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-1Resumos de Português

Modernismo

Implantação: Movimento estético fundado em Lisboa em 1913/1915;


-Os seus fundadores foram Fernando Pessoa, Mário de Sá-Carneiro e
Almada Negreiros;
. A sua divisa era “ Deviens qui tu es”.

Caracterização: - Pelo corte revolucionário com o passado, pela exaltação do presente


e pela investigação experimental do futuro;
- Pela total liberdade de expressão confessional da interioridade do
poeta (o sonho, o inconsciente…); Orpheu que busca a sua metade no inferno, o seu
“eu” profundo
- Pelo incentivo à fragmentação, à pluralidade, à diversidade,
inaugurando formas inéditas de expressão;
- Pela tentativa de conciliação entre o que de mais avançado se fazia
na Europa e aquilo que mais genuinamente era nacional ( = audácia europeia +
originalidade portuguesa);
- Em suma, caracteriza-se por uma postura anti-cânone.

Evolução: 1º momento: mais audaz e provocatório (revista “Orpheu” - 1915;


“Centauro” - 1916; “Exílio” - 1916; “Portugal Futurista” - 1917; “Contemporânea” -
1922 a 1926 e “Atena” - 1929;

2º momento: mais atenuado e leve (revista “Presença” - 1927-1940)

Orpheu - Revista e Geração ( geração de intelectuais que não se restringiram apenas à


literatura mas à arte em geral.)

19 de Março - Primeiros exemplos da revista Orpheu foram postos à venda e enviados


para as recordações dos jornais.

- Continha-se na revista matéria duplamente explosiva (imediatamente inflamável), que


provocou desde logo, uma explosão de escândalo, e outra não tão imediata, que apenas
a longo prazo se veio a revelar.

- Muito poucas pessoas suspeitaram que o primeiro número do Orpheu assinalava o


início de uma nova época na história da poesia portuguesa.

- Três dos seus colaboradores vieram a ser altos nomes da poesia do futuro. (o nosso
presente):
Fernando Pessoa, Mário de Sá - Carneiro e José de Almada Negreiros.

- A revista (Orpheu) provocou sobretudo perplexidade, escândalo, indignação e troça.

- Júlio Dantas, da Ilustração Portuguesa, criticou os colaboradores do Orpheu, como


“poetas - paranóicos”.

Tendência Literárias e Estéticas no Início do Século XX:

Cubismo, Decadentismo, Expressionismo, Futurismo, Paulismo, Sensacionismo


e Interseccionismo.

- “Os Frisos”, de Almada Negreiros, intrigava muita gente, tinha textos sóbrios e
simples que traduziam uma visão do mundo ao mesmo tempo ingénua e complexa,
inocente e implacável, plácida e quase atenuadora.

- Os leitores não estavam habituados a esse tipo de textos, estavam habituados a


uma poesia mais ornamental, em que as palavras serviam antes para disfarçar as
emoções do que propriamente para transmiti-las.

- A publicação do Ode Triunfal também foi algo diferente para os leitores.


(versos libertos de estrutura melódica) -» máquinas, motores, fábricas, “cidades
tartaculares”, cartazes, armamentos gloriosamente mortíferos e a verdade é que o
público geralmente não gosta que em poesia lhe recordem o tempo em que vive.

Nova fase na história da Poesia Portuguesa, Fase de Aventura, de Inquietação,


de Renovo e de Esperança.

O que quer Orpheu?

- Criar uma arte cosmopolita no tempo e no espaço. A nossa época é aquela em que
todos os países, mais que nunca, existem todos dentro de cada um.

- A verdadeira arte moderna tem que se maximamente desnacionalizada acumular em si


todas as partes do mundo, só assim será tipicamente moderna. Todas as culturas se
fundem, se cruzem e se interseccionem. Assim, resultará a arte - todas - as - artes, uma
inspiração espontaneamente complexa.
Poesia Pessoana -» Dicotomia Pensar (diferente) Sentir, marca da poesia Pessoana.

