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ANO 12 / NÚMERO 133 R$ 14,90

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O MITO DO TRANSUMANISMO ESTADOS UNIDOS FUTEBOL E POLÍTICA
AS MÁQUINAS AMEAÇAM POR QUE OS POBRES ENTREVISTA COM
A HUMANIDADE? VOTAM NA DIREITA JOSÉ TRAJANO
POR GUILLAUME RENOUARD E CHARLES PERRAGIN POR ARLIE HOCHSCHILD POR GUILHERME HENRIQUE E LUÍS BRASILINO

00133

LE MONDE 9 771981 752004

BRASIL
diplomatique
OS
PERIGOS
DA
ELEIÇÃO
2 Le Monde Diplomatique Brasil AGOSTO 2018

PAZ PELA FORÇA

A fábula do
31 de agosto
de 2013
POR SERGE HALIMI*

xatamente cinco anos atrás, tuição histórica, iluminada pela refe- Paradoxalmente, alguns dos de- no a deixar o Kuwait. Assim que esse

E uma interpretação da história


das relações internacionais
triunfou em todas as capitais do
Ocidente. Metodicamente repetida,
ela se tornou religião oficial. Em essên-
rência respeitosa a Winston Churchill
(que percebeu que os acordos de Mu-
nique abririam o caminho para outras
agressões nazistas), legitima a priori
guerras preventivas e a chamada polí-
fensores mais inconsoláveis dessa in-
tervenção – o New York Times e todos
os jornais europeus que copiam seus
editoriais – gostam de denunciar o ab-
solutismo presidencial e insistir no
objetivo foi alcançado, os neoconser-
vadores culparam o presidente dos Es-
tados Unidos, George H. Bush, por não
ter ido “até o fim” derrubando Saddam
Hussein. E, por mais de uma década,
cia, ela explicava que o presidente Ba- tica de “paz pela força” – especialmen- respeito aos contrapoderes e à lei. Mas eles reiteraram que quase todos os
rack Obama teria cometido um erro de te contra a Rússia. um bombardeio ocidental à Síria não problemas na região decorriam dessa
pesadas consequências, em 31 de Com a palavra, a defesa. Instruído era uma questão de legítima defesa e trágica fuga à responsabilidade.
agosto de 2013, ao se recusar a atacar o pelas aventuras dos Estados Unidos no não poderia se prevalecer de nenhuma Em 2003, seu desejo foi finalmente
Exército sírio depois que este foi consi- Afeganistão, no Oriente Médio e na Lí- autorização da ONU. Tampouco des- atendido; Churchill, reencarnado; o
derado culpado de um bombardeio bia, encorajadas por análises alarmis- frutava do apoio da opinião pública Iraque, ocupado; e Saddam Hussein,
químico mortal em um subúrbio de tas e mentirosas dos serviços de infor- ocidental, nem do Congresso dos Esta- enforcado. O Oriente Médio é realmen-
Damasco. Essa pusilanimidade teria mação norte-americanos, o presidente dos Unidos, nem, ainda, daquele do te um paraíso desde então?
garantido a continuação no poder de Obama sabia quanto custava fazer que mais fiel aliado dos Estados Unidos, o
um regime que massacrara parte de o crédito de um país dependesse da re- Reino Unido, já que a Câmara dos Co- *Serge Halimi é diretor do Le Monde
sua população. Mas, afirma o ex-presi- petida intervenção de seus exércitos muns a ele se opunha. Diplomatique.
dente François Hollande, entre muitos em terras estrangeiras. “Não devemos Pode-se também escolher outros
1 “François Hollande: ‘Quel est cet allié turc qui fra-
outros, “o regime sírio não foi o único a acabar com as duas guerras em que pontos de comparação diferentes de ppe nos propres alliés?’” [François Hollande:
© Cau Gomez

acreditar que tudo era permitido. Vla- nos envolvemos antes de embarcar em Churchill e Munique. Por exemplo, o “Quem é esse aliado turco que atinge nossos pró-
dimir Putin entendeu que poderia uma terceira?”, chegou a lhe sugerir, seguinte: em 1991, uma coalizão inter- prios aliados?”], Le Monde, 12 mar. 2018.
2 Citado por Jeffrey Goldberg, “The Obama doctri-
anexar a Crimeia e desestabilizar o no caso da Síria, seu ex-ministro da nacional, valendo-se de uma resolu- ne” [A doutrina Obama], The Atlantic, Boston, abr.
leste da Ucrânia”.1 Uma tal reconsti- Defesa, Robert Gates.2 ção da ONU, forçou o Exército iraquia- 2016.
AGOSTO 2018 Le Monde Diplomatique Brasil 3

EDITORIAL

Os endividados
POR SILVIO CACCIA BAVA
© Claudius

S
essenta e três milhões e seis- com alta de 6,69% no mesmo período. no Chile, de 21,59%.3 Já o cheque espe- Romper esse novo padrão de servi-
centos mil brasileiras e brasilei- Já as contas de telefone, internet e TV cial fica em 324% ao ano, e o crédito pes- dão e afirmar para cada cidadão a con-
ros deixaram de pagar contas por assinatura aumentaram a inadim- soal, em 125,7%. Isso contra uma infla- dição de um ser livre, capaz de exercer
que deviam e tornaram-se “fi- plência em 3,57% no mesmo período. ção esperada em 2018 de 4,5% ao ano.4 plena e ativamente sua cidadania, par-
cha suja” nos serviços de proteção ao O avanço da inadimplência é expli- Assim, a tendência global de finan- ticipar com seus pares na dinâmica da
crédito.1 Esses inadimplentes são nada cado pela alta taxa de desemprego, pe- ceirização da vida como forma de con- política, nas decisões de interesse pú-
menos que 42% da população adulta la precarização das relações de traba- trole social ganha contornos radicais no blico, implica questionar a natureza
do país. Mas não nos esqueçamos de lho, pela redução da renda, enfim, Brasil, estabelecendo uma nova catego- da dívida que o sujeita e libertar-se co-
que a questão das dívidas é maior: elas pelos ajustes estruturais impostos pe- ria social, a dos endividados, com muito letivamente desse jugo.
pesam não apenas sobre esses ina- lo neoliberalismo. A reforma traba- mais dificuldades de superar essa con- Isso vale tanto para as dívidas pes-
dimplentes, mas também sobre todos lhista, a reforma da Previdência e o dição e saldar seus débitos que em qual- soais quanto para as atribuídas ao
aqueles que conseguem manter em corte nas políticas de transferência de quer outra parte do mundo. Aqui se co- conjunto da sociedade, como é a dívi-
dia o pagamento de suas dívidas com renda contribuíram para isso. bram os maiores juros do planeta. da pública, que no Brasil entrega para
grandes dificuldades, mediante esfor- Essa situação de endividamento Segundo Negri e Hardt, vivemos o setor financeiro, como pagamento
ços e sacrifícios cada vez maiores. não é uma particularidade da realida- um momento de transição nas formas do serviço anual dessa dívida, quase a
O crescimento da inadimplência é de brasileira. Ela parece estar presente de exploração capitalista: de uma or- metade de todos os impostos arreca-
geral, ocorre em todo o país, com des- em um grande número de países, pois, dem baseada na hegemonia do lucro dados. Consequentemente, essa con-
taque para a região Sudeste, que em desde o crédito educativo, o seguro- (pela exploração do trabalho indus- centração da riqueza aumenta a desi-
junho acusou aumento de 9,88%, se -saúde, a hipoteca, o financiamento trial), transitamos para uma ordem gualdade social e bloqueia a melhoria
comparado com o mesmo mês do ano do carro, tudo passa a ser financiado dominada pela renda, em que a dívida da qualidade de vida de todos.
anterior. Essa tendência de crescimen- pelos bancos e pelo sistema financei- é um elemento central para produzir a
to dos inadimplentes vem se expres- ro, tornando o endividamento uma subordinação e construir os elos de
sando desde outubro de 2017. condição geral da vida social.2 uma nova servidão.5
Dessas dívidas, 51% são contraídas A jabuticaba brasileira são as taxas O trabalhador, que agora se confi-
1 “Brasil fecha primeiro semestre com 63,6 milhões
com bancos e instituições financeiras de juros cobradas do consumidor. Por gura como um consumidor endivida- de consumidores inadimplentes”, Confederação
e se referem a atrasos no pagamento exemplo, os juros cobrados quando o do, é controlado pela dívida. Atormen- Nacional de Dirigentes Lojistas, 16 jul. 2018. Dis-
do cartão de crédito, do cheque espe- consumidor opta por parcelar o paga- tado pela dívida, ele tem medo de ponível em: <http://cndl.cdls.org.br>.
2 Antonio Negri e Michael Hardt, Declaração: isto
cial, de financiamento e empréstimos. mento do débito no cartão de crédito ou perder o emprego, trabalha mais ar- não é um manifesto, N-1 Edições, São Paulo, 2016.
E foram as que mais cresceram em ju- não faz o pagamento na data do venci- duamente, não participa da defesa dos 3 Ver: <www.proteste.org.br>.
nho (7,62%), se comparadas a junho de mento são de inacreditáveis 334% ao seus direitos enquanto coletividade e 4 Vinicius Torres Freire, “Taxa básica despenca, mas
juro do crédito segue alto”, Folha de S.Paulo, 15
2017. A inadimplência com as contas ano. Na Argentina, essa taxa do crédito sujeita-se a novas modalidades de dis- abr. 2018.
de água e luz estão em segundo lugar, rotativo é de 47,4%; no Peru, de 44,1%; e, ciplina e controle em seu trabalho. 5 Antonio Negri e Michael Hardt, op.cit.
4 Le Monde Diplomatique Brasil AGOSTO 2018

CAPA

As eleições e a retomada
do Estado social
Esta eleição se diferencia de outras da Nova República porque terá um aspecto
central: a restauração de uma concepção pública de Estado em contraposição à forma
privada hegemonizada pelo mercado financeiro que se instalou depois do impeachment
POR LEONARDO AVRITZER*

odas as democracias têm elei- de um lado, o senador Aécio Neves juntura 2016-2018 consiste em uma nham até dois salários mínimos con-

T ções que variam em importân-


cia. Algumas são decisivas na
história de um país, ao passo
que outras representam uma conti-
nuação da política normal. Nos Esta-
afirmava que tudo deveria ser mudado
em uma economia em estado desas-
troso e, de outro lado, Dilma Rousseff
defendia a manutenção da trajetória
econômica tal como ela vinha desde
ampliação da influência do Poder Judi-
ciário sobre o sistema político. Temos
no Brasil uma Justiça que se organiza à
margem da soberania democrática e
não aceita a estrutura de checks and
centram seus votos no PT, ao passo
que mais de 60% dos eleitores que ga-
nham mais de dez salários mínimos
votam no PSDB. A eleição de 2018 já
tem como ponto de partida uma radi-
dos Unidos, as eleições de 1860 e 1932 2010, para em seguida admitir seu erro balances. Essas características fazem calização dessa imagem. De um lado,
foram fundamentais. A primeira selou três semanas após a conclusão do plei- dele um poder oligárquico e não demo- a campanha começa com uma quanti-
o fim da escravidão, e a segunda, o fim to. Ainda mais relevante foi a ausência crático, e é a partir delas que podemos dade grande de eleitores se colocando
da recessão instaurada pela crise de de uma discussão clara sobre a conti- entender sua atuação neste último pe- em uma posição de ódio ao PT, eleito-
1929 e o começo da introdução de es- nuidade de políticas sociais distributi- ríodo. Vale lembrar que o Judiciário res esses que apoiam ações do Judiciá-
truturas de proteção social. É possível vas. Todos sabem qual foi o final trági- brasileiro teve um papel progressista rio visando interditar candidaturas
afirmar que eleições no Brasil são, em co dessa história: uma dissociação na ampliação de direitos sociais, ainda como a do ex-presidente Lula ou judi-
geral, mais importantes para nosso completa entre a vontade do eleitor e o que ele seja extremamente relutante cializar as candidaturas de possíveis
sistema de governo do que nos Estados processo de determinação das políti- em defender garantias individuais, a sucessores. Por outro lado, a radicali-
Unidos e na Europa. Devido aos ele- cas públicas entre 2015 e 2018. não ser como um pacto interelites. Es- zação das forças conservadoras dissol-
mentos de forte exclusão presentes em É possível afirmar, baseando-nos tas são as duas principais questões em veu o pouco que restava de um centro
nossa ordem social, as votações cons- em Daron Acemoglu e James Robin- jogo em 2018: a retomada de uma tradi- político, radicalizando o processo elei-
tituem o momento por excelência no son, autores do livro Por que as nações ção ainda incipiente de proteção social toral e as disputas nele envolvidas. É
qual os excluídos se manifestam. O fracassam (Elsevier, 2012), que há um e a restauração das prerrogativas do nesse contexto que ocorrerá não ape-
Brasil teve alguns pleitos de impor- trade-off na adoção da democracia no Poder Executivo em relação às políti- nas o processo eleitoral, mas também
tância decisiva desde que o instituto que diz respeito à sua relação de longo cas públicas. Para entender como am- a eleição do novo presidente. Enquan-
da eleição direta e secreta entrou em prazo com as políticas públicas. Para bas as questões estarão colocadas nes- to as forças políticas mudam com uma
vigor em 1945. Nesses mais de setenta eles, a sociedade democrática não é ta eleição, vale a pena comparar 2018 possível ascensão de Ciro Gomes e de
anos, o país teve pelo menos três elei- apenas aquela na qual vigora a atual com as eleições anteriores. Jair Bolsonaro, as radicalizações do
ções decisivas: a de 1955, que retomou noção de “uma pessoa, um voto”, mas O Brasil teve um padrão de competi- eleitorado, do Judiciário e das redes so-
a trajetória de Estado desenvolvimen- aquela na qual “a democracia implica ção política entre 1994 e 2014 que envol- ciais se acentuam.
tista e continuou ampliando as estru- que amanhã haverá um voto para de- veu uma ampla proliferação de partidos Pelo lado dos candidatos, há uma
turas de proteção social instituídas terminar políticas ou para decidir qual e uma enorme fragmentação partidária clara radicalização dos diagnósticos
por Getúlio Vargas; a de 1989, na qual partido vai governar, e essa decisão se- associada a uma competição estrutura- políticos em meados de 2018. No caso
as forças de esquerda foram derrota- rá tomada por toda a população”. Esse da em dois blocos durante as eleições de Jair Bolsonaro, está expressa a radi-
das, mas se consolidou a volta da com- é o elemento mais radical de ruptura presidenciais. Na mesma medida em calização por meio da negação de uma
petição política; e a de 2002, que pôs do Brasil entre 2016 e 2018. que o sistema de representação foi se agenda mínima de direitos que parece
fim à devastação neoliberal e à crise Quando analisamos a conjuntura fragmentando, as eleições presidenciais constituir o elemento mais vulnerável
cambial. Acredito que a eleição de 2016-2018, dois pontos sobressaem: se estruturaram em torno de duas alter- da democracia brasileira. Assim, ele não
2018 terá características de todas as em primeiro lugar, a Medida Provisó- nativas, uma centrada no PSDB, de cor- se posicionou em relação ao assassinato
três eleições mencionadas: ela tem a ria n. 726, de 12 de maio de 2016. Nela te mais liberal, e outra centrada no PT, da vereadora Marielle Franco nem em
chance de significar a retomada de percebemos a presença do questiona- construída em torno da proteção social. relação ao atentado ao ônibus do ex-
uma rota anterior da proteção social mento por parte das elites da relação Todas as eleições entre 1994 e 2014 en- -presidente Lula, e ironizou a decisão da
instituída pelos governos de esquerda entre democracia e políticas públicas volveram essa disputa, que foi calibran- Corte Interamericana envolvendo a si-
a partir de 2003; deve reforçar a ideia no contexto pós-impeachment. A me- do a vontade do eleitorado. Algumas mulação de suicídio do jornalista Vladi-
de que as políticas públicas têm de ser dida provisória extinguiu todas as se- eleições foram amplamente consen- mir Herzog. Desse modo, a fragmenta-
determinadas eleitoralmente, um ele- cretarias e ministérios ligados à am- suais, com o candidato majoritário ven- ção do centro acabou levando sua
mento fundamental da vida democrá- pliação de direitos ou a políticas cendo em quase todos os estados. Foi o subordinação ao antipetismo, que pa-
tica rompido em 2016; e precisa reto- distributivas, tais como o Ministério caso de 1994, 1998 (no qual apenas o Rio rece ser a nova configuração da disputa
mar a tradição de inclusão social tão dos Direitos Humanos, a Secretaria de Grande do Sul se afastou da coalizão política no Brasil em 2018. Essa configu-
exitosa entre 2003 e 2014. Permitam- Assuntos da Mulher, a Secretaria para vencedora) e 2002. Em 2006 surgiu o ração dificilmente será revertida ape-
-me mostrar como chegamos a uma a Igualdade Racial e o Ministério da mapa eleitoral da divisão que estrutu- nas com o resultado eleitoral.
situação na qual as eleições de 2018 se Reforma Agrária. O ato não obedeceu rou as competições seguintes. Esse ma- De outro lado, se a conjuntura se
tornaram tão cruciais. à lógica eleitoral nem ao menos à do pa (ver na página ao lado) diferencia o estrutura no eixo petismo versus anti-
© Daniel Kondo

A eleição de 2014 pode ser conside- impeachment. Ela obedeceu apenas Brasil territorial e politicamente. petismo, o mais curioso é que, até
rada a mais desastrosa da história re- às preferências não sancionadas elei- Tal mapa se articula com um mapa meados de julho de 2018 – portanto, a
cente de nosso país. Ela implicou um toralmente da elite econômica no país. de estratificação de renda segundo o setenta dias da realização das eleições
falso debate sobre a economia no qual, A segunda característica da con- qual mais de 60% dos eleitores que ga- –, o partido que estrutura todos os en-
AGOSTO 2018 Le Monde Diplomatique Brasil 5

frentamentos eleitorais desde 1989, o da década anterior. É importante no- MAPA DA DISTRIBUIÇÃO TERRITORIAL DOS VOTOS NA ELEIÇÃO DE 2014
PT, não tem um candidato aceito pela tar que a PEC 55 pretende estender es-
estrutura do sistema eleitoral. São ses efeitos por vinte anos a partir da
conhecidos os motivos pelos quais o composição política de um Congresso
PT não tem um candidato: seu líder que é o pior desde a democratização.
maior encontra-se preso após um Nenhum país com uma política de
processo de duvidosa legalidade e ajuste cometeu erros tão primários
continua, até julho de 2018, declaran- quanto o Brasil. Nesse sentido, é im-
do-se candidato. A insistência do PT portante que o próximo governo reve-
na manutenção da candidatura do ex- ja os parâmetros da PEC 55, se não to-
-presidente Lula acentua a incerteza da a estrutura de tetos de gastos, tal
política por uma razão principal: por- como foi proposta por Henrique Mei-
que diminui a possibilidade de um relles e equipe. A melhor proposta é
desfecho institucional para a crise po- aquela feita pelo candidato Ciro Go-
lítica que abala o país. mes, espelhando a maneira como se
Duas são as questões principais a estabelece nos Estados Unidos, no DILMA ROUSSEFF
serem abordadas por um candidato de qual existe uma negociação de quais AÉCIO NEVES
esquerda nas eleições de 2018. A pri- itens cortar, e não uma proposta gené-
meira é a retomada da relevância das rica de corte de gastos que acaba inci-
eleições na determinação das políticas dindo fortemente sobre a área social.
públicas, em especial as políticas da A segunda questão que está em jo-
proteção social. Até este momento, o go nesta eleição e nos próximos anos
Brasil enfrentou um conjunto errático no Brasil é a capacidade de governar
de políticas, capitaneadas pelo campo sem interferência decisiva do Judiciá-
político neoliberal, visando à estabili- rio no processo de tomada de decisão. pel do Executivo, em especial na área prio Judiciário define seu salário e
zação das finanças do Estado. Os re- A Constituição de 1988, por seu forma- de saúde. Essa primeira fase acabou benefícios, precisa ter fim para permi-
sultados não são animadores. O país to de detalhamento da missão consti- gerando uma fase na qual o STF age de tir uma repactuação da organização
não apenas passou pela pior recessão tucional, abriu espaço para uma am- forma seletiva em todas as questões das finanças públicas e das políticas
de sua história, como também impin- pla interferência do Judiciário na que dizem respeito ao sistema político públicas cuja eficiência e foco são hoje
giu aos mais pobres o preço do ajuste, elaboração dessas políticas. Ao mesmo e passa a interferir nas prerrogativas questionadas pelo Judiciário.
gerando mais de 10 milhões de desem- tempo, os artigos 102 e 103 da Carta de exclusivas do Executivo. Cabem al- Esta eleição se diferencia de outras
pregados. Ao mesmo tempo, realiza-se 1988 ampliaram o rol de legitimados guns exemplos: suspensão da nomea- da Nova República porque terá um as-
o ajuste do Estado poupando as corpo- para a arguição de constitucionalida- ção de ministros; remoção de mem- pecto central: a restauração de uma
rações (Ministério Público e Justiça) de, abrindo ainda mais espaço para a bros do sistema político de suas concepção pública de Estado em con-
que estão no centro de um ataque ao interferência do poder judicial em funções; e, finalmente, em dezembro traposição à forma privada hegemoni-
sistema político em nome de um su- questões políticas. Essa interferência de 2017, a suspensão do indulto natali- zada pelo mercado financeiro que se
posto combate à corrupção. A PEC 55 e se deu em duas etapas bastante distin- no e a redação por um ministro do STF instalou depois do impeachment. O
seus efeitos deletérios sobre a organi- tas: no primeiro momento, que corres- de um novo texto. Mais além, um dos próximo presidente terá como tarefa
zação da proteção social e do sistema ponde ao período de Moreira Alves no ministros da corte defendeu essa nova não só recuperar a capacidade do Es-
de ciência e tecnologia são o resultado STF, elas foram pontuais e nos casos função como o exercício de uma fun- tado de assumir papéis relativos aos
dessa forma equivocada de ajuste e de em que o assim chamado mandato de ção de representação (sic) por uma interesses da maioria da população,
compreensão do setor estatal. Por injunção apontava a omissão do Con- instituição contramajoritária. Esta pa- mas também assumir essa difícil tare-
meio dela está em curso um processo gresso na elaboração de determinada rece ser a segunda questão em jogo fa representando de forma inequívoca
de desmonte do Estado em três arenas legislação; assim, o papel do Supremo nestas eleições: dar ao futuro presi- a maioria da população diante das ins-
principais: a área de saúde, com o SUS se restringia a pedir que o Congresso dente um amplo mandato para pôr tituições do sistema de justiça.
sendo colocado em questão; a área de elaborasse tais leis. A partir de 2003- fim ao caos judicial em curso no país,
assistência social, com o sistema terri- 2004 passamos a ter uma nova forma do qual o Ministério Público e o Judi- *Leonardo Avritzer, doutor em Sociologia pe-
torial da assistência social (Cras e de intervenção do STF na política que ciário são sócios. Esse caos, que causa la New School for Social Research (1993) e
Creas) sendo colocado em questão; e a se iniciou com o próprio tribunal legis- insegurança jurídica, diminui as prer- pós-doutor pelo Massachusetts Institute of
área de ciência e tecnologia, com a vol- lando em diversos casos de políticas rogativas do sistema político e pressio- Technology (MIT), é professor adjunto da Uni-
ta dos investimentos no setor ao nível sociais e assumindo claramente o pa- na as finanças públicas, já que o pró- versidade Federal de Minas Gerais (UFMG).

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6 Le Monde Diplomatique Brasil AGOSTO 2018

CAPA

A normalização do golpe
O discurso “responsável” do centro teve um apelo nulo, enquanto as incongruências da direita começaram
lentamente a cavar espaço na mídia convencional. A verdadeira funcionalidade do malabarismo discursivo direitista
não é só desmoralizar a política e, assim, conquistar um voto de protesto. Trata-se de representar eleitoralmente
a última ideia de uma sociedade moribunda: o Estado policial democrático
POR LINCOLN SECCO*

nos radicais. Raúl Alfonsín, José Sar-


ney e Alan Garcia vestiam o figurino
perfeito. Não eram pessoas de esquer-
da, mas seus partidos tinham creden-
ciais democráticas e até desenvolvi-
mentistas (caso do MDB). Os três
terminaram desacreditados por con-
cessões ao passado e processos infla-
cionários descontrolados.
A normalização também falhou na
década seguinte. Carlos Andrés Pérez,
na Venezuela, e Fernando Collor, no
Brasil, acabaram sob impeachment.
Fujimori acabou numa prisão peruana
e, na Argentina, Menem saiu do gover-
no em 1999 e foi preso alguns anos de-
pois. Desde então, uma onda progres-
sista varreu a América Latina.
Os governos progressistas, com
© Daniel Kondo

muitas diferenças entre si, tiveram


uma característica comum: não de-
sencadearam nem uma revolução den-
tro da ordem. Todavia, não puderam
representar a normalização porque as
oligarquias latino-americanas não são
ois anos depois do golpe de rio do golpe de 2016, o de 1964 não con- O terror acentuou, por outro lado, capazes de aceitar a mínima perda de

D 2016, já ficou evidente que o


Partido Togado não possui ne-
nhum projeto.1 Alguns de seus
membros não se importam com a de-
molição de parques industriais, o caos
duziu privatizações em massa e a des-
truição indiscriminada da legislação
trabalhista, nem houve a perda da uni-
dade de comando, apesar das rusgas
internas entre alas mais ou menos
problemas de disciplina e estruturas de
comando paralelas e colocou em perigo
a coesão interna das Forças Armadas.
Havia uma contradição entre os papéis
cada vez mais intromissores que elas
privilégio em que assenta sua forma de
dominação secular.
Assim, os governos foram ameaça-
dos pelo golpe parlamentar e a perse-
guição judicial. Uma vez mais, a direi-
social ou a ascensão fascista. Acredi- fascistizantes. assumiam no aparelho de Estado e a ta se reapresentou com um projeto
tam ser um preço a pagar pela morali- Basta contrapor o modelo chile- perda de eficácia derivada da quebra de alternativo. Com uma diferença cru-
zação do sistema político. no: o bombardeio do Palácio La Mo- rotinas, procedimentos, regras e efi- cial: no final dos anos 1980, a inflação
No entanto, desejam colher o fruto neda colocou o novo regime já no ter- ciência.4 Por fim, a Guerra das Malvinas e a dívida externa deslegitimaram os
proibido sem serem expulsos do paraí- reno da radicalização e os militares sepultou o restante do prestígio delas. governos, mas nenhum deles repre-
so. Aguardam, depois do caos, a or- encontraram numa corrente preexis- A tentativa de normalizar os golpes sentava formalmente um ideário de
dem. Sua pretensão conservadora de tente de economistas liberais as ba- não se limitava a tomar o Estado, mas a esquerda, como vimos.
um organismo em que cada órgão de- ses ideológicas para a naturalização refundar a própria sociedade – só de- Ademais, os governantes neolibe-
sempenha uma função é tão contras- de uma contrarrevolução com os mé- pois, entretanto, que o poder modera- rais dos anos 1990 foram ungidos nas
tante com a realidade latino-america- todos do terror em massa e das priva- dor das Forças Armadas efetuasse a urnas, ainda que sob a fraude no Méxi-
na que só podem reeditar as farsas do tizações indiscriminadas do patri- “limpeza” de elementos indesejáveis. co e a manipulação pela Rede Globo
passado, uma vez mais como farsas. mônio público.3 Onde a sociedade civil era mais comple- no Brasil. Dotados de um programa
A América Latina jamais teve regi- Um modelo intermediário pode xa, os experimentos de violência tan- radical de direita e apoio social signifi-
mes democráticos estáveis. Com a dis- ser encontrado na Argentina. Como o genciaram o limiar do fascismo, mas cativo, eles vivenciaram alguns anos
cutível exceção da Costa Rica, nem os Chile, ela era um país dotado de uma em nenhum país latino-americano de hegemonia antes da queda.
ritos eleitorais conseguiram se manter sociedade civil articulada havia al- uma democracia tutelada ou de fachada A derrocada de governos progres-
periodicamente. Na América Central, guns decênios, mas as privatizações conseguiu se “normalizar” em seguida. sistas latino-americanos no século XXI
até os terremotos revelaram a nature- foram dificultadas por interesses mili- não foi resultante de um descrédito ge-
za incompetente e flibusteira da bur- tares entrincheirados nas empresas. AS TENTATIVAS DE NORMALIZAÇÃO neralizado ou de processos eleitorais, e
guesia local: governantes roubavam a O terror indiscriminado não conse- A tentativa de normalização pós- sim de golpes parlamentares ou de to-
ajuda humanitária enquanto seus ci- guiu eliminar a memória de partidos -golpe não é, portanto, uma novidade ga. As possíveis exceções da Argentina
dadãos morriam. Eram “democracias solidamente estruturados na história no subcontinente latino-americano. e do Equador foram compensadas pela
de fachada”.2 do país nem um sindicalismo cujo pa- Depois do fiasco dos regimes milita- posterior perseguição político-judicial
No Brasil, a ditadura nem se ocupou pel regulador dos conflitos trabalhis- res, as negociações para as transições aos governantes anteriores.
com farsas eleitorais, exceto para um tas foi aos poucos sendo percebido co- democráticas dos anos 1980 foram fei- Os governos neoliberais dos anos
Congresso tutelado. Porém, ao contrá- mo necessário pelos próprios patrões. tas para impedir a ascensão de gover- 1990 haviam montado planos de esta-
AGOSTO 2018 Le Monde Diplomatique Brasil 7

bilização monetária que lhes garanti- razão de que se esgotou por suas pró- pendente. O capitão da direita brasi- curso “responsável” do centro teve um
ram um período de apoio popular. prias contradições internas, ainda que leira se curva perante a bandeira de apelo nulo, enquanto as incongruên-
Agora, eles assumem após a crise glo- fossem inegáveis os avanços sociais e outro país. É o símbolo daquilo que o cias da direita começaram lentamente
bal de 2008 sem uma nova mercadoria seu impacto geopolítico progressista. saudoso Betinho (Herbert de Souza) a cavar espaço na mídia convencional.
de valor a entregar como foi a “moeda Mas, se a esquerda teve dificuldade chamava de “Estado transnacional”, A verdadeira funcionalidade do mala-
forte” no passado. As políticas de aus- com o legado do socialismo real, a di- ou seja, que segue ordens externas e barismo discursivo direitista não é só
teridade fiscal (algumas já iniciadas reita também perdeu algo. perde a capacidade de atender suas desmoralizar a política e, assim, con-
sob os próprios governantes da esquer- A direita é extremista quando pre- próprias populações. quistar um voto de protesto. Trata-se
da) aprofundaram a recessão e eleva- cisa propor uma alternativa após a O fracasso de um centro político de representar eleitoralmente a última
ram o desemprego. derrota da esquerda. E é conservadora “técnico” não é inevitável, mas con- ideia de uma sociedade moribunda: o
Mais que a esquerda, é a direita que quando se acha estabelecida no poder venhamos que é difícil convencer a Estado policial democrático. Que a lei-
entra em crise. Isso não é necessaria- sem uma contestação dotada de viabi- população a votar em candidatos que tora e o leitor estejam diante de um
mente uma boa notícia. Novos golpes lidade eleitoral ou revolucionária. dizem que vão retirar seus direitos oximoro, não será novidade. Demo-
de mão ou vitórias em eleições mais ou No entanto, não podemos confun- sociais. A entrega do poder político a cracia liberal (ou burguesa) já o era.
menos fraudadas e com altos índices dir as contradições internas da direita bufões violentos, como aconteceu em Depois que a economia mundial
de abstenção podem dar fôlego ao pre- e da extrema direita com seu ser social. países tão distintos como as Filipinas enfrentou a crise de 2008, a taxa de lu-
domínio das políticas de privatização. Ele é um só e, por mais antiliberal que e os Estados Unidos, talvez demons- cro caiu e a competição planetária en-
Além disso, os ataques à legislação o fascismo possa ser, integra com os li- tre uma crise mais profunda do pró- tre as empresas transnacionais se acir-
trabalhista desorganizaram os sindi- berais um mesmo continuum. prio terreno político e econômico no rou; a necessidade de baratear a parte
catos, embora tendam a tornar impre- A contrarrevolução da extrema qual está assentada a dominação de circulante do capital e de desregula-
visíveis as novas formas de luta da direita não é uma excepcionalidade classe no capitalismo. mentar quaisquer barreiras à riqueza
classe trabalhadora, reacendendo a na história do liberalismo, mas um financeira mundo afora levou os paí-
chama de movimentos antissistêmi- dos resultados da ordem social que CAOS ses centrais a promover a desestabili-
cos que operam fora da frequência ha- ele defende. Democracias liberais O neoliberalismo de fins do século zação política dos países periféricos. O
bitual da esquerda partidária. usaram técnicas de extermínio con- XX apresentou-se como uma revolução controle do fornecimento de matérias-
tra povos colonizados e se serviram anticomunista que, em vez de defender -primas, alimentos e energia e uma
A NORMALIZAÇÃO DE FACHADA de pessoas consideradas inferiores a família, a tradição e disfarçar a hie- força de trabalho barata são os objeti-
No nosso vocabulário político exis- para a prática da eugenia. Isso não rarquia social, incorporou a desigual- vos dos países dominantes.
tem poucos termos tão desacreditados, quer dizer que liberais autênticos, ra- dade como um valor positivo. Isso era Não se trata desta vez de ter gover-
carregados de um conteúdo tão negati- ros no Brasil, não possam honesta- ser moderno. Como sabem os historia- nos comprometidos com uma depen-
vo, quanto a “direita”. Assim iniciava mente se contrapor a ditaduras. dores, o “moderno” é velho e remonta à dência negociada e dotados de algum
um pequeno manual sobre La droite en Ocorre que, sem uma esquerda que época das comunas medievais, segun- projeto de país, afinal o socialismo,
France.5 Publicado em 1973, no rescal- represente um ser social reconhecível e do Gramsci, ou mais precisamente às mesmo como simples técnica de desen-
do de uma vaga revolucionária ainda uma herança histórica aceitável, a di- inovações no interior da escolástica no volvimento, ruiu com a União Soviética.
inacabada, o livro não podia prever o reita pode finalmente abandonar dis- século XIII. Trata-se agora de ter prestidigitadores
golpe neoliberal no Chile e a contrarre- cursos universalizantes e se valer sim- Contração monetária, elevação da amparados por um aparato midiático,
volução monetarista na Inglaterra e plesmente da mentira. Tanto faz se seu taxa de juros, baixa dos impostos sobre jurídico e policial. Uma classe média
nos Estados Unidos dos anos 1980. sistema político não mobilize ninguém renda e patrimônio, desregulamenta- acossada pelo medo aplaude.
É verdade que a história contempo- e que suas mensagens não tenham ne- ção financeira, ataque aos sindicatos, Mas não é fácil manter Estados
rânea exibiu fases em que todo o terre- nhuma credibilidade. Basta que apare- corte de gastos sociais, privatização e destituídos de suas funções básicas e
no político se deslocou à esquerda ou à çam por uma semana e depois sejam atribuição do desemprego ao fracasso garantir a segurança de enclaves de
direita. Os leitores de Eric Hobsbawm apagadas e substituídas por outra. individual não foram escamoteados, espoliação neocolonial sem promover
se lembram de que a ortodoxia liberal Nesse quesito, o Brasil foi pioneiro. mas propagados. Da mesma forma, o a anomia social e a contraviolência. O
ruiu nos anos 1920 e, depois da Segun- Sem um passado real de lutas nacio- neoliberalismo está assentado num domínio sem consenso organizado é
da Guerra Mundial, seguiram-se os nais coletivas, o conservadorismo não modo de vida. O cidadão é uma empre- insuportável; Estados conquistados e
trinta anos gloriosos em que o Estado teve aqui nada a evocar, e as ladainhas sa em si mesmo; o direito privado é estabelecidos por puro banditismo es-
garantiu um bem-estar mínimo da po- da batalha de Guararapes ou do geno- constitucionalizado, e o Banco Cen- tão fora da política, porque são “mons-
pulação diante da ameaça soviética. cídio no Paraguai jamais teceram uma tral, separado do poder político para se tros históricos”.7
Mesmo políticos direitistas não ou- memória de lutas igualitárias e repu- livrar de incômodas maiorias eleitorais Para as oligarquias togadas, o pro-
savam demolir aquele terreno. No en- blicanas. Um capitão do Exército, ain- circunstanciais.6 O poder se desloca blema da América Latina não é a desi-
tanto, ele estava fundado num longo da que de carreira pouco exemplar, para o controle do Judiciário, e uma gualdade social infame, e sim a cor-
ciclo de crescimento econômico que conseguiu ser o primeiro fascista anti- oligarquia formada por altos funcioná- rupção. Afinal, como disse Rivarol, a
desaguou na queda da taxa média de nacional, e as Forças Armadas apoia- rios do Estado, grandes financistas e igualdade é maravilhosa, mas por que
lucro e, após dois choques do petróleo ram um golpe que pode desmontar a chefes de corporações empresariais contar isso ao povo?
e diante da crise fiscal do Estado, na unidade territorial do Estado. manipula a informação e destrói repu-
contração de gastos sociais. A ascensão política de um come- tações de adversários. *Lincoln Secco é professor de História Con-
A ascensão liberal coincidiu com diante ruim, seja no Brasil ou na Itália, é Todavia, governar não passou a temporânea da Universidade de São Paulo e
a debacle da União Soviética. Dife- edulcorada por dezenas de comentaris- ser entendido como uma gestão téc- autor do livro História do PT (Ateliê Editorial,
rentemente de todas as outras tragé- tas dotados daquela superficialidade nica. Isso é um engano. Partes do go- Cotia-SP, 2011).
dias vivenciadas pela esquerda no profunda que Marx atacava em seus ad- verno foram sequestradas por corpo-
passado, essa foi a primeira que não versários. Adolf Hitler não exibia muita rações do Estado não eleitas e se
1 Lincoln Secco, “Golpe de toga”, Le Monde Diplo-
deixou saudade. Da Comuna de Paris coerência no amontoado de pseudoteo- legitimam pelo discurso da neutrali- matique Brasil, ago. 2017.
à Guerra Civil Espanhola; das tentati- rias e acontecimentos distorcidos que dade. Assim, bancos centrais e tribu- 2 Edelberto Torres-Rivas, Revoluciones sin cambios
vas revolucionárias dos anos 1930 em escreveu em seu Mein Kampf. Mas ha- nais são inquestionáveis. revolucionarios, F&G, Guatemala, 2013, p.318.
3 Tomás Moulin, Chile actual: anatomía de un mito,
El Salvador, Nicarágua ou Brasil ao via ali uma manipulação racional da- O que é, então, governar? Quando o LOM, Santiago, 2017, p.36.
massacre dos comunistas gregos, to- quilo que ele entendia ser a força irra- Poder Executivo podia definir suas po- 4 Marcos Novaro e Vicente Palermo, A ditadura ar-
das as derrotas foram resgatadas do cional contida nas massas. líticas públicas com maior grau de in- gentina, Edusp, São Paulo, 2007, p.111.
5 Jean Christian Petitfils, La droite en France [A direi-
passado como um exemplo a ser re- Outrora, militares entreguistas su- dependência, tratava-se de arbitrar ta na França], PUF, Paris, 1973.
cuperado pela esquerda. bordinavam seu país aos Estados Uni- conflitos sociais. Mas, sem isso, resta- 6 Pierre Dardot e Christian Laval, Ce cauchemar qui
O fim do socialismo real não legou dos em nome de um posicionamento -lhe somente ameaçar os resignados e n’en finit pas [Esse pesadelo que não termina], La
Découverte, Paris, 2016, p.69 e 98.
a ninguém um modelo utópico de so- no xadrez da Guerra Fria e da manu- reprimir os descontentes. 7 Louis Althusser, Política e história, Martins Fontes,
ciedade a ser defendido pela simples tenção de uma zona de soberania de- Eureca! Descobre-se por que o dis- São Paulo, 2007, p.226.
8 Le Monde Diplomatique Brasil AGOSTO 2018

EM BREVE, CAMINHÕES SEM MOTORISTA?

