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Tópicos em Administração - Volume 3


Editora Poisson

Tópicos em Administração
Volume 3

1ª Edição

Belo Horizonte
Poisson
2018
Editor Chefe: Dr. Darly Fernando Andrade

Conselho Editorial
Dr. Antônio Artur de Souza – Universidade Federal de Minas Gerais
Dra. Cacilda Nacur Lorentz – Universidade do Estado de Minas Gerais
Dr. José Eduardo Ferreira Lopes – Universidade Federal de Uberlândia
Dr. Otaviano Francisco Neves – Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais
Dr. Luiz Cláudio de Lima – Universidade FUMEC
Dr. Nelson Ferreira Filho – Faculdades Kennedy

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)


T674
Tópicos em Administração – Volume 3/
Organização Editora Poisson – Belo
Horizonte - MG : Poisson, 2018
247p

Formato: PDF
ISBN: 978-85-93729-60-7
DOI: 10.5935/978-85-93729-60-7.2018B001

Modo de acesso: World Wide Web


Inclui bibliografia

1. Administração 2. Gestão. I. Título

CDD-658.8

O conteúdo dos artigos e seus dados em sua forma, correção e confiabilidade são
de responsabilidade exclusiva dos seus respectivos autores.

www.poisson.com.br

contato@poisson.com.br
Capítulo 1: Mercado futuro da soja e sua importância na economia brasileira ....... 7
(Joana Darc Kampa P Honesko, Renato Alves de Oliveira)

Capítulo 2: A relevância das organizações cooperativas na produção leiteira: o


caso da cooperativa tritícola de espumoso ltda.............................................................. 18
(Thayane Woellner Sviercoski Manosso, Eduardo Acosta Prestes, Ana Claudia Machado Padilha,
Verner Luis Antoni, Priscila Sampaio de Moraes)

Capítulo 3: Agricultura familiar: um estudo exploratório da distribuição de hortifruti


comercializadas no município de Humaitá/AM ............................................................... 28
(Artur Virgílio Simpson Martins, Natália Oliveira de Moraes, Vanderlídia Melo de Oliveira, Juscelino
da Silva Abrantes, Jheysiane Ferreira dos Santos)

Capítulo 4: Avaliação de impactos das políticas de ciência, tecnologia e inovação


brasileiras na educação profissional, técnica e tecnológica a partir de 2002 ...... 38
(Ximena Novais de Morais, Maria Lucia Figueiredo Gomes Meza)

Capítulo 5: Chefe, um mal necessário? a estrutura burocrática subjacente e o seu


impacto nas organizações e na sociedade ...................................................................... 48
(Sylvio Ribeiro de Oliveira Santos, Valdirene Salvador, Marcia M. S. Perin)

Capítulo 6: Comprometimento organizacional dos secretários executivos de uma


instituição pública...................................................................................................................... 60
(Kelane Bezerra de Aguiar, Sueli Maria de Araújo Cavalcante, Elidihara Trigueiro Guimarães,
Cláudia Buhamra Abreu Romero, Ana Paula da Cruz Holanda Barros.)

Capítulo 7: O cooperativismo como alavanca para o desenvolvimento regional. .. 71


(Paulo Cesar Schotten, Catiele Cristina Xavier Dos Santos, Solange Fachin, Rodrigo Santolini)

Capítulo 8: A influência dos fatores internos e externos no clima organizacional e


na qualidade de vida dos colaboradores de um centro universitário ..................... 81
(Lucivone Maria Peres de Castelo Branco, Raquel Vieira Inácio, Thaís Furtado Mendes, Maria
Eliene Barbosa Dias)

Capítulo 9: Modelo vrio: análise da aplicação em uma empresa do ramo de metais


sanitários da região noroeste do Paraná. .......................................................................... 92
(Tatiane Dias Fritz, Paulo Cesar Schotten, Solange Fachin, Rodrigo Santolini)

Capítulo 10: Governo eletrônico: possibilidades e desafios ..................................


(Kelen Koupak) 102
Capítulo 11: A caracterização da ética empresarial como instrumento de estratégia
de negócio, pesquisa no Centro de Distribuição Aruba............................................... 110
(Carlos Victor Correa, Renato Ribeiro Nogueira, Mateus Oliveira de Assis, Ana Valéria Vargas
Pontes, Victor Miranda de Oliveira)

Capítulo 12: A importância do comportamento organizacional de maneira eficaz,


em nível individual e em grupo ............................................................................................. 122
(Carla Janaina Hanneck, Pamela Kauana Santos)

Capítulo 13: Estratégias de gestão aplicadas às pequenas e médias empresas


importadoras com enfoque na gestão contábil gerencial ............................................ 132
(Raquel Antônia Sabadin Schmidt)

Capítulo 14: Inovação em serviço: desafios e resultados em projetos de arquitetura .... 143
(Lucila Naiza Soares Novaes, Sonia Regina Amorim Soares de Alcântara, Thays Lyanny da Cunha
Garcia da Rocha)

Capítulo 15: Gestão dos resíduos para produção de etanol e açúcar na usina Maity
Bioenergia S/A: em busca da sustentabilidade............................................................... 154
(Zuilho Rodrigues Castro, Mônica Franchi Carniello)

Capítulo 16: Impactos e soluções ambientais do processamento da cana-de-


açúcar na produção de etanol .............................................................................................. 165
(Bárbara Tóla Capistrano de Salles, Elton Rafael Ferreira de Souza, Luana Batista Monteiro,
Naiellen Gabriela Porsebon, Sérgio Silva Braga Júnior, Juliane Cristina Forti)

Capítulo 17: Influência do crescimento do endividamento das empresas brasileiras


com o PIB e a taxa de investimento no período de 2008 a 2014. ............................. 172
(Keli Regina Santin, Edson Jacinto Scapinello)

Capítulo 18: O perfil de liderança dos empreendedores de incubadoras de


empresas no Distrito Federal ................................................................................................. 182
(Tiago do Valle Tayar, Tatiane Regina Petrillo Pires de Araujo, Maria Cristina Pegorin)

Capítulo 19: Plano de ação estratégico para a sustentabilidade socioeconômica


da cadeia produtiva da avicultura no estado do Maranhão ........................................ 191
(Zuilho Rodrigues Castro, Kennedy Chaves Veloso, José Luís Gomes da Silva)
Capítulo 20: Qualidade de vida no trabalho dos motoristas de ônibus: um estudo
de caso em uma empresa de transporte coletivo de porto velho ............................. ......... 202
(Artur Virgílio Simpson Martins, Carlo Filipe Evangelista Raimundo , Gilberto Laske , Rwrsilany
Silva , Daiana Cavalcante Gomes)

Capítulo 21: Relação custo-benefício dos incentivos fiscais da lei do bem: um


estudo baseado na dva de empresas incentivadas ...................................................... 212
(Beatriz dos Santos de Andrade, Maria Beatriz Petroski Bonetti)

Capítulo 22: A utilização da web marketing para o novo consumidor ........................ 223
(Artur Virgílio Simpson Martins, Jheysiane Ferreira dos Santos, Janduir Egito da Silva)

Autores ............................................................................................................................................ 236


Capítulo 1

Joana Darc Kampa P Honesko


Renato Alves de Oliveira

Resumo: O objetivo deste trabalho é analisar a operação de hedge da


commodity soja, negociada na BM&F Bovespa (Bolsa de Valores, Mercadorias e
Futuros), identificando a relação existente entre o preço físico e o ajuste diário no
período de 2011 a 2015 no mercado brasileiro (razão ótima de hedge). Para isso,
coletaram-se dados acerca do CEPEA (Centro de Estudos Avançados em
Economia Avançada) e na BM&F. Como resultado, evidenciou-se uma importância
da soja na economia brasileira, e que, especialmente nos últimos três períodos
analisados, os produtores precisam direcionar uma parcela pouca expressiva de
sua produção para alcançar o máximo de proteção por meio do hedge.

Palavras chave: Soja, mercado futuro, hedge, gerenciamento de risco

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1 INTRODUÇÃO mesma lógica, o CEPEA/USP (2015),


analisando o mercado brasileiro, encontrou a
Desde os anos de 1990, o Brasil tem sido
mesma tendência, em que o preço real da
um dos países de maior crescimento no
commodity soja está abaixo da média
comércio internacional do agronegócio,
histórica: o preço histórico é de R$ 64,01 por
tornando-se um dos líderes mundiais na
saca; o observado em 2014 foi de R$ 66,58
produção e na exportação de diversos
por saca; e em 2015 se obteve um valor
produtos agropecuários. Dentre eles,
médio por saca de apenas R$ 59,00.
destaque deve ser dado aos produtos do
complexo da soja (grão, farelo e óleo), no Ao mesmo tempo em que se tem essa
qual o país é líder do ranking das vendas tendência de queda do preço, o que se
externas, ressaltando que esta commodity (a observa nos últimos anos no Brasil é uma
soja) é uma das principais geradoras de ampliação do consumo da soja
divisas cambiais para o Brasil (MAPA, 2016). internamente (especialmente pela
participação deste grão no complexo
Segundo Dall´Agnol et al (2010), nas últimas
agroindustrial de vários produtos),
décadas a produção de soja brasileira se
conjuntamente com uma expansão das suas
destaca no setor econômico do agronegócio
exportações, com potencial crescimento
mundial pelo seu expressivo crescimento.
para os próximos anos (OECD, 2015).
Vários fatores podem ter contribuído:
Ademais, a expectativa é de que até
estruturação de um grande mercado
2024/2025 o país seja o segundo maior
internacional relacionado com o comércio de
exportador deste grão.
produtos do complexo soja; consolidação
do grão como importante fonte de proteína Ou seja, ao mesmo tempo em que se está
vegetal, em especial para atender tendo uma tendência de ampliação de
demandas crescentes dos setores ligados à participação brasileira na produção desta
produção de produtos de origem animal, commodity, a expectativa é de queda de
incluindo principalmente a demanda pelos seus preços. Como se trata de um mercado
países asiáticos; o desenvolvimento e a oferta próximo da concorrência perfeita, o produtor
de tecnologias e a existência de um clima de soja não tem nenhuma influência sobre o
apropriado. seu preço; atrelado a isso, o mercado de
produtos agrícolas em geral apresenta uma
No contexto mundial, o Brasil possui
alta instabilidade especialmente pelas
significativa participação na oferta e na
variações climáticas, não permitindo que o
demanda de produtos do complexo
produtor se sinta seguro quanto ao preço
agroindustrial da soja, o qual contribui
que será praticado no mercado. Neste
significativa para o desenvolvimento de
contexto, a forma que muitos produtores
várias regiões do país. Antecedendo a 2010,
utilizam para minimizar esta incerteza é
os produtos agropecuários brasileiros
através do uso do mercado futuro, através
perfaziam um quarto dos produtos
de hedge com contratos futuros.
comercializados mundialmente, e estima-se
que até 2020 a cada três produtos Autores, como Oliveira et al (2009),
agropecuários comercializados mundialmente enfatizam que o gerenciamento de risco na
um terço será do Brasil, frisando que a soja agricultura torna-se imprescindível com vistas
representa o maior peso no contexto da a minimizar as perdas potenciais relativas ao
balança comercial brasileira (MAPA 2016). processo de negociação nos mais diversos
mercados, tendo nas operações de hedge
As projeções do agronegócio entre a safra
um mecanismo estratégico de gestão dos
de 2014/15 a 2024/25 - efetuadas pelo
preços alvo em ambientes de incerteza na
MAPA (2016) – estimam uma tendência de
formação dos preços de comercialização.
os preços agrícolas se situarem abaixo da
Fraga e Silva (2011) enfatizam a ineficiência
média comparada com período de 2008 a
do mercado no curto prazo, existindo uma
2014, e acima da média quando comparado
relação linear de equilíbrio de longo prazo
com o período que antecedeu 2007,
entre os preços spot da soja e o preço
ressaltando que o preço da soja é um dos
futuro na BM&F. Para os autores, é a
que potencialmente ficará com os valores
eficiência do mercado de commodities
mais elevados dentro desta análise.
agrícolas negociadas na BM&F que vem
Contudo, a OECD (2015, p.43), ao examinar a motivando diversas pesquisas acadêmicas
série desde 1908 até 2024, verificou nesta área, com o objetivo de aprimorar o
tendência de queda nos valores. Nesta

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entendimento e auxiliar os tomadores de das oscilações do preço, é que existem os


decisões num cenário de incerteza. mercados futuros e de opções, chamada de
hedge. Os contratos futuros são
Enfim, partindo de um cenário no qual a soja
padronizados, constando: qualidade dos
apresenta significada importância para a
produtos, cotação, variação mínima de
economia brasileira (seja por suas
apregoação, oscilação máxima diária,
exportações, ou de seus derivados, seja pelo
unidade de negociação, meses de
próprio consumo interno, alimentando outros
vencimento, data de vencimento, local de
complexos agroindustriais), atrelado a
formação do preço e de entrega da
extrema incerteza por parte dos agricultores
mercadoria, período e procedimentos de
de como estará o seu preço na hora da
entrega e retirada da mercadoria, liquidação
comercialização, é que se tornam relevantes
financeira, arbitramento, ativos aceitos como
as pesquisas voltadas ao mercado futuro.
margens de garantia e custos operacionais
O objetivo deste artigo é analisar a (corretagem 0,30% sobre o valor do contrato
operação de hedge da commodity soja, e taxa operacional básica de 6,32% sobre os
negociada na BM&F, identificando qual a 0,30% da corretagem) (SCHOUCHANA e
relação existente entre o preço físico e o MICELI, 2004).
ajuste diário no período de janeiro de 2011
A base refere-se à diferença entre o preço
a dezembro de 2015 no mercado
físico da região na qual o hedger encontra-
brasileiro. Mais especificadamente, primeiro
se e o preço negociado em Bolsa. Segundo a
será avaliado brevemente a importância da
Futures Industyinstitt (1998), a base possui
soja na economia do Brasil e na sequencia
dois componentes principais: o primeiro está
será analisado a relação entre o preço físico
relacionado entre a diferença do preço a vista
e o ajuste diário da soja no mercado
onde se encontra o hedger para com os
brasileiro.
pontos de entrega do ativo, diferença essa
Para isso, este trabalho está dividido em que ocorre principalmente relacionado ao
cinco seções. Na primeira esta introdução. custo do transporte da commodity, os quais
Na segunda têm-se abordagens teóricas são especificados no contrato futuro; o
acerca do mercado futuro especialmente da segundo refere-se ao valor que o preço à
soja, seguida da metodologia. Na quarta vista no ponto de entrega que difere do
seção tem-se um panorama da soja no negociado em futuro, devido à fatores como
Brasil, com a análise do mercado futuro custo de armazenagem, custo de mão- de-
desta commodity. Por último, têm-se as obra, margem de lucro de vendedores e
considerações finais. escassez local.
Na concepção de Castro Júnior (2001) apud
Neto, Figueiredo e Machado (2009) a
2 MERCADO FUTURO DA SOJA
variação de preços da commodity durante a
O mercado futuro de soja foi criado para vigência do contrato futuro, pode ser
funcionar como uma espécie de garantidor quantificada através do desvio padrão da
de preço, oferecendo proteção ao investidor base, chamado risco de base, é resultado
em meio às oscilações do mercado de de diversos fatores, dentre eles: qualidade
renda variável. (ADVFN, 2016). Poderosa do produto, localização do mercado, tempo
ferramenta na gestão de risco de preços das de vigência do contrato.
mercadorias atua de maneira integrada ao
Segundo Hull (2003), apud Marques, Mello,
mercado físico, como processamento,
Martines (2006), hedger significa tomar no
produção, comercialização, consumo e
mercado futuro uma posição oposta daquela
financiamento.
no mercado. O hedge perfeito é quando a
O mercado físico é o responsável pelo preço base se mantém a mesma desde a abertura
de mercado da soja futuro, dado as do contrato até o vencimento do mesmo,
oscilações da cotação da soja no mercado porém isso quase nunca ocorre devido
físico e também varia de acordo com a alguns fatores que podem ocorrer durante a
proximidade do vencimento do contrato vigência, como uma estratégia de encerrá-lo
futuro. (ADVFN, 2016). A bolsa de derivativos antes de seu vencimento, entre outros.
desempenha papel de elo entre a oferta e a
demanda. Os produtores estão sujeitos a
quatro tipos de risco: clima, operacional, O ajuste diário permite que as posições
crédito e preço. Para proteger-se do risco sejam ajustadas diariamente e não apenas

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no vencimento, pois grandes diferenças de soja é o lançamento de um contrato de


podem colocar o sistema em risco devido à opção flexível de “O acordo da Bolsa com o
possibilidade de inadimplência. O ajuste CME Group é um importante passo para a
diário sempre é liquidado em dinheiro no dia globalização dos mercados futuros para os
útil seguinte. investidores brasileiros e estrangeiros. Isso,
com certeza, irá atrair mais liquidez para
A base pode ser calculada para a safra e
nossos mercados, oferecendo aos
entressafra. Por ser uma média não é um
participantes mais produtos e ferramentas
valor constante e deve ser analisada
para a gestão dos riscos de seus negócios.
juntamente com o cálculo da variância e do
(WEDEKIN, 2009, p.13 e 14).
desvio-padrão. Diz- se da base que
enfraquece quando negativa e fortalece Um sojicultor está sujeito ao risco de
quando está positiva. queda de preços quando da
comercialização de sua mercadoria. Sua
A variância é uma medida de dispersão
pretensão é vendê-la por preço que
em relação à média, em que, quanto
remunere seus custos de produção mais
menor é a variância mais próxima os valores
lucros. Porém, havendo um recuo nos
estão da média e mais próximo do hedge
preços, sua receita poderá ser insuficiente
perfeito. O desvio padrão é uma medida de
para cobrir seus custos (BM&F, 2005). Essa
dispersão usada com a média, mede a
situação do agricultor é diferente do que
variabilidade dos valores à volta da média.
ocorre com a empresa exportadora,
É importante ressaltar que o contrato de soja compradora da soja na origem, que celebra
foi lançado pela BM&F em 1993, o qual contratos antecipados com o
sofreu diversas alterações com objetivo de
produtor por preço fixo e os vende ao
se ajustar à realidade brasileira. Em 2002,
importador pelo preço do dia de embarque
foi realizada uma mudança importante
da mercadoria, se houver uma queda no
quando o ponto de formação de preço e de
preço quando da exportação, auferirá valor
liquidação física, deixando de ser no interior
menor em relação ao pago ao produtor
para ocorrer no porto de Paranaguá (PR).
(BM&F, 2005).
(FRAGA e SILVA NETO, 2011, p.127).
Na maioria das operações comerciais, pelo
De acordo com Wedekin (2009, p.07), um
menos uma das partes está sujeita a risco de
dos principais mecanismos para ampliar as
preço. Dependendo do tamanho da oscilação
operações financeiras na BM&F dentro das
deste, pode comprometer a operação e até a
commodities agrícolas, é a compreensão
empresa.
pelo agricultor da necessidade e importância
de utilizá-la para redução do risco de preço.
Na cadeia do agronegócio o agricultor é a
2.1 CONTRATO FUTURO DE SOJA COM
figura que apresenta o maior risco de preço
LIQUIDAÇÃO FINANCEIRA: PRINCIPAIS
e o que menos utiliza os mecanismos de
CARACTERÍSTICAS
proteção. O contrato de opção é um dos
modos mais simples para a proteção de Nesse subitem o intuito é apresentar as
preços aos produtores, por exemplo: um principais características do contrato futuro da
contrato de opção de venda, proporciona ao BM&F, as quais são:
produtor o direito de vender seu produto
Objeto de negociação: Soja em grão a
por determinado preço – chamado preço
granel tipo exportação, com os limites
de exercício e se o preço de mercado estiver
máximos: 14% de umidade; 1% de
abaixo do preço de exercício, o produtor
matérias estranhas e impurezas; 30% de
receberá o estabelecido no contrato de
quebrados; 8% de esverdeados; 8% de
opção. Para tanto o produtor deve pagar um
avariados (queimados, ardidos, mofados,
prêmio que será pago por quem lhe vendeu o
fermentados, germinados, danificados,
contrato.
imaturos e chochos), dos quais se permite
O contrato de soja tem crescido na Bolsa. Em até 6% de grãos mofados, até 4% de grãos
2008, o volume de negociação representou ardidos e queimados, sendo que esse
13% da safra. Mas precisamos caminhar para último não pode ultrapassar 1%; e 18,5% de
uma negociação na BM&FBOVESPA em conteúdo de óleo;
múltiplos de safra, assim como ocorre na
Tamanho do contrato: 450sacas de 60 kg ou
bolsa de Chicago. Uma maneira de a Bolsa
27 t (vinte e sete toneladas métricas);
ampliar a proteção de preços ao produtor

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Variação mínima de apregoação: US$0,01 por É cobrada pela bolsa de valores uma taxa
saca de 60 kg; de permanência pelo serviço de
acompanhamento de posições em aberto e
Cotação: Dólares dos Estados Unidos da
pela emissão de relatórios e arquivos pela
América por saca de 60 kg;
Clearing, com um custo
Oscilação máxima diária: 5% para mais ou
diário por contrato em aberto e inativo de
para menos, aplicado sobre o preço de
US$ 0,0028000, podendo haver redução.
ajuste do dia anterior do vencimento
Tal redução se estabelece dependendo do
negociado. Para o 1º vencimento em aberto,
volume de negócios envolvendo este
o limite de oscilação máxima diária será
contrato. As taxas são cobradas em Real
suspenso nos três últimos dias de negociação.
(R$). (ADVFN, 2016).
Último dia de negociação e data de
A alíquota base de imposto de renda para o
vencimento: Segundo dia útil anterior ao mês
mercado de Soja Futuro é de 15% sobre o
de vencimento;
lucro líquido da operação, ou seja, sobre o
Meses de vencimento: Março, abril, maio, resultado positivo da soma dos ajustes diários
junho, julho, agosto, setembro e novembro; no período da data de abertura do contrato
e a data do encerramento ou cessão da
Margem de garantia: Será exigida margem
operação. Sendo de responsabilidade do
de garantia de todos os comitentes com
investidor contribuinte a apuração e o
posição em aberto, cujo valor será
pagamento, o último deve ser realizado até
atualizado diariamente pela Bolsa, de acordo
o último dia útil do mês subsequente ao
com critérios de apuração de margem para
mês de apuração. Já a alíquota de imposto
contratos futuros;
de renda sobre operações de daytrade
Horário de negociação: Negociação (comércio do dia) é de 20% sobre os
Normal: 09h00min - 16h:20min - Call ganhos auferidos.
Eletrônico: 16h:30min. - Negociação After-
hours (D+1): - 17h:00min - 18h:00min.
(BM&FBOVESPA, 2016). 3 METODOLOGIA
O código de negociação do contrato soja Para auferir os objetivos desta pesquisa,
futuro é SFI, mais a letra pertencente ao dividiu-se a análise em duas etapas: uma
mês de vencimento do contrato (H, J, K, M, verificação introdutória acerca da
N, Q, U e X), acrescido de dois números importância da commodity soja na economia
referentes ao ano de vencimento do contrato, brasileira, especialmente via literatura
o contrato futuro soja não prevê a entrega especializada da área (com resultados de
física da mercadoria (commodity), apenas pesquisas realizados por órgãos e
sua liquidação financeira. (ADVFN, 2016). instituições da área) e; a segunda
referindo à análise do seu mercado futuro,
A negociação de Soja Futuro na BM&F é
com dados coletados do CEPEA E
caracterizada por sua baixa liquidez e alta
BM&FBOVESPA para o período de 2011 a
volatilidade – cenário ideal para operações
2015, de setembro a abril de cada período.
de médio prazo baseadas em análise
técnica. Na maioria, os negócios com Soja Justifica-se esse período de vigência de
Futuro são realizados por telefone, através da contrato haja vista que, de acordo com
Mesa de Operações das corretoras de valores EMPRAPA (2016), o plantio da commodity
mobiliários. Algumas corretoras disponibilizam soja na região do Paraná, um dos maiores
plataformas eletrônicas de negociação (Home produtores desta oleaginosa, é recomendado
Broker) integradas à plataforma WebTrading no período de outubro a dezembro, e para
da BM&FBovespa, que permite a as demais regiões com significativa
negociação pelo investidor possa ser produção esse período não ultrapassa
realizada diretamente pelo seu computador, setembro a janeiro. Ressalta-se que os
tablet ou telefone celular.(ADVFN, 2016). dados dos preços futuros e físico referem-
se ao grão comercializado dentro do
Para negociar soja no mercado futuro, é
corredor de exportação do Porto de
necessário que o investidor deposite na conta
Paranaguá e também do grão disponível no
margem da corretora, no mínimo 4,32% do
pátio do Porto. Nesta última parte da análise,
valor total dos contratos negociados, mais
estatísticas descritivas foram construídas:
a taxa de corretagem. (ADVFN, 2016).

