the Broken Mirror [A Ponte Frágil e o Espelho Quebrado] (New York:
iUniverse, 2007).
[164] The Economy of the Divine Covenants between God and Man, 4.4.10.
[165]
Edwards, A History of the Work of Redemption [Uma História da Obra da Redenção]
(Edinburgh: Banner of Truth, 2003), 297.
[166] E.P. Sanders, em seu livro Paul and Palestinian Judaism [Paulo e o Judaísmo
Palestino], refutou essa afirmação. Nessa obra, Sanders examinou uma enorme quantidade
de literatura judaica que data entre 200 a.C. e 200 d.C. e mostrou como o judaísmo do
Segundo Templo não via o pacto mosaico como um puro pacto “legalista”. Antes, eles
criam que o pacto era gracioso. De acordo com a literatura judaica existente sobre o
judaísmo do Segundo Templo, o pacto continha condições, mas também continha provisão
para o pecado nos sacrifícios. Sim, o pacto exigia fidelidade pactual para Israel permanecer
no pacto, mas sua entrada foi completamente por eleição, e isso foi pela graça, em vez de
ser pelo mérito. Sanders identificou essa visão como “nomismo pactual” — uma espécie de
pacto gracioso/condicional.
[167] The Economy of the Divine Covenants between God and Man, 4.4.12.
[168] Christ of the Covenants, 181-182
[169]
Naturalmente, Cristo recebeu a recompensa ou promessa do pacto mosaico (por
exemplo, a vida eterna), como é evidente por Sua ressurreição.
[170]
Horton, God of Promise: Introducing Covenant Theology (Grand Rapids: Baker,
2006), 76.
[171]
Brown, An Exposition of the Epistle of Paul the Apostle to the Galatians [Uma
Exposição da Epístola do Apóstolo Paulo aos Gálatas] (Edinburgh: Banner of Truth, 2001),
229-30.
[172]Citado em Brenton C. Ferry, “Works in the Mosaic Covenant: A Reformed
Taxonomy” [“Obras no pacto mosaico: Uma Taxonomia Reformada], em The Law is Not
Faith: Essays on Works and Grace in the Mosaic Covenant, ed. Bryan D. Estelle, J.V.
Fesko e David VanDrunen (Phillipsburg, NJ: P&R, 2009), 76.
[173] The Economy of the Divine Covenants between God and Man, 3.1.9.
[174] Ibid., 3.1.13.
[175] Ibid., 4.4.14.
[176] Ibid.
[177] Ibid.
[178]
Ibid., 4.4.14.
[179] Ibid., 4.4.51.
[180] Veja Isaías 24:1-6.
[181] Ibid., 1.9.18.
[182] Ibid., 4.4.12.
[183]
Kersten, Reformed Dogmatics [Dogmática Reformada] (Grand Rapids: Netherland
Reformed Book, 2009), 1:239.
[184] Ibid., 1: 241.
[185]
Brown, An Exposition of the Epistle of Paul the Apostle to the Galatians (Edinburgh:
Banner of Truth, 2001) 261-62.
[186]
O teólogo evangélico francês Henri Blocher tem uma posição semelhante à de Herman
Witsius. Veja “Old Covenant, New Covenant” [Antiga Aliança, Nova Aliança], em Always
Reforming [Sempre Reformando], ed. por A.T.B. McGowan (Downers Grove, Il: IVP,
2006),
[187]
Select Works (Edinburgh: 1849), 1:39. Citado em Collected Writings of John Murray
(Edinburgh: Banner of Truth, 2005), 4.227.
[188] Ibid.
[189]“Is God the God of the Mature Professing Christian Only?: The Response of a
Reformed Paedobaptist to Greg Welty’s ‘A Critical Evaluation of Paedobaptism” [“Deus é
Deus Apenas dos Cristãos Professos e Maduros? A Resposta de um Pedobatista Reformado
à ‘Uma Avaliação Crítica do Pedobatismo’”, de Greg Welty]
(https://reformed.org/sacramentology/horne_welty_response.html).
[190] Ibid.
[191]
Hodge, Commentary on the Second Epistle to the Corinthians [Comentário da Segunda
Epístola aos Coríntios] (Grand Rapids: Eerdmans, 1994), 57.
[192] Ibid.
[193] Ibid.
[194] Ibid.
[195] Ibid.