Caminhoneiros, um ícone
em via de desaparecer
Em 2016, pela primeira vez um caminhão sem motorista fez uma entrega nos Estados Unidos. Desde então, os testes se
multiplicaram, abrindo caminho para um mundo em que as mercadorias se deslocarão sem a intervenção humana. Diante dessa
ameaça à existência de seu trabalho, os caminhoneiros norte-americanos oscilam entre o pânico, a negação e a incredulidade
POR JULIEN BRYGO*

que veio apoiar seus colegas. “Os diri-


gentes usam nossa história com Jimmy
Hoffa1 para nos desacreditar e nos pin-
tar para os novatos como uma máfia
querendo roubar o dinheiro deles. Se
os gerentes associam você ao sindicato
dos Teamsters, não lhe dão trabalho.
Os caras ficam com medo de exigir
seus direitos.”
São 16h. Castaneda aponta para a
linha branca em frente ao portão do
depósito: “Se passarmos daquela li-
nha, eles chamam a polícia. Olhe lá na
frente, é um fura-greve”. Um cami-
nhão Peterbilt sem reboque cruza a li-
nha; o motorista freia e aponta uma
pistola imaginária para o grupo sindi-
cal, depois acelera, antes de ser engoli-
do pelo hangar. “As empresas adoram
esses caras. São antissindicalistas de
primeira categoria, como muitos nos
Estados Unidos. Eles recebem bônus
para nos substituir!”
Caminhoneiros em luta, fura-gre-
ves, diretores escondidos atrás das gra-
© Daniel Kondo

des de aço... Parece que estamos no iní-


cio de Fist, filme de Norman Jewison
(1978) em que, na Cleveland de 1937, o
jovem Sylvester Stallone, também co-
nhecido como Johnny Kovak, faz greve
atrás de greve a fim de forçar os patrões
a reduzir o tempo de trabalho e au-
mentar os salários dos condenados das
estradas. Os funcionários da XPO pa-

“C
ontratam-se operadores inde- Em frente ao portão, um cortejo listas europeus, mas nada funcionou: recem lutar contra o mesmo obstáculo
pendentes!” Plantados na gra- prepara uma greve, a sexta em quatro a XPO recusa-se a reconhecer os moto- da época: a repressão aos sindicatos.
ma, os cartazes da empresa de anos. Nesta tarde de maio de 2018, ristas como funcionários!” Porém, observando as análises dos
logística XPO Logistics, em com seus camaradas do International Nesse armazém, a maior parte dos bancos de investimento e os comuni-
Longbeach (Califórnia), fazem pensar Brotherhood of Teamsters, o maior 150 motoristas adquiriu o caminhão cados corporativos, notamos que um
naqueles restaurantes de estrada nos sindicato nos Estados Unidos (1,4 mi- por meio de arrendamento mercantil novo participante logo fará sua entra-
Estados Unidos sempre com o mesmo lhão de membros em 2018, 600 mil de- da XPO. A técnica é conhecida pelo no- da no cenário do transporte rodoviário
anúncio na porta: “Estamos contra- les atrás do volante), Santos Castane- me de leasing, que permite à empresa nos Estados Unidos – trata-se do cha-
tando”. A multinacional do transporte da quer que os motoristas da XPO vender a ferramenta de trabalho ao ca- mado caminhão “autônomo”, que não
de mercadorias (que em 2015 comprou assinem uma petição contra a condi- minhoneiro, o qual se tornará, depois precisará, como diz seu nome, de um
o grupo francês Norbert Dentressan- ção de trabalhador independente, que de muitos anos pagando parcelas ser humano para fazê-lo rodar.
gle por mais de US$ 2 bilhões) luta para considera um disfarce para o trabalho mensais, a menos que algo aconteça, o
encontrar novos motoristas para en- assalariado. “Apresentamos queixa feliz proprietário de seu veículo. O do- NA CONTABILIDADE DO VALE DO SILÍCIO
tregar os contêineres dos grandes vare- cinco vezes perante a Suprema Corte no da XPO, Bradley Jacobs (com uma Segundo um relatório do Morgan
jistas, como Walmart e Amazon. Como da Califórnia”, diz. “Fizemos petições, fortuna de US$ 2,6 bilhões em 2018), Stanley publicado em 2013,2 os trans-
quase todas as empresas de transporte entramos com processos. Chegamos não gosta de sindicatos. “Os Teamsters portadores portuários, como os da
rodoviário do país, ela está alarmada até a lançar uma grande campanha não são reconhecidos na empresa”, diz XPO Logistics, serão os primeiros a se-
com a falta de 50 mil caminhoneiros. mundial com nossos colegas sindica- Daniel Duarte, motorista de ônibus rem substituídos por veículos sem mo-
AGOSTO 2018 Le Monde Diplomatique Brasil 9

torista. Depois, “entre 2020 e 2025”, vi- país, motorista de caminhão é a pro- seu caminho”, resume André Ribeiro, comparação com os trabalhadores in-
rão os caminhões autônomos de nível fissão mais comum, na frente de em- funcionário de uma empresa califor- dependentes, que ganham US$ 1.200
4, capazes de se guiarem sozinhos, pregados do comércio, professor e (em niana. Ele acaba de parar em um posto por semana, por mais de sessenta ho-
mas em áreas previamente mapeadas clara alta) programador.4 Mais de 1,8 de gasolina de Minnesota, parecido ras de trabalho, arcando com todos os
e com uma pessoa a bordo para o caso milhão de caminhoneiros, dos quais com dezenas de milhares de outros: custos, estamos muito bem.” Scott la-
de haver problemas. Os veículos com- 93% são homens, operam em longas bombas de gasolina pagas com cartão, menta sobretudo que a empresa não
pletamente autônomos, de nível 5, sem distâncias, transportando cerca de um funcionário precário atrás do bal- esteja mais recompensando seus me-
ninguém na cabine, estarão generali- 70% dos bens de consumo no país – o cão, salsichas girando em uma estufa e lhores motoristas, que antes podiam
zados “por volta de 2030”. “As utiliza- restante é transportado por via férrea. garrafas de café que os caminhoneiros sair com uma máquina de lavar ou
ções em circuito fechado – por exem- Em 2017, o salário médio de um moto- levam em copos. “O mais difícil é a es- uma churrasqueira (por trinta anos de
plo, nos portos – serão as primeiras, rista de caminhão era de US$ 42.480 pera, a solidão, estar confinado em serviço). “Isso acabou”, lamenta, e
seguidas pelos trajetos em rodovias e, por ano, de acordo com o Bureau of La- seus pensamentos. E o cansaço. Todos continua: “Não muito longe da minha
finalmente, pelas utilizações em zona bor Statistics.5 A taxa de rotatividade os motoristas vão dizer a mesma coisa: casa, uma mulher foi morta outro dia
mista, urbana e rodoviária”, prevê o do setor é impressionante: quase todos sentimos que somos um risco, pois so- por um carro autônomo da Uber.8 Eu
Morgan Stanley, que estima em US$ os motoristas que entram em uma em- mos levados ao nosso limite. Eu dirijo não gosto dessa ideia de caminhões
168 bilhões anuais a economia ligada à presa de transporte saem depois de onze horas todos os dias! Onze horas sem motorista. Sempre vamos preci-
automatização do setor: US$ 70 bilhões seis meses. sentado no banco do caminhão! Vive- sar de motoristas, não? Espero que
pela supressão de mão de obra, US$ 36 Por muito tempo, o caminhoneiro mos cheios de cafeína, energéticos; tu- Trump não deixe isso acontecer”.
bilhões em custos de acidentes evita- foi uma figura-chave no grande ro- do o que sai, nós tentamos. Depois to- Os veículos autônomos, porém, são
dos,3 outros US$ 35 bilhões em econo- mance nacional. É ele o guardião da mamos pílulas para dormir.” um fato – ao qual Donald Trump não faz
mia de combustível e mais US$ 27 bi- promessa da América, berço da livre A 1.500 quilômetros dali, Paul nenhuma oposição: hoje, o “caubói dos
lhões em “ganhos de produtividade”. circulação de bens e pessoas. Ele é Scott, de 72 anos, estaciona seu cami- tempos modernos” aparece em verme-
Outros analistas financeiros se mos- “uma figura importante na cultura po- nhão preto com desenhos amarelos lho nas planilhas Excel das start-ups
tram ainda mais otimistas. pular, celebrada ao mesmo tempo co- perto de um posto de gasolina, no No- criativas do Vale do Silício. Os cami-
O relatório do Morgan Stanley colo- mo caubói e renegado”, resume Rich vo México, com ares de Velho Oeste: nhoneiros – com seus intervalos, suas
ca os motoristas que trabalham por Cohen, um autor do Meio-Oeste que saloon, consultório médico, prisão. Há oito horas de sono, seus salários e suas
meio do leasing, como os de Longbea- “sempre sonhou em dirigir cami- cinquenta anos ele é motorista de en- ameaças de paralisações – represen-
ch, entre as primeiras vítimas da “dis- nhão”.6 A música e o cinema – de Fist a tregas da United Parcel Service (UPS), tam até 40% do custo total do trans-
rupção” do transporte. “Isso nunca vai Mad Max, passando por Comboio e maior empresa de entrega de enco- porte de mercadorias. Por isso, após a
acontecer”, acredita André Hart, que Agarra-me se puderes – constituíram mendas do mundo, com 435 mil fun- disrupção no setor bancário, no setor
dirige caminhões de carga há dezessete uma imagem excepcional do cami- cionários –, e tornou-se também o postal, nas telecomunicações, no co-
anos. “Já é muito perigoso na estrada... nhoneiro no imaginário norte-ameri- símbolo da última vitória sindical na- mércio, na indústria fonográfica, no
Computadores não têm olhos. Com as cano: a de um sujeito habilidoso, que cional nos Estados Unidos, após a fa- jornalismo e no transporte de passa-
câmeras, todos os dias acontecem sur- sabe farejar oportunidades, conversa mosa “greve da UPS”.7 geiros, o Vale do Silício os colocou na
presas desagradáveis.” Gerald Daniels com seus colegas em uma linguagem Em 1997, Scott já fazia parte dos 185 lista de seus próximos alvos. Em outu-
se aproxima, com cabelo rastafári até o particular e é capaz de mobilizar os mil grevistas sindicalizados aos bro de 2016, a empresa Otto, adquirida
quadril e óculos escuros: “Claro que vai companheiros para fazer o equilíbrio Teamsters que, em quinze dias de blo- pela Uber, anunciou ter realizado com
acontecer”, lança. “No terminal de con- de forças pender a seu favor. Em Com- queio, dobraram a direção da UPS, re- sucesso a primeira entrega comercial
têineres de Longbeach já não tem mais boio, de Sam Peckinpah, quando um confortando a classe trabalhadora autônoma (de caixas de cerveja Bud-
ninguém carregando os caminhões.” jornalista pergunta qual é o objetivo norte-americana, ainda traumatizada weiser) em um trajeto de 193 quilôme-
Assim como as colheitadeiras guiadas do movimento de resistência à polícia pela decisão de Ronald Reagan de de- tros. Desde então, a coisa está se acele-
por GPS, os cortadores de grama inteli- que reuniu centenas de caminhonei- mitir 11.359 controladores de tráfego rando. Ao lado da Uber, da Google e da
gentes que percorrem o jardim ou os ros, Martin “Rubber Duck” Penwald – aéreo em greve, em 1981. “Graças à Tesla, cinco start-ups competem para
aspiradores de pó domésticos que cir- interpretado por Kris Kristofferson – greve, conseguimos boas condições inventar o primeiro sistema confiável
culam sobre os carpetes, os caminhões responde: “A razão de ser do comboio é de trabalho, bons salários e também de caminhões sem motoristas.9
de amanhã serão “autônomos”, prome- nunca parar”. bons uniformes. Hoje, eu não trocaria
te o Vale do Silício. “Nós, os caminhoneiros, não so- meu lugar por nada no mundo: temos “O GOOGLE MATOU A SOLIDARIEDADE”
Nos Estados Unidos, 3,5 milhões de mos os caubóis dos tempos modernos, oito semanas de férias por ano, ótimas No clube dos cinco, Stefan Seltz-
pessoas trabalham atrás do volante. estamos mais para gatos selvagens que aposentadorias, plano de saúde e bons -Axmacher, de 28 anos, dono da Star-
Na maioria dos cinquenta estados do nunca se cruzam, cada um seguindo salários – até US$ 100 mil por ano. Em sky Robotics, que aposta em cami-

T R O C A DE
RAINHAS "O roteirista e diretor Marc Dugain
desdobra sua história com habilidade
e consegue manter o suspense até o fim.
UM FILME DE MARC DUGAIN Um sucesso!"
BASEADO NO ROMANCE DE CHANTAL THOMAS
(Le Journal du Dimanche)

HOJE NOS CINEMAS


10 Le Monde Diplomatique Brasil AGOSTO 2018

nhões remotamente controlados, faz o Conselho Conjunto 7 do sindicato. chilar na sala de TV ou ainda experi- Carter extinguiu o controle estatal so-
papel de Pequeno Polegar. Em seu es- “Não somos contra a tecnologia, mas mentar, nas gôndolas de mercadorias, bre as tarifas e licenças, entregando
critório em San Francisco, o jovem saí- ela não pode servir para deteriorar as sandálias com “a autêntica grama do todo o setor à lei do mercado. O painel
do da escola de negócios, com a barba condições de vida dos caminhoneiros Iowa”. “Aqui estão os melhores chuvei- termina com a fotografia de uma
fina raspada apenas no queixo, rosto e tornar seu trabalho ainda mais difí- ros da América”, diz Tonya Brewer, criança abaixo da porta de um cami-
redondo e olhos brilhantes, empenha- cil e sem sentido, reduzindo-os ao pa- com fone de ouvido em uma das ore- nhão, com a seguinte pergunta: “O
-se em explicar já de saída que “nunca pel de assistentes de robô. Além do lhas. “Dizem que os caminhoneiros que o futuro nos reserva?”.
trabalhou como motorista de cami- mais, eu te digo: todos aqueles que, co- são sujos e malvados. Eu tomo banho “Bem”, responde Sandra C., recep-
nhão”. Ele levantou US$ 21,5 milhões e mo o dono da Starsky, dizem que estão todos os dias, ou pelo menos a cada cionista do museu, “espero que não se-
contratou trinta engenheiros, a partir ‘prontos’ estão mentindo. A infraes- dois dias. E não perturbo ninguém na ja o futuro dos caminhões sem cami-
de 2015, para desenvolver um sistema trutura não está pronta, os computa- estrada!” Brewer é funcionária da nhoneiros. A vida deles já é dura como
de caminhões teleguiados, que imagi- dores não estão prontos. Os norte-a- Swift, uma das maiores empresas de está. Muitos só vão para casa uma vez
na navegando entre os galpões da mericanos não estão prontos.” Nem os transporte rodoviário dos Estados por mês, e todos comem muito mal
Amazon e os terminais de contêineres. Teamsters... “Estamos muito longe do Unidos. “Dirijo 25 dias por mês, onze nas estradas. Veja, hoje está vazio; é
Para transformar o país em uma gigan- dia em que caminhões sem motoristas horas por dia, por cerca de US$ 1.200 sempre assim nos dias de semana. Os
tesca cadeia automatizada da Amazon, estarão circulando em quantidade nas por semana, e vou para casa quatro caminhoneiros não têm tempo para
não é necessário gravar milhões de có- rodovias”, garante Bloch. dias por mês. Eu e meu marido nos vir aqui, mesmo que este seja, que eu
digos de barras nos sinais de trânsito amamos, mas quatro dias por mês é o saiba, o único museu dedicado a eles
nem instalar chips eletrônicos no as- suficiente. Eu adoro ficar sozinha. Pa- em todo o país.”
falto. Ligados a câmeras, radares e sen- ra mim, é liberdade. Bem, preciso ir!”
sores de movimento, os caminhões co- “Estamos muito Caminhoneiros não têm tempo. *Julien Brygo é jornalista e autor, com Olivier
nectados serão primeiro guiados a longe do dia em Monitorados pelo electronic logging de- Cyran, de Boulots de merde! Du cireur au tra-
distância por operadores quando esti- vice, a folha de rota eletrônica, seus der – Enquête sur l’utilité et la nuisance so-
que caminhões
verem em estradas “complexas”; de- tempos de intervalo são cronometra- ciales des métiers [Empregos de merda! Do
pois, entrarão em modo “autônomo” sem motoristas dos – e não são pagos. “Se eu pudesse sapateiro ao corretor financeiro – Pesquisa
na rodovia. “Tecnicamente, estamos estarão circulando encontrar o cara que inventou essa sobre a utilidade e o prejuízo social das pro-
quase prontos”, garante Seltz-Axma- em quantidade máquina e forçá-lo a ficar onze horas fissões], La Découverte Poche, Paris, 2018.
cher. “Tivemos um progresso formidá- por dia preso na cadeira do escritório,
nas rodovias”
vel nos últimos três anos.” verificando cada movimento que ele
Filho de um “engenheiro frustra- faz, impedindo que durma ou descan-
do” e de uma jornalista da imprensa de se quando quiser, ele iria ver como é vi-
1 Carismático secretário-geral do sindicato entre
negócios, ele deve sua ideia à Opera- No entanto, o desenvolvimento de ver assim!”, exclama Felipe Ramirez, 1957 e 1971, condenado em 1967 por suas rela-
ção Haymaker, lançada pelo Exército diversas tecnologias já mudou profun- cubano de nascimento e caminhonei- ções com a máfia e perdoado por Richard Nixon
dos Estados Unidos no nordeste do damente a vida dos trabalhadores do ro independente “desde sempre”. No em 1971.
2 “Autonomous cars: Self-driving the new auto indus-
Afeganistão em 2012: “Observando na asfalto. Nos caminhões modernos, o estacionamento do Iowa 80, o homem try paradigme” [Veículos autônomos: dirigindo so-
TV os drones atacarem o Afeganistão, smartphone substituiu o CB (citizen com 1 milhão de milhas em 24 anos de zinho o novo paradigma da indústria automobilísti-
pensei que, já que era possível guiar band, microfone usado para se comu- condução ajusta suas bandeiras ver- ca], Morgan Stanley Blue Paper, 6 nov. 2013.
Disponível em: <http://orfe.princeton.edu>. Cf.
aeronaves a distância, deveria ser pos- nicar em frequências de rádio reserva- melhas de segurança atrás da carga de também Olivia Solon, “(Self)driving trucks: what’s
sível fazer o mesmo com veículos pe- das às comunicações públicas); as fo- tubos de plástico. Ele vai para Reno, the future for America’s 3,5 million truckers?” [Ca-
sados”. Com os engenheiros e opera- lhas de rota manuscritas deram lugar a Nevada. “Ninguém quer fazer este minhões autônomos: qual é o futuro dos 3,5 mi-
lhões de caminhoneiros dos Estados Unidos?],
dores da Starsky Robotics (em sistemas eletrônicos de controle; os maldito trabalho, e eu entendo os jo- The Guardian, Londres, 17 jun. 2016.
referência à série Starsky e Hutch), ele mapas desapareceram em favor do vens. Nós amamos esta vida, mas é 3 Em 2016, 40 mil pessoas foram mortas nas estra-
se prepara para lançar, até o final de GPS; e os músculos das pernas e dos cheia de sacrifícios. Minha filha está das dos Estados Unidos, 786 delas caminhonei-
ros, de acordo com a National Highway Traffic Sa-
2018, os primeiros testes em tamanho pés foram aliviados pelo cruise control no hospital há três dias com congestão fety Administration, o que faz dessa a profissão
real na Flórida. “No início haverá des- (o nível 1 dos veículos autônomos). “A intestinal; ela está em Miami e eu estou mais perigosa do país.
confiança, mas ela logo se transforma- solidariedade entre os caminhonei- aqui, na estrada. Esta é a minha vida.” 4 No início de 2015, a National Public Radio (NPR)
produziu mapas mostrando as principais profis-
rá em confiança cega. Os seres huma- ros começou a desaparecer com a sões em cada estado [dos Estados Unidos] nos
nos não são muito bons em realizar chegada do Google”, lembra Mike Da- CAFÉ, SOL E MÚSICA COUNTRY últimos cinquenta anos. Duas tendências claras
tarefas repetitivas durante um dia in- vidson, caminhoneiro de Iowa que Atrás dele, o museu do caminhão podem ser notadas: o desaparecimento dos agri-
cultores e o aumento do número de caminhoneiros.
teiro, como dirigir dez horas seguidas tem os dedos e os braços tatuados recebe os visitantes com um modelo “Map: the most common job in every state” [Mapa:
em linha reta. Os computadores são com as palavras “Nadar ou afundar”. original do Big Brute, veículo da Ge- o trabalho mais comum em cada estado], 5 fev.
muito melhores nisso.” Ele acha que “Quando eu comecei, tínhamos de neral Motors de 1927. No fundo do 2015. Disponível em: <www.npr.org>.
5 Os transportadores portuários ocupam a base
terá mais sucesso que o Exército no usar o CB para perguntar aos outros edifício, um vídeo passa em looping dessa pirâmide, com menos de US$ 30 mil anuais.
Afeganistão: “Os caminhoneiros de motoristas como estava o trânsito, um filme de propaganda. Liberdade, Mas em alguns nichos, como no transporte de mu-
quem você fala, que continuam pen- esse tipo de coisa. Éramos forçados a orgulho, autonomia: a imagem do ca- danças de famílias abastadas, o salário anual pode
chegar a US$ 250 mil.
sando que seu trabalho nunca será au- falar uns com os outros. Agora, dize- minhoneiro, a caneca de café na mão 6 Rich Cohen, “The end of the big-rig dream” [O fim
tomatizado, me fazem pensar nos tra- mos ‘Ok, Google’ e pronto.” enquanto o sol nasce nas suntuosas do grande sonho da estrada], The Wall Street
balhadores da colheita de látex no Com novecentas vagas de estacio- montanhas do Oeste. Com fundo de Journal, Nova York, 9 fev. 2018.
7 Ler Rick Fantasia, “Spectaculaire victoire des ca-
Brasil dos anos 1980, que estavam con- namento, um museu e um supermer- música country, a mensagem, carre- mionneurs américains” [Espetacular vitória dos
vencidos de que nenhuma máquina cado dedicado aos caminhoneiros, o gada por trabalhadores de todas as caminhoneiros nos Estados Unidos], Le Monde
poderia substituí-los”. Iowa 80, conhecido como “a maior pa- origens, é inspiradora: “Temos orgu- Diplomatique, out. 1997.
8 Em meados de março de 2018, um Volvo semiau-
Em 15 de maio foi realizada em Las rada de caminhões do mundo”, é uma lho de ser caminhoneiros dos Esta- tônomo da Uber, dirigido por um funcionário da
Vegas – cidade parcialmente construí- espécie de lar doce lar para os motoris- dos Unidos”. empresa em modo automático, matou a pedestre
da graças ao desvio de fundos de pen- tas. Os visitantes são recebidos por um Um mural retoma as principais da- Elaine Herzberg, de 49 anos, em Tempe, no Arizo-
na. Após o acidente, a Uber anunciou a suspensão
são dos Teamsters por Jimmy Hoffa – caminhão em um pivô mecânico que tas da história dos rebocadores. Ela co- temporária de seus programas de testes de carros
uma mesa-redonda com líderes brilha com a inscrição: “If you bought meça em 1750, com os veículos puxa- autônomos em Pittsburgh, San Francisco, Toronto
sindicais da IBT sobre os caminhões it, a truck brought it” (“Se você com- dos a cavalo, continuando com o e Phoenix.
9 Com sede nos estados do sul, a Nikola Motor
autônomos. Uma reunião a portas fe- prou, um caminhão carregou”). Os ca- primeiro quatro-rodas da Ford, em Company, a TuSimple, a Peloton, a Starsky Roboti-
chadas: o caso é “muito sério”. “Foi minhoneiros podem aliviar as costas 1896, o nascimento do sindicato dos cs e a Embark captaram US$ 310 milhões em fi-
instrutivo, mas precisamos nos reunir com cinesioterapia, cuidar das cáries Teamsters, em 1903, e estendendo-se nanciamento, em meados de 2018, para desenvol-
ver vários sistemas de caminhões sem motorista
novamente”, declarou alguns dias de- no dentista, fazer uma sessão de gi- até a data-chave de 1980. Nesse ano, o (autônomos, em comboio, remotamente controla-
pois Doug Bloch, diretor político do nástica em uma máquina elíptica, co- Motor Carrier Act do presidente Jimmy dos e elétricos).
AGOSTO 2018 Le Monde Diplomatique Brasil 11

REVOLUÇÃO TECNOLÓGICA, TRANSFORMAÇÃO GEOPOLÍTICA

Carro elétrico, uma miragem ecológica


Acabar com o petróleo, os gases de efeito estufa e a poluição atmosférica: essas são as promessas do carro elétrico.
Mas o entusiasmo atual oculta as novas poluições e dependências geopolíticas que essa revolução implica. Isso porque,
graças a seu monopólio de certas matérias-primas, a China poderá se tornar a capital mundial do automóvel
POR GUILLAUME PITRON*

iva o carro elétrico!”, proclamou tros não funcionaram como espera- INCENTIVOS FISCAIS E APOIOS À INOVAÇÃO coletivo. Também é necessário equipar

V Carlos Ghosn, presidente do


Grupo Renault, em 2009.1 “Ro-
dar de graça, para sempre, utili-
zando raios de sol”, completou Elon
Musk, presidente do grupo norte-ame-
do, a que energia recorrer? Durante
meio século, a busca por novas mo-
torizações (ver glossário) produziu
entusiasmos tão febris quanto efê-
meros: kits de injeção Vix baseados
O anúncio da China, em setembro
de 2017, sobre a elaboração de um cro-
nograma para proibir a comercializa-
ção de veículos movidos a gasolina,
entre 2030 e 2040, mandou um sinal
o território com estações de carrega-
mento: mais de 47 mil unidades nos Es-
tados Unidos em 2017; quase 214 mil na
China. Os apoios à inovação não são ne-
gligenciados: em 2017, o Reino Unido
ricano Tesla, em 2013.2 Na China, o pri- no uso de água (anos 1970), motores decisivo, que ecoou na maioria dos anunciou um investimento de 217 mi-
meiro-ministro Li Keqiang elogia a a diesel (anos 1980), filtros de partí- países ocidentais. A Alemanha e a Ho- lhões de euros em um programa para
chegada de novos veículos como for- culas (anos 1990), biocombustíveis landa previram o banimento da venda tornar o país uma referência no campo
ma de “fortalecer o crescimento eco- (anos 2000)... Antes que a célula de de carros a combustão a partir de 2025. de baterias elétricas.
nômico e proteger o meio ambiente”.3 combustível trouxesse uma nova Na França, Nicolas Hulot, ao assumir o Essa conversão paramentada de
Renasce assim o interesse pela eletro- empolgação, a tração elétrica foi cargo, em julho de 2017, estabeleceu o virtudes ecológicas garante novos pe-
mobilidade, mais de um século após o apresentada como a tecnologia mesmo objetivo para 2040. Na Índia, o ríodos de crescimento. Embora os car-
recorde do La Jamais Contente, o carro substituta por excelência. governo não quer que “um único carro ros elétricos tenham representado
elétrico que ficou na história como o “A eletricidade é uma energia que a gasolina ou diesel” seja comerciali- apenas 1% do mercado global de auto-
primeiro automóvel a ultrapassar a ve- dominamos bem, e a infraestrutura de zado a partir de 2030. As grandes cida- móveis em 2017 (e os híbridos 1% tam-
locidade de 100 km/h, em Achères, Île- produção já está disponível”, explica des costumam ter o papel de puxar a bém), suas vendas na França cresce-
-de-France, em 1899. Jean-François Belorgey, responsável fila: em 2017, os prefeitos de uma dúzia ram 17% no mesmo ano, enquanto o
O planeta tem hoje 47 cidades com pelo setor automotivo da EY, uma con- de metrópoles, como Paris, Los Ange- comércio total de automóveis teve au-
mais de 10 milhões de habitantes, e es- sultoria especializada. “Por fim, esses les, Auckland e Cidade do Cabo, com- mento de menos de 5%.6 O incremento
sa urbanização galopante coloca a po- veículos são percebidos como não prometeram-se a adquirir apenas ôni- da capacidade de armazenamento das
luição do ar – que causa milhões de emissores de carbono.” Segundo uma bus com “emissão zero” até 2025 e a baterias, a queda de seus custos de
mortes prematuras – entre as princi- pesquisa recente, mais de oito em cada proibir emissões de carbono em gran- produção e a diversificação dos mode-
pais preocupações de 4 bilhões de ci- dez franceses acreditam que os carros des áreas de suas cidades até 2030.5 los oferecidos convergem para que os
dadãos. A fraude dos fabricantes para 100% elétricos permitem reduzir o im- Alguns países colocam seu peso na veículos parcial ou totalmente elétri-
mascarar a periculosidade dos moto- pacto ambiental da mobilidade,4 o que batalha, usando a taxação como instru- cos venham até 2025 a representar, se-
res a diesel aumentou ainda mais a é confirmado pela Fundação para a mento: nos Estados Unidos, o compra- gundo os mais otimistas, 43% das ven-
desconfiança em relação aos carros a Natureza e o Homem (FNH), criada dor de um carro elétrico pode obter até das na Europa e 36% na China,7 para
combustão. E a assinatura do Acordo pelo atual ministro da Transição Eco- US$ 7.500 de redução de impostos, en- um mercado global estimado em 82
de Paris sobre o clima estabeleceu um lógica e Solidária, Nicolas Hulot, a qual quanto na Alemanha seu veículo estará bilhões de euros.
quadro de ação global para reduzir as afirma que “os trunfos ambientais do isento do selo indicador do nível de po- Panaceia ecológica, fonte de rique-
emissões de gases de efeito estufa, veículo elétrico estão intrinsecamente luição por dez anos. Outras regulações za e de empregos: à primeira vista, a
com as quais o setor de transporte ligados à colocação em prática da também servem como incentivo: na conversão para a eletricidade total é
contribui em 14%. transição energética” – a despeito da Califórnia e em algumas cidades chine- óbvia. “Frenesi”, “falta de perspectiva”,
© Adão

Se os modelos a combustão que existência de análises muito mais sas, os carros elétricos podem trafegar “empolgação”: é o que responde, con-
fariam 100 quilômetros a cada 3 li- sombrias (ver boxe). em pistas reservadas para o transporte tra todas as expectativas, Carlos Tava-
12 Le Monde Diplomatique Brasil AGOSTO 2018

conta que, após exames médicos, o lo- elétrico e o surgimento dessa tecnolo-
UMA PROFUSÃO DE TRAÇÕES cal foi apelidado de “aldeia do câncer”: gia poderiam aniquilar essa liderança
“Sabemos que respiramos ar tóxico e ocidental e dar a Pequim a oportunida-
A combustão. Veículo no qual a energia gerada pela combustão de um combustí- que não temos muito tempo de vida”. A de de “ter um papel inesperado no se-
vel é convertida em força mecânica. O motor de combustão interna mostrou-se mais purificação de 1 tonelada de metais de tor automotivo”, explica Laurent Hor-
eficiente e fácil de integrar em um veículo individual do que o motor a vapor de Denis terras-raras também requer o uso de vath, geoeconomista da energia.
Papin. O primeiro motor a explosão de Étienne Lenoir (inventado em 1859) funcio- pelo menos 200 metros cúbicos de Nenhum outro país armou uma es-
nava com gás, depois foi adaptado para a gasolina. O motor de ignição por compres-
água.9 Os agricultores e moradores das tratégia tão ambiciosa em eletromobi-
são inventado por Rudolf Diesel em 1893 usa diesel.
áreas de mineração estão, portanto, lidade quanto a China. Em 2015, o pla-
Elétrico (ou 100% elétrico). Veículo movido por um motor elétrico cuja energia é sujeitos a um alto nível de estresse hí- no “Made in China 2025” designou as
fornecida por grandes baterias que podem ser recarregadas conectando-as a uma drico. No Chile, maior produtor de co- baterias de carros elétricos como prio-
rede elétrica, como o modelo Zoé, da Renault. Inspirado na “roda de Barlow” (1822), bre do mundo, o déficit hídrico é tal ridade industrial. Da mesma forma, o
Nikola Tesla solicitou a patente do motor eléctrico assíncrono em 1886. Poderoso, que, até 2026, deve forçar os grupos de país tira vantagem de seu gigantesco
mas de baixa autonomia, esse tipo de motorização permite atingir altas velocidades mineração a utilizar 50% de água do mercado interno, que favorece as eco-
sobre trilhos, mas foi abandonado por quase um século em favor do rodoviário. mar dessalinizada10 – processo extre- nomias de escala e permite que suas
mamente intensivo em energia. Os ca- montadoras ganhem em competitivi-
Híbrido. Carro que combina um motor de combustão (gasolina ou diesel) a um sos de poluição gerados pela extração dade. E, para acelerar esse novo come-
motor elétrico de apoio alimentado por uma bateria que armazena a energia elétrica
e o refino de metais raros podem ser ço, Pequim pode contar com a produ-
produzida enquanto o carro funciona, sobretudo durante a desaceleração. A combi-
observados no Chile, na República De- ção dos metais raros de que precisa.
nação diesel-eletricidade era comum nos veículos sobre trilhos. Sobre rodas, o pri-
meiro modelo individual comercializado combinando os dois motores (gasolina e mocrática do Congo, nos Estados Uni- Isso porque, ao deslocalizar a poluição
elétrico) foi o Prius, da Toyota, em 1997. dos e no Cazaquistão, e revelam um da mineração, o Ocidente também ce-
surpreendente paradoxo: o uso de veí- deu a um rival o monopólio sobre os
Híbrido recarregável. Veículo híbrido cujas baterias também podem ser carregadas culos defendidos por sua limpeza re- materiais estratégicos para a mobili-
na rede elétrica, oferecendo maior autonomia, como o Prius desde 2011. quer a extração de metais sujos – po- dade elétrica: a China produz 94% do
rém longe dos olhos e das câmeras. magnésio, 69% do grafite natural e
Com extensor de autonomia. Sem ser informada sobre a origem 84% do tungstênio consumidos no
Carro elétrico com um pequeno motor de combustão auxiliar que permite recarre- desses recursos, que as indústrias pe- mundo. As proporções chegam a 95%
gar as baterias em caso de ameaça de pane seca. O Chevrolet Volt foi o primeiro nam para reciclar e substituir, a maio- para alguns metais de terras-raras.
desse tipo, comercializado em 2010.
ria dos cidadãos ocidentais simples- A China usa essa posição vendendo
mente não sabe nada sobre isso. A alguns recursos até 20% mais caros
A hidrogênio. Uma célula de combustível hidrogênio-oxigênio funciona de modo
contrário à eletrólise da água. Para produzir a eletricidade necessária ao motor, ela distância das minas é o principal moti- para seus clientes estrangeiros. Acu-
consome apenas o hidrogênio do tanque e o oxigênio do ar. Funcionando em labo- vo. Na década de 1990, regulamenta- sando-a de “prejudicar os produtores
ratório desde 1839 (graças a William Robert Grove), esse tipo de produção de ções ambientais rigorosas forçaram norte-americanos”, em 2016 os Esta-
energia foi, durante muito tempo, difícil de miniaturizar. O Toyota Mirai foi o primeiro empresas de mineração e refinarias dos Unidos apresentaram uma queixa
modelo do tipo no mercado, lançado em 2014. A ele se juntaram modelos da Hon- ocidentais a encerrar ou transferir suas à Organização Mundial do Comércio
da e da Hyundai. atividades de produção de metais de (OMC). Além disso, desde o início dos
terras-raras. Candidata de sempre a es- anos 2000 Pequim tem reduzido as ex-
Pneumático. A descompressão do ar comprimido em um reservatório sob pres- ses trabalhos sujos, a China então em- portações de diversos materiais, como
são passou a ser utilizada como força motriz no final do século XIX, para ferrovias barcou em uma estratégia ambiciosa molibdênio, fluorita, magnésio e fósfo-
e principalmente bondes. Muitas vezes anunciado ou apresentado em carros-con-
de desenvolvimento industrial, ao cus- ro amarelo. Segundo a Comissão Eu-
ceito, o dispositivo ainda não equipa nenhum veículo individual.
to da devastação de seus ecossistemas. ropeia, uma miríade de metais conti-
“O povo chinês sacrificou seu ambien- dos nos veículos elétricos já se tornou
te para abastecer o planeta com metais “crítica”, ou seja, há risco de ruptura
res, no Salão do Automóvel de Frank- até 60 quilos de um mineral menos ra- de terras-raras”, admite Vivian Wu, es- do fornecimento.11
furt, em setembro de 2017. “Toda essa ro, o lítio, na bateria de um único car- pecialista nesse tipo de mineral que Essas manobras colocam as mon-
agitação, esse caos, pode acabar se vol- ro. Outro, o cério, é colocado nos para- trabalha em uma filial chinesa da quí- tadoras ocidentais em um dilema: de-
tando contra nós, pois tomaremos de- -brisas para evitar arranhões. Na mica Solvay. Assim, é necessário desde vem manter suas máquinas em casa,
cisões erradas”, diz. O presidente do cabine, as telas de cristal líquido con- já observar com muita parcimônia os correndo o risco de trabalhar abaixo
Conselho do grupo PSA-Peugeot não têm európio e cério... “carros limpos” e os “veículos zero da capacidade por falta de fornecimen-
quer que “em trinta anos todos descu- A extração e o refino desses mate- emissão” tão louvados pelas montado- to de suprimentos? Ou devem desloca-
bram que isso não era tão bom como riais são processos altamente poluen- ras. Embora um carro elétrico não lizar a produção para a China, onde
parecia”. Ele cita os problemas relacio- tes. Essa realidade salta aos olhos na emita carbono quando está andando, podem contar com acesso ilimitado às
nados à reciclagem de baterias ou à China, país produtor da grande maio- seu impacto ambiental foi deslocado a matérias-primas? A mão de obra bara-
“gestão das matérias-primas raras”.8 ria desses recursos. Maior área do montante de sua entrada em funciona- ta vinda do interior, o baixo custo do
A mudança para a eletromobilida- mundo de extração e refino de metais mento para as regiões onde os mate- capital – proporcionado sobretudo por
de de fato promove uma alteração no de terras-raras, a Região Autônoma da riais que o compõem são extraídos, re- uma política de desvalorização do
consumo de recursos naturais. Hoje Mongólia Interior, a noroeste de Pe- finados e incorporados. O cenário yuan – e o forte potencial do mercado
amplamente dependentes do petró- quim, está devastada por minas a céu lembra Metrópolis, a cidade imagina- chinês já haviam convencido muitas a
leo, nossos modais de transporte po- aberto. Nos arredores das usinas da gi- da pelo cineasta Fritz Lang no filme de dar esse passo. Segundo Dudley Kings-
deriam se tornar cada vez mais depen- gante da mineração Baogang, no oeste mesmo nome (1927), onde as classes north, professor da Universidade Cur-
dentes de trinta metais raros. Gálio, da região, um enorme reservatório ar- trabalhadoras respiram fumaça tóxica tin, na Austrália, “o acesso aos metais
tântalo, cobalto, platinoides, tungstê- tificial, o Weikuang Dam, transborda para produzir a riqueza de classes bur- de terras-raras foi um motivo a mais
nio, metais de terras-raras: uma mina de maneira intermitente no Rio Ama- guesas mimadas e indolentes. para deslocalizar as fábricas”.
contém apenas ínfimas quantidades relo (Huang He), após receber os Desde 1994, os grupos estrangeiros
desses metais dotados de fabulosas efluentes tóxicos das fábricas de pro- EUA APRESENTAM QUEIXAS NA OMC que foram para a China foram obriga-
propriedades eletrônicas, ópticas e cessamento de minério. A mudança para a eletromobilida- dos a formar joint ventures de cujas
magnéticas. Sem eles, quase todos os Em Dalahai, uma aglomeração de de também poderia ter péssimas con- ações não podem deter mais que 50%.
veículos elétricos comercializados fi- tijolos e telhas adjacentes ao reserva- sequências industriais. “Por um sécu- Essa estrutura jurídica permitiu que
cariam parados. Há até 3,5 quilos de tório, os mil habitantes que ainda não lo, os chineses correram atrás do motor suas concorrentes chinesas aceleras-
metais de terras-raras – um grupo de foram embora respiram, bebem e co- de combustão interna, [nos] pagando sem as transferências de tecnologias
quinze minerais variados – nos ele- mem rejeitos tóxicos das usinas de re- royalties”, lembrou Tavares em Frank- ocidentais e recuperassem o atraso. O
troímãs; de 10 a 20 quilos de cobalto e fino ao redor. Li Xinxia, de 54 anos, furt. Mas nosso entusiasmo pelo carro país obteve, em três décadas, a indus-
AGOSTO 2018 Le Monde Diplomatique Brasil 13

