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Christina Vital
Mestre em Sociologia e Antropóloga pelo IFCS/UFRJ.
Coordenadora de Pesquisa do site Favela tem memória , ISER/Viva Rio.

“O Problema” Favela
Ontem e Hoje
Novas falas dos moradores
Neste texto tratamos de observar as políticas In this text we analized the public politics
públicas dos governos estadual e federal of the government in the period from the
no período que compreende o início do beginning of the last century to the
século passado até os dias de hoje. Com o present day. As the violence increases,
aumento da violência, sobretudo nos specially in great cities like Rio de
grandes centros como o Rio de Janeiro, a Janeiro, the slums start to be seen as the
favela surge novamente como vilã. Se num villains. If, in the past, it was officially
momento atrás foi responsabilizada responsible for the diffusion of diseases and
oficialmente pela difusão de doenças e por to make prominent the precarious public health,
acentuar a precariedade da saúde pública, hoje nowadays it starts to be responsible for part of
passa a ser responsabilizada por parte da the civil society and governments in many levels
sociedade civil e dos governos pela violência com through violence which we are living. The
a qual convivemos. As remoções ressurgem no removals reappear in the social discourse as a
discurso social como forma de aplacar tal way to appease the problem, and the speech of
problema e a fala dos moradores nos remete a the lodgers makes us think, in a better way,
refletir melhor sobre o que foram as remoções e about what the removals were and about the
quais são os verdadeiros anseios dessa população. real desires of this population.
Palavras-chave: favela, remoções, violência nos Keywords: slums, removals, downtown’s
grandes centros, exclusão social . violence, social exclusion .

P
odemos agora, no início do sé- segundo momento, a partir da década de
culo XXI, observar os vários dis- 1940, foi objeto dos olhares moralistas
cursos que predominaram ao da elite carioca que percebiam na favela
longo dos anos de existência das fave- o ambiente da malandragem, da prosti-
las. Num primeiro momento, início do tuição, do ócio, do atraso, mas, por ou-
século passado, as favelas eram vistas tro lado, foi vista também como o locus
como o locus difusor de doenças; num de uma cultura singular e instigante. A

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partir da década de 1990, principalmen- exercício de reflexão, as expressões, de


te, a favela sofre um novo estigma. O um lado, e os silêncios e obscuridades
“perigo social” que representa relaciona- existentes, de outro, são reveladores da
se com a presença marcante do imensa dor, medo, alegria, afetividade,
narcotráfico. Apesar da oposição interesses econômicos e políticos que
excludente que sempre marcou a histó- compõem, todos, a realidade social da
ria das favelas, que marcou o lugar do cidade do Rio de Janeiro.
bairro-asfalto e do morro-favela, essa
Nosso objetivo maior é mostrar como os
população resiste e mostra sua verdadei-
moradores perceberam as remoções, o
ra face, cheia de arte, música, inteligên-
que pensam sobre morar em favelas no
cia, sensibilidade, mas também cheia de
Rio hoje e sobre a ausência ou o pouco
medo, tristeza, angústia e violência.
diálogo entre os seus anseios e as políti-
Neste artigo, abordaremos a favela como
cas públicas que os atingem.
“problema” e uma aventada solução – as
remoções – para tal problema. Para tan- P OLÍTICA DE REMOÇÃO : SOLUÇÃO OU
to, utilizamos entrevistas realizadas com PROBLEMA