[196]The Law is Not Faith, ed. por Bryan D. Estelle, J.V. Fesko e David VanDrunen
(Phillipsburg, NJ: P&R, 2009).
[197] The Law is Not Faith, 12.
[198] Ibid., 11.
[199]Byron G. Curtis, “Hosea 6:7 and Covenant-Breaking Like/At Adam” [Oséias 6:7 e a
Quebra da Aliança como/em Adão”, em The Law is Not Faith, ed. por Bryan D. Estelle,
J.V. Fesko e David VanDrunen (Phillipsburg, NJ: P & R, 2009), 76.
[200]
S.M. Baugh, “Galatians 5:1-6 and Personal Obligation” [Gálatas 5:1-6 e Obrigação
Pessoal], em The Law is Not Faith, ed. por Bryan D. Estelle, J.V. Fesko e David
VanDrunen (Phillipsburg, NJ: P&R, 2009), 262. Itálicos pelo presente autor.
[201]Bryan D. Estelle, “Leviticus 18:5 and Deuteronomy 30:1-14 in Biblical Theological
Development” [Levítico 18:5 e Deuteronômio 30:1-14 no Desenvolvimento Teológico
Bíblico], em The Law is Not Faith, ed. por Bryan D. Estelle, J.V. Fesko e David
VanDrunen (Phillipsburg, NJ: P&R, 2009), 138.
[202]
Sutton, That You May Prosper: Dominion By Covenant [Que Você Prospere: Domínio
pelo Pacto] (Tyler, TX: Dominion Press, 1987), 81.
[203]Esse problema levou Daniel Fuller a confessar: “É extremamente difícil entender as
explicações da teologia pactual de como uma linha de pensamento, que tem a estrutura de
Pacto de Obras, mesmo assim funciona como parte do Pacto da Graça” (Citado em Mark
W. Karlberg, Covenant Theology in Reformed Perspective [Teologia Pactual na
Perspectiva Reformada] (reimpresso eletronicamente pela Two Age Press em nome da
Wipf & Stock Publishers. Disponível em:
<http://www.ntslibrary.com/PDF%20Books/Covenant%20Theology%20in%20Reformed%20Perspective.
[204] Murray, The Covenant of Grace (Phillipsburg, NJ: P&R, 1988), 18.
[205] Ibid.
[206] Ibid.
[207] Ibid., 19.
[208] Ibid. (Itálicos pelo presente autor.)
[209]“O pacto permanece pela graça de Deus na eleição [‘entrar’]; ‘nomismo’ para a
exigência de obediência à lei [nomos em grego: ‘permanecendo’]”. Citado em Iain M.
Duguid, “Covenant Nomism and the Exile” [Nomismo Pactual e o Exílio], em Covenant,
Justification, and Pastoral Ministry [Pacto, Justificação e Ministério Pastoral] ed. R. Scott
Clark (Phillipsburg, NJ: P&R, 2007), 53.
[210]
Veja o artigo de David VanDrunen Justification by Faith in the Theology of Norman
Shepherd [Justificação pela Fé na Teologia de Norman Sheperd].
Disponível em: <http://www.banneroftruth.org/pages/articles/article_detail.php?186>.
[211]The Federal Vision and Covenant Theology a Comparative Analysis [A Visão Federal
e a Teologia Pactual, Uma Análise Comparativa] (Phillipsburg, NJ: P&R, 2006), 6.
[212] Ibid., 51.
[213] Ibid., 33.
[214]
Ibid., 46.
[215]
“Merit Versus Maturity” [Mérito versus Maturidade] em The Federal Vision, ed. por
Steve Wilkins e Duane Garner (Monroe, LA: Athanasius Press, 2004), 195.
[216]
Daniel Fuller, Gospel and Law: Contrast or Continuum? [Evangelho e Lei: Contraste
ou Continuidade?] (Grand Rapids: Eerdmans, 1980).
[217] Ibid., 35.
[218]
Veja “Merit Versus Maturity”, de James Jordon em The Federal Vision, ed. por Steve
Wilkins e Duane Garner (Monroe, LA: Athanasius Press, 2004).
[219] Ibid.
[220] Ibid., 40.
[221] Nesse sentido, a Visão Federal é simpática à Nova Perspectiva sobre Paulo.
[222] Ibid., 45.
[223]Daniel Fuller fala sobre a fidelidade pactual como “obediência da fé” (hypakoe
pisteos).
[224] Ibid., 89.