trialização e as patentes dos eletroí- cessidades irracionais que ele gera em


mãs, produzidos graças ao neodímio termos de metais raros e energia, “o UM SALDO EM DISPUTA
(um metal de terra-rara) e indispensá- carro elétrico é um beco sem saída na
veis para a fabricação da maioria dos busca de uma solução de massa”, ava-
motores elétricos.
Resultado: enquanto no final da
lia Jean-Marc Jancovici, sócio funda-
dor da consultoria Carbone 4. Dadas
M uitos estudos já calcularam a emis-
são de dióxido de carbono dos veí-
culos elétricos da mina ao aterro. E che-
Chegamos assim a uma contradição
do carro elétrico, que deveria conduzir a
modos de consumo mais sóbrios. Ao
década de 1990 o Japão, os Estados suas limitações técnicas – particular- garam a resultados contrastantes. Um contrário do que sugere uma queixa
Unidos e a Europa detinham 90% do mente a baixa autonomia –, a eletro- relatório da Agência de Meio Ambiente e bastante frequente, o poder ainda limi-
mercado, a China agora controla três mobilidade estará adaptada para traje- Energia da França (Ademe) publicado tado das baterias paradoxalmente re-
quartos da produção. Os ímãs são fei- tos urbanos curtos, enquanto o carro em 2016 destaca a redução das emis- presenta uma oportunidade: “Essa res-
sões de gases de efeito estufa e a menor trição técnica poderia realmente levar
tos em Baotou, uma aglomeração da com motor a combustão e o movido a
dependência dos combustíveis fósseis, os fabricantes a reduzir a massa rolante
Mongólia Interior apelidada por seus hidrogênio serão mais adequados para
mas acha “difícil concluir que o veículo dos carros, para aumentar sua autono-
habitantes de “Vale do Silício dos me- longos deslocamentos, ao lado de veí- elétrico ofereça uma solução real para os mia”, analisa Castaignède. “Temos uma
tais de terras-raras”. A expressão não é culos a gás ou combustível sintético. O desafios da eficiência energética”, en- janela de cinco anos para mudar nosso
insignificante, já que, na lógica chine- grupo japonês Toyota aposta no Mirai, quanto os “impactos negativos sobre o comportamento, período após o qual o
sa, quem detém o mineral também modelo equipado com uma célula de meio ambiente, principalmente durante a progresso do armazenamento de ener-
controla o know-how industrial. combustível, e em seu novo híbrido re- fase de fabricação”, são “da mesma or- gia terá sido tal que não haverá retorno.”
O país reproduziu esse cenário carregável, o Prius. dem de grandeza para um veículo elétrico A história dificilmente permite acreditar
com as baterias. A China fornece ape- “Seria preciso [adotar] uma abor- e para um a combustão”.1 Por outro lado, em tal mudança: com exceção da crise
nas 5% da produção mundial de cobal- dagem 360°, incluindo as dimensões em um estudo publicado em 2017,2 pes- de 1929, da Segunda Guerra Mundial e
to, um mineral indispensável para a energética [...], tecnológica, jurídica, quisadores da Vrije Universiteit Brussel dos dois choques do petróleo na déca-
(VUB) concluíram que há uma redução da de 1970, as montadoras sempre se
fabricação das baterias de íons de lítio, geopolítica”, recomendou Tavares no
de 55% das emissões de gases de efeito mantiveram em uma lógica de aumento
cuja demanda é respondida em 64% Salão do Automóvel de Genebra, em
estufa para o conjunto da Europa e de do desempenho dos automóveis.
pela República Democrática do Con- março de 2018.13 Isso porque a era do 80% para a França, em comparação O carro elétrico pode, então, ser apre-
go. Seu preço mais que triplicou desde carro elétrico, longe de transformar com um veículo a diesel. sentado como uma solução sustentá-
2016, forçando nos últimos meses os apenas o cotidiano de seus usuários, Esses números se explicam pela ori- vel? O progresso técnico deveria torná-
grupos BMW e Volkswagen a realizar poderia acelerar uma nova mudança gem nuclear de 77% da eletricidade -lo cada vez mais eficiente, e as matrizes
negociações diretas com companhias das economias-mundo – dessa vez em produzida na França: certamente com energéticas evoluirão rumo a um au-
de mineração para garantir seu abas- favor da China. pouco carbono, mas não sem riscos. Na mento das energias renováveis. Mas po-
tecimento. No entanto, a especialista verdade, mudar a frota francesa para o demos nos preocupar com um “efeito
chinesa em industrialização de mate- *Guillaume Pitron, jornalista, é autor de La modelo elétrico exigiria uma produção rebote”4 difícil de quantificar: a economia
riais para baterias, a Jingmen Gem Co., Guerre des métaux rares. La face cachée de equivalente à de quatro usinas nuclea- de energia gerada poderia ser compen-
res. Como cada país tem sua própria sada pelo maior uso. “Com um carro que
oficializou, no dia 15 de março de 2018, la transition énergétique et numérique [A
matriz energética, é uma pena que o es- consome menos ou custa mais barato,
um contrato trienal de compra de um guerra dos metais raros. A face oculta da
tudo da VUB não se debruce sobre o podemos andar mais quilômetros com o
terço do cobalto da República Demo- transição energética e digital], Les Liens qui caso da China. Isso porque, com quase mesmo orçamento, portanto vamos
crática do Congo, produzido pelo con- Libèrent, Paris, 2018. 20% da população mundial, esse país mais longe nas férias”, explica Philippe
glomerado anglo-suíço Glencore. Os absorveria, de acordo com o banco Bihouix, membro do Institut Momentum
fabricantes chineses de baterias, como 1 “La voiture électrique, fantastique ou polémique?” Goldman Sachs, mais de 60% das ven- e autor de um livro de alerta sobre os li-
a Wanxiang, a BYD Auto e a Contem- [Carro elétrico: fantástico ou polêmico?], 28 set. das de veículos elétricos em 2030. Nele, mites do “crescimento verde”.5
porary Amperex Technology Co. Limi- 2009. Disponível em: <www.codeclic.com>. o carvão responde por cerca de três O instituto de pesquisa Bernstein cal-
2 Adam Vaughan, “12 interesting things we learned
ted (CATL), podem contar com 80% do quartos da produção de eletricidade – culou que o número de carros em circu-
from Tesla’s Elon Musk this week” [12 coisas inte-
cobalto congolês. ressantes que aprendemos com Elon Musk, da número ligeiramente abaixo do desem- lação no mundo deve dobrar até 2040.6
Nesse ritmo, em 2020 a China deve- Tesla, esta semana], The Guardian, 16 out. 2013. penho da Polônia, onde os ganhos do A menos que, no futuro, a energia elétri-
3 Manny Salvacion, “Premier Li Urges Creation of More veículo elétrico são, segundo a VUB, de ca seja taxada tão pesadamente quanto
rá produzir quatro de cada cinco car- Charging Sites for EV” [Primeiro-ministro Li Keqiang apenas 25%. o petróleo, a módica quantia gasta em
ros elétricos vendidos no mundo. É pede a criação de mais locais de carregamento para
veículos elétricos]. Disponível em: <www.ibada.
O motor elétrico tem um excelente ren- uma recarga pode impulsionar o consu-
provável que, fiel à sua lógica de seguir dimento energético, de cerca de 80% – mo. Da mesma forma, a garantia de
com>.
a montante pela cadeia de valor, ela 4 “Les Français et l’impact environnemental de leurs contra 45% nos melhores motores a “mobilidade limpa” poderia fazer os mo-
“não apenas venda baterias ao mundo déplacements” [Os franceses e o impacto ambien- combustão. Em compensação, algumas toristas se sentirem menos culpados,
todo”, mas “produza baterias na China tal de seus deslocamentos], Harris Interactive, Pa-
baterias precisam ser mantidas a uma aumentando uma frota já transbordan-
ris, fev. 2018.
e venda carros elétricos ao mundo to- 5 “Déclaration du C40 pour des rues sans énergie temperatura constante, por isso conso- te, que entope as cidades. (G.P.)
do”, como previu em março Ivan Gla- fossile” [Declaração do C40 para ruas sem ener- mem eletricidade no modo de espera. A
gia fóssil], 2017. Disponível em: <www.c40.org>. análise do ciclo de vida também deve 1 “Les potentiels du véhicule électrique” [O po-
senberg, presidente da Glencore.12 As tencial do veículo elétrico], Les Avis de l’Ade-
6 Segundo o Comitê dos Fabricantes Franceses de considerar o fato de que a bateria perde
análises de mercado dizem que ele es- Automóveis (CCFA). me, Angers, abr. 2016.
tá certo, já que seis dos dez principais 7 “Future of e-mobility” [O futuro da eletromobilida-
capacidade a cada ano, o que levou di- 2 Maarten Messagie, “Life cycle analysis of the
de], Discussion Document, Roland Berger, Muni- versos fabricantes a propor um sistema climate impact of electric vehicles” [Análise do
fabricantes atuais de veículos elétricos ciclo de vida do impacto climático dos veícu-
que, 23 jan. 2018. de aluguel mensal. Porém, mais que a ob-
são chineses: BYD, Shanghai Automo- 8 “Imposer la technologie du véhicule électrique est los elétricos], Mobility, Logistics and Automo-
solescência técnica, o peso da bateria é
tive Industry Corporation (SAIC), une folie, estime Carlos Tavares” [Impor a tecnolo- tive Technology Research Centre (MOBI),
que um problema, como observa Laurent Vrije Universiteit Brussel, Transport and Envi-
Dongfeng Motor Corporation, Geely, gia do carro elétrico é uma loucura, avalia Carlos
Tavares], Autoactu, 13 set. 2017. Castaignède, fundador da consultoria ronment, Bruxelas, 2016.
FAW Group e BAIC Group. Bruxelas 9 Oscar Allendorf, “Dwindling supplies of rare earth BCO2 Ingénierie:3 “Com o mesmo espa- 3 Cf. Laurent Castaignède, Airvore ou la face
anunciou, em 11 de outubro de 2017, a metals hinder China’s shift from coal” [Redução ço útil, a massa rolante de um carro elétri- obscure des transports. Chronique d’une pol-
das reservas de metais de terras-raras dificulta que lution annoncée [Arívoro, ou a face obscura
criação de uma “aliança europeia de co seria cerca de 10% a 20% maior que dos transportes. Crônica de uma poluição
a China saia do carvão], TrendinTech, 7 set. 2016.
baterias” para conter o avanço chinês. 10 Juan Andres Abarca, “Seawater use in Chile’s mi-
a de um veículo a combustão. Assim, fi- anunciada], Ecosociété, Montreal, 2018.
nes grows by a third” [Uso de água do mar nas camos afetados pela espiral da massa, 4 Ler Cédric Gossart, “Quand les technologies
minas do Chile cresce em um terço], BNamericas, pois será preciso recorrer a um sistema vertes poussent à la consommation” [Quando
IMPASSE PARA UMA SOLUÇÃO MACIÇA
16 jun. 2016. as tecnologias verdes induzem ao consumo],
Enquanto isso, não custa pergun- de frenagem e a materiais de rolamento
11 Comunicação da Comissão Europeia sobre a lista Le Monde Diplomatique, jul. 2010.
mais consequentes. Mas levar um moto- 5 Philippe Bihouix, L’Âge des low tech. Vers une
tar: ao mudarem do carro a combustão 2017 de matérias-primas críticas para a União Eu-
ropeia, Bruxelas, 13 set. 2017. rista de 70 quilos em um Tesla de duas civilisation techniquement soutenable [A era
para o elétrico, os países ocidentais do low tech. Rumo a uma civilização tecnica-
12 Muryel Jacque, “Glencore n’hésiterait pas à vendre toneladas não faz o menor sentido”. A bi-
não estarão ingenuamente criando ses mines de cobalt à la Chine” [Glencore não he- cicleta elétrica não sofre essa relação en- mente sustentável], Seuil, Paris, 2014.
uma vulnerabilidade comercial em um sitaria em vender suas minas de cobalto à China], tre massa a ser transportada e massa
6 “The future of oil demand” [O futuro da de-
Les Échos, Paris, 21 mar. 2018. manda por petróleo], Bernstein Energy, Nova
setor que emprega 12,6 milhões de pes- total deslocada. York, 18 abr. 2016.
13 Jean Savary, “Voiture électrique, un nouveau fiasco
soas na Europa e 7,25 milhões nos Es- environnemental?” [Carro elétrico, um novo fiasco
tados Unidos? Considerando-se as ne- ambiental?], Caradisiac, 12 mar. 2018.
14 Le Monde Diplomatique Brasil AGOSTO 2018

MOVIMENTOS SOCIAIS NA ENCRUZILHADA DAS POSSIBILIDADES E DAS DESIGUALDADES INFOCOMUNICACIONAIS

A internet como objeto de luta


Falar de incidência política na atualidade é abordar as ruas e as redes virtuais como espaços de disputa.
Uma vez que essa sociedade em rede tem em sua centralidade processos de comunicação, não tomá-los
como arenas de ação diminui o alcance e a força dos movimentos
POR NATALY QUEIROZ*

entre outros fatores, as possibilidades to, o formato desse crescimento é


de debate entre os cidadãos sobre suas desigual. A banda larga móvel é a prin-
realidades, e entre estes e as institui- cipal responsável pelo incremento,
ções do Estado, podendo ser agentes sendo maior seu avanço nos países
promotores de um importante equilí- emergentes. Nas nações desenvolvi-
brio nas relações de poder entre insti- das, a banda larga fixa permanece em
tuições e indivíduos. A América Latina crescimento. Isso revela a relação en-
e o Brasil, em particular, têm um histó- tre inclusão digital, estruturas econô-
micas dos Estados e políticas públicas
© Fabio Rodrigues Pozzebom/ Agência Brasil

rico considerável de atos de resistência


e de transformação tocados pela so- de comunicação e tecnologia.
ciedade civil, muitas vezes excluída da Por meio do Índice de Desenvolvi-
pauta dos grandes veículos de comu- mento de TIC, a UIT destacou as ca-
nicação comerciais. racterísticas dos países com os melho-
Recentemente, mobilizações como res resultados: possuem políticas
a Primavera Árabe, o Occupy Wall consolidadas voltadas ao desenvolvi-
Street e os Indignados, na Espanha, mento das tecnologias de informação
reacenderam os ânimos de transfor- e de comunicação; mercados livres e
mação social, unindo uma impressio- competitivos para as TICs; estruturas
nante energia mobilizadora, aliada de incentivo à inovação por parte do
aos usos das novas tecnologias de in- Estado e do mercado; população com
Convocada pela redes sociais, Marcha da Maconha percorre a Esplanada dos Ministérios formação e comunicação (não media- rendimentos relativamente altos e as
das pelos veículos de comunicação habilidades necessárias para fazer uso
tradicionais) e à ativa participação de efetivo das tecnologias disponíveis.
xpressão pop do momento pré- por intensas disputas entre os diversos sujeitos políticos diversos. Ainda que Evidencia-se que as estruturas técni-

E -eleitoral, as fake news não se


vinculam tão somente ao uso
antiético (e muitas vezes crimi-
noso) das novas tecnologias de infor-
mação por parte de políticos ou de
atores que compõem a sociedade.
Não à toa, o grau de concentração
das mídias, as políticas de regulação
desse campo, a liberdade de imprensa e
a garantia do direito à privacidade são
seus desdobramentos posteriores não
tenham sido os esperados inicialmen-
te, sua existência fomentou outras ini-
ciativas locais em todo o mundo, as
quais demonstram a força da socieda-
cas de acesso à rede mundial de com-
putadores são tão importantes quanto
o desenvolvimento das estruturas po-
líticas e econômicas que possibilitem
às pessoas acesso a direitos humanos
empresas para confundir a opinião indicadores indispensáveis para medir de civil quando age de forma articula- básicos, como educação.
pública, tampouco se referem apenas se a democracia vigente em determina- da e com possibilidade de falar para Neste momento em que vivemos
à leviandade de quem compartilha in- do território é de alta ou de baixa inten- muitas pessoas, militantes ou não. uma crise de credibilidade das insti-
formações mentirosas. O que as notí- sidade. No Brasil, a conjuntura é preo- Tais mobilizações se inserem em tuições do Estado no Brasil, no qual a
cias falsas colocam em causa é a cen- cupante. Segundo o Media Ownership um quadro em que a rede mundial de própria democracia tem sido atacada
tralidade do poder comunicacional Monitor,1 uma pesquisa desenvolvida computadores constitui um espaço por ardilosos artifícios, entre os quais
no âmbito político e, portanto, sua re- pela Repórteres Sem Fronteiras e pelo político e econômico no qual a vida os discursivos e os midiáticos, é im-
levância para os projetos de mundo em Coletivo Intervozes, cinco famílias acontece. As fronteiras entre mundo prescindível refletir acerca das ações
disputa na atualidade. Em outras pala- controlam metade dos principais veí- real e virtual, on e off-line, mostram- de comunicação da sociedade civil e
vras, a capacidade de utilizar tática e culos de mídia no país. São cinco em- -se cada vez menos definidas. A popu- de seus desafios, em especial no que
estrategicamente a comunicação para presas que, com seus interesses finan- larização do acesso à internet trouxe diz respeito ao acesso às TICs. Isso
muitos, seja nas velhas ou nas novas ceiros e políticos, levam para milhões consigo a esperança da criação de um porque a articulação e o diálogo, ne-
mídias, é métrica para aferir o poder de de brasileiros insumos informativos espaço mais isonômico, com condi- cessários à mudança do atual quadro
quem difunde as informações ou de para formar a opinião destes sobre fa- ções menos desiguais de fala, comuni- de reversão de direitos e de lutas anti-
quem financia sua propagação. tos relevantes. Nesse contexto impera a cação e, portanto, de participação so- capitalistas, antipatriarcais e antirra-
No atual cenário conturbado e po- criminalização dos movimentos so- cial para todas as pessoas no globo. No cistas, passam pela possibilidade de os
larizado do Brasil, pensar a comunica- ciais e das esquerdas, bem como o entanto, e paradoxalmente, ao se de- movimentos sociais dialogarem entre
ção como política de intervenção so- apoio às reformas restritivas dos direi- senvolver no bojo do capitalismo e dos si e com a população local ou global.
bre o real é necessário e urgente. tos sociais, aos grandes conglomerados agentes que operam esse sistema, o ci-
Salienta-se que tal dimensão extrapo- empresariais e aos políticos que sus- berespaço reflete a imagem das socie- O SINAL AMARELO DAS CONTINGÊNCIAS
la a reducionista ideia de que os pro- tentam tais agendas. A intensa concen- dades nas quais se insere, com suas Em 2017, o Comitê Gestor da Inter-
cessos comunicacionais são simples tração da mídia brasileira reflete nossa desigualdades estruturais, possibili- net no Brasil (CGI.br) divulgou um re-
ferramentas para conquistar algo herança colonial, de desigualdades, si- dades e desafios sociotécnicos. latório2 sobre o uso das TICs nas orga-
maior. A comunicação, além de ser um lenciamento de vozes e apagamento da A União Internacional de Teleco- nizações sem fins lucrativos brasileiras,
direito humano, é constituidora dos pluralidade da população. municações (UIT), agência das Na- um segmento importante dos movi-
sentidos da realidade em que se vive e Outro elemento imprescindível pa- ções Unidas especializada em tecno- mentos sociais no país. As instituições
base na qual se assentam as justifica- ra a democracia é a existência de mo- logias de informação e de comunicação sem fins lucrativos, ouvidas pela pes-
ções acerca de nosso agir no mundo. É, vimentos e movimentações sociais, os (TICs), em seu relatório de 2016, obser- quisa, eram de diversas naturezas: en-
portanto, um campo político, como quais mobilizam uma expressiva força va que o acesso à internet tem se ex- tidades de defesa de direitos, religiosas,
definiu Pierre Bourdieu, permeado comunicativa. Isso porque expressam, pandido em todo o mundo; no entan- fundações, associações e sindicatos.
AGOSTO 2018 Le Monde Diplomatique Brasil 15

Do universo pesquisado, 24% delas nacionais ou supranacionais para se ou perfis em redes sociais. Apenas 29% ternet de boa parte da população brasi-
ainda não usam computador em suas manter. Para a área de comunicação, ocupam os dois espaços concomitante- leira), na mídia tradicional e nas ruas. A
atividades cotidianas, um cenário típi- essas convocatórias são escassas. A mente. Os recursos humanos, para além incitação à polarização e aos discursos
co, em especial, das pequenas organi- força de trabalho, além da considerá- dos recursos técnicos, são fatores rele- de ódio tem sido ferramenta de afasta-
zações, que contam predominante- vel rotatividade de pessoal (devido à vantes nesse cenário. Apenas 19% das mento dos cidadãos da política e de
mente com mão de obra voluntária escassez de recursos), aparentou ser instituições entrevistadas possuíam aprofundamento do neoliberalismo no
para o desenvolvimento de seus traba- pouco habilitada ao uso das tecnolo- área vinculada à tecnologia e 18% ti- Estado e na cultura política.
lhos. Mais especificamente, entre estas gias de informação e comunicação. nham um setor de comunicação. Os seg- Falar de incidência política na atua-
que não contam com pessoas remune- Esse último fator é importante mentos que diferem dessa realidade são lidade é abordar as ruas e as redes vir-
radas, somente 29% possuíam compu- para refletir de forma mais complexa as instituições patronais, profissionais e tuais como espaços de disputa. Uma
tadores institucionais. Parte conside- sobre o cenário. A Rede de Informa- sindicais. Foi verificado que apenas 35% vez que essa sociedade em rede tem em
rável dos equipamentos utilizados, ção Tecnológica Latino-Americana desse grupo conta com áreas de comuni- sua centralidade processos de comuni-
sobretudo nas instituições de menor (Ritla) desenvolveu um Índice de De- cação institucional consolidadas. cação, não tomá-los como arenas de
porte e/ou comunitárias, é dos pró- sigualdades Digitais, composto de As barreiras que impedem as organi- ação diminui o alcance e a força dos
prios trabalhadores ou voluntários. três dimensões que reforçam o desa- zações entrevistadas pelo CGI.br de ex- movimentos. Em tempos de ódio às vo-
Antes de continuar, vale destacar fio de pensar a inclusão digital como plorar todas as potencialidades comuni- zes que se levantam em prol da demo-
que, das 37.499 organizações sem fins algo que transcende a mera oferta cativas, de articulação e, inclusive, de cracia e da ruptura com os sistemas de
lucrativos buscadas pelos pesquisado- das estruturas técnicas de acesso à sustentabilidade institucional ofertadas segregação social, a resistência ao si-
res, a taxa de resposta foi de apenas internet. A primeira dimensão cor- pela internet são, guardadas as devidas lenciamento imposto pelas estruturas
11% – uma amostra válida e importan- responde às desigualdades de infoú- proporções, sentidas pelos cidadãos co- de poder hegemônicas, o qual repre-
te, mas que pode ter revelado apenas a so, refletindo diferenças estruturais muns. Essa ressalva é útil pelo contexto senta a morte simbólica desses seg-
ponta do iceberg das dificuldades téc- (disponibilidade de computadores, das novas militâncias, as quais se orga- mentos, passa pela capacidade (e pos-
nicas e estruturais dos processos co- tipo de conexão etc.) regionais que nizam por meio da união de indivíduos sibilidade) de produção discursiva e
municativos nessas instituições. demarcam condições de acesso desi- que se autorrepresentam quando se re- vocalização das lutas por seus sujeitos.
O acesso à internet está presente em guais; a segunda, às desigualdades conhecem em uma causa, sem a media- Como o campo da comunicação foi
71% das entidades ouvidas, sendo a socioeconômicas, particularmente ção de instituições. Só pelas clivagens expandido com o advento da rede
maior parte na modalidade de cabo e fi- associadas à renda e à raça/cor dos de classe, as quais se ressaltam na distri- mundial de computadores, é impres-
bra ótica (59%), seguido de conexão por indivíduos; e, por fim, às estratégias buição dos domicílios conectados no cindível incorporá-lo na cotidianidade
linha telefônica – DSL (55%), modem 3G de superação, um conjunto de medi- Brasil, já temos uma dimensão do desa- dos movimentos sociais, sem que isso
ou 4G (32%) e conexão via rádio (14%). das para democratizar e/ou superar fio para o uso concertado e estratégico signifique abandonar a disputa pelo
Os principais motivos para a não utili- as desigualdades de acesso à internet das novas mídias para assegurar o direi- terreno das mídias tradicionais, boa
zação da internet citados pelas organi- existentes. É oportuno destacar ain- to à comunicação e realizar uma inci- parte delas concessões públicas e com
zações foram a falta de estrutura de da que, dado nosso cenário cultural, dência política na internet. Em 2016, se- larga penetração na sociedade. Para as
acesso (46%) e o alto custo da conexão outro fator de desigualdade tem a ver gundo o CGI.br, 54% dos domicílios esquerdas latino-americanas, em es-
(43%). A falta de estrutura de acesso foi com as relações de gênero. Ainda que brasileiros estavam conectados à inter- pecial do Brasil, está posto um novo
a razão mais citada pelas organizações estejamos conectadas como inter- net, um crescimento de 3% em relação desafio: abarcar em definitivo a comu-
das regiões Norte (76%), Nordeste (65%) nautas, o percentual de presença fe- ao ano anterior. Em áreas urbanas, ape- nicação como objeto de luta e campo
e Centro-Oeste (64%), reforçando as de- minina cai drasticamente quando nas 23% dos domicílios classificados co- constituidor de outros direitos.
sigualdades regionais nas políticas de visualizamos o sexo dos desenvolve- mo D ou E estavam conectados; já nas
inclusão digital no país, além dos cen- dores de softwares e programadores, classes A e B, 98% e 91%, respectivamen- *Nataly Queiroz é jornalista, professora uni-
tros de interesse do mercado de tecno- por exemplo. te, das casas tinham acesso à rede de versitária e doutora em Comunicação Social
logia da informação. Em relação aos usos que fazem computadores. pela Universidade Federal de Pernambuco.
As dificuldades de captação de re- das TICs disponíveis e da internet es- O jornalista Lee Fang, em reportagem
cursos e de sustentabilidade são ape- pecificamente, foi possível observar publicada no The Intercept (11 ago. 2017),
nas dois dos empecilhos observados que, mesmo diante de um cenário de destaca os investimentos de organiza-
pelos pesquisadores Debora Bobsin e contingências, as instituições sem ções estatais e privadas norte-america- 1 A pesquisa Media Ownership Monitor pode ser
acessada em: <https://brazil.mom-rsf.org/br/>.
Marlei Pozzebon, no relatório do CGI. fins lucrativos têm envidado esforços nas para financiar movimentos de direita 2 A Pesquisa sobre o Uso das Tecnologias de Infor-
br, para a adoção das TICs. A maior para estar presentes no espaço vir- na América Latina, os quais lançam ver- mação e Comunicação nas Organizações sem
parte das instituições sem fins lucrati- tual. Os dados demonstram que 67% dadeiras cruzadas persecutórias a figuras Fins Lucrativos Brasileiras, do Comitê Gestor da
Internet no Brasil, pode ser acessada em: <https://
vos brasileiras depende de editais go- das organizações estavam na rede de e ideais associados às esquerdas, nas re- cgi.br/media /docs /publicacoes /2/tic_os-
vernamentais e de instituições inter- computadores por meio de website e/ des sociais (principal porta de acesso à in- fil_2016_livro_eletronico.pdf>.
16 Le Monde Diplomatique Brasil AGOSTO 2018

BOMBEIROS PIROMANÍACOS DO VALE DO SILÍCIO

O mito do transumanismo
O medo do fim do mundo assombra a história da humanidade. Desde o início do século XXI, o espectro de uma tecnologia fora
de controle, ultrapassando e depois arrasando nossa espécie, persegue os especialistas. A inteligência artificial e as próteses
digitais prometeriam ao Homo sapiens um destino de Frankenstein. Mas quem difunde essa narrativa e quem ganha com ela?
POR GUILLAUME RENOUARD E CHARLES PERRAGIN*

© Allan Sieber

“O
desenvolvimento indiscrimina- nomista e filósofo Francis Fukuyama victo e pesquisador do Google, não a minuir os “riscos existenciais” ligados
do de uma inteligência artificial vê, nessas teses, o maior perigo da histó- veem como uma catástrofe, mas como ao desenvolvimento de tecnologias,
poderia indicar o fim da huma- ria da humanidade.4 um acontecimento desejável. Embora criado principalmente por Jaan Tal-
nidade.” Por ocasião da morte A hipótese segundo a qual a máqui- esse “tecnotimismo” continue minori- linn, cofundador do Skype, recebeu
de Stephen Hawking, em março de na poderia logo ultrapassar o homem tário, cada um desses analistas concor- uma generosa doação de US$ 10 mi-
2018, essa famosa citação do astrofí- tem um nome. Trata-se da “singulari- da com uma questão: o avanço indiscu- lhões feita por Musk. A Singularity
sico ecoou na imprensa e nas redes dade”, um termo utilizado pela primei- tível e exponencial do progresso técnico University, que visa educar e responsa-
sociais. Durante muito tempo relega- ra vez no ensaio The Coming Technolo- torna a singularidade inevitável. Em bilizar os atores da indústria 4.0 diante
do aos registros da ficção científica, o gical Singularity (“A iminente vez de tentar impedi-la, seria impor- dos “grandes desafios da humanida-
medo da inteligência artificial está singularidade tecnológica”), publicado tante preparar a humanidade para seu de”, foi criada graças aos fundos de pa-
enraizado há alguns anos no debate pelo autor norte-americano de ficção surgimento, de modo a limitar suas trocinadores-engenheiros-ensaístas,
público, associado tanto à automati- científica Vernor Vinge em 1993.5 Ele consequências negativas. como Kurzweil e Peter Diamandis, es-
zação maciça das ocupações e ao de- designa uma data incerta na qual a in- pecialista em turismo espacial e explo-
semprego em massa quanto à pers- teligência artificial ultrapassará a nos- “EROTIZAÇÃO ANSIOSA DO PROGRESSO” ração de recursos de mineração de as-
pectiva não menos aterrorizante dos sa, inaugurando então uma nova era Um paradoxo, contudo, salta aos teroides. Já a parceria para que a
robôs assassinos.1 impossível de ser concebida por nosso olhos: apocalípticos ou preventivos, inteligência artificial beneficie as pes-
Do filósofo e pesquisador Nick Bos- cérebro humano. O próprio Vinge teve esses cenários vêm dos próprios pes- soas e a sociedade (Partnership on AI
trom2 a Elon Musk, fundador das em- seus precursores e inspiradores, desde quisadores e industriais engajados no to Benefit People and Society), lançada
presas Tesla e SpaceX, diversas perso- as reflexões do matemático Stanislaw desenvolvimento do que eles se mobi- com grande pompa em setembro de
nalidades multiplicam, assim, os alertas Ulam sobre a aceleração exponencial lizam contra. Irrigados pelo dinheiro 2016 para promover “ações eficazes”,
sobre o risco existencial que as máqui- do progresso até os escritos de Isaac do Vale do Silício, as organizações e os conta entre seus fundadores com Goo-
nas “superinteligentes” e potencial- Asimov (The Last Question [“A última comitês de ética supõem nos premunir gle, Apple, Facebook, Amazon, Micro-
mente incontroláveis fariam recair na questão”], 1956) e de Philip K. Dick (A contra a sublevação das máquinas, soft e IBM. A lista é longa, mas todas
humanidade. Para o dono da Tesla, seu máquina de governar, 1960; A formiga editando normas e regras que se multi- essas empresas compartilham do credo
perigo seria até maior que o da bomba elétrica, 1970), passando pelas hipóte- plicam. Promotora de uma inteligência de Diamandis: “Um dia, os dirigentes
atômica. A esse medo, acrescenta-se o ses do estatístico Irving John Good so- artificial generosa, a associação Ope- políticos vão despertar, mas será tarde
do transumanismo, uma ideologia que bre as máquinas ultrainteligentes. nAI, por exemplo, foi fundada em 2015 demais. É preciso ultrapassá-los. Acre-
surgiu em 1980 no Vale do Silício e pro- Elevada a problema-chave pelas in- por donos de empresas como Musk, dito muito mais no poder dos empreen-
move a melhora física e intelectual dos dústrias do Vale do Silício e seus inte- Sam Altman, dirigente da poderosa dedores do que no dos políticos ou mes-
seres humanos por meio das novas tec- lectuais orgânicos, a singularidade se aceleradora Y Combinator, e Peter mo no da política propriamente dita”.6
nologias e da inteligência artificial, com transformou durante os anos 2000 em Thiel, cofundador da PayPal. O Future Em seu livro Le Mythe de la singula-
a perspectiva de uma fusão entre o hu- escola de pensamento. Alguns, como of Life Institute (“Instituto para o Futu- rité (“O mito da singularidade”), o es-
mano e a máquina.3 Desde 2002, o eco- Raymond Kurzweil, transumanista con- ro da Humanidade”), que procura di- pecialista em informática e filósofo
AGOSTO 2018 Le Monde Diplomatique Brasil 17

