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A pesquisa em literatui'a

comparada privilegia
h'adicionalmente as relações
entre as literatimas instituídas
(chamadas "grandes" literatimas
como a francesa, a inglesa
Ltteratura e americanidade
e a alemã) e as literatui-as
emergentes, como as das h'ês
Américas, por exemplo.
Raramente se colocam lado
a lado, com vistas a expô-las
a análises comparatistas,
as literaturas da América do Sul,
/l/Ji
Central e do Norte.
Literatura e americanidade
pretende justamente
ultrapassar certos limites,
esgarçar determinadas íi-onteiras
indevidamente impostas
entre as literaturas americanas,
tentando ahuvés de visões
diversificadas esboçar tiuços
de uma americanidade,
de luu sentimento de pertença
à .América.
Os artigos apresentados
nesta publicação configiuam
um esforço de, através da reflexão
teórica, estabelecer as bases
de um corporativismo
interamericano, e, atiuvés
de variados artigos, compreender
as origens do sentimento
de americanidade na literatura
brasileira.
Outras análises intentam ainda
lançar um olhar critico
sobre literaturas pouco estudadas
enti-e nós: as literaturas
Canadense (anglófona)
e a literatura do Quebec
(francófona).
Universidade
Federal
do Rio Grande
do Sul Literatura
Reitor
Hélgio Trindade
Vice-Reitor
Sergio Nicolaíewsky
Pró-Reitora de Extensão
e americauidade
Ana Maria de Mattos Guimarães
ZiláBemd
E D I TO R A D A U N I V E R S I D A D E Maria do Carmo Campos
Diretor OrganÍ2adoras
Sergius Gonzaga
CONSELHO EDITORIAL Wladimir Krysinsky
Dina Celeste Araújo Barberena
Homero Dewes
Walter Moser
Irion Nolasko
Luiz Osvaldo Leite
Homero Araújo
Maria da Glória Sordini
Newton Braga Rosa Jaime Ginzburg
Renato Paulo Saul Antomo Alarcos Sansevermo
Ricardo Schneiders da Silva
Rômulo Krafta
Vania Lúcia de B. Falcão
Rubens Mário Garcia Maciel Eloína Prati dos Santos
Sergius Gonzaga
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Editora da Universidade/UERGS • Av. João Pessoa, 415 • 90040-000 - Porto Alegre, RS


Fone (051) 224-8821 • Fax (051) 227-2295
i Editora
dallnlversidacte
Unhmstdade Federai do Rio Grande do Sul
© dos autores
1® edição: 1995

Capa: Paulo Antonio da Silveira


üustração da capa: O explorador (Américo Vespúcio) diante da índia que se chama Apresentação
América, Desenho alegórico de Jan van der Straet, século 16
Editoração: Geraldo F. Huff
Revisão: Marli de Jesus Rodrigues dos Santos
Maria da Graça Storti Féres Em 1993 foram realizados na Universidade Federal do Rio Grande
Ana Lúcia Silveira do Sul dois Ciclos de Palestras que procuraram propor uma reflexão so
Composição: Fernando Piccinini Schmitt bre as possibilidades de um comparativismo literário interamericano. O
Rubens Renato Abreu
Administração: Julio Cesar de Souza Dias primeiro, realizado em agosto, como curso livre do Curso de Pós-Gradu-
ação em Letras, intittilou-se "Relações Literárias Interamericanas" e trouxe
a Porto Alegre alguns nomes expressivos da área da Literatura Compara
da do Canadá como Wladimir Krysinski e Walter Moser (ambos da Uni
versidade de Montreal), Rita De Grandis (Simon Eraser University), Eva
Kushner (Victoria College, da Universidade de Toronto) e Qément Moisan
(Universidade Laval). O segundo, foi organizado como atividade de ex
tensão, intitulando-se "Literatura e Americanidade", do qual participa
ram professores e alunos do Curso de Pós-Graduação em Letras da UFRGS.
A origem do presente volume está na idéia de reunir os textos
DEDALUS - Acervo - FFLCH-LE apresentados nos referidos cursos, com vistas a buscar convergências/
divergências entre as literaturas das três Américas, campo ainda pouco
transitado. Nem todos os participantes puderam, por razões diversas,
integrar a presente publicação, que se estrutura em tomo de três eixos:
21300122250 - reflexão teórica;
- origens do sentimento de americanidade na literatura brasileira;
- questões de americanidade, reunindo artigos sobre as literatu
ras canadenses de língua inglesa e francesa (quebequense).
O trabalho em Literatura Comparada privilegia tradicionalmente
Literatura e amerícanidade / organizado
por Zilá Bemd e Maria do Carmo Campos.
as relações entre literaturas instituídas (chamadas "grandes" literaturas,
— Porto Alegre : Editora da UniversidadeAJFRGS, como a francesa, a inglesa e a alemã) e as literaturas ditas emergentes,
1995. como as das três Américas, por exemplo. Raramente se colocam lado a
1. Literatura comparada - Américas. I. Bemd, Zilá. lado, com vistas em expô-las a análises comparatistas, as literaturas da
II. Campos, Maria db'^Carmo. III. Título. América do Sul, Central e do Norte.
Literatura e americanidade pretende justamente ultrapassar certos li
CDU 82(7/8).091
mites, esgarçar determinadas fronteiras indevidamente impostas entre as
literaturas americanas, tentanto através de visões diversificadas esboçar tra
Catalogação na publicação: Mônica Ballejo Canto. CRB 10/1023 ços de uma americanidade, de um sentimento de pertença à América.

ISBN 85-7025-328-1
No nível dos textos teóricos há uma tentativa de definir a partir de
que elementos uma comparação interamericana pode surgir; um ques
tionamento das contradições, carências e abundâncias entre as poéticas
Sumário
americanas de Whitman a Paz; uma reflexão sobre o trabalho das van
guardas e um texto sobre os procedimentos de reutilização em literatu
ra. Estes textos levam em conta a situação das três Américas, onde as
literaturas se construíram através de enunciados já habitados pela Apresentação
Zilá Bernd e Maria do Carmo Campos
intersecção de diferentes aportes culturais: dos autóctones aos coloniza
dores sem esquecer da contribuição africana. Daí, a pertinência destas
reflexões, no sentido de abrir perspectivas e talhar roteiros para futuras PARA UMA TEORIA DAS RELAÇÕES LITERÁRIAS
investigações. INTERAMERICANAS
Os autores que se debruçaram sobre textos da literatura brasileira
escolheram obras que, ainda no período colonial, começam a adquirir Literatura e americanidade
um feição "americana", sabotando assim o europeucentrismo dominan Zilá Bernd 11
te, como José de Anchieta e Gregório de Matos. Um autor buscou na
obra de João Cabral de Melo Neto a ocasião para falar da obsessão deste Poéticas americanas: contradição ou abundância
poeta com a paisagem americana. Maria do Carmo Campos 15
No último capítulo, determinados textos são mais abrangentes e
panorâmicos, como os que tratam da literatura canadense anglófona, na As vanguardas e a reescritura da modernidade
medida em que o conhecimento desta literatura está apenas iniciando Wladimir Krysinski 29
entre nós, não tendo ainda se desenvolvido, nos meios universitários
brasileiros, nem no nível do ensino nem da pesquisa. Já no âmbito da Restos e reciclagem: da temática romanesca à economia da produção
literatura do Quebec, a análise tem condições de aprofundar-se, pois Walter Moser 41
existe ensino e pesquisa em nível de Pós-Graduação, nas principais uni
versidades brasileiras.
Convidamos, pois os leitores a perconerem conosco esse itinerá ORIGENS DA AMERICANIDADE NO BRASIL
rio da americanidade e nosso esforço em contribuir para o alargamento
dos espaços de discussão que deverão desaguar na ampliação do conhe Cabral — o agressor e sua lâmina
cimento das Américas e dos americanos.
Homero Araújo 67
ZILA BERND E MARIA DO CARMO CAMPOS
A origem como inferno (a representação da guerra na poesia
de José de Anchieta)
Jaime Ginzburg 81

A dupla centralidade na poesia de Gregório de Matos


Antonio M.Sanseverino 94
QUESTÕES DE AMERICANIDADE

Notas sobre a literatura canadense de língua inglesa


Vânia Lúcia de B. Falcão

O outro somos nós


E l o í n a P. d o s S a n t o s .

Os romances de Anne Hébert: uma fonte para o estudo


da literatura quebequense
NúbiaJ. Hanciau PAKA UMA TEORIA
DAS RELAÇÕES
LITERÁRIAS INTERAMERICANAS
Literatura e americanídade

ZILÁ BERND

A proposta desta publicação é a de contribuir para uma melhor


compreensão das relações que podem ser estabelecidas entre as literatu
ras das três Américas e das bases teórico-críticas a partir das quais estas
"relações" se delineiam.
Uma publicação coletiva de 1992 tentou estabelecer a partir de que
elementos um comparativismo literário poderia ser levado a termo entre o
Brasil e o Quebec. Um dos artigos, "A Ia recherche d'un tertium
comparationis", de Wlad Godzich, procurou mostrar que, em se tratando
de estabelecer confluências literárias interamericanas, é o próprio concei
to de Literatura Comparada que é posto em xeque, uma vez que esta dis
ciplina vem sendo praticada tradicionalmente com o propósito de pôr em
perspectiva literaturas de longa tradição, que se instituem como "centro",
e as literaturas consideradas, por via de conseqüência, "periféricas".
Neste sentido, o referido pesquisador nos convida a refletir sobre
conceitos como os de emergência e globalização que podem contribuir
para uma renovação do comparativismo literário quando se trata de com
parar literaturas - como as das três Américas -, que se constituem fora
do campo das "grandes" literaturas.
O conceito de emergência, segundo Godzich, não deve ser tomado
como uma noção de inferioridade, estabelecendo-se uma falsa relação de
causa e efeito entre literaturas já "emergidas" e as "em emergência". Para
o autor, as literaturas emergentes são as que se constróem como um desa-
i, fio à instituição literária, resistindo à globalização, tendência das literatu-
I ras do "Centro" a estenderem, a domínios cada vez mais vastos, sua força
i hegemônica. Assim, as literaturas emergentes impõem uma nova concep
ção de campo literário não podendo ser valorizadas a partir da visão
hegemônica de literatura que tende a estabelecer padrões de valorização e
a autodefinir suas próprias regras de legitimação e de consagração.
ÍK j
'V I 11
o conceito de globalização comporta duas dimensões: do caráter mestiço inerente à própria constituição deste continente que
- a extensão de lun poder sobre territórios cada vez mais vastos e a se origina de cruzamentos de pelo menos três etnias: os autóctones, os
integração destes territórios em uma única zona de circulação; europeus e os africanos aqui chegados na condição de escravos.
- a legitimação desta extensão na construção de um mercado de circula A aceitação não só do caráter híbrido de nossa formação étnica e
ção de bens simbólicos homólogo ao precedente. cultural e de que a mistura determinou metamorfoses essenciais em cada
Estas duas dimensões convergiriam, desta forma, no sentido de um dos grupos implicados, constitui etapa essencial desta dialética da
aceitar-se como legítimas apenas as literaturas que, de um modo ou de americanização. Os cultos afiro-americanos como o candomblé e o vodu,
outro, se alinham à instituição literária, expelindo para a margem as que ao se fundarem em rituais de possessão e de metamorfose e ao sincretizarem
a ela se opõem. O Manifesto Antropófago pode ser dado como um exem com a religião católica, metaforizam a própria situação das três Américas
plo de revolta contra uma concepção globalizante e eurocentrista do onde sincretismo, mestiçagem e metamorfose foram, ao longo de nossos
mimdo, a dos colonizadores, que não somente consideravam seus valo quase cinco séculos de história, constantes essenciais.
res como superiores ao dos americanos, mas como os únicos aceitáveis. Para uma teoria da Literatura Comparada Interamericana, concei
Podem ser consideradas como emergentes as literaturas que, para tos desenvolvidos por autores latino-americanos, que representaram va
escapar ao rolo compressor da globalização, ancoram-se em sentimen liosas tentativas de entender a América e sua "impureza" fundadora,
tos de identidade - como a identidade nacional - contribuindo, assim, à como o neobarroquismo, desenvolvido por A. Carpentier, o realismo
heterogeneidade do conjunto. Um bom exemplo seria a literatura do maravilhoso, por J.-S. Alexis, e a antilhanidade, por E. Glissant, viriam
Quebec que desempenha um papel decisivo na construção da especifici contribuir de modo decisivo para a fertilização deste crucial debate, ino
dade quebequense e no agenciamento dos discursos separatistas e naci vando a própria disciplina.
onalistas. O movimento da Ne^tude resultou igualmente, nas Anti- Ao desenvolver o conceito de neobarroco, Alejo Carpentier o con
Ihas, de uma afirmação da consciência negra em frente a uma situação funde propositadamente com o de realismo mágico, evocando a
de bovarismo coletivo que fazia - até os anos trinta - com que os intelec pluralidade de discursos que contam a América. É através dos contos e
tuais voltassem os olhos para a Europa em detrimento da valorização das lendas populares veiculadas, em sua maioria, oralmente, que uma
dos aportes das culturas autóctones em presença no contexto antilhano. versão outra da realidade e do imaginário americano é transmitida. Es
Deste gesto de "recentramento" por que têm passado as diferentes tas vozes, incorporadas à literatura latino-americana, contribuem à sua
literaturas americanas, representado pelos sucessivos movimentos de heterogeneidade e à sua visibilidade no plano internacional.
autonomização literária, emerge a noção de americanidade. Uma leitura O conceito de maravilhoso, cujo maiüfesto foi assinado pelo haitia
que pretenda determinar os pólos e as convergências das literaturas que se no Jacques-Stephen Alexis, remete às imagens através das quais as ca
prefiguram no contexto das. Américas, se enriqueceria interrogando-se so madas populares preservam a memória de aspectos importantes da his
bre a vinculação destas literaturas e de seus autores ao território americano. tória apagados ou diminuídos pelo relato histórico oficial empenhado
Maximilien Laroçhe, em inumeráveis artigos, insiste sobre a apro em destacar os feitos dos poderosos.
priação, pelos americanos do Norte, das palavras "América" e "ameri Antilhanidade substitui, na proposta de Edouard Glissant, uma iden
cano" num processo metonímico supervalorizante. Eles seriam apenas tidade fundada unicamente sobre o referente étnico, como foi o caso da
estadunidenses. Isto torna a palavra americanidade problemática, pois Negritude. Fazendo a crítica da Negritude que correspondeu a um concei
que ela engloba sentidos múltiplos. Caberia, segundo Laroche, reinventar to que circunscreve a busca identitária a um só quadro de referências: a
e redefinir a palavra América, "da ficção da descoberta à realidade da etnia a que pertence o indivíduo, Glissant faz o elogio da relação e da
conquista", para chegar-se à "dialética de sua desconstrução". diversidade, propondo uma identificação ao espaço geográfico, mas so
Este processo nos conduziria talvez ao entendimento e à aceitação bretudo multiétnico e multinacial das Antilhas. O que representa, por

12 13
sinédoque, uma identificação com o espaço americano como um todo.
A proposta da Crioulidade, desenvolvida pelos antilhanos Patrick
Chamoiseau e Raphael Confiant, amplifica ainda mais este último con
ceito fazendo o elogio sistemático da mestiçagem e do sicretismo em Poéticas americanas:
todo o lugar onde houve, através do processo de colonização, mistura e
contradição ou abundância?
portanto forçosamente desterritorialização cultural, isto é, perda dos re
ferentes culturais de origem e assimilação de outros.
Estas reflexões bem como as de autores como Antonio Cândido, MARIA DO CARMO CAMPOS
Angel Ráma e Octavio Paz entre outros devem ser relembradas quando
se trata de analisar e de comparar a produção literária das três Américas
que, para além das diferenças, se engendram sob o signo da impureza,
tendo como maior desafio a busca angustiada de autonomização e de Come, I will make the continent indissoluble
I will make the most splendid race the sun ever shone upon
visibilidade. I will make divine magnetic lands
(...)
I will plant companionship thick as trees along
all the rivers of America, and along the shores
REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA of the great lakes, and all over the prairies,
I will make inseparable cities with their arms about each other's
ALEXIS, J.-S. Prolegomènes à un manifeste du réalísme mervelleux. necks.

CARPENTIER, A. A literatura do maravilhoso. São Paulo: Vértice, 1987. (•••)


CHAMOISEAU, P. et ali. L'éloge de Ia créolité. Paris: Gallimard, 1989. (Walt Whitman. For you o democracy.)
GLISSANT, E. Le discours antilais. Paris: Seuil, 1980.
Car être Amérícaln, pour le plus grand nombre des habitants
GODZICH, W. A Ia recherche d'un tertium comparationis. In: PETERSON, de ce continent, c'est d'éssayer de se defaire, 500 ans après,
M.; BERND, Z. Confluences littéraires: Brésil/Québec les bases une d'une Histoire qui colle à la peau comme un habit étriqué.
comparaison. Montréal: Balzac, 1992. (Col. L'Univers des Discours.) (Maximilien Laroche. Americanité etAmérique.)
LAROCHE, M. Dialectique de 1'américanisation. Quebec: GRELCA, Univ.
Lavai, 1943.

As imagens evocadas pela noção de América talvez ainda hoje


estejam distantes de uma depuração das idéias de sonho e de utopia,
sejam elas idéias provenientes da Europa ou coladas à fisionomia cultu
ral e política dos Estados Unidos. A visão de América que se pode
depreender em grande parte dos ensaios e poemas de autores latino-
amçricanos (sul-americanos), ou de outras culturas ainda que america
nas, não revalida, contudo, a imagem utópica do Novo Mundo como
lugar da concretização do futuro. /
Contrariando os relatos e os paradigmas da "descoberta", há quem i
diga que a América dos norte-americanos teria sido mais tima invenção \
do espírito europeu, a que se apresenta como um "presente aberto", lun
14
15
agora tingido de amanhã, uma história utópica em marcha para uma é homem aquele que não tem futuro (Paz, 1982, p.367). Assim, "o cha
idade do ouro (Paz, 1982, p.364-365). mado realismo anglo-americano é o pragmatismo-operação que consis
É todavia a obra de Walt Whitman, poeta americano nascido em te em aliviar as coisas de sua compacta materialidade para convertê-las
Long Island, 1819, e falecido em Camden, 1892, saudada em conhecido em um processo" (Paz, 1982, p.l27).
e longo poema (1915) de Fernando Pessoa, na voz do heterônimo Álva A poesia de Whitman funciona, então, para o poeta mexicano, como
ro de Campos, que canta esse presente em perspectiva aberta para um um sonho dentro de outro sonho, o sonho da América com seus rios,
futuro promissor: cidades, montanhas e homens: carece-se aí de peso histórico, é o "futu
ro" que estaria em vias de se encarar: "A América sonha consigo em
O sempre moderno e eterno, cantor dos concretos absolutos, Whitman, porque ela mesma era sonho, criação pura":
Concubina fogosa do universo disperso,
(...) Come, I will make the continent indissoluble
Cantor da fraternidade feroz e terna com tudo. I will make the most splendid race... (Paz,1982, p.368).
Grande democrata epidérmico, contíguo a tudo em corpo e alma,
("•) .... Richard Morse, em ensaio intitulado "A formação do latino-
Jean-Jacques Rousseau do mundo que havia de produzir máquinas americanista", refere-se ao "velho" esterótipo da cultura (norte) ameri
(...) cana como "excesso de praticalidade e método e escassez de substância
He calle Walt;
filosófica e visão". Menciona a argumentação utilizada pelo pensador
Porta pra tudo!
Ponte pra tudo! uraguaio José Enrique Rodó, no ensaio "Ariel" (1900):

Estrada pra tudo Os perigos da vulgaridade, do utilitarismo e da mediocridade da demo


Tua alma omnívora, cracia igualitária simbolizados por Caliba poderiam ser atenuados pela
busca dos ideais estéticos e do heroísmo moral simbolizados por Ariel;
Amplexo, nexo, sexo, Texas, Carolina, New York, os excessos da sociedade de massa são exemplificados ocasionalmente
Brooklyn Ferry à tarde, com imagens dos Estados Unidos (ou da América do Norte), o que possi
Brooklyn Ferry das idas e regressos, bilita aos leitores estabelecerem a associação (simplista?) entre as figuras
Libertad! Democracy! Século vinte ao longe! de Calibã (a força bruta) e Ariel (o espírito imorredouro) e respectiva
(...) (Pessoa, 1986, p.270). mente as Américas do Norte e Latina (Morse, 1990).

Para Octavio Paz, o caráter utópico da América é mais nítido na


Atento à fisionomia e ao espaço que vêm tomando nos Estados Uni
quilo que ele chama de "a porção saxônica do continente", onde os pos dos os estudos latino-americanos, Richard Morse adverte sobre a "falsa
síveis obstáculos deveriam ser apagados: os índios, os rios, as monta
impressão" sob a qual a América Latina pode-se apresentar, como algo
nhas, entre outros obstáculps, não existem ou devem ser domesticados, facilmente reconhecível, "um primo pobre, e um tanto mal-afamado, da
destruídos, por serem alheios àquilo que deveria ser a essência america família ocidental". As mesmas imagens de deserdamento, talvez de exílio,
na. Aí também, na América saxônica do século 19, inverte-se a relação
humana com o futuro, que deixa de ser, no limite, atributo ou abertura: podem ser lidas nas páginas de Octavio PAZ na sua inquieta obra que per
segue - entre outras questões, e com razão - os subsolos da nossa história.
para evitar-se qualquer resquício de ambigüidade ou contradição,
desencadeantes de conflito, desveste-se o futuro de suas potencialida Gente de Ias afueras, moradores de los subúrbios de Ia historia, los
des e de sua carga de opacidade para afirmar-se a seguinte equação: não

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iatinoamericanos somos los comensales no invítados que se han colado zonte da americanidade, pensar a poesia americana recai em obstáculo
por ia puerta trasera de Occidente, los intrusos que han llegado a Ia funcion quase intransponível, se considerarmos que na América falam-se vários
de Ia modernidad cuando Ias luces están a punto de apagar-se - llegamos idiomas: o in^ês, o francês, o espanhol, o português e as línguas nativas,
tarde a todas partes, nacimos cuando ya era tarde en Ia historia, ... (Paz, o que inviabilizaria, na base, qualquer olhar mais homogeneizante sobre
1973, p.l3). as poéticas ou os poetas. O atributo de pertença de diversas nacionalida
des, culturas (com suas diferentes etnias, histórias político-econômicas) a
No intento de contribuir para iluminar o entendimento daquilo que um vasto continente seria suficiente para designar obras tão distantes como
na América do Norte se chama América Latina, Morse sugere que, sob as de Whitman, Huidobro, Vallejo, Neruda, Borges, Drummond, João
a ótica do "Inferno" de Dante - "faiscante geografia do pecado" - não Cabral e o quebequense Paul Marie-Lapointe? Para além dos conceitos
sejam excluídos do temário dos historiadores e especialistas latino-ame históricos, sociológicos, lingüísticos e políticos, que imagem ou designa
ricanos questões como "os sexos, as paixões, as pungências da vida, as ção incluiria - além da poesia latino-americana - a "saxônica", a
ironias da ação, a obstinação da vontade, a persistência da moral, a quebequense, a antilhense, a haitiana e a brasileira, entre outras?
recalcitrância da sociedade, as iluminações da fé": a sugestão visa a Ainda, dentro do mesmo universo lingüístico, por exemplo, o do
evitar os lugares-comuns dos enfoques que podem cristalizar a América
espanhol falado na América Latina, as singularidades das várias poéti
Latina em abordagens "que viraram uma espécie de cauda ligeiramente cas não podem ser desconsideradas:
ridícula de um papagio político-comercial". Para o mesmo historiador:
Que há de comum, exceto a língua, entre a sabedoria popular de Martin
Se há uma característica fundamental das sociedades latino-americanas Fierro e o lirismo pessoal de Dario, entre os contos metafísicos de Borges
que desconcerta e irrita o observador americano, é o fato de que os sete e o Ulises criolo de José Vasconcelos entre o Primer sueno de Sor Juana
pecados capitais ainda florescem lá (Morse, 1990, p.215). Ines de Ia Cruz e Residência en ia Tierra de Pablo Neruda? (Paz, 1991,
p.175).
Quanto ao Brasil, Morse destaca, além de outros traços, como um
"equilíbrio precário entre repressão e permissividade e uma equação (de Ao lado da história colonial, a América, que talvez tenha sido não
sequilibrada) entre seriedade e humor", as "fontes exuberantes de só descoberta mas também inventada, legou aos seus povos a condição
autocrítica lúdica e inventividade intelectual" (p.244-245). Crítico em re
complexa dos idiomas ditos "transplantados" e as respectivas incerte
lação à atual tarefa dos "brasilianistas", que proliferam nas universidades zas. Se Octavio Paz vê o espanhol, que "é nosso e não é", como uma
de vários países do Primeiro Mundo, prescreve nesse sentido a adoção/ máscara ou uma paixão para os mexicanos, no Brasil já se lutou pela
utilização de um certo "princípio de indeterminação" (com o qual os físi independência de uma língua "brasileira" que nunca recebeu certidão de
cos da atualidade já estariam familiarizados) e a aceitação das "formas nascimento.
lúdicas de pensamento" já recomendadas por Huizinga para aprofundar o De qualquer modo, podem-se destacar alguns traços nesse enorme
entendimento. Para especulação sobre o significado do Brasil aposta, por
complexo que é o da poesia que se faz na América. Se os poetas dos
exemplo, na leitura de Guimarães Rosa, em cuja obra "os homens e as Estados Unidos estão condenados ao futuro, os latino-americanos esta
mulheres não são esmagados pelas circunstâncias e pelo tempo linear, e riam condenados à busca da origem, ou à imaginação dela: se um povo
á\ as pessoas mantêm a dignidade em face do desconhecido": projeta-se aí
um "universo abundante" para além das demonstrações da irrealidade de sagrou-se a si mesmo com o destino de mensageiro do futuro, com a
celeridade possível para um mercúrio da era do plástico e do acrílico, os
um mundo específico, tônica de certa literatura latino-americana, (p.246). demais legaram-se, por intermédio dos poetas, à tarefa de desvendar a
Delineadas algumas contradições que possibilitam ampliar o hori- face opaca da origem, a memória compartilhada entre o que foi e o que

19
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poderia ter sido. O sonho americano, que costuma corresponder aos so outra consciência, os "despossuídos" de Octavio Paz, capazes, contudo,
nhos estadunidenses, tenta atenuar aquilo que Maximilien Laroche con de conquistar territórios não tocados até então pela imaginação poética.
sidera a nossa "contradição gêmea", quer dizer, a de dever ser um novo João Cabral de Melo Neto vê na literatura latino-americana um
Adão para atender aos desígnios desse sonho ou de ser um zumbi (fan maior "objetivismo", uma presença maior de natureza e de realidade,
tasma) que teria provado o sal da vida, como não deixam de esperar os ditados pelo caráter "pesado" da América Latina. Bastante cético em
escritores haitianos (Laroche,1992, p.200). relação ao diálogo Norte-Sul, o poeta embaixador lamenta que "o leitor
Se alguma coisa aproxima o olhar voltado às origens em textos do Norte" tenda a apreciar a literatura do Sul pelo que ela apresenta de
como Formação da literatura brasileira de Antonio Cândido, Z-í/eraíM- pitoresco, exótico, "costumbrista".*
ra de fundação de Octavio Paz, e Une littérature qui se fait de Gilles
Marcotte, a interrogação da origem vai perquirir o tempo, "el tiempo O que essa literatura pode mostrar de novo e de profundo sobre o homem
que debajo dei océano nos mira" de Neruda, assim como as imagens de qualquer latitude não consegue ser assimilado (Melo Neto, 1994).
primordiais do espaço, configuradas às vezes no deserto, "el espacio sin
tiempo" de um poema de Borges: volta-se também com Borges para A inclinação algo melancólica dos olhares de Octavio Paz e de
elementos precisos de uma cultura, escavando um passado que, por ser João Cabral sobre a condição dos poetas e dos escritores da América
histórico, não deixa de ser mítico. Latina não os impede de vislumbrar nas mesmas literaturas - já conde
nadas ao exílio ou a atravessarem ilesas o presente e o futuro - um terri
Donde estarán aquellos que pasaron, tório fértil ao sortilégio do novo:
dejando a Ia epopeya un episodic.
Una fábula al tiempo, y qui sin odio. No obstante, desde el llamado modernismo de fines de sigio, en estas
Lucro o pasion de amor se acuchillaron?
tierras nuestras hostiles al piensamiento han brotado, aqui y allá, dispersos
(Borges,1985)
pero sin interrupción, poetas y prosistas y pintores que son los pares de
los mejores en otras partes dei mundo (Paz, 1973, p.l4).
"Residenda en Ia tierra" de Neruda pode ser lido como uma geolo
gia mítica, um planeta em fermentação, putrefação e germinação, o Em ensaio publicado no final dos anos 80, Octavio Paz vê no ocaso
amassilho primordial de uma vida intraterrestre (Paz, 1991, p.166-167).
das vanguardas e no desencanto ideológico um arco em que se abrigaria
Figura-se aí uma barbárie da terra, genésica, que pode contrastar ou
refratar a condição de desterramento do homem americano. Se nossas hoje não só a literatura latino-americana mas toda a literatura contemporâ
raízes são européias, nosso horizonte são a terra e a história americanas, nea, ressaltando o caráter interrogativo e exploratório da arte e da poesia,
o que gera uma relação erótica e polêmica com a língua, alimentada às que culminam em traçar formas enraizadas com significado universal.
vezes pelo que se chamaria de "telurismo". Remontar às origens pode significar para um poeta sul-americano tão
Não se pode, contudo, estereotipar sob a égide do telurismo a po cosmopolita quanto Drammond andar também às voltas com a representa
esia americana. Eivadas das tensões da própria história e dos seus per ção pela linguagem, de algo da ordem de um espaço primordial não neces
cursos particulares, as poéticas respiram ao mesmo tempo cosmo- sariamente datado nem localizado definitivamente no espaço. Desentra
nhar imagens de América dentro do canto rouco e precário do itabirano diz

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regresso,n d
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modulando o que se poderia chamar de consciência americana, dilace
entre doi mundos. )
,
po
de um olhar ao mesmo tempo enraizado e perplexo na figuração de um
continente sem tempo. O tempo pode parecer oco quando percorrido às
avessas na sondagem da origem, distancia-se contudo da homogeneidade
etas americanos estão condenados a serem o projeto histórico de uma
apontada por Walter Benjamin quanto à concepção do tempo-progresso.

20 21
Tudo pode ser figura, numa anterioridade possível em que o informe era Já se disse que aos poetas da América descrentes das falácias do
repleto de sentido, ao contrário das formas proliferantes que abundam hoje, sonho de Whitman cabia o drama de serem absolutamente contemporâ
esvaziadas pela gastura de tudo o que já lhes foi atribuído enquanto signifi neos e dedicarem-se com paciência e paixão a encontrar um tempo an
cado. O que Drummond canta em "América" é o sentido brutal do informe. tes do tempo, onde estaria talvez a possibilidade de depuração do exílio,
a terra do princípio, não batizada. Impressiona, com certeza, ao leitor
Canta uma canção familiarizado com a leitura da poesia contemporânea, a recorrência das
de viola ou banjo imagens desérticas em Neruda, Borges, Octavio Paz, João Cabral, que
dentes cerrados,
podem fazer lembrar a finura e a força de Ungaretti.
alma entreaberta, Como não pensar a representação de um espaço vazio e despovoado
descanta a memória
como a saída, talvez, para a poesia de um tempo, quem sabe o mais desu
do tempo mais fundo
mano? O deserto, de um lado, a dizer a ausência, o silêncio e o despovoa-
quando não havia mento como índices de uma necessária revitalização. São versos de Neruda:
nem casa nem rês
e tudo era rio,
Se me encontrei nestas regiões reconcentradas e calcáreas
era cobra e onça,
foi por equívocos de pai e mãe em meu planeta:
não havia lanterna
e nem diamante, (...)
Sou só uma forma na luz uma vértebra da alegoria.
não havia nada.
Só o primeiro cão (Neruda, 1983).
em frente do homem,
c h e i r a n d o o fi i t u r o ! A sondagem do elementar, tangenciada por Drummond em "Amé
(...) rica", no poema "Um boi vê os homens", conjuga, ao modo de uma
Canta uma canção fábula, ensinamento, solenidade e metafísica, relativizados por uma to
no ermo continente, nalidade prosaica. Dele o leitor pode apreender que a cegueira gerada
baixo, não te exaltes. pela velocidade moderna leva à perda da essencialidade humana, possí
vel talvez num intervalo imperceptível entre o ser e o estar no espaço.
Entre o barranqueiro silencioso do rio São Francisco e a "iara vulcâni Os elementos não são aqui evocados na sua força tempestuosa, cujo
ca da Broadwaj^', que circula no mundo do jornal, o poema capta vozes do correlato estaria nas representações da subjetividade pela poesia român
tempo colonial: deve haver um lugar mais fimdo no poço imemorial do tica. A alegoria do humano dá-se sob o signo da falta:
olhar poético que se abra à contemplação de uma origem perdida na noite
dos tempos. Nada nos pelos, nos extremos de inconcebível fragilidade,
e como neles há pouca montanha,
Contaram-me que também há desertos. e que secura e que reentrâncias e que
E plantas tristes, animais confusos, impossibilidade de se organizarem em formas calmas, permanentes e
ainda não completamente determinados. (...) necessárias. (...) (Drummond de Andrade, p.204).

Como poderia compreender-te,América?" pergunta Drummond que A montanha e a pedra dirão a sua materialidade brata, assinalando o
se confessa incapaz dessa sondagem necessária do elementar: "Nada conto elementar como forma e autonomia. Em João Cabral de Melo Neto, a figu
do ar e da água, do mineral e da folha" (Dmmmond de Andrade, p. 155). ração da natureza não propicia necessariamente a visão do exótico america-
22 23
no (ou brasileiro). Interrogando categorias e invertendo paradigmas, certos bastado: o ponto onde se encontram a medula do real e a linguagem.
poemas da coletânea Viver tios Andes dedicam-se a repensar o já pensado, Confluir América e fermento poderia estar para João Cabral de
afirmando o lugar da simples existência, in natura, da natureza. Melo Neto na representação poética do deserto, análogo à Caatinga do
Nordeste brasileiro e portador de história primordial da humanidade:
A imensa espera da montanha "Cultivar o deserto/ como um pomar às avessas" pode ser o norte de
por que ver nela algum sentido? uma poética que deixa falar o vazio da imensidão de um continente e o
É só espera: o viver suspenso silêncio dos deserdados, na sua linguagem de caroço e de pedra.
de que apodreça o prometido.
A imensa espera da montanha
Ali, é um tempo claro
tem a paciência da de bicho;
como a fonte
é como a do homem que se empoça e na fábula.
na espera, e dela faz seu vício.
Ali, nada sobrou da noite
(Melo Neto, 1994, p.572). como ervas

entre pedras.
Caberia a um poeta brasileiro, na contemplação da Cordilheira dos Ali, é uma terra branca
Andes, ultrapassar a sua representação figurai e ao mesmo tempo renun e ávida
ciar à velha relação do sujeito com o objeto visualizado? Legar à monta como a cal.
nha a condição de sujeito não seria uma depuração contemporânea (e Ali, não há como pôr vossa tristeza
como a um livro
americana) de trilhas já percorridas? Regresso ou ultrapassamento, leia-
se a focalização "prosaica" e rudimentar da montanha como objeto múl na estante

tiplo e ainda não decifrado: (p.87-88).

