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ADVOGADO: SHAYMMON EMANUEL RODRIGUES DE MOURA SOUSA OAB ADVOGADO: 5446 OAB ESTADO: PI DIÁRIO:

ADVOGADO:

SHAYMMON EMANUEL RODRIGUES DE MOURA SOUSA

OAB ADVOGADO:

5446

OAB ESTADO:

PI

DIÁRIO:

DJPI

EDIÇÃO DIÁRIO:

PÁGINAS:

244

15 à 15

DATA PUBLICAÇÃO:

03/12/2018

Nº. PROCESSO:

1-27.2017.6.18.0083

COMARCA:

TERESINA

ORGÃO:

TRIBUNAL REGIONAL ELEITORAL

VARA:

ZONAS ELEITORAIS

83ª Zona Eleitoral Sentenças AÇÃO DE IMPUGNAÇÃO DE MANDADO ELETIVO

Processo: n.º 1-27.2017.6.18.0083 Protocolo: 791/2017 Finalidade: Intimação-Sentença Procedência:

83ª Zona Eleitoral-Paes Landim-Piauí PARTES E ADVOGADOS: IMPUGNANTE: SIGILOSO ADVOGADO:

FABIO MARQUES DE LIMA, OAB/PI 9548; SHAYMMON EMANOEL RODRIGUES DE MOURA SOUSA, OAB/PI 5446 ; RICARDO RODRIGUES DE SOUSA MARTINS NETO, OAB/PI 10.268 IMPUGNADO:

SIGILOSO ADVOGADOS: WILLIAN GUIMARÃES SANTOS CARVALHO, OAB/PI 2644, EMMANUEL FONSECA DE SOUZA, OAB/PI 4555 IMPUGNADO: SIGILOSO ADVOGADOS: WILLIAN GUIMARÃES SANTOS CARVALHO, OAB/PI 2644, EMMANUEL FONSECA DE SOUZA, OAB/PI 4555 Sentença Trata-se de Ação de Impugnação de Mandato Eletivo ajuizada por THALLES MOURA FÉ MARQUES, em face de GUTEMBERG MOURA DE ARAÚJO e JOSIMÁ MAURIZ DA SILVA. Argumentou o impugnante a ocorrência de suposta compra de apoio político em troca de cargos na administração pública municipal, enriquecimento ilícito, abuso do poder político e econômico e corrupção eleitoral (inicial de fls. 02/24). Acostou à inicial os documentos de fls. 25/111. À fl. 113 encontra-se despacho em que se determina a notificação dos impugnados e se solicita à Secretaria da Vara Única da Comarca de Paes Landim a cópia do DVD constante nos autos nº 0000219-46.2016.8.18.0108. Notificados, os srs. GUTEMBERG MOURA DE ARAÚJO e JOSIMÁ MAURIZ DA SILVA apresentaram defesa nas fls. 118/153 e 257/287, respectivamente. Ambos alegaram as preliminares de intempestividade da inicial, inadequação da via eleita, ausência de constituição e desenvolvimento válido e regular do processo e preclusão quanto ao litisconsorte passivo necessário. No mérito, arguiram que os fatos narrados pelo impugnante teriam ocorrido antes do período eleitoral e praticados por terceiros estranhos à lide, além de não haver provas do alegado. O primeiro acostou à defesa os documentos de fls. 206/252. Em 11 de abril de 2017 foi recebido o Ofício da Secretaria em resposta ao pedido de cópia do DVD (fl. 292). À fl. 297 encontra-se despacho designando audiência para o dia 29 de junho de 2017. A mesma não ocorreu devido a falta de intimação dos advogados dos investigados, conforme certidão de fl. 301. Os investigados alegaram que a juntada do DVD ocorreu posteriormente às defesas e, por se tratar de documento ao qual a parte tinha conhecimento e acesso quando do ajuizamento da ação, deveria ter sido juntado na petição inicial. Portanto, requereram que fosse o mesmo desentranhado. Além disso, defenderam tratar-se de gravação ilícita. Por fim, pediram que fosse realizado exame técnico pericial após a determinação de juntada do original da mídia e do aparelho que realizou a gravação (fls. 305/311). Em despacho de fls. 312/314 foi decidido que a alegação de impossibilidade de juntada da mídia não merecia prosperar, pois foi requerida desde a petição inicial e deferida em despacho inicial, não tomando de surpresa os impugnados. Quanto à ilicitude da prova, por ser matéria de mérito, só seria analisada após a perícia, sendo, portanto, essa deferida. O impugnante expôs informações e indicou assistente para a perícia, além de formular quesito e juntar documentos (fls. 319 e 324). Às fls. 339/345 foi juntada a informação técnica nº 061/2017- SETECE/SR/PF/PI, em que foi explicado o modo de realização da perícia e sugerido que o exame fosse feito apenas às falas atribuídas ao sr. Gutemberg, uma vez que a sra. Maria Jeane não nega a autoria das falas femininas. Em despacho de fls. 348/349, o Juiz restringiu a perícia de comparação de vozes ao interlocutor Gutemberg Moura de Araújo e designou data para a coleta de padrão de voz do mesmo. Às fls. 388/406 foi juntado o laudo nº 108/2018- SETEC/SR/PF/PI, em que há resposta ao quesito formulado pelo impugnado e conclui que o resultado obtido é moderadamente mais plausível a hipótese de o locutor do material padrão ser a fonte das falas questionadas do que a hipótese de ele não ser, correspondendo ao nível +2 da escala apresentada, cuja faixa varia de-4 a +4. Intimadas as partes para se manifestarem sobre os laudos (fl. 407), os Srs. GUTEMBERG MOURA DE ARAÚJO e JOSIMÁ MAURIZ DA SILVA, às fls. 412/416, aduziram que o laudo era inconclusivo e deveria retornar ao Departamento de Polícia Federal; que nenhum tipo de comparação foi realizada com a voz de Maria Jeane de Sousa; reiteraram que a juntada da mídia foi intempestiva e se tratava de gravação clandestina. Foi juntado despacho (fls. 417/418) em que se afirmou que ainda que a gravação tenha sido realizada antes de 15/08/2016, é possível o ajuizamento de AIME; reiterou-se a desnecessidade do exame de voz da sra. Maria Jeane e da negativa de desentranhamento da prova. Foi marcado audiência para o dia 27 de