Fernando Pessoa – Ortónimo

Características temáticas:

- Identidade perdida e incapacidade de definição;

- Consciência do absurdo da existência;

- Para ele a realidade não é apenas aquilo que se vê superficialmente;

- Tensão sinceridade/fingimento, consciência/inconsciência;

- Oposição: sentir/pensar, pensamento/vontade, esperança/desilusão;

- Anti-sensacionismo: intelectualização da emoção;

- Estados negativos: solidão, ceptismo, tédio, angústia, cansaço, náusea, desespero;

- Inquietação metafísica;

- Neoplatismo;

- Tentativa de superação da dor, do presente, etc., através da evocação da infância, idade de


ouro, onde a felicidade ficou perdida e onde não existia o doloroso sentir – Dicotomia
sentir/pensar;

- Refúgio no sonho, no ocultismo (correspondência entre o visível e o invisível);

- Criação de heterónimos (“Sê plural como o universo!”);

- Intuição de um destino colectivo e épico para o seu País (Mensagem);

- Renovador de mitos;

- A visão do mundo exterior é fabricada em função do sentimento interior;

- Reflexão sobre o problema do tempo como vivência e como factor de fragmentação do “eu”;

- O presente é o único tempo por ele experimentado (em cada momento se é diferente do que se
foi);

- Tem uma visão negativa e pessimista da existência; O futuro aumentará a sua angústia porque
é o resultado de sucessivos presentes carregados de negatividade;

-Acima de tudo dá valor à intelectualização da emoção.

Características estilísticas:

- Simplicidade formal; Rimas externas e internas; Redondilha maior (gosto pelo popular) dá
uma ideia de simplicidade e espontaneidade;

- Grande sensibilidade musical:

- Eufonia- harmonia de sons;

- Aliterações, encavalgamentos, transportes, rimas, ritmo;

- Verso geralmente curto ( 2 a 7 sílabas);

- Predomínio da quadra e da quintilha;

- Adjectivação expressiva;

-Economia de meios:

- Linguagem sóbria e nobre - equilíbrio clássico;

-Pontuação emotiva;

- Uso frequente de frases nominais;

- Associações inesperadas (por vezes desvios sintácticos – enálage);

- Comparações, metáforas originais, oximoros);

- Uso de símbolos;

- Reaproveitamento de símbolos tradicionais (água, rio, mar…)

Temáticas

- O sonho, a intenção entre o sonho e a realidade (exemplo: Chuva Oblíqua - “E os navios


passam por dentro dos troncos das árvores”);

- A angústia existencial e a nostalgia da infância (exemplo: Pobre velha música –“ Recordo


outro ouvir-te. / Não sei se te ouvi / Nessa minha infância/ Que me lembra em ti.”;

- Distância entre o idealizado e o realizado – e a consequente frustração (“Tudo o que faço ou


medito”);

- A máscara e o fingimento como elaboração mental dos conceitos que exprimem as emoções ou
o que quer comunicar (“ Autopsicografia”, verso “O poeta é um fingidor”);

- A intelectualização das emoções e dos sentimentos para a elaboração da arte (exemplo: Não
sei quantas almas tenho – “O que julguei que senti!”);

- O ocultismo e o hermetismo (exemplo: Eros e Psique);

- O sebastianismo (a que chamou o seu nacionalismo místico e a que deu forma na obra
Mensagem;

- Tradução dos sentimentos nas linguagens do leitor, pois o que se sente é incomunicável;

Sinceridade/Fingimento

- Intelectualização do sentimento para exprimir a arte – poeta fingidor;

- Despersonalização do poeta fingidor que fala e que se identifica com a própria criação poética;

- Uso da ironia para por tudo em causa, inclusive a própria sinceridade;

- Critica de sinceridade ou teoria do fingimento está bem patente na união de contrários;

- Mentira: linguagem ideal da alma, pois usamos as palavras para traduzir emoções e
pensamentos (incomunicável);

Arte poética pessoana marcada pela teoria do fingimento poético

Por não ser um produto directo da emoção, mas uma construção mental, a
elaboração do poema confunde-se com um fingimento “Fingir é inventar, elaborar
mentalmente conceitos que exprimem as emoções”.

Isso observa-se nos poemas “Autopsicografia” e “Isto”.

Consciência/Inconsciência

- Aumento da autoconsciência humana (despersonalização);

- Tentativa de resposta a várias inquietações que perturbam o poeta;

Sentir/Pensar
- Concilia o pensar e o sentir;

- Nega o que as suas percepções lhe transmitem;

- Recusa o mundo sensível, privilegiando o mundo inteligível;

- Fragmentação do “eu” – interseccionismo entre o material e o sonho; A realidade e a


idealidade; Realidades psíquicas e físicas; Interiores e exteriores; Sonhos e paisagens reais;
Espiritual e material; Tempos e espaços; Horizontalidade e verticalidade;

Intelectualização do Sentir

Para Fernando Pessoa, o poema é um produto “intelectual”, há uma necessidade


de intelectualização do sentimento para exprimir a arte.

Poemas: “Autopsicografia” e “Isto”.

