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II – Conceito e Tipos de Sociedades

1. O Conceito de Sociedade Comercial

1.1a “vexata quaestio” da natureza jurídica da sociedade comercial:


contrato ou instituição?
Tradicionalmente, a sociedade comercial tem sido entendida como
um fenómeno jurídico que se encontra entre o contrato (negócio teral
oujurídico bila plurilateral, com um objecto que se diferencia dos restantes negócios
jurídicos), e a organização ou instituição de uma pessoa colectiva (negócio
jurídico que dá origem a um novo sujeito de direitos, uma nova pessoa jurídica, com
personalidade jurídica própria e distinta das pessoas que constituem a organização).
A lei portuguesa define a sociedade, nos seus arts. 980º e ss. do C.C. e
nos arts. 7º e ss. do CSC, como um “contrato de sociedade”. Esse contrato dá
origem a uma pessoa jurídica autónoma dos sócios que celebram o acto,
sujeito a uma disciplina própria e imperativa.
Por outro lado, a natureza associativa ou institucional das sociedades
comerciais resulta dos arts. 157º e ss. do C.C., que manda aplicar as regras
das pessoas colectivas às sociedades e a regulamentação do Código das
Sociedades Comerciais.
Esta natureza híbrida tem as suas raízes no direito romano, onde o
conceito de sociedade era o de simples negócio jurídico, mediante o qual
duas ou mais pessoas constituíam um fundo comum, com vista ao
desenvolvimento de uma actividade. Só no séc. XIX, com a proliferação
das pessoas colectivas, a sociedade passou a ter elementos organizacionais.

1.2o conceito de sociedade comercial e seus elementos definidores

1.2.1 elementos gerais: o conceito geral de socidade


Da conjugação do art. 980º do C.C. e do art. 1º, 2º do CSC resulta que o
conceito de sociedade comercial tem elementos gerais (art. 980º do C.C.), e
elementos especiais (art. 1º, 2 do CSC).
O art. 980º do C.C. define “contrato de sociedade”, ao determinar que:
contrato de sociedade é aquele em que duas ou mais pessoas se obrigam a
contribuir com bens ou serviços para o exercício em comum de certa
actividade económica, que não seja de mera fruição, a fim de repartirem os
lucros resultantes dessa actividade.
Desta definição retiram-se os seguintes elementos da noção (civilista),
de sociedade enquanto entidade, a saber: 1) o elemento pessoal (“contrato de
sociedade é aquele em que duas ou mais pessoas se obrigam (…)”) ; 2) o elemento
patrimonial (“(…) a contribuir com bens ou serviços (…)”); 3) o objecto (“(…) para
o exercício em comum de certa actividade económica que não seja de mera fruição
2

(…)”); e 4) o fim ou elemento final ou causal (“(…) a fim de repartirem os lucros


resultantes dessa actividade”).
Assim, os elementos definidores gerais de sociedade são de três
ordens, a saber: 1) pessoal; 2) patrimonial; e 3) causal ou finalístico.

1.2.1.1 agrupamento de base pessoal e voluntária


Em regra, a sociedade é uma entidade composta por dois ou mais
sujeitos, normalmente pessoas, singulares ou colectivas (arts. 980º do C.C. e
7º do CSC).
Há, todavia, excepções. De facto, o direito vem admitindo não
apenas sociedades supervenientes unipessoais (sociedades reduzidas a um único
sócio, embora tenham sido constituídas por dois ou mais) , mas também sociedades
originariamente unipessoais (sociedades constituídas por um único sujeito)1.
A unipessoalidade superveniente, em regra, transitória, é admitida
quer pelo Código Civil (art. 1007º, d do C.C.), quer pelo Código das Sociedades
Comerciais (arts. 142º, 1, a; 270º-A, 2; 464º, 3 do CSC).
A unipessoalidade originária não está prevista no Código Civil, mas
prevê-a o Código das Sociedades Comerciais para as sociedades por quotas e
para as sociedades anónimas2.
Assim, hoje está em crise a concepção de sociedade como um puro
produto da autonomia das partes. Assiste-se, pois, a uma progressiva
desvalorização da autonomia privada na constituição das sociedades. Uma
das linhas de força do direito contemporâneo tem sido a substituição de um
direito dispositivo por um direito de natureza imperativa (o direito das
sociedades impõe-se à vontade das partes). O relevo da vontade dos sócios está
hoje confinada quase ao momento da constituição da sociedade, o que se vê
em vários aspectos: 1) por um lado, os sócios estão obrigados a adoptar um
dos tipos legais de sociedade previstos na lei (art. 1º do CSC), não podendo
criar tipos atípicos; e 2) por outro lado, a liberdade de modificação dos
tipos legais está hoje muito limitada, o que, por seu lado, limita a
possibilidade de alterar os estatutos.

1
antes do Código das Sociedades Comerciais, era doutrina pacífica que a
constituição de uma sociedade exigia, pelo menos, a intervenção de duas pessoas
(a sociedade unipessoal era algo originariamente inconcebível, uma vez que, se a
sociedade é um contrato, a intervenção de duas pessoas era obrigatória). De facto,
se a sociedade é uma pessoa colectiva, deve haver um aglomerado de pessoas,
pelo menos na sua constituição
2
o art. 270-A, 1 do CSC (introduzido pelo Decreto-Lei n.º 257/96, de 31 de
Dezembro), permite que uma pessoa singular ou colectiva constitua uma
sociedade unipessoal por quotas; o art. 488º, 1 do CSC permite que uma
sociedade por quotas, uma sociedade anomia ou uma sociedade em comandita por
acções (cfr. Art. 481º, 1 do CSC), constitua uma sociedade anónima de cujas
acções ela seja inicialmente a única titular.
Por outra via, o Estado também tem a possibilidade de, mediante lei ou decreto-
lei, criar sociedades unipessoais de capitais públicos
3

1.2.1.2 o elemento patrimonial


Qualquer sociedade exige um património próprio. Esse património é
inicialmente constituído, pelo menos, pelos direitos correspondentes às
obrigações de entrada (cfr. arts. 980º; 983º, 1 do C.C. e 20º, 1, a do CSC) 3. Esta
obrigação é designada, precisamente, de obrigação de entrada.
Assim, a entrada é uma obrigação imperativa, que existe a cargo de
todo e qualquer sócio, podendo consistir em bens de vária ordem (dinheiro,
coisas, serviços), em contrapartida do qual o sócio recebe as partes sociais
(acções, quotas, partes).
A obrigação de entrada é, portanto, uma obrigação imperativa, uma
vez que, sem as entradas, torna-se impossível reunir a base patrimonial da
sociedade, sem a qual esta não pode iniciar a sua actividade (a não realização
das entradas acarreta a nulidade da sociedade).
Determina o art. 20º, 1, a do CSC que: todo o sócio é obrigado a entrar
para a sociedade com bens susceptíveis de penhora ou, nos tipos de
sociedade em que tal seja permitido, com indústria.
“Entrada” aparece na lei quer como prestação, de dare ou de facere
(arts. 20º, 1, a e 26º, 1ª parte do CSC) , quer como objecto da prestação (arts. 9º,
1, h, 2; 25º, 1; 28º, 1, 3, a, c, d do CSC) . Tendo em conta, principalmente, a este
segundo sentido, distinguem-se, quanto à sua modalidade: 1) as entradas
em dinheiro; 2) as entradas em espécie; e 3) as entradas em indústria.
Relativamente às primeiras, dinheiro é tudo aquilo que num
determinado espaço é aceite consensualmente como meio de pagamento.
Não é, todavia, este conceito amplo o adequado para caracterizar as
entradas em dinheiro. Neste sentido, dinheiro é sinónimo de moeda, que
pode ser metálica, de papel (papel-moeda mais especificamente), e bancária ou
escritural.
As entradas em espécie são entradas em bens diferentes de dinheiro
(e de indústria)4 5. Determina o art. 20º, 1, a do CSC que os bens sejam
“susceptíveis de penhora”. No entanto, a lei não devia falar em bens
susceptíveis de penhora, uma vez que o art. 7º da 2ª Directiva, embora
aplicável apenas às sociedades anónimas, estatui que: “o capital subscrito
só pode ser constituído por elementos de activo susceptíveis de avaliação
económica”.

