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A ALIENAÇÃO NEGRA EM FACE DA PERDA DE SUA IDENTIDADE

CULTURAL, EM O BATIZADO, DE CUTI

Hannah Isabel Sousa Aragão Silva*

RESUMO

O presente trabalho propõe o estudo do conto O batizado, de Cuti. O referido conto faz parte da
coletânea Cadernos Negros: Os melhores Contos, publicada em1998. Neste sentido, a proposta do
trabalho busca historicizar o surgimento dos Cadernos Negros, bem como, a sua importância no
cenário literário, com ênfase na literatura afro-brasileira. Além disso, procuramos demarcar no conto,
a alienação de alguns personagens diante da sua negação como ser negro e de sua identidade cultural,
tendo como aporte teórico, as concepções de Frantz Fanon sobre mascaramento da raça e de Kabengel
e Munanga sobre a identidade negra, dentre outros.

Palavras-chave: Cadernos Negros. O batizado. Cuti. Alienação. Identidade cultural.

ABSTRACT

This paper presents a study of the story The baptized by Cuti. The abovestoryis part of the collection
Cadernos Negros: Os melhores Contos, published in 1998. In this sense, the proposed work aims to
historicize the emergence of Cadernos Negros, as well asits importance in thel iterary scene, with an
emphasis on literature african-Brazilian. In addition, we demarcate the tale, the alienation of some
characters before his denial as being black and of their cultural identity, having as theoretical, the
concepts of Frantz Fanon on race and masking Kabengel e Munanga about black identity among
others.

Key-words: Cadernos Negros.The baptized. Cuti. Alienation. Cultural identity.

1 INTRODUÇÃO

A primeira edição dos Cadernos Negros foi em 1978. Como assinala Aline Costa,
em seu texto Um pouco de História de Cadernos Negros-período de 1978 a 2008, publicado
no volume especial Cadernos Negros Três Décadas e que versa sobre a criação e a luta para a
sustentação da série Cadernos Negros, o Brasil estava experimentando nas décadas passadas
as agruras da ditadura militar e nesse ano em questão, muitas mudanças estavam acontecendo,
tais como, a suspensão do AI-5 pelo presidente Ernesto Geisel, as eleições e a reconstrução e
mobilização política e ideológica dos sindicatos e movimentos estudantis, além de ser um ano
marcante para os movimentos negros por demarcar os noventa anos de assinatura da Lei
Áurea.
A publicação surgiu da necessidade de colocar o negro em um patamar de
visibilidade, torná-lo protagonista da sua própria história. No projeto inicial, os escritores
Luiz Silva (Cuti), Hugo Ferreira, Henrique Cunha Jr., Ângela Lopes Galvão, Eduardo de


*
Mestre em Letras pela UESPI. Professora efetiva de Língua Portuguesa- IFPI-Campus Parnaíba. E-mail:
hannah.isabel@ifpi.edu.br
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Oliveira, Celinha, Jamu Minka e Oswaldo de Camargo idealizaram um livro em formato de


bolso com 52 páginas, que era vendido principalmente em grandes lançamentos e que
circulou de mão em mão, sendo distribuído para poucas livrarias, agradando muito aqueles
que o leram.
Desde 1983, a publicação anual dos Cadernos Negros é viabilizada pelo grupo
Quilombhoje,o grupo arca com parte dos recursos e a outra parte é dividida pelos autores
participantes, em um processo cooperativo que tem permitindo superar as barreiras impostas
pelo mercado. Todos os anos, são lançados outros volumes, alternando contos e poemas de
estilos diversos, contando, inclusive, com a colaboração de diversos escritores e poetas
brasileiros.
Como não existem outras antologias organizadas e estruturadas apenas com textos
de escritores afro-brasileiros, os Cadernos Negros assumem uma posição muito importante na
disseminação e visibilidade dos textos escritos por negros brasileiros. O material publicado
nos Cadernos tem sido fonte para ensaios, teses e estudos diversos por parte de estudantes de
Letras, pesquisadores e professores universitários.
Seja como forma de resistência cultural ou no campo estético, os Cadernos têm
proporcionado boas oportunidades para o exercício de criação literária diferenciada,
possibilitando que os descendentes de africanos brasileiros passem de objeto a sujeitos da
escrita, enriquecendo ainda a discussão a respeito da questão racial.
O livro Cadernos Negros: Os Melhores Contosreúne os melhores contos
publicados nos volumes 01 ao 19 de Cadernos Negros, volumes esses, que estão esgotados. A
partir de uma seleção feita por algumas pessoas convidadas, muitos contos são apresentados,
delineando narrativas repletas de poesia e de um sentimento de valorização do que de é de
mais importante na luta negra: o resgate de sua identidade.
Para mostrar como é delineada a voz narrativa do negro brasileiro e refletir sobre
a maneira como ele se vê e é visto na sociedade a que está inserido, além de demarcar as
ações de preconceito e de gradativa perda da sua identidade foi escolhido como objeto de
análise desse trabalho, o conto O batizado, de Cuti, encontrado na coletânea dos Cadernos
Negros: Os Melhores Contos.

2 O BATIZADO DE CUTI, TENTATIVA DE RESGATE DA IDENTIDADE


CULTURAL NEGRA.

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Os escritores afro-brasileiros e sua produção estão no que Silviano Santiago


(1978) define como o “entre-lugar” o espaço existente entre a assimilação da cultura europeia
(reduto do colonizador) e a perda das raízes africanas (espaço do colonizado). É, habitar esse
“entre-lugar” que permite o resgate da identidade cultural e o conhecimento dos elementos
fundadores da cultura a que se pertence.
Luiz Silva (Cuti) é um desses autores negros que procuram resgatar a identidade
negra através dos seus textos, engajando-se na luta contra o preconceito e contra a violência
simbólica e visível que acomete os afro-brasileiros. Sua obra literária é vasta, composta de
poemas, contos, peças teatrais e, ainda, de reflexões sobre a literatura afro-brasileira. O autor,
em toda a sua obra, opta pelo uso de uma heterogeneidade de linguagens, cercando-se de
recursos estilísticos importantes como a ironia, a paródia, a paráfrase e a alusão.
Em sua obra, a voz dos marginalizados torna-se audível, desse modo, exterioriza
os sentimentos causados pela prática do racismo e da discriminação racial, condenando essas
atitudes e a sociedade que as autorizam, além disso, Cuti coloca em cena o cotidiano das
pessoas e de suas relações sociais.
No conto O batizado, Cuti cria uma história em que um homem negro é colocado
frente à perspectiva de assumir suas raízes ou negá-la completamente. Vejamos o que
Mundim (2011, p.174) afirma sobre o texto acima referido:

O conto de Cuti faz um recorte de uma situação vivida cotidianamente pelos


negros brasileiros: ou assumir sua descendência africana e valorizar suas
raízes ou tentar assimilar os valores do mundo dos ex-senhores de escravos e
integrar-se à cultura herdada deles.

Observa-se, também, nesse conto, uma tensão advinda das questões que envolvem
atos preconceituosos. O conto mostra a discordância, a falta de harmonia e consenso de uma
família durante uma festa de batizado. Paulino, filho de dona Isaltina e Belmiro é o elemento
responsável por isso, seu irmão, Tico e sua cunhada, Zuleica, festejam o batismo de Luizinho.
Nesse acontecimento, que reúne várias pessoas da família e do bairro, o protagonista, que é
responsável por coordenar movimentos em prol dos negros, expõe sua revolta pelo fato de que
sua própria família não adere às causas de sua cor.
Paulino começa a tomar contato com os ideais da população negra, e tenta de
alguma forma chamar a atenção de sua família em prol dessa causa. Dentro desse contexto, no
batizado de seu sobrinho, que se chama Luizinho, e que terá padrinhos brancos, ele tenta fazer
com que seus parentes negros percebam a perda da identificação cultural deles com a
população e com a cultura negra.
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Vejamos o trecho abaixo:


(...)
- Ouviram todos vocês? Eu acabo de dizer, com este exemplo nas mãos, da
quebra da nossa identidade negra. Ouçam o nome de meu adorado sobrinho:
Luizinho... Já não chega o sobrenome Oliveira! Luiz é nome de qual
ancestral?
Refere-se a qual matriz cultural?
(...)
- E reparem na contradição. Minha família, depois de negar suas raízes, com
esse batizado, ainda tenta me impedir de falar. A alienação é dupla. Querem
me impor censura! Fosse o nome escolhido um nome africano, como por
exemplo Kalungano, Sawandi, Kwame, Omowale, ou um nome dado por
nossas verdadeiras religiões, e eu não estaria aqui dizendo essas palavras.
Mas, com nome africano cartório põe areia, não é mesmo? E nós o que
fazemos?
Recuamos, ao invés de reivindicar o direito à identidade cultural. Você aí,
que é o padrinho, eu percebo que está rindo de mim. Claro, você é branco.
Um branco padrinho de preto. Mais um! (CUTI, 1998, p. 46-47).

Na família representada pelo conto de Cuti, escolher um nome que não é africano,
colocar como padrinhos do menino negro um casal de brancos, distanciar-se da cultura e dos
traços religiosos africanos é valorar como mais importante a aproximação com a cultura dos
brancos e com aquilo que eles consideram como sendo virtudes, o que Paulinho considera
como sendo uma profunda alienação e contradição. Essa, então, passa a ser a temática do
texto, de um lado, negros que se esforçam para preservar suas raízes; de outro, aqueles que
aceitam a sua condição de inferioridade, auto discriminando-se.
Frantz Fanon, no seu mundialmente lido Pele negra, máscaras brancas (2008)
considera que o negro não se aceita como indivíduo negro e muitas vezes se reveste dos
hábitos, dos modos de vida e da absorção cultural dos brancos para ser aceito e para diminuir
um sentimento de inferiorização que o consome. Vejamos o que ele afirma sobre essas
questões:

O problema é saber se é possível ao negro superar seu sentimento de


inferioridade, expulsar de sua vida o caráter compulsivo, tão semelhante ao
comportamento fóbico. No negro existe uma exacerbação afetiva, uma raiva
em se sentir pequeno, uma incapacidade de qualquer comunhão que o
confina em um isolamento intolerável. (FANON, 2008, p. 59)

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E é justamente, essa exacerbação afetiva, a que Fanon se refere que impulsiona o


negro a se assemelhar ao branco, numa tentativa de mascarar suas raízes e identidades e
gradativamente ficar mais parecido com o branco e com seus ideais de beleza e de virtude.
Outra personagem do conto, Zuleica, cunhada de Paulino e mãe de Luizinho,
também procura mascarar e negar sua identidade, assumindo características que não fazem
parte da cultura negra. Ao perceber que o rapaz está “estragando sua festa”, desabafa:“___ Que
barulheira é essa aqui? Lá vem você de novo estragar a festa, rapaz? Cala essa boca! Se quiser
pôr nome africano, põe no teu filho. Vai fazer filho primeiro. [...]”(CUTI, 1998, p. 48).
Em outro trecho lê-se:

Mágoas passadas acionam o impulso de Zuleica. É bonita e se orgulha de ter


conseguido um perfeito alisamento dos cabelos. Desenvolvera o cacoete de
jogá-los para trás. Adora dias de muito vento. Sentia um incômodo ao ver
mulheres com seus cabelos naturais. A onda do cabelo black fustigara
Zuleica em sua vaidade. Várias vezes expressara-se contra: “Eu, hein!...Usar
cabelo picumã? Eu não!...” (CUTI, 1998, p. 48).

As expressões “se orgulha de ter conseguido um perfeito alisamento dos cabelos”


“Sentia um incômodo ao ver mulheres com seus cabelos naturais” e “Eu, hein!... Usar cabelo
picumã? Eu não!...”mostram a aversão de Zuleica às características inerentes a raça negra, ao
alisar seu cabelo e recusar usá-lo enroladinho no estilo black marca a negação de sua condição
fenotípica.
Refletindo sobre as questões de mascaramento da raça, Fanon (2008, p.56) afirma
ainda que “[...] o branco e o negro representam os dois polos de um mundo, polos em luta
contínua, uma verdadeira concepção maniqueísta do mundo; [...]. Sou branco, quer dizer que
tenho para mim a beleza e a virtude, que nunca foram negras”. Na visão de Fanon, a
sociedade está dividida em dois polos distintos e opostos, nos quais, existe um ideal de
virtude e de representação do bom, do belo, consagrado pelo branco e pelas suas relações. O
negro, ao negar-se, assumindo as características do branco, veste-se com uma máscara branca,
que o coloca em uma situação de aceitação social mais favorável, como se de fato branco
fosse.
No conto em análise, percebe-se claramente essa alienação e essa tentativa de
mascaramento da identidade negra. Todos os parentes de Paulino posicionam-se contra seus
ideais de manutenção e preservação da identidade negra e africana, eles o apelidam de macaco

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e argumentam que ele iniciou essas ideias relacionadas à raça, depois de começar a namorar
uma “negrinha”.
Dona Isaltina desaprova e sente vergonha do comportamento do filho no batizado.
Na tentativa de apontar justificativas para seu comportamento diferente do restante da família,
culpa sua nova namorada, “não anda bom não era revoltado desse jeito deve ser coisa daquela
negrinha metida depois de conhecer ela mudou da água pro vinho [...]” (CUTI, 1998, p. 44).
O vocábulo “negrinha” é utilizado em um sentido pejorativo, um enunciado carregado de
preconceito. Percebe-se claramente o desprezo de um negro que vem de outro negro, algo que
demonstra a falta de união, mas principalmente de compreensão e entendimento de seus
próprios anseios.
A família não percebe que os argumentos de Paulinho têm grande fundamento,
pois entre eles, há uma profunda ausência da consciência da identidade cultural negra, eles
mesmos configuram-se como pessoas preconceituosas e racistas, e não se reconhecem como
tais, estão envoltos em um processo de alienação que os impedem de se identificarem também
como negros.
Corroborando com isso, Kabengel e Munanga, no seu livro intitulado Negritude:
usos e sentidos (2012, p.11) assinala que:

Se o processo de construção da identidade nasce a partir da tomada de


consciência das diferenças entre “nós” e “outros”, não creio que o grau dessa
consciência seja idêntico entre todos os negros, considerando que todos
vivem em contextos socioculturais diferenciados. Partindo desse
pressuposto, não podemos confirmar a existência de uma comunidade
identitária cultural entre grupos de negros que vivem em comunidades
religiosas diferentes, [...] em comparação com a comunidade negra militante,
altamente politizada sobre a questão do racismo, ou com as comunidades
remanescentes dos quilombos.

D. Isaltina, Belmiro, Joana, Tico e Paulino são de uma mesma família, unidos
pelos mesmos laços de sangue, pertencentes a um mesmo grupo étnico, mas que não
compartilham os mesmos ideais. A família de Paulino é uma alegoria para a representação da
comunidade negra, que em alguns casos, vem se distanciando de suas raízes e se deixando
dominar pelos valores ideológicos dos brancos.
A censura a Paulino, também vem de seu pai, Belmiro, que discordando e de certo
modo, desconhecendo as atitudes do filho, deseja intervir, até mesmo usando a força física,
como pode ser percebido no trecho a seguir:“___ Tico, sai da frente, filho. Eu preciso dar uma

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lição nesse moleque. Sai, Tico, ou eu não respondo por mim__ Belmiro tem as mãos trêmulas,
os olhos turvos”.(CUTI, 1998, p.47).
O patriarca assume essa posição contrária ao filho, Paulino, em benefício da
harmonia da festa oferecida por Tico e Zuleica e da aprovação das pessoas que ali se
encontram. Pelo texto, percebe-se que o senhor se preocupa menos com a festa e mais com a
imagem de sua família, com aquilo que os outros iriam pensar, principalmente, os padrinhos
brancos de Luizinho.
O primeiro neto sendo festejado, depois de um batismo cheio de
cumprimentos, respeito, orgulho... Não! O Paulino com a conversa de seu
movimento não pode estragar a festa não vai me tirar do sério se conseguir
será de uma vez por todas ainda sou o chefe da casa se não tiver bem com a
família vai então morar lá com seu movimento fala fala fala em prol da raça
e agora quer estragar tudo dar show pra essa gente branca ver... não...
(CUTI, 1998, p. 41, grifo nosso).

Por não aceitar o gesto do filho, Belmiro deixa implícito não admitir
manifestações de defesa de sua raça, ele considera que Paulino está em um movimento que
não o representa, pela expressão “conversa de seu movimento”, deixa transparecer a não
identificação com os ideais do filho.
Com isso, perpassa-se que a ideologia branca sufoca a identidade deum segmento
populacional marcado pelo estigma de sua cor e pelas inúmeras situações de violência e
preconceito que historicamente sofreram, tem-se a impressão de que o sr. Belmiro já está
habituado com a situação de inferioridade e não considera útil uma luta pela valorização de
sua cultura e por aquilo que representa ser negro.
No conto, Paulino mostra ser um rapaz engajado no movimento negro de
aceitação e de luta contra o preconceito, pelo seu discurso ele se articula politicamente como
um ser consciente das mazelas, das quais tradicionalmente seu povo foi vítima, e que busca se
auto- reconhecer como cidadão, brasileiro e negro. Ainda não tinha conseguido entrar na
universidade, fato este, que é colocado por seu irmão Tico, como sendo o causador de seu
comportamento inesperado. ‘[...] o Lino anda só entusiasmado não é um cara ruim é preciso
entendê-lo a gente em época de vestibular fica assim mesmo tá certo ele faz mal de misturar
tanto estudo com esse negócio de raça [...]’ (CUTI, 1998, p. 45).
Paulino aceitava-se como negro e mais do que isso, ele não era alienado, sabia
perfeitamente que situações de preconceitos e de violência seu sobrinho iria ser submetido por
toda a vida, esperava somente, que sua identidade cultural também fosse reconhecida como
diferente e importante como a dos brancos.

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Kabengel e Munanga (2012, p.43) reflete sobre a recusa que o negro demonstra
em muitas situações contra a assimilação da cultura e dos bens do branco em detrimento da do
negro. Diz ele:
Aceitando-se, o negro afirma-se cultural, moral, física e psiquicamente. Ele
se reivindica com paixão, a mesma que o fazia admirar e assimilar o branco.
Ele assumirá a cor negada e verá nela traços de beleza e de feiura como
qualquer ser humano “normal”.

Paulino aceitava-se como negro e tentava estimular a sua família a se aceitar e a


valorizar os aspectos inerentes a raça, numa tentativa de transformá-los em “normais” e
“aceitáveis” na sociedade em que estavam inseridos.
Os excertos acima são importantes para mostrar que, por causa da herança
histórica deixada pelos séculos de escravidão que o Brasil experimentou o preconceito contra
o negro tem sido e ainda é, um dos mais arraigados em nossa experiência histórica, o que no
conto em análise, se apresenta de forma pior, pois é o preconceito que o próprio negro tem
com os de sua raça e a alienação em não aceitar os aspectos inerentes de sua identidade.
Como afirma Brookshaw (1983, p. 12), “o negro, mesmo antes de ter sido
escravizado, tinha um defeito que serviu como justificativa para a sua escravatura, e esse
defeito era a sua cor”. Desse modo, a cor negra era algo que o desmerecia, daí porque, pouco
a pouco, foi difundida a ideia de “branqueamento” da sociedade, o que significava apagar ou
mascarar na perspectiva de Fanon, os traços negros da população local, como se só assim “os
filhos de Caim” pudessem alcançar a redenção.

3 CONSIDERAÇÕES FINAIS

No conto O batizado, de Cuti, a fragmentação da família, a desarmonia familiar


frente às concepções políticas de enfrentamento às ações de violência e de preconceitos,
apontam para uma total alienação e não afirmação da identidade de um grupo, algo que
contribui para a dificuldade do restante da família de entender e aceitar as concepções tão
duras e “radicais” de Paulino diante do batizado do sobrinho. Não só isso, nas situações
narradas, a visão que o próprio negro tem de si é carregada de estereótipos, de preconceitos e
de uma profunda alienação frente a sua identidade.
A identidade brasileira e negra é constituída mediante as relações estabelecidas
através da aceitação do negro pelo branco. A tentativa de ser aceito, de ter uma boa reputação
frente à sociedade não permite que os costumes, tradições negras e africanas sejam

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perpetuadas. O sobrinho de Paulino foi batizado segundo as tradições católicas, o que o


desagrada, possui um padrinho branco, como se para ser aceito posteriormente tivesse que ser
resguardado por uma pessoa de pele branca. A família do rapaz não consegue compreender
sua atitude como uma forma de resistência e de luta organizada contra a massificação de sua
cultura, confirmando, inclusive, com palavras e atos, as ideias preconceituosas e dominadoras
muitas vezes perpassadas pela sociedade em que estamos inseridos.

REFERÊNCIAS

BROOKSHAW, David. Raça e cor na literatura brasileira. Porto Alegre: Mercado Aberto,
1983.

CUTI. O batizado. In: Cadernos Negros: Os melhores Contos. São Paulo: Quilombhoje,
1998.

_____. Negroesia. Belo Horizonte: Mazza Edições, 2007.136 p.

FANON, Frantz. Pele negra, máscaras brancas. Salvador: EDUFBA, 2008.

MUNANGA, Kabengele. Negritude: usos e sentidos. 3. ed. Belo Horizonte: Autêntica


Editora, 2012.
MUNDIN, Rosa Maria Santos. Conquista da palavra e voz: a busca de uma identidade nos
contos dos Cadernos negros. In: FERREIRA, Elio; MENDES, Algemira de Macedo (Org).
Literatura afrodescendente: memória e construção de identidades. São Paulo: Quilombhoje,
2011.
SANTIAGO, Silviano. Uma Literatura nos trópicos. São Paulo, Perspectiva, 1978.

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