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média; desvio padrão; coeficiente de Efetuou-se a análise comparativa dos


variação; correlação. contratos futuros entre os quatro anos.
Primeiro analisou-se cada ano, utilizando a
O ajuste diário das posições em aberto foi
mesma vigência do contrato, com início mês
realizado até o vencimento do contrato,
de setembro e vencimento maio (K). Com
analisando conforme equações (3.1) e (3.2),
base nos dados preço físico (S) e preço
sabendo-se que: se a operação for de
futuro (F), calculando a base média geral e o
venda, o sinal da operação será negativo; se
risco de base para as operações de hedge
for operação de compra, o sinal da operação
dos preços da soja.
será positivo.
Calculou-se o risco de base a partir da
Ajuste diário ADt = (PAt- PO) . f . n (3.1)
quantificação do desvio-padrão das bases
Ajuste das posições em aberto no dia anterior encontradas, em seguida, os preços futuros
ADt= (PAt- PAt-1) .f . n (3.2) Em que: ADt = e a vista foram organizados constituindo-se
Valor do ajuste diário, referente a data “t”;PAt em séries temporais. Desse modo, diante do
= Preço de ajuste, na data “t”; processo metodológico descrito, analisou-se
a razão ótima de hedge e a efetividade
PAt -1 = preço de ajuste do dia útil anterior desta operação (hedge) como ferramenta
à data “t”;PO = Preço da operação efetuada de proteção contra as incertezas e riscos de
no oscilações de preços na comercialização da
dia; F = fator referente à unidade de soja no mercado físico.
negociação do contrato - soja igual a 450; n
= número de contrato.
O método de estimação da razão de hedge ótima foi determinado a partir de

Onde h é a razão ótima de hedge; σ s é o país. Nos próximos dez anos, a estimativa é
desvio padrão da variação diária no preço de ampliar em 9,7 milhões de hectares,
físico (S) durante o período de tempo igual à chegando a 41,2 milhões de hectares, sendo
vida do hedge; σF é o desvio padrão da a lavoura que mais se expandirá (MAPA,
variação diária no 2016).

preço futuro (F) durante um período de De acordo com MAPA (2016) a expansão da
tempo igual à vida do hedge; eρ é a área deve ocorrer de modo conservador,
correlação entre ∆ S e ∆ F. devido à pressão crescente em evitar o
avanço das áreas nativas. A produtividade
Portanto, a definição da razão de hedging da soja é considerada pelo MAPA (2016)
ótima será o produto do coeficiente de como um grande desafio, pois as projeções
correlação entre ∆S e ∆F pela razão do desvio mostram uma estagnação com média
padrão de ∆S, e o desvio padrão de ∆F. nacional de aproximadamente 3,0 toneladas
por hectare. A expansão da região de
Sendo assim, a variância do valor da
Matopiba (Mato Grosso, Tocantins, Piauí e
posição do hedger é dependente da razão
Bahia) deve ser considerável, segundo a
de hedging. Não obstante, caso ρ = 1e σf
CONAB (2015).
= σs, a razão de hedge ótima, h, é = 1,0
resultado este que é esperado quando os Na safra 2014/2015, a produção de soja
preços futuros refletem os preços a vista com esteve entre 90,0 e 96,0 milhões de
perfeição. toneladas, tendo como líder de produção o
estado do Mato Grosso, com 29,30% da
produção nacional, e em segundo lugar o
4 SOJA NA ECONOMIA BRASILEIRA E O SEU estado do Paraná, com 18%. A projeção
MERCADO FUTURO para safra de 2024/25 é de 126,2 milhões
de toneladas, crescimento de 33,90%,
A soja vem constantemente ampliando sua porém, é um crescimento inferior comparado
participação da produção agropecuária do

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com os últimos dez anos, de 72,80% soja estimado até 2024/25 é de 54,3 milhões
(CONAB, 2015). de toneladas, um crescimento de 22,90%
(Tabela 1). Fator importante para tal
A produtividade é vista pelos especialistas
crescimento é a utilização da soja como
como o principal ponto para conseguir
matéria prima na produção de ração animal
elevar significativamente a produção
e aumento no consumo humano. Ao mesmo
brasileira: Em 2014/15 a produtividade média
tempo, as exportações da soja em grão para
da soja no Brasil foi de 2,99t (toneladas) por
a safra 2024/25 serão de aproximadamente
hectare e na safra de 2024/25 a estimativa é
de 66,5 milhões de toneladas (podendo
de 3,06t por hectare.
chegar a 83,43milhões de toneladas),
Portanto, do lado da oferta, a tendência é crescimento de 42,10% em relação à safra
de crescimento da produção do grão. No 2014/15 (Tabela 1).
caso da demanda, o consumo doméstico da
Tabela 1: Produção, Consumo e Exportação de Soja em Grão (mil toneladas)

Fonte: Elaboração da AGE/Mapa e SGE/Embrapa com dados da CONAB.

A sua importância não se dá apenas na país vem aumentando, ficando em torno de


exportação do grão, mas também em seus 30% nos últimos anos Figura 1. Segundo o
derivados. CEPEA (2015), em 2013 o agronegócio da
commodity soja foi responsável por 22,54%
Observando o complexo soja, a sua
do PIB nacional e 30,97% das exportações.
participação nas exportações totais do

Figura 1: Exportação do complexo soja em relação às exportações totais do Brasil - 2011 a 2015

Fonte: AGROSTAT (Estatísticas de Comércio Exterior do Agronegócio Brasileiro) (2016)

Ou seja, a soja (seja em grão ou nos seus dos agricultores torna-se extremamente
derivados) apresenta uma relevância relevante. No gráfico 2 é apresentado a
significativa na pauta de exportação do evolução histórica dos preços da soja no
Brasil, apresentando outros efeitos positivos estado do Paraná (segundo maior produtor
na economia brasileira, como empregos brasileiro) no período de 2005 a 2015,
diretos e indiretos, gerando encadeamentos mostrando a volatilidade de seus preços e,
produtivos, dentre outros fatores. consequentemente, a magnitude do risco a
que os agentes estão sujeitos (BM&F, 2015).
Dada essa importância, a minimização dos
riscos– no caso específico dos preços –

Tópicos em Administração - Volume 3


14

Gráfico 2: Evolução preço da soja – Paraná –2005 a 2015

Fonte: Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea)-Por saca de 60 kg, descontado o
Prazo de Pagamento pela taxa NPR

Segundo a EMBRAPA (2010), o países produtores; e, uma grande parte das


estabelecimento dos preços pagos pelos operações comerciais do grão e seus
produtos do complexo soja depende derivados concentram-se no mercado
significativamente das condições internacional. Diante disso e partindo de
internacionais relacionadas à oferta e à séries históricas mensais de preços fixados
demanda dos mesmos. na Bolsa de Cereais de Chicago (CBOT),
podem-se fazer alguns apontamentos
Duas razões justificam essa relação: a soja
importantes sobre o comportamento desses
apresenta grande padronização e
preços, conforme descrito na tabela 2.
uniformidade de produção entre os vários

Tabela 2: Preços recebidos pelos produtores no Brasil (US$/t) – 1998/99


Farelo de
Estatística Soja Grão Óleo de Soja
Soja
Média - jan/98 a fev/09 14,6 218,4 565,5
Máximo - jan/98 a fev/09 33,4 452,1 1.635,30
Mínimo - jan/98 a fev/09 9,5 142 320,7
Desvio Padrão - jan/98 a fev/09 5,3 66,9 253,4
Coeficiente Variação - jan/98 a fev/09 38,30% 30,60% 44,80%

Os preços dos produtos do complexo soja o mercado de futuro commodities, em que


tendem a ser muito voláteis. No período de se inclui a soja e seus derivados, passou
janeiro 1998 a fevereiro 2009, os preços a ter grande participação de agentes e
máximo, médio e mínimo observados para a instituições que de forma especulativa,
soja em grão foram, respectivamente, de buscam obter ganhos financeiros (EMBRAPA,
US$ 33,4, US$ 14,6 e US$ 9,5/saca de 60 2010).
kg;via coeficiente de variação, observa-se
Neste contexto de oscilação, Teodoro (2013)
que nesse período, os preços do grão, farelo
destaca a importância dos produtores de
e óleo de soja apresentaram oscilações em
soja fazerem o hedge devido ao resultado de
torno das médias de, respectivamente,
alta correlação entre o valor dos insumos
36,3%, 30,6% e 44,8%; e embora as
(necessários para a produção de soja e que
oscilações que ocorrem nos preços em
correspondem a 60 e 80% do custo direto) e
questão estejam relacionada sem grande
o preço de venda da commodity.
parte as alterações mercado (oferta e
demanda), também são condicionadas pela Neste contexto, dada a argumentações da
atuação de fundos de investimento literatura sobre a importância do mercado
especulativos. Ressaltando a partir de 2000, futuro para a proteção dos produtores, tem-

Tópicos em Administração - Volume 3


15

se, na tabela 3, a razão ótima de hedge físico, indicando os percentuais da posição


para o período 2011 a 2015, com vigência física que deveriam ser protegidos pelos
dos contratos de setembro a maio do ano contratos mercado futuro, ou seja, a cada
subsequente, todos com vencimentos dos 100 sacas de soja no mercado a vista, o
contratos futuros em maio (K), preço físico sojicultor deveria efetuar o hedge de
(S) e futuro (F) para cada saca de 60kg. 70,31% em 2011, de 15,25% em 2012, em
Esses resultados fornecem subsídio ao 2013 de 27,86% e em 2014 de 6,20% das
sojicultor quanto ao tamanho da posição no sacas em contratos futuros para se
mercado futuro em relação à posição no proteger das oscilações de preços.

Tabela 3: Contrato commodity soja (SFI), com início vigência setembro e vencimento maio

(K) do ano subsequente –Paranaguá - 2011 a 2015 – US$

No Anexo, referente às figuras (a, b, c, d) são


apresentados a relação entre preço físico (S)
5 CONSIDERAÇÕES FINAIS
e o preço futuro (F) da commodity soja, com
valores expressos em dólar americano para O principal objetivo desta pesquisa era
alguns períodos selecionados entre setembro analisar a relação do hedge existente entre
de 2011 e abril de 2015. Observa-se que preço físico versus futuro e/ou o
com exceção no primeiro período figura (a), comportamento da commodity soja no
todos os demais (b, c, d) demonstram uma mercado futuros no Brasil, bem como, a
certa diferença inicial entre o preço físico e importância desta commodity no crescimento
o preço futuro, a qual vai sendo minimizada e desenvolvimento econômico nacional.
no decorrer dos meses, chegando, no final
Observou-se uma crescente importância
da vigência de cada contrato, com valores
deste grão na economia do Brasil, sendo
bem próximos. É claro que o período onde o
importante o fortalecimento dos produtores
preço futuro e o preço físico se aproximam
(especialmente controlando a incertezas
varia de ano a ano. Dessa forma, com
acerca dos preços), visando a estabilidade
exceção de 2011/2012 – cuja correlação entre
da produção. Para isso, um dos
S e F foi a maior dentre os períodos
mecanismos seria a proteção via mercado
analisados (Tabela 3), nos demais anos
futuro. A literatura conclui que há uma
predominou uma diferença entre eles,
evolução positiva, porém lenta quanto a
aproximando-se no final da vigência de cada
crescente adesão pelos contratos futuros de
contrato.
soja, resultado diretamente relacionado ao
Por fim, apresenta-se, no Anexo a figura (e), a pouco conhecimento do sojicultor pelo
variação diária do risco de base abrangendo mercado de derivativos.
os quatros contratos analisados entre 2011
Deve-se ressaltar que nos resultados obtidos
a 2015. Observa-se que no início de
sobre o mercado futuro da soja, com
setembro até janeiro há uma dispersão, e a
exceção do primeiro ano analisado
partir de janeiro até final do contrato uma
(2011/12), nos demais se constatou que
homogeneidade, com variação de US$ -1,00
entre 6% e 27% do total de recursos
a US$ 3,00, em que, até janeiro, em geral
possuído pelo hedger devem ser protegidos
o valor da variação é positivo (favorável ao
via operação hedge. Isso demonstra que os
mercado físico). Uma das causas desta
produtores precisam direcionar uma parcela
dispersão verificada em cada período inicial
pouca expressiva de sua produção para
de cada contrato pode estar atrelada por
alcançar o máximo de proteção por meio do
ser um período em que não se está definido
hedge.
o total de área com plantio efetivo.

Tópicos em Administração - Volume 3


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18

Capítulo 2

Thayane Woellner Sviercoski Manosso


Eduardo Acosta Prestes
Ana Claudia Machado Padilha
Verner Luis Antoni
Priscila Sampaio de Moraes

Resumo: O propósito do presente estudo é analisar motivos que levam


produtores/associados à entregarem sua produção de leite à Cotriel, bem como as
relações que se estabelecem entre a cooperativa e seus cooperados. Quanto ao
procedimento metodológico, a pesquisa é caracterizada como do tipo qualitativa e
exploratória, e os dados da pesquisa foram coletados através de um questionário
aplicado a 30 produtores de leite associados à Cotriel, escolhidos aleatoriamente.
Com o presente estudo conclui-se que os principais fatores que contribuem para
que o produtor entregue sua produção à cooperativa, e que o mesmo seja fiel à
esta, estão relacionados à confiança e credibilidade da cooperativa, ou seja, a
certeza de receber pela produção entregue, além a boa qualidade da assistência
técnica oferecida, distribuição das sobras e créditos oferecidos aos produtores.

Palavras chave: Cooperativas, Cadeia do leite, Produção; Fidelidade.

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19

1 INTRODUÇÃO com a união das forças, seria mais fácil


sobreviver e competir no mercado.
A atividade leiteira, que popularmente é tida
como sendo um negócio de margens de lucro Neste sentido, este trabalho tem como
reduzida, vem crescendo ano a ano, assim objetivo analisar motivos que levam os
como a melhoria de seus índices zootécnicos associados à entregarem sua produção de
(GOMES, 2006). Desmentindo todas as leite à Cooperativa Cotriel e as relações que
previsões feitas nas últimas décadas, se estabelecem entre cooperativa e
segundo as quais o mercado lácteo tenderia a cooperados. A manutenção do vínculo entre a
concentrar a captação de leite em grandes instituição e os produtores de leite através dos
empresas multinacionais do setor, sistemas benefícios que a cooperativa oferece aos
de cooperativas de agricultores familiares associados diminui o oportunismo e melhora o
vêm ampliando sua posição no mercado da desempenho geral da cooperativa em todos
região Sul do Brasil. os setores. A análise desses fatores que
vinculam e fidelizam associados, os motivos
Segundo Magalhães (2007), a maioria das
que os levam a participar da instituição
análises do mercado de leite enfatiza
cooperativa, e seu nível de satisfação com
fortemente o processo de concentração da
produtos e serviços prestados justifica o
indústria e as mudanças de um padrão de
presente trabalho.
produção e mercado que até há poucos anos
estava restrito ao âmbito local e que passa a Para isso, o estudo se sustenta em uma
ter dinâmicas cada vez mais globais. revisão literária sobre o cooperativismo de
Segundo Carvalho (2005), a dinâmica setorial uma forma geral, na cadeia do leite, e no
passa a ser dada exógenamente, pelas cooperativismo na cadeia do leite,
matrizes estrangeiras ou pelos demandantes especificamente. Na sequencia, apresenta-se
do produto. A difusão de novas tecnologias o método no qual o trabalho foi desenvolvido,
tornou possível a conservação do produto por e logo após a análise e a discussão dos
períodos mais longos e o transporte por resultados, que dão base para que sejam
extensas distancias, transformando-se assim apresentadas as conclusões, ao final.
o leite numa commodity (MAGALHÃES, 2007).
As profundas e aceleradas transformações 2 REVISÃO DA LITERATURA
recentes, econômicas, politicas e sociais, têm
levado as organizações a adotarem 2.1 COOPERATIVISMO
estratégias diferenciadas. Maraschin (2004) Cooperação, no sentido de doutrina, tem por
afirma que as cooperativas surgem como uma objeto a correção do social pelo econômico
oportunidade para melhorar as condições dos
por meio de associações de fim
produtores frente ao poder de mercado cada
predominantemente econômico, que são as
vez maior das industrias de fornecimento e
cooperativas.
processamento. A empresa que conhece
seus fatores internos e estruturais, e reflete “A cooperativa é organismo técnico porque
sobre o macro ambiente (fatores externos) deve preocupar-se com a produtividade
terá́ ótimas condições de permanecer e física, ou seja, com os métodos e os
concorrer no mercado (SILVA, 2001). Nesse processos de produção, com o estudo dos
contexto, segundo Bialoskorski (1998), a tempos e movimentos. É um organismo
cooperativa tem sido uma organização econômico porque deve preocupar-se com as
empresarial de propriedade comum, baseada condições de economicidade e rentabilidade
em princípios doutrinários com origens nos ótimas, isto é, com o máximo de produção e
socialistas utópicos associacionistas. mínimo de custos. É um organismo financeiro
porque necessita ocupar-se com a origem e
Através da Cooperativa, o cooperado obtém
aplicação dos capitais e das posições mais
benefícios, dos quais sozinhos dificilmente
adequadas das contas do ativo e passivo e
gozaria, como a facilidade na obtenção de
está sob administração coletiva porque é
crédito, garantia de venda de seu produto,
assumida pelos associados e seus
insumos mais baratos, qualificação de seu representantes. O cooperativismo é
produto, assistência técnica, isenção de inegavelmente uma forma plena de valores
tributos, entre outras. Assim, a população morais e sociais. Há na cooperativa a dupla
encontrou nas cooperativas uma forma de qualidade dos associados que são, ao
amenizar suas dificuldades, percebendo que, mesmo tempo, por um lado, empresários e,

Tópicos em Administração - Volume 3


20

por outro, utilizadores e beneficiários desses 2.2 CADEIA DO LEITE


mesmos serviços, que são de ordem familiar
Segundo dados da Pesquisa de Produção
ou profissional” (FERREIRA, 2009).
Pecuária, divulgados pelo Instituto Brasileiro
Diante de um cenário de mudanças, de Geografia e Estatística (IBGE), em 2015, o
Maraschin (2004) afirma que o cooperativismo Brasil ocupava a 4ª no ranking dos países que
tem importância, pois as cooperativas surgem mais produzem leite no mundo. O Rio Grande
como uma oportunidade para melhorar as do Sul encontra-se em segundo lugar como
condições dos produtores frente ao poder de produtor de leite, com 12,1% do total
mercado cada vez maior das indústrias de nacional.
fornecimento e processamento.
Apesar da grande recessão por que passa o
O aumento de renda ocorre principalmente Brasil, estima-se que o mercado de lácteos
por três vertentes. A primeira é que ela cresceu 78% nos últimos cinco anos,
propicia uma estrutura mesoeconômica de movimentando cerca de R$ 60 bilhões de
agregação de economias particulares, reais no ano passado. O consumo de leite
beneficiando as transações ao longo da fluido é de aproximadamente 60
cadeia agroalimentar, facilitando o litros/habitante/ano, que é um valor
relacionamento do produtor com as estruturas semelhante ao dos países desenvolvidos.
de mercado oligopolizadas, trazendo
A comercialização é um processo social de
economias em seus negócios através de
interações entre agentes econômicos no
escalas de negociação. Esta facilitação das
mercado. Na atividade leiteira uma parcela
negociações se refere também ao
significativa das famílias utiliza a mão de obra
estabelecimento e coordenação da qualidade
familiar disponível, não tem funcionários, não
dos produtos. As cooperativas são capazes
investe em matrizes de genética e não amplia
de atuar em mercados, sem discriminar
ou investe nas suas instalações alocando
pequenos produtores e com a vantagem de
novas tecnologias (BARROS, 2006).
prover melhor originação da produção,
certificar qualidade e processos. Alguns programas governamentais têm
contribuído significativamente para
A segunda vertente vem da diminuição dos
investimentos e aprimoramento do setor
custos de transação dos produtores rurais,
lácteo. No entanto, alguns produtores têm a
pois a forma organizacional cooperada
atividade leiteira como secundária, ou seja,
permite economias nas transações de
apenas para ter uma renda complementar,
mercado, na utilização de ativos específicos e
sem interesse de expandir a sua produção.
nas transferências de preços, de informações
estratégicas e de tecnologia. Essa ausência de foco na atividade acaba
corroborando com a “mão invisível” do
A terceira diz respeito a distribuição pro rata
mercado num processo de seleção dos
das sobras do exercício, que possibilita uma
maiores e mais preparados, que investiram e
prática de preços de médio prazo menores
estão investindo em novas tecnologias,
que os de mercado, fazendo com que os
inovando seus processos e qualificando sua
custos de produção diminuam e aumente a
mão de obra para ter ao final um produto com
renda do produtor.
maior valor agregado. Dessa forma, gerou-se
Em resumo, as vantagens das empresas uma mudança estrutural na cadeia produtiva
cooperativas estão relacionadas com a do leite e o seu modelo de produção atual
utilização correta de algumas (ZAGONEL et al., 2016).
particularidades: a possibilidade de melhor
A cadeia produtiva, no conceito de Brum
coordenação da cadeia agroalimentar como
(2012), abrange quatro grandes áreas, sendo
um todo, pelo maior contato que estabelece
a primeira relacionada à produção, com os
com o produtor; o estabelecimento conjunto
produtores de insumos, máquinas,
de estratégias corporativas através das
implementos e todos os serviços de apoio,
assembleias gerais de associados; a maior
que possibilitarão ao produtor de um bem
clareza na transferência de preços, de
gerar sua produção por meio do uso de seus
oportunidades e de informação (MARASCHIN;
fatores de produção. Na sequência, encontra-
WAQUIL, 2004).
se o sistema produtivo, que irá utilizar estes
insumos para realizar a produção em si. Em
terceiro lugar se tem a indústria de
transformação da produção (agroindústria),

Tópicos em Administração - Volume 3


21

que transforma o produto bruto em condições Segundo Braga e Reis (2002), as


de ser utilizado pelo consumidor. Por fim, cooperativas substituem serviços antes
encontra-se o bloco de distribuição, que disponibilizados pelo serviço público, sendo
envolve ainda o atacado e o varejo, além de também muitas vezes a única forma de
diversos serviços de apoio que são organizar e comercializar a produção,
necessários para propiciar a comercialização permitindo que o produtor (geralmente
do produto ao consumidor final. De forma pequeno) possa ter seu poder de barganha
resumida, o processo é uma sequência de aumentado e agregar valor aos seus
atividades que transformam uma commodity produtos, distribuindo os resultados de forma
em um produto pronto para o consumidor equitativa entre seus membros. No caso do
final. leite, a importância das cooperativas é ainda
maior, uma vez que estruturalmente o setor é
Sparemberger (2010) em seus estudos coloca
tradicionalmente muito pulverizado, composto
que os a gentes de uma cadeia mantêm uma
por milhares de pequenos produtores com
intensa relação de cooperação, já que dali
baixo poder de barganha, além do fato se
pode surgir o sucesso individual, mas
tratar de um produto sem possibilidade de
também alguns possuem conflitos resultantes
estocagem ou proteção em mercados
da busca por maiores lucros dentro da cadeia
financeiros.
do leite. Quando um elemento da cadeia sofre
com alguma dificuldade, todos os outros elos Entretanto, a relação entre cooperados e
vão sofrer alguma consequência, tanto pelo cooperativas no que se refere à produção, se
lado positivo ou não. torna, às vezes, delicada. A cooperativa
possui um compromisso de receber a
produção do cooperado, mas não há
2.3 COOPERATIVISMO DE LEITE obrigatoriedade na relação entre ambos. Ou
seja, se o associado quiser entregar sua
As cooperativas desempenham papel
produção, a cooperativa se compromete a
fundamental na estruturação do setor agrícola
recebê-la sempre, mas, por sua vez, ele,
no Brasil, contribuindo para fixação do
associado, não está obrigado a entregar
homem no campo e para a melhoria da
sempre a produção para a cooperativa. Além
distribuição de renda no setor agrícola, com
disso, não existem contratos formais que
importância social e econômica (GIAROLA, et
especifiquem quantidade e qualidade da
al. 2012).
produção a ser entregue, o que torna a
Em meado da década de 1970, as relação extremamente flexível para o
cooperativas do Rio Grande do Sul, cooperado, pois ele entrega para a
incorporaram o produto leite ao seu negócio, cooperativa a quantidade de leite que lhe for
a fim de oferecer ao produtor uma alternativa conveniente. Isso dá margem para
complementar a monocultura da soja. A infidelidade do cooperado na forma de
entrada das cooperativas nesse setor se deu desvios de produção para outros laticínios,
pela necessidade de criar novas formas de sendo que ele tem a garantia de que a
geração de renda, especialmente aos cooperativa receberá a quantidade de leite
pequenos produtores (RODRIGUES, 2000). que ele se dispuser a entregar (GIAROLA, et
al. 2012).
Para os produtores inseridos nesse sistema
de produção diversificada (leite e grãos), o
leite representa uma fonte de renda constante
3 PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS
durante o ano, livrando-o os gastos fixos (luz,
supermercado, insumos). A receita que o O presente trabalho foi desenvolvido na
produtor recebe pela venda do produto Cotriel com base em uma pesquisa qualitativa
muitas vezes nem mesmo sai da cooperativa, exploratória a partir dos relatos dos
sendo toda ela gasta pelo cooperado na entrevistados.
compra de insumos, supermercados, através
O instrumento utilizado para coleta dos dados
da conta leite. O recebimento de leite pela
foi em forma de questionário semiestruturado
cooperativa também representa uma forma de
que se deu nos meses de abril e maio de
fidelizar o produtor junto a instituição, com o
2017, através de entrevistas diretas a um
objetivo que esse entregue para a cooperativa
grupo amostral de 30 produtores de leite de
também sua produção de grãos, que é o que
Espumosos- RS, de um total de 217
agrega mais valor (MARASCHIN, 2004).
produtores.

