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PODER JUDICIÁRIO
Tribunal de Justiça do Estado do Rio de Janeiro
DÉCIMA PRIMEIRA CÂMARA CÍVEL
Embargos de Declaração no Agravo de Instrumento nº 2009.002.20523
Relator: Desembargador JOSÉ CARLOS DE FIGUEIREDO
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EMBARGOS DE DECLARAÇÃO.

Inexistindo no acórdão qualquer dos defeitos


constantes do elenco do art. 535 do CPC, isto é
obscuridade, contradição ou omissão, restam
improsperáveis os embargos declaratórios opostos.
Não provados nem verificados os defeitos aduzidos. O
legislador constituinte dispôs claramente no §3º, do
art. 226 da Carta Política, que: “Para efeito da
proteção do Estado, é reconhecida a união estável
entre o homem e a mulher como entidade familiar,
devendo a lei facilitar sua conversão em
casamento”.
Portanto, a decisão que afasta a competência da
Vara de Família, para resolver questões relativas a
união homoafetiva, não ofende os princípios da
igualdade, dignidade da pessoa humana, dentre
outros, ínsitos nos arts. 1º, III, 3º, IV, 5º, caput e
inciso I, 7º, XXX da Constituição da República,
invocados pela parte interessada, que deixou de
observar a norma supra referida.

RECURSO IMPROVIDO.

Vistos, relatados e discutidos estes autos dos


Embargos de Declaração deduzidos no Agravo de Instrumento nº
20523/2009, em que figuram como embargante ANA MARIA

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Embargos de Declaração no Agravo de Instrumento nº 2009.002.20523
Relator: Desembargador JOSÉ CARLOS DE FIGUEIREDO
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CORREA DE OLIVEIRA e como embargada ANA CRISTNA RAMADA


RANGEL,

ACORDAM os Desembargadores que compõem a


Décima Primeira Câmara Cível do Tribunal de Justiça do Estado do
Rio de Janeiro, à unanimidade, conhecer os embargos, negando-
lhes provimento, nos termos do voto do Desembargador Relator.

Sustenta a Embargante, em síntese, que em


contrariedade ao agravo desenvolveu várias teses, com lastro
constitucional; especificamente foram citados os arts. 1º, III, 3º, IV,
5º, caput e inciso I, 7º, XXX e 226 todos da Constituição da
República; pré-questiona os dispositivos, esperando o provimento
do recurso.

É o relatório.

O Superior Tribunal de Justiça, como alerta o


Ministro Teori Albino Zavascki, no REsp nº 916.609-RJ, tem
entendido pacificamente que:

“É entendimento sedimentado o de não haver omissão no acórdão


que, com fundamentação suficiente, ainda que não exatamente a
invocada pelas partes, decide de modo integral a controvérsia posta.
Os embargos de declaração (fls. 258/260) limitaram-se a postular a
manifestação do Tribunal acerca de diversas normas jurídicas - o que
se mostrava totalmente desnecessário ante a suficiente
"o julgador
fundamentação do aresto embargado. Ademais,
não precisa responder a todas as alegações das
partes se já tiver encontrado motivo suficiente
para fundamentar a decisão nem está obrigado a

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ater-se aos fundamentos por elas indicados" (REsp


885.454/DF, Min. Castro Meira, 2ª T, DJ 28.02.2007).”

“Não é o simples fato de ter adotado, quanto a


norma de direito federal, tese discrepante da adotada em acórdão
de outro tribunal que necessariamente desacredita a decisão
recorrida.” José Carlos Barbosa Moreira, in Temas de Direito Processual,
Saraiva, 1997, pág. 127.

Como salientado:

A despeito de ter sido invocado um julgado onde o Superior


Tribunal de Justiça reconheceu a competência do juízo de
família, o entendimento ainda predominante neste Tribunal é o
de que deve ser feita a interpretação da norma de organização
judiciária estadual, a ensejar que o feito tramite perante o juízo
cível.

Neste sentido, à guisa de exemplo, o julgado assim ementado:

RELAÇÃO HOMOAFETIVA. ALIMENTOS


VARA DE FAMILIA. UNIAO ESTÁVEL
INTERPRETAÇÃO ANALÓGICA – IMPOSSIBILIDADE.
Relação homoafetiva. Ação de alimentos. Competência. Vara
de família. Analogia com a união estável. Impossibilidade. 1.
As ações de alimentos cuja causa de pedir seja a relação
homoafetiva, pretendendo equiparação por analogia com a
união estável entre um homem e uma mulher, devem ser
analisadas pelo juízo de família, considerando que não se
está discutindo sociedade de fato. 2. No mérito, a
equiparação da relação homoafetiva com a instituição da
família não se mostra admissível enquanto o texto
constitucional, bem como o direito infraconstitucional (art.
1.723 do C. Civil), referirem expressamente que a entidade
familiar é formada por um homem e uma mulher. 3. A única
semelhança que de princípio se pode apontar da relação