[225] Ibid., 89.
[226] Ibid., 90.
[227] Golding, Covenant Theology [Teologia Pactual] (Glasgow, UK: Mentor, 2004), 129.
[228] Ibid., 128.
[229] Ibid., 128.
[230] Ibid., 128.
[231] Ibid., 128-129.
[232] Ibid.
[233]“Is God the God of the Mature Professing Christian Only?: The Response of a
Reformed Paedobaptist to Greg Welty’s ‘A Critical Evaluation of Paedobaptism’”
(http://www.reformed.orgsacramentology/home_welty_response.html).
[234]Veja John Owen, The Death of Death in the Death of Christ [A Morte da Morte na
Morte de Cristo]. O tema central desta defesa clássica da expiação limitada é que o dom da
fé foi comprado por Cristo na cruz. Assim, a expiação deve ser restrita apenas aos eleitos;
caso contrário, o mundo inteiro creria e seria salvo. Por outro lado, Owen se esforça ao
máximo para provar biblicamente que a fé salvífica nos eleitos de Deus é um resultado da
obra de Cristo na cruz.
[235]O teólogo pactual Henri Blocher o identifica como “o espinho na carne de muitos
teólogos pactuais… Os teólogos reformados encontraram evidências abundantes de que
fundamentalmente o Pacto da Graça é um pacto estabelecido com aqueles que estão em
Cristo. Contudo, ao mesmo tempo, eles desejavam incluir os filhos dos crentes, entre os
quais há um número de pessoas não eleitas, na promessa ‘tua e a tua descendência’” (“Old
Covenant, New Covenant”, in Always Reforming, ed. por A. T. B. McGowan. Downers
Grove, Il: IVP, 2006., 249).
[236](1) Se o pacto não tem condições, então todos os bebês batizados que estão no pacto
estão destinados a ser salvos. (2) Se o pacto tem condições sem o suprimento de graça,
então se torna um pacto de obras. (3) Se o pacto contém tanto condição(ões) quanto graça,
então todos os bebês batizados por esta graça satisfarão a(s) condição(ões) e são ou serão
salvos. 4) Se o pacto tem condições e graça, mas nem todo bebê batizado vai receber esta
graça, então se torna um pacto de obras para aqueles infantes menos afortunados. Além
destas, não vejo outra opção.
[237] Calvin’s Commentaries [Comentários de Calvino], Gálatas 4:1.
[238] Por espiritual quero dizer realidades invisíveis que são eternas em oposição a serem
temporais.
[239]
ekpeptoken: ter ficado aquém ou não ter tido efeito algum.
[240]
bebaiow, estabelecer ou cumprir. A versão bíblica The New English Version diz:
“making good his promises” [cumprindo as suas promessas].
[241] Ibid. 153.
[242]
João Calvino, Jeremias 31:31-32, Calvin’s Commentaries, vol. 10. Traduzido por John
Owen (Grand Rapids: Baker, 2003).
[243]
Nehemiah Coxe e John Owen, Covenant Theology [Teologia Pactual] (Palmdale, CA:
RBAP, 2005), 197.
[244]
Bunyan, “The Doctrine of Law and Grace Unfolded”, em The Works of John Bunyan
(Edinburgh: Banner of Truth, 1999), 1:500.
[245]
Lutero, The Bondage of the Will [A Escravidão da Vontade] (Grand Rapids: Revell,
2007), 153.
[246]Em certo sentido, o pacto mosaico era apenas hipotético; naturalmente, ninguém da
posteridade de Abraão jamais foi capaz de cumprir os termos legais deste pacto. Em outro
sentido, no entanto, o pacto mosaico não era hipotético. Embora Israel fosse incapaz de
obedecer à lei, isso não significava que deixasse de se sujeitar às suas exigências e
penalidades. Como John Owen afirmou, embora o pacto mosaico “nunca salvasse nem
condenasse qualquer homem eternamente… Realmente, revivia o poder de comando e
sanção do primeiro Pacto de Obras; e nesse aspecto, como o apóstolo fala, era ‘o ministério
da condenação’” (Covenant Theology, 197). Ou seja, a condenação revelada pela Antiga
Aliança foi tão real quanto a morte espiritual provocada pela queda de Adão.
[247]
Esta é uma razão pela qual essas leis cerimoniais e civis não têm relevância na Nova
Aliança.