Tópicos em Administração - Volume 3


22

As perguntas feitas durante a entrevista foram unidades regionais de beneficiamento e


de dois formatos, do tipo fechado, com duas armazenagem de grãos, com capacidade
ou mais alternativas em cada questão, onde o para duzentos e setenta e seis mil toneladas
entrevistado optou por somente por uma ou de produtos, equipadas com tecnologia e
outra resposta e perguntas abertas, de fácil controle avançado de qualidade, além de
interpretação do associado em uma conversa uma extensa área de varejo.
simples, para que pudesse aproveitar o
Observou-se que cerca de 70% dos
máximo das informações passadas pelo
associados entrevistados possuem idade
sócios. As entrevistas foram realizadas
entre 51 e 60 anos, dos quais 90% se
pessoalmente pelo pesquisador, sendo que
associaram a mais de vinte anos a
primeiramente foram informadas as diretrizes
cooperativa. Identificou-se ainda que os
iniciais da busca de informação.
associados entrevistados possuem em média
Para avaliação da coerência e aplicabilidade de dois a três filhos, sendo que desses, pelo
das questões, foi realizado um pré-teste do menos um já é sócio da cooperativa. A partir
questionário antes da aplicação a amostra desse dado, observa-se que a grande
efetiva. Foram aplicados questionários a 10 confiabilidade e credibilidade que o
funcionários do Posto de Resfriamento de associado deposita na instituição, levando
Leite da Cotriel. Após este teste, analisaram- mais membros da família a associar-se a ela.
se as opiniões dos entrevistados e
procederam-se às modificações necessárias
para que o questionário contribuísse para o 4.1 SISTEMA DE PRODUÇÃO LEITEIRA
cumprimento do objetivo do estudo.
De acordo com os dados coletados, também
O questionário utilizado integrou as seguintes foi possível identificar entre os pesquisados o
categorias de análise: perfil e caracterização tipo de mão de obra utilizada na produção
do associado/produtor de leite; leiteira. Dessa forma, percebeu-se que 27
relacionamento comercial entre associados e produtores dos 30 entrevistados, associados
cooperativa (valor recebido e valores gastos à Cotriel, utilizam a mão de obra familiar
na cooperativa); visão dos associados com (90%) e apenas, 3 utilizam o mão de obra
relação aos serviços oferecidos e qualidade contratada (10%). Diante destes dados,
dos mesmos; vantagens e desvantagens que percebe-se que os produtores de leite tendem
percebe na cooperativa; participação e a ocupar a mão de obra familiar, ou seja,
fidelidade dos cooperados; comprometimento neste tipo de atividade é utilizada a mão de
com o associado; investimento na atividade obra feminina e, também dos demais filhos. A
leiteira – curto e longo prazo, e importância da utilização da mão de obra familiar na maioria
atividade leiteira/situação atual e perspectivas dos casos é a melhor opção por não incorrer
para o futuro. em gastos, por tratar-se de pequenos
produtores, e a contratação de mão de obra
Quanto à análise dos dados, a técnica
poderia até mesmo inviabilizar a atividade.
utilizada foi a análise de conteúdo das
Segundo Souza e Waquil (2008) toda a lógica
entrevistas realizadas, correlacionando estas
de produção que minimiza custos e maximiza
informações com as teorias estudadas no
a utilização dos recursos disponíveis, permite
referencial teórico. Para Bardin (2007), na
os produtores suportarem maiores variações
análise de conteúdo, o texto é um meio de
de preços, que são frequentes no mercado de
expressão do sujeito, com o qual o analista
leite do Brasil, do que aqueles sistemas mais
busca categorizar as unidades de texto
intensivos e capitalizados.
(palavras ou frases) que se repetem, inferindo
uma expressão que as represente. Quando questionado quanto à razão de se
produzir leite, os 93,34% produtores afirmam
que a atividade gera renda mensal. A
4 ANÁLISE E DISCUSSÃO DOS segunda justificativa, de 6,66%, foi que esta
RESULTADOS atividade compõe uma tradição familiar.
Entretanto, para os produtores da Cotriel, a
A cooperativa Cotriel tem sua sede localizada
garantia de renda mensal é o fator decisivo na
na cidade de Espumoso e trabalha hoje, com
escolha da atividade.
6.833 associados, gerando 1.322 empregos
diretos. Apresenta um patrimônio líquido que Em ordem crescente, pediu-se que os
a coloca entre as maiores cooperativas do entrevistados enumerassem o grau de
Estado e possui em sua estrutura, doze importância que define a entrega da sua

Tópicos em Administração - Volume 3


23

produção leiteira à Cotriel, levando em o principal motivo que leva o entregar sua
consideração os seguintes parâmetros: produção à Cotriel, apenas 10% apontam
assistência técnica veterinária, distribuição assistência técnica veterinária subsidiada
dos resultados, crédito (conta leite), como fator mais importante e 3,33%,
remuneração da produção, cota capital, distribuição de resultados. Segundo relato
acesso aos insumos e garantia de receber informal de alguns produtores, o fato da cota
pela entrega do produto. capital só ser acessada pelo produtor após
completar 35 anos de associado a
Observou-se que a maioria dos entrevistados
cooperativa ou 70 anos de idade, ela não é
(86,6%), a certeza de receber pelo produto é
vista como vantagem imediata (Figura 1).

Figura 1: Grau de importância que define a entrega da produção leiteira à Cotriel

Aspecto Importância

1º Garantia de receber pela entrega do produto


2º Assistência veterinária subsidiada
3º Crédito (conta leite)
4º Remuneração da produção
5º Distribuição dos resultados
6º Acesso aos insumos
7º Cota capital
Fonte: Dados da pesquisa (2017).

4.2 MOTIVOS DOS PRODUTORES DE LEITE motivos que levam os produtores de leite à
ASSOCIAR-SE À COTRIEL associarem-se à Cotriel.
De acordo com os dados levantados nos Nesse aspecto, nota-se na Tabela 1, dentre
questionários, outro aspecto que auxilia a as razões que levam o produtor associar-se a
responder o objetivo do estudo, trata-se dos cooperativa, os seguintes fatores como de
maior importância.

Tabela 1: Motivos de associar-se à Cotriel


Motivo Frequencia %
Localização 3 43
Credibilidade, confiança 5 100
Capacidade armazenamento 3 33,3
Indicação de outros sócios 2 16,6
Bom atendimento 4 60
Qualidade dos produtos e serviços 5 73,3
Bonificação 5 93,3
Assistência técnica e veterinária 5 96,6
Diversidade portfólio 3 50
Condição de pagamento de insumos 5 76,6
Familiares sócios 5 83
Preço Diferenciado 5 86,6
Fonte: Dados da pesquisa (2017).

Tópicos em Administração - Volume 3


24

Indo de encontro com o estudo realizado por 4.3 SERVIÇOS UTILIZADOS E


Melesko (2012), que em seu estudo sobre RELACIONAMENTO DOS COOPERADOS
fidelidade e lealdade, concluiu que os VERSUS COOPERATIVA
principais fatores que contribuíram para a
Para a avaliação e construção de uma escala
lealdade dos associados estão relacionados
de mensuração da qualidade percebida,
com a confiança e a credibilidade da
foram formuladas questões sobre os produtos
cooperativa, boa qualidade da assistência
e serviços oferecidos pela cooperativa e
técnica, bom atendimento e bom preço dos
utilizados pelos cooperados.
produtos oferecidos pela cooperativa.
Em relação aos produtos consumidos pelos
Os demais fatores também listados como
cooperados, observou-se que todos os
muito importante para a associação dos
produtos e serviços ofertados pela
mesmos como qualidade de produtos e
cooperativa são utilizados pelos associados.
serviços; bonificação; condição de
Porém, os produtos diretamente ligados à
pagamento de insumos e preços
agricultura são os mais utilizados. Com
diferenciados são os mesmos observados por
referência aos serviços oferecidos pela
Simioni et al. (2009), que na percepção dos
cooperativa, os mais utilizados pelos
cooperados as variáveis mais importantes na
cooperados entrevistados são a
manutenção da lealdade dos mesmos são,
comercialização de produtos (leite),
respectivamente: atendimento ao cooperado,
assistência veterinária, insumos agrícolas,
confiança na cooperativa, qualidade, prazo
supermercados, loja de ferragem e
de pagamento, crédito aos cooperados,
assistência agronômica. Na Tabela 2 observa-
imagem da organização, preço e condições
se os percentuais de consumo de produtos e
de pagamento. As variáveis que mais
serviços oferecidos pela cooperativa.
interferem na ação dos cooperados estão
vinculadas a valores mercantis (preço, crédito
e condições de pagamento).

Tabela 2: Serviços utilizados pelos associados


Serviço Frequência %
Assistência agronômica 22 73,3
Assistência veterinária 30 100
Comercialização grãos 8 26,6
Insumos agrícolas 30 100
Loja de ferragem 29 96,6
Comercialização leite e carne 30 100
Armazenagem de grãos 10 30
Posto combustível 20 66,6
Supermercado 30 100
Fonte: Dados da pesquisa (2017).

Todos os entrevistados pensam num primeiro cooperativas substituem serviços antes


momento na cooperativa como fornecedora disponibilizados pelo serviço público, sendo
de produtos e serviços para a produção também muitas vezes a única forma de
leiteira. Isto está relacionado ao objetivo da organizar e comercializar a produção,
Cotriel que prima pelos seus sócios e tem em permitindo que o pequeno produtor possa ter
seus princípios o fomento da produção leiteira seu poder de barganha aumentado e agregue
que é uma das principais atividades que valor aos seus produtos, distribuindo os
viabiliza a permanência de pequenos resultados de forma equitativa entre seus
produtores familiares no meio rural. Este tipo membros.
de dado empírico se alinha ao entendimento
Quando questionados quanto ao
de Braga e Reis (2002), que dizem que as
relacionamento comercial com a cooperativa,

Tópicos em Administração - Volume 3


25

por unanimidade, os entrevistados apontaram litro entregue no período de 12 meses, retorno


o valor recebido, desenvolvimento financeiro, de 25% do valor total gasto em atendimento
econômico que a cooperativa proporciona veterinário; 1,8329% de todo o valor gasto na
como principais fatores que leva-os a Cotriel capitaliza.
relacionarem-se com a mesma. Entretanto,
Em seguida apontam o crédito em conta leite
observou-se em conversa informal que os
que funciona como um cartão de crédito, que
entrevistados percebem que esse
oferece um saldo de 70% do valor gerado em
relacionamento comercial é importante, pois
reais no mês anterior, sendo que os gastos do
ao negociar com a cooperativa, eles a
produtor realizados na cooperativa durante o
mantém no mercado. Conforme Maraschin
mês corrente são descontados do valor a
(2004) exatamente neste sentido que se torna
receber pela entrega do leite no mês
importante a questão da fidelidade dos
seguinte. Esse fator é também enfatizado por
cooperados, pois são eles mesmos os
Maraschin (2004) que trata a conta leite como
responsáveis pelo sucesso ou insucesso
um importante vínculo que se estabelece
desta instituição, que é de sua propriedade.
entre produtor e cooperativa, pois pela
A atividade leiteira intermediada pela facilidade de comprar nesta modalidade, os
cooperativa apresenta uma clara influência produtores acabam realizando grande parte
sobre as relações que se estabelecem entre das suas compras na cooperativa. Além
cooperado e cooperativa, tendo efeitos sobre disso, a conta leite permite parcelar o valor
as atividades da cooperativa em geral. Os gasto, muitas vezes sem juros. Devido a estas
efeitos não são causados pela atividade facilidades, grande parte do valor recebido
leiteira em si, mas no relacionamento mais pelo produtor pela entrega de leite fica na
frequente que ela promove. cooperativa, para cobrir os gastos feitos em
conta leite. É uma facilidade para a
Os 26,6%, que disseram que se o valor
cooperativa e para o produtor. Os gastos em
ofertado fosse consideravelmente maior,
conta leite fazem parte da discussão em torno
abandonariam a cooperativa, é que tornam a
das compras realizadas pelos produtores de
relação entre cooperados e cooperativas
leite e da importância de cada estrato de
delicada, corroborando com o exposto por
produção de leite nestas compras.
Giarola et al. (2012), de que a cooperativa
possui um compromisso de receber a Observa-se ainda que a assistência técnica
produção do cooperado, mas não há veterinária é um ponto forte da Cotriel, que
obrigatoriedade na relação entre ambos. Além conta em seu quadro com 7 veterinários e 3
disso, não existem contratos formais que técnicos que realizam serviço de inseminação
especifiquem quantidade e qualidade da artificial. Esses serviços são prestados
produção a ser entregue, o que torna a sempre que o associado solicitar através de
relação extremamente flexível para o chamados ou através de fomento, ou seja,
cooperado, pois ele entrega para a visitas técnicas visando auxiliar o produtor a
cooperativa a quantidade de leite que lhe for alcançar melhorias em sua produtividade,
conveniente. qualidade, sanidade entre outras.
Finalmente, quando questionados quanto aos
benefícios que os mesmos observam,
5 CONCLUSÃO
entregando sua produção a cooperativa, a
certeza de receber pelo produto entregue foi Os dados coletados possibilitaram identificar
apontada como a mais importante, seguida o perfil dos associados bem como realizar a
do retorno anual pago pela cooperativa, análise para ver como os associados veem a
crédito (conta leite) e assistência técnica cooperativa em relação à credibilidade,
veterinária. A variável valor recebido pelo confiança, satisfação, valor e o seu
produto foi a quinta citada. relacionamento, que são as variáveis que
influenciam na fidelidade dos associados que
Diante desse estudo, percebe-se que os
é um dos fatores de importância para o
fatores confiança, credibilidade, honestidade
sucesso de uma cooperativa, como também a
e segurança possuem influência bem mais
reciprocidade, que representa uma relação
significativa do que a variável preço
de conformidade mútua, fundamental no
semelhante ao observado por Rossés et al.
quesito satisfação do cooperado. Criar
(2015).
estímulos e incentivos diferenciados aos
Em segundo lugar ficou o retorno anual pago cooperados é determinante para a eficácia
pela cooperativa que é de R$ 0,01 por cada econômica dos serviços oferecidos.

Tópicos em Administração - Volume 3


26

Pode se concluir através do estudo que a compreensão do funcionamento da


Cooperativa em estudo é uma empresa com cooperativa e de como se valorizam as cota
grande credibilidade no município e região capital contribuiria para o aumento da
através das respostas dadas por seus fidelidade do produtor a cooperativa.
associados que em sua maioria confiam nos
Diante do exposto, é necessária a busca de
produtos e serviços oferecidos pela
mais dados que determinem o grau de
cooperativa, além de estarem satisfeitos com
satisfação dos cooperados com sua
a qualidade dos mesmos.
cooperativa, agregando melhorias ao
Concluiu-se ainda que infelizmente, a desempenho da cooperativa frente a
percepção de que como cooperados são produtores que já entregam seus produtos a
também donos não é muito clara, o que leva cooperativa, aumentando sua fidelidade e
os cooperados muitas vezes a agirem credibilidade e até mesmo aproximando
oportunisticamente e só transacionarem com produtores associados que já entregaram sua
a cooperativa quando lhes for mais produção a cooperativa e hoje entregam para
conveniente. Se o associado conhece a a concorrência. Em um cenário mais
cooperativa, ele passa a compreender que os abrangente, podendo levar a uma rede social
benefícios da instituição não estão presentes fortalecida, considerada como “capital social”
somente nos preços pagos pelo produto, mas de uma região, baseada na confiança e
em uma série de outros fatores, bem como a credibilidade interpessoal.

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14, n. 2, p. 191-205, ago./dez. 2016.
viabilidade da agricultura familiar produtora de

Tópicos em Administração - Volume 3


28

Capítulo 3

Artur Virgílio Simpson Martins


Natália Oliveira de Moraes
Vanderlídia Melo de Oliveira
Juscelino da Silva Abrantes
Jheysiane Ferreira dos Santos

Resumo: O presente trabalho teve como objetivo estudar os canais de distribuição


de hortifruti oriundos da agricultura familiar no município de Humaitá/AM. Foi
realizado um estudo de caso dos canais utilizados pelos agricultores. A pesquisa
de campo foi realizada entre os meses de janeiro e março de 2017, sendo aplicado
questionários estruturados para os principais agricultores que abastecem
mercados, restaurantes e feira da cidade. Para a análise dos dados adotou-se uma
abordagem quantitativa e descritiva do estudo, onde de acordo com os resultados,
foi possível identificar que os canais são compostos por intermediários varejistas,
que fazem diretamente a distribuição para o consumidor final. Observou-se ainda
que a maioria dos agricultores que fazem o uso de intermediários, também
comercializam seus produtos em pontos de venda próprio, adotando esta
estratégia como contrapartida à concorrência, pois há diversos agricultores
produzindo a mesma variedade de hortifruti no município.

Palavras chave: Agricultura familiar, Canais de distribuição, Hortifruti.

Tópicos em Administração - Volume 3


29

1 INTRODUÇÃO de Humaitá/AM, a fim de caracterizar


socioeconomicamente os agricultores
No Brasil, a logística está se firmando como
familiares; detalhar a logística de distribuição
uma importante ferramenta de
do hortifruti; e identificar os principais
competitividade dentro das organizações,
problemas dos agricultores familiares para
com as rápidas mudanças, influenciadas pela
distribuir o hortifruti.
tecnologia, manter-se nesta evolução torna-se
uma questão de sobrevivência no mercado.
As formas como as empresas estruturam seus 2 FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA
canais de distribuição têm se alterado
2.1 AGRICULTURA FAMILIAR
substancialmente nas últimas décadas, fruto
do ambiente cada vez mais competitivo, da A agricultura familiar tem um papel importante
maior atenção dirigida ao consumidor final, do na sociedade brasileira por impulsionar o
uso crescente da tecnologia da informação, desenvolvimento sustentável e local, bem
da maior diversificação da demanda e da como contribuir com a segurança alimentar
distribuição física mais ágil e mais confiável dos que consomem os produtos provenientes
(NOVAES; 2004, p.112). deste segmento. Seu crescimento provém da
conscientização do consumidor, que
Com efeito, os canais de distribuição devem
geralmente preocupados com a segurança
estar estruturados para que o produto seja
alimentar, optam por produtos que agridem
comercializado com qualidade, atendendo as
menos o meio ambiente e que fomentem o
expectativas dos clientes e minimizando as
desenvolvimento local. Este estudo, para
perdas nos processos. Cabe salientar que o
conceituação da agricultura familiar, adotou a
ramo hortifrutícola necessita ser desenvolvido
definição da Lei nº 11.326, de 24 de julho de
com qualidade e agilidade, pois, está
2006, que estabelece as diretrizes para a
direcionado a produção de hortaliças e frutas,
formulação da Política Nacional da Agricultura
atividades estas que requerem cuidados
Familiar e Empreendimentos Familiares
específicos em seu acondicionamento e
Rurais. Na forma da lei, considera-se
transporte. Os produtos que estão
agricultor familiar aquele que pratica
enquadrados como perecíveis merecem
atividades no meio rural, atendendo,
atenção redobrada na elaboração das
simultaneamente, aos seguintes requisitos:
estratégias de deslocamento (GOBE ET AL.
não detenha, a qualquer título, área maior do
2004, p. 181). Em Humaitá, os agricultores
que 4 (quatro) módulos fiscais; utilize
familiares são responsáveis pela produção e
predominantemente mão-de-obra da própria
distribuição de hortifruti, definindo o melhor
família nas atividades econômicas do seu
canal, para que não haja perdas no processo,
estabelecimento ou empreendimento; tenha
visto a perecibilidade do produto e a
percentual mínimo da renda familiar originada
exigência da qualidade por parte dos clientes.
de atividades econômicas do seu
O presente trabalho apresenta um estudo de estabelecimento ou empreendimento, na
caso atual dos canais de distribuição forma definida pelo Poder Executivo; e dirija
utilizados pelos agricultores familiares no seu estabelecimento ou empreendimento com
município de Humaitá/AM, onde os mesmos sua família.
por meio de intermediários realizam a
O último Censo elaborado da agricultura
comercialização do hortifruti. A partir deste
familiar, que apresenta estatísticas da
estudo possíveis melhorias no sistema de
situação desta atividade no Brasil e nos
distribuição dos agricultores podem ser
estados, foi realizado em 2006 pelo Instituto
desenvolvidas, para que o consumidor final
Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
obtenha um produto de qualidade. Como
No Censo Agropecuário de 2006, foram
afirma Machado e Silva (2004), “sabe-se que
identificados 4 367 902 estabelecimentos da
um produtor informado sobre aspectos como
agricultura familiar, o que corresponde a
canais de distribuição disponíveis, preços e
84,4% dos estabelecimentos brasileiros.
condições de mercado, consumo, qualidade
Ocupando uma área de 80,25 milhões de
e embalagem possui maiores possibilidades
hectares, ou seja, 24,3% da área ocupada
de vender melhor sua mercadoria,
pelos estabelecimentos agropecuários
conseguindo lucros superiores.”
brasileiros. A pesquisa ainda destacou que o
Neste contexto, o objetivo deste trabalho é valor médio da produção anual da agricultura
estudar os canais de distribuição de hortifruti familiar foi de R$ 13,99 mil. No que diz
oriundos da agricultura familiar no município respeito ao uso da terra, dos 4,3 milhões de

Tópicos em Administração - Volume 3


30

estabelecimentos de agricultores familiares, Gobe et al. (2004, p. 171) enfatizam que os


3,2 milhões de produtores tinham acesso às canais de distribuição são compostos por
terras na condição de proprietários. Outros fabricantes, intermediários e consumidor final.
170 mil produtores declararam acessar as Sendo os fabricantes ressaltados neste
terras na condição de “assentado sem estudo como o agricultor familiar, têm-se
titulação definitiva”. Entretanto, outros 691 mil neste sentido o fabricante como elo inicial do
produtores tinham acesso temporário ou canal de distribuição, sendo o responsável
precário às terras, seja na modalidade pela produção e criação de valor ao produto.
arrendatários (196 mil produtores), parceiros
A melhoria no desenvolvimento do fluxo
(126 mil produtores) ou ocupantes (368 mil
logístico no canal de distribuição até o
produtores). Em relação à mão-de-obra o
consumidor final, deve ser baseada na oferta
Censo registrou 12,3 milhões de pessoas
do produto no mercado, por meio de
vinculadas à agricultura familiar (74,4% do
intermediários que desenvolvem esta
pessoal ocupado) em 31.12.2006, com uma
atividade com eficiência na cadeia de
média de 2,6 pessoas, de 14 anos ou mais,
suprimento (NOVAES, 2004, p.112). Sendo
ocupadas.
assim os intermediários participam
No Amazonas o Censo registrou 61.843 diretamente da distribuição do produto e o
estabelecimentos familiares, que disponibilizam no mercado, podendo ter um
correspondem a uma área de 1.477.045 contato mais próximo com o consumidor final.
hectares. As receitas obtidas pelos Como afirma Gobe et al. (2004, p. 171), a
estabelecimentos declarados (51.979) foram solução mais viável encontrada pelas
de R$ 495.743 mil. Os dados apresentados organizações é exatamente a inclusão de
confirmam o crescimento deste segmento no intermediários, podendo ser ou não
Brasil. Silva (2013), acrescenta que “a exclusivos, que realizam o trabalho de
agricultura familiar vem demonstrando a distribuição dos bens ou serviços como
possibilidade de unir o rendimento econômico principal atividades de seus negócios.
e social colaborando para uma melhoria nas
Os intermediários encontrados como sujeitos
condições de vida tanto do agricultores
integrantes do canal de distribuição nesta
familiares, quanto das populações urbanas.”
pesquisa, foram identificados como varejistas.
Os intermediários varejistas, de acordo com
Churchill (2012, p. 424):
2.2 CANAIS DE DISTRIBUIÇÃO
se dedicam principalmente a vender para
Segundo Arnold (1999, p. 356), “um canal de
consumidores finais, após comprar a
distribuição corresponde a uma ou mais
mercadoria de fabricantes ou atacadistas,
empresas ou indivíduos que participam do
dedicam-se a vendas individuais, quer
fluxo de produtos e/ou serviços desde o
operem ou não em lojas. São organizações
produtor até o cliente ou usuário final.” Com
como loja de especialidades, supermercados,
isso, ao que concerne organizações dispõem
podem ser varejo sem loja como marketing
sejam de serviços ou produtos para
direto, venda direta e telemarketing.
consumidores finais envolvidos assim em um
processo de distribuição, buscando eficiência Ainda segundo Churchill (2012, p. 425), “os
no ciclo logístico da cadeia de suprimento. E varejistas proporcionam benefícios tanto para
de acordo com Gobe et al. (2004, p. 168), é os fornecedores (produtores e atacadistas)
um fluxo cronológico que um produto percorre quanto aos compradores. Aos primeiros
desde a origem da matéria-prima passando porque lhes oferecem um modo eficiente de
pela produção, até sua oferta no ponto-de- colocar os produtos à disposição dos
venda. consumidores, e do ponto de vista do
comprador, os varejistas podem criar valor
Segundo Novaes (2004, p. 116), “a escolha
por colocar os produtos à disposição em
do canal não é realizada ao fim do processo
horários e épocas do mês ou do ano
de planejamento da empresa, mas deve ser
convenientes.” Com isso, o intermediário
formulada como uma parte integrante de sua
varejista cria um ciclo logístico de
estratégia competitiva geral.” Com efeito, o
confiabilidade na distribuição do produto,
canal optado deve ser analisado com atenção
fazendo um uso da logística de distribuição
para obtê-lo como um diferencial competitivo
eficiente e de qualidade.
em meio ao planejamento empresarial.
Como enfatiza Gobe et al. (2004, p. 170) “são
os intermediários que proporcionarão grandes

Tópicos em Administração - Volume 3


31

quantidades de determinado produto que averiguação das possibilidades e levando em


tenha uma variedade limitada. Já no outro consideração fatores como custo e tempo
ponto dessa cadeia de distribuição está o para se aplicar a pesquisa no perímetro
consumidor, com sua necessidade de baixa urbano e no perímetro rural, optou-se apenas
quantidade de produtos, mas com grande por trabalhar com o perímetro urbano, visto
variedade deles.” Sendo os consumidores por que desta forma torna-se mais viável
sua vez, os agentes finais presentes no canal tecnicamente executar os objetivos
de distribuição podendo assim receber o levantados por esta pesquisa.
produto de maneira mais prática e ágil no
Para compreender a estrutura de distribuição
mercado.
dos agricultores, foi aplicado um questionário
impresso, com caráter estruturado, constituído
por quinze perguntas, sendo cinco fechadas
3 METODOLOGIA
e dez abertas, relacionadas a identificação
Este estudo consiste em uma pesquisa de dos canais de distribuição de hortifruti, a
campo com caráter exploratório. Embora caracterização dos agricultores e a
existam diversos estudos sobre agricultura configuração de seus processos de
familiar, nenhum aborda o objeto deste distribuição, sendo aplicado para treze
trabalho, que se delimita no município de agricultores familiares. Estima-se que existe
Humaitá/AM, caracterizando assim esta cerca de quinze agricultores familiares, que
pesquisa como exploratória. Foram realizadas produzem variedades de frutas e hortaliças no
entrevistas com agricultores familiares que perímetro urbano. Destes quinze, foram
estão diretamente envolvidos com a área apenas entrevistados treze, por questões de
pesquisada, levantamento bibliográfico e localização correta dos agricultores os demais
comparação entre os casos já pesquisados não puderam ser entrevistados. Para análise
para uma melhor compreensão. A pesquisa dos dados será adotado uma abordagem
de campo foi realizada entre os meses de quantitativa e descritiva.
janeiro e março de 2017. Os sujeitos da
pesquisa são constituídos pelos principais
agricultores familiares que por meio de sua 4 RESULTADOS E DISCUSSÃO
produção de hortifruti abastecem os
4.1 CARACTERÍSTICAS DOS
supermercados e vendem seus produtos na
AGRICULTORES FAMILIARES DE
feira de Humaitá/AM.
HORTIFRUTI
Humaitá, segundo estimativa do Instituto
Para estudar os canais de distribuição de
Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a
hortifruti no município de Humaitá/AM,
população é de 50.230 habitantes, com área
elaborou-se um questionário, que foi aplicado
de 33.129,13 Km², localizada ao sul do Estado
aos agricultores familiares com o objetivo de
do Amazonas à margem esquerda do Rio
conhecer a área em que se fundamenta esta
Madeira. A multimodalidade está presente na
pesquisa. Foi realizado um levantamento de
cidade por via fluvial (hidrovia do Madeira) e
dados junto ao Instituto de Desenvolvimento
rodoviário (BR-319 e BR-230), facilitando a
do Amazonas (IDAM), para identificar a
distribuição nas operações logísticas.
quantidade de agricultores familiares
O Instituto de Desenvolvimento do Amazonas existentes no município que possuem
(IDAM), indicou os agricultores familiares de plantação no perímetro no urbano.
forma aleatória, fornecendo nome e endereço.
O questionário, foi elaborado e aplicado pelas
A partir destes dados levou-se em
pesquisadoras. Após a análise das questões
consideração alguns critérios para escolha
propostas, buscou-se caracterizar o agricultor
dos sujeitos, tais como: produzir frutas e
familiar, detalhando sua logística de
hortaliças, serem agricultores familiares que
distribuição para conhecer os canais
abastecem mercados, restaurantes e vendem
existentes e identificando as principais
seus produtos na feira da cidade e
dificuldades para a comercialização do
agricultores que produzem e comercializam
hortifruti.
hortifruti no perímetro urbano. Após a

Tópicos em Administração - Volume 3


32

38%
Masculino
62%
Feminino

FIGURA 1: SEXO DOS AGRICULTORES uma diferença significativa entre os sexos,


ENTREVISTADOS. sendo o homem o principal agente na
agricultura, como pode ser observado no
Diante dos resultados expostos acima, no que
estudo de Nayara Souza, na Universidade
se refere ao sexo predominante na agricultura
Federal de Viçosa, no curso de Geografia, em
familiar, o homem aparece em maior
seu artigo intitulado “Agricultura Familiar:
quantidade, mas destaca-se que há um
Caracterização dos Agricultores que
percentual significativo na figura da mulher
comercializam seus produtos na Feira de
como agricultora. Outros estudos apontam
Sábado À Avenida Santa Rita, Viçosa-MG”.