Jean-Gabriel Ganascia resume essa si- mente na leitura do New York Times constituem os institutos de especialis- Nos Estados Unidos, a ideologia
tuação de forma mordaz: “Nós nos en- ou do Wall Street Journal”, avalia por tas, que teriam o poder de decisão. Pa- transumanista ressoa com alguns mo-
contramos, portanto, diante dos ‘bom- sua vez Zachary Chase Lipton, pes- radoxalmente, observa Panese, “a re- vimentos religiosos do protestantismo
beiros piromaníacos’ que, ao mesmo quisador na área de aprendizado de flexão ética tem um efeito tóxico de norte-americano, “em particular com
tempo que provocam voluntariamente máquina da Universidade Carnegie despolitização das disputas. Google, o chamado Quarto Grande Despertar,
um incêndio, parecem dispostos a ten- Mellon que se esforça, em seu blog Amazon, Facebook, Apple, Microsoft que nos anos 1960 fazia do êxito cor-
tar apagá-lo para se beneficiarem da Approximately Correct, para descons- têm um interesse assumido em cir- poral – um corpo são, forte e longevo –
situação”.7 A filantropia autoproclama- truir os fantasmas em torno da inteli- cunscrever o debate ao registro dos va- um sinal da escolha divina”, comenta
da dessas empresas, de fato, não tem a gência artificial. lores, sem deixar espaço para as refle- Damour. Assim, ao contrário dos mo-
ver com sua conduta em matéria fiscal Para Gabriel Dorthe, filósofo inte- xões sobre as consequências imediatas vimentos dos cientistas do século XIX,
e de direito trabalhista. Por que, desde grado pela necessidade de suas pesqui- das tecnologias sobre as desigualdades que tinham uma dimensão coletiva,
então, financiam estruturas que, por sas à Associação Francesa Transuma- sociais ou sobre a emergência de novos como o sansimonismo, no transuma-
intermédio de pesquisadores e filóso- nista, “essas criações antecipadas de espaços de poder”. nismo não se trata mais de salvar a so-
fos, ventilam funestas previsões sobre acontecimentos monstruosos ocultam Além desse deslizamento do políti- ciedade, mas o indivíduo. “Salta-se do
as consequências das tecnologias que ou banalizam certo número de aplica- co para a ética, o discurso da singulari- indivíduo para um discurso sobre a es-
elas desenvolvem? ções concretas da inteligência artifi- dade implica um segundo desloca- pécie humana em geral, sem passar
Independentemente de Musk ou cial” – especialmente os algoritmos de mento: o da racionalidade científica pelo intermediário social”, analisa o
Mark Zuckerberg, fundador do Face- ajuda à tomada de decisão, concebidos para o registro do mito. A técnica não historiador. “A saúde passa inicial-
book, se sentirem ou não sinceramen- para racionalizar as escolhas humanas se tornaria aqui o suporte de uma teo- mente pelo corpo. Não são mais os Es-
te investidos da missão de reconduzir e atualmente utilizados pela polícia, ria preditiva baseada em observações tados que desempenham um papel
e atualizar o ideal de progresso do Ilu- pela justiça, pelas seguradoras e pelos (como a meteorologia), mas de uma decisivo na organização do mundo,
minismo, eles continuam homens de departamentos de recursos humanos grande narrativa trágica da vida hu- mas os indivíduos, por meio das estru-
negócios. Seu êxito está ligado a um nos Estados Unidos. Longe dos radares mana. “O transumanismo é um siste- turas empresariais. Talvez o liberalis-
modelo apresentado há duas décadas: midiáticos, o matemático Cathy O’Neil ma de crenças que tem mais a ver com mo jamais tenha tido uma ambição
divulgar um problema para o qual eles coloca em evidência, em seu livro Wea- a religião do que com a ciência”, afirma tão forte.” E seus adversários se encon-
se preparam para comercializar a so- pons of Math Destruction (“Armas de Richard Jones, professor de Física da tram muito mais desmunidos porque
lução. Alongar a duração da vida e am- destruição matemática”)8 as conse- Universidade de Sheffield e autor de um lhes foi confiscado um poderoso pro-
pliar as capacidades mentais ou cor- quências do uso desses algoritmos nas texto intitulado Against Transhumanism pulsor: a ideia de progresso.
porais representam um mercado populações mais vulneráveis: 9 esse ti- (“Contra o transumanismo”).11 “Ele
promissor, que poderá ultrapassar po de programa categoriza, por exem- apela para os mitos fundadores da hu- *Guillaume Renouard e Charles Perragin
US$ 1 bilhão antes de 2020. É também plo, como potencialmente perigosos manidade, ao reutilizar seus elemen- são jornalistas do Collectif Singulier.
uma boa publicidade, que coloca a in- indivíduos que não cometeram outro tos-chave: a ideia de que poderíamos al-
dústria 4.0 no centro do futuro huma- crime a não ser viver em um bairro po- cançar a abundância e até mesmo a
no... e da atenção dos investidores. bre. Um assunto sério, mas sem dúvida imortalidade graças à intervenção de
Francesco Panese, professor de Estu- menos atraente do que o fim da espécie uma inteligência superior, capaz de 1 Édouard Pflimlin, “Les Nation unies contre Termi-
dos Sociais da Medicina e de Ciências humana... causar nossa felicidade ou nossa infeli- nator” [As Nações Unidas contra o Exterminador],
na Universidade de Lausanne, vê “Somos todos cúmplices disso, in- cidade... De maneira mais surpreen- Le Monde Diplomatique, mar. 2017.
2 Nick Bostrom, Superintelligence: Paths, Dangers,
emergir há alguns anos uma “econo- clusive pesquisadores. O transuma- dente, o transumanismo lembra tam- Strategies [Superinteligência: caminhos, perigos,
mia da promessa”, utópica ou distópi- nismo permite aos que trabalham bém o cosmismo russo, movimento estratégias], Oxford University Press, 2014.
ca. “A emergência das start-ups na es- com pesquisa publicar livros e arti- filosófico do início de século XX e, par- 3 Philippe Rivière, “Nous serons tous immortels... en
2100” [Seremos todos imortais... em 2100], Le
fera da tecnologia se baseia no gos sobre a humanidade em perigo, ticularmente, o pensador ortodoxo Ni- Monde Diplomatique, dez. 2009.
investimento de capital de risco que obter cargos etc.”, afirma Dorthe. Em kolai Fiodorov. Segundo Fiodorov, a 4 Francis Fukyyama, Our Posthuman Future: Con-
desbloqueia fundos em função de pro- 2014, mais de oitocentas pessoas, en- ciência permitiria a realização das pro- sequences of the Biotechnology Revolution [Nos-
so futuro pós-humano: consequências da revolu-
messas de grandes transformações do tre as quais uma boa parte de pesqui- messas da Bíblia aqui na Terra. Ele es- ção da biotecnologia], Picador-Farrar, Straus and
mundo”, explica. Diante de uma lacu- sadores e no mínimo trezentos neu- tava convencido de que a tecnologia Giroux, Nova York, 2002.
na entre os técnicos especialistas que robiólogos, assinaram uma carta acabaria nos tornando imortais.” 5 Vernor Vinge, “The coming technological singularity:
How to survive in the post-human era” [A iminente
inovam e os capitalistas não iniciados, aberta contra o Human Brain Project singularidade tecnológica: como sobreviver na era
o que o sociólogo chama de “erotiza- (“Projeto Cérebro Humano”), um PROMESSA DE SAÚDE pós-humana], Departamento de Ciências Matemáti-
ção ansiosa do progresso” seria uma projeto de pesquisa de 1,2 bilhão de A narrativa da singularidade fun- cas, Universidade do Estado de San Diego, 1993.
6 Fabien Benoit, “À Palo Alto, au royaume des ra-
forma de “seduzir o não iniciado”. euros (dos quais 500 milhões prove- ciona melhor ainda porque ecoa mi- dieux” [Em Palo Alto, no reinado dos iluminados],
Não iniciado, mas não idiota. Essas nientes de fundos europeus) visando tos. “Trata-se de um discurso de tipo Libération, Paris, 9 jan. 2017.
“tecnopromessas” são sistematica- recriar, até 2024, um cérebro humano apocalíptico muito antigo que remon- 7 Jean-Gabriel Ganascia, Le Mythe de la singularité.
Faut-il craindre l’intelligence artificielle? [O mito da
mente acompanhadas de um discurso graças a um supercomputador. Como ta, no Ocidente, ao joaquimismo do singularidade. Será que é preciso temer a inteligên-
pragmático, menos midiático. Embo- muitos, Richard Hahnloser, professor século XII”, explica Franck Damour, cia artificial?], Seuil, Paris, 2017. Jérôme Lamy, “In-
ra, na realidade, os investidores não de Neurociências da Universidade de historiador e pesquisador da Universi- telligence artificielle ou collective?” [Inteligência
artificial ou coletiva?], Le Monde Diplomatique, jun.
esperem passar pelo processo de crio- Zurich, condenou, na época das “pro- dade Católica de Lille. A decolagem 2018.
genização para viajar no espaço ou messas sem conteúdo real”,10 a ausência das novas tecnologias promete saúde 8 Cathy O’Neil, Weapons of Math Destruction: How
voltar a viver após a morte, eles sabem de cientistas nas instâncias dirigentes e que varia conforme as determinações Big Data Increases Inequality and Threatens De-
mocracy [Armas de destruição matemática: como
que essas pesquisas levarão a melho- o peso dos industriais, atraídos mais culturais. Na concepção cíclica da his- o Big Data aumenta a desigualdade e ameaça a
rar os procedimentos de conservação, pela perspectiva de computadores com tória própria ao hinduísmo, a chegada democracia], Crown, Nova York, 2016.
o que interessará, por exemplo, aos maior desempenho graças à informáti- da inteligência artificial não prefigura, 9 Frank Pasquale, “Mettre fin au trafic des données
personnelles” [Acabar com o tráfico de dados pes-
grandes supermercados. Prometer a ca neuromórfica do que pela compreen- como no pensamento ocidental, um soais], Le Monde Diplomatique, maio 2018.
vida eterna para melhor congelar filés são de nossa massa cinzenta. acontecimento único, uma guinada ir- 10 Lise Loumé, “Human Brain Project: faut-il continuer
de bacalhau? “Inúmeros pesquisado- A promoção de uma pós-humani- reversível para uma era singular e fun- ce projet à 1,2 milliard d’euros? [Projeto Cérebro
Humano: será que é preciso continuar esse projeto
res e empreendedores que se mos- dade tecnológica tem também como damentalmente diferente, como no de 1,2 bilhão de euros?], Sciences et Avenir, Paris,
tram muito prudentes em um con- consequência contornar a política. Tu- pensamento do Apocalipse. Trata-se, 9 jul. 2014.
texto acadêmico tendem a dar do se passa como se a inteligência arti- sobretudo, de uma volta, de uma res- 11 Richard Jones, “Against Transhumanism” [Contra
o transumanismo], e-book, 15 jan. 2016. Disponí-
declarações sensacionalistas quando ficial pusesse uma questão séria de- tauração de um tempo cosmogônico vel em: <www.softmachines.org>.
falam para a imprensa: um apelo di- mais para ser deixada para os antigo. Assim, os indianos reencontra- 12 Robert Geraci, “A tale of two futures: Techno-es-
reto aos investidores, que têm a maior governantes ou para a deliberação pú- riam logo a idade gloriosa do Satya Yu- chatology in the US and India” [Uma história de
dois futuros: tecnoescatologia nos Estados Unidos
parte dos conhecimentos técnicos li- blica, e que deveria sobretudo ser re- ga, que representa o renascimento da e na Índia], Social Compass, v.63, n.3, Nova York,
mitados e baseados consideravel- servada aos círculos de iniciados que idade de ouro da humanidade.12 set. 2016.
18 Le Monde Diplomatique Brasil AGOSTO 2018

ESTADOS UNIDOS

Como a direita seduziu


o eleitorado popular
Em um estado muito pobre como a Louisiana, manchado por vazamentos de petróleo,
a maioria da população vota em candidatos que combatem os benefícios sociais e a proteção
ambiental. Socióloga, Arlie Hochschild investigou esse paradoxo. Meses depois da publicação
de seu estudo, Donald Trump ganhou com ampla vantagem as eleições na Louisiana
POR ARLIE HOCHSCHILD*

ma história profunda, epidér- um divórcio. Os esquerdistas dizem

U mica, é a que inspira nossos


ressentimentos, na linguagem
dos símbolos. Ela elimina o jul-
gamento, elude os fatos. Determina o
que nos inspira. Ela permite que aque-
que suas ideias são antiquadas, sexis-
tas, homofóbicas, mas ninguém en-
tende nada dos valores que eles afir-
mam defender. Falam de tolerância,
mas você guarda na memória tempos
les que se encontram em ambos os ex- melhores, nos quais, quando criança,
tremos do espectro político deem um começava seu dia na escola pública
passo atrás e explorem o prisma subje- com a oração matinal e a saudação à
tivo através do qual o lado adversário bandeira – foi antes do “Em nome do
apreende o mundo. Senhor” ser relegado à categoria de op-
Eu quis reconstruir esta história ção facultativa.
para apresentar – de forma metafórica Olhe! Na sua frente, malandros es-
– as esperanças, os medos, o orgulho, a tão se esgueirando. Você segue as re-
vergonha, o ressentimento e a ansieda- gras; eles, não. À medida que eles pro-
de da vida das pessoas com quem de- gridem, você tem a impressão de que
parei no caminho. Então a testei com está perdendo terreno. Como eles ou-
elas para ter certeza de que achavam sam fazer isso? Quem são? Alguns são
que ela era consistente com a experiên- pretos. Por meio de programas de
© Rafael Sica

cia delas. Elas me garantiram que sim. ação afirmativa colocados em prática
Como uma peça, ela se passa em pelo governo federal, eles têm acesso
vários atos. privilegiado a universidades, estágios,
Você espera pacientemente em emprego, assistência social, refeições
uma longa fila que leva ao topo de uma gratuitas. Mulheres, imigrantes, refu-
colina, como em uma peregrinação. giados, funcionários públicos: onde
Você está no meio, entre pessoas todas isso vai parar? Seu dinheiro escorre
tão brancas como você, todas de igual num coador igualitarista que escapa a
modo cristãs, algumas mais velhas, que, por sua vez, já se esforçavam para seguiram o mesmo destino. A maior seu controle e aprovação. Você gosta-
outras menos, a maioria delas do sexo se dar melhor que os deles. É um so- parte deles nem se incomoda em pro- ria de ter as mesmas oportunidades
masculino, às vezes graduadas, às ve- nho maior que dinheiro e bens mate- curar um emprego decente, porque quando precisou delas – ninguém
zes pouco ou nada qualificadas. riais. Por um salário miserável, você acha que é um tesouro fora do alcance pensou em oferecê-las a você em sua
Do outro lado da colina se situa o suportou trabalho escravo, demis- de pessoas como eles. juventude, então não há razão para fa-
sonho americano, o objetivo da via- sões, exposição a produtos tóxicos. zer com que os jovens de hoje possam
gem de cada um. Bem no final da fila Você aguentou firme na prova de fogo. PACTUAR COM OS FURA-FILAS? desfrutar delas. Isso não é justo.
estão as pessoas de cor – pobres, jo- O sonho americano de prosperidade e Você se acomodou a essa situação E Obama! O que diabos esse cara
vens ou velhas, a maioria sem diploma segurança é apenas a justa recompen- porque não é do seu feitio reclamar. fez para chegar à Casa Branca? O filho
universitário. Olhar para trás lhe cau- sa por seus esforços, uma maneira de No fim das contas, você tem sorte. Vo- mestiço de uma mãe solteira de baixa
sa medo; elas são muitas a seguir você. reconhecer o que você tem sido e o cê gostaria de ajudar mais sua família renda que se tornou presidente do país
Em princípio, você não as quer mal. que você é – uma espécie de medalha e sua igreja, porque é neles que coloca mais poderoso do planeta, isso era al-
Mas você esperou por muito tempo, de honra. sua fé. Você gostaria que eles lhe agra- go que você ainda não tinha visto. Em
trabalhou duro e, à sua frente, a fila Faz cada vez mais calor e a fila con- decessem sua generosidade. Mas a fila que posição o coloca o triunfo de um
mal se move. Você mereceria avançar tinua não avançando. Parece até que continua não avançando. Depois de homem como ele, quando, ao mesmo
um pouco mais rápido. Você aguenta ela está recuando. Você não recebeu tanto trabalho duro, de tantos sacrifí- tempo, lhe explicam que você é muito
pacientemente, mas está muito preo- um aumento por anos e não vai ser cios, você começa a se sentir preso nu- mais privilegiado? Que favores Barack
cupado. Seus pensamentos estão vol- amanhã que terá a chance de alguém ma armadilha. Obama obteve para estudar em uma
tados para aqueles que o precedem, lhe conceder um. Na verdade, seus ga- Você pensa no que o enche de or- universidade tão cara quanto Colum-
em especial para aqueles que já alcan- nhos diminuíram constantemente gulho – a começar por sua moral cris- bia? Onde Michelle Obama encontrou
çaram o topo. nos últimos vinte anos, sobretudo se tã. Você sempre apreciou a probidade, dinheiro suficiente para estudar em
O sonho americano é um sonho de você não tem um diploma universitá- a monogamia, o casamento heterosse- Princeton e depois na Faculdade de
progresso – a esperança de que você rio e ainda mais se não completou o xual. Nem sempre foi fácil. Você mes- Direito de Harvard, quando o pai dela
vai se dar melhor do que seus pais, ensino médio. Todos os seus amigos mo sofreu uma separação, talvez até era apenas um humilde funcionário
AGOSTO 2018 Le Monde Diplomatique Brasil 19

do serviço de água? Nunca se viu nada velmente terroristas, determinados a incluir todos os fraudadores que se Você pode não ter uma casa grande,
assim. Certamente, foi o governo fede- abusar da sua educação na fila e levar acotovelam à sua frente. Você é vaci- mas isso não o impede de se orgulhar
ral que pagou a conta. Michelle deve- uma boa vida com o dinheiro dos seus nado contra a ideia de ter de ser sim- de seu país. Qualquer um que ataque
ria ser grata por tudo que tem, em vez impostos. Você não sofreu inunda- pático. As pessoas nunca param de os Estados Unidos também estará ata-
de ficar o tempo todo furiosa. Ela não ções, derramamentos de óleo e polui- reclamar. O racismo. As discrimina- cando você. E, se você não pode mais
tem direito algum de ficar com raiva. ção química? Há dias em que parece ções. O sexismo. Impuseram a você se orgulhar dos Estados Unidos por
As mulheres: outro grupo que pas- que você mesmo é um refugiado. histórias de negros oprimidos, mu- meio de seu presidente, resta-lhe se
sa impunemente na sua frente. Elas lheres dominadas, imigrantes explo- juntar àqueles que, como você, se sen-
reivindicam o direito de ocupar os rados, homossexuais perseguidos, tem estrangeiros em seu próprio país.
mesmos cargos que os homens. Ainda refugiados desesperados. Em algum
bem que seu pai não precisou se preo- Negros, mulheres, momento, você acha que é hora de fe- A MÁQUINA DE SONHOS ESTÁ SEM SISTEMA
cupar com a concorrência delas para imigrantes, char as fronteiras da simpatia humana Entre as imagens dos negros enrai-
conseguir emprego. E o que dizer dos – especialmente quando isso beneficia zadas no espírito das pessoas que co-
refugiados, pelicanos,
funcionários públicos, recrutados em pessoas que podem prejudicá-lo. Você nheci, uma estava faltando: a de uma
sua maioria entre mulheres e grupos todo mundo suportou mais do que sua parcela de mulher ou de um homem que, como
de minorias? Pelo que você sabe, eles vai passando sofrimento, sem nunca choramingar. eles, apenas esperava a justa recom-
são muito bem pagos para fazer muito na frente embaixo A partir daí, você fica desconfia- pensa por seus esforços. A história pro-
pouco. Veja o caso dessa assistente do seu nariz do. Se todas essas pessoas se permi- funda contada por brancos, cristãos,
executiva do Departamento de Regu- tem disputar espaço com você na fila, idosos ou reacionários da Louisiana
lamentação: sem dúvida, ela desfruta é porque alguém importante as está respondia, no entanto, a um trauma
de horários confortáveis e de um cargo apoiando. Quem? Normalmente, há real. De um lado, o ideal nacional do
garantido para a vida inteira, tendo, Não cabe ao pelicano-pardo zom- um homem que controla a fila, que a sonho americano, isto é, do progresso.
diante de si, a perspectiva de uma bela bar de você batendo suas largas asas percorre de cima a baixo, garantindo De outro, uma dificuldade crescente
aposentadoria. No momento, ela pro- cobertas de óleo. Essa típica ave da que todos permaneçam em seu lugar para progredir.
vavelmente está postada de forma in- Louisiana, o símbolo oficial do estado, e que o acesso ao sonho americano Para a população “inferior”, ou seja,
dolente à frente do computador fazen- aninha-se em mangues ao longo da seja feito em condições equitativas. nove em cada dez americanos, a má-
do compras on-line. O que a torna costa. Há muito tempo ameaçada de Esse homem é Barack Hussein Oba- quina dos sonhos instalada no lado in-
merecedora de favores a que você nun- extinção pela poluição química, ela ma. Sim, mas olha só: em vez de re- visível da colina não funciona mais,
ca terá direito? havia se recuperado a ponto de ser re- preender os espertinhos, ele os saúda desativada pela automação, pelo des-
O mesmo vale para os imigrantes. tirada da lista de espécies ameaçadas amigavelmente, demonstrando-lhes locamento de empresas para outros
Com um visto ou um green card na em 2009 – apenas um ano antes do ter- uma simpatia que ele evidentemente países e pelo poder exorbitante das
mão, filipinos, mexicanos, árabes, in- rível derramamento de óleo causado não sente de forma alguma por você. multinacionais sobre sua força de tra-
dianos ou chineses passam na sua pela British Petroleum (BP). Para so- Ele está do lado deles. Aquele que tem balho. Dentro desse grupo muito gran-
frente, quando não acabam furando a breviver, ela precisa de peixes não con- a responsabilidade de regular o avan- de, a competição entre brancos e não
fila. Bem recentemente, você viu ho- taminados, água livre de óleo, man- ço da fila quer que você pactue com brancos tornou-se cada vez mais acir-
mens parecidos com mexicanos cons- guezais limpos, costas protegidas da os fura-filas. rada – seja pelo emprego, seja por um
truindo o acampamento que vai abri- erosão. É por isso que o pelicano-par- Você se sente traído. Suas defesas lugar na sociedade ou pelos auxílios.
gar encanadores filipinos do grupo do também passa na sua frente na fila. agora estão bem ativadas. Esse presi- O fracasso da máquina dos sonhos
Sasol. Você vê que eles trabalham duro Ainda assim, é apenas um pássaro! dente não sabe nada do imenso orgu- remonta a 1950. As pessoas nascidas an-
e respeita isso, mas não os perdoa por Negros, mulheres, imigrantes, refu- lho de ser americano. Ser americano tes dessa data viram suas rendas crescer
expulsarem a força de trabalho ameri- giados, pelicanos, todo mundo vai pas- é uma honra que você mais do que à medida que envelheciam. Para aque-
cana aceitando baixos salários. sando na frente embaixo do seu nariz. nunca tem de defender, dada a lenti- las nascidas depois, é o contrário.
Os refugiados? Quatro milhões de Mas são pessoas como você que fize- dão da fila do sonho americano e a
sírios fugiram da guerra e do caos, ram a grandeza da América. É preciso insolência dos comentários feitos so- *Arlie Hochschild é socióloga da Universi-
parte deles em direção à costa grega. O reconhecer: os fura-filas irritam você. bre brancos, homens e cristãos. Hoje, dade da Califórnia em Berkeley. Autora de
presidente Obama decidiu acolher 10 Eles desrespeitam as regras do jogo. Vo- basta ser ameríndio, mulher ou gay Strangers in Their Own Land: Anger and
mil em território americano [dos quais cê não os carrega no coração e não vê para atrair a simpatia da opinião pú- Mourning of the American Right [Estranhos
dois terços são mulheres e crianças]. por que deveria se desculpar por isso. blica. Esses movimentos sociais dei- em sua própria terra: raiva e luto da direita
Todo mundo sabe que nove entre dez Você não é desprovido de compai- xaram apenas um grupo para trás de- norte-americana], The New Press, Nova
refugiados são homens jovens, possi- xão. Mas sua compaixão não poderia les: o seu. York, 2016, de onde este texto foi adaptado.

A OBRA-PRIMA DE ROMAIN GARY

PROMESSA
C H A R LOT T E
GAINSBOURG AO PIERRE
NINEY

AMANHECER
JU
OT

UM FILME DE
ERIC BARBIER

26 DE JULHO NOS CINEMAS


20 Le Monde Diplomatique Brasil AGOSTO 2018

SUAR, MAS EM BOA COMPANHIA

Suco detox e
cardio training,
o novo espírito

© Daniel Kondo
da burguesia
Competição ou solidariedade, culto do resultado ou do
esforço, reino do individualismo ou aprendizagem do
espírito de equipe? As forças políticas há tempos disputam
os valores associados ao exercício físico. A ascensão das
academias de luxo sugere uma retomada do entusiasmo
burguês pelo corpo. As performances e a boa saúde
justificariam o status social
POR LAURA RAIM*

quilíbrio do corpo e da mente”: “educadas”, que “não se metem de- Arthur Benzaquen não esconde: “Não to lucrativo: nos Estados Unidos, mem-

“E essa é a promessa feita pelo que a


revista de moda Vanity Fair cha-
mou de “a academia mais sexy
de Paris”.1 Localizada em uma mansão
mais”. Além disso, há “o ambiente agra-
dável”, arejado e iluminado. Uma deco-
ração “de bom gosto”, trabalhada com
cuidado: na Klay, vigas de metal, um
queremos acompanhar tendências, e
sim lançá-las”.
Seguindo a trilha aberta pela Klay e
pela Blanche, as academias de outrora
bros de academias passaram a usá-las
para comemorar o aniversário. Seus
amigos são convidados a se juntar a eles
para uma série de burpees (exercícios
classificada como monumento histó- imenso telhado de vidro, tetos de tijolos deram lugar a “espaços de convivência”, que consistem em encadear um aga-
rico no nono distrito de Paris, a Blan- em abóbada de ogiva. “Era um universo incrementados com spas, salões de ca- chamento, uma prancha, uma flexão,
che é a caçula da família Benzaquen, industrial, que lembrava uma mistura beleireiro, bares e restaurantes. Locais um novo agachamento e um salto).
pioneira do fitness de luxo. Por trás da entre [os filmes] Fame e Rocky, daí o no- aonde não se vai apenas para gastar ca- Orgulhosa em resistir à “spaiza-
cintilante fachada art nouveau, um me, que remete a Cassius Clay, como se lorias, mas se pode trabalhar e, às vezes, ção” (transformação em spa) e man-
design ultracontemporâneo que mis- chamava originalmente Mohamed Ali”, até fazer reuniões profissionais – a área ter-se como uma “verdadeira acade-
tura aço, concreto e granito contrasta explica Arthur Benzaquen. “Por isso, do restaurante é aberta a não membros. mia”, a Usine, principal concorrente
elegantemente com colunas de már- desenvolvemos um programa esportivo A Klay promove leituras e instalações da Klay no nicho das academias ele-
more, espelhos convexos, afrescos e em torno do boxe, da superação de si artísticas, enquanto a Blanche conta gantes que combinam charme antigo
outros ornamentos originais. mesmo, do desempenho e do suor.” com uma pequena sala de cinema pri- e design apurado, experimenta o mes-
Assim como na Klay, o segundo es- vada no último andar. A academia pode mo sucesso. Seus fundadores, Patrick
paço da Benzaquen, lançado em 2009 “UM POTENCIAL INSTAGRAM MONUMENTAL” até converter-se em espaço de eventos Rizzo e Patrick Joly, abriram, em 2004,
no bairro parisiense de Montorgueil, Nada a ver com o espírito refinado para ocasiões especiais, como o vigési- um primeiro endereço no bairro da
um número fechado de 2.500 mem- da Blanche, instalada na mansão bur- mo aniversário da marca Pump, da L‘Opéra de Paris, numa antiga fábrica
bros garante o conforto de estar sem- guesa do editor musical Paul de Chou- Reebok, em 2009, ou, mais recentemen- da Huileries de Fécamp, depois outro
pre entre os seus e jamais em uma sala dens, que inspirou “um programa de te, o nono aniversário de inauguração em Beaubourg, no que fora o banco
lotada. Mas as tarifas são um filtro ain- equilíbrio, harmonia e bem-estar”. A da academia, comemorado no final de privado de John Law no início do sécu-
da mais eficaz: 1.810 euros por ano. atração do lugar: uma pequena pisci- junho “para coincidir com a fashion lo XVIII. “Temos muita gente famosa
Menos que os 4.400 euros que é neces- na de borda infinita no porão, projeta- week” (semana durante a qual estilistas aqui”, delicia-se Rizzo, após cumpri-
sário desembolsar para a primeira ma- da como uma “caverna de meditação”, de moda apresentam suas novas cole- mentar no saguão de entrada Domini-
trícula anual na Ken, fundada pela nas palavras de Benzaquen. A piscina, ções). Nessa noite, um felizardo ganhou que Caignart, diretor do Banque Pu-
mesma família em 1985 no 16º distrito equipada com jatos de hidromassa- em sorteio uma associação anual à aca- blique d’Investissement. A Usine
de Paris. Porém, mais que os 800 euros gem e cercada por granito preto, des- demia, além de uma garrafa magnum seduz o banco, mas também o show-
de uma academia de nível médio da cansa na penumbra, iluminada ape- de Miraval, o vinho rosé produzido no biz: “Kim Kardashian e Kanye West
rede Club Med Gym (CMG) ou os 120 nas por um dramático sistema de domínio provençal dos atores Angelina frequentaram nosso espaço quando
euros da opção “horário especial” da iluminação natural moderno. “Quan- Jolie e Brad Pitt. A sinergia entre esporte estiveram em Paris”, não se esquece de
low cost Neoness. Entre as paredes da do você está sem peso na água, é mais e festa logo mostrou seus limites: como acrescentar nosso guia.
Blanche ou da Klay, constrói-se uma fácil se soltar, e pode-se fazer respira- não bebia álcool, o agraciado ficou sa- Segundo relatório da EuropeActi-
nova relação com o corpo, inscrita na ções mais profundas, trabalhar a ap- tisfeito em aceitar a assinatura, mas re- ve-Deloitte, 8,5% da população france-
legitimação das hierarquias sociais. neia”, destaca o proprietário e conhe- cusou educadamente a garrafa. Sem sa se matriculou em uma academia em
Quando questionados, os frequen- cedor do assunto. Um trabalho dúvida, seria mais adequado oferecer 2017, contra 13% na Alemanha, 14,7%
tadores dessas academias de alto nível respiratório dos mais fotogênicos: o um smoothie de proteína, bebida muito no Reino Unido e 17,5% nos Estados
explicam de bom grado que apreciam o “potencial Instagram” do lugar é “mo- apreciada pelos membros da Klay. Mas Unidos. Apesar de seu atraso, nos últi-
savoir-vivre dos membros: pessoas numental”, como diz a Vanity Fair.2 a festa na academia pode ser um concei- mos anos o mercado francês tem pas-
AGOSTO 2018 Le Monde Diplomatique Brasil 21

sado por um boom nas grandes cida- forma onde pontifica o treinador-DJ, greza, mostrando que elas poderiam esportes existentes – transformando a
des: “Quando abrimos a Usine Opéra, munido de seu MacBook e de um ser sexy e musculosas. caminhada em step e o ciclismo em
em 2004, havia vinte academias em Pa- headset para guiar as pedaladas, fle- O fenômeno atravessou o Atlânti- spinning –, os exercícios concebidos
ris. Hoje são trezentas”, revela Rizzo. xões e levantamentos de peso, mas co na década de 1980 graças ao pro- para manter a forma ou perder peso
De acordo com a empresa de auditoria também para transmitir instruções grama de TV Gym Tonic, apresentado passaram a ser considerados modali-
e consultoria Deloitte, em 2016 a Fran- mais espirituais. No estúdio do nono por Véronique e Davina no canal An- dades competitivas: “Agora, fitness vi-
ça tinha 5,46 milhões de praticantes de distrito onde estivemos uma manhã, tenne 2 (futuro France 2), que colocou rou esporte”, dizia em 2012 um slogan
esporte em recinto fechado, ou seja, 5% “John” nos convidava, com rap e músi- em movimento mais de 10 milhões de da Reebok, que acabava de criar cam-
a mais do que em 2015. Crescimento ca eletrônica de fundo, a “amar a espectadoras em frente a seus televi- peonatos mundiais de crossfit.
impulsionado sobretudo pelas marcas criança de 7 anos em nós” e a “nos for- sores todas as manhãs de domingo. Desde os primeiros Gymnase Clubs,
low cost, mas também, em menor me- talecermos fisicamente para nos forta- Isso porque a década iniciada pela o cuidado de si sofisticou-se, captando a
dida, pelo aumento dos estabeleci- lecermos mentalmente”. eleição de François Mitterrand e pelo aura esotérico-espiritual das práticas
mentos de luxo, normalmente em Pa- Se a ideia do corpo como matéria a alinhamento dos socialistas franceses orientais (da ioga ao jiu-jítsu), mas tam-
ris: a Usine prepara-se para abrir um ser aperfeiçoada remonta a Esparta e às lógicas de mercado “foi também a bém adotando, em um registro menos
terceiro espaço em um prédio revitali- desdobra-se no Iluminismo, as pri- década da espetacular convergência zen, os códigos da virilidade militar,
zado da estação Saint-Lazare; os ir- meiras ginásticas foram desenvolvi- entre esporte e dinheiro”,5 analisa o com aulas de boot camp, nome do méto-
mãos Benzaquen, uma quarta casa no das no contexto da racionalização historiador das ideias François Cus- do de condicionamento físico utilizado
Boulevard Raspail. Indicador adicional científica das atividades humanas no set. Convergência que cristalizou a pelo Exército norte-americano. Sob a
da gentrificação do leste de Paris, o século XIX. “Elas estão em grande par- notável passagem do golden boy fran- pressão da concorrência, a oferta de ca-
bairro do Canal Saint-Martin abrigará te subordinadas, para os homens, a cês Bernard Tapie pelo Gym Tonic, em da sala não para de se diversificar, lan-
em setembro a inauguração de um So- fins militares (na França, a vingança 17 de junho de 1984: “Bernard Tapie, çando mão de inovações tecnológicas
cial Sport Club. No programa dessa an- contra a Prússia, no final do século conhecido homem de negócios, que (e linguísticas). Até mesmo uma marca
tiga fábrica de balões de ar quente, en- XIX) e, para as mulheres, higienistas dirige um monte de empresas, com como a Neoness oferece mais de qua-
contramos: “Música, drinques e (preparar o corpo para o parto)”, resu- um visual e uma forma incríveis. Co- renta atividades. Enquanto as acade-
quadríceps”, além de “quinoa, alegria e me o sociólogo do esporte Philippe mo você faz isso?”, perguntavam as mias low cost compram licenças de
[músculos] isquiotibiais”. Liotard. “A popularidade das acade- apresentadoras-ginastas. “Antes de zumba, body pump ou sh’bam para
Paralelamente às academias gene- mias privadas na França é muito mais mais nada, eu sou atlético”, respondia oferecer cursos padronizados, as aca-
ralistas, desenvolvem-se espaços espe- recente, com o esporte, sob todas as o convidado, enxugando a testa. “Isso demias de luxo gabam-se de propor-
cializados. Mais de uma centena de suas formas, tendo sido apoiado por talvez tenha me permitido, aliás, gozar cionar experiências “únicas”, impor-
academias de crossfit surgiu no país. um denso tecido associativo.” Desde a de um estado de espírito que difere um tando com exclusividade técnicas
Segundo seu inventor, o ginasta Greg década de 1950, de fato, a Federação de pouco daquele de meus colegas. Por- patenteadas. Na Klay, a antigravity fit-
Glassman, essa modalidade intensa Ginástica Voluntária, precursora do que no esporte aprendemos que o esta- ness, vinda de Nova York, permite fazer
que combina levantamento de peso, gi- fitness, oferecia cursos baratos, inspi- do de espírito, a mente, a inteligência, ioga aérea pendurada de cabeça para
nástica e corrida prepara “não apenas rados em um método sueco, em mi- nada disso existe fora do corpo. Na ver- baixo com um arnês. Algumas desen-
para o desconhecido, mas para o incog- lhares de seções locais – um legado das dade, tudo é reflexo do estado de saúde volvem suas próprias criações: o
noscível”.3 As academias de white collar políticas de democratização do espor- de seu corpo. É indispensável estar fisi- u’stretch, da Usine, “permite aumentar
boxing (literalmente, “boxe de colari- te colocadas em prática pela Frente camente bem se você quiser estar a temperatura intramuscular e colocar
nho-branco”) são populares entre mui- Popular. Nomeado em 1936 como pri- mentalmente disposto.” em alerta diferentes sistemas de con-
tos executivos e diretores. Do ponto de meiro subsecretário de Estado para a trole do corpo (propriocepção)”, en-
vista do cuidado com a forma, “o boxe organização do lazer e dos esportes, o A SAÚDE É A NOVA RIQUEZA quanto a breath and stretch da Klay
cobre todas as casas: condicionamento socialista Léo Lagrange mandou cons- Hoje, aeróbica com leggings fluo- mistura shiatsu e sofrologia. O poten-
aeróbico, emagrecimento, fortaleci- truir centenas de piscinas e estádios rescentes e sorrisinho forçado pare- cial para cruzamentos parece infinito,
mento muscular”, enumera Cyril Du- públicos para “permitir que as massas cem uma coisa ultrapassada e um tan- e algumas hibridizações soam um tan-
rand, fundador das academias Temple da juventude francesa pudessem en- to embaraçosa. A imagem de uma to improváveis, até mesmo antinômi-
Noble Art, refutando a ideia de que se contrar na prática esportiva a alegria e prática fora de moda reservada aos ad- cas, como a boxing yoga. Reforçando a
trata de fitness: “Somos um verdadeiro a saúde”.4 “Uma concorrência desleal miradores de Jane Fonda ou aos fãs do individualização da prática, o personal
clube de boxe”, diz o orgulhoso empre- que criou uma zona sem igual”, pra- fisiculturista Arnold Schwarzenegger trainer ganha terreno. A Usine conta
sário trintão, admirador da “coragem” gueja Rizzo, lamentando a “cultura da puxando ferro está gradualmente de- com uma equipe de quarenta treina-
de seus membros, que ousam “sair da gratuidade” na França, onde grassaria saparecendo. “Os excessos caricatu- dores para aulas particulares vendidas
zona de conforto” e subir ao ringue. o infeliz hábito de “ver o esporte como rais do entusiasmo dos primórdios”, em média a 60 euros por hora.
Rompendo com a imagem hippie um direito”. suspira Rizzo com ternura. Mas as coi- Além da inventividade de modali-
do passado, os estúdios de yoga design No início dos anos 1980, Rizzo e Joly sas mudaram ou foram refinadas? Co- dades, que já viu passarem muitas mo-
vicejam. Eles oferecem mais de cin- fundaram os primeiros Gymnase Clubs mo a Usine, a Klay comemora atrair das efêmeras, a mudança mais impor-
quenta métodos, que vão das tradicio- (depois chamados de Club Med Gym e, muitos atores, criadores e artistas, co- tante, segundo Joly, relaciona-se ao
nais hatha yoga e ashtanga yoga até as em seguida, de CMG), oferecendo apa- mo Thomas Lélu, artista plástico e fo- objetivo buscado: “Nos anos 1980,
versões mais originais – e muitas vezes relhos de musculação e cardio training tógrafo que expôs no Palais de Tokyo; nosso motor era principalmente a es-
patenteadas –, como a bikram yoga, (principalmente para os homens) e au- na academia também podemos encon- tética: grandes bíceps para os homens,
praticada em salas aquecidas a 40 °C, a las de aeróbica (principalmente para as trar algumas de suas obras. Mas o esta- barriga lisa para as mulheres. Hoje,
strala yoga, desenvolvida por uma mo- mulheres). “Foi o movimento da aeróbi- belecimento vive principalmente da transformamos o esporte em saúde,
delo nova-iorquina, ou ainda a warrior ca que inaugurou a fase de mercantili- assinatura de executivos e banqueiros, com uma abordagem holística”. Rizzo
yoga, inventada por uma ex-bailarina zação da boa forma. Não apenas a práti- em busca, como Tapie, de um corpo nos mostra a “máquina de 29 mil eu-
do cabaré parisiense Crazy Horse. ca esportiva foi transferida para as capaz de acompanhar sua “mente”. ros” que analisa a composição (massa
Em três anos, o spinning imersivo academias privadas, como também “Por muito tempo, os locais dedica- hídrica, massa gorda, massa magra)
conseguiu reciclar a boa e velha bici- passou a ser necessário ter a roupa dos ao fitness foram considerados ape- de cada parte do corpo dos novos
cleta ergométrica, transportando-a certa, o sapato certo...”, explica o so- nas lugarzinhos pequeno-burgueses membros, anunciando os cuidados
para um ambiente com som e luz de ciólogo Christian Bonah. Fazendo fa- para mães entediadas ou de prepara- médicos da Usine. Arthur Benzaquen
discoteca. Nos estúdios da rede Dyna- ma nos Estados Unidos, na década de ção física para um ‘verdadeiro esporte’, também lembra a mudança da cliente-
mo, a sessão de 45 minutos se passa 1970, por causa dos vídeos da atriz Ja- ou seja, um esporte competitivo ou ao la da Ken no início dos anos 2000: esta-
em uma área exígua mergulhada na ne Fonda, essa prática desenvolvida ar livre, na natureza”, avalia Joly. “Le- va ficando para trás a época “em que
escuridão, brevemente iluminada pe- por um médico do Exército dos Esta- vamos décadas para que o fitness fosse empresários cinquentões como Paul-
los flashes regulares de um spot. Qua- dos Unidos teve o mérito de libertar as reconhecido como um esporte em si.” -Loup Sulitzer vinham fumar um cha-
renta bicicletas apontam para a plata- mulheres da cultura misógina da ma- De fato, se a sala de fitness absorveu os ruto e comer à beira da piscina, colo-
22 Le Monde Diplomatique Brasil AGOSTO 2018