[248]
Citado em R.B.C. Howell, The Covenants [Os Pactos] (Sprinkle, Harrisonburg, VA:
Reprint, 1994), p. 55.
[249]É por isso que não é necessário que a palavra “aliança” seja usada nos três primeiros
capítulos de Gênesis para comprovar que os nossos primeiros pais, antes da queda, estavam
em um relacionamento de aliança com Deus.
[250] Calvino, Gálatas 3:17, Calvin’s Commentaries, vol. 21 (Grand Rapids: Baker, 2003),
97.
[251]
Petto, The Great Mystery of the Covenant of Grace [O Grande Mistério do Pacto da
Graça] (Stoke-on-Trent, UK: Tentmaker, 2007), 126.
[252]
Michael Brown, Christ and the Condition [Cristo e a Condição] (Grand Rapids, MI:
Reformation Heritage Books, 2012), 88.
[253]
Edward Fisher, The Marrow of Modern Divinity [A Essência da Teologia Moderna]
(Ross-shire, UK: Christian Focus, 2009), 80.
[254] Covenant Theology: From Adam to Christ [Teologia Pactual: De Adão a Cristo], 189.
[255] Ibid., 97.
[256]A ressurreição de Cristo foi possível por causa da justiça de Cristo. Porque Ele não
tinha pecado, a sepultura foi incapaz de mantê-lo cativo. Aqueles que O seguem também
vivem pela Sua justiça mediante a fé (Gálatas 3:11).
[257] Witsius, The Economy of the Covenants between God and Man, 1.9.28.
[258] Bannerman, The Church of Christ (Edinburgh: Banner of Truth, 1974), 2:74.
[259]Há pelo menos três razões pelas quais Isaque e Jacó foram incluídos no pacto
abraâmico: 1) As promessas pactuais foram pessoalmente reconfirmadas para eles. 2) Os
dois eram verdadeiros crentes. 3) Eles eram patriarcas da nação de Israel. Ou seja, uma vez
que a nação de Israel se multiplicou e se dividiu em doze tribos, nem todo israelita
individualmente tinha a mesma promessa de que o Messias nasceria de sua linhagem
familiar direta. Abraão, Jacó e Isaque foram assegurados por Deus de que Cristo seria da
sua descendência, mas o restante dos filhos hebreus não tinha tal promessa. É por isso que
o pacto abraâmico foi estabelecido com os patriarcas (pais) crentes, não com os filhos
incrédulos de Israel.
[260] Brown, Hebrews [Hebreus] (Carlisle, PN: Banner of Truth, 1994), 374.
[261] John Brown, Hebrews (Carlisle, PN: Banner of Truth, 1994), 664.
[262] Ibid., 374.
[263] John Owen, Hebreus 8:9, Hebrews.
[264]
Paulo ensina que, embora os gentios não estivessem sob o pacto mosaico em si, eles
ainda estavam sob o Pacto das Obras: “Porque, quando os gentios, que não têm lei, fazem
naturalmente as coisas que são da lei, não tendo eles lei, para si mesmos são lei” (Romanos
2:14).
[265]“Todos os mandamentos que hoje vos ordeno guardareis para os cumprir; para que
vivais” (Deuteronômio 8:1). “Portanto, os meus estatutos e os meus juízos guardareis; os
quais, observando-os o homem, viverá por eles” (Levítico 18:5).
[266] John Owen, Hebreus 8:9. Ibid., 203.
[267]“E não somos como Moisés, que punha um véu sobre a sua face, para que os filhos de
Israel não olhassem firmemente para o fim daquilo que era transitório. Mas os seus
sentidos foram endurecidos; porque até hoje o mesmo véu está por levantar na lição do
velho testamento, o qual foi por Cristo abolido; e até hoje, quando é lido Moisés, o véu está
posto sobre o coração deles” (2 Coríntios 3:13-15).
[268]O termo “até o fim” (eis telos) não apenas significa o grau da ira de Deus sobre Israel,
mas também pode indicar a duração da ira de Deus sobre Israel: até o fim. Naturalmente,
isso não significa que Deus rejeitou todo Israel; ainda há um remanescente sendo salvo
segundo a eleição. Isso está de acordo com Romanos 11, onde Paulo ensina que a cegueira
veio sobre Israel apenas em parte. Todavia, essa cegueira está sobre Israel até o fim dos
tempos. Ou seja, até que a plenitude dos gentios tenha entrado. Então, naquele tempo, todo
o Israel [isto é, o verdadeiro Israel espiritual] será salvo.
