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Ernst Tugendhat: o querer da moral (Héctor Hugo Palácio)

A fundamentação da moral em Ernst Tugendhat parte do reconhecimento da inevitabilidade de nossos juízos


morais diante da inexistência de um fundamento absoluto para a ética. Não podemos negar que emitimos
julgamento moral nas circunstancias mais diversas da vida prática. Nossos juízos morais são enunciados
universalmente, mas evidenciam-se como históricos e socialmente relativos, desde que se tornaram
independentes das tradições religiosas. Assim, no plano da fundamentação, “nossa situação é determinada pelo
fato de que ou caímos no relativismo das convicções morais, e isto significa (…) que deveríamos abandonar a
moral em sentido habitual, caso não quiséssemos nos iludir, ou então devemos procurar uma compreensão não-
transcendental da fundamentação dos juízos morais”.
Com essa advertência inicial, Tugendhat passa a expor em: Lições sobre ética, em especial na quinta lição, seu
esforço de fundamentação do agir moral, a partir do abandono da idéia de uma razão supostamente absoluta.
Sua proposta se auto-apresenta como um programa moderno plausível, que parte da inviabilidade das demais
alternativas de fundamentação, enquanto momentos essenciais para tornar compreensível a plausibilidade de
uma moral que não recorre à evidencia do a priori. A fundamentação da moral significa, então, para Tugendhat,
fornecer um conceito de moralidade plausível e, ao mesmo tempo, mostrar que todas as outras possibilidades
são menos plausíveis ou inaceitáveis. Esse conceito será expresso pelo imperativo moral kantiano de respeito
universal ou a não instrumentalização do outro.
Desse modo, a consciência moral não se sustenta num fundamento absoluto, mas “sob um tecido complexo de
fundamentos e motivos da moral. (…) Fundamentos são fundamentos para a verdade de enunciados; motivos
são fundamentos de outro tipo, são fundamentos que justificam uma ação, ou de uma forma mais geral ainda,
pela aceitação de um sistema moral”.
Já no início da obra, em consonância com sua incursão na filosofia analítica, propõe um esclarecimento do termo
moral ou juízo moral a partir do uso da linguagem no emprego de palavras como “ter de/não pode” e
“bom/ruim”, que adquirem um significado particular quando empregadas gramaticalmente no sentido absoluto.
Quando dizemos que alguém “tem de” agir de um determinado modo, estamos nos referindo a uma necessidade
pratica. Da mesma forma, quando dizemos que algo é ruim, como “humilhar alguém é ruim”, não estamos nos
referindo a algo que valha só para o indivíduo ou só para a sociedade, mas é simplesmente ruim, é um puro
predicado, sem complementação. Pelo emprego da linguagem, Tugendhat quer esclarecer que os juízos morais
são, portanto, objetivos e não meramente subjetivos. Tendo um emprego de forma incondicional, o “ter de” é
idêntico ao caráter de obrigação das normas morais. As regras convencionais, por exemplo, distinguem-se das
normas morais, porque sua infração é submetida à rejeição do grupo social, que é a instancia última para a
fundamentação. Isso exige que se esclareça o emprego gramaticalmente absoluto de bom e ruim.
Através de vários exemplos do emprego gramatical do termo bom, Tugendhat indica que, geralmente, tal
emprego tem uma “pretensão objetiva, universalmente valida”. Ao perguntar que sentido pode ter o emprego
gramaticalmente absoluto da palavra “bom”, o filósofo rejeita uma fundamentação absoluta como a kantiana,
porque ela não é compatível nem com o conceito de racionalidade, nem como conceito de excelência, pois “o
digno de preferência não pode ser simplesmente sobreposto ao preferir, tem que ser uma possibilidade
preeminente do próprio preferir”. Da mesma forma, o apelo a Hume não é suficiente, pois sua proposta também
apresenta limites. Para Hume, bom é aquilo que todos aprovam e, de modo correspondente, mau é o que todos
censuram. Mas, com isso, ele incorre na falácia naturalista, ou seja, a ética seria uma constatação do que os
homens de fato aprovam, servindo apenas de base empírica para os juízos morais.
Tugendhat defende que não há um significado do emprego absoluto de bom passível de ser compreendido
diretamente, mas que isso só se torna viável pelo emprego atributivo do termo, em que dizemos que alguém é
bom, não num desempenho específico, como, por exemplo, ser cozinheiro, mas como parceiro social, cooperador
de uma sociedade.
Ao insistir no emprego atributivo de bom, Tugendhat lança mão de uma idéia básica para a educação que é a de
seu caráter de socialização e de reprodução cultural, em que as aprendizagens de uma criança se vinculam ao
desenvolvimento de capacidades julgada numa escala de melhor e pior. A isso se vincula o desenvolvimento da
auto-estima, em que a pessoa adquire consciência de ser boa ou não em suas capacidades.