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homossexual com a família nascida do relacionamento entre


pessoas de sexos diferentes, é o afeto. Mas o afeto, ainda
que seja reconhecido pela doutrina moderna do direito de
família como o elemento mais importante da relação
familiar, ainda não é fonte por si só de obrigações. 4. Ainda
assim, se a relação chegou ao fim, e portanto não há mais
afeto, é impossível julgar a ação reconhecendo obrigação
alimentar cuja fonte seria exatamente o afeto, inexistente a
esta altura. Quando se desfaz um vínculo afetivo que
resultou em família reconhecida pela ordem jurídica, como a
decorrente do casamento ou da união estável, o que gera a
continuidade do devedor de solidariedade é o vínculo
jurídico, inexistente na relação homoafetiva. 5. Portanto,
ainda que a relação entre as partes tenha se formado com
base na liberdade e no afeto, hoje estão elas desavindas,
sendo certo que não pode existir vínculo obrigacional sem
fonte, que se resumem, na lição de Caio Mário, a duas: a
vontade e a lei. Apelação Cível nº 4634/2007, DES.
MARCOS ALCINO A TORRES - Julgamento: 24/04/2007 -
DECIMA SEXTA CAMARA CIVEL.
No mesmo sentido o julgamento das Apelações Cíveis nºs
30031/2008, 483/2007, 9002/2008, trazidas à colação pelo
Ministério Público.

É certo que a d. Defensoria invoca vários princípios


constitucionais em abono a tese favorável a Agravada, ora
Embargante, entretanto, não pode desconsiderar o que dispõe o
§3º do art. 226 da Carta Política, buscando apenas a norma do
caput do mesmo dispositivo.

O legislador constituinte dispôs claramente no


aludido §3º, que: “Para efeito da proteção do Estado, é
reconhecida a união estável entre o homem e a mulher como
entidade familiar, devendo a lei facilitar sua conversão em
casamento”. G R I F A M O S

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A decisão que não reconhece a competência da


Vara de Família, para resolver questões relativas a união
homoafetiva não ofende os princípios da igualdade, dignidade da
pessoa humana, dentre outros, ínsitos nos arts. 1º, III, 3º, IV, 5º,
caput e inciso I, 7º, XXX da Constituição da República.

Ademais, os elementos caracterizadores da União


Estável, nos termos do §3º do art. 226 da CF, não são apenas a
estabilidade, continuidade, durabilidade, publicidade e o objetivo
de formar família, como quer fazer crer a ora Embargante, pois
antes de todos estes requisitos, há um principal a ser cumprido,
qual seja, o de que os interessados em viver daquela forma,
assemelhada ao casamento, sejam de sexos diferentes.

A despeito de r. entendimentos em contrário,


vozes na doutrina e algum entendimento jurisprudencial,
reconhecendo a competência da Vara de Família para conhecer de
questões homoafetivas, por ora, diante do disposto no aludido §3º,
bem assim em face das normas de organização judiciária deste
Estado (arts. 59, 85, I, alínea “g”, CODJERJ) seria contra legem a
decisão que ali mantivesse o feito, deixando de remetê-lo ao Juízo
Cível.

Como sói acontecer, nestes embargos, o que


realmente se pretende é a rediscussão da matéria, repita-se, em
sede inadequada, sendo relevante consignar que o STF, em
acórdão da lavra do Ministro Eros Grau, no EDcl ao AgReg no Agr

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Instr 706.866-1 traz interessante colocação acerca dos


declaratórios, verbis:

“Este Tribunal fixou entendimento no sentido de que não se revelam


cabíveis embargos de declaração, quando a pretexto de esclarecer uma
inexistente situação de obscuridade, omissão ou contradição – vêm a ser
opostos com o inadmissível objetivo de infringir o julgado, em ordem a
viabilizar um indevido reexame da causa” AI 177.313 – AgR ED, relator o
Ministro Celso de Melo – DJ 13/9/96. A embargante deseja, na verdade,
rediscutir em embargos de declaração a questão de mérito que lhe foi
desfavorável, querendo, inclusive, imprimir efeitos infringentes ao
julgado, o que escapa da órbita do art. 535, incisos I e II do CPC. (...)”

Trata-se de embargos de declaração opostos ao


acórdão, insurgindo-se o Embargante contra o resultado do
julgamento, sem apontar defeito material ou formal procedentes,
de que ele padeceria, sendo de registrar-se que não é função dos
tribunais, nos embargos, rediscutir a matéria levada com a
insurgência recursal do primeiro ao segundo grau.

Isto posto, NEGA-SE provimento aos embargos


opostos, restando mantido o acórdão embargado.

Rio de Janeiro, 21 de janeiro de 2010.

Desembargador JOSÉ CARLOS DE FIGUEIREDO


Relator

/amrs
Certificado por DES. JOSE C. FIGUEIREDO
A cópia impressa deste documento poderá ser conferida com o original eletrônico no endereço www.tjrj.jus.br.
Data: 26/01/2010 16:40:52Local: Tribunal de Justiça do Estado do Rio de Janeiro - Processo: 0025075-27.2009.8.19.0000 (2009.002.20523) - Tot. Pag.: 6