[269]
Bunyan, “The Doctrine of Law and Grace Unfolded”, in The Works of John Bunyan
(Edinburgh: Banner of Truth, 1999), 1:502-503.
[270]
Edwards, A History of the Work of Redemption [A História da Obra da Redenção]
(Edinburgh: Banner of Truth, 2003), 297.
[271]Josefo, The Wars of the Jews [As Guerras dos Judeus], livro 2, capítulo 18 até o fim do
livro 7.
[272]
John Owen, An Exposition of the Epistle to the Hebrews [Uma Exposição da Epístola
aos Hebreus], ed. W.H. Goold, vol. 23, Works of John Owen (Edinburgh: Johnstone and
Hunter, 1854), 144–145.
[273]
Para uma boa explicação sobre o uso normativo (terceiro uso) da lei, veja Michael
Horton, God of Promise (Grand Rapids: Baker, 2006), 174-94.
[274] The Economy of the Covenants between God and Man, 1.9.23.
[275]Aqui é onde eu devo respeitosamente me afastar da Teologia da Nova Aliança (TNA),
veja o apêndice “A Lei de Moisés e a Lei de Cristo”.
[276]O princípio do cabeça federal aplica-se na Nova Aliança no sentido de que Jesus Cristo
é o representante oficial e legal do Seu povo. Sua justiça foi imputada ao Seu povo e, por
isso, os tais permanecem justificados diante de Deus. Embora Cristo seja visto como o
cabeça federal e representante de todos aqueles que estão em união com Ele, isso não se
aplica aos filhos dos crentes. Os cristãos desfrutam da justiça de Cristo, mas somente
porque foram batizados em Cristo de modo espiritual. Os filhos herdam a depravação dos
seus pais, mas de nenhuma maneira, forma ou jeito eles herdam, compartilham ou
participam da graça que os pais receberam por meio de um relacionamento pessoal e
incomunicável com Jesus Cristo.
[277]
“Old Covenant, New Covenant”, em Always Reforming, ed. por A.T.B. McGowan
(Downers Grove, Il: IVP, 2006), 248.
[278] hē sárx ōphelei ouden — traduzido literalmente: “A carne não aproveita, nada!”.
[279]
Boston, A View of the Covenant of Grace (Ross-shire, Reino Unido: Christian Focus,
1990), 32-33.
[280]
Kuiper, The Glorious Body of Christ [O Corpo Glorioso de Cristo] (Edinburgh: Banner
of Truth, 2001), 211-12. (Itálico pelo presente autor.)
[281] Ibid., 937.
[282] The Church of Christ, 2:115.
[283] Ibid., 115.
[284] Kuen, I Will Build My Church [Eu Edificarei a Minha Igreja] (Chicago: Moody, 1971),
49.
[285]
William Dell, A Spiritual Church [Uma Igreja Espiritual] (1649). Quoted in Conrad
Murrell, Megamystery (Bentley, LA: G.A.T.E., 2002), 31.
[286] Westminster Confession of Faith [Confissão de Fé de Westminster], 25.2.
[287] I Will Build My Church, 132.
[288] Hodge, Systematic Theology (Grand Rapids: Eerdmans, 1981), 3:555.
[289] The Complete Works of Matthew Henry, 1: 513-514.
[290]
Edwards, A History of the Work of Redemption (Edinburgh: Banner of Truth, 2003),
58-59.
[291] Na versão King James: “[Um] selo da justiça da fé”.
[292] Haldane, Romans [Romanos] (Edimburgo: Banner of Truth, 1996), p. 174.
[293] Essa conexão é explicada na parte 2.
[294]Eu entendo que este argumento não aborda todos os aspectos, mas o farei na segunda
parte deste livro.
[295]
Owen, “Of Infant Baptism and Dipping” [Sobre o Batismo Infantil e Mergulho], em
The Works of John Owen (Edimburgo: Banner of Truth, 2009), 16: 262.
[296] Children of Abraham, 53.
[297]
Buswell, A Systematic Theology of the Christian Religion (Grand Rapids: Zondervan,
1962), 261.
[298] Ibid., 265.
[299] Robertson, The Christ of the Covenants (Phillipsburg, NJ: P&R, 1980), 152.
