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A Ética de Kant: notas introdutórias

Vinícius Batelli de Souza Balestra1


João Vitor de Freitas Moreira2

Sumário:

I - Introdução; II - A Vontade; III - Dever, Máxima e


Lei Moral; IV - O Imperativo Categórico; V -
Considerações Finais

I. Introdução

No intuito de apresentar os traços característicos da ética no pensamento kantiano,


devemos sempre ter em mente que a propositura moral de Kant é uma moral da razão pura
prática3. Isso requer compreender que ao estabelecer o conhecimento racional como formal
ou material, Kant divide dentro da filosofia dois campos de leis, quais sejam: leis da natureza
e leis da liberdade4.

As investigações analíticas que recaem sobre as leis da liberdade constituem


preceitos muito difundidos e influentes no âmbito jurídico, pois a ciência que lida
propriamente com as leis da liberdade é a ciência ética.

1
Doutorando em Direito pela UFMG, com financiamento da CAPES. Mestre em Direito pela UFMG. Bacharel em
Direito pela USP.
2
Mestrando em Direito pela UFMG. Bacharel em Direito pela UFJF.
3 HERRERO, F. Javier. A ética em Kant. Síntese Revista de Filosofia, Belo horizonte, v. 28, n. 90, 2001, p. 19.
4 GMS, AA IV: 387, 14.
Ao debruçar-se sobre a ética, Kant quer nos demonstrar que as leis nesse caso são
de acordo com as quais “tudo deve acontecer, mas ponderando também as condições sob as
quais muitas vezes não acontece o que devia acontecer”5 6.

Nesse ponto, já pode se entender os sentidos aplicados à ética ou aos costumes.


Entretanto, cabe ainda entender porque se busca uma base metafísica para a ética. Como já
sabemos desde a crítica da razão pura, Kant enuncia uma diferenciação importante em seu
raciocínio entre uma filosofia empírica e uma filosofia pura. A primeira vinculada à
experiência se opõe, em sentido distintivo, daquelas doutrinas que derivam seus princípios a
priori.

A filosofia que define seus princípios exclusivamente a priori, “quando é


simplesmente formal, chama-se Lógica; mas quando se limita a determinados objectos do
entendimento chama-se Metafísica”7. Portanto, compreendemos a ética em Kant como uma
filosofia pura, uma Filosofia Moral apartada das experiências e de tudo aquilo que é empírico
e pertence à Antropologia.

Nesse sentido, o objetivo de Kant é encontrar um princípio fundante do agir ou um


dever incondicionado, já que após a construção realizada em Crítica da razão pura, se reserva à
razão um uso como constitutivo na esfera do agir e regulativo no processo de
entendimento8. Esse princípio da obrigação “[...]não se há de buscar aqui na natureza do
homem ou nas circunstâncias do mundo em que o homem está posto, mas sim a priori
exclusivamente nos conceitos da razão pura [...]”9.

5 As citações das obras de Kant no presente trabalho são realizadas conforme a Akademie-Ausgabe de Berlim, disponível
em: <https://korpora.zim.uni-duisburg-essen.de/kant/verzeichnisse-gesamt.html>. Utilizamos a abreviatura do título
da obra em alemão, seguido da edição da Akademie-Ausgabe (AA) em algarismos romanos e as páginas são indicadas em
algarismos arábicos. Por fim, são indicadas as linhas correspondentes aos trechos também em algarismos arábicos.
6 GMS, AA IV: 387. 1-2.
7 GMS, AA IV:388. 6-8.
8 SALGADO, Karine. A paz perpétua de Kant. Belo Horizonte: Mandamentos Editora, 2008, p. 23.
9 GMS, AA IV: 389. 17-18
Isso significa dizer que as preocupações estão voltadas para um a priori puro da
moral, já que, “mesmo no senso comum, prevalece a noção de que a lei, para ser considerada
lei moral e, portanto, instituir uma obrigação, precisa ter em si uma necessidade absoluta”10.