É estranho como esta montanha Cora o deserto mítico da "Fábula de Anfion" e o deserto localiza
não deixe que nem mesmo o vento do de "Bifurcados de habitar o tempo",
possa cantar nos órgãos dela
ou fazer silvar seu silêncio. que não libera o homem, como outros,
Talvez seja mesmo a tribuna para que ele imagine ouvir-se mundo,
que mandou reservar o tempo ouvindo-se a máquina bicho do corpo;
para um Bolívar que condene para que, só e entre coisas de vazio,
quem fecha a América ao fermento de vidro igual ao do que não existe,
(p.572). o homem como lhe sucede num deserto,
imagine sentir outras coisas ao sentir-se;
embora num deserto, a Caatinga atrai,
Despretensão ou complexidade prismática, a des-poetização evi
dente expõe a poesia em suas vísceras, dela eliminando o encontro dire ata a imaginação; não a deixa livre,
to do leitor com o espetáculo final: ao encontro do leitor vem o poema para deixar-se, ser; a Caatinga a fere
em suas camadas e bastidores, numa retomada possível do verbo en e a idéia-fixa; com seu vazio em riste

quanto fala, oralidade. Dele, contudo, o poeta espreme toda a eloqüên (p.354).
cia, todo o excesso, até restar apenas aquilo que não pode mais ser des- O poeta do Recife inscreve-se no movimento nada utópico do "oca-

24
25
so das vanguardas" sustentado por Octavio Paz. Para não falar no de A dessacralização da origem e da memória coletiva enquanto elos
sencanto ideológico deste final de século, pense-se por exemplo na fi de uma tradição leva a um esvaziamento que confunde ética com ideo
sionomia de algumas poéticas latino-americanas: a de Borges, que "não logia:
por acaso" nasceu em 1899 e que simula estar fora do tempo (aquém ou
além do século 20); a de João Cabral, que concede um espaço mínimo as idéias comeram os deuses

na sua obra à documentação do que está em curso aparente na História, os deuses


tornaram-se idéias
como se sua tarefa fosse desfocar o representado para melhor representá-
... brotaram idéias armadas
lo; a de Dmmmond, que, na variedade de dicções que o singulariza, toca
ideários ideodeuses
um concerto que é ao mesmo tempo rural e urbano, interrogando o sen
tido do provincianismo patriarcal brasileiro e os dilemas da moderniza silogismos afiados
canibais endeusados (...).
ção acelerada e desritmada do país.
Se "a estrutura e o detalhe em última análise estão sempre carrega
dos de história", como assevera Benjamin (1984, p.204) valeria citar o O desenterro da Ira "petrificada petrificante" responde ao crime
consensual e coletivo da profanação das origens pelas "sanguessugas
poema "Petrificada Petrificante" de Octavio Paz (1986) que recompõe
o México como figura cindida entre a origem mítica e a cena ideológica do presente", pelos "carcereiros do futuro"; o poema figura uma espé
atual. Trata-se de longo poema, traduzido para o português por Haroldo cie de espírito coletivo dominante e borrado, o da mentalidade contem
de Campos, do qual se conhece também luna versão firancesa por Claude porânea alienada. A dança da Ira desenterrada é como uma "pugna de
Esteban. A força elementar, garantida pela terra (terramuerta), pelo fogo cegos sob o meio-dia", fechando o círculo do poema com a secura e a
sede (atuais), efeito direto do desaparecimento da água primordial: "Don
(fuego petrificado), pela água ( en Ia tumba dei agua) e pelo vento, que
é o ar, trava embates com a seca e a estagnação. O Vale do México de está el agua otra?"
converte-se em deserto, A insubstancialidade histórica do sonho de Walt Whitman poderia
ter seu antídoto em outras poéticas nutridas fora da "porção saxônica do
o sol não bebeu o lago continente ? Estariam alguns poetas latino (sul) americanos usurpando,
não o sorveu a tena pelo avesso, a condenação ao futuro por sobre o caráter nem tão
a água não regressou ao ar indissolúvel da América? Que contradição acolheria, no deserdado, a
os homens foram os verdugos do pó abundância?
(Paz e Campos, 1986, p.201).

Degrada-se a palavra em ideologia: dá-se o obscurecimento da sa REFERENCIA BIBLIOGRÁFICAS


bedoria, que vem do alto, pairando sobre as cabeças, em línguas de
fogo; há um endurecimento, a transformação da palavra em pedra. Com BORGES, J.L. El tango.In: Obra poética. Buenos Aires: Emecê,1985.
parecem à cena deuses e mitos pré-colombianos, além da figura da Vir benjamin, Walter. Origem do drama barroco alemão. São Paulo: Brasiliense,
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donde arden los muertos y se cuecen los vivos. BERND, Zilá. Confluences littéraires Brésil-Québec: les bases dúne
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26 27
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canadienne française. Montréal: HMV, 1968.
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1994. As vanguardas e a reescritura da modernidade*
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brincadeira séria. São Paulo: Companhia das Letras, 1990. WLADIMIR KRYSINSKI
NERUDA, Taulo. A Barcarola (1967). Trad. Olga Savary. Porto Alegre: LPM,
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PAZ, Octavio. O arco e a lira. 2.ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1982.
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Posdata. 8.ed. México. Siglo Veintiuno, 1973. supõe que se leve em consideração o sentido axiológico do próprio con
Convergências; ensaios sobre arte e literatura. Rio de Janeiro: Rocco, ceito de revolução na sua dupla relação com a vanguarda e a modernida
1991. de. Nesta relação colocada dialética e historicamente se relativizam as
Lefeu de chague jour. Paris: Gallimard, 1986. extrapolações críticas, assim como se diferencia o sentido dos empreen
PAZ, Octavio; CAMPOS, Haroldo. Transblanco: em torno a bianco de Octavio dimentos vanguardistas para além das manifestações, supostos emble
Paz. Rio de Janeiro: Guanabara, 1986. p.201.
mas das vanguardas. Pois, os críticos que denegriram e assassinaram as
PESSOA, Fernando. Saudação a Walt Whitman. Poesias de Álvaro de Cam
pos. Obra poética. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1986. vanguardas, apreciam apenas os manifestos e as atividades ostentatórias.
Entretanto, a pletora de orações fúnebres não acarreta necessariamente a
fusão dos cadáveres. O problema da vanguarda fica sempre a ser reto
mado, e mais do que nunca na aura teórica pós-modema tendo como
fondo os novos caminhos que a entropia universal consignou à locomo
tiva histórica. A recente renovação dos ímpetos revolucionários deixa-
nos entrever um reinicio. Aqueles que quiseram terminar com sua histó
ria percebein que ela está se desesclerosando. Não levemos; a mal os
pós-modernistas puros e duros, afetados mais uma vez pelo retorno do
recalque, pois a modernidade ainda haverá de portar-se bem pelos pró
ximos anos.
Que tipo de discurso crítico informa a revolução? Empregada por
uma certa linguagem crítica, a revolução ("dostoievskiana", "joyciana",
futurista , "surrealista", "da linguagem poética") remete a supostas
mudanças radicais de formas, de discursos e de visões do mundo, mu
danças efetuadas, seja por um escritor, seja por um grupo de
vanguardistas. Desde então se coloca o problema da avaliação do cará
ter radical destas mudanças. Pontualmente, a crítica literária emprega

♦Artigo publicado em francês em DUCHET, C. e VACHON, S. (orgs.) La recherche


littéraire-, objets et méthodes. Montréal, XYZ, 1993. p.121-130.

28 29
metáforas violentas ("subversão", "ruptura", "desarticulação") ou me salvação do indivíduo" (p.32), mas firacassam na medida em que nenhu
táforas mais ou menos descritivas ("novo", "inovação", "transgressão"). ma estratura política da época garante esta fulguração da história, esta
Ora, as recentes teorias da modernidade e do pós-modemo (Hassan, emergência da liberdade que, conforme Hannah Arendt, define a revolu
Lyotard, Vattimo, Scarpetta) voltam a questionar o alcance revolucio ção: "A idéia central da revolução é a fundação da liberdade, ou seja, a
nário das operações discursivas de vanguarda, em particular as das van fundação de um corpo político que garanta o espaço no qual a liberdade
guardas históricas, bem como a legitimidade de uma atividade vanguar- pode se manifestar" (1965, p.47). Assim, é necessário fazer uma distinção
dista mesmo hoje. Por outro lado, de uns vinte anos para cá as diferentes entre o campo artístico de uma revolução e seu campo político. É preciso
teorias marcam o caráter aporético da vanguarda, (Enzensberger, 1973), desconstmir a metáfora da revolução. Neste sentido, Trotsky tem razão
o fim da transgressão,* o projeto cognitivo continuado aquém e além da quando tenta fazer um balanço do futurismo russo enquanto movimento
"monolatria"(Poggioli, 1971). Em certas reflexões teóricas se observa que se quer revolucionário:
que a atividade ostensivamente subversiva dá lugar ao caráter inorgânico
da obra de vanguarda (Bürger, 1980), bem como à persistência da van Na área da combinação das palavras, da mesma forma que na de sua
guarda como projeto revolucionário (Sanguineti, 1967) ou como "trans- formação, o futurismo certamente foi além dos limites que uma língua
viva pode admitir. Contudo, a mesma coisa aconteceu com a Revolução
vanguarda" (Bonito Oliva).
Desta forma, o problema da revolução é, por sua vez, aporético: e é aí que está o "pecado" de todo movimento vivo. É verdade que a
reconhecer ou não reconhecer certos fatos artísticos como revolucioná revolução, principalmente sua vanguarda consciente, demonstra ter mais
rios e irreversíveis contra o valor insolúvel das vanguardas pode depen autocnticos do que futuristas. Por outro lado, esses últimos encontraram
uma grande resistência exterior e deve-se desejar que ainda encontrem.
der, seja de um excesso de valor ideológico, seja de um encolhimento Os exageros foram eliminados e o trabalho essencialmente purificador e
singular do campo de observação. verdadeiramente revolucionário que se exerce na linguagem poética con
Quando Walter Benjamin assinala o fato de que os surrealistas são
tinuará. (Trotsky, 1971, p.162-163).
os únicos a terem compreendido "a ordem que nos dá o Manifeste
communiste" e "terem trocado sua gesticulação pelo mostrador de um
despertador que toca a cada minuto durante sessenta segundos" (Benja Trotsky não estará querendo dizer que a violência revolucionária
na arte traz poucos frutos e que o que é revolucionário na arte se realiza
min, 1971, p.314), ele parece querer dizer que a revolução é necessária, a longo prazo? Colocando o problema das aporias da vanguarda e das
mas que é ao mesmo tempo irredizável, porque a "gesticulação" surrealista
não pode transformar o barulho do despertador em um ato realmente re variantes do novo, proponho-me a teorizar a modernidade de acordo
com as seguintes articulações.
volucionário. No entanto, convém assinalar que o fracasso da "revolução
surrealista" não é de ordem artística. Ele é social e político. No número 5 I. Como tima dupla temporalidade de "curta duração" (événement
confonne Femand Braudel) e de "longa duração" {structure) (Braudel,
(15 de outubro de 1924) deLuRévolution surréaliste, os surrealistas assi
nam uma declaração-manifesto intitulada "La révolution d'abord et 1969). É a dialética do acontecimento e da estrutura que produz trans
toujours", afirmando que "a idéia de revolução é a melhor e mais eficaz formações discursivas duráveis no campo da modernidade. Logo, mo
dernidade será considerada como um sistema transnacional de opera
ções discursivas de vocação polêmica e axiológica e cuja transgressão
•Octavio Paz observa: "Somos hoje testemunhas de uma outra mutação: a arte moderna não seria senão uma das suas facetas. Ela é então, ao mesmo tempo, um
começa a perder seus poderes de negação. Há anos suas negações são repetições rituais:
a rebelião transformada em procedimento, crítica teórica, transgressão ceremonial. A programa a longo termo, uma utopia que controla e relativiza sua
negação deixou de ser criadora. Não digo que vivemos o fim da arte: vivemos o fim da factibilidade, e uma estrutura discursiva recorrente, dotada de um po
idéia de arte moderna". Point de convergence, du romantisme à I'avant-garde, traduzido tencial irônico e dialético considerável.
por R. Munier, Gallimard, 1976, p.l90. II. Como um sistema de invariantes poéticas da subjetividade, da
ironia, da fragmentação e da auto-reflexividade cuja dinâmica é variá /Joguem Puchkin, Dostoievski, Tolstoi, etc, etc, pela mureta do Vapor
vel, mas constante. Contemporâneo (Khlebnikov, 1967, p.41).
Este sistema da modernidade permitirá que se articule a contri
Em maio de 1928, ou seja, no ano 374 da Deglutição do bispo
buição das vanguardas no que concerne às funções axiológicas da sub
Sardinha pelos antropólogos brasileiros, Oswald de Andrade declara no
jetividade, da ironia, da fragmentação e da auto-reflexividade e que se
avalie sua irreversibilidade e seu caráter radical. Repensar hoje o pro Manifesto antropófago'.
blema da vanguarda tendo a modernidade como fundo não se pode
Nós queremos a revolução caraíba. Maior do que a Revolução Francesa.
fazer senão desconstruindo o sentido do termo que se usa entre suas
Unificar todas as revoltas eficazes que convergem em direção ao ho
extrapolações e opacificações. De regra geral, as extrapolações bana mem. Sem nós, a Europa nem mesmo teria sua pobre declaração dos
lizam ao extremo o sentido de vanguarda, discurso e atividade exces direitos do homem (..). Tínhamos a justiça: codificar a vingança. A ciên
sivos e de uma negatividade incondicional. Ao mesmo tempo, ocorre cia: codificar a magia. A antropofagia: transformação permanente do Tabu
üm movimento contrário, ou seja, uma opacificação semântica do ter em totem (1982, p.269-270).
mo. O conceito de vanguarda oscila entre o negativo e a afirmação de
um projeto estético tênue e conseqüente que visa produzir o novo mais Limitar-se à dimensão provocadora, excessiva, da escritura mani
por uma dialética da escritura do que pela repetitividade da "escritura festante, é facilitar muito o trabalho para si. Dada a complexidade do
manifestante".
fenômeno, tanto Octavio Paz quanto antes dele Hans Magnus Enzensberger
-O retrato-robô da vanguarda, sua imagem d'Épinal, teimosamente e depois Guy Scarpetta (em L'impurete) insistem bastante no anti-
reproduzidos já há uns trinta anos nos múltiplos estudos e discussões tradicionalismo e na violência das atitudes e dos programas em definir
críticas, representam-na como uma prática sistemática, compulsiva, até
mesmo pretenciosa ou, pelo menos, ostendadora da violência verbal vanguarda por uma totalização exagerada e desmedida. Talvez contra sua
vontade, eles desemboquem no retrato-robô. Dizer, como Octavio Paz,
chamada "manifesto". Essa prática é dirigida contra a sociedade bur
que "a vanguarda é a grande mptura através da qual se fecha a tradição da
guesa e a tradição literária ou artística que a precede. Assim, na ordem mptura" (p.l42) ou dizer, como Guy Scarpetta que "registramos, há dez
das extrapolações, a vanguarda seria uma formação intelectual parami-
anos, no campo da arte e da literatura, uma fase de mutação que se pode
litar que quer destruir o antigo em nome do novo. A vanguarda seria o
ria caracterizar como a da morte das vanguardas" (p.l3), é reduzir o pro
apanágio de uma modernidade efêmera cujos gritos estão fatalmente blema da vanguarda sobretudo a sua dimensão mediática. A complexida
condenados ao silêncio. Portanto, se certos críticos anunciam o fim das
de deste problema advém do fato de que cada manifesto remete a
vanguardas históricas, é em favor desta imagem simplificadora. É certo parâmetros locais que caracterizam, por exemplo, a Itália dos anos vinte
que a escritura manifestante credencia essa imagem d'Épinal. Basta re ou a Catalunha dos anos dez, vinte e trinte, etc. Estes parâmetros diferen
cordar algumas frases dos diferentes manifestos que marcaram a vonta
de de destrair: "Queremos destruir os museus, as bibliotecas, combater ciam o gesto negativo e impõem um exame crítico de suas conseqüências
o moralismo, o feminismo e todas as traições oportunistas e utilitárias", estéticas. Por detrás da escritura manifestante, encontra-se então o discur
diz Marinetti em 1909 (1976, p.l78), Maiakovski, Khlebnikov, Burliuk so futurista como o paroliberalismo que, sem nada acrescentar, abala o
e Kmtchenykh declaram em 1912: discurso poético, a autonomia da palavra poética praticada por Khlebnikov
na Rússia, ou então a de Maiakovski e a poesia de Mário de Andrade no
J' clarim
Somente NÓS soa
do tempo somos
peloAclarim
FACEdoDE NOSSO
verbo. Tempo.éAtravés
/O passado de nós,
de mente estreio
Brasil, bem como seu xomitac&Macunaíma. Na Catalunha, temos a obra
de J. V. Foix, poeta que, mesmo revelando uma consciência revolucioná
ta. A academia e Puchkin são mais incompreensíveis que os hieróglifos. ria, preconiza a revolução estética permanente para transformar e atuali
zar a inspiração poética e a linguagem. Esta valorização das transforma-

32 33

i
ções da linguagem literária visa recolocar o problema da vanguarda em cognitiva e a representação artística" (p.70). Não se poderia colocar
mna perspectiva diferente daquela que acentua os traços negativos e su melhor. Este modo de definir o problema ajuda-nos a repensar as rela
perficiais do fenômeno. Esta perspectiva reconhece o trabalho criador ções entre a modernidade, as revoluções artísticas e as vanguardas. Já a
sistemático, a transformação estratégica da escritura manifestante em es posição cada vez mais nuançada de Jean-François Lyotard sobre o pós-
critura teorizante, assim como a persistência do projeto estético de van modernismo e a vanguarda fixa um horizonte pertinente e dialético. Na
sua "Note sur le sens de 'post'", Lyotard observa: "O verdadeiro pro
guarda como dialetização necessária e cognitiva do processo de escritura
recolocado no seu ambiente ecológico, político e literário. Enquanto la cesso do vanguardismo foi, na realidade, uma espécie de trabalho, lon
boratório de formas e conteúdos apoiados no real imediato e na go, obstinado, altamente responsável, dirigido à pesquisa das
intertextualidade dialética do literário, a vanguarda adquire a continuida presuposições implicadas na modernidade" (1986, p.l25) Conforme
de de um projeto estético que desmente as aporias identificadas por Hans Lyotard, "pode-se considerar o trabalho de Cézanne, Picasso, Delaunay,
Magns Enzensberger em 1962. Enzensberger denuncia todas as usurpações Kandinsky, Klee, Mondrian, Malevitch e finalmente Duchamp como
da vanguarda, ou seja, seu próprio conceito, seus postulados e seu com uma "perlaboração" (durcharbeiten) efetuada pela modernidade sobre
seu próprio sentido" (1986, p.125-126). Em Réécrire Ia modernité, ao
portamento. A pretensão do novo, própria das vanguardas, seria aporética,
sem nenhuma solução, insolúvel, pura confissão de querer ser novo. Em referir-se de maneira mais elaborada à categoria freudiana de
bora, em 1962, seu estudo seja um dos mais radicais e exaustivos, Durcharbeitung, Lyotard observa:
Enzensberger não se desembaraça das nuanças e confironta-se com o re-
trato-robô que descrevemos. Contudo, o problema da vanguarda, eviden Reescrever, como entendo aqui, diz respeito à anamnese da Coisa. Não
temente, é bem mais complexo se for recolocado no seu contexto históri apenas daquela que é enviada por uma singularidade denominada "indi
co e geopolítico, e no conjunto de suas manifestações artísticas. vidual", mas também da Coisa que perturba "a língua", a tradição, o
material com, contra e no qual se escreve (..). A pós-modernidade não é
Ao retrato-robô simplificador pode-se opor um discurso de fatos e uma nova era, é a reescritura de alguns traços reivindicados pela moder
nuanças, orientado para um reconhecimento cada vez mais necessário nidade, e, antes de tudo, a reescritura de sua pretensão em fundamentar
da complexidade diacrônica e sincrônica, sintagmática e paradigmática, sua legitimidade no projeto de emancipação de toda a humanidade atra
ideológica e axiológica do fenômeno. Além das atividades violentamente vés da ciência e da técnica. Mas esta reescritura (..) está trabalhando, já
ostentatórias, ou seja, as próprias obras, o sentimento revolucionário faz muito tempo, dentro da própria modernidade (1988, p.42-43).
das operações vanguardistas é decifrado em outros lugares. Por conse
guinte, é preciso reconhecer a pluralidade das vanguardas, o retomo da A evolução da escritura e da criação vanguardistas há cerca de
vanguarda e a continuidade conseqüente dos projetos estéticos trinta anos permite afirmar que a criação artística que se quer vanguardista
vanguardistas. Desde então o problema das relações entre a vanguarda e ou reconhecida como tal, procede de uma notória mudança de perspec
a modernidade deve ser colocado como extrapolação das aporias e como tivas e poderia ser definida como profundamente politélica. A vanguar
viabilidade pontual do novo. Esta extrapolação e esta variabilidade da barulhenta e ostentatória é substituída por uma criação literária ou
são asseguradas pela plasticidade da vanguarda. Desde o fim da Segun teatral cuja novidade provém de uma determinada relação com a arte, o
da Guerra Mundial até os nossos dias, se desenham uma abertura e uma real e a linguagem. O que domina nesta relação, é a busca cognitiva
disponibilidade cognitivas do trabalho orgânico, teórico e criador, pró baseada no deslocamento contínuo de perspectivas axiológicas e
prias dos diferentes projetos vanguardistas. A vanguarda é o discurso discursivas. O militantismo e o showing-off das vanguardas ditas histó
dialético à altura das circunstâncias. Saul Yurkievich define bem o pro ricas são substituídos por uma atitude reflexiva e problematizante. A
blema: "A vanguarda encarrega-se periodicamente de restabelecer a li obra sucede ao grupo e ao manifesto. Ao coletivo tomado em uma
gação entre a concepção e a representação do mundo, entre a atualidade teatralidade ostentatoriamente manifestante se opõe freqüentemente lun

34 35
criador que transforma a herança das vanguardas em materiais a serem imediato. O carro de corrida, o "Bombardement d'Andrinople", a
"perlaborados". Poder-se-ia citar o concretisno brasileiro, I Novissimi "Navigation tactile" de Marinetti, "Le Nuage dans le pantalon" de
na Itália, Tel Quel e Change na França, criadores tais como Tadeusz Maiakovski, A/tozor de Huidobro eLes Champs magnétiques de Breton
Kantor no teatro, Hans Magnus Enzensberger, Juan Gelman e Eduardo e Soupault são obras vanguardistas. Mas a obra vanguardista pode durar
além do acontecimento e transformar-se em estratura. Tal caso é preci
Sanguineti na prosa e poesia. Todos estes fenômenos artísticos dão da
vanguarda uma perspectiva bem diferente daquela que se tem. A expe samente o dos Champs magnétiques que reescrevem a modernidade.
riência da vanguarda é a das novas formas, novas mensagens efetuadas Maurice Blanchot define este problema da seguinte forma:
sob condições polêmicas de um quadro social, político e artístico
O que busca Breton (..) é uma relação imediata consigo mesmo, a "vida
conflituoso, compulsivamente mediático. As vanguardas participam então
da perlaboração da modernidade. Estão interessadas pela "anamnese da imediata", uma relação sem intermediário com sua verdadeira existência
Coisa que perturba a língua'", a tradição e o material com, contra e no (..)(p.93)
O surrealismo (..) está em busca de um acontecimento absoluto em que o
qual se escreve"(Lyotard). As variantes do novo articulam-se a partir homem se manifeste com todas as suas possibilidades, ou seja, como
das invariantes da modernidade: a subjetividade, a ironia, a fragmenta
conjunto que os extrapola. Acontecimento absoluto, a revelação do fun
ção e a auto-reflexividade. Ademais, elas participam da dialética cionamento real do pensamento pela escritura automática (p.lOO).
intertextual entre as obras revolucionárias, vanguardistas e modernas.
Propomos investir esses três tipos de obras do sentido determina A obra modema surge a curto prazo, mas mantém uma relação
do pelo fato de que a modernidade, enquanto formação discursiva, intertextual significativa com as estmturas que se estendem por longos
perlabora suas pressuposições. Ela se nutre do que é revolucionário e do períodos. A obra modema reatualiza e problematiza valores a partir do
que é vanguardista. Ela reescreve constantemente sua tradição, suas método paradigmático. Ela os situa axiologicamente. Questiona o atual
matérias, sua língua. Eis como se definiriam a obra revolucionária, a na perspectiva dos valores anti-ideológicos. Os alvos da obra modema
obra vanguardista e a obra modema.
são principalmente cognitivos. Les Faux-monnayeurs de Gide, Berlin-
A obra revolucionária opera uma transformação irreversível da lin
Alexanderplatz de Doblin, Les Irresponsables, La Mort de Virgile de
guagem artística adequada a seu gênero. Ela é axiologicamente orienta Broch, Un, personnage et cent mille, Sixpersonnages en quête d'auteur
da e cria um paradigma, uma matriz discursiva dos quais as obras futu de Pirandello, Moi, le suprême de Roa Bastos, a poesia de Holderlin, de
ras não podem escapar. Por obrigação intertextual, elas devem utilizá-
los. A obra revolucionária subsiste além do curto prazo em que surge Rimbaud, de Femando Pessoa, de Pablo Nemda são obras modemas.
A descrição axiológica desses três tipos de obras não exclui o fato
como acontecimento. Don Quichotte, Notes d'un souterrain de
de que uma obra revolucionária é necessariamente modema e que a
Dostoievski, Ulysse de Joyce eL'Homme sans qualités de Musil são obra vanguardista pode tomar-se modema, enquanto que o contrário
obras revolucionárias. Les Fleurs du mal, Les Chants de Maldoror, a não é verdade. A obra modema não é vanguardista, se por este termo
poesia de Mallarmé e a de Whitman são revolucionárias. As variantes entendermos a realização e o esgotamento de uma obra a curto prazo
do novo que estas obras propõem assumem os diferentes paradigmas com um considerável desregulamento formal, profundamente inorgâni
discursivos e problematizam sua intertextualidade até o ponto em que a co. A obra modema tende naturalmente para uma organização temática
transformação da linguagem artística é uma necessidade dialética. e formal equilibrada. ^
A obra vanguardista surge principalmente a curto prazo. Ela é ideo
Qual é o alcance das variantes do novo no espaço das invariantes da
logicamente orientada: propõe uma Weltanschauung que se baseia em modemidade? Como as vanguardas históricas e posteriores ao surrealismo
um desregulamento formal suficientemente pertinente para que a men
manifestaram e problematizaram a subjetividade, a ironia, a fragmenta
sagem seja entendida. A obra vanguardista é indexada a partir do real
ção e a auto-reflexividade? Eis alguns elementos de resposta.

36 37
Desde os futurísmos italiano, russo, polonês e português até o REFERENCIAS BIBLIOGRÁFICAS
surrealismo europeu e latino-americano, passando pelo construtivismo
e a antropofagia, as vanguardas exaltaram o sujeito extático eufórico, ANDRADE, Oswald de. Manifeste anthropophage. Anthropophagies,
transbordante e agressivo. Ao mesmo tempo, certas vanguardas trans Flammarion, 1982. Traduzido por J. Thériot.
formaram a subjetividade noológica, interior, em uma subjetividade ARENDT, Hannah On revolution, Nova Iorque: Viking Press, 1965.
BENJAMIN, Walter Le Surréalisme-, mythe et violence. Traduzido por M. de
cosmológica, indexada a partir do mundo que a rodeia. As vanguardas Gandillac, Denoel, 1971.
ironizaram cânones literários dominantes e desarticularam o normativo
BLANCHOT, Maurice La Partdufeu. Paris: Gallimard, 1949.
através do rir. Assim agiram Khlebnikov e Maiakovski. BRAUDEL, Fernand. Écrits sur 1'histoire. Flammarion, 1969.
A fragmentação e a auto-reflexividade podem ser vistas como dois BÜRGER, Peter Theorie der Avantgarde. Frankfurt: Suhrkamp, 1980 (1974).
parâmetros e duas invariantes da modernidade. Duas vanguardas pós- ENZENSBERGER, Hans Magnus: Les apories de I'avant-garde. In: Culture
surrealistas, o concretismo brasileiro e o grapo 63 dos Novissimi, explo ou mise en condition! U.G.E., col. 10/18,1973. Traduzido por B. Lortholary.
raram-nas fartamente. A poesia concreta brasileira reescreve a moderni KHLEBNIKOV, Velemir Gifle au gout publique. Choix de Poemes.Traduzido
dade poética de Un coup de dés, paradigma do Livro Total. Já os por L. Schnitzer, Honfleur-Paris, Pierre Jean Oswald éd., 1967.
concretistas brasileiros, Haroldo e Augusto de Campos ou Décio La révolution d'abord et toujours. La Révolution Surréaliste, n.5, p.32, Jean-
Michel Place éd., 1975.
Pignatari, inspiram-se na poesia crítico-narrativo-lírica de Ezra Pound e
mais precisamente na poesia entendida como dança do intelecto. Inspi- LYOTARD, Jean-François Le Postmodernisme expliqué aux enfants.
rando-se na poesia dodecafônica de Webem e Schonberg, os concretistas Correspondance 1982-1985. Galilée, 1986.
L'Inhumain, causeries sur le temps. Galilée, 1988.
brasileiros criaram uma poesia serial. Na sua prática poética cruzam-se MARINETTI et alii. Manifeste dufuturisme. 1976.
dois códigos: o gráfico-icônico e o escriturai. O primeiro produz o poe
POGGIOLI, Renato. The theory of the avant-garde. Nova Iorque, Evanston,
ma como forma visível, variável, que interpreta a escritura. Por sua vez, San Francisco, Londres: Icon Editions, Harper & Row, 1971 (1968).
a escritura disciplina o grafismo. Por exemplo, Galaxias de Haroldo de SANGUINETI, Eduardo. Pour une avant-garde révolutionnaire. Tel Quel, n.29,
Campos é uma obra poética serial, inspirada em Joyce, Pound e John p.76-95,1967.
Cage, uma escritura incessantemente propagada por sua estrutura galática, SCARPETTA, Guy. LTmpureté, Grasset, 1985.
móvel e infínita. TROTSKY, Leon. Littérature et révolution. Traduzido por P. Frank, C. Ligny,
O grupo dos Novissimi do qual participam Eduaordo Sanguineti, J.-J. Marie, U.G.E., col. 10/18,1971.
Balestrini, A. Porta e A. Giuliani, propõe-se a retrabalhar, por conse YURKIEVICH, Saul. Littérature latino-américaine: traces et rejets. Paris:
guinte, a perlaborar a linguagem poética em função de estruturas Gallimard, 1988. Traduzido por F. Campo-Timal.
esquizofrênicas, anacrônicas, alienantes da sociedade moderna.
Através da tripla vetorialidade da vanguarda que Saul Yurkievich
identifica como vetorialidade realista, formal e subjetivista, (p.64-76)
os poetas concretistas brasileiros, os Novissimi, bem como os
experimentalistas italianos reescrevem a modernidade pós-surrealista e
pós-futurista. Sua linguagem é uma perlaboração da linguagem prece
dente, matriz infinita de signos. É nesse ponto que atua a dialética inces
sante entre o revolucionário, o moderno e o vanguardista.

(Tradução de Ricardo luri Canko)

38 39
Restos e reciclagem: da temática romanesca
à economia da produção cultural

WA LT E R MOSER

Rubbish has thus become an essential


resource for modern art. (179)
In a world of rubbish, art has learned
to exploit rubbish (181)
(Jonathan Culler)

Todos conhecemos o adágio que tem a seguinte estrutura: "dize-


me com quem andas (o que comes, como dormes, etc.) e dir-te-ei quem
és". Ele propõe a cada vez a identificação de uma pessoa, ou de uma
comunidade a partir de um de seus comportamentos específicos. Como
todas as afirmações com tal grau de generalidade, esta tem algo de bem
evidente, ao mesmo tempo em que permanece altamente problemática.
Pois bem, eu poderia, para entrar no assunto que pretendo abordar, acres
centar uma nova visão a este adágio: "dize-me o que fazes com teus
restos e dir-te-ei quem és".
A questão de "restos e reciclagem" diz respeito, para mim, a um pro
jeto de pesquisa que venho empreendendo conjuntamente com três co-pes-
quisadores da Universidade de Montreal e que trata das práticas de reutilização
e reciclagem no âmbito cultural. Falar de "reciclagem cultural" pode ser
apenas um emprego metafórico de uma noção que tem seu lugar próprio no
discurso ecológico, ou ainda econômico onde se considera importante, em
nossos dias, tanto a necessidade de reciclar quanto as técnicas apropriadas
para fazê-lo. Gostaria hoje de relacionar as duas cenas discursivas (econô
mica e cultural) tentando fazer um elo entre a tematização dos restos em
romances do século 20 e a teorização da produção cultural.

j
"Dize-me o que fazes com teus restos, e eu te direi quem és" tor produção literária do segundo pós-guerra.
nou-se, na realidade, hoje, um adágio de grande atualidade e pertinência, A título indicativo e para concretizar a problemática proposta, co
tanto na economia fortemente marcada pelo discurso ecológico quanto meçarei lembrando o que já é conhecido. Pode-se, com efeito, construir
na produção cultural. Economicamente falando, os países do "primeiro duas séries, uma atestando a temática dos restos nas obras literárias e a
mundo" se encontram numa situação ambivalente, marcada ao mesmo outra, a elaboração de uma estética da reutilização de "restos culturais"
tempo pela superabundância e pela penúria. Há superabundância de pro (Kulturmüll).
dução e de consumo, aceleração de produtos culturais e outros, acompa Para a primeira série, é verdade que se pode retroceder no tempo e
nhada de uma produção maciça de resíduos. Mas, constata-se simulta encontrar na literatura cômica, satírica e grotesca uma longa tradição do
neamente que há penúria de matérias-primas, de onde provém um dis tema do excremento e da defecação. O tema do resíduo está, assim,
curso conservacionista e ecológico que ocupa um lugar muito importan ligado ao que Bakhtine chamou as funções corporais inferiores que ocu
te em nossa sociedade e se acha, com freqüência, em contradição com pam a frente do cenário em situação camavalesca. O tema se vê, então,
nosso comportamento de consumidores. instalado no registro semântico do orgânico. No registro técnico, no
No plano cultural e artístico, admite-se, cada vez mais, que se pense a entanto, a aparição do tema se liga à concomitância de dois fatos
produção, e até mesmo a criação como um processo de reutilização, para contextuais: a grande cidade e a industrialização. Nesse sentido, Louis-
não dizer de reciclagem de materiais culturais dados a priori. Estamos, pois, Sébastien Mercier (com seus Tableauxparisiens - Quadros parisienses)
longe dos postulados de originalidade, de autenticidade, de pureza dirigidos seria um precursor do século 18, já que a temática não começará a ocu
outrora ao artista. Que se utilize a etiqueta "pós-modemo" para designá-la par um lugar importante senão no século 19, em romances que se pas
ou não, a produção cultural desenvolveu uma tendência a se transformar sam em grandes metrópoles e que pertencem ao realismo e ao naturalis
numa "random cannibalization of dead styles", como a fórmula - não sem mo (por exemplo: Dickens, Our mutual friend (1865), Zola, Le Ventre
uma avaliação negativa - um de seus teóricos e críticos (F. Jameson). de Paris - O ventre de Paris). No século 20, o tema se acha mais disper
Formularei aqui a hipótese de que há um elo entre esses dois desen so, mas ele se instala, muitas vezes marginalizado, de modo permanen
volvimentos paralelos sobre a cena econômica e sobre a cena artística. te. Os exemplos que darei são todos tirados de obras do nosso século.
Proponho-me a explorar esse elo, prevenindo, entretanto, desde já, com A segunda série é mais difícil de estabelecer, pois seria necessária
relação a soluções fáceis demais, como a de uma causalidade unilateral uma negociação prévia sobre a significação de "restos culturais". Qb-
ou de uma determinação mecânica que iria de um domínio a outro.' serve-se, entretanto, que, já no século 19, a tese do epigonismo
Estou consciente da extensão e da complexidade do campo e da (Immermann) concebia a produção artística como a exploração do que
tarefa de pesquisa que acabo de circunscrever. Além disso, para atender deixaram os grandes predecessores. Flaubert se via como um artista de
às necessidades deste ensaio, terei de recorrer a um subterfúgio que me fim de período, às voltas com a plenitude - e até com o pleno em dema
penmte abreviar o caminho a percorrer. Abordarei a questão a partir de sia - de materiais culturais acumulados pela história cultural. A emer
sua representação (temática ou não) na obra literária. E ainda me limita gência dos procedimentos da colagem e da montagem, em relação com
rei a pouquíssimas obras que serão escolhidas um pouco ao acaso, no as vanguardas históricas do início do século 20, instaura definitivamen
decorrer de minhas leituras. Tampouco subestimo o fato de que essa te um modo de produção artístico que ostenta (afixa) sua feitura
escolha poderá pretender a uma certa representatividade com relação à "bricolada" e literalmente fabricada com todas as peças e não apaga
mais a identidade nem a fragmentariedade dos materiais (re)utilizados.
A foto-montagem, desenvolvida na primeira metade de nosso século,
É o que ocorre no tipo de relação atribuído por alguns ao "marxismo mecânico" que
gostaria de ver refletido e repercutido diretamente na superestrutura da arte o que se desempenha imediatamente um papel importante nos debates e comba
manifesta, inicialmente, na infra-estrutura econômica. tes políticos acompanhando o crescimento do fascismo. Mais recente-


- a isotopia do que resta de um conjunto desintegrado ou de um
mente, observamos, na literatura, todo um modo das reescrituras e da
paródia. Nas artes visuais, várias correntes teraatizam ou praticam mais processo de produção: resíduos, detritos (leftovers, Überreste).
ou menos diretamente a reutilização de "restos culturais": a arte povera, - a isotopia do que é sem valor: dust, rubbish.
a copy-art, a pop art (exemplo da exposição de Montreal em 1992: a - a isotopia do que é sujo e impuro, foco de contaminação, fre
série das Poubelles de Arman). Convém lembrar que a produção cultu qüentemente acompanhada de uma valorização negativa: lixo, imundices.
ral do pós-modernismo foi globalmente caracterizada por Fredric Essas diferentes isotopias podem se combinar ao mesmo tempo,
Jameson como "a random cannibalization of dead styles". mas sempre em estruturas hierárquicas onde um ou dois aspectos domi
Antes de abordar os textos literários, atentemos um pouco para a nam sobre os outros. Assim, por exemplo, a idéia de impureza combina
da com uma valorização negativa domina em "imundices", enquanto
noção de resíduo, primeiro em seu campo semântico, e, em seguida, na
possibilidade de sua teorização. que "gadoue" [esterco] põe em primeiro plano os componentes semân
O campo semântico de "restos" é lexicalmente rico e interessante. ticos de "orgânico" e "massa informe".
Concentrar-me-ei aqui na língua francesa, mas seria interessante fazer Como conceitualizar, pensar a questão dos "restos" a fim de poder
abordá-la de maneira cognitiva? Em outros termos, haverá abordagens
comparações entre várias línguas para ver os recortes diferentes que elas
teóricas dos "restos"?
operam. Eis, a título de exemplo, os termos que levantei no romance
LesMétéores de Michel Toumier - de que falarei mais adiante: Exporei brevemente duas dessas abordagens para ter a oportuni
dade de introduzir algumas distinções que nos darão ocasião de abordar
—le(s) déchet(s) [o(s) resto(s)], les débris [os detritos], le(s) rebut(s)
nosso assunto tal como ele nos aparece em sua tematização literária.
(o refugo), les résidus [os resíduos]
- les ordures ménageres (oms) [o lixo doméstico], les imondices Mas, nenhuma dessas abordagens emana dos estudos literários; ambas
se inscrevem no campo da antropologia.
[as imundices]. Ia déjection [a dejeção], le(s) gadoue(s) [o(s) esterco(s)]
(termo preferido pelo narrador) Em seu livro Purity and danger, An analysis of pollution and ta
- a descarga boo, que data de 1966,^ Mary Douglas explora nosso comportamento
Bis, a título de comparação, os termos mais freqüentes em inglês: para com a categoria "dirt" (que me permitirei traduzir aqui por "déchets"
rubbish, garbage, trash, dust, dirt; e em alemão: Abfall, Müll. [restos]). Ela se diz insatisfeita com o que chama "piecemeal explana
Considerando todos esses termos utilizados para cobrir o campo tion" e propõe, ao contrário, "a systemic approach" (p.7). O que implica
três coisas:
"restos", observa-se que eles atualizam várias isotopias semânticas:
- a isotopia do orgânico versus o não orgânico (ex: técnico, geoló 1 - Ela pensa toda a sociedade como um sistema que permite dis
gico etc.). tinguir seu espaço interior e seu espaço exterior.
- a isotopia da fragmentação, da desintegração produzindo apenas 2 - Ela postula que todos os aspectos de um sistema (ritual, simbó
parti cuias em grande número: débris [detritos]. A passagem do singular ao lico, econômico, médico, higiênico, social etc.) devem ser pensados de
plural (le débris - les débris [o detrito - os detritos], le déchet [o resto] - les maneira integrada a fim de compreender, por exemplo um rito que tem
déchets [os restos] desloca o interesse do fragmento particular e reconhecí por objeto a impureza do sagrado ou a proibição alimentar.
vel para a massa muitas vezes informe e indiferendada das partículas. 3 - Em conseqüência, todos os sistemas se eqüivalem quanto à sua
- a isotopia da massa informe, do magma indiferenciado: gadoue capacidade de enfrentar o que ameaça sua integridade e continuidade, em
[esterco]. particular, as sociedades ditas primitivas (das quais ela tira a maior parte
- a isotopia da queda passiva (o que cai) ou da rejeição ativa (o de seus exemplos) e o que ela chama simplesmente de "nossa sociedade".
que é rejeitado, expulso): déchet [resto], déjection [dejeção], rebut [re
fugo] (Abfall, rifiuti). ^Routledge and Kegan Paul; refiro-me à edição Pelican Books que data de 1970.