Figura 2: Faixa etária.

8%
31% até 35 anos

entre 36 a 50 anos
61%
mais de 50 anos

Como apresentado na figura 2, a maioria dos agricultores familiares encontram-se na faixa etária
entre 36 a 50 anos. Estando o mais novo com 31 anos e o mais velho com 58 anos. A maioria dos
entrevistados afirmam que são agricultores há aproximadamente 20 anos, e seguiram este
segmento pela influência de familiares que atuavam na área.

Tópicos em Administração - Volume 3


33

Figura 3: Escolaridade dos agricultores.

1ª a 4ª série do ensino
fundamental completo
5ª a 7ª série do ensino
8% 15% fundamental completo
8%
8% Ensino médio completo

23% 38% Ensino superior


completo
Analfabeto

Curso técnico

Diante dos resultados observados acima, completo. Entre os agricultores familiares


pode se perceber o grau de escolaridade dos nesta pesquisa identificou-se também um
agricultores familiares entrevistados, sendo agricultor tendo o ensino superior completo, e
que sete não possuem ensino fundamental um com curso técnico referente à área
completo, um dos entrevistados é analfabeto, agrícola.
e apenas três possuem o ensino médio

TABELA 1: Características gerais dos agricultores familiares de Humaitá/AM.


Área
Nº de agricultores de familiares Nº de hortifruti identificados
(média)
13 14,08 ha 17

Em Humaitá, as áreas dos agricultores atividades relativas à venda de produtos ou


visitados variam entre 0,01 hectare até 5,5 serviços diretamente aos consumidores finais,
hectares. De acordo com a tabela 1, foram para uso pessoal e não-comercial.
identificados 17 tipos de hortifruti, com
Durante a pesquisa observou-se que além
variedades de rúcula, goiaba, maxixe, açaí,
desses agentes varejistas há também o
dentre outros. Os agricultores familiares
contato do agricultor familiar com o
produzem mais de um tipo de hortifruti.
consumidor final, através da venda porta-a-
porta. Outra forma de distribuição
identificada, foi a venda dos produtos, por
4.2 CANAIS DE DISTRIBUIÇÃO
meio de licitação, para o setor de merenda
IDENTIFICADOS
escolar do município. A frequência de
Os agricultores familiares realizam a escoamento da produção (venda e entrega)
distribuição do hortifruti por meio de do hortifruti é diário, não possuindo uma
intermediários, que são os varejistas, quantidade fixa, em virtude de que produtos
identificados na pesquisa por feiras, hortifrutícolas são perecíveis, e a demanda
supermercados e clientes empresariais do por parte do consumidor final varia. O fluxo
ramo das refeições coletivas. Kotler (2000), p. dos canais identificados podem ser
540, afirma que o varejo inclui todas as observados na figura 1.

Tópicos em Administração - Volume 3


34

FIGURA 1: Fluxo dos canais de distribuição de hortifruti em Humaitá/AM.

A partir da figura 1, com os canais 4.4 REFEIÇÕES COLETIVAS


identificados, foi quantificado o número de
Segundo Machado e Silva (2004), o mercado
agricultores que distribuem os produtos para
de alimentação compreende as refeições
os agentes varejistas. Para a feira há um total
feitas em casa ou fora de casa. No ramo de
de seis agricultores fazendo essa distribuição.
refeições coletivas, observou-se que são
No ramo das refeições coletivas atuam três
poucos os produtores que distribuem por este
agricultores. E nos pequenos/médios
canal, visto a quantidade de restaurantes no
supermercados o fornecimento dos produtos
município, pois a estimativa é de existam
é realizado por sete agricultores. Além dos
cerca de dez estabelecimentos atuando nesta
canais citados, dois agricultores fazem a
área. Na pesquisa foram identificados que
venda porta-a-porta, e quatro fazem a
apenas três agricultores realizam esta
distribuição para a merenda escolar.
distribuição direta por este canal.
Apesar de haver a utilização deste canal,
4.3 FEIRAS destaca-se que há pouca demanda deste
setor por produtos oriundos da agricultura
Segundo o dicionário de Língua Portuguesa
familiar. Dados da pesquisa confirmam que
(2008), a feira é um espaço público ao ar livre,
essa demanda é baixa em virtude de que
onde são expostas mercadorias para compra
empresas de refeições coletivas fazem
e venda. Em Humaitá, a feira está localizada
aquisição do hortifruti diretamente na feira.
no mercado municipal Hélio Lôbo, na rua
Monteiro, s/nº no centro da cidade. O
mercado funciona todos os dias, com uma
4.5 PEQUENOS/MÉDIOS SUPERMERCADOS
maior movimentação de clientes aos finais de
semana. Ofertando uma variedade de De acordo com Novaes (2004, p. 6) “em lugar
produtos, com bancas de hortifruti, açougue, de ser atendido pelo varejista do armazém,
peixaria, restaurante, artesanato entre outros. que antes conservava com o consumidor e o
A comercialização do hortifruti é feita em uma auxiliava na escolha de produtos e marcas, o
pequena parte do mercado, e quem cliente do supermercado faz suas compras
comercializa não é necessariamente o sozinho, apanhando as mercadorias e
agricultor familiar, destacando que este canal pagando ao sair do estabelecimento.” Com
não é de exclusividade dos mesmos. Muitos isso, pode-se entender o supermercado como
feirantes adquirem os produtos dos um local onde o poder de escolha está no
agricultores familiares para colocá-los à consumidor, que decide e anseia por
venda em suas bancas. produtos e cria um ciclo comercial com o
varejista.

Tópicos em Administração - Volume 3


35

Como enfatiza Bertaglia (2009, p.145), o casos ainda em que são feitos os pedidos via
modelo de supermercados está relacionado telefone, informando ao agricultor a
às vendas de altos volumes, preço baixo e quantidade desejada de hortifruti. O contato
margem baixa. Para tanto, buscam trabalhar a por telefone ocorre geralmente a partir das
cadeia de abastecimento com custos dezoito e trinta horas, e a distribuição física do
significamente competitivos. Estima-se que o hortifruti para pequenos/médios
município de Humaitá possui cerca de dez supermercados são entregues pela parte da
estabelecimentos que se enquadram como manhã, bem como para as empresas do ramo
pequenos/médios supermercados. Este setor de refeições coletivas. Já para a feira essa
é abastecido por sete agricultores familiares, distribuição começa a partir das cinco horas,
e segundo os mesmos a frequência de levando em consideração o horário de
distribuição é diária. Nos pequenos abertura do mercado (seis horas), e segundo
supermercados a quantidade de hortifruti o agricultor, o horário é propício para
distribuída é fixa, já nos médios manusear o hortifruti e manter os produtos em
supermercados essa quantidade varia. uma temperatura estável, pois o meio de
transporte utilizado não possui refrigeração.
O desconto por perda dos produtos que não
foram vendidos é feito pelos médios Após a colheita do hortifruti, que é realizada
supermercados através de um acordo entre diariamente pelo agricultor, no horário entre
as partes. O agricultor enfatiza que esta ás 18:00 e 19:00 horas, inicia-se o processo
medida é tomada para manter a qualidade de embalagem do produto. As hortaliças são
dos produtos ofertados, pois estes higienizadas e amarradas em maços, com
estabelecimentos não possuem um local exceção da pimenta que é colocada em
adequado para armazenamento do hortifruti. redinhas. A embalagem para distribuição é
feita em sacos plásticos grandes, onde são
acondicionadas todas as hortaliças. As frutas,
4.6 LOGÍSTICA DE DISTRIBUIÇÃO são embaladas para a distribuição em caixas
de plástico, papelão, madeira e em sacos
Para ser comercializado o hortifruti, o primeiro
capa-fardo. Em média os agricultores levam
contato do agricultor com o varejo é realizado
meia hora para distribuir o hortifruti aos seus
por meio do pedido, normalmente
clientes. Na figura 4 é quantificado os tipos de
concretizado pessoalmente no momento da
embalagens utilizadas pelos agricultores
entrega do produto que já foi solicitado. Há
familiares.

Figura 4: Tipos de embalagens.

Madeira
22% 11%
11% Papelão
6%
Plástico
50%
Sacos plásticos

Outros

O transporte é realizado na maioria das vezes percorrida para a entrega dos produtos é
pelo agricultor, onde o mesmo utiliza o seu curta, logo o meio de transporte não é
meio de transporte particular para distribuir o refrigerado. A realização do transporte em
hortifruti. Como já destacado, a distância outros casos é feita pelo comprador que vai

Tópicos em Administração - Volume 3


36

até o agricultor, em um horário já combinado agricultor adaptou uma caixa d’água à


entre os mesmos, e faz o recolhimento da carrocinha, onde o mesmo acondicionava as
mercadoria. Identificamos na pesquisa, que hortaliças para serem transportadas, que
os meios de transporte mais utilizados pelos segundo ele preservaria melhor o produto
agricultores são: moto com carrocinha; carro; contra injúrias em relação a temperatura.
carrinho de mão e bicicleta elétrica. Na moto Como pode ser observado na figura 5.
com carrocinha, foi observado que um

Figura 5: Meios de transporte.

Bicicleta elétrica

25% 25% Carro

8% Carrinho de mão
8%
34%
Moto com
carrocinha
Outros

4.7 DIFICULDADES PARA A embalagem individualmente de seus


COMERCIALIZAÇÃO DO HORTIFRUTI produtos, como não há a armazenagem do
hortifruti, após a colheita são geralmente
A perecibilidade dos produtos hortifrutícolas
acondicionados em sacos plásticos grandes
exige que o agricultor familiar desenvolva
para serem distribuídos, segundo os
práticas adequadas para manusear o produto
agricultores nesta etapa é extraviado muitas
em todas as etapas, para detectar possíveis
vezes o produto, tornando-se um empecilho
injúrias e falhas nas atividades, contribuindo
para a comercialização. O transporte também
para a melhoria da qualidade do produto
destaca-se por ser uma das etapas que pode
ofertado. Como afirma Chitarra (2005, p.187):
alterar a qualidade do hortifruti, em algumas
As perdas pós-colheita podem ocorrer a partir vezes resultando em perdas significativas. A
do ato da colheita pelo manuseio incorreto e maioria dos agricultores alegou que muitos
continuar nas etapas subsequentes até a produtos são extraviados por causa das
mesa do consumidor, devendo ser condições do transporte, enfatizando a
identificadas em cada local, para cada distância percorrida e as condições climáticas
produto, visando à melhoria das condições de da região para manter a integridade física do
manuseio e uso de tecnologias adequadas à hortifruti. Para manter o produto com boa
fisiologia do produto. aparência os agricultores optam por iniciar a
distribuição do hortifruti entre às 05:00 e 08:00
Dentre as etapas para comercializar o
horas da manhã, horário que segundo eles a
hortifruti, destaca-se a embalagem, que por
temperatura encontra-se mais amena.
sua vez ajuda a preservar a integridade física
do produto. A embalagem é responsável pela Na pesquisa além das dificuldades
proteção e pela conservação do produto discorridas sobre as etapas que estão
desde o campo até o consumidor, com a diretamente ligadas à distribuição do hortifruti,
função de contenção, proteção, transporte, os agricultores ainda destacaram outros
conservação, informação e venda fatores que influenciam na comercialização,
(CHITARRA, 2005, p. 289). Dados da tais como: falta de clientes, falta de
pesquisa apontam que os agricultores assistência técnica e concorrência.
familiares entrevistados não fazem a

Tópicos em Administração - Volume 3


37

5 CONCLUSÃO esta razão há a presença do intermediário


para disponibilizar o produto ao consumidor.
A distribuição do hortifruti produzido por
Dos agricultores entrevistados, identificou-se
agricultores familiares em Humaitá/AM, tem
que apenas três distribuem o produto para o
como principais agentes intermediários
setor de refeições coletivas, sendo o canal
varejistas, feiras, pequenos/médios
com menos perspectivas de expansão em
supermercados e empresas do ramo de
virtude da baixa demanda por produtos e
refeições coletivas. Foi observado ainda que a
pouca quantidade de empresas deste ramo
maioria dos agricultores que fazem o uso de
no município.
intermediários, também buscam outras formas
para comercializar o hortifruti, tais como: em Os pequenos/médios supermercados
pontos de venda próprio, para o setor de adquirem o hortifruti dos agricultores
merenda escolar municipal e venda porta a familiares diariamente, em quantidade fixa,
porta. medida tomada para controlar o
abastecimento do produto e evitar
O principal canal utilizado pelos agricultores é
desperdícios. Em alguns casos, o hortifruti
a feira, destacando-se por seu contato direto
não vendido é devolvido ao agricultor, sendo
com o consumidor final, e por ser o ponto
um ponto a ser analisado na escolha deste
mais procurado para aquisição do hortifruti.
canal, pois ainda há custos com transporte e
Apesar de ser o canal mais utilizado, não é de
embalagem, o que pode inferir no lucro do
exclusividade dos agricultores familiares, por
agricultor.

REFERÊNCIAS
[1]. ACADEMIA BRASILEIRA DE LETRAS. noticia_visualiza.php?id_noticia=987> Acesso em
Dicionário escolar da língua portuguesa. 2.ed. – 05 de janeiro de 2017.
São Paulo: Companhia Editora Nacional, 2008.
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[2]. ARNOLD, J. R. Tony. Administração de marketing: a edição do novo milênio. São Paulo:
materiais: uma introdução. 1.ed. São Paulo, SP: Prentice Hall, 2000.
Atlas, 2014.
[9]. MACHADO, Dantas Melise; SILVA, Lago
[3]. BERTAGLIA, Paulo Roberto. Logística e Andrea. Distribuição de produtos provenientes da
gerenciamento da cadeia de abastecimento. agricultura familiar: um estudo exploratório da
2.ed.rev.e atual. São Paulo: Saraiva, 2009. produção de hortaliças. Artigo. O.R. & A. Revista
de Administração da UFLA – v.6 – n.1 –
[4]. BRASIL, Lei nº 11.326, de 24 de julho de
janeiro/junho 2004. 14 p.
2006. Disponível
em:http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato200420 [10]. NOVAES, Galvão Antônio. Logística e
06/2006/lei/l11326.htm. Acesso em 10 de janeiro gerenciamento da cadeia de distribuição:
de 2017. estratégia, operação e avaliação. 2.ed.- Rio de
Janeiro: Elsevier, 2004.
[5]. CHURCHILL, Gilbert A. Marketing: criando
valor para os clientes. 3 ed. São Paulo: Saraiva, [11]. SILVA, Hein Cláudia. Produtos da
2012. agricultura familiar na alimentação escolar do
município de Arroio dos Ratos – RS. Monografia –
[6]. GOBE, Antonio Carlos; MOREIRA, Júlio
Universidade Federal do Rio Grande do Sul, curso
César Tavares (Coord). Gerência de produtos. 1
de Ciências econômicas, 2013. 66 p.
ed. São Paulo, SP: Saraiva, 2004.
[12]. SOUZA, Oliveira Nayara. Agricultura
[7]. INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA
Familiar: Caracterização dos Agricultores que
E ESTATÍSTICA (IBGE). Censo agropecuário:
comercializam seus produtos na Feira de Sábado à
agricultura familiar. Rio de Janeiro, p.1-267, 2006.
Avenida Santa Rita, Viçosa-MG. Artigo -
Disponível em
Universidade Federal de Viçosa, curso de
<http://www.ibge.gov.br/home/presidencia/noticias/
Geografia. 17 p.

Tópicos em Administração - Volume 3


38

Capítulo 4

Ximena Novais de Morais


Maria Lucia Figueiredo Gomes Meza

Resumo: O presente artigo tem o objetivo de identificar o impacto das Políticas de


Ciência, Tecnologia e Inovação (PCT&I) no Brasil no âmbito da Educação
Profissional, Técnica e Tecnológica (EPTT) a partir de 2002. As PCT&I representam
uma aposta do governo como mecanismo para o desenvolvimento do país. Foram
identificadas quatro grandes políticas no período analisado: PNCT&I, PACTI, ENCTI
(2012-2015) e ENCTI (2016-2022). No que se refere à EPTT, foram identificadas
mudanças na legislação e também a formulação de alguns programas destinados à
ampliação do setor. Abordando um panorama desde o ano de 2002, é possível
reconhecer iniciativas diversas, mas, ao mesmo tempo, uma caminhada incipiente
no sentido de consolidar a PCT&I como uma estratégia de desenvolvimento
articulada com as políticas de educação. Entretanto, é possível observar que o
mote ciência, tecnologia e inovação tem sido constantemente invocado nas
políticas educacionais e nos textos legislativos relacionados à EPTT desde 2002.
Considerando o potencial de aproveitamento da rede de educação profissional, a
associação das PCT&I com as políticas educacionais é uma das medidas
necessárias para a composição de uma estrutura fortalecida de desenvolvimento
do país.

Palavras-chave: PCT&I, Educação Profissional, Técnica e Tecnológica, Políticas


Públicas.

Tópicos em Administração - Volume 3


39

1 INTRODUÇÃO tecnológico. Por fim, as considerações finais


abordam a relação entre a PCT&I e o sistema
As Políticas de Ciência, Tecnologia e
educacional de ensino profissional, técnico e
Inovação (PCT&I) representam uma aposta do
tecnológico, especificamente a incidência das
governo no desenvolvimento mediante
temáticas de ciência, tecnologia e inovação
instrumentos orientados para buscar soluções
nas políticas de EPTT e a identificação de
para grandes desafios sociais, ambientais e
eventuais instrumentos de ação transversal.
econômicos (MCTI, 2016).
Também, são apontados os desafios a serem
Comumente é indicado que a política pública enfrentado e as possibilidades de estudos
é, ao mesmo tempo, o que o governo futuros e de aproveitamento de
pretende fazer e o que escolhe não fazer potencialidades correspondentes à inter-
(DIAS; MATOS, 2012). A opção pela alocação relação entre as políticas educacionais e a
de recursos em políticas de ciência, PCT&I.
tecnologia e inovação representam uma das Assim, dadas as discussões apresentadas,
opções feitas pelo governo no âmbito da sua pretende-se responder a questão: quais foram
atuação. as mudanças que ocorreram nas PCT&I no
A educação é um dos meios pelo qual a Brasil a partir de 2002 e quais impactos
PCT&I pode ser expressada efetivamente. tiveram na educação profissional, técnica e
Assim, a articulação e eventuais impactos da tecnológica?
PCT&I com as políticas e programas da rede
de educação profissional, técnica e
tecnológica são o foco do presente trabalho. 2 METODOLOGIA
A educação profissional de nível médio, A metodologia adotada para a investigação
conforme resolução, “articula-se com o Ensino da questão proposta é a da pesquisa
Médio e suas diferentes modalidades, exploratória, combinada com método
incluindo a Educação de Jovens e Adultos descritivo. Para tanto, foi utilizado referencial
(EJA), e com as dimensões do trabalho, da teórico a partir de autores que abordaram os
tecnologia, da ciência e da cultura” (MEC, temas de ciência, tecnologia e inovação e
2002). Destaca-se que há indicação no texto educação profissional no Brasil. Também,
legislativo que a Educação de Jovens e foram levantados documentos correlatos às
Adultos deve articular-se, preferencialmente, PCT&I e EPTT no Brasil a partir de 2002, na
com a Educação Profissional e Tecnológica, a esfera do governo federal. Os documentos
fim de proporcionar de forma simultânea a para exploração do tema foram textos
qualificação profissional e a elevação dos legislativos, planos de ação e relatórios de
níveis de escolaridade dos trabalhadores execução dos programas previstos para a
Sobre a educação profissional de viés área de ciência, tecnologia e inovação e para
tecnológico, define a Resolução CNE/CP 3, de a área de educação profissional. A partir
18 de dezembro de 2002: desses documentos foram levantadas
referências à instituição de políticas
A educação profissional de nível tecnológico, transversais envolvendo os setores de
integrada às diferentes formas de educação, educação profissional e ciência, tecnologia e
ao trabalho, à ciência e à tecnologia, objetiva inovação ou à indicação de intenções ou
garantir aos cidadãos o direito à aquisição de diretrizes previstas para a relação desses
competências profissionais que os tornem setores, sob a perspectiva da emergência das
aptos para a inserção em setores profissionais PCT&I mais recentes. Os pontos de
nos quais haja utilização de tecnologias. convergência são destacados no
O presente trabalho é dividido em cinco desenvolvimento da discussão.
seções, iniciando-se pela introdução. Na
seção seguinte é esclarecida a metodologia
de pesquisa adotada para a condução do
trabalho desenvolvido para o presente artigo. 3 A PCT&I NO BRASIL – UM OLHAR A
A terceira seção apresenta um levantamento PARTIR DE 2002
da PCT&I e seus instrumentos no Brasil a
partir do ano de 2002. Na quarta seção O sistema de ciência e tecnologia brasileiro
procura-se identificar os impactos da PCT&I foi criado em sua maior parte durante o
nas políticas e programas do sistema regime militar. Apesar da ascensão do setor
educacional de ensino profissional, técnico e nesse período, já na década de 80 o que se