É possível perceber que a ética em Kant não tem ligações como o mundo empírico
ou sensível, sendo o seu fundamento incondicionado. Isso muito vai em encontro com o
desafio que o filósofo nos faz em O que é o esclarecimento, ou seja: “Sapere aude! Tem a coragem
de te servires do teu próprio entendimento!” 11 . Isso proporcionou não somente uma
revolução nas formas do entendimento, como também nos fundamentos do agir moral, que
se volta agora totalmente para a o sujeito.

Nas palavras de Herrero:

E por que cada ser humano tem de ter a coragem de guiar-se por si mesmo?
Naturalmente não só pelas limitações históricas do tempo de Kant. À pergunta: se
vivemos já numa época esclarecida, sua resposta é nítida: “não, mas sim numa
época de conscientização”3 . Mas sobretudo porque já chegou o momento de
exercermos a maioria de idade, porque todos somos seres humanos, e isso
significa: todos temos a consciência de possuirmos um valor absoluto. E valor
absoluto o homem, todo ser humano, tem um valor absoluto porque é capaz de
boa vontade, isto é, porque tem consciência de colocar seu agir sob o ditame da
razão prática. É porque o ser humano é sujeito da razão prática que ele consegue
autarquia, que ele é autônomo, que ele se dá sua própria lei12

A pergunta “qual é o fundamento dessas obrigações incondicionadas?” é de fato o


principal ponto na filosofia moral kantiana, levando a alguns autores como Guido Antônio
de Almeida13 a afirmar que:

[...] a resposta kantiana parece-me plausível e mesmo, arrisco-me a dizer, a única


possível, a saber: porque isso [o fundamento das obrigações incondicionadas] é
uma condição do valor que nos atribuímos e da consciência que temos de nós
mesmos como seres racionais.14

10 SALGADO, Karine. A paz perpétua de Kant. Belo Horizonte: Mandamentos Editora, 2008 p. 26.
11 WA, AA VIII: 35. 6-8.
12
HERRERO, p. 17-18
13 Professor aposentado do departamento de filosofia da UFRJ, pesquisador produtividade nível A1 do CNPq e editor

da Revista Analytica.
14 ALMEIDA, Guido Antônio de. Liberdade e Moralidade segundo Kant. Analytica, v. 2, n. 1, 1997, p. 175.
Quando se trata de um fundamento moral de uma ação o que está em questão não
são as ações exteriores, mas os princípios internos da ação. Isso implica em dizer que nossa
vontade, para estar dotada de um motivo moral, deve ter o poder de se determinar
independentemente de qualquer condição do mundo empírico ou sensível. Mas o que isso
propriamente significa?

Ora, nossa vontade, para ser dotada de um valor moral, deve ser conforme uma
máxima que não seja a satisfação de objetos ou fins do mundo empírico. Conforme Kant:

Só pode ser objeto de respeito e portanto mandamento aquilo que está ligado à
minha vontade somente como princípio e nunca como efeito, não aquilo que serve
à minha inclinação mas o que a domina ou que, pelo menos, a exclui do cálculo na
escolha, quer dizer a simples lei por si mesma.15

Assim, dever se torna a necessidade de cumprir ação pelo respeito à lei. E a ação que é
cumprida em respeito à lei retira seu valor moral não do fim que por ela deve ser alcançado,
mas da máxima que a determina. Isso não significa que Kant ignora as inclinações ou os fins
como determinantes das ações humanas. A bem da verdade, como será demonstrado, Kant
dedica esforços para distinguir uma ação pautada na lei moral de uma ação pautada em uma
máxima meramente condicionada, para afirmar que a representação do dever,

e em geral da lei moral, que não anda misturada com nenhum acrescento de
estímulos empíricos, tem sobre o coração humano, por intermédio exclusivo da
razão (que só então se dá conta de que por si mesma também pode ser prática),
uma influência muito mais poderosa do que todos os outros móbiles que se
possam ir buscar ao campo empírico em tal grau que, na consciência da sua
dignidade, pode desprezar estes últimos e dominá-los pouco a pouco.16