cando um pé na água para aliviar a marcas esportivas. Stella McCartney, ciólogo Christopher Lasch na década social e se reconhecer uns aos outros.
consciência. Os novos membros ha- por exemplo, cria há quinze anos pe- de 1970, em La culture du narcissisme,9 Isso exige práticas mais sutis: utilizar
viam perdido dez anos de média de ças para a Adidas. se a política institucional foi repu- sacolas de compras de algodão, beber
idade e queriam realmente cuidar do diada por causa do paternalismo, leite de amêndoa em vez de leite de va-
corpo, da saúde”. TAMBÉM É PRECISO CUIDAR DA ALMA... em seu lugar erigiu-se um “superego ca, praticar kundalini yoga...
“Desde a transição epidemiológica Com a queda no preço das calorias, severo e punitivo”. Esse modo de consumo diz respeito
da década de 1960, já não são as doen- o excesso de peso já não é sinal de opu- No entanto, a obsessão contempo- a uma categoria social que a autora cha-
ças infecciosas que matam, mas as lência, mas de pobreza,6 assim como o rânea por uma vida saudável não pro- ma de aspirational class, literalmente
doenças crônicas, a começar pelo cân- desejo de parecer forte e musculoso tege contra a doença e a morte, como “classe aspiracional”, o que não deixa de
cer e as doenças cardiovasculares”, surge em um momento no qual o tra- vêm lembrar alguns exemplos tragicô- lembrar a “classe profissional” estudada
lembra Bonah. Uma grande parte des- balho nunca foi tão pouco físico, em micos listados no livro de Ehrenreich: nos Estados Unidos pelo jornalista Tho-
sas doenças não transmissíveis poderia decorrência da automação e da tercia- Jerome Rodale, fundador da revista mas Frank. Não se trata do 1% de Wall
ser evitada pela redução dos chamados rização da economia. Já os percursos Prevention e campeão da alimentação Street nem da oligarquia dos iates e ja-
comportamentos “de risco”, como o de treino “inspirados pelas forças es- orgânica, o qual declarou que viveria tos particulares, mas dos 5% ou 10%
consumo de tabaco e de álcool, por peciais britânicas” seduzem executi- até os 100 anos, morreu de ataque car- cujo comportamento “ecológico” os
uma alimentação equilibrada e, claro, vos que terão poucas oportunidades díaco aos 72. Lucille Roberts, a atlética distingue da multidão de empurradores
pela prática de atividade física. Essa é a de ir para o front, forçosamente em dona de uma rede de ginástica para de carrinhos no Walmart.11 Talvez ain-
mensagem que desde 2001 o Programa uma época na qual também a guerra mulheres, que nunca comeu batata da mais do que as do 1%, são as escolhas
Nacional de Nutrição e Saúde (PNNS) foi automatizada. frita nem fumou, sucumbiu a um cân- de investimento dessa classe criativa
vem se esforçando para difundir, com cer de pulmão aos 59 anos de idade. urbana e liberal que “reproduzem a ri-
slogans como “Coma movimento” ou Poderíamos acrescentar o exemplo do queza e a mobilidade social ascendente
“Mexa sua saúde!”. “As pessoas estão fundador da Apple, Steve Jobs, grande em detrimento da classe média”, avalia
entendendo que precisam cuidar de
As academias de promotor do vegetarianismo, da natu- Currid-Halkett.
seu envelope corporal, assim como es- white collar boxing ropatia e da meditação, morto aos 56 Nos Estados Unidos e na França,
tão tomando consciência de que não (literalmente, “boxe anos de câncer pancreático. Nós ten- são esses cidadãos abastados que vão
podemos fazer qualquer coisa com a de colarinho-branco”) demos a esquecer: apenas 60% dos cada vez mais a academias, inclusive
Mãe Natureza”, alegra-se Benzaquen. É cânceres podem ser ligados a agentes as menos caras. Nos Estados Unidos,
difícil ignorar os riscos de uma vida se-
são populares entre cancerígenos. os 20% mais ricos praticam por sema-
dentária, com tantos estudos ansiogê- muitos executivos A manutenção de uma silhueta es- na seis vezes mais exercícios que os
nicos proliferando na imprensa. Em e diretores belta traz alguns benefícios, a come- 20% mais pobres.12 Na França, 87%
um artigo de 13 de junho de 2018 intitu- çar pelo de legitimar uma condição dos proprietários de microempresas
lado “Levanta e anda!”, o jornal Le Mon- corporal que é, em grande parte, um praticam uma atividade física, contra
de alertava mais uma vez seus leitores: privilégio de classe. A superioridade 48% em média para o conjunto da po-
“Ficar sentado mata”. O exercício físico, porém, é apenas social é, portanto, justificada por uma pulação.13 O aumento global da fre-
O padrão estético também evoluiu uma das dimensões dessa injunção superioridade moral: manifesta-se sua quência às academias não conteve a
para integrar a exigência de saúde com para conservar seu “capital-saúde”. capacidade de autodisciplina, auto- prevalência de sobrepeso e obesidade,
a aparência do corpo: “Na década de Você também precisa comer alimen- controle, até de sofrimento, o que pode mais difundidos na parte inferior da
1990, era preciso ser magra por todos tos orgânicos e sem glúten para cuidar ser visto “como um símbolo de esfor- escada social. E a ascensão do fitness
os meios, como [a top model britânica] da nutrição e meditar de maneira ço, atestando o mérito e a superação low cost ou a recente adição de couve
Kate Moss, que tinha uma aparência consciente para cuidar da alma, por de si mesmo”, observa Queval. no cardápio do McDonald’s não inver-
anoréxica. Hoje é preciso ser esbelta, exemplo, em um “bar de meditação”. Uma vez que temos o corpo que terão a tendência.
porém saudável, atlética e musculosa, A forma como Alison Beckner, consul- merecemos, a obesidade torna-se sinal
como Gisele Bündchen”, resume a jor- tora de lifestyle, descreve sua prática de preguiça ou de falta de vontade. Em *Laura Raim é jornalista.
nalista de beleza Valentine Pétry. esportiva reflete essa gestão aguda, outras palavras, não é porque somos
Adepta da healthy selfie – a “selfie sau- quase medicinal, do bem-estar: “Fisi- pobres que estamos acima do peso, é
dável” – no Instagram, a modelo brasi- camente, futebol e tênis. Emocional- porque nos falta força de vontade que 1 “On n’a jamais autant aimé suer qu’à Blanche, le
club de sport le plus sexy de Paris” [Nunca foi tão
leira posta regularmente fotografias mente, equitação. Espiritualmente, somos obesos e pobres: uma visão das agradável suar quanto na Blanche, a academia
de suas proezas no clube de boxe ou no ioga e meditação”.7 coisas perfeita para desacreditar os mais sexy de Paris], Vanity Fair, Paris, 7 jun. 2018.
estúdio de samba, quando não são os Inscrevendo-se no movimento geral princípios da solidariedade. Apesar de 2 Ibidem.
3 Greg Glassman, “Understanding crossfit” [Enten-
paparazzi que se encarregam de sur- de despolitização iniciado na década de o nível social, a profissão e os sistemas dendo o crossfit], 1º abr. 2007. Disponível em:
preendê-la em plena corrida. 1970, essa busca pelo bem-estar indivi- de saúde pública terem um papel de- <crossfit.com>.
Ser saudável e atlético virou ten- dual também se explica pela nova con- terminante na saúde, “a doutrina da 4 Léo Lagrange, discurso transmitido por rádio em
10 de junho de 1936.
dência. “Health is the new wealth” juntura econômica, assim como pelo responsabilidade individual significa 5 François Cusset, La Décennie. Le grand cauche-
(“Saúde é a nova riqueza”) é o credo fantasma do desemprego e da despro- que a pessoa em má forma será objeto mar des années 1980 [A década. O grande pesa-
do momento. “O tênis robusto, quase moção social. Sem esperança de trans- não apenas de repulsa, mas também delo dos anos 1980], La Découverte, Paris, 2006.
6 Ler Benoît Bréville, “Obesidade, mal planetário”, Le
ortopédico, contagia os fashionistas”, formar o mundo ou mesmo de contro- de ressentimento”, diz Ehrenreich. “A Monde Diplomatique Brasil, set. 2012.
constatou a revista feminina Elle (20 lar a vida e a carreira, cada um se objeção recorrente às propostas de ex- 7 “Alison-Paris”. Disponível em: <Insideoutparis.com>.
nov. 2017). O athleisure (contração em contenta em tentar “liberar seu poten- tensão da seguridade social é a seguin- 8 Barbara Ehrenreich, Natural Causes: An Epidemic
of Wellness, the Certainty of Dying, and Killing
inglês de “atlético” e “lazer”) está em cial” para melhorar seu corpo e sua te: ‘Por que eu deveria pagar por esses Ourselves to Live Longer [Causas naturais: uma
seu momento de glória. Leggings, mente. “Eu não posso fazer muito con- degenerados que optam por fumar e epidemia de bem-estar, a certeza da morte e como
tops esportivos, agasalhos de capuz e tra a injustiça no mundo”, ironiza a mi- comer hambúrguer?’.” estamos nos matando para viver mais], Twelve,
Nova York, 2018.
roupas de corrida invadem as ruas e litante socialista Barbara Ehrenreich, A prática regular de atividades físi- 9 Christopher Lasch, La Culture du narcissisme [A
os desfiles de alta-costura. Os tecidos em seu livro Natural Causes, “mas pos- cas tem outra função: a da distinção so- cultura do narcisismo], Flammarion, Paris, 2008 (1.
sintéticos passaram a circular fora so decidir aumentar em 10 quilos o peso cial. Em seu livro The Sum of Small ed.: 1979).
10 Elizabeth Currid-Halkett, The Sum of Small Things:
das aulas de ginástica, até mesmo no em minha máquina de quadríceps”.8 Things,10 Elizabeth Currid-Halkett ana- A Theory of the Aspirational Class [A soma das
trabalho ou à noite. A marca cana- Esse poder, no entanto, tem dois lisa as consequências da relativa demo- pequenas coisas: uma teoria da classe aspiracio-
dense de roupas esportivas Lulule- gumes: “Se a pessoa tem a sensação de cratização dos bens de consumo “visí- nal], Princeton University Press, 2017.
11 Ler Serge Halimi, “A armadilha dos 99%”, Le Mon-
mon foi pioneira desse movimento, ser um escultor do próprio corpo, de veis” nos Estados Unidos. Com a classe de Diplomatique Brasil, ago. 2017.
lançando no início dos anos 2000 a ser responsável por sua saúde, então média tendo acesso, graças ao crédito, a 12 “Spin to separate” [Pedalar por distinção], The
moda das leggings de ioga... a US$ 100 ela também é potencialmente culpada carrões e bolsas de marca, os membros Economist, Londres, 1º ago. 2015.
13 “Sport and physical activity” [Esporte e atividade
cada. Depois, estilistas famosos co- por suas falhas”, observa a filósofa Isa- das classes superiores encontraram ou- física], Special Eurobarometer, n.412, TNS Opi-
meçaram a desenhar coleções para belle Queval. Como diagnosticou o so- tras maneiras de sinalizar sua posição nion & Social, Bruxelas, mar. 2014.
AGOSTO 2018 Le Monde Diplomatique Brasil 23

OS SEGREDOS DE UMA PARCERIA DESEQUILIBRADA, MAS FUNCIONAL

China e Rússia,
cúmplices,
mas não aliadas
Destinado a normalizar as relações entre
Estados Unidos e Rússia, o encontro de Trump
com Putin no dia 16 de julho aumentou a confusão.
Empurra-se assim Moscou um pouco mais aos
braços de Pequim, apesar do desequilíbrio entre
as duas potências. Rússia e China reforçam suas
conexões, mas defendem seus próprios
interesses, que nem sempre coincidem
POR ISABELLE FACON*

nquanto no Ocidente comenta- sanções ocidentais: a China National Estados Unidos (67%), da Ucrânia chineses superaram assim o principal

E ristas destacam de bom grado e


com acerto os desequilíbrios de
poder entre a Rússia e a China,
que, segundo eles, podem pôr em peri-
go sua cooperação apenas a longo pra-
Petroleum Corporation (CNPC) agora
controla 20% do projeto, do qual o Fun-
do da Rota da Seda (Silk Road Fund)
também participa com 9,9%.
(29%) e da União Europeia (14%). Em
outra pesquisa, publicada em fevereiro
de 2018, 70% das pessoas consultadas
tiveram uma abordagem positiva em
relação à China, citada negativamente
obstáculo que os separava. Paralela-
mente, estabilizaram suas relações
militares e de segurança. Em 2009,
adotaram um programa decenal de
cooperação entre as regiões fronteiri-
zo, os líderes dos dois países estão TENSÃO PERMANENTE ATÉ OS ANOS 1990 em apenas 13% das respostas. ças que compreende 168 projetos;
constantemente se comunicando so- Em entrevista à rádio pública chi- Na era pós-Guerra Fria, as autori- também criaram grupos de trabalho
bre a solidez de sua parceria e demons- nesa Media Corporation, em 6 de ju- dades russas e chinesas estão igual- governamentais bilaterais para lidar
trando grande confiança mútua. nho de 2018, o recém-reeleito presiden- mente preocupadas em se concentrar com aspectos potencialmente gerado-
Desde a crise internacional causa- te Vladimir Putin ofereceu uma visão no desenvolvimento interno, o que re- res de tensões: fluxos migratórios ile-
da pela anexação da Crimeia e do con- relaxada e otimista do relacionamento quer um ambiente internacional fa- gais, tráfico ilícito de mercadorias,
flito no Donbass, em 2014, a relação bi- de seu país com a China. Ele a compa- vorável. Elas querem ir além de seu problemas ambientais...
lateral passou, de acordo com um rou a um prédio que “a cada ano adqui- passado conflituoso e finalmente es- O desejo de ancorar o relaciona-
cientista político russo, para a fase do re novas dimensões, andares, que sobe tabelecer relacionamentos duradou- mento bilateral de forma sustentável
“acordo”. Isso significa “empatia e cada vez mais alto e se torna cada vez ros de boa vizinhança. De fato, dos em um clima construtivo e pacífico é
compreensão mútuas no mais alto ní- mais forte”, antes de qualificar seu ho- “tratados desiguais” do século XIX às alimentado pelo compromisso mútuo
vel político; maior acesso das empre- mólogo Xi Jinping como “amigo bom e tensões ideológicas entre as duas po- de não interferir nos assuntos um do
sas chinesas aos recursos energéticos confiável”. Ele evocou ali o potencial tências comunistas a partir do final da outro. Os dois Estados, de fato, têm a
da Rússia; melhor acesso do Exército para interações frutíferas em matéria década de 1950 (ler o boxe virando a mesma desconfiança em relação a ter-
Popular de Libertação às tecnologias de robótica, informática e inteligência página), passando por uma disputa re- ceiros que consideram que pretendem
militares russas; e mais oportunida- artificial, ao mesmo tempo que se feli- corrente sobre a fronteira comum, que desestabilizá-los. Moscou e Pequim
des de usar o território da Rússia para citava pela dinâmica da Organização havia culminado em 1969 com inci- têm como prioridade a preservação do
projetos de infraestrutura que ligam a de Cooperação de Xangai (OCS). Essa dentes armados no Rio Ussuri (Ilha de regime. No entanto, em ambos os la-
China à Europa”.1 “cocriação” sucedeu em 2001 ao Gru- Damanski para os russos, Zhenbao dos considera-se que, na era pós-
De fato, obstáculos importantes fo- po de Xangai, nascido logo após o co- para os chineses), as relações nem -Guerra Fria, os países ocidentais, em
ram contornados. Em 2014, os russos, lapso da URSS. Ela inclui, além dos sempre foram simples. No início dos particular os Estados Unidos, se preo-
antes relutantes, concordaram em dois países, o Cazaquistão, o Quir- anos 1990, observa um pesquisador cuparam em apoiar ou mesmo or-
vender sistemas antiaéreos S-400 e ca- guistão, o Tadjiquistão e o Uzbequis- chinês, essa tensão permanente era questrar ações subversivas para servir
ças Su-35 para o Exército chinês. A hos- tão. Encarnação da preocupação de percebida de ambos os lados como a seus interesses geopolíticos e/ou
tilidade comum aos dois países quanto Moscou e Pequim em estabilizar essa “pesando fortemente no desenvolvi- econômicos. As “revoluções colori-
à instalação de sistemas antimísseis parte da Ásia Central, ela se tornou, de mento político, econômico e social”3 das” na antiga URSS foram interpreta-
norte-americanos na Ásia levou ambas acordo com Putin, uma “organização de cada um; portanto, era necessário das desta forma: enquanto Moscou se
as partes a se engajar nessa área de global” após a entrada, em 2017, da Ín- libertar-se dela. preocupou sobretudo com as “revolu-
cooperação, certamente modesta, mas dia e do Paquistão.2 A visão semelhante dos dois países ções” da Geórgia (2003) e da Ucrânia
com forte significado simbólico. Em A população russa, por sua vez, tam- sobre a necessidade de estabelecer (2004), Pequim se inquietou profun-
maio de 2014 foi assinado o megacon- bém se mostra receptiva em relação à boas relações lhes permitiu chegar a damente com a Revolução das Tulipas
trato referente ao gasoduto Força da Si- China. De acordo com uma pesquisa de um acordo sobre a delimitação da no Quirguistão (2005), temendo que
béria; além disso, os recursos chineses opinião conduzida pelo Centro Levada fronteira comum, com cerca de 4 mil ela pudesse desestabilizar sua vizi-
aliviaram as dificuldades de financia- em dezembro de 2017, ela só é qualifica- quilômetros de extensão. Aliás, demo- nhança e incentivar o sentimento in-
© Alves

mento do projeto da usina de gás natu- da como “inimiga” (vrag) da Rússia por rou um pouco, já que a empreitada só dependentista no Xinjiang.4 Ambos
ral liquefeito Yamal, provocadas pelas 2% dos entrevistados – muito atrás dos se concretizou em 2004. Os russos e os também viram a mão do Ocidente na
24 Le Monde Diplomatique Brasil AGOSTO 2018

Primavera Árabe. Eles se entendem


ainda melhor sobre a questão da esta-
bilidade em suas fronteiras, onde se NA ÉPOCA DA RIVALIDADE REVOLUCIONÁRIA...
sentem “sujeitos a restrições intolerá- POR SERGE HALIMI*
veis [...] pela presença militar da Amé-
rica e por seu apoio político aos alia-
dos ou a parceiros deles”.5 A té os melhores especialistas podem se enganar. O livro do
jornalista François Fejtö começa assim: “17 de outubro de
1961: aqui está uma data que será lembrada pelos autores
contestada, divertiu-se com isso em 1948 quando confessou
que os chineses não haviam obedecido quando “dissemos a
eles brutalmente que, em nossa opinião, a insurreição da Chi-
Isso certamente explica por que
não há, ou por que ainda não há, fortes dos manuais de história”. Ela foi lembrada, mas por um motivo na não tinha nenhuma chance de sucesso e que eles deve-
tensões entre eles nessa vizinhança diferente da que ele imaginou. Na atualidade, esse dia é asso- riam, portanto, buscar um modus vivendi com Chiang Kai-
ciado sobretudo ao assassinato de dezenas de manifestantes -shek, entrar em seu governo e dissolver seu Exército. Eles
compartilhada que é a Ásia Central.
argelinos pela polícia parisiense, enquanto, em seu trabalho fizeram o oposto, e hoje todo mundo pode ver: eles estão ven-
Pequim, ao mesmo tempo que ali de-
sobre o “grande cisma comunista”, China-URSS: o fim de cendo Chiang Kai-shek”.3
senvolve rapidamente sua presença uma hegemonia, publicado em 1964, Fejtö estimava que ele Além da “questão de Stalin”, título de um dos artigos do Par-
econômica desde o início dos anos marcaria “o fim da hegemonia soviética sobre o movimento tido Comunista Chinês (PCC) detalhando, em 13 de setembro
2000, tem o cuidado de não disputar comunista internacional”.1 Na tribuna do XXII Congresso do de 1963, suas diferenças com o PCUS, o principal desacordo
com Moscou a liderança política e de Partido Comunista da União Soviética (PCUS), na presença entre as duas organizações tinha a ver com a coexistência
segurança nessa região. Há uma base da imprensa ocidental, o secretário-geral Nikita Kruchev se pacífica. Foi também em 1956, durante o XX Congresso do
cooperativa histórica para isso: desde sentiu, de fato, obrigado a atacar violentamente os comunistas PCUS, que o líder soviético, de acordo com os comunistas
1996, os dois países estabeleceram ali albaneses, então pró-chineses. chineses, “formulou visões equivocadas sobre o imperialismo,
uma plataforma multilateral – o Gru- Algumas décadas depois, duas coisas impressionam sobre a guerra e a paz”.4
po de Xangai – para demarcar a antiga essa grande discussão, que degenerou em confrontos arma- Quais? Tendo superado sua obsessão pelo cerco, caracte-
fronteira sino-soviética e lidar com as dos entre os dois países em 1969. Em primeiro lugar, o esque- rística do período stalinista, Moscou imaginou que a atração,
cimento: quase ninguém mais fala sobre o conflito ideológico então real, do modelo soviético poderia sem enfrentamento
instabilidades regionais. A Rússia tem
sino-soviético. Ele dividiu, no entanto, o movimento comunista com o imperialismo fazer cair novos Estados em seu bolso. A
uma longa fronteira com a Ásia Cen- e, por um quarto de século, transformou as relações interna- arma nuclear – que “não faz distinção de classe” – também
tral (via Cazaquistão); a China tam- cionais. Em segundo, o segredo: a deterioração das relações tornava os soviéticos corresponsáveis com os Estados Unidos
bém, com a região do Xinjiang, no no- entre os dois principais partidos comunistas do planeta – e pela paz no mundo, o que a crise dos mísseis em Cuba pare-
roeste. Agora conhecido como OCS, o entre os países por eles liderados – tomou forma a partir de ceu lhes confirmar em 1962.
Grupo de Xangai está se concentrando 1956. Mas seu caráter público, o detalhe de todos os desen- Mao rejeitou essa análise, qualificada de “revisionista”. Ele
no risco de “terrorismo, extremismo e tendimentos que o ampliaram, só iria se manifestar cinco anos sentia que, como “as forças socialistas alcançaram uma esma-
separatismo”. Russos e chineses certa- depois. Até 17 de outubro de 1961, observa Fejtö, “as duas gadora superioridade sobre as forças dos imperialistas”, elas
mente não tiveram dificuldade em en- partes se esforçavam para manter sua disputa numa espécie deveriam se beneficiar disso. Por causa de seu medo dos “ti-
trar em acordo sobre essa questão. De de clandestinidade. As críticas, censuras e queixas eram ex- gres de papel” norte-americanos, mas também de seu acordo
fato, desde a segunda guerra na Che- pressas em uma linguagem cifrada, com o mínimo de transpa- suspeito com os líderes ocidentais, Kruchev ameaçou “parali-
rência indispensável para que as pessoas envolvidas não en- sar” os movimentos revolucionários do Terceiro Mundo. Quanto
chênia (1999-2009), os primeiros liga-
tendessem mal o significado da advertência”.2 ao terror de uma guerra nuclear, Mao o havia relativizado desde
ram o risco separatista no Cáucaso ao Os chineses criticaram, portanto, o “revisionismo” dos líde- 1957: “Se metade da humanidade fosse eliminada, ainda res-
islamismo radical, e os segundos, ao res iugoslavos com tanta veemência quanto Moscou e os par- taria uma metade, mas o imperialismo seria completamente
Xinjiang muçulmano. Nacionais des- tidos pró-soviéticos se reconciliaram com Tito. E os soviéticos destruído e não haveria nada além do socialismo em todo o
sas duas áreas se juntaram, aliás, às fi- atacaram os albaneses porque sabiam que eles estavam ali- mundo. Meio século ou um século depois, a população aumen-
leiras da Organização do Estado Islâ- nhados com Pequim. No entanto, a disciplina coletiva (e a au- taria novamente, até mesmo mais que a metade”.
mico (OEI). sência de contas no Twitter...) ainda permitia que mesmo um Ele realmente pensava assim ou queria que os “imperialis-
Embora se abstendo de aprovar as discurso do líder soviético detalhando, em fevereiro de 1956, tas” o imaginassem inflexível no caso de uma prova de força?
ações de Moscou na Ucrânia, oficiais perante uma assembleia de delegados comunistas petrifica- Hoje isso pouco importa. Reconciliadas também sobre esse
chineses enfatizaram que “os diplo- dos, os crimes atribuídos a seu antecessor, Josef Stalin, per- assunto, a Rússia e a China trabalharam enormemente para
matas e líderes chineses têm [...] cons- manecesse em segredo durante várias semanas. A autentici- garantir que a perspectiva de “socialismo em todo o mundo”
dade de sua acusação foi questionada por alguns dos que a não avançasse muito nos últimos anos...
ciência do que levou à crise [ucrania-
ouviram ou leram – e que não poderiam tê-la esquecido.
na], incluindo a série de ‘revoluções A denúncia do stalinismo por Kruchev abriu o arquivo das *Serge Halimi é diretor do Le Monde Diplomatique.
coloridas’ apoiadas pelo Ocidente nos queixas sino-soviéticas. Mao não aceitava que uma decisão
Estados pós-soviéticos e a pressão dessa importância, cujas consequências para o conjunto do 1 François Fejtö, Chine-URSS: la fin d’une hégémonie. Les origines du
exercida sobre a Rússia pela expansão movimento comunista internacional todos poderiam imaginar, grand schisme communiste, 1950-1957 [China-URSS: o fim de uma
da Otan [Organização do Tratado do dissesse respeito apenas ao partido soviético. Além de a críti- hegemonia. As origens do grande cisma comunista, 1950-1957], Plon,
Paris, 1964.
Atlântico Norte] para o leste”.6 Por seu ca ao “culto da personalidade” não lhe parecer urgente, espe- 2 François Fejtö, Chine-URSS: le conflit. Le développement du grand
turno, a Rússia, embora continue a exi- cialmente na China, ele temia que a denúncia de Stalin enfra- schisme communiste, 1958-1965 [China-URSS: o conflito. O desenvol-
bir sua neutralidade na questão do Mar quecesse o conjunto dos líderes comunistas que o haviam vimento do grande cisma comunista, 1958-1965], Plon, 1966.
apoiado – ou seja, quase todos que tinham sobrevivido a ele. 3 Citado por Vladimir Dedijer, Tito parle... [Tito fala...], Gallimard, Paris, 1953.
da China Meridional, apoia o questio- 4 “Les divergences entre la direction du PCUS et nous – leur origine et leur
namento por Pequim do papel deses- Mao, no entanto, absteve-se de alinhar sua estratégia com
évolution” [Divergências entre a liderança do PCUS e nós – sua origem e
os conselhos, geralmente desastrosos, de seus camaradas
tabilizador dos Estados Unidos nessa evolução], redação do Renmin Ribao e redação do Hongqi, Edições de
soviéticos. Stalin, apesar de não querer ver sua autoridade Pequim, 6 set. 1963.
área. Deixando um pouco de lado sua
reserva tradicional, ela concordou, em
2016, em participar de exercícios na-
vais conjuntos no Mar da China Meri- 2018, a crescente assimetria das rela- crescente desequilíbrio não é sistema- comércio exterior), para a China, a
dional (logicamente fora das áreas dis- ções políticas e econômicas com Pe- ticamente analisado pela Rússia em Rússia se situa apenas no nono lugar
putadas).7 No ano seguinte, as duas quim. Ele acreditava que um dos prin- termos de ameaça à sua segurança e entre seus parceiros. Em 2014, quando
marinhas estavam operando juntas no cipais objetivos da ação diplomática soberania. No entanto, ele contraria o comércio sino-russo chegava a US$
Mar Báltico, um foco de tensão entre a de Moscou deveria ser evitar que o suas ambições de potência internacio- 95 bilhões (contra US$ 16 bilhões em
Rússia e a Otan nos últimos anos. atraso se agravasse.8 nal. O PIB da China, segunda maior 2003), o da China com a União Euro-
Ambos os países são, desse modo, economia do planeta, com 17,7% do peia somava US$ 615 bilhões e, com os
cúmplices em um bom número de COOPERAÇÃO NO EXTREMO ORIENTE RUSSO PIB mundial (em paridade de poder Estados Unidos, US$ 555 bilhões.
questões bilaterais e internacionais. Em muitos aspectos, o equilíbrio aquisitivo), segundo o FMI, é dez vezes A própria estrutura do comércio bi-
No entanto, em seu balanço do ano di- de poder inverteu-se de fato contra a maior que o da Rússia, que ocupa o 12º lateral é problemática: a Rússia expor-
plomático de 2017, o influente Conse- Rússia no último quarto de século, lugar, com 3,19% do PIB mundial. E se, ta principalmente matérias-primas e
lho Russo de Relações Exteriores (RS- particularmente em termos econômi- para a Rússia, a China é desde 2010 o importa máquinas/ferramentas e
MD) mencionou, entre os desafios de cos. Como as relações são boas, esse maior parceiro comercial (15% de seu equipamentos industriais. Essa é uma
AGOSTO 2018 Le Monde Diplomatique Brasil 25

das razões pelas quais Moscou, apesar É claro que Moscou se resignou à neses não obedeceriam a considera- ções para o desenvolvimento de in-
de difíceis arbitragens (respeito à pro- ideia de que o desenvolvimento do Ex- ções geopolíticas ligadas ao “grande fraestruturas que tanta falta fazem na
priedade intelectual e à concorrência tremo Oriente exigia investimentos acordo” sino-russo, e sim a objetivos de Rússia. Mas não é certo que a China ve-
nos mercados globais de armas), deci- estrangeiros. Mas preferiria que fos- racionalidade econômica, a Rússia de- ja a situação dessa maneira: ao mesmo
diu, após 2014, subir a um novo pata- sem de múltiplas fontes e, embora ad- ve admitir que a dinâmica chinesa na tempo que respeita seu parceiro, ela
mar, passando para as vendas de ar- mitindo que, sem mão de obra estran- Ásia Central não é afetada por sua relu- não se sente obrigada a seguir seu rit-
mas (S-400, Su-35). Além disso, a geira, o desenvolvimento regional não tância e suas preocupações (isso tam- mo, seja qual for o assunto. A bola está
China investe muito mais na Rússia do será fácil, ela, também nesse caso, pri- bém é verdade para o Cáucaso e a no campo da Rússia. Isso a levará a
que o contrário.9 vilegia fluxos de entrada diversifica- Ucrânia, incluídos na BRI).16 Na melhor acelerar sua modernização econômica
Desequilíbrios também existem na dos. O sucesso ainda muito relativo das hipóteses, ela conseguiu salvar as e a desenvolver uma abordagem mais
área de fronteira. A situação do Extre- das receitas que ela aplicou alimenta aparências – de maneira bastante su- aberta das relações internacionais?
mo Oriente russo (desindustrializa- seu medo recorrente “de que, ao se perficial no momento – graças ao
ção, despovoamento...) é apreendida abrir em demasiado para o vizinho anúncio conjunto dos presidentes rus- *Isabelle Facon é pesquisadora da Fonda-
pelas autoridades em termos de segu- chinês, o Extremo Oriente fique per- so e chinês, em maio de 2015, segundo tion pour la Recherche Stratégique (FRS),
rança nacional: a possibilidade de per- manentemente congelado no papel de o qual a BRI e a UEE seriam conecta- França.
da de soberania sobre essa parte do simples fornecedor de matérias-pri- das. Ninguém sabe se a assinatura, três
território é considerada plausível em mas, em detrimento de qualquer espe- anos depois, de um acordo de coopera-
caso de fracasso dos programas de de- rança de diversificação”.14 ção econômica e comercial China-UEE
senvolvimento. Ainda que isso não se- (controles aduaneiros, propriedade in-
1 Dmitri Trenin, “Russia’s Asia strategy: Bolstering
ja dito, a percepção desse risco está re- telectual, cooperação intersetorial e the eagle’s eastern wing” [Estratégia russa para a
lacionada, em parte, às assimetrias mercados públicos, comércio eletrôni- Ásia: reforçando a asa leste da águia], Russie.Nei.
demográficas (1,1 habitante por quilô- Se o orçamento co, concorrência...) produzirá efeitos Visions, n.94, Instituto Francês de Relações Inter-
nacionais (Ifri), Paris, jun. 2016.
metro quadrado, em comparação com de defesa chinês mais tangíveis. 2 A OCS não tem realmente uma unidade ideológi-
cem ou mais para as províncias do A parceria estratégica sino-russa ca: a Índia e o Paquistão se enfrentam na Caxemi-
norte da China),10 bem como à ativida-
continua muito maior, parece sólida por causa da sede de es- ra, enquanto a Índia e a China ainda não resolveram
de econômica chinesa que ali vem se Moscou ganha tabilidade dos dois países e de sua re-
seus problemas de fronteira.
3 Yang Cheng, “Sino-Russian border dynamics in the
desenvolvendo desde a década de de longe em jeição conjunta de qualquer interven- Soviet and post-Soviet era: A Chinese perspective”
1990, reativando as antigas tensões li- ção do Ocidente, liderada pelos Estados [Dinâmica da fronteira sino-russa na era soviética e
termos de armas pós-soviética: uma perspectiva chinesa], Docu-
gadas à condição sensível desses terri- Unidos, em sua vizinhança imediata.
tórios na história comum. No final do
nucleares Essa base robusta, no entanto, não sig-
mento de Discussão, Sétima Conferência de Ber-
lim sobre Segurança na Ásia, 1º-2 jul. 2013.
século XIX, a fraqueza do controle es- nifica que as duas potências se sintam 4 Cf. Marc Lanteigne, “Russia, China and the
Shanghai Cooperation Organization: Diverging se-
tatal russo sobre o Oblast de Amur e o obrigadas a concordar em seus pontos curity interests and the ‘Crimea effect’” [Rússia,
Krai do Litoral havia permitido a for- A Rússia também está tentando de vista sobre as principais questões China e a Organização de Cooperação de Xangai:
mação de enclaves que estavam sob a conter a expansão econômica da Chi- internacionais – mesmo que cada uma, interesses de segurança divergentes e o “efeito
Crimeia”]. In: Helge Blakkisrud e Elana Wilson
influência das corporações comerciais na na Ásia Central. Por exemplo, no se não apoia a iniciativa da outra, pelo Rowe (orgs.), Russia’s Turn to the East: Domestic
chinesas, cujas atividades o Kremlin âmbito da OCS, ela recusou (com o Ca- menos evite atrapalhá-la. Além disso, a Policymaking and Regional Cooperation [A Rús-
procurava reduzir.11 zaquistão) a criação de uma zona de China, parte forte do binômio, traça sia se volta para o leste: política doméstica e coo-
peração regional], Global Reordering Series, Pal-
No início da década de 1990, co- livre-comércio ou mesmo a de um seu próprio caminho. Ela pretende in- grave McMillan, Basingstoke, 2018.
merciantes chineses investiram no banco de desenvolvimento.15 Isso figu- vestir na Rússia somente se os projetos 5 Dmitri Trenin, op. cit.
mercado russo do Extremo Oriente, rava também entre os objetivos origi- forem economicamente convincentes 6 Fu Ying, “How China sees Russia” [Como a China
vê a Rússia], Foreign Affairs, Nova York, jan.-fev.
que se caracterizava então por severa nais da criação da União Econômica e se abstém de seguir seus passos em 2016. Fu Ying é presidente do Comitê de Relações
escassez, e para lá exportaram uma Eurasiática (UEE), organização de in- sua crítica virulenta ao Ocidente, com Exteriores do Congresso Nacional do Povo.
grande quantidade de bens de consu- tegração econômica entre a Rússia e o qual compartilha interesses econô- 7 Ler Didier Cormorand, “Por algumas pedras a
mais...”, Le Monde Diplomatique Brasil, jun. 2016.
mo. Ao longo dos anos, essa presença quatro ex-repúblicas soviéticas (Ar- micos significativos. 8 “La politique étrangère de la Russie: regard sur
diversificou-se: comércio sempre, mas mênia, Bielorrússia, Cazaquistão, Cabe a Moscou lidar com os fatores 2018” [A política externa da Rússia: um olhar para
também agricultura, construção etc.12 Quirguistão) lançada em janeiro de que aprofundam o diferencial de po- 2018] (em russo), n.36, RSMD, Moscou, 2017.
9 Ibidem.
O programa de cooperação de 2009 2015. No entanto, a margem de mano- der, o qual corrói sua imagem, espe- 10 Jean Radvanyi, “Les paradoxes de l’Extrême-Orient
dá testemunho disso: os dois governos bra de Moscou permanece limitada, rando talvez comprometer sua segu- russe: façade maritime dépressive cherche nou-
vêm buscando há alguns anos orientar pois esses países não hesitam em assi- rança. Daí, por vezes, uma retomada veaux moteurs de croissance” [Os paradoxos do
Extremo Oriente russo: região portuária em de-
e regular melhor as relações econômi- nar acordos bilaterais com Pequim da postura defensiva, que ajudou a pressão procura novos motores de crescimento],
cas entre as regiões do nordeste da (energia, investimento etc.) quando derrubar a compra de 14% do capital Regards de l’Observatoire franco-russe, Le Cher-
China e do Extremo Oriente da Rússia. consideram que isso serve a seus inte- da petroleira Rosneft pelo consórcio che-Midi, Paris, 2015.
11 Malin Østevik e Natasha Kuhrt, “The Russian Far
Pequim, preocupada com o desenvol- resses. A Rússia não avança muito so- China Energy Fund Committee (CE- East and Russian security policy in the Asia-Paci-
vimento regional – o Extremo Oriente bre a influência financeira da China, FC). Até agora, Moscou se contentou fic region” [O Extremo Oriente russo e a política
como um mercado “natural” no nor- cujo projeto de Nova Rota da Seda (Belt em canalizar o “risco chinês” dedican- de segurança russa na região da Ásia-Pacífico].
In: Helge Blakkisrud e Elana Wilson Rowe
deste da China –, e Moscou, preocupa- and Road Initiative, BRI) deveria levar do muito esforço para estabelecer uma (orgs.), op. cit.
da com o controle.13 O lado russo, aliás, à concessão de mais empréstimos e relação de confiança adequada para 12 Jean Radvanyi, op. cit.
nem sempre é muito cooperativo na créditos para os países da Ásia Central reduzir as fontes de atrito. Sua vitali- 13 Cf. Tobias Holzlehner, “Economies of trust. Infor-
mality and the State in the Russian-Chinese bor-
execução desse programa. Esse é o (ela própria precisa recorrer a emprés- dade diplomática e militar no Oriente derland” [Economias de confiança. Informalidade
efeito transversal da falta de recursos timos de bancos estatais chineses, em Médio tranquilizou o Kremlin por en- e o Estado na fronteira russo-chinesa]. In: Caroline
financeiros e da inércia burocrática, condições de negociação com fre- quanto, reequilibrando visualmente o Humphrey (org.), Trust and Mistrust in the Econo-
mies of the China-Russia Borderlands [Confiança
mas também de certa ambivalência quência muito duras). equilíbrio bilateral de poder. Se o or- e desconfiança nas economias da fronteira sino-
das autoridades nos níveis local e fede- Além disso, após a anexação da Cri- çamento de defesa chinês continua -russa], Amsterdam University Press, 2018.
ral em relação à presença econômica meia, os Estados-membros da UEE se muito maior (US$ 150 bilhões em 2017, 14 Jean Radvanyi, op. cit.
15 Alexander Gabuev, “Taming the dragon: How can
chinesa. A Rússia pretende manter o mostram muito mais desconfiados em contra US$ 45,6 bilhões da Rússia, se- Russia benefit from China’s financial ambitions in
controle: criou em 2012 um Ministério suas relações com a Rússia, cujo inter- gundo o Instituto Internacional de Es- the SCO?” [Domando o dragão: como a Rússia
do Desenvolvimento do Extremo vencionismo na Ucrânia causou medo. tudos Estratégicos), Moscou ganha de pode se beneficiar das ambições financeiras da
China na OSC?], Russia in Global Affairs, 19 mar.
Oriente, construiu o cosmódromo (lo- Moscou parece ter perdido sua cota de longe em termos de armas nucleares. 2015. Disponível em: <http://eng.globalaffairs.ru>.
cal de lançamento) de Vostochny, mo- simpatia, o que a favorecia regional- A Rússia espera que Pequim dê ga- 16 Cf. “Chine-Russie: Moscou à l’initiative face aux
dernizou a linha ferroviária Magistral mente contra uma China cujo poder rantias de sua vontade de superar as nouvelles routes de la soie chinoises” [China-Rús-
sia: Moscou na iniciativa das novas rotas da seda
Baikal-Amur (BAM), reequilibrou sua preocupava. Da mesma forma que teve assimetrias econômicas – por meio de chinesas], Revue Défense nationale, n.811, Paris,
política externa em relação à Ásia... de constatar que os investimentos chi- cooperações industriais, contribui- jun. 2018.
26 Le Monde Diplomatique Brasil AGOSTO 2018