7 44 45
Num dado sistema, "o que não está em seu lugar", o que perturba a stage they have some identity: they can be seen to be unwanted bits of
ordem do sistema, cai na categoria "dirt" e será rejeitado. A distinção whatever it was they came from, hair or food or wrappings. This is the
entre as posições interior e exterior ao sistema, e entre os gestos de inclu stage at which they are dangerous; their half identity still clings to them
são a exclusão é, pois, fundamental. Isso pode dar a impressão de ura and the clarity of the scene in which they obtrude is impaired by their
tratamento muito estatístico da questão^. Na realidade, ainda que a abor presence. But a long process of pulvering, dissolving and rotting awaits
any physical things that have been recognazed as dirt. In the end, all
dagem de Mary Douglas seja estritamente sincrônica, ela não é estática,
identity is gone. The origin of the various bits and pieces is lost and they
pois considera que, entre o interior e o exterior, há uma zona marginal, o have entered in to the mass of common rubbish. It is umpleasant to poke
que permite ressaltar a ambivalência que assumem as categorias de "res about in the refuse to try to recover anything, for this revives identity. So
to" e, por implicação, "desordem" e "impureza" para um sistema. long as identity is absent, rubbish is not dangerous. It does not even create
A zona marginal é o espaço onde se revela a natureza fundamen ambiguous perceptions since it clearly belongs in a defined place, a rubbish
talmente ambivalente dos restos enquanto desordem: heap of one kind or another. (p.l89)

Granted that disorder spoils pattern; it also provides the materials of Num primeiro tempo, os detritos que compõem a categoria
pattern. Order implies restriction; from all possible materials, a limited "déchets" [restos] permanecem ainda reconhecíveis. Eles guardam, como
selection has been made and from all possible relations a limited set has diz Mary Douglas, uma identidade; trata-se da identidade ligada à sua
been used. So disorder by implication is unlimited, no pattern has been
realized in it, but its potential for patterning is indefinite. This is why, configuração material em virtude de seu antigo uso, função ou lugar no
sistema do qual estão sendo banidos. Mesmo "deposto", fragmentado,
though we seek to create order, we do not simply condemn disorder. We arrancado de seu antigo contexto, o detrito residual pode ainda ser leva
recognize that it is destructive to existing pattern; also that it is has
potentiality. It symbolizes both danger and power, (p. 114) do a um estado passado do sistema. Seu cordão umbilical memorial está
ainda intacto. Ele suscita a memória de seu antigo uso, o que desenca
Conseqüentemente, Mary Douglas acaba dizendo que "There is deia a tomada de consciência pelo fato de que esse pedaço não está em
energy in its [i.e. the system's] margins and unstructured areas" (p.l37). seu lugar. Ele é ainda identificável graças à sua configuração enquanto
E assim que, mesmo que sua abordagem sincrônica não lhe permita objeto material que pertenceu ao sistema.
realmente abordar a questão das mudanças do ou no sistema , nem por Na segunda fase apresentada por Mary Douglas, ao contrário,
isso ela deixa de reconhecer seu potencial. essa possibilidade se perde num processo chamado de "pulversing,
Mas, voltemos ao tratamento que ela dá à noção de resto ("dirt"). dissolving and rotting" que reúne uma grande massa de "bits and
Distinguindo duas fases na maneira pela qual o sistema e seus represen pieces", isto é, de pedaços soltos e os submete a um tratamento que
tantes abordam os restos, ela submete essa noção a uma espécie de tem por efeito amalgamá-los." É assim que a identidade dos pedaços
narrativização que se mostra interessante para nós: se perde, a memória de seu antigo uso se apaga. Eles se tornam
irreconhecíveis como tendo parte de um estado anterior do sistema e
In the course of any imposing of order, whether in the mind or in the formam, daí em diante, uma massa indiferenciada. Segundo a termi
external world, the attitude to rejected bits and pieces goes through two nologia de Mary Douglas, "dirt" se torna, assim, "rubbish", uma mas
stages. First they are recognizable out of place, a threat to good order, sa informe que representa, entretanto, um potencial de energia possí
and so are regarded as objectionable and vigorously brushe away. At this vel de ser recuperado.

^ Como constata contrariado Jonathan Culler em Framing the sign, Criticism and its * Note-se que os verbos utilizados por Mary Douglas se referem tanto a processos orgâ
institutions, Norman and London: University of Oklahoma Press, 1988, p. 168-182. nicos (rotting) quanto a processos técnicos (pulverizing).
Dando um primeiro salto na tematização literária dos restos e de mas ainda identificáveis. Se os objetos, ou seus fragmentos reconhecí
seu tratamento: a distinção dessas duas fases ou estados dos restos se veis, são manipulados nesse estado de restos, falaremos de reutilização.
encontra com certa fidelidade numa passagem de Les Météores [Os For outro lado, há "a massa mole e branca dos lixos" que se tomou
"uma massa informe", resultado de um processo ou tratamento
meteoros] de Micchel Toumier quando um narrador descreve o funcio
namento de um incinerador de lixo. Essa visão apocalíptica dá a percep homogeneizador. O manejo dos restos nesse estado receberá, daqui por
ção da personagem Alexandre Surin a respeito: diante, o nome de reciclagem. O que importa aqui é que a reciclagem de
um objeto qualquer pressupõe a destmição de sua identidade enquanto
Cette fosse de stockage, c'est Tantichambre de I'enfer. Incessamment on objeto, quer seja essa destruição operada naturalmente por um processo
voit s'y précipiter à une vitesse vertigineuse des pieuvres d'acier orgânico (exemplo: putrefação, cf. "rotting" em M.D.) ou por via técni
gígantesques qui tombent du ciei, leurs huit tentacules crochus largement ca (cf. "pulverizing", em M.D.).
ouverts. Elles disparaissent dans Ia masse molle et blanche des oms Dos dois tipos de tratamento dos restos, é entretanto, possível tirar
[ordures ménagers]. Puis les cables se raidissent, on devine que le monstre uma mais-valia, e talvez um benefício econômico. Cito, uma vez mais,
referme sa mâchoire, et Ia pieuvre refait surface, lentement cette fois, M i c h e l To u r n i e r :
tenant embrassée dans ses tentacules une masse informe dont retombent
dans le vide des sommiers, des cuisinières, des pneus de camion, des
Pour moi (dit le narrateur) j'apprécie en Briffaut le récupérateur teus
arbres déracinés. (p. 138-139)
azimuts qui sait être mécanicien, fripier, brocanteur, papetier, voire
antiquaire. (...) II se croit investi d'une vocation qui I'appelle à sauver
[Esse fosso de estocagem, é a antecâmera do inferno. Vêem-se para aí se
I'objet jeté au rebut, à lui restituer sa dignité perdue - que dis-je - à lui
precipitar, incessantemente, numa velocidade vertiginosa, polvos de aço conférer une dignité supérieure parce que sa récupération s'accompagne
gigantescos que caem do céu, com seus oito tentáculos ondulados ampla d'une promotion au titre d'antiquité. Je I'ai vu opérer dans une décharge
mente abertos. Eles desaparecem na massa mole e branca do lixo domés
tico. Depois, as cordas se enrijecem, percebe-se que o monstro cerra seu publique. Je I'ai vu extraire des oms une cafetière de porcelaine ébréchée.
Avec quelle lenteur d'officiant il caressait le vieil ustensile, le faisant
maxilar, e o polvo reaparece, lentamente desta vez, mantendo abraçada tourner entre ses mains, passant I'index sur ses plaies, scrutant 1'intérieur
em seus tentáculos uma massa informe da qual caem no vazio estrados
de sa panse! L'instant était crucial. Cette cafetière rebutée ne valait plus
de camas, fogões, pneus de caminhão, árvores desenraizadas.
rien. II s'agissait par un décret qui ne dépendait que de lui de faire bondir
sa valeur três au-dessus de celle d'un objet semblable neuf en le sacrant
Finalmente, o fogo agirá como agente supremo da indiferenciação antiquité. (p. 211-212)
que apaga toda a possibilidade de reconhecer objetos e de a eles ligar a
memória de sua pertença e funcionalidade:
[Para mim (diz o narrador) eu aprecio em Briffaut o recuperador em to
dos os sentidos que sabe ser mecânico, belchior, adeleiro, papeleiro, e até
Cest un anéantissement rageur et indistinct de toutes les finesses, de antiquário. (...) Ele se crê investido de uma vocação que o chama a salvar
toutes les nuances, de tout ce qu'il y a d'inimitable et d'irreplaçable dans o objeto deixado de lado, a lhe restituir sua dignidade perdida - que digo
rêtre. (p. 139) eu! - a lhe conferir uma dignidade superior porque sua recuperação se
acompanha de uma promoção ao título de antigüidade. Eu o vi operar
[É um aniquilamento enfurecedor e indistinto de todas as finuras, de to numa descarga pública. Com que lentidão de oficiante ele acariciava o
das as nuanças, de tudo o que há de inimitável e de indestrutível no ser.] velho utensílio, fazendo-o girar entre suas mãos, passando o indicador
sobre suas feridas, escrutando o interior de sua pança! Aquele instante
Como em Mary Douglas, há, pois, de um lado, os restos no estado era crucial. Essa cafeteira desprezada não valia mais nada. Tratava-se,
de um grande número de objetos disparates, ou de partes de objetos. por um decreto que dependia unicamente dele, de fazer saltar seu valor

48 49
muito acima do valor de um objeto novo, semelhante, sagrando-o anti todo objeto passa em princípio por duas "catástrofes", o que dá a se
güidade.] qüência biográfica seguinte:
1 - "transient value": valor passageiro e instável, correspondente
Esta passagem nos oferece uma perfeita ilustração da Rubbish ao valor de uso do objeto;
Theory de Michael Thompson, a segunda teorização dos restos que eu 2 - "zero value": no momento em que o objeto perde todo valor de
proponho seja considerada aqui. Mostra sobretudo o aspecto que uso, ele entra na categoria "rubbish",®
Thompson identifica no sub-título de seu livro: The creation and 3 - "permanent value": o artefato entra nessa nova fase e categoria
destruction ofvalue.^ A passagem de Toumier retém narrativamente o quando a ele se acresce um valor estético, de museu, histórico, que se
momento em que um objeto passa da categoria "resto" para a categoria traduz, então, economicamente, em somas de dinheiro muito elevadas,
"antigüidade". O agente que opera essa passagem pode ser designado ultrapassando em todo caso, e de longe, o valor de uso do mesmo objeto.^
por vários nomes de profissão, o texto nos oferece o denominador co Thompson formula uma regra bastante estrita que rege esse cami
mum de todas essas profissões identificando a função principal do agen nho biográfico dos artefatos: não há passagem direta de 1 a 3. Em outros
te "o recuperador em todos os sentidos".® termos, a passagem pela categoria "rubbish" é incontomável, o que atri
A abordagem de Thompson é difícil de rotular: ela diz respeito à bui uma grande importância a essa categoria que, normalmente, seja
antologia social, mas ressalta a dimensão econômica de seus objetos, ao por causa de seu não-valor seja por causa da ameaça de desordem que
mesmo tempo em que se inspira na teoria das catástrofes de René Thom. ela representa (cf. sua teorização por Mary Douglas), tendemos a igno
Além disso, ela se situa na proximidade de uma abordagem desenvolvi rar ou a eliminar.
da mais recentemente pela antropologia histórica e documentada num Nem é preciso dizer que a teorização da categoria "rubbish" por
volume editado em 1976 por Arjun Appadurai sob o título programático Thompson é muito diferente da abordagem de Mary Douglas. Ela permite
de The social life of things. Commodities in cultural perspective."^ dar conta de outros aspectos (sobretudo econômico) da mesma problemáti
Thompson se interessa de fato pelo que se poderia chamar a biografia ca; nesse sentido, as duas abordagens são, numa certa medida, complemen-
dos objetos. Na maior parte dos exemplos que ele dá, trata-se de objetos tares. Thompson se concentra mais particularmente na dinanuca intra-
artefatos (resultantes de um processo de produção artificial ou artístico, sistêmica, e isso em termos de criação e de destruição de valor. Transforma
o que exclui todo o registro dos objetos orgânicos): "skilprints", carros, da em resto ("rubbish"), o artefato não deve necessariamente sair ou até ser
móveis, casas etc. Poder-se-ia facilmente incluir nesta série aberta a expulso do sistema por razões de pureza ou de ordem. Ao contrário, ele
cafeteira que é o objeto "recuperado" dos restos, no episódio extraído do pode aí permanecer, de alguma forma, à espera de sua promoção em objeto
romance de Toumier.
Segundo Thompson, a biografia de todo artefato se articula em ®Cf. no texto de Toumier a frase "esta cafeteira desprezada não valia mais nada" que
três etapas que são marcadas por comportamentos diferentes para com ilustra perfeitamente a categoria "rubbish" de Thompson.
'Uma vez mais o texto de Toumier dá uma excelente ilustração desse momento crucial
ele da parte dos utilzadores-consumidores, mas sobretudo por mudan na vida de um objeto: "II s'agissait par un décret qui ne dépendait que de lui de faire
ças do valor ligado aos objetos. Em termos de evolução de seu valor, bondir sa valeur três au-dessus de celle d'un objet semblable neuf en Ia sacrant antiquité. ^
A peça Terre prowwe/Terra promessa (português: Terra prometida), uma co-produçao
do Teatro dos dois mundos de Montreal e do Teatro dell'Angollo, Torino (Temporada
^Oxford: Oxford University Press, 1979. 1992-1993), apresenta um excelente exemplo da biografia de um objeto segundo o es
^' Transposta para o domínio cultural, esta expressão poderia servir para descrever a quema de Thompson: a pedra em tomo da qual se desenrola toda a ação-pantomima da
prática cultura] pós-modema, pelo menos em um de seus aspectos, sendo um outro "o peça é, inicialmente, objeto com valor de uso (moinho para moer o grão), jogada, de
canibal em todos os sentidos", que identifica a capacidade do grande estômago pós- pois, num terreno de golfo onde constitui um estorvo, para acabar se encontrando ,
moderno de tudo digerir. depois de recuperação, no fundo da água, instalado como peça mestra num jardim de
^Cambridge: Cambridge University Press, 1986. tipo japonês no interior de um museu.

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50

â
de valor permanente. É bem verdade que esses artefatos sem valor são, nitivamente banidos para o exterior do sistema (cf. Mary Douglas), eli
muitas vezes, um estorvo e nós preferimos mantê-los à distância'" - todos minados ou destruídos (cf. incinerador do lixo doméstico, em Tournier)
nós nos desembaraçamos de velhos objetos (quase) sem valor, seja no só- são deixados por conta dessa teoria.
tão, no porão, no fundo de um armário - mas eles permanecem, de uma Na realidade, sua teoria trata apenas dos objetos que sobrevivem
certa forma, disponíveis para uma eventual entrada na última etapa de sua
enquanto tais, já que, ainda seu valor mude, eles permanecem intactos,
vida, que, entretanto, nem todos conseguem atingir. identificáveis enquanto artefatos. Isso quer dizer que Thompson só con
Em Thompson, os artefatos têm uma biografia, o sistema tem uma sidera o processo de reutilização e não oferece nada para pensar o pro
história, o que nos dá a possibilidade teórica de pensar sua mudança, sua cesso de reciclagem que acarrete mudanças ainda mais radicais, na me
transformação. Dessa forma, essa abordagem é mais interessante para dida em que ele destrói a integridade material do objeto e, desse modo,
nós de imediato. É preciso, no entanto, ter consciência de suas limitações. põe fim à sua biografia.
Mary Douglas propõe uma abordagem, animada pela vontade de integrar Entretanto, com relação à problemática formulada no início (quais são
mn número maior de dimensões da problemática, o que lhe permite, em os elos entre modos de produção econômicos e técnicos produzindo
particular, levar em conta aspectos fantasmáticos e simbólicos da ques muitos restos e modos de produção artísticos que funcionam segundo os
tão. Esses aspectos não se encontram no centro do interesse de Thompson,
princípios da reutilização e reciclagem?), Thompson nos permite dar
o que faz com que, por exemplo, ele não considere o valor afetivo que os um passo importante. Ele considera a "vida" dos objetos fabricados com
objetos têm para nós, ou sua ligação com nossa própria vivência, com a ajuda de meios técnicos sofisticados e em processos industriais que
nossa experiência corporal, em suma, com nossa biografia de sujeitos
possibilitam uma produção em série e em grande quantidade. Isso nos
humanos. Nós insistimos, muitas vezes, em seus valores muito além da
racionalidade econômica que rege, por outro lado, "a vida dos objetos". permite pensar a questão dos restos numa sociedade industrial.
Em que medida, entretanto, pode-se utilizar a abordagem de Thompson
Assim, a categoria "rabbish" não atinge, pois, necessariamente o ní
vel de valor nulo - senão por que razão guardaríamos esses objetos que para analisar os processos de produção e de recepção (para não dizer "con
muitas vezes atrapalham? Além disso, o "valor permanente" se mostra menos sumo") artístico? A noção de objeto, que eu freqüentemente tratei como
"artefato", pode ser transposta para o campo da arte? E, mais particular
permanente do que Thompson sugere. É que os conceitos e as ideologias mente, para o campo dos objetos que são de natureza semiótica? Apoiar-
que estão na origem da museificação dos objetos se transformam, os valo me-ei em dois exemplos literários para esboçar \ima resposta.
res estéticos mudam, as modas do que se recupera e coleciona são efêmeras.
Eis primeiramente uma passagem extraída da novela Le Roi des
Assim, mesmo um artefato que atingiu o estágio de valor permanente, não échecs [O rei dos fracassos] do escritor chinês A. Cheng:
pode nunca mais ser tomado como um valor seguro.
Mas, é preciso sobretudo considerar o fato de que os artefatos que Le fou des échecs fit plus tard la connaissance d'un vieilard qui gagnait
têm uma biografia completa, segundo o modelo de Thompson, repre sa vie en récupérant des vieux papiers. II se battit centre lui pendant trois
sentam uma proporção ínfima do conjunto dos artefatos produzidos na jours, mais ne parvint à gagner qu'une seule partie. Afin d'éviter du travail
sociedade de consumo. Isso acarreta uma restrição importante da zona au vieilard, il se mit à décoller des dazibao pour en récupérer le papier.
de aplicação para a teoria de Thompson. Todos os objetos que são defi- Mais un jour, il dechira par inattention la "proclamation" qu'une faction
de rebelles venait d'afficher. II fut arrêté et accusé d'appartenir à la faction
adverse qui aurait de la sorte "fomenté un complot et recours à la ruse .
'"O que acarreta o problema de seu manejo técnico em termos de estocagem e "retrieval". On décida de le punir pour I'exemple."
O que levanta também a questão espacial da colocação em disponibilidade dos objetos
- tendo essa questão sofrido uma mudança radical com a desmaterialização (eletrônica)
de um grande número de objetos culturais. " A. Cheng. Les trois rots, Aix-en-Provence: Editions Alinéa,1988, p.l7.

52 53
[O louco dos fracassos conheceu, mais tarde, um velhinho que ganhava a para reciclar e o texto para reutilizar. E se vê punido por uma mampula-
vida recuperando papéis velhos. Ele lutou contra ele durante três dias, ção involuntária do segundo objeto, isto é, por razões políticas ligadas
mas só conseguiu ganhar uma só partida. A fim de evitar trabalho ao ao conteúdo do texto destraído por ele.
velho, ele se pôs a descolar dazibaos para recuperar o papel. Mas um dia, Um exemplo análogo, um pouco mais elaborado e complexo, é
ele rasgou sem querer a "proclamação" que uma facção de rebeldes tinha nos proposto pelo romance Une trop bruyante solitude. (Uma solidão
acabado de afixar. Ele foi preso e acusado de pertencer à facção oposta barulhenta demais) do escritor tcheco Buhomil Hrabal. Esse romance
que teria, desse modo, "fomentado um complô e recorrido à astúcia". exibe igualmente um velhinho - chamado Hanta - que se ocupa da recu
Decidiu-se puni-lo para dar exemplo.] peração de velhos papéis para ganhar a vida. Eis o início de seu relato:
Dentre os "recuperadores em todos os sentidos" tratados no texto Voilà trente-cinq ans que je travaille dans le vieux papier et c'est toute
de Toumier já citado, o velhinho nessa novela chinesa recente se especi ma love story. Voilà trente-cinq ans que je presse des livres et du vieux
aliza na recuperação do papel dos "dazibao" que aparecem por ocasião papier, trente-cinq ans que, lentement, je m'encrasse de lettres."
da revolução cultural na China. Ele ganha a vida na recuperação de
papel velho. Ora, o erro que comete o Louco dos fracassos ao ajudá-lo e [Já faz trinta e cinco anos que eu trabalho no papel velho, e essa é toda a
que tem conseqüências políticas aborrecedoras, permite-nos reconhecer minha love story. Já faz trinta e cinco anos que eu esmago livros e papel
uma das especificidades do objeto semiótico e mais particularmente tex velho, trinta e cinco anos que, lentamente, eu me enlameio de letras]
tual. É preciso distinguir entre o texto propriamente dito (o que ele diz
ou escreve) e seu suporte material. O texto depende sempre de um su Se o velho em Cheng era um solitário que recuperava papel velho
porte material, pode ser transposto de um suporte material para outro onde podia, Hanta, não menos solitário, se instalou à jusante na cadeia
(copiar, traduzir, transpor, etc.), mesmo no suporte relativamente da reciclagem do papel velho: ele moe livros com a ajuda de uma prensa
desmaterializado" de um aparelho eletrônico.'^ Arrancando "dazibao", hidráulica. Instalado num porão, ele entrega-os a si próprio, às tonela
o velhinho só se interessa pelo papel, isto é, pelo suporte material dos das, alimenta com eles sua prensa e os destrói, reduzindo-os a uni volu
textos políticos que estão no "dazibao". Ele procede, pois, uma destrui me de papel. Os livros enquanto objetos semióticos, enquanto inscri
ção sistemática dos objetos semióticos que são esses jornais colados nas ções de uma história cultural são destruídos, seu "conteúdo" (o texto)'"*
paredes. O processo de recuperação ao qual ele destina o papel dos jor apagado com o objetivo de extrair um produto que tem valor de matéria
nais exige a destrmção do jornal enquanto texto. Essa é uma operação prima: o papel.
puramente técnica e rotineira a qual se procede quando o próprio texto A atividade profissional representada nesse romance pode ser in
perdeu seu valor, tomou-se o que se pode chamar, nesse contexto preci terpretada como uma alegoria histórica. Nesse nível de leitura, a figura
so, um resto político, Mas ai daquele que destrói um texto que é ainda de Hanta e seu trabalho representam a maneira pela qual o regime soci
atual, tem ainda seu valor político nos debates e polêmicas em curso! alista entende liquidar o passado, anular a história. Há passagens que
Seu gesto, mesmo que ele só visasse à materialidade do suporte - o sustentam explicitamente esta leitura:
"papel velho" a recuperar - será interpretado politicamente, segundo o
texto inscrito sobre esse suporte. Au bout de plusieurs années, je finis par m'habituer à charger des
No caso dessa novela, o recuperador inexperiente de jornais ve bibliothèques entières, de beaux livres reliés en cuir et en maroquin des
lhos não soube fazer a diferença entre dois objetos: o suporte material
"Buhomil Hrabal. Une trop bruyante solitude, Paris: Editions Laffont, 1983, p.ll.
" Quem já "perdeu parte de textos" em seu computador, viveu a experiência da depen "Aliás, também seu interesse quase artesanal enquanto objetos culturais, sua feitura
dência do texto com relação ao seu suporte, por mais "desmaterializado" que ele seja. enquanto livros: encadernação, design da capa, realização tipográfica, etc.
châteaux et des maisons bourgeoises... J'en chargeais de pleins wagons, rebuts (...) en I'espace d'une seconde je sus exactement que cette
(p. 23-24) gigantesque presse allait porter un coup mortel à toutes les autres, une ère
nouvelle s'ouvrait dans ma spécialité, avec des êtres différents, une autre
[No final de vários anos, acabei por me habituar a encher bibliotecas façon de travailler. Finies les menus joies, les ouvrages jetés là par erreur!
inteiras, de belos livros encadernados em couro e em marroquim, dos Fini le bon temps des vieux presseurs comme moi, tous instruits malgré
castelos e das casas burguesas... Eu carregava vagões inteiros.] euxl (p. 87-88)

Mas, concentremo-nos de preferência no aspecto técnico e profissio Hanta alude aqui a suas "pequenas alegrias" que consistem em
nal da atividade de Hanta. A narração insiste muito nesse aspecto, apre observar os livros que desfilam diante dele, tocando-os, selecionando-
sentando o tratamento concedido aos livros tomados restos para serem li os para lê-los e escolhê-los de modo a constituírem uma biblioteca pes
quidados muna operação prioritariamente técnica. Trata-se, em primeiro soal em sua casa. Todas as noites, ele volta para casa com sua coleta de
lugar, de uma operação de reciclagem de matéria-prima que nega o livro livros, que serão, daí em diante, poupados ao processo que os reduz a
como objeto semiótico e cultural. O texto é retido pelas condições materiais simples suporte material e destinados a um outro uso: a leitura. Dentre
do trabalho, pela tecnologia - constituindo a prensa o aparelho principal - os livros reduzidos à categoria de restos, ele recupera, assim, alguns por
mas também pelo volume e pelas quantidades. Nessas descrições, o livro se seu valor de texto e de objetos culturais.
toma um objeto que se avalia e se paga por quilo, por tonelada, por carga de É assim que, em Hrabal e em Cheng, embora em desenvolvimen
caminhão e de vagão de trem. O que conta é o output de matéiia reciclada. tos narrativos bem diferentes, o tratamento dos objetos semióticos que
Dito isso, percebe-se que, de um ponto de vista técnico, o equipa são os livros ou jornais, uma vez transformados em restos, conhece uma
mento arcaico de Hanta, dá a seu trabalho uma aparência artesanal; ele bifurcação interessante: a reciclagem e a reutilização. Apenas a
luta com os aparelhos e com os materiais. Dir-se-ia que, na medida em reutilização permite manter a integridade do objeto enquanto texto e
que ele entra fisicamente em contato com o material tratado, sua eficá não reduzir sua natureza semiótica unicamente a suporte material.
cia permanece modesta. Mas, é igualmente possível aplicar a noção de "reciclagem" ao
Como Alexandre, o rei do esterco em Tournier, que visita uma material textual, à condição de pensar a linguagem como um recurso
usina de incineração de lixo doméstico, Hanta tem a ocasião de visitar que, no domínio cultural e mais particularmente literário, tem o status
uma usina que faz o mesmo trabalho que ele, mas com meios mais mo de matéria prima. Encontra-se esse tratamento num texto literário: Snow
dernos e aperfeiçoados: white de Donald Barthelme que põe na boca de um de seus personagens,
diretor de uma usina de "plastic buffalo humps", isto é, de um produto
Les ouyries déchíraient les paquets, en tiraient des livres tout neufs, que entra na categoria de "resto" (subcategoria de "camp" ou "kitsch"),
arrachaient les couvertures et jetaient leurs entrailes sur le tapis; et les esta reflexão sobre a linguagem:
livres, en tombant, s'ouvraient ça et là, mais personne ne feuiletait leurs
pages. C était du reste bien impossible, la chaine ne souffrait pas d'arret You know, Klipschorn was right I think when he spoke of 'blanketing'
comme j aimais 'a en faire au-dessus de ma presse. (...) Enhardi, je me effect of ordinary language, referring, as 1 recall, to the part that sort of,
hasardais à grimper sur Ia plate-forme qui entourait Ia ouve; oui, vraiement,
you know, 'fills in' between the others parts. That part, the 'filling' you
je m y promenais comme à Ia brasserie de Smichov ou Ton brasse en une
fois cinq cents hectolitres de bière, appuyé à Ia rampe comme sur might say, of which the expression 'you might say' is a good example,
is to me the most interesting part, and of course it might also be called
1'échafaudage d'une maison en construction je baissais les yeux sur Ia the 'stuffing' 1 suppose, and there is probably also, in addtion, some
salle; comme dans une centrale électrique, le tableau de bord brillait d'une other word that would do as well, to describe it, or maybe a number of
dizaine de boutons de toutes les couleurs, et Ia vis tassait, pressurait ces them. But the quality this 'stuffing' has, that the other parts of verbality

56 57
do not have, is two-parted, perhaps: (1) an 'endless' quality and (2) a In a world of rubbish art has learned to exploit rubbish.15
'sludge' quality. Of course that is possibly two qualities but I prefer to
think of them as different aspects of a single quality, if you can think Os textos literários inscrevem essa participação numa cultura
that way. The 'endless' aspec of 'stuffing' is that it goes on and on, in "reciclante" em dois níveis diferentes:
many different forms, and in fact our exchanges are in large measure 1. Enquanto prática, no nível de sua realização formal (por exemplo
composed of it, in larger measure even, perhaps, than they are composed
of that which is not 'stuffing'. The 'sludge' quality is the heaviness that pelo uso da citação, pelo recurso à montagem, à paródia, pela acentua
this 'stuff has, similar to the heavier motor oils, a kind of downward ção ostentatória de sua dimensão intertextual, etc.)
2. Enquanto reflexão, ao nível de uma teorização metaficcional. Os dois
pull but still fluid, if you follow, and I can't help thinking that this níveis podem se ativar separadamente (por exemplo, em Flaubert ou
downwardness is valuable, although it's hard to say just how, right at
the moment, (p. 96-97) Tournier), mas, em nossos dias, eles se desenvolvem com freqüência,
numa interação de tipo performativo, quando a prática é acompanhada
Em literatura, pode-se, portanto, observar uma importante presen de uma teorização ou que a teoria faz o que ela diz (por exemplo, em
ça temática - e talvez cada vez mais importante - dos restos e da questão Manuel Puig e Donald Barthelme).
de sua reciclagem. Trata-se de uma forte presença, e por momentos alta A título de exemplo, debruçar-me-ei sobre a espécie de estética da
mente técnica, de um sistema que representa nossa cultura industrial. E reciclagem que Tournier elabora em seu romance Les météores, mais
essa presença remonta historicamente ao menos até o romance realista e particularmente em tomo da questão da personagem Alexandre Surin.
naturalista, mas retoma hoje com uma insistência, ao mesmo tempo, Trata-se do tio de dois personagens principais, Paulo e João, cons
documentária (o texto romanesco representa, de alguma forma, sua pró tituindo a constelação gemelar que se acha no centro da história narra
da. Alexandre Surin se ocupa profissionalmente de lixos domésticos
pria condição de existência no mundo contemporâneo) e imaginária,
para não dizer fantasmática. Acabamos de ver como, em Tournier, a (fr.roms), de sua evacuação, armazenagem e exploração. Mas, sua rela
descrição técnica de uma graa desemboca na visão apocalíptica de um ção com o lixo não é apenas de natureza técnica e profissional. Ele in
veste aí todo o seu imaginário'® e reúne todas as suas forças intelectuais,
polvo gigantesco devorador de lixo doméstico, ou a de um incinerador
de lixo em uma visão de inferno. que lhe permitem elaborar uma visão coerente do mundo em que vive.
Mas façamos, agora, a passagem dessa cultura industrial, repre Ele assume de bom grado o título de "roi et dandy des gadoues"
sentada no romance, para a indústria cultural da qual participa o roman [ptg.:rei e dandi dos estercos] (p.94) que a voz narrativa lhe confere não
ce. Em outros termos, tentemos ver como o romance, produzido no con sem ironia. Ocupando-se dos restos materiais que a sociedade rejeita, ele
texto de uma cultura industrial avançada, pode pensar suas próprias con próprio é um desejo social, pelo menos sua homossexualidade e seu
dandismo o situam à margem da sociedade."E é nesse lugar marginal - as
dições e modalidades de produção, pois esse contexto, marcado pela
presença cada vez mais incontomável de restos e pelo que extrai daí grandes descargas se encontran sempre na periferia das grandes cidades -
como a obrigação de pensá-los e de gerá-los - por exemplo, reciclando- que ele estabeleceu seu reinado com uma espécie de contra-poder. Seu
os - tem um impacto sobre as práticas culturais e artísticas. Esta cultura
dos restos e da reciclagem afeta, pois, a produção artística. Jonathan Framing the Sign, Criticism arts its institutions, Norman and London: University of
Culler o constata de maneira lapidar: O k laainhteressante
" Seri o m a Pabordá-l
r e s so,por exempl
1 9o 8a 8parti
, r de Klapus. Thewele
1it,7Mannerphantasi
9 e l 8 1 . en, / /
ou de maneira psicanalítica. Uma leitura heterológica interessante foi proposta por I *
Rubbish has thus become an essential resource for modern art. Anthony Purdy: «'Les météores'de Michel Tournier: une perspective hétérologique", ^
L" Por
i t certos
t é r traços
a t u elreese, aproximanig.ual
4m0ente
, 1do
9 fl8 0 , baudelepria.no, embora
anador 3 2suas
-43. \
Ou ainda:
perambulações noturnas e urbanas se transformem em caça sexual.