A
moradores removidos de favelas cariocas
s favelas fazem parte do ce-
na década de 1970 1 e depoimentos pu-
nário carioca desde o início do
blicados no site Favela tem memória . 2
século XX. As “cabeças-de-
Somados a isso, estão presentes dados
porco” ou cortiços existentes pela cida-
oficiais da história da cidade. Buscamos,
de, assim como as favelas em formação,
assim, promover uma “visibilidade dialo-
passaram a ser o alvo preferencial das
gada” entre a história oficial e a memó-
políticas sanitaristas que tiveram início no
ria das comunidades. A cada dia novos
governo de Pereira Passos. 3 Segundo o
fatos podem ser acrescentados, tanto
discurso oficial, tais moradias eram foco
relativos ao presente quanto ao passado
de doenças que atingiam suas populações
da “cidade formal” e das favelas. E isso
e se difundiam por toda a cidade. As mo-
fica a cargo das lembranças que os mo-
radias precárias que ocupavam sobretu-
radores “querem”, “podem” e “devem”
do o Centro do Rio de Janeiro foram
revelar. Respeitamos o caráter litigioso
responsabilizadas, oficialmente, pelo
e conflituoso da memória. As formas de
agravamento da precariedade da saúde
controle social existem, cada uma em seu
pública de então. Esse discurso viria a
tempo, possibilitando e dificultando falas
legitimar os planos de urbanização, tam-
e posições políticas. Mas, com contenta-
bém chamada de europeização do Rio de
mento, celebramos neste artigo as vári-
Janeiro, pela influência da Belle Époque
as falas que constroem essas memórias:
francesa.
a fala local, a jornalística, a
historiográfica e a antropológica. Nesse Até o final dos anos de 1930, a favela

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não constava nos mapas oficiais da cida- blemas de infra-estrutura de suas comu-
de, atitude emblemática do descaso e da nidades, conseguindo, assim, manterem-
repulsa social que esse locus causava à se em seus locais de moradia.
“população do asfalto”. Com o Código de Os censos de favela se configuram em
Obras de 1937, norma oriunda da clara um novo instrumento de controle social
intenção de banir as favelas da cidade, e político dessas populações. O primeiro
surgiu a proposta de criar os parques a ser realizado, no então Distrito Fede-
proletários, iniciados nos anos de 1940. ral, foi em 1949. Seu conteúdo expres-
No entanto, com a redemocratização sa a visão estigmatizada sobre os
alcançada no final do primeiro governo favelados: “não é de surpreender o fato
de Getúlio Var gas, as organizações de de os pretos e pardos prevalecerem nas
favelas, como a do Cantagalo e Pavão– favelas. Hereditariamente atrasados,
Pavãozinho, puderam formular uma pau- desprovidos de ambição e mal ajustados
ta de direitos sociais referentes a pro- às exigências sociais modernas, fornecem

Cidade de Deus: problemas na infra-estrutura. 1971. Correio da Manhã, Arquivo Nacional.

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em quase todos os nossos núcleos urba- Federação da Associação de Favelas do


nos os maiores contingentes para as bai- Estado da Guanabara. A identidade dos
xas camadas da população”. 4
seus membros se construía não mais pela
inserção no mercado de trabalho, como
A partir da década de 1950, a favela
na época de Var gas, ou pela filiação reli-
passa a ocupar um local social ambíguo:
giosa, mas pelo local de moradia. Os pla-
era vista como um lugar dos pré-civiliza-
nos de remoção e urbanização continua-
dos, dos pré-cidadãos, mas também um
ram em curso durante os anos de 1962
lugar onde há uma cultura a ser valoriza-
a 1965, época em que foram construídas,
da, como já referido noutro parágrafo,
com capital norte-americano, a Cidade de
ou seja, a favela passa a ser valorizada
Deus e a Vila Kennedy, por exemplo. A
pelas várias artes que produzia, entre
construção de conjuntos habitacionais
elas o samba. Essa valorização parte de
tinha por objetivo promover a retirada
segmentos intelectuais da classe média
da população de favelas em áreas cen-
da cidade.
trais da cidade para eixos menos
Dos anos de 1956 até 1960 assistimos
urbanizados e distantes.
a uma ampla aliança entre a Igreja Cató-
O deslocamento para áreas distantes
lica e os movimentos de favela, que con-
dos locais de trabalho, a deficiente
seguiram somar forças para a urbaniza-
oferta de transporte, a ruptura dos
ção de algumas delas. Dentre as princi-
laços de sociabilidade desenvolvidos
pais melhorias, encontrava-se a implan-
na favela de origem e a péssima qua-
tação de redes de luz. A Igreja Católica
lidade das casas oferecidas seriam,
teve um papel central na negociação com
segundo Perlman (1977), as princi-
o poder público para evitar que remoções
pais razões da reação dos morado-
fossem feitas, como no caso do morro
res das favelas às remoções. 5
do Borel e do Santa Marta.
Em entrevista em 2003, um antigo mo-
Em 1961 foi revitalizada a SERFHA (Se-
rador da Catacumba, agora residente no
cretaria Especial de Recuperação das
conjunto habitacional do Guaporé, em
Favelas e Habitações Anti-Higiênicas). A
Brás de Pina, aos 73 anos de idade, dis-
principal intenção, ao menos declarada,
se a respeito dos apartamentos dos con-
era possibilitar a independência das as-
juntos quando neles chegou em 1970:
sociações de moradores. Contudo, o que
se observou foi a substituição da Igreja Morei dezoito anos (na Catacumba),

Católica pelo Estado na cooptação de li- mas foi triste a saída porque eu já

deranças e a conseqüente subordinação estava acostumado com minha casa


a seus propósitos. Porém, os excluídos que era boa. Mas, quando eu saí de

organizaram sua própria forma de resis- lá e cheguei aqui, no dia primeiro de

tência e em 1963 for maram a FAFEG, outubro de 1970, uma reportagem

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pegou minha esposa chorando na a cem mil pessoas. O contexto era favo-
janela e as crianças gostaram, eram rável a uma nova política de remoção.
todos pequenos. Correram na cozi- Com o AI-5, passou a ser reconhecida
nha, água na torneira, banheiro, apenas uma associação em cada favela,
tudo em tábua. Por que? Porque condicionando este reconhecimento a
quando o governador olhar para inau- exigências governamentais, tais como
gurar, por exemplo, tem de estar tudo “controlar reformas nas casas e reprimir
taqueado [...]. Levam o governador novas construções”. Mas, os “favelados”
em três apartamentos e ele pensa reagiram ao fortalecerem os laços que
que está tudo assim. Conversa fiada, uniam as mais de cem associações de
aquele é só para mostrar. Quem qui- moradores que compunham a FAFEG. No
ser uma casa decente tem de lutar. entanto, diante da violência perpetrada
Até o início do regime militar o número nos episódios das remoções dos anos de
total de removidos era de trinta mil, nú- 1968 a 1975, inclusive com a morte de
mero modesto diante do que se apresen- várias lideranças comunitárias, a atuação
taria após 1965, quando seria superior da federação foi parcialmente minada,

Favela da Rocinha. 1969. Época da construção do túnel Dois Irmãos (ou Zuzu Angel):
quem invadiu quem? Correio da Manhã, Arquivo Nacional.

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tendo algumas das associações de mora- retorno de muitos dos moradores para a
dores colaborado para a remoção e não favela. Em 1970, os “favelados” repre-
para a urbanização das favelas, como era sentavam 13,2% do total da população
a proposta inicial de seu membros. 6
da cidade do Rio de Janeiro. Em 1980,
passaram a representar 12,3%, apesar
Mas a favela resistiu. Mesmo sob forte
d a s r e m o ç õ e s . 8 Dados do IPLAN-Rio
repressão do Estado, a FAFEG conseguiu
(1993) indicam que em 1991 os habi-
reunir 79 associações de moradores em
tantes de favelas na cidade eram
1972 para o III Congresso de Favelados
962.793. Os moradores de conjuntos
do Estado da Guanabara. Uma das for-
habitacionais contabilizavam 944.200 e
mas de reação à ação violenta do Estado
em loteamentos irregulares de baixa ren-
e à baixa qualidade dos imóveis para os
da eram 381.345. Esses números reve-
quais eram removidos foi não pagar as
lam que 40% da população da cidade vi-
prestações devidas ao Banco Nacional de
viam em habitações precárias. Segundo
Habitação (BNH). A dissolução dessa ins-
dados do IBGE, o contingente de mora-
tituição foi, em parte, atribuída à
dores de favelas, de 1991 a 2000, cres-
inadimplência dos moradores dos novos
ceu numa velocidade 2,6 vezes maior que
conjuntos habitacionais. No entanto, os
a população total, atingindo o número de
números nos revelam que a mudança de
6,5 milhões de habitantes em todo o país.
investimentos do BNH colocava em con-
tradição a sua própria necessidade de Como salientou Burgos:
existência, pois o banco passou a finan-
Entre 1975 e 1982, é essa dialética
ciar mais imóveis para a classe média e
entre clientelismo e ressentimento
alta que para a classe pobre. Segundo
que vai caracterizar a relação dos
Perlman, 7 dos US$ 350 milhões disponí-
moradores de favelas e conjuntos
veis para as habitações dos “favelados”,
habitacionais com o poder público e
somente US$ 100 milhões foram usados.
a restrita vida política existente. O
O restante do capital foi aplicado em in-
ressentimento pode produzir revolta,
vestimentos imobiliários para as cama-
mas sobretudo tende a gerar afasta-
das altas e médias da sociedade.
mento e apatia em relação à política;