RESISTÊNCIAS AO RACISMO AMBIENTAL

Às margens do Rio
do desenvolvimento
No Rio de Janeiro, entre a serra e o mar, populações pobres enfrentam a poluição e o racismo
impostos pelos megaprojetos. Uma caravana de movimentos sociais seguiu a trilha das resistências
POR THIAGO MENDES E MARINA PRAÇA*

os últimos quinze anos, proje- tradicionais e empobrecidas se fize- cos em Magé, passou pela área conhe- broca. A fábrica de pesticida do antigo

N tos de siderúrgicas, refinarias,


termelétricas e grandes hi-
drelétricas pipocaram Brasil
afora, à base de muita isenção fiscal e
financiamento público a juros e pra-
ram sentir de modo mais dramático
em razão dos megaeventos esportivos
e de megaprojetos como o Porto do
Açu, a Companhia Siderúrgica do
Atlântico (instalada sob posse do gru-
cida como Cidade dos Meninos, em
Duque de Caxias, e pelo bairro de San-
ta Cruz, na cidade do Rio, e conheceu a
experiência do Quilombo do Campi-
nho, em Paraty, na Costa Verde do es-
Serviço Nacional de Malária fechou em
1956 e deixou para trás toneladas do pó
poluente. Muitos moradores morre-
ram por manusear o pó, deixado sem
advertência. Na região, por iniciativa
zos atrativos para investidores nacio- po alemão ThyssenKrupp e vendida tado. Cerca de quinze coletivos, movi- da ex-primeira-dama Darcy Vargas,
nais e estrangeiros. De outra parte, ao grupo ítalo-argentino Ternium em mentos sociais e associações passaram ainda nos anos 1940, haviam sido ins-
programas sociais importantes e di- 2017), o Complexo Petroquímico do quatro dias juntos para debater o tema talados abrigos para garotas pobres e
versas outras políticas de inclusão e Rio de Janeiro (Comperj) e a amplia- do racismo ambiental e vislumbrar ca- órfãs, em regime de internato. Poste-
equidade eram mantidos. Trabalha- ção da Refinaria Duque de Caxias (Re- minhos alternativos ao modelo so- riormente, um desses abrigos passou a
dores e empresários pareciam ter mo- duc). Todos contribuíram para afetar a cioeconômico vigente. receber rapazes também e o nome do
tivos para satisfação nesse capitalismo saúde, o trabalho e o direito à moradia local ficou conhecido como Cidade dos
brasileiro emergente. de milhares de fluminenses. RACISMO AMBIENTAL Meninos. Ambos os projetos foram
Se é bem sabido que tal modelo Em Santa Cruz, extremo oeste da O racismo se constitui em elemen- abandonados. Hoje, os moradores lu-
ajudou amplos setores sociais a trans- cidade do Rio de Janeiro, o pó prateado to estruturante das desigualdades em tam pela descontaminação do local.
formar sua vida e seu papel na socie- expelido pela siderúrgica caiu na ca- uma sociedade como a brasileira, Depósito de rejeitos químicos e de
dade, não se pode ocultar que o boom beça de moradores, no episódio co- marcada por séculos de escravidão. pessoas “indesejadas”, o município de
de megaempreendimentos afetou mo- nhecido como “Chuva de Prata”.1 Em Quando falamos de racismo ambien- Caxias, em geral, lembra-se muito
dos de vida tradicionais de populações Duque de Caxias, na Baixada Flumi- tal, portanto, estamos nos referindo, pouco de sua história negra. Perto da
ribeirinhas, caiçaras, quilombolas, nense, a falta de água persiste desde como definiu o sociólogo Robert Bul- Cidade dos Meninos, atrás da carco-
pescadoras, deixando-as à margem de 2010 nas torneiras do bairro de Cam- lard, “a qualquer política, prática ou mida Igreja de Nossa Senhora do Pilar,
um propagado desenvolvimento, cuja pos Elísios. diretiva que afete ou prejudique, de a mais antiga da Baixada Fluminense,
promessa era alcançar a todos. formas diferentes, voluntária ou invo- construída no século XVIII, um cemi-
No contexto pós-golpe de 2016, de luntariamente, pessoas, grupos ou co- tério público recebe corpos não recla-
encurtamento tremendo do Estado, a munidades por motivos de raça ou mados onde antes foram enterrados
situação piora com uma agenda de pri-
Visto do quintal cor”.3 africanos escravizados.
vatizações em larga escala, na qual se das casas, o Por onde a caravana passou foi fácil O racismo ambiental não para por
vive o afrouxamento das regras de li- alto-forno da entender como isso acontece na práti- aí em Caxias. O município abriga des-
cenciamento ambiental para grandes siderúrgica ca. Em Magé, os esgotos das casas de- de 1961 uma das maiores refinarias de
projetos de desenvolvimento. Além ságuam diretamente no Rio Cachoeira gás natural do país, a Reduc. A indús-
disso, há um amplo retrocesso de di-
contamina o ar e Grande, sem nenhum tratamento, tria do petróleo e petroquímica da re-
reitos. O desemprego, a impossibilida- enche os móveis prejudicando a atividade de pequenos gião expõe a extensa população do en-
de de acesso à previdência social e a de pó preto agricultores da região. Em Santa Cruz, torno a riscos de “vazamento de gases
restrição de vagas em escolas, postos a população padece desde 2010 com e de óleo, lançamento de efluentes in-
de saúde e universidades são conse- alagamentos, fissuras nas casas pro- dustriais, contaminação de solos,
quências alarmantes das políticas in- vocadas pelo trem que transporta mi- transporte de cargas perigosas, emis-
troduzidas em dois longos anos de go- A população atingida tem se reuni- nérios, além de problemas respirató- sões gasosas e exposição a altos níveis
verno golpista. do em movimentos, coletivos, fóruns rios e de pele. É um dos bairros de de poluição atmosférica, explosões e
A cartilha política e econômica e associações para desafiar os “dra- maior população negra em toda a ci- incêndios”, como desde 2012 vem de-
neodesenvolvimentista, base do pro- gões de aço”2 e suas promessas de ri- dade. Visto do quintal das casas, o al- nunciando o Fórum dos Atingidos pe-
jeto dos governos Dilma e Lula, bus- queza. Há seis anos, durante a Rio+20, to-forno da siderúrgica contamina o la Indústria do Petróleo e Petroquími-
cou superar décadas de fracasso das a caravana Rio+Tóxico levou ativistas, ar e enche os móveis de pó preto. Mais ca nas cercanias da Baía de Guanabara
políticas neoliberais no país, mas não jornalistas e pesquisadores por três de trezentas ações de reparação movi- (FAPP-BG).
foi capaz de sobreviver à crise econô- empreendimentos de forte impacto das pela Defensoria Pública do Estado O mesmo município concentrou
mica de 2015 e ao fomento do clima socioambiental na região metropoli- pelos danos causados aguardam deci- durante décadas um dos maiores li-
pró-impeachment que derrubou a tana do Rio. são na Justiça. xões da América Latina, em Jardim
presidenta Dilma. Em maio de 2018, a Caravana Terri- Em Duque de Caxias, município de Gramacho. Ainda que oficialmente fe-
No contexto pós-golpe e de ocaso tórios contra o Racismo Ambiental no grande população negra e sede de em- chado em 2012, a população do bairro
desse projeto, pouco tem se falado so- Rio de Janeiro, organizada pelo Insti- preendimentos industriais há décadas, denunciou a continuidade do depósi-
bre como resistem os territórios que tuto Políticas Alternativas para o Cone os problemas ambientais são ainda to ilegal de lixo no terreno do aterro
vivem às margens desse modelo de de- Sul (Pacs), trilhou um caminho pare- mais antigos. Centenas de moradores sanitário desativado, assim como o
senvolvimento. No estado do Rio de Ja- cido, visitando territórios impactados precisaram ser removidos por conta- preconceito e a exploração a que são
neiro, as consequências do capitalis- na capital fluminense e arredores. O minação do solo por hexaclorocicloe- submetidas as pessoas que se susten-
mo periférico sobre as populações grupo percorreu quintais agroecológi- xano (HCH), conhecido como pó de tam trabalhando com o lixo. Grama-
AGOSTO 2018 Le Monde Diplomatique Brasil 27

cho “não é caminho para lugar ne- países periféricos como o Brasil. Não
nhum”, resumiu a moradora Jovelita há siderúrgica nem refinaria no Le-
Miranda durante a caravana. No bair- blon. É fácil saber por quê.
ro onde não há serviço bancário nem Neste cenário, para discutir racis-
loteria, é preciso contar com a sorte mo ambiental, como sublinhou du-
para sobreviver. rante a caravana Cristiane Faustino,
No começo, repetia-se a promessa da Rede Brasileira de Justiça Ambien-
ouvida em tantos outros lugares. O tal (RBJA), é preciso entender a forma-

© Luiz Baltar/Coletivo Favela em Foco


aterro levaria finalmente o progresso ção da sociedade brasileira assentada
ao bairro sem linhas de ônibus nem no racismo e no patriarcado. Os mega-
água encanada. E assim os mangue- projetos invadem vastos pedaços de
zais foram sufocados. Hoje, quem ten- terra historicamente ocupados pela
ta cavar um poço artesanal vê brotar população negra e pelos povos origi-
chorume. Para chegar ao hospital mais nários, desencadeando processos de
próximo, é preciso pegar dois ônibus. poluição, expropriação e causando
Não há creche. Da falta de tudo, nas- danos a quem a terra pertence. “O ge-
ceu o movimento SOS Gramacho. “A nocídio, a catequização dos povos ori-
vida acontece do Carrefour para lá”, ginários, a usurpação e a exploração
arremata Jovelita, em referência ao su- dos territórios; o tráfico e a escravidão Santa Cruz, extremo oeste da cidade do Rio de Janeiro, onde pó prateado expelido
permercado às margens da Rodovia dos povos negros africanos, a explora- pela siderúrgica Ternium caiu na cabeça de moradores
Washington Luís. ção sexual do corpo das mulheres in-
Em todos os locais visitados, a pele dígenas e negras etc. são expressões de alimento, geleias, nove tipos de fari- por grupos como a AARJ e fóruns de
negra de moradores e moradoras ex- violência colonial que marcam nossa nha, muito afeto e luta. Na região de atingidos, como o FAPP-BG, ao busca-
plica por que os projetos poluidores história e continuam até os dias de ho- Piabetá, a Cozinha Colher de Pau, rem congregar a luta de diversos terri-
seguem instalados onde estão. Em je”, pontua Cristiane.4 coordenada pela agricultora Juliana tórios, também são instrumentos cen-
Santa Cruz, bairro do Rio, 64,9% da As promessas de desenvolvimento Diniz, recebe quem se achega. “Uma trais de renovação e continuidade das
população é negra, ou seja, declara-se que chegam destruindo largos territó- roça protege a outra. O segredo é não resistências.
preta ou parda, de acordo com o Cen- rios e deixando um legado de concen- plantar em grandes quantidades”, en- Em Paraty, brotam entre floresta e
so 2010, do IBGE. tração de riquezas para grupos restri- sina Juliana, do Grupo de Trabalho cachoeiras ensinamentos sobre rique-
Além disso, mais de metade dos tos, formados em sua maioria por Mulheres da Articulação Agroecológi- za que o desenvolvimento não contabi-
domicílios somam renda de até um sa- homens brancos, seguem uma lógica ca do Rio de Janeiro (AARJ), sobre co- liza. Lá, o conhecimento das ervas me-
lário mínimo em Santa Cruz. Muitos parecida da colonização – e esse aspec- mo é possível plantar deixando de lado dicinais, a doçura da juçara (fruta irmã
moradores vivem com menos que isso. to não pode ser colocado em segundo os agrotóxicos. do açaí), as tarefas de cura e os benzi-
Com a anuência do Estado, os grandes plano nas análises críticas. “Isso impli- No último ponto da caminhada, mentos são compartilhados no coti-
projetos escolhem se alocar justamen- ca também que os sujeitos que se orga- chegamos a Paraty, no Quilombo do diano, em chão sagrado. “Às vezes você
te nas regiões onde vivem os mais po- nizam contra essas opressões não po- Campinho, o primeiro no estado a re- precisa de uma erva, uma bênção e um
bres. Algumas também são também dem ser compreendidos isoladamente ceber a titulação de suas terras, em cuidado. Quem fazia era a Tia Saquina.
áreas remanescentes de quilombos. ou somente como grupos identitários, 1999. A comunidade teve de resistir à Mas em um momento ela falou que
Os modelos econômicos adotados no pois suas lutas estão relacionadas ao investida de netos de antigos escravis- uma hora ia virar semente. Alguém
Brasil variam com o tempo; o racismo enfrentamento de fortes estruturas so- tas da região, que voltaram alegando precisava pegar essa missão”, contam-
neles inserido, aparentemente, não. cietárias”, arremata Cristiane. ser os herdeiros da terra após a cons- -nos as mulheres do quilombo. Os ter-
Muitos podem reivindicar a neces- Especialmente no Rio de Janeiro, a trução da Rodovia Rio-Santos, que di- ritórios nos dizem que a luta de resis-
sidade dos empreendimentos pela ri- história do povo negro e as violências a vide o quilombo ao meio e fez crescer o tência ao modelo socioeconômico de
queza produzida pelas fábricas. Entre que foi submetido devem ser sempre turismo na Costa Verde a partir da dé- desenvolvimento capitalista – estrutu-
as estratégias dos agentes do racismo evocadas. Calcula-se que os portos ca- cada de 1970. rado sobre o patriarcado e o racismo –
ambiental – Estado, grandes empresas riocas tenham recebido praticamente Estudos antropológicos mostra- tem mais viço onde se espalham sabe-
e organizações que trabalham na me- metade das pessoas escravizadas tra- ram que fazendeiros haviam abando- res e sabores ancestrais, cada vez mais
diação de conflitos territoriais – está zidas para todo o Brasil. As análises so- nado a área em fins do século XIX por fortes onde há mais gente unida para
justamente a imposição do que signifi- bre justiça ambiental no estado devem conta da queda nos preços do café e fazer vingar as mais importantes in-
ca riqueza para os territórios. Esses seguir, portanto, os rastros da história que desde então a terra passou a per- cumbências.
projetos ditam o que é desenvolvimen- do povo negro que enfrentou explora- tencer à comunidade descendente de
to apoiados no sorriso dos governan- ção e violência contínuas nesses terri- três mulheres negras. Interesses priva- *Thiago Mendes e Marina Praça são mem-
tes em dias de inauguração, na política tórios. Colocar o tema em tela passa, dos e de imobiliárias continuaram a bros do Instituto Políticas Alternativas para o
de destruição de identidades locais e dessa forma, por reconhecer a dimen- pressionar a população remanescente Cone Sul (Pacs).
na distribuição de migalhas de ações são estruturalmente racista dos gran- de quilombolas, mas a comunidade é
de “responsabilidade social”. Depois des projetos para entender melhor, unida e resiste, atraindo visitantes que
de certo tempo, fica até difícil para exigir reparações e denunciar a forma encontram artesanato, culinária da 1 Para uma visão mais abrangente dos impactos
muitos moradores lembrar que a vida como eles geram concentração de ri- roça, atividades culturais e caminha- do neodesenvolvimentismo para a Baía de Sepe-
tiba, região da qual Santa Cruz faz parte, ver a
era possível (e melhor) sem aquele dra- queza, empobrecimento e adoecimen- das pela área do quilombo, além do publicação “Baía de Sepetiba: fronteira do de-
gão que se instalou às suas vistas. to de determinadas populações, espe- contato com a longa trajetória de resis- senvolvimento e os limites para a construção de
Ora, que tipo de riqueza deixa uma cialmente as de pele negra. tência de moradores e moradoras por alternativas”, lançada em setembro de 2015 pelo
Instituto Pacs.
siderúrgica para uma comunidade co- meio do turismo de base comunitária. 2 O termo “dragão de aço” foi proposto por uma das
mo Santa Cruz se os trabalhadores RESISTÊNCIAS Se em Magé emerge a luta das mu- entrevistadas pela pesquisa “Quintais e usinas”, do
mais bem pagos da planta moram fora Também se engana quem enxerga lheres em defesa de políticas de prote- Instituto Pacs (2017), que investigou as violações
de direitos humanos perpetradas pela indústria si-
do bairro e quando suas casas sofrem apenas pobreza aonde chegam os me- ção ambiental e soberania alimentar derúrgica no Brasil. É uma metáfora sobre o poder
alagamentos e perdem seus perten- gaprojetos. Há, sim, muita riqueza nos por meio da agroecologia, em Santa destrutivo dessas fábricas.
ces? Que dividendos gera a Reduc para territórios onde a caravana pisou. Em Cruz são os jovens os novos atores a 3 Robert Bullard, “Ética e racismo ambiental”, Revis-
ta Eco 21, ano XV, n.98, jan. 2005.
quem, vivendo ao lado dela, não vê Magé, a agroecologia mostra sua po- entrar em cena, ao protagonizarem 4 Cristiane Faustino, “O racismo e o patriarcado nas
água pingar das torneiras? Em socie- tência em quintais cuidados princi- processo de vigilância popular em injustiças ambientais como entraves para a cons-
dades da Europa e da América do Nor- palmente por mulheres com agricul- saúde em intercâmbio com jovens ma- trução de uma nova sociedade”. In: Rumos das
políticas de desenvolvimento: balanço crítico, al-
te, a siderurgia foi severamente redu- turas sem veneno. Elas se reúnem em ranhenses do município de Açailân- ternativas e cenários futuros, Instituto Pacs, Rio de
zida e, não à toa, hoje se concentra em cozinhas comunitárias para produzir dia. Processos em rede desencadeados Janeiro, 2017.
28 Le Monde Diplomatique Brasil AGOSTO 2018

JURISDIÇÃO SUBVERTIDA

A via crucis de
um habeas corpus
Não há prefeito, não há gestor de políticas públicas, não há ordenador de despesa neste país que não tenha sentido
na pele a arrogância no trato com o Ministério Público. Prazos impostos com ameaças expressas de incriminação são rotina.
Não existe um “por favor” nem um “obrigado” na linguagem funcional de seus agentes. Têm o rei na barriga
POR WADIH DAMOUS*

m nossa história política, Lula

E tornou-se um personagem ca-


talisador de fortes emoções. Ja-
mais desperta indiferença: uns
o adulam, outros o abominam. O es-
pectro entre os dois extremos é par-
camente povoado. A ruptura política
imposta por um golpe parlamentar-ju-
diciário-midiático contra sua sucesso-
ra deixa pouca margem à racionalida-
de. Somos hoje uma sociedade dividida
entre vilões e vítimas. A depender da
maior ou menor influência exercida
pela mídia comercial sobre cada um,
os papéis são invertidos: ora os vilões
são as vítimas, ora as vítimas são os vi-
lões. Ninguém passa incólume por es-
se choque do enlevo com a bronca.
Muito menos as instituições. For-
tes no mito da degeneração da política
e da necessidade de saneamento da vi-
da pública nacional, seus atores esco-
lheram um lado. Digo “mito”, porque
as opiniões sobre as causas da suposta

© Flavia Bomfim
degeneração não têm muito apego à
realidade, antes reproduzem o confli-
to vítima-vilão, com Lula e seu partido
no centro da discórdia.
O discurso de lustração política
tem inegavelmente ganhadores e per-
dedores. Ganharam as corporações do
serviço público. Ganhou o capital es- tida conexão entre si. Não há adminis- No entanto, parece que tamanho Forçosamente somos levados a
peculativo. Ganhou a cobiça interna- trador e são poucos os atores parla- poder e tamanha blindagem os torna- constatar que boa parte deles são me-
cional pelos ativos brasileiros. Perdeu mentares que ousam enfrentar essa ram reféns de si mesmos. O absoluto ninos mimados da classe média. Pri-
a maioria da população, que vê defi- máquina persecutória penal, até por- isolamento social daí decorrente fez meiros colocados em concursos públi-
nhando as políticas públicas de inclu- que muitos têm telhado de vidro e ra- fermentar a atuação política interna, cos de decoreba, adestrados pelos mais
são e redistribuição da riqueza. Perdeu zões de sobra para se manterem longe descompromissada com o resto da so- caros cursinhos, enquanto se prepara-
a economia produtiva, beneficiada pe- dela. Mas, se resistência houver, a má- ciedade. Picados pela mosca azul, não vam sem trabalhar, cevados por papai
la expansão do mercado na esteira da quina passa por cima com o supremo há quem os convença de que são me- e mamãe, que os queriam importan-
inclusão social. Perdeu o interesse na- rolo compressor, como no caso do au- ros servidores públicos, pagos pelos tes, nos melhores postos da República.
cional com a erosão do lugar do Brasil xílio-moradia universalizado por pro- contribuintes para servirem à socie- Frustram-se com qualquer desafio
como player no mercado global. vimento cautelar monocrático no STF. dade, e não para se servirem dela nem à sua excelência. Lidam pessimamen-
Algo de muito errado aconteceu se porem em guerra contra sua repre- te com essas frustrações. E reagem
INSTITUIÇÕES JUDICIAIS E PARAJUDICIAIS com nossas instituições judiciais e pa- sentação política. com histrionismo. A crise não pode
O Poder Judiciário e seus periféri- rajudiciais. Na Constituinte, lograram Não há prefeito, não há gestor de atingir seu bolso! Têm-se como incon-
cos (Ministério Público e polícia judi- significativo fortalecimento para ser- políticas públicas, não há ordenador testes corifeus da meritocracia. Veem
ciária) estão entre os ganhadores e virem de garantes da democracia e do de despesa neste país que não tenha no concurso que lhes permitiu a inves-
têm exercido um papel central na crise Estado de direito. Foi-lhes confiado sentido na pele a arrogância no trato tidura o bilhete-prêmio para a felicida-
nacional. Seu ativismo midiático lhes enorme poder para se impor sobre o com o Ministério Público. Prazos im- de. Para todo o sempre! Ninguém tas-
conferiu protagonismo político ímpar. Executivo. Deu-se-lhes até iniciativa postos com ameaças expressas de in- ca! Reforçam essa convicção com a
Mantêm-se sólidos no topo da cadeia legislativa em causa própria, para que criminação são rotina. Não existe um interpretação inflada das prerrogati-
alimentar do serviço público, presti- ficassem distantes da disputa política “por favor” nem um “obrigado” na lin- vas constitucionais da vitaliciedade,
giadíssimos com seus altos ganhos e e agissem altivos, sem se preocuparem guagem funcional de seus agentes. da inamovibilidade, da irredutibilida-
seu poder de coerção, que guardam ní- com eventuais represálias. Têm o rei na barriga. de de ganhos e da independência fun-
AGOSTO 2018 Le Monde Diplomatique Brasil 29

cional, por eles erigida em verdadeira gador Gebran Neto, não fosse inteirado entrou em contato verbal com o mi- dos mesmos fundamentos de pedidos
soberania funcional. Na verdade, não da situação. Deixou a polícia atordoada nistro Raul Jungmann, da Segurança já julgados! O que poderia ser discuti-
são excelências, são majestades! e paralisada. Somente às 12h colocou Pública, e solicitou não cumprir a or- do, em tese, era a urgência do pleito de
São atores que nada devem a quem por escrito sua “determinação” de não dem do desembargador plantonista, pré-campanha a ponto de ser levado
quer que seja. Nem à sociedade nem a dar cumprimento à ordem de soltura do porquanto iria dirimir o conflito entre ao plantão do TRF. Mas juízes são in-
seus atores políticos. Se Lula respeitou a desembargador Rogério Favreto. Tudo os colegas. dependentes até para avaliar a urgên-
autonomia orgânica do Ministério Pú- isso está devidamente registrado no li- Thompson Flores é outro desem- cia, ou não, de um provimento judi-
blico e não aparelhou as cortes superio- vro de ocorrências do plantão. bargador que se desempenhou com cial. Não cabe a outros juízes atropelar
res, “nada mais fez que sua obrigação”. O incidente escandaloso, tanto por inadmissível ativismo ao dizer que o competente para desfazer publica-
Eles correspondem aos burocrata- sua gravidade como pelo inusitado, este teria invadido a competência da mente essa avaliação.
zinhos que, na Revolução Russa de fe- clama por correção disciplinar, no mí- 8ª Turma do tribunal ao redecidir O pior de tudo nesse episódio des-
vereiro de 1917, só marcharam com o nimo, contra o folguista usurpador da matéria ali já julgada. Poderia dizer moralizante para o Judiciário brasileiro
proletariado para não ficarem de fora, função judicante. Sérgio Moro, àquela qualquer coisa, menos esta: a matéria é que todo barulho seria rigorosamente
mas tentaram, até a última hora, ga- altura, não detinha jurisdição – o po- sobre a participação de Lula na cam- desnecessário. Fosse cumprido o rito
rantir privilégios de sua condição na der legal de decidir as causas judiciais panha presidencial era processual- processual normal, o habeas corpus, de-
monarquia imperial, tornando-se os em curso – para qualquer medida que mente inédita e não fora decidida pois de liberado Lula, seria encaminha-
mais ferrenhos contrarrevolucioná- impedisse a soltura de Lula. ainda em nenhuma instância. do na segunda-feira à decisão do relator
rios, aliados aos cadetes em torno do No entanto, ainda que estivesse re- A ministra Laurita Vaz fechou a prevento, Gebran Neto, que poderia,
general golpista Kornilov. gularmente exercendo a função judi- confusão com chave de ouro. Na terça- sem nenhum estrépito, revogar a ordem
Manter Lula preso tem uma força cante – que não era o caso –, o juiz de -feira seguinte, exarou despacho no de livramento e depois submeter a ma-
simbólica enorme para nossos buro- piso não podia dar contraordem a uma plantão do Superior Tribunal de Justi- téria ao julgamento da turma. Com se-
cratas privilegiados. Lula preso é um decisão de um desembargador do tri- ça, batendo na tecla de que o habeas renidade e altivez. Mas não. O desespe-
troféu precioso, o prêmio que seus ato- bunal ao qual se subordina, sob a pífia corpus despachado por Favreto não ro de Moro, típico de um sméagol do
res se atribuíram para ser exibido co- motivação de que o desembargador continha fato novo – a pré-campanha romance épico Senhor dos anéis, prestes
mo sinal de poder. Soltar Lula, ao con- plantonista não teria “competência” de Lula –, pois o fato de Lula ser pré- a perder seu precious, não condisse com
trário, põe a nu o caráter mesquinho para a soltura de Lula. Se a moda pegar, -candidato não seria novidade... o distanciamento sentimental que se
desse esforço por prestígio corporati- qualquer juiz de primeiro grau, insatis- exige do magistrado na relação com os
vo e significa a submissão das institui- feito com a reforma de suas decisões, feitos sob sua responsabilidade. Talvez
ções e da burocracia à macropolítica e passará a determinar a obstaculização nem sequer se lembrasse de que a juris-
à soberania popular. É tudo o que essa de sua execução!
Picados pela mosca dição brasileira se exerce no território
gente não quer. Pois bem: o “despacho” do cidadão azul, não há quem nacional, e não fora dele.
O juiz Sérgio Moro virou um herói de folga foi recebido também pelo de- os convença de que
para os nossos cadetes. É seu Kornilov. E sembargador Gebran Neto, igualmente são meros servidores MAGISTRADO MAIÚSCULO
Lula é feito Lenin preso pela falsa acusa- afastado do exercício durante seu mere- Do que aqui foi relatado e deveria
ção de ser colaborador do inimigo ale- cido descanso dominical. Enfurecido,
públicos, pagos fazer corar de vergonha qualquer ju-
mão. Mas é importante lembrar que o tomou o inexistente ato de Moro como pelos contribuintes rista brasileiro sério, pode-se concluir,
golpe de julho de 1917 não impediu a Re- fundamento suficiente para avocar o para servirem independentemente do juízo sobre o
volução de Outubro. Antes a precipitou. habeas corpus do colega e declarar invá- à sociedade acerto ou a falha da decisão que profe-
lida sua decisão de soltar Lula. Ignorou a riu, que o único ator que merece ser
O IMBRÓGLIO PROCESSUAL DE 8 DE JULHO impossibilidade de dois magistrados tratado, nesse palco, de Magistrado,
A sociedade acordou naquele do- serem igualmente competentes para Para leigos, talvez seja importante com “M” maiúsculo, é o desembarga-
mingo com a estranha e incrível notícia um mesmo processo. Judicatura não é explicar. Não é o fato que deve ser no- dor Rogério Favreto, que heroicamen-
de que Lula estava livre, pronto para bufê de cafeteria, onde se escolhe o pe- vo, mas o thema decidendum – o as- te defendeu sua jurisdição e não bai-
cair de cabeça na campanha presiden- tisco que vai para o prato. sunto posto a debate –, pois a questão xou a cabeça à prepotência ignorante.
cial. A ordem de soltura tinha sido dada Sobre a jurisdição de Rogério Favre- temporal não apaga a gravidade da ile- Revelou-se Favreto um raro espéci-
pelo desembargador Rogério Favreto, to não pode haver dúvida. Decorre do galidade denunciada. Não é porque me no Judiciário, motivo de alento pa-
no plantão do TRF4, com base em um ato que o nomeou plantonista e do regi- deixei de levar ao tribunal um fato gra- ra todos aqueles que querem um Brasil
pedido de habeas corpus da autoria de mento que lhe atribuiu competência ve ao tempo em que era recente que melhor: mesmo tendo sua jurisdição
três deputados federais do PT. Almeja- para conceder medidas liminares em deixo de ter o direito de levá-lo agora. atacada por seus colegas, que coones-
vam forçar o Judiciário a permitir que habeas corpus. Gebran, por sua vez, agiu O tempo não apaga o abuso. Se fosse taram a empáfia, e pelo topete do fol-
Lula promovesse sua pré-campanha de forma ilegal, usurpando poder do co- assim, não precisaríamos nem mais guista Sérgio Moro, ele mostrou, com
em condição idêntica à de seus adversá- lega. Pior: fez isso baseado em procedi- levar a juízo os criminosos do Holo- sua resistência, que, para desautorizá-
rios. Pedidos para liberar Lula para dar mento imaginário que chamou de causto, porque o fato já é conhecido -lo, não basta passar sobre ele a patrola
entrevistas e participar de debates já “consulta” do juiz folguista, sem forma por todos há mais de setenta anos! da arrogância e da bronca. É preciso
dormitavam havia mais de um mês na nem conteúdo processual (“consulta” é Os limites temporais, em direito, seguir o devido processo legal, agindo
mesa da juíza responsável pela execu- figura inexistente no direito proces- são dados pela prescrição, quando um com imparcialidade e respeitando a
ção penal antecipada imposta ao candi- sual). Despido o subscritor da “consul- fato tenha se encerrado, completado. A publicidade dos atos jurisdicionais,
dato. A juíza não decidia e criava, com ta” do poder jurisdicional, esse ato nem lei então prescreve o lapso de tempo não satisfeita com telefonemas dispa-
isso, intolerável desigualdade entre os nulo era. Era muito menos um ato for- durante o qual se pode levar aquele rados nas costas dos impetrantes e do
disputantes na eleição presidencial. malmente inexistente, incapaz de se acontecimento passado à apreciação paciente, numa verdadeira subversão
O alvará de soltura chegou às 9h46 à prestar à provocação de uma manifes- de um juiz. Mas evidentemente isso do republicanismo. Ficou patente, pa-
Superintendência da Polícia Federal, tação judicial. Um não ato. não vale para a violência ainda em cur- ra a sociedade, graças à envergadura
onde Lula está preso. A reação por parte Rogério Favreto reafirmou sua ju- so: a denegação do direito de Lula fazer de Favreto, que Lula é, tal e qual a ju-
do establishment burocrático-judicial risdição e estabeleceu o prazo impror- pré-campanha como todos os outros risdição sequestrada pelo TRF, um ca-
foi de pânico. Foi dito que Sérgio Moro, rogável de uma hora para o cumpri- pré-candidatos! É irrelevante, para le- tivo privado da sanha corporativa. Até
cidadão de folga, que, em versão não mento da ordem de soltura. A Polícia var ao Judiciário, se o fato da candida- que – quiçá – o STF diga melhor!
confirmada, estaria em Portugal, quase Federal, contudo, fez ouvido de mer- tura de Lula é notório ou não. Não é a
teve uma síncope e disparou telefone- cador e enrolou para não cumprir a notoriedade que desqualifica a novida- *Wadih Damous, advogado e deputado fe-
mas para todo canto, inclusive para a ordem, alegando haver duas ordens de da matéria posta à decisão da corte. deral (PT-RJ), foi presidente da OAB-RJ
Polícia Federal, “ordenando-lhe” que contraditórias. Enquanto isso, o presi- O debate levado à apreciação do (2007-2012). É graduado em Direito pela
não soltasse Lula enquanto o relator dos dente do TRF, Carlos Eduardo Thomp- desembargador de plantão era efeti- Uerj e mestre em Direito Constitucional e do
feitos da Lava Jato no TRF4, desembar- son Flores, alarmado com a balbúrdia, vamente novo e não implicava revisão Estado pela PUC-Rio.
30 Le Monde Diplomatique Brasil AGOSTO 2018

IMPOTÊNCIA POLÍTICA

No Líbano, o fantasma
dos barris tóxicos
As eleições legislativas realizadas no Líbano no dia 6 de maio
consagraram o campo pró-Hezbollah. Apresentadas
à margem das grandes formações, as listas pluralistas da
sociedade civil não tiveram o resultado que suas diversas
mobilizações ambientalistas permitiam imaginar. O problema
da coleta e do tratamento de lixo permanece
POR EMMANUEL HADDAD*

© Suryara
ma aurora ainda tempestuosa Kehdy limpa a praia de Zouk Mos- lixão de Bourj Hammoud, na confusão bores continham uma elevada con-