junho de 2018 às 09:00, em que foram coletadas as provas testemunhais. Na data designada, foram ouvidas duas testemunhas, uma arrolada pelo impugnante e outra pelo impugnado, ficando estabelecido a apresentação de diligências pelos impugnantes e impugnados, advindas da instrução, até o dia 04/07/2018, e para o MPE até o dia 11/07/2018. Às folhas 445/451, em cumprimento ao despacho, os impugnantes requereram diligências. Certidão à fl. 452, informando ausência de requerimento de diligências pelos impugnados. Às fls. 453/454, foram deferidas diligências, as quais foram cumpridas, conforme documentos juntados aos autos pelo Tribunal de Contas do Estado do Piauí e pelo Município de Paes Landim. Intimação das partes para alegações finais, tendo em vista o encerramento da dilação probatória. Às fls. 485/546 foi juntado o documento nº 16.107/2018, referente às Alegações Finais de Gutemberg Moura e Josimá Mauriz da Silva. Às fls. 547/568, juntada das Alegações Finais protocolizadas sob o nº 16.111/2018 pela parte impugnante, Thalles Moura Fé Marques. Às fls. 568/571, manifestação do Representante do Ministério Público Eleitoral pelo acolhimento da preliminar de inadequação da via eleita. É o relatório. Decido. II. Fundamentação a) Da Decadência Não assiste razão ao impugnado, pois o termo final para ajuizamento de impugnação

de mandato eletivo, em caso de vencer em recesso forense ou feriado, é o primeiro dia útil. O Tribunal Superior Eleitoral já sedimentou entendimento de que, apesar de possuir natureza de prazo decadencial e, por isso, ser peremptório, o prazo para a propositura da Ação de Impugnação de Mandato Eletivo se submete à regra do art. 224 do CPC, segundo a qual o prazo será protraído para o primeiro dia útil seguinte, se coincidirem com dia em que o expediente forense for encerrado antes ou iniciado depois da hora normal. Trago, ainda, o excerto da decisão proferida no AgRg no RO nº 1.438/MT, de relatoria do e. Min. Joaquim Barbosa, confirmando tese de que o termo final do prazo para ajuizamento da AIME deve ser prorrogado para o primeiro dia útil seguinte, quando findar em um dia do recesso forense: "Este Tribunal já entendeu ser aplicável o art. 184, § 1º, do CPC à ação de impugnação de mandato eletivo. Na espécie, o prazo para propositura da AIME iniciou-se no dia seguinte ao da diplomação, ou seja, 20/12/2006, encerrando-se em 3/1/2007, prorrogando-se, todavia, em razão de não ter havido expediente normal do Tribunal Regional até o dia 6/1/2008, para

o primeiro dia útil após o recesso, ou seja, 8/1/2007. A AIME foi ajuizada somente em 22/1/2007, de

forma evidentemente intempestiva." "

decadencial, prorroga-se para o primeiro dia útil seguinte se o termo final cair em feriado ou dia em que não haja expediente normal no Tribunal. Aplica-se essa regra ainda que o tribunal tenha disponibilizado plantão para casos urgentes, uma vez que plantão não pode ser considerado expediente normal. Precedentes: STJ: EREsp 667.672/SP, Rel. Min. José Delgado, CORTE ESPECIAL, julgado em 21.5.2008, DJe de 26.6.2008; AgRg no RO nº 1.459/PA, de minha relatoria, DJ de 6.8.2008; AgRg no RO nº 1.438/MT, Rel. Min. Joaquim Barbosa, DJ de 31.8.2009" A presente AIME foi recebida pessoalmente, por esse Juiz, em 09/01/2017, em virtude de ausência de servidor no Cartório Eleitoral, conforme recebimento, à fl. 2. Primeiro dia útil seguinte ao recesso. Apenas o protocolo no sistema de acompanhamento processual do TRE/PI ocorreu em 23/01/2017. Então, não há que se falar em decadência. Por essas razões afasto a preliminar de decadência. b) Da Inadequação da via eleita Alega os impugnados que o presente caso, em tese, refere-se a abuso do poder político, o qual por não estar abrangido como causa para Ação de Impugnação de Mandato Eletivo, deveria a ação ser extinta por inadequação da via eleita. Tal entendimento foi corroborado pelo membro do Ministério Público Eleitoral. A Ação de Impugnação de Mandato Eletivo (AIME) é prevista no artigo 14, §§ 10 e 11, da Constituição Federal. "Art. 14. […] § 10. O mandato eletivo poderá ser impugnado ante a Justiça Eleitoral no prazo de quinze dias contados da diplomação, instruída a ação com provas de abuso do poder econômico, corrupção ou fraude. § 11. A ação de impugnação de mandato tramitará em segredo de justiça, respondendo o autor, na forma da lei, se temerária ou de manifesta má-fé." O objetivo da AIME é tutelar a cidadania, a lisura e o equilíbrio do pleito, a legitimidade da representação política. Em resumo, tutela-se o direito da coletividade de que os mandatos eletivos

apenas sejam exercidos por quem os tenha alcançado de forma lícita, sem o emprego de práticas tão censuráveis quanto nocivas como são o abuso de poder, a corrupção e a fraude. A Ação de Impugnação ao Mandato Eletivo, conforme disposição constitucional, tem três fundamentos possíveis, quais sejam: abuso de poder econômico, corrupção e fraude. Sobre a caracterização de corrupção, é esclarecedor a lição do professor Francisco Dirceu Barros: A seu turno, a corrupção pressupõe necessariamente o desvirtuamento das atividades desenvolvidas por agente estatal, o qual mercadeja, negocia ou trafica sua atuação na Administração Pública; em troca, aceita promessa ou efetivamente recebe vantagem. É próprio da corrupção a solicitação, a aceitação ou o recebimento de vantagem a título de contraprestação pela prática-omissão ou retardamento-de ato jurídico ou político- administrativo. A ideia de corrupção encontra-se umbilicalmente ligada à ação desenvolvida pela