Tópicos em Administração - Volume 3


40

presencia é um período de sucateamento do com a participação direta de diversos outros


setor, parte por conta da alta conta de ministérios, inclusive o Ministério da Educação
endividamento externo herdada do período (MEC), que recebe maior atenção no presente
anterior. Em meados dos anos 90 é quando o trabalho. A política aponta em sua proposta a
viés inovação é vinculado, formando-se o tripé necessidade de dedicar esforços para a
de ciência, tecnologia e inovação, expansão e a estabilização dos recursos
acompanhando uma tendência no cenário destinados aos atores que compõem Sistema
internacional. É nesse período também em Nacional de Ciência, Tecnologia e Inovação
que se tem início um processo de reforma do como condição essencial para seu
Estado. Com a implementação de um desenvolvimento. Sobre sistemas de
processo direcionado à uma maior parcela de inovação, vale invocar o conceito de
desestatização, destacado especialmente a Albuquerque (2004, p. 9), para o qual sistema
partir da política de privatizações adotada, de inovação é “um conceito síntese da
surgem entidades que terão um papel elaboração evolucionista (ou neo-
importante no setor de ciência e tecnologia, schumpeteriana): ele expressa o complexo
como as agências reguladoras e as agências arranjo institucional que impulsionando o
executivas (DIAS, 2012; MOTOYAMA, 2004). progresso tecnológico determina a riqueza
das nações”.
O recorte temporal de investigação do
presente trabalho contempla o período de A PNCT&I teve como objetivo específico:
governo dos presidentes Lula, Dilma Rousseff
o estabelecimento e a consolidação de um
e Michel Temer. Em 2002, o governo Lula tem
novo aparato institucional para a promoção de
início com planos de continuidade para a área
ciência, tecnologia e inovação, no país, a
de ciência e tecnologia em relação ao
partir da adoção de novos marcos legais e
governo de Fernando Henrique Cardoso. Um
reguladores e do fortalecimento de
grande passo dado na gestão anterior foi a
mecanismos, instrumentos e programas que
criação dos Fundos Setoriais quando, a partir
permitam maior consistência às ações com
de 1999 a ênfase do governo em C&T passa a
essa finalidade. (CGEE, 2006, p. 26)
incorporar políticas de incentivo à inovação
com a criação de mecanismos de fomento De fato, houve diversas iniciativas importantes
para aumentar os recursos em P&D e permitir no âmbito legislativo. Um dos principais
a concretização de projetos de inovação passos foi a promulgação da chamada lei da
tecnológica. Estabelece-se assim um novo Inovação 10.973/04, que dispõe sobre
quadro jurídico e institucional que traz em seu incentivos à inovação e à pesquisa científica e
bojo um conjunto de leis para a criação dos tecnológica no ambiente produtivo. No
Fundos Setoriais, receitas fiscais e para- mesmo mês foi promulgada a Lei 11.079/04
fiscais vinculadas que têm como objetivo o que regulamentou as parcerias público-
desenvolvimento científico e tecnológico de privadas ao instituir as normas gerais para a
um determinado setor (PACHECO, 2007; licitação e contratação de parceria público-
MOTOYAMA, 2004). Os Fundos Setoriais são privada no âmbito da administração pública.
instrumentos de financiamento de projetos de Outro importante passo foi a criação da Lei
pesquisa, desenvolvimento e inovação no 11.196/05, também conhecida como “Lei do
País, sendo constituídos com o propósito bem” e que prevê em seu conteúdo a
modelo de convergência entre a política concessão de incentivos fiscais para que
industrial e as políticas de C&T e tiveram empresas realizem investimentos em
grande impacto no orçamento do Ministério pesquisa e desenvolvimento. Estima-se que a
de Ciência e Tecnologia (MCT). São isenção fiscal referente a investimentos
dezesseis os Fundos Setoriais em vigência empresariais em PD&I a partir da
desde então, sendo quatorze orientados para promulgação da Lei do Bem foi de R$ 1,8
setores específicos e dois com orientação bilhão, para mais de mil empresas (ARAÚJO
transversal. et al, 2016).
A formulação da primeira política Com a reeleição do presidente Lula, foi
contemplada pelo período analisado, a elaborado pelo MCT o Plano de Ação em
Política Nacional de Ciência, Tecnologia e Ciência, Tecnologia e Inovação para o
Inovação (PNCT&I), foi influenciada pelos Desenvolvimento Nacional (PACTI), também
debates realizados na 2ª Conferência conhecido como PAC da Ciência. O PACTI
Nacional de Ciência, Tecnologia e Inovação. destacou-se por ir além do formato de um
Esta política foi conduzida pelo MCT e contou protocolo de intenções, como foram os

Tópicos em Administração - Volume 3


41

PBDCTs da década de 70, sendo, além de MCT tem incorporado o viés da inovação em
um plano do MCT, “um instrumento do sua designação e passa a se chamar
Governo Federal como um todo, executado Ministério de Ciência, Tecnologia e Inovação
em forte articulação com os Estados da (MCTI).
federação e as principais entidades e
Uma importante iniciativa de sua gestão é a
associações científicas e empresariais”
criação em 2013 da Empresa Brasileira de
(REZENDE, 2010, p. 390). O PACTI priorizava
Pesquisa e Inovação Industrial (EMBRAPII),
a consolidação do Sistema Nacional de C,T&I
organização social que possui contrato de
e a ampliação da inovação nas empresas. Ele
gestão firmado com o Ministério da Ciência,
consistiu em 4 prioridades, distribuídas em 21
Tecnologia, Inovações e Comunicações –
linhas de ação, que se desdobraram em 87
MCTIC ocorreu em 2 de dezembro de 2013. O
programas e estes em mais de 200
MEC é instituição interveniente e reparte com
subprogramas com o propósito de viabilizar
o MTIC igualmente a responsabilidade pelo
sua gestão. O programa foi apresentado
financiamento da organização. A missão da
contendo quatro prioridades: I - Expansão e
organização é a de contribuir para o
Consolidação do Sistema Nacional de C,T&I:
desenvolvimento da inovação na indústria por
expandir, integrar, modernizar e consolidar o
meio do fortalecimento da relação de
Sistema Nacional de Ciência, Tecnologia e
colaboração entre indústrias e institutos de
Inovação; II- Promoção da inovação
pesquisas e universidades. Conforme relatório
tecnológica nas empresas; III - P,D&I em
de gestão de 2016, em seu terceiro ano de
áreas estratégicas: fortalecer as atividades de
atuação a EMBRAPII totalizou um rol de 173
pesquisa e inovação em áreas estratégicas
projetos contratados, sob o valor total de
para o País; IV - C&T para o desenvolvimento
R$ 280.461.042,12 (EMBRAPII, 2016).
social: promover a popularização e o
aperfeiçoamento do ensino de ciências nas Ao final do governo, no âmbito legislativo
escolas, bem como a difusão de tecnologias destaca-se no início de 2016 a promulgação
para a inclusão e o desenvolvimento social . LEI Nº 13.243/16 que dispõe sobre estímulos
(MCT, 2007) ao desenvolvimento científico, à pesquisa, à
capacitação científica e tecnológica e à
Dentre os resultados do PACTI, indicados no
inovação. A lei também atualiza os termos
intitulado “Livro Azul”, destacou-se o estímulo
referentes às Instituições de Ciência e
ao tripé de interação universidade-empresa-
Tecnologia (ICTs) e aos Núcleos de Inovação
governo , em especial quanto ao papel das
Tecnológica (NITs), previamente adotados a
incubadoras de empresas de base
partir da Lei de Inovação. Quando da
tecnológica e dos parques científicos e
instituição da Lei de Inovação, a previsão de
tecnológicos. Ainda, o documento apresenta
ICTs era exclusiva de entidades da
a recomendação de que um programa
administração pública. Com a nova redação,
coerente para a educação nos próximos anos
as ICTs passam a ser definidas como
deve prever a expansão do ensino
profissionalizante e tecnológico por meio da órgão ou entidade da administração pública
aceleração da implantação de escolas direta ou indireta ou pessoa jurídica de direito
técnicas, além do incentivo à criação de privado sem fins lucrativos legalmente
novas ocupações profissionais, sempre em constituída sob as leis brasileiras, com sede e
sintonia com as pesquisas elaboradas pelas foro no País, que inclua em sua missão
instituições de ensino superior. Também é institucional ou em seu objetivo social ou
destacada a urgência com que o tema estatutário a pesquisa básica ou aplicada de
educação profissional foi tratado durante a caráter científico ou tecnológico ou o
vigência do PACTI. No documento é frisado desenvolvimento de novos produtos, serviços
que a revolução educacional pressupõe uma ou processos. (BRASIL, 2016).
política de Estado continuada e integrada,
A definição dos NITs também é atualizada e
envolvendo vários setores do governo federal,
ampliada, sendo definida como uma
estadual e municipal (CGEE, 2010).
“estrutura instituída por uma ou mais ICTs,
Na gestão da presidenta Dilma Rousseff, com ou sem personalidade jurídica própria,
iniciada em 2011, foi estabelecida a que tenha por finalidade a gestão de política
Estratégia Nacional de Ciência, Tecnologia e institucional de inovação”. Também, merece
Inovação (ENCTI). A ENCTI com vigência menção outra medida adotada no âmbito
2012-2015, dá continuidade ao PACTI 2007- legislativo, que foi a inclusão do SNCTI na
2010. É no primeiro ano de governo que o

Tópicos em Administração - Volume 3


42

Constituição Brasileira por meio da Emenda envolveu setores diversos do governo para
Constitucional 85/2016. sua condução.
Em 31 de agosto de 2016, após conclusão do
processo de impeachment da presidenta,
4 A PCTI NO BRASIL E A EDUCAÇÃO
Michel Temer assume o posto de presidente
PROFISSIONAL, TÉCNICA E TECNOLÓGICA
da república de forma definitiva. No âmbito da
- ANÁLISE E DISCUSSÃO
ciência e tecnologia, uma medida de maior
discussão foi a junção de MCTI com o A história da educação profissional no
Ministério das Comunicações, transformando- governo Lula foi precedida pelo Programa de
o em MCTIC já em setembro de 2016. Tal Expansão da Educação Profissional (PROEP).
transformação foi acompanhada de protestos O programa, instalado no governo de
por parte da comunidade científica Fernando Henrique Cardoso visou à
(BEZERRA, 2016). Até o momento não é implantação da Reforma da Educação
possível mensurar eventuais impactos dessa Profissional. Muitas das unidades construídas
fusão. com recursos oriundos desse programa foram
posteriormente federalizadas com o plano de
Em dezembro de 2016 é anunciada a versão
expansão da rede de educação profissional.
final da ENCTI, com vigência para o período
2016-2022. O programa aposta em onze O período do governo Lula foi marcado pela
áreas estratégicas, tendo como proposta o implementação de diversos programas e
direcionamento consistente e coerente de mudanças na área da educação profissional.
investimentos para essas áreas a fim de Dentre essas iniciativas estão o lançamento
potencializar os resultados. A alocação dos de programas como o Plano de
recursos do SNCTI ocorre por meio de Desenvolvimento da Educação (PDE), o Brasil
diversos instrumentos que têm formatos e Profissionalizado (depois incorporado pelo
executores com características adequadas Programa Nacional de Acesso ao Ensino
aos resultados delineados pelo planejamento Técnico e Emprego) e o Plano de Expansão
do setor. Em geral, são as agências de da Rede Federal de Educação Profissional e
fomento as operadoras desses instrumentos, Tecnológica.
podendo beneficiar pesquisadores, ICTs,
No mesmo período, é interessante apontar
empresas ou arranjos que combinem ICTs e
que na 3ª Conferência Nacional de Ciência,
empresas. Os onze instrumentos previstos
Tecnologia e Inovação, realizada em
para esse plano, que são mais diversificados
novembro de 2005, durante a vigência do
no apoio às empresas do que às Instituições
PNCT&I, são elencados, dentre outros, como
de ciência e tecnologia e pesquisadores são:
elementos para a efetivação da inclusão
concessão de bolsas; concessão de auxílios à
social o acesso à educação e à formação
pesquisa e à infraestrutura; subvenção
profissional e o estabelecimento de políticas e
econômica; empréstimos; renda variável;
ações de CT&I para o desenvolvimento
compra do Estado com margem de
regional.
preferência local; encomenda tecnológica;
incentivos fiscais; bônus tecnológico; títulos Em 2005, com a publicação da Lei nº 11.195,
financeiros; cláusula de PD&I de agências ocorre o lançamento da primeira fase do
reguladoras (MCTIC, 2016). Plano de Expansão da Rede Federal de
Educação Profissional e Tecnológica, com a
No período abordado, vale destacar ainda as
construção de 64 novas unidades de ensino.
políticas industriais que mantiveram relação
Também nesse ano ocorre a transformação
estreita com o setor de ciência, tecnologia e
do Centro Federal de Educação Tecnológica
inovação: a Política industrial, Tecnológica e
do Paraná em Universidade Tecnológica
de Comércio Exterior (PITCE), lançada em
Federal do Paraná, primeira e até então única
2004, com o objetivo de fortalecer e expandir
universidade especializada nessa modalidade
a base industrial brasileira por meio do
de ensino no Brasil. Com o lançamento do
aprimoramento da capacidade inovadora das
PDE em abril de 2007, em conjunto com o
empresas; a Política de Desenvolvimento
Plano Metas Compromisso Todos pela
Produtivo (PDP), lançada em 2008 em
Educação, que prevê uma atuação
continuidade à PITCE e o Plano Brasil Maior,
cooperativa em todas as esferas do governo a
que estabeleceu a política industrial,
favor de melhorias no plano da educação
tecnológica, de serviços e de comércio
básica, o plano de expansão da rede passa a
exterior para o período de 2011 a 2014 e
fazer parte também do PDE.

Tópicos em Administração - Volume 3


43

A relação entre educação e ciência no âmbito e oferecer programas de extensão, dando


do projeto de criação dos institutos federais prioridade à divulgação científica.(MEC,
de ciência e tecnologia é apontada no PDE 2007).
como uma das razões de sua criação:
Retomando o tema de expansão da rede de
o IFET deve constituir-se em centro de educação profissional, conforme PACHECO
excelência na oferta do ensino de ciências, (2012, p. 17), um aspecto inovador do plano
voltado à investigação empírica; qualificar-se de expansão consistiu na “priorização de
como centro de referência no apoio à oferta critérios técnicos, em detrimento de critérios
do ensino de ciências nas escolas públicas; políticos (...) na definição das áreas
oferecer programas especiais de formação geográficas e municipais onde deveriam ser
pedagógica inicial e continuada, com vistas à instaladas as novas unidades”. Comparando-
formação de professores para a educação se a quantidade de unidades existentes em
básica, sobretudo nas áreas de física, 2002 com os dados de 2016, observa-se a
química, biologia e matemática, de acordo expansão da rede federal de educação em
com as demandas de âmbito local e regional, um percentual de 460% (Gráfico1).

Gráfico 1 - expressa a expansão da Rede Federal de Educação Profissional, Científica e


Tecnológica em unidades.

Fonte: MEC (http://redefederal.mec.gov.br/expansao-da-rede-federal)

O programa Brasil Profissionalizado foi interiorização da rede federal de educação


instituído por meio do decreto 6.302/07, com profissional em execução reverbera o PACTI
vistas a “a estimular o ensino médio integrado (2007-2010), que possuía como um dos
à educação profissional, enfatizando a marcos do plano de ação em CT&I a
educação científica e humanística, por meio descentralização das ações e iniciativas
da articulação entre formação geral e específicas do desenvolvimento regional e
educação profissional no contexto dos social (MCT, 2007).
arranjos produtivos e das vocações locais e
No final da gestão do governo Lula, por meio
regionais” (BRASIL, 2007). Interessante é a
da lei 11.892/08 foi instituída a Rede Federal
menção à articulação com os arranjos
de Educação Profissional, Científica e
produtivos e as vocações regionais. Tal ponto,
Tecnológica e foram criados os Institutos
em conjunto com o plano de expansão e

Tópicos em Administração - Volume 3


44

Federais de Educação, Ciência e Tecnologia, O lançamento do programa Ciência sem


atingindo o ápice da política de expansão da fronteiras em dezembro de 2011, com o
rede prevista. Os membros da rede podem objetivo de propiciar a formação e
ser agentes ativos da política de inovação capacitação de pessoas com elevada
vigente no país, uma vez que podem ser qualificação em universidades, instituições de
configurados como ICTs, devendo ter sua educação profissional e tecnológica, e
política institucional gerida pelos NITs. centros de pesquisa estrangeiros de
excelência, representou uma iniciativa de
O livro azul, cujas discussões tiveram como
política transversal coordenada pelo MEC e o
base as prioridades do PACTI 2007-2010,
MCTI. Dentre outros, os objetivos, destacam-
dedica um capítulo, intitulado “O Brasil
se “promover a cooperação internacional na
precisa de uma revolução na educação” ao
área de ciência, tecnologia e inovação” e
tema educação. Apesar de
“estimular e aperfeiçoar as pesquisas
predominantemente focar na necessidade de
aplicadas no País, visando ao
estruturação de uma educação básica de
desenvolvimento científico e tecnológico e à
qualidade, aponta para a necessidade da
inovação” (BRASIL, 2011b). A modalidade de
educação de nível superior para o
educação profissional e tecnológica foi
desenvolvimento científico e tecnológico e
contemplada na previsão de concessão pela
invoca a importância da criação dos institutos
CAPES e CNPq de bolsas de estudos em
federais e da interiorização das universidades
instituições de excelência no exterior. O
federais para a consecução desse ponto,
comitê de acompanhamento e
uma vez que “contribuem para aumentar a
assessoramento do programa foi composto
oferta de educação superior de qualidade em
por membros de ministérios distintos e
geral e, em particular, para a formação
também por representantes de entidades
qualificada de professores para a educação privadas, demonstrando a preocupação com
básica.” (CGEE, 2010) a convergência das ações dos atores
Em 2011 foi lançado um expressivo plano interessados. A presidência desse comitê
com o objetivo de “expandir, interiorizar e cabe aos representantes do Ministério da
democratizar a oferta de cursos de educação Educação e do MCTI, que alternam o posto a
profissional e tecnológica para alunos cada doze meses. Atualmente o programa
brasileiros”. O Programa Nacional de Acesso encontra-se com chamadas para novas
ao Ensino Técnico e Emprego (Pronatec) foi bolsas suspensas.
criado pelo Governo Federal do Brasil no dia Mais um exemplo de articulação entre o
26 de Outubro de 2011 com a sanção da Lei MCTIC e o MEC no âmbito da rede de
nº 12.513/2011. Ficaram estipulados como educação profissional são os polos EMBRAPII
ofertantes do Pronatec as instituições da Rede IF, que são constituídos a partir de
Federal de Educação Profissional, Científica e competências tecnológicas específicas dos
Tecnológica, as instituições de educação Institutos Federais de Educação, Ciência e
profissional e tecnológica das redes Tecnologia do Ministério da Educação. A
estaduais, distrital e municipais, as atuação de um Polo EMBRAPII IF está voltada
instituições do chamado Sistema S e demais ao atendimento das demandas do setor
instituições privadas de ensino superior e de produtivo, por pesquisa, desenvolvimento e
educação profissional e tecnológica inovação (PD&I) e à formação profissional
devidamente habilitadas para a oferta de para as atividades de PD&I na indústria.
cursos técnicos na modalidade subsequente Atualmente existem cinco polos EMBRAPII IF
de ensino. O programa representa uma forte credenciados, dois no estado do nordeste e
iniciativa de alinhamento entre as políticas de três no sudeste, todos em processo de
educação profissional e tecnológica aliadas e estruturação. Destes apenas os Polos IF-ES e
as políticas de trabalho e emprego, IF-Fluminense contrataram projetos em 2016
prioritariamente. Em relação ao âmbito da desde seu credenciamento em 2015. Há
ciência, tecnologia e inovação, destaca-se previsão para que seja realizada uma nova
que a definição de eixos e cursos prioritários Chamada para seleção e credenciamento de
é feita pelo MEC, sendo direcionada novos Polos EMBRAPII – IF ainda em 2017
“especialmente nas áreas relacionadas aos (EMBRAPII, 2016).
processos de inovação tecnológica e à
elevação de produtividade e competitividade Ainda sobre a rede de educação profissional
da economia do País” (BRASIL, 2011). no âmbito federal, há de se ressaltar o
potencial de aproveitamento da qualificação

Tópicos em Administração - Volume 3


45

do corpo docente, conforme exposto no instituições. De um total de 32.177 docentes,


Quadro I, que expressa o índice de titulação 23.660, ou seja, mais de 70% dos
do corpo docente das Instituições Federais de profissionais docentes atuantes na rede no
Educação Profissional, Científica e ano de 2015 possuíam nível de titulação
Tecnológica no ano de 2015. O índice leva em equivalente a mestrado (51%) ou doutorado
consideração o somatório de todos os (22%) (MEC, 2015).
docentes efetivos ou temporários dessas

Tabela 1 – Titulação do corpo docente IFES. Relatório anual de análise dos indicadores de gestão
das Instituições Federais de Educação Profissional, Científica e Tecnológica (exercício de 2015)
Região Graduação Aperfeiç. Especializ. Mestrado Doutorado
Norte 361 34 1.168 1.407 377
Nordeste 767 39 2.464 5.579 1.839
Centro-Oeste 209 13 535 1.725 798
Sudeste 617 28 1.323 4.897 2.784
Sul 337 09 613 2.820 1.434
Total 2.291 123 6.103 16.428 7.232
Fonte: SETEC (MEC)
No teor do documento que apresenta a ENCTI Também merece no cenário atual as
2016-2022, à educação profissional e mudanças decorrentes da reforma do ensino
tecnológica é atribuído papel de maior médio, cujo texto final foi publicado com a Lei
importância no desenvolvimento de soluções nº 13.415, de 16 de fevereiro de 2017. O texto
inovadoras para a inclusão produtiva e social prevê uma nova formatação para o ensino
por meio da afirmação de que “a difusão do médio, que deverá ser composto pela base
conhecimento gerado é vetor de progresso, nacional comum curricular e por cinco
as políticas públicas para a educação itinerários formativos possíveis, sendo um
profissional e tecnológica intensificam a deles o de formação técnica e profissional. O
soberania do País na produção científica e acompanhamento dos desdobramentos do
tecnológica.” (MCTIC, 2016, p. 67). No impacto da reforma na educação profissional
documento é destacado que a elevação da de nível médio é um tópico propício para
qualidade da educação é um processo que debates futuros.
demanda também a valorização da cultura
Além dos programas elencados e das
científica. Tais ações de valorização devem
mudanças citadas no âmbito da legislação, é
alcançar todas as camadas sociais, indicando
importante citar também alguns instrumentos
que devem ser elaboradas maneiras mais
em vigência para estímulo do saber científico
eficazes de promover a educação científica
e que embora não sejam diretamente
da população. Os alunos devem ser
destinados à EPTT, também a contempla, tais
motivados à experimentação e,
como, as bolsas de iniciação científica
consequentemente, atraídos às carreiras
(direcionadas para o nível médio de
científicos, sendo também reconhecida a
educação) e o estímulo às competições
importância de valorização de jovens talentos
científicas, tais como as competições de
de forma prévia, ou seja, que sejam apoiadas
robótica e as olimpíadas de áreas diversas do
práticas científicas antes da pós-graduação.
conhecimento, promovidas em todo o território
Outro ponto de destaque da nova política é a
nacional.
indicação da promoção da pesquisa científica
básica e tecnológica como um de seus pilares
fundamentais, sendo o fortalecimento da
5 CONSIDERAÇÕES FINAIS
pesquisa científica básica e tecnológica
produzida pelas ICTs e o estímulo à interação Como foi possível observar, o mote ciência,
entre ICTs e empresa duas das ações tecnologia e inovação vem sido
prioritárias vinculadas a esse pilar. constantemente invocado nas políticas
educacionais e nos textos legislativos

Tópicos em Administração - Volume 3


46

relacionados à EPTT desde 2002. A influência O campo amplo de atuação previsto nos
das PCT&I é observável na legislação atual e textos legislativos e programáticos possibilita
na concepção dos programas correlatos à inúmeras investigações para a identificação
área. A crescente cultura de reconhecimento do cumprimento dos planos e da viabilidade
da importância do papel da ciência, da da aplicação da legislação dentro das
tecnologia e da inovação para o instituições de ensino e nas relações que
desenvolvimento econômico e social do país estas estabelecem com as demais esferas da
resultaram na composição das diretrizes dos sociedade. Assim, a análise dos impactos das
programas de educação profissional, em PCT&I na EPTT não se esgota no presente
destaque na Lei 11892/2008 que institui a artigo.
Rede Federal de Educação Profissional,
Fatores como a ampla expansão da rede
Científica e Tecnológica e cria os Institutos
federal de educação profissional e o alto grau
Federais de Educação, Ciência e Tecnologia.
de qualificação dos profissionais que
Em seu teor, o texto salienta que, entre as
compõem os institutos federais de ciência e
características e finalidades destas
tecnologia representam o potencial de
instituições, está a realização e o estímulo à
aproveitamento da rede. Um trabalho
pesquisa aplicada e o desenvolvimento
cooperado entre o MEC, MCTIC e demais
científico e tecnológico (BRASIL, 2008).
atores que possam contribuir e usufruir de
Embora seja perceptível a inclusão da seus benefícios para um efetivo alcance dos
temática nas diretrizes das políticas objetivos das PCT&I podem ser capazes de
educacionais, o desafio é o estabelecimento impulsionar sensivelmente o setor de CT&I do
de uma relação direta entre as políticas em país.
questão. Ações como a implementação dos
Frisa-se que a associação das PCT&I com as
pólos EMBRAPA IF, a execução do programa
políticas educacionais é uma das medidas
de internacionalização Ciências sem fronteira
necessárias para a composição de uma
e o estímulo à criação dos núcleos de
estrutura fortalecida e perene de
inovação tecnológica nas instituições
desenvolvimento, não apenas no viés
científicas e tecnológicas são medidas que
econômico, inserindo o país em uma
demonstram de forma empírica o impacto das
condição de competitividade no cenário
PCT&I na EPTT. Ações de incentivo à
internacional, mas também social. Levando-se
estruturação e consolidação dos NITs nas
em consideração as iniciativas que
instituições que compõem a rede podem ser
possibilitaram a expansão da rede de
um mecanismo prolífico para uma atuação
educação profissional, pode-se afirmar que o
mais alinhadas dessas instituições com a
terreno está preparado para uma exploração
PCT&I, em especial no que tange ao
ampla de ações articuladas entre a rede de
fortalecimento do tripé ICT-governo-
educação profissional e a PCT&I.
empresas.

