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UNIVERSIDADE FEDERAL DO MARANHÃO

CENTRO DE CIÊNCIAS SOCIAIS


CURSO DE DIREITO

ARNALDO VIEIRA SOUSA

LEI DA ANISTIA:
o Direito entre a memória e o esquecimento

São Luís
2010
 
 
ARNALDO VIEIRA SOUSA

LEI DA ANISTIA:
o Direito entre a memória e o esquecimento

Monografia apresentada ao Curso de


Direito da Universidade Federal do
Maranhão, para obtenção do grau de
Bacharel em Direito.

Orientador: Prof. Ms. Mário de Andrade


Macieira.

São Luís
2010

 
 

Sousa, Arnaldo Vieira


Lei da anistia: o Direito entre a memória e o esquecimento /
Arnaldo Vieira Sousa. – São Luís, 2010.
88 f.
Impresso por computador (fotocópia)
Orientador: Mário de Andrade Macieira
Monografia (Graduação) – Universidade Federal do
Maranhão, Curso de Direito, 2010.
1. Anistia – Direito 2. Lei da anistia 3. Memória 4.
Esquecimento

CDU: 343.293

 
 
ARNALDO VIEIRA SOUSA

LEI DA ANISTIA:
o Direito entre a memória e o esquecimento

Monografia apresentada ao Curso de


Direito da Universidade Federal do
Maranhão, para obtenção do grau de
Bacharel em Direito.

Aprovada em: ___/___ /_____

BANCA EXAMINADORA

_______________________________________________
Prof. Ms. Mário de Andrade Macieira

_______________________________________________
1º Examinador (a)

_______________________________________________
2º Examinador (a)
 
 

À memória dos que foram vencidos.

 
 
AGRADECIMENTOS

Aos meus pais, pelo amor e cuidado na minha educação e no incentivo ao


exercício da minha liberdade e da minha responsabilidade para com os outros.
Aos meus tios e tias, que sempre me trataram como seu filho e a quem
tenho como pais.
Ao meu irmão e primos-irmãos, pelo hábito da leitura, dos debates, pelos
momentos de diversão e, principalmente, pelo exercício do amor fraternal na
diferença.
A Vanessa, pelos sonhos em conjunto, pela ajuda com monografia, pelo
amor, dedicação e paciência, em especial, durante esse período e por tantos outros
motivos que não cabem no papel.
Aos amigos de infância e de escola, por me ensinarem o valor da
amizade e a importância de ser uma pessoa melhor e dar espaço à existência do
outro em nossas vidas.
A Andréa, Camila, Carlos Augusto, Ciro, Felipe, Flávia, Larissa e Raquel,
pelos momentos em sala de aula, mas, principalmente, pelos momentos do lado de
fora dela. São a parte mais importante do que levo da UFMA.
Aos amigos do movimento estudantil e do NAJUP Negro Cosme, por
compartilhar comigo sonhos, sábados, domingos e feriados na certeza de um mundo
melhor.
Aos amigos da RENAJU, por mostrar a boniteza dos sonhos em todo o
país. A distância não diminui o carinho e a amizade.
Ao professor Mário Macieira, quem primeiro plantou em mim a semente
de outro Direito e me instigou a querer saber tanto quanto ele. Ainda estou longe,
mas sigo buscando.
Ao professor Luís Inácio, pela paciência com que orientou os meus
passos nessa pesquisa e pela sutileza com que apontou meus erros e deslizes.
A Laísse, pela dedicação exemplar no desempenho das funções de
servidora da Coordenação do Curso de Direito da UFMA.
À UFMA e aos seus funcionários, por reavivar em mim, todos os dias, a
diferença entre o que deve e o que não deve ser feito.

 
 

Menino, ainda que tenha poucos anos,


creio que tenha que dizer-te a verdade
para que não a esqueça, por isso
não te oculto que me deram choques elétricos
que quase me estouram os rins.
Todas estas marcas inchadas e feridas
que teus olhos redondos miram hipnotizados
são duríssimos golpes, são botas na cara
muita dor para que eu te oculte,
muito suplício para que eu apague.
Mas também é bom que saibas
que teu velho calou ou xingou como um louco
que é uma linda forma de calar
que teu velho esqueceu todos os números,
por isso não poderia te ajudar com a tabuada,
e, portanto, esqueci todos os telefones
e as ruas e a cor dos olhos,
e os cabelos e as cicatrizes
e em que esquina e em que bar,
que parada, que casa
E que lembrar-se de ti
de teu rostinho, ajudava-me a calar,
uma coisa é morrer de dor
e outra coisa, morrer de vergonha.
Por isso, agora, podes me perguntar
e sobretudo eu posso te responder.
Nem sempre se faz o que se quer,
mas também se tem o direito
de não fazer o que não se quer.
Não chores mais, menino.
É mentira que os homens não choram,
aqui choramos todos,
gritamos, berramos, gememos, lastimamos
maldizemos, porque é melhor chorar que trair,
porque é melhor chorar que trair-se
Chora,
mas não te esqueças.
Mario Benedetti
 
 
RESUMO

As feridas sempre abertas do período da ditadura militar foram novamente atiçadas


com as discussões sobre o alcance da Lei nº. 6.683/79 (Lei da anistia) e sua possível
extensão aos crimes de tortura, assassinato, seqüestro e desaparecimento (para ficar
em alguns) praticados pelos órgãos repressores do Estado Militar. O presente trabalho
tem por objetivo tratar dos principais argumentos levantados nessa discussão sob o
ponto de vista das relações do Direito com a memória e o esquecimento coletivos. Para
isso, faz-se uso do papel instituidor do Direito, para além da concepção deste
unicamente como sistema de normas. O Direito pode ligar ou desligar o passado e o
futuro de uma comunidade política e é com a evidência dessa função que se faz
possível entender sobre qual pano de fundo a Lei da anistia foi construída, quais seus
efeitos para a coletividade e qual interpretação desta melhor se coaduna com a
manutenção da comunidade política.

Palavras-chave: Lei da anistia. Direito. Memória. Esquecimento.

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
RESUMEN

Las heridas siempre abiertas del período de dictadura militar fueron nuevamente
atizadas con los debates sobre la amplitud de la Ley nº. 6.683/79 (Ley de amnistía) y
su posible extensión a los crímenes de tortura, asesinato, secuestro y desaparición
(para no ampliar demasiado) ejercitado por órganos represores del Estado militar. Este
trabajo tiene como finalidad abordar los principales argumentos planteados en el
debate sobre las relaciones del Derecho con la memoria y el olvido colectivos. Para
hacer esto, se utiliza del papel instituidor del Derecho, además de la comprensión de
esto sólo como un sistema de normas. El derecho puede unir o desunir el pasado y el
futuro de una comunidad política y la evidencia de esta función hace posible
comprender cómo (y en que escenario) se generó la ley de amnistía, que efectos causa
a la colectivización y que la interpretación de esta mejor corresponde al mantenimiento
de la comunidad política.

Palabras clave: Ley de Amnistía. Derecho. Memoria. Olvido.

 
 
 
SUMÁRIO

1 INTRODUÇÃO ........................................................................................ 10
2 O PERÍODO DITATORIAL E O SURGIMENTO DA LEI DA
ANISTIA – UM BREVE HISTÓRICO ....................................................... 13
2.1 O período ditatorial................................................................................ 13
2.2 Histórico da Lei da anistia .................................................................... 21
3 AS TENTAÇÕES DO ESQUECIMENTO: CONSTRUINDO NA
AREIA ..................................................................................................... 29
3.1 O conceito de anistia............................................................................ 32
3.2 Anistia e esquecimento ......................................................................... 35
3.2.1 O conceito de auto-anistia ....................................................................... 40
3.2.2 O conceito de prescrição ......................................................................... 44
3.2.3 O princípio da anterioridade da lei penal ................................................. 45
4 DEVER DE MEMÓRIA: UM BRINDE AO PASSADO ............................. 48
4.1 Espaço público e memória ................................................................... 53
4.2 Os crimes contra a humanidade .......................................................... 56
4.2.1 A imprescritibilidade dos crimes contra a humanidade ............................ 58
4.2.2 O caso dos desaparecidos políticos ........................................................ 61
5 O PERDÃO POSSÍVEL E A PROMESSA ............................................. 63
5.1 Perdão e processo................................................................................. 65
5.2 A Justiça de Transição .......................................................................... 68
5.2.1 Justiça de Transição no Brasil ................................................................. 71
5.3 A promessa ............................................................................................ 74
6 CONSIDERAÇÕES FINAIS .................................................................... 77
REFERÊNCIAS ....................................................................................... 81

 
10
 

1 INTRODUÇÃO

A tortura, historicamente, tem sido utilizada como método para obtenção


de confissões e informações, com vistas à apreensão da verdade factual pelo
Estado. E apesar de o Brasil ser signatário de inúmeras convenções e pactos
internacionais contra essa prática e de a legislação brasileira ser expressa em definir
a tortura como crime equiparado aos crimes hediondos, ela ainda é uma prática
corriqueira nas investigações policiais e no interior de delegacias e presídios do
país.
A institucionalização dessa prática de “investigação” remonta aos
momentos formadores do Estado brasileiro, com maior evidência nos períodos de
regimes ditatoriais, como o Estado Novo e a Ditadura Militar pós-64, persistindo
atualmente, com apoio de boa parte da população, mesmo sendo condenada pelo
discurso oficial.
Soma-se a isso o fato de que, recentemente, as feridas sempre abertas
dos anos do regime militar foram novamente atiçadas com as discussões sobre o
alcance da Lei nº. 6.683/79 (Lei da anistia) e sua possível extensão aos crimes de
tortura, assassinato, seqüestro e desaparecimento (para ficar em alguns) praticados
pelos órgãos repressores do Estado Militar.
Essas discussões têm sido travadas nos campos midiático, jurídico e
historiográfico, puxadas tanto pelas vítimas do regime militar e seus familiares
quanto pelos próprios militares, com cada segmento visando à afirmação de sua
verdade. É uma disputa sobre qual interpretação deve ser dada ao passado recente
do país, sobre qual verdade histórica e judicial deve prevalecer.
Sem dúvidas não se trata somente de uma discussão revanchista ou
meramente acadêmica, podendo influenciar de forma circunstancial no presente e
no futuro do país.
Diante disso, faz-se extremamente importante trazer essa discussão para
o mundo jurídico, partindo de uma análise das relações do Direito com a memória e
o esquecimento, de modo a verificar qual interpretação da Lei da anistia mais se
coaduna com a integração do corpo político brasileiro, levando em conta que a
disputa de entendimentos sobre a possibilidade de aplicação da Lei da anistia aos
crimes praticados pelos agentes da repressão no período ditatorial não é, nem de
 
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longe, um problema estritamente jurídico, se apresentando como um ponto de


disputa de concepções acerca da própria história recente do país e do papel das
instituições nessa construção.
Rediscutir o passado é reconstruí-lo a cada momento, no presente. Fazer
isso de maneira consciente, sem a ilusão positivista de que o passado é estanque,
“morto e enterrado”, é abrir a possibilidade de resgatar as promessas não cumpridas
e as vozes caladas ao longo da história. É preciso revisitar o passado e verificar
como se dá a relação do Direito com a memória coletiva de um país, tendo em vista
o papel instituidor de que o Direito é dotado e sua profunda ligação com a tradição,
que lhe dá sentido e legitimidade.
Colocar as premissas dessa discussão é não se olvidar que, como já
disse o poeta Jorge Luís Borges, “o esquecimento é uma das formas da memória,
seu porão difuso, a outra face secreta da moeda”. O esquecimento é tão importante
à vida pública quanto a memória: lembrar-se de algo já é escolher do que se
esquece. Da mesma maneira, o direito à memória e o direito ao esquecimento se
fazem sempre presentes no ordenamento jurídico e precisam ser pensados em
conjunto.
Não restam dúvidas de que as vítimas do regime militar e seus familiares
merecem, legitimamente, pleitear que suas histórias pessoais, até então relegadas à
clandestinidade, sejam integradas à história coletiva do povo brasileiro. Mas também
se impõe questionar até que ponto esse direito à memória se conflita com o direito
dos criminosos do regime militar em ter seus crimes esquecidos, tanto em virtude da
anistia, quanto do lapso temporal entre os delitos e a presente data.
São inúmeros os autores que trabalham a importância de se dar voz aos
ecos do passado, mas também de se garantir o esquecimento necessário aos
apelos do presente. Seguindo o rastro desses autores é que o presente trabalho
pretende abordar a polêmica acerca da Lei da anistia sob um viés que leve em conta
o papel instituidor do Direito e sua capacidade de ligar e desligar o passado e o
futuro.
Visando a isso, no primeiro capítulo, faremos um apanhado histórico do
regime ditatorial e suas conseqüências para o presente do país, bem como, uma
análise da luta pela anistia no país, até a promulgação da Lei nº. 6.683/79.
No segundo capítulo, será abordado o instituto da anistia, assim como
outros institutos jurídicos que têm ligação estreita com o tempo, como a prescrição
 
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penal e a anterioridade da lei penal, em sua relação com a produção do


esquecimento e os perigos deste para a manutenção do corpo político.
O terceiro capítulo tratará da memória coletiva, da sua relação com o
espaço público e do papel desempenhado pelo ordenamento jurídico na sua
manutenção, abordando os conceitos de imprescritibilidade dos crimes contra a
humanidade e crimes permanentes e analisando se a anistia política advinda da Lei
nº. 6.683/79 se coaduna com essas formas de manutenção da memória coletiva.
Por fim, no último capítulo serão abordadas algumas questões sobre
perdão e a promessa, sobre a sua possibilidade no caso brasileiro e em relação à
anistia, bem como as medidas de Justiça de Transição e qual pode ser a sua
contribuição no resgate da memória, com vistas à inauguração de um tempo em que
as promessas perdidas do passado sirvam de orientação ao povo presente e futuro.

 
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2 O PERÍODO DITATORIAL E O SURGIMENTO DA LEI DA ANISTIA – UM


BREVE HISTÓRICO
Anistia, vens pela metade ou por dois terços?
Consideras-te ampla e estreitas as dobras da tua veste?
Absorveste mal o significado da palavra perdão, omites a
profundidade da palavra esquecimento? (...) Quero-te
alta e perfeita, e não uma baixinha anistia de quatro
dedos e andar cambaio. Quero que voes. Com asas te
imagino, sobre os desencontros e mesquinhezas dos
pobres intérpretes de tua grandeza luminosa.
Carlos Drummond de Andrade

O Brasil passou por uma ditadura militar que durou vinte e um anos, com
um forte histórico de violação aos direitos humanos e uma anistia que pretendeu
apagar todos os rastros dessas violações. Antes de se adentrar nas relações entre o
Direito, a memória e o esquecimento, presentes na discussão sobre a anistia, faz-se
necessário tecer breves considerações sobre esse período e sobre a maneira como
ocorreu o processo de construção da Lei nº. 6.683/79, que pretendeu anistiar todos
os agentes da repressão que cometeram crimes contra os opositores do regime
militar e seus familiares.

2.1 O período ditatorial

O período entre o final da década de 50 e a década de 1960 foi de intensa


agitação política no país. Desde antes do governo de Juscelino Kubitschek
(1956/1960), os militares já ensaiavam tentativas de golpe, recuando, dentre outros
fatores, graças ao papel de resistência interna desempenhado pelo Ministro da
Guerra, Marechal Henrique Lott.
Em fevereiro de 1956, com o levante da Jacareacanga, e em dezembro
de 1959, com a rebelião de Aragarças, setores militares demonstraram mais uma
vez seu descontentamento com a política presidencial e com o que consideravam
“conspiração comunista em marcha” no país. As duas revoltas foram debeladas e os
envolvidos foram anistiados pelo Presidente Juscelino.
Em 25 de agosto de 1961, depois de menos de sete meses de governo,
Jânio Quadros, eleito Presidente da República em 03 de outubro de 1960, renunciou
ao cargo, e os três ministros militares realizaram uma nova tentativa de golpe,
 
14
 

tentando impedir a posse do vice-presidente João Goulart (Jango), herdeiro do


nacionalismo getulista e tido por eles como radical.
Nesse período, “os generais golpistas chegaram a escrever um Manifesto
à Nação, em que diziam que, se Goulart assumisse, aconteceria no Brasil ‘um
período de choques sangrentos nas cidades e no campo, de subversão armada’”
(ARANHA, 2008, p.15).
Os golpistas recuaram devido à intervenção de Leonel Brizola, cunhado
de Goulart e governador do Rio Grande do Sul, que conseguiu o apoio do general
Machado Lopes, do Terceiro Exército, para garantir a posse de “Jango”. Seu
governo, contudo, já teve início com restrições, em um regime parlamentarista criado
para a ocasião e que enfraquecia consideravelmente o poder do Presidente.
João Goulart só começou seu governo de forma efetiva em janeiro de
1963, quando a população brasileira decidiu, por plebiscito, pelo presidencialismo.
Darcy Ribeiro (2002) nos conta que:

Vencido o plebiscito de 1962, que proscreveu o parlamentarismo por 9 a 1


milhões de votos, Jango iniciou um esforço ingente para estabelecer uma
aliança com o PSD, que lhe desse suporte parlamentar para as reformas de
base. Conseguiu, assim, o apoio necessário para aprovar a Lei da Remessa
de Lucros, através da qual empresas estrangeiras teriam direito de
remeterem, para fora, dividendos de até 10% do capital que introduzissem
no Brasil. Mas eram forçadas a deixar aqui os capitais ganhos no país, que
viveriam o destino dos capitais nacionais. [...] Paralelamente, Jango
articulava a aprovação pelo Parlamento de sua fórmula da Reforma Agrária,
[...]. Esta consistia em introduzir na Constituição o princípio de que a
ninguém é lícito manter a terra improdutiva por força do direito de
propriedade. Princípio do qual decorria a norma de uso lícito da terra, que
seria o equivalente a quatro vezes a área efetivamente utilizada. Essa
reforma devolveria ao controle do Estado centenas de milhões de hectares
de terra, sobretudo no Brasil Central e na Amazônia,[...].

A sua tentativa de implantar as chamadas reformas de base (nos setores


fiscal, bancário, agrário e educacional), a crise econômica enfrentada pelo país, a
forte articulação de movimentos populares, bem como a instabilidade das relações
entre os militares e o governo e o descontentamento de boa parte da direita
brasileira e dos seus aliados exteriores foram o bastante para que um golpe militar
fosse armado contra o seu governo.
O estopim veio quando, em discurso realizado para cerca de 130 mil
pessoas no dia 13 de março de 1964, na Central do Brasil, João Goulart defendeu a

 
15
 

revisão da Constituição de 1946, reforçou a necessidade das reformas de base e


atacou os opositores do seu governo.
Apenas alguns dias depois, mais precisamente no dia 19 de março, os
seus opositores realizaram, em São Paulo, a primeira Marcha da Família com Deus,
pela Liberdade, que levou mais de 200 mil pessoas à rua em manifestação contra o
comunismo e o governo de João Goulart. Outras marchas semelhantes foram
realizadas em várias capitais do país. Codato e Oliveira (2004) observam que:

as Marchas da Família com Deus pela Liberdade foram atos públicos


organizados por setores católicos da classe média urbana - e impulsionados
por políticos conservadores (a Ação Democrática Parlamentar, em primeiro
lugar), pela elite empresarial (reunida no IPES) e pelos movimentos
femininos - que reuniram milhares de pessoas às vésperas do 31 de março
nas principais cidades brasileiras. Condenavam genericamente a política
"populista" (isto é, "a demagogia, a desordem e a corrupção") e o
"comunismo" (seja seu caráter "materialista e ateu", seja o risco que o
"totalitarismo" poderia representar à propriedade privada e à democracia).
Fazendo eco ao clima de guerra fria, comunismo e populismo eram
considerados posturas simetricamente "antidemocráticas". [...]
Simplificadamente, as Marchas batiam-se pela obediência aos "valores
tradicionais cristãos" (o terço e o rosário, o matrimônio, a família) e pela
observação das "liberdades individuais" (a liberdade de expressão, a
liberdade religiosa, a propriedade privada) ameaçadas (ou supostamente
ameaçadas) pelo governo Goulart.

A situação só se agravou quando, em 26 de março, eclodiu no Rio de


Janeiro a chamada Revolta dos Marinheiros. Em comemoração aos dois anos da
Associação dos Marinheiros e Fuzileiros Navais, entidade considerada ilegal, os
marinheiros reivindicavam, no Sindicato dos Metalúrgicos, “o reconhecimento de sua
associação, a melhoria da alimentação a bordo dos navios e dos quartéis e a
reformulação do regulamento disciplinar da Marinha” (LAMARÃO, 2004), bem como,
que os marinheiros presentes no evento não sofressem qualquer punição.
O ministro da Marinha, Silvio Mota, enviou um destacamento de fuzileiros
navais ao local. Estes acabaram aderindo à manifestação dos marinheiros e o
Presidente João Goulart deu ordens expressas para que as tropas não invadissem o
Sindicato dos Metalúrgicos, o que resultou no pedido de demissão de Sílvio Mota.
Remígio (2009, p.181) nos conta que após algumas negociações com os
marinheiros:

Jango acatou as reivindicações, sem que ordenasse a punição dos


envolvidos. Mais uma vez, um fato que desagradou aos militares, pois a
passividade de João Goulart com a apontada indisciplina militar o fez alvo

 
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de acusações de apoiar o movimento comunista possivelmente existente


dentro das forças armadas, fato este que se revela como a causa mais
imediata para o golpe.