Portanto, segundo Kant, uma ação conforme o dever gera um sentimento para com
a ação de imediaticidade. Por mais honrosa que possa ser uma ação pautada em inclinações
ela foi motivada pelo respeito ao dever. Isso porque não é fundada em uma razão pura que
estabelece obrigações a partir de princípios a prioristicamente justificados. Falta à máxima da
ação o seu valor moral “que manda que tais ações se pratiquem, não por inclinação, mas por

15 GMS, AA IV: 400. 25-29.


16 GMS, AA IV: 410-411. 25-29; 1.
dever”17. De fato, é somente a partir do agir pela razão que consigo dotar o meu ato de valor
moral.

Nesse ponto, vem à tona uma conclusão metodológica. O valor de uma ação não
está no mundo fenomênico ou nas circunstâncias em que o objeto da ação se encontra
inscrito, pois o fundamento moral deve vir de uma filosofia sobre as leis da liberdade
fundamentada em uma determinada metafísica dos costumes.

É com base nessa rápida distinção do que caracteriza uma ação como dotada de
valor moral que nos permite caminhar com um pouco mais de precisão sobre os significados
do que torna uma ação boa em si mesma e compreender as diversas manifestações da
fórmula do imperativo categórico.

II. A Vontade

Na sua empreitada pela "busca e fixação do princípio supremo da moralidade" 18,


realizada na Fundamentação, Kant inicia seu trabalho com a análise do conceito de boa
vontade. Seu objetivo será o de demonstrar que todo aquele que emprega o conceito de boa
vontade "é forçado a admitir" 19 o pressuposto daquilo que será chamado depois de
imperativo categórico.

O que é uma boa vontade? Kant inicia a argumentação, com o intuito de responder
a essa pergunta, afirmando que muitas coisas podem ser boas no mundo. Em geral, quando
nos referimos a coisas boas ou ruins, o fazemos com um fim específico. Aquilo que pode ser
considerado bom à luz de determinadas experiências, pode igualmente ser avaliado como
ruim defronte a outras. Há, no entanto, "uma única coisa no mundo que pode ser
considerada boa em si mesma, a boa vontade."20

17 GMS, AA IV: 398. 19-20.


18 GMS, AA IV: 392. 4.
19 HERRERO, p. 22
20 KARINE, p. 29
A boa vontade tem uma bondade em si, de valor absoluto. A boa vontade é boa
sem reservas. Sua qualidade e valor não são avaliados defronte a um fim que se queira
realizar, mas em virtude dela mesma, de tal modo que "é lícito afirmar que uma tal vontade
deve ser considerada boa independentemente de sua utilidade."21

Por que Kant fala de uma vontade boa em si mesma? Ora, é preciso lembrar que
Kant pretende fundamentar uma ética válida universalmente. Assim, a determinação da
vontade não pode se dar a partir de alguma matéria ou conteúdo, isto é, "o ato moral tem de
nascer da própria vontade que, concebida como desprovida de conteúdo e não se
determinando por nada do exterior, mas por si mesma, é vontade pura."22

No plano da Ética de Kant, só pode ser válida uma lei que consiga se revestir de
universalidade, pelo que uma ação moral, que é individual e parte de um sujeito, consegue se
elevar ao plano universal e objetivo (portanto, válido)23.