Administração estatal, tanto que o Código Penal consagrou-a no capítulo atinente aos "crimes contra a administração pública". Não se pode olvidar que, embora não seja exclusiva do Brasil, a corrupção sempre esteve presente na história das instituições brasileiras. No presente contexto, é matizada pela influência no processo eleitoral. Deveras, não se pode desvincular a corrupção prescrita no § 10 do artigo 14 da Lei Maior das práticas eleitorais. A autoridade pública, desbordando dos lindes constitucionais, legais e regulamentares traçados para o exercício de suas funções, age ou deixa de agir com vistas a favorecer determinada candidatura ou determinado grupo político. É irrelevante que

o ato praticado encartese entre suas atribuições legais, pois isso não é bastante para retirar-lhe a

Esta

c. Corte já assentou que esse prazo, apesar de

Persistente é a

corrupção na vida política brasileira, muitas vezes encontrando-se associada a práticas fraudulentas e

mácula; importante é o seu sentido de influir indevidamente nas eleições. (

)

ao abuso de poder político. Nos domínios eleitorais, isso se afigura notório sempre que cargos, empregos e funções públicos são-ainda que de forma disfarçada ou dissimulada-postos a serviço de

candidaturas ou grupos políticos. Grifo nosso Nesse sentido, a AIME pode ter por fundamento não só o abuso de poder econômico, mas também a corrupção. No presente caso, malgrado a conduta questionada não tenha caracterizado abuso do poder econômico, sem sombra de dúvidas, as alegações da exordial (princípio da asserção) caracterizam corrupção, pois cargos, empregos e funções públicas teriam sido postos à disposição dos impugnantes para se beneficiarem no pleito vindouro. É nesse sentido a jurisprudência pátria: "Ação de impugnação de mandato eletivo. Corrupção. Caracteriza corrupção a promessa de, caso os candidatos se elejam, assegurar a permanência de pessoas em cargos na prefeitura municipal, certamente em troca de votos ou de apoio político-eleitoral. Reconhecidas a potencialidade e a gravidade da conduta, devem ser cassados

os mandatos do prefeito e do vice-prefeito, com a posse da chapa segunda colocada. [

do voto-vista: "Acompanho a conclusão do voto do ministro relator. Mas peço vênia para dissentir quanto aos fundamentos adotados para diplomação e posse dos segundos colocados no pleito. É que entendo que, a procedência da ação de impugnação de mandato eletivo implica não só a cassação do mandato e as demais cominações previstas em lei mas, também, a anulação dos votos atribuídos ao

candidato que se valeu da ilicitude para ser eleito." (Ac. de 18.12.2007 no REspe no 28.396, rel. Min. Arnaldo Versiani.) grifo nosso Portanto, a AIME é meio adequado, pois embora não tenha como fundamento abuso do poder político, os atos afirmados na inicial pelos impugnantes, caracterizam, em tese, corrupção, um dos fundamentos da presente ação constitucional. c) Do Litisconsorte passivo necessário Alega o impugnante a formação de litisconsórcio passivo necessário com o ex-gestor, Valdivino Dias, por ser ele o responsável pelos atos impugnados. Por consequência, em virtude da impossibilidade de aditamento da inicial, a extinção do processo por decadência. Pois bem, a legitimidade passiva da AIME é do candidato diplomado, que se beneficiou do abuso do poder econômico, de corrupção ou fraude. Na presente ação, como o próprio nome sugere, impugna-se o mandato eletivo, a fim de ser cassado o diploma. O ex-gestor Valdivino Dias, não detém mandato para ser impugnado, não foi candidato, muito menos diplomado, de modo que é ilegítimo passivo para

a presente ação. A responsabilidade, caso haja, deve ser aferida em outras searas, pelos legitimados

pelo ordenamento jurídico. Desta forma, indefiro a presente preliminar. d) Da suspensão do processo Foi requerida em sede de alegações finais a suspensão do feito, pois reconhecida em sede de repercussão geral "a discussão sobre a licitude da prova obtida por meio de gravação ambiental

realizada por um dos interlocutores sem o conhecimento do outro, na seara eleitoral" (Tema 979). Não merece procedência tal pedido pois os feitos eleitorais são regidos pelo princípio da celeridade, de modo que é inviável sua suspensão, somente merecendo aplicação os dispositivos do CPC que não contrariem seus institutos e princípios, o que não é o caso. Ademais, o deferimento de suspensão do feito, possibilitará o perdimento de seu objeto pois ainda não há data para o julgamento do referido tema. Cabe ressaltar que a suspensão dos feitos quando reconhecida a repercussão geral sobre tema afeto, não induz necessariamente sua suspensão. Tal consequência decorre de pronunciamento judicial pelo relator do Recurso Extraordinário paradigma, o que não houve no presente caso. Portanto, a suspensão, nos moldes do art. 1.035, § 5º, do CPC, de todos os processos atinentes à discussão sob exame no recurso extraordinário requer o reconhecimento da repercussão geral e a existência de relevantes fundamentos para tal, não decorrendo sua automaticidade. À guisa de exemplo, no Recurso Extraordinário nº 808.202, assim se manifestou o Ministro Dias Toffoli: "Alerto que ainda não há decisão colegiada desta Suprema Corte firmada nesse ou em outro sentido e aplico,