REFERÊNCIAS
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Idéias fundadoras. Revista Brasileira de Inovação (Pronatec). Brasília, 2011.
v. 3, n. 1, p. 9-13, 2004.
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DEZEMBRO DE 2004. Dispõe sobre incentivos à sem Fronteiras. Brasília, 2011b.
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JANEIRO DE 2016. Dispõe sobre estímulos ao
Brasília, 2004.
desenvolvimento científico, à pesquisa, à
[3]. BRASIL. LEI Nº 11.892, DE 29 DE capacitação científica e tecnológica e à inovação.
DEZEMBRO DE 2008. Institui a Rede Federal de Brasília, 2016.
Educação Profissional, Científica e Tecnológica,
[7]. BRASIL. LEI Nº 13.415, DE 16 DE
cria os Institutos Federais de Educação, Ciência e
FEVEREIRO DE 2017. Conversão da Medida
Tecnologia, e dá outras providências. Brasília,
Provisória nº 746, de 2016. Altera as Leis nos
2008.
9.394, de 20 de dezembro de 1996 e 11.494, de 20
[4]. BRASIL. LEI Nº 12.513, DE 26 DE de junho 2007, a Consolidação das Leis do
OUTUBRO DE 2011. Institui o Programa Nacional Trabalho - CLT, revoga a Lei no 11.161, de 5 de

Tópicos em Administração - Volume 3


47

agosto de 2005; e institui a Política de Fomento à [16]. MCTI - MINISTÉRIO DA CIÊNCIA,


Implementação de Escolas de Ensino Médio em TECNOLOGIA e INOVAÇÃO. Estratégia Nacional
Tempo Integral. Brasília, 2017. de Ciência, Tecnologia e Inovação 2012-2015 e
Balanço das atividades estruturantes 2011.
[8]. BEZERRA, Mirthyani. Para cientistas,
Brasília: MCTI, 2012.
Temer "reduz" área estratégica para o
desenvolvimento. UOL, Seção Ciência e Saúde, [17]. MCTIC - MINISTÉRIO DA CIÊNCIA,
06/06/2016. Disponível em: TECNOLOGIA, INOVAÇÃO E COMUNICAÇÕES.
<noticias.uol.com.br/ciencia/ultimas- Estratégia Nacional de Ciência, Tecnologia e
noticias/redacao/2016/06/06/sem-recursos-para- Inovação 2016-2022. Brasília: MCTIC, 2016.
pesquisa-cientistas-se-queixam-por-fusao-de-
[18]. MEC – MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO.
ministerios.htm>. Acesso em 20 de maio de 2017.
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[9]. CGEE - Centro de Gestão de Estudos 2002. Institui as Diretrizes Curriculares Nacionais
Estratégicos. 3ª Conferência Nacional de Ciência, Gerais para a organização e o funcionamento dos
Tecnologia e Inovação : síntese das conclusões e cursos superiores de tecnologia. Brasília, MEC:
recomendações. Brasília: MCT, CGEE, 2006. 2002.
[10]. CGEE - Centro de Gestão de Estudos [19]. MEC– MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO. O
Estratégicos. Livro Azul da 4ª Conferência Nacional Plano de Desenvolvimento da educação: razões,
de Ciência e Tecnologia e Inovação para o princípios e programas. Brasília, MEC: 2007.
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[20]. MEC– MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO.
2010.
Resolução CNE/CEB nº 6, de 20 de setembro de
[11]. DIAS, Rafael de Brito. Sessenta anos de 2012. Define Diretrizes Curriculares Nacionais para
política científica e tecnológica no Brasil. a Educação Profissional Técnica de Nível Médio.
Campinas, SP: Ed. Unicamp, 2012. Brasília, MEC: 2012.
[12]. DIAS, Reinaldo; MATOS, Fernanda. [21]. MOTOYAMA, Shozo (Org.). Prelúdio para
Políticas públicas: princípios, propósitos e uma história - ciência e tecnologia no Brasil. São
processos. São Paulo: Alínea, 2012. Paulo: Edusp/ Fapesp, 2004.
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INOVAÇÃO INDUSTRIAL. Relatório anual 2016: da política nacional de ciência, tecnologia e
Contrato de Gestão EMBRAPII/MCTI/MEC. Brasília, inovação no Brasil 1999-2002 (Manual de Políticas
2016. Públicas). Santiago: Cepal, 2007.
[14]. ARAÚJO, Bruno César; RAUEN, André [23]. PACHECO, Eliezer Moreira; MORIGI,
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do bem sobre o investimento privado em P&D in e Tecnológica no Brasil. Porto Alegre: Penso
Radar : tecnologia, produção e comércio exterior, Editora, 2012.
n. 04 (2016) . Brasília : Ipea, 2016.
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TECNOLOGIA. Plano de Ação 2007-2010 40 anos pela C&T. Rio de Janeiro: Vieira & Lent,
(Documento síntese). Brasília: MCT, 2007. 2010.

Tópicos em Administração - Volume 3


48

Capítulo 5

Sylvio Ribeiro de Oliveira Santos


Valdirene Salvador
Marcia M. S. Perin

Resumo: Chefes arrogantes e incompetentes tornaram-se um dos grandes vilões


da vida em sociedade na era contemporânea. No entanto, eles nada mais são do
que produtos de organizações altamente racionalizadas e burocráticas cuja
existência é voltada à maximização do lucro. Do outro lado, encontra-se o indivíduo
que, além de um bom emprego, busca a possibilidade de desfrutar melhor a vida.
O objetivo deste ensaio é analisar diversos elementos que constituem tal
conjuntura, principalmente a burocracia, que compõe grande parte das
organizações atuais e, apesar de toda modernização, tem como seu alicerce um
modelo obsoleto que empodera poucos indivíduos, domina e oprime os demais,
contudo, foi capaz de fazer empresas prosperarem. Alguns ajustes são sugeridos
na dinâmica organizacional a fim de proporcionar uma convivência mais harmônica
possibilitando a partilha de benefícios e melhoria do bem-estar dos indivíduos, um
modelo que parece se adequar melhor à nova dinâmica da sociedade.

Palavras chave: Burocracia, Liderança, Relações humanas, hierarquia.

Tópicos em Administração - Volume 3


49

1 INTRODUÇÃO miserável ou agradável impactando na


empresa e na sociedade. A pressão por
É muito difícil dissociar o homem do trabalho.
resultados gera estresse sendo capaz de
Através da sua interação com o meio-
afetar a saúde emocional do funcionário
ambiente, o homem garantiu sua
(CHIRKOV; RYAN; WILLNESS, 2005).
sobrevivência na maior parte da história,
trabalhando. A primeira grande mudança Sutton (2011) descreve um estudo britânico
nesse formato, em que o homem trabalha que, durante 20 anos, acompanhou
para sobreviver, se deu com o feudalismo, funcionários públicos e descobriu que,
quando a sociedade se dividiu em camadas quando chefes criticavam de forma injusta,
sociais. Nobres e camponeses significavam não lhes ouviam e quase nunca elogiavam,
segurança e trabalho, respectivamente sofriam mais de angina, ataques cardíacos e
(ROHM; LOPES, 2015). No século XVIII, A mortes por problemas no coração. O mal
revolução industrial agravou as diferenças, tratamento do funcionário também prejudica o
uma vez que os cidadãos não mais desempenho da empresa. Funcionários
trabalhavam na sua terra, mas vendendo sua abusados por superiores erram
mão-de-obra em fábricas, o que ficou propositalmente cinco vezes mais, escondem
conhecido como mais-valia. A força manual seis vezes mais informações, faltam e ficam
foi sendo substituída pela mecânica e as doentes com mais frequência dos que não
movimentações de capital, tecnologia e abusados (SUTTON, 2011).
trabalho cresciam de forma surpreendente.
Por outro lado, o tratamento respeitoso é o
Importante destacar um evento que marcou aspecto número um para satisfação no
as relações de trabalho na era pré-industrial: trabalho (“Employee Job Satisfaction and
A reforma Protestante do fim da idade média Engagement”, 2016). A psicologia oferece
trouxe um novo significado para o trabalho, uma explicação para isso: o mau é mais forte
que passa a ser considerado algo virtuoso que o bom, isto é, interações negativas são
(ROHM; LOPES, 2015). Significado frequente processadas mais inteiramente do que
até os dias de hoje, o qual leva algumas positivas (BAUMEISTER et al., 2001). Em um
pessoas a avaliarem as demais pela mundo onde um em cada quatro profissionais
quantidade de horas trabalhadas, cargo e alega ter sido alvo de bullying, e que a mais
profissão, uma vez que, um alto cargo é sinal da metade é cometido por superiores (NAMIE,
de status e subtende-se fruto de muito 2014), algo precisa ser feito. Esses
trabalho. desconfortos estão levando as empresas a
adotarem um pensamento menos instrumental
Dessa forma, a visão da sociedade centrada
e mais substantivo, ou seja, a pensarem mais
no trabalho, embora recente, já está
no funcionário e não apenas em resultados.
consolidada no mundo pós-moderno. Quanto
mais desenvolvida economicamente é a Por trás das organizações modernas está uma
sociedade, mais voltada ao trabalho, e a estrutura tão antiga quanto a própria
economia não pode ser pensada à parte da organização, a burocracia. Apesar dos seus
sociedade (GAULEJAC, 2007), contudo a problemas, “a burocracia foi indispensável
função primordial dos indivíduos de uma para o desenvolvimento da era industrial
sociedade não é trabalhar (RUSSELL, 1932) e moderna tanto no capitalismo como
muito menos ser empregado, não é algo que socialismo” (WEBER, 1964 apud THOMPSON,
está no DNA humano (HAMEL, 2012). O 1980, p. 4) por ser tecnicamente superior a
objetivo do homem, é ter uma vida plena e em outros modelos, oferecendo continuidade,
harmonia com o meio que o circunda, e a vida disciplina, precisão, rigor e confiabilidade
profissional contemporânea tem para aqueles que buscavam uma forma de
comprometido isso. controle (THOMPSON, 1980). Contudo, o
problema da falta de humanidade nas
Alguns aspectos contribuem para a
empresas não parece estar na burocracia em
insatisfação do homem com a sua vida e um
si, mas no que Polanyi considerava um
dos principais é o trabalho, a figura do chefe,
absurdo: colocar o econômico a frente do
líder ou do burocrata é diretamente
social.
relacionada a isto. Ele representa
organizações comandadas pelas classes O objetivo deste ensaio é uma reflexão acerca
dominantes que controlam os trabalhadores dos interesses das organizações e dos
tanto na maneira de agir como de pensar. O indivíduos. As empresas buscam lucrar mais,
chefe pode tornar a vida das pessoas os indivíduos desejam um bom emprego, bom

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salário para desfrutar melhor a vida. Surge um obter a satisfação pessoal. No século XIX, o
paradoxo, pois na busca pelos seus utilitarismo tomou conta da sociedade e as
interesses as empresas pressionam seus pessoas passaram a julgar como o melhor
funcionários que, consequentemente, lugar para viver aquele que oferecia mais
trabalham duro buscando satisfaze-las, o que oportunidades, portanto proporcionava maior
nunca acontece. As empresas não oferecem felicidade. Isso levou ao desenvolvimento do
condições de trabalho capazes de manter as que ficou conhecido como bem-estar social
pessoas realizadas e motivadas, o que no século seguinte e fez dos principais
aumentaria a produtividade e o lucro. inimigos da sociedade as doenças, a pobreza
Resumindo, todos perdem. Nesta dinâmica e a ignorância. (VEENHOVEN et al., 1996)
Max Weber via a figura do líder como
Paralelo ao surgimento do bem-estar social
elemento característico de uma organização
está a revolução industrial, a concentração
(THOMPSON, 1980). A pergunta é: como
dos meios de produção e o surgimento da
diminuir o conflito de interesses entre a
classe trabalhadora. Muitos críticos culpam o
empresa e empregados de modo que todos
capitalismo pela desigualdade e pobreza,
saiam ganhando e atinjam seus objetivos?
Polanyi culpa a noção defendida por David
Para não complicar o descomplicado, será Ricardo, Karl Marx e James Mill de um
usado neste ensaio teórico “empresa” e mercado soberano (POLANYI, 2000).
“organização” como sinônimos, uma vez que Diferente de Marx e Engels, que dizem que foi
este ensaio se concentra em organizações a ascensão da burguesia que gerou a
com fins lucrativos. O mesmo acontecerá com disrupção social, com o rompimento da
os termos “líder”, “chefe” e “superior” os sociedade patriarcal do feudalismo, e o livre
quais, neste trabalho, não apresentarão mercado que substituiu o valor do indivíduo
diferenças semânticas. Ao longo do ensaio, (sistema feudal) pelo valor da troca (sistema
será analisada a concepção do mercado e a capitalista), Laslett (1965) diz que foi a
consolidação do capitalismo como novo indústria a causa dessa disrupção. É um fato
sistema econômico, demonstrando que ele que a pobreza já existia na sociedade pré-
não é a causa dos problemas sociais atuais. moderna. Em 1688, o estatístico Gregory
Em seguida, será abordado o funcionamento King, haviam cerca de 1,3 milhão de pobres
das empresas modernas e a evolução da ou miseráveis e 30.000 mendigos em uma
relação chefe-empregado bem como a população de 5,5 milhões. Isso foi antes da
estrutura burocrática por trás das consolidação do mercado, por volta de 1700
organizações. Será utilizada a visão da teoria e do mercado de trabalho, aproximadamente
crítica seguida da chegada da escola das 130 anos mais tarde (POLANYI, 2000).
relações humanas à administração. Por fim,
A tensão entre economia e a sociedade é
questiona-se o que é um bom chefe e como
constante, foi diante desse cenário que
ele pode contribuir positivamente para a
nasceram as empresas modernas. No início,
organização e para vida das pessoas.
são representadas por fábricas altamente
É importante destacar que não é o objetivo burocráticas, do tipo taylorista e fordista.
deste trabalho propor maneiras de parar a Nessa época, os trabalhadores podiam ser
burocracia, pois como disse Weber, “a resumidos a dois tipos (RAMOS, 1984): o
burocracia é uma máquina de difícil operacional, representado por Chaplin, no
destruição” (TRAGTENBERG, 1974, p. 144). clássico Tempos Modernos, indivíduo pouco
Portanto, este ensaio oferece uma visão qualificado que trabalha isolado dos demais,
otimista, buscando uma ótica mais realista e em um ambiente desprovido de ética e
melhora nos meios de produção, através de liberdade, e o reativo, mais integrado à
interações humanas mais saudáveis e uso de organização, trabalha em um contexto mais
uma racionalidade mais substantiva. social e ético, onde seus valores, sentimentos
e atitudes são, considerados, afetando seu
desempenho. Mais tarde, surgiu um terceiro
2 O MUNDO COMO CONHECEMOS: tipo de trabalhador associado ao modelo de
CAPITALISMO, ORGANIZAÇÕES E A NOVA produção conhecido como toyotismo, o
VISÃO DO TRABALHO parentético, único caracterizado por uma
racionalidade substantiva com uma
Com o iluminismo, o propósito da existência
consciência crítica sobre o meio em que vive
do homem deixou de ser fazer a vontade de
(RAMOS, 1984). Diferente do homem reativo,
Deus para buscar ser feliz. A sociedade
o homem parentético não se integra
passa então a ser vista como um meio de se

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totalmente à organização, em virtude da O desenvolvimento econômico reduz a


própria racionalidade substantiva, também desigualdade social que tanto compromete a
chamada de noética (RAMOS, 1984). vida em sociedade, proporciona maior renda
para um número maior de pessoas, mais
Na era pós-moderna, em que o conhecimento
informação para a sociedade, maior liberdade
é o recurso mais valioso das empresas, não
e capacidade de exercer a racionalidade
há espaço para o individual de Taylor e Ford.
substantiva. O mal do capitalismo parece
Profissionais trabalham em equipes que
surgir quando ele é levado ao extremo, a
respondem a uma liderança compartilhada do
obsessão das organizações sobretudo por
chefe imediato e de seus superiores com o
crescimento. O próprio Guerreiro Ramos
objetivo de aumentar o controle dos
(1989, p. 158) pontua que “a eficácia de um
processos. Os profissionais são cada vez
cenário social na consecução de suas metas
mais cobrados por desempenho e
e na ótima utilização dos seus recursos não
estimulados por premiações e bônus
acarreta, fatalmente, um aumento de
financeiros, porém, na ausência desses
tamanho. (...) precisamos aprender a arte do
incentivos, contentam-se com outras formas
planejamento de cenários sociais capazes de
de reconhecimento (FARIA, 2004). Perrow
perdurar”. Na busca por crescer exacerbado,
(1972 apud THOMPSON, 1980) afirmou que
as empresas utilizam mecanismos de controle
quanto menor a expertise da mão-de-obra,
mais avançados mesmo para uma mão-de-
maiores os mecanismos de controle
obra mais qualificada, que necessitam de
necessários. No entanto, em uma sociedade
uma racionalização instrumental, ao invés de
tão qualificada como a atual, esses
substantiva, e isso se tornou a base da
mecanismos continuam a existir em um
burocracia moderna (FARIA; MENEGHETTI,
sentido bottom-up, isto é, quanto maior o
2011).
cargo, menor o controle exercido pela
organização, colocando os gestores em uma
posição privilegiada. O foco na eficiência
2.1 O FUNCIONAMENTO DAS EMPRESAS
reduz a racionalidade substantiva do
MODERNAS
indivíduo que, sem criticidade, permite a
reprodução de trabalhadores para o sistema e O desenvolvimento das organizações
a sociedade, onde os fins (lucro) são mais caminhou junto com a burocracia. As grandes
importantes que os meios (FARIA; máquinas burocratizadas e hierarquizadas
MENEGHETTI, 2011). Russell (1932) reforça foram o motor da economia por mais de um
dizendo que, ao aceitar a visão do “trabalho século (MILES; SNOW, 1984). A organização
duro e honesto”, legitimamos nossa própria para Weber significava um arranjo de
opressão. Essa forma de pensar pré- relações sociais no qual pessoas exerciam
capitalista era defendida justamente por quem tarefas especiais e sua manutenção exigia a
se beneficiava, a elite, com quem ficava os presença de um gestor ou gestores
excedentes da produção dos cidadãos. O (THOMPSON, 1980). A maneira que o homem
capitalismo permitiu que o trabalhador encontrou para estruturar a organização foi
usufruísse dos frutos do seu trabalho, mas é hierarquizar, dando a cada indivíduo uma
incontestável o aspecto positivo gerado por posição no sistema, tal posição define quem
esse novo sistema na sociedade. manda e quem obedece. Motta (1993) diz que
desde a escola somos preparados para
Cidadãos de países desenvolvidos são mais
determinados papéis no sistema produtivo e
satisfeitos com a vida, coincidência ou não,
que, dessa maneira, as organizações são
países que viveram ou vivem sob o regime
legitimadas.
socialista, como a Rússia e a Hungria,
apresentam baixos níveis de satisfação A hierarquia burocrática nasceu nas fábricas
(VEENHOVEN et al., 1996). Segundo o World onde, junto com a divisão do trabalho,
Happiness Report, países menos felizes são contribuiu para o aumento do capital. Ela tem
também com mercados menos papel importante na burocracia como forma
desenvolvidos, baixa qualificação da mão-de- de controle através da vigilância e disciplina
obra e pouca oportunidade de emprego. O necessárias para garantir a submissão do
Butão, país famoso pelo seu Índice de trabalhador (MOTTA, 1981a). Cargos e títulos
Felicidade Interna Bruta, cuja economia é instituídos pela hierarquia significam poder e,
essencialmente primária ocupa a 84º posição já que organizações são essencialmente
do ranking de felicidade, uma posição atrás pessoas, como disse Weber, a hierarquia
da China, um país socialista. oficializa uma relação de submissão entre

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chefes e empregados (PFEFFER; FONG, interesses dos outros (KELTNER;


2005). Não obstante, a hierarquia é inevitável. GRUENFELD; ANDERSON, 2003).
Como mostrou Gruenfeld e Tiedens (2010),
Portanto, a hierarquia somada a um viés
seja com pessoas, babuínos ou cachorros,
social natural do homem o leva a ser o qual
hierarquias ficam evidentes em alguns
Sutton (2011) chamou de “general egoísta e
minutos de observação, neste estudo as
sem modos, de vez em quando”. Peter e Hull
pesquisadoras não conseguiram achar uma
(1986) alertaram para o cuidado em não
organização sem hierarquia, mesmo
confundir a hierarquia, utilizada para
eliminando a função do líder, sempre há
administrar a complexidade, com o respeito
fontes informais de poder. Em conversas
que as pessoas merecem, mas é justamente o
casuais ou atividades em grupo entre
que acontece desde que a primeira fábrica
desconhecidos, é possível perceber traços de
abriu as portas. O Princípio Peter defende que
líder e seguidor. Um exemplo é a empresa
todos os profissionais possuem um nível de
norte-americana Zappos, famosa pelas
incompetência, um cargo acima do que sua
práticas de gestão pouco convencionais, ela
capacidade permite. Ou seja, não se promove
implementou um modelo baseado na
um profissional incompetente, mas se
holocracia, cortando muitos cargos de
promove para um cargo de incompetência.
gerência. Tal ação não eliminou o poder,
Nesse estágio, o profissional, antes
apenas fez com que o poder fosse empurrado
competente, se torna incompetente e não
para baixo na hierarquia e departamentos se
conseguirá mais ser promovido. Para Peter, o
tornassem auto administráveis. Em resumo,
segredo para se livrar do atrito da
sempre haverá pessoas responsáveis pelo
incompetência, é administrar bem a
desempenho da equipe (SUTTON, 2011).
hierarquia. Mas o que é competência?
A principal diferença entre empresas pós-
Muitos já tentaram sem sucesso chegar a uma
modernas e as do começo do século XX é a
definição completa de competência (LE
capacidade de inovar (MOTTA, 1993). Esse
DEIST; WINTERTON, 2005). Burgoyne (1988)
diferencial competitivo é a maneira mais
separa “ser” de “ter”, o primeiro é atender as
segura de garantir a sobrevivência em um
demandas da empresa, o segundo é possuir
mercado onde tudo fica ultrapassado
atributos para desempenha-las de forma
rapidamente. Isso exige que as empresas
satisfatória. Woodruffe (apud LE DEIST;
sejam mais proativas e ágeis, algo que não
WINTERTON, 2005) acrescentou atributos
combina com a inflexibilidade hierárquica.
comportamentais para definir competência e
Tiedens e Fragale (2003) se perguntam como
Mansfeld (2004) organizou em três critérios:
as hierarquias continuam persistindo em uma
esperado, executado e características
época em que o conhecimento é mais
pessoais. Talvez a melhor forma de ver a
importante do que funções estabelecidas. A
competência seja através do modelo de
explicação pode estar no que Pfeffer e
competência holístico de Le Deist e Winterton
Cialdini (1998) chamou de ilusão da
(2005) baseado em quatro dimensões:
influência, que leva as pessoas a acharem
funcional, social, cognitiva e meta-
que o impacto das suas ações gera
competência. Enquanto as outras são
resultados mais positivos do que a realidade.
autoexplicativas, a meta-competência está
Aparentemente, isso é comum aos seres
relacionada à capacidade de adquirir novas
humanos, devido a um “viés de
competências substantivas e afeta as outras
autoengrandecimento” (PFEFFER; FONG,
três competências. Essa perspectiva favorece
2005) que os leva a pensar que são melhores
tanto aspectos instrumentais como
do que realmente são. Esse viés já foi
substantivos sem engessar o indivíduo que
comprovado com motoristas de caminhão,
deve estar sempre aprendendo tanto através
estudantes, jogadores de futebol e até
da educação formal como de experiências
pessoas casadas (DUNNING; HEATH; SULS,
cotidianas. Um fato interessante é que dois
2004; ROSS; SICOLY, 1979; SUTTON, 2011).
terços das competências procuradas pelas
Resumindo, a hierarquia sobrevive porque as
empresas são comuns a maioria delas
pessoas acreditam que sem elas, as
(DULEWICZ, 1989), reflexo de um sistema
organizações não sobreviveriam. Cargos de
econômico dominante e relativamente
gestão exacerbam o viés de
uniforme.
autoengrandecimento, para piorar, tornam as
pessoas menos propensas a respeitar normas No entanto, a incompetência não é o único
e contextos sociais, ou seja, pessoas com mal que assola os gestores da empresa. De
poder atendem mais a si e menos aos fato, ferramentas como as utilizadas pela

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gestão de competência reduzem as chances entrega ou rendimento (PETER; HULL, 1986).


de sobrevivência de profissionais em Se o superior atingiu o nível de competência
empresas maiores. Humilhação, falta de do Princípio Peter, ou seja, ele não é
reconhecimento, cobrança excessiva, competente para o cargo, a avaliação será
comunicação deficiente entre gestores e feita através de aparências, coisas como
subordinados são outros males comuns nas organização no trabalho, obedecer a regras,
organizações modernas. Chefes precisam ser ser educado, etc. A burocracia exerce
exímios ouvintes, treinados na arte das dominação, que faz com que os dominados
relações humanas (O’CONNOR, 1999; ajam de acordo com a vontade dos
ROETHLISBERGER; DICKSON, 1939). Chefes dominadores. Weber alerta que, embora a
e colegas grosseiros e arrogantes prejudicam dominação seja uma forma de poder, as duas
o ambiente organizacional e, são coisas diferentes. Poder é a capacidade
consequentemente, os resultados. O livro que se tem de fazer com que o outro faça
"Talentos Ocultos" cita uma empresa que algo contrário a sua vontade (WEBER, 1974).
demitiu seu melhor vendedor por rebaixar os Quando dominadas, as pessoas fazem sem
colegas e viu suas vendas totais aumentarem perceber, é a chamada alienação, um produto
30%, ainda que ninguém individualmente da burocracia (MOTTA, 1981b). Empresas se
conseguisse vender mais do que ele. Embora esforçam para propor uma espécie de ideal
se livrar dos nocivos deva ser uma prioridade, coletivo, como chamou Max Pagès, buscando
a busca por profissionais melhores deve ser capturar o ideal do ego natural do ser
constante. Uma ótima liderança consegue humano.
fazer uma equipe render como se possuísse
Aquele que se conforma com isso encontra
um integrante a mais (LAZEAR; SHAW;
uma fonte de satisfação e valorização
STANTON, 2012).
narcisista muito importante, satisfação que
explica sua aceitação de diversas sujeições,
especialmente no que diz respeito à carga de
2.2 A BUROCRACIA COMO ESTRUTURA DE
trabalho. Quanto mais fortes forem essas
SUSTENTAÇÃO DAS EMPRESAS
satisfações, mais ele aceitará essa carga,
Os ingleses consideravam a burocracia uma mais a organização será forte e mais
doença francesa, essa forma de pensar satisfação trará àqueles que com ela se
ganhou tanta força que fez o escritor francês identificam (MOTTA, 1981a).
Honoré Balzac escrever em seu livro Les
Essa é a tentativa de unir o que a empresa
Employés: “a burocracia, um grande poder,
oferece com o que os profissionais procuram,
nas mãos de pigmeus" (THOMPSON, 1980 p.
tornando mais fácil a dominação. Diante
04). Max Weber foi o mais influente estudioso
disso, a burocracia deve ser tratada como
do fenômeno da burocracia na sociedade,
uma forma de poder, sem esquecer que
segundo ele as características de um tipo
sempre há um conjunto de regras que é
ideal de organização burocrática podem ser
inerente à organização, sem elas, e sem
resumidas em: 1) especialização das tarefas;
pessoas para coloca-las em prática, as
2) hierarquia da autoridade; 3) conjunto de
relações sociais seriam conturbadas,
regras; 4) impessoalidade; 5) Emprego
descaracterizando o que conhecemos como
baseado em qualificações técnicas e 6)
comportamento organizacional (ALBROW,
eficiência (BLAU, 1956). Tragtenberg e
1970) o que culminaria em um regime
Prestes Motta apresentaram uma versão mais
semelhante ao Estado Natural de Thomas
compacta: impessoalidade, formalismo e
Hobbes onde os homens vivem em meio ao
profissionalismo (FARIA; MENEGHETTI, 2011),
caos.
este último no sentido de especialização
profissional. Outras características desse tipo A impessoalidade da burocracia exerce um
de organização que Weber chamava de efeito interessante na figura do chefe dentro
“administração burocrática” e Blau de das empresas. Motta (1981a) diz que a
“organização racional” incluíam: variação do organização assume uma forma imaginária e
salário de acordo com a posição na hierarquia onipotente na cabeça dos trabalhadores,
e promoção por mérito. Características estas onde a autoridade não é representada por
perceptíveis nas empresas pós-modernas. pessoas, mas pela própria organização como
um todo. Certamente, essa foi a realidade na
A competência de um empregado é decidida
maior parte do século XX, contudo, essa
pelo seu superior direto ou acima dele na
forma imaginária deu lugar, sobretudo nas
hierarquia, com base na sua capacidade de
últimas décadas, ao rosto do chefe. O que