Era o que os militares esperavam para por o golpe definitivamente em


andamento. Com o apoio de boa parte da sociedade civil e do governo
estadunidense 1 , os militares tomaram o Poder Executivo para si no dia 1º de abril de
1964, sem que João Goulart ou seus aliados oferecessem qualquer resistência.
O regime militar brasileiro durou de 1964 a 1985, atravessando três fases
distintas. Em um primeiro momento (1964-1968), o governo buscava a consolidação
do seu poder, construindo-o, pela via “legal”, através dos Atos Institucionais.
O primeiro Ato Institucional, datado de 09/04/1964, marcou o início da
repressão aos opositores do regime, com cassação de mandatos, suspensão de
direitos políticos, demissão de servidores públicos, expurgo de militares,
aposentadoria compulsória e prisão de milhares de pessoas.
O ano de 1968 veio a marcar o momento de explosão de várias
manifestações contrárias ao regime por parte dos movimentos contraculturais,
sindicais, estudantis, da ala menos conservadora da Igreja Católica e até mesmo
das forças que apoiaram inicialmente o golpe militar.
Carlos Lacerda, um dos maiores articuladores civis do golpe militar, criou,
juntamente com os ex-presidentes Juscelino Kubitschek e João Goulart, a chamada
Frente Ampla de Oposição.
As manifestações tornaram-se freqüentes e, em março de 1968, a morte
do estudante paraense Edson Luís, pela polícia, durante uma passeata estudantil foi
o estopim para a indignação de vários setores da sociedade brasileira, mesmo da
classe média, até então distante das manifestações, feitas somente pelos
estudantes, operários e intelectuais.
Zappa e Soto (2008, p. 73) mostram que a mídia carioca registrou essa
morte em várias de suas manchetes: “Assassinato” (Correio da Manhã); “Edson
morreu nos braços dos companheiros” (Última Hora); “Polícia mata estudante”
(Diário de Notícias); “Assassinato leva estudantes a greve nacional” (Jornal do
Brasil); “PM fuzila estudante no Calabouço” (O Jornal).

                                                            
1
Logo após o comício da Central do Brasil, o Presidente estadunidense, Lyndon Johnson, autorizou a
formação de uma força naval para intervir favoravelmente aos militares na crise brasileira, em caso de
guerra civil.
 
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O jornal Correio da Manhã (1968 apud Zappa; Soto, 2008, p. 72), um dos
maiores jornais do país à época, fez, em seu editorial, um ataque direto ao regime e
sua “política” de repressão:

Atirando contra jovens desarmados, ensandecida pelo desejo de oferecer à


cidade apenas mais um festival de sangue e morte, a Polícia Militar
conseguiu coroar, com este assassinato coletivo, a sua ação, inspirada na
violência e só na violência. Barbárie e covardia foram a tônica bestial de sua
ação. O ato de depredação do restaurante pelos policiais, após a fuzilaria e
a chacina, é o atestado que a Polícia Militar passou a si própria, de que sua
intervenção não obedeceu a outro propósito senão o de implantar o terror
na Guanabara. Diante de tudo isto, depois de tudo isto, é possível ainda
discutir alguma coisa? Não e não.

O movimento contrário ao regime cresceu ainda mais no mês seguinte, e


em Contagem, Minas Gerais, 15 mil operários entraram em uma greve que durou
nove dias. O funcionamento da Frente Ampla de Oposição foi proibido pela ditadura
e a chamada “linha dura” dos militares começava a pressionar o então presidente
Costa e Silva a reprimir ainda mais os grupos insurgentes.
No parlamento, foi denunciado um plano de utilização do Para-sar
(unidade de pára-quedistas especializada em socorro e salvamento), em missões
criminosas de seqüestro de quarenta líderes políticos, para serem lançados de avião
a quarenta quilômetros da costa. Nos dias seguintes, o Correio da Manhã noticiava
que o Para-sar havia sido convocado para participar, à paisana, de missões policiais
permanentes de repressão às agitações na Guanabara. Zuenir Ventura (2008,
p.187) relata que:

Começava a ser desvendado naquele início de mês um dos mais sinistros


planos terroristas da nossa história contemporânea. Se tivesse tido
sucesso, a operação provocaria não só a execução de personalidades
políticas, mas também a morte de cerca de 100 mil habitantes do Rio, já
que previa a explosão de um gasômetro no início da avenida Brasil, às 18
horas, isto é, na hora do rush, e a destruição da represa de Ribeirão das
Lajes. A responsabilidade pelos atentados seria atribuída aos comunistas.

O plano da ala mais violenta dos militares só não foi bem sucedido porque
o capitão pára-quedista Sérgio Ricardo Miranda de Carvalho se opôs, tornando o
“Caso Para-sar” de conhecimento público. Além da descoberta desse plano, outro
fato causou indignação na ala extremista das Forças Armadas: por 216 votos contra
141, o Congresso Nacional decidiu não suspender a imunidade do deputado Márcio

 
18
 

Moreira Alves, que havia feito um discurso 2 conclamando a população a boicotar o


desfile de 7 de setembro e as mulheres, em especial, a recusarem-se a ter relações
com os militares, de modo a fazer com que os militares silenciosos, discordantes do
regime, se posicionassem, pondo fim à ditadura.
Era o que o setor “linha dura” do regime militar esperava para obrigar o
Presidente Costa e Silva a tomar medidas mais rígidas de combate à oposição e
finalmente, na sexta-feira, 13 de dezembro de 1968, o Presidente assinou o Ato
Institucional nº. 5 (AI-5), em um momento que ficou conhecido como o “golpe dentro
do golpe”. Era a inauguração da segunda fase do regime ditatorial, o período de
maior violência e perseguição aos opositores do regime, também conhecido como
“anos de chumbo” (1969-1974).
Dentre suas disposições o Ato Institucional nº. 5 (BRASIL, 1968) previa:
a) o fechamento do Congresso Nacional por tempo indeterminado,
autorizando o Executivo a legislar em todas as matérias, em âmbito
federal, estadual e municipal;
b) a possibilidade de intervenção federal nos estados e municípios sem
limitações constitucionais;
c) a possibilidade de o Presidente suspender direitos políticos 3 por 10
anos e cassar mandatos eletivos federais, estaduais e municipais;
d) a suspensão das garantias constitucionais da vitaliciedade,
inamovibilidade e estabilidade, bem como a de exercício em funções
por prazo certo 4 ;

                                                            
2
“[...] Vem aí o 7 de setembro. As cúpulas militaristas procuram explorar o sentimento profundo de
patriotismo do povo e pedirão aos colégios que desfilem junto com os algozes dos estudantes. Seria
necessário que cada pai, cada mãe , se compenetrasse de que a presença dos seus filhos nesse
desfile é o auxílio aos carrascos que os espancam e os metralham nas ruas. Portanto, que cada um
boicote esse desfile. Esse boicote pode passar também, sempre falando de mulheres, às moças.
Aquelas que dançam com cadetes e namoram jovens oficiais. Seria preciso fazer hoje, no Brasil, que
as mulheres de 1968 repetissem as paulistas da Guerra dos Emboabas e recusassem a entrada à
porta de sua casa àqueles que vilipendiam-nas. [...] Enquanto não se pronunciarem os silenciosos,
todo e qualquer contato entre os civis e militares deve cessar, porque só assim conseguiremos fazer
com que este país volte à democracia. Só assim conseguiremos fazer com que os silenciosos que
não compactuam com os desmandos de seus chefes, sigam o magnífico exemplo dos 14 oficiais de
Crateús que tiveram a coragem e a hombridade de, publicamente, se manifestarem contra um ato
ilegal e arbitrário dos seus superiores.” (ALVES, 1968)
3
A suspensão dos direitos políticos incluía: a cessação de privilégio de foro por prerrogativa de
função, a suspensão do direito de votar e de ser votado nas eleições sindicais, a proibição de
atividades ou manifestação sobre assunto de natureza política e a aplicação das medidas de
segurança de liberdade vigiada, proibição de freqüentar determinados lugares e domicílio
determinado. Havia ainda a previsão de que o ato de suspensão dos direitos políticos poderia
restringir ou proibir o exercício de quaisquer direitos públicos ou privados.
 
19
 

e) a possibilidade de o Presidente decretar o Estado de Sítio e prorrogá-


lo;
f) a possibilidade de o Presidente decretar o confisco de bens por
enriquecimento ilícito;
g) a suspensão do habeas corpus nos casos de crimes políticos, contra a
segurança nacional, a ordem econômica e social e a economia
popular e, por fim,
h) a exclusão da apreciação do Judiciário de todos os atos praticados de
acordo com o AI-5 e seus Atos Complementares, bem como seus
efeitos.
Além do fechamento do Congresso Nacional por um período superior a
dez meses, o AI-5 teve como conseqüências a prisão imediata de Carlos Lacerda e
Juscelino Kubitschek, a cassação de diversos mandatos políticos e um sem número
de pessoas presas, torturadas, em exílio forçado, mortas ou desaparecidas 5 . Streck
(2002, p. 355) aponta algumas das conseqüências deste Ato Institucional:

Com efeito, além das conseqüências funestas para a democracia, o Ato


Institucional atingiu diretamente 1.577 cidadãos brasileiros: suspendeu 454
pessoas em cargos eletivos; aposentou 548 funcionários civis; reformou 241
militares; demitiu sumariamente 334 funcionários públicos, cassou 6
senadores, 110 deputados federais, 161 deputados estaduais, 22 prefeitos,
22 vice-prefeitos 22 vereadores, 3 ministros do Supremo Tribunal Federal,
afastou 23 professores da USP, afastou 10 cientistas do Instituto Oswaldo
Cruz, proibiu ou mutilou cerca de 500 filmes de curta metragem; proibiu ou
mutilou aproximadamente 450 peças teatrais, proibiu ou mutilou mais de
100 revistas, proibiu ou mutilou mais de 500 letras de músicas, proibiu ou
mutilou mais de 200 livros.

Se até aquele momento poderia se considerar o regime militar como


constitucional, certamente depois do AI-5 ficou mais que evidente a implantação de
um estado de exceção 6 no país. O único membro do Conselho de Segurança
Nacional a votar contra o Ato Institucional nº. 5, o vice-presidente Pedro Aleixo
(1968), asseverou em seu voto que:
                                                                                                                                                                                               
4
Isso garantia ao Presidente a prerrogativa de demitir, remover, aposentar ou por em disponibilidade
quaisquer titulares dessas garantias ou empregados públicos, bem como de demitir, transferir para a
reserva ou reformar militares ou membros de polícias militares.
5
Uma lista de mortos e desaparecidos em razão do regime militar encontra-se no sítio do Grupo
Tortura Nunca Mais do Rio de Janeiro. Vide: http://www.torturanuncamais-rj.org.br/
6
O estado de exceção se caracteriza pela suspensão da ordem jurídica, com abolição da distinção
entre poder legislativo, executivo e judiciário, atribuindo-se ao executivo o poder de promulgar
decretos com força-de-lei. No estado de exceção, o direito “se divide em uma pura vigência sem
aplicação (a forma da lei) e em uma aplicação sem vigência: a força-de-lei.” (AGAMBEN, 2004, p. 93) 
 
20
 

[...] da leitura que fiz do Ato Institucional, cheguei à sincera conclusão de


que o que menos se faz nele é resguardar a Constituição, que no seu artigo
1º declara-me preservada. Eu estaria faltando um dever para comigo
mesmo se não emitisse, com sinceridade, esta opinião. Porque, da
Constituição, que, antes de tudo, é um instrumento de garantia de direitos
da pessoa humana, de garantia de direitos políticos, não sobra, nos artigos
posteriores, absolutamente nada que possa ser realmente apreciável como
sendo uma caracterização do regime democrático. [...] Pelo Ato
Institucional, o que me parece, adotado esse caminho, o que nós estamos é
com uma aparente ressalva da existência dos vestígios de poderes
constitucionais existentes em virtude da Constituição de 24 de janeiro de
1967, e instituindo um processo equivalente a uma própria ditadura. Se é
necessário fazê-lo, se esta é uma contingência da necessidade, então o
problema se apresenta sob um outro aspecto. Mas, do ponto de vista
jurídico, eu entendo que, realmente, o Ato Institucional elimina a própria
Constituição.

Depois desse período de intensa repressão aos opositores do regime,


veio a terceira fase da ditadura militar, que ficou conhecida como o período da
abertura e teve seu início em 15 de março de 1974, com a posse do penúltimo
Presidente militar, o general Ernesto Geisel, que prometeu um processo de
“distensão lenta e gradual”. O governo militar sinalizou algumas demonstrações
nesse sentido, como a suspensão da censura à imprensa, em 1975 e a revogação
do AI-5, em 1978. As prisões, a tortura e o desaparecimento de opositores ao
regime, contudo, persistiam.
É preciso que se diga que a dita abertura não foi uma concessão dos
militares, mas fruto das condições econômicas e políticas que pressionavam a
ditadura durante todo o mandato de Geisel. No ano de 1974, a crise do petróleo,
iniciada no ano anterior, finalmente chegou ao Brasil, pondo fim ao que ficou
conhecido como “milagre econômico” do governo de Emílio Garrastazu Médici
(1969-1974). Em 1977, Jimmy Carter assumiu a Presidência dos Estados Unidos,
tendo como uma de suas bandeiras de campanha a defesa dos direitos humanos e
a represália às ditaduras militares do Cone Sul.
Em sua conhecida entrevista à Revista Playboy durante a sua campanha,
Carter (1976 apud GASPARI, 2004, p.367) afirmou que:

Quando Kissinger 7 diz, como fez há pouco, que o Brasil tem um tipo de
governo compatível com o nosso, bem, aí está o tipo de coisa que nós
queremos mudar. O Brasil não tem um governo democrático. É uma

                                                            
7
Henry Alfred Kissinger foi um diplomata americano com grande influência na política externa
estadunidense no período entre 1969 e 1977.
 
21
 

ditadura militar. Em muitos aspectos é altamente repressiva para os presos


políticos. Nosso governo deve corresponder ao caráter e aos princípios
morais do povo americano e nossa política externa não pode contorná-los
em troca de vantagens temporárias.

Era o claro sinal de que o maior aliado externo da ditadura não ia mais ser
conivente com as recorrentes práticas de violência e perseguição à oposição do
regime militar.
Na política interna, a ditadura militar também não passava por bons
momentos. Em novembro de 1974, durante as eleições para membros do Senado,
deputados estaduais e federais, o Movimento Democrático Brasileiro (MDB), único
partido da oposição, elegeu 16 senadores, 44% dos deputados federais e a maioria
dos deputados estaduais em 6 assembléias legislativas (incluindo a de São Paulo,
do Rio de Janeiro e do Rio Grande do Sul), crescendo de maneira espantosa e
demonstrando o descontentamento da população com o regime militar (PARTIDO
DO MOVIMENTO DEMOCRÁTICO BRASILEIRO, 2009).
O governo militar percebeu que teria graves derrotas nas eleições
seguintes caso mantivesse a oposição aglutinada em torno de um único partido, e,
em 1979, simultaneamente ao processo de anistia, o bipartidarismo foi extinto no
Brasil. Isso explica, em parte, o porquê da abertura, ou mesmo da “concessão” da
anistia no país, conforme se verá adiante.

2.2 Histórico da Lei da anistia

O Brasil teve sua história marcada por várias concessões de anistia,


desde a fase colonial até a era republicana. Essas anistias, contudo, costumam ser
cercadas de polêmicas sobre sua legitimidade e legalidade.
A primeira anistia em solo brasileiro de que se tem notícia foi no ano de
1654, quando foram anistiados os nativos e portugueses que colaboraram com a
ocupação holandesa da capitania de Pernambuco.
Em setembro de 1822, D. Pedro I tratou de conceder anistia geral a todas
as opiniões políticas anteriores ao início do Império, com exceção dos que já
estivessem presos ou em processo. Já na era republicana, Juscelino Kubitschek

 
22
 

ficou conhecido pela grande utilização que fazia desse instituto para “apaziguar”
conflitos, em especial as revoltas dos militares, durante o seu governo.
A mais recente das anistias do país foi concedida pela Lei nº. 12.191, de
13 de janeiro de 2010, aos policiais e bombeiros militares de nove estados
federados que haviam sido punidos por participação em movimentos
reivindicatórios. 8
Mas, sem dúvidas, a mais polêmica das anistias já concedidas no Brasil
foi a resultante da Lei nº. 6.683, de 28 de agosto de 1979, cuja análise é objeto do
presente trabalho. Tal anistia foi fruto de intensa agitação política desde o início do
regime militar. Danyelle Nilin Gonçalves (2009, p.273) relata que já “em 1964, o
escritor católico Alceu Amoroso de Lima (Tristão de Athayde), em um programa de
rádio, conclamava o presidente Marechal Castello Branco a anistiar os revoltosos”.
Contudo, somente na década de setenta é que o movimento pró-anistia
viria a se fortalecer. O grupo Mães de São Paulo deu origem, no ano de 1975, ao
Movimento Feminino pela Anistia e Liberdades Políticas, tendo as mulheres
desempenhado um papel fundamental na articulação de um movimento ainda mais
forte de luta pela anistia. Conforme reportagem de Medeiros (2004), Terezinha
Zerbini, uma das responsáveis pelo estabelecimento de comitês femininos pela
anistia ao longo do país e esposa de um general do Exército cassado pela ditadura,
relata que: “se a luta tivesse começado com homens, teria acabado logo. As
mulheres foram muito importantes, pois a ditadura pensava duas vezes antes de
reprimir donas de casa como eu...”.
O Comitê Brasileiro de Anistia só surgiu em 1978 e, suprimindo o caráter
de gênero que o movimento tinha até então, aglutinou vários setores da sociedade
brasileira e várias demandas, como o retorno à democracia, a transição política, a
libertação dos presos políticos e o retorno dos brasileiros exilados.
Fernando Gabeira (1979, p.11), ainda no exílio, relata que:

Não conheço em todo o período de militância na denúncia da ditadura


brasileira no Exterior nenhuma palavra de ordem que tenha nos unido tanto
quanto a Anistia. De repente, e pela primeira vez, sentávamos todos juntos:
democratas liberais, cristãos, pessoas com tendências socialistas e mesmo
comunistas. Isto porque achamos que o Partido Comunista tinha um
importante papel a desempenhar na luta pela democracia e na luta pela

                                                            
8
A referida lei mal foi publicada e já atraiu polêmica por ter anistiado as “infrações disciplinares
conexas” aos crimes militares, em suposta invasão de competência dos Estados pela União.
 
23
 

Anistia e que de forma nenhuma deveríamos alijar do esforço comum uma


força política que era favorável à democracia no Brasil.

Finalmente, em 27 de junho de 1979, o Presidente da República, João


Batista Figueiredo, enviou a Mensagem nº. 59/79 ao Congresso Nacional, em que
firmou entendimento de que era o tempo de se realizar a anistia, uma vez que esta
“reabre o campo da ação política, enseja o reencontro, reúne e congrega para a
construção do futuro e vem na hora certa.” (BRASIL, 1979a).
Com o país fragmentado pelas disputas de poder, João Batista Figueiredo
entendia ser esse o momento de restabelecer a união nacional através de uma
bandeira comum a todos: a anistia. A idéia do governo militar era que, com a anistia
e o fim do bipartidarismo, os políticos exilados retornariam ao país, dividindo e
enfraquecendo a oposição.
Contudo, mesmo que a idéia de uma anistia fosse comum aos militares e
a boa parte dos movimentos articulados à época, havia anistias diferentes em
disputa, contrárias em vários pontos, conforme se observa no quadro elaborado na
Convocatória para Ato Público pela Anistia Ampla, Geral e Irrestrita 9 , realizado em
08 de agosto de 1979, em São Paulo:

ANISTIA DO GOVERNO ANISTIA DO POVO


1. Não libertará todos os presos políticos 1. Anistia deve alcançar a todos, porque
nem trará de volta os exilados, pois exclui muitos brasileiros pegaram em armas
os que foram condenados pelos Tribunais para lutar contra as torturas e os
Militares pelo que o governo acusa de assassinatos praticados pelo governo,
"terrorismo, assalto, seqüestro e atentado contra a miséria e o analfabetismo. Contra
pessoal" o TERRORISMO DA DITADURA.

2. Não devolve os direitos retirados 2. Anistia devolve automaticamente os


arbitrariamente: a volta dos punidos ao direitos que foram retirados
serviço público (civil e militar) dependerá do arbitrariamente tanto para os civis quanto
juízo de uma comissão nomeada pelo para os militares. São bem conhecidas no
próprio governo. passado essas "Comissões" que tem o
poder de "desanistiar" os anistiados.
3. Sugere anistia aos torturadores. 3. Pede contas, ao governo, dos presos
políticos, mortos e desaparecidos e
punição para os torturadores.

4. Não devolve integralmente os direitos de 4. Anistia significa LIBERDADE, o fim da


nenhum dos anistiados pois continuam em ditadura, o desmantelamento dos órgãos
vigor todas as leis da ditadura, como a Lei de repressão política. A liberdade de
de Segurança Nacional, a lei de greve e a dizer, reunir, organizar, reivindicar e
constituição feita pelos militares. participar sem ser reprimido.

                                                            
9
Quadro encontrado em http://www.fpabramo.org.br/conteudo/convocatoria-para-ato-publico-pela-
anistia-ampla-geral-e-irrestrita. Acesso em: 28 abr. 2010.
 
24
 

Em resumo, a proposta de anistia apresentada pelo Comando Geral de


Anistia Ampla, Geral e Irrestrita tinha como princípios a revogação da Lei de
Segurança Nacional e o desmantelamento dos órgãos de repressão, a ampliação
dos efeitos àqueles que já tinham sido condenados, o restabelecimento integral das
pessoas demitidas aos seus empregos e a reintegração ao serviço público, bem
como, uma prestação de contas, por parte do governo, acerca dos presos políticos,
mortos e desaparecidos e a não-inclusão dos torturadores no rol dos anistiados.
Como se verá em capítulo posterior, essa proposta é a que mais se coaduna com a
chamada Justiça de Transição.
Já a proposta do governo, contida no projeto de lei assinado pelo
Presidente João Batista Figueiredo anistiava os torturadores e membros dos órgãos
repressores, através do obscuro conceito de “crimes conexos” (BRASIL, 1979b) 10 .
Além disso, não modificava a legislação repressora, como a Lei da Segurança
Nacional (até hoje em vigor), não se estendia aos que perderam o emprego e não
eram servidores públicos e trazia clara distinção de tratamento entre os “terroristas”
condenados e aqueles com processo em curso, sendo que somente os últimos
seriam anistiados. Isso fez o Presidente da Comissão mista do Congresso, Teotônio
Vilela (CONGRESSO NACIONAL, 1982, p. 450), afirmar que:

A discriminação é indefensável eticamente, politicamente e juridicamente. A


justificativa de exclusão não convém, mas o projeto não exclui os que o
regime entende responsáveis pelo terror. Beneficiou alguns para deixar de
fora os condenados formalmente. Dois acusados pelo mesmo fato terão
tratamento diametralmente oposto. O condenado seguirá na prisão. O que
ainda não foi sentenciado recuperará os seus direitos e não responderá
pelos atos praticados. Não há argumento lógico, nem princípio ético que
justifique tão odiosa desigualdade.