[300]Um princípio hermenêutico baseado na impossibilidade de as Escrituras contradizerem
a si mesmas que afirma que a Escritura interpreta a Escritura.
[301]
John Bunyan cria que o pacto abraâmico continha uma promessa e uma condição.
Prometia o estabelecimento da Nova Aliança de graça, mas era um pacto condicional feito
estritamente com Cristo. A condição do pacto abraâmico era o sangue de Cristo.
Considerando que Cristo cumpriu a condição do pacto abraâmico, a Nova Aliança de graça
foi estabelecida e as promessas do pacto abraâmico se cumpriram nEle. Por causa disso, a
descendência espiritual de Abraão recebe as bênçãos de Abraão sem se deparar com
qualquer condição [The Doctrine of Law and Grace Unfolded; The Works of John Bunyan,
vol. I. (Banner of Truth: 1999), 522-523.].
[302] É isso que eu quero dizer com dicotomismo pactual.
[303]
Nehemiah Coxe & John Owen, Covenant Theology (Palmdale, CA: Reformed Baptist
Academic Press, 2005), 72-73.
[304] David Kingdon, Children of Abraham (Carey Publications Ltd., first printed 1973), 31.
[305] Ibid., 93.
[306] Ibid., 91.
[307]
Ibid., 93.
[308] Ibid., 114.
[309] Ibid., 91-92.
[310] Ibid., 75.
[311] Ibid., 90.
[312]Howell dividiu os pactos de Abraão em três: o pacto da promessa, o pacto da terra e o
pacto da circuncisão. O pacto da promessa se baseava na graça, enquanto os pactos da terra
e da circuncisão se baseavam na lei/obras.
[313] The Covenants (Harrisonburg, VA: Sprinkle, 1994) 49.
[314] Ibid.
[315] Princeton Review [Revista de Princeton], outubro de 1853. É impressionante que
Charles Hodge tenha chegado a essa conclusão enquanto permanecia um pedobatista. Isso
não concorda com a conclusão que ele fez em sua teologia sistemática: “Se a igreja é uma
em ambas as dispensações; se os infantes eram membros da igreja sob a teocracia, então
eles são membros da igreja agora, a menos que o contrário possa ser provado”.
[316]
The Biblical Doctrine of Infant Baptism (London: James Clarke, 1953), 191. Citado
em Kingdon, Children of Abraham (Carey Publications, 1973), 32.
[317]De acordo com T. David Gordon, existem pelo menos cinco diferenças entre os pactos
abraâmico e mosaico: Um, o pacto abraâmico inclui as nações/gentios; o pacto sinaítico os
exclui. Dois, o pacto abraâmico abençoa; o pacto sinaítico amaldiçoa. Três, o pacto
abraâmico é caracterizado pela fé; o pacto sinaítico é caracterizado pelas obras da lei.
Quatro, o pacto abraâmico justifica; o pacto do sinaítico não. Cinco, o pacto abraâmico é
referido como “promessa”; o pacto sinaítico é referido como “lei”. “Abraham and Sinai
Contrasted in Galatians 3:6-14” [Abraão e o Sinai Constrastado em Gálatas 3:6-14], em
The Law is Not Faith, ed. por Bryan D. Estelle, J.V. Fesko e David VanDrunen
(Phillipsburg, NJ: P&R, 2009), 240-258.
[318] Os dispensacionalistas se orgulham de sua interpretação literal e histórica das
Escrituras do Antigo Testamento. No entanto, ao fazê-lo, eles não conseguem interpretar
literalmente todos os aspectos do Antigo e do Novo Testamentos; tais como a natureza
condicional das promessas do Antigo Testamento, a rejeição neotestamentária de Israel e
os novos cumprimentos espirituais e pactuais do pacto abraâmico. Se eles desejam entender
cada profecia do Antigo Testamento como literal, por que não veem as maldições da
Antiga Aliança como maldições literais que devem ser levadas a cabo literalmente sobre a
nação física de Israel? Por que eles não consideram Romanos 2:28-29 e 9:6-9 de modo
literal?

Não é como se os amilenistas deixassem de interpretar as profecias do Antigo


Testamento literalmente em seus contextos históricos. Eles simplesmente interpretam a
profecia à luz do ensino claro, explícito e literal do Novo Testamento. Foram os autores do
Novo Testamento que escolheram dar um significado espiritual aos pactos abraâmico e
mosaico, não os amilenistas. Os amilenistas não inserem um novo significado nas
passagens do Antigo Testamento, mas simplesmente olham para as passagens literais do
Novo Testamento, e por esse prisma eles entendem as promessas do Antigo Testamento.