3
todo o sócio é obrigado a entrar com bens para a sociedade
4
arts. 28º e 179º do CSC
5
consistem, por exemplo, em imóveis, empresas (em sentido objectivo), móveis
corpóreos, patentes, marcas, créditos, participações sociais. Muitas vezes, os sócios
entram com a propriedade desses bens. Outras vezes transmitem ou constituem a
favor da sociedade outros direitos reais sobre esses bens (transmitem um direito de
usufruto sobre um imóvel onde funcionará a sede social).
E podem os sócios entrar para a sociedade atribuindo-lhe o gozo desses bens a
título obrigacional (gozo durante 20 anos do citado imóvel, tendo como única
contrapartida a aquisição de quota pelo sócio)? Segundo o Prof. Coutinho de Abreu,
a questão merece resposta afirmativa (arts. 25º, 3 e 26º do CSC)
4

Por outro lado, a lei impõe que esses bens sejam descritos no próprio
contrato social, de forma a determinar a sua natureza e valor (art. 9º, 1, g e h
do CSC).
Pelas entradas em indústria, os sócios obrigam-se a prestar uma
determinada actividade ou trabalho à sociedade (são os chamados sócios de
indústria).
Apenas os sócios de responsabilidade ilimitada (todos os sócios nas
sociedades em nome colectivo e os sócios comanditados, nas sociedades
em comandita), podem entrar com indústria (arts. 176º, 1, a e 468º do CSC).
Nas sociedades por quotas, nas sociedades anónimas e, quanto aos
sócios comanditários, nas sociedades em comandita, tendo em conta a
responsabilidade limitada dos mesmos, a garantia geral das obrigações
sociais constituída pelos respectivos patrimónios e a frágil consistência das
entradas em indústria (dificilmente avaliáveis e não executáveis especificamente),
são proibidas por lei (arts. 202º, 1; 277º, 1 e 468º do CSC).

1.2.1.3 o momento da realização das entradas


Quanto ao momento da realização das entradas, nas sociedades civis,
as entradas dos sócios não têm que ser obrigatoriamente realizadas no
momento da constituição da sociedade (podem ser realizadas antes, no momento
da constituição ou posteriormente). Nas sociedades comerciais, é necessário
distinguir o tipo de entrada.
Sobre o tempo da realização das entradas determina o art. 26º do CSC
que: as entradas dos sócios devem ser realizadas no momento da outorga da
escritura do contrato de sociedade, sem prejuízo de estipulação contratual
que preveja o diferimento da realização das entradas em dinheiro, nos casos
e termos em que a lei o permita.
A primeira parte do preceito é infeliz, uma vez que a generalidade
das entradas pode ser realizada, total ou parcialmente, antes da escritura
pública do acto constituinte6.
As entradas em espécie devem ser realizadas no momento da outorga
da escritura do acto constituinte ou até esse momento, não depois7.
As entradas em dinheiro devem ser realizadas no momento da
outorga da escritura do acto constituinte da sociedade, mas sem prejuízo de
cláusula estatutária que preveja o diferimento nos casos e termos em que a
lei o permita. Porém, também estas entradas podem ser realizadas antes da
escritura pública8. O Código das Sociedades Comerciais, nos seus arts. 202º e
277º, respeitantes às sociedades por quotas e às sociedades anónimas, sendo
6
neste sentido, Coutinho de Abreu
7
através da escritura pública, o sócio transmite a propriedade ou outro direito real
de gozo sobre certo bem para a sociedade, ou constitui a favor dela um direito real
de gozo, cede um crédito, etc..
Mas nada impede que estes actos sejam praticados antes da escritura pública. Um
sócio pode, por exemplo, trespassar o seu estabelecimento no contrato social
reduzido a simples escrito
5

ainda o art. 277º do CSC aplicável às sociedades em comandita por acções


(art. 478º do CSC), admite que o estatuto social preveja, em certos termos, o
diferimento de entradas em dinheiro.
Determina o art. 202º, 1 do CSC que: não são admitidas contribuições
de indústria.
Acrescenta o seu n.º 2 que: só pode ser diferida a efectivarão de
metade das entradas em dinheiro, mas o quantitativo global dos
pagamentos feitos por conta destas, juntamente com a soma dos valores
nominais das quotas correspondentes às entradas em espécie, deve perfazer
o capital mínimo fixado na lei.
Diz ainda o art. 277º, 1 do CSC que: não são admitidas contribuições
de indústria.
Nas entradas em dinheiro só pode ser diferida a realização de 70% do
valor nominal das acções; não pode ser diferido o pagamento do prémio de
emissão, quando previsto (n.º 2).
As entradas em indústria são de execução continuada. Não são
realizáveis instantaneamente. Exigem actividade, a cooperação do sócio ao
longo do tempo. Não podem ser, portanto, realizados no momento da
outorga da escritura pública. O sócio de indústria fica vinculado a partir do
contrato social (não necessariamente a partir da escritura), mas o cumprimento da
obrigação prolonga-se no tempo.
A lei, embora admita o diferimento de partes das entradas em
dinheiro, não deixa de prever mecanismos vários que asseguram o
cumprimento da obrigação de entrada. Na parte geral do Código das
Sociedades Comerciais, estatui o n.º 1 do art. 27º que: são nulos os actos da
administração e as deliberações dos sócios que liberem total ou
parcialmente os sócios da obrigação de efectuar entradas estipuladas, salvo
no caso de redução do capital.
Nas partes especiais relativas às sociedades por quotas e às
sociedades anónimas, o Código das Sociedades Comerciais faculta às mesmas
procedimentos especiais de execução dos créditos derivados da falta de
pagamento pelos sócios remissos (ou em mora). Nas sociedades por quotas,
determina o art. 204º, 1 que: se o sócio não efectuar, no prazo fixado na
interpelação, a prestação a que está obrigado, deve a sociedade avisá-lo por
carta registada de que, a partir do 30.º dia seguinte à recepção da carta, fica
sujeito a exclusão e a perda total ou parcial da quota.
Não sendo o pagamento efectuado no prazo referido no número
anterior e deliberando a sociedade excluir o sócio (cfr. 246º, 1, b e c do CSC),
8
será, aliás, o que acontece (e deve acontecer), normalmente. Com efeito, nas
sociedades por quotas, nas sociedades anónimas e nas sociedades em comandita
por acções “a soma das entradas em dinheiro já realizadas deve ser depositada em
instituição de crédito, antes de celebrado o contrato, numa conta aberta em nome
da futura sociedade, devendo ser exibido ao notário o comprovativo de tal depósito
por ocasião da escritura” (arts. 202º, 3 e 277º do CSC)
6

deve comunicar-lhe, por carta registada, a sua exclusão, com a consequente


perda a favor da sociedade da respectiva quota e pagamentos já realizados,
salvo se os sócios, por sua iniciativa ou a pedido do sócio remisso,
deliberarem limitar a perda à parte da quota correspondente à prestação não
efectuada; neste caso, deverão ser indicados na declaração dirigida ao sócio
os valores nominais da parte perdida por este e da parte por ele conservada
(art. 204º, 2 do CSC).
O sócio excluído e os anteriores titulares da quota são solidariamente
responsáveis, perante a sociedade, pela diferença entre o produto da venda
e a parte da entrada em dívida. Contra o crédito da sociedade não é
permitida compensação (art. 206º, 1 do CSC).
O sócio que tiver efectuado algum pagamento nos termos deste
artigo pode subrogar-se no direito que assiste à sociedade contra o excluído
e seus antecessores, segundo o disposto no art. 206º do CSC, a fim de obter o
reembolso da quantia paga (art. 207º, 3 do CSC).
Excluído um sócio, ou declarada perdida a favor da sociedade parte
da sua quota, são os outros sócios obrigados solidariamente a pagar a parte
da entrada que estiver em dívida, quer a quota tenha sido ou não já vendida
nos termos dos artigos anteriores; nas relações internas esses sócios
respondem proporcionalmente às suas quotas (arts. 207º, 1 e 197º 1 do CSC).
As quantias provenientes da venda da quota do sócio excluído,
deduzidas as despesas correspondentes, pertencem à sociedade até ao limite
da importância da entrada em dívida (art. 208º, 1 do CSC).
Pelas forças do excedente, se o houver, deve a sociedade restituir aos
outros sócios as quantias por eles desembolsadas, na proporção dos
pagamentos feitos; o restante será entregue ao sócio excluído até ao limite
da parte da entrada por ele prestada. O remanescente pertence à sociedade
(art. 208º, 2 do CSC).
Nas sociedades anónimas, determina o art. 285º, 4 do CSC que: os
administradores ou directores podem avisar, por carta registada, os
accionistas que se encontrem em mora de que lhes é concedido um novo
prazo, não inferior a 90 dias, para efectuarem o pagamento da importância
em dívida, acrescida de juros, sob pena de perderem a favor da sociedade
as acções em relação às quais a mora se verifique e os pagamentos
efectuados quanto a essas acções; o aviso será repetido durante o segundo
dos referidos meses.

1.2.1.4 efeitos das entradas


Os efeitos das entradas dependem de se tratar: 1) da sociedade; 2) de
terceiros.
Em face da sociedade, a entrada constitui o limite das obrigações dos
sócios, ou seja, a partir do momento em que o sócio realiza a entrada, não
pode ser obrigado a realizar qualquer outra prestação durante a vida da
7

sociedade. No entanto, há excepções, uma vez que o contrato pode prever


obrigações acessórias ou prestações suplementares de capital. Mas aqui é o
próprio sócio que assume essas obrigações.
Em face de terceiros, é necessário distinguir o tipo legal de sociedade
em causa. Nas sociedades anónimas, os sócios apenas respondem no limite
das suas entradas. Nas sociedades por quotas, o sócio goza de uma
responsabilidade sui generis, ou seja, responde pelo valor da sua entrada e
ainda pelo valor das entradas dos outros sócios que não foram cumpridas (o
sócio responde pela integração do capital social). Nas sociedades em nome
colectivo e nas sociedades em comandita simples, os sócios respondem
ilimitadamente, embora subsidiariamente pelas dívidas da sociedade.

1.2.1.5 elemento finalístico ou causal


De acordo com o art. 980º do C.C., o fim ou escopo da sociedade é a
obtenção, através do exercício da actividade-objecto social, de lucros e a
sua repartição pelos sócios.
Daqui se conclui que o fim social não se basta com a persecução de
lucros; exige ainda a intenção de os dividir pelos sócios9.
Com a expressão “lucro”, a lei pretende referir-se ao ganho
traduzível num incremento do património da sociedade. Tal ganho, por ser
um valor patrimonial distribuível, há-de formar-se no património social10.
Mas valerá este fim lucrativo também para as sociedades comerciais
disciplinadas pelo Código das Sociedades Comerciais? Nada na lei aponta em
sentido contrário11.
As sociedades comerciais (e civis de tipo comercial), propõem-se obter
lucros. Estes lucros são lucros das sociedades; formam-se nelas, são
incremento dos seus patrimónios, destinando-se a ser depois divididos,
distribuídos ou repartidos pelos seus sócios.
Dentro do elemento finalístico ou causal, é necessário distinguir a:
- causa imediata (“(…) o exercício em comum de uma determinada
actividade económica que não seja de mera fruição (…)”)
- causa mediata (“(…) a fim de repartirem os lucros resultantes dessa
actividade”)
Em relação à causa imediata, estatui o art. 11º, 2 do CSC que: como
objecto da sociedade devem ser indicados no contrato as actividades que os
sócios propõem que a sociedade venha a exercer. São, por isso, nulas as

9
segundo as expressões habituais nos autores italianos, não é suficiente o lucro
objectivo, é também necessário o lucro subjectivo
10
contrapõe-se, por conseguinte, o lucro às vantagens económicas produzíveis
directamente no património dos sujeitos agrupados em entidades associativas (lato
sensu), e às economias (eliminação ou redução de despesas), que os associados
visam obter participando em actividades daquele género
11
neste sentido, é ver, por exemplo, além do art. 2º do CSC, os arts. 6º, 1, 2 e 3;
10º, 5, a; 21º, 1 , a; 22º; 31º; 33º, 1 e 2; 34º, 1; 176º, 1, b; 217º; 294º do
mesmo diploma
8

cláusulas do pacto de sociedade que fixem o seu objecto em termos


genéricos.
O art. 980º do C.C. começa por referir-se ao “exercício em comum”,
ou seja, a actividade deve ser exercida de forma a garantir que todos os
sócios possam, directa ou indirectamente, intervir no governo social ou,
pelo menos, na supervisão da actividade social.
Refere-se ainda o preceito a “actividade económica que não seja de
mera fruição”. Portanto, a actividade não pode ser de mera fruição. Este
aspecto permite distinguir a figura da sociedade (arts. 980º e ss. do C.C.), das
figuras da comunhão ou da compropriedade (quanto a esta última, vejam-se
os arts. 1403º e ss. do C.C.12.
A comunhão reflecte uma situação estática, de mero desfrute das
coisas postas em comum pelos comproprietários.
Na sociedade, a actividade económica corresponde a uma situação
não estática, mas dinâmica de produção de novas utilidades ou exploração
activa de coisas comuns13. Por outro lado, o carácter dinâmico da actividade
de uma sociedade não significa que ela tenha que estar em actividade
permanente.
Relativamente à causa mediata, o fim mediato da sociedade é a
obtenção e repartição dos lucros. Sendo o escopo ou intuito lucrativo o fim
das sociedades, distinguem-se elas claramente das associações, fundações,
cooperativas de consumo, agrupamentos complementares de empresas
(ACE), ou os agrupamentos europeus de interesse económico (AEIE)14.
12
veja-se o seguinte exemplo: dois indivíduos herdam um pomar e vendem os frutos
desse pomar (o mesmo se passa se herdassem um estabelecimento comercial e
cedessem a sua exploração), recebendo a renda respectiva. Neste caso, os
herdeiros limitam-se a receber a utilidade normal das coisas postas em comum
13
veja-se o seguinte exemplo: dois indivíduos herdam um estabelecimento
comercial e decidem explorá-lo directamente. Em regra, a sociedade implica uma
actividade que consiste no processo de produção ou distribuição de bens ou
serviços
14
as associações e as fundações podem não exercer actividades económicas, mas
também podem exercê-las. Destas actividades podem resultar lucros (objectivos),
não podem é ser distribuídos pelos associados ou atribuídos ao fundador (falha o
lucro subjectivo).
As cooperativas de consumo são entidades cuja actividade consiste na revenda aos
membros da cooperativa, dos bens adquiridos ao grossista ou ao produtor, por um
preço que engloba o preço de custo mais as despesas mínimas da transacção. Ora,
estas cooperativas não visam obter lucro, mas permitir a realização aos respectivos
membros um fundo patrimonial no seu próprio património pessoal.
Os ACE (Lei n.º 4/73, de 4 de Junho e Decreto-Lei n.º 430/73, de 25 de
Agosto), são pessoas colectivas com personalidade jurídica própria que reúnem um
conjunto de empresários (individuais ou colectivos), e que visa proporcionar aos
membros agrupados uma maior rentabilidade individual nas respectivas empresas.
Não se visa, portanto, a realização de lucro, mas permitir a cada uma das empresas
agrupadas a realização de um fundo patrimonial no respectivo património.
O objectivo dos AEIE (Regulamento (CEE) 2137/85 do Conselho, de 25 de
Junho de 1985), é facilitar ou desenvolver a actividade económica dos seus
membros, melhorar ou aumentar os resultados desta actividade; não é seu
objectivo realizar lucros para si próprio (nem sequer se admite acessoriamente fim
9

Por outro lado, há duas modalidades de lucro, a saber: 1) os lucros


periódicos ou de exercício, apurados no final de cada exercício social (ano);
e 2) os lucros finais ou de exploração, os quais se traduzem no saldo de
liquidação (positivo), que cabe a cada sócio quando a sociedade é dissolvida.

1.3elementos específicos
Os elementos específicos de sociedade que a lei comercial acrescenta
à lei civil é que individualizam e distinguem a sociedade comercial face às
sociedades em geral, são: 1) o objecto da sociedade comercial (elemento
substancial); e 2) a forma da sociedade comercial (elemento formal).

1.3.1 elemento substancial


Tal como acontecia no direito anterior, para que uma sociedade seja
comercial, exige-se que ela tenha como objecto a prática de actos de
comércio.
A averiguação do objecto de uma sociedade faz-se por referência ao
seu objecto estatutário, e não ao seu objecto real ou fáctico. Para que uma
sociedade seja comercial, basta que estejam referidas no seu objecto
estatutário um conjunto de actividades económicas que lhe conferem
natureza comercial.
A exigência da prática de actos de comércio não significa que não
sejam admitidas sociedades comerciais com um objecto misto (actos de
comércio e actos civis). O que se tem que analisar é a própria especialidade do
fim (princípio da especialidade do fim), ao abrigo do art. 160º do C.C. e do art. 6º
do CSC, princípio que delimita a própria capacidade de gozo da pessoa
colectiva.
Determina o art. 160º, 1 do C.C. que: a capacidade das pessoas
colectivas abrange todos os direitos e obrigações necessários ou
convenientes à prossecução dos seus fins.
Refere o art. 6º, 1 do CSC que: a capacidade da sociedade compreende
os direitos e as obrigações necessários ou convenientes à prossecução do
seu fim, exceptuados aqueles que lhe sejam vedados por lei ou sejam
inseparáveis da personalidade singular.
No direito anterior, levantavam-se dúvidas quanto à questão de saber
se são comerciais determinados tipos de sociedades, nomeadamente as
sociedades civis em ou sob forma comercial (art. 1º, 4 do CSC)15.
São civis as sociedades com objecto civil e não comercial, as
sociedades que não tenham por objecto a prática de actos de comércio (o
exercício de uma actividade mercantil)16.

lucrativo). A sua actividade deve estar ligada à actividade económica dos seus
membros e apenas pode constituir um complemento a esta última
15
Infra n.º 3.2.1
16
por exemplo, são civis as sociedades agrícolas, as sociedades de artesãos que, no
quadro societário, exercem actividades artesanais, as sociedades de profissionais
10

1.3.2 elemento formal


Determina o art. 1º, 2 do CSC que: são sociedades comerciais aquelas
que (…) adoptem o tipo de sociedade em nome colectivo, de sociedade por
quotas, de sociedade anónima, de sociedade em comandita simples ou de
sociedade em comandita por acções.
Para que sejam civis, as sociedades hão-se ter exclusivamente por
objecto uma actividade não comercial (art. 1º, 3 e 4 do CSC)17.
As sociedades civis podem ser de duas espécies: 1) sociedades civis
simples; e 2) sociedades civis de tipo ou forma comercial.
As primeiras são disciplinadas fundamentalmente pelo Código Civil
(arts. 980º e ss. do C.C.). As segundas são sociedades que, embora civis,
revestem um dos tipos de sociedades comerciais, sendo-se-lhes, por isso,
aplicável o regime do Código das Sociedades Comerciais (art. 1º, 4 do CSC).
Em regra, as sociedades civis podem adoptar ou não qualquer tipo
societário mercantil (art. 1º, 4 do CSC). Mas há excepções: 1) por um lado,
algumas sociedades não podem adoptar nenhum dos tipos de sociedades
comerciais18; 2) por outro lado, outras sociedades civis apenas podem
adoptar certo ou certos tipos19.
A doutrina dominante rejeita a qualificação destas sociedades como
comerciais, uma vez que: 1) o próprio Preâmbulo do Código das Sociedades
Comerciais aponta nesse sentido; 2) mas também por um argumento de
ordem lógica, se não veja-se: se o Código das Sociedades Comerciais
distinguiu expressamente as sociedades comerciais das sociedades civis sob
forma comercial, estão é porque o legislador teve a vontade (pelo menos
implícita), de deixar de fora do conceito de sociedade comercial as
sociedades civis sob formal comercial.

2. Os Tipos de Sociedade

3.1o princípio da tipicidade


As sociedades com objecto comercial constituídas nos termos do
Código das Sociedades Comerciais devem adoptar e só podem adoptar um dos

liberais para o exercício das respectivas actividades


17
consequentemente, por exemplo, uma sociedade que explora uma empresa
agrícola (objecto civil), e, além disso, se dedica à comercialização de sementes
adquiridas a terceiros é sociedades comercial (o seu objecto desdobra-se em
actividades não comerciais e comerciais)
18
é o caso das sociedades de advogados (Decreto-Lei n.º 513-Q/79, de 26 de
Dezembro, art. 1º, 1 e 2)
19
é o caso das sociedades agrícolas de grupo, dos agrupamentos de produção
agrícola, dos agrupamentos complementares de exploração agrícola e das
empresas familiares agrícolas reconhecidas; tudo sociedades agrícolas (especiais),
que devem revestir o tipo de sociedades por quotas (Decreto-Lei n.º 336/89, de
4 de Outubro, alterado pelos Decretos-Lei n.º 339/90, de 30 de Outubro e n.º
382/93, de 18 de Novembro, arts. 1º, 12º, 13º e 12º-A)
11

tipos enumerados no n.º 2 do art. 1º do CSC. As sociedades civis que queiram


adoptar um tipo societário mercantil e sujeitar-se, em consequência, ao
Código das Sociedades Comerciais quanto à constituição, organização e
funcionamento também só podem adoptar um dos tipos previstos nesse
preceito.
Assim, neste domínio vigora o princípio da taxatividade, da
tipicidade ou do numerus clausus dos tipos legais de sociedades comerciais.
As sociedades comerciais não podem, portanto, ser atípicas, ou seja, não
podem adoptar uma regulamentação (estatutária), incompatível com qualquer
tipo legal ou com o tipo legal assinalado nos estatutos sociais.
A taxatividade dos tipos legais societários impõe uma limitação à
liberdade negocial: o sujeito ou os sujeitos que queiram constituir uma
sociedade comercial (ou civil com forma comercial), têm de optar por um dos
tipos previstos na lei. E nalguns casos é-lhes mesmo imposto certo ou
certos tipos20.
O princípio da tipicidade vem, portanto, limitar o princípio geral da
autonomia privada (art. 405º, 1 do C.C.)21.
O princípio da tipicidade é justificado em nome da segurança do
tráfico jurídico e da protecção de terceiros (é importante garantir aos terceiros
que negoceiam com a sociedade, saber quais são as características integrais do modelo
adoptado pela empresa com quem negociou).

3.2os tipos legais


No âmbito dos tipos legais de sociedades comerciais, é possível
distinguir: 1) os tipos legais comuns; e 2) os tipos especiais.

3.2.1 tipos comuns: análise dos traços principais; semelhanças e


diferenças
São quatro os tipos legais comuns de sociedade, a saber: 1) as
sociedades em nome colectivo (arts. 175º e ss. do CSC); 2) as sociedades por
quotas (arts. 197º e ss. do CSC); 3) as sociedades anónimas (arts. 271º e ss. do
CSC); e 4) as sociedades em comandita (arts. 465º e ss. do CSC)22.

20
as sociedades unipessoais devem ser por quotas ou anónimas (arts. 270º-A e
488º do CSC); as sociedades com certo objecto só podem ser por quotas ou
anónimas, sendo o exemplo das sociedades correctoras e das sociedades
financeiras de corretagem (Decreto-Lei n.º 229-I/88, de 4 de Julho, art. 5º, 1)
21
dentro dos limites da lei, as partes tem a faculdade de fixar livremente o conteúdo
dos contratos, celebrar contratos diferentes dos previstos neste código ou incluir
nestes as cláusulas que lhes aprouver (art. 405º, 1 do CSC)
22
as sociedades em nome colectivo caracterizam-se por serem empresas reduzidas,
com poucos sócios, havendo, por isso, uma ampla confiança recíproca. De destacar
ainda o seu carácter quase familiar.
As sociedades por quotas encontram-se a meio caminho das sociedades em nome
colectivo e das sociedades anónimas. O Código das Sociedades Comerciais
reforçou a natureza iutuitu personae das mesmas.
As sociedades anónimas são o modelo por excelência da sociedade de capitais.
12

Estes tipos legais de sociedade partilham algumas semelhanças, a


saber:
- todos os tipos legais comuns de sociedade correspondem a
pessoas jurídicas colectivas;
- todos os tipos legais comuns de sociedade são comerciantes;
- todos os tipos legais comuns de sociedade devem possuir uma
firma, a qual deve conter o aditamento relativo ao respectivo
tipo de sociedade; e
- todos os tipos legais comuns de sociedade podem ter como
sócios pessoas singulares ou colectivas.
As principais diferenças entre os quatro tipos legais comuns de
sociedade mencionados podem ser de:
- ordem formal: as diferenças de regime relacionam-se com a
regulamentação ou técnica legislativa utilizada, ou seja, as
sociedades em nome colectivo e as sociedades em comandita
são reguladas por poucas normas, tendo o legislador utilizado
normas remissivas para os preceitos de outros tipos legais de
sociedades. As sociedades por quotas e as sociedades
anónimas são tipos legais de sociedade mais complexos;
- ordem substancial: as diferenças de regime relacionam-se com
as matérias: 1) de responsabilidade dos sócios; 2) do capital
social; 3) de participações sociais; 4) da organização social ou
estrutura organizatória; e 5) do número mínimo de sócios.

3.2.1.1 o regime de responsabilidade dos sócios


O regime da responsabilidade dos sócios depende de estar em causa
a responsabilidade perante a sociedade ou perante os credores sociais.
Perante a sociedade, nas sociedades em nome colectivo, cada sócio
responde pela respectiva entrada, responsabiliza-se pelo cumprimento ou
realização da entrada a que se obrigue, entrada em dinheiro, em espécie
e/ou em indústria (art. 175º, 1 do CSC). No entanto, quando algum sócio
entra com bens em espécie e os mesmos não sejam verificados e avaliados
nos termos do art. 28º do CSC23, têm os sócios de assumir expressamente no
As sociedades em comandita caracterizam-se por uma mistura de diferentes
regimes de tipo legal de sociedade numa mesma sociedade
23
as entradas em bens diferentes de dinheiro devem ser objecto de um relatório
elaborado por um revisor oficial de contas sem interesses na sociedade, designado
por deliberação dos sócios na qual estão impedidos de votar os sócios que
efectuam as entradas (art. 28º, 1 do CSC).
O revisor que tenha elaborado o relatório exigido pelo n.º 1 não pode, durante dois
anos contados da escritura da sociedade, exercer quaisquer cargos ou funções
profissionais na mesma sociedade ou em sociedades em relação de domínio ou de
grupo com aquela (art. 28º, 2 do CSC).
O relatório do revisor deve, pelo menos:
- descrever os bens (art. 28º, 3, a do CSC);
- identificar os seus titulares (art. 28º, 3, b do CSC);
13

contrato social responsabilidade solidária pelo valor que atribuam aos


mesmos bens (art. 179º do CSC). Os sócios de indústria não respondem, nas
relações internas, pelas perdas sociais, salvo cláusula em contrário do
contrato de sociedade (art. 178º, 2 do CSC).
Nas sociedades por quotas, cada sócio responde, não apenas pela
própria entrada (em dinheiro e/ou em espécie), mas também (nas sociedades
pluripessoais), solidariamente com o(s) outro(s) sócio(s), por todas as
entradas convencionadas no contrato social (art. 197º, 1 do CSC). Um ou
mais sócios podem ainda ficar obrigados perante a sociedade a prestações
acessórias e suplementares (arts. 197º, 2; 209º e 210º e ss. do CSC) . É lícito
estipular no contrato que um ou mais sócios, além de responderem para
com a sociedade nos termos definidos no n.º 1 do artigo anterior, respondem
também perante os credores sociais até determinado montante; essa
responsabilidade tanto pode ser solidária com a da sociedade, como
subsidiária em relação a esta e a efectivar apenas na fase da liquidação (art.
198º, 1 do CSC). A responsabilidade regulada no número precedente abrange
apenas as obrigações assumidas pela sociedade enquanto o sócio a ela
pertencer e não se transmite por morte deste, sem prejuízo da transmissão
das obrigações a que o sócio estava anteriormente vinculado (art. 198º, 2 do
CSC). Salvo disposição contratual em contrário, o sócio que pagar dívidas
sociais, nos termos deste artigo, tem direito de regresso contra a sociedade
pela totalidade do que houver pago, mas não contra os outros sócios (art.
198º, 3 do CSC).
Nas sociedades anónimas, cada sócio responde pela sua entrada (em
dinheiro e/ou espécie), ou seja, cada sócio limita a sua responsabilidade ao
valor das acções que subscreveu (art. 271º do CSC). O referido valor das
acções é o valor de emissão, que não pode ser inferior mas pode ser
superior ao valor nominal das mesmas (arts. 25º, 1 e 2; 295º, 2, a, 3, a e 298º do
CSC).

- avaliar os bens, indicando os critérios utilizados para a avaliação (art. 28º,


3, c do CSC);
- declarar se os valores encontrados atingem ou não o valor nominal da parte,
quota ou acções atribuídas aos sócios que efectuaram tais entradas,
acrescido dos prémios de emissão, se for caso disso, ou a contrapartida a
pagar pela sociedade (art. 28º, 3, d do CSC).
O relatório deve reportar-se a uma data não anterior em 90 dias à do contrato de
sociedade, mas o seu autor deve informar os fundadores da sociedade de
alterações relevantes de valores, ocorridas durante aquele período, de que tenha
conhecimento (art. 28º, 4 do CSC).
O relatório do revisor deve ser posto à disposição dos fundadores da sociedade pelo
menos quinze dias antes da celebração do contrato; o mesmo se fará quanto à
informação referida no n.º 4 até essa celebração (art. 28º, 5 do CSC).
O relatório do revisor, incluindo a informação referida no n.º 4, faz parte integrante
da documentação sujeita às formalidades de publicidade prescritas nesta lei. Pode,
todavia, publicar-se apenas menção do depósito do relatório no registo comercial,
acompanhada de extracto donde constem as indicações referidas nas alíneas c) e
d) do n.º 3 (art. 28º, 6 do CSC)
14

Nas sociedades em comandita simples e nas sociedades em


comandita por acções, tanto os sócios comanditados como os sócios
comanditários respondem perante elas somente pelas respectivas entradas
(em dinheiro, em espécie e/ou em indústria quanto aos comanditados, em dinheiro e/ou
em espécie quanto aos comanditários) , nos termos dos arts. 465º, 1; 474º e 478º do
CSC.
Por outro lado, de um modo geral, alguns sócios de sociedades dos
diversos tipos poderão ter de responder para com elas, solidariamente, com
membros do órgão de administração ou de fiscalização, nos termos do art.
83º do CSC; e o sócio-sociedade por quotas, sócio-sociedade anónima,
sócio-sociedade em comandita por acções em relação de grupo (de domínio
ou de subordinação), responderá nos termos dos arts. 491º e 502º do CSC.
Perante os credores sociais, nas sociedades em nome colectivo, os
sócios respondem pelas obrigações sociais (pecuniárias), subsidiariamente
em relação à sociedade e solidariamente entre si (art. 175º, 1 do CSC).
Porque a responsabilidade é subsidiária, os credores apenas podem exigir o
pagamento aos sócios depois de executado o património social24. Porque a
responsabilidade é solidária, os credores sociais podem exigir, de qualquer
sócio, o pagamento das dívidas por inteiro25.
Nas sociedades por quotas, a regra é a dos sócios não responderem
pelas obrigações sociais. Pelas dívidas da sociedade, só ela, com o seu
património, responde (art. 197º, 3 do CSC). Mas este preceito salvaguarda as
hipóteses previstas no art. 198º do CSC. Assim, pode estabelecer-se no
estatuto social que um ou mais sócios respondem também, limitadamente,
perante os credores sociais. O estatuto estabelecerá também se esta
responsabilidade é solidária com a da sociedade, ou subsidiária
relativamente a ela e a efectivar apenas na fase de liquidação da mesma
sociedade. Estabelecendo-se a responsabilidade solidária, o sócio que pagar
dívidas sociais tem, salvo disposição estatutária em contrário, direito de
regresso contra a sociedade pela totalidade do que houver pago.
Nas sociedades anónimas, os sócios não respondem perante os
credores sociais. Pelas obrigações da sociedade só ela se responsabiliza.
Assim, os sócios apenas se responsabilizam pelas respectivas entradas (art.
271º do CSC).
Nas sociedades em comandita simples e nas sociedades em
comandita por acções é necessário distinguir entre as duas categorias de
sócios: os sócios comanditados e os sócios comanditários. Os primeiros
respondem pelas dívidas sociais nos mesmos termos que os sócios das
24
mas o sócio pode, antes disso, cumprir as obrigações da sociedade; se o fizer, a
fim de evitar que contra a sociedade seja intentada execução, o sócio tem direito de
regresso (também), contra os outros sócios (art. 175º, 4 do CSC)
25
depois de executado o património social em processo de execução movido contra
a sociedade, pode o insatisfeito credor exequente requerer, no mesmo processo,
execução contra qualquer sócio (art. 828º, 3 do CPC), sem necessidade, portanto,
de acções declarativas de condenação e acções executivas contra eles separadas
15

sociedades em nome colectivo (respondem subsidiariamente em relação à


sociedade e solidariamente entre si). Os segundos não se responsabilizam para
com os credores sociais (art. 465º, 1 do CSC).
No entanto, em relação a todos os tipos societários, quando seja
declarada em situação de falência uma sociedade reduzida a um único
sócio, este responde ilimitadamente e a título principal (não subsidiária, mas
solidariamente com a sociedade), pelas obrigações sociais contraídas no período
posterior à concentração das participações sociais, contando que se prove
que nesse período não foram observados os preceitos da lei que
estabelecem a afectação do património da sociedade ao cumprimento das
respectivas obrigações (art. 84º, 1 e 2 do CSC). Diferentemente, nas
sociedades em relação de grupo, a sócia-sociedade (por quotas, anónima ou em
comandita por acções), totalmente dominante ou directora é responsável para
com os credores da sociedade dominada ou subordinada (arts. 491º e 501º do
CSC).

3.2.1.2 o capital social


O capital social é uma cifra representativa da soma dos valores
nominativos das participações sociais fundadas em entradas em dinheiro
e/ou espécie.
As sociedades em nome colectivo constituídas por sócios que entrem
somente com a sua indústria ou trabalho não têm capital social (arts. 9º, 1, f;
178º, 1 do CSC). Por outro lado, não podem ser emitidos títulos
representativos de partes sociais (art. 176º, 2 do CSC).
Todas as outras sociedades têm capital (nominal). O Código das
Sociedades Comerciais fixa o valor mínimo do capital com que as sociedades
de certos tipos hão-de constituir-se: 1) €5000 para as sociedades por quotas
(art. 201º do CSC); 2) €50000 para as sociedades anónimas e para as
sociedades em comandita por acções (arts. 276º, 3; 478º do CSC).
Para as sociedades em nome colectivo e em comandita simples, não
está fixado qualquer valor mínimo de capital. Na sociedade em comandita
simples não há representação do capital por acções; na sociedade em
comandita por acções só as participações dos sócios comanditários são
representadas por acções (art. 465º, 3 do CSC).
Na sociedade por quotas o capital está dividido em quotas e os sócios
são solidariamente responsáveis por todas as entradas convencionadas no
contrato social, conforme o disposto no art. 207º do CSC (art. 197º, 1 do CSC).
Os sócios apenas são obrigados a outras prestações quando a lei ou o
contrato, autorizado por lei, assim o estabeleçam (art. 197º, 2 do CSC). Só o
património social responde para com os credores pelas dívidas da
sociedade, salvo o disposto no artigo seguinte (art. 197º, 3 do CSC). Os valores
nominais das quotas podem ser diversos, mas nenhum pode ser inferior a
16

€100, salvo quando a lei o permitir (art. 219º, 3 do CSC). Não podem ser
emitidos títulos representativos de quotas (art. 219º, 7 do CSC).
Nas sociedades anónimas, todas as acções têm o mesmo valor
nominal, que não pode ser inferior a €5 (art. 276º, 3 do CSC). Na sociedade
anónima o capital é dividido em acções e cada sócio limita a sua
responsabilidade ao valor das acções que subscreveu (art. 271º do CSC).

3.2.1.3 a estrutura organizatória


As sociedades actuam através de órgãos, ou seja, através de centros
institucionalizados de poderes funcionais a exercer por pessoa ou pessoas
com o objectivo de formar e/ou exprimir vontade juridicamente imputável
às sociedades.
Quanto à competência, destacam-se as seguintes órgãos sociais:
- os órgãos de formação de vontade ou deliberativos-
internos: tomam decisões expressando a vontade social, mas
quase nunca a manifestam para o exterior (não tratam com
terceiros);
- os órgãos de administração e representação: gerem as
actividades sociais e representam as sociedades perante
terceiros, a quem fazem e de quem recebem declarações de
vontade; e
- os órgãos de fiscalização ou controlo: fiscalizam sobretudo a
actuação dos membros do órgão de administração.
Qualquer tipo legal de sociedade possui um órgão deliberativo
interno, formado por um único sócio (nas sociedades unipessoais), ou pelos
sócios em conjunto (pela colectividade ou globalidade dos sócios)26. Este órgão é
habitualmente designado de assembleia geral.
Órgão igualmente necessário para todas as sociedades é o órgão de
administração e representação. Este órgão é legalmente designado de
gerência nas sociedades em nome colectivo. Em regra, são gerentes todos
os sócios (art. 191º, 1 do CSC), o que se compreende, dada a
responsabilidade ilimitada de um deles perante os credores sociais. Só
assim não será quando o contrato social determinar diversamente e quanto
os sócios-entidades colectivas (art. 191º, 1 e 3 do CSC). Não-sócios podem
ser gerentes somente quando os sócios os designem por deliberação
unânime (art. 191º, 2 do CSC). Também nas sociedades por quotas se dá o
nome de gerência ao órgão de administração e representação. É composta
por um ou mais gerentes, pessoas singulares com capacidade jurídica plena
que podem ser sócias ou não (art. 252º, 1 do CSC).
Nas sociedades anónimas é possível optar-se por um conselho de
administração (nas sociedades cujo capital não exceda €200000, o estatuto pode
prever, em vez do conselho, um só administrador) , ou por uma (plural), direcção
26
cfr. arts. 53º e ss.; 189º; 246º e ss.; 270º-E; 373º e ss.; 472º do CSC
17

(nas sociedades com capital inferior a €200000, o estatuto pode prever um único
director), de acordo com os arts. 278º; 390º, 1 e 2; 424º do CSC. Tanto os
administradores como os directores devem ser pessoas singulares com
capacidade jurídica plena, mas não têm de ser sócios (arts. 390º, 3 e 4; 425º, 5
do CSC).
Nas sociedades em comandita simples ou por acções, o órgão de
administração chama-se gerência. Salvo quando o contrato social permite
atribuir a gerência (também), a sócios comanditários (pessoas singulares),
apenas os sócios comanditados (de responsabilidade ilimitada para com os
credores sociais), pessoas singulares, podem ser gerentes (arts. 470º, 1; 474º;
478º do CSC). É ainda possível que o contrato social autorize a gerência a
delegar os seus poderes em sócio comanditário ou em pessoa estranha à
sociedade (art. 470º, 2 do CSC).
O órgão de fiscalização não existe, como órgão típico, nalgumas
sociedades, pode existir noutras e deve existir em outras.
Não existe nas sociedades em nome colectivo e nas sociedades em
comandita simples.
Nas sociedades em nome colectivo, a cada sócio pertence um voto,
salvo se outro critério for determinado no contrato de sociedade, sem,
contudo, o direito de voto poder ser suprimido (art. 190º, 1 do CSC). O sócio
de indústria disporá sempre, pelo menos, de votos em número igual ao
menor número de votos atribuídos a sócios de capital (art. 190º, 2 do CSC).
Não havendo estipulação em contrário e salvo o disposto no n.º 3, são
gerentes todos os sócios, quer tenham constituído a sociedade, quer tenham
adquirido essa qualidade posteriormente (art. 191º, 1 do CSC). Por
deliberação unânime dos sócios podem ser designadas gerentes pessoas
estranhas à sociedade (art. 191º, 2 do CSC). Uma pessoa colectiva sócia não
pode ser gerente, mas, salvo proibição contratual, pode nomear uma pessoa
singular para, em nome próprio, exercer esse cargo (art. 191º, 3 do CSC). O
sócio que tiver sido designado gerente por cláusula especial do contrato de
sociedade só pode ser destituído da gerência em acção intentada pela
sociedade ou por outro sócio, contra ele e contra a sociedade, com
fundamento em justa causa (art. 191º, 4 do CSC). O sócio que exercer a
gerência por força do disposto no n.º 1 ou que tiver sido designado gerente
por deliberação dos sócios só pode ser destituído da Gerência por
deliberação dos sócios, com fundamento em justa causa, salvo quando o
contrato de sociedade dispuser diferentemente (art. 191º, 5 do CSC). Os
gerentes não sócios podem ser destituídos da gerência por deliberação dos
sócios, independentemente de justa causa (art. 191º, 6 do CSC). Se a
sociedade tiver apenas dois sócios, a destituição de qualquer deles da
gerência, com fundamento em justa causa, só pelo tribunal pode ser
decidida, em acção intentada pelo outro contra a sociedade (art. 191º, 7 do
CSC).
18

As sociedades por quotas podem ter sempre, como órgão


estatutariamente previsto, um conselho fiscal ou um fiscal único (arts. 262º,
1; 413º, 1 do CSC). As sociedades que não tiverem conselho fiscal devem
designar um revisor oficial de contas para proceder à revisão legal desde
que, durante dois anos consecutivos, sejam ultrapassados dois dos três
seguintes limites:
total do balanço: 180.000 contos (art. 262º, 1, a do CSC);
total das vendas líquidas e outros proveitos: 370.000 contos
(art. 262º, 1, b do CSC);
número de trabalhadores empregados em média durante o
exercício: 50 (art. 262º, 1, c do CSC).
A designação do revisor oficial de contas só deixa de ser necessária
se a sociedade passar a ter conselho fiscal ou se dois dos três requisitos
fixados no número anterior não se verificarem durante dois anos
consecutivos (art. 262º, 2 do CSC). São aplicáveis ao revisor oficial de contas
as incompatibilidades estabelecidas para os membros do conselho fiscal
(art. 262º, 5 do CSC). O fiscal único e o suplente ou, no caso de existência de
conselho fiscal, um membro efectivo e um dos suplentes, têm de ser
revisores oficiais de contas ou sociedades de revisores oficiais de contas e
não podem ser accionistas (art. 414º, 1 do CSC). Os restantes membros do
conselho fiscal podem não ser accionistas, mas devem ser pessoas
singulares com capacidade jurídica plena, excepto se forem sociedades de
advogados ou sociedades de revisores oficiais de contas (art. 414º, 2 do
CSC). Dependem de deliberação dos sócios os seguintes actos, além de
outros que a lei ou o contrato indicarem:
- a chamada e a restituição de prestações suplementares (art.
246º, 1, a do CSC);
- a amortização de quotas, a aquisição, a alienação e a oneração
de quotas próprias e o consentimento para a divisão ou cessão
de quotas (art. 246º, 1, b do CSC);
- a exclusão de sócios (art. 246º, 1, c do CSC);
- a destituição de gerentes e de membros do órgão de
fiscalização (art. 246º, 1, d do CSC);
- a aprovação do relatório de gestão e das contas do exercício, a
atribuição de lucros e o tratamento dos prejuízos (art. 246º, 1, e
do CSC);
- a exoneração de responsabilidade dos gerentes ou membros do
órgão de fiscalização (art. 246º, 1, f do CSC);
- a proposição de acções pela sociedade contra gerentes, sócios
ou membros do órgão de fiscalização, e bem assim a
desistência e transacção nessas acções (art. 246º, 1, g do CSC);
- a alteração do contrato de sociedade (art. 246º, 1, h do CSC);
19

- a fusão, cisão, transformação e dissolução da sociedade e o


regresso de sociedade dissolvida à actividade (art. 246º, 1, i do
CSC);
Se o contrato social não dispuser diversamente, compete também aos
sócios deliberar sobre:
- a designação de gerentes (art. 246º, 2, a do CSC);
- a designação de membros do órgão de fiscalização (art. 246º, 2,
b do CSC);
- a alienação ou oneração de bens imóveis, a alienação, a
oneração e a locação de estabelecimento (art. 246º, 2, c do CSC);
- a subscrição ou aquisição de participações noutras sociedades
e a sua alienação ou oneração (art. 246º, 2, d do CSC).
Os gerentes devem praticar os actos que forem necessários ou
convenientes para a realização do objecto social, com respeito pelas
deliberações dos sócios (art. 259º do CSC). A sociedade é administrada e
representada por um ou mais gerentes, que podem ser escolhidos de entre
estranhos à sociedade e devem ser pessoas singulares com capacidade
jurídica plena (art. 252º, 1 do CSC). Os gerentes são designados no contrato
de sociedade ou eleitos posteriormente por deliberação dos sócios, se não
estiver prevista no contrato outra forma de designação (art. 252º, 2 do CSC).
A gerência atribuída no contrato a todos os sócios não se entende conferida
aos que só posteriormente adquiram esta qualidade (art. 252º, 3 do CSC). A
gerência não é transmissível por acto entre vivos ou por morte, nem
isolada, nem juntamente com a quota (art. 252º, 4 do CSC). Os gerentes não
podem fazer-se representar no exercício do seu cargo, sem prejuízo do
disposto no n.º 2 do art. 261º do CSC (art. 252º, 5 do CSC). O disposto nos
números anteriores não exclui a faculdade de a gerência nomear
mandatários ou procuradores da sociedade para a prática de determinados
actos ou categorias de actos, sem necessidade de cláusula contratual
expressa (art. 252º, 6 do CSC). A deliberação de constituir a sociedade e as
deliberações complementares desta podem ser declaradas nulas, nos termos
gerais, ou podem ser anuladas a requerimento de subscritor que não as
tenha aprovado, no caso de elas próprias, o contrato aprovado ou o
processo desde o registo provisório violarem preceitos legais (art. 282º, 1 do
CSC). A anulação pode também ser requerida com fundamento em falsidade
relevante dos dados ou erro grave de previsões referidos no art. 279º, 6, e do
CSC (art. 282º, 2 do CSC). Aplicam-se as disposições legais sobre suspensão
e anulação de deliberações sociais (art. 282º, 3 do CSC). Conta-se um voto
por cada 1$ de valor nominal da quota (art. 250º, 1 do CSC). É, no entanto,
permitido que o contrato de sociedade atribua, como direito especial, dois
votos por cada 1 cêntimo de valor nominal da quota ou quotas de sócios
que, no total, não correspondam a mais de 20% do capital (art. 250º, 2 do
CSC). Salvo disposição diversa da lei ou do contrato, as deliberações
20

consideram-se tomadas se obtiverem a maioria dos votos emitidos, não se


considerando como tal as abstenções (art. 250º, 3 do CSC).
As sociedades anónimas com estrutura organizatória tradiconal
devem ter, a par do conselho de administração ou administrador único, um
conselho fiscal ou fiscal único (arts. 278º, 1, a, 2; 413º do CSC). Os accionistas
deliberam ou nos termos do art. 54º do CSC ou em assembleias gerais
regularmente convocados e reunidas (art. 373º, 1 do CSC). Os accionistas
deliberam sobre as matérias que lhes são especialmente atribuídas pela lei
ou pelo contrato e sobre as que não estejam compreendidas nas atribuições
de outros órgãos da sociedade (art. 373º, 2 do CSC). Sobre matérias de gestão
da sociedade, os accionistas só podem deliberar a pedido do órgão de
administração (art. 373º, 3 do CSC). Na falta de diferente cláusula contratual,
a cada acção corresponde um voto (art. 384º, 1 do CSC)27.

3.2.1.4 a transmissão de participações sociais


Participação social (parte, quota, acção), é definível como o conjunto
unitário de direitos e obrigações actuais e potenciais do sócio.
Nas sociedades em nome colectivo, a parte de um sócio só pode ser
transmitida, por acto entre vivos, com o expresso consentimento dos
restantes sócios (art. 182º, 1 do CSC). A transmissão da parte de um sócio
efectua-se por escritura pública (art. 182º, 2 do CSC). O disposto nos
números anteriores aplica-se à constituição dos direitos reais de gozo ou de
garantia sobre a parte do sócio (art. 182º, 3 do CSC). A transmissão da parte
do sócio torna-se eficaz para com a sociedade logo que lhe for comunicado
por escrito ou por ela reconhecida expressa ou tacitamente (art. 182º, 4 do
CSC).
Nas sociedades por quotas, a transmissão de quotas entre vivos deve
constar de escritura pública, excepto quando ocorrer em processo judicial
(art. 228º, 1 do CSC). A cessão de quotas não produz efeitos para com a
sociedade enquanto não for consentida por esta, a não ser que se trate de
cessão entre cônjuges, entre ascendentes e descendentes ou entre sócios
(art. 228º, 2 do CSC). A transmissão de quota entre vivos torna-se eficaz para
com a sociedade logo que lhe for comunicada por escrito ou por ela
reconhecida, expressa ou tacitamente (art. 228º, 3 do CSC).
Nas sociedades anónimas, o contrato de sociedade não pode excluir a
transmissibilidade das acções nem limitá-la além do que a lei permitir (art.
328º, 1 do CSC). O contrato de sociedade pode:
- subordinar a transmissão das acções nominativas ao
consentimento da sociedade (art. 328º, 2, a do CSC);

arts. 278º; 390º e ss.; 413º e ss.; 424º e ss.; 434º e ss.; 446º e ss. do
27

CSC
21

- estabelecer um direito de preferência dos outros accionistas e


as condições do respectivo exercício, no caso de alienação de
acções nominativas (art. 328º, 2, b do CSC);
- subordinar a transmissão de acções nominativas e a
constituição de penhor ou usufruto sobre elas à existência de
determinados requisitos, subjectivos ou objectivos, que
estejam de acordo com o interesse social (art. 328º, 2, c do CSC).
As limitações previstas no número anterior só podem ser introduzidos
por alteração do contrato de sociedade com o consentimento de todos os
accionistas cujas acções sejam por elas afectadas, mas podem ser atenuadas
ou extintas mediante alteração do contrato, nos termos gerais; as limitações
podem respeitar apenas a acções correspondentes a certo aumento de
capital, contanto que sejam deliberadas simultaneamente com este (art. 328º,
3 do CSC). As cláusulas previstas neste artigo devem ser transcritas nos
títulos das acções, sob pena de serem inoponíveis a adquirentes de boa fé
(art. 328º, 4 do CSC). As cláusulas previstas nas alíneas a) e c) do n.º 2 não
podem ser invocados em processo executivo ou de liquidação de
patrimónios (art. 328º, 5 do CSC). A concessão ou recusa do consentimento
para a transmissão de acções nominativas compete à assembleia geral, se o
contrato de sociedade não atribuir essa competência a outro órgão (art. 329º,
1 do CSC). Quando o contrato não especificar os motivos de recusa do
consentimento, é lícito recusá-lo com fundamento em qualquer interesse
relevante da sociedade, devendo indicar-se sempre na deliberação o motivo
da recusa (art. 329º, 2 do CSC). O contrato de sociedade, sob pena de
nulidade da cláusula que exija o consentimento, deve conter:
- a fixação de prazo, não superior a 60 dias, para a sociedade se
pronunciar sobre o pedido de consentimento (art. 329º, 3, a do
CSC);
- a estipulação de que é livre a transmissão das acções, se a
sociedade não se pronunciar dentro do prazo referido no
número anterior (art. 329º, 3, b do CSC);
- a obrigação de a sociedade, no caso de recusar licitamente o
consentimento, fazer adquirir as acções por outra pessoa nas
condições de preço e pagamento do negócio para que foi
solicitado o consentimento; tratando-se de transmissão a título
gratuito, ou provando a sociedade que naquele negócio houve
simulação de preço, a aquisição far-se-à pelo valor real,
determinado nos termos previstos no art. 105º, 2 do CSC (art.
329º, 3, c do CSC).
Nas sociedades em comandita, a transmissão entre vivos da parte de
um sócio comanditado só é eficaz se for consentida por deliberação dos
sócios, salvo disposição contratual diversa (art. 469º, 1 do CSC). À
transmissão por morte da parte de um sócio comanditado é aplicável o
22

disposto a respeito da transmissão de partes de sócios de sociedades em


nome colectivo (art. 469º, 2 do CSC).

3.2.1.5 o número mínimo de sócios


O número mínimo de partes de um contrato de sociedade é de dois,
excepto quando a lei exija número superior ou permita que a sociedade seja
constituída por uma só pessoa (art. 7º, 2 do CSC).
Na constituição de sociedade em nome colectivo ou em comandita
simples, exige-se, pelo menos, a participação de dois sujeitos.
A sociedade por quotas pode ser constituída por um único sujeito
(sociedade por quotas unipessoal), de acordo com o art. 270-A, 1 do CSC.
As sociedades anónimas, salvo quando são constituídas por apenas
uma outra sociedade (por quotas, anónima ou em comandita por acções) , de
acordo com os arts. 481º, 1 e 488º, 1 do CSC, ou por dois sócios, devendo
neste caso um deles ser o Estado, entidade pública empresarial ou outra
entidade a ele equiparada por lei para o efeito, que ficará a deter a maioria
das acções (art. 273º, 2), têm, em regra, de ser constituídas por, pelo menos,
cinco sócios (art. 273º, 1 do CSC). As sociedades em comandita por acções
não podem constituir-se com menos de seis sócios, pelo menos um
comanditado e cinco comanditários (arts. 465º, 1 e 479º do CSC).
Durante a vida das sociedades, devem os referidos números mínimos
de sócios ser respeitados, sob pena de possível dissolução (art. 142º, 1, a, 3
do CSC).

3.2.2 tipos especiais


Os tipos especiais de sociedade foram criadas para dar resposta a
necessidades empresariais específicas. São modelos organizativos que
repousam sobre dois tipos legais comuns de sociedade (as sociedades
anónimas e as sociedades por quotas), mas que possuem um regime jurídico
particular diferenciado do regime geral, de forma a dar resposta ao objecto
e estrutura específicas dessa sociedade28.

3.3tipos doutrinais
Além dos tipos legais de sociedades, é ainda de destacar os tipos
doutrinais, ou seja, os modelos de sociedades construídos pela doutrina
para melhor compreender os tipos legais e enquadrar sob diversos pontos
de vista as concretas sociedades.

28
é o exemplo da sociedade gestora de particulares sociais, a qual apenas pode ter
por objecto a gestão de participações noutras sociedades (holdings), como forma
indirecta de exercício de uma actividade económica, uma vez que não se pode
dedicar directamente a uma actividade económica.
É ainda o exemplo da sociedade de capitais de risco, sãs sociedades gestoras de
fundo de investimento, das sociedades de leasing, das sociedades correctoras e
financeiras de corretagem, das sociedades mediadoras do mercado monetário
23

É tradicional entre nós a distinção entre: 1) sociedades de pessoas e


sociedades de capitais; 2) sociedades abertas e sociedades fechadas; e 3)
sociedades de capitais públicos, sociedades de capitais mistos e sociedades
de capitais privados; 4) sociedades individuais e sociedades coligadas; e 5)
sociedades de direito interno e sociedades de direito comunitário.

3.3.1 sociedades de pessoas e sociedades de capitais


As sociedades de pessoas dependem sobretudo da individualidade
dos sócios (o intuitus personae é manifesto). Assim, as suas principais
características são:
- a responsabilidade ilimitada dos sócios pelas dívidas
sociais;
- a impossibilidade ou dificuldade dos sócios mudarem: a
transmissão das participações sociais exige o consentimento
dos sócios;
- o grande peso dos sócios nas deliberações sociais e na
gestão de sociedades: caracteriza-se por: 1) em regra, a cada
sócio, independentemente do valor da respectiva participação,
pertence um voto; 2) várias deliberações de mudança
significativa dos estatutos sociais deverem, em regra, ser
tomadas por unanimidade; e 3) todos os sócios serem
normalmente membros do órgão de administração;
- a necessidade da firma social conter o nome ou firma de
sócio(s);
- o dever dos sócios não concorrerem com as respectivas
sociedades, salvo consentimento de todos os outros sócios; e
- o direito alargado de cada sócio à informação sobre a vida
da sociedade.
O protótipo da sociedade de pessoas é a sociedade em nome
colectivo.
As sociedades de capitais assentam principalmente nas contribuições
patrimoniais dos sócios (a individualidade deles e a sua participação
pessoal na vida social pouco contam). São, pois, as suas características
mais marcantes:
- a não responsabilidade dos sócios pelas dívidas sociais;
- a fácil mudança ou substituição dos sócios: livre transmissão
e penhorabilidade as participações sociais;
- o peso dos sócios nas deliberações sociais e na gestão das
sociedades é determinado pela importância das respectivas
participações de capital: caracteriza-se: 1) pelos votos serem
atribuídos em função do valor das participações; 2) pelo
princípio maioritário ser regra praticamente sem excepções na
tomada das deliberações; e 3) pela maioria capitalística
24

determinar a composição dos órgãos de administração, que


podem ter membros não-sócios;
- a firma social não tem de ter qualquer nome ou firma de
sócio(s), e é normalmente firma-denominação;
- os sócios não administradores podem concorrer com as
respectivas sociedades; e
- o direito à informação, nalgumas das suas modalidades,
não é atribuído a todos os sócios: o direito à informação
apenas é atribuído a quem possuir participações de certo
montante.
O protótipo da sociedade de capitais é a sociedade anónima.

3.3.2 sociedades abertas e sociedades fechadas


Um outro grupo de tipos doutrinais contrapõe as sociedades abertas
às sociedades fechadas.
As sociedades abertas são principalmente sociedades anónimas e
sociedades em comandita, especialmente abertas aos mercados de capitais,
designadamente aos mercados de bolsa, onde colocam acções e onde os
investidores e os sócios adquirem e alienam acções.
As sociedades fechadas são sobretudo sociedades por acções que,
sendo embora típico-legalmente abertas, são compostas por um só
accionista ou por reduzido número de sócios, muitas vezes unidos por laços
de confiança ou familiares, e que, consequentemente, apresentam com
frequência cláusulas estatutárias limitando a transmissibilidade das acções.

3.3.3 outras classificações (breve referência)


Outras classificações podem ser ainda feitas. A primeira é aquela que
faz a distinção entre sociedades de capitais públicos, sociedades de capitais
mistos e sociedades de capitais privados. As sociedades de capitais públicos
são aquelas em que o titular da totalidade do capital é uma entidade
pública. As sociedades de capitais mistos são aquelas em que o Estado
participa na sociedade em conjunto com capitais privados. As sociedades
de capitais privados são aquelas que são compostas por capitais privados.
Uma segunda distinção pode ser feita entre sociedades individuais e
sociedades coligadas. As sociedades coligadas são grupos de sociedades
coligadas entre si (arts. 481º e ss. do CSC).