Como parte da estratégia política, os parlamentares da oposição


decidiram apoiar o projeto de lei apresentado pelo Presidente da República, com a
perspectiva de propor as emendas e substitutivos necessários a uma anistia mais
ampla, geral e irrestrita o possível. Interessa observar que o texto substitutivo do
Movimento Democrático Brasileiro continha entre os seus princípios a rejeição

                                                            
10
Art. 1º: [...]
§ 1º - Consideram-se conexos, para efeito deste artigo, os crimes de qualquer natureza relacionados
com crimes políticos ou praticados por motivação política.
 
25
 

explícita da reciprocidade da anistia 11 , que deveria ser ampla, geral e irrestrita, mas
somente para os atingidos pelo regime militar (GRECO, 2003, p. 282).
Contudo, todas as emendas e substitutivos apresentados pelos opositores
foram rejeitados e um texto substitutivo, dessa vez apresentado pelo relator do
projeto de lei, Ernani Satyro (deputado da Aliança Renovadora Nacional - ARENA),
trouxe um acréscimo de sete artigos ao texto original e deu mostras dos poucos
pontos em que o governo estava disposto a ceder.
Dentre esses pontos, Mezarobba (2003, p.39) relata que:

[...] o substitutivo estendeu o prazo de concessão do benefício até 15 de


agosto de 1979, incluiu no art. 1º os crimes eleitorais e não só as ações
punidas com base em Atos Institucionais e complementares, mas também
as baseadas em “outros diplomas legais”, e garantiu aos dependentes de
anistiado falecido o direito às vantagens que lhe seriam devidas. Além de
prever a possibilidade de familiares de desaparecidos requererem uma
declaração de ausência de pessoa, o substitutivo do deputado Satyro
também concedeu anistia aos empregados de empresas privadas punidos
por participação em greve ou outros movimentos reivindicatórios e
estabeleceu que os anistiados inscritos em partidos políticos legalmente
constituídos poderiam votar e ser votados.

Ao final, com o Congresso ocupado por mais de 700 soldados da polícia


da Aeronáutica e com mais de 1000 manifestantes na rampa, o projeto de anistia do
Movimento Democrático Brasileiro foi rejeitado com 209 votos contrários e 194 votos
a favor e a Emenda Djalma Marinho, de anistia ampla, geral e irrestrita, foi derrotada
por 206 votos contrários e 201 a favor. O texto substitutivo de Satyro, de interesse
do governo, foi aprovado, por pequena margem de votos e, no dia 28 de agosto de
1979, foi sancionada a Lei da anistia, sob o nº. 6.683 e com veto parcial no art. 1º,
sendo excluída do artigo a expressão “e outros diplomas legais”.
A redação do art. 1º da Lei da anistia (BRASIL, 1979b) ficou sendo a
seguinte:

Art. 1º É concedida anistia a todos quantos, no período compreendido entre


02 de setembro de 1961 e 15 de agosto de 1979, cometeram crimes
políticos ou conexo com estes, crimes eleitorais, aos que tiveram seus
direitos políticos suspensos e aos servidores da Administração Direta e
Indireta, de fundações vinculadas ao poder público, aos Servidores dos
Poderes Legislativo e Judiciário, aos Militares e aos dirigentes e
representantes sindicais, punidos com fundamento em Atos Institucionais e
Complementares (vetado).

                                                            
11
“Excetuam-se dos benefícios da anistia os atos de sevícia ou de tortura, de que tenha ou não
resultado morte, praticados contra presos políticos.”  
 
26
 

§ 1º - Consideram-se conexos, para efeito deste artigo, os crimes de


qualquer natureza relacionados com crimes políticos ou praticados por
motivação política.
§ 2º - Excetuam-se dos benefícios da anistia os que foram condenados pela
prática de crimes de terrorismo, assalto, seqüestro e atentado pessoal.

Debaixo do manto dos “crimes conexos”, foi dada a anistia a todos os


representantes da ditadura que cometeram crimes de tortura, assassinato, seqüestro
e terrorismo. Além da crítica perene a essa auto-anistia 12 , os movimentos articulados
na luta pela anistia clamavam, ainda, por uma maior abrangência desta e pela sua
real aplicação, dado que até 1984 ainda havia pelo menos 17 presos políticos em
liberdade condicional e muitos funcionários públicos ainda não tinham sido
reintegrados ao serviço público. Mezarobba (2003, p.48) relata que:

Em novo levantamento, desta vez realizado pelo Movimento Feminista pela


Anistia e Liberdade Democrática, contabilizava-se o numero de 11.434
pessoas que aguardavam os benefícios da lei 6.683. Os civis eram 4.730. A
maioria, ou 4.691, ex-funcionários da Petrobras. A empresa demitira cerca
de cinco mil empregados com base em leis de exceção, mas até aquele
momento só havia anistiado 309. Desse total, apenas 14 tiveram seus
empregos de volta; 295 foram aposentados. Entre os 117 bancários
punidos, 67 conseguiram voltar aos seus empregos, 27 foram aposentados,
oito viviam de pensões e 15 ainda aguardavam a anistia. A situação dos 36
radialistas punidos era parecida. Apenas 12 haviam sido reconduzidos aos
seus empregos. Nas Forças Armadas, os não-anistiados somavam 6.704.
Dos 407 oficiais punidos, 369 estavam na inatividade e 38 aguardavam
algum beneficio. Dos quase sete mil praças atingidos. 34 voltaram à ativa e
380 estavam inativos. Os demais esperavam a anistia.

A pressão da sociedade por uma anistia que contemplasse mais pessoas


persistiu e, em 1985, a Emenda Constitucional nº. 26 (BRASIL, 1985) estendeu os
benefícios da anistia, garantindo as promoções aos servidores públicos civis e
militares punidos pela legislação de exceção, estivessem eles na ativa ou
aposentados 13 .
A Assembléia Constituinte de 1987 trouxe novamente à tona a discussão
sobre o alcance da anistia e, no art. 8º do Ato das Disposições Constitucionais
Transitórias (ADCT) 14 da Constituição Federal de 1988 (BRASIL, 1988), a anistia

                                                            
12
O conceito e a ligação da auto-anistia à Lei nº. 6683/79 serão abordados no capítulo seguinte.
13
Art. 4º É concedida anistia a todos os servidores públicos civis da Administração direta e indireta e
militares, punidos por atos de exceção, institucionais ou complementares.
[...] § 3º Aos servidores civis e militares serão concedidas as promoções, na aposentadoria ou na
reserva, ao cargo, posto ou graduação a que teriam direito se estivessem em serviço ativo,
obedecidos os prazos de permanência em atividade, previstos nas leis e regulamentos vigentes.
14
Art. 8º. É concedida anistia aos que, no período de 18 de setembro de 1946 até a data da
promulgação da Constituição, foram atingidos, em decorrência de motivação exclusivamente política,
 
27
 

política ganhou novo formato, com marco inicial em 18 de setembro de 1946,


previsão de reparação econômica aos atingidos pelos atos de exceção e sem a
menção à polêmica figura dos “crimes conexos”.
Entretanto, como observa Mezarobba (2003, p.119), “os progressos
ficaram bastante aquém do que desejavam a oposição e as vítimas do arbítrio” e
mais uma vez, “ficaria evidente que a temática estava circunscrita aos limites
estabelecidos pelas Forças Armadas”. Era a consolidação do já conhecido jargão da
“anistia possível”.
A discussão sobre o alcance da Lei da anistia aos crimes praticados pelos
apoiadores do regime militar nunca deixou de ser pautada, mas a partir do ano de
2008, tomou novo fôlego com a condenação cível, em primeira instância, do coronel
da reserva Carlos Alberto Brilhante Ustra. Em outubro de 2008, o juiz Gustavo
Santini Teodoro, da 23ª Vara Cível de São Paulo, exarou sentença em que
reconheceu a responsabilidade de Brilhante Ustra pela tortura praticada no
Destacamento de Operações de Informações - Centro de Operações de Defesa
Interna de São Paulo (DOI-Codi) contra os ex-presos políticos Maria Amélia de
Almeida Teles, César Augusto Teles e Criméia Schmidt de Almeida 15 .
No mesmo mês, o Conselho Federal da Ordem dos Advogados do Brasil
(OAB) propôs a Argüição de Descumprimento de Preceito Fundamental nº. 153, com
a intenção de obter do Supremo Tribunal Federal (STF) uma interpretação da Lei da
anistia conforme a Constituição, de modo a declarar, à luz dos seus preceitos
fundamentais, que a anistia concedida pela citada lei aos crimes políticos ou
conexos não se estende aos crimes comuns praticados pelos agentes da repressão
contra opositores políticos, durante o regime militar.
Ingressaram como Amici Curiae a Associação Juízes para a Democracia,
o Centro pela Justiça e o Direito Internacional, a Associação Brasileira de Anistiados
Políticos e a Associação Democrática e Nacionalista de Militares, todos favoráveis
ao provimento da Argüição de Descumprimento de Preceito Fundamental nº. 153.

                                                                                                                                                                                               
por atos de exceção, institucionais ou complementares, aos que foram abrangidos pelo Decreto
Legislativo nº 18, de 15 de dezembro de 1961, e aos atingidos pelo Decreto-Lei nº 864, de 12 de
setembro de 1969, asseguradas as promoções, na inatividade, ao cargo, emprego, posto ou
graduação a que teriam direito se estivessem em serviço ativo, obedecidos os prazos de
permanência em atividade previstos nas leis e regulamentos vigentes, respeitadas as características
e peculiaridades das carreiras dos servidores públicos civis e militares e observados os respectivos
regimes jurídicos.
15
Processo de número 583.00.2005.202853, da 23ª Vara Cível do Estado de São Paulo.
 
28
 

Em recentíssima sessão, datada de 28 e 29 de abril de 2010, a Argüição


de Descumprimento de Preceito Fundamental nº. 153 foi rejeitada pelo Supremo
Tribunal Federal por 7 (sete) votos contra 2 (dois) 16 . Alguns dos argumentos
utilizados tanto favoravelmente quanto contrariamente ao seu provimento serão
abordados no decorrer dos capítulos seguintes.

                                                            
16
Votaram pelo seu provimento os ministros Ayres Britto e Ricardo Lewandowski. Os ministros Eros
Grau (relator da Argüição de Descumprimento de Preceito Fundamental), Ellen Gracie, Gilmar
Mendes, Cármen Lúcia, Marco Aurélio, Celso de Mello e Cezar Peluso votaram pelo seu
improvimento.  
 
29
 

3 AS TENTAÇÕES DO ESQUECIMENTO: CONSTRUINDO NA AREIA


Esquecimento! Fluido estranho, de ânsias,
De negra majestade,
Soluço nebuloso das Distâncias
Enchendo a Eternidade!
Cruz e Sousa

O ano era 404 a.C. e, finda a Guerra do Peloponeso, a cidade-estado de


Esparta impôs aos atenienses um governo oligárquico conhecido como a Tirania dos
Trinta. Esse regime encontrou em Trasíbulo, general ateniense exilado em Tebas, o
seu principal opositor.
Trasíbulo, liderando a resistência ao golpe dos oligarcas, conseguiu
agrupar outros exilados e retomar o poder em Atenas, restaurando a democracia e
instaurando medidas de transição entre os regimes. Uma dessas medidas foi a lei,
votada em praça pública, com a aprovação da maioria dos atenienses, que
enunciava: "Você não evocará as palavras do passado", o que significou, em termos
práticos, o esquecimento dos atos praticados por todos os envolvidos na guerra civil,
apoiadores ou opositores aos trinta tiranos 17 .
Essa medida ficou conhecida com “amnestia”, termo grego que pode ser
entendido como “privação do lembrar-se” ou “privação da lembrança” e que deu
origem ao que conhecemos hoje como anistia. A idéia de anistia, desde seu
surgimento, portanto, esteve ligada ao esquecimento.
O direito ao esquecimento, ainda que não expressamente disposto na
Constituição ou na legislação infraconstitucional, é uma importante garantia
individual, ligada diretamente ao Princípio da Segurança Jurídica. Pode-se se dizer
que o esquecimento é pedra basilar da própria construção do Direito, tal a sua
importância. Nesse sentido, o jusfilósofo François Ost (2005, p.154) pontua que:

Presente no fundamento mesmo do direito, o esquecimento o acompanha


igualmente na sua vida quotidiana, ritmando seus desenvolvimentos,
escandindo suas idas e vindas. Contra a imagem dogmática da
continuidade da regra (“um sol que nunca se põe”, escreve Jean Carbonier),
é preciso admitir, de fato, eclipses da juridicidade, das baixas da pressão
jurídica – administrando pausas de não-direito ou de menos direito.

Para o referido autor, tanto o esquecimento quanto a memória estão


presentes nas maneiras de o Direito lidar com o tempo enquanto fenômeno social,
                                                            
17
Os atenienses deliberaram que os trinta tiranos não teriam seus atos abrangidos pela lei do
esquecimento.
 
30
 

instituindo-o e temporalizando-o, em uma relação recíproca: “o direito temporaliza,


ao passo que o tempo institui.” (OST, 2005, p.13), ou ainda:

o tempo não permanece exterior à matéria jurídica, como um simples


quadro cronológico em cujo seio desenrolaria sua ação; do mesmo modo, o
direito não se limita a impor ao calendário alguns prazos normativos,
deixando para o restante que o tempo desenrole seu fio. (OST, 2005, p. 14)

Com isso, quer o autor afirmar que, diferentemente da visão positivista, o


papel principal do Direito é contribuir para a instituição do corpo social, sendo o
Direito um “discurso performativo, um tecido de ficções operatórias que redizem o
sentido e o valor da vida em sociedade” (OST, 2005, p.13). A função primordial do
Direito é instituir e essa instituição só se dá na relação simbiótica com o tempo.
Para Ost (2005, p. 47), “uma coletividade só é construída com base numa
memória compartilhada, e é ao direito que cabe instituí-la”. E ele o faz:

[...], reunindo e protegendo as informações relativas a um número


considerável de atos e de fatos, contra os riscos do esquecimento, ele
permite que a vida social se desenvolva na continuidade de uma memória
comum, cujos dados são permanentemente acessíveis a todos.

O Direito tem o poder de ligar e desligar o tempo, criando ficções


operatórias que garantirão a manutenção da ordem na sociedade, instituindo o
passado através da certificação dos fatos acontecidos, da garantia da origem dos
títulos, das regras, das pessoas e das coisas, mas também vinculando/ligando o
futuro através das promessas, dos contratos, das leis e, por que não dizer, da
própria Constituição.
É preciso se ter a clareza de que não é permitida ao Direito a livre
disposição do passado e da tradição, mas ao contrário, o novo só é instituído com
base no que já existe, toda inovação pressupõe algo de indisponível com o qual lida
e elabora sua construção.
Toda lei, por mais inovadora que seja, pressupõe um conjunto de
contextos interpretativos que lhe preexistem e determinam, em certa medida, a sua
adequação ao ordenamento, ou seja, determinam se haverá um papel para essa lei
dentro da tradição jurídica já existente. François Ost (2005, p. 94) leciona serem três
esses contextos: a linguagem, o sistema jurídico preexistente e as comunidades
interpretativas especializadas. A linguagem envolve a nova lei de tal maneira, que

 
31
 

ainda que a lei possa transforma/criar novo sentido de uma expressão que utilize,
não é dado ao legislador o poder de se tornar “totalmente senhor, nem da sintaxe,
nem, do léxico da língua”; “o autor não pode escrever com total liberdade, um laço
poderoso o religa ao passado das tradições recebidas” (OST, 2005, p.94).
O sistema jurídico, por sua vez, é um espaço “saturado de noções, de
princípios e de processos prévios, à luz dos quais qualquer elemento novo será lido
e entendido” (OST, 2005, p. 95). Frise-se que esse filtro pelo qual passam os
elementos novos é muito mais forte na tradição jurídica que nas demais, posto que a
tradição jurídica, ao contrário das outras, é institucionalizada e explicitamente
normativa.
Já as comunidades interpretativas especializadas são os “destinatários
privilegiados da lei” (OST, 2005, p. 95): a administração, a jurisdição e a doutrina.
No momento atual, em que o Poder Judiciário é cada vez mais demandado e a
administração passa a ter um papel cada vez mais interpretativo/regulatório, é
patente a influência dessas comunidades na construção do Direito e na seleção do
que deve ou não ser integrado ao ordenamento jurídico. Ost (2005, p. 95) nos
ensina que:

Considerar a influência nobre destas autoridades interpretativas é, ao


mesmo tempo, relativizar a distinção ainda clássica entre as operações de
edição (obra do legislador) e de aplicação (obra dos intérpretes) da lei; é
igualmente relativizar o falso corte entre momento de ruptura (o instante da
produção legislativa) e momento de repetição (estágio posterior de
aplicação da lei). Em caso de distinção ou de ruptura, observa-se, antes, um
continuum: a lei é parcialmente escrita visando sua aplicação (ou seja,
considerando simultaneamente rotinas administrativas e princípios
previamente depreendidos pelos juízes e pela doutrina), ao passo que, ao
contrário, a aplicação dos textos pelos intérpretes “subordinados” nunca é
isenta de inventividade, suscetível de inspirar o legislador quando de uma
futura reescrita do texto.

Da mesma maneira, a cada vez que o Direito determina qual versão do


passado que deve prevalecer nos autos, se a da vítima ou do acusado, por exemplo,
ele está reescrevendo a tradição jurídica e, ao mesmo tempo, preservando a
memória, ao determinar/perfazer uma verdade (ainda que restrita aos autos), e
selecionando o que deve ser esquecido.
Além dessa forma de esquecimento inerente a cada decisão judicial, há
outras formas de manifestação do esquecimento no ordenamento jurídico. São elas:
a prescrição, a decadência, a caducidade ou desuso, o perdão judicial, e a anistia.

 
32
 

Cumpre fazer referência ao conceito de anistia, dados os objetivos do presente


trabalho.

3.1 O conceito de anistia

O conceito de anistia pode ser encontrado com facilidade na doutrina. O


doutrinador Cezar Roberto Bitencourt (2008, p. 718) conceitua a anistia como o
“esquecimento jurídico do ilícito e tem por objeto fatos (não pessoas) definidos como
crimes, de regra, políticos, militares ou eleitorais, excluindo-se, normalmente, os
crimes comuns”.
Para José Afonso da Silva (2007, p. 896), a anistia é a “medida legislativa
ou constituinte pela qual se suprimem os efeitos e a sanção por delitos contra o
Estado, o que se conhece como crimes políticos”. Rogério Greco, por sua vez,
entende que, na anistia, “o Estado renuncia ao seu jus puniendi, perdoando a prática
de infrações que, normalmente têm cunho político.”
Como observado por Bitencourt (2008, p.718), há tipos diferentes de
anistia. A anistia prevista no Código Penal implica na extinção de punibilidade e são
apagados os efeitos da condenação, remanescendo, contudo, a obrigação de
indenizar. A anistia política, por sua vez, tem natureza constitucional (art. 48, inciso
VIII, da Constituição Federal de 1988, já sendo prevista no art. 8º, inciso XVI, da
Constituição de 1969), implicando, na prática, nos mesmos efeitos da anistia penal,
só que com respeito aos crimes políticos. Remígio (2009, p. 188) menciona que a
anistia política é comumente relacionada ao perdão, dado que impede a punição de
quem praticou crimes políticos, contudo, entende que, em verdade:

ela visa à solução de um conflito surgido em conseqüência de um momento


de grave perturbação institucional, geralmente provocado pela deflagração
de revoltas e insurreições no âmbito interno de um Estado.