58 59
império dos estercos é, de fato, construído como um mundo às avessas e pio de utilidade, em que o uso e a dejeção seriam seja proibidos seja
se opõe, ponto por ponto, ao mundo dominado pelos burgueses heterosse recuperados, não passa evidentemente de um sonho. Por não poder
xuais muna construção axiológica baseada na inversão de valores. realizá-los, seus partidários cuidam para que os restos sejam eliminados
Para começar, Alexandre Surin atribui um valor totalmente positi o mais rápido possível e o mais radicalmente possível. É de sua cabeça
vo a cada esterco. (p.93) Ele se encanta com a riqueza e com a sabedoria que nasceu o que representa o horror absoluto para o rei dos estercos: o
de certas descargas, (p.93) E ele "sonha com uma dejeção total, univer incinerador do lixo doméstico, sua destruição pelo fogo."
sal que precipitaria uma cidade inteira no refugo" (p.92), o que provo É no pano de fundo dessa estrutura dicotômica (cidade/periferia,
caria uma inversão da relação entre periferia e centro. É, de fato, pelo retenção/dejeção, mundo/avesso do mundo, valor/contra-valor) que será
binóculo dos restos que ele conhece a realidade da civilização e da soci proposta a estética do dândi dos estercos (p. 101-103). Não é, pois, sur
edade amalgamadas no fenômeno da cidade: preendente descobrir que seu principal modo de funcionamento é igual
mente o inverso. Ela assume o oposto dos princípios estéticos tradicionais
Ce qu'il y a d'admirable dans les gadoues, c'est cette promotion negando suas exigências fundamentais (superioridade ontológica do ori
généralisée qui fait de chaque débris Tembleme possible de Ia cité qui Ta ginal sobre a cópia, conseqüentemente valorização do original, unicidade
enfanté. (p.93)'® e autenticidade da obra de arte, valor durável da obra, etc.). Os princípios
desta novela estética estão mais ou menos diretamente ligados a um modo
[O que há de admirável nos estercos, é essa promoção generalizada que de produção que corresponde ao da produção industrial: produção em
faz de cada detrito o emblema possível da cidade que o embalou.] grande quantidade, e sobretudo em série, de objetos de pouco valor.
Eis alguns princípios extraídos da exposição desta estética pelo rei
A esta "visão do mundo" se opõe diametralmente a dos "cloportes dos estercos:
petits-bourgeois" [pequenos burgueses que parecem tatuzinhos] que têm - a imitação é preferível ao original;
tanto medo dos dejetos que prefeririam não produzi-los: - a secundaridade (produção em segundo grau) à originalidade;
- a quantidade à qualidade;
Cloporte de petit-bourgeois! Toujours cette peur de Jeter, ce regret avare - o objeto de pouco valor comercial é esteticamente preferível;
en face du rebut. Une obsession, un idéal: une société qui ne rejetterait - o inautêntico é esteticamente procurado (valorização dos objetos
rien, dont les objets dureraient éternellement, et dont les deux grandes "kitsch" ou "camp");
fonctions - production-consommation - s'accompliraient sans déchets"! - o efêmero vence o durável.
C'est le rêve de Ia constipation urbaine integrate, (p.92)
Não apenas esses princípios são sustentados através de argumen
tos especiais (exemplo: é preferível a imitação à coisa imitada, porque
[Pequenos burgueses que se comportam como tatuzinhos! Sempre esse
medo de jogar fora, esse pesar avaro face ao restolho. Uma obsessão, uiti ela adiciona o valor de um esforço suplementar), mas sua enunciação
ideal: uma sociedade que nada rejeitaria, cujos objetos durariam eterna produz igualmente o efeito de uma estranha familiaridade. É que essa
mente, e cujas duas grandes funções - produção-consumo - se cumpriri estética - ao mesmo tempo em que se opõe - trabalha em e com os
am sem restos". É o sonho da constipação urbana integral.] conceitos e os próprios enunciados da tradição estética que ela está in
vertendo. Toumier recicla, de fato, os resíduos de uma estética tradicio
Esse ideal de uma economia sem perda e obedecendo a um princí- nal no momento exato em que ele enuncia e valoriza uma estética da
reprodução, senão da reciclagem. Ele procede de maneira performativa.
"Toumier parece lançar aqui as bases das pesquisas de antropologia arqueológica que
tem por objetivo a reconstituição de uma civilização a partir de seus dejetos. "Ao que Alexandre Surin opõe a conservação dos objetos lançados no esterco. (cf.p.l03).

60 61
Dou apenas um exemplo para ilustrar esse procedimento: Toumier criou as condições de uma interação entre cultura industrial e indústria
reutiliza e perverte os traços discursivos da estética romântica que to cultural, o que lhe permite propor-nos uma reflexão menos enviezada
mou emprestada a estrutura lógica da Potenzierung (em matemática: sobre as condições reais da produção artístico-cultural de hoje.
um algarismo elevado à potência) para afirmar o potencial que é atribu Ao mesmo tempo, ele nos oferece um exemplo interessante da
ído à obra de arte de se desdobrar no ato crítico, atingindo, assim, uma capacidade que tem a literatura de pensar o condicionamento histórico
maior potência. Essa elevação em série do nível de reflexão da obra de da produção artística bem além do campo literário propriamente dito.
arte romântica^ é retomada como uma reprodução (industrial) em série
ou - pior ainda - como uma precipitação do ato de copiar e de imitar. (Tradução de Maria José Coracini)
Isso resulta no fato espantoso que - segundo a estética romântica - o que
teria levado à degradação estética mais grave se revela agora como ca
paz de produzir o valor estético supremo: a cópia da cópia da cópia, etc.
(cf.p.l03) - sendo o processo tão infinito quanto o da elevação reflexiva
da obra de arte romântica.
Erraríamos se nos concedêssemos a facilidade de não ver nessa
"estética do dãndi dos estercos" a não ser um exercício de estilo espiri
tual e cômico da parte de Tournier. A não ser um simples jogo paródico
e provocador. Sem dúvida alguma, esta estética é provocadora, já que
alinha de maneira impiedosa a produção artística nas leis da produção
industrial e técnica. Ela estabelece, desse modo, um elo afirmativo e
direto entre o domínio artístico e o domínio industrial. Introduz direta
mente a lógica e o modo de produção do segundo no primeiro e nos
obriga, dessa maneira, a pensar suas interações.
A reflexão estética de Tournier, por intermédio de seu persona
gem, especialista no tratamento de lixo doméstico, se situa à jusante não
apenas da reflexão de Benjamin sobre a reprodutibilidade da obra de
arte na época técnica, mas também da de Horkheimer e Adorno sobre a
indústria cultural. Com relação a essas duas comunicações anteriores
dentro da mesma problemática, Tournier conseguiu apagar todo vestí
gio de nostalgia com relação ao desaparecimento de um paradigma esté
tico passado (valor aurático e cultural do original artístico em Benja
min). E ele desiste de fazer acusações contra o que Horkheimer e Ador
no consideravam como que uma degradação da arte de tipo "high culture"
que devia, aliás, a seus olhos, operar a redenção da arte decaída. Toumier,
por sua vez, tendo, de algum modo, des-empenhado re-empenhado (no
sentido de uma desconstração) os princípios de uma estética perecida.
' Cf. Walter Benjamin, Le concept de critique d'art à Vépoque romantique.
ORIGENS DA AMERICANIDADE

)
Cabral - o agressor e sua lâmina

HOMERO ARAÚJO

Em João Cabral de Melo Neto, a americanidade encontra um autor


obsessivamente preocupado com a paisagem (tempo e espaço) nordes
tina, inclusive no que ela alude, por exemplo, a Espanha. Dessa capaci
dade de estabelecer vínculos, comparações e tensões surge um livro
como Paisagem com figuras (1954-1955), no qual Pernambuco e
Espanha disputam a atenção do poeta. Mas o Nordeste áspero e seco é a
dimensão mais evidente do caráter americano da poesia cabralina, im
portando antes, neste trabalho, um aspecto mais abstrato e menos estu
dado da citada poesia: aspereza e secura na condição de elementos de
uma poética de agressão, disposta a despertar no leitor o estado de alerta
que esteja distante, digamos, da identificação com o eu-lírico.
Elaborada para provocar o conflito em/com o leitor, a poesia
cabralina mais do que examinar, põe em questão a situação e uma pos
sível identidade americana. A rigor, o poeta questiona qualquer identi
dade que não seja transpassada pelo conflito, num quadro em que o
conflito rende o núcleo da poética e da própria condição humana. De
resto, a reflexão sobre o relacionamento com o leitor, esta vítima da
lâmina agressora de Cabral, leva o poeta a buscar uma ética que seja
adequada a esta poética que se recusa à contemplação e à confissão.
Enfim, uma questão central de Uma faca só lâmina é examinar quais a
poética e a ética possíveis no mundo moderno. E Cabral percebe uma
contribuição interessante a ser dada pela situação americana-nordesti-
na, que forneceria uma, ambiente compatível com esta poesia tensionada
e provocadora de tensão, para a exposição da faca só lâmina:

(...)
E nunca seja à noite,
que esta tem as mãos férteis

67
Aos ácidos do sol da propriedade jfoca é possível derivar a condição pedra e a natureza cabra,
seja, ao sol do Nordeste, num movimento que não poderemos demonstrar cabalmente nos limites
desta monografia, mas cujas premissas e condições tentaremos tomar evi
à febre desse sol
dentes, inclusive apontando o interesse de tal perspectiva para a definição
que faz de arame as ervas,
do caráter modemo da poesia de João Cabral.
que faz de esponja o vento
e faz de sede a terra.
João Alexandre Barbosa nota que na primeira estrofe da parte A
do poema ocorre a nomeação das imagens propostas no início do texto e
o estabelecimento da convergência:
1 Uma faca só lâmina (ou: serventia das idéias fixas) é um longo
i poema publicado em 1955, ainda sem o subtítulo que surge apenas em
I 1968, na edição de Poesias completas. Sua importância na trajetória de Seja baia, relógio,
ou a lâmina colérica,
João Cabral de Melo Neto já foi enfatizada por críticos do porte de
é contudo uma ausência
Haroldo de Campos, Benedito Nunes e João Alexandre Barbosa em
o que esse homem leva.
análises sofisticadas com as quais pretendo dialogar e polemizar para
estabelecer minha leitura.
Mas esta convergência somente surge após um longo simile de trinta e
A partir da hipótese de que Uma faca só lâmina elabora-se uma
' definição poética da maior relevância, procuro estabelecer conexões com dois versos: aquele que, iniciando o poema por "Assim como uma bala",
estende-se através de conexões comparativas "assim como", "qual",
I o restante da obra, iluminando a produção poética de Cabral a partir
deste poema específico. Sobre a importância da definição poética ocor "igual" e uso do subjuntivo ("tivesse"), na formação de uma cadeia de
rida em Uma faca só lâmina, fiquemos, por ora, com a percepção de equivalências em que as imagens de bala, relógio e faca passam a ser
Benedito Nunes: "A imagem da faca torna-se, nesse poema, um acumu- apenas nomes para a designação do conceito ("ausência") da primeira
lador de outras imagens, determinando, para o objeto respectivo, a fun estrofe mencionada. (Barbosa, 1975, P.146.)
ção emblemática de palavra-tema, que passará a outras poesias, Barbosa desenvolverá a afirmação de que o conjunto de imagens
conotandq toda natureza cortante, aguda, penetrante ou agressiva, seja busca apenas designar o conceito "ausência":
das coisas e da linguagem, seja de estados e de atitudes humanas. Ela
,, pertencerá ao grupo das palavras privilegiadas na poesia de João Cabral, A ausência é conquistada na medida em que, das imagens servidas para a
covaopedra e cabra, que são ao mesmo tempo, substantivos e adjetivas. sua veiculação, nada resta a não ser o que ali já era imagem de ausência.
Há uma condição/jedra, de dureza, dje resistência moral, como há uma
natureza cabra, de conformismo inconformado e a propriedade/hca, da A prevalência da faca não significa, por isso, o privilégio de uma metáfo
\ lucidez insaciável, que fere, impiedosa, a todo aquele que padece do ra mas daquilo que, na imagem, aponta para o aprendizado de uma lin
\ gume de sua inquietação." (Nunes, 1974, p. 103-4.) guagem de carência (...). (Barbosa, 1975, p.l47.)
, j Nunes não observa que das três palavras-tema por ele identificadas,
Coerentemente, ao citar outros versos da parte A, Barbosa não en
pP' faca émentos
a primprocura
eira a surgi
r cronologicamente. Ora, boa parte de meus argu
demonstrar que tal precedência não é ocasional, mas antes fatiza as características da ausência, embora elas sejam assaz evidentes:
indica que a partir de Uma faca só lâmina o poeta estabelece os fundamen "essa ausência tão ávida", "aquela ausência sôfrega", "que a imagem de
tos de sua visão de mundo, tomando explícitos elementos que, até certo uma faca/ entregue inteiramente/ à fome pelas coisas/ que nas facas se
ponto, já se encontravam implícitos nos dois livros anteriores, O cão sem sente." Ao tentar definir a linguagem de carência a que chegou Cabral,
plumas e Paisagens comfiguras. Enfim, ádifaca, surgem a pedra e a cabra-. Barbosa não atenta para o caráter inquietante, doloroso mesmo, dessa

68 69
carência. Aquela faca "de uso interno", que guarda semelhança com a Do nada ela destila

situação de um homem que se fere com seus próprios ossos, pode ser a azia e o vinagre
reduzida, como que Barbosa, à designação do conceito de ausência, mas e mais estratagemas
tal redução cobrará seu preço na interpretação do poema. Recusando tal privativos dos sabres.
redução, acentuo justamente o caráter inquieto, sôfrego e ávido da faca
só lâmina que é carregada. Tal deslocamento na leitura permite que se A utilização da segunda pessoa do singular (Podes...) remete ne
perceba que a linguagem de carência de João Cabral serve a fins deter cessariamente a um receptor, que, por sinal, já aparecera em um prono
minados e explícitos no poema. me de um dos versos da introdução ("se transformasse em parte/ de
Barbosa reconhece, de resto, que a localização interiorizada das vossa anatomia"), confundindo receptor e portador da faca. Há uma pro
imagens remete necessariamente a um corpo humano, à dimensão hu vocação do poeta aqui, ao confundir leitor e vítima da faca, num proce
mana; mas, buscando o caráter mimético do procedimento poético de dimento repleto de conseqüências para o restante poema. No momento,
Cabral, o crítico acentuará que o poeta conquista o humano na medida restrinjo-me a notar que, ao remeter ao receptor, o poeta acentua a rela
em que aprende com o objeto imitado: "Desta forma, o que parece inte ção entre lâmina e homera-receptor que a carrega. Se o objeto é
ressar ao poeta não é aquilo que a imagem possa dizer mas o que, por indefinível e portador de contradições insolúveis, seus efeitos sobre quem
ser imagem, não revela senão desde o momento em que o tenor devora o obriga são, no entanto, bem definidos.
os vehicles pelos quais é referido." (Barbosa, 1975, p.l48.) Enfim, vol A parte C retoma a provocação dirigindo-se novamente ao leitor:
ta-se a acentuar a suposta equivalência onde as imagens de bala, relógio "Cuidado com o objeto/ com o objeto cuidado,". Se não houver cuida
efaca são nomes a designarem o conceito de ausência. do, corpo e objeto entrarão em harmonia, e o antagonismo monerá. O
Nossa intenção é justamente sublinhar as qualidades que tais ima homem-receptor não mais sofrerá os efeitos do bala-relógio-faca com
gens dão à ausência, permitindo que qualifiquemos com maior precisão sua avidez, perdendo, assim, a inquietação e o desconforto. Vale notar
o humano em pauta. Não se trata de um homem genérico, mas de um que com essas quadras o poeta recusa-se a caracterizar o conflito como
homem submetido a profunda inquietação, um homem que se ferisse necessário, irremediável; sem algum cuidado o corpo absorverá o obje
com seus próprios ossos, enfim. Tendo em vista esta ausência qualifica to, ocorrendo uma adaptação que faria a faca perder seu ardor. Com
da cuja imagem privilegiada é afaça só lâmina, os oxímoros da parte B maestria, o poeta estabelece o conflito entre objeto e corpo; até C sabí
desempenham um papel orgânico e cmcial no poema. Sem dúvida eles amos que a ausência-faca gerava inquietação e desconforto, mas não
remetem "a um objeto cuja própria natureza recusa a apreensão", como havia sido plenamente estabelecido o caráter antagônico da ausência
nota Barbosa, mas também revelam o caráter essencialmente fluido e em relação ao corpo que a carrega.
dinâmico da ausência em questão, a qual está imersa em aporias que Depois de examinar a relação entre corpo e objeto em C, o poeta
impedem a conceituação precisa, embora as conseqüências de sua pre estudará na parte D a possível transformação da própria faca, que perde
sença no interior do corpo humano sejam claras, até porque prossegue suas características na maré-baixa:
sendo uma "faca intestina" a "destilar azia e vinagre".
E a espada dessa lâmina,
Podes abandoná-la, sua chama antes acesa,
essa faca intestina: e o relógio nervoso
jamais a encontrarás e a tal bala indigesta,
com a boca vazia.
tudo segue o processo
de lâmina que cega:

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faz-se faca, relógio E nunca seja à noite,
ou bala de madeira, que esta tem as mãos férteis.
Aos ácidos do sol
bala de couro ou pano, seja, ao sol do Nordeste,
ou relógio de breu,
faz-se faca sem vértebras, A recusa da noite com suas mãos férteis vem acompanhada da
faca de argila ou mel, indicação do ambiente adequado à faca, ambiente calcinado pelo sol do
Nordeste. Trata-se de uma passagem das mais significativas em João
A própria faca, portanto, pode passar por transformações internas Cabral, ao unir a reflexão metalingüística e o ambiente desértico nor
que alterem suas características, embora o caráter passageiro do fenô destino, mostrando a analogia que existe, para o poeta, entre esta poéti
meno seja afirmado na última quadra da parte D. ca de inquietação e da recusa da confissão e o deserto nordestino, de
EmjE o cuidado necessário no trato com a faca é melhor definido. tudo carente, sedento, exposto a um sol "que faz de esponja o vento/ e
A umidade cega a faca ("pois na umidade pouco/ seu relâmpago dura"), faz de sede a terra". Para dar conta do ambiente desértico, só aprenden
o poeta introduzirá a imagem da umidade de saliva de conversas, espe do uma linguagem de carência, como quer João Alexandre Barbosa.
cialmente aquelas que revelam a intimidade de um dos interlocutores Em F afirma-se a impossibilidade de extração da faca, que não
("quanto mais confidências"), Barbosa a partir desta quadra, reforça o pode ser removida por quem a possui encravada, nem por uma outra
argumento de que se trata de uma faca de cunho lingüístico: pessoa; pode ocorrer a maré baixa da faca, necessariamente transitória,
ou a harmonia entre a faca e o corpo, o que provocaria a anulação dos
E mais um passo na apreensão da significação do texto: a estrofe entre efeitos de ausência ávida e sôfrega, mas não pode ocorrer a separação
parêntese vem revelar o caráter lingüístico da faca, assim como a exata entre objeto e portador. As reações deste portador serão explicitadas na
correlação estabelecida entre ela e a lição aprendida pelo poeta através de sucessão de quadras de G.
suas experiências circunstanciais. (Barbosa, 1975, p.151.) Até então as reações do corpo estão no plano fisiológico. Ardor,
fiiror, sofreguidão e avidez desestabilizam o corpo que habitam, daí a
Digamos que a faca também é lingüística, o que implica afirmar inquietação algo genérica que identificamos. Já na introdução do poema
que ela encerra uma concepção de poesia que se opõe à corrente de aparece a dor física "de um homem que se ferisse contra seus próprios
lirismo confessional de linha petrarqueana de tão forte presença na lite ossos". Em G a reação deixa o campo físico e é apontada na consciência
ratura brasileira. Tal lirismo provocaria o embotamento da fúria e ardor do homem:
da faca, tomando-se incapaz de despertar a inquietação no corpo de
quem quer que sejai E se é faca a metáfora
Prosseguindo neste veio de leitura, chegamos à recusa da lunaridade do que leva no músculo,
simbolista, próxima da sacralização da poesia com sua sugestão e facas dentro de um homem
indefinição: dão-lhe maior impulso.

Mas nunca seja ao ar O frio de uma faca


que pássaros habitem. mordendo o corpo humano,
Deve ser a um ar duro, de outro corpo ou punhal
sem sombra e sem vertigem. tal corpo vai armando.

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pois lhe mantendo vivas ou de mimese, como quer João Alexandre Barbosa, temos uma poética
todas as molas da alma de provocação inseparável de uma ética, uma vez que o leitor não foi
dá-lhes ímpeto de lâmina elidido, o que seria possível, caso o poeta elaborasse preocupado apenas
e cio de arma branca. com a linguagem ou apenas com a realidade e a linguagem. Ao trazer o
receptor para o primeiro plano, incluído na constração do poema, surge
O intelecto de um homem foi profundamente afetado pela/oca só da poesia; ora, a teoria que trata da relação entre os homens e os valores
lâmina, tomando-se tão alerta e ativo que aceita o simile com a memó que regem tal relação é a ética, não a poética.
ria ativa de alguém que conservou em sua palma, por treze anos, o "peso João Cabral estabelece o vínculo entre a ausência ávida da faca só
de uma mão, feminina, apertada", Estamos aqui perante "(...) a proprie lâmina e o corpo onde se aloja, para daí derivar a atitude do poeta, que
dade faca, da lucidez insaciável, que fere impiedosa a todo aquele que deverá extrair das palavras o efeito análogo de carência agressiva, pro
padece do gume de sua inquietação". (Nunes, 1974, p.l03.) Com efeito, vocando no leitor um estado de lucidez insaciável, na feliz expressão de
é possível identificar no trecho a propriedade faca, mas, deslocando os Benedito Nunes, muito distante do efeito encantatório da tradição
termos da análise de Benedito Nunes, é melhor manter a propriedade confessional. Não há identificação entre poeta e leitor, mas um antago
faca no âmbito em que a coloca o poeta, i.e., nos limites de uma carên nismo construtivo, digamos.
cia provocadora de inquietação, dado que a lucidez insaciável, recorde É um tema que será retomado com grande vigor em vários momen
mos o poema, é atributo do homem cujo corpo a faca fere. A ausência tos da obra de João Cabral, sendo notável a semelhança de abordagem
inquietadora, como sugere o fínal do poema, é dado anterior à consciên entre os versos de Uma faca só lâmina e os posteriores Catar feijão:
cia e ao estado de lucidez insaciável.
Na parte H a faca dá uma lição ao poeta, ensinando-lhe como obter Os homens que em geral
da linguagem, "um material doente", a melhor qualidade das facas: lidam nessa oficina
têm no almoxarifado
a agudeza feroz, só palavras extintas:
certa eletricidade,
umas que se asfixiam
mais a violência limpa por debaixo do pó
que elas têm, tão exatas, outras despercebidas
o gosto do deserto, em meio a grandes nós;
o estilo das facas.
palavras que perderam
Se, como nota Barbosa,"(...) entre a faca "só lâmina" e a lingua no uso todo o metal
e a areia que detém
gem do poeta o vínculo é estabelecido pela ausência, pela fortna "ausen a atenção que lê mal.
te", que a primeira imagem propicia." (Barbosa, 1975, p.l51.), reitera
mos que tal ausência é qualificada, portadora de violência limpa, agu
deza feroz, etc. Trata-se de uma ausência agressiva em que a figura do Certo não, quando ao catar palavras:
leitor é pressuposta, vítima que é da agressão. Mais do que uma poética, a pedra dá à frase seu grão mais vivo:
trata-se de uma ética do poeta, que através da linguagem da carência obstrui a leitura fluviante, flutuai,
busca um efeito preciso sobre o receptor. açula a atenção, isca-a com o risco.
No lugar de uma poética do rigor, como quer Haroldo de Campos,

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Em ambos os poemas, o antagonismo construtivo preside a refle momentos: o da atualização da coisa na lembrança e o da referência à pró
xão poética, com areia e pedra impedindo a leitura desatenta, não lúci pria coisa na tentativa de sua apreensão. Tentativa, pois a realidade prima é
da. Da propriedade faca podemos derivar a condição pedra, e agora fica de tal violência que impede a apreensão. Ora, aqui temos o momento em
mais claro por quê. Na obra de João Cabral a propriedade faca estabele que a violência e dinamismo da feca são identificados na própria realidade,
c e c o m a n t e c e d ê n c i a o s t e r m o s d o r e l a c i o n a m e n t o c o m o l e i t o r. A l é m embora se encontrem fora do alcance da linguagem. O real tem uma prima
da poética, a/occ só lâmina estabelece a ética de João Cabral. zia que a linguagem, na sua contínua autocrítica, reconhece:
Na parte /, temos a lâmina adversa, a ausência ávida, tomando
mais alerta aquele que a guarda, o que provoca o adensamento e nitidez Sendo, contudo, uma primazia que somente é dada na medida em que a
de "toda frouxa matéria". Enfim, o poeta detalha o referido em G, com linguagem que a comunica já passou pela crítica prévia de suas significa
lucidez insaciável descobrindo todo o dinamismo e concretude do real. ções, isto não significa uma dicotomia. A primazia é oferecida como fra
casso da imagem e não da linguagem que já construiu o espaço necessá
E tudo o que era vago, rio para que aquela fosse contestada desde o início de seu aparecimento.
toda frouxa matéria, (Barbosa, 1975, p.l55.)
para quem sofre a faca
ganha nervos, arestas. João Cabral, de fato, aprendeu em Uma faca... a linguagem da
ausência, construída a partir de um procedimento mimético, de busca
Em volta tudo ganha da representação da realidade. Barbosa não percebe, todavia, que tal
a vida mais intensa, ausência é qualificada, que é uma ausência agressiva, provocadora, e
com nitidez de agulha
dinâmica que remete à realidade prima e violenta. Cabral, diz Barbosa,
e presença de vespa.
evita uma representação que remeta direta e ingenuamente à realidade,
Em cada coisa o lado passando antes pela imitação da forma da realidade; o que nós
qlie corta se revela,
enfatizamos aqui é que tal imitação da forma parte de uma premissa
(...) sobre esta forma da realidade. Assim como a ausência é qualificada, a
forma da realidade também é, na sua violência e dinamismo.
Note-se que a propriedade da faca surge também no ambiente; a Barbosa tem toda razão ao afirmar que Uma faca... é o marco da
realidade também corta. Na notação correta de João Alexandre Barbosa: conquista da linguagem da poesia para João Cabral, sem mais os riscos da
tentação para o silêncio tão evidentes na poesia anterior. Novos motivos
Finalmente, acentuando aquele traço humano que já se viu básico desde podem agora ser explorados, tais como a celebração da mulher ou o exa
as primeiras estrofes do texto, a passagem das coisas ao homem que as me da paisagem dos cemitérios pernambucanos. Acrescentamos que mais
apreende é realizada em termos também de lucidez e atenção para com a do que uma linguagem de ausência, Cabral encontra uma linguagem da
! realidade (...). (Barbosa, 1975, p.l54.) ausência provocadora, contundente, capaz de estabelecer aquele antago
nismo construtivo que deixa alerta o leitor, num procedimento análogo ao
O epflogo de Uma faca só lâmina desvenda, de acordo com Nunes, a da faca só lâmina, a que desperta totalmente o corpo que a abriga.
raiz da inquietação por um movimento inverso ao dos súniles iniciais: "É Para além do distanciamento do leitor, o poeta elabora uma poéti
uma retrocessão de comparante a comparante, que vai do último - a ima ca e uma poesia que agridem o leitor, atitude cara à literatura do sécu-
gem da faca - ao primeiro - a imagem da bala". (Nunes, 1974, p.l03.) Evi lo20. De Joyce a Kafka, de Eliot a Saint John-Perse temos uma literatu
dencia-se ali a natureza simbólica de toda linguagem, que se expressa dois ra que é antes contra o leitor do que para ele.

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Não surpreende, portanto, que possamos aproximar o procedi lâmina foi abalado, em que a componente construtiva foi elidida. Veja-
mento de Cabral da poética identificada por Benjamin em Baudelaire, se o poema cujo sugestivo título é O artista inconfessável:
este marco da lírica moderna. Segundo Benjamin, Baudelaire tinha
em vista um público com grandes dificuldades para ler poesia lírica, Fazer o que seja é inútil.
dadas as modificações ocorridas na experiência com o advento do ca Não fazer nada é inútil.
Mas entre fazer e não fazer
pitalismo e das grandes concentrações de massas urbanas. Surge uma
m a i s v a l e o i n ú t i l d o f a z e r.
interrogação: de que modo a poesia lírica poderia estar fundamentada Mas não, fazer para esquecer
em uma experiência, para a qual o choque se tornou a norma? Uma
que é inútil; nunca o esquecer.
poesia assim permitiria supor um alto grau de conscientização; evoca Mas fazer o inútil sabendo
ria a idéia de um plano atuante em sua composição. Este é, sem dúvi
que ele é inútil, e bem sabendo
da, o caso da poesia de Baudelaire, vinculando-o, entre os seus prede- que é inútil e que seu sentido
cessores, a Poe e, entre os seus sucessores, novamente a Valéry. (...) não será sequer pressentido,
Em Situation de Baudelaire Valéry forneceu a clássica introdução a fazer: porque ele é mais difícil
As flores do mal, ao escrever: do que não fazer, e dificil
mente se poderá dizer
O problema deve ter-se apresentado a Baudelaire da seguinte forma - tor com mais desdém, ou então dizer
nar-se um grande poeta, sem se tomar um Lamartine, nem um Hugo, nem mais direto ao leitor Ninguém
um Musset. Não estou afirmando que este propósito fosse consciente em que o feito o foi para ninguém.
Baudelaire; mas deveria estar presente nele, necessariamente, ou melhor,
este propósito era, na verdade, o próprio Baudelaire. Era a sua razão de Nesse assombroso tour deforce publicado em Museu de tudo, li
Estado. Causa estranheza falar de razão de Estado, com relação a um poe vro de 1975, o poeta renega explicitamente aquela pretensão de desper
ta. Mas implica algo notável: a emancipação com respeito às vivências. A tar a lucidez alheia ao reconhecer a eventual (?) inutilidade e
produção poética de Baudelaire está associada a uma missão. Ele entreviu incomunicabilidade da arte. Ainda é possível ler aqui a poética da faca
espaços vazios nos quais inseriu sua poesia.(Benjamin, 1991, p.llO.) só lâmina, da provocação, mas a crença nos efeitos da faca sobre o cor
po, da poesia sobre o receptor, tal crença desaparece ao se admitir o
Plano atuante de composição, razão de Estado, missão, são termos caráter vazio da agressão contra o leitor Ninguém. Certamente é possí
que poderíamos ter utilizado na caracterização da poesia de João Cabral, vel encontrar no poema a intensificação da atitude provocativa: ironica
ele também empenhado em estratégias poéticas, uma vez que sua poéti mente, o poeta afirmar-se-ia inútil e incompreensível para provocar o
ca tem uma componente agressiva das mais evidentes, com o leitor so leitor. A paio seco, Cabral reassumiria a atitude:
frendo o assalto de uma poesia que passou pela escola da faca só lâmi
na. Também João Cabral sabe que seus leitores estão anestesiados pelos não o de aceitar o seco

choques contínuos da modernidade e só um plano atuante de composi por resignadamente


ção, com a contudência adequada, garantirá o estado de alerta necessá mas de empregar o seco
rio à leitura não "fluviante, flutuai". porque é mais contundente.
Nem só de agressão construtiva, contudo, é feita a poesia de Cabral.
Na sua produção mais recente, posterior a A educação pela pedra, é Contudo o solipcismo e o ceticismo ante o leitor não deixam de
possível rastrear um antagonismo em que o humanismo de Uma faca só questionar a contundência de um gesto que se abate sobre uma sombra,
sobre o leitor Ninguém. Perante o mundo cada vez mais indiferente à

78 79
poesia e anestesiado pelas palavras de ordem do consumo, o poeta man
tém-se inconfessável: não se permite a poesia confessional e confessa
sua hostilidade em relação ao leitor.
A origem como inferno
(a representação da guerra na poesia
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Ediouro, s.d.. JAIME GINZBURG
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O trabalho La vision americana de Ia conquista de Gordon
— Museu de tudo e depois: poesias completas II. Rio de Janeiro: Nova
Brotherston discute o problema da representação do processo coloniza
Fronteira, 1988.
NUNES, Benedito. João Cabral de Melo Neto. 2.ed. Petrópolis: Vozes, 1974. dor pela perspectiva dos nativos, e traz dados que permitem avaliar com
(Coleção Poetas modernos do Brasil) precisão como a violência dos europeus era elaborada pela consciência
indígena. Centrando seu interesse na América hispânica, Brotherston
levanta em sua pesquisa textos como os Anales de Tlatelolco que deta
lham melancolicamente a crueldade dos conquistadores, e as condições
desumanas que passaram a governar a vida dos nativos. Brotherston
registra em seu estudo que textos que traziam a representação da con
quista pela perspectiva indígena foram queimados em grande escala por
motivos de ordem política. A preservação, o conhecimento e a difusão
de obras que focalizem a conquista como violência estrutural imposta
pelo mundo europeu são objeto de resistência silenciadora.
A idéia de que a conquista foi ao mesmo tempo construção e des-
tmição não está ausente dos textos escritos pela perspectiva dos coloni-