O tempo e a degradação: O regresso à infância

- Desencanto e angústia acompanham o sentido da brevidade da vida e da passagem dos dias;

- Busca múltiplas emoções e abraça sonhos impossíveis, mas acaba “sem alegria nem
aspirações”, inquieto, só e ansioso;

- O passado pesa “Como a realidade de nada” e o futuro “ Como a possibilidade de tudo”. O


tempo é para ele um factor de desagregação na medida em que tudo é breve e efémero;

- Procura superar a angústia existencial através da evocação da infância e de saudade desse


tempo feliz.

Obsessão de auto-análise

Pessoa não faz nada sem analisar bem primeiro. Os seus poemas são todos fruto
dessa auto-análise obsessiva.

Poemas: Todos

Sofrimento resultante da dor de pensar

Pessoa gostava de ter a inconsciência das coisas, de não ter de pensar tanto, pois
o facto de racionalizar em excesso provoca-lhe infelicidade.

Poemas: “Gata que brincas na rua.” e “Ela canta, pobre ceifeira.”


Distância entre sonho e realidade

Tem a ver com a nostalgia de uma infância rústica , visto que ele sonha com uma
infância que nunca teve e fica de certa forma nostálgico.

Poemas: “Não sei, ama, onde era.” e “ O menino da sua mãe.”

Incapacidade de fruir a plenitude da vida

Era insatisfeito com o presente e incapaz de o viver em plenitude, sempre se


refugiou numa infância desprovida de experiência biográfica e submetido a um processo
de intelectualização, o que for que não gostasse completamente a sua vida.

Fragmentação do Eu / Tédio Existencial

A tendência constante para a intelectualização, conduz Pessoa a um permanente


processo de auto-análise. A dúvida e indefinição relativamente à sua identidade, a
angústia do seu auto-desconhecimento, “ Não sei quantas almas tenho” - “Por isso,
alheio, vou lendo / Como páginas meu ser”. Isto levam o Ortónimo a ser incapaz de
viver a vida, mergulhando-o no tédio e angústia existenciais, no desalento e no
cepticismos mais profundos.

No entanto, Pessoa perseguiu insistentemente a felicidade que nunca atingiu, ou


porque não encontrou quem o entendesse, ou porque ele próprio não foi capaz de sair do
turbilhão em que se emendou e de se relacionar com os outros, de quem se sente
irremediavelmente separado.

Insatisfeito com o presente e incapaz de o viver em plenitude e porque a


fragmentação se instalou, Pessoa anseia por vivências, estados de ilusão, sonhos que
possibilitam coisas impossíveis. “Vigiar, perder países”. O desejo de vigiar, de ser o que
não é, reflecte a sua insatisfação permanente.

´ Há uma tendência inata em Pessoa para a criação de personagens fictícias.


Pessoa transforma-se instintiva e inconscientemente nos seus múltiplos. Os heterónimos
constituem assim outros “eus” com personalidades literárias completas e autónomas que
se concretizam através da escrita.

Poemas

Autopsicografia

- Dialéctica entre o eu do escritor e o eu poético, personalidade fictícia e criadora;

- Criação de uma personalidade livre nos seus sentidos e emoções – sinceridade de sentimentos;

- O poeta codifica o poema que o receptor descodifica à sua maneira, sem necessidade de
encontrar a pessoa real do escritor;

- O acto poético apenas comunica uma dor fingida, pois a dor real continua no sujeito que tenta
uma representação;

- Os leitores tendem a considerar uma dor que não é sua mas que aprendem de acordo com a sua
existência de dor;

- A dor surge em três níveis: a dor real, a dor fingida e a dor “lida”;

- A arte nasce da realidade;

- A poesia consiste no fingimento dessa realidade: a dor fingida ou intelectualizada;

- A intelectualização expressa de forma tão artística que parece mais autêntica que a realidade;

- Relação do leitor com a obra de arte:

- Não sente a dor real ( inicial): essa pertence ao poeta;

- Não sente a dor imaginária: essa pertence ao criador (poeta);

- Não sente a dor que ele (leitor) tem;

- Sente o que o objecto artístico lhe desperta: uma quarta dor, a dor lida;

- A obra é autónoma, quer em relação ao leitor, quer em relação ao autor ( vale por si);

- Há uma intelectualização da emoção: é recebido um estímulo ( emoção) – dado pelo coração –


que é intelectualizado – pela razão; o que surge na criação são as emoções intelectualizadas. Ou
seja, o pensar domina o sentir – a poesia é um acto intelectual;
Fingimento Artístico - “ Autopsicografia” / “ Isto”

Para Fernando Pessoa, o poema “ é um produto intelectual” e, por isso, não


acontece no momento de emoção. Há uma necessidade da intelectualização do
sentimento para exprimir a arte. Por não ser um produto directo da emoção, mas uma
construção mental, a elaboração do poema confunde

-se com um “fingimento”.

A poesia do ortónimo revela a despersonalização do poeta fingidor que se


identifica com a própria criação poética. Fingir é inventar, elaborar mentalmente
conceitos que exprimem as emoções.

É isso que se observa nos poemas “Autopsicografia” e “Isto”.

A Dor de Pensar - “Gato que Brincas na Rua” / “Ela Canta, Pobre Ceifeira”.

Fernando Pessoa sente-se condenado a ser lúcido, a ter de pensar. Gostava,


muitas vezes de ter a inconsciência das coisas, ou de seres comuns que agem como a
pobre ceifeira, ou que cumprem apenas as leis do instinto como o gato que brinca na
rua. Sente uma verdadeira dor de pensar, que traduz insatisfação e dúvida sobre a
utilidade do pensamento. Impedido de ser feliz, devido à lucidez, procura a realização
do paradoxo, de ter uma consciência inconsciente.

Fernando Pessoa não consegue fruir instintivamente a vida, por ser consciente
e pela própria efemeridade.

A Dor de Pensar - “ Gato que Brinca na Rua”

- O poeta tem um desconhecimento de si próprio.

- Inveja a capacidade de racionalização do gato.

- A felicidade para o sujeito poético é não pensar.

- Sente dor porque pensa.

Imagem - símbolo --» Gato

- Inveja dos instintos do gato ( O gato é feliz e o eu poético é infeliz)


- O poeta desconhece a sua identidade completa. Pensa demasiado e teoriza tudo o que
pensa.

Ela canta, pobre ceifeira”

- O sujeito poético racionaliza demasiado.

- Ele quer ser feliz como a ceifeira.

--» Fernando Pessoa sente-se condenado a ser lúcido, a ter de pensar.

--» Gostava muitas vezes de ter a inconsciência das coisas, ou de seres comuns que
agem como a pobre ceifeira, ou que cumprem apenas as leis do instinto como o gato que
brinca na rua.

--»Sente uma verdadeira dor de pensar que traduz insatisfação e dúvida sobre a
realidade do pensamento.

--» Impedido de ser feliz devido à lucidez, procura a realização do paradoxo, de ter uma
consciência inconsciente.

--»Fernando Pessoa não consegue fruir instintivamente a vida, por ser consciente e pela
própria efermidade.

A Nostalgia de uma Infância Mítica - “ Não sei, ama, onde era” / “ O Menino da sua
Mãe”

No caso da infância, é indiscutível que Pessoa sentia uma grande saudade, mas
trata-se de uma saudade, de uma nostalgia imaginada, intelectualmente trabalhada. No
entanto, não podemos deixar de reconhecer que o tom … que perpassa em alguns dos
seus poemas “ Não sei, ama, onde era” e “ O Menino de sua Mãe”, resulta do constante
confronto com a criança que outrora foi, numa Lisboa sonhada, mas ao mesmo tempo
real, porque familiar, palco dos primeiros cinco anos da sua vida, marcados pela forte
relação afectiva com a sua mãe.

Insatisfeito com o presente e incapaz de o viver em plenitude, Pessoa, refugia-se


numa infância, regra geral, desprovida de experiência biográfica e submetida a um
processo de intelectualização.
Fragmentação do Eu / O Tédio existencial - “Não sei quantas almas tenho.”

Podemos encontrar no poema, dois momentos significativos. No primeiro


momento, as duas primeiras estrofes, o sujeito poético reconhece-se como um ser
multifacetado que continuamente se vai revelando, resultando daí uma espécie de
desencanto consigo mesmo . “Nunca me vi nem achei”. Este ser excessivo vai criar uma
grande inquietação do sujeito poético “ Quem tem alma, não tem calma”, “Não sei
sentir-me onde estou” e, ao mesmo tempo, uma distanciação responsável por uma
postura passiva em relação ao desfile dos outros “eus”.

O segundo momento (última estrofe), introduzido pela locução “Por isso”,


constitui uma sequência relativamente ao primeiro - tentativa de conhecimento de si
próprio como se de um livro se tratasse , “Vou lendo/ como páginas meu ser”. O
resultado é porém um estranhamento, acabando por responsabilizar Deus pelo acto da
escrita que lhe pertence. Salienta-se ainda a atitude de alheamento do poeta, responsável
pelo sentimento de solidão.

Os sentimentos que dominam o sujeito poético são a angústia e a inquietação,


provocados pela incapacidade de controlar as várias manifestações do seu “eu”. As
expressões que melhor documentam este estado de espírito são os seguintes: “ Quem
tem alma não tem calma” e “Assisto à minha passagem / Diverso, móbil e só”. O verso
que melhor sintetiza o conteúdo do poema : “Continuamente me estranho”.

Isto

- A poesia está no fingimento.

- Sentem com a imaginação e não com o coração.

--» Para Fernando Pessoa, o poema é um “produto intelectual” e por isso não acontece
no “momento da emoção”. Há uma necessidade da intelectualização do sentimento para
exprimir a arte.

--» Para não ser um produto directo da emoção, mas uma construção mental, a
elaboração do poema, confunde-se com um fingimento.

--» A poesia do ortónimo revela a despersonalização do poeta fingidor que se identifica


com a própria criação poética.

--» Fingir é inventar, elaborar mentalmente conceitos que exprimem as emoções. É isso
que se observa nos poemas: “Isto” e “Autopsicografia”.

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Fernando Pessoa conta e chora a insatisfação da alma humana. A sua precariedade, a sua
limitação, a dor de pensar, a fome de se ultrapassar, a tristeza, a dor da alma humana que se
sente incapaz de construir que, comparando as possibilidades miseráveis com a ambição
desmedida, desiste, adormece “Num mar de sargaço” e dissipa a vida no tédio.

Os remédios para esse mal são o sonho, são a evasão pela viagem, o refúgio pela
infância, a crença num mundo ideal e oculto, situado no passado, a aventura do Sebastianismo
messiânico, o estoicismo de Ricardo Reis, etc… Todos estes remédios, são tentativas frustradas
porque o mal é a própria natureza humana e o tempo da sua condição fatal. É uma poesia cheia
de desesperos e entusiasmos febris, de náusea, tédios e angústias iluminados por uma
inteligência lúcida – febre de absoluto insatisfação do relativo.

A poesia está não na dor experimentada ou sentida mas no fingimento dela, apesar do
poeta do poeta partir da dor real” A dor que deveras sente”. Não há arte sem imaginação, sem
que o real seja imaginado de maneira a exprimir-se artisticamente e ser concretizado em arte.
Esta concretização opera na memória a dor inicial fazendo parecer a dor imaginada mais
autêntica do que a dor real. Podemos chegar à conclusão de que há quatros dores: a real
(inicial), a que o poeta imagina (finge), a dor real do leitor e a dor lida, ou seja, intelectualizada,
que provém da interpretação do leitor.
Quadro síntese

Temáticas Nível fónico Nível morfossintático e


semântico
- Consciência do absurdo - Musicalidade; - Linguagem sóbria e
da existência, recusa da - Versificação regular e nobre;
realidade, incapacidade de tradicional (vertente - Expressividade dos
viver; tradicionalista: predomínio modos e tempos verbais,
- Oposições pensar/sentir, da quadra e da quintilha e com preferência pelo
consciência/inconsciência, do verso curto [duas a sete presente do indicativo;
pensamento/vontade, sílabas]); - Equilíbrio clássico;
esperança/desilusão; -Rima, ritmo, aliteração, - Sintaxe simples;
onomatopeia; - Adjectivação expressiva;
Conduzem a: - Encavalgamento. - Paralelismos e
repetições;
- Tédio, angústia, - Uso de símbolos:
melancolia, desespero, reaproveitamento de
náusea, nostalgia de bem símbolos tradicionais;
perdido (tema da perda), passagem de uma imagem
abdicação, desistência, - símbolo nacional à
abulia, dificuldade em reflexão sobre o símbolo;
distinguir o sonho da - Imprevisível:
realidade; metáforas inesperadas,
. Solidão, egoísmo, desarticulação sintáctica;
ceptismo, anti- - Expressividade da
sentimentalismo; pontuação, interrogações,
- Inquietação metafísica, exclamações, reticências;
dor de pensar, dor de - Uso de frases nominais;
viver; - Metáforas, comparações
e imagens;
Busca de separação - Antíteses;
através de: - Paradoxos;
- Oxímoros.
- evocação da infância
(enquanto símbolo de uma
felicidade);
- Ilusão no sonho;
- Ocultismo (procura de
uma correspondência entre
o visível e o invisível);
- fingimento (enquanto
alienação de si próprio,
processo criativo e
máscara) - Heteronímia.