Conforme visto anteriormente, foi exatamente o que aconteceu durante o


regime militar. A anistia foi a medida utilizada para por fim aos conflitos internos e
conduzir à “pacificação” política do país. A pergunta que se impõe é se essa
pacificação seria possível somente com a anistia e, em especial, se a auto-anistia

 
33
 

feita pelo governo através da idéia de “crimes conexos”, presente no texto da Lei n°.
6.683/79, não possibilitou a manutenção de crimes do Estado contra os civis, na
medida em que implicou no esquecimento dos delitos cometidos pelo regime militar.
A anistia política surge em um momento posterior aos fatos tidos como
ilícitos, apagando seus rastros do corpo político, como se estes nunca tivessem
existido. Daí a anistia ser freqüentemente associada com cálculos de interesses
políticos e com a impunidade dos que cometeram atrocidades enquanto ocupavam
os cargos públicos.
Mas não são somente os juristas que estudam o conceito e a função da
anistia. Os filósofos também têm muito a dizer sobre o referido instituto. Paul Ricoeur
(2008, p. 195) diz que a anistia política não se estende somente à proibição de toda
e qualquer ação em juízo, “portanto à proibição de todo e qualquer processo movido
a criminosos”, mas que a isso se soma “a proibição de mencionar os fatos com sua
qualificação criminal.”
A anistia reescreve o passado, impedindo não só a propositura de ação
penal, mas também a própria menção aos atos praticados, relacionando com seu
tipo penal.
Para Ost (2005, p.172), a anistia se classifica em dois tipos, a depender
dos seus efeitos: menor e maior. A anistia menor, ou anistia das penas, interviria
após a condenação, interrompendo a execução das penas e apagando a
condenação. Para ele, esse tipo de anistia paga o seu tributo à memória, na medida
em que “pelo menos o processo ocorreu no seu tempo”, tendo sido estabelecida a
lide e inclusive havido a condenação, cumprindo assim o Estado o papel de terceiro
que intervém, pondo um fim à situação de hybris no corpo político.
Aqui há a real possibilidade do perdão (figura comumente ligada à
anistia), vez que o perdão só é possível onde há acusação, condenação e castigo
(mesmo que este tenha sido apagado), ou seja, só há perdão onde há
reconhecimento dos papéis e responsabilidades de cada um na comunidade e no
conflito em questão.
Não por acaso, essa posição de terceiro, assumida pelo Estado, é
essencial no modo como o Direito atribui esses papéis, instaurando a separação
entre a violência/vingança e a justiça, ou ainda, na própria possibilidade de
realização da justiça e, conseqüentemente, do perdão. A justiça só se estabelece

 
34
 

em uma relação de distanciamento com o outro, mediada pela instituição. O juiz 18


representa figura-chave nesse caso, impondo-se como terceiro na lide, com
autoridade reconhecida pelas partes, por sua referência à lei (RICOEUR, 2008, p.8).
A anistia maior, por sua vez, diz respeito à anistia dos fatos, e extingüe a
possibilidade de se entrar com a ação penal, desligando o passado de forma a fazer
com que os fatos percam seu caráter de crimes. Nesse ponto, “o efeito do
desempenho jurídico atinge o seu ápice: agimos como se o mal não tivesse ocorrido;
o passado é reescrito e o silêncio é imposto à memória.” (OST, 2005, p.172).
Pela análise do texto da Lei n°. 6.683/79, percebe-se que se tratou de
uma anistia “maior” ou anistia dos fatos, dado que esta não se estendeu aos que já
estavam condenados, os chamados “terroristas”, aqueles que cometeram crimes
comuns como assaltos e seqüestros e que já tinham respondido aos processos
penais. Quando da Mensagem n°. 59/79 (BRASIL, 1979a), dirigida ao Congresso
Nacional, o Presidente João Batista Figueiredo foi categórico em afirmar que: “A
anistia tem o sentido de reintegrar o cidadão na militância política e o terrorista não
foi e não é um político”. Dessa forma, “não é abrangido quem foi condenado pela
Justiça por crime que não é estritamente político”. A explicação dada pelo
Presidente (BRASIL, 1979a), é que o terrorista:

não se volta contra o Governo, o regime, ou mesmo contra o Estado. Sua


ação é contra a humanidade e, por isso, repelida pela comunidade
universal, que sanciona, como indispensáveis, leis repressivas de que se
valem países da mais alta formação democrática.

Nesse trecho da mensagem dirigida ao Congresso, fica clara a idéia que


o governo militar tinha do “inimigo interno” e que é subjacente ao discurso de que a
ditadura foi um “mal necessário”, motivo pelo qual, no entendimento dos militares, a
anistia deveria ser estendida aos representantes do regime militar, como passo
necessário à pacificação nacional. O que se passará a analisar são quais os efeitos
dessa medida.

                                                            
18
O papel de terceiro assumido pelo juiz pode ser situado em três instâncias distintas: a) o Estado,
detentor da violência legítima, em contraposição à sociedade civil; b) a instituição judiciária, detentora
da jurisdição, em contraposição aos outros poderes estatais; c) a figura humana do juiz como terceiro,
nem muito próximo nem muito distante dos dramas humanos em debate na lide. (RICOEUR, 2008,
p.185)
 
35
 

3.2 Anistia e Esquecimento

Que a anistia tem relação com o esquecimento, já se sabe. Mas de que


tipo de esquecimento se está falando quando se trata da anistia trazida pela Lei nº.
6.683/79? Quais as conseqüências desse esquecimento para a comunidade
política?
Paul Ricoeur (2008, p. 195) entende que a anistia é uma “verdadeira
amnésia institucional”, comparando-a com a tentativa de apagar “a mancha de
sangue nas mãos de Lady Macbeth”. Diz ele:

O que se tem em vista? Sem dúvida alguma, a reconciliação nacional.


Nesse aspecto, é perfeitamente legítimo reparar pelo esquecimento as
lacerações do corpo social. Mas pode ser preocupante o preço que se paga
por essa reafirmação (que chamei de mágica e desesperada) do caráter
indivisível do poder soberano.

Para esse autor, o preço a ser pago pela anistia é que “todos os delitos do
esquecimento estão contidos nessa pretensão incrível a apagar todos os vestígios
das discórdias públicas.” (RICOEUR, 2008, p.195). A anistia se coloca assim, como
contrária ao perdão, na medida em que este exige memória e aquela é um
esquecimento forçado dos conflitos em nome de um “apaziguamento” da sociedade.
François Ost (2005, p. 173), em análise dessa passagem do texto de Ricoeur,
enumera dentre esses “delitos do esquecimento” o enorme “risco de banalizar o
crime ou ainda neutralizar todos os valores, bons ou maus, colocando-os lado a lado
numa medida comum de clemência, como quando se anistia os antigos opositores
para melhor anistiar os antigos opressores”. Foi essa modalidade de esquecimento
que norteou a Lei nº. 6.683/79.
Os defensores da anistia brasileira advogam uma perigosa e inexistente
sinonímia entre a anistia e o perdão, conforme se observou no julgamento da
Argüição de Descumprimento de Preceito Fundamental nº. 153, quando em seu
voto, o Presidente do STF, Cezar Peluso (BRASIL, 2010a), afirmou que:

Só o homem perdoa, só uma sociedade superior qualificada pela


consciência dos mais elevados sentimentos de humanidade é capaz de
perdoar. Porque só uma sociedade que, por ter grandeza, é maior do que
os seus inimigos é capaz de sobreviver.

 
36
 

Diante disso, se faz fundamental para a presente discussão asseverar a


diferença feita por Ricoeur entre a anistia e o perdão, representando a primeira
apenas uma “caricatura de perdão” (RICOEUR, 2007, p.495) e diretamente ligada ao
esquecimento, enquanto o último nada tem a ver com o esquecimento, mas sim com
a memória: seu projeto é de “anular a dívida” e é incompatível com o de anular a
memória (RICOEUR, 2008, p.196). As possibilidades de perdão através das anistias
e outras medidas de Justiça de Transição serão mais bem abordadas nos próximos
capítulos do presente trabalho. Voltemos, pois, às relações entre a anistia e o
esquecimento.
O esquecimento tem importante papel a desempenhar na concretização
do Direito e nem toda figura do esquecimento (e nem toda anistia) é perigosa ou
parcial. Há o que Ost (2005, p.161) chama de esquecimentos-pacificação ou
apaziguamento. Citam-se, como exemplos, as anistias periódicas utilizadas como
instrumento de política penitenciária:

Reduzindo a intervalos regulares a superpopulação das prisões, o sistema


“se purga” ao esquecer; ele tenta, assim, escapar à paralisia que o espreita
e reduz as tensões no interior do universo carcerário; por outro lado,
subtraindo determinadas infrações ao benefício da medida de clemência, o
governo assinala as prioridades da política penal que pretende seguir dali
pra frente. (OST, 2005, p. 172)

Diante do importante papel desempenhado pelo esquecimento e pelas


próprias anistias, como se pode avaliar se uma anistia serve a um esquecimento
forçado (sem pacificação, portanto) ou a uma reconciliação nacional? Isso só pode
ser avaliado diante das conjunturas políticas particulares e em relação ao conjunto
de elementos do contexto em que a anistia foi gerada. Assim, nos diz Ost (2005, p.
175), “é certo que a questão do retorno à democracia e da punição dos culpados
não se apresentou nos mesmos termos na Europa Ocidental depois da Segunda
Guerra Mundial, e na Europa Oriental, depois da cortina de ferro”, ou na América
Latina depois das ditaduras militares, podemos acrescentar.
Assim, pode-se observar que a Lei da anistia, desde sua construção,
pode ser ligada a outras duas das categorias de esquecimento trabalhadas por
François Ost: o esquecimento-recalque e o esquecimento-falsário. O primeiro é
ligado à idéia de história enquanto desfile dos vitoriosos, enquanto triunfo dos
vencedores. Diz ele que os esquecimentos-recalque são aqueles:

 
37
 

através dos quais se visam esses fenômenos de amnésia coletiva, que


dizem respeito aos vencedores em relação à sorte que suas conquistas,
guerras, cruzadas e outros djihads impuseram aos vencidos, vítimas
anônimas enviadas para as masmorras da história; esquecimento dos
massacres, genocídios, crimes contra a humanidade, que acarreta hoje o
sobressalto da imprescritibilidade. (OST, 2005, p.162)

Para o autor, essa espécie de esquecimento visa a apagar do corpo


social os flagelos que são impostos aos vencidos no decorrer da história. De acordo
com o que vimos anteriormente, o Direito tem papel fundamental na instituição do
corpo social e na construção da sua história. Há, aqui, uma ligação com o que
Foucault (1999, p.85) designa de “discurso histórico de tipo romano”, ou seja, um
discurso histórico que, narrando a história dos reis, dos soberanos ou de suas
vitórias, vincula juridicamente os homens ao poder “mediante a continuidade da lei,
que se faz aparecer no interior desse poder e em seu funcionamento” (FOUCAULT,
1999, p. 76).
A construção do esquecimento dos crimes contra a humanidade
praticados pelo Estado brasileiro durante o regime militar sob a desculpa da
“pacificação social” visa precisamente a essa vinculação ao poder e acaba por
recalcar o sofrimento das vítimas, retirando-os do espaço público e relegando as
suas histórias individuais à clandestinidade, à “psicologização” e “familiarização” das
relações pessoais, criando “bolhas” em que as vítimas do regime estariam
envolvidas (MOURÃO; JORGE; FRANCISCO, 2002, p. 55). Isso é o mesmo que
dizer que há uma privatização das memórias individuais, na medida em que as
instâncias oficiais não reconhecem essas memórias como legítimas e não permitem
que elas adentrem ao espaço público e disputem seu lugar na história oficial.
Observa-se que esse esquecimento forjado com a Lei da anistia só veio a agravar o
processo de privatização da vida e esvaziamento do espaço público a que os
brasileiros já estavam/estão sujeitos com a crise do político neste fim da
modernidade.
Para Mourão, Jorge e Francisco (2002, p. 55):

apagar partes da história ou reescrevê-las sob os ditames impostos pelas


versões oficiais não seria apenas um acordo de cavalheiros sem
revanchismos. Seria estar conivente com o exercício cotidiano e
contemporâneo de poder de um status quo que visa o esquecimento como
impedimento da memória.

 
38
 

Nesse mesmo sentido, entende Greco (2003, p. 364), para quem o


Estado brasileiro pós-64 assumiu o papel de monopolizador da condução e da
produção da história através de uma estratégia do esquecimento, um método de
governo que segue a mesma lógica da utilização da tortura: “como parte integrante
do projeto político de desmonte radical da esfera pública e sujeição da sociedade,
logo, instrumento de interdição do exercício da política enquanto tal.”
Para essa autora, o controle da memória é/foi tratado como questão de
Estado, “do qual a lei 6.683/79 é a mais completa representação positivada”
(GRECO, 2003, p. 364). Esse controle constituiria em:

[...] um dos mais poderosos componentes entre aqueles que reafirmam a


disposição totalitária do Estado de Segurança Nacional. Seu dispositivo
operacional é a produção do silêncio a partir da lógica do generoso
consenso, cujo núcleo é a tríplice equação controle/compromisso/
concessão, articulada a partir da institucionalização do grande repertório de
meios de coerção levada a cabo pelo projeto de normalização defeituosa do
regime, o mesmo que forjou a mencionada longa transição ainda em
andamento. (GRECO, 2003, p. 364)

Conforme nos ensina Foucault (1999, p.204), “a história não é


simplesmente um analisador ou um decifrador das forças, é um modificador”. Isso
implica dizer que se “ter razão na ordem do saber histórico”, ou ainda, “dizer a
verdade da história” é “ocupar uma posição estratégica decisiva”. Pode-se dizer que
quem diz o Direito, diz a história e que toda condução do processo de construção da
Lei da anistia, por parte do governo, e a inclusão dos representantes do regime
militar entre os anistiados foi uma medida de construção dessa história de recalque
em que até hoje parte do envolvidos nega a existência da tortura durante o regime
ou invoca a anistia como forma de não ter que voltar a esse assunto.
A outra espécie de esquecimento a que a anistia pode ser ligada é o
esquecimento-falsário, que, para Ost (2005, p.161), representa as “mil e uma formas
de mentiras piedosas da história oficial para legitimar um regime ou reforçar uma
ideologia, trabalhando à vontade com a simples verdade dos fatos”. Ele cita como
exemplo a história do Japão, em que há o dogma fundador de que o imperador não
conheceu nem a abdicação forçada e nem a substituição desde que o país foi criado
pelos deuses, postulado que só se mantém, diz ele, “ao preço de acumular
esquecimentos e ‘contraverdades’” (OST, 2005, p.161).

 
39
 

O processo de construção da anistia recíproca teve esses efeitos de


falseamento da história e dos papéis representados pela sociedade e, em especial,
pelos militantes, durante o regime militar. É o que Reis Filho (2001, p.136-137)
demonstra:

a chamada sociedade civil — no caso do Brasil, a sociedade que conta, ou


seja, a situada nos estratos superiores da pirâmide social, e que
acompanhava os debates — não pareceu incomodada com os
deslocamentos de sentido e com os resultados obtidos com a Lei da Anistia,
[...]. Ao contrário, houve júbilo, o que é próprio das grandes conciliações. [...]
a sociedade, reconhecendo-se essencialmente comprometida com os
valores democráticos, se auto-absolvia de qualquer transação com a
ditadura. [...] A ditadura foi considerada corpo estranho. Quanto à tortura, o
que tem uma sociedade democrática a ver com torturas praticadas no
âmbito de uma ditadura que já se foi? [...] A sociedade brasileira não só
resistira à ditadura, mas a vencera. Difícil imaginar poção melhor para
revigorar a auto-estima. [...] a grande maioria dos exilados e de ex-presos
compartilhou estas tendências - ativa ou passivamente, pouco importa. Só
uma minoria, acusada de sectarismo e de revanchismo, permaneceu
insatisfeita, mas se encontrou totalmente isolada. A sociedade virou-lhe as
costas.

Com isso, a diferença entre aqueles que lutavam pela revolução e os que
visavam à restituição da democracia sumiu, assim como foi apagado o rastro do
apoio dado ao regime militar por várias camadas da sociedade e, mais que isso, foi
construída a idéia de que a sociedade resistira à ditadura e a vencera; por fim, a
lembrança de que a tortura era/é prática cotidiana das atividades policiais foi
relegada aos porões da ditadura.
Outro falseamento, talvez o maior, foi o de que a anistia surgiu em um
tom conciliatório e de que foi produto de intensa discussão no seio da sociedade,
com a Lei nº. 6.683/79 representando o produto final desses debates. Esse
falseamento é observado, por exemplo, no voto do ministro Eros Grau, relator da
Argüição de Descumprimento de Preceito Fundamental nº. 153, quando declara que
“Toda a gente que conhece nossa História sabe que esse acordo político existiu,
resultando no texto da Lei n. 6.683/79” (BRASIL, 2010b). Também se observa o
mesmo falseamento no voto da ministra Cármen Lúcia, no mesmo julgamento:

Não se pode negar que a anistia brasileira, concedida na forma da Lei n.


6683/79, resultou de uma pressão social, em especial dos principais setores
atuantes da sociedade civil, como intelectuais, estudantes, sindicatos, e foi
objeto de amplo debate e de manifestações expressas e específicas das
principais entidades e personalidades então atores do processo da
chamada “abertura”. Dentre estas entidades destacou-se o Conselho
Federal da Ordem dos Advogados do Brasil, cujo acesso ao texto que viria

 
40
 

a se tornar a Lei n.6683/79, para análise e deliberação sobre a sua posição


em relação a ele, foi prioritário, como antes acentuado. O partido então tido
por oposição ao governo, MDB, aguardou a manifestação da entidade para
se posicionar sobre o texto e sobre ele votar, tendo sido contrários, na
votação, apenas quatro congressistas. (BRASIL, 2010c)

Conforme esboçado no capítulo anterior, o processo de construção da Lei


da anistia não foi nada pacífico e não teve esse caráter de acordo ou conciliação,
permanecendo o texto proposto pelo governo, mesmo com forte resistência da
oposição e com votação apertada.

3.2.1 O conceito de auto-anistia

A Lei da anistia, tal qual planejada pelos militares, implicou em uma


medida recíproca de esquecimento, como forma de melhor garantir a impunidade
dos seus próprios crimes, através do fenômeno conhecido com auto-anistia. A auto-
anistia consiste no fato de “o Estado liberar-se, a si mesmo ou a seus agentes, da
responsabilidade por delitos cometidos contra os particulares, especialmente
caracterizados como violações dos direitos humanos.” (SILVA, 2007, p.897) e é
condenada pela comunidade internacional.
Em seu voto no julgamento da Argüição de Descumprimento de Preceito
Fundamental nº. 153 pelo STF, o ministro Celso de Mello (BRASIL, 2010d)
reconheceu a condenação da Corte Interamericana de Direitos humanos às leis de
auto-anistia, afirmando que:

a Corte Interamericana de Direitos Humanos, em diversos julgamentos –


como aqueles proferidos, p. ex., nos casos contra o Peru (“Barrios Altos”,
em 2001, e “Loayza Tamayo”, em 1998) e contra o Chile (“Almonacid
Arellano e outros”, em 2006) -, proclamou a absoluta incompatibilidade,
com os princípios consagrados na Convenção Americana de Direitos
Humanos, das leis nacionais que concederam anistia, unicamente, a
agentes estatais, as denominadas “leis de auto-anistia”. (grifos no original)

Contudo, apesar desse reconhecimento e de a anistia trazida pela Lei nº.


6.683/79 poder ser facilmente enquadrada como uma auto-anistia, o referido
ministro demonstrou ser expressamente contrário a esse posicionamento, por

 
41
 

entender que a referida lei teve caráter bilateral ou recíproco: anistiou os


torturadores, mas também anistiou os opositores do regime (BRASIL, 2010d).
Tal entendimento é completamente equivocado. Isso porque, em primeiro
lugar, a bilateralidade não impede a caracterização da auto-anistia; pelo contrário, a
bilateralidade é reconhecimento, pelo Estado, da própria torpeza: se anistia os
opositores para melhor se anistiar os próprios crimes. Em segundo lugar, tal
entendimento desconsidera que, salvo o caso peruano, as outras leis de anistia pós-
ditadura na América Latina foram tão recíprocas/bilaterais quanto a Lei nº. 6.683/79
e, mesmo assim, foram consideradas como leis de “auto-anistia”. É o que se observa
em rápida análise das concessões de anistia no Chile e na Argentina.
No Chile, a ditadura militar durou de 1973 a 1990 e, no ano de 1978, o
então Presidente do país, general Augusto Pinochet, aprovou o Decreto-Lei nº.
2.191 (CHILE, 1978), concedendo anistia a todos aqueles que, na qualidade de
autores, cúmplices ou encobridores, praticaram atos criminosos durante a vigência
do estado de sítio (no período entre 11 de setembro de 1973 e 10 de março de
1978).
Diz o art. 1º do referido Decreto-Lei (CHILE, 1978, tradução nossa):

Art. 1º. Concede-se anistia a todas as pessoas que, na qualidade de


autores, cúmplices ou encobridores tenham cometido atos criminosos,
durante a vigência da situação de Estado de Sítio, compreendida entre 11
de setembro de 1973 e 10 de março de 1978, sempre que não estiverem
atualmente submetidas a processo ou condenadas. 19

No julgamento do caso Almonacid Arellano y otros Vs. Chile, em


setembro de 2006, a Corte Interamericana de Direitos Humanos caracterizou o
referido decreto-lei como uma auto-anistia, tão simplesmente por ser medida do
próprio regime militar para impedir o julgamento de seus crimes. É o que se
depreende de parte da sentença do caso, transcrita abaixo:

Na presente Sentença, a Corte corretamente caracterizou o referido


Decreto-Lei nº. 2191 como de auto-anistia, ditado pelo “próprio regime
militar, para impedir a ação da justiça, principalmente em seus próprios
crimes”, perpetrados durante o estado de sítio no período entre 11.09.1973

                                                            
19
Artículo 1°- Concédese amnistía a todas las personas que, en calidad de autores, cómplices o
encubridores hayan incurrido en hechos delictuosos, durante la vigencia de la situación de Estado de
Sitio, comprendida entre el 11 de Septiembre de 1973 y el 10 de Marzo de 1978, siempre que no se
encuentren actualmente sometidas a proceso o condenadas.  
 