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zadores. Porém, a diferença de olhar faz toda diferença. Para o olhar pontos de maior interesse na leitura do poema reside no fato de que ele
colonizador, os índios são observados como figuras de algum modo associa as condições políticas da colonização à problemática teológica
pertinentes à imaginação européia. Como explica Manuela Carneiro da da busca do cumprimento dos desígnios divinos. A imaginação de
Cunha, fez-se necessário achar espaço para os índios na cosmologia Anchieta constrói vínculos semânticos entre dois campos de ação, o
européia e na genealogia dos povos. Os índios são freqüentemente con político e o religioso. O poeta faz da luta entre portugueses e indígenas
siderados camitas, e a mitologia tupi do dilúvio é interpretada pelos uma luta entre Deus e o Diabo. Em seu quadro de oposições simbólicas,
europeus à luz da história de Noé. Mem de Sá será aproximado de Jesus e os indígenas comparados a cri
Com respeito a esse problema, no caso da colonização brasileira, aturas ferozes, aquém da civilização.
chama a atenção um trabalho de José de Anchieta. Trata-se de um poe Anchieta, ao desenvolver uma sobreposição de elementos políti
ma de andamento épico em homenagem a Mem de Sá, escrito em 1563. cos e religiosos, atribui um valor moral positivo à intervenção portugue
Esse texto, intitulado üe GestisMendi de Saa, apresenta a ação violenta sa na tribo indígena. De acordo com a perspectiva ditada no texto, o
dos colonizadores sobre os nativos em um enfoque de legitimidade ela massacre dós índios deveria ser interpretado como uma verdadeira mis
borado com referenciais religiosos. Nesse poema de Anchieta, os índi são sagrada. Trata-se de libertar as terras brasílicas de forças malignas;
os, incorporados ao imaginário religioso europeu, são representados como de acordo com o texto, em sua origem, antes da chegada redentora dos
seres demoníacos. O massacre exposto na primeira parte do poema, con portugueses, essas terras seriam um inferno governado pelo demônio.
frontado com o teor dos Anales de Tlatelolco, leva a pensar, como pro Cabe examinar a parte inicial do trabalho de Anchieta. O texto
blema literário e histórico, as especificidades dos diferentes modos de abre com a declaração de que a estória a ser apresentada consiste em
representação do processo de conquista. uma façanha do "onipotente Deus" (versos 1 e 2). Para a perspectiva
De Gestis foi escrito em língua latina, com construção métrica ditada pelo poema, o agente principal dos acontecimentos seria o pró
rigorosa, ein versos hexâmetros. O fato de os conflitos armados entre os prio Deus. Trata-se de uma legitimação do massacre, em nome do Cri
colonizadores e os nativos serem expostos em latim remete a dois as ador, precisamente como nas cruzadas medievais e nas guerras santas,
pectos convergentes: uma tentativa de compor à maneira de Virgílio, em que a ação da igreja perde em humanização(Bosi, 1992, p.93). Esta
autor valorizado na Idade Média (Azevedo Filho,1966, p.147-149); e belece-se claramente uma contradição entre a orientação pacifista espe
uma retomada da língua na qual se desenvolve a educação no cristianis- rada em razão do teor da doutrina e a ação violenta, realizada em nome
X mo medieval. da mesma doutrina.
\ Os principais comentadores da obra de José de Anchieta estão de Logo em seguida, aparece a imagem de instauração de uma or
^ acordo quanto ao fato de que sua produção poética está marcada por dem, que substitui a antiga desordem. "O que dantes, furioso, semeava
^ características da poesia medieval. Isso é afirmado por autores como ruínas e guerras, / aprecia os favores de redentora paz." (versos 5-6).
Alfredo Bosi(1987, p.23), José Guilherme Merquior (1979, p.9), Segis- O texto defende abertamente a disposição para o ato guerreiro e a
mundo Spina (1987, p.43) e Leodegário Azevedo Filho (1966, p.27). destruição. O ponto de vista elabora uma escala de valores que privile
Este último faz em seu Mvxo Anchieta, a idade média e o barroco a gia virtudes épicas necessárias para a competência em guerra. Na tradi
análise formal minuciosa de diversos poemas, demonstrando que seu ção da epopéia clássica, os heróis são caracterizados por uma disposição
modo de constmção está de acordo com procedimentos comuns na pro à crueldade (Hegel, p.l60). A vacilação e a covardia que surgem em
dução poética européia da Idade Média. alguns portugueses em certo ponto do combate são consideradas falhas,
Escrito em um período em que na Europa a estética renascentista vinculadas à inconstância, à capacidade de mudar de atitude. A voz que
já se havia firmado, o texto adota uma perspectiva ancorada no imagi fala lamenta, no verso 559, a "humana inconstância". Essa crítica ganha
nário medieval para representar episódios da história colonial. Um dos radicalidade no verso 576, em que se enuncia a frase "Para que tanto

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amor pela vida?". O sacrifício, em nome de uma causa considerada vin lada a um Todo maior, que lhe determina o sentido.
culada aos desígnios divinos, é moralmente superior ao apego à vida. A A representação do sentido religioso da morte foi feita em outro
convicção guerreira do líder Femão de Sá corresponde em certo nível, poema lírico, intitulado Como vem guerreira!, do qual cabe transcrever
por representar firmeza, e pela sua fidelidade à orientação divina, à es um trecho:
tabilidade de Deus, ao passo que a vacilação e a covardia, como regis
tros de "humana inconstância", são desvalorizadas. Por muito poder que tenha,
No poema de AnchietajFrnDews, meu criador, o desejo de superar ninguém pode resistir.
a transitoriedade da matéria e conseguir estabilidade conduz a uma re Dá mil voltas, sem sentir,
núncia consciente à vida terrena, assim formulada: mais ligeira que uma azenha.
Quando manda Deus que venha
Contente assim, minha alma, a morte espantosa,
do doce amor de Deus como vem guerreira
toda ferida, e temerosa!

o mundo deixa em calma, (Anchieta, 1989, p.402).


buscando a outra vida,
na qual deseja ser Caracterizada como onipotente ("ninguém pode resistir"), a morte
toda absorvida.
aparece quando Deus dá uma ordem ("Quando manda Deus que ve
(1989, p.402, grifos meus) nha"). Ela se define como algo proposto pelos desígnios divinos. As
sim, nessa perspectiva, pode-se dizer que há um sentido sagrado pro
fundo para a morte.
Esse trecho envolve dois pontos importantes: a calma com que se Em De Gestis, Femão diz: "Paira sobre nós a morte? - que pairei
deixa o mundo, isto é, a tranqüilidade com que se aceita a morte, e a Oh! que belo deixar por Deus as vidas caras na arena sangrenta e com
idéia de uma outra vida, isto é, de uma vida para a alma, junto a Deus, prar com esse sangue a vida de muitos!" (versos 625-627). A sujeição à
longe da condição terrena. morte é aceita, como algo belo, em razão dos desígnios divinos e do
Esta serenidade em relação à morte tem como base uma segurança componente de solidariedade (outras vidas poderão ser poupadas). Nos
que se ancora no pensamento cristão medieval, para o qual versos 672 a 674, lê-se: "os séculos todos / saberão que preferiste morte
cmel à desonra / de Deus, da pátria e do pai (...)". A sujeição à morte é
(...) Todos os processos temporais correspondem ao plano prefigurado condição para não desonrar Deus; sendo assim, o sacrifício reveste de
de Deus e são, portanto, imbuídos de sentido, embora de um sentido por teor sagrado a morte, conferindo a ela sentido.
vezes inacessível à mente humana. Em última análise, tudo faz parte da
História Sagrada que se estende desde Adão até o Juízo Final. Neste pla As ações guerreiras relatadas dentro do De Gestis são atribuídas à
no, mesmo o Mal tem seu lugar providencial, visto contribuir para a har força de Deus, que substitui a desordem pela ordem. Esse esforço de
monia do Todo. Mercê da graça e justiça divinas, os males e injustiças estabelecimento de ordem se dá à custa de uma série de mortes, ao lon
terrenas encontram sua retribuição e retificação justas no mundo celeste. go do andamento da guerra. As mortes, nessa perspectiva, não seriam
(Rosenfeld, 1969, p.l25). alheias ao interesse de Deus, mas teriam seu sentido determinado pela
orientação dos desígnios divinos.
O caráter de Necessidade que sustenta o andamento das coisas, e Essa forma de representar a vontade divina, estranha à orientação
que corresponde aos desígnios divinos, faz com que a morte seja vincu pacífica da doutrina cristã, está figurada na imagem do braço: a força
sagrada é encarada como força propriamente militar, como o vigor mus-
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cular de um soldado. Lê-se no trecho entre os versos 127 e 130: "Assim no Brasil antes da chegada dos portugueses é marcada pela negatividade.
cantarei os prodígios que teu braço potente / há pouco operou em favor Leia-se a passagem seguinte, contendo os versos 131 a 139:
da gente brasílica, / quando fez raiar, rasgando as trevas do inferno, / na
arcada celeste, esplendoroso arrebol". E nos versos 216 a 220: Envolta, há séculos, no horror da escuridão idolátrica,
houve nas terras do Sul uma nação, que dobrara a cabeça
Se o braço de Deus não impede esses aprestos ferozes ao jugo do tirano infernal, e levava uma vida
vazia de luz divina. Imersa na mais triste miséria,
com o socorro celeste, senão dispersa essas tribus altivas
que vibram ao incêndio da guerra e ao faro do sangue, soberba, desenfreada, cruel, atroz, sanguinária,
em breve a ímpia guerra tudo terá conspurcado mestra em trespassar a vítima com a seta ligeira,
mais feroz que o tigre, mais voraz do que o lobo,
e encharcada se verá a terra no sangue dos justos.
mais assanhada que o lebréu, mais audaz que o leão,
saciava o ávido ventre com carnes humanas.
A figura do braço serve para estabelecer um vínculo semântico
entre as ações práticas da guerra e a força sagrada, que é encarada como
Este trecho coloca os parâmetros fundamentais de compreensão
fundamento da capacidade militar dos portugueses. "Eis a hora dos va da realidade indígena que dominarão o poema. O primeiro aspecto a
lentes e bravos! / Alento e energia nos dará o Deus poderoso / que domi
ressaltar é o componente demoníaco: os índios são submetidos "ao jugo
na as alturas. Sua mão vingadora / sobre o inimigo desumano descerá do tirano infernal". Aqui, como em outros pontos, o poema utiliza o
justiceira." (versos 355-358). contraste simbólico luz/trevas, moralmente carregado, que discerne
O texto aproxima os principais personagens portugueses e Jesus
Cristo. De acordo com o texto, Mem de Sá foi enviado ao Brasil pelo metaforicamente positividade e negatividade, bem e mal: a nação este
ve sob "escuridão idolátrica", e sem "luz divina". Nos versos 146 e 147,
próprio Pai onipotente (cf.p.93, verso 146 e seguintes). A referência de
tempo para o momento em que isso ocorre é dada pela História Sagrada: aparece o seguinte: "Mas um dia o Pai onipotente volveu os olhares dos
entre os versos 155 e 159, depois de anunciar a vinda de um herói, o reinos da luz à noite das regiões brasileiras". Em trecho citado anterior
poema fala diretamente de Jesus Cristo, estabelecendo a distância tempo mente, Deus traz o arrebol, e rasga "as trevas do inferno". Os casos de
ral entre Cristo e Mem de Sá. Considerando a elaboração do trecho entre utilização desse campo metafórico ao longo do texto são numerosos.
os versos 149 e 177, é possível afirmar que a estrutura proposta - fala-se A escuridão infernal em que viveriam os índios consiste em uma
de um herói, fala-se a respeito de Cristo, e então nomeia-se o herói Mem situação sócio-cultural alheia às regras ditadas pelo cristianismo. O ca
de Sa - eleva simbolicamente Mem de Sá a uma comparação com o pró ráter demoníaco está associado ao fato de que, do ponto de vista do
prio Cristo, uma vez que ambos, vinculados pela referência temporal, são jesuíta, as práticas indígenas representam um desvio em relação ao que
encarados como enviados por Deus que permitem a substituição da escu é esperado pelas diretrizes cristós. Como se sabe, na Idade Média, a
ridão pela luz. O vínculo entre o líder português e as forças divinas retoma identificação da presença do demoníaco era feita com base no levanta
de diversas maneiras. Entre os atributos de Mem de Sá, está no verso 175 mento de componentes de desvio psicológico, físico ou sócio-cultural
a fé de Cristo jamais desmentida". E no verso 176 diz-se que seu peito (Nogueira, 1986).
está "incendiado pelo sopro divino". Do filho morto de Mem de Sá, se diz Longe de ser um caso isolado, a representação dos índios em ter
nos versos 680 e 681: "Venturoso jovem, entre os felizes, nas alturas ce mos demoníacos era comum entre os jesuítas. O diabo é considerado
lestes brilha a tua glória irmanada à glória divina". 'senhor das terras coloniais'. Os temores dos índios são explicados "pela
A justificação da demanda de uma intervenção de Deus no Brasil incansável perseguição que move o Maligno contra aqueles que não
está ligada ao modo de apresentar os indígenas. A descrição feita da vida conhecem Deus" (Mello e Souza, 1986, p.68-70).
Anchieta redigiu uma espécie de levantamento das forças demoní-

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acas que atormentavam os indígenas, incluindo aí o curupira, a ihpupiara, deiramente humana que envolva o comportamento antropofágico, e não
o bateatá. Ao concluí-lo, observou: "quer o demônio tomar-se formidá considera a função ritual desse comportamento para os indígenas.
vel a estes Brasis, que não conhecem a Deus, e exercer contra eles tão O fato de os indígenas não prestarem "culto organizado a deuses e
cruel tirania." (s.d., p.22). heróis" fez com que os jesuítas entendessem que eles não tinham qual
A atuação de Deus na guerra está associada imageticamente ao quer forma de vida religiosa (Bosi, p.68). A destruição dos indígenas
componente demoníaco dos índios. A luta entre portugueses e indíge está em sintonia, por isso, com a caça de bruxas e feiticeiros feita na
nas é interpretada como combate entre Deus e o Diabo. A ação política península ibérica no período (Bosi, p.69). Para o cristianismo, o ser hu
enreda-se com uma trama de cunho religioso. O antagonismo entre Deus mano é uno, consciente, autocentrado; nos ritos indígenas, o sujeito en
e o Diabo é poeticamente dramatizado nas terras brasileiras. Essa cons- tra em transe, se torna ébrio, descentrado. No cristianismo, não se aceita
tmção literária legitimaria moralmente o massacre dos índios pelos por a poligamia, se defende a monogamia, e se rejeita fortemente a antropo
tugueses. fagia (Bosi, p.83). Pesa no processo de colonização a problemática das
Além do componente demoníaco, há outro ponto a destacar: a enu diferenças culturais radicais entre colonizadores e indígenas, não acei
meração de ammais. O poema de Anchieta propõe uma descrição do tas pelos primeiros. Do seu ponto de vista, "a vida do selvagem estava
modo de vida indígena tendo como termos de comparação uma série de imersa na barbárie e as suas práticas se inspiravam diretamente nos de
ammais, destacando características que têm como ponto comum de re mônios" (Bosi, p.92).
ferência metafórica a capacidade de combate guerreiro. Na perspectiva da historiografia contemporânea, a forma de os ín
Em outros pontos, como nos versos 141 e 476, os índios serão dios viverem na colônia merece outro tratamento. Para o olhar atual,
tratados simplesmente como feras. No verso 207, se falará da "fera tribu". não vigoram mais os parâmetros de compreensão que encaravam como
Laura de Mello e Souza levanta, em uma série de textos do século desvios as práticas indígenas. A antropologia problematizou o
16, indicações da representação dos índios como animais. Isso pode ser etnocentrismo, sustentando, com base na noção de relatividade cultural,
encontrado na carta de Pero Vaz de Caminha,' em Nóbrega e numa o reconhecimento e a aceitação das diferenças.
carta de Anchieta, em que ele diz, a respeito de suas atividades medici Um trabalho de Florestan Fernandes dá indicações sociológicas
nais: deitar imprastos, alevantar espinhelas, e outros ofícios de albeitar, relevantes para a reflexão sobre a realidade indígena colonial (Fernandes,
que eram necessários para aqueles cavalos, isto é, aos índios." Nóbrega 1972). Em sua exposição centrada na tribo tupi, o autor afirma que,
chega a denominar os índios precisamente como "feras bravas", tal qual como grupo, os índios conviviam ordenadamente, seguindo um princí
aparece no poema de Anchieta (Mello e Souza, 1986, p.63-64). pio estável de solidariedade, e adotando regras de educação que defen
Um dos elementos que se associa tematicamente à condição ani- dem o respeito. Viviam com um padrão rígido de equilíbrio interno.
inal é a antropofagia, que aparece por exemplo em trecho anteriormente Nesse ponto se encontra uma raiz dos problemas da colonização: os
citado, no verso 139. A referência à antropofagia reaparece ainda nos invasores brancos tiveram efeitos desintegradores, que atingiram o ceme
versos 210 e 768.0 tema é carregado de tratamento negativo, e os índi desse equilíbrio.
os são descritos como portadores de ventres ávidos de sangue, como se Fernandes explica que, inicialmente, quando os brancos eram em
fossem feras descontroladas, ansiosas pela devoração canibal. Trata-se pequeno número e se adequavam às condições da vida tribal, o sistema
de uma abordagem que afasta a possibilidade de uma condição verda- social não era afetado. A situação mudou a partir de 1533, quando os
portugueses quiseram subordinar os indígenas a seus interesses
'Ao comentar o comportamento dos indígenas, Caminha os compara a "aves e animais exploratórios.
montesinhos" e os considera «gente bestial". Conforme CASTRO, Silvio, org. A carta Como descreve o historiador, "O anseio de 'submeter' o indígena
de Pero Vaz de Caminha. 2.ed. Porto Alegre: L & PM, 1987. p.88. passou a ser o elemento central da ideologia dominante no mundo colo-

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nial lusitano (...) Tomar-lhes as terras, fossem 'aliados' ou 'inimigos'; conhecido, mas, ao contrário, redescobrir a homogeneidade primordial
convertê-los à escravidão, para dispor ad libitum de suas pessoas, de da Criação (...) o desígnio perseguido obstinadamente (...) é de 'unificar
suas coisas e de suas mulheres; tratá-los literalmente como seres sub- o mundo e dar a esses países estranhos a forma do nosso"' (p.412). No
humanos e negociá-los" (Fernandes, p.83). horizonte de Anchieta, não está colocada a necessidade de reconhecer e
Quando os índios lutam, trata-se de defender suas terras, sua seguran aceitar o outro como outro, mas a imposição de tomar o outro o mesmo.
ça e sua liberdade. Isto é, a violência indígena está associada à preservação Toda a violência do processo de colonização passa a ser interpre
do espaço de sobrevivência e a resistência à escravidão. Trata-se, portanto, tada então como um componente do caminho para o apocalipse. Os hor
de uma violência que, no contexto, justifica-se por razões políticas compre rores vividos na vinda dos descobridores são compreendidos como eta
ensíveis. Ela está longe de ser apenas um impulso animal e descontrolado. pas cabíveis desse caminho.^
De acordo com as informações de Fernandes, não é procedente De acordo com Lestringant, o processo da colonização é caracteri
pensar - como sugerem as figuras criadas por Anchieta no De Gestis - zado por uma ambivalência: a descoberta do novo é, paradoxalmente,
que os índios sejam seres descontrolados, "vidas sem rumo" (v.501), busca do fim. Dentro do imaginário cristão, os esforços de colonização
"gente odienta" (v.430), permanentemente agressivos, "que distilam dos eram compreendidos como uma etapa necessária para atingir o juízo
peitos malvados / o veneno mortal do furor e do ódio implacável / e nos final. O plano dos desígnios divinos, apresentado na Bíblia, projetado
ameaçam com a guerra o completo extermínio" (v.345-347). Nada faz para o apocalipse, supõe a uniformização religiosa universal. A
supor que a atitude violenta dos índios nasça de maneira espontânea e catequização dos estranhos de outros continentes é uma espécie de re
sem uma causa ligada a uma ação inicial dos próprios portugueses. Os quisito para a possibilidade de viabilizar o fim dos tempos e a redenção.
índios só se mostrariam agressivos em caso de ter de defender suas ter A ação dos colonizadores sobre os índios, buscando transformá-
ras ou sua liberdade, diante de pessoas incapazes de propor aliança. Tra los ou destmí-los, justifica-se nesse sentido. "Os 'povos sem escrita' (...)
ta-se, em suma, de uma distorção histórica fazer supor que os índios estão, em conseqüência, não apenas privados de história, mas de salva
seriam agentes de desordem: foram enfim os colonizadores os efetivos ção. (...) o índio, decididamente, representa a parte sacrificada para a
propulsores do conflito cultural. salvação do resto" (Lestringant, p.419).
O texto poético leva a crer, em certas passagens, que os índios Sendo assim, não é incoerente com seu tempo a atitude de Anchieta,
sejam as forças de iniciativa agressiva nessa guerra, como se os portu que vê na destruição em massa uma espécie de tarefa sagrada. O lado
gueses estivessem desde sempre passivos e pacíficos, na terra brasilei terrivelmente assustador da destruição caberia plausivelmente no ima
ra, e que os índios se organizaram militarmente para destruí-los (ver, ginário apocalíptico da época.
por exemplo, versos 205-206,765-768). Distorce, portanto, o verdadei Em seu livro sobre José de Anchieta, Leodegário Azevedo Filho
ro vetor da ação política em andamento. dedica algumas páginas a De Gestis, e logo no início de seus comentári
A complexidade da atitude de Anchieta só é compreensível tendo os, faz uma retrospectiva de uma polêmica entre estudiosos envolvendo
em vista a imaginação literária do período, que elabora representações a autoria desse poema. Azevedo Filho expõe que o Padre Serafim Leite,
do destino dos homens que tomam compreensível e aceitável o modo autor da História da Companhia de Jesus no Brasil, teria contestado a
de ser do processo colonizador. O ensaio de Frank Lestringant sobre o idéia de que Anchieta seria o autor do texto, em razão do "realismo que
imaginário apocalíptico presente na colonização, fundamentado em uma
série de textos produzidos nesse período, permite compreender a sus ^"A odisséia colombiana tem doravante por teatro um mundo revirado, sobre fundo de
tentação de um olhar como o apresentado por Anchieta. trevas e de raios. Nesse último e doloroso périplo, o mar vermelho-sangue dos trópicos
Diz Lestringant que, na colonização, "o objetivo não é, portanto, inflamados, a caldeira fervente em que se afundam os navios, a fúria do tufêo sobre as
ondas encapeladas e finalmente o naufrágio assinalam a iminência do Juízo Final"
de apreender uma diferença, nem de aumentar a variedade do mundo
(Lestringant, p.413).

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REFERENCIAS BIBLIOGRÁFICAS
transparece na narração de episódios cruéis" (p.l43). A canonização do
poeta poderia ser comprometida precisamente por esse aspecto.
Embora a polêmica sobre a autoria, como comenta Azevedo Filho, ANCHIETA, José de. De Gestis Mendí de Saa Poema Epicum. São Paulo:
tenha-se encaminhado para a resolução, cabe resgatar daí um elemento MEC, 1970. (Obras completas, v.l) (Edição bilíngüe)
de interesse para a interpretação do texto, precisamente o que provocou ANCHIETA, José de. Espetros noturnos e demônios selvagens. In: CASCUDO,
Luís da Câmara. Antologia do folclore brasileiro. São Paulo: Martins, s.d.
a desconfiança do Padre Serafim Leite. O poema Z)e Gestis é caracteri
ANCHIETA, José de. Poesias. Belo Horizonte: Itatiaia; São Paulo: EDUSP, I
zado por uma dedicação ao relato minucioso de cenas de violência. A 1989.
posição de Leite está relacionada à aparente impossibilidade de concili AZEVEDO FILHO, Leodegário. Anchieta, a idade média e o barroco. Rio de
ar o modo de pensar do Padre José de Anchieta e o valor que o poema Janeiro: Gernasa, 1966. p.147-9.
atribui à guerra sangrenta. BOSI, Alfredo. Dialética da colonização. São Paulo: Companhia das Letras,
Essa posição tem como base a idéia, inteiramente plausível, de 1992.

que José de Anchieta seja antes de tudo um veiculador fiel da doutrina BOSI, Alfredo. História concisa da literatura brasileira. São Paulo: Cultrix,
cristo; se esta tem como orientação o pacifismo e rejeita a violência, não 1987.
se poderia esperar de um de seus representantes e divulgadores um modo BROTHERSTON, Gordon. La vision americana de Ia conquista. In: PIZARRO,
de pensar que entrasse em contradição com a própria doutrina. Ana (org.). América Latina: palavra, literatura e cultura. São Paulo:
Apesar de plausível, a suposição de Leite desconsidera um dado Memorial; Campinas: Unicamp, 1993.
fundamental, com forte peso na produção de Anchieta - a sua historici- CUNHA, Manuela Carneiro da. Imagens de índios do Brasil: o século XVI. In:
dade, seu vínculo com o processo de colonização no Brasil, dentro do PIZARRO, Ana {org.). América Latina: palavra, literatura e cultura, op.cit.
p.l65. Conforme também o estudo sobre Guamán Poma feito por George
qual estão determinadas condições específicas de realização das mis Coulthard em A pluralidade cultural, publicado em MORENO, Cesar F
sões jesuíticas. Leite não leva em adequada consideração os problemas
(org.) América Latina em sua literatura. São Paulo: Perspectiva/Unesco,
sociais e políticos que marcaram a colônia, e por isso não avalia a posi 1979.
ção de Anchieta em relação a esses problemas. FERNANDES, Florestan. Antecedentes indígenas: organização social das tri
Longe de ser pacífico, o processo de colonização brasileiro foi bos tupis. In: HOLANDA, Sérgio Buarque de (org.). História geral da civi
marcado por extrema violência. Pela hipótese de Leite, Anchieta seria lização brasileira. São Paulo: DIFEL, 1972. v.l. t.l. (A época colonial) X
inteiramente estranho a essa violência, condenando-a e afastando-se HEGEL. Estética - poesia. Lisboa: Guimaróes, 1980. ^ (
dela. Isso, porém, não é verdade. Azevedo Filho cita em seu livro um LESTRINGANT, Frank. O conquistador e o fim dos tempos. In: VÁRIOS. \
trecho de uma carta de Anchieta, datada de 1563, em que este se refere Tempo e história. São Paulo: Companhia das Letras/Secretaria Municipal de
aos índios do seguinte modo: "para este gênero de gente, não há me Cultura, 1992. j
lhor pregação do que espada e vara de ferro...". Comenta em seguida MELLO E SOUZA, Laura. O diabo e a Terra de Santa Cruz: feitiçaria e reli
Azevedo Filho: "Frase chocante na pena do piedoso jesuíta (...)" (p.150). giosidade popular no Brasil colonial São Paulo: Companhia das Letras,
O choque vivido pelo crítico pode ser encarado como um índice de um 1986.

MERQUIOR, José Guilherme. De Anchieta a Euclides: breve história da lite


problema extremamente delicado: a incongruência entre as expectati ratura brasileira. Rio de Janeiro: José Olympio, 1979.
vas em relação ao pensamento de um homem fortemente vinculado à
doutrina cristã e a manifestação nada pacifista de Anchieta, compre NOGUEIRA, Carlos R. O diabo no imaginário cristão. São Paulo: Âtica, 1986.
ROSENFELD, Anatol. Texto!contexto. São Paulo: Perspectiva, 1969.
ensível apenas tendo como referência as tensões históricas do período SPINA, Segismundo. José de Anchieta. In: MOISÉS, Massaud & PAES, José
colonial. Paulo (orgs.). Pequeno dicionário de literatura brasileira. São Paulo: Cultrix,
1987.

92 93
demonstra o desmoronamento da idealidade ilusionista de uma natureza
harmônica, cuja linguagem universal seria a matemática. Esta crença so
fre um forte abalo considerando que não existiria mais uma regra univer
A dupla centralidade na poesia sal do movimento da natureza a espera de ser descoberta pelo homem.
de Gregório de Matos
S.Fortuna crítica
Parece-me que a leitura da obra de Gregório de Matos* teve até
ANTÔNIO MARCOS SANSEVERINO
agora um caráter sistêmico, em que se procurava apresentar um centro
único para a sua obra, uma espécie de identidade que poderia ser perce
bida como a verdadeira face do poeta. Para isto, pode ser feita a eleição
1. Em virtude do caráter breve deste texto, talvez o desenvolvi da vertente que mais aprouver ao crítico, negando a validade das outras.
mento pareça por demais esquemático. No início, por exemplo, pulo de James Amado cria a figura de um Gregório de Matos heróico. Ele
uma figuração astronômica de epistème para a fortuna crítica. Acredito seria um homem que com a sua poesia, teria defendido os interesses
nativistas. "Finalmente Gregório de Matos resolve-se pelo total desli
que, ao final, no entanto, seja possível perceber a costura entre as partes.
Deste modo, os pulos são saltos de um lugar a outro, marcando os pon gamento: deixa mulher e filho (o antagonismo já se havia declarado,
tos que servirão para desenhar a idéia deste artigo. como refere a anedota do licenciado), fecha o escritório e é totalmente
absorvido pelo mundo baiano, livre de peias e preconceitos".
2. Duplo centro Já Augusto de Campos propõe o resgate do valor da obra de
No seu livro sobre o barroco. Severo Sarduy propõe que a visão Gregório de Matos segundo outro critério de valor. Ele quer libertar a
cosmológica pode figurar a epistème de uma determinada época. A fi obra satírica e crítica que estava acorrentada pelos sonetos religiosos.
guração do Renascimento seria dada pelo modelo desenvolvido por De certo modo, há uma proposição de revelar a verdadeira origem da
Copérnico, e defendido por Galileu. O sistema solar seria um círculo, Literatura Brasileira que estaria por detrás da aparência séria. Assim,
que teria como centro o Sol. Os planetas girariam em tomo do Sol em eliminado o supérfluo, apareceria o centro de interesse, o poético. Den
circunferências perfeitas, num movimento regular. Como pode-se per tro disto, Gregório de Matos, teria sido o primeiro a deglutir
ceber, a natureza é concebida de modo harmônico, permitindo ao ho recursivamente na linha de Oswald de Andrade - e vomitar o barroco
mem, inclusive, descobrir as regras que regem o seu funcionamento. europeu, criando novas formas poéticas.
Contraposto a este modelo, existe o kepleriano. Kepler teria pro João Adolfo Hansen põe a espantosa modernidade de Gregório de
curado descobrir a equação matemática que expressasse o movimento Matos dentro de uma circunscrição histórica bem delinutada. Ele procura
o caminho contrário ao de Augusto de Campos, procura colocar a poesia
perfeito dos planetas. Sua pesquisa fez com que encontrasse outro mo
delo que não permitia tal equação, porque, na verdade, o percurso dos de Gregório no limites da espectativa de sua época, dentro dos horizontes
planetas nas órbitas em tomo do Sol era elíptico. Com isto, o movimen que ele poderia vislumbrar. Nesta ótica, a retórica barroca previa trabalho
to e a velocidade eram irregulares, havendo uma variação da velocidade poético como a alegoria, por exemplo, em que seria considerado um gran-
no trecho da órbita em que o planeta estivesse mais próximo do Sol.
* Levo em consideração as obras que tive acesso, por isso cabe considerar esta análise
Perdeu-se também a centralidade, porque na elipse passam a ter dois sem a pretensão de generalização, nem de definitiva. Cabe aqui considerar uma outra
centros, o Sol e outro, obscuro, simples projeção. tendência de leitura que eu não levei em consideração. É aquela que simplesmente apre
Podemos antever aqui uma concepção de natureza irregular e que senta os vários tipos da poesia de Gregório, sem procurar interpretar ou compreender as
relações entre, por exemplo, poesia lírica e poesia religiosa.

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de achado juntar dois extremos incongruentes entre si. Também era da Em James Amado, a poesia é expressão direta do autor, neste caso
época, a sátira; uma convenção bem regrada que servia para afirmar um um herói popular, que ajudou a construir um sentimento de brasilidade.
padrão moral pela negação do outro, através do exagero caricatural. Neste Não existe mediação entre a estrutura interna da obra de Gregório e uma
prisma, a excepcionalidade de Gregório fíca anulada. inserção na sociedade, sendo a própria obra sinôitímo de engajamento.
Antonio Cândido seria o grande ausente desta fortuna crítica, mas É impressionante observar que é exatamente o oposto do que vê em
parece-me obrigatório incluí-lo pela negação peremptória de qualquer Gregório, João A. Hansen. Teríamos na obra de Gregório o avesso do
espaço para Gregório de Matos no seu sistema literário. Este, assim nativismo, porque seria usado a convenção barroca da sátira para negar
como Antônio Vieira, estão postos de fora da formação da Literatura o modo de vida da colônia a partir de um padrão de referência europeu.
Brasileira, porque seria apenas uma manifestação literária, num ambi Ele mostra como a cidade da Bahia funciona normalmente naquele tem
ente sem público organizado, nem teria influenciado às gerações poste po, e que a imagem criada por Gregório não passa de uma caricatura
riores. Se levarmos em conta este critério linear, evolutivo, ele teria convencional, não podendo ser lida ao pé da letra. Poderia dizer que a
razão, mas será realmente necessário ter esta continuidade para fazer obra de Gregório está tão presa ao seu contexto histórico, aquela dife
parte da literatura brasileira? Além disto, o seu potencial de influência rença de passado que não pode ser lida fora de seu contexto.
ainda é vivo, enquanto for retomado pelo presente. Mais reveladora de seu caráter arbitrário, é a visão de Antonio
Cândido. Em defesa de um esquema intelectual do que seria o sistema da
4.Comentários Literatura Brasileira, ele não incorpora nada que fuja ao paradigma. Com
Nos quatro casos, a origem do sistema literário brasileiro é foqada isto é negada a influência que poderia Gregório exercer sobre a literatura
por uma concepção posterior, do presente do crítico, de história que vê que lhe seguiu, seu isolamento condenou-o ao ostracismo. É um esquema
e espelha em Gregório de Matos a projeção de sua própria imagem. Nos seqüencial que não leva em consideração a possibilidade de Gregório de
quatro casos, temos a procura de uma congruência, uma coerência, que Matos ser incorporado à tradição da Literatura Brasileira (alterando-a),
o objeto Gregório de Matos não comporta. em um período posterior não imediatamente contemporâneo.
"Não é o passado que nos governa, a não ser, possivelmente, em
um sentido biológico. São as imagens do passado. Estas são, com fre 5. Volta ao duplo centro
qüência, tão seletivas quanto os mitos. As imagens e sínteses mentais O interesse que tenho em reler Gregório de Matos é unir as duas
do passado são impressas, quase à maneira da informação genética, em perspectivas que me parecem mais ricas: a de Hansen e de Augusto de
nossa sensibilidade. Cada nova era histórica se espelha na imagem e na Campos. Existe ao mesmo tempo uma diferença radical, que somente é
mitologia ativa de seu passado ou de um passado emprestado de outras desvelada pela inserção de Gregório de Matos dentro de seu contexto
culturas" (Steiner, 1991). histórico, assim como fez Hansen, mas não me parece que haja uma
De acordo com esta citação de Steiner, a luta a respeito da imagem de identidade possível a ponto de reduzir a obra de Gregório a uma pura
Gregório de Matos, ou de sua negação, é uma luta para forjar um passado, repetição das convenções barrocas. Ao mesmo tempo parece impossí
uma concepção de história na qual o presente procura justificação. Por exem vel deixar de lado toda a riqueza e sutileza da análise da linha de Augusto
plo, o que Augusto de Campos procura em Gregório de Matos senão os de Campos, que é o melhor desvelador da forma da poesia de Gregório,
mesmos jogos formais que propõe à modernidade da poesia concreta. A mas também me parece ser um exagero deixar de lado toda uma parte
valoração de Gregório está diretamente proporcional à concepção de histó da obra de lado, negando, por exemplo, a poesia sacra.
ria da literatura que ó crítico possui. No caso de Augusto é criada uma Esta união parece-me interessante para conseguir aquilo que pro
história marginal em relação à Üstória oficial, que começaria em Gregório, põe Walter Benjamin em relação à narração da história, nas suas teses
passaria por Sousândrade e Oswald e culminaria na Poesia Concreta. sobre a história, quando propõe que a tarefa do historiador é iluminar o