Apesar do esforço empreendido pelo go- e o clientelismo dos anos de 1970


verno, as favelas continuaram aumentan- reflete esse momento, substituindo

do. Alguns dos fatores que colaboraram a luta por direitos pela disputa por

para isso foram as altas taxas de migra- pequenos favores. Essa dialética é
ção, a inadimplência dos novos morado- reforçada pela quase completa ausên-

res dos conjuntos – que os obrigava a cia, nesse período, de políticas pú-

passar por triagens onde acabaram por blicas mais amplas, voltadas para as
formar novas moradias irregulares – e o favelas.

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A partir de 1982, os programas governa- M URO NAS FAVELAS

R
mentais em relação às favelas ganham
ecentes acontecimentos nas fa-
um enfoque social significativo conside-
velas da Rocinha e do Vidigal
rando, entre outros, a necessidade de
vieram a levantar um acalora-
urbanização das favelas. A busca pela
do debate político e intelectual a respei-
“cidadania plena” e pela integração en-
to do “problema” favela. A tentativa de
tre “morro” e “asfalto” torna-se cada vez
invasão da Rocinha, em abril de 2004,
mais intensa no discurso político, na prá-
por um grupo de traficantes rivais ao gru-
tica dos moradores das favelas, sobretu-
po que dominava a favela, provocou uma
do naquelas onde o movimento
intensa ação do Estado, através princi-
associativo encontrava-se mais organiza-
palmente da polícia, e da sociedade ci-
do. A ação das organizações não-gover-
vil, por parte de ONG’s como o Viva Rio.
namentais “de fora” e a formação de or-
Muitos foram os políticos que aparece-
ganizações não-governamentais “de den-
ram na mídia a favor da proposta de cer-
tro” mudam a relação social, política e
car as favelas com muros de concreto;
econômica na cidade. Desse modo, os
outros voltaram a evocar as remoções
moradores dessas localidades ocuparam
como principal mecanismo para solucio-
um espaço político onde falavam de suas
nar o problema das moradias irregulares
necessidades, anseios e conquistas. Fa-
e da violência. Mas para aonde seriam
lavam de suas derrotas e tristezas e da
as remoções? Segundo defensores de tal
vontade de resgatar momentos intensos
idéia, municípios do entorno da cidade
de solidariedade e reciprocidade hoje
poderiam abrigar a população “favelada”
menos constantes em seu cotidiano. “Do
do Rio. A questão que urge é: como so-
ponto de vista dos excluídos do Rio de
breviveriam esses moradores longe de
Janeiro, as eleições de 1982 dão ensejo
seus empregos e, para os que não traba-
à tradução política do ressentimento. Era
lham, longe de um pólo possível para al-
a primeira oportunidade, desde a eleição
guma atividade produtiva, para sua inser-
de Negão de Lima em 1965, que teriam
ção no mercado?
os excluídos de se manifestar diante do
Executivo”.9 Contudo, apesar de algumas colocações
Houve outras iniciativas estaduais e mu- disparatadas a respeito da violência ur-
nicipais para “levar dignidade” ao “povo bana e das favelas, boas reflexões e in-
favelado”, mas elas devem ter ainda seus formações surgiram. Por conta desse
objetivos significativamente ampliados, episódio, a mídia escrita e televisiva dis-
visto que o direcionamento de tais políti- pôs-se a apresentar os números do défi-
cas visava mais melhorias de infra-estru- cit habitacional no Brasil. Eles são, no
tura que bens e direitos sociais, políti- mínimo, alarmantes. Revelam a ausência
cas essas mais amplas. de uma política nacional de habitação