42
 

e 10.03.1978. (Corte Interamericana de Direitos Humanos, 2006 tradução


nossa) 20

Na Argentina, por sua vez, a ditadura militar durou de 1976 a 1983, tendo
a anistia se dado em 1983, através da Lei nº. 22.924/83 (ARGENTINA, 1983a),
conhecida como Lei da Pacificação Nacional. Tal lei declarou extintas as ações
penais tanto dos delitos cometidos com motivação ou finalidade terrorista ou
subversiva, quanto os delitos cometidos para impedir ou por fim às atividades
terroristas. É clara a bilateralidade dessa lei, conforme se observa em seu art. 1º
(ARGENTINA, 1983a, tradução nossa), abaixo transcrito:

Art.1º. Declaram-se extintas as ações penais decorrentes dos delitos


cometidos com motivação ou finalidade terrorista ou subversiva, desde 25
de maio de 1973 até 17 de junho de 1982. Os benefícios outorgados por
esta lei se estendem, também, a todos os atos de natureza penal praticados
durante ou em conexão com o desenvolvimento de ação dirigidas para
prevenir, evitar ou por fim às referidas atividades terroristas ou subversivas,
qualquer que tenha sido sua natureza ou bem jurídico lesionado. Os efeitos
dessa lei alcançam os autores, partícipes, instigadores, cúmplices ou
encobridores e compreende os delitos comuns conexos e os delitos
militares conexos. 21

A Lei da Pacificação Nacional foi derrogada, ainda no mesmo ano, pela


Lei nº. 23.040 (ARGENTINA, 1983b), precisamente por ser uma lei de auto-anistia.
O tipo de esquecimento trazido pelas medidas de auto-anistia é condenado pela
comunidade internacional, ainda mais quando esse esquecimento tem relação direta
com crimes cometidos contra a humanidade e não objetiva o bem comum. É o que
declarou a Corte Interamericana de Direitos Humanos no julgamento do caso
Almonacid Arellano y otros Vs. Chile (Corte Interamericana de Direitos Humanos,
2006):

As auto-anistias não são verdadeiras leis, porque desprovidas do


necessário caráter genérico destas, da Idéia de Direito que as inspira
(essencial inclusive para a segurança jurídica), e de sua busca pelo bem
                                                            
20
En la presente Sentencia, la Corte correctamente caracterizó el referido Decreto Ley No. 2191
como de autoamnistía, dictado por "el propio régimen militar, para sustraer de La acción de la justicia
principalmente sus propios crímenes", perpetrados durante el estado de sitio entre 11.09.1973 y
10.03.1978 (párrs. 119 y 81.10).
21
Declárense extinguidas las acciones penales emergentes de los delitos cometidos con motivación o
finalidad terrorista o subversiva, desde el 25 de mayo de 1973 hasta el 17 de junio de 1982. Los
beneficios otorgados por esta ley se extienden, asimismo, a todos los hechos de naturaleza penal
realizados en ocasión o con motivo del desarrollo de acciones dirigidas a prevenir, conjurar o poner
fin a las referidas actividades terroristas o subversivas, cualquiera hubiera sido su naturaleza o el bien
jurídico lesionado.
 
43
 

comum. Nem mesmo buscam a organização ou regulamentação das


relações sociais para a realização do bem comum. Tudo que pretendem é
retirar da justiça determinados fatos, encobrir violações graves de direitos e
assegurar a impunidade de alguns. Não satisfazem os mínimos requisitos
de leis, pelo contrário, são aberrações antijurídicas. (tradução nossa) 22

Da mesma maneira, no caso Barrios Altos (Corte Interamericana de


Direitos Humanos, 2001):

[...] são inadmissíveis as disposições de anistia, as disposições de


prescrição e o estabelecimento de excludentes de responsabilidade que
pretendam impedir a investigação e sanção dos responsáveis por violações
graves de direitos humanos tais como a tortura, as execuções sumárias,
extralegais ou arbitrárias e os desaparecimentos forçados, todas elas
proibidas por violar direitos inderrogáveis reconhecidos pelo Direito
Internacional dos Direitos Humanos. (tradução nossa) 23

No caso brasileiro, há quem defenda que o art. 8º do Ato das Disposições


Constitucionais Transitórias da Constituição Federal de 1988 (BRASIL, 1988), por
não tratar dos crimes conexos, não contemplou a auto-anistia. É o que entende José
Afonso da Silva (2007, p. 897), para quem:

Isso está claro no caput e nos parágrafos do artigo. Vale dizer: os agentes
estatais que reprimiram, mataram, torturaram e deram sumiço a pessoas
não foram beneficiados, nem poderiam sê-lo, não apenas por caracterizar-
se ilegítima auto-anistia, mas, sobretudo, porque a própria Constituição tem
como “insuscetível de graça ou anistia a prática da tortura”, reputada, além
disso, crime hediondo (art. 5º, XLIII). 24

Os limites da auto-anistia nos casos de crime contra a humanidade


voltarão a ser tratados no próximo capítulo. Cumpre ainda fazer referência a outros
institutos jurídicos ligados ao esquecimento e que se fazem presentes na discussão
                                                            
22
Las autoamnistías no son verdaderas leyes, por cuanto desprovistas del necesario carácter
genérico de éstas, de la idea del Derecho que las inspira (esencial inclusive para la seguridad
jurídica), y de su búsqueda del bien común. Ni siquiera buscan la organización o reglamentación de
lãs relaciones sociales para la realización del bien común. Todo lo que pretenden es substraer de la
justicia determinados hechos, encubrir violaciones graves de derechos, y asegurar la impunidad de
algunos. No satisfacen los mínimos requisitos de leyes, todo lo contrario, son aberraciones
antijurídicas.
23
[...] son inadmisibles las disposiciones de amnistía, las disposiciones de prescripción y el
establecimiento de excluyentes de responsabilidad que pretendan impedir la investigación y sanción
de los responsables de las violaciones graves de los derechos humanos tales como la tortura, las
ejecuciones sumarias, extralegales o arbitrarias y las desapariciones forzadas, todas ellas prohibidas
por contravenir derechos inderogables reconocidos por el Derecho Internacional de los Derechos
Humanos.  
24
Sobre essa discussão, ver monografia de Cristhiane Nery Gomes, defendida no Curso de Direito da
Universidade Federal do Maranhão: GOMES, Cristhiane Nery. A interpretação conforme a
Constituição da Lei nº. 6683 de 28 de agosto de 1979 – Lei da Anistia. Monografia (Graduação) –
Curso de Direito. Universidade Federal do Maranhão, São Luís, MA, 2009.
 
44
 

acerca da aplicabilidade da anistia aos crimes praticados pelos agentes do regime


militar. São eles: a medida de extinção de punibilidade conhecida como prescrição e
o princípio da anterioridade da lei penal.

3.2.2 O conceito de prescrição

Dentro da presente discussão, há os que defendem que, mesmo que se


diga que a Lei da anistia não se aplica aos crimes cometidos pelos apoiadores do
regime militar, os crimes praticados durante esse período estariam prescritos, dado
terem se passado cerca de vinte e cinco anos do fim da ditadura 25 , sendo que no
Brasil o prazo prescricional máximo é de vinte anos.
Sobre o assunto, diz Vianna (2009):

Vê-se, pois, que não há como negar vigência ao art.109 do Código Penal.
As torturas praticadas durante a ditadura militar estão inevitavelmente
prescritas, pois mesmo que uma lei ou um tratado internacional posterior
venha a considerar a tortura crime imprescritível em nosso país, a nova
norma não poderá retroagir em prejuízo dos acusados.

O referido doutrinador evoca tanto o instituto da prescrição quanto o


princípio da irretroatividade da lei penal para dizer que os atos de tortura praticados
pelos agentes da ditadura militar não são passíveis de condenação, mesmo que se
afaste a aplicação da Lei da anistia a esses agentes.
Veja-se que, mesmo que Vianna mencione apenas os crimes de tortura, o
argumento da prescrição pode ser estendido a todos os crimes praticados pelos
agentes da ditadura militar até o ano de 1985.
A prescrição é uma causa extintiva da punibilidade pelo decurso do
tempo, sendo prevista no art. 107, IV, do Código Penal e regulada pelos arts. 109 a
119 do mesmo diploma (BRASIL, 1940). Sobre a prescrição, Rogério Greco (2007,
p.729) leciona que:

[...] poderíamos conceituar a prescrição como o instituto jurídico mediante o


qual o Estado, por não ter tido capacidade de fazer valer o seu direito de

                                                            
25
Por todos, Túlio Vianna (2009).
 
45
 

punir em determinado espaço de tempo previsto pela lei, faz com que corra
a extinção da punibilidade.

Para Noronha (1991, p. 347), o instituto da prescrição se justifica na


demora do Estado em promover a ação penal no tempo estabelecido em lei. Diz ele
que:

[...] não se pode admitir que alguém fique eternamente sob ameaça da ação
penal, ou sujeito indefinidamente aos seus efeitos, antes de ser proferida
sentença, ou reconhecida sua culpa (em sentido amplo). Seria o vexame
sem fim, a situação interminável de suspeita contra o imputado,
acarretando-lhe males e prejuízos, quando, entretanto, a justiça ainda não
se pronunciou em definitivo, acrescentando-se, como já se falou, que o
pronunciamento tardio longe estará, em regra, de corresponder à verdade
do fato e ao ideal de justiça. (NORONHA, 1991, p. 347)

Embora ambas sejam formas jurídicas de esquecimento, a prescrição, ao


contrário da anistia, não levanta tantos questionamentos acerca da sua aplicação,
tendo em vista ser medida geral e abstrata, com edição anterior ao cometimento do
crime, não sendo, portanto, uma medida de ocasião.
Contudo, sua aplicação com relação aos crimes praticados pelos agentes
da ditadura militar deve ser vista não somente à luz do Direito interno, mas também
à luz do Direito Internacional, que estabelece a imprescritibilidade dos crimes contra
a humanidade, dentre os quais se enquadram o assassinato, a tortura, a
perseguição de grupo político e o desaparecimento forçado de pessoas, quando
praticados como parte de um ataque generalizado ou sistemático contra uma
população civil. Outro ponto a ser destacado é que os casos de desaparecimento
forçado podem ser considerados como crimes permanentes, aqueles cuja
consumação se prolonga no tempo, impedindo o início do prazo prescricional, dado
que este só se dá no momento da consumação. Essas relações serão mais bem
analisadas no próximo capítulo.

3.2.3 O princípio da anterioridade da lei penal

Conforme mencionado anteriormente, o princípio da anterioridade da lei


penal também é invocado para justificar a impossibilidade de se punir os atos de

 
46
 

tortura praticados pelos agentes da ditadura militar. A utilização desse argumento se


dá porque o crime de tortura só foi tipificado no país com a Lei nº. 9.455, de sete de
abril de 1997 26 (BRASIL, 1997).
O princípio da anterioridade da lei penal vem estabelecido no art. 5º,
inciso XXXIX da Constituição federal (BRASIL, 1988), que disciplina que “não há
crime sem lei anterior que o defina, nem pena sem prévia cominação legal”. José
Afonso da Silva (2007, p. 138) nos diz ser “indispensável uma descrição específica
da conduta tida como lesiva a um bem jurídico. Vale dizer que a ação humana, para
ser crime, há de corresponder objetivamente a uma conduta descrita tipicamente
pela lei.”.
Esse princípio modula os efeitos da lei penal no tempo, garantindo que,
muito embora uma conduta já seja moralmente condenável, ela só será punida pelo
sistema penal se for cometida depois de haver uma lei expressamente tipificando-a
como um crime. Sem desmerecer a importância do referido princípio para a
segurança jurídica, é preciso se ter em conta que a tortura não foi, em hipótese
alguma, aceita no Brasil republicano e boa parte das condutas tipificadas como atos
de tortura podem facilmente ser enquadradas como outros crimes tipificados no
Código Penal (Decreto-Lei nº. 2.848/40), nos Códigos Penais Militares (Decreto-Lei
nº. 6.227/44, revogado pelo Decreto-Lei nº. 1.001/69) e na Lei n.º 4.898/65, que
tipifica o abuso de autoridade.
O ministro do STF, Ricardo Lewandowski (BRASIL, 2010e), enumerou
esses delitos presentes no Código Penal, em seu voto na já mencionada sessão de
julgamento da Argüição de Descumprimento de Preceito Fundamental nº. 153. São
eles:

(i) crimes contra a vida e integridade corporal: homicídio (art. 121), lesões
corporais (art. 129), maus-tratos (art. 136); omissão de socorro (art. 135); (ii)
crimes contra a liberdade individual: privação arbitrária de liberdade,
mediante seqüestro ou cárcere privado (art. 148), constrangimento ilegal

                                                            
26
Art. 1º Constitui crime de tortura:
I - constranger alguém com emprego de violência ou grave ameaça, causando-lhe sofrimento físico
ou mental:
a) com o fim de obter informação, declaração ou confissão da vítima ou de terceira pessoa;
b) para provocar ação ou omissão de natureza criminosa;
c) em razão de discriminação racial ou religiosa;
II - submeter alguém, sob sua guarda, poder ou autoridade, com emprego de violência ou grave
ameaça, a intenso sofrimento físico ou mental, como forma de aplicar castigo pessoal ou medida de
caráter preventivo.
Pena - reclusão, de dois a oito anos.
 
47
 

(art. 146), ameaça (art. 147), violação de domicílio (art. 150); (iii) crimes
contra o patrimônio: furto (art. 155), dano (art. 163), apropriação indébita
(art. 168); (iv) crimes contra o respeito aos mortos: destruição ou ocultação
de cadáver (art. 211); (v) crimes contra a liberdade sexual: estupro (art.
213), atentado violento ao pudor (art. 214); (vi) crimes de falsificação:
falsificação de documento público (art. 297), atestado falso por médico (art.
302); (vii) crimes contra a administração pública: concussão (art. 316),
violência arbitrária (art. 322), abuso de autoridade (art. 350),
condescendência criminosa (art. 320).

O abuso de autoridade, previsto na Lei n.º 4.898/65 (BRASIL, 1965), por


sua vez, inclui na sua tipificação as condutas de atentado à incolumidade física do
indivíduo e a submissão de pessoa sob guarda ou custódia a vexame ou
constrangimento não autorizado em lei. Por tudo isso, é de se ver que a questão da
anterioridade da lei penal é completamente secundária no debate em foco, podendo
ser facilmente superada.

 
48
 

4 DEVER DE MEMÓRIA: UM BRINDE AO PASSADO


- A que brindaremos, desta vez? - perguntou, ainda com
a mesma leve sugestão de ironia.
- À confusão da Polícia do Pensamento? À morte do
Grande Irmão? À humanidade? Ao futuro?
- Ao passado - arriscou Winston.
- O passado é mais importante - concordou O'Brien,
gravemente.
(1984, George Orwell)

Conforme visto anteriormente, memória e esquecimento são duas faces


do mesmo papel instituidor exercido pelo Direito. A memória coletiva é o que
garante um mundo em comum entre os homens, uma continuidade que ultrapassa a
duração de cada geração, ligando-as em torno de narrativas comuns. Sem essa
memória do passado público, as novas gerações ficam presas ao que Eric
Hobsbawn (1995, p.13) chama de o “presente contínuo”, esse tempo paralisado em
que as experiências pessoais do presente não encontram seu vínculo com a
experiência das gerações anteriores.
É preciso se ter em mente que a memória não é simples operação de
lembrar-se dos fatos da exata maneira como ocorreram, passiva e automaticamente.
O próprio passado é constantemente construído a partir das percepções do
presente, ou como diria o escritor William Faulkner, em já consagrada frase: “O
passado não está morto e enterrado. Na verdade, ele nem mesmo é passado.” Daí a
importância de se articular historicamente o passado sem cair nas tentações do
esquecimento, que tudo “pacifica”, igualando opressores e oprimidos no silêncio.
Essa articulação do passado se dá pelo constante trabalho das instituições
encarregadas da memória, sendo que, como acentuado por Ost (2005, p. 51), a
memória:

[...] mostra-se efetivamente uma faculdade singularmente paradoxal:


esperava-se encontrar uma competência subjetiva e individual, vamos
descobri-la objetiva e social; nós a pensávamos passiva, inata, recebida e
espontânea, nós a descobrimos ativa, construída e normativa; poderíamos
acreditar que ela proviesse do passado, como a inércia natural de um peso
que se acumula, e eis que a apreendemos posta em movimento a partir do
presente e de suas questões; esperava-se, enfim, poder opô-la
absolutamente ao esquecimento, como uma coisa ao seu contrário,
veremos antes que ela engloba o esquecimento, do qual não poderia
totalmente se diferenciar destas diversas inversões de perspectiva.

Assim, são quatro os paradoxos da memória, cuja rápida análise é


importante para os objetivos do presente trabalho. O primeiro dos paradoxos é que a
 
49
 

lembrança só é possível se nos colocarmos sob o ponto de vista desta ou daquela


corrente de pensamento coletivo, sempre em consideração à existência de outros
seres humanos, ou conforme colocado por Halbwachs (1990, p. 26):

Mas nossas lembranças permanecem coletivas, e elas nos são lembradas


pelos outros, mesmo que se trate de acontecimentos nos quais só nós
estivemos envolvidos, e com objetos que só nós vimos. É porque, em
realidade, nunca estamos sós. Não é necessário que outros homens
estejam lá, que se distingam materialmente de nós: porque temos sempre
conosco e em nós uma quantidade de pessoas que não se confundem.

O segundo paradoxo apontado por Ost é que, ao contrário do comumente


pensado, a memória opera a partir do presente, ou seja, ela resulta de constante e
coletiva reelaboração “dos dados tomados de empréstimo ao presente, tanto quanto
ao passado próximo, ou seja, às reconstruções intermediárias que já reinterpretaram
consideravelmente, por sedimentações sucessivas, o material originário.” (OST,
2005, p. 57). Isso se torna patente ao se observar a já mencionada reconstrução do
papel da sociedade frente à ditadura, passando esta de cúmplice do regime à
opositora deste. O terceiro paradoxo está diretamente ligado ao segundo, e diz
respeito à atividade e movimento da memória, ao invés da passividade e da
espontaneidade a ela atribuídas. Esse movimento voluntário contribui para a
instituição normativa de um tempo social, através dos feriados, das datas simbólicas,
das exposições, das comemorações:

Não há, de fato, nenhum Estado moderno que possa ficar sem um romance
institucional das origens, dos quais as comemorações dos acontecimentos
fundadores fornecem, em intervalos regulares, não a simples lembrança no
modo da “rememoração” mas uma autêntica revitalização no modo da
“regeneração”: como se a virulência mesmo do passado mítico fosse
requisitada para se irradiar de novo no presente.(OST, 2005, p.59)

O último dos paradoxos se refere à já mencionada relação entre a


memória e o esquecimento: a organização da memória também é organização do
esquecimento, ou como Ost (2005, p. 90) nos diz:

Nada de organização da memória que não seja ao mesmo tempo


organização do esquecimento, [...]. Mas o próprio esquecimento seria
apenas um nada insensato, se não se definisse em relação à base estável
dos dados memorizados e regularmente rememorados pela instituição
jurídica.

 
50
 

É essa memória social, ativa, pontuada a partir dos problemas do


presente e diretamente ligada com o esquecimento que acessa a tradição,
selecionando os conteúdos que devem permanecer e os que devem ser esquecidos.
E aos juristas, assim como aos historiadores, cabe o papel de guardar a memória
coletiva, “não tanto, ou não somente, a título de arquivistas ou notários,
conservadores dos atos passados; não tanto, ou não somente, como cérebros
ciumentos das portas da legalidade; não tanto, ou não somente, como servidores
apressados dos príncipes” (OST, 2005, p. 50), mas de maneira muito mais
fundamental:

[...] os juristas assumem seu papel de guardiães da memória, lembrando


que, através mesmo de todas estas operações de deslocamento, opera
alguma coisa como uma lei comum e indisponível que foi utilizada num
dado momento do passado. Não uma injunção inicial e sagrada – se bem
que, na história do direito “a lei comum e indisponível” tenha muito
freqüentemente assumido essa forma religiosa -, mas antes a consciência
muito clara de que só se institui o novo com base no instituído. (OST, 2005,
p. 50)

Desse modo, são os juristas que, através da lembrança de uma lei


instituída, comum e indisponível (a Constituição), garantem que os valores coletivos,
o conjunto de princípios e a narrativa original de uma comunidade não se percam e
sejam perenemente reavivados. Não por acaso, há uma estreita relação entre os
juízes e os historiadores: ambos ocupam a posição de terceiro, com pretensões de
verdade, justiça e imparcialidade 27 (RICOEUR, 2007, p. 330). Vê-se que ambos,
cada um a seu modo, podem abrir margem a que as memórias impedidas, as
memórias dos vencidos, venham à tona. O historiador o faz quando escova a
história a contrapelo, ou seja, quando articula o passado do ponto de vista dos
vencidos, conforme nos diz Benjamin (1994), nas teses “Sobre o conceito da
história”. O juiz o faz quando, no rito do processo, permite e torna público o trabalho
de luto das vítimas e familiares e condena as atrocidades do passado, para que não
se repitam no presente.
Dada a impossibilidade de se tentar compreender o passado exatamente
como ele foi ou de se tentar descrever pormenorizadamente todos os fatos
pretéritos, a tarefa de construção do passado deve atender aos anseios do tempo
                                                            
27
Entenda-se aqui a imparcialidade não como a pretensa neutralidade axiológica cara ao Positivismo
jurídico, mas como a tentativa de exercer a capacidade de pensar e julgar no lugar e na posição do
outro, ou de todos os outros possíveis. Sobre o tema: LAFER (1988).
 
51
 

presente. Nesse sentido, Walter Benjamin (1994, p. 224), em suas teses “Sobre o
conceito da história”, considera que: “Articular historicamente o passado não
significa conhecê-lo ‘como ele de fato foi’. Significa apropriar-se de uma
reminiscência, tal como ela relampeja no momento de um perigo”. Benjamin critica o
paradigma positivista que elimina a historicidade do próprio discurso histórico em
nome de uma pretensa objetividade e neutralidade científicas, que, observa-se aqui,
também são caras ao discurso jurídico.
Essa tese é uma negação explícita da concepção historicista/positivista
da história, presente no pensamento de Leopold von Ranke 28 , para quem a tarefa do
historiador seria de representar o passado “como ele de fato foi” (LÖWY, 2005, p.
65). E Benjamin (1994, p.224-225) continua: “O dom de despertar no passado as
centelhas da esperança é um privilégio exclusivo do historiador convencido de que
também os mortos não estarão em segurança se o inimigo vencer. E esse inimigo
não tem cessado de vencer.”
Em interpretação dessa passagem do texto de Benjamin, Löwy (2005, p.
66) acentua que esse perigo a que os mortos estão expostos não é
necessariamente “da forma primitiva e grosseira como a restauração monárquica
dos Stuarts maltratou as ossadas de Cromwell, mas pela falsificação ou
esquecimento de seus combates.” Para ele:

[...] do ponto de vista dos oprimidos, o passado não é uma acumulação


gradual de conquistas, como na historiografia “progressista”, mas sobretudo
uma série interminável de derrotas catastróficas; esmagamento da
sublevação dos escravos contra Roma, da revolta dos camponeses
anabatistas no século XVI, de junho de 1848, da Comuna de Paris e da
insurreição spartakista em Berlim de 1919. (LÖWY, 2005, p.66)

Poderia se acrescentar a esse rol a derrota dos movimentos populares e


estudantis durante o período da ditadura militar, com a supressão dos projetos e
promessas desses movimentos. Seguindo esse rastro, Jeanne Marie Gagnebin
(2006, p.12) assinala que “ouvir o apelo do passado significa também estar atento a
esse apelo de felicidade e, portanto, de transformação do presente, mesmo quando
ele parece estar sufocado e ressoar de maneira quase inaudível.”
Com isso, o papel da História - e, podemos acrescentar, do Direito – é o
de um compromisso inarredável com o presente. Nesse ponto, assevera Gagnebin
                                                            
28
Leopold von Ranke (1795-1886) foi um historiador prussiano conservador e conformista
considerado o pai da “História científica".
 
52
 

(2006, p.47) ser a tarefa da história uma “tarefa altamente política: lutar contra o
esquecimento e a denegação é também lutar contra a repetição do horror (que,
infelizmente, se reproduz constantemente).”
Faz-se necessário aqui recordar o fundo político da qual emana o Direito,
fazendo menção à ligação entre a lei e a memória coletiva: ambas estabelecem, ao
seu modo, limites e barreiras à atuação humana, ao definir os papéis de cada um
dentro da comunidade e, o mais importante, através das gerações, mantendo o laço
que une os novos homens e mulheres ao mundo já existente. Para Hannah Arendt
(1989, p.517):

os limites das leis positivas são para a existência política do homem o que a
memória é para a sua existência histórica: garantem a preexistência de um
mundo comum, a realidade de certa continuidade que transcende a duração
individual de cada geração, absorve todas as novas origens e delas se
alimenta.

Arendt entende que a comunidade política é posta em perigo e, ao


mesmo tempo, se renova a cada homem que nasce, uma vez que a cada
nascimento um mundo em potencial passa a existir. Cumpre à lei, assim, garantir a
inserção de novos homens no seio da comunidade e, ao mesmo tempo, manter a
estabilidade da comunidade política, ou seja, manter constante relação com a
tradição e não podar o surgimento do novo e a transformação do mundo através da
ação política. Em comentário à passagem do texto de Arendt anteriormente citada,
Lafer (1988, p.217) aponta que:

Política e Direito são, portanto, para Hannah Arendt, [...], complementares: a


primeira favorece a diversificação da ação e o segundo protege e preserva
a sua especificidade. A legalidade impõe uma duração às vicissitudes da
ação e a constituição cumpre o papel de delimitar o espaço público
igualitário que torna possível a criatividade da ação, pois sem a proteção
estabilizadora da lei o espaço público não sobreviveria ao próprio instante
da ação e do discurso.

O papel do jurídico não se esgota no processo legislativo, mas antes,


esse serve como um primeiro passo que é encerrado com a decisão judicial. Se a lei
delimita e protege o espaço público, é através do juiz que é dada a palavra do
Direito, a capacidade de julgar e a possibilidade de restituir tanto a vítima quanto o
seu algoz ao espaço público (garantido sua permanência), mas somente através da

 
53
 

catarse propiciada pelo reconhecimento público tanto do ofendido quanto do


ofensor. É o que se passará a analisar mais detidamente a seguir.

4.1 Espaço Público e Memória

Ricoeur (2007) nos ensina que a justiça, dentre todas as virtudes é a que,
por sua própria constituição, é voltada para o outro. É ela que constitui a alteridade
dentro das outras virtudes, desligando-as da estreita ligação com o “si mesmo”. Essa
característica da justiça pode ser ligada ao conhecido adágio do jurisconsulto
romano Ulpiano: “a justiça consiste em dar a cada um o que é seu”, e está muito
mais profundamente relacionada com o próprio ato de julgar.
Muito embora a crescente tecnicização do Direito passe a idéia de que o
julgamento é mera subsunção do fato à norma, com o jurídico servindo de
instrumento regulatório de conflitos de direitos individuais (direitos como propriedade
de um indivíduo ou de um grupo), o ato de julgar tem um pano de fundo altamente
político: tanto pela noção, vista anteriormente, de que o ordenamento jurídico é um
projeto de ordenação da sociedade e distribuição dos papéis que serão assumidos
pelos cidadãos na comunidade política, quanto pela idéia, resgatada dos gregos e
da Crítica do Juízo de Kant, de que a capacidade de julgar é “a faculdade de ver as
coisas não apenas do próprio ponto de vista mas na perspectiva de todos aqueles
que porventura estejam presentes” (ARENDT, 2007b, p.275).
Nesse sentido, se faz importante analisar a idéia de juízo do particular
que Hannah Arendt resgata dos textos kantianos. Esse juízo do particular surge do
prazer contemplativo e desinteressado, da avaliação de algo através de uma
distância adequada 29 , que, para Arendt seria o “requisito para aprovação ou
desaprovação, ou para avaliar algo em seu valor apropriado” (ARENDT, 1992, p.
376). Esse distanciamento, juntamente com a comparação entre o nosso juízo e o
juízo possível de outros, propicia o que Hannah Arendt, servindo-se do Kant da
Crítica do Juízo, chama de “alargamento do espírito” ou “modo alargado de pensar”.

                                                            
29
Essa distância adequada seria o que podemos chamar de imparcialidade, mencionada
anteriormente.
 
54
 

Esse “alargamento do espírito” está presente também na ação humana


dentro espaço público, onde a pluralidade de pensamentos encontra seu campo de
florescimento e atuação. Isso implica dizer que a alteridade se assinala como
característica basilar do julgar. Arendt nos coloca, ainda, que a eficácia deste julgar
vem precisamente desse acordo potencial entre o juízo do julgador e os outros
juízos possíveis ou, em suas próprias palavras:

O juízo obtém sua validade específica desse acordo potencial. Isso por um
lado significa que esses juízos devem se libertar das ‘condições subjetivas
pessoais’, isto é, das idiossincrasias que determinam naturalmente o modo
de ver de cada indivíduo na sua intimidade, e que são legítimas enquanto
são apenas opiniões mantidas particularmente, mas que não são
adequadas para ingressar em praça pública e perdem toda validade no
domínio público. E esse modo alargado de pensar, que sabe, enquanto
juízo, como transcender suas próprias limitações individuais, não pode, por
outro lado, funcionar em estrito isolamento ou solidão; ele necessita da
presença de outros ‘em cujo lugar’ cumpre pensar, cujas perspectivas deve
levar em consideração e sem os quais ele nunca tem oportunidade de
sequer chegar a operar. Como a lógica, para ser correta, depende da
presença do eu, também o juízo, para ser válido, depende da presença de
outros. (ARENDT, 2007b, p. 274-275)

Mas como essa concepção da justiça se relaciona com a memória? É a


justiça que transforma a memória em projeto para o futuro, permitindo que as
lembranças traumáticas do outro se insiram no espaço público através do
testemunho das atrocidades sofridas e do processo que permite a punição exemplar
daqueles que cometeram tais atrocidades. Daí Ricoeur afirmar que “o dever de
memória é o dever de fazer justiça, pela lembrança, a um outro que não a si”
(RICOEUR, 2007, p. 101).
O espaço público é, por excelência, o espaço da ação política e do
discurso; e a pluralidade, que é condição básica desses dois, tem o aspecto duplo
da igualdade e da diferença. Se não houvesse igualdade, a comunidade estaria
fadada ao fracasso, pela incapacidade dos homens em se compreender ou de fazer
planos para o futuro. Se não houvesse diferenças, “os homens não precisariam do
discurso ou da ação para se fazerem entender” (ARENDT, 2007a, p. 188) e não
haveria sequer motivo para a existência do espaço público. Dessa maneira, o
espaço público é composto de dissensos e consensos.
As memórias individuais podem se inserir no espaço público através da
ação e do discurso de cada ser humano, visto que estes carregam sempre a marca
pessoal de quem os faz. Se há um impedimento dessas memórias virem à tona, tal

 
55
 

qual a anistia brasileira, há um impedimento de que o dissenso se manifeste no


espaço público e uma falsa sensação de consenso que impede a reapropriação do
passado para a transformação do presente. Nas palavras de Ricoeur (2007, p.462):

Mas o defeito dessa unidade imaginária não seria o de apagar da memória


oficial os exemplos de crimes suscetíveis de proteger o futuro das faltas do
passado e, ao privar a opinião pública dos benefícios do dissensus, de
condenar as memórias concorrentes a uma vida subterrânea malsã? Ao se
aproximar assim da amnésia, a anistia põe a relação com o passado fora do
campo em que a problemática do perdão encontraria com o dissensus seu
justo lugar.

Assim, o dever de prestação da tutela jurisdicional ganha um novo


contorno: é o dever de permitir que as memórias dos oprimidos, dos vencidos,
venham à tona na formação da memória coletiva nacional e saiam da “bolha” de
privatização a que submetidas através dos processos de esquecimento forçado
presentes na fabricação da história oficial do Estado. Esse reconhecimento de que
houve vítimas e de que há um dever para com elas deve ser um duplo
reconhecimento: não só da vítima, mas também daquele que foi condenado.
Para Ricoeur (2008, p.180), o ato de julgar só atinge seu objetivo quando
aquele que ganha o processo pode dizer: “meu adversário, aquele que perdeu,
continua sendo como eu um sujeito de direito”, mas também quando aquele que
perdeu, que foi condenado, pode ser capaz de dizer “que a sentença que o contraria
não era um ato de violência, mas de reconhecimento”. O filósofo está falando da
função do jurídico como meio de construir um “esquema de cooperação”, em que as
partes se reconheçam como partícipes de uma mesma sociedade, que compartilha
valores e o bem comum.
Pode-se questionar até que ponto isso é possível através dos
instrumentos jurídicos de preservação da memória a seguir estudados
(imprescritibilidade dos crimes contra a humanidade e crimes permanentes), mas
não há dúvidas de que sem esses instrumentos, ou sem formas de garantir que as
memórias concorrentes entrem em dissensus, não se pode falar em qualquer
possibilidade dessa justiça.

 
56
 

4.2 Os crimes contra a humanidade

Conforme visto anteriormente, o Direito Internacional dos Direitos


Humanos condena a auto-anistia e veda a prescrição penal dos crimes contra a
humanidade ou crimes de lesa-humanidade. Cumpre aqui fazer referência ao que
seriam esses crimes de lesa-humanidade e qual o alcance dessa imprescritibilidade
frente ao Direito interno.
O conceito de crimes contra a humanidade surgiu pela primeira vez da
necessidade de se dar tratamento jurídico adequado aos crimes cometidos pelo Eixo
durante a chamada ruptura totalitária, na Segunda Guerra Mundial. Assim, através
do Estatuto do Tribunal de Nuremberg, aprovado pela Comissão de Direito
Internacional da Organização das Nações Unidas, os governos vencedores (França,
Estados Unidos da América, Grã-Bretanha e União das Repúblicas Socialistas
Soviéticas) tipificaram como crimes contra a humanidade:

[...] o assassinato, o extermínio, a escravidão, a deportação e qualquer


outro ato inumano contra a população civil, ou a perseguição por motivos
religiosos, raciais ou políticos, quando esses atos ou perseguições ocorram
em conexão com qualquer crime contra a paz ou qualquer crime de guerra.
(ORGANIZAÇÃO DAS NAÇÕES UNIDAS, 1950, tradução nossa) 30 .

Esse conceito foi sendo (re)elaborado pelo Direito Internacional, até que
ganhou amplitude bem maior com o Estatuto de Roma do Tribunal Penal
Internacional, aprovado pelo Brasil através do Decreto nº. 4.388/2002 (BRASIL,
2002), que disciplina que se entende por "crime contra a humanidade", qualquer um
dos atos seguintes, quando cometido no quadro de um ataque, generalizado ou
sistemático, contra qualquer população civil, havendo conhecimento desse ataque:
a) Homicídio; b) Extermínio; c) Escravidão; d) Deportação ou transferência forçada
de uma população; e) Prisão ou outra forma de privação da liberdade física grave,
em violação das normas fundamentais de direito internacional; f) Tortura; g)
Agressão sexual, escravatura sexual, prostituição forçada, gravidez forçada,
esterilização forçada ou qualquer outra forma de violência no campo sexual de
                                                            
30
Crimes against the humanity: namely murder, extermination, enslavement, deportation and other
inhuman acts done against a civilian population, or persecutions on political, racial or religious
grounds, when such acts are done or such persecutions are carried on in execution of or in connexion
with any crime against peace or any war crime. 
 
57
 

gravidade comparável; h) Perseguição de um grupo ou coletividade que possa ser


identificado, por motivos políticos, raciais, nacionais, étnicos, culturais, religiosos ou
de gênero, tal como definido no parágrafo 3o, ou em função de outros critérios
universalmente reconhecidos como inaceitáveis no direito internacional,
relacionados com qualquer ato referido neste parágrafo ou com qualquer crime da
competência do Tribunal; i) Desaparecimento forçado de pessoas; j) Crime de
apartheid; k) Outros atos desumanos de caráter semelhante, que causem
intencionalmente grande sofrimento, ou afetem gravemente a integridade física ou a
saúde física ou mental. 
O mesmo Estatuto, em seu artigo 7.2a, traz a definição de ataque à
população civil como sendo:

qualquer conduta que envolva a prática múltipla de atos referidos no


parágrafo 1o contra uma população civil, de acordo com a política de um
Estado ou de uma organização de praticar esses atos ou tendo em vista a
prossecução dessa política; (BRASIL, 2002)

É evidente que os crimes cometidos pelo regime militar durante o estado


de exceção (1964-1985) foram crimes contra a humanidade, vez que foram
utilizados como prática do Estado para a perseguição política, para o esvaziamento
do espaço público e desaglutinação dos movimentos de oposição. A sistematicidade
dessa prática fica mais evidenciada quando se observa a chamada Doutrina de
Segurança Nacional e a quantidade de órgãos governamentais e entidades
responsáveis pela “luta contra a subversão” 31 . Essa Doutrina de Segurança Nacional
pode ser resumida nas palavras do General Breno Borges Fortes, em discurso
pronunciado na 10ª Conferência dos Exércitos Americanos, realizada em Caracas
em 1973:

O inimigo é indefinido, usa mimetismo, se adapta a qualquer ambiente e usa


todos os meios, lícitos e ilícitos, para lograr seus objetivos. Ele se disfarça
de sacerdote ou de professor, de aluno ou de camponês, de vigilante
                                                            
31
Dentre estes podemos mencionar: Escola Superior de Guerra (ESG), Conselho de Segurança
Nacional (CSN), Grupo Permanente de Mobilização Industrial (GPMI), Serviço Nacional de
Informações (SNI), Centro de Informações do Exército (CIE), Centro de Informações da Aeronáutica
(CISA), Centro de Informações da Marinha (CENIMAR), Departamentos de Ordem Política e Social
(DOPS), Destacamentos de Operações Internas/Centros de Operações de Defesa Interna (DOI-
CODIs), Sociedade Brasileira de Defesa da Tradição, Família e Propriedade (TFP), Comando de
Caça aos Comunistas (CCC), Movimento Anticomunista (MAC), Facção Anticomunista (FAC),
Vanguarda Anticomunista, Grupo Anticomunista, Ação Anticomunista Brasileira e a Falange Pátria
Nossa.
 
58
 

defensor da democracia ou de intelectual avançado, de piedoso ou de


extremado protestante; vai ao campo e às escolas, às fábricas e às igrejas,
à cátedra e à magistratura; usará, se necessário, o uniforme ou o traje civil;
enfim, desempenhará qualquer papel que considerar conveniente para
enganar, mentir e conquistar a boa- fé dos povos ocidentais. Daí porque a
preocupação dos Exércitos em termos de segurança do continente deve
consistir na manutenção da segurança interna frente ao inimigo principal,
este inimigo, para o Brasil continua sendo a subversão provocada e
alimentada pelo movimento comunista internacional. (A SEGURANÇA, 1973
apud COIMBRA, 2002, p. 31-32)

Concluindo pela tipificação dos crimes do regime militar como crimes


contra a humanidade, o Centro Internacional para a Justiça Transacional (2009,
p.393), em seu “Parecer técnico sobre a natureza dos crimes de lesa-humanidade, a
imprescritibilidade de alguns delitos e a proibição de anistias”, aponta que:

Os atos de seqüestro, homicídio, falsidade ideológica e ocultação de


cadáver cometidos por agentes do Estado do Brasil durante o período da
ditadura militar (1964 a 1985) são atos inumanos que configuram crimes de
lesa-humanidade, por seu caráter generalizado e sistemático, articulados a
uma política do Estado e dirigidos contra setores da população civil. Sua
qualidade de crimes de lesa-humanidade está fundamentada em normas de
direito internacional já vigentes no ano de início do período da ditadura.

Diante da gravidade dos crimes contra a humanidade, o Direito


Internacional inadmite a sua prescrição, sendo a imprescritibilidade desses crimes
um princípio geral do Direito Internacional, conforme se passará a expor.

4.2.1 A imprescritibilidade dos crimes contra a humanidade

A imprescritibilidade dos crimes de guerra e dos crimes contra a


humanidade foi a maneira encontrada pelo Direito Internacional dos Direitos
Humanos para garantir que os crimes de maior gravidade fossem condenados
independentemente do tempo decorrido de sua prática. É uma forma de manutenção
perene da memória desses crimes no ordenamento jurídico. O filósofo Paul Ricoeur
(2007, p. 479) entende que o princípio de imprescritibilidade “restitui ao direito sua
força de persistir apesar dos obstáculos opostos ao desdobramento dos efeitos do
direito.”

 
59
 

Em situações de normalidade em uma comunidade política, as relações


entre a memória e o esquecimento do dever de punir são reguladas através da
prescrição. A imprescritibilidade se insere nas situações de anormalidade ou de
grave perturbação, em que a democracia encontra-se enfraquecida ou inexistente e
as medidas de prescrição não se coadunam com a justiça e com o dever de
memória.
Esse princípio é, dessa maneira, uma forma jurídica de uma comunidade
cumprir o seu dever de memória para com os vencidos do passado e de, ao mesmo
tempo, possibilitar que esses crimes não se repitam. Daí se poder dizer que seus
objetivos são vários: permitir, mesmo contra o tempo, que se faça justiça em relação
aos crimes contra a humanidade do homem (tanto no que há de humano nele
quanto em relação à humanidade entendida como coletividade), servir de
testemunho pedagógico em relação às gerações mais jovens e contra as teses
revisionistas da história, lutar pelo acúmulo de provas e arquivamento dos
testemunhos e contra o esquecimento do passado dos povos vítimas de genocídio,
apartheid, deportação, assassinato coletivo e outros crimes contra a humanidade
(OST, 2005, p.170).
A primeira menção à imprescritibilidade no Direito Internacional surgiu no
ano de 1967, com a Resolução 2338 (XII) da Assembléia Geral da Organização das
Nações Unidas (1967), que asseverou que “em nenhuma das declarações solenes,
instrumentos ou convenções relativas ao ajuizamento de ações e à punição por
32
crimes de guerra e crimes contra a humanidade foi prevista a limitação no tempo”
(tradução nossa). Era a primeira afirmação de que os crimes contra a humanidade,
tipificados desde o Tribunal de Nuremberg, não eram passíveis de prescrição.
No ano de 1968, a Organização das Nações Unidas aprovou a
Convenção sobre a Imprescritibilidade dos Crimes de Guerra e dos Crimes Contra a
Humanidade, reconhecendo serem imprescritíveis os crimes contra a humanidade,
independentemente da data em que tenham sido cometidos. Até a data de
conclusão do presente trabalho, o Brasil ainda não havia aderido à referida
convenção, motivo pelo qual Vianna (2009) afirmou que “esta convenção é
completamente alheia ao nosso ordenamento jurídico”, enquanto o ministro Celso de
Mello (BRASIL, 2010d) foi mais categórico ao dizer que:
                                                            
32
[…] none of the solemn declarations, instruments or conventions relating to prosecution and
punishment for war crimes and crimes against the humanity makes provision for a period of limitation.
 
60
 

Nem se sustente, como o faz o Conselho Federal da OAB, que a


imprescritibilidade penal, na espécie ora em exame, teria por fundamento
a “Convenção sobre a Imprescritibilidade dos Crimes de Guerra e dos
Crimes contra a Humanidade”. Mostra-se evidente a inconsistência jurídica
de semelhante afirmação, pois, como se sabe, essa Convenção das
Nações Unidas, adotada em 26/11/1968, muito embora aberta à adesão
dos Estados componentes da sociedade internacional, jamais foi subscrita
pelo Brasil, que a ela também não aderiu, em momento algum, até a
presente data, o que a torna verdadeira “res inter alios acta” em face do
Estado brasileiro. Isso significa que a cláusula de imprescritibilidade penal
que resulta dessa Convenção das Nações Unidas não se aplica, não
obriga nem vincula, juridicamente, o Brasil quer em sua esfera doméstica,
quer no plano internacional. (grifos no original)

Em contraposição a esse entendimento, o Centro Internacional para a


Justiça de Transacional (2009, p.380) entende ser “possível dizer que a
imprescritibilidade das violações muito graves aos direitos humanos e dos crimes
contra a humanidade é um princípio geral do direito internacional, e a obrigação de
investigar e punir estes crimes gera uma obrigação erga omnes para os Estados”.
Nesse mesmo sentido decidiu a Corte Interamericana de Direitos Humanos, no já
citado caso Almonacid Arellano y otros Vs. Chile (2006):

[...], os crimes de lesa-humanidade vão além do aceitável pela comunidade


internacional e ofendem toda a humanidade. O dano que tais crimes
ocasionam permanece em vigor perante a sociedade nacional e a
comunidade internacional, que exigem a investigação e o castigo dos
responsáveis. Nesse sentido, a Convenção sobre a Imprescritibilidade
dos Crimes de Guerra e dos Crimes Contra a Humanidade claramente
afirmou que tais ilícitos internacionais “são imprescritíveis, qualquer
que seja a data em que tenham sido cometidos”. Embora o Chile não
tenha ratificado a referida Convenção, esta Corte considera que a
imprescritibilidade dos crimes de lesa-humanidade surge como
categoria de norma de Direito Internacional Geral (ius cogens), que não
nasce com tal Convenção, mas que está reconhecida por ela.
Conseqüentemente, o Chile não pode deixar de cumprir essa norma
imperativa. 33 (tradução e grifo nossos)

                                                            
33
En efecto, por constituir un crimen de lesa humanidad, el delito cometido en contra del señor
Almonacid Arellano, además de ser inamnistiable, es imprescriptible. [...], los crímenes de lesa
humanidad van más allá de lo tolerable por la comunidad internacional y ofenden a la humanidad
toda. El daño que tales crímenes ocasionan permanece vigente para La sociedad nacional y para la
comunidad internacional, las que exigen la investigación y el castigo de los responsables. En este
sentido, la Convención sobre La imprescriptibilidad de los crímenes de guerra y de los crímenes de
lesa humanidad claramente afirmó que tales ilícitos internacionales “son imprescriptibles, cualquiera
que sea la fecha en que se hayan cometido”. Aún cuando Chile no ha ratificado dicha Convención,
esta Corte considera que la imprescriptibilidad de los crímenes de lesa humanidad surge como
categoría de norma de Derecho Internacional General (ius cogens), que no nace con tal Convención
sino que está reconocida en ella. Consecuentemente, Chile no puede dejar de cumplir esta norma
imperativa. 
 
61
 

O interessante dessa decisão da Corte Interamericana é que a Corte


entendeu que, independentemente de sua adesão à Convenção sobre a
Imprescritibilidade dos Crimes de Guerra e dos Crimes Contra a Humanidade, o
Estado-membro está obrigado a reconhecer a imprescritibilidade dos crimes contra a
humanidade, por se tratar de princípio geral de Direito Internacional, o qual a
Convenção só reconheceu e reafirmou. Isso implica dizer que, ainda que o Brasil
não reconheça a imprescritibilidade dos crimes contra a humanidade cometidos
durante o regime militar, o Estado brasileiro está passível de punição no âmbito do
Direito Internacional dos Direitos Humanos.

4.2.2 O caso dos desaparecidos políticos

No tratamento do caso dos inúmeros desaparecidos políticos no país,


outro instituto jurídico de preservação da memória se faz presente: é o conceito de
crime permanente. Crime permanente é todo aquele em que a consumação se
prolonga no tempo, dependente da atividade, ação ou omissão, do sujeito ativo. O
seqüestro, o cárcere privado, a formação de quadrilha e a ocultação de cadáver
podem ser citados como exemplos dessa modalidade de delito.
Visando a manter presente a possibilidade de o Estado punir esses
crimes mesmo depois de passado largo lapso temporal do seu cometimento, a
conceituação de crime permanente é atrelada a um dos casos de diferenciação da
regra, vigente no direito pátrio, de que a prescrição começa a correr da data em que
o crime se consumou. Isso porque o crime permanente só se considera consumado
depois de cessada a permanência, motivo pelo qual a prescrição só passa a contar
dessa data. Essa previsão se encontra presente no art. 111, II, do Código Penal
(BRASIL, 1940).
O Direito Internacional dos Direitos Humanos vem afirmando,
reiteradamente, que os desaparecimentos forçados constituem crimes de caráter
permanente. É o que prevêem a Declaração das Nações Unidas sobre a Proteção
de Todas as Pessoas contra os Desaparecimentos Forçados (1992) e a Convenção
Interamericana sobre o Desaparecimento Forçado de Pessoas (ORGANIZAÇÃO
DOS ESTADOS AMERICANOS, 1994). A referida Convenção, assinada pelo Brasil,
 
62
 

dispõe que “esse delito será considerado continuado ou permanente, enquanto não
se estabelecer o destino ou paradeiro da vítima” 34 .  
Dessa forma, o prazo prescricional para a propositura da ação penal em
relação aos crimes de desaparecimento forçado de 148 (cento e quarenta e oito)
pessoas durante o regime militar sequer teve seu início.
Os memoriais jurídicos acima estudados são maneiras de garantir a
punição daqueles que cometeram crimes contra a humanidade e que não puderam
ser julgados no tempo hábil, seja por estarem ocupando os espaços de poder, seja
por terem feito a transação “negociada” ou por terem ocultado os rastros dos
próprios crimes através do sumiço de arquivos ou da negação de acesso a estes.
Passaremos a abordar, no próximo capítulo, as faculdades de perdoar e
de prometer, sua relação com os objetivos do presente trabalho e as medidas de
Justiça de Transição como alternativas de resgate da memória e o seu papel na
construção do espaço público e na abolição das constantes violações aos direitos
humanos praticadas pelo Estado, bem como quais as possibilidades de perdão e de
promessas para o futuro trazidas pelas referidas medidas.

                                                            
34
Embora haja uma sinonímia, no texto da referida Convenção, entre os crimes continuados e os
permanentes é de se ver que são modalidades diferentes de delito. Os crimes continuados encontram
sua conceituação no art. 71 do Código Penal, sendo aqueles constituídos de duas ou mais violações
jurídicas da mesma espécie e que, pelas condições de tempo, lugar, maneira de execução e outras
semelhantes, são tratados como um todo unitário, com os subseqüentes tidos como continuações do
primeiro.
 
63
 

5 O PERDÃO POSSÍVEL E A PROMESSA


Sob a história, a memória e o esquecimento.
Sob a memória e o esquecimento, a vida.
Mas escrever a vida é outra história.
Inacabamento.
Paul Ricoeur

Conforme mencionado nos capítulos anteriores, há uma grande distância


entre a anistia e o perdão, muito embora a anistia freqüentemente simule o perdão
ou o utilize como sua justificativa ou finalidade. Lembremo-nos que a anistia é
sinônima de esquecimento e o perdão tem sua ligação com a memória, ou antes,
com o dever de memória. Mas o que é esse perdão?
Muito embora seja extremamente difícil conceituá-lo, é possível se
mencionar algumas de suas características. O perdão é ato de memória: apaga-se
uma ofensa viva na lembrança, deixa-se o ofensor livre da falta cometida, livre da
dívida, sem que esta seja esquecida. Nas palavras de Ricoeur (2008, p.197), o
perdão é uma espécie de “cura da memória, o acabamento de seu luto; liberta do
peso da dívida, a memória fica liberada para grandes projetos. O perdão dá futuro à
memória”.
Assim, pode-se dizer com clareza que o perdão só é possível onde há
memória, do contrário se estará falando de cálculo de interesses, de apagamento
utilitarista das dívidas. E, mais importante, o perdão possibilita que a memória se
liberte da dívida, afastando de uma vez os pesos da vingança e do recalque e
garantindo o dissenso sadio no espaço público.
O perdão também é ato de remissão: perdoa-se alguém por uma falta
cometida. Veja-se que o perdão é dado ao culpado e não à falta, que, atingida
indiretamente, permanece imperdoável. Essa distinção é essencial aos objetivos do
presente trabalho. Afinal, como perdoar crimes tão graves como os crimes contra a
humanidade, ou ainda, como perdoar o imperdoável? De outra banda, deve-se ligar
pra sempre o agente ao seu ato?
Para Ricoeur (2007), a capacidade de um sujeito moral se engajar no
mundo não se esgota através de suas várias inscrições no mundo, não se esgota
em suas ações. Do contrário, como nos diz Arendt (2007a, p.249):

Se não fôssemos perdoados, eximidos das conseqüências daquilo que


fizemos, nossa capacidade de agir ficaria, por assim dizer, limitada a um
único ato do qual jamais nos recuperaríamos; seríamos sempre as vítimas

 
64
 

de suas conseqüências, à semelhança do aprendiz de feiticeiro que não


dispunha da fórmula mágica para desfazer o feitiço.

No mesmo sentido entende Agamben (2006), para quem a realização de


um ato não esgota a potência de não (ser ou fazer) ou ainda a de fazer de outra
maneira, ou seja, “será verdadeiramente potente apenas quem, no momento da
passagem ao ato, não anulará simplesmente a própria potência de não, nem a
deixará para trás em relação ao ato”.
Assim, o perdão insere na discussão a consideração de que o culpado é
capaz de outra coisa além dos seus delitos, das suas faltas. Através do signo do
perdão, o culpado tem “devolvida” a sua capacidade de agir, a potência de se inserir
na cena pública. A fórmula dessa fala, diz Ricoeur (2007, p.501), pode ser resumida
na frase “tu vales mais que teus atos”.
Outra das características do perdão é que ele é sempre bilateral: só há
perdão que seja, ao mesmo tempo, desejado pelo culpado e doado pela vítima. Por
seu caráter de dádiva, que só pode ser concedida pela vítima, pode-se dizer que o
perdão nunca é devido, daí que o pedido pode ser legitimamente negado
(RICOEUR, 2008). A dádiva do perdão é tanto maior quanto maior a gravidade da
falta. Dessa maneira, o maior paradoxo do perdão é que este só encontra seu
máximo e verdadeiro alcance ao perdoar o imperdoável, perdoar ao agente pelas
faltas mais graves 35 .
Pela sua própria etimologia, o perdão é a abundância do dom, da dádiva,
é um ato gratuito de desligamento do passado, retirando deste a sua carga
traumática e permitindo que os seres humanos se liberem para novas ações e
possam ligar o futuro em comum através da promessa, essa outra faceta do tempo
que institui e é instituído.
Não por acaso, Hannah Arendt (2007a) entende que as faculdades de
perdoar e de prometer são aparentadas, uma vez que a primeira serve para
desfazer os atos do passado, enquanto a segunda serve para criar certas “ilhas de
segurança”, que garantem a durabilidade e a continuidade do mundo comum entre
os seres humanos.

                                                            
35
De maneira contrária entende Hannah Arendt, quando afirma que os homens não podem perdoar
aquilo que não podem punir, nem punir aquilo que é imperdoável (ARENDT, 2007a). Para essa
autora, por não ser possível aos homens encontrar a proporção de uma punição para as graves
ofensas a que, seguindo Kant, chama de “mal radical”, igualmente não é possível se encontrar uma
maneira de perdoá-las.
 
65
 

Com isso, pode-se resumir o perdão como sendo um ato pessoal (não
necessariamente individual e privado 36 ), de memória e de remissão, gratuito,
incondicionado e tanto mais abundante quanto mais difícil. Mas, dada a sua
pessoalidade e gratuidade, como pensar no perdão dentro do espaço público e em
relação a crimes que atingiram toda a coletividade? É o que se passará a tratar.

5.1 Perdão e processo

O primeiro passo para se pensar em como o perdão pode se inserir


dentro do espaço público e em relação a crimes como os cometidos pelo regime
militar é entender que o perdão, ao contrário da anistia, não se apresenta como
contrário à punição.
Como nos ensina Arendt (2007a), ambos têm em comum a tentativa de
por fim a algo que continuaria indefinidamente sem a sua interferência: o ciclo da
vingança. Tanto o perdão quanto a punição interrompem o ciclo da vingança,
possibilitando o surgimento do novo e a reabilitação da vítima e do agressor ao
espaço comum. Daí Ost (2005, p.165) afirmar que “desde que o castigo é justo, nele
se integra necessariamente uma dose de perdão”.
No espaço público, é necessário trazer as memórias das vítimas à tona,
através do processo, estabelecendo os papéis de vítima e de agressor, separando e
mediando a relação entre estes, para que se possa minimamente falar em condições
de perdão.
Talvez aqui se possa dar novo sentido à afirmação de Arendt de que só é
possível perdoar aquilo que se pode punir (ARENDT, 2007a). Afinal, como pode a
vítima perdoar o agressor sem que sequer sejam dadas as mínimas possibilidades
para isso, quais sejam a presença da memória e o reconhecimento, pelo infrator, da
falta cometida?
Observe-se, ainda, que nos casos de faltas graves, de crimes, não é só a
vítima que é agredida: a comunidade política também o é. E mesmo que o perdão
seja ato pessoal, é preciso se ter em mente que as formas como a comunidade lida

                                                            
36
Como bem frisa ARENDT (2007a, p. 253). 
 
66
 

com essas faltas também interfere nessa possibilidade de perdoar. Apresentando-se


o perdão como medida alternativa à punição ou como paralelo a esta, faz-se
importante aqui remeter ao papel creditado por Arendt (1999, p.275) aos processos
criminais:

Os processos criminais, uma vez que são obrigatórios e devem ser iniciados
mesmo que a vítima prefira perdoar e esquecer, repousam em leis cuja
“essência” – para citar Telford Taylor, escrevendo no New York Times
Magazine – “é que o crime não é cometido só contra a vítima, mas
primordialmente contra a comunidade cuja lei é violada”. O malfeitor é
levado à justiça porque seu ato perturbou e expôs a grave risco a
comunidade como um todo, e não porque, como nos processos civis,
indivíduos foram prejudicados e têm direito à compensação. A
compensação efetivada nos casos criminais é de natureza inteiramente
diferente; é o corpo político em si que exige “compensação”, e é a ordem
pública que foi tirada de prumo e tem de ser restaurada, por assim dizer.
Em outras palavras, é a lei, não a vítima, que deve prevalecer. (grifo nosso)

O perdão e o castigo podem cumprir os papéis necessários de propiciar


que a vítima e o agressor se reconheçam como partícipes de uma mesma
comunidade e de, ao mesmo tempo, reabilitar o agressor à comunidade política. O
castigo, para Arendt, se justifica porque o crime perturbou a comunidade política e
as leis comuns. Se há uma esfera pública constituída, os atos de violência se tornam
inaceitáveis, devendo receber a punição justa.
Nesse ponto, não se pode ser ingênuo a ponto de acreditar que a punição
dos crimes nos moldes atuais permite esse reconhecimento mútuo e essa
reabilitação do condenado à comunidade política.
A utilização do processo penal, com a conseqüente aplicação da sanção,
como único meio de cumprir com o dever de memória, leva ao risco de impedir que o
corpo social se recupere das suas feridas – ou pior, pode ocasionar conflitos ainda
maiores, sem propiciar o debate necessário à superação sadia dos conflitos do
passado. A condução da discussão sobre o dever de memória tem de ser feita
passando-se fundamentalmente pela garantia do dissensus sadio no espaço público,
em que vítima e ofensor ainda se vêem como possíveis parceiros na construção da
comunidade política.

 
67
 

O sistema penal (e a pena privativa de liberdade como sua prima ratio) é


estruturalmente incapaz de cumprir com uma “função de ressocialização” 37 do
criminoso e ocasiona mais violações aos direitos do que proteção aos bens jurídicos.
Outro fator ligado diretamente ao sistema penal e que interessa aos objetivos do
presente trabalho é a produção de subjetividades – o sistema penal fabrica o
estereótipo do criminoso, levando o apenado a se identificar com o rótulo que
recebe. Além disso, o sistema penal contribui para o maniqueísmo
vítimas/criminosos, impedindo o reconhecimento mútuo e o a construção da
comunidade política enquanto espaço de interação ou de cooperação.
Ricoeur (2008, p.194) observa que:

além de certa duração, a execução da pena equivale a um processo de


dessocialização acelerada. Uma fera, e não uma pessoa livre, é
progressivamente engendrada pela exclusão, em detrimento de qualquer
projeto de reinserção.

Indo mais além, observamos que não se trata apenas da duração da


pena, mas da própria forma como ela se dá. É preciso, com Ricoeur (2008), inserir o
espaço carcerário dentro do espaço público, no interior da cidade, ampliando o
cumprimento do dever de prestação jurisdicional, de modo a efetivamente julgar as
infrações cometidas e silenciadas no interior do espaço carcerário, mas também
inserir em um único âmbito todos “os aspectos não securitários da execução da
pena, quer se trate de saúde, trabalho, ensino, lazer, direito à visita, ou mesmo de
expressão normal da sexualidade, etc.” (RICOEUR, 2008, p. 193). Mas também é
preciso, além de Ricoeur, pensar em novas formas de punir e reabilitar o
condenado.
Assim, por mais que os crimes cometidos pelos agentes da repressão
durante o regime militar sejam de gravidade inegavelmente maior que os crimes
comuns e por mais que isso deva implicar, proporcionalmente, em condenações
mais severas, é preciso se ter em mente que a utilização da pena privativa de
liberdade desumaniza, na medida em que desrespeita toda e qualquer dignidade do
condenado e impossibilita o retorno deste à comunidade política.

                                                            
37
Observa-se que muito embora a ressocialização do condenado seja uma das funções oficiais do
sistema penal, este serve, ao contrário, como medida de isolamento do condenado e só aumenta a
distância entre o apenado e a sociedade.
 
68
 

Presentes essas considerações, faz-se necessário discutir outras formas


jurídicas de resgate da memória que possibilitem o perdão e o reconhecimento
mútuo de vítima e ofensor como sujeitos partícipes e construtores de uma mesma
comunidade política. Passa-se, dessa forma, a falar sobre a Justiça de Transição.

5.2 A Justiça de Transição

A Justiça de Transição é o conjunto de medidas jurídicas, políticas e


sociais voltadas para o restabelecimento da democracia em uma sociedade
marcada por um período de forte violação de direitos humanos, como em guerras
civis, guerras entre Estados ou durante regimes autoritários. Esse conjunto de
medidas pode ser resumido a quatro campos de ação: a) a busca pela verdade; b) a
responsabilização criminal dos autores das violações aos direitos humanos; c) a
reparação das vítimas e d) a reforma das instituições do regime político findo.
Remígio (2009, p.194) nos diz que a Justiça de Transição “é um modelo
de justiça que pretende reconciliar a nação com o seu passado, manifestando-se por
meio de medidas eficazes de superação dos traumas advindos de um momento de
repressão e violência.”
A busca pela verdade é realizada através da instituição de Comissões de
Verdade, da possibilidade de se dar voz oficial às vítimas, da abertura dos arquivos
secretos do governo e de um intenso trabalho historiográfico para impedir a
manifestação do esquecimento-recalque e do esquecimento-falsário, de modo a
revelar o histórico não só das instituições governamentais que foram responsáveis
pelos atos criminosos, mas também qual a parcela de contribuição da sociedade civil
nesses crimes.
Como exemplo dessas comissões, pode-se citar a comissão “Verdade e
Reconciliação”, que, na África do Sul pós-apartheid, assumiu a missão de coletar os
testemunhos, consolar os ofendidos, indenizar as vítimas e anistiar quem
confessasse ter cometido crimes políticos. O benefício dessa comissão, do ponto de
vista das vítimas, foi inegável, segundo nos conta Ricoeur (2007, p.490):

 
69
 

Famílias que lutaram durante anos para saber puderam dizer sua dor,
exalar o seu ódio perante os ofensores e diante das testemunhas. À custa
de longas sessões, puderam narrar as sevícias e nomear os criminosos.
Nesse sentido, as audiências permitiram verdadeiramente um exercício
público do trabalho de memória e de luto, guiado por um procedimento
contraditório apropriado. Ao oferecer um espaço público à queixa e à
narrativa dos sofrimentos, a comissão certamente suscitou uma katharsis
compartilhada.

Quanto à responsabilização criminal dos autores das violações de direitos


humanos, é de se ver que a necessidade de tal medida tem sido abordada à
exaustão no presente trabalho, visto que o Brasil não realizou os julgamentos para a
responsabilização criminal dos agentes da repressão, acobertando-os sob o manto
da anistia.
Já a reparação às vítimas encontra amparo normativo no Direito
Internacional dos Direitos Humanos e inclui a ajuda material, a assistência
psicológica e as medidas simbólicas, como os memoriais, os monumentos e os
museus. A resolução 60/147, adotada pela Assembléia Geral da Organização das
Nações Unidas, estabelece, em seu artigo 18, que a reparação deve se dar de cinco
maneiras diferentes e conjuntas: restituição, compensação, reabilitação, satisfação
e garantias de não-repetição (ORGANIZAÇÃO DAS NAÇÕES UNIDAS, 2005).
A restituição diz respeito à restauração da vítima à situação em que se
encontrava antes das violações de direitos humanos e inclui: restauração da
liberdade, o gozo dos direitos humanos, identidade, vida familiar e cidadania, retorno
à residência, restauração do emprego e retorno da propriedade. A compensação
deve se dar para qualquer dano econômico oriundo de dano físico, psíquico ou
moral, danos materiais e lucros cessantes e gastos com assistência médica ou legal
e serviços sociais e psicológicos, sempre de maneira proporcional à gravidade da
violação.
A reabilitação inclui o cuidado médico e psicológico, assim como os
serviços legais e sociais necessários à restauração completa da vítima. A satisfação
se refere às medidas de busca pela verdade, julgamento administrativo e penal dos
violadores, reconhecimento oficial das violações e pedido público de desculpas.
Por fim, a garantia de não-repetição se refere ao empoderamento da
sociedade civil no controle das ações do Estado e das forças militares e de
segurança, ao fortalecimento da independência do Poder Judiciário, à modificação

 
70
 

da legislação para coibir novas violações e à criação de mecanismos de resolução e


monitoramento de conflitos sociais. (ORGANIZAÇÃO DAS NAÇÕES UNIDAS, 2005)
É interessante observar que a anistia das vítimas de um regime
autoritário, ou seja, daqueles que lutaram contra um regime de exceção, é uma das
medidas de reparação presentes na Justiça de Transição. O argumento utilizado é o
de que, não sendo o regime democrático, é legítima a luta pela sua deposição. E,
comumente, esses regimes se utilizam do aparato jurídico para criminalizar a
oposição, motivo pelo qual, durante a transição, se faz necessário “apagar” esses
crimes através da anistia. Isso só reforça que nem toda anistia é prejudicial,
conforme mencionado anteriormente.
A reparação, por tudo que envolve, é extremamente complicada, tendo
em vista as dificuldades tanto de se mensurar os sofrimentos de cada uma das
vítimas quanto de se comparar esses sofrimentos entre si, de forma a garantir que
não haja injustiça ou desproporção na reparação. Outra dificuldade é em efetivar
esse “esquecimento reparatório”, reabilitando e restituindo, ao mesmo tempo em que
se possibilita a memória necessária à garantia de não-repetição.
Por fim, o outro campo de ação da Justiça de Transição é a reforma das
instituições, com a proibição de que pessoas responsáveis pelas violações dos
direitos humanos se mantenham em cargos públicos (vetting), sanções
administrativas e o desmonte e/ou reestruturação de órgãos que serviram como
aparatos de repressão.
Ao contrário das medidas de anistia, que esvaziam o espaço público e
privatizam as memórias para melhor “pacificar”, as medidas de Justiça de Transição
são muito mais capazes de propiciar uma verdadeira pacificação e conciliação
nacional, que não seja fruto de falsos consensos, mas sim decorrente do sadio
dissenso oriundo da pluralidade humana. Isso se dá pelo aspecto multifacetado com
que as medidas de Justiça de Transição tratam as questões da mudança de um
regime autoritário para um regime democrático e das violações de direitos humanos
durante regimes de exceção.
Para Remígio (2009, p.194), essas medidas da Justiça de Transição,
“acima de tudo, visam a recomposição do Estado e da sociedade, chamando cada
indivíduo a retomar o controle de sua vida – resgatando uma cidadania consciente,
em que cada cidadão é protagonista de sua própria história”.

 
71
 

A busca pela verdade, a reparação, a reforma das instituições e os


julgamentos, em conjunto, possibilitam que as memórias dos oprimidos encontrem
seu lugar dentro do espaço público e, dando voz oficial a estes, abre margem para
que o perdão, embora ainda difícil, seja possível. E não somente isso. Elas também
fortalecem o espaço público, de maneira tanto a impedir que as atrocidades
anteriores se repitam, quanto de propiciar um projeto conjunto de comunidade.
Interessa, no presente momento, verificar se o Brasil realizou ao menos
parte dessas medidas, vez que já se sabe que os julgamentos não foram realizados.

5.2.1 Justiça de Transição no Brasil

O Estado brasileiro tomou poucas das medidas necessárias à Justiça de


Transição e recomendadas pelo Direito Internacional dos Direitos Humanos,
conforme se verá a seguir:
No que se refere à busca pela verdade, somente no ano de 1995, com a
Lei nº. 9.140/95 (Lei dos Desaparecidos), o Estado brasileiro reconheceu sua
responsabilidade pelas violações de direitos humanos praticadas durante o regime
militar. Essa lei criou a Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos,
com as tarefas de realizar o reconhecimento dos desaparecidos e mortos políticos
que não constavam na lista anexa à Lei nº. 9.140/95, de envidar esforços para a
localização dos corpos desses desaparecidos e de emitir parecer sobre os pedidos
de indenização efetuados pelos familiares dessas pessoas (BRASIL, 1995).
Somente no ano de 2007 foi divulgado o resultado dos trabalhos da
Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos, através da publicação
Direito à Memória e à Verdade: Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos
Políticos. Durante a elaboração desse levantamento, os militares apresentaram
significativa resistência aos trabalhos da Comissão e ao acesso aos seus arquivos
(BRASIL, 2007).
Além disso, a Lei nº. 11.111, de 2005, estabeleceu que os arquivos
públicos classificados “no mais alto grau de sigilo” terão prazo de acesso de 30
anos, prorrogável por mais 30 e, posteriormente, prorrogados por prazo
indeterminado, se necessário.
 
72
 

Remígio (2009, p.195) leciona que “O Estado tem o dever de permitir o


acesso aos chamados ‘arquivos secretos da ditadura’, ao contrário do que vem
fazendo, ou seja, criando mecanismos legais que compactuem com a “cultura do
esquecimento”, como é o caso da Lei nº 11.111/05”. Já Bicudo e Piovesan (2006)
dizem que “é flagrante a violação dessa lei aos princípios constitucionais da
publicidade e da transparência democrática”.
Por tudo isso, até a presente data, uma parcela significativa dos arquivos
federais referentes ao período ditatorial permanece sob segredo de Estado,
impedindo os avanços no estabelecimento da verdade acerca desse período
marcante da nossa história recente.
Quanto às medidas de reparação, observa-se que a restituição se limitou
ao retorno ao emprego, restauração da liberdade e algum gozo dos direitos
humanos, estando ainda muito distante do ideal.
Da mesma maneira, a garantia de não-repetição é inexistente, uma vez
que as incipientes medidas tomadas pelo Estado brasileiro até hoje, como a
tipificação da tortura através da Lei nº. 9.455/97 (sem que fosse acompanhada de
outras medidas de prevenção e combate a esse crime), ainda permitem a prática
corriqueira da tortura, a criminalização dos movimentos sociais e outras tantas
graves violações de direitos humanos.
Pode-se afirmar com segurança que não houve reabilitação e, tampouco,
a satisfação, dadas as parcas medidas tomadas nesse sentido.
A compensação, por sua vez, foi a mais assegurada, tendo havido a
reparação econômica. Esta foi reconhecida pela primeira vez através do parágrafo
3º do já mencionado art. 8º do Ato das Disposições Constitucionais Transitórias. Tal
reconhecimento, contudo, se restringia aos aeronautas atingidos por portarias
reservadas do Ministério da Aeronáutica no ano de 1964 (BRASIL, 1988).
Após um longo período de discussões, o art. 8º do Ato das Disposições
Constitucionais Transitórias foi finalmente regulamentado pela Medida Provisória nº.
65, de agosto de 2002, posteriormente convertida na Lei nº. 10.559/02, com a
previsão expressa de reparação econômica, de caráter indenizatório, a todos
aqueles que se enquadrassem na condição de anistiado político.
Observa-se que a reparação econômica se limita às perdas em
decorrência do impedimento para o exercício de atividades econômicas, tendo
abrangência muito limitada em relação ao tamanho das violações de direitos
 
73
 

humanos durante o regime militar. Os danos morais, materiais, físicos e psicológicos


ficaram de fora da compensação brasileira, devendo ser buscados através do
Judiciário.
Brega Filho e Santos (2009, p.161) lecionam que:

Ao enfatizar somente o pagamento de reparações às vítimas do regime


militar, em detrimento de outras formas de resposta ao legado do arbítrio,
como levar à Justiça os perpetradores, por exemplo, o Estado brasileiro
sinaliza não apenas seu desinteresse em fazer plena justiça às vítimas, mas
seu desprezo pelo Estado de Direito e seu pouco apreço em restaurar o
próprio princípio de justiça, tão desacreditado, na comunidade nacional, pois
aqui um alto grau de ilegalidade permeia as relações entre o Estado e seus
cidadãos e que a exclusão parece ser a regra.

Quanto à necessidade de reforma institucional, observa-se que o Estado


Brasileiro dissolveu parte dos órgãos repressores, como os Destacamentos de
Operações de Informações - Centros de Operações de Defesa Interna (DOI-Codi’s),
mas ainda segue a sistemática de mandar militares brasileiros à “Escola das
Américas” 38 .
Localizada em Fort Benning, nos Estados Unidos da América, essa
“escola” visa à formação de militares em técnicas de segurança e combate a grupos
dissidentes e ao crime organizado. No período ditatorial, foi nessa “escola” que os
agentes da repressão foram aprender as técnicas de tortura empregadas nos órgãos
estatais (O BRASIL..., 2008) 39 .
Fora isso, não houve qualquer tentativa do Estado brasileiro promover o
vetting. Os acusados de ter torturado e matado várias pessoas durante o regime
militar continuaram nos seus cargos até a aposentadoria e alguns chegaram a
ocupar mandatos eletivos, como o deputado federal Edmar Moreira, do Partido
Democratas, de Minas Gerais.
Vista a aplicação das medidas de Justiça de Transição no Brasil e as
suas limitações, passa-se à parte final do presente trabalho, sobre a possibilidade de
construção do futuro através da promessa.

                                                            
38
Atualmente chamada de Instituto do Hemisfério Ocidental para a Cooperação em Segurança.
39
Em 1996, o Pentágono revelou que a referida instituição criou um manual de tortura, onde
orientava como tratar prisioneiros de formas as mais violentas.  
 

 
74
 

5.3 A promessa

Jorge Luis Borges (2009, p.32) nos ensina, em uma de suas poesias, que
“só os deuses podem prometer, por serem imortais”. A instabilidade e a
imprevisibilidade das ações humanas e da tensão da pluralidade nos fazem pensar
na dificuldade e até mesmo na impossibilidade de se ligar o futuro humano, de se
prometer e de se comprometer.
Mas é a própria promessa que garante que essa instabilidade e essa
imprevisibilidade vão ser contidas, de alguma maneira, em prol de algo maior. A
promessa é a força que mantém as pessoas unidas e agindo em concerto, é o que
garante a continuidade do mundo comum (ARENDT, 2007a). Remete-se aqui à
relação entre a lei e a memória: ambas garantem a continuidade do mundo comum e
a “imortalidade” de uma comunidade política através da promessa. Não por acaso,
Borges (2009, p.32) conclui a sua poesia dizendo que “também os homens podem
prometer, porque há na promessa algo imortal”.
É significativo que a lei possa ser ligada à promessa que uma
comunidade política faz para si mesma. A Constituição pode ser vista como a maior
promessa jurídica de uma comunidade política, abarcando os princípios jurídicos,
morais e políticos da comunidade. E essa promessa constitucional só é possível
dentro do quadro geral da promessa social fundadora de um povo. Nas palavras de
Ost (2005, p.255):

Esta norma procede ela mesma do pacto social: longe de cair do céu, ela
resulta do acordo que se estabeleceu inicialmente entre o povo, o povo e os
dirigentes em seqüência, do que resulta a confiança, sem a qual nenhum
texto pode pretender impor-se duradouramente. Privadas desta referência à
promessa social fundadora, as constituições não surgem senão como a
expressão de um direito descontínuo, aleatório e, resumindo, tão
inexplicável quanto insensato.

Essa visão é ligada à idéia de um tempo social que, ao mesmo tempo,


conserva e inova – ao qual se aludiu durante todo o presente trabalho. Esse tempo,
chamado por Ost (2005) de tempo neguentrópico, se contrapõe à idéia, tão cara ao
positivismo, da entropia temporal, do tempo como um escoamento irreversível e
unidirecional do antes para o depois. Nesse escoamento, o Direito perde sua relação

 
75
 

tanto com o passado quanto com o futuro, sendo visto como uma sucessão de
instantâneos jurídicos, à parte do fundo social do qual emana.
A concepção instantaneísta de tempo do positivismo jurídico, diz Ost
(2005, p.223), “não impede de nenhum modo que o processo de produção normativa
se embale e o ritmo de edição/ab-rogação dos textos se acelere loucamente como
observamos atualmente” 40 . E Ost (2005, p.194-195) diz mais:

Porque ela perde o fio do tempo, esta posição positivista é ao mesmo tempo
demasiadamente estática e demasiadamente dinâmica. Demasiadamente
estática, (...), pressupondo estar definitivamente fixada no instante mágico
da conclusão do contrato, (...) Demasiadamente dinâmica, já que, (...), ela
não se opõe nenhum equilíbrio à mutabilidade desenfreada das normas
jurídicas, sendo legítima qualquer mudança, desde que se opere
formalmente.

Contrariamente a essa concepção, é preciso se ter mente que a


promessa não se encerra com o instante “milagroso” de seu surgimento. Tendo ela a
função de regular a transição entre o novo e o velho, ela mesma é objeto de
constantes reelaborações. Essa idéia resgata a discussão sobre a legitimidade das
leis e a possibilidade de se questionar a validade de uma lei que não decorre dessa
promessa ou que impede que novas promessas sejam feitas.
Conforme visto anteriormente, a Lei da anistia e a produção da história
oficial ligada a ela sepultaram as memórias das vítimas do regime militar e
agravaram o processo de esvaziamento da esfera pública, com a privatização
dessas memórias. Isso impossibilitou que fosse cumprido o dever de memória,
necessário ao perdão e à possibilidade de futuras promessas.
No julgamento da Argüição de Descumprimento de Preceito Fundamental
nº. 153, o Supremo Tribunal Federal perdeu uma oportunidade de fazer a discussão
da Lei da anistia com as considerações corretas sobre o papel do Direito no resgate
da memória e na mediação da relação entre o passado e o futuro.
Cumprirá, agora, às instituições de Direito Internacional dos Direitos
Humanos darem a sua palavra sobre a possibilidade de revisão da Lei da anistia no
plano do Direito Internacional de Direitos Humanos, levando em consideração a
imprescritibilidade dos crimes contra a humanidade e a necessidade de trazer à tona
as memórias das vítimas do regime militar. Pelos precedentes da Corte
                                                            
40
Podemos citar como exemplo as contínuas edições de Medidas Provisórias sobre um mesmo tema,
alterando de forma cada vez mais acelerada o ordenamento jurídico, sem possibilitar a discussão e o
amadurecimento necessário das mudanças ocasionadas. 
 
76
 

Interamericana de Direitos Humanos, já mencionados, é possível prever uma


condenação do Estado brasileiro, obrigando a essa revisão.
A revisão da Lei da anistia, (somente se) somada à aplicação de efetivas
medidas de Justiça de Transição, possibilitará ao país a recondução das memórias
das vítimas do regime militar ao espaço público, fortalecendo esse espaço através
do respeito ao dissenso e propiciando o debate necessário ao aprimoramento dos
mecanismos de proteção aos direitos humanos, de modo a impedir que as
atrocidades cometidas durante o período ditatorial voltem a acontecer.
O Estado brasileiro nega, corriqueiramente, voz ao dissenso, com a
criminalização dos movimentos sociais e da pobreza, com o recalque da opressão e
com o falseamento histórico em nome de uma falsa característica brasileira de
“concórdia”, um falso “jeito brasileiro para a conciliação” sem debate.
Através das já mencionadas medidas de Justiça de Transição, mas
também de medidas assecuratórias da memória e da justiça para as violações que
ocorrem todos os dias, é possível que isso seja mudado, inaugurando-se um tempo
em que o perdão e as promessas cumpridas não sejam tão difíceis e em que a ação
política de todos tenha o seu espaço na criação do novo e na garantia de um mundo
comum.

 
77
 

6 CONSIDERAÇÕES FINAIS

O período ditatorial foi marcado por graves violações aos direitos


humanos cometidas pelo Estado. As garantias individuais foram suspensas, com a
instauração de um estado de exceção. A repressão à oposição culminou em um
esvaziamento da esfera pública, através da perseguição, tortura, assassinato,
desaparecimento e exílio forçado dos opositores do regime e de um agravamento do
processo de privatização da vida.
A partir da década de 70, a crise na economia e a mudança da posição
dos Estados Unidos no que diz respeito aos direitos humanos e à relação com o
Brasil enfraqueceram o regime militar, culminando em um descontentamento popular
que enfraqueceu o partido do governo e fortaleceu o único partido de oposição
existente. A luta pela anistia política dos opositores do regime militar ganhou as ruas
e contou com o apoio internacional. Forçados a se retirar do cenário político, os
militares tentaram, a todo custo, ditar a maneira da sua saída e impuseram sua
proposta de anistia recíproca: anistiaram os opositores para melhor anistiar seus
criminosos.
A análise do processo de construção da Lei da anistia e das suas
conseqüências aponta para o falseamento da história recente do Brasil, através da
idéia de conciliação e pacificação nacional, bem como para o recalque das
memórias das vítimas do regime militar, que, privadas do direito de tornar públicas
essas memórias, não fazem o trabalho de luto necessário à assimilação dessas
memórias no espaço público, através do dissenso.
O esquecimento, objetivo primeiro das medidas de anistia, é
extremamente necessário ao Direito, mas deve ser conduzido de maneira a não
impedir que o dever de memória seja cumprido. A prescrição e a anterioridade da lei
penal são formas jurídicas desse esquecimento e, muito embora sejam relacionadas
com a presente discussão, não são aplicáveis aos crimes praticados durante o
regime militar, por vedação expressa do Direito Internacional dos Direitos Humanos.
Ao contrário do falso argumento de que a anistia foi medida de perdão, a
primeira nada tem a ver com o último. A anistia brasileira foi medida de auto-anistia,
servindo, em verdade, ao esquecimento-falsário e ao esquecimento-recalque,
modalidades de esquecimento que servem para “legitimar” a história do ponto de
 
78
 

vista dos vencedores e criar a falsa ilusão de conciliação nacional, com o


impedimento da manifestação pública das memórias das vítimas.
A memória constitui, com o esquecimento, as duas faces de
temporalização do Direito, através do qual ele realiza o seu papel talvez mais
importante, de garantir a instituição do novo e a manutenção do velho. Ao Direito
cabe fazer justiça às memórias das vítimas, garantindo que estas se manifestem no
espaço público: é o dever de memória. Isso se dá pelo fundo político do qual o
Direito emana, sendo o ato de julgar uma faculdade de se colocar sob a perspectiva
de todos os que estejam possivelmente presentes na discussão. Daí a importância
de se garantir, no espaço público, o dissenso decorrente da pluralidade humana.
Em situações de estabilidade, a relação entre a memória e o
esquecimento do dever de punir é regulada pela prescrição, mas em situações de
grave perturbação de uma comunidade política e flagrantes violações de direitos
humanos pelo próprio Estado, como no período ditatorial, a prescrição não se
coaduna com a justiça e com o dever de memória.
Daí o Direito Internacional de Direitos Humanos ter tipificado esses crimes
cometidos pelo Estado como crimes contra a humanidade e ter estabelecido a sua
imprescritibilidade como maneira de garantir que serão julgados, mesmo passado
largo lapso temporal do seu cometimento. Da mesma maneira, foi criada a figura dos
crimes permanentes, para garantir que crimes como os desaparecimentos forçados
não caiam no esquecimento.
Um questionamento que se impõe é se esses institutos de memorial
jurídico são suficientes para possibilitar o perdão, o reconhecimento mútuo da vítima
e do agressor, a reabilitação de ambos ao espaço público e a visão da comunidade
política enquanto esquema de cooperação.
Conforme salientado anteriormente, o perdão não se confunde com a
anistia, sendo uma decorrência da memória. Só há perdão onde a memória é
exercida. Daí não poder se falar em possibilidade real de perdão dentro do atual
contexto brasileiro, em que a memória ainda é privada do espaço público.
O perdão possibilita o reconhecimento mútuo da vítima e do agressor e
sua reabilitação ao espaço público, porque o perdão desliga o agente de seu ato,
demonstrando que o ser humano é sempre capaz de agir de maneira diferente e
melhor. Perdoar o agente e continuar condenando o ato é exercer a dialética entre o
esquecimento e a memória, sem que um se sobreponha ao outro.
 
79
 

A condenação judicial dos repressores, se não for combinada com outras


medidas que possibilitem a reabilitação da vítima e do criminoso, pode trazer muito
mais problemas que soluções à comunidade política, dado o caráter repressor e
desumanizador do sistema penal, que, com a imposição da pena privativa de
liberdade, impossibilita qualquer (re)socialização do apenado.
As medidas de Justiça de Transição se apresentam como uma maneira
de propiciar esse perdão, para além da condenação judicial dos repressores, através
da busca pela verdade e manutenção da memória, da reforma das instituições e da
reparação das vítimas nos mais diversos aspectos: restituição, compensação,
reabilitação, satisfação e garantias de não-repetição.
Essas medidas possibilitam o empoderamento popular para a
participação política e para uma discussão madura sobre o papel do Estado e do
próprio Direito, resgatando o fundo político do qual o Direito emerge.
No Brasil, essas medidas foram aplicadas de forma mínima, sem uma
análise de conjunto e sem a preocupação com a completa reparação da vítima e
com as garantias de não-repetição. Assim, os efeitos positivos dessas medidas não
puderam ser sentidos na comunidade política brasileira e a possibilidade dessa
comunidade se articular como uma estrutura de cooperação, através da promessa,
se viu adiada.
É através da promessa que uma comunidade faz para si mesma, que o
futuro é ligado, que os seres humanos se comprometem a construir algo juntos, a
manter o mundo em comum. Essa promessa, assim como o perdão, é um ato de
memória. O perdão, desligando o passado traumático, desligando o agente de seu
ato, possibilita que a vítima e o agressor se reabilitem para novas ações com a
comunidade política, se ligando através da promessa.
As leis devem ser as promessas jurídicas de um povo, o compromisso
que um povo assume de manter algo do passado como garantia de construção para
algo futuro. As leis elaboradas através de uma falsa conciliação, sem permitir o
espaço para o dissenso, tal qual a Lei da anistia, não respeitam a essa exigência de
manutenção da memória e impedem a possibilidade de uma real promessa advinda
do comprometimento dos seres humanos com a comunidade política.
A Argüição de Descumprimento de Preceito Fundamental nº. 153 poderia,
se julgada procedente, ser um primeiro passo no restabelecimento da memória das
vítimas do regime militar e na implantação da Justiça de Transição no país. Com o
 
80
 

julgamento pela improcedência da Argüição de Descumprimento de Preceito


Fundamental nº. 153, o Supremo Tribunal Federal perdeu a oportunidade de dar
uma decisão que servisse como esse primeiro passo e abriu margem para que o
Estado brasileiro seja condenado pelas instâncias internacionais.
Uma condenação internacional, no sentido de obrigar o Brasil a julgar os
agentes repressores do regime militar e a implantar medidas de Justiça de
Transição, pode vir a ser o que o país precisa para iniciar a reconstrução do espaço
público, levando em conta o dissenso, a voz daqueles que ainda hoje são excluídos
e criminalizados, inaugurando um tempo em que o perdão e as promessas
cumpridas não sejam tão difíceis e em que a ação política de todos tenha o seu
espaço na criação do novo e na garantia de um mundo comum.

 
81
 

REFERÊNCIAS

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Psicologia. UFF, Niterói, v. 18, n. 1, jun. 2006. Disponível em:
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