U se eleva sobre o tapete de imun-


dície que cobre a praia de Zouk
Mosbeh, no norte de Beirute. O
enésimo desastre ecológico e sanitário
desencadeia intermináveis polêmicas
beh todo fim de semana, desde de-
zembro de 2015, com um grupo de vo-
luntários. E, a cada tempestade, a
sujeira retorna. Um trabalho de Sísifo,
como sempre ocorre com os ativistas
do pós-guerra, permaneceu aberto até
o final da década de 1990. A montanha
de lixo de 45 metros – o equivalente a
um prédio de quinze andares – foi ofi-
cialmente fechada em 1997. Nessa da-
centração de dioxina, uma substância
letal; outros estavam cheios de um
produto explosivo, a nitrocelulose, ou
de metais pesados altamente tóxicos,
como mercúrio, arsênico, chumbo e
políticas. Para uns, o lixo que se esten- ambientais, mas que não diminui a ta, o então ministro do Meio Ambien- cádmio. Naquele ano, o banho de mar
de a perder de vista foi carregado por mobilização. Em toda parte, cidadãos te, Akram Chehayeb, lançou um plano foi proibido no Líbano. Em 1990, a Or-
riachos de aldeias na montanha con- colocam em prática soluções concre- de emergência de sete anos para subs- ganização Marítima Internacional re-
troladas pelo partido cristão Kataeb. tas e sustentáveis. Criada ao mesmo tituir o lixão por um aterro sanitário latou que alguns barris tiveram seu
Para outros, prontos a criticar as auto- tempo que a Recycle Lebanon, a jovem localizado em Naameh, ao sul de Bei- conteúdo lançado na natureza, sendo
ridades governamentais, o mar ape- empresa Recycle Beirut separa e reci- rute. Enquanto espera, a montanha de em seguida repintados e vendidos a
nas regurgitou os detritos vindos do cla 100 toneladas de resíduos por mês, Bourj Hammoud permanece intacta. bares e restaurantes para armazenar
depósito de resíduos de Bourj Ham- empregando refugiados sírios. Já Ziad Ali foi jogado, em 1987, um número comida e água potável. Outros foram
moud, nos subúrbios ao norte da capi- Abichaker, diretor da Cedar Environ- indeterminado de barris azuis cheios vendidos a fábricas que os jogaram
tal. Um lixão à beira-mar que está em mental, introduziu um sistema de “re- de materiais tóxicos. De acordo com nos vales ou foram queimados a céu
obras para, enfim, resolver a crise do síduo zero” – do lixo orgânico ao plás- um relatório do Greenpeace, naquele aberto, segundo um relatório do servi-
lixo que o país atravessa há anos. tico, todos os dejetos são reciclados na ano “15.800 barris de tamanhos dife- ço de inteligência do Exército. O res-
“Na realidade, os dejetos provêm cidade de Beit Mery – e se esforça para rentes e vinte contêineres de lixo tóxi- tante foi armazenado principalmente
tanto dos vales montanhosos poluídos difundi-lo pelo resto do país. Para eles, co foram exportados ilegalmente da na pedreira de Chnanir, na região de
pelos municípios como do depósito não se pode esperar que a classe políti- Itália para o Líbano. Homens armados Keserwan, ou despejado no depósito
costeiro construído às pressas e cujos ca encontre uma solução para esse da milícia de direita Forças Libanesas de Bourj Hammoud e no litoral norte
resíduos vão parar no mar”, diz Joslin problema, cujas causas remontam à ocultaram a operação, subornados de Beirute, de acordo com o relatório
Kehdy, fundadora da Recycle Leba- guerra civil (1975-1990). com parte da soma paga por uma em- do presidente do Conselho de Desen-
non, iniciativa da sociedade civil cria- presa italiana a comerciantes libane- volvimento e Reconstrução (CDR).
da para coordenar ações de proteção ELEVADA CONCENTRAÇÃO DE DIOXINA ses”.3 Na época, os barris foram espa- Na noite de 29 de agosto de 1994,
ambiental. Ex-blogueira de culinária Naquela época, dois lixões a céu lhados por todo o país, em fábricas ou moradores de uma aldeia de Keserwan
em Londres, ela largou tudo para par- aberto foram improvisados no litoral pedreiras. E alguns foram parar nos impediram que oficiais do Ministério
ticipar do movimento social Tala’at da capital: o depósito Normandy, que lixões. O relatório também indica que, do Meio Ambiente jogassem dezenove
Rihatkoum (“Você Fede”). Lançado ganhou o nome de um hotel de luxo si- diante do clamor provocado pelo caso, barris em uma pedreira perto do Rio
em agosto de 2015, o movimento tem o tuado em suas proximidades, e o de o governo italiano ordenou a recupe- Ibrahim. O ministro do Meio Ambien-
objetivo de denunciar a negligência Bourj Hammoud, bairro criado a par- ração de todos os resíduos, mas “ape- te da época, Samir Mokbel, zombou da
política que resultou no acúmulo de tir de um antigo campo de refugiados nas 5,5 mil barris foram carregados “histeria” da opinião pública e afir-
toneladas de lixo apodrecendo sob o armênios que fugiram do genocídio de em quatro barcos no porto de Beirute mou, apoiando-se em estudo, que os
verão escaldante. Oito meses depois 1915. Tudo era jogado ali, de carcaças entre 1988 e 1989. Mais de 10 mil barris barris eram inofensivos. Mas, ao mes-
de grandes manifestações, muitas ve- de carros a baterias usadas, passando e o conteúdo de vários contêineres mo tempo, o Greenpeace obteve auto-
zes reprimidas,1 o governo finalmente por lixo hospitalar. No final do confli- permaneceram no Líbano ou foram rização para coletar amostras, reve-
propôs um plano de emergência, pre- to, o depósito Normandy foi aterrado lançados em seu litoral”. lando que eles continham os mesmos
vendo a criação de três novos depósi- pela Solidere, a Sociedade Libanesa Encomendado em 1988 pelo Minis- produtos tóxicos que os barris trazidos
tos costeiros na região de Beirute, o para o Desenvolvimento e Reconstru- tério da Saúde libanês, um relatório es- da Itália, o que sugeria que fizessem
uso dos resíduos para a geração de ção do Centro de Beirute, fundada em crito por três cientistas – Pierre parte dos 15.800 tambores importados
energia, por meio da incineração, e a maio de 1994 pelo então primeiro-mi- Malychef, Wilson Rizk e Milad Jarjoui em 1987. Uma nova investigação foi
descentralização de sua gestão. nistro, o empresário Rafik Hariri.2 Já o – foi categórico: centenas desses tam- aberta. O serviço secreto do Exército
AGOSTO 2018 Le Monde Diplomatique Brasil 31

descobriu que diversos funcionários nistro do Meio Ambiente, Tarek Khatib, terromper o projeto de aterro de Bourj para reabilitar a montanha de Bourj
do Ministério do Meio Ambiente esta- admitiu em frente às câmeras:4 “Os re- Hammoud. “Deveria haver sondagens Hammoud e transformá-la em aterro
vam entre os responsáveis pelo caso síduos deviam mesmo ser lançados no em diferentes áreas do depósito para para acomodar dois novos depósitos
dos barris italianos. Dois conselheiros mar, mas deveria haver um quebra- avaliar a natureza de cada camada da de lixo. No total, mais de US$ 600 mi-
próximos de Mokbel renunciaram no -mar ali. Houve uma violação das es- montanha”, avalia o septuagenário. lhões de dinheiro público foram dis-
início de fevereiro de 1995, e o próprio pecificações”, disse ele, prometendo Um pedido ambicioso: “Inicialmente, tribuídos para a coleta e a gestão de re-
ministro foi retirado do governo du- fazer o máximo para garantir que os o juiz pediu que se interrompesse o síduos domésticos desde 2016.
rante uma reforma ministerial em ju- pescadores sejam indenizados. trabalho, mas os políticos fizeram Essa soma poderia até dobrar com
nho do mesmo ano. Para verificar a ausência de subs- pressão e o trabalho foi retomado”. a escolha da incineração, técnica que a
Restava então condenar os respon- tâncias perigosas na montanha de Dinamarca está rejeitando, mas que a
sáveis pelo crime ambiental. Surpresa: três décadas, o Conselho Nacional de “NOVOS REIS DO LIXO” empresa de consultoria dinamarquesa
em fevereiro de 1995, o promotor Said Pesquisa Científica (CNRS) libanês No local, Toufic Kazmouz, chefe do Ramboll recomendou para o Líbano.
Mirza, encarregado da investigação, deve realizar testes regulares. Conta- projeto de gestão do depósito de resí- Em um estudo vendido ao governo li-
acusou Pierre Malychef de falso teste- tado, o órgão de pesquisa, ligado ao duos da empresa Khoury Constructing, banês por US$ 850 mil, ela recomenda
munho por ter declarado na televisão Conselho de Ministros, não quis re- está impaciente: “Há um boato sobre a um investimento de US$ 500 milhões
que os resíduos tóxicos estavam espa- velar seus resultados. Ele também se existência de lixo tóxico. Alguém pode para um incinerador de 750 mil tone-
lhados pelo país. Os importadores dos recusou a compartilhar com a asso- provar que isso é verdade? Ninguém. ladas por ano. A cereja do bolo: uma
barris tiveram as acusações que pesa- ciação Saha Ouladna (“Saúde de Nos- Não precisamos dessas histórias assus- vez o litoral aterrado e os aterros subs-
vam sobre eles retiradas. A franqueza sos Filhos”) seu estudo sobre a quali- tando as pessoas. Temos de ser objeti- tituídos pelo incinerador, um antigo
de Malychef rendeu-lhe duas semanas dade da água no litoral do Líbano em vos. Evidentemente, há um lado negati- projeto de desenvolvimento imobiliá-
atrás das grades, inúmeras ameaças e, 2017. “A lei, no entanto, obriga o CNRS vo em jogar lixo no mar para aterrá-lo. rio chamado Linord poderia finalmen-
por duas vezes, a explosão de sua far- a divulgar publicamente essas infor- Mas essa é a única solução no momen- te ser posto em obra. Para Elias Azzi,
mácia. Então ministro dos Desloca- mações”, comenta Samar Khalil, to. Se alguém tiver outra, diga!”. isso é tudo menos coincidência: “Se o
dos, Walid Jumblatt – citado no relató- membro da associação e diretora de Em 26 de outubro de 2017, uma de- depósito de Naameh fechou em 2015,
rio do Greenpeace – denunciou a segurança ambiental e química da cisão do Conselho de Ministros lhe não foi por razões ambientais, mas pa-
acusação à sua maneira: “Existem bar- Universidade Americana de Beirute. deu razão. Tal como o depósito de ra reativar o projeto Linord. No final,
ris na terra e no mar. O Líbano, como Elias Azzi, pesquisador especializado Naameh, uma resposta de emergência parece que todo o litoral norte de Bei-
todos os países do Terceiro Mundo, é em gestão de resíduos do Instituto que se tornou uma solução permanen- rute será aterrado, do porto de Beirute
um depósito de lixo. As autoridades Real de Tecnologia de Estocolmo, ga- te, os dois depósitos costeiros da Costa ao aterro de Dbayeh. Isso permitirá a
prenderam Malychef porque ele ousou rante: “Não há nenhuma análise re- Brava (criados em 2015) e de Bourj alguns colher os frutos da terra con-
falar a verdade”. cente e cientificamente válida dos re- Hammoud deveriam ser ampliados e quistada do mar”. No Líbano, nada se
O fantasma dos barris azuis ressur- síduos de Bourj Hammoud atestando sua vida prolongada até a anunciada perde, nada se recicla, tudo se trans-
giu em março de 2016, após a adoção, sua não toxicidade. Se há poluição construção de um incinerador. Uma forma... em dólares.
pelo Conselho dos Ministros, de um química, é certo que alguns dos pro- política que coroa os “novos reis do li-
novo plano de emergência proposto dutos perigosos já foram para o mar xo”, como já fala a imprensa libanesa.5 *Emmanuel Haddad é jornalista em Beirute.
por Chehayeb, a partir de então minis- ao longo dos anos, e a construção do Um deles, o Al-Jihad Group for Com-
tro da Agricultura. O plano incluía aterro só piora as coisas”. merce and Contracting, que ganhou
transformar a “montanha” de Bourj Wilson Rizk é o último sobreviven- um contrato de US$ 59,5 milhões para
Hammoud em matéria-prima para um te do trio de cientistas que investigou a construção e a gestão do depósito de 1 “Liban: violences policières contre des manifestants”
[Líbano: violência policial contra manifestantes], Hu-
aterro destinado a acomodar dois dos os produtos tóxicos importados da Itá- lixo de Costa Brava, receberá US$ 100 man Rights Watch, Nova York, 22 ago. 2015.
três depósitos de resíduos costeiros lia. Em casa, ele guarda cuidadosa- milhões para sua expansão. A compa- 2 Sobre a visão neoliberal de Rafik Hariri a respeito
previstos para Beirute, onde será ar- mente seu relatório, que contém as fo- nhia, pertencente ao empresário Jihad da reconstrução do pós-guerra, cf. Hannes Bau-
mann, Citizen Hariri: Lebanon’s Neoliberal Re-
mazenado 1,4 milhão de toneladas de tos tiradas por Malychef comprovando al-Arab, amigo da família Hariri, tam- construction [Cidadão Hariri: a reconstrução neoli-
novos resíduos em quatro anos. O lixo a presença de barris tóxicos no aterro bém ganhou duas vezes um contrato beral libanesa], C. Hurst and Co, Londres, 2016.
foi colocado em dezenas de caminhões de Bourj Hammoud. Trinta anos de- para a modernização da usina de com- 3 Fouad Hamdan, “Toxic attack against Lebanon”
[Ataque tóxico contra o Líbano], Greenpeace Mé-
e jogado em pleno Mar Mediterrâneo pois, ele foi chamado pela justiça co- postagem Coral, que ainda não come- diterranée, Malta, ago. 1996. Disponível em:
pela empresa Khoury Constructing. mo especialista, após uma queixa çou. Seus funcionários não quiseram <www.fouadhamdan.org>.
Em 13 de junho 2017, após várias mani- apresentada em março de 2016 pela responder às nossas perguntas. 4 LBC, 13 jun. 2017.
5 “Les nouveaux rois des déchets” [Os novos reis do
festações de pescadores locais apoia- Coalizão contra o Plano Governamen- Já a Khoury Constructing recebeu lixo], Le Commerce du Levant, Beirute, fev. 2018.
das por grupos ambientalistas, o mi- tal de Tratamento de Resíduos para in- US$ 109 milhões durante quatro anos Disponível em: <www.lecommercedulevant.com>.
32 Le Monde Diplomatique Brasil AGOSTO 2018

UMA ESQUERDA FORTE, MAS DIVIDIDA

Bolívia, na contracorrente
da América do Sul
Enquanto as forças conservadoras avançam no continente sul-americano, um país permanece ancorado à esquerda:
a Bolívia de Evo Morales, onde a contestação se concentra cada vez mais no seio do próprio campo político do chefe
de Estado. A história singular do partido presidencial, o Movimiento al Socialismo, esclarece essa situação surpreendente
POR HERVÉ DO ALTO*

andar obedeciendo”: pro- em que se acotovelavam sindicatos de Morales: primeiro, os confrontos entre do acesso a esse território amazônico,

“M nunciada por Evo Morales


em 21 de janeiro de 2006, às
vésperas de sua primeira
posse presidencial, essa máxima em-
trabalhadores e de camponeses, comi-
tês locais e comunidades indígenas –
uma garantia de representatividade
das classes populares em um país onde
mineiros cooperativistas e mineiros
assalariados do Estado em Huanuni,
em 5 e 6 de outubro de 2006, que resul-
taram em dezesseis mortes; em segui-
próximo à área denominada “Trópico
de Cochabamba”, onde estão instala-
dos os cocaleros. Embora o trabalho
estivesse previsto para começar em
prestada do subcomandante Marcos1 as várias áreas da vida social estavam da, o assassinato de um vice-ministro, 2010, as comunidades indígenas lo-
simbolizava o compromisso do líder sujeitas a um quadro organizacional Rodolfo Illanes, durante um bloqueio cais, apoiadas pela Confederação de
indígena e sindicalista boliviano de muito denso. Essa estruturação parti- numa estrada na localidade de Pandu- Povos Indígenas da Bolívia (Cidob),
governar com os movimentos sociais cular desemboca no que foi batizado de ro, em agosto de 2016, quando as coo- expressaram sua oposição. Além das
que o tinham levado ao poder. Sua vi- “democracia corporativista”:2 ao agre- perativas se opuseram a um projeto de consequências ambientais, elas te-
tória, obtida com 53,7% dos votos em gar um conjunto heterogêneo de orga- lei que visava regulamentar com mais miam uma intensificação da atividade
18 de dezembro de 2005, aparecia co- nizações, o MAS deve não apenas se rigor sua atividade. Essa situação para- econômica dos cocaleros, que signifi-
mo a tradução eleitoral de vários anos encarregar, como qualquer partido, da doxal ocorre com outras organizações cava uma potencial expansão por seu
de intensas mobilizações antiliberais. mobilização eleitoral de seus membros, afiliadas ao MAS, que não abandona- território. Os produtores de coca, por
Concebido como um instrumento po- mas também assumir uma função me- ram os protestos de rua como um meio sua vez, apoiavam o projeto. Ambos os
lítico a serviço das organizações po- diadora entre os movimentos cada vez legítimo de ação, embora “seu” partido lados pertencem ao MAS. Confronta-
pulares, seu partido, o Movimiento al mais numerosos que o compõem. esteja no poder. Esse dispositivo revela das com líderes cocaleros, um dos gru-
Socialismo (MAS), incorporava então Depois da vitória de 2005, o parti- suas falhas quando se trata de desar- pos históricos do partido, as comuni-
a vontade de fazer política de uma ma- do, tendo cedido toda iniciativa estri- mar dinâmicas de conflito, já que fal- dades locais e a Cidob, cuja liderança
neira diferente. tamente política ao governo, ficou pra- tam quadros de deliberação interna. se juntara ao MAS em 2006, organiza-
Depois de mais de uma década, no ticamente reduzido a essa função Num primeiro momento, o MAS ram uma marcha indígena para pres-
entanto, essa ferramenta democrática mediadora entre organizações que se conseguiu conter as tensões entre as sionar o Executivo. O cortejo, que par-
parece ter se transformado em uma tornaram rivais, no que se refere tanto organizações sociais. Os primeiros tiu em agosto de 2011 de Trinidad,
máquina de guerra dedicada principal- às investiduras eleitorais quanto aos anos do governo foram uma época de capital de Beni, para chegar a La Paz
mente a garantir a permanência de Mo- cargos internos. Nesse contexto, a leal- conquista do aparelho estatal para os numa viagem de dois meses, foi blo-
rales à frente do Estado, como eviden- dade desses componentes ao MAS de- sindicatos, que ganharam novas posi- queado no meio do caminho, no dia 24
ciado pela mobilização do partido em pende, em grande parte, do seu grau ções institucionais, com força parla- de setembro, na localidade de Yucu-
favor de sua reeleição. No entanto, esse de integração ao organograma parti- mentar e funcionários públicos. O mo, onde foi duramente reprimido pe-
desenvolvimento não pode ser atribuí- dário. No MAS, as pessoas pertencem contexto político opunha o lado gover- la polícia. Um choque para a opinião
do unicamente às ambições de seu lí- de início à própria organização – sin- namental a uma direita neoliberal de- pública boliviana e internacional, e
der, sob pena de esconder um problema dical, comunitária ou local – e depois cidida a travar o funcionamento da As- uma derrota simbólica para Morales, o
mais profundo: a dificuldade estrutu- ao partido. Portanto, na Bolívia, não é sembleia Constituinte prometida por “presidente indígena”, que logo depois
ral que o MAS enfrenta para fazer a li- raro ver a mesma entidade mostrar Morales. Até 2009, o MAS conseguiu suspendeu a construção da estrada.
gação entre um governo que luta contra apoio ao governo ao mesmo tempo forjar sob sua bandeira uma unidade Apesar da violência perpetrada por
as vicissitudes do poder e as organiza- que recorre a mobilizações coletivas popular sem precedentes desde as lu- alguns e da repressão sofrida por ou-
ções sociais sempre inclinadas – apesar para defender seus interesses setoriais tas dos anos 1970 e 1980 contra as dita- tros, os conflitos entre o governo e dois
de sua crescente institucionalização – a em âmbito local ou nacional. duras militares. Mas os equilíbrios fo- de seus aliados históricos – mineiros
protestar nas ruas para defender os in- Confrontado com um elevado con- ram perturbados após a adoção por cooperativistas e indígenas – tiveram
teresses de suas bases. flito social, o presidente Morales pôde referendo de uma nova Constituição, consequências diametralmente opos-
constatar por muitas vezes que esse em 7 de dezembro de 2009. Enquanto a tas dentro do MAS. De um lado, apesar
UMA FEDERAÇÃO DE ORGANIZAÇÕES problema foi em parte alimentado por direita sofreu uma derrota esmagado- das fortes tensões entre o Executivo e a
Nascido em 1999 por iniciativa dos organizações que gravitam em sua ór- ra nas urnas, as diferenças inerentes Fencomin, as relações acabaram por se
sindicatos de cultivadores de coca, os bita. A Federação Nacional das Coope- ao campo popular ressurgiram. normalizar, à custa de pequenas con-
cocaleros da região de Cochabamba, da rativas Mineiras da Bolívia (Fenco- cessões por parte da segunda. De outro,
qual o próprio Morales é originário, o min), aliada do MAS desde 2005, REPRESSÃO CONTRA UMA MARCHA INDÍGENA os conflitos do Tipnis levaram a uma
MAS pretendia enviar líderes sindicais oferece uma ilustração esclarecedora Entre os conflitos decorrentes des- ruptura de fato entre o governo e a Ci-
e indígenas para as bancadas do Con- disso. Ao mesmo tempo que têm fortes sa reconfiguração está o que opõe des- dob. Essa diferença de tratamento é
gresso, permitindo que as organiza- ligações no seio do partido, do Con- de 2011 os cocalicultores de Cocha- amplamente explicada pela posição
ções de base escolhessem elas próprias gresso e do Executivo – controlavam já bamba aos indígenas do Território dessas organizações no MAS. Os coope-
seus candidatos. Mais do que um parti- em 2006 o estratégico Ministério das Indígena e do Parque Nacional Isibo- rativistas não têm ali rivais diretos, en-
do no sentido clássico do termo, o MAS Minas –, os cooperativistas mineiros ro-Sécure (Tipnis), na região de Beni. quanto sua importância numérica
se parecia em seus primórdios com por si sós estiveram na origem de duas Em 2008, o governo relançou um pro- (quase 120 mil afiliados) garante uma
uma federação de organizações sociais das crises políticas mais sérias da era jeto de estrada que visava à abertura conquista fácil dos distritos de minera-
AGOSTO 2018 Le Monde Diplomatique Brasil 33

tratado internacional, invocado con-


tra a Constituição, alimenta os proces-
sos sobre autoritarismo contra o go-
verno e as suspeitas de submissão do
Poder Judiciário. Em contrapartida, a
maioria das classes populares bolivia-
nas, convencida de que seu destino es-
tá intimamente ligado ao de Evo, cele-
brou esse veredicto como uma vitória.
Em um contexto regional marcado pe-
lo retorno de uma direita liberal com
vieses autoritários e pela crise dos go-
vernos ideologicamente próximos na
Venezuela e no Equador,5 não há dúvi-
da de que Morales vê a si mesmo como
o melhor baluarte boliviano diante da
contrarrevolução na América Latina.

UM HORIZONTE POLÍTICO LIMITADO


O fato é que a “democracia corpo-
rativista” peculiar ao MAS, original-
© Reuters / Daniel Rodrigo

mente caracterizada por suas dimen-


sões participativa e emancipatória,
hoje mostra seus limites. A tendência
recorrente à contestação das organi-
zações que integram o partido ilustra
como seus líderes ainda podem ser
chamados à ordem por bases preocu-
Evo Morales participa de manifestação do Dia do Trabalhador em Oruro padas com seus interesses. Mas essa
ebulição, contida em uma estrutura
estritamente sindical, também ex-
ção. Ambas as partes encontram, por- cal, certamente simbólico, dos cocale- onde as administrações locais muitas pressa a incapacidade crônica do MAS
tanto, um interesse na sobrevivência ros de Cochabamba mostra que, mes- vezes erráticas impediram o partido de “ser um partido”, ou seja, de desen-
dessa aliança tumultuada, que desafia mo na chefia do Estado, ele ainda se vê de consolidar suas posições. Isso tam- volver um projeto político comum ao
qualquer coerência ideológica: longe como o principal defensor dos interes- bém é explicado pela forte influência conjunto da Bolívia popular, transcen-
dos preceitos antiliberais do Executivo, ses da organização de onde veio.4 do próprio Morales, tanto no plano in- dendo os corporativismos.
o cooperativismo mineiro, apesar de O próprio presidente é um elemen- ternacional – em que ele permanece Nesse contexto, a batalha pela ree-
sua denominação, exalta a liberdade de to essencial dessa democracia interna. um ícone da esquerda – quanto inter- leição obviamente consagra o lugar
empreender em detrimento de toda a Nascido de uma divisão no campesi- namente, onde qualquer avanço do central de Morales, sem o qual o espa-
proteção social para seus afiliados.3 nato de Cochabamba, o MAS é em governo é creditado a ele. Na configu- ço partidário seria ameaçado de im-
Por outro lado, a Cidob não dispõe parte “seu” partido, um empreendi- ração atual, ele ocupa, portanto, uma plosão. Mas ela também contribui pa-
das mesmas vantagens: a relação dos mento político do qual ele tomou a di- posição central: canaliza parcialmen- ra atribuir ao partido uma única
indígenas com o território, concebido reção em um momento em que os co- te as dinâmicas centrífugas existentes função: exigir das organizações de ba-
como um espaço de vida estranho a caleros eram regularmente acusados nos movimentos populares bolivianos se que cerrem fileiras apesar das diver-
qualquer conceito de produtividade, de alimentar o narcotráfico na Bolívia. e continua a ser seu principal trunfo gências ocasionais que possam ocor-
coloca-os numa situação de antago- Por meio das múltiplas legitimidades para vencer as eleições de 2019 e man- rer entre elas ou em relação ao governo.
nismo latente diante dos camponeses – sindical, partidária e institucional – ter o acesso privilegiado deles aos re- Isso também limita o horizonte políti-
e, sobretudo, dos cocaleros, para quem de que pode se orgulhar, ele aparece cursos do Estado. co do MAS à simples preservação do
a terra só vale se for cultivada. O peso e como o único capaz de manter essa Esse desvio do funcionamento in- controle do aparelho estatal, já que pa-
o status dos cocaleros dentro do MAS equipe díspar em que os líderes sociais terno do MAS torna possível entender rece entendido pelo governo que ele é
levaram os líderes indígenas à saída. coabitam, dentro das instituições, a vontade de seus componentes de fa- a única garantia dessa Bolívia, nova,
Se essa ruptura foi dolorosa para um com intelectuais e líderes políticos que zer de Morales seu candidato presi- pluralista, mais igualitária, que ele
presidente que, quando chegou ao po- ele muitas vezes convidou pessoal- dencial pela quarta vez consecutiva, ajudou a construir.
der, fez questão de exibir suas origens mente para se unir ao partido. embora a Constituição o proíba. O
aimarás, seu custo político permane- Pedra angular de uma complexa ar- MAS tentou suspender a proibição pe- *Hervé do Alto é doutorando em Ciência
ce moderado: os nativos representam quitetura partidária, Morales também la primeira vez por meio de um refe- Política.
um reservatório de votos restrito. continua sendo o melhor candidato do rendo em 21 de fevereiro de 2016. Com
Portanto, em sua ação cotidiana, o MAS. Desde 2005, o partido tem tido di- apenas 48,7% dos eleitores a favor da
1 Ler Ignacio Ramonet, “Marcos marche sur México”
governo frequentemente desempenha ficuldade para formar quadros, como reforma, a consulta levou à primeira [Marcos marcha pelo México], Le Monde Diplo-
o papel de árbitro entre os movimentos evidenciado pelos resultados eleitorais derrota eleitoral de Morales, após uma matique, mar. 2001.
sociais, mas suas tomadas de posição dos candidatos locais, sistematicamen- campanha de rara agressividade. Te- 2 Hervé do Alto e Pablo Stefanoni, “El MAS: las am-
bivalencias de la democracia corporativa” [O MAS:
são fortemente condicionadas pelas te inferiores aos do presidente. A última naz, o MAS acabou ganhando o caso as ambivalências da democracia corporativa]. In:
hierarquias simbólicas que prevale- eleição geral, em 2014, mais uma vez pela via legal. Em 28 de novembro de Mutaciones del campo político en Bolívia [Mudan-
cem no MAS; hierarquias moldadas ilustrou essa tendência: enquanto o 2017, o Tribunal Constitucional vetou ças do campo político na Bolívia], Pnud Bolívia –
Idea Internacional, La Paz, 2010.
pelas clivagens específicas das classes conjunto dos candidatos a deputado do qualquer limite de mandato contrário 3 Ler Álvaro García Linera, “As contradições da Re-
populares bolivianas, mas também MAS nos 63 distritos eleitorais do país ao Pacto de San José (1978) relativo aos volução Boliviana”, Le Monde Diplomatique Brasil,
pela história do partido e de seu líder. obteve pouco mais de 2 milhões de vo- direitos humanos, segundo o qual os set. 2011.
4 Apesar de ter assumido a presidência e a pedido
Assim, o projeto de estrada através do tos, Morales coletou quase 1 milhão a cidadãos das Américas têm o direito de seus membros, Morales permaneceu no co-
Tipnis, defendido pelo governo, não mais apenas para si próprio. “de votar e de ser eleitos” (artigo 23) mando da coordenação das seis federações do
ilustra apenas as orientações produti- Essa situação decorre, em parte, da sem que nenhum limite seja especifi- Trópico de Cochabamba, a estrutura sindical cam-
ponesa da região.
vistas de sua política econômica: o fato fraqueza da equipe política do MAS, cado. Do lado da oposição, essa inter- 5 Ler Renaud Lambert, “A esquerda em pane”, Le
de Morales ser, até hoje, um líder sindi- especialmente nas grandes cidades, pretação no mínimo generosa de um Monde Diplomatique Brasil, jan. 2016.
34 Le Monde Diplomatique Brasil AGOSTO 2018

NASCIMENTO DE UM DESTINO TURÍSTICO

E a Europa criou
Compostela...
Na rota para a Galiza, os caminhos de Santiago atraem todos os anos centenas de milhares
de caminhantes. Promotor desse sucesso, o Conselho da Europa realizou um sonho que os papas Leão XIII
e João Paulo II partilharam com Francisco Franco: alimentar, por meio desse mito, as raízes cristãs do
Velho Continente, ainda que tomando algumas liberdades com a história e a geografia
POR LOLA PARRA CRAVIOTTO*

quase metade dos que chegaram ao ticidade às relíquias do apóstolo. A pe-


seu destino (44%) eram espanhóis, regrinação moderna nasceu. Desde
muitos também eram peregrinos da então, muitos foram seus promotores.
Alemanha, Itália, Estados Unidos, A começar pelo general Francisco
França, Portugal – no total, 177 países. Franco. Originário da Galiza, o coveiro
Um grande número de caminhantes da Espanha republicana – que gover-
tinha motivação religiosa (43%) ou ao nou o país de 1939 até sua morte, em
mesmo tempo religiosa e cultural 1975 – conheceu bem a lenda. Desde
(47%). Tal participação marca um re- 1937, em plena Guerra Civil Espanho-
corde na história dessa peregrinação, la, ele restaurou a oferenda nacional
reinventada sob o patrocínio da Igreja para o apóstolo, declarou como festa
Católica e das instituições europeias. nacional o Dia de São Tiago e visitou o
Há apenas cinquenta anos, esses ca- santuário para agradecer ao santo o
minhos estavam quase abandonados. bom desenrolar (para ele) da guerra ci-
Em 1970, por exemplo, a Catedral de vil. Conforme La Gran Enciclopedia del
Santiago de Compostela emitiu ape- Camino de Santiago, encontramos nas
nas 68 certificados de peregrinação e ofertas de Franco “a reivindicação de
somente 209 dez anos depois.2 São Tiago como norma de unidade es-
Os poucos mapas antigos disponí- panhola, contra os vários inimigos do
veis listavam apenas as redes espanho- regime”.4 “Assim que o conflito termi-
la e francesa. E novamente só foram nou, Franco abriu os arquivos da Cate-
imaginadas na contemporaneidade, a dral de Compostela e incentivou os
partir do quinto Livro de Santiago, ou trabalhos em torno de São Tiago”, ex-
Codex Calixtinus, compilação de ma- plica a medievalista Denise Pericard-
nuscritos que datam do século XII. Re- -Méa.5 “O regime promoveu a peregri-
descoberto no século XIX nos arquivos nação porque viu nela uma ferramenta
da Catedral de Compostela, ele foi tra- para reabrir a Espanha à Europa e fa-
duzido para o francês por Jeanne Viel- zer vir cristãos de todo o mundo. Du-
liard em 1938, sob o título discutível de rante a oferenda nacional de 1948,
Guide du pèlerin de Saint-Jacques-de- Franco expressou seu desejo de abrir o
-Compostelle (“Guia do peregrino de Caminho de Santiago para além da
© Andrício de Souza

Santiago de Compostela”), e serviu de cortina de ferro, colocando assim São


base para a restauração do mito me- Tiago contra o inimigo comunista.”
dieval (ler boxe). O corpo do apóstolo, Em 1965, o ministro da Informação e
santo padroeiro da Espanha, que havia do Turismo, o galego Manuel Fraga Iri-
sido escondido e depois esquecido no barne, lançou a primeira campanha
século XVI, foi convenientemente en- internacional de promoção turística
contrado algum tempo depois do Co- de Compostela. Por ocasião desse “ano
ara chegar a Compostela, na Federação Espanhola de Associações dex. “A veracidade dessa descoberta foi santo compostelano” (quando a festa

P Galiza, mais de 80 mil quilôme-


tros de trilhas pela Europa fo-
ram marcados como “cami-
nhos de Santiago”. Do norte e dos
países escandinavos, ou do leste par-
de Amigos do Caminho de Santiago,
uma cartografia apresentada como
exaustiva das rotas de Compostela.
Nesse ano, mais de 300 mil pessoas
percorreram pelo menos os últimos
questionada, como já havia sido a da
primeira descoberta das relíquias no
século IX”, explica Ofelia Rey Castelao,
professora de História Moderna da
Universidade de Santiago de Compos-
de São Tiago, o dia 25 de julho, caiu em
um domingo), obras importantes fo-
ram realizadas para melhorar o cami-
nho e os monumentos que o cercam e
para abrigar os peregrinos. Mas, na
tindo da Lituânia, o peregrino dos 100 quilômetros a pé ou a cavalo (ou os tela.3 “Foi uma tentativa de reavivar época, a grande maioria dos viajantes
tempos modernos pode atravessar últimos 200 quilômetros de bicicleta) uma cidade em crise, que também per- ainda preferia o sol e as praias do sul
uma rede de trilhas implantadas no para recolher-se no túmulo do apósto- dia importância no âmbito eclesiástico ou do leste ao turismo religioso no
conjunto do continente em direção à lo e receber sua compostela, seu certifi- e administrativo. Então era preciso en- noroeste...
ponta noroeste da Espanha. Em 2017, o cado de peregrinação.1 Dezenas de contrar esses vestígios.” Por meio de Durante sua visita em 1982 (sete
Instituto Nacional Geográfico Espa- milhares de outros se contentaram uma carta apostólica de novembro de anos após a morte de Franco), o papa
nhol publicou, em colaboração com a com uma parte do trajeto. Enquanto 1884, o papa Leão XIII conferiu auten- João Paulo II colocou o Caminho de
AGOSTO 2018 Le Monde Diplomatique Brasil 35

Santiago em destaque: “De Santiago condeu suas dúvidas: “Há vestígios de


de Compostela, eu lanço para você, ve- peregrinos e de culto a São Tiago na
lha Europa, um grito cheio de amor: Alemanha e na Suíça, mas nenhuma
A GÊNESE DE UMA LENDA
seja você mesma. Descubra suas ori- prova tangível os associa aos cami-
gens. Reviva suas raízes. Revisite esses
valores autênticos que tornaram sua
nhos de Compostela”, ela resume hoje.
“Nestes últimos trinta anos, a recons-
N o século IX, um túmulo apresentado como o de São Tiago Maior, discípulo de
Cristo segundo o Novo Testamento, foi descoberto na Galiza, na Finisterra
espanhola. Nenhuma evidência atesta a viagem do apóstolo para a Espanha, nem
história gloriosa e ofereça sua presen- trução da rede na Europa, especial- mesmo a transferência de suas relíquias. Mas a lenda cresceu. Sua proteção con-
ça aos outros continentes”. A associa- mente na Alemanha, foi feita com base tra os mouros foi oportunamente invocada quando os reinos cristãos empreende-
ção Amigos de los Pazos (“Amigos dos em lugares onde havia igrejas ou con- ram a reconquista da Península Ibérica, em parte dominada pelos muçulmanos
solares”) enviou no mesmo ano uma frarias dedicadas a São Tiago. Mas a desde 711. Essa empreitada só seria concluída em 1492, com a captura de Gra-
petição ao presidente da Assembleia devoção de uma população ao apósto- nada, enquanto nesse meio-tempo os cruzados tomaram e depois perderam Je-
Parlamentar do Conselho da Europa, o lo não está necessariamente ligada à rusalém (em 1099 e 1187). A imagem do santo cavaleiro foi amplamente difundi-
espanhol José María de Areilza, ex- peregrinação. Aliás, nunca houve es- da a partir do século XVI. São Tiago foi novamente solicitado a reunir a Europa
cristã ocidental contra um novo perigo muçulmano: os otomanos, que tomaram
-embaixador do regime franquista tradas reservadas para os peregrinos.
Constantinopla em 1453. Portanto, desde o início foi a Europa (ocidental) que
que se tornou opositor do general e fer- Eles usavam as principais rotas de co-
moldou Compostela, e não o contrário... (L.P.C.)
voroso europeísta. Em 1987, o Conse- mércio, algumas das quais se torna-
lho da Europa deu-lhe um importante ram autoestradas, hoje proibidas aos
impulso ao chamar esses caminhos de caminhantes. Portanto, identificar pe-
“primeiro itinerário cultural euro- quenas trilhas destinadas aos peregri- senvolvimento e permitiu um renasci- Hoje, muitos municípios sonham
peu”, o que facilitaria os pedidos de nos é uma escolha pragmática, sem mento da imagem da Galiza, ainda pre- em ver um trecho do caminho passan-
fundos para a União Europeia por nenhum fundamento histórico.” dominantemente agrícola. Quando se do por seu território. Uma rota balizada
meio dos vários programas – Fundo batizou o projeto de ‘Xacobeo’, comple- atrai turistas e impulsiona a economia
Europeu de Desenvolvimento Regio- tou-se a dimensão religiosa da peregri- local... com ou sem raízes históricas:
nal (Feder), Interreg, Leader etc. – des- nação e fez-se desse nome uma marca, “Algumas associações de amigos do Ca-
de então mobilizados. “Foi uma com um logotipo e um mascote: Pele- minho de Santiago desenham rotas al-
“Enquanto em nossa petição só tarefa emocionante grín.” O orçamento passou de 30 mi- ternativas para chegar a Compostela.
abordamos o camino francés, a rota reavivar um antigo lhões para 88,5 milhões de euros,7 e o Mas não podemos impedi-los de per-
mais frequentada, que se estende dos sucesso foi visível: 99.436 peregrinos corrê-las ou de balizá-las com a alega-
Pireneus a Compostela, o Conselho da
caminho de peregrinação chegaram ao seu destino em 1993, dez ção de que não são históricas”, explica
Europa ampliou nossa solicitação para milenar, que vezes mais que no ano anterior. Ballester. “Além disso, foi assim que os
todas as estradas, com o propósito de também era uma via Desde então, as quinze pousadas caminhos históricos surgiram: porque
destacar sua dimensão europeia”, re- de civilização” públicas construídas pela região para o os peregrinos os usavam. Como disse o
corda Juan Manuel López-Chavez ano santo compostelano nunca fecha- poeta Antonio Machado, ‘o caminho é o
Meléndez, presidente honorário da as- ram as portas. Hoje existem setenta na caminhar...’”9
sociação. O Conselho estimulou os Galiza e mais de quatrocentos estabe- O sucesso quase providencial dos
países europeus a identificar trilhas: Para a Igreja, pouco importam os lecimentos privados ao longo de todo o caminhos de Santiago anima as igre-
“Foi uma tarefa emocionante reavivar caminhos adotados. Em 1989, o papa camino francés. Em 1993, esse cami- jas que estão em sua passagem. No en-
um antigo caminho de peregrinação retornou a Compostela para presidir nho foi inscrito no Patrimônio Mun- tanto, esse modismo escapa em parte
milenar, que também era uma via de as Jornadas Mundiais da Juventude, dial da Organização das Nações Uni- da Igreja Católica, que tinha sonhado
civilização, como uma artéria da coe- que reuniram meio milhão de pes- das para a Educação, Ciência e Cultura com isso: ele tem a ver tanto com a mo-
são europeia. A presença da diploma- soas, das quais 5.760 receberam o cer- (Unesco), da mesma forma como ocor- da turística quanto com a busca da es-
cia espanhola na Europa na época aju- tificado de peregrinação – em compa- reria cinco anos depois com os cami- piritualidade.
dou muito; em particular a de ração com 1.868 sete anos antes. “João nhos franceses. Graças à imprecisão de
Marcelino Oreja, então secretário-ge- Paulo II buscava uma nova evangeli- seus traçados e dos debates que provo- *Lola Parra Craviotto é jornalista.
ral do Conselho da Europa, que propu- zação. Ele via na peregrinação de cavam, o Ministério da Cultura favore-
nha, com base nos caminhos de San- Compostela uma exaltação dos valo- ceu a inscrição de sete trechos e 71 mo-
tiago, a criação de um programa de res da cristandade, reunindo toda a numentos que atestam a peregrinação 1 De acordo com o Escritório de Recepção do Pere-
itinerários culturais que refletissem o Europa”, explica Rafael Sánchez Bar- ao longo dos quatro caminhos mencio- grino (https://oficinadelperegrino.com).
patrimônio e a memória comuns aos giela, diretor da Sociedade de Gestão nados no Codex Calixtinus. 2 Segundo o blog Camino Milenario, que cita o Es-
critório de Recepção do Peregrino; mas este últi-
europeus”, explica José María Balles- do Plano Xacobeo (adjetivo relaciona- “O Codex é, na verdade, uma narra- mo se recusa a confirmar as cifras anteriores a
ter, ex-diretor de cultura e do patrimô- do ao nome bíblico de São Tiago, Jacó), tiva simbólica, e apenas os caminhos 1985 (690 peregrinos).
nio cultural e natural no Conselho da empresa criada em 1991 pelo governo de Arles e de Tours são de fato históri- 3 Cf. Ofelia Rey Castelao, Les Mythes de l’apôtre
saint Jacques [Os mitos do apóstolo São Tiago],
Europa. “Nós formamos um grupo de regional da Galiza para garantir a pro- cos. Essas quatro estradas que ele Cairn Publishing, Pau, 2011.
especialistas que confirmou a impor- moção turística e cultural dos cami- mencionou, tomadas por multidões 4 La Gran Enciclopedia del Caminho de Santiago
tância dos caminhos na história da nhos.6 Esse plano visava reavivar as vindas dos quatro cantos do globo, [A Grande Enciclopédia do Caminho de Santia-
go], Éditions Bolanda, 2010, disponível no Xaco-
construção europeia. Eles constituí- estradas para o ano santo compostela- evocam, na realidade, os quatro pon- pedia, site financiado pelo governo regional da
ram efetivamente um ponto de encon- no de 1993, por meio de um programa tos cardeais. Quando se estudam as Galiza: <http://xacopedia.com>.
tro para os cidadãos e fomentaram o internacional: exposições, concertos, histórias dos peregrinos, percebe-se 5 Cf. Denise Péricard-Mea, Le Matamore. Mythe,
images et réalités. Quand saint Jacques est enrôlé
diálogo das culturas ao longo da reuniões científicas e culturais etc. que, na França, eles usavam apenas pour la guerre [O mata-mouros. Mito, imagens e
história.” Novamente encontramos na presidên- duas rotas históricas, porque as outras realidades. Quando São Tiago foi alistado na guer-
cia do governo da Galiza Manuel Fraga duas eram montanhosas”, resume a ra], La Louve Éditions, Cahors, 2011.
6 Ler Margarita Rivière, “La Galice ne croit plus aux
OS HISTORIADORES CÉTICOS Iribarne, ex-ministro do Turismo de historiadora Adeline Rucquoi, mem- miracles” [A Galiza não acredita mais em milagres],
Desde 1988, no entanto, os histo- Franco, também fundador da Aliança bro do Comitê Internacional de Peritos Le Monde Diplomatique, jul. 1993.
riadores se mostram céticos. Enquan- Popular, que em 1989 se tornaria o do Caminho de Santiago e diretora 7 Xosé Hermida, “Galicia destina 4.600 millones al
Xacobeo 99” [A Galiza destina 4,6 bilhões para o
to o camino francés representava uma Partido Popular. emérita de pesquisa do Centre Natio- Xacobeo 99], El País, Madri, 2 jan. 1999.
linha claramente identificável nos ma- “No contexto dos Jogos Olímpicos nal de la Recherche Scientifique (CN- 8 Cf. Adeline Rucquoi, Mille fois à Compostelle. Pè-
pas espanhóis, o resto da rede parecia de Barcelona e da Exposição Universal RS).8 “Peregrinos de São Tiago existi- lerins du Moyen Âge [Mil vezes em Compostela.
Peregrinos da Idade Média], Les Belles Lettres,
mais incerto. Em um congresso orga- de Sevilha, dois grandes eventos de ram em toda a Europa. Isso não Paris, 2014.
nizado na Baviera pelo Conselho da 1992, a Galiza estava procurando ma- significa que houvesse caminhos de 9 Antonio Machado, Champs de Castille [Campos
Europa, Hedwig Röckelein, professora neiras de aproveitar a ‘onda espanho- Compostela por todo o continente. No de Castela], precedido de Solitudes, Galeries et
autres poèmes [Solidões, galerias e outros poe-
de História Medieval da Universidade la’”, conta Sánchez. “O Plano Xacobeo entanto, sempre houve muitos interes- mas] e seguido de Poésies de la guerre [Poesias
de Göttingen, na Alemanha, não es- 93 oferecia então oportunidades de de- ses econômicos em jogo.” da guerra], Gallimard, Paris, 1981.
36 Le Monde Diplomatique Brasil AGOSTO 2018

FUTEBOL E POLÍTICA

José Trajano: um
operário do jornalismo
Crítico dos novos tempos na profissão, o carioca fala sobre ódio nas redes sociais,
decadência da cobertura esportiva e atuação do Brasil na Copa do Mundo da Rússia
POR GUILHERME HENRIQUE E LUÍS BRASILINO*

uas câmeras posicionadas no comenta. Auxiliado também pelo filho O que você achou da utilização do ár- Tinha o Arthur [meia ex-Grêmio,

D centro do ambiente transfor-


mam a sala de José Trajano em
um miniestúdio de televisão.
Sobre a mesa de madeira, um roteiro
com anotações e uma caneta esperam o
mais novo, ele tem aprendido a supor-
tar a convivência desagradável e, por
vezes, intolerante das redes sociais.
“Mas eu nunca me escondi e também
não vou fugir da raia. Não vou dar voz
bitro de vídeo (VAR)?
Eu não sou contra, mas ainda estou
na expectativa para ver como vai con-
tinuar. O erro foi colocar a Copa do
Mundo como experiência. Se era para
atualmente no Barcelona] e o Luan [ata-
cante do Grêmio], que foram campeões
da Libertadores. O grande problema foi
ter levado jogadores machucados. Todo
técnico da seleção brasileira é teimoso.
apresentador. Às costas do assento va- para filho da puta”, esbraveja. testar, que fizessem antes, para que Ele [Tite] é fiel aos atletas, assim como
zio, uma estante repleta de livros, com Vestindo bermuda e chinelo, José nos acostumássemos culturalmente. acontecia no Corinthians. Ele convocou
destaque para política, música e cultu- Trajano falou ao Le Monde Diplomati- O negócio caiu de paraquedas na Co- jogadores que não poderiam ter ido, não
ra. “Estive tão envolvido com meu novo que Brasil sobre as agruras e felicida- pa. Modifica bastante o futebol, o jogo, por má qualidade técnica, mas por esta-
livro que não tenho lido romances, ape- des de uma vida dedicada ao jornalis- mas corrige diversas injustiças. Agora, rem em má situação física, como o Re-
nas coisas sobre política e história do mo, driblando como poucos o o VAR ainda depende muito de vossa nato Augusto. O Fred se machucou e
Brasil”, respondeu ao ser questionado saudosismo traiçoeiro e os anseios pe- senhoria. Se o árbitro chama o VAR, continuou por lá. E alguns jogadores
sobre as preferências literárias. los novos tempos. tudo bem, mas se não chama... não serviram para nada. O que o Taison
Enquanto terminava as últimas A utilização do VAR é meio deso- foi fazer lá? Mesmo com o Douglas Cos-
páginas de seu novo romance, intitu- LE MONDE DIPLOMATIQUE BRASIL nesta, porque só vai acontecer nas ta machucado, ele não foi opção.
lado Aqueles olhos verdes, que se dis- – Qual é sua impressão geral sobre es- grandes competições. Por exemplo: eu Recentemente vi uma notícia que
tancia do tom autobiográfico das obras sa Copa do Mundo? torço pelo América [RJ]. Vai ter VAR na me surpreendeu. Um integrante da
anteriores (Procurando Mônica, Tiju- JOSÉ TRAJANO – Aqueles favoritaços segunda divisão do futebol carioca? E comissão técnica, um dos vários ana-
camérica e Os beneditinos), Trajano de sempre, como Brasil, Alemanha e Ar- no campeonato do Maranhão? Ceará? listas que o Tite tem, disse que a sele-
acompanhou atentamente os jogos da gentina, deram brecha para o surgi- Vai ser no máximo o Campeonato Bra- ção foi surpreendida com a maneira de
Copa do Mundo disputada na Rússia, mento de novas equipes: Bélgica, que sileiro, e olha que os times já recusa- a Bélgica jogar. Peraí, pô! Todo mundo
em especial a atuação da equipe brasi- quase chegou à final, e a Croácia, de ram. O futebol vai ser diferente de um sabia, até minha avó que já morreu,
leira, eliminada pela Bélgica nas quar- maneira surpreendente, porque tinha lugar para o outro, quando deveria ser que a Bélgica não ia jogar contra o Bra-
tas de final, após uma derrota por 2 a 1. feito uma pré-Copa ruim e também por uma coisa só. sil como foi na partida anterior, contra
“A seleção, na hora que precisou mos- ser um país pequeno. A França já vinha o Japão. Quando o Tite adiantou a es-
trar, não mostrou”, ponderou o jorna- com uma boa expectativa. É uma sele- calação, eles colocaram o Lukaku na
lista, ressaltando que os comandados ção jovem, com bons jogadores e com “Eu não admito uma direita, o Hazard já vinha muito bem
de Tite receberam “uma bela lição”. pinta de que poderia fazer algo legal. pela esquerda... Eu não admito uma
Aos 71 anos, José Trajano tem atua- Foi uma Copa estranha para nós,
comissão técnica, com comissão técnica, com tanta informa-
do em áreas diversas desde que deixou brasileiros, sob vários aspectos: quan- tanta informação ção disponível, seja em vídeo, redes
o posto de comentarista na ESPN Bra- do começou, havia aquela coisa: “Vou disponível, seja em vídeo, sociais, analistas, ser surpreendida em
sil, em 2016. A empresa que ele ajudou a colocar a camisa amarela?”, “Não es- redes sociais, analistas, uma Copa do Mundo. Começou o jogo,
fundar em meados dos anos 1990 mu- tou vendo festa nas ruas...”, e depois viu que está ruim, troca!
dou, assim como o jornalismo esporti- essa festa aconteceu em alguns luga-
ser surpreendida
vo. “Esses dias eu estava em um restau- res. Aí a história da camisa amarela só em uma Copa” Como você percebeu a reação da popu-
rante, com três TVs ligadas na hora do para coxinha acabou. “Vou colocar lação à eliminação na Copa? Parece
almoço. Eu olhava e não sabia diferen- porque sou brasileiro, foda-se!” Mas que foi algo normal, corriqueiro, sem
ciar SporTV, ESPN, Band e Esporte In- era um sentimento estranho em rela- comoção. De onde vem essa descrença?
terativo. Todas elas com um bando de ção às outras Copas, levando-se em Em relação ao jogo, como você viu a O pessoal foi meio ingrato com o
homem falando, um letreiro com des- conta que a última foi aqui. questão da posse de bola na Copa? Os Tite e os jogadores. A imprensa, princi-
taques e a tela dividida ao meio. Todas A seleção, na hora que precisou mos- times que ficaram menos com a bola palmente. Mas foi meio estranho mes-
assim! De modo geral, o que está ven- trar, não mostrou. “Tite é o maior técni- venceram os jogos. mo, como se fosse normal perder. Não
cendo na imprensa esportiva é esse co do mundo! Neymar vai virar o maior O estilo tiki-taka, a posse de bola, já acho que se deva pegar alguém para
formato ao vivo, os engraçadinhos e os jogador do mundo!” Uma seleção que não é mais tão importante. Foi uma Co- crucificar, como fizeram com o Bigode
analistas, com jornalista mostrando saiu daqui sob aplausos, que tinha recu- pa do Mundo em que os times estavam e o Barbosa, em 1950, mas houve uma
tática e não sei mais o quê”, critica. perado o prestígio. Merda nenhuma! preocupados em não perder. As defesas pasmaceira, um conformismo. É que
A pouca desenvoltura com a tecno- Não vou falar que foi bom o que aconte- sobressaíram. Thiago Silva e Miranda nós não estamos indo bem em nada.
logia não o impediu de criar o Ultraja- ceu, mas nós tomamos uma bela lição. jogaram muito bem. A defesa uruguaia Vivemos um momento muito aneste-
no, plataforma multimídia com qua- Transformaram o Tite em um messias, foi bem, assim como a da França. siado, e isso se refletiu no futebol.
dros especiais e informações que vão o homem que sabia de tudo, infalível, e
do futebol ao cenário político brasilei- o Neymar em um jogador que ele não é, Ainda sobre o Brasil, faltou alguém Isso tem relação com o 7 a 1?
ro. “Quando saí da ESPN, uma moçada mas que poderá ser um dia, se tomar te- na lista dos 23 convocados? Até nisso Acho que não, o 7 a 1 já era. Foi
que trabalhou comigo me procurou”, nência. Nem tudo são flores. houve consenso antes da Copa. uma vergonha que nunca mais vai se
AGOSTO 2018 Le Monde Diplomatique Brasil 37

guir ganhar dinheiro contando piada. amigos da época da escola, passando


O sonho desse Tiago Leifert [apresen- pelo Brasil da década de 1950. Esse
tador da Rede Globo], quando entrou quarto livro é diferente, porque não é
no jornalismo esportivo, era ir para o tão autobiográfico. A história é um
entretenimento. Eu falei isso há muito pouco baseada no meu avô, que nas-
tempo. Já passou pelo Big Brother e ceu lá em Rio das Flores. Eu conto a
agora está fazendo anúncios. Aquele história do Brasil de 1938 a 1962, pas-
Alê Oliveira [ex-ESPN, atualmente no sando pelo Estado Novo, Getúlio Var-
Esporte Interativo] ganha dinheiro gas, o integralismo, a Coluna Prestes,
vendendo cerveja, usando camisa e relacionando com a história das Co-
com piada machista, homofóbica. pas de 1938 e 1950.

Passando um pouco para a internet, Todos esses livros passam por um Rio
onde você tem atuado com o blog, co- de Janeiro que não existe mais. Como
mo tem sido a relação com o público? você vê a cidade atualmente?
Como você encara a hostilidade em Muita preocupação. É um Rio
alguns momentos? abandonado, violento, com um prefei-
É terrível, porque a burrice está to de quinta categoria. O Luiz Fernan-
© Cristiano Navarro

em primeiro lugar. Saiu uma matéria do Pezão [MDB] é um governador que


esses dias mostrando que 80% das não existe. Sob uma intervenção faju-
pessoas que se formam não têm com- ta, espécie de cortina de fumaça que
preensão do que leem. É o que acon- não resolve nada. Casos emblemáticos
tece nas redes sociais. Há um precon- não resolvidos, como o da Marielle
ceito, uma ideia formada sobre mim. Franco e do Anderson. A última vez
Se eu coloco qualquer coisa, a pessoa que estive lá, senti as pessoas meio
repetir. Quando começou essa Copa Acredito que o grande problema não vai ler o que está escrito. Pega amedrontadas, cada uma contando
do Mundo, a derrota para a Alemanha dele foi ter ido para o Paris Saint-Ger- uma palavra, um detalhe, e destila um caso de violência. É triste.
estava longe. Eu, como sou mais ve- main. No Barcelona, ele tinha um ti- todo o ódio. Esses dias coloquei no
lho, me incomodo muito mais com a me, com Suárez, Messi, Iniesta. Ele foi Twitter uma foto do Paulo Soares e do Como você vê as eleições deste ano?
derrota para o Uruguai do que com o 7 para o PSG para ser o dono do time. O Antero Greco [apresentadores da Acho que será uma das piores de
a 1. Aquilo foi muito mais trágico, por- comportamento exibido lá, brigando ESPN], lembrando quando tive a todos os tempos. O Congresso tende a
que estávamos em uma final de Copa, com todo mundo, discutindo com o ideia de colocá-los juntos em um pro- ficar pior do que já é. As bancadas do
com o Maracanã lotado, vencendo o Cavani, foi o mesmo na Copa do Mun- grama. Aí você olha os comentários: boi, da bala e os evangélicos vão se ele-
jogo por 1 a 0. Uma tragédia grega. O 7 do. Agora nem no PSG ele é o primeiro, “Acertou só essa”. Dá vontade de res- ger porque possuem poder econômico
a 1 foi uma vergonha. porque tem o Mbappé e o próprio Ca- ponder: “Não, babaca, eu inventei a para isso. Há um desgaste muito gran-
vani, que fez uma boa Copa. ESPN”. E isso ainda é um comentário de com os políticos; colocam todos no
Ainda sobre a eliminação do Brasil, os Falando sobre a imprensa, como você generoso, porque a maioria é só por- mesmo saco, como se todo mundo fos-
jogadores quase não se pronuncia- tem visto a cobertura esportiva? Pare- rada. É um convívio desagradável. se filho da puta e safado. Tem muita
ram, a não ser pelas redes sociais. Que ce haver um aumento dos programas Mas eu nunca me escondi e também gente boa por aí. Tem esses aproveita-
análise você faz disso se nos lembrar- ao vivo, no estilo mesa-redonda. não vou fugir da raia. Não vou dar voz dores, como Datena, Luciano Huck. O
mos do comportamento dos jogadores Sim, que enchem o saco. Parece que para filho da puta. Bolsonaro é um perigo para o país,
de antigamente, que não tinham es- uma pessoa dirige todos. É o marketing. apesar de achar que ele não tem tama-
sas ferramentas, e passaram por des- Não de uma emissora, mas de todas, O que você tem sentido de diferença nho para ganhar uma eleição. No Rio
classificações complicadas, como em que conversam entre si. Chegaram à da ESPN para este novo momento? E a de Janeiro, o Romário está liderando
1982 e 1986? conclusão de que precisam ter progra- utilização das mídias digitais? as pesquisas para governador. Onde é
Isso é o produto de uma época. Essa mas ao vivo, praticamente iguais. Esses Eu sou um zero à esquerda. Com- que já se viu? Todo dia você vê notícia
é a geração da rede social, do Instagram. dias eu estava em um restaurante, com putador e celular, só sei o básico. Mas do Romário falando que pegaram car-
Jogadores que, em grande maioria, mo- três TVs ligadas na hora do almoço. Eu não tinha outro jeito depois que eu saí. ro dele não sei com quem, apartamen-
ram fora do Brasil. Eles têm a família olhava e não sabia diferenciar SporTV, Quando deixei a emissora, uma moça- to no nome da irmã...
por aqui, algumas lembranças de quan- ESPN, Band e Esporte Interativo. Todas da que tinha trabalhado comigo me
do começaram a jogar, mas o mundo elas com um bando de homem falando, procurou. Aí começou o Ultrajano. Como surgiu a ideia de o ex-presidente
deles é outro. É um mundo de astro pop, um letreiro com destaques e a tela divi- Twitter e Instagram vieram depois. Lula ser comentarista do seu programa?
vivendo uma vida encantada. Atletas de dida ao meio. Todas assim! De modo ge- Meus filhos que mexem, me instruem. Pensei: “Porra, precisamos de algo
antigamente ganhavam bem, mas para ral, o que está vencendo na imprensa No meio disso tudo, ganhei um tempo diferente. Por que não o Lula?”. Entrei
comprar uns três apartamentos, educar esportiva é esse formato ao vivo, os en- para escrever. Fiz Os beneditinos e aca- em contato com pessoas próximas a
bem os filhos, e só. Hoje, não. Eles aca- graçadinhos e os analistas, com jorna- bei de mandar um novo, que terminei ele e perguntei o que elas achavam.
bam vivendo essa realidade paralela lista mostrando tática e não sei mais o no meio da Copa do Mundo: Aqueles Como ele podia escrever cartas, leva-
dos “parças” e exibicionista. quê. Esquecem que o cara pode ter dor olhos verdes. E ainda estou na TVT fa- ram minha sugestão. Ao término de
de barriga, o improviso, o talento. São zendo um trabalho legal, recebendo cada jogo, ele escrevia a análise e dava
O Neymar começou a Copa com a ex- programas muito parecidos. Matérias convidados. Você tem que se virar pa- para o advogado. Isso ia para um as-
pectativa de ser um protagonista à al- mais longas, como as do Lúcio de Castro ra ganhar um dinheiro. sessor, que me encaminhava.
tura de Cristiano Ronaldo e Messi, [ex-ESPN e SporTV], sobre ditadura e fu- Aí começaram a falar que tinha al-
mas não rendeu o esperado. Do ponto tebol, por exemplo, estão desaparecen- Qual é a temática desse novo livro? go por trás, esquema com o partido.
de vista técnico, ele tem qualidade pa- do. O negócio é papo no sofá e os repór- Fiz três livros, mesmo nunca ima- Porra, parece que você não pode ter
ra alcançar esses dois atletas? teres entrando do clube. Eu não gosto. ginando escrever alguma coisa. A tri- uma ideia! Acharam que a coisa tinha
O Neymar saiu da Copa do Mundo logia começa com Procurando Môni- surgido do Lula para mim, inverteram
menor futebolisticamente e muito É o futebol indo para o entretenimento? ca, que fala sobre uma paixão juvenil. tudo... Pena que acabou, por causa da
ofuscado em termos de imagem. As Os engraçadinhos estão ganhando Depois veio o Tijucamérica, sobre o lei eleitoral. O jornalismo ainda é feito
agências que cuidam da carreira dele vez. Toda emissora tem um piadista, bairro da Tijuca e o América, e, por de boas ideias.
vão ter muito trabalho para limpar a palhaço, que troca a informação pelo fim, Os beneditinos, sobre o São Bento,
barra, porque ele virou piada no mun- gracejo. O sonho dessa gente não é colégio em que eu estudei no Rio de *Guilherme Henrique e Luís Brasilino são
do inteiro. Virou palhaçada. trabalhar com jornalismo, mas conse- Janeiro, e o reencontro com meus jornalistas.
38 Le Monde Diplomatique Brasil AGOSTO 2018

MISCELÂNEA

livros internet
O OFÍCIO MARX SELVAGEM NOVAS NARRATIVAS DA WEB
Serguei Dovlátov, Jean Tible, Sites e projetos que merecem o seu tempo
Kalinka Autonomia Literária

PODCAST BRASILEIRO
DE STORYTELLING
A grande maioria dos podcasts produzi-
dos no Brasil (e provavelmente no mundo)
segue o modelo de juntar uns amigos e
convidados e fazer um bate-papo sobre
um assunto escolhido para aquela edição.
Storytelling é uma narrativa mais imersiva,
um personagem, a montagem da estrutura

A o fim dos anos 1960, as artes vivenciaram um


período de efervescência criativa. A geração que
havia nascido após a guerra, tanto na União Soviética
Em Marx selvagem, a luta é o próprio risco do pen-
samento. Não há outro fio condutor possível para
compreender o pensamento do filósofo que não seja
para causar uma reação mais emocional
do ouvinte. Ivan Mizanzuk, professor e es-
critor sediado em Curitiba (PR), lançou em
como no Ocidente, reivindicava uma arte que pudes- sua fabulosa disposição de se deixar transformar pelo 2015 o Projeto Humanos, com temporadas
se trilhar os caminhos da liberdade, como anunciava a movimento das revoltas e por outras formas, não ca- que contam histórias incríveis. Desde 2011
trilogia de Jean-Paul Sartre publicada após 1945. Se pitalistas, de organização da vida. Tecelões na Silésia, também produz o AntiCast, um podcast
a guerra era a destruição, as novas forças artísticas Comuna de Paris, as lutas anticoloniais e as experiên- mais focado em história, política e artes.
assumiam um caráter reconstrutivo. cias indígenas, seu interesse pelas formas comunais São financiados por um modelo de peque-
Em O ofício, o autor russo Serguei Dovlátov nos de propriedade na antiga Rússia agrária. nas colaborações mensais.
apresenta o ambiente literário não oficial da União Jean Tible nos apresenta um pensamento marxia- <www.projetohumanos.com.br>
Soviética dos anos Brejnev. Reuniões clandestinas no que se arrisca e se refaz na medida em que se dei-
para a leitura de poemas, samizdat, isto é, edições xa conduzir pelos ruídos do mundo e suas incertezas. BETA, A ROBÔ FEMINISTA
caseiras que circulavam entre os grupos, e contra- Marx selvagem é o pensamento feito de outros. Seria Beta (apelido de Betânia) foi criada por um
bando de literatura estrangeira. O Maio de 1968 assim um Marx “anti-Narciso”, como sugere Eduardo laboratório de ativismo chamado Nossas.
russo não aconteceu em grandes manifestações de Viveiros de Castro ao falar sobre o que seria uma ver- Funciona no chat do Facebook, usando
rua, como no Ocidente, mas num forte ímpeto de dadeira antropologia? As lutas não nascem prontas, ferramentas de mobilização on-line que
criação literária. suas formas são incertas. Por isso, Marx selvagem simulam conversas. Quando você interage
Dividida em duas partes, antes e depois do exílio, a atua como um cartógrafo das lutas, perseguindo seus com a página, ela te chama eventualmente
narrativa se assemelha a um diário. Na primeira, que rastros e proposições. para avisar que alguma campanha está no
o autor chama de “O livro invisível”, ele descreve seu Da Comuna de Paris (1871) extrai a radicalidade ar, que alguma petição pode ser assinada
período na então Leningrado, quando seus escritos da noção teórica de associação. Sua forma organi- ou que há algo no radar que pode ser in-
não eram publicados. A segunda, “O jornal invisível”, zativa aberta e autogerida foi capaz de desafiar a teressante. Assim, os bots vão se tornando
se passa nos Estados Unidos, após ele ter emigrado arquitetura hierárquica de uma política fora da vida. mais um canal de distribuição de conteúdo.
em 1978. A história se intercala ainda com pequenos Do interesse pela organização da Liga dos Iroqueses, “Colocamos a Beta à disposição de todos
excertos literários, como microcontos, que Dovlátov indígenas da América do Norte, Marx extrai a força da os grupos, organizações e ativistas que de-
denominou “Solos na underwood”. Dovlátov, como forma confederada. Das comunas rurais russas, Marx fendem os direitos das mulheres no Bra-
tantos outros, era o que chamavam de “um jovem au- consolida sua visão sobre a marcha do capitalismo na sil. Se você está organizando ou conhece
tor progressista”, forma sarcástica para se referir aos direção de uma expropriação permanente do que é alguma campanha feminista e quer contar
escritores que não eram publicados. o comum. com o apoio da Beta para viralizar a ação
No Brasil, até então, pouco se sabia sobre o 1968 Marx selvagem é aquele que afirma em suas bus- nas redes, envie um e-mail para beta@
russo. Algumas traduções circulavam: um livro sobre cas o primado constitutivo das lutas e das experiên- nossas.org”.
Limonov, de Emmanuel Carrère, ou a Autobiografia cias de auto-organização dos povos. O proletariado, <www.beta.org.br>
precoce, do poeta Ievtuchenko. Memórias. No cin- como bem nos lembra Benjamin, é a “última classe
quentenário do ano que não terminou, após publicar escravizada”, aquela capaz de vingar todas as outras. TROMBONE ROSA
Parque cultural, a Editora Kalinka traz mais uma obra Não à toa, Marx confessa no “Questionário de Proust” Um pesquisador da Academia de Ciências
de Dovlátov ao leitor brasileiro, com a excelente tra- que seu herói preferido é Spartacus, líder de uma re- do Instituto de Matemática da República
dução de Daniela Mountian e Yulia Mikaelyan. Com volta de escravos. Aldeias, ocupações, praças e esco- Tcheca construiu um website interativo em
estilo leve e despojado, como disse Brodsky, O ofício las tomadas, comissões de fábrica, quilombos: a radi- que é possível controlar funções vocais
chega em boa hora e preenche uma importante la- calidade da associação e do autogoverno atravessa a para perceber como são formados os sons
cuna com o contundente depoimento de um escritor história das lutas em uma ressurreição permanente. dentro da boca, garganta e nariz. O usuário
dissidente dentro e fora de seu país. Em Marx selvagem, vemos outra tessitura da história. pode gerar os sons diferentes ao contro-
Trata-se de um tecido entremeado, composto por fios lar parâmetros como posição da língua ou
de diversas colorações e texturas: o pré-capitalismo abertura das cavidades nasais. O projeto
se emenda com o pós-capitalismo, constrangendo é uma maneira interessante de aprender
dessa forma as apropriações lineares de uma história como os sons são produzidos.
marxista conduzida pelo delírio do progresso. <https://dood.al/pinktrombone/>

[Andre Deak] Diretor do Liquid Media Lab,


[André Rosa] Escritor e tradutor. Traduziu, entre ou- [Alana Moraes] Antropóloga e doutoranda no Mu- professor de Jornalismo na ESPM, mestre
tros, poetas russos como Aleksándr Blok, Aleksándr seu Nacional-UFRJ. Confira versão ampliada desta em Teoria da Comunicação pela ECA-USP
Púchkin e Vera Ínber. resenha em <diplomatique.org.br>. e doutorando em Design na FAU-USP.
AGOSTO 2018 Le Monde Diplomatique Brasil 39

CANAL DIRETO SUMÁRIO


LE MONDE
BRASIL

Os sentimentos comandam diplomatique


Dói na alma crer nesse texto! E é tudo verdade! Ano 12 – Número 133 – Agosto 2018
Verita Ramos www.diplomatique.org.br

DIRETORIA
Li chorando. É o tipo de texto que inflama e rea- Diretor da edição brasileira e editor-chefe
cende o que se acredita. PAZ PELA FORÇA Silvio Caccia Bava

Débora Pereira de Almeida


2 A fábula do 31 de agosto de 2013
Diretores
Anna Luiza Salles Souto, Maria Elizabeth Grimberg e
Por Serge Halimi Rubens Naves

Um texto interessante, cujas assertivas se aplicam Editor


a qualquer um dos dois lados da mesma moeda – EDITORIAL Luís Brasilino

extrema direita e extrema esquerda.


3 Os endividados Editor-web
Newiton Batista Guterres Por Silvio Caccia Bava Cristiano Navarro

Editores de Arte
CAPA
É triste a nossa realidade. No entanto, fico aliviada 4 As eleições e a retomada do Estado social
Adriana Fernandes e Daniel Kondo

em constatar que não estou só. Ótimo texto! Estagiária


Por Leonardo Avritzer Taís Ilhéu
Erica Cristina Vicente
A normalização do golpe
Por Lincoln Secco Revisão
“Confrontar a narrativa conservadora” é uma ne- Lara Milani e Maitê Ribeiro

cessidade cada vez mais urgente. Trata-se de um EM BREVE, CAMINHÕES SEM MOTORISTA? Gestão Administrativa e Financeira
exercício diário de persistência e paciência. Para- 8 Caminhoneiros, um ícone em via de desaparecer
Arlete Martins

béns pelo editorial! Por Julien Brygo Assinaturas


Chico Daher Viviane Alves

REVOLUÇÃO TECNOLÓGICA,
Um balanço da gestão de Pedro Parente
11 TRANSFORMAÇÃO GEOPOLÍTICA
Tradutores desta edição
Carolina M. de Paula, Frank de Oliveira,
Lívia Chede Almendary, Rita Grillo e Wanda Brant
O petróleo, um dos ativos mais importantes do Carro elétrico, uma miragem ecológica
nosso país, saqueado por piratas que vão lutar até Por Guillaume Pitron Conselho Editorial
Adauto Novaes, Amâncio Friaça, Anna Luiza Salles
o fim, porque o petróleo é deles, e não nosso. Souto, Ariovaldo Ramos, Betty Mindlin, Claudius
MOVIMENTOS SOCIAIS
Adauto Dauctus 14 A internet como objeto de luta
Ceccon, Eduardo Fagnani, Heródoto Barbeiro, Igor
Fuser, Ivan Giannini, Jacques Pena, Jorge Eduardo S.
Durão, Jorge Romano, José Luis Goldfarb, Ladislau
Camponeses moçambicanos derrotam o Por Nataly Queiroz Dowbor, Maria Elizabeth Grimberg, Nabil Bonduki,
Raquel Rolnik, Ricardo Musse, Rubens Naves, Sebastião
agronegócio Salgado, Tania Bacelar de Araújo e Vera da Silva Telles.
BOMBEIROS PIROMANÍACOS DO VALE DO SILÍCIO
O Brasil exportando modelo excludente, concen- 16 O mito do transumanismo Apoiadores da campanha de financiamento coletivo
trador antissocial. Esse projeto não visa à produ- Henrique Botelho Frota, Pedro Luiz Gonçalves Fuschino,
Por Guillaume Renouard e Charles Perragi
ção de alimentos para reduzir a fome; ele busca Rita Claudia Jacintho e Vinícius D. Cantarelli Fogliarini

simplesmente “culturas de exportação” (soja, al- ESTADOS UNIDOS Assessoria Jurídica


godão, milho) destinadas ao mercado mundial. 18 Como a direita seduziu o eleitorado popular
Rubens Naves, Santos Jr. Advogados

Esse projeto reduz a terra a um simples bem mer- Por Arlie Hochschild Escritório Comercial Brasília
cantil e não leva em conta sua importância para os Marketing 10:José Hevaldo Rabello Mendes Junior
Tel.: 61. 3326-0110 / 3964-2110 – jh@marketing10.com.br
pequenos produtores rurais dessas regiões. SUAR, MAS EM BOA COMPANHIA
Morei Ivo
20 Suco detox e cardio training, o novo espírito Le Monde Diplomatique Brasil é uma publicação
da associação Palavra Livre, em parceria com o
da burguesia Instituto Pólis.
Investem nesse setor não só os grupos alimentí- Por Laura Raim
Rua Araújo, 124 2º andar – Vila Buarque
cios, mas também atores originários das altas fi- São Paulo/SP – 01220-020 – Brasil
OS SEGREDOS DE UMA PARCERIA
nanças: corretoras, fundos especulativos, fundos 23 DESEQUILIBRADA, MAS FUNCIONAL
Tel.: 55 11 2174-2005
diplomatique@diplomatique.org.br
de investimento de todas as espécies, operados por www.diplomatique.org.br
indivíduos que trabalhavam até então para bancos China e Rússia, cúmplices, mas não aliadas
Por Isabelle Facon Assinaturas
comerciais, tais como Goldman Sachs, Merrill Lyn- assinaturas@diplomatique.org.br
ch e outros... E o pior é que, com tanto apoio publi- Tel.: 55 11 2174-2015
RESISTÊNCIAS AO RACISMO AMBIENTAL
citário da Globo, os brasileiros vão acabar defen- 26 Às margens do Rio do desenvolvimento Impressão
dendo o agronegócio como se fosse deles. Plural Indústria Gráfica Ltda.
Por Thiago Mendes e Marina Praça Av. Marcos Penteado de Ulhôa
Walkiria Cassanaz Rodrigues, 700 – Santana de Parnaíba/SP – 06543-001

JURISDIÇÃO SUBVERTIDA
A uberização da Uber 28 A via crucis de um habeas corpus
Distribuição nacional
DINAP – Distribuidora Nacional de Publicações Ltda.
Ótimo texto! Poucas pessoas no mundo acadêmi- Por Wadih Damous Av. Dr. Kenkiti Shimomoto, 1678 – Jd. Belmonte –
Osasco/SP – 06045-390 – Tel .: 11. 3789-1624
co parecem dispostas a pensar o problema central
do capitalismo contemporâneo – a dissolução do IMPOTÊNCIA POLÍTICA LE MONDE DIPLOMATIQUE (FRANÇA)

próprio trabalho –, cujo sintoma mais óbvio é o de-


30 No Líbano, o fantasma dos barris tóxicos Fundador
semprego estrutural em massa. Por Emmanuel Haddad Hubert BEUVE-MÉRY

Mauricio Miranda Presidente, Diretor da Publicação


UMA ESQUERDA FORTE, MAS DIVIDIDA
32 Bolívia, na contracorrente da América do Sul
Serge HALIMI

Como papai me colocou em Harvard Redator-Chefe


O feudalismo nunca terminou, somente colocou Por Hervé do Alto Philippe DESCAMPS

uma máscara nova; e nem por isso melhor. Diretora de Relações e das
NASCIMENTO DE UM DESTINO TURÍSTICO
Eduardo Klein Fichtner 34 E a Europa criou Compostela...
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