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UNIVERSIDADE DO ESTADO DE MINAS GERAIS – UEMG

FACULDADE DE EDUCAÇÃO
TÓPICOS ESPECIAIS EM EDUCAÇÃO – LINHA 1
CULTURAS, MEMÓRIAS E PROCESSOS EDUCATIVOS

Programa De Pós-Graduação Stricto Sensu de Mestrado em Educação e


Formação Humana

O sarau de literatura marginal e suas conexões com a educação


intercultural

PRISCILA LIMA E SILVA

Professoras Drªs: Lana Mara de Castro Siman


Karla Cunha Pádua

PPGE/FAE/UEMG
Belo Horizonte
Dezembro de 2017
1. O problema de pesquisa entrelaçado as teorias interculturais

Os tópicos especiais em educação da Linha 1 se debruçam acerca de temáticas que


abordam a cultura, a memória e os processos educativos em sua relação com a educação. As
leituras propostas pela disciplina ampliaram as bases teóricas de minha pesquisa, que
investigará o potencial educativo presente nos saraus de literatura que acontecem nas escolas
estaduais de Belo Horizonte. Os jovens que se reúnem para fazer esses movimentos de
resistência, como o sarau, tem suas ideias ancoradas nas contestações culturais, que visam
romper com as crenças e os preconceitos advindos do paradigma moderno. Em grande parte, as
poesias declamadas abordam temas contemporâneos que permeiam e inquietam a vivência
sociocultural desses jovens.
Sabe-se que o uso estético das palavras é matéria de uma das artes mais antigas, a
literatura, manifestação artística que ancora os principais movimentos culturais, que fizeram
nascer no Brasil a literatura marginal a partir dos anos 90. Essa literatura passeia pelas ruas da
periferia e resgata os hábitos culturais que permeiam e singularizam esse espaço social, fazendo
com que essas narrativas literárias se desenvolvam intrinsicamente ligadas ao processo de
resistência e à luta por direitos humanos:
Trata-se, em geral, de uma literatura de auto-representação com uma dimensão
política e social importante, a enunciação de realidades invisibilizadas por parte de
setores sociais que historicamente têm tido um acesso mínimo à palavra escrita, em
um contexto no qual a língua, sobretudo escrita, tem servido como mecanismo de
dominação desde os tempos coloniais. (ARIAS, 2011, p. iii)

A celebração à essa arte acontece por meio de uma prática que ocorre desde o século
XIX: o sarau. Esse espaço cultural pretende reunir e cultivar o florescimento de diferentes
identidades culturais. Sendo assim, percebe-se que nas últimas décadas têm se intensificado os
estudos em torno da crítica cultural, estudos estes que demonstram a legitimidade de se
conceber os conflitos culturais como matéria para a produção de conhecimentos sobre o ser
humano e suas relações no mundo e com o mundo. Além disso, as transformações subjetivas e
objetivas perpassam a história do mundo e, em grande parte, encontram-se intimamente ligadas
aos diferentes momentos culturais pelos quais o homem e as sociedades vivenciaram.
As crises socioculturais, principalmente aquelas ocorridas em nações marcadas por
processos de colonização, são responsáveis por aflorar o pensamento crítico e provocar
questionamentos que mudam o modo como os indivíduos veem o mundo e como atuam sobre
ele. Consequência advinda da criticidade, esses novos movimentos libertários surgiram e as
ciências humanas fortificaram suas bases e se consolidaram ao romper e superar o paradigma
hegemônico de racionalidade moderna: o homem passou a ser produto e também produtor da
realidade e do conhecimento. Nesse emergente cenário, a ideia de uma cultura única tornou-se
insustentável, dando lugar aos estudos culturais, as quais procuram reinventar a percepção
cultural.
Em meio a esse universo, assiste-se um interesse por estudos que focalizam as culturas
marginalizadas, as quais tem se consolidado com obras artísticas que enunciam as realidades,
contextos e saberes que antes foram silenciadas historicamente. Por isso, o desejo de aprofundar
os estudos sobre a arte marginal reside na relação intrínseca que esta pesquisadora sempre
manteve com o mundo das letras e da literatura: tenho consciência de que os momentos em que
a semente do conhecimento melhor floresceu em mim foram aqueles em que passei juntando
as palavras e construindo os sentidos.
A crença na arte literária como potencial para a mudança e transformação das situações
de opressão e relações de poder fortalece estudos que visam produzir conhecimento sobre as
vivências culturais e formas de expressão de determinados grupos. Para completar, os conflitos
culturais denotaram a inexistência de uma homogeneidade cultural em detrimento das
narrativas da diferença e da diversidade cultural.
Por isso, a emergência dos novos movimentos sociais colocou em evidência a discussão
sobre os conceitos de igualdade e diferença e, consequentemente, sobre a necessidade de uma
educação intercultural. De acordo com Candau (2002) “a interculturalidade orienta processos
que têm por base o reconhecimento do direito à diferença e a luta contra todas as formas de
discriminação e desigualdade social” (CANDAU, 2002, p. 14). Dessa maneira, a perspectiva
intercultural defendida por Candau (2002) visa promover
uma educação para o reconhecimento do “outro”, para o diálogo entre os diferentes
grupos sociais e culturais. Uma educação para a negociação cultural, que enfrenta os
conflitos provocados pela assimetria de poder entre os diferentes grupos
socioculturais nas nossas sociedades e é capaz de favorecer a construção de um projeto
comum, pelo qual as diferenças sejam dialeticamente incluídas. (CANDAU, 2002, p.
23)

A partir desse apontamento, compreende-se que a literatura marginal e os saraus podem


ascender a autonomia de culturas que buscam, por meio da arte literária, a ressignificação e a
afirmação de suas identidades, propondo novos significados e contornos para determinadas
práticas sociais construídas e enraizadas na memória sociocultural de uma nação:
As primeiras formas de resistência assumiram expressões locais. O sentimento de
“exclusão social” – resultado da perda de direitos – tendem a promover novas formas
de organização, de protesto e de consciência de vínculo. [...]. Assim, enquanto a
globalização neoliberal avança por cima, [...] eram desenvolvidas experiências locais
– de governo, de movimentos sociais, de políticas setoriais – que renovavam a prática
social e política (Santos, 2002, p. 656-657).
Assim sendo, as bases teóricas que sustentam esta pesquisa puderam ser ampliadas ao
longo do curso e ancoram-se também nas constatações de Walsh (2009) e Candau (2013), no
que diz respeito a perspectiva multicultural. O termo multiculturalismo vem travando uma luta
contra ideologias que perpassam os seus significados e atribuições. Alguns críticos têm
associado a política multicultural com as formas hegemônicas de ser e estar no mundo,
enquanto outros entendem essa política como uma saída para uma reforma educacional de
problematização e visibilidade à diversidade cultural:
o debate multicultural na América Latina nos coloca diante da nossa própria formação
histórica, da pergunta sobre como nos construímos socioculturalmente, o que
negamos e silenciamos, o que afirmamos, valorizamos e integramos na cultura
hegemônica. A problemática multicultural nos coloca de modo privilegiado diante dos
sujeitos históricos que foram massacrados, que souberam resistir e continuam hoje
afirmando suas identidades e lutando por seus direitos de cidadania plena na nossa
sociedade, enfrentando relações de poder assimétricas, de subordinação e exclusão.
(CANDAU, 2009, p. 17)

Segundo Candau (2009), uma das maiores dificuldades de se adentrar na perspectiva


multicultural tem estreita relação com essa polissemia atribuída ao termo. Por isso, a autora não
esconde sua predileção por aquilo que denomina multiculturalismo interativo ou
interculturalidade. Essa interculturalidade tem como características principais a promoção da
inter-relação entre diferentes grupos sociais; a concepção de que as culturas encontram-se em
contínuo processo de elaboração, de construção e reconstrução; tem consciência de que as
relações culturais são marcadas por questões de poder e hierarquia e acredita que nas sociedades
atuais os processos de hibridização cultural são intensos e mobilizadores da construção de
identidades abertas e em permanente construção (CANDAU, 2013, p. 22-23)
Consonante ao pensamento de Candau (2013), Catherine Walsh (2009) acredita que o
conceito de interculturalidade reveste-se de especial importância para a superação dos legados
deixados pela colonialidade, pela modernidade e pelo pensamento eurocêntrico, principalmente
nas instituições educacionais. Nesse sentido, Walsh trabalha com dois conceitos chave para a
ruptura com as ideias cultivadas pelo paradigma moderno: a interculturalidade crítica e a
descolonialidade. Esses conceitos assinalam:
a necessidade de visibilizar, enfrentar e transformar as estruturas e instituições que
diferencialmente posicionam grupos, práticas e pensamentos dentro de uma ordem e
lógica que, ao mesmo tempo e ainda, é racial, moderno-ocidental e colonial. Uma
ordem em que todos fomos, de uma maneira ou de outra, participantes. Assumir esta
tarefa implica em um trabalho de orientação de-colonial, dirigido a romper as
correntes que ainda estão nas mentes [...] Um trabalho que procura desafiar e derrubar
as estruturas sociais, políticas e epistêmicas da colonialidade – estruturas até agora
permanentes – que mantêm padrões de poder enraizados na racialização, no
conhecimento eurocêntrico e na inferiorização de alguns seres como menos humanos.
(WALSH, 2009, p. 24)

Nesse sentido, o desejo de investigar a literatura marginal e o sarau como um espaço de


educação intercultural se firma, principalmente, na concepção da interculturalidade como “um
espaço de negociação e tradução onde as desigualdades sociais, econômicas e políticas, e as
relações e os conflitos de poder da sociedade não são mantidos ocultos e sim reconhecidos e
confrontados” (WALSH, 2001: 10-11 apud CANDAU, 23)
Assim sendo, a pesquisa tem como foco principal a problematização das transformações
socioculturais ocasionadas pelo paradigma moderno, concebendo estas metamorfoses como
salutares para acentuar as situações de opressão, as desigualdades e, por outro lado, visibilizar
as lutas sociais propostas pelos movimentos libertários, tendo como lócus principal a literatura
marginal e os saraus como prática de educação intercultural.
A transitoriedade e a hibridação das culturas denunciam a necessidade de discutir nos
espaços educativos os processos culturais e a diversidade de culturas advindas desses processos.
Por isso, as discussões empreendidas nas aulas contribuíram para a compreensão de que os
estudos em torno da cultura podem reconstruir e redefinir outras maneiras de ser, viver e saber
por meio da interculturalidade crítica, a qual propõe ações que visam construir outras formas
de pensar e produzir conhecimentos.

2. Referências Bibliográficas

ARIAS, Alejandro Reyes. Vozes dos Porões: A Literatura Periférica do Brasil. Tese
(Doutorado em Filosofia e Línguas e Literaturas Hispânicas). University of California,
Berkeley, 2011.

CANDAU, Vera Maria. Nas teias da globalização: cultura e sociedade. In: CANDAU, Vera
Maria. Sociedade, educação e cultura(s): questões propostas. Rio de Janeiro: Vozes, 2002.

SANTOS, Boaventura de Sousa (Org.). Democratizar a democracia: os caminhos da


democracia participativa. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2002.

WALSH, Catherine. Interculturalidade, critica e pedagogia decolonial: in-surgir, re-existir e re-


viver. In: CANDAU, Vera Maria (Org). Educação intercultural na América Latina: entre
concepções, tensões e propostas. Rio de Janeiro: 7 Letras, 2009.