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Arte e moral
Apesar de a arte ser a expressão de impressões pessoais e, por isso, as obras de arte não
poderem ser avaliadas com se fosse um conjunto de teses filosóficas ou teológicas [287], isso
não quer dizer que a criação artística seja amoral. Já captamos os elementos morais na própria
percepção, porque eles fazem parte da estrutura da realidade. Mesmo a abstracção da
moralidade é também uma atitude moral, que pode ser justificada em alguns casos, contando
que o contexto de onde aquilo foi abstraído não seja esquecido, tal como alguém que faz um
desenho a preto e branco não esquece que as cores existem. Em todas as grande obras de arte
está presente o elemento moral, e Frank Raymond Leavis escolheu mesmo para os
representantes máximos da literatura em língua inglesa, no livro, The Great Tradition, os
autores em que a tensão moral é mais elevada. Retirado este elemento, a obra torna-se fútil e
desinteressante.
Mas as grandes obras não são decalques dos códigos morais, porque estes são genéricos e não
oferecem soluções prontas para as situações concretas, sobre as quais o artista versa. Os
verdadeiros artistas sabem que o ser humano é um mistério quase infinito, e sabem que os
dramas morais implicam muitos sofrimento, e que são complexos e que não podem resumir-se a
uma lista de violações das regras morais, porque fazer isto já é quebrar o mandamento de amar
o próximo. O artista pode ter elaborado a sua obra sem fazer julgamentos segundo um certo
código moral, mas isso não quer dizer que ele tenha feito abstracção da moralidade, porque se
tivesse feito teria neutralizado a sua obra. α100