O que muitos dispensacionalistas querem dizer com a palavra “literal” é algo físico e
terreno. Contudo, uma compreensão espiritual do pacto abraâmico não é uma rejeição de
uma interpretação literal das Escrituras; é simplesmente uma rejeição de colocar aquilo que
é condicional acima do que é incondicional, e o que é temporal e físico acima do que é
espiritual e eterno.
Por que não esperamos qualquer cumprimento físico futuro do pacto abraâmico?
Porque as promessas físicas eram baseadas em obras e continham várias maldições. A
nação de Israel teve sua chance e eles falharam. Não devemos esperar nada senão Deus
sendo fiel às Suas promessas, ao derramar as maldições prometidas sobre Israel.

Esperar que no futuro um povo físico e terreno recupere um terreno físico sob o
comando do general Jesus é voltar a um pacto baseado em obras, sombras e fracasso. É
retroceder e colocar as sombras da Antiga Aliança acima das realidades da Nova Aliança.
Isso, os amilenistas se recusam a fazer.
[319]Embora o dispensacionalismo e a teologia pactual pedobatista estejam em espectros
opostos quando se trata da continuidade e da descontinuidade das alianças, eles erram
basicamente no mesmo ponto. O dispensacionalismo se concentra na descontinuidade,
enquanto a teologia pactual pedobatista enfatiza a continuidade. No entanto, ambos não
conseguem discernir a extensão da natureza condicional e temporária dos pactos do Antigo
Testamento.

Dispensacionalistas em sua “descontinuidade” deixam de reconhecer que os


cumprimentos naturais das promessas dos pactos abraâmico e davídico eram condicionais.
Eles consideram que uma compreensão “literal e histórica” dos pactos exige um
cumprimento natural dessas promessas no futuro. Porém, essas promessas literais foram
baseadas em uma condição literal e continham maldições literais. Porque Israel não
conseguiu cumprir as condições dos pactos, eles foram literalmente amaldiçoados e
rejeitados por Deus. Por causa disso, a nação de Israel era apenas um tipo e sombra do
“povo de Deus” da Nova Aliança. Como os dispensacionalistas não entendem isso, eles
ainda estão esperando um futuro restabelecimento dos tipos e sombras do Antigo
Testamento. Eles ainda creem que ter Abraão como pai terreno confere superioridade aos
judeus físicos e rejeitadores de Cristo sobre as outras raças, bem como um direito legal às
promessas de Abraão.

Por outro lado, os aliancistas pedobatistas em sua “continuidade” também deixam de


reconhecer as condições dos pactos do Antigo Testamento. Eles simplesmente não veem o
pacto mosaico como um pacto de obras! Portanto, eles buscam implementar alguns dos
princípios do Antigo Testamento relativos à nação exterior de Israel na igreja do Novo
Testamento. Porém, porque o pacto mosaico era condicional, ficou aquém de cumprir as
promessas feitas a Abraão. Por isso, o pacto mosaico foi abolido por Cristo no
estabelecimento da Nova Aliança. Isso, no entanto, não se encaixa na visão deles sobre a
continuidade da Antiga e da Nova Alianças.

Em suma, ambos não compreendem que os aspectos naturais dos pactos abraâmico,
mosaico e davídico foram completamente abolidos pela inauguração da Nova Aliança. Eles
não conseguem ver que a nação de Israel, juntamente com as suas genealogias, linhagem
racial e vínculos familiares, foi substituída pelo novo nascimento. Desde o estabelecimento
da Nova Aliança, a única maneira de se tornar uma parte do povo da aliança de Deus é
nascer de novo. Raça, genética e laços familiares não significam nada no reino de Deus na
Nova Aliança.
[320]
Para conhecer mais sobre esse assunto, veja o debate entre John Reisinger (But I Say
Unto You [Mas Eu Vos Digo]. Southbridge, MA: Crown Publications, Inc., 1989., e In
Defense of Jesus, the New Lawgiver [Em Defesa de Jesus, o Novo Legislador]. Frederick,
MD: New Covenant Media. 2008.) e Richard Barcellos (In Defense of the Decalogue [Em
Defesa do Decálogo] Enumclaw, WA: Winepress, 2001).