à espécie, o entendimento pessoal sobre esse tema, no sentido de que o reconhecimento da

repercussão geral não implica, necessariamente, em paralisação instantânea e inevitável de todas as ações a versarem sobre a mesma temática do processo piloto." e) Da Ilicitude da gravação ambiental clandestina Os impugnados aduzem que a gravação ambiental registrada no disco objeto de perícia, na qual a senhora Maria Jeane de Sousa gravou conversa com o impugnado, consiste em prova ilícita, pois não foi autorizada judicialmente, além de ter sido realizada clandestinamente, violando a intimidade e privacidade, em ambiente previamente preparado. Pois bem, a Constituição da República, no inciso LVI de seu art. 5º, dispõe que são inadmissíveis, no processo, as provas obtidas por meios ilícitos. Trata-se de direito fundamental do jurisdicionado: o direito de não ver produzida contra si uma prova ilícita ou obtida ilicitamente. Mesmo antes da Constituição Federal de 1988, doutrina e jurisprudência já se posicionavam nesse sentido. A inadmissibilidade da prova ilícita no processo deve ser vista como algo excepcional, e um dos principais pontos de conflito está na relação entre a prova ilícita e o direito fundamental à privacidade (ou intimidade). Esse direito (right of privacy ou droit a la priveé), previsto no art. 5º, inciso X, da Constituição da República, consiste em condição para o completo desenvolvimento da personalidade, pois possibilita a formação de ambiente de tranquilidade emocional ao indivíduo, onde pode se isolar da observação social e focar suas atenções em si mesmo. O direito à privacidade (ou, como preferem alguns, à vida privada) guarda íntima relação com a inviolabilidade domiciliar (art. 5º, XI, da CF) e dos sigilos sobre a correspondência e sobre as comunicações telegráficas, de dados e telefônicas (art. 5º, XII, da Constituição da República). Em verdade, pode-se dizer que todos esses direitos fundamentais orbitam ao redor do direito à privacidade-o qual, por sua vez, extrai fundamento e sustentação do axioma maior da dignidade da pessoa humana. Não há, portanto, como dissociar os sigilos de comunicação do direito fundamental à vida privada, pois eles são atrelados em sua própria razão axiológica. Os sigilos têm por finalidade preservar a intimidade do indivíduo, nela encontrando o seu alicerce valorativo.

]" NE: Trecho

Pois bem, no presente caso um dos interlocutores da conversa, Sra. Maria Jeane, gravou clandestinamente diálogo travado com o impugnado, Gutemberg Moura de Araújo, sem o conhecimento dele, em ambiente público fechado. Estar-se diante do que a doutrina e jurisprudência caracterizam de gravação ambiental, pois a captação de sons foi realizada por uma pessoa sem que a outra soubesse do seu intento, inexistindo a figura do terceiro. A jurisprudência do Tribunal Superior

Eleitoral, em relação às ações referentes, até às eleições de 2008, era pacífica no sentido da licitude da gravação ambiental por um dos interlocutores e de sua admissibilidade: Ação de investigação judicial. Art. 41- A da Lei nº 9.504/97. Preclusão. Apresentação. Rol de testemunhas. Acolhimento. Fita VHS. Prova lícita. 1. É lícita a prova constante em fita VHS validada pelo depoimento do próprio representado. 2. Pacífica a jurisprudência desta Corte no sentido da licitude de gravações de conversas entre duas pessoas, podendo ela ser relatada em juízo. Agravo regimental desprovido. (AGRAVO REGIMENTAL EM RECURSO ESPECIAL ELEITORAL nº 25867, Acórdão de 31/10/2006, Relator(a) Min. CARLOS EDUARDO CAPUTO BASTOS, Publicação: DJ-Diário de justiça, Data 20/11/2006, Página 202 ) Recurso especial. Representação. Captação ilícita de sufrágio. Decisão regional. Procedência. Recurso especial. Decisão monocrática. Negativa de seguimento. Agravo regimental. Alegação. Falta de interesse de agir. Representante. Improcedência. Gravação. Licitude da prova. Art. 41- A da Lei nº 9.504/97. Inconstitucionalidade. Rejeição. Captação ilícita de sufrágio. Ilícito. Configuração. Reexame. Fatos e provas. Impossibilidade. Súmula nº 279 do Supremo Tribunal