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pouco mudou foi a onipotência e a tendência envolvimento espontâneo do que poder e


dos superiores altamente instrumentalizados dinheiro. Paradoxalmente, segundo Robert
de usar os interesses da organização como Merton, é disso que a burocracia precisa para
justificativa para punir ou demitir um operar com sucesso, pessoas mais
funcionário quando julgar necessário. engajadas. Isso seria possível ao usar o
Argumentos pouco claros como “não se desejo de ter uma carreira de sucesso a
encaixa no perfil”, “não atendeu às serviço da própria empresa que ao oferecer
expectativas”, e “falta de comprometimento” mais oportunidades de crescimento leva o
são comuns no ambiente corporativo. Dessa funcionário a pensar, sentir e agir mais como
forma, um chefe incompetente, por exemplo, a organização, aumentando assim seu
protege-se através da impessoalidade, comprometimento e diminuindo a
obstruindo o caminho dos mais competentes inconformidade (BLAU; SCHOENHERR,
na escalada hierárquica. A falta de 1971).
oportunidades para crescer na empresa é a
terceira maior causa de funcionários deixarem
o emprego (“Employee Job Satisfaction and 2.3 A TEORIA CRÍTICA E O IMPACTO DAS
Engagement”, 2016). RELAÇÕES HUMANAS
Em um ambiente altamente burocrático, o A importância desta seção se dá pela
profissional tem duas saídas: conformar-se, proeminência dos autores críticos no brasil
seguindo normas e regras, mas procurando como Maurício Tragtenberg, Guerreiro Ramos,
uma maneira de obter vantagem e se proteger Fernando Prestes Motta, dentre outros, no
da interferência dos superiores, ou agir estudo das organizações. Será abordado um
proativamente com atitudes que demonstrem pouco da visão crítica das organizações e do
maior envolvimento com a organização e seus capitalismo com o objetivo de dar uma
objetivos (CROZIER, 1964). Embora a sustentação maior ao leitor. A opção de inserir
segunda opção seja a melhor alternativa, há nesta seção a influência de Elton Mayo e a
empresas e gestores que se sentem escola das relações humanas por ele iniciada
ameaçados por profissionais que vão além da se dá pelo fato dele ser um grande alvo da
sua função. Quase sempre, esses gestores teoria crítica. O objetivo é desmistificar o
atingiram o seu nível de incompetência. assunto, apontando sua contribuição para as
práticas modernas de gestão sem ignorar
Para finalizar, é preciso ter em mente que
suas principais falhas.
Weber tratou a burocracia como “tipo ideal”,
um formato que embora baseado em O conceito de mais-valia é central para o
aspectos empíricos nunca se encontra entendimento da crítica ao capitalismo.
perfeitamente reproduzido no mundo real. Segundo a mais-valia, os trabalhadores
Além disso, o contexto em que ele estudou foi “vendem” a sua mão-de-obra, pois o salário
o de uma Alemanha economicamente, passa a ser uma mercadoria. Como o dono do
politicamente e socialmente instável, na qual o meio de produção, o empresário (ou
parlamento não tinha o controle adequado da capitalista) não pode vender um produto
democracia e tanto o proletariado como fabricado acima do valor de mercado, pois,
proprietários viviam temerosos (MOTTA, ninguém compraria, ele passa a exigir uma
1993). No entanto, o estudo da sua burocracia força de trabalho maior do empregado sem
contribui para um melhor entendimento da pagar o valor que poderia ser considerado
organização moderna e seu impacto na justo. Em outras palavras, a mais-valia é
sociedade. exploração da mão do trabalhador pelo
empregador (MARX, 2004). A busca
A maior preocupação para Blau, Schoenherr e
constante por eficiência e aumento de
Weber quanto à burocracia não era o homem
desempenho das empresas, portanto,
ser dominado pelos interesses de um
aumenta a mais-valia (FARIA; MENEGHETTI,
indivíduo ou de um grupo, mas no homem
2011). Para Guerreiro Ramos, o problema não
dominado pelas suas próprias organizações
estava no modelo econômico em si, com
(THOMPSON, 1980). É difícil dizer com as
empresas mandando, trabalhadores
organizações funcionariam se a burocracia
produzindo e consumidores comprando, mas
fosse extinta como gostaria Hamel (2012),
na diminuição do indivíduo na maximização
talvez mais realista seja torcer por uma
da produção, que colocava o mercado na
burocracia mais justa, menos instrumental e
frente de tudo. Ele defendia “uma sociedade
mais humana, do que pelo seu fim. Uma
suficientemente diversificada para permitir
burocracia saudável privilegia mais o

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que seus membros cuidem de tópicos especializados, tem como principal função a
substantivos de vida” (RAMOS, 1989, p. 158). reprodução da cultura capitalista
(EHRENREICH; EHRENREICH, 1977). Esta
Uma das causas para a perpetuação do
pode ser considerada a atual classe média. A
sistema e da visão centrada no mercado,
boa notícia é que já estamos no caminho de
onde o trabalho governa o homem e não o
tornar as empresas mais humanas e o que
contrário, está no sistema educacional
falta nas empresas atuais é justamente as
tradicional (OSMAR, 1968) e seus métodos
características que nos fazem humanos
voltados à racionalidade instrumental, que
(HAMEL, 2012).
prepara o ser humano trabalhador, não o ser
humano pensante, crítico. Dessa forma, a Elton G. Mayo é considerado o pai das
escola acaba transmitindo a ideologia relações humanas na administração
dominante e reproduzindo a estrutura social. (O’CONNOR, 1999), mas Tragtenberg o via
Vence na vida o mais preparado, não como um mero sofisticador do sistema de
necessariamente o melhor, mais inteligente ou dominação (FARIA, 2011). O argumento de
competente. Motta (1981) é mais Tragtenberg seria semelhante ao de que o
contundente, diz que o ensino formal prepara departamento de recursos humanos está do
cidadãos dóceis, inseguros propensos a uma lado da empresa e não do empregado.
vida de angústia e insatisfação. Essa Embora seja verdade na maioria dos casos,
docilidade da educação é reforçada pelo não é o suficiente para desqualificar a
ideal coletivo da organização e leva o contribuição de Mayo à administração. Mayo
indivíduo a sujeitar-se às exigências da foi um dos primeiros a confrontar os
empresa, muitas vezes perdendo seu senso capitalistas da época e a resistência deles a
crítico e aos poucos, sua identidade. novas práticas, desafiando a forma de pensar
dominante da época, chamada de utilitarismo,
O comportamento da organização
e um dos primeiros a aplicar psicologia no
incorporado pelo indivíduo que faz com que o
contexto organizacional (BOURKE, 1982). Ele
dominado realize as ações do dominante
foi um dos primeiros a defender uma máxima
como se fosse para si é um comportamento
da liderança moderna: o administrador
alienado. Para Motta, a alienação, assim como
precisa saber ouvir (ROETHLISBERGER;
poder e controle, é fruto da burocracia
DICKSON, 1939). É difícil imaginar qual era a
(MOTTA, 1981b), já para Karl Marx a
reação de poderosos industriais do século
alienação é fruto do próprio trabalho
passado ao ouvir tal conselho. O’Connor
(MÉSZÁROS, 2006). De uma maneira ou de
(1999) contraria Tragtenberg e diz que o
outra, o capitalismo implica alienação, pois o
trabalho de Mayo foi mal interpretado e que
homem dominado pelo trabalho e pela
sua intenção nunca foi servir aos interesses
organização burocrática, se torna alienado. O
ocultos das organizações de modo a alienar
próprio trabalho em equipe, incrivelmente
os trabalhadores.
popular nos dias de hoje favorece a
alienação, pois exige o pensamento em Para compreender o trabalho de Mayo, é
grupo, homogêneo, (THOMPSON, 1980) para importante ter em mente que ele
aumentar a sinergia e assim o desempenho. compartilhava da visão hobbesiana de que o
homem, em seu Estado Natural, vive em meio
A falta da individualidade e de espaço para o
ao caos, onde todos buscam a destruição de
pensamento crítico, substantivo, gerado pelo
todos. O Estado, então, surge para colocar
predomínio da alienação era o maior temor e
ordem, sendo o único autorizado a usar força.
Weber quanto à burocracia, pois faz dos
É o Estado que permite o estabelecimento da
homens escravos das organizações. O que
Sociedade Civil e da civilização. Nessa
não se pode esquecer é que as organizações
situação, o direito à revolução está
são comandadas por homens, portanto,
praticamente extinto, pois é preferível um
passível de transformação. Muita coisa mudou
governo ruim do que ausência de governo,
desde os estudos de Marx, Weber,
que levaria à volta do caos, ou seja, a
Tragtenberg e Guerreiro Ramos. Os próprios
negação da civilização. Analogamente, a
estudos organizacionais, desde os anos 80,
administração incorpora nas fábricas as
vêm adotando um enfoque mais social, do
mesmas funções que o Estado exerce na
indivíduo dentro de um contexto (NORD; FOX,
sociedade global, e sua justificativa é a
2004). Uma outra mudança considerável é o
eficácia para manter o sistema (MAYO, 1945).
surgimento de uma nova classe, chamada de
Essa forma de pensar fez parte o que ficou
“profissionais de gestão” que, embora não
conhecido como Hipóteses do Populacho,
sejam os donos, mas assalariados altamente

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que também diz que as pessoas tentam obter oposição de interesses", como explica Kerr
o máximo de vantagens com o seu esforço e, (1963, p. 126). Por fim, Mayo falhou em
como seres maximizadores e hedonistas, enxergar que os trabalhadores não sejam
tentariam obter seus salários com o menor motivados apenas por melhorias sociais que
esforço possível, e se nada for feito, chegará gerem um ambiente organizacional agradável,
ao ponto em que os trabalhadores serão mas que incentivos financeiros são
pagos sem trabalhar. Os trabalhadores da necessários para a satisfação no trabalho,
época tinham pouco ou nenhum treinamento, uma vez que é possível ver pessoas abrindo
e quanto menor a qualificação, maior a mão de altos salários e benefícios por um
necessidade de mecanismos para controla- ambiente profissional mais sadio e agradável.
los (PERROW, 1972 apud THOMPSON, 1980,
É desnecessário dizer que a época de Mayo,
p. 13).
assim como a de Weber, também era muito
Mayo se dedicou ao pensamento não diferente da atual. Seu objetivo era acalmar os
baseado na lógica, mas emocional e, ânimos dos trabalhadores e assim deixá-los
portanto, irracional para alguns; seu objetivo mais satisfeitos, não exatamente mais dóceis
era conciliar o operário com o trabalho, algo ou mais alienados, esses termos jamais foram
que só podia acontecer se houvesse chefes utilizados (O’CONNOR, 1999). Sua
treinados em habilidades das relações contribuição foi fundamental para humanizar o
humanas (O’CONNOR, 1999), uma vez que os ambiente profissional industrial da época,
chefes da época eram vistos como contudo, há ainda muito a ser feito para se
autoritários e contribuíam para relações superar, de uma vez por todas, a
sociais precárias que deixavam os instrumentalidade burocrática herdada da era
trabalhadores mais indispostos e menos industrial.
produtivos. A intenção de Mayo era ajustar o
trabalhador à organização, aumentando sua
satisfação através de um ambiente mais 2.4 BONS CHEFES EXISTEM?
humano. Mais feliz e satisfeito, o trabalhador
Laços informais e relações pessoais
produziria mais e estaria menos propenso a
saudáveis reduzem a alienação provocada
se unir contra a organização. A técnica
pela burocracia, além de estimular a inovação
encontrada para ajusta-lo foi a counseling
e ajudar em momentos de crise (THOMPSON,
interview (ROETHLISBERGER; DICKSON,
1980). Como agente facilitador de ambientes
1939), como o nome já sinaliza, uma
organizacionais saudáveis está a figura do
entrevista de aconselhamento comum na
chefe, cujo relacionamento é muito importante
psicoterapia e que até hoje é usada na gestão
para 53% dos trabalhadores norte-americanos
de recursos humanos e em sessões de
(“Employee Job Satisfaction and
coaching.
Engagement”, 2016). O “bom chefe” aqui
As críticas ao trabalho de Mayo deveriam ser assume um conceito muito próximo de “líder”,
menos voltadas ao seu esforço de ajustar o famoso na literatura gerencial; embora possa
trabalhador à organização e mais a outros existir um “mau líder”, normalmente o líder é
aspectos. O primeiro é considerar o usado com conotação positiva. Líderes
treinamento suficiente para desenvolver eficazes são competentes e benevolentes,
habilidades sociais, pois o próprio equilibrando desempenho funcional com
treinamento, cursos como Dale Carnegie, humanização, características comuns tanto a
livros e cursos, podem ser considerados líderes de empresas como de tribos primitivas
instrumentos de alienação e controle, como o que vivem à base da caça e coleta (VAN
já mencionado sistema de educação. Outra VUGT; HOGAN; KAISER, 2008).
crítica que pode ser feita ao método de Mayo Historicamente, o líder carismático é capaz de
e não à intenção, é que o treinamento era revolucionar. Em momentos críticos, em que
apenas para os chefes, ou seja, para a elite. há um excesso de rigidez nas instituições
Um outro aspecto a ser criticado é considerar sociais e elas perdem a capacidade para
que chefes e empregados possuem os enfrentar situações difíceis, o poder do
mesmos objetivos e que, isso só não carisma abre novos caminhos. No entanto,
acontece, quando estão mal informados, uma essa vitória nunca é definitiva e a disrupção,
vez que é evidente que empregados possuem aos poucos, vai se tornando o novo padrão,
interesses divergentes da empresa, "não por dando início a um novo ciclo de acomodação
carência no processo de comunicações, ou (MOUZELIS, 1975).
por falta de habilidades sociais, mas por real

Tópicos em Administração - Volume 3


57

Falar em liderança é falar em motivar equipe, subsistência, mas também para ter acesso a
embora o papel do líder seja muito mais uma vida mais plena e satisfatória. O homem
amplo, ele inclui proteger sua equipe de é um ser social que se desenvolve a partir de
interferências negativas para que trabalhem interações com outros homens (LEITÃO;
mais e melhor. Tal dinâmica podia ser FORTUNATO; FREITAS, 2006). Sendo assim,
percebida de uma forma mais limitada em não é aceitável que esse aspecto seja
Mayo, ele dizia que se existe uma tensão ignorado por organizações gananciosas que
atrapalhando o trabalhador, é função do pressionam o trabalhador em busca de mais
gerente corrigir (O’CONNOR, 1999). Contudo eficiência e maiores resultados, na maioria
nem sempre é o funcionário que precisa de das vezes oferecendo pouco, ou apenas
correção, pode ser um processo burocrático incentivos financeiros e não sociais que
da organização, um diretor inconveniente ou promovam bem-estar. Na busca por ascender
preguiçoso, má comunicação, a ideia é a profissionalmente, as pessoas acabam se
mesma: o chefe precisa zelar pela harmonia sujeitando às imposições de empresas
da equipe. Um ex-diretor da 3M, uma das burocráticas superficiais e instrumentais onde
mais inovadoras empresas do mundo, o que importa são números.
descreve “depois de plantar uma semente no
Por outro lado, para as empresas continuarem
solo, você não deve desenterra-la toda
crescendo precisam se tornar mais humanas,
semana para ver como está indo” (SUTTON,
buscando uma organização mais substantiva
2011). Assim como no campo de batalha, um
e menos instrumental, com lideranças mais
dos principais objetivos do líder na empresa é
horizontais e maiores laços informais entre
manter a moral alta. Otimismo e entusiasmo
chefes e funcionários, o que resultaria na
são dois estimulantes dos bons resultados e,
diminuição da alienação e promoveria maior
frequentemente, quem tem chega mais longe
capacidade de inovação (THOMPSON, 1980).
(SEGERSTROM, 2007).
Inovar é indispensável para que as empresas
Um bom chefe em uma boa organização tem sobrevivam nos próximos 20 anos (HAMEL,
a capacidade de aumentar o engajamento 2012). Aparentemente Weber estava certo e a
das pessoas. O “relacionamento com o burocracia é de difícil destruição, ela parece
superior” é o quinto fator que mais promove o ser necessária para a sobrevivência das
engajamento dos funcionários, e o chefe empresas e se bem administrada, a
certamente pode facilitar outros como “o burocracia pode oferecer aspectos positivos à
relacionamento entre os colegas” (primeiro gestão moderna (SUTTON; RAO, 2015).
lugar) e “oportunidades para usar suas
Este ensaio não tem a pretensão de sugerir
habilidades” (segundo lugar) (“Employee Job
alternativas ao modelo burocrático, isso
Satisfaction and Engagement”, 2016).
significaria a quebra de paradigma, o não é
Conforme alertou Henry Mintzberg na
simples. No entanto, entre algumas
intenção de empoderar a equipe, acaba-se
alternativas já propostas como economia
empoderando ainda mais um único indivíduo.
plural, economia solidária, paraeconomia e
O bom chefe é o líder que usa sua autoridade
autogestão, uma que tem se mostrado de fácil
para proteger e promover seus funcionários.
aplicação, pois não rompe com o modelo,
Ele não deve ser uma estrela, mas se chegar
mas o ajusta, é a economia de comunhão
a tal, é porque a equipe o colocou lá. “Os
(EdC) que pode ser entendida como uma
melhores chefes beiram a confiança
nova cultura organizacional (BRUNI, 2005).
excessiva, mas uma dose saudável de
Empresas adeptas do EdC reconhecem que o
autocrítica e humildade os salva de se
aumento espontâneo de produtividade está
tornarem arrogantes e obstinados” (SUTTON,
na melhor qualidade dos relacionamentos e
2011).
que a organização é construção de todos e
não de alguns poucos no topo. Para essas
empresas, o lucro não está acima do bem-
3 CONSIDERAÇÕES FINAIS
estar e da saúde mental dos funcionários e os
O objetivo deste ensaio foi avaliar o papel dos superiores lideram pelo exemplo (LEITÃO;
indivíduos dentro das organizações pós- FORTUNATO; FREITAS, 2006). Contrária `as
modernas que, embora altamente alternativas citadas anteriormente, a economia
tecnológicas e especializadas ainda se de comunhão parece provar que é possível
assemelha às fábricas de 100 anos atrás. para organizações de médio e grande porte
Muita coisa mudou e uma delas é que o operarem com base em valores mais
homem não trabalha mais apenas para sua humanos e com espaço para a racionalidade

Tópicos em Administração - Volume 3


58

crítica substantiva. As organizações EdC liberdade de usar as habilidades que


apresentam receitas e lucros mais estáveis e constituem sua própria essência, convivendo
uma produtividade acima da média do setor em harmonia com o meio a sua volta. “Se
(BRANDALISE, 2003; GONÇALVES; LEITÃO, nossas habilidades sociais tivessem
2001 apud LEITÃO et al., 2006, p. 900). aumentado na medida de nossas habilidades
técnicas, não teríamos assistido a uma nova
O que o mundo mais precisa é que o ser
guerra europeia” (Elton G. Mayo).
humano tenha o poder sobre ele mesmo e a

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Tópicos em Administração - Volume 3


60

Capítulo 6

Kelane Bezerra de Aguiar


Sueli Maria de Araújo Cavalcante
Elidihara Trigueiro Guimarães
Cláudia Buhamra Abreu Romero
Ana Paula da Cruz Holanda Barros

Resumo: Esta pesquisa tem como objetivo analisar o comprometimento


organizacional dos Secretários Executivos de uma instituição pública. Aborda
aspectos conceituais sobre comprometimento organizacional e apresenta
abordagens unidimensionais e multidimensionais constantes na literatura,
destacando, o modelo de Meyer e Allen (1997). Além disso, destaca o papel do
Secretário Executivo para a organização. Caracteriza-se como uma pesquisa do
tipo descritiva, bibliográfica e estudo de caso, com abordagem quantitativa. O local
escolhido para a realização da pesquisa foi a Universidade Federal do Ceará (UFC)
e a amostra contou com 36 Secretários Executivos que atuam nos campi da UFC,
na cidade de Fortaleza. Os resultados obtidos demonstraram que os Secretários
Executivos estão emocionalmente vinculados à UFC, se esforçando em favor dessa
instituição e desejando nela permanecer, constatando assim, elevado grau de
comprometimento organizacional afetivo, se sentem integrados e avaliam que a
instituição é importante para eles. Os resultados também mostraram que os
servidores possuem vínculo moderado com a instituição por motivo de necessidade
(comprometimento instrumental) e por obrigação moral (comprometimento
normativo), considerando as médias obtidas por esses componentes.
Palavras chave: Comprometimento organizacional. Secretários Executivos.
Instituição Pública.