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que contemple os desafortunados da na- dia digna. As moradias populares, cujo


ção, que se encontram em números cada valor atinge o máximo de R$ 50 mil, re-
vez maiores. presentam apenas 8% dos lançamentos
Dados recentes do IPPUR – Instituto de imobiliários. Os dados do IPPUR revelam
Pesquisa e Planejamento Urbano e Regi- que dentre quatro unidades residenciais
onal da UFRJ – mostram que 97,2% des- lançadas na cidade, três custam mais de
se déficit estão concentrados nas famíli- R$ 150 mil. Dois terços dos novos imó-
as com renda de até cinco salários míni- veis são erguidos na Zona Sul e na Barra
mos. Segundo Luiz César Queiroz Ribei- da Tijuca e apenas 7,6% estão localiza-
ro, pesquisador do IPPUR, apenas 20% dos nos subúrbios ou na Zona Oeste.
das famílias que demandam por moradia
Pesquisa realizada pelo Instituto Pereira
têm condições de pagar por ela. Os 80%
Passos em 2002 revela que é crescente
restantes não têm nem renda nem con-
a especulação imobiliária em favelas no
dições de assumir um financiamento por
Rio. As mais procuradas são aquelas
15 anos. Isso aponta, para o pesquisa-
onde, apesar da presença do tráfico de
dor, uma relação direta entre escassez
drogas, os conflitos armados são menos
de crédito e o crescimento das favelas.
intensos. Esses dados se relacionam di-
Em 2000, dados do IBGE mostraram que
retamente com os apresentados pelas
18,71% dos domicílios da cidade do Rio
pesquisas do IPPUR e da FGV-RJ, nas
de Janeiro estavam em favelas. Para
quais a falta de crédito transforma-se em
Marcelo Néri, economista e chefe do Cen-
um dos principais responsáveis pela mo-
tro de Políticas Sociais da Fundação Ge-
radia irregular e precária.
túlio Vargas (FGV-RJ), a falta de financia-
mento vem empurrando as classes mais Entre pagar aluguel e morar numa fave-
baixas para habitações precárias e irre- la, muitos dos entrevistados não decla-
gulares. Desde a década de 1970, segun- ram dúvida: preferem a favela. Não se-
do Néri, a oferta de crédito habitacional ria a opção da classe média e alta, pos-
caiu pela metade na cidade e no estado, sivelmente, mas do ponto de vista da ló-
situação que só se agravou com a gica da reprodução social e econômica
extinção do BNH. O mercado ainda é ca- de membros da classe baixa, essa práti-
paz de atender aqueles que recebem a ca se configura uma opção diante das
partir de oito salários mínimos, mas es- dificuldades de financiamento para obter
ses correspondem a 10% do mercado. O uma moradia regular. Um antigo mora-
difícil é facilitar o crédito para alguém que dor de Nova Brasília, no Complexo do Ale-
não pode pagar R$ 300,00 por mês. Nes- mão, agora residindo com a filha no
se caso, somente políticas públicas que Grajaú, bairro de classe média carioca,
subsidiem os imóveis serão capazes de disse em entrevista que pelas dificulda-
tornar possível a compra de uma mora- des financeiras e pela impossibilidade de