Federal. 1. (

lícita, até porque a conversa entre duas pessoas, desde que não seja sigilosa por força de lei, pode ser objeto de gravação. 4. Demais disso, foi produzida prova testemunhal em juízo, colhida sob o crivo do contraditório, a corroborar o que provado por meio da indigitada gravação. 5. Não há falar em inconstitucionalidade do art. 41- A da Lei nº 9.504/97, tese, inclusive, rejeitada pelo Supremo Tribunal Federal no recente julgamento da ADIN nº 3.592, relator Ministro Gilmar Mendes. 6. Para afastar, no caso concreto, a conclusão do Tribunal de origem quanto à configuração da captação ilícita de sufrágio, seria necessário o reexame de fatos e provas, o que é vedado nesta instância especial, a teor do disposto no Verbete nº 279 da Súmula de Jurisprudência do Supremo Tribunal Federal. Agravo regimental desprovido. (AGRAVO REGIMENTAL EM RECURSO ESPECIAL ELEITORAL nº 25258, Acórdão de 21/11/2006, Relator(a) Min. CARLOS EDUARDO CAPUTO BASTOS, Publicação: DJ-Diário de justiça, Data 11/12/2006, Página 218 ) RECURSO ESPECIAL ELEITORAL. AIME. ELEIÇÕES 2008. PREFEITO. GRAVAÇÃO AMBIENTAL REALIZADA POR UM DOS INTERLOCUTORES. LICITUDE DA PROVA. PROVIMENTO. 1. A gravação ambiental realizada por um dos interlocutores é prova lícita. Precedentes do TSE e do STF. 2. Na espécie, a gravação de conversa entre o candidato, a eleitora supostamente corrompida e seu filho (autor da gravação) é lícita, pois este esteve presente durante o diálogo e manifestou-se diante dos demais interlocutores, ainda que de forma lacônica. Assim, o autor da gravação não pode ser qualificado como terceiro, mas como um dos interlocutores. 3. Recurso especial eleitoral provido. (Recurso Especial Eleitoral nº 49928, Acórdão de 01/12/2011, Relator(a) Min. FÁTIMA NANCY ANDRIGHI, Publicação: DJE-Diário da Justiça Eletrônico, Tomo 30, Data 10/02/2012, Página 32 RJTSE-Revista de jurisprudência do TSE, Volume 23, Tomo 1, Data 01/12/2011, Página 81 ) ELEIÇÕES 2008. Agravo regimental em agravo de instrumento. Recurso especial inadmitido na origem. Prefeito eleito. Cassação. Captação ilícita de sufrágio. Oferta de dinheiro em troca de voto dias antes das eleições. Acórdão baseado em depoimentos de pessoas suspeitas (art. 405, § 3o, inc. IV, do Código de Processo Civil), e também em gravação ambiental. Possibilidade (art. 405, § 4º, do Código de Processo Civil). Princípio da persuasão racional (art. 131 do Código de Processo Civil). Provas consistentes. 1. Admissibilidade do uso, como meio de prova, de gravação ambiental realizada por um dos interlocutores. 2. A ausência de impugnação específica a todos os fundamentos adotados na decisão agravada, assim como a mera reiteração das razões do recurso especial, inviabilizam o conhecimento do agravo regimental (Súmula 182 do Superior Tribunal

de Justiça). 3. Agravo regimental ao qual se nega provimento. (Agravo Regimental em Agravo de Instrumento nº 76984, Acórdão de 16/12/2010, Relator(a) Min. CÁRMEN LÚCIA ANTUNES ROCHA, Publicação: DJE-Diário da Justiça Eletrônico, Data 15/04/2011, Página 76 ) AGRAVO REGIMENTAL. RECURSO ESPECIAL ELEITORAL. DECISÃO AGRAVADA MANTIDA POR SEUS PRÓPRIOS FUNDAMENTOS. I-A decisão regional encontra respaldo na jurisprudência desta Corte, uma vez que persiste o interesse de agir do Ministério Público Eleitoral na causa, mesmo diante da inexistência do mandato eletivo, em virtude da possibilidade de aplicação da sanção de multa por infração ao art. 41- A da Lei das Eleições. II-A gravação clandestina feita por um dos interlocutores, sem conhecimento do outro, não constitui interceptação vedada pela Constituição da República. (Precedentes do TSE). III- Divergência jurisprudencial não demonstrada (Súmula 284 do STF). IV-Os fatos delineados no acórdão regional não seriam suficientes para que este Tribunal afastasse a conclusão da prática da captação ilícita de votos sem o reexame da matéria fático-probatória, vedado nesta instância, a teor da Súmula 279 do Supremo Tribunal Federal. V-Decisão agravada mantida por seus próprios fundamentos. VI- Agravo regimental desprovido. (Agravo Regimental em Recurso Especial Eleitoral nº 4198880, Acórdão de 15/04/2010, Relator(a) Min. ENRIQUE RICARDO LEWANDOWSKI, Publicação: DJE-Diário da Justiça Eletrônico, Data 10/05/2010, Página 21 ) Contudo, tal entendimento foi superado e considerado ilícito em relações às ações decorrentes das eleições do ano de 2012: AGRAVO REGIMENTAL. RECURSO ESPECIAL. GRAVAÇÃO AMBIENTAL. ILICITUDE. ENTENDIMENTO CONSOLIDADO. ELEIÇÕES 2012. NECESSIDADE DE PRESERVAÇÃO DA SEGURANÇA JURÍDICA. 1. O Tribunal Superior Eleitoral, nas Eleições de 2012, firmou entendimento no sentido da ilicitude da prova

)

3. O Tribunal já decidiu que a gravação efetuada por um dos interlocutores é prova

obtida por meio de gravação ambiental clandestina e sem prévia autorização judicial, em razão da violação à intimidade (art. 5º, X, da Constituição Federal) e da boa-fé. 2. De acordo com a jurisprudência desta Corte e do Supremo Tribunal Federal, as decisões do Tribunal Superior Eleitoral que, no curso do pleito eleitoral ou após o seu encerramento, impliquem mudança de jurisprudência não têm aplicabilidade imediata ao caso concreto e somente terão eficácia sobre outros casos no pleito eleitoral posterior, ante a necessidade de preservação da segurança jurídica e do princípio da igualdade. Agravo regimental a que se nega provimento. (Agravo Regimental em Recurso Especial Eleitoral nº 38873, Acórdão de 07/02/2017, Relator(a) Min. HENRIQUE NEVES DA SILVA, Publicação:

DJE-Diário de justiça eletrônico, Tomo 36, Data 20/02/2017, Página 109 ) Malgrado tenha havido a superação do entendimento da licitude da gravação ambiental clandestina, após o ano de 2012, pelo TSE, ainda no ano de 2009 o Supremo Tribunal Federal, ao julgar o RE 583.937- QO-RG (Rel. Min. Cezar Peluso, DJe 18.12.2009), reafirmou sua jurisprudência, sob a sistemática repetitiva, a respeito da admissibilidade da gravação ambiental como meio de obtenção de provas, ainda que sem prévia autorização judicial: AÇÃO PENAL. Prova. Gravação ambiental. Realização por um dos interlocutores sem conhecimento do outro. Validade. Jurisprudência reafirmada. Repercussão geral reconhecida. Recurso extraordinário provido. Aplicação do art. 543- B, § 3o, do CPC. É lícita a prova consistente em gravação ambiental realizada por um dos interlocutores sem conhecimento do outro. Portanto, como relatado acima o Tribunal Superior Eleitoral considera ilícita a gravação ambiental clandestina, ao passo que o Supremo Tribunal Federal a considera válida. Fixada essa divergência jurisprudencial, ressalvado ainda o entendimento atual do TSE sobre a matéria, entendo que o entendimento do STF deve prevalecer no presente caso, até o julgamento do RE 1.040.515, no qual foi reconhecida repercussão geral (tema 979). Inicialmente, cumpre destacar que o RE 583.937- QO-RG é fruto de densa construção jurisprudencial, cuja eficácia vinculante é atribuída pela legislação processual, no art. 927, III, do Código de Processo Civil, pois reconhecida sua repercussão geral (Tema 237). A não aplicação do entendimento consolidado no STF, somente poderia decorrer de duas situações:

superação do precedente (overruling) ou não incidência por distinção do caso concreto, em razão das suas particularidades (distinguishing). No primeiro caso, exige-se do juízo "a necessidade de fundamentação adequada e específica, considerando os princípios da segurança jurídica, da proteção da confiança e da isonomia" (art. 927, § 4º, do Código de Processo Civil). No segundo, a explicitação das questões fáticas ou jurídicas que diferenciam cabalmente a situação concreta do entendimento jurisprudencial. Não se vê nenhuma das duas situações no caso concreto, pois a gravação ambiental não se confunde com intercepção telefônica, pois nesta há participação de terceiro e naquela o próprio interlocutor realiza a gravação. Sendo partícipe, pode livremente dispor do seu conteúdo, relatando,

em juízo, pessoalmente ou através do registro feito (gravação). Apenas a interceptação é protegida pelo disposto no art. 5º, XII, da Constituição Federal. É nesse sentido o voto do Ministro Cezar Peluso, no referido Recurso Extraordinário: "A matéria em nada se entende com o disposto no art. 5º, XII, da Constituição da República, o qual apenas protege o sigilo das comunicações telefônicas, na medida em que as põe a salvo da ciência não autorizada de terceiro, em relação ao qual se configura, por

definição mesma, a interceptação ilícita. (

emissor ou receptor, não intercepta, apenas dispõe do que também é seu e, portanto, não subtrai, como se fora terceiro, o sigilo à comunicação, a menos que seja recoberta por absoluta indisponibilidade legal proveniente de obrigação jurídica heterônoma, ditada pela particular natureza da relação pessoal vigente entre os interlocutores, ou por exigências de valores jurídicos transcendentes." Outrossim, como informado pelo ministro relator, é necessária a preservação da busca da verdade não só no processo penal, com a mitigação do direito à privacidade, sob pena de se frustrar a própria atividade jurisdicional na solução dos conflitos. Na colisão do direito à privacidade e ao da busca da verdade, este último deve prevalecer, pois não existe privacidade sobre o ilícito. Ainda mais no âmbito eleitoral que tem como missão maior a proteção da legitimidade, da moralidade e da

lisura das eleições, de ordem a preservar o processo eleitoral, expressão maior do regime democrático. Não se pode invocar a tutela da intimidade e da vida privada com o propósito de salvaguardar práticas criminosas da imposição de sanções, em prejuízo dos princípios do Estado de Direito, da legalidade e da segurança pública, igualmente tutelados pela Constituição Federal. Ademais, a gravação foi realizada, na sala da Diretoria do Hospital Municipal desta cidade, isto é, em um prédio público. Cumpre ainda ressaltar que a possibilidade de utilização de gravação ambiental clandestina em processo criminal e sua impossibilidade nos processos eleitorais cíveis, gera um ordenamento jurídico esquizofrênico. Como indicado pelo nome, o ordenamento jurídico deve guardar certa ordem, coerência. Como pode uma mesma gravação ambiental de um fato de compra de voto, ser lícita no âmbito penal eleitoral e ilícita no âmbito cível eleitoral? Se no âmbito criminal, o qual sanciona de forma mais grave através da privação da liberdade, é lícita a gravação ambiental clandestina, com mais razão deve ser no âmbito eleitoral. Em alegação final, os impugnados alegam que a gravação ambiental clandestina, tratou-se de flagrante preparado, motivo pelo qual também seria ilícito. No caso dos autos, não há como vislumbrar a hipótese aventada na peça de defesa, de flagrante preparado, mas sim de flagrante esperado. Isso porque, o que distingue o primeiro do segundo, é justamente a indução ou não provocação por um agente para que o flagrado venha ou não a praticar uma conduta, de modo que sem a provocação a conduta ilícita não seria cometida. Nesse sentido, cito a bem conceituada obra de Andrey Borges de Mendonça, verbis: Assim, o flagrante provocado deve ser considerado inválido apenas e tão somente quando o agente provocador estimulou de tal forma a conduta delitiva que, sem referida provocação, o crime não seria cometido. A

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Ora, quem revela conversa da qual foi partícipe, como

questão deve ser focada, segundo nos parece, no elemento subjetivo. Realmente, quando o agente é estimulado a praticar o delito por um agente do Estado ou até mesmo por particulares-de tal sorte que não praticaria o delito sem tal estímulo-não se pode dizer que a vontade de praticar o delito é natural, mas sim foi criada artificialmente pelo provocador, para criar uma armadilha. Se assim é, parece-nos que falta o dolo, no seu aspecto volitivo nesse caso. Ora, no caso dos autos não existe

indução ou instigação por parte da interlocutora. Ela que foi chamada na sala da diretoria do hospital, onde o impugnado Gutemberg, era o então Diretor, o qual já iniciou o diálogo dizendo que só o voto da depoente não servia, o marido da depoente também deveria votar nele. O impugnado afirma que, por questão pessoal, não admite que uma pessoa que trabalha no hospital e o marido, não votem no impugnado, sendo inadmissível somente o voto do funcionário. Resta claro, pois, que se está diante de flagrante esperado. Ressalte-se que o laudo de comparação de locutor também conclui que é moderadamente mais plausível ser Gutemberg a fonte das falas constante no arquivo de áudio, objeto da análise. Sob tais fundamentos, afasto a prejudicial de ilicitude da prova. f) Do mérito A presente AIME baseia-se em grande dois fatos, quais sejam: i) contratação de funcionários de modo precário, a fim de que votassem no grupo político que o indicaram/empregaram e ii) demissão da Sra. Maria Jeane de Sousa pelo simples fato de seu esposo não votar no candidato a prefeito da situação, o "Gutim". Analiticamente o primeiro fato divide-se: 1) em compra de apoio político do histórico adversário, Sr. Josimá Mauriz da Silva, em troca de indicação de parentes e correligionários, os quais recebiam remuneração sem prestar qualquer serviço; 2) em apoio político em troca de dinheiro público sem a contraprestação do serviço público; e 3) em nomeação de professores em 01/03/2016, sem o devido concurso público ou teste seletivo. Pois bem, diante da farta documentação juntada aos autos com a exordial e nas diligências requeridas e deferidas, percebe-se que as pessoas informadas na inicial realmente receberam dinheiro público, conforme notas de empenho, folhas de pagamento e comprovante de transferência bancária. Tal fato também é incontroverso, pois não contraditado pelos impugnados. Malgrado tenham recebido dinheiro público, durante a instrução probatória não foi possível comprovar que não houve a contraprestação do serviço pelo qual foi pago. Não há nos autos nenhum indício que os valores foram pagos sem que os beneficiários tenham prestado serviço. Da mesma forma, não há comprovação de que os professores foram contratados somente a partir de março de 2013, com caráter eleitoreiro. A ilicitude em tese de determinadas ações não é corolário da caracterização de corrupção eleitoral, devendo ser buscada, nas respectivas searas, a responsabilidade do agente público. A testemunha Valmir Barbosa de Sousa informou desconhecer a contratação de novos professores durante o ano de 2016 e disse que já viu algumas das pessoas referidas na inicial prestando serviço para a prefeitura, sem saber, no entanto, a que título. É indubitável que a Ação de Impugnação de Mandato Eletivo deve ser apreciada sempre com acuidade e sem açodamentos. Entretanto, se por um lado não se mostra admissível que exerça um mandato aquele que se beneficiou do abuso do poder econômico, da fraude ou da corrupção, por outro lado,

não pode a ação "(

macula o mandato eletivo" (Teles, Ney moura. Direito Eleitoral: teoria e prática. Brasília: LGE, p. 66)

Assim, nossos tribunais têm se inclinado no sentido de que as provas de abuso do poder econômico, corrupção ou fraude precisam ser cabais e inquestionáveis para que a AIME seja julgada procedente. Senão vejamos: EMBARGOS DECLARATÓRIOS. RECURSO ESPECIAL ELEITORAL. AIME. FAC-SÍMILE. FORMALIDADES. LEI Nº 9.800/99. MITIGAÇÃO. CANDIDATO. SEGUNDO COLOCADO. PLEITO MAJORITÁRIO. INTERESSE JURÍDICO. ASSISTENTE LITISCONSORCIAL. PODERES PROCESSUAIS AUTÔNOMOS. PERDA DE MANDATO ELETIVO. PROVA INCONCUSSA. EXIGÊNCIA. ACÓRDÃO

REGIONAL. INEXISTÊNCIA DE OUTRAS PROVAS. ART. 23. LC Nº 64/90. NÃO-APLICAÇÃO. (

3.

Infere-se do v. acórdão embargado que o e. Tribunal a quo valeu-se do depoimento de pessoas ouvidas sem observância do contraditório ou que não prestaram compromisso, assim como de recorte de jornal que veio aos autos apenas na fase recursal e de fita de vídeo apresentada em contexto no qual o devido processo legal não foi obedecido. Portanto, tais provas mostram-se insuficientes para ensejar a perda de mandato eletivo, pois esta deve-se amparar em prova inconcussa, cabal, de que o agente político praticou alguma das condutas previstas no art. 41- A da Lei nº 9.504/97. (Precedentes: AI 5473, Rel. Min. Caputo Bastos, DJ de 28.8.2006; e AI 4000, Rel. Min. Barros Monteiro, DJ de 6.2.2004). 4. Sendo estas as únicas provas em que o e. TRE/RR baseou-se para

cassar o mandato do prefeito eleito, e sendo vedado a esta c. Corte a incursão no material fático- probatório para averiguar a existência ou não de outras provas nos autos (Súmula nº 7 do c. STJ), não subsiste razão para determinar a devolução do feito à instância a quo. 5. Embargos de declaração não providos. (RECURSO ESPECIAL ELEITORAL nº 28121, Acórdão, Relator(a) Min. Felix Fischer, Publicação: DJ-Diário de justiça, Data 07/08/2008, Página 20) grifo nosso Em relação ao fato da demissão da Sra. Maria Jeane de Sousa, merece consequência diversa, conforme passo a fundamentar. A despeito de constar nas alegações finais de que a demissão da funcionária ter sido "por motivações meramente administrativas" e o impugnado Gutemberg não reconhecer como sendo sua a gravação, não merece guarida tais alegações. No laudo nº 108/2018- SETC/SR/PF/PI, há conclusão de que é moderadamente mais plausível ser Gutemberg a fonte das falas questionadas. Ademais, como informado pela testemunha, tal gravação deu-se na sala da diretoria do Hospital Municipal de Paes Landim, local de trabalho do impugnado, o que reforça ser sua voz. Cumpre destacar ainda, que pelo teor da conversa gravada, o impugnado Gutemberg demite a servidora pois o marido dela não votaria nele: Jeane é o seguinte, eu vou ter uma conversa aqui. Olha, infelizmente

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ser julgada procedente sem que existam provas irrefutáveis do vício que

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não votar. Eu não admito. Isso aqui é questão minha." Apesar de ser contratada a título precário, em que não se exige fundamentação para a demissão, e pelo princípio da obrigatoriedade de concurso público, nem admitida poderia ter sido, o impugnado condiciona, de forma clara, que os empregos só seriam mantidos dos funcionários cuja entidade familiar votasse nele. Ressalte-se, por oportuno, que não mais é necessária a potencialidade de o ato supostamente abusivo alterar o resultado da eleição, pois a Lei Complementar nº 135/2010 revogou tal exigência ao incluir no artigo 22 da Lei Complementar nº 64/1990 o inciso XVI, segundo o qual, para a configuração do ato abusivo, não será considerada a potencialidade de o fato alterar o resultado da eleição, mas apenas a gravidade das circunstâncias que o caracterizam. É esse o escólio do já referido professor Francisco Dirceu Barros. Frise-se que tanto o abuso de poder econômico quanto a corrupção e a fraude devem ter por desiderato a indevida influência nas eleições, no processo eleitoral ou em seus resultados, de sorte a macular a sinceridade do pleito e a soberania da vontade popular expressa nas urnas. Por isso, tem-se exigido que os eventos considerados apresentem aptidão ou potencialidade lesiva, isto é, sejam de tal magnitude ou gravidade que possam ferir a normalidade ou a legitimidade das eleições. Não há mister seja demonstrado o real desequilíbrio do pleito, isto é, que os eleitores efetivamente votaram ou deixaram de votar em determinado candidato em virtude dos fatos alegados. Mesmo porque o estabelecimento dessa relação causal seria impossível tendo em vista o segredo do voto. A aptidão lesiva não se encontra necessariamente vinculada ao resultado quantitativo das eleições, mas à sua qualidade. Nesse diapasão, o inciso XVI, art. 22, da LC no 64/90 esclarece que, "para a configuração do ato abusivo, não será considerada a potencialidade de o fato alterar o resultado da eleição, mas apenas a gravidade das circunstâncias que o caracterizam". O que importa realmente é a existência objetiva dos eventos, a gravidade deles e a prova de sua potencial lesividade à normalidade e legitimidade do processo eleitoral, bens que a presente norma almeja proteger. No caso dos autos, resta plenamente evidenciada a gravidade da conduta do impugnado, Gutemberg, ao condicionar o voto do funcionário e dos familiares à manutenção do emprego. Demonstra a audácia no comportamento, ao condicionar o emprego ao voto "no atacado" da família do funcionário, impondo a venda de todos os votos, em conjunto, como uma verdadeira "venda casada". Merece relevo ainda, que referida tratativa deu-se dentro do órgão público, do qual o impugnado era diretor. Outrossim, ressalta que não obstante pudesse demitir a Sra. Maria Jeane sem fundamentação, o impugnado preferiu informar o motivo ilícito, como forma de persuasão para que influenciasse o marido da servidora a votar nele e como efeito "pedagógico coletivo", aos que estavam na mesma situação jurídica, a votarem nele para manutenção do emprego. Por fim, pode-se ainda destacar que o impugnado também teve conversa gravada oferecendo dinheiro em troca de voto, o que demonstra ter sido prática recorrente e usual, para o êxito no pleito eleitoral. Inclusive na AIJE que trata do fato acima, os impugnados já foram cassados. III. Dispositivo Ante o exposto, afasto as preliminares apontadas e, no mérito, com fundamento no art. 14, § 10, da Constituição Federal, e, subsidiariamente, no art. 487, inciso I, do Novo CPC, JULGO PROCEDENTES os pedidos formulados na presente ação de impugnação de mandato eletivo, para: a) declarar a inelegibilidade dos representados para as eleições a se realizarem nos 8 (oito) anos subsequentes à eleição em que se verificaram as ilegalidades (2016); b) cassar os diplomas e os mandatos dos candidatos eleitos aos cargos de prefeito e vice-prefeito do município de Paes Landim, conferidos respectivamente às pessoas de Gutemberg Moura de Araújo e Josimá Mauriz da Silva. c) declarar nulos os votos obtidos pelos impugnados na eleição realizada em 02 de outubro de 2016, nesta 83ª Zona Eleitoral, para os cargos de Prefeito e Vice-Prefeito deste município de Paes Landim/PI, na forma dos arts. 222 e 224 do Código Eleitoral; Determino, ainda, a remessa dos autos ao Ministério Público Eleitoral, para instauração de processo disciplinar, se for o caso, e de ação penal, consoante entenda o parquet. Sem condenação em custas e honorários, ante a gratuidade da Justiça Eleitoral. Expedientes necessários. Paes Landim/Piauí,28 de Novembro de 2018. Leon Eduardo Rodrigues Sousa Juiz Eleitoral da 83ª Zona/PI