Tópicos em Administração - Volume 3


61

1 INTRODUÇÃO organização, que o estimula a dar algo de si,


como a sua energia e lealdade. Para Zanelli e
Presencia-se uma nova fase no serviço
Silva (2008), comprometimento organizacional
público, na modernização do Estado e nos
é o grau de identificação de um indivíduo com
esforços dos organismos oficiais em melhorar
os valores e objetivos da organização,
a gestão pública e atuar com competência em
associando-se a disposição desse indivíduo
todos os setores do órgão público. A
em trabalhar em prol da organização.
Universidade Federal do Ceará (UFC) é um
exemplo de organização pública que vem se Quando se objetiva uma melhor compreensão
modificando ao longo do tempo, sendo uma dos vínculos que são estabelecidos pelos
das principais instituições de ensino superior trabalhadores em uma organização, torna-se
do Brasil que vem absorvendo mão de obra imprescindível o estudo dos enfoques ou
cada vez mais qualificada, e que atua abordagens do comprometimento
estrategicamente para o desenvolvimento organizacional.
econômico, social, educacional, tecnológico e
científico das sociedades cearense e
brasileira, primando pela qualidade na 2.1 ABORDAGENS DO COMPROMETIMENTO
prestação de seus serviços. ORGANIZACIONAL
Considerando a relevância da participação Bastos (1994) apresenta cinco enfoques ou
das pessoas para alcance do sucesso abordagens do comprometimento
organizacional, principalmente em uma organizacional: afetivo, instrumental,
instituição pública de grande importância normativo, sociológico e comportamental.
como a UFC, o papel do profissional de
a) Enfoque afetivo
secretariado executivo torna-se estratégico e
vem se modificando para atender a um Na percepção de Dias (2005), a abordagem
mercado de trabalho cada dia mais exigente, afetiva ou atitudinal domina os estudos sobre
tendo em vista as necessidades das comprometimento organizacional, tendo como
organizações que vêm se transformando ao principal referencial teórico os trabalhos
longo do tempo. Medeiros e Hernandes desenvolvidos por Mowday, Steers e Porter
(2010) enfatizam a importância desse (1979) e Mowday, Porter e Steers (1982), cuja
profissional ao afirmarem que o mesmo é perspectiva analítica ressalta a natureza
responsável pelo assessoramento do afetiva do processo de identificação com os
executivo, dominando habilidades objetivos e valores da organização por parte
demandadas no escritório, assumindo do indivíduo. Bastos (1994, p. 43) afirma que
responsabilidades sem supervisão direta e a definição do construto pelos autores
tomando decisões segundo objetivos ressalta essa identificação: “(a) forte crença e
destacados pela autoridade, podendo tornar- aceitação dos valores e objetivos da
se ponte entre os que tomam decisões organização, (b) o forte desejo de manter o
gerenciais e aqueles que executam tais vínculo com a organização e (c) a intenção de
decisões. se esforçar em prol da organização”. Dias
(2005) esclarece que tal definição evidencia a
Diante desse contexto, o presente trabalho
noção de identificação, os sentimentos de
tem como objetivo investigar, no
lealdade, além do desejo de permanecer e se
comportamento dos Secretários Executivos da
esforçar em favor da organização.
Universidade Federal do Ceará, o
comprometimento com a instituição. b) Enfoque instrumental
Segundo Bastos (1994), no enfoque
instrumental, também denominado calculativo,
2 COMPROMETIMENTO ORGANIZACIONAL
de continuação ou “side-bets”, o
Ao longo de várias décadas de pesquisa, o comprometimento está relacionado às
conceito de comprometimento tem definições recompensas e custos que estão associados
que nem sempre são convergentes. A à condição de integrante de uma
pluralidade de significados sobre o construto organização. Medeiros (2003) afirma que o
torna-o polissêmico, complexo e multifacetado enfoque instrumental deriva dos estudos de
(MENEZES, 2009). Bandeira, Marques e Veiga Becker (1960), que o descreve como uma
(2000) definem o comprometimento tendência do indivíduo de se engajar em
organizacional como um intenso vínculo de linhas consistentes de atividade. Para esse
uma pessoa com a autor, um indivíduo permanece numa

Tópicos em Administração - Volume 3


62

organização em virtude dos custos e (attachment) à organização tendo como base


benefícios que estão associados à sua saída, a teoria da autoridade de Weber (1947) e as
também conhecidas como trocas laterais ideias de teóricos marxistas, tais como
(“side-bets”), passando, assim, a envolver-se Edwards (1979) e Burawoy (1983). Halaby
em linhas consistentes de atividade, com o afirmava que “o vínculo do trabalhador é
intuito de manter-se no emprego. Siqueira e conceitualizado em termos das relações de
Gomide Júnior (2004) afirmam que o autoridade que governam o controle do
comprometimento calculativo com a empregador e a subordinação dos
organização seria originado a partir da empregados”. Nesse sentido, os funcionários
avaliação positiva dos resultados levam para a organização, além de uma
consequentes aos investimentos do orientação básica para o desempenho de seu
funcionário, tais como posição obtida na papel de subordinado, uma espécie de
organização, acesso a determinados conjunto de códigos de caráter normativo que
privilégios, benefícios ofertados a funcionários podem especificar maneiras de dominação.
antigos, planos de aposentadoria, e ao Dessa forma, o apego do funcionário não
mesmo tempo da possibilidade de perda ou estaria relacionado a sua dependência de
ausência de reposição das vantagens amor ou de dinheiro, mas sim na percepção
resultantes dos investimentos, caso houvesse de legitimidade que possui o regime de
desligamento da instituição. governo do empregador. Dias (2005) enfatiza
ainda que, em outro estudo, Halaby e
c) Enfoque normativo
Weakliem (1989) definem apego como o
O enfoque normativo surge, de acordo com interesse do funcionário de permanecer no
Bastos (1994), do cruzamento entre a teoria atual emprego ou a expectativa de utilidade
organizacional de Etzioni e a Psicologia atribuída pelo mesmo em relação a
Social, em especial os trabalhos de Ajzen e permanecer na organização ou procurar
Fishbein (1980) sobre a estrutura das atitudes, outra. Considerada uma forma mais simples e
assim como do poder preditivo que as sem sentido afetivo, essa definição, para os
mesmas possuem em relação ao autores, captura o cerne do comprometimento
comportamento. Bastos (1994) esclarece que organizacional. Concluem ainda que o apego
as pesquisas de Wiener (1982) e Wiener e pode ser revelado por meio de expressões
Vardi (1980) usam conceitos relativos aos verbais ou mesmo comportamentais do
sistemas cultural e motivacional para funcionário.
determinar o comportamento das pessoas nas
e) Enfoque comportamental
organizações. Definem cultura como os
valores partilhados que, em conjunto, O enfoque comportamental recebe influência
produzem sobre os membros pressões da Psicologia Social, introduz o
normativas. Essas pressões se associam ao comprometimento nas teorias de atribuição e
sistema de recompensas, influenciando o aceita que a avaliação do construto feita pelo
comportamento. Tal quadro de referência é trabalhador objetiva manter a consistência
denominado de normativo-instrumental. Na entre os comportamentos do mesmo (volitivos
percepção de Siqueira e Gomide Júnior e explícitos, como, por exemplo, o de
(2004, p. 320), o vínculo normativo é continuar na organização) e as suas atitudes
constituído pelo reconhecimento de (BASTOS, 1994). Na percepção de Kiesler e
obrigações e deveres morais para com a Sakamura (1966, apud BASTOS, 1993, p. 58),
instituição, que são acompanhados por o comprometimento “é um vínculo do
sentimentos de culpa, de incômodo, bem indivíduo com atos ou comportamentos,
como de apreensão e de preocupação, a fazendo com que as cognições relativas a tais
partir do momento em que o funcionário atos se tornem mais resistentes a mudanças
pensa ou planeja deixar a mesma. Em posteriores”. Há uma espécie de círculo de
resumo, o comprometimento normativo autorreforçamento em que o
constitui-se de “um conjunto de crenças comprometimento conduz ao
mantidas por empregados sobre obrigações desenvolvimento de atitudes, que, por
de deveres de reciprocidade para com a conseguinte, conduz a comportamentos
empresa empregadora”. futuros, resultando em um vagaroso e
consistente crescimento de um vínculo
d) Enfoque sociológico
comportamental e psicológico de uma pessoa
Segundo Dias (2005, p. 176), no enfoque com uma organização. Segundo Medeiros
sociológico, Halaby (1986) analisou o apego (2003), após alguns pesquisadores

Tópicos em Administração - Volume 3


63

perceberem que os enfoques organização, começaram a ganhar


unidimensionais, mais do que tipos de importância os modelos multidimensionais do
comprometimento, eram considerados como comprometimento organizacional. O Quadro 1
elementos presentes no vínculo psicológico mostra as diferentes dimensões dos enfoques
que se estabelecia entre indivíduo e multidimensionais do comprometimento.

Quadro 1 - Enfoques multidimensionais do comprometimento organizacional


Autores Dimensões
Kelman Compliance (ou instrumental, motivação por recompensas extrínsecas); Identification (desejo
(1958) de afiliação); Internalization (sintonia entre valores individuais e organizacionais).
Gouldner Integração (desejo de afiliação); Introjeção (introjeção de valores e características
(1960) organizacionais, similar ao enfoque normativo).

Etzioni Moral (similar ao normativo); Calculativo (instrumental); Alienativo (baseado na coerção e


(1961) repressão, encontrado em prisões).

Kanter Coesão (fortalecimento do vínculo através de técnicas e cerimônias); Continuação (demanda


de sacrifícios pessoais dificultando a busca de alternativas de trabalho); Controle
(1968) (normativo); Obs.: dimensões identificadas por Mowday, Porter e Steers (1982).
Meyer e Afetivo (permanecem porque querem); Instrumental (permanecem porque precisam);
Allen (1991) Normativo (sentem-se obrigados a permanecer).

Thévenet Adesão (internalização dos valores da organização); Oportunidade (oferecimento de


(1992) oportunidades de acordo com as expectativas).

Becker Pelo desejo de associação; Congruência com os valores individuais; Para obtenção de
(1992) recompensas ou evitar punições.

Jaros et al. Vínculo psicológico afetivo através de sentimento como lealdade, afeição, amizade, alegria,
prazer; Vínculo de continuação, pelos custos de sair da organização; Vínculo moral, que
(1993) seria um senso de dever, ou chamado, pelos objetivos, valores e missão da organização.

Medeiros Afetivo (internalização de valores e objetivos); Instrumental (poucas alternativas); Normativo


(obrigação pelo desempenho); Normativo (obrigação em permanecer); Afiliativo (sentimento
(2003) de fazer parte); Instrumental (linha consistente de atividade).
Fonte: Schirrmeister (2006, p. 36).

Soldi (2006) afirma que, dentre os modelos instrumentos que foram desenvolvidos
multidimensionais de comprometimento objetivavam melhor operacionalizar e elucidar
existentes, o que possui maior aceitação entre o construto.
os pesquisadores, com validação em diversas
Para eles, o construto é conceituado como
culturas, é o modelo de três componentes do
tridimensional, sendo composto pelo
comprometimento estabelecidos por Meyer e
comprometimento afetivo, instrumental e
Allen.
normativo, que podem agir de maneira
2.2 O MODELO DE MEYER E ALLEN isolada ou combinada, influenciando o
comportamento, pois tal fato induziria a ideia
De acordo com Medeiros e Enders (1998), na
de que são mutuamente excludentes, o que
década de 1990, foi dada atenção especial à
não condiz com o modelo apresentado pelos
validação do modelo de três componentes do
mesmos. Segundo Dias (2005, p. 182), os três
comprometimento organizacional elaborado
componentes do comprometimento
pelos professores canadenses John P. Meyer
organizacional propostos por Meyer e Allen
e Natalie J. Allen (1990, 1991, 1993, 1997).
(1991) são conceituados da seguinte maneira
Moscon (2009) ressalta que os trabalhos
(Quadro 2):
desses professores se transformaram em
referência na pesquisa sobre
comprometimento organizacional e os

Tópicos em Administração - Volume 3


64

Quadro 2 - Componentes do comprometimento organizacional de Meyer e Allen


Razões da Estado
Componentes Caracterização
permanência psicológico
Grau em que o indivíduo se sente O indivíduo sente
Afetivo emocionalmente ligado, identificado e envolvido que quer Desejo
com a organização. permanecer.
Grau em que o indivíduo se mantém ligado à
organização devido ao reconhecimento dos
custos associados com a sua saída da mesma. O indivíduo sente
Instrumental Este reconhecimento pode advir da ausência de que tem necessidade Necessidade
alternativas de emprego ou do sentimento de que de permanecer.
os sacrifícios pessoais gerados pela saída serão
elevados.
Grau em que o indivíduo possui um sentido de O indivíduo sente
Normativo obrigação ou dever moral de permanecer na que deve Obrigação
organização. permanecer.
Fonte: Dias (2005, p. 182).

- Affective commitment (comprometimento resultado de ações que elevam os custos


afetivo): refere-se ao envolvimento emocional associados à saída do funcionário de uma
do indivíduo, no qual se observa uma organização. Os autores dividem essas ações
identificação com a organização. em duas categorias que podem influenciar
“Empregados com um forte comprometimento esse comprometimento e que são
afetivo permanecem na organização porque denominadas de investimentos e alternativas.
assim o querem”; A primeira categoria envolveria o investimento
em algo que o funcionário poderia perder
- Continuance commitment (comprometimento
caso deixasse a organização, tais como
instrumental): é percebido como custos
dinheiro, tempo, esforço, planos de
associados por deixar a organização.
aposentadoria e de saúde. A segunda
“Empregados cujo vínculo principal com a
categoria estaria relacionada a percepção de
organização é baseado no comprometimento
um funcionário quanto às muitas alternativas
instrumental, permanecem na mesma porque
viáveis de trabalho, fazendo com que o
precisam”;
mesmo tenha um grau de comprometimento
- Normative commitment (comprometimento instrumental menor que outro com poucas
normativo): refere-se ao sentimento de alternativas.
obrigação em permanecer na organização.
Soldi (2006) esclarece ainda que o
“Empregados com um alto nível de
comprometimento normativo reflete, na
comprometimento normativo sentem que
opinião de Meyer e Allen (1997), o sentimento
devem permanecer na organização”.
de obrigação de continuar no emprego.
Soldi (2006) destaca que, o comprometimento Funcionários que possuem elevado grau de
afetivo, de acordo com Meyer e Allen (1997), comprometimento normativo sentem que
é caracterizado pela identificação e devem continuar na organização como uma
envolvimento emocional com a organização. forma de retribuição dos favores que foram
Para os autores, o preenchimento das recebidos. Os autores ressaltam que a
necessidades individuais, tratamento justo e internalização ocorre por meio de processos
participação no processo decisório são que envolvem condicionantes (punições e
fatores importantes para o desenvolvimento prêmios) e modelagem (observação e
desse enfoque. Ressaltam que a relação entre imitação), nos quais as pessoas aprendem o
funcionário e supervisor, assim como a que é valorizado e esperado deles pela
clareza do que se espera desses funcionários família, cultura ou organização. No
são fatores que podem influenciar o comprometimento normativo as pessoas
comprometimento afetivo. aprendem sobre lealdade para com a
organização.
No que diz respeito ao comprometimento
instrumental, Soldi (2006) enfatiza ainda que,
para Meyer e Allen (1997), o mesmo é o

Tópicos em Administração - Volume 3


65

Dias (2005) afirma que Meyer e Allen organizacional, sendo um deles com 24 itens
desenvolveram dois tipos de questionários e uma segunda versão com 18 itens (Quadro
para avaliar o comprometimento 3).

Quadro 3 – Versão do questionário de comprometimento organizacional de Meyer e Allen (1997)


ITEM COMPROMETIMENTO AFETIVO
1 Eu seria muito feliz se dedicasse o resto de minha carreira a esta organização
2 Eu realmente sinto os problemas da organização como se fossem meus
3 Eu não sinto um forte senso de integração com esta organização
4 Eu não me sinto emocionalmente vinculado a esta organização
5 Eu não me sinto como uma pessoa de casa nesta organização
6 Esta organização tem um imenso significado pessoal para mim
ITEM COMPROMETIMENTO INSTRUMENTAL
1 Na situação atual, ficar nesta organização é, na realidade uma necessidade mais do que um desejo
2 Mesmo que eu quisesse, seria muito difícil para mim deixar esta organização agora
3 Se eu decidisse deixar esta organização agora, minha vida ficaria bastante desestruturada
4 Eu acho que teria poucas alternativas se deixasse esta organização.
Se eu já não tivesse dado tanto de mim a esta organização, eu poderia pensar em trabalhar num
5
outro lugar
Uma das poucas consequências negativas de deixar esta organização seria a escassez de
6
alternativas imediatas
ITEM COMPROMETIMENTO NORMATIVO
1 Eu não sinto nenhuma obrigação de permanecer nesta organização
2 Mesmo se fosse vantagem para mim, sinto que não seria certo deixar esta organização agora
3 Eu me sentiria culpado se deixasse esta organização agora
4 Esta organização merece minha lealdade
5 Eu não deixaria esta organização agora porque tenho uma obrigação moral com as pessoas daqui
6 Eu devo muito a esta organização
Fonte: Adaptado de Dias (2005, p. 184).

Cada item deve ser avaliado por meio de uma 3 O PAPEL DO SECRETÁRIO EXECUTIVO
escala em formato Likert. Esses instrumentos
No Brasil, a profissão secretarial evoluiu
apresentam-se proporcionalmente divididos,
consideravelmente a partir da sua
sendo um terço dos itens relativos ao
regulamentação em 1985 (DURANTE, 2012).
comprometimento afetivo e os outros dois
A Lei nº 7.377, de 30 de setembro de 1985,
terços para os comprometimentos
regulamentou o exercício da profissão desses
instrumental e normativo.
trabalhadores e definiu suas atribuições,
Na visão de Pereira (2013), o modelo conforme dispõe o Artigo 4º:
apresentado permite que os pesquisadores
Art. 4º - São atribuições do Secretário
possam ter um melhor entendimento da
Executivo:
relação do funcionário com a organização ao
considerarem a força da atuação conjunta  - planejamento, organização e direção
das três formas de comprometimento. Tal fato de serviços de secretaria;
motivou a escolha do modelo de Meyer e
Allen para ser utilizado nesta pesquisa.  - assistência e assessoramento direto
a executivos;

Tópicos em Administração - Volume 3


66

 coleta de informações para a clima organizacional”. Ao desempenharem o


consecução de objetivos e metas de papel de assessores dos executivos, os
empresas; secretários devem conhecer as técnicas
utilizadas por esses gestores, no intuito de
 redação de textos profissionais conhecer suas ações, e enfatizam a
especializados, inclusive em idioma “liderança, motivação, comunicação efetiva,
estrangeiro; negociação e criatividade”.
 interpretação e sintetização de textos Durante (2012) enfatiza que os secretários
e documentos; ganharam mais espaço nas instituições, com
 taquigrafia de ditados, discursos, atuação e interferência mais ativa nos
conferências, palestras de explanações, processos organizacionais e maior autonomia
inclusive em idioma estrangeiro; para desenvolver seu trabalho, sendo sua
atuação considerada muito mais estratégica
 versão e tradução em idioma do que operacional. Esclarece ainda que
estrangeiro, para atender às necessidades de independentemente do tipo e do tamanho da
comunicação da empresa; organização, os secretários desempenham
papel fundamental e que vêm se destacando
 registro e distribuição de expedientes
por suas competências e contribuições para o
e outras tarefas correlatas;
sucesso das organizações.
 orientação da avaliação e seleção da
correspondência para fins de
encaminhamento à chefia; 4 ASPECTOS METODOLÓGICOS

 conhecimentos protocolares. A presente pesquisa caracteriza-se como


descritiva, bibliográfica e estudo de caso.
Descritiva, por se propor expor características
Na UFC, de acordo com o Ofício Circular nº de uma determinada população ou fenômeno,
015/2005/CGGP/SAA/SE/MEC, de 28 de não possuindo o compromisso de explicar os
novembro de 2005, os Secretários Executivos, fenômenos que descreve, mas que pode
ocupantes dos cargos técnico-administrativos servir de base para essa explicação.
em educação, possuem as seguintes Bibliográfica, por ser baseada em material já
atribuições: publicado e acessível ao público em geral
(VERGARA, 2014), possibilitando assim pôr o
Assessorar direções, gerenciando pesquisador em contato direto com tudo o
informações, auxiliando na execução de que já foi dito, escrito ou filmado sobre algum
tarefas administrativas e em reuniões, assunto (MARCONI; LAKATOS, 2010). Estudo
marcando e cancelando compromissos; de caso por estar voltado para um estudo
coordenar e controlar equipes e atividades; mais aprofundado de um ou poucos objetos,
controlar documentos e correspondências; de tal forma a permitir seu amplo e detalhado
atender usuários externos e internos; conhecimento (GIL, 2010).
organizar eventos e viagens e prestar serviços
em idioma estrangeiro. Assessorar nas Quanto à natureza, pode ser classificada
atividades de ensino, pesquisa e extensão. como pesquisa quantitativa, pois, segundo
Richardson (2012), é caracterizada pelo
Em relação à modificação da atuação desses emprego da quantificação por meio de
profissionais, que vem ocorrendo ao longo técnicas estatísticas usadas tanto na coleta
dos anos, Durante (2012, p. 7) afirma que “O das informações quanto no tratamento delas.
secretário se efetiva hoje como um agente de
resultados, um agente facilitador, um gestor, O universo da pesquisa é composto pelos
consultor e empreendedor do negócio, servidores técnico-administrativos, ocupantes
prestando assessoria aos dirigentes e do cargo de Secretário Executivo, que estão
tomadores de decisão”. lotados nos campi da Universidade Federal
do Ceará, em Fortaleza. A escolha dos
Na percepção de Mazulo e Liendo (2010, p. Secretários Executivos, como foco desta
19) é importante que esses profissionais pesquisa, deve-se, sobretudo, em virtude da
possuam conhecimentos relativos a todas as atuação desses profissionais, que está se
áreas de uma instituição, e destacam as tornando cada vez mais estratégica, e da
seguintes: “marketing, administração, importância dos mesmos para as
recursos humanos, finanças, logística, organizações.
contabilidade, telecomunicações, mercado e

Tópicos em Administração - Volume 3


67

De acordo com dados fornecidos pela Pró- 3,5, como grau de comprometimento
Reitoria de Gestão de Pessoas (PROGEP) da moderado; e entre 3,5 e 5, como elevado grau
instituição analisada, até a primeira quinzena de comprometimento.
do mês de outubro de 2016, foi contabilizado
um total de 52 profissionais que se
enquadravam no perfil mencionado. A 5.1 QUANTO AO COMPROMETIMENTO
amostra total obtida compõe-se de 36 AFETIVO
servidores.
Em relação ao comprometimento afetivo, o
O instrumento de coleta de dados utilizado foi item “Eu me sinto como uma pessoa estranha
o questionário, o qual se encontra estruturado na UFC”, apresentou o maior valor percentual
em duas partes. A primeira parte é voltada de discordância (72,2%). Entretanto, esse
para a coleta de dados relacionados ao perfil item deve ser analisado em sentido inverso,
sóciodemográfico dos participantes e a ou seja, quanto mais o respondente assinala
segunda parte busca avaliar o que discorda da afirmação de que se sente
comprometimento organizacional dos como uma pessoa estranha na instituição,
respondentes por meio de uma escala Likert mais ele pretende afirmar o contrário, ou seja,
de cinco pontos relativa ao grau de que se sente em casa.
concordância, e que variavam de 1 (discordo
Em relação a essa inversão de sentido,
totalmente) a 5 (concordo totalmente).
Malhotra (2012) enfatiza que é importante
Para tanto, os itens a serem avaliados foram também fazer uso da coerência na atribuição
baseados no modelo desenvolvido por Meyer dos escores quando se faz uso de uma
e Allen, em escala reduzida, com pequenas escala Likert. Assim, as afirmações negativas
alterações em alguns itens para evitar ou desfavoráveis devem ser escalonadas em
possíveis dificuldades de interpretação por ordem inversa à da escala normal.
parte dos respondentes. Tal modelo foi
Essa inversão na escala permitiu que o item
escolhido por ser um dos mais utilizados entre
em questão alcançasse a maior média do
os pesquisadores na análise do
componente afetivo (4,47). O item também
comprometimento organizacional dos
apresentou o menor valor em relação ao
trabalhadores e pela possibilidade de análise
desvio padrão (0,97), o que representa a
de múltiplos comprometimentos.
menor divergência de opinião dos
respondentes em relação ao mesmo.
5 RESULTADOS E DISCUSSÃO O item “A UFC tem um imenso significado
pessoal para mim”, apresentou a segunda
O perfil dos profissionais ocupantes do cargo
maior média (4,33) e o segundo menor desvio
de Secretário Executivo na UFC, lotados nos
padrão (0,99), o que representa,
campi de Fortaleza, caracteriza-se por ser
respectivamente, a elevada importância da
formado, em grande maioria, por mulheres
instituição para os servidores e também uma
(88,9%) que estão na faixa etária de 26 a 35
menor divergência de opinião dos mesmos.
anos (44,4%), casadas (50%), sem filhos
(52,8%), com titulação de especialista (75%), O item “Eu me sinto emocionalmente sem
que possuem entre 4 e 10 anos de serviço na vínculo com a UFC”, obteve um percentual
instituição (72,2%) e com faixa salarial líquida elevado de discordância (61,1%), mas deve
compreendida entre R$ 3.000,00 e ser analisado em sentido inverso, ou seja, ao
R$ 5.000,00 (44,4%). assinalarem que discordam dessa afirmação,
supõe-se que os respondentes pretendiam
A avaliação do comprometimento
dizer que concordam com a afirmação de que
organizacional dos Secretários Executivos da
se sentem emocionalmente vinculados.
UFC foi estruturada de acordo com os três
componentes do comprometimento O item “Eu não sinto um forte senso de
organizacional propostos por Meyer e Allen integração com a UFC”, apresentou um
(1997): comprometimento afetivo, instrumental percentual de discordância total de 36,1%.
e normativo. Entretanto, esse item também deve ser
analisado em sentido inverso. Dessa forma,
Para a avaliação dos resultados, foram
quanto maior a discordância em relação à
adotados os índices propostos por Araújo
essa afirmação, mais as pessoas pretendem
(2010), onde as médias situadas entre 1 e 2,5
afirmar o contrário, ou seja, que sentem um
são consideradas como sendo relativas a um
forte senso de integração.
grau de comprometimento baixo; entre 2,5 e

Tópicos em Administração - Volume 3


68

O item “Eu seria muito feliz se dedicasse o parcialmente com essa afirmação. Entretanto,
resto de minha carreira à UFC”, obteve 38,9% nota-se também um elevado percentual de
de concordância parcial em relação à pessoas (30,6%) que discordam totalmente
afirmação, alcançando a menor média do dessa afirmação, ou seja, para elas haveriam
componente afetivo (3,17) e o maior desvio alternativas imediatas de trabalho, caso se
padrão (1,25), o que também é fator indicativo desligassem da instituição. Essa divergência
de uma maior divergência de opinião dos de opinião também pode ser observada no
participantes. elevado desvio padrão (1,37) que foi
alcançado pelo item.
Por fim, no item “Eu realmente sinto os
problemas da UFC como se fossem meus”,
33,3% dos servidores afirmaram que nem
5.3 QUANTO AO COMPROMETIMENTO
concordam nem discordam da afirmação,
NORMATIVO
fazendo com o item obtivesse também a
menor média (3,17) do componente afetivo. A respeito do comprometimento normativo, o
item 13, “Eu me sinto sem obrigação de
permanecer na UFC, 33,3% dos participantes
5.2 QUANTO AO COMPROMETIMENTO assinalaram que discordam totalmente dessa
INSTRUMENTAL afirmação. Entretanto, esse item deve ser
analisado em sentido inverso, ou seja, ao
Em relação aos resultados obtidos quanto ao
afirmarem que discordam, os servidores
comprometimento instrumental, os itens “Na
podem afirmar na realidade o contrário, que
situação atual, ficar na UFC é, na realidade,
se sentem obrigados em permanecer na
uma necessidade mais do que um desejo”,
instituição. Diante disso, os valores da média
“Mesmo que eu quisesse, seria muito difícil
(3,50) e do desvio padrão (1,38) obtidos pelo
para mim deixar a UFC agora” e “Se eu
item foram calculados a partir da inversão dos
decidisse deixar a UFC agora minha vida
escores da escala Likert adotada. Esses
ficaria bastante desestruturada”, obtiveram,
valores correspondem a segunda maior
respectivamente, 38,9%, 33,3% e 38,9%
média e o segundo maior desvio padrão do
como percentuais de concordância parcial
componente normativo, sendo esse último
em relação às afirmações contidas nesses
indicativo de elevada divergência de opinião
itens, alcançando as maiores médias de todo
dos participantes.
o componente instrumental. Dessa forma,
para os participantes da pesquisa, Para boa parte dos participantes da pesquisa,
permanecer na UFC é visto mais como uma o mais adequado seria deixar a UFC se
necessidade do que um desejo e que seria houvesse alguma vantagem (47,2%), e que os
muito difícil para eles deixarem a instituição, mesmos não se sentiriam culpados com esse
pois suas vidas ficariam bastante abandono (58,3%). Do mesmo modo, não
desestruturadas. percebem obrigação moral alguma com as
pessoas que integram a instituição, como
No que diz respeito aos itens “Eu acho que
sendo um possível fator impeditivo para a sua
teria poucas alternativas de trabalho se
saída (44,4%).
deixasse a UFC” e “Se eu já não tivesse dado
tanto de mim à UFC, eu poderia pensar em Apenas 36,1% dos participