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ENZIMOLOGIA

Actas Bioq. 2007, 8: 21-25

II SEMINÁRIO

Tema: ENZIMOLOGIA EM MEDICINA

Subtemas:

• A enzimologia no diagnóstico clínico da lesão tecidual


• Doenças por deficiência enzimática
• Enzimas com utilização terapêutica

Intervenientes

• Docente Convidado:

– Dr. Armando Pereirinha (Interno do I. Complementar/HSM e Assist.-Convidado de Medicina IIIA)

• Docentes do Instituto de Bioquímica/FML:

– Dr. Carlos Moreira (Assistente Convidado)


– Dra. Teresa Luísa Quintão (Assistente Convidada)

• Investigador voluntário do Instituto de Bioquímica/FML:

– Dr. Mário Carreira (Interno do I. Geral/HSM)

• Aluna do 2o ano, monitora voluntária do Instituto de Bioquímica

– Clara Lopes

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SEMINÁRIO II

A ENZIMOLOGIA NO DIAGNÓSTICO de determinadas enzimas – p.ex., creatina-fos-


CLÍNICO DA LESÃO TECIDUAL focinase (CPK), transaminase glutâmica-
oxaloacética (TGO), desidrogenase láctica (LDH)
– apresentam concentrações superiores às usuais.
INTRODUÇÃO À ENZIMOLOGIA
T. Quintão
IMPORTÂNCIA DIAGNÓSTICA
(Como introdução foi apresentado o filme DAS ISOENZIMAS
“Structure et Fonction des Enzymes”, comenta- Clara Lopes
do e discutido).
As enzimas são proteínas que têm a proprie- Isoenzimas são formas múltiplas de uma
dade de catalisar reacções químicas. enzima que podem existir num só organismo ou
Podem classificar-se de acordo com a reacção mesmo numa só célula.
química que catalisam, em: As isoenzimas existentes no soro podem pro-
vir de diferentes tecidos de origem.
1. Oxirredutases A lesão tecidual pode traduzir-se por aumento
2. Transferases da actividade sérica de uma isoenzima específica
3. Hidrolases do tecido em causa.
4. Liases O doseamento das isoenzimas reveste-se as-
5. Isomerases sim de importância diagnóstica.
6. Ligases Como exemplos apresentam-se a desidrogenase
láctica, a creatina-fosfocinase e a fosfatase alcalina.
A actividade enzimática desenvolve-se, para
além de outras vias, no metabolismo dos glíci-
dos, dos lípidos e das proteínas, e em reacções
químicas que interferem na estabilidade celular. ALGUMAS DOENÇAS POR
Os defeitos enzimáticos podem assim conduzir DEFICIÊNCIA ENZIMÁTICA
a doenças.
As enzimas são utilizadas em Medicina, quer GLICOGENOSES
em método de diagnóstico quer como agentes T. Quintão
terapêuticos.
Os defeitos enzimáticos em qualquer via do
metabolismo têm, como consequências principais,
As Alterações Enzimáticas como a acumulação de substrato, a utilização de vias
Repercussão da Lesão Tecidual alternativas e o défice de produtos.
As glicogenoses são um grupo de doenças
A actividade enzimática no sangue e nos teci- caracterizadas por um defeito enzimático do me-
dos pode ser determinada no laboratório. Em caso tabolismo do glicogénio, quer a nível da sua sín-
de doença há alteração da actividade enzimática tese quer a nível da degradação.
o que contribui para o diagnóstico. Enzimas de São na maioria doenças autossómicas reces-
localização intracelular são detectadas em peque- sivas. As manifestações clínicas variam com a
nas quantidades no sangue. enzima envolvida, destacando-se a hepatomegá-
Tomando como exemplo o enfarte de miocárdio, lia, a hipoglicémia e as alterações musculares.
sabe-se que no decurso desta doença os níveis séricos As possibilidades terapêuticas resumem-se a dieta.

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LIPIDOSES Albinismo
C.S. Moreira
Surge por deficiência da enzima tirosinase que
l. Hiperlipoproteinémias converte a dopa em dopa-quinona, a qual, por sua
vez, é um precursor da melanina.
• Mutação de um gene Conhecem-se dois tipos de albinismo (oculo-
cutâneo e ocular), o primeiro recessivo e o se-
– Deficiência lipoproteína lipase gundo ligado ao cromossoma X.
– Hipercolesterolémia
– Hipertrigliceridémia
ANEMIAS HEMOLÍTICAS
• Secundárias Mário Carreira

– Diabetes Mellitus Na anemia há, por definição, redução signifi-


– Álcool cativa da massa de eritrocitos e diminuição cor-
– Contraceptivos respondente na capacidade de transporte de oxi-
génio do sangue.
2. Doenças raras do metabolismo lipídico As anemias podem ser devidas a perdas san-
guíneas, diminuição da produção dos eritrocitos
– Doença de Fabry e por destruição dos eritrocitos (hemólise). As
– Doença de Gaucher anemias por destruição dos glóbulos vermelhos
– Doença de Niemann-Pick (anemias hemolíticas) podem resultar de facto-
res exteriores ao glóbulo (extracorpusculares) ou
de defeitos do eritrocito (intracorpusculares).
FENILCETONÚRIA As anemias hemolíticas intracorpusculares são
E ALBINISMO geralmente hereditárias e, entre elas, estão as pro-
T. Quintão venientes de defeitos enzimáticos. A maioria das
deficiências enzimáticas localiza-se na via de
São doenças devidas a perturbações do meta- Embden-Meyerhof e na via das fosfopentoses. Em
bolismo dos aminoácidos aromáticos. alguns casos, as deficiências em enzimas do me-
tabolismo dos nucleótidos (pirimidina 5'-
nucleotidase) são também responsáveis por
Fenilcetonúria hemólise.
Em geral, os eritrocitos com deficiências na
Doença resultante de deficiência do sistema via de Embden-Meyerhof têm menor quantidade
da hidroxilase da fenilalanina, que converte a de ATP, maior concentração intraglobular de po-
fenilalanina em tirosina. tássio e maior rigidez, os quais condicionam a
É uma doença autossómica recessiva. sua destruição no sistema fagocitário-mono-
As suas manifestações incluem atraso mental nuclear.
e pele e olhos claros. Os eritrocitos portadores de deficiências na via
O seu diagnóstico no recém-nascido (rastreio das fosfopentoses são incapazes de manter um
conhecido por “teste do pezinho”) permite evitar nível adequado de glutatião reduzido intraglo-
o desenvolvimento da doença, instituindo uma bular, sendo inaptos para resistir ao stress oxida-
dieta com restrição de fenilalanina. tivo; consequentemente, os grupos sulfidrílicos

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da hemoglobina são oxidados e a hemoglobina tas e a activação do sistema de coagulação, com


tende a precipitar, constituindo os corpúsculos de formação de fibrina e, assim, de trombo que, em
Heinz. Nesta via a deficiência mais frequente é a última análise, virá a ocluir o lúmen da artéria.
desidrogenase da glicose-6-fosfato. Deste modo, a massa de miocárdio dependente
da irrigação dessa artéria que foi ocluída ficará
em anóxia, processo que terminará na morte ce-
lular (necrose) se a circulação não for restabele-
ENZIMAS COMO MEIO TERAPÊUTICO cida a tempo (antes de haver ocorrido lesão ce-
Armando Pereirinha lular irreversível).

O enfarte agudo do miocárdio (EAM) é uma


situação clínica muito importante pela sua ele- Bases Bioquímicas para a Utilização
vada prevalência nas sociedades ocidentais (atin- da Trombólise
gindo muito frequentemente indivíduos em idade
produtiva) e pelas suas pesadas repercussões clí- No nosso organismo existe o sistema fibri-
nicas, que podem ir até à morte. O EAM é um nolítico (destinado a promover a lise da fibrina)
bom exemplo de como toda a actuação médica que se encontra habitualmente na forma inibida.
se desenrola num ambiente em que as enzimas Basicamente, este sistema é constituído por
têm um papel preponderante. Vimos como são enzimas. O seu elemento base é o plasminogénio
úteis no diagnóstico (utilização da CPK, TGO, (proenzima), activado pelos activadores do plas-
LDH e suas isoenzimas no diagnóstico de EAM); minogénio (que são hidrolases) na forma activa
vamos agora ver como as utilizamos como for- – a plasmina – que é uma protease que vai actuar
ma terapêutica. sobre a fibrina, digerindo-a em produtos solúveis
(os produtos de degradação da fibrina).
Assim sendo, uma forma de actuarmos no
Fisiopatologia do Enfarte Agudo EAM seria a activação deste sistema de fibri-
do Miocárdio nólise, no sentido de dissolver o trombo que se
formou na artéria coronária e que irá provocar a
O coração pode, de uma forma simplista, ser morte celular, se decorrer o tempo suficiente. Pre-
visto como uma bomba cuja parte mecânica é cisaríamos assim de agentes que fossem activar o
constituída por músculo (o músculo cardíaco ou plasminogénio para plasmina (funcionando por-
miocárdio). Toda esta massa muscular é alimen- tanto em alternativa aos activadores do plasmi-
tada por uma rede arterial específica, as artérias nogénio do organismo).
coronárias. A doença aterosclerótica, caracteri- Um desses agentes é o t-PA (“tissue-type
zada pelo desenvolvimento de placas na parede plasminogen activator”). É uma protease que se
das artérias, envolve muito frequentemente as liga especificamente à fibrina, activando o
artérias coronárias. A placa aterosclerótica evo- plasminogénio à superfície da fibrina. Esta for-
lui, crescendo de forma paulatina, mas é uma ma terapêutica – activação do sistema de fibri-
estrutura biologicamente activa, com fases de nólise – no decurso do EAM é designada por
crescimento mais activo (em surtos), em que trombólise (por se pretender a lise do trombo
ocorrem fenómenos de ruptura e hemorragia que oclui a artéria coronária em causa). Para
intraplaca. Estes fenómenos, para além de pro- além de enzimas propriamente ditas (como é o
vocarem o crescimento da placa, proporcionam caso do t-PA ou o seu similar rt-PA*), outros
o local e o estímulo para a agregação de plaque- agentes são usados (em particular, no nosso

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meio, a estreptocinase e o APSAC**) que, em- primeiras 4-6 horas de crise; adicionalmente,
bora não sejam enzimas propriamente ditas, vão existem contraindicações clínicas ao seu uso,
actuar da mesma forma, activando o plasmino- sobretudo situações com grande risco hemor-
génio em plasmina. rágico (por exemplo, doentes com úlcera gás-
trica activa com hemorragia recente). Com a
sua utilização foi possível melhorar o prog-
Utilização Clínica da Trombólise nóstico do EAM, quer em termos de mortali-
dade hospitalar quer de melhor preservação da
A utilização de trombólise (com qualquer dos função do coração nos doentes sobreviventes
agentes referidos) é hoje o tratamento padrão do de EAM.
EAM, tendo como único limite de utilização ser
iniciada nas primeiras horas da evolução do
EAM (antes de se haver dado a necrose de toda
* Recombinant Tissue-type Plasminogen Activator (rt-PA)
a massa muscular em sofrimento pela oclusão ** Anisoylated Plasminogem Streptokinase Activator
da artéria coronária), isto é, idealmente nas Complex (APSAC)

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