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passado, como um raio, para descobri-lo em toda sua vastidão, porque entrada e, ao mesmo tempo, de reencontro com a cidade parece abalar,
nele estão uma série de fiituros potenciais que ainda não se realizaram, quase aniquilar, todo um modo de compreender o mundo pelo poeta.
mas que podem ser redescobertos e servirem de porta para o sentido do Neste grapo de poemas, assim como nos outros, aparentemente se
presente. poderia dizer que existe um padrão de texto que seria a sátira, mas isto é
Na junção dos dois autores, já ficou exposta a forma de leitura que aparência, porque este padrão não existe, assim como não há um uso
proponho, que não tem um único centro. Não proponho que vejamos os homogêneo da linguagem, como se Gregório estivesse na procura de
poemas de Gregório de Matos como uma estrutura homogênea, totalitá seu próprio registro. O tom satírico faz com que não só o tema, a refe
ria, mas que leiamos as suas partes como autônomas. Elas desenhariam rência seja rebaixada, mas também a própria forma é a paródia, a inver
são estilística de formas consagradas, como é o caso do soneto.
pontos extremos em poderíamos, perceber uma figura de Gregório de
Matos sem coerência, sem uma dominante, revelando a existência Esta negatividade em relação à cidade faz com que Gregório con
conflitiva de dois centros epistêmicos opostos e conflitivos. ceba a Bahia como uma espécie de lata de lixo do sistema colonial por
É como se na Bahia, seja na figura biográfica, seja na epistème, seja tuguês, ela é exageradamente rebaixada, tanto o ambiente quanto, prin
na sua obra... É como se na Bahia,repito, houvesse um conft'onto entre cipalmente, seus habitantes.
duas figuras antagônicas, como se houvesse dois centros existentes. Por No primeiro soneto, que abre a obra completa organizada por James
um lado, a formação histórica a partir de um colonialismo português (eco Amado, Gregório de Matos parece descrever de modo absoluto, defini
nômico e jesuítico), independente de ser império messiânico ou comerci tivo, como é a cidade da Bahia. O ambiente é fervilhante, de uma cidade
al; por outro lado, a sua realização na colônia - terra que se apresentava comercial que faz com que as classes sociais se movimentem, não se
como inversão da Europa. Parece que há um espírito de época, que ma jam mais os estamentos medievais. Ser nobre não é mais sinal de poder,
nifesta em toda a colônia, que é o confronto entre dois centros de poder nem define mais a qualidade da pessoa. Isto aparece como uma perda,
diferentes, céu e inferno. Esta oposição em Gregório não significa nem a uma negatividade em que o comando da cidade fica nas mãos de quem
supremacia do padrão metropolitano, nem do americano (que teria deglu não sabe governar;
tido o europeu). Ambos coexistem estabelecendo dois centros, duas cul
turas, duas tradições que são tomadas como referência, sendo que Gregório A cada canto um conselheiro,
vive oscilando de um ponto a outro sem definir-se. Que nos quer governar a Cabana, e vinha,
Não sabem governar sua cozinha,
Talvez fosse possível dizer que há a imagem de um pêndulo que vai
de um centro a outro da elipse, num movimento ininterrupto, que não se E podem governar o mundo inteiro.

permite visualizar exatamente qual é o centro. Um deles está sempre sen


do negado, no movimento em direção ao seu contrário. Neste sentido a O que primeiro chama a atenção é a incongruência criada entre
poesia de Gregório parece estar sempre negando suas próprias formas de cozinha/mundo inteiro, em que os dois espaços são postos em conjun
expressão, não se podendo mais definir exatamente qual seria a forma ção, justapostos dando a idéia da pequenez do conselheiro para reforçar
verdadeira que melhor exprimiria a verdade, ou a alma do sujeito. o tamanho de sua incompetência. Se ainda considerarmos que este con
selheiro que pode governar, e governa, não sabe o que faz, é incompe
6. Em Gregório de Matos - A cidade e o poeta tente para isto, então o mundo, a cidade fica a si mesma, ao desgoverno,
Não é aleatório entrar nos poemas de Gregório de Matos através à arbitrariedade das pessoas. A conseqüência é que quem não furta,
daqueles que tematizam a cidade. Gregório de Matos, pelo que apresen muito pobre é. Este desgoverno, esta desordem, aparece, no entanto,
tam as versões de sua biografia, começou a produzir depois de ter re numa forma rígida, fechada com uma chave de ouro, criando aparente
gressado para a cidade da Bahia, Salvador. Ao que parece o impacto de mente uma definição cheia de certeza. "E eis aqui a cidade da Bahia

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Na verdade, Gregório criou uma forma paródica, uma inversão, em que salvo se em boa verdade
o assunto alto da poesia foi rebaixado ao governo da cozinha. s ã o d o i s ff d a c i d a d e
Convém considerar neste momento as referências feitas por Hansen um furtar, outro foder.
a respeito da normalidade que vivia a cidade da Bahia neste momento.
Sua vida seguia normalmente e as referências à administração eram neu Assim a cidade se constituiria de dois ff (foder e furtar) que resu
tras, sem que houvesse o caos que apontava Gregório de Matos. Este viria miriam o modo de se portar das pessoas na cidade. Nos dois ff estaria
de uma forma de ver e de retratar exageradas que eram típicas da sátira do rompido em dois pontos o interdito judaico-cristão. O homem pode tan
momento. Assim, ao me referir à realidade de Gregório de Matos quero to roubar, furtar, quanto foder que estes comportamentos estão na lei de
aludir a uma imagem, uma referência que a sua poesia pretende forjar. fato da cidade.
São apresentadas, em outro soneto, as causas desta realidade negati Formalmente existe um destaque a mais que deve ser feito, os dois
va, figura criada por Gregório. Este soneto. Triste Bahia, já foi mais de ff não estão no nome, na palavra, no próprio modo de expressar do
uma vez analisado, e chegou a ser musicado por Caetano Veloso. Neste
poeta. Isto parece um desmentido, uma sutil negação do jogo retórico,
caso teria havido primeiro um estado de convivência harmôitíca, pacífica não permitindo que se concretizasse. O poema ficaria impedido pela
entre o poeta e a Bahia. O rompimento teria se dado por causa da máquina
incongruência, o desencontro entre as letras ff e o nome Bahia, assim
mercante, que prostitui a cidade através do comércio. A regra de organi como o desencontro em relação à própria cidade dentro do modo de
zação foi trocada, deixou de ser moral e harmônica, e passou a ser a regra expressão. Ao final o poeta ironiza esta advertência contra a relação que
do ouro, do dinheiro. Esta nova regra fez com que não interessasse mais a criou, dizendo que estes ff fazem parte da realidade mesmo, da própria
formação cultural, origem social nobre, característica étnica; o que antes realidade. Seria como se houvesse uma retórica, uma forma^expressiva
era elemento necessário para ordenar o mundo, e que ainda era na corte,
que fosse desmentida pela próprio acontecimento. Esta força infernal
passou a ser acessório. A máquina mercante (e o lucro) passou a ser a vem da realidade e extrapola o simples recurso formal como queria
dominante, o paradigma de ordenação que dava o que era semelhante e o mostrar Hanser em Gregório de Matos. Ele mesmo nunca fez caso deste
que era diferente: ter ou não ter dinheiro, poder retê-lo ou perdê-lo. recurso formal e mostra o limite de sua própria forma poética como
Esta nova ordenação construiu um novo modo de viver dentro da
expressão de uma realidade que lhe fica distante. Esta força está presen
cidade, que não tinha mais regra ética. O modo de viver que é organiza te no poema em que "Despede-se o poeta da Bahia, quando foi degrada
do pelo lucro, pelo rendimento na busca do ouro, desconhece ordenação do para Angola".
jurídica ou legal de qualquer espécie que não seja aquela que defenda
seus próprios interesses. O caminho é sempre o ganho, o ter, o possuir, O poeta constrói uma imagem da cidade que é infernal:
. o acumular. Neste sentido a realidade histórica confirma a perspectiva
gregoriana quando analisamos a política colonial. No avesso desta imi- Adeus, povo, adeus, Bahia,
dade que reduz as dimensões da existência humana, o indivíduo poderia digo canalha infernal.
fazer o que quisesse. Seu limite vai ser nunca ameaçar o sistema produ
tivo. É claro que, na Bahia do século 17, este fenômeno é singular por Esta imagem de um mundo demoníaco é construída de forma re
que ainda havia uma fachada religiosa e mística, que apenas encobriam gular e sistemática, mesmo que possa aparentar o contrário, toda ela se
aquilo que se praticava no seu avesso. baseia na inversão dos princípios morais cristãos, em que os cidadãos
Deste modo, numa visão satírica, Gregório de Matos exagera esta bahianos aparentemente cumpriam, mas que na verdade estavam a fazer
nova ordem, como se pudesse ser resumida em dois que mesmo não o contrário. Nesta construção não se salvam nem os brasileiros, nem os
estando no nome Bahia, estariam na própria cidade. portugueses.

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Que os brasileiros são bestas, O tom deste poema é de mágoa por ter de partir expulso de uma
e estarão a trabalhar cidade que o tratou tão mal. Isto é um dado biográfico e explica o senti
toda a vida por manterem mento que transparece no poema, mas este dá apenas o significado mais
maganos de Portugal superficial, e até subjetivo. Aparece quase numa relação de madrasta, a
cidade da Bahia.
Neste momento, instaura-se uma questão. De que lugar vem a fala A cidade ordenada e planejada pela racionalidade durante o
deste poeta (eu-lírico) para que se exclua e critique a ambos os grupos? renascimento desmorona-se no Barroco, e passa a ser figurada pelo la
Ele está isolado numa situação fronteiriça da qual percebe o mundo a birinto. Esta desordem vai mais longe ainda numa cidade periférica do
partir de uma nova dimensão de realidade que contradiz o esquema in sistema mercantilista. Ela se constrói numa confluência de várias cultu
telectual aprendido na metrópole, seja ligado às leis ou à religião. Este ras. Assim o espaço do exercício da cidadania, em que o homem consti-
isolamento faz supor uma nova leitura. Ao não conseguir unir-se a ne tuiria-se com mais força como civilizado, passa a ser um lugar de
nhum grupo, o poeta se isola e perde qualquer princípio de ordem, de bestialização do homem.
identificação, não pode, então, aceder a um princípio universal que seja Gregório de Matos relativiza, no entanto, considerando esta cida
válido a todos e a si mesmo. A representação desta Babel se dá na pró de não mais como a única que é má no mundo, já que poderia ser que
pria linguagem do poeta, que não sabe mais distinguir o que é certo ou o não houvesse realização humana que não fosse má.
que é errado, nem, principalmente, definir o que seria a natureza huma
na. Deste modo o mundo de Gregório de Matos vai se apresentar como Terra que não parece
um confironto constante entre interesses particulares e diverso, uma des Neste mapa universal
truição constante em que indivíduo destrói indivíduo. Então em que Com outra; e ou são ruins todas.
consistiria a fidalguia? Ou somente ela é má.

Consiste em muito dinheiro Não há uma certeza final, mas uma dúvida que aponta para uma
E consiste em o guardar, dor de Gregório, uma intuição de que a própria natureza humana não
cada um a guardar bem, consiga construir uma cidade que seja boa, e não seja má, portanto. Esta
para ter que gastar mal. dúvida constrói às avessas uma nova universalidade. Gregório de Matos
não constrói uma obra que seja a realização sensível de um princípio
O mimdo da nobreza (ou mesmo da Corte ao qual Gregório teria universal. Sua realização ao contrário de ser simbólica, aponta para a
td
i o acesso) é esvaza
i do, não conssi te masi em um drietio de sangue (muna alegoria, o dilaceramento do homem e o rompimento das similitudes do
aliança entre sabedoria natural, divina e humana). Com o rompimento Mesmo. Ele constrói uma obra que está presa ao particular, ou aos par
desta harmonia entre dimensões do homem, o título de nobre, fidalgo, ticulares, de sua própria vida, de seus desejos. Vai mais longe, mostran
sena conquistado, de modo vil, pelo dinheiro, ouro. É o dinheiro que rege do que os homens de sua cidade também estão presos nesta particulari
desde os títulos de nobreza até o casamento. Quer dizer, o dinheiro como dade, incapazes de transcender a sentido universal que não o prazer sen
a valoração mais abstrata e arbitrária que há, passa a ser a chave/signo de sível e pessoal. Ao duvidar do localismo, deste fenômeno como sendo
compreensão do mundo infernal que o poeta encontrou na Bahia. Talvez somente baiano, Gregório intui que todos os homens poderiam ser maus,
devesse dizer o signo último da incompreensão do homem frente a um
mundo sensível que não remete a nenhuma transcendência. Não há mais que se estabelece como o princípio avesso que toma para o homem o
mundo opaco, obscuro.
espaço para os valores universais que fujam ao comércio. Eles passam a Neste sentido é que leio o poema em que a Bahia é personificada e
ser atribuídos de modo arbitrário às pessoas.

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fala em tom parodicamente profético, mosaico. É ela própria que se não possui nem ordem, nem harmonia, na verdade ela é a mistura desor
coloca como o centro da enunciação, como uma voz que vai revelar ganizada de um grupo variado de povos que interagem. Sendo que, apa
aquilo que está escondido por detrás de sua aparência. O motivo de tal rentemente, eles nem sempre revelam a sua verdadeira identidade étni
oratória seriam os hipócritas que culpavam a própria cidade dos peca ca ou moral. Todos se apresentam sob o signo do Mesmo, portugueses,
dos que nela havia, deixando a si próprios de fora. católicos, retos..., mas na realidade isto apenas esconde uma diversida
de, uma série de particularidades, em que só há o desejo de cada um.
Sabei, céu, sabei estrelas, Deste modo a senhora dona Bahia vai criar um decálogo às avessas,
escutai, flores e lírios, em que todos os preceitos bíblicos vão ter um correspondente contrário
montes, serras, peixes, aves, na cidade. Ela cria na cidade uma imagem especular da realização bíblica.
luz, sol, mortos, e vivos: Onde o decálogo apresenta "Amarás ao senhor Teu Deus sobre todas as
Que não há, nem pode haver
desde o Sul ao Norte frio
coisas", o decálogo desta senhora mostrará que seus moradores cumprem
cidade com mais maldades, este preceito apenas de modo aparente, porque vão a terreiros africanos
nem província com mais vícios: de umbanda ou, no caso das mulheres, vão à igreja apenas para se mos
Do que sou eu, porque em mim trar, para exercício da vaidade, tipicamente luciferino. Quer dizer, oposto
recopilados, e unidos ao centro ideal da religião corresponde um outro centro obscuro, mas
estão juntos, quantos têm real, que é o demoníaco. Talvez nem se precise falar em demoníaco, por
mundos, e reinos distintos. que na verdade há principalmente a negação de um princípio universal
para afirmar como existente apenas o desejo pessoal.
Logo no início do poema está estabelecida uma voz lírica que ex Não há apenas a apresentação inversa e exagerada do desordenado
pressa a potência infernal, é a própria maldade encarnada. Neste trecho da cidade da Bahia para afirmar uma regra implícita. Na verdade, parece
ela define a si mesma criando de si uma imagem negativa, para revelar exilar a ordenação divina para uma idealidade inacessível para os ho
que, na verdade, que a construiu não foi ela mesma senão os homens mens e que usam-na apenas para criar uma aparência de normalidade.
que ela alberga. E, ao longo do poema, fica bem claro que antes a cidade Assim aquele que deveria ser o centro da natureza humana. Deus, cede
seria uma construção idílica, mas que depois teria sido corrompida pe lugar para um outro centro inverso. Um não elimina o outro, por mais
los homens que nela passaram a habitar. que se neguem entre si, mas existem de modo concorrente na figuração
que nos apresenta Gregório de Matos.
Eu me lembro, que algum tempo Deste modo temos o decálogo como referência implícita, obscura,
(isto foi no meu princípio) e temos as regras paródicas que se afirmam como regra de comporta
a semente que me davam era boa, e de bom trigo. mento, mas não podemos no fim das contas ter certeza de qual delas
Por cuja causa meus campos seria mesmo a verdadeira, principalmente na ordem do poema. O eu-
produziam pomos lindos,(...) lúico deste poema é uma senhora, cidade, que se apresenta como a pior
Deste princípio paradisíaco, ela passou a ser uma Babilônia, que pecadora do mundo, e que vai falar apenas para revelar que a origem do
mal está no homem. Esta voz não é confiável, porque nada impede que
passou a ser habitada por uma variedade muito grande de povos dife estivesse também ela a pecar e a mentir. Restam ao leitor imagens virtu
rentes. Estes moradores lançam em si os frutos ruins e por isto ela teria
se transformado, virado o centro obscuro da maldade do mundo. É inte ais, hipóteses que podem explicar o sentido do poema, sem que, nova
ressante observar que ela se apresenta como um modo de cidade que mente, possamos chegar a uma certeza última.
Outro ponto que contribui para a incerteza quanto a veracidade de

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um paradigma ou de outro é artifícialidade sobre a qual se constrói o REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
poema. A voz construída é apenas ficcional, construída pelo poeta, como
uma forma retórica de dizer sua visão da cidade. Esta artifícialidade AMADO, James. A foto proibida há 300 anos e notas à margem da editoração
aponta de novo para a dificuldade de encontar um sentido natural, que do texto - II. In: MATOS, Gregório de. Obras poéticas. Rio de Janeiro:
estivesse expresso de modo harmônico no mundo e que precisasse ape Redord, 1992.
nas ser revelado. O sentido deve ser construído pelo poeta de modo CAMPOS, Augusto de. Poesia, antipoesia, antropofagia. São Paulo: Cortez e
artifícial, mesmo que exagerado, assim como os homens o construíram Moraes, 1978.
ao edifícarem uma cidade. Neste caso a cidade seria a figuração imagética . Da América que existe: Gregório de Matos. In: MATOS, Gregório de.
Obra poética. 3.ed. Edição James Amado. Rio de Janeiro: Record, 1992.
de uma concepção de desconcerto do mundo.
CÂNDIDO, Antonio. Formação da literatura brasileira. 4.ed. São Paulo: Li
Independente da referência direta de cidade, os poemas de Gregório vraria Martins, 1970.
de Matos constróem uma imagem de cidade negativa, com uma única
HANSEN, João Adolfo. A sátira e o engenho: Gregório de Matos e a Bahia do
lei perversa de perverter todas as regras universais. Além disto, há algo século XVII. São Paulo: Companhia das Letras/Secretaria de Estado da
de muito curioso nisto tudo, ele constrói uma cidade sem quase nunca Cultura, 1989.
descrevê-la físicamente. A sua construção dá-se mais pela apresentação STEINER, George. No castelo de Barba Azul - algumas notas para a redefinição
narrativa, como cronista, das variadas pessoas que nela habitam. O es da cultura. São Paulo: Companhia das Letras, 1991.
paço aparece apenas comb referência, contextualização espacial das ações.
Várias vezes ele mostra algo que viu ao passar por uma rua e que lhe
chamou atenção. Existe uma desorientação que faz com que ele não
saiba mais que ordem seguir. E esta heterogeneidade aparece como uma
imagem de sua própria poesia, numa relação dialética entre espaço figu
rado e linguagem usada para representá-la.

ó.Como término
Gregório de Matos é um autor que se apresenta como um proble
ma para Literatma Brasileira, provocando um incômodo histórico para
o nosso presente, porque sempre resta um resíduo que impede que che

s
guemos a uma interpretação última de sua obra. Assim ele não pôde,
nem pode constituir-se como um espelho passado em que o presente
mira-se para encontrar a sua imagem confirmada. O único modo de
fazer isto é negar parte de sua obra.
Assim, neste autor que oscilou entre vários pares opositivos, além
deste usado como exemplo, somente podemos fundar de uma Literatura
Nacional, considerando sempre o limite e a arbitrariedade de nossa nar
ração, invenção do passado literário. Neste confronto parece haver uma
imagem constituída da nossa própria dualidade, em termos de origem e
tradição.

106 107
QUESTÕES DE AMERICANIDADE
Notas sobre a literatura canadense anglófona:
marcando a diferença

VÂNIA LÚCIA SANTOS DE BARROS FALCÃO

No início da década de 80 William Metcalfe edita Understanding


Canada, uma introdução multidisciplinar aos estudos canadenses. O tí
tulo desperta interesse pela vontade de fazer o pais compreendido e seu
prefácio acrescenta informações relevantes: a obra trata da "história de
um povo determinado a construir sua própria versão de um país com
características únicas na América do Norte" e destina-se originalmente
a americanos dos Estados Unidos, estudiosos ou leigos, que busquem a
compreensão da diferença.
O debate literário dos anos 80 caracterizou-se pelo estudo e pela
discussão do sentido e das manifestações da diferença . A literatura dos
Estados Uitídos, por exemplo, já se estabelecera de há muito como uma
literatura americana, como uma estratura autônoma, independente da li
teratura inglesa. O momento pareceu, então, adequado para assinalar as
literaturas de língua inglesa nas suas outras variedades: a literatura cana
dense, a australiana, a africana, a irlandesa, a escocesa, dentre outras.
Antonio Cândido, ao referir-se à literatura brasileira em ?i Forma
ção da Literatura Brasileira, propõe que cada literatura receba um tra
tamento particular tendo em vista suas peculiaridades e a relação que
mantém com outras literaturas. Faz notar, também, a necessidade da
leitura interessada das obras que compoem a literatura nacional para
resgatá-las do esquecimento ou mesmo da incompreensão, pois são es
sas obras que fazem parte do processo histórico de formação nacional.
Donald Sutherland, em Understanding Canada, escreve um capí
tulo marcante sobre a literatura canadense, tratando-a como elemento
constitutivo do desenvolvimento da consciência nacional, "A literary
perspective: the development of a national conscience". E é este capítu-

111
Io que pretendemos relatar e dar a conhecimento a um público que se ma eclesiástico hierárquico, centralizado e estruturado.No Canadá, tan
interessa pelas literaturas produzidas nas Américas. to católicos quanto protestantes dispunham de um sistema religioso fir
Sutherland, escritor, professor e crítico, assim como Antonio memente estabelecido. Enquanto o puritanismo da Nova Inglaterra exi
Cândido o fez, considera que o estudo de uma literatura nacional é a gia o autoexame, os canadenses semprem tiveram a segurança de confi
chave para a compreensão do caráter de uma nação, de suas forças ar na instituição religiosa, em códigos detalhados de comportamento e
condicionantes, de seus mitos formadores, de seus sonhos e pesadelos, num sistema de controle.
de seus sucessos e de seu fracassos. Sutherland lembra que sendo menos extremo que o puritanismo
Observa-se que a literatura canadense, desde o seu início, reflete do início da colonização americana, o puritanismo canadense não pro
uma preocupação com o país vizinho, os Estados Unidos, como se os duziu escritores do porte de um Melville ou de um Hawthorne. Roman
autores canadenses sentissem que a sobrevivência do Canadá depende ces históricos e idílicos constituíram o tema da literatura canadense do
ria de coexistir continentalmente com uma nação bem mais populosa e século 19. Mas embora o puritanismo fosse mais leve no Canadá, foi
com poder e influência expressivamente maiores. mais resistente e sofireu menos transformações.
A atitude ambivalente de admiração e suspeita dos canadenses em Considera-se Benjamin Franklin responsável pela divisão do puri
relação aos americanos surge de diversas maneiras, tanto nas obras de tanismo em duas correntes. Apropriou-se dos princípios de indústria,
língua inglesa quanto nas de língua francesa. O materialismo e a desu- eficiência, autoconfiança e sucesso mundano como sinal da graça de
manização originada pela tecnologia dos EUA são motivos de críticas Deus e, subtraindo-O, elaborou a filosofia básica do materialismo ame
permanentes de seus próprios escritores, contudo a única dimensão ex ricano. E a tradição materialista procede ao invento de suas prórias dei-
tra acrescentada pelos autores canadenses é uma indignação amarga pela dades, do "almighty dollar" aos diferentes símbolos de status.
ineficiência da fronteira em proteger seus interesses e em manter a inte A tradição artística e intelectual americana reteve os aspectos éti
gridade de uma nação independente. cos do puritanismo e, em reação à corrente materialista, glorificou o
Historicamente, ambos foram fortemente influenciados pelo Purita- princípio do individualismo autoconfiante e a capacidade e o direito de
nismo, porém este desenvolveu-se no Canadá de forma bem diversa do cada indivíduo pensar por si só e de agir de acordo com sua consciência.
que ocorreu nos Estados Unidos e a consciência desta diferença é funda O Canadá não sofreu esta divisão e não testemunhou o surgimento
mental para a compreensão do desenvolvimento da literatura canadense. dos dois extremos, o do materialismo e o do individualismo autoconfian
No Canadá, as doutrinas calvinistas prevaleceram tanto entre os te. A ênfase recai sobre a parte da ideologia que se referia à impotência e
protestantes quanto entre os católicos romanos, jansenistas. à insignificâricia humana, as quais tomavam o homem mais do que mmca
O jansenismo e o calvinismo canadenses supõem que o homem é dependente da Igreja como instituição que custodia a graça divina.
insignificante e que não merece nada melhor que a danação, a menos O clima áspero e as tempestades de inverno que podiam congelar
que a graça divina recaia sobre ele. Contudo, comparecer regularmente um homem até a morte no caminho entre sua casa e o estábulo, não
à igreja e realizar suas obrigações na terra diligentemente e sem queixas ajudaram a desfazer a noção de dependência e impotência do homem.
pode ser indicativo da predisposição da graça divina. Tendências con Em contraste com os mitos americanos de "Manifest Destiny" e
trárias, principalmente a preguiça e o desejo de obter conforto e prazer "Garden of the World", os mitos canadenses eram bem mais modestos.
pessoal, são sintomas de predestinação ao castigo. Em vez de "vida, liberdade e a obtenção da felicidade" os patriarcas da
Um aspecto importante do puritanismo americano é a valorização Confederação canadense optaram por "paz, ordem e bom governo".
da autoconfiança e da responsabilidade do indivíduo. Numa reação na Uma das maiores forças condicionantes que tomaram a literatura
tural à idéia de uma Igreja estabelecida, motivo inicial que trouxera os americana diferente da canadense é a idéia de fronteira, entendida como o
peregrinos à América, havia nas colonias uma aversão a qualquer siste espaço a ser conquistado. A fronteira canadense nunca adquiriu as asso-

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dações míticas do Oeste americano. A paz e a ordem prevaleceram nas É na década de 60 que a terceira maior divisão temática da literatura
planícies e montanhas, simbolizadas pela Real Polícia Montada canadense. canadense contemporânea, A busca pela verdade vital, começa a tomar
Apesar da literatura canadense diferir, na sua essência, da literatu forma. Desaparecem os sentimentos de culpa pela inviabilidade da Or
ra americana, aproxima-se das características da literatura negra e da dem antiga. Os personagens partem do zero, não têm valores, estão em
literatura do Sul dos Estados Unidos. busca de algum tipo de verdade vital. O separatismo surge no Quebec. O
Quanto ao caráter dos protagonistas há diferenças marcantes entre problema da identidade, tanto do gmpo quanto do indivíduo, é caracterís
as duas literaturas. O herói tradicional americano é combativo, tica da época. Para alguns escritores, a "raison d'être" pessoal dos perso
autoconfiante e luta contra os desafios, mesmo contra Deus. O herói nagens fíccionais confunde-se com a própria razão de existir da nação,
canadense é retraído, é um perdedor. Quando descobre que está em de com a questão de se o Canadá é, pode, ou deve existir como nação.
sacordo com o que dita o sistema (religioso, social ou outro), em vez de A partir da década de 70 surge a quarta categoria temática, O novo
desafiá-lo, entra em conflito consigo mesmo e se culpa. A tensão é herói. Este herói explode nas páginas da ficção canadense e é antes um
internalizada e o personagem engaja-se numa penosa e destrutiva luta expoente dos valores americanos de autoconfiança, individualismo, inde
buscando encontrar suas deficiências . pendência, do que dos canadenses. Por por outro lado contrapõe-se ao
A evolução temática da literatura canadense está estreitamente li americano, pois não está abraçando as virtudes nacionais, mas ignorando-
gada ao desenvolvimento da consciência nacional, que na realidade ocor as ou talvez simplesmente reconhecendo que não são mais válidas e por
reu nos últimos anos, e pode ser dividida em quatro etapas: A ordem tanto ele deve depender de seus próprios recursos. Não é nem desafiador
divina e a Terra (The divine order and the Land), A ruptura da ordem nem dominador, mas está determinado a seguir sua convicções.
antiga (Break up of the old order), A busca pela verdade vital (The Estas categorias temáticas estendem-se ao longo dos segmentos
search for vital truth), O novo Herói (The new hero). cronológicos em que Donald Sutherland escolheu para dividir a litera
As idéias de tonalidade calvinista da Ordem divina e a Terra do tura canadense: Período Colonial, Período da Confederação, Primeiras
minam desde o periodo colonial até a Segunda Guerra Mundial.Tanto Décadas do século 20, Período Moderno, Ruptura da Ordem Antiga,
na prosa quanto na poesia o tema recorrente é a submissão ao desejo Busca por uma Verdade Vital e o Novo Herói.
divino e a aceitação do dever, sendo o indivíduo considerado insignifi Q Período Colonial estende-se de 1750 a 1867. Nas regiões
cante no sistema ordenado por Deus e pelo Rei. O propósito do homem anglofônicas foi só a partir do momento em que aqueles que continua
na tena não é a busca da felicidade, mas sim a realização do plano divi vam leais ao Reino Unido abandonaram os Estados Unidos, após a in
no, não importando o sofrimento que isto acarrete. A luta trava-se entre dependência e se deslocaram para o Canadá, que uma atividade cultural
o homem e uma terra cruel que opera de acordo com o desejo divino. As significativa começou a acontecer.
estações mudando e a propria vida progredindo em obediência a leis O primeiro centro cultural do Canadá inglês foi Halifax. Nascido
imutáveis. O homem necessita apenas seguir os ciclos , se integrar no nesta cidade e inspirado na obra de seu tio, escritor inglês de quem her
plano e ser parte da Ordem divina. A Segunda Guerra trouxe desencanto dou o nome, Oliver Goldsmith (1794-1861) escreve um longo poema
com este sistema tradicional no Canadá, bem depois que o mesmo sur The rising village (lS25).
gira na Europa e no Estados Unidos. Mas é Thomas Haliburton (1796-1865) que é a figura literária do
No final da década de 40 e início da de 50, o tema que domina a minante no período. Membro do governo da Nova Escócia, desenvolve
literatura canadense é Ruptura da ordem antiga, que se compara ao da idéias liberais, entre elas as escolas gratuitas e a liberdade de católicos
desintegração do Sonho Americano. O protagonista, nas obras da épo romanos exercerem cargos públicos. Em The clockmaker Haliburton cri
ca, não culpa o sistema, a nação ou a sociedade, como o faz o america tica os hábitos da Nova Escócia, cujo povo era censurado pela falta de
no, ele está confuso e sofre de um sentimento de culpa. iniciativa, e cria o personagem Sam Slick usando a capacidade de traba-

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Iho e a engenhosidade yankee como modelo. The clockmaker é composto
pelas províncias centrais. Goldwin Smith, cientista político de renome,
de uma série de episódios, relatados em linguagem coloquial, envolvendo declarou em Canada and the Canadian question (1891) que o Canadá
o narrador e Sam, enquanto viajam pela Nova Escócia vendendo relógios. como uma nação havia falhado. Advogou a anexação aos EUA como a
Também Ontário e Quebec destacam-se com uma literatura nas
única solução razoável e na verdade mais de um milhão de canadenses,
cente. Exemplos desta literatura são as obras das irmãs Catherine Parr incluindo os poetas Carman e Roberts, emigraram para os Estados Uni
Trail (1802-1899) e Suzana Moodie (1803-1885), inglesas transplanta
dos, deixando menos de cinco milhões de compatriotas para enfrentar o
das para o Canadá. A primeira escreve The backwoods of Canada (1836), novo século.
um relato detalhado e sensível sobre a vida dos colonizadores. A segun O período referente às primeiras décadas do século 20 (1900-1920)
da piodaz Roughing it in the bush (1852), documentário sobre as agru caracterizou-se pela produção de trabalhos que permanecem e se distin
ras sofridas pelos pioneiros.
O Período da Confederação abrange os anos de 1867 a 1900. A guem quer pelo seu grande sucesso popular, ou internacional, quer pelo
seu impacto e influência.
instituição da Confederação trouxe um espírito de desafio à nova nação. Entre os poetas destacam-se Robert Service, Emile Neligan, Albert
Os vastos espaços deveriam ser dominados e uma estrada de ferro
Lozeau e William Hemy Drummond. Entre os ficcionistas em prosa
transcontinental teria que ser construída. O grande interesse do povo
pode-se enumerar Stephen Leacock, Louis Hémon, Lucy Montgomery,
pela Confederação resultou numa explosão de atividades culturais, in
cluindo a fundação de novos jornais, expansão de universidades e pro Ralph Connor and Albert Laberge.
Robert Service (1874-1958) fez sucesso com baladas sobre brigas
dução de poemas. Quatro poetas destacaram-se no período: Charles G.D. em "saloons" no Norte do Canadá e sobre a corrida do ouro. William
Roberts, Bliss Carman, Duncan Campbell Scott e Archibald Lampman.
Charles Roberts (1860-1943), nascido em New Branswick, publicou Henry Drummond (1854-1907), nascido na Irlanda, veio para o Canadá
aos dez anos e tornou-se médico em Quebec. Escreveu poesias popula
Orion and other poems (1880) que influenciou grandemente poetas como res e foi cativado pelo dialeto do inglês falado pelos lenhadores e fazen
Lampman e Carman e iniciou o primeiro movimento poético de importân deiros canadien no qual escreveu várias de suas poesias.
cia no Canadá inglês. Bliss Carman (1861-1929), também de New
Quanto à ficção, uma obra que surgiu em 1912, Sunshine sketches of
Brunswick, escreveu poesia ligada à natureza e deteve-se mais na reação a little town tomou-se um clássico. Seu autor, Stephen Leacock nasceu em
lírica evocada pelos fenômenos naturais. Já Duncan Campbell Scott tomou
os seres humanos e as situações de vida como inspiração. Trabalhou junto Hampshere, England, mas educou-se no Canadá. O humor de Leacock se
ao Departamento deAssuntos do índio e seus melhores poemas tratam de gue a linha do americano Mark Twain e dos canadenses Thomas Haliburton
forma realista e sensível o índio norte-americano. Archibald Lampman e Seba Smith. Baseou-se nas variações dialetais e no exagero para compor
seus tipos cômicos. Por outro lado, utilizou-se também da veia britânica de
(1861-99) foi principalmente um poeta da natureza, mas sua poesia revela humor que depende da mbanidade, da ironia e da apresentação do absurdo
um olhar cuidadoso para com o detalhe combinado-a com a fé no poder da
natureza como alavanca transcendental para um insight espiritual. como lugar-comum. Sunshine sketches revela o humorista sensível que ri
das fraquezas humanas e satiriza a hipocrisia social.
Além de poesia foram escritos no período romances históricos-por
O romance regional destacou-se com Lucy Maud Montgomery
William Kirby (1817-1918) e Gilbert Parker (1862-1932).
O período da Confederação tanto no Canadá inglês quanto no fran (1874-1942), da Ilha de Prince Edward, que alcançou grande sucesso
cês iniciou com muita esperança e entusiasmo, mas pelo fim do século popular com o clássico infantil A«/ie of the Green Gables (1908) . Tam
bém alcançou popularidade o clérigo e romancista Ralph Coimor (1860-
19 a lua de mel estava acabada. A grande depressão de 1873, indubitavel
mente ajudou a esfriar o ardor de muitos canadenses. Houve ameaças de 1937) com romances moralistas como Black rock (1897) e The man
from Glangarry (1901).
secessão já em 1866 e protestos de que o país estava sendo dominado O advento da Primeira Guerra fez com que os canadenses se vol-