Kant rejeita uma ética empírica para propor, então, uma ética de princípios
universais. E se são universais, esses princípios precisam ser a priori, devem estar no próprio
sujeito e não podem pertencer à ordem das sensações. A razão prática não existe com um
fim, nem mesmo o de garantir ao homem maior felicidade. 24 Kant deixa claro que quer
separar seu caminho filosófico das veredas da ética eudaimônica:

Observamos de facto que, quanto mais uma razão cultivada se consagra ao gozo da
vida e da felicidade, tanto mais o homem se afasta do verdadeiro contentamento; e
daí provém que em muitas pessoas, e nomeadamente nas mais experimentadas no
uso da razão, se elas quiserem ter a sinceridade de o confessar, surja um certo grau
de misologia, quer dizer de ódio à razão. 25

No seu intento de rejeitar uma ética forjada nas experiências, o filósofo prussiano
argumenta que a razão não é, aliás, o melhor instrumento para que o homem consiga a
felicidade e auto-conservação. Os instintos do homem seriam suficientes para o alcance de

21 KARINE, p. 29
22 SALGADO, p. 77
23 SALGADO, p. 77.
24 SALGADO, p. 77
25 GMS, AA IV: 395. 29-33.
seus propósitos, se estes fossem todos voltados à satisfação de seu apetite. 26 Mas o homem
foi, efetivamente, dotado de razão, e essa razão foi dada como "faculdade prática" 27, que irá
exercer influência sobre a vontade.

Essa vontade, assim, não será boa ou má para realizar outras intenções, mas boa em
si mesma. Para todos os intentos de suas necessidades de felicidade e bem-estar, o homem já
está bem servido de outras faculdade e talentos. Sua vontade, motivada pela razão prática,
cumprirá a função de representar o bem supremo - que não é o único bem, mas o bem
acima de todos os outros.28

Ensina o professor Joaquim Carlos Salgado:

Só a vontade pura, e, por isso, formal e autônoma, (livre, não afetada por qualquer
móvel ou inclinação) não empírica, pode construir a ética e dar moralidade às ações
dos racionais. Nenhum argumento extraído da experiência, da região empírica,
pode justificar um comportamento como ético, tampouco pode contradizer os
princípios formais da validade da ação moral. 29

Assim é que Kant irá argumentar, ainda primeira seção da Fundamentação, que não se
pode elevar à categoria de prescrição universal "aquilo que só é válido talvez nas condições
contingentes da humanidade" 30 . As leis que determinam uma vontade não podem ser
consideradas como determinantes das vontades em geral se o seu embasamento for
empírico, se forem fundadas em experiências limitadas. Para serem leis de determinação
gerais, da vontade de todo e qualquer ser racional, essas leis precisam se originar de uma
plena razão pura prática, de modo a embasarem apenas uma boa vontade.31

O homem, que não é um Deus nem um animal, nem sempre consegue motivar sua
ação de tal modo que obedeça ao ditame da lei moral. Além da razão, que lhe dota de
capacidade moral, o homem também está sujeito à sensibilidade. Essa sujeição pode fazer
com que o homem, no momento de agir, o faça de modo contrário à lei moral.
26 karine, P. 30
27 GMS, AA IV: 396. 18.
28 GMS, AA IV: 395-296.
29 SALGADO, p. 78.
30 GMS, AA IV: 408. 20-21.
31GMS, AA IV: 408.
A boa vontade, no entanto, não é medida pelos efeitos no mundo sensível, nem pela
sua utilidade. Não deve ser julgada por nenhum critério exterior; se foi determinada pela
razão, de modo independente das "determinações dos instintos"32, então é uma vontade boa.
A boa vontade é fim em si mesma, diz Kant, não se presta como meio a nada, com o que o
filósofo se afasta de uma ética da felicidade ou eudaimônica.33

III. Dever, Máxima e Lei Moral

A proposta de Kant é de uma "moral deontológica, uma ética do dever" 34 , de


acordo com Javier Herrero. O conceito de dever é central na construção de Kant. Ele
"expressa a necessidade que a ação se realize por respeito à lei"35.

O dever está, assim, intimamente ligado à boa vontade. Quando o homem age
finalisticamente, de acordo com seu interesse, ele não age por respeito a uma lei, mas por
inclinação. Só pode ser respeitado pela vontade aquilo que tem valor como princípio, e não por
seus efeitos; aquilo que domina minhas inclinações, e não que a elas se sujeita. A vontade
determina o respeito a uma lei moral, e quando se age de acordo com esse respeito, se age
conforme o dever. 36

Ainda a respeito do dever, esclarece a professora Karine Salgado:

Nas ações coincidentes com o dever é possível fazer uma divisão. Há ações
praticadas em conformidade ao dever e outras praticadas por dever. No primeiro
caso, embora a ação seja idêntica àquela prescrita como devida, tem uma
motivação exterior. Ou seja, a conduta é realizada visando a outro fim que não o
próprio cumprimento do dever. Do mesmo modo, há ações que são realizadas por
mero hábito e, muitas vezes, sem objetivar fim algum. Tais ações também não se
efetivam por respeito ao dever e se enquadram no primeiro grupo. 37

32 SALGADO, p. 80
33 SALGADO, p. 81
34 HERRERO, p. 21
35 KARINE, p. 32
36
37 KARINE, p. 33
Não será difícil, pelo já exposto, concluir que Kant só enxerga valor moral naquelas
ações realizadas em respeito ao dever. As demais, ainda que conformes ao dever, mas
motivadas por interesses e inclinações outras, essas não têm valor moral. O valor de uma
ação moral está no respeito ao dever mesmo, sem ocupar-se de fins externos.38

Ao seguirmos no estabelecimento de conceitos importantes para a Fundamentação,


também nos deparamos com a máxima. Kant a define como um "princípio subjetivo do
querer", ao passo que a "lei prática" seria o "princípio objetivo". Em outras palavras, a
máxima se refere ao sujeito que coloca a sua vontade, por isso é princípio subjetivo. Por
outro lado, as proposições objetivas ou leis práticas "põem uma determinação como
necessária para todos os seres racionais" 39 . A máxima se apresenta, assim, como um
princípio de ação do sujeito que fará a mediação entre a lei moral abstrata e a ação concreta
do sujeito40.

Por ser o homem "de parte inteligível e de parte sensível", suas máximas podem ser
tanto materiais quanto formais, isto é, tanto direcionadas a um fim externo, quanto
constituídas a priori.41

As máximas materiais ensinam o homem a agir segundo finalidades, portanto não


são encontradas no princípio objetivo. Por outro lado, as máximas formais indicam ações
por dever, por respeito à lei moral, que é objetiva. Assim, uma ação individualizada,
conforme a lei moral, realiza a máxima, como princípio subjetivo; e a máxima realizou a lei,
como princípio objetivo. O ser racional, por respeito à lei, a aceita e faz dela sua máxima42.

A lei é princípio objetivo, universal. A lei moral é universal porque tem origem a
priori; e também porque é válida para todos indistintamente. Assim:

A lei é fruto da razão, e, por isso, é válida para todos os seres racionais de maneira
apodítica. Em uma palavra, ela não é válida sob determinadas condições, mas, sim,

38 KARINE, p. 34
39 KARINE, p. 35
40 SALGADO, p. 119
41 KARINE, p. 35
42 SALGADO, p. 120-121.
absolutamente válida. Ora, para que uma lei seja válida incondicionalmente, ela não
pode ter uma motivação exterior, ou seja, não pode estar fundada em algo
empírico. A possibilidade da lei – e do dever que estabelece justamente a
necessidade de observância desta lei - está na ideia de uma razão capaz de
determinar a vontade por motivos a priori.43

A lei moral é princípio formal, sem qualquer conteúdo de ordem material. Sua
principal característica é a universalidade, que a torna válida para todo ser racional. Se
imaginarmos uma vontade santa, sempre conforme a lei moral, a relação entre a vontade e a
lei é feita a partir de uma descrição, pois a vontade sempre coincidirá com a proposição do
princípio objetivo.

Mas o homem tem uma vontade afetada por dois mundos, o sensível e inteligível 44;
o cumprimento da lei exige respeito a ela, caso em que a máxima do sujeito será formal e
coincidente com o princípio objetivo. Assim, para o homem, a relação entre sua vontade e a
lei moral é de ordem prescritiva 45 . A lei moral prescreve ao homem um mandamento, na
ordem do dever ser, justamente porque, pela sua natureza, nem sempre o homem
direcionará sua vontade no sentido de sua razão pura prática46.

Nos dizeres de Joaquim Carlos Salgado:

O mandamento, o imperativo que expressa a lei moral só é pensável com relação a


um ser, no qual o cumprimento da lei moral não se faz sem sacrifício, isto é, no
qual a região sensível está sempre a obstaculizar a plena realização da lei moral.
Fosse o homem apenas razão (vontade não perturbável pelos sentidos, santa),
então não apareceria a lei moral sob a forma de imperativo, um mando que coage,
como: "tu deves", mas seria a pura espontaneidade da ação do ser racional. Como
o homem é formado de razão e natureza (esta como impulsos e inclinações), de
parte inteligível e de parte sensível, é necessário que esta se submeta à esfera
racional e que a razão domine totalmente a região sensível humana, para que seus
atos sejam morais, visto que a lei moral tem origem exclusiva na razão. A lei moral
na esfera das condições humanas surge, pois, como um imperativo, lei da vontade

43 KARINE, p. 37
44 SALGADO, p. 125
45 HERRERO, p. 25.
46GMS, AA IV: 412.
motivada pelo dever, de uma vontade que pode ser afetada por inclinações e
impulsos sensíveis. 47

IV. O Imperativo Categórico


V.
Na Fundamentação, Kant estabelece que um princípio objetivo, enquanto obrigatório
a uma vontade sujeita a inclinações, se expressa por meio de um mandamento, cuja fórmula
será um imperativo48. Para estudar o imperativo categórico, Kant faz antes considerações a
respeito das espécies de imperativos e da possibilidade de um imperativo categórico - tema
da última seção da Fundamentação da Metafísica dos Costumes.

A ordem de um imperativo pode ser dada de maneira hipotética ou categórica. Os


imperativos hipotéticos são condicionados, isto é, determinam-se com vistas a um efeito.
Um imperativo hipotético precisa de um meio para alcançar um determinado fim. A ação só
é obrigatória à luz do fim objetivo visado; em outras palavras, o imperativo hipotético não
apresenta uma "obrigatoriedade categórica" 49 . Os imperativos categóricos, por sua vez,
determinam uma ação como necessária por si mesma, não se condicionam por uma
finalidade externa.

Quanto aos imperativos hipotéticos, podemos classificá-los em imperativos de


destreza ou imperativos de prudência. Os imperativos de destreza, também chamados
imperativos técnicos, ditam qual o meio mais eficaz para se atingir um determinado fim,
"sem qualquer preocupação com a razoabilidade e moralidade do fim".

Já os imperativos de prudência, embora também condicionados, buscam como fim a


felicidade. Ainda assim são de natureza hipotética, vez que seu fim é externo. Os imperativos
de prudência são tomados como conselhos, enquanto os imperativos técnicos se expressam
por regras.50

47 SALGADO, p. 127
48 GMS, AA IV: 412.
49 KARINE, p. 40.
50 SALGADO, 133.
Em resumo: o imperativo técnico é o princípio da destreza, na medida em que
define a ação (ou o bem) como meio útil ou adequado a determinado fim (por isso
se chama hipotético), que alguém pode querer (problemático). O imperativo
pragmático é o princípio da prudência que define a ação (ou bem enquanto meu
bem) como o que é útil a minha felicidade (hipotético) e que é naturalmente
desejado por todos (por isso, assertório). O imperativo da moralidade define o bem
moral em si mesmo ou a ação humana enquanto boa em si mesma (por isso é
categórico) - e não apenas boa para algum fim externo a ela – e que deve ser
querida por todo ser racional (apodítico)51.

O imperativo categórico põe uma ação como devida, mas, de modo distinto dos
imperativos hipotéticos, o imperativo categórico não pressupõe uma preocupação com um
fim externo. A ação é devida por si mesma. No imperativo categórico, encontraremos uma
necessidade incondicionada. Se ele ordena de modo incondicional, então seu conteúdo será
sempre o mesmo – por isso, há um único imperativo categórico.52 Sua fórmula será assim
expressa: "Age apenas segundo uma máxima tal que possas ao mesmo tempo querer que ela
se torne lei universal."53

Kant estabelece outros modos de se enunciar o imperativo categórico. Primeiro, o


da fórmula da autonomia, segundo a qual temos que é preciso agir "de tal modo que a vontade
possa considerar-se a si mesma pela sua máxima ao mesmo tempo como legisladora
universal" 54 . Com essa fórmula, Kant sublinha um dos pontos basilares de sua teoria:
entender o homem como legislador de si mesmo.

Com isso, Kant retira a ética no campo da heteronomia, isto é, de um


comportamento moral que é regido por regras externas ao próprio homem. Ao fazê-lo, Kant
também está a colocar em destaque o valor próprio do homem. Em outras palavras:

No cerne do imperativo categórico, já é possível entrever o princípio da igualdade,


na medida em que ele é válido para todo ser racional sem distinções, e qualquer ser
racional pode chegar a ele através do uso prático da razão. Esta capacidade de o
homem se dar a sua própria lei faz dele um ser cujo valor não pode ser expresso
quantitativamente. Os seres e as coisas em geral têm um preço, ou seja, um valor

51 SALGADO, p. 133
52 KARINE, p. 43
53 GMS, AA IV: 421. 7-8.
54 HERRERO, p. 31
relativo; somente o homem possui um valor absoluto, somente ele tem dignidade.
Este valor tem grandes consequências. O homem, por expressar um valor
absoluto, não pode ser tratado como meio para atingir um fim eleito por outra
vontade.55

Com isso, podemos afirmar outra fórmula do imperativo categórico, qual seja, a da
humanidade, na qual se estatui: "Age de tal modo que uses a humanidade, tanto na tua pessoa
como na pessoa de qualquer um, sempre e ao mesmo tempo, como fim e nunca como meio
simplesmente."56

A terceira fórmula é a "fórmula do reino dos fins", assim expressa: "Age segundo
máximas de um membro legislador em ordem a um reino dos fins meramente possível." 57 O
reino dos fins, assim, descreve uma idealidade da razão prática, uma comunidade que visa
"unificação de todos os seres racionais numa legislação comum e autônoma, um reino, pois,
da razão, da liberdade e da paz." 58 Por essa fórmula, Kant constrói o ideal de uma
comunidade59 de homens iguais e em liberdade60.

O imperativo categórico não provém da experiência. Com a experiência, podemos


aprender aquilo que é, mas não aquilo que deve ser. O imperativo categórico, nesse sentido,
expressa o dever ser de uma proposição prática não-condicionada e absoluta. 61

Também podemos caracterizá-lo como universal, e por isso mesmo formal – a


materialidade, por outro lado, lhe retiraria o caráter universal. Deve exprimir uma

55 KARINE, p. 45-46.
56 SALGADO, p. 140
57 HERRERO, p. 31.
58 HERRERO, p. 31
59 A respeito do homem como membro de uma comunidade (reino dos fins), ensina o professor Salgado: "O bem

supremo ou o universal só pode realizar-se na humanidade, enquanto o homem é concebido, não como indivíduo, mas
como espécie, na ideia de uma paz perpétua no seio da comunidade humana, ideia fundamental que lhe garante um
parentesco com Hegel, reciprocamente honroso. A paz pérpetua, por outro lado, só é possível numa comunidade de
justiça, numa humanidade que tenta realizar, através das nações, a ideia de justiça, e que a realiza na medida em que a
liberdade de todos é assegurada por leis que sejam como um produto da vontade de todos. A paz perpétua, como
esforço de Kant no sentido de realizar o universal, é o coroamente da sua filosofia." Cf. Salgado, p. 143.
60 SALGADO, p. 141
61 SALGADO, p. 135
universalidade formal e "independente de fins particulares, sociais ou culturais”62. Se não é
empírico, o imperativo categórico é um juízo a priori63 – e, deve-se acrescentar, sintético.

O imperativo categórico é sintético, porque a expressão da máxima do homem (seu


princípio subjetivo, como dissemos anteriormente) não está incluída previamente na sua boa
vontade. Nos juízos sintéticos, sempre "aparece um terceiro elemento que torna possível a
ligação do sujeito com o predicado que não lhe pertence, mas que lhe é acrescentado"64.
Surge, assim, a tarefa de saber qual é o terceiro elemento que une a vontade racional à
obrigação do imperativo. Este elemento é a liberdade.

A liberdade torna possível a conexão entre a vontade pura e a vontade empírica 65, e
assim o faz porque faz de cada homem um membro do mundo inteligível e do mundo
sensível, ao mesmo tempo. Assim:

Afirmar a existência da liberdade é admitir a existência dos dois mundos a que


pertence o homem: o inteligível e o sensível. A possibilidade do imperativo
categórico se prende ao pressuposto de que o ser humano pertença aos dois
mundos. Não pertencesse ele ao mundo inteligível, então não seria possível alguma
lei moral, muito menos o imperativo categórico que é o desdobramento da própria
vontade pura como razão pura prática; não pertencesse ele ao mundo sensível,
inócuo seria o imperativo categórico, já que entre os seres não providos de
sensibilidade não há dever, nem comando a estabelecer.66

Em outras palavras, a liberdade torna possível que o homem, enquanto pertencente


ao mundo sensível e inteligível, dirija suas ações conforme os ditames da lei moral, expressa
na fórmula (ou fórmulas) do imperativo categórico. A vontade pura só consegue obrigar a
vontade empírica se o homem for livre, isto é, se determinar pela razão, e não apenas pela
causalidade da natureza. Como fenômeno, o homem está sujeito às leis da natureza, mas
como "ser em si"67, ele se determina pela sua razão, posto que é livre. Por outro lado, se o
homem existisse apenas como parte de um mundo inteligível, sua vontade seria sempre boa,
e não haveria necessidade do imperativo categórico.

62 SALGADO, p. 136
63 salgado, P. 136
64 SALGADO, p. 136
65 HERRERO, p. 29
66 SALGADO, p. 137
67 KARINE, p. 58
Considerações Finais

Na Fundamentação da Metafísica dos Costumes, Kant estabelece o supremo princípio da


moralidade e, com ele, delineia sua compreensão a respeito do homem e da liberdade. A
moral, como "etapa fundamental" 68 da Ética, é um retorno ao sujeito e à sua liberdade
interna, pela qual o homem se encaminha ao cumprimento da lei moral. Pela liberdade, o
homem pode "atingir o incondicionado", isto é, pode se entender como um ser que está para
além do sensível e que encontra morada também no mundo inteligível.

Kant lança as bases de uma Ética fundada na liberdade e na igualdade, vez que todo
ser racional pode encontrar, no uso de sua razão pura prática, a máxima conforme a lei
moral para guiar suas ações de modo autônomo e livre das causalidades do mundo sensível.
Os elementos de sua Ética são, assim, encontrados no sujeito, e não no objeto. Com isso,
inaugura-se "uma nova forma de filosofar, cuja partida é dada pela ética kantiana" 69, centrada
na razão.

68 KARINE2, p. 44
69 SALGADO, p. 67