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conseguir um financiamento para adqui- A favelização é um fenômeno crescente


rir seu próprio imóvel, acabou por ir para e atinge não só grandes cidades como o
Nova Brasília, uma favela na época em Rio de Janeiro e São Paulo, mas também
formação. Eis suas palavras: “Eu pagava cidades do interior do Brasil, sobretudo
aluguel. Morei em Santa Cruz, em aquelas que enriqueceram nas últimas
Bonsucesso, Ramos e, então, era lá (em duas décadas. Exemplos disso são os
Nova Brasília) que eu podia morar. Arru- municípios de Ribeirão Preto, em São
mei um dinheiro suficiente e comprei uma Paulo, e Petrópolis, no Rio de Janeiro.
posse lá”. Tal fenômeno encontra-se também na
Amazônia brasileira, segundo Marlene
Nesse caso, as redes de solidarieda-
Fernandes, assessora internacional e di-
de asseguraram a compra da posse,
retora do Centro de Boas Práticas do Ins-
visto que o empréstimo não foi feito
tituto Brasileiro de Administração Muni-
no sistema financeiro e sim de um
cipal (IBAM). A cidade de Belém do Pará,
amigo.
por exemplo, foi a que apresentou maior
Ter a propriedade legal do terreno onde
crescimento de favelas nesta última dé-
se mora ou ter um imóvel próprio agrega
cada, conforme dados do IBGE.
dignidade e alguma tranqüilidade até
mesmo para obter crédito no mercado. OS MORADORES FALAM

A
O bem passa a ser sua garantia. Mas a
principal garantia que esse entrevistado s falas assumem variados tons

acredita que seja agregada ao homem e focos. Willian de Oliveira DJ,

com uma propriedade, sobretudo se for umas das lideranças mais re-

em áreas mais valorizadas que as fave- presentativas da Rocinha, afirma sua

las, é a cidadania. identidade com o local. Em recente en-


trevista na grande imprensa, Willian, pre-
O favelado é descriminado mesmo.
sidente da União Pró-Melhoramentos dos
Não é brincadeira não. É submundo
Moradores da Rocinha, bradou: “Do que
a favela. Embora nós próprios convi-
temos certeza? De que não vamos aban-
vemos (sic) e temos (sic) parentes
donar a Rocinha onde investimos nossas
lá, sabemos que é um submundo a
lágrimas, nosso suor, nossa memória de
favela. Lá tem cidadão que não é da
quase oitenta anos. Esta talvez seja a
mesma categoria dos outros porque
única unanimidade na Rocinha”.
mora num lugar condenado, com pro-

blemas de água, luz, esgoto... É di- Mas, será que essa fala representa a da
ferente (morar no asfalto), muito em- maior parte dos moradores da Rocinha?
bora o povo seja igual. Não é pro- Pode ser que sim, mas possivelmente não
blema de caráter, porque mau cará- pelos motivos mais “românticos” atribuí-
ter tem em tudo quanto é lugar. dos à vida nas favelas, e sim pela locali-

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zação em que se encontra, pela estrutu- muito mais uma falta de alternativa e um
ra da qual a Rocinha desfruta hoje e pela medo de partir e deixar para trás os fa-
“tranqüilidade”, apesar da presença do miliares que têm que ficar. A diminuição
tráfico. A localização geográfica estraté- dos intensos laços de reciprocidade e
gica é um fator importante para a solidariedade que marcavam o cotidiano
visualização da Rocinha, de suas belezas dos favelados, e concentro-me aqui no
e mazelas, mais do que outras tantas caso do Rio de Janeiro, ocorreu por uma
favelas cariocas. A “paz” na Rocinha re- variedade de motivos. A violência é o que
presenta a “paz” do entorno, habitado, mais me salta aos olhos, assim como aos
em sua maioria, pela classe média e alta de outros tantos pesquisadores. Porém,
da sociedade carioca. Mas será que o ufa- não podemos negar o fato de que as
nismo e a identidade fazem parte do dis- melhorias alcançadas na estrutura de di-
curso dos moradores de outras favelas versas favelas, ao longo das últimas dé-
cariocas não localizadas em pontos no- cadas, vêm influenciando também a mais
bres da cidade? Será que os moradores frouxa sociabilidade. O conforto dentro
da Cidade de Deus, do Complexo do Ale- de casa, fato frisado por um entrevista-
mão, da favela de Acari e do Complexo do da Cidade de Deus, é fruto do acesso
da Maré, do morro do Dendê, para citar facilitado à sociedade de consumo que
apenas alguns exemplos, pensam a mes- permitiu que parte dos moradores de fa-
ma coisa? velas e conjuntos habitacionais adquiris-
A questão mais importante agora parece se bens como TVs, vídeo, DVD, som,
ser a de aproximarmo-nos, de criarmos entre outros. A conversa na porta de casa
um maior nível de empatia que nos faça é menos freqüente, conta o entrevista-
compreender a multiplicidade de discur- do. A violência na rua é uma motivação?
sos que vêm das favelas, seus interes- Sem dúvida, diz ele, mas não podemos
ses, seus sentimentos contidos ou decla- menosprezar outros fatores. O cresci-
rados. Toda realidade parece homogênea mento das igrejas evangélicas altera tam-
até que nos aproximemos dela. Com as bém a lógica do contato face a face na
favelas não é diferente, assim como com rua, nos bares, nos bailes, nos campos de
“os asfaltos” também não. Há morado- futebol. O espaço da rua é de passagem e
res que se interessam em se manter nas de pregação, não de lazer e troca. Esses
favelas nas quais residem por laços de ficam reservados para os espaços privados
amizade e parentesco. Isso parece não da casa e das igrejas, em sua maioria.10
ter mudado. No entanto, a mudança mais Depois de duas décadas, aproximadamen-
significativa, no meu ponto de vista, é te, Alba Zaluar retorna ao local onde nos
que se antes morar na favela era uma anos de 1980 realizou seu trabalho de
opção custosa, mas declaradamente de- pesquisa para doutorar-se na USP. Seu
sejada por tantos, agora passa a ser sentimento foi de choque. Ela diz:

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Rapazes dizendo que o samba não mudar da favela no mesmo local? Para o
tinha nada a ver com a cultura afri- morador – que já está há muito residin-
cana e que não os representava como do numa localidade e é por todos, ao
negros, o que não ouvi no início da menos, reconhecido – o medo de se mu-
década de 1980, quando pesquisava dar para outro local da cidade pode su-
as organizações populares; mães perar o anseio inicial. No entanto, pode-
com lágrimas nos olhos dizendo que ríamos nos perguntar como esse mora-
nasceram ali, cresceram ali indo ao dor da Maré, por exemplo, terá mais
samba com toda a família reunida, medo de se mudar para um bairro onde
mas que agora queriam ir embora de terá um sem número de serviços, uma
um lugar cheio de conflitos, riscos e moradia regular e a possibilidade de não
ameaças [...] a mãe de santo que pe- mais presenciar tiroteios às quatro ho-
nosamente contou porque deixou de ras da tarde em plena rua? A resposta
ir à casa de seus filhos convertidos seria: a maior parte dos moradores de
à igreja pentecostal cujo pastor proi- favela que desejam se mudar não pode
biu sua presença carregada e diabó- partir para uma moradia como a descri-
lica na casa deles. 11
ta antes. Poderia transferir-se de uma
favela onde são reconhecidos e onde os
Em Acari, aonde venho realizando minhas
mínimos laços de afetividade e identida-
pesquisas desde 1996, a realidade não
de existem, permitindo achar-se mais
é diferente. Em junho, das duas mães de
seguro ali do que numa localidade onde
santo da favela que mantinham seus ter-
não há laços, há desconhecimento, tam-
reiros em funcionamento apesar das gran-
bém pobreza material e precariedade
des pressões que vinham sofrendo, uma
estrutural, e falta de dignidade atribuída
resolveu fechar sua casa e vender seu
pela sociedade? Nesse cenário, voltamos
terreno, pasmem, para uma igreja evan-
a falar das redes sociais que foram co-
gélica que construirá lá um novo templo.
bertas pela literatura acadêmica como
Dona Isabel vai atuar na Baixada
um dos mais importantes elementos na
Fluminense.
dinâmica social da população pobre, so-
Para concluir, há pelo menos mais uma bretudo da “favelada”. Sem dúvida, segun-
questão a ressaltar sobre a saída e/ou o do o caso apresentado por nosso corres-
desejo de saída das favelas. Cláudio Pe- pondente, esses laços acabam por man-
reira, correspondente comunitário do site ter muitos dos moradores nas favelas,
Favela tem memória na Maré, nos apon- mas ressaltamos que, ainda assim, não
ta a complexidade da questão que é “mo- pelos motivos mais “românticos” e sim
ver-se para algum outro lugar”, quando mais por uma estratégia de sobrevivên-
falamos de uma população pobre. O que cia do que de afetividade e identidade.
mantém pessoas com forte desejo de se Todavia, como tratamos num momento

Acervo, Rio de Janeiro, v. 17, n o 1, p. 127-138, jan/jun 2004 - pág. 137


A C E

anterior, a homogeneidade é uma “ilusão os jovens pertencentes a grupos religio-


de ótica”. Dizemos isso pela tremenda sos e de ação social e/ou política. Eles
diversidade que se apresenta ao nos apro- se identificam como um grupo local, mas,
ximarmos do real. Assim, com o cuidado em função das inúmeras atividades
de estabelecer uma generalização con- institucionais que fazem fora da favela,
seqüente, podemos pensar em tipos de passam a almejar viver em outro meio.
moradores mais suscetíveis ao desejo de A identidade desse jovem não é com as
mudança. Dentre eles gostaria de desta- facções, mas com a atividade com a qual
car os moradores antigos que se estabe- estão inseridos na sociedade.
leceram na localidade numa época em Para os moradores que desejam partir,
que o tráfico não era intenso, em que o a remoção não viabiliza integralmente a
respeito por eles era maior, uma recla- realização deste desejo, pois é antes a
mação constante de pessoas idosas, e lembrança de uma época de rompimen-
finalmente em que as afinidades e laços to, de imposição e humilhação. Para os
de reciprocidade e solidariedade eram que pensam ainda na remoção das fave-
atualizados sempre pela presença na rua, las como uma solução para a violência,
pela presença no baile, na missa ou no o fruto desta ação poderá ser, no míni-
culto. Outro tipo que gostaria de mostrar: mo, gerar mais violência.

N O T A S
1. As entrevistas foram realizadas no final de 2003 e início de 2004, para a pesquisa “A
dinâmica da pobreza urbana”, projeto de Janice Perlman, através do Instituto Mega Cities,
com financiamento do World Bank.
2. O site Favela tem memória foi lançado em março de 2003 e faz parte do portal Viva
Favela , iniciativa do Viva Rio.
3. Licia Valladares, Passa-se uma casa , 2. ed., Rio de Janeiro, Zahar, 1978.
4. Prefeitura do Distrito Federal, Departamento de Geografia e Estatística, Censo das fave-
las : aspectos gerais, Rio de Janeiro, 1949, p. 8.
5. Janice Perlman, O mito da marginalidade , Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1977, apud Marce-
lo Baumann Burgos, Dos parques proletários ao Favela Bairro: as políticas públicas nas
favelas do Rio de Janeiro, em Alba Zaluar e Marcos Alvito (orgs.), Um século de favela ,
Rio de Janeiro, FGV, 2000.
6. Janice Perlman, op. cit.
7. idem.
8. Licia Valladares, op. cit.
9. Marcelo Baumann Burgos, op. cit., p. 41.
10. Christina Vital, “Ocupação evangélica” : efeitos sociais do crescimento pentecostal na
favela de Acari, dissertação de mestrado em sociologia e antropologia, Rio de Janeiro,
IFCS/UFRJ, 2002.
11. Alba Zaluar, Crime, medo e política, em Alba Zaluar e Marcos Alvito (orgs.), op.cit.

pág. 138, jan/jun 2004