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tassem temporariamente para o exterior e estimulou também o desejo análise psicológica penetrante de um jovem padre na tensão que resulta
por uma identidade nacional distinta. entre a instituição e seus sentimentos. Outro protagonista típico da Ordem
O Período Moderno da literatura canadense inicia-se após a Pri Antiga é também um clérigo, Philip Bentley, que no poderoso romance As
meira Guerra Mundial. A participação marcante na guerra levou o Ca for me and my girl de Sinclair Ross (1908-) continua por muitos anos a
nadá a desvencilhar-se das amarras britânicas e foi oficialmente reco praticar um ministério no qual não acredita mais.
nhecido como parceiro da Grã-Bretanha na Comunidade Britânica de Não só os romancistas de 1924 a 1945 chamaram a atenção para
Nações, em 1926, passando seus interesses a serem tratados nos exte os efeitos distorsivos e conformistas da Ordem Antiga no caráter cana
rior por seus próprios diplomatas. dense mas também os poetas e ambos influenciaram nas transforma
Um grande número de revistas literárias e especializadas foram ções que atingiram todo o País. Nas décadas de 20 e 30 houve uma
fundadas na época, assim como casas publicadoras. Dos autores que mudança dramática no romantismo, na regularidade métrica e nos te
mais obtiveram sucesso comercial destaca-se Maza de Ia Roche que mas das últimas décadas do século 19 e das primeiras do século 20. A
descreveu, em dezesseis novelas românticas, a vida da família Whiteoaks. natureza foi substituída pelo cotidiano, a flora e a fauna pelas imperfei
Entrementes o estilo realista e naturalista continuou em evidência ções dos seres humanos e da sociedade. Os poetas canadenses conscienti-
através dos "romances da terra", principalmente com Frederick Philip zaram-se da "Nova Poesia" da Inglaterra e dos EUA, dos trabalhos de
Grove (1917-1948), que recentemente se descobriu chamar-se Felix Paul Sandburg, Frost, Stevens, Yeats, Pound, Eliot, Cummings , Auden e
Greve, imigrante alemão. Grove aparentemente um lingüista competente, Lawrence. Geralmente considerada como a renascença poética da poe
havia escrito romances, poesias e ensaios na Alemanha. No Canadá, Grove sia canadense inglesa, a antologia New provinces: poems of several
produziu alguns romances, ensaios e uma autobiografia. Seu Master of authors (1936) inclui o trabalho de A.M. Klein, Leo Kennedy, F.R. Scott,
the Mil (1944), que se parece com os romances dos impérios comerciais A.J.M. Smith, Robert Finche e E.J. Pratt.
e industriais de Upton Sinclair, Frank Norris e outros naturalistas ameri O Período da Ruptura da Ordem Antiga dá-se após a Segunda Guer
canos, demonstrou ser profético nas análises das relações trabalhistas e ra Mundial (1945-1960) que terminou com a Ordem Antiga e a
dos efeitos da automação. Outro de seus livros. Our daily bread (1928), concomitante mentalidade colonial. Como resultado, romancistas e poe
mantém uma posição de destaque permanente entre os romances cana tas canadenses significativos começaram a se interessar pelo desapareci
denses. A historia trata de um homem obcecado com a idéia de construir mento dos valores tradicionais.ExecMííon (1958) romance de Colin
uma dinastia sobre a terra para preencher os desígnios de Deus. John Elliot MCdougall (1917-) apresenta a desilusão do soldado cristão que marcha
e a mulher têm seis filhas e quatro filhos e Martha, martirizada pela ob para a guerra e encontra a brutalidade e o horror das operações militares.
sessão do marido, morre de câncer, depois de numa cena memorável, Para muitos de seus participantes a guerra cria um vácuo existen
levanta-se de seu leito de morte e participa de um baile, onde seu vestido cial e os valores perdem o seu significado, deixando as pessoas com
esvoaçante sobre seu corpo magro lembra a mortalha que logo deverá uma sensação de vazio e desespero. Os romances canadenses do fim da
usar. Grove resume os valores da Ordem Antiga quando John Elliot diz década de 40 e dos anos 50 demonstram o confronto existente entre a
que não espera que os fílhos enriqueçam mas que saibam retirar seu sus visão tradicional e uma nova ausência de valores.
tento do solo. Contudo nenhum deles permanece ligado à terra. O confronto pode ser visto nos trabalhos de quase todos os roman
Morley Callaghan (1903-) nascido em Toronto, advogado, foi influ cista importantes do período como Hugh MacLennan, Mordecai Richler,
enciado por Emest Hemingway para seguir a carreira literária. Hemingway W.O. Mitchell, Adele Wiseman.
colocou alguns contos de Morley em revistas e Scott Fitzgerald fez com Adele Wiseman (1938-) escolhe como protagonista de seu roman
que seu primeiro romance Strange fugitive e uma coleção de contos fossem ce The sacrifice um imigrante da Ucrânia, judeu ortodoxo, que já havia
publicados por Scribner. Em Such is my beloved (1934) o autor faz xuna perdido dois filhos num massacre, vê seu terceiro filho morrer após o

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incêndio de uma sinagoga. Um homem amargurado, Abraham ao reali desejo por independência política, o separatismo, que condicionou
zar a entrega de uma encomenda na casa de uma mulher de vida fácil
grandemente a literatura canadense, tanto inglesa quanto francesa.
não consegue se conformar com o contraste entre a morte de seus três Em Return of the Sphynx (1967) Hugh MacLetman além de tratar
filhos e de seus sonhos e a vitalidade de uma mulher que ele considera do novo nacionalismo canadense inclui uma galeria de outros persona
va depravada e acaba por assassiná-la. O destino trágico de Abraham é gens, francófonos e anglófonos, e assim examina um amplo espectro de
um símbolo do fim do conceito de vida da Ordem Divina. idéias associadas com o separatismo.
Hugh MacLennan publica um clássico da literatura canadense, Two Por meio de seus personagens MacLennan discute um dos maiores
solitudes, em 1945, e domina o periodo pós-guerra. Nascido na Nova problemas canadenses, o sentido de igualdade. O Canadá inglês conside
Escócia, o autor usa Halifax e a grande explosão de 1917 como ambien ra igualdade o fato de que cada indivíduo deva receber o mesmo trata
te de sua primeira novela. Barometer rising (1941). Two solitudes diz mento. Os firancocanadenses ao contrário, se consideram primeiro como
respeito às relações entre o Quebec francês e o inglês, mas todos os um grupo ou nação, depois como indivíduos. Um dos personagens de
romances de MacLeiman focalizam as tensões entre gerações, a Ordem
MacLeiman, Alan Ainslie, não conseguindo conciliar estas e outras dife
Antiga versus o novo espírito de independência e os problemas de iden renças, decide viajar através do país, para perder-se na vastidão da terra.
tidade nacional canadense. The watch that ends the night (1959) trata Alice Munro (1931- ) escreveu um romance importante sobre o
especificamente dos fenômenos das mudanças de valores. desenvolvimento de uma menina em adolescente em Lives of girls and
Modercai Richler (1931) que escreveu The apprenticeship ofDuddy women (1971). Já Margaret Laurence (1926-) em The stone angel (1965)
Kravitz (1959) não encontra solução filosófica para o desaparecimernto
dos antigos valores. O herói de seu romance, que sempre ouvira do avô apresenta uma velha senhora, lutando para manter o respeito próprio
neste período tão difícil da senilidade. Entre os outros romances de
que um homem só tem valor quando tiver um pedaço de terra, não con Laurence destacam-se A jest ofGoda (1966) e The diviners (1974), além
segue faze-lo aceitar o presente de uma casa pois a havia comprado com de livros de contos baseados na sua experiência africana.
parte de dinheiro que pertencia a uma fortuna adquirida por modos que A África tem sido usada por alguns escritores canadenses como
o avô considerava ilícitos.
um ambiente para analisar as transformações que ocorrem no Canadá
Cabbagetown (1950), romance ambientado num distrito pobre de hoje. Quando os americanos preocupavam-se com problemas de defini
Toronto, escrito por Hugh Garner (1913-1979) acontece quase na mes ção e identidade semelhantes àqueles do Canadá, de hoje, Henry James
ma época que o romance The watch de MacLennan e também explora o usou ambientes europeus da mesma maneira. Há além de tudo uma boa
socialismo e o fascismo como substitutos dos valores de então.
medida de sensibilidade jamesiana e de tramas eraNew ancestors (1970)
O período da Busca pela Verdade Vital compreende os anos entre
1960 e 1970. O Canadá convive com a influência americana, da Coca- por Davy Godfrey (1938-), que também se distinguiu como editor, e em
You can't get there from here (1972) por Hugh Hood (1928-), dois ro
Cola ao MacDonalds' , e com uma necessidade nacionalística por uma mances que acontecem na Africa e que desenvolvem uma alegoria com^
identidade cultural distinta e singular entre as novas nações e grupos
étnicos. O novo nacionalismo que se formou no Canadá na década de 60 plexa que diz respeito ao Canadá contemporâneo.
A década de 70 caracteriza-se como a do Novo Herói. O ano de
é cultural e político, mas com maior ênfase no aspecto cultural. 1970 poderá ficar conhecido no futuro como aquele em que o Canadá
O novo nacionalismo canadense difere daquele da época da Con perdeu sua inocência. Foi o ano em que os canadenses temporariamente
federação, pois não olha para o passado mas é um produto que surge das perderam suas liberdades civis como resultado da aplicação do War
realidades do Canadá contemporâneo e em essência se mistura com a Measures Act, reação governamental ao seqüestro do Comissário de
Busca pela Verdade Vital. Comércio Britânico no Quebec e Ministro do Trabalho pela organiza
O nacionalismo cultural do Quebec foi concomitante com o novo ção terrorista Quebec Liberation Front.

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A "Crise de Outubro" produziu uma reação imediata no mundo da foi demonstrado, traçaram o crescimento espiritual do Canadá através
literatura — artigos, poemas, peças e romances, tanto em francês quanto de muitos estágios. Analisaram a psicologia dos canadenses a partir da
em inglês. mentalidade colonial até um novo estado de independência multilateral
A literatura dos anos 70 no Canadá tomou-se progressivamente ima e de individualismo, cujas implicações ainda devem ser examinadas e
ginativa e diversificada. Robertson Davies produziu uma trilogia de ro articuladas. Os escritores canadenses enfrentam um novo começo, tal
mances brilhantes -Fifth business (1971), The manticore (1972) e World vez o primeiro começo genuinamente canadense.
of wonders (1975) - relacionadas à vida de um mágico. Qark Blaise (1939-)
que nasceu e se criou nos Estados Unidos escreveu dois volumes de con
tos reunindo suas experiências canadense e americana. Margaret Atwood REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
91939 ), com três romances em oito anos. Surfacing (1972) Lady oracle
(1976), Life before man (1979) marcou fortemente a ficção canadense e CÂNDIDO, Antonio. Formação da literatura brasileira. São Paulo: Martins,
alcançou reconhecimento internacional. Lark des Neiges (1971) de R. 1964. (Momentos Decisivos)
Sutherland explora a psicologia de uma jovem mulher de descendência METCALFE, William. Understanding Canada. New York: New York Uni
firancesa e escocesa, presa entre as duas culturas canadenses; outra de versity Press, 1982.
suas obras. Where do the MacDonalds bury their dead (1976) se passa em SUTHERLAND, Donald. A literary perspective: The development of a national
consciousness In: Understanding Canada. William Metcalfe, ed. New York:
Montreal, Detroit e Califórnia é uma história sério-cômica de um cana
dense buscando dar conta da sua masculinidade, identidade cultural e as New York University Press, 1982.

pectos salientes da sociedade norte-americana. Marian Engel, Sylvia Eraser


e Richard B. Wright são alguns dos outros autores que continuam a cons
truir suas reputações provando novas técnicas e temas e, geralmente, alar
gando os horizontes da literatura canadense.
Contudo o maior fenômeno da década de 70 é a emergência em
forma final do Novo Herói canadense. Um desses heróis pode ser bem
representado por Doe Hunter, médico de uma cidade pequena e que toma
em suas mãos não só decisões médicas, mas decisões que afetam a vida
de muitas pessoas e que não seguem o sistema: realiza eutanásia numa
mulheer que morre de câncer numa fazenda, realiza aborto numa menina
que havia sido engravidada pelo pai e tenta ajudá-los a reerguerem suas
vidas. Sempre ocupado com o aqui e agora não tem preocupações religi
osas. Tem um filho natural que vive com a mãe mas que sempre contou
com todo o seu apoio e que vem finalmente a substituí-lo na direção do
hospital. Este herói escapa totalmente aos ditames da Ordem Divina.
Donald Sutherland observa no início desta perspectiva sobre a es
crita canadense que a literatura nacional reflete a qualidade espiritual e
o crescimento de uma nação. Os bons autores de qualquer país têm seu
dedo no pulso coletivo; eles são os diagnosticadores da saúde de uma
nação e os profetas do destino desta nação. Os autores canadenses, como

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o outro somos nós

E L O I N A P R AT I D O S S A N T O S

Surpreende o fato de a literatura canadense ser tão pouco conheci


da no Brasil, uma vez que sua história e várias de suas características
apresentam mais semelhança com a literatura latino-americana do que
com a literatura estadunidense, apesar da grande influência da cultura
dos Estados Unidos sobre a do Canadá.
Para examinarmos alguns dos traços peculiares da fascinante lite
ratura canadense de língua inglesa, podemos utilizar três de seus produ
tos: dois ensaios críticos e um romance. Northrop Frye, no ensaio "Com
partilhando um continente"("Sharing a continent")' trata da questão da
identidade canadense à sombra de seu poderoso vizinho. Margaret
Atwood, uma das romancistas canadenses mais conhecidas fora de seu
país, também entra pelo tema da identidade em um livro de crítica
intitulado Sobrevivência (Survival). A teoria que ela traça, baseada nos
temas das obras canadenses mais significativas, de que o esforço para
sobreviver é tão dominante a ponto de transformar em vítimas os perso
nagens centrais de grande número de obras, é muito bem exemplificado
pelo romance Zí/ií/osperdedores (Beautiful losers), de Leonard Cohen.
Em "Compartilhando um continente"(1982) Northrop Frye
(p.206-16) argumenta contra a impressão inicial de que a cultura norte-
americana é a mesma no Canadá e nos Estados Unidos, oriunda, prova
velmente do fato de muitos canadenses terem familiares no Estados Uni
dos e terem viajado com freqüência ao país vizinho. Na verdade, Frye
salienta, a história e a geografia dos dois países são tão diferentes, que a
resposta cultural aos fatos só poderia ser diversa.
A primeira grande diferença, também detectada por Atwood, é a
' As traduções dos títulos das obras mencionadas neste trabalho são minhas. Os títulos
originais aparecem em parênteses.

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de identidade nacional. Enquanto a maioria dos estadunidenses é condi traçando os princípios amplos e simples de uma constituição que ainda
cionado, desde a infância, a considerar-se cidadão de uma das grandes hoje é respeitada. Também articularam-se desde o século 18, com George
potências mundiais, os canadenses crescem em um país de identidade Washington, John Adams, Thomas Jefferson e Benjamin Franklin. No
incerta, de passado confuso e futuro indeterminado. Canadá dos séculos 16 e 17 só se ouve o relato de descobridores e aventu

Geograficamente, os Estados Unidos desenvolveram-se em tomo do reiros, uma voz francesa. Depois de três invasões sucessivas, em meados
eixo Norte-Sul, ao mesmo tempo empurrando sua fronteira oeste até o Pa do século 18, passa a ouvir-se a voz canadense inglesa, timidamente es
cífico, ultrapassando montanhas e rios. O Canadá é quase um país boçando o imaginário canadense. No século 19, enquanto a literatura
unidimensional, tendo se estendido sobre uma faixa de terra quase tão es estadunidense atinge sua maioridade nacional com nomes da estatura de
treita quanto o Chile, mais longa e mais entrecortada, sempre na direção Nathanael Hawthome e Herman Melville, o Canadá não atinge esse mo
leste-oeste. Enquanto na imaginação dos estadunidenses a fronteira sempre mento de autodefinição tão clara, nem após o estabelecimento da Confe
foi um horizonte aberto a oeste, para os canadenses, em cada região, a fron deração em 1867. A partir de então, o Quebec tenta construir e manter
teira é circular, fechada por sua geografia: a Colúmbia Britânica separada uma identidade canadense-francesa de resistência à emergente cultura ca-
das pradarias centrais pelas montanhas rochosas, as pradarias dos Canadás nadense-inglesa e passa a narrar a realidade mais próxima - o inverno, os
pelo imenso vazio do nordeste de Ontário, o Quebec das províncias maríti animais, os imigrantes - passa a falar aos compatriotas.^
mas pelo avanço do Maine, as marítimas da Terra Nova pelo mar. Aparen No século 20, o radicalismo conservador da política canadense
temente a firase de Rilke, "duas solidões" emprestada por Hugh MacLennan conviveu, em plena era do progresso, no mesmo continente, com uma
para se referir ao isolamento mútuo das culturas inglesa e francesa em das mais dinâmicas nações do mundo, mantendo-se na contra-corrente
Montreal, poderia ser estendida a todo o Canadá, diz Frye, pois encontra-se da história por várias décadas. As duas grandes guerras mudaram bas
solidões tocando outras solidões por todo o país. E além dessas separações, tante esse cenário pois as ondas de imigrantes que aportaram no Cana
ainda jaz silencioso o norte de vastos lagos, rios e ilhas que até mesmo dá, de números elevados e origens variadas, adaptaram-se melhor e di
poucos canadenses já viram. Whyndham Lewis, um visitante britânico, namizaram o País. Por outro lado, a manutenção de uma relação sólida
observou que "este imenso habitat vazio deve continuar a dominar esta entre Igreja e Estado assegurou uma cultura distinta ao Extremo Norte
nação psicologicamente e, portanto, culturalmente." (FRYE, p.207) do continente. Até o separatismo quebequense passou a reforçar, após
O grupo de condicionantes políticos é de igual importância pois o 1960, a emergência súbita e dramática da cultura canadense de língua
Canadá seguiu um caminho quase inverso ao estadunidense neste aspec inglesa. Os escritores do Canadá francês tiveram uma vantagem consi
to. Os Estados Unidos combateram um grande poder europeu no século derável, pois todo o poeta, romancista sabia de sua importância na pre
18, firmaram sua independência e, apenas um século mais tarde, enfren servação de uma língua e uma cultura ameaçadas.
taram uma guerra civil. O Canadá foi palco de uma disputa entre poderes Ao final do ensaio, Frye alerta para o erro de, diante desses fatos,
europeus em seu próprio solo no século 18 e de um movimento de inde considerarmos a cultura canadense aboitiva e quixotesca, ^ós a Segun
pendência contra seu parceiro norte-americano no século 19. Frye relata o da Guerra, a maioria das características de isolamento começaram a cair e
quase total desconhecimento, por parte dos estadunidenses, de que o bom com elas as restrições culturais de um país consciente de pertencer a si
bardeio de Washington durante a disputa por Nova Orleans envolveu o mesmo e também ao mundo moderno. O ritmo descentralizante das regi
Canadá e, na verdade, fazia parte de um movimento de independência do ões passou a ser uma vantagem, bem como a forte relação do povo com a
Canadá. Para os estadunidenses, esse bombardeio foi uma represália dos natureza, os índios, os animais. "Para onde quer que olhemos na literatura
franceses pelo ataque à região onde hoje situa-se a cidade de Toronto.
Mais importante ainda, os Estados Unidos imaginaram-se como uma 'Para mais detalhes sobre o surgimento da literatura canadense desde os tempos coloni
ais até o nosso século, ver Vozes do Quebec, Zilá Berad e Joseph Melançon, orgs. (Porto
nação unificada, antes mesmo de desembarcarem no novo continente.
Alegre: Editora da Universidade/UFRGS, 1991)

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e na pintura canadenses, somos enfeitiçados pelo mundo natural e nem O pequeno guia de Atwood é, talvez, parte de sua procura por
mesmo os mais sofisticados artistas canadenses conseguem manter longe respostas às perguntas que compõem o título da introdução: "O que, por
de sua imaginação algo de primitivo e arcaico," afirma Frye (p.214). Hoje que e onde é aqui?" Segundo ela, a resposta a "O que há para ler sobre
em dia ninguém saberia definir o que é ser cem por cento canadense, pois este país?" é, na verdade, a resposta a "O que há para escrever sobre este
o País não só foi colonizado por dois povos, como foi consolidado por país?" Uma vez que escrever no Canadá sempre foi um ato privado do
várias outras raças: escoceses, irlandeses, portugueses, centro-europeus, qual inclusive a audiência foi excluída, até mesmo porque ela inexistia
indianos, gregos, italianos, orientais, e outros. "Não somos mais um exér durante uma boa parte do tempo, ensinar literatura canadense tomou-se
cito de ocupação," constata Frye, "e os nativos somos nós." (p.215) um ato político, diz Atwood. Essa declaração a conduz a mais duas per
Esse conjunto de condições aproxima de nós, latinos, a cultura guntas: "O que é canadense na literatura canadense?" e "Por que dar-se
canadense: no caso do Brasil, a língua portuguesa e a floresta amazônica ao trabalho de lê-la?" As respostas que encontramos, afirma ela, depen
a nos separarem da maioria dos países de fala espanhola; o desprezo dem das perguntas que fazemos e a pergunta de Atwood sobre os auto
mútuo e o olhar sempre voltado para a Europa ou, mais recentemente, res canadenses é "Sobre o que escrevem os escritores?"
para o continente norte-americano; a selva tropical - perigo intranspomvel Na experiência de Atwood, o ensino da literatura no Canadá enfa
equivalente às planícies geladas do Norte; o duro aprendizado da sobre tiza o pessoal e o universal, mas deixa de lado o nacional ou cultural.
vivência para aqueles que tentaram aplicar sobre uma natureza todo- "Isto é como tentar ensinar anatomia examinando somente a cabeça e os
poderosa e nações indígenas com culturas ricas e seculares inúteis mo pés," pensa ela. Uma boa razão para ler, prossegue Atwood, é para ter
delos de civilização europeus; a colonização exploratória, os genocídios, uma idéia mais completa sobre um povo vivendo em um local e espaço
fontes da culpa em relação à terra, aos nativos e aos animais que hoje em determinada época e é mais fácil reconhecê-los se este espaço e este
tentamos expiar, política e culturalmente. tempo forem os seus. Além disso, ela concorda com Warkentin, e con
Margaret Atwood abre seu "guia temático da literatura canaden sidera a arte um espelho onde o leitor não vê o escritor, mas a si mesmo;
se" com quatro epígrafes, das quais duas merecem atenção especial: e ao fundo, atrás de sua imagem, um reflexo do mundo em que vive.
Quanto à pergunta de Frye, "Onde é aqui?", Atwood descreve a literatu
Aqueles que procuram uma identidade canadense falharam em reconhe ra como um mapa também, uma geografia da mente. E os canadenses
cer que só é possível identificar-se com aquilo que se vê ou se reconhece. necessitam desse mapa desesperadamente, ela destaca, pois a necessi
Pensa-se simplesmente na imagem de um espelho. Nenhum outro país se dade de saber sobre o "aqui", se aqui é onde vivemos, é essencial para a
importa conosco o suficiente para nos devolver uma imagem de nós mes sobrevivência.
mos da qual possamos, pelo menos, nos ressentir. E, aparentemente, não
As leituras de Atwood na infância e adolescência, segundo seu
conseguimos fazê-lo nós mesmos porque até agora nossas tentativas de
fazê-lo têm lembrado aquela história dos três cegos tentando descrever relato, foram uma mistura de Capitão Marvel, Batman, Pato Donald,
um elefante. Algumas da descrições têm seu valor, mas sua soma é Alice no país das maravilhas. Sir Walter Scott e Edgar Allan Poe, entre
fragementária, indecifrável. Com o quê nos identificaremos? outros. Até que foi presenteada com dois livros 'diferentes': Reis no
Germaine Warkentin, An image in the mirror (Atwood, p.9). exílio, de Charles G.D. Roberts e Animais selvagens que eu conheci, de
Ernest Thompson. Essas eram histórias de partir o coração sobre ani
Parece-me que a sensibilidade canadense foi profundamente perturbada, mais capturados, enjaulados, atormentados. Mais perturbadoras porque
não tanto por nosso famoso problema de identidade, importante como os animais eram mais reais, não eram do circo, mas dos bosques; uma
ele é, mas por uma série de paradoxos que confrontam essa identidade. morte mais mundana, como a de coelhos. E a jovem Atwood dá-se con
Está menos perplexa ante a pergunta "Quem sou?" do que ante algum ta de que esses contos eram mais reais - um porco-espinho agonizante
enigma como "Onde é aqui?" ela já vira; ela nunca vira um homem dentro de uma armadura. E não só
Northrop Frye, The bush garden. (Atwood, p.lO).

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o conteúdo desses livros parecia mais real, mas suas formas e seus pa Símbolos correspondentes seriam a ilha, para a Inglaterra, aponta
drões também. As histórias desses animais eram sobre a luta pela sobre Atwood. A ilha como corpo político, autocontido; o castelo feudal como
vivência. Um outro livro de Seton, Sabedoria do bosque selvagem, é
símbolo, uma estrutura insular, um microcosmo dentro desse corpo po
um verdadeiro manual de sobrevivência, com receitas de panquecas de lítico.
pólen e ensopado de junco, para preparar caso você se perdesse na mata. No Canadá, e a autora procurou exemplos tanto na literatura cana
A sabedoria de não comer a fruta ou a raiz erradas, não irritar um alce dense de língua inglesa quanto na de língua francesa, é a sobrevivência,
no cio eram questões de vida ou morte. Neste mundo Super-homem não
survival, la survivance, também uma idéia multifacetada e adaptável. Para
aparecia voando pelos céus para salvá-lo no último minuto. O segredo os primeiros exploradores significou a sobrevivência aos elementos hos
era ficar vivo usando uma mistura de sabedoria, experiência e expedi
tis, aos nativos: fazer um lugar onde se manter vivo. A palavra também
entes individuais. No mundo animal não havia fínais felizes: uma esca
pode sugerir, afirma Atwood, sobreviver a um desastre natural, a aciden
pada era apenas momentânea, até a próxima armadilha. Um mundo sem tes. Para os canadenses franceses, após a tomada pelos ingleses, o signifi
heróis, um mundo de meros sobreviventes. cado foi de sobrevivência cultural, de retenção de uma religião e uma
Finalmente, quando encontrou um livro com o título específico de língua sob um governo alienígena. Para os canadenses ingleses o mesmo
Antologia de contos canadenses escrito na capa, Atwood não se surpre sentido de resistência é verdadeiro em relação aos Estados Unidos. Mas a
endeu: lá estavam aqueles animais fugindo, aqueles homens tentando
evitar um acidente fatal; um mundo de corpos congelados, neve e o principal idéia continua sendo a primeira: manter-se vivo.
Para Atwood, a idéia central é a que gera uma ansiedade quase
sempre presente sentimento de insegurança acerca de tudo que os rodea intolerável: os contos canadenses são relatos, não sobre os que triunfa
va. Atwood relata essa experiência especialmente por ela não ser co
mum e por acreditar que a maioria das pessoas de sua geração não teve ram, mas sobre aqueles que conseguiram retomar do terrível confronto
esse contato com sua literatura nacional na infância e adolescência. O com o Norte gelado, as tempestades de neve, o navio naufragado, que
dizimou todos os demais. O sobrevivente não experimenta nenhuma
guia de Atwood declara, nas primeiras páginas, seu objetivo didático, vitória ou triunfo, o único sentimento que carrega é o de gratidão pela
dizendo-se destinado a ajudar secundaristas, universitários e professo
res dispostos a encarar um tópico que nunca estudaram antes: canlit. própria sobrevivência.
Avisando-nos de que para começar a definir a forma que essas leitu Lxjgicamente, relata Atwood, a preocupação com a sobrevivência
ras tomam para ela é preciso generalizar, Atwood argumenta a favor da toma-se a preocupação com os obstáculos a essa sobrevivência. Para os
ideia de que cada país ou cultura possui uma identidade unificadora sim- primeiros escritores esses obstáculos são extemos: a terra, o clima etc.
bolizada çr u^ palavra, uma frase, uma idéia, uma imagem, ou todas Para os escritores de períodos mais recentes, esses obstáculos tomam-
elas. Nos Estados Umdos este símbolo seria a fronteira, uma idéia flexí se mais intemos e mais difíceis de identificar. Eles não são mais obstá
vel que sugere o novo onde a veh
l a ordem pode ser descartada, uma n
il ha culos físicos à sobrevivência, mas obstáculos à sobrevivência espiri
de ey ansão ou de conqusi ta de terrtióro
i vrigem - o Oeste, o resto do tual, cultural, à vida mais do que minimamente física.
mun o, o espaço, a pobreza ou as regõ
i es da mente-uma esperança, nm
i ca E Atwood passa a nos dar uma lista de exemplos de enredos de
compe l tamente reazil ada, de uma utopa i : a da soce
i dade perfetia. Grande obras sobre aqueles que conseguem sobreviver, aqueles que falham e
parte da hteratura estadund i ense contemporânea é sobre o descompasso alguns mutilados, mas exitosos: ■
entre a promessa e a realidade, entre o imaginado Oeste Dourado e a E.J. Pratt, autor do famoso Titanic (The Titanic), descreve um na
realidade esquálida do materialismo. Alguns estadunidenses, pensa vio que bate num iceberg ocasionando a morte de quase todos os passa-
Atwood, ate confundem a read il ade com o sonho e para estes o paraíso geiroSk IBiXíiBrébeufe seus irmãos (Brébeuf and his brethren), Pratt nar
ra a sobrevivência de um gmpo de padres, após grandes martírios, para
pode ser um Hotel Hilton com um máquina de Coca-Cola. serem finalmente mortos pelos índios.

130 131
Margaret Lawrence, em Anjo de pedra (Stone angel) retrata uma no, a Deus, à biologia (caso das mulheres), à história, à economia, ao
velha, ferrozmente aganada à vida, que acaba morrendo. inconsciente - qualquer idéia grande e poderosa; a causas vastas, nebu
Roch Carrier, eraÉ o sol, Philíbert? (Is it the sun, Philibert?) narra a losas e, sobretudo, imutáveis.
saga de um homem que escapa de indescritível pobreza rural e de terríveis Posição 3: reconhece a posição de vítima mas recusa-se a aceitar a
condições urbanas, quase triunfa, mas morre em um acidente de carro. inevitabilidade do fato. Nesse caso o perigo é tornar-se presa do rancor
John Marlyn nos apresenta, em Sob as costelas da morte (Under e voltar à posição 2.
the ribs of death), um personagem que se mutila espiritualmente para Posição 4: pessoa crítica, não-vítima, que não aceita as versões do
vencer e fracassa. o p r e s s o r.
Sinclair Ross narra a vida de um religioso que odeia seu emprego, A experiência da vitimização não é linear, acautela Atwood, e ra
mutila-se artisticamente para permanecer nele e parece ter uma chance ramente uma pessoa fica por muito tempo em uma posição.
duvidosa de escapar no final de Sobre mim e a minha casa (As for me O escritor, no momento em que cria, presume Atwood, está na
and my house). posição 4. O assunto de sua obra pode estar vindo da posição 2, e a
O escritor que Ernest Butler cria em A montanha e o vale (The energia que ele coloca na narrativa da posição 3. Sua intenção, diz
mountain and the valley), não consegue escrever; ele tem uma visão de Atwood, não é examinar a alma dos escritores canadenses, mas analisar
suas possibilidades mas morre antes de realizá-las. romances e poemas como expressões das posições em si, não das posi
O personagem central de Gaene Gibson em Comunhão (Communion), ções dos autores.
não consegue estabelecer contatos humanos e ao tentar salvar um cão doen O guia temático apresenta três capítulos onde são examinados os
te acaba morrendo queimado. padrões das obras sobre os homens brancos e o que eles encontraram na
Após essa introdução, o guia temático de Atwood reúne amostras de chegada ao País. Os três capítulos seguintes lidam com o uso que a
prosa e poesia de todas as regiões do Canadá entre 1930 e 1970. Ela alerta literatura canadense faz de suas figuras ancestrais. Dois outros capítu
para o possível argumento de que, por ter sido escrita em sua maior parte los lidam com duas figuras representativas, o artista canadense, geral
no século 20, a literatura canadense, irônica e pessimista, apenas refletiria mente homem, e a mulher canadense. Os dois últimos capítulos tentam
uma tendência mundial. Mas na literatura canadense essas características iluminar o pessimismo da literatura canadenses com algumas reflexões
acabam por ser dominantes, sem que isso indique, contudo, uma tendên destinadas a clarear seus significados.
cia mórbida ou neurotica por parte dos autores canadenses. Para provar Como Frye, Atwood preocupa-se em destacar o lado positivo da
seu ponto de vista, Atwood nos oferece uma teoria. escritura canadense. Embora predominem as narrativas dark, também
Suponhamos,Atwood propõe, que o Canadá se veja como uma há exemplos de escapadas, mudanças positivas e revelações. Boa parte
vitima coletiva, como oprimido e explorado, como dotado de uma men da literatura canadense, ela ensina, é sobre realidades que não deseja
talidade wlomal. A partir daí, ela identifica "quatro posições básicas de mos; o diagnóstico, o primeiro passo para a cura. Nomear uma realida
vitma. Como as posições básicas em balet, ou escalas em um piano, de não significa concordar com ela e talvez ajude a visualizar condições
ea
lssaopnmanasmastodososp
tiosdevara
içõesdemúsciaedançase mais desejáveis.
tomam possíveis a partir delas. As posições são as mesmas, Atwood O romance de Leonard Cohen, Lindos perdedores (1966), pode
avisa, para um pais, um gmpo minoritário ou um indivíduo. nos oferecer um magnífico exemplo das reflexões críticas de Frye e
Atwood. Cohen é conhecido por sua visão noir e violenta, pelo seu sen
Posçi ão 1: nega o fato de que é vítm
i a por medo de perder prvi é
li - so de humor negro e por sua linguagem sensual. Seus perdedores são ao
glos, abnga rancor contra as vítimas que comentam sua situação. mesmo tempo pós-modernos e pós-coloniais.
Posição 2: reconhece a condição de vítima mas a atribui ao desti O romance é ambientado na Montreal dos anos 60 e retrata três

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personagens centrais: o narrador do primeiro livro, seu amigo e amante ela afirma, "uma grande e irônica reversão da tradição do Verbo feito
F., narrador do segundo livro, e sua esposa-índia Edith. Os três tipos são carne. A sexualidade, e até obscenidade, do tema e da linguagem nos
marginais - um inglês vivendo em Montreal (como o próprio Cohen), convidam a ver que aqui a carne é feita verbo. Na verdade, sem a carne
um separatista francês e uma mulher índia - todos vivendo em um cená talvez não houvesse verbo (Hutcheon, p.27-8).
rio cosmopolita, símbolo do Canadá. Cohen faz uso de vários intertextos: a presença constante da por
O marido de Edith é especialista nos estudos da tribo de sua espo nografia; analogias da violação das mulheres índias com a colonização,
sa. Ela é a última representante de sua tribo e acaba de suicidar-se. Seu da exploração econômica com a sexual, representadas pelo sadomaso-
marido escreve para expiar a culpa e o pesar. Assim, o primeiro livro quismo; o comercialismo disfarçado nas ordens religiosas, os jesuítas e
conta a história dos três amigos-amantes superposta à narrativa das su a (ironicamente denominada) "Companhia de Jesus", são alguns dos
cessivas colonizações do país. exemplos nesse livro denso e complexo como os labirintos borgeanos.
O segundo livro narra os mesmos incidentes sob a forma de uma Edith, aos treze anos, é violada por quatro homens que tomam-se
longa carta de F. escrita de um manicômio judiciário onde ele está inter impotentes ao saber que ela não e mais "o outro", o índio, mas uma
nado. O primeiro livro afirma que F. já morreu. A carta fora escrita "Irmã", a índia convertida, cristã como eles. A violação é então cometi
antes do marido de Edith ter escrito o primeiro livro, para ser lida cinco da com dedos indicadores, cachimbos, canetas e gravetos. Indicadores,
anos depois da morte de F., mas não há indicações de que o narrador do em inglês, faz um trocadilho com Index, indexador, as fichas da pesqui
sa do marido de Edith sobre a tribo a que ela pertenceu. Fichário lembra
primeiro livro a tenha lido.
O terceiro livro, um epílogo intitulado "Lindos perdedores," é nar algo registrado e guardado, esquecido em uma gaveta, condição a que
rado na terceira pessoa. O personagem central aqui é um velho còm as foram reduzidos os indios da tribo de Edith agora que sua última repre
feições de ambos os narradores anteriores e também tio de uma santa sentante suicidou-se. Os cachimbos representam, ironicamente, a paz,
indígena descrita no primeiro livro. A figura feminina funde Edith e a um símbolo de comunhão religiosa entre os índios transformados em
deusa Isis. Essas trindades pouco santificadas, representam o epílogo da instrumento de agressão carnal. As canetas representam o registro es
busca de identidade e da verdade sobre o Canadá e, ao mesmo tempo, crito da colonização, sempre descrito pelo conquistador, que violenta a
acabam com qualquer identidade convencional. terra e seu povo. Os gravetos, geralmente aliados dos índios, usados
Com a morte do personagem tradicional, a intrusão do autor se como utensílios para proteção, para fazer fogo, aqui são usados contra a
torna explícita; com os personagens todos mortos o autor ressuscita, adolescente índia. Além disso, a violação se dá em um espaço territorial
não na terceira pessoa, mas em uma pessoa nova, plural e singular ao pertencente aos Estados Unidos, uma empresa estadunidense. Essa
mesmo tempo. A estrutura do romance implode a capacidade de comu autodestruição do processo colonizador acaba por produzir somente
nicação. O eu e o tu são recíprocos e interdependentes - um o espelho do perdedores, nem todos lindos.
outro - enquanto a terceira pessoa ocupa uma posição fora do discurso. O romance também encerra uma busca ontológica pela história de
O leitor, chamado a participar, a montar o quebra-cabeça de identidades Santa Catharina Tekakwitha, a virgem iroquesa. Descobrir a verdadeira
e realidades superpostas, ouve os vários personagens, exposto à verda história de Catharina, seu verdadeiro nome, seria dominar essa história
deira posição de leitor. A comunicação bilateral, no entanto, é ilusória, e, portanto, violentar a santa outra vez. A busca pelos fatos verdadeiros
pois os dois primeiros livros são monólogos e o fim invoca o rádio - no também inclui um comparação do ato de nomear com o ato de traduzir
final as vozes dos personagens se perdem e são substituídas pelo eu e o de rezar, portanto de colonizar, representar as pessoas e os locais na
autorial. Linda Hutcheon destaca que a participação do leitor, embora linguagem do dominador. Ainda ligados à alteridade, estão as metamor
pareça passiva no romance pós-moderno (do qual Cohen é um dos pri foses dos índios em gregos e referências ap / Ching, o livro das muta
meiros representantes no Canadá), não o é. Há em Lindos perdedores, ções: perder-se é igual a achar-se.
Cohen é um romancista com um pé no Quebec e outro no Canadá
inglês que reflete sua experiência das "duas solidões" nas complexida
des e paradoxos de seu texto, explorando desde o pós-colonialismo da
alteridade até o pós-modemismo do domínio: físico, cultural ou espiri
Os romances de Anne Hébert: uma fonte
tual. Sua obsessão com o sexual reflete sua obsessão com a criação e
com o seu fracasso. para o estudo da literatura quebequense
Como afirma Atwood, o pano de fundo da literatura canadense é
escuro e negativo e isso ao mesmo tempo reflete e define a sensibilida
de nacional. Mas qualquer mapa, mesmo sombrio, é melhor do que não NÚBIAJ. HANCIAU
ter mapa, diz Atwood, e as tradições não existem para enterrar o artista,
pois podem ser usadas como material para novos começos. E ela ainda
tem mais perguntas: A terra onde vivemos há trezentos anos é terra do Norte e terra da

América; nós pertencemos a ela como a fauna e a flora. Seu clima e


Sobrevivemos? paisagem nos modularam, tanto quanto as contingências históricas,
culturais, religiosas e lingüísticas.
E o que acontece depois da sobrevivência? (Anne Hébert)

A experiência bilíngüe do Canadá é única na América do Norte e


certamente justifica a grande diversidade da literatura canadense. O Nú
cleo de Estudos Canadenses da Universidade Federal do Rio Grande do A análise do corpus literário em língua francesa na América, cujas
Sul espera despertar, através de seminários como este, curiosidade sufici características de passado colonial se aproximam às do Brasil, poderá
ente para que alguns estudantes e professores brasileiros sejam estimula conduzir a uma melhor compreensão de nossa formação cultural. O in
dos a procurar seus próprios caminhos por esse mundo fantástico e intri teresse particular pela produção literária do Quebec deve-se ao duplo
gante que faz parte da história e da realidade de nosso Continente e, por movimento de détouriretour, que se intensifica nos anos 80. Estuda-se
tanto, de nossa identidade americana. Quem sabe, estudando a literatura o "outro", o quebequense e sua americanidade, para melhor nos conhe
canadense não acabamos descobrindo que o outro somos nós? cermos, melhor descobrirmos semelhanças, especificidades, individua
lidades e originalidades.
A história da literatura firancófona da América do Norte, hoje de
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS nominada literatura quebequense, ainda nova no contexto intemacional,
apresenta características semelhantes às que concorrem na formação do
ATWOOD, Margaret. Survival. A thematic guide to Canadian literature. To País, Dessa forma, sua trajetória se desenvolve desde a luta travada para
ronto: Anansi, 1972. As traduçõe são minhas. romper o fechamento e o isolamento, até a instalação, em nossos dias,
COHEN, Leonard. Beautiful losers. Toronto: McCleland and Steward, 1966. de uma identidade nacional e de uma palavra autônoma.
FRYE, Northrop. Sharing a continent. In: A passion for identity. Eli Mandei e Esse percurso se inscreve na ficção romanesca de Anne Hébert
David Taras, eds. Scarborough, Ontario: Nelson, 1988. As traduções são que atravessa a história do Quebec e estabelece em sua produção literá-
minhas.