Além das capacidades específicas necessárias ao nosso desempenho, há uma “central para a socialização, e esta é
a capacidade de ser um ente socialmente tratável, cooperador, (…) e gostaria apenas de afirmar que as normas
morais de uma sociedade são exatamente aquelas que fixam tais padrões, isto é, que definem o que significa ser
um bom ente cooperador. Nos juízos em que dizemos que pessoas são boas ou más, julgamos as pessoas não
relativamente a capacidades especiais, mas com respeito a essa capacidade central”.
Numa sociedade, todos se exigem reciprocamente um comportamento moral, nos termos de “tem de”,
independente da vontade de querer que seja assim. É nesse sentido que se entende a sanção moral: vergonha
para a pessoa e indignação dos outros. Acrescenta Tugendhat que na correlação entre ambos – vergonha e
indignação – pode-se distinguir vergonha moral de vergonha não-moral. A consciência moral (Gewissen) decorre
da internalização da vergonha, o que permite que seja possível que a indignação dos outros opere como sanção.
É pela formação da consciência moral que um indivíduo passa a querer se tomar membro cooperativo de sua
comunidade. Em sua analise, Tugendhat destaca a importância desse ato de vontade, a única forma pela qual
alguém pode passar a pertencer ao mundo moral: sem esse querer-pertencer, o indivíduo não pode sentir
vergonha quando viola as normas, nem indignação quando os outros as ultrajam. Assim, o “eu quero” precede o
“tem de”, porque a sanção deve ser interna.
O fenômeno de lack of moral sense, reconhecido como uma patologia, também pode ser visto como um não
querer participar da comunidade moral que sempre nos acompanha. E também o eu não quero da primeira
infância, embora seja mais raro, acompanha a formação de nossa consciência moral.
Nesse ponto de sua argumentação, Tugendhat reconhece que, sendo a consciência moral resultado do querer,
sua proposta às éticas tradicionais de que a consciência moral é algo fixado pela natureza: “Foi essa suposição
que levou a querer de algum modo deduzir a moral, seja de ‘natureza’ humana, seja de um aspecto dela como a
‘razão’. Considero a idéia de um ser-fixado um resíduo teológico. Somos na realidade mais livres, nossa
autonomia vai mais longe do que e visto por tais abordagens”.
Assim, aquilo que dá legitimidade para um juízo moral não está dissociado do conteúdo que define o que é bom
ou o que é mau. O caráter absoluto da moral esta vinculado a uma idéia de sanção e a uma espécie de
alargamento do lack of moral sense, que, no extremo, determina o querer como base do agir moral, pois “tenho
de” não sustentado por “eu quero” seria um absurdo.
A pergunta que Tugendhat faz é por que nós queremos. Essa pergunta requer que se torne plausível um conceito
de moral, não mais com apelo transcendente. Diz ele: “Se o bem é mais dado previamente de modo
transcendente, parece então que é apenas o recurso aos membros da comunidade que por sua vez não pode ser
limitada e que, portanto, deve fornecer o principio do ser bom para todos os outros – e isto quer dizer também
para seu querer e para seus interesses. Formulado de maneira taxativa, a intersubjetividade assim compreendida
passa a ocupar o lugar do previamente dado de maneira transcendente e parece assim constituir o único sentido
que ainda resta de preferência objetiva”.
O querer é o ultimo fundamento para a moral, pois não pode haver um “ter de” absoluto, só um “ter de”
especial, definido pela sanção interna da comunidade moral e que só se realiza se for querida pelos seus
membros. Trata-se de uma radicalização do principio da autonomia: “Não existe nada, que faça parte de minha
vida, que me obrigue a me compreender desta maneira. Apenas existe esta obrigação relativa: se eu quero uma
coisa e se ela esta vinculada a outra, então também tenho que querer aquela outra coisa”. Excluído o a priori
kantiano, só resta o querer como possibilidade de fundamentação da moral, apoiado, não num puro
decisionismo, mas em motivos que vinculam a vida de cada um à comunidade.
Com sua proposta de fundamentação, Tugendhat radicaliza a autonomia: ”A reflexão sobre o ‘eu quero’, que
também está na base do ‘eu tenho que’, conduz-nos a assumir a autonomia própria ao ser humano adulto.
Poderíamos nós querer que um tal ‘ter de’ absoluto – supondo que por si não seja um contra-senso – fosse
cravado em nós? Eu posso querer que uma parte do meu querer seja subtraída de mim mesmo?”
Como se observa, a fundamentação proposta por Tugendhat não é absoluta, esta baseada no querer, mas
resulta numa concepção moral que concorda com o principio fundamental kantiano de respeito a todos os
homens, sem instrumentalizar ninguém. Com isso, Tugendhat pretende tornar compreensíveis aqueles
pressupostos que estão presentes na consciência moral habitual. Há uma pré-compreensão e a reflexão
filosófica a explicita, justificando-a, uma vez que não há nenhum ponto de referência extramundano que
sustente nosso agir.