HUTCHEON, Linda. The Canadian postmodern. Toronto, New York, Oxford:


Oxford University Press, 1988. Este ensaio resume uma parte da dissertação de mestrado apresentada em junho de 1994,
na área de Estudos Francófonos do CPG-Letras da UFRGS.

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137
ria relações com as ideologias que predominaram no Canadá francês. plares, trazendo à tona um imaginário desenfreado, chamando à
Sua narrativa remonta à Nova França, passa pela dominação britânica, intertextualidade a Bíblia e Shakespeare, sem negligenciar a simbologia
enfocando a idéia da sobrevivência nacional, cuja garantia se encontra e a mitologia. Sonhos, conflitos sociais, personagens admiráveis ou
na manutenção da religião católica, da língua e das tradições francesas caricaturais, apelos constantes às dominantes literárias do País são as
e, mais tarde, acompanha as demais ideologias predominantes no País pectos que concorrem para o caráter polifônico da obra hébertiana.
(conservadora, contestatora e de pre-recuperação nacional), até a passa Seus romances não estão ligados a nenhum conceito literário es
gem para o século 20, quando a vida tradicional canadense-francesa se pecífico, mas sim participam de todos os movimentos, embora o real e
transforma, graças ao desenvolvimento industrial e comercial. notadamente o social ocupem um lugar preponderante.
Reconhecida pela instituição literária e por um público numeroso A importância de Anne Hébert no contexto da literatura america
e fiel, Anne Hébert situa-se entre os mais renomados escritores na de expressão francesa é incontestável. Sua produção abrange grande
quebequenses contemporâneos. Traduzida em muitas línguas, sua obra parte de nosso século, distribuindo-se dos anos 40 até hoje. Partindo do
possui leitores no mundo inteiro. Desde a publicação de sua primeira individual, ela retrata a sociedade em geral e atinge o universal. Por
coletânea de poemas, Songes en êquilibre (1942), livros e prêmios vezes, o recuo ao passado serve para romper com valores estabelecidos
se sucedem. Pesquisas sobre sua produção literária se intensificam, tan e para propulsar seus personagens ao futuro.
to no Quebec quanto além de suas fronteiras. Seus tomanc&s Kamouraska
e Les Fous de Bassan são adaptados para o cinema e traduzidos para o
português. Ensaios críticos e uma tese de doutoramento foram também A PRODUÇÃO ROMANESCA DE ANNE HÉBERT
consagrados à autora no Brasil.
Anne Hébèrt associa-se àqueles que falam de seu país, preocupan Les chambres de bois (1958)
do-se esteticamente em confirmar sua existência. As grandes extensões,
o vento, o frio, a neve e o gelo são, muitas vezes, fonte de inspiração da Esse primeiro romance hebertiano relata a história de dois jovens.
literatura local. Referir tais aspectos serve para evidenciar as relações Ela, sonhadora, deixa-se fascinar pelo domínio senhorial, pelo ócio e
do povo não só com sua história, mas também com seu espaço geográ pela vida fácil de mulher-objeto. Ele, pianista frio e incapaz de amar,
fico, configurando-lhes identidade singular e estabelecendo fundamen confina-a em quartos fechados, para guardá-la em sua forma mais pura.
tos de uma autonomia literária. Uma série de quadros seqüenciais, universos isolados quase sufi
À medida que o Quebec vai encontrando sua identidade, o enfoque cientes, substituem os capítulos convencionais e conferem à obra uma
muda. Qs textos se organizam em tomo de outros paradigmas como o densidade poética. Q leitor assiste, ao longo das três partes que constitu
espaço, a construção do sujeito estabelecendo uma relação de em Z,es Chambres,de bois, a uma decida ao abismo, a um rito funerário,
circularidade eiri tomo desse espaço. Ao invés de remeter a um "eu" ou panorama que só se reverte ao término do romance, quando a heroína
â um "nós" coletivo, abandona-se à imobilidade, viajando além, em di encontra a coragem para fugir do abafamento, romper com os laços que
reção ao outro e a outros lugares, abrindo caminho ao futuro e a um a ligam ao marido e partir para a conquista de seu amor, onde reencontra
mundo novo. Tal viagem e distanciamento transformam o escritor ao a luz e a juventude.
mesmo tempo em que exercem influência sobre o texto, reorganizando- Nessa obra, a expressão do amor no feminino é introduzida na
o e imprimindo-lhe novas significações. literatura do Canadá francês. A revolta da personagem - embora ainda
Vivendo em Paris há muitos anos, o olhar da escritora Anne Hébert timidamente -, propõe o questionamento dos valores sociais, religiosos
volta-se para o Quebec, sua terra natal, onde busca a inspiração para sua e ideológicos, e desvela a visão dualista e oposta do universo hebertiano.
narrativa, aí mergulhando suas raízes e retirando imagens das mais exem Essa trajetória da alienação à liberação é observada no percurso do

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Quebec. Como a personagem, o País guarda a força do espírito original/ de modelada pela jurisdição inglesa. Inquieta-se sobretudo com os efeitos
infantil para sair dos impasses vitais onde pereceria. psíquicos que uma educação jansenista pode causar. Como outros escri
BxaLes Chambres de bois Anne Hébert justapõe o real e o irreal, tores de sua época, ela acusa o clero de transmitir valores desnaturados e
criando um universo imaginário e onírico, onde o estranho espreita o alienadores, pregando uma religião alicerçada na obsessão do pecado.
leitor insidiosamente. A autora traduz o drama de seu próprio desenvol Kamouraska é permeado de simbologias que sustentam sua cons
vimento interior, da unidade rompida, da divisão do corpo e do espírito, trução e dinamizam a obra. O dualismo, parente próximo do
desde a infância quebequense até as metamorfoses verificadas em sua
maniqueísmo, encontra nas preocupações de uma burguesia puritana o
visão de mundo, pelo contato que trava com o exterior. alimento necessário para a eclosão de um universo de imagens antitéticas,
que ilustram o absoluto da morte e da vida, do bem e do mal. A isotopia
Kamouraska{191Q) hibernai domina numerosas passagens do romance. Atrás da aparente
brancura e do silêncio da neve, esconde-se a morte.
Doze anos mais tarde, depois de longas pesquisas nos arquivos A aparição de uma mulher negra e enterrada viva, de conformação
jurídicos do Quebec, Anne Hébert volta ao século 19 e, inspirada num alegórica, no fim do romance, possibilita muitas significações. Na pena
"fait divers", conta em Kamouraska, a história de uma jovem da alta de Anne Hébert, a imagem dessa nova mulher, no exato momento em
burguesia quebequense, acusada de assassinar seu marido com a ajuda que Elisabeth volta ao seu papel de esposa-raodelo, contém uma enor
do amante, um jovem médico da cidade de Sorel. me e contida força: a de uma cultura feminina reprimida pela cultura de
O pano de fundo político do romance é a Rebelião dos Patriotas,
em 1837-1838, reforçado pelo fantasma da rainha Vitória e pela presen dominação masculina, tentando irromper e se afirmar no contexto cul
tural quebequense.
ça inglesa. Anne Hébert respeita os acontecimentos em seus detalhes,
dando-lhes vida por meio de uma escrita complexa, em harmonia com Les enfants du sabbat (1975)
seu universo imaginário, onde a paixão é condenada de antemão, sem
redenção possível. O catolicismo que impregna a vida quebequense, antes da Revolu
N P tempo não apagara a dor do amor perdido. Prisioneira de sua
ção tranqüila, apresenta uma bela aparência de homogeneidade. No en
^ memleómbranças
ria, a heroeínrevi
a, E lisabeth dA
' ulnières, mergulha na tempestade das
ve em sonho uma juventude tumultuada. Desencadeia-
tanto, a realidade tem suas zonas sombrias. O rito oficial, celebrado em
plena luz do dia e reforçado pelo aparelho social, invoca e suscita ritos
^ se o passado, que traz à cena o assassinato do marido na neve e no frio noturnos e magia negra. O sabbat corresponde à missa, constituindo seu
de Kamouraska. O leitor é levado ao jogo simultâneo de vários regis
tros, onde se misturam a lembrança, o sonho e o presente. pólo negativo. O incesto é a forma suprema da iniciação, o ponto de
não-retomo para o futuro feiticeiro, assim como os votos o são para
Em filigrana, Anne Hébert tece em Kamouraska uma crítica viva uma freira.
à sociedade burguesa tradicional, a qual, de um lado, impede as mulhe A narrativa em Les Enfants du sabbat desenvolve-se em um con
res de saírem dos caminhos da virtude - maternidade e convento consti vento. Estamos em 1944, época em que as mulheres entravam em mas
tuíam as únicas possibildades -, e de outro as protege pela impunidade. sa em escolas de religiosas, por razões que não seriam explicadp ape
Nesse romance, como emLes Chambres de bois, o amor sexual corres nas pelo élan místico. Embora nada parecesse atingir as religiosas
ponde ao abismo moral, a falta máxima, a tara original. entrincheiradas em sua fortaleza, as notícias da guerra atravessavam as
Aime Hébert submete à crítica histórica um país onde a mulher ne paredes do confessionário. Julie de Ia Trinité, a protagonista, tem visões
cessita incorporar a máscara da inocência - oferecida por múltiplas mater- que a levarão de volta ao passado e a reconhecer-se como filha de um
nidades - para que possa libertar-se da punição aplicada por uma socieda casal de feiticeiros que vive numa cabana na floresta da montanha de

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B.... Prisioneira do convento das damas do Précieux- Sang, Julie decide conhecida e premiada pela pureza de sua língua. É bem provável que ela
acertar as contas com o passado. tenha compreendido que os conventos representavam a última proteção
A ambivalência da personagem, sua luta para desvencilhar-se de da sociedade tradicional contra um mundo em ebulição, no qual o Quebec
uma história que a oprime, é análoga à luta quebequense. Na busca da se encontrava inexoravelmente engajado.
liberação e da identidade, ambos, personagem e Quebec, insurgem-se Vê-se em Les Enfants du sabbat - romance cujo tom e temática
contra o que representam os claustros daquela época, transtornando e aproximam-se do imaginário latino-americano -, uma reflexão sobre o
subvertendo a tranqüilidade e a ordem estabelecidas. que somos e sobre o que o Quebec fez de seus filhos no período do
Descendente de uma raça maldita de feiticeiras, vindas da França conservadorismo religioso. Julie, ao contemplar-se, faz com que con
para o Canadá em um navio de imigrantes no século 17, Julie Labrosse, templemos nossas próprias profundezas. Feitiçarias e magias parecem
nascida do diabo e da bruxaria, revoluciona maliciosamente o conven ser as emanações necessárias a uma sociedade na busca de vertigens
to, numa criatividade sem fronteiras, até o paroxismo de dar à luz uma libertadoras. Em suas manifestações demoníacas, a heroína simboliza a
criança de pai ignorado. revolta que retumba ainda, uma revolta essencial, que aponta para um
O real se dilui e o fantástico emerge. Aos poucos o anjo negro Quebec em busca de uma identidade própria, cujo grito se ouvirá por
ganha forças, lembrando que homens e mulheres escondem um duplo muito tempo.
tenebroso que pactua com as forças da sombra e ameaça a todo instante
surgir. Assim, a feiticeira renasce das suas cinzas, tal Fênix, porém mais Héloise (1980)
feia, mais maldosa do que nunca. Revela-se em Julie a face escondida
do mundo. Nesse quarto romance, Anne Hébert explora ainda a escrita misteri
A infância das quebequenses dos anos 40 foi impregnada de con osa e fantástica, ultrapassando a habitual expectativa de interpretação. A
tos de fadas e de feiticeiras boas ou más, diabos, cabanas de madeira, geografia preferida muda, e a escritora instala seus personagens em Paris.
grandes florestas, inspiradoras de narrativas esplêndidas. A imagem de Héloise cristaliza-se numa das simbologias mais inquietan-
Segundo alguns críticos, Anne Hébert inspira-se em La Sorcière, tes da literatura fantástica: o Vampiro. Vida e morte se entrecruzam. Qs
de Jules Michelet, livro dedicado à glória da feiticeira, mulher-natureza. mortos parecem surgir dos túmulos e dos sonhos para sugar o sangue dos
Para Michelet como para Anne Hébert, só há sabbat para os deserdados vivos, transportando com eles a nostalgia de uma época passada.
e infelizes. O diabo só é procurado porque Deus não sabe mais ouvir a A história parece simples: Bernard e Christine, jovens e enamora
miséria dos homens.
dos, vão casar. Mas, do metrô parisiense, do fundo da terra, do nível dos
\ Não é de surpreender que a obra hebertiana, eivada do cristianis- mortos, ouve-se um canto de mulher. É a voz de Héloise, beleza branca,
/ anos 40, dê tamanha reviravolta, ridicularizando a moral religi noturna e fatal. Bernard apaixona-se perdidamente. Sua existência deriva
osa. a revolta feminina, a feitiçaria constitui-se em uma das raras então para outro universo, outra época, distante do mundo ordinário. O
possibilidades. A história de Julie, pequena freira rebelde, ou feiticeira, irreal conduz - Bernard e leitor - à descoberta de um mundo desconhecido
é a história de uma luta. Luta de uma jovem que vibra conforme as e estranho, face negra e escondida de nossa identidade, onde o tempo não
forças telúricas do universo. conta mais. Héloise carrega o jovem pelos labirintos metropolitanos, pe
Felizmente Les Enfants du sabbat só é publicado em 1975. Nos las noites da praça Maubert-Mutualité, até o dia em que, vestida de velu-
anos 40-50 - período de conservadorismo feroz, religioso e político -, a do negro e seda vermelha, passa à ação: jugular cortada, hemorragia, fe
obra teria provocado um grande escândalo. Em 75, entretanto, época de bre, delírio. Qnde está o sonho? E a realidade? Quem é Héloise?
abertura no Quebec, ao invés de ser condenada por ousar escrever o que Os indícios para identificação desse ser estranho estão dispostos
para alguns correspondia a uma torrente blasfematória, a escritora é re ao longo do romance. Um primeiro olhar é insuficiente para perceber a

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vir do passado ao presente, Anne Hébert, ao mesmo tempo em que con
figura que vai se transformando e revelando ao longo da narrativa. Seu ta a morte das jovens primas, constrói um impressionante poema em
retrato vai sendo liberado por fragmentos e detalhes. O enigma masca
rado, indecifrável do início, finalmente é desvendado; Héloíse é um vam prosa em homenagem a um país selvagem, ao mesmo tempo ameaçado
e protegido pelo mar.
piro, uma morta-viva. Beleza do dia , Christine, a noiva representa a
vida. Héloíse representa o outro lado da mulher, a prefiguração da mor Os personagens são assombrados pelo desejo reprimido. Mesmo
se tentam escondê-lo, o desejo os rodeia e sopra as paixões, obsessiva
te, se a interpretarmos alegoricamente.
Desde o início, em suas primeiras produções. Arme Hébert trabalha mente. A imagem daquela "mulher negra" que, em Kamouraska, im
com sabedoria a "inquietante estranheza" freudiana. Ela retoma o tema plora o direito de viver, traz uma advertência: aquela que se permitir
em Héloíse, associando-o à desordem do mundo e à indiferença do fim- exprimir sua fome também se arrisca, no universo romanesco de Les
de-século passado. O metrô de Paris - aprimoramento das cavernas natu Fous de Bassan, a ser castigada. A desgraça só ataca as jovens quando
rais -, as minas abandonadas, as catacumbas e os esgotos servem de décor. elas deixam de desconfiar e cedem, aceitando ir até a praia de braços
A escritora vai ainda mais longe quando coloca os mortos na superfície, dados com o seu futuro algoz.
ao cair do dia, a esgueirarem-se pelos espaços deixados pelos vivos. Anne Hébert assinala em seus textos, a emergência inovadora de
Ao término do romance, quando Héloíse conquista Bernard e des uma voz feminina. Ela opõe de forma evidente, nesse romance, o desejo
ce na estação de metrô Père Lachaise com o jovem nos braços, ela se masculino, egoísta, desencadeado por pulsões destrativas e orientado para
transforma em imagem maternal, que, comparada a uma Pietà selva a morte (o mal), a um desejo feminino são, positivo, voltado para a vida e
a felicidade (o bem). O afrontamento desses dois desejos emLesFous de
gem, anuncia a vitória da sombra, do mal e da morte, muitas vezes ga
nhadores no jogo da obra hebertiana. Bassan nos mostra a força mas não o direito, do lado masculino.
Poderíamos considerar que a morte das adolescentes, ocorrida em
Lesfous de Bassan (1982) 31 de agosto de 1936, revela uma visão hebertiana de caráter pessimis
ta, que remeteria à última página de Kamouraska, onde vemos a derrota
Em Griffin Creek, pequeno vilarejo do Quebec, perdido no fim do das tentativas da mullher negra e de Elisabeth d'Aulnières em conquis
mundo, lá onde o Saint-Laurent toma-se imenso como o mar, vive uma tar a liberdade. A morte de Bernard nos braços de Héloíse, poderia sig-
comunidade anglófona protestante, descendente dos legalistas america lúficar essa mesma derrota. Seria realmente um pessimismo da autora
nos, ali refugiados desde a guerra de independência dos Estados Uni com relação às mulheres? Bem ao contrário. Embora as adolescentes
dos. Todos os membros são mais ou menos parentes, como Olivia e morram assassinadas, elas tentam imaginar rnna relação inovadora com
NoraAtkins, duas lindas adolescentes primas-irmãs, para quem conver o homem, baseada no amor, mensagem final que responde aos anseios
gem os olhares masculinos. femininos.

\ verão de 1936, elas desaparecem misteriosamente Aqui é importante lembrar: quem se dedica a esse longo combate,
) na praia. No vilarejo, frente ao mar e ao vento, os habitantes sabem que assumindo a função de escritora, é uma mulher. Uma mulher parecendo
^ a tragédia vem de longe. Sua origem remonta à história de um povo querer ir fundo quando mergulha naquele pedaço perdido à beira do
submisso aos mandamentos de Deus. Saint-Laurent, para escrever a luta travada em Griffin Creek.
Numa época do ano em que as paixões se exasperam, a tragédia
transtorna a vida imóvel do lugar, enquanto as aves do mar os "fous de Le premier jardin (1988)
Bassan , enchem o espaço com seus gritos ensurdecedores. O vasto e
vazio universo hébertiano tem o gosto amargo da carnificina, do remor Uma atriz de origem quebequense, aposentada e vivendo no interi
so, do lamento. Utilizando uma série de monólogos e um constante ir-e- or da França, decide responder ao duplo apelo de sua filha e de um

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diretor de teatro, no Novo Mundo. Ela deixa a reclusão voluntária e dor e coração do romance. Aos poucos vão surgindo caleches, sinos de
volta à cidade natal para rever sua filha única e encarnar o papel de igrejas, a cidadela, a Grande-Allée e sua aparência de teatro, a porta
Winnie, na peça Oh! les beaux jours, de Samuel Beckett. Saint-Louis, as escadarias perigosas, o teatro Dufferin, o sopro salgado
Na realidade, o que parece resumir os acontecimentos nesse ro do Saint-Laurent, as casas burguesas e também os lugares proibidos da
mance, aparentemente desestruturado pela difícil rede temática que es infância trágica de Flora. O jogo de memória de Rafael, em simbiose
tabelece, revela-se menos um deslocamento espacial do que uma volta com a atriz, traz ao presente daquele breve e fulgurante verão a época da
ao tempo, quando a personagem chega à confrontação há muito temida. criação da nova colônia, no século 17, e a Conquista Inglesa, misturan
Assim como são entremeadas no discurso três épocas - o presente, do história e imaginação e recobrando - como sobre um palimpsesto -,
a infância da personagem e a história da Nova França, a protagonista as mínimas partes e marcas das presenças estrangeiras no Novo Mundo.
tem tripla identidade. Quando menina, acolhida por religiosas e chama Numa abundância de narrativas encadeadas, associadas a uma
da de Pierrette Paul, ela escapa de um incêndio no orfanato Saint-Louis, dialética de identificação e distanciamento, histórias verídicas e falsas
numa noite do inverno de 1927. Um casal de burgueses a adota, nome são ressuscitadas: Barbe Abbadie, morta em parto em 1670; uma mu
ando-a Marie Eventurel. A idéia de não poder mudar e a submissão a lher anônima, espancada por crime de adultério; Rosa Gaudrault, que
um destino pré-fabricado a revoltam, fazendo com que deixe o país em salvou tantas meninas do incêndio em 1927 e morreu queimada como
1937, para ser atriz no Velho Mundo. Joanna D'Arc.
Não mais Pierrette Paul, nem Marie Eventurel, mas sim Flora Os nomes das filhas do Rei, primeiras francesas que vieram povo
Fontanges, um novo nome, fruto de uma escolha pessoal, que evoca ar a Nova França, pontuam o texto, revelando o desejo incoercível de
flores, fontes e anjos, lembra o primeiro jardim e garante uma nova Flora em identificar-se sucessivamente - num jogo tão mimético como
identidade. Nasce uma filha - Maud -, que assegura o enraizamento de teatral - a essas jovens vindas há séculos fundar o país.
Flora nesta terra e uma felicidade inigualável e passageira, logo substi Se personagens/país parecem não dominar sua vida, tal fato deve-
tuída pelos compromissos profissionais. se a 1759, quando a coletividade, não mais dona de sua sorte, viu sua
Flora Fontanges, uma das maiores atrizes de seu tempo, dá corpo e identidade ser abafada por uma voz exterior. As passagens alusivas à
substância à idéia de que o ator, não sendo ninguém, pode criar uma derrota são recorrentes em Le Premier jardin. É atribuída à Conquista
multidão de vidas estrangeiras à sua. Assim ela passa a desempenhar Inglesa a decadência e o abandono de um povo inaugural da humanida
vários papéis femininos, que invadem progressivamente o texto: Fedra, de. Ao evocar com paixão tais imagens, a autora denuncia duas atitu
Celimena, Ofélia, Desdêmona..., tomando emprestado todos os nomes: des: o medo de agir e de tudo perder, e a espera da salvação que viria de
Joana D'Arc, Hedda Gabler, Adrienne Lecouvreur, Marie Tudor, Yerma,
forças externas.
Mile. Julie...
De Barbe Abbadie, passando por Marie Rollet - que veio com seu
A profissão escolhida alimenta a dupla tensão entre o "eu" e o
marido, Louis Hébert, semear o primeiro jardim no Novo Mundo -, até
"outro". Tal é o mimetismo que não se sabe exatamente quando Flora Eva, filha eternamente à procura da mãe. Flora, na busca de sua
representa ou quando exprime verdadeiramente seus gestos e emoções. genealogia, renasce em cada personagem e "inventa-se" uma descen
Em companhia de Rafael, estudante de história e amante da filha, dência de mães para substituir a sua, mulheres anônimas da Nova Fran
ela percorre sua cidade natal, numa estranha viagem pelo tempo. En ça, tomando presente o passado da Colônia.
quanto espera a volta de Maud - que repete as fugas da adolescência -, Anne Hébert reconta a história do Quebec do ponto de vista da
Flora rememora a infância e busca a usura do corpo, que lhe possibilta mulher, adotando uma abordagem diferente daquela mostrada pela his
rá encarnar a personagem de Beckett com perfeição. tória oficial. Sua obra não é dada explicitamente a ser lida como femi
Somos transplantados para Quebec, primeiro jardim, núcleo gera nista, embora tenha declarado muitas vezes, em entrevistas, sua simpa-

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tia à causa da mulher. Isso fica evidenciado na escolha da temática de
pelo tédio, Julien e Hélène realizam a viagem iniciática, curta e terrível.
sua produção romanesca, particularmente em Le Premier jardin, onde Ambos sucumbem às tentações de uma liberação prometida. Hélène
presta homenagem a um país povoado de mulheres que surgem uma a morre. Sua mãe fecha-se num sofrimento mudo, não recuperando mais,
uma ao ouvir seu nome e se fundem em Eva, mãe arquetipal fragmenta nem a palavra, nem os movimentos.
da em mil rostos. Eva remete não só às metamorfoses sofridas por Flo Adulto e ainda prisioneiro de sua infância, Julien realiza o sonho
ra, como lembra também a errância de todas as atrizes. acalentado por longo tempo de partir para Paris - terra prometida -, onde
Se a História atribui à função de nomear uma importância extre
poderia finalmente libertar-se do luto pela morte da irmã e da mãe, e das
ma, desde a chegada de Jacques Cartier à Nova França - primeiro a lembranças do passado. Julien atravessa o oceano voltando à mátria e
batizar o país -, na ficção é com insistência que Le Premier jardin evi afastando-se de sua origem. O conflito da passagem por dois espaços
dencia o processo da nominação. Nomes inventados ou encontrados nos distintos - Quebec/Paris - na tentativa de encontrar o ambiente adequa
arquivos, apagados ao longo da história, ao serem resgatados lembram do à consolidação da identidade, faz com que desponte o problema da
um canto essencial, um canto fundador. alteridade na obra. A França corresponde ao espaço de ante-exílio, que
Os primeiros tempos da Colônia recobram interesse. A magia do
verbo hébertiano os recupera e os faz renascer, superpondo os destinos permitiria a libertação do abafamento que há muito tempo o persegue.
No entanto, a sensação de sentir-se estrangeiro faz com que Julien volte
individuais dos personagens ao destino da coletividade francesa na ao país natal. Reterritoríalizando-se após uma viagem ao exterior e ao
América do Norte. Anne Hébert pertence ao pequeno grupo de escrito seu "eu", ele concebe a possibilidade de transformar-se e de partir na
res que repatriam ao Quebec a história e produção da Nova França, conquista de novos sonhos.
focalizando-os em seu texto, entremeando-os à sua ficção, numa real O exílio espacial, histórico-cultural, político e emocional, delibera-
"reconquista". Seu texto encerra a problemática central da teoria e críti damente escolhidos, não são suficientes, no entanto, para sua liberação.
ca literárias contemporâneas, que é a questão das relações identidade/ Adolescência de sonhos e tumultos, longa noite de vigília, paisa
alteridade. É particularmente na análise de Le Premier jardin que se gem do Velho Mundo, volta ao país natal são o tempo e o lugar propíci
verifica ser a busca de identidade pessoal de Flora Fontanges metom'mia os à movimentação interna do personagem. Embora o romance inicie e
da busca de reconhecimento do próprio Quebec, ambos conquistando a termine na Paris de 1970, as descrições do passado no verão de
saída da infância e a libertação via uma ação transformadora. Duchesnay, remetem ao país de Quebec, aos lugwes ensolarados e aos
riachos da geografia imaginária hebertiana. Entre tantas simbologias
L 'Enfant chargé de songes (1992) usadas pela autora, encontramos emL'Enfant chargé de songes o uni
verso de lendas quebequenses, onde diabos e duendes montam cavalos
O título da primeira coletânea de poemas de Anne Hébert, Les durante a noite.. A infância, as férias, o cavalo, o interior e o País são
Songes en équilibre, já contém a palavra-chave de uma obra cujos se assuntos que estimulam Anne Hébert, como a estimula a língua fi'ance-
gredos e extensão são inesgotáveis. Cinqüenta anos depois, a palavra sa. Ela pertence ao grupo de escritores que consideram a literatura como
volta: LE
' nfant chargé de songes - o sonho e, mais uma vez, o passado,
tendo, entre outras, a fonção e a missão de enobrecer e consolidar, atra
agora às margens do rio Duchesnay em Quebec. Uma jovem estrangeira vés de sua influência, a língua francesa enfraquecida. Enquanto signo de
fantástica surge num cavalo malhado e vem mudar para sempre o uni uma condição minoritária, numa situação de opressão, a língua francesa
verso claustrofóbico, calmo e sem histórias de dois adolescentes ingê no Quebec preocupa cidadãos e escritores.
nuos, superprotegidos pela mãe. O mundo cotidiano por ela tecido pas Deve-se reconhecer, entretanto, que as imagens são o meio de ex
sa a ter um peso intolerável. Conduzidos por aquela jovem inquieta, que
vem alterar e movimentar a vida da cidadezinha até então adormecida pressão favorito da escritora/poetisa. E a poesia está no coração de seus
romances, pelo ritmo e pela sonoridade que neles inscreve. A partir da

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difículdade experimentada por Julien ao exprimir-se, é possível com
preender o papel e a função extremamente importantes que desempenha
a literatura quebequense, no que concerne ao reconhecimento e à afir
mação da língua francesa na América, pois sua história, em muitos as
pectos, é a de um longo e dificil acesso à palavra.
Arme Hébert colabora assim para transformar a tradição, traba
lhando artisticamente temas que se relacionam à identidade cultural de
um pequeno núcleo de habitantes francófonos da América do Norte que
resiste, embora cercado por um mar anglófono, e que tem manifestado a
ânsia de autonomia do seu país/província. A trajetória de sua obra vin
cula-se à mutação sócio-cultural do Quebec, proscrevendo valores ul
trapassados, ligando a liberação pessoal dos personagens - mulheres e
homens - à liberação coletiva.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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SBD/FFLCHIUSP

SEÇÃO DE; LETRAS TOMBO; 222772


AQUISIÇÃO: DOAÇÃO /
PROLAM

D ATA : 05/07/02 PREÇO: R$20,00

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N O TA S S O B R E O S O R G A N I Z A D O R E S

7\\À BFRND - Professora no Cui'so dc


Pòs-Graduação cni Ixtras da IjTOGS.
Doutora cni Ixtras pela USP. Bolsista dc
Dedicação Acadcniica da CAPES.
MARIA DO CAKjVIO CAMPOS - Profes
sora c coordenadora do Ciu'so dc Pós-
Graduação em I>ctras da UITvGS. Dou-
toia em Ixtras pela USP. rk)lsista dc Pes
quisa do CNPq.

NO TAS SOBRE OS AUrPORES

WIADIMIR RRYSINSKI - Professor no


Depai'tamento de Eitcívitura Coiiiparada
da UniversicEide dc A^ontreai (Quebec).
Polonês de origem, c autor de divei\sos
ensaios sobre Pirandello c sobre a íx)s-
modcrn idade.
VVAEITR MOSER - IVofe^sor c atualmente
diretor do Departamento de literatura
Comparada da Universidade de Montreal.
Suíço dc oi'igem, c autor de diversos en
saios .sobi-e a obra de R. A4usil, .sobre o
Barroco, dirigindo um gnijX) de jxxsquisas
sobi'e métodos de reutili/ação literária.
HOA4ERO ARAÚJO - Proíessoi' dc Eitera-
tura Brasileira no Instituto de Ixtras da
UU\GS, c doutorando do CPG-Ixlras da
UERGS, na áixa de Literatura Brasileira.
JAIME GINZBURG - Profe.s.sor na Uni
versidade Fedeial de Santa Maria, é dou
torando do CPG-I>etras da UERGS, na
área de Literatura Brasileiia.
ANTONIO MARCOS SANSEVERINO - É
mestrando na áre<i de Literatura Bra-
sileiia do CPG-Ixtras da UERGS e profes
sor na ULBRiX.
V^\NIA LÚCIA DE B. YAlJCÃO - É pi'ofes-
sora no Deparlamento dc Línguas iVlodcr-
nas do Instituto de Ixtjas cLi UITGS e dou
toranda na Universidade de São Paulo.
EIDINA PRAIl DOS SANTOS - Proías.sora
'i
no Departamento de Línguas Modernas
Editoração eletrônica: do Instituto de Ixtras da UERGS. Doutora
UFRGS/Editora da Universidade em literatura Noi'le-amciicana pela State
University of New York at Buffalo.
Impressão:
Gráfica e Editora La Salle NUBIA JACQUES HANCIAU - Professora
Av. Getúlio Vargas, 5524 - Canoas, RS titular na FURG (Fundação Universidade
Fone (051)472-5899 de Rio Giande). Mestra cm Ixtras {xla
UFRGS, na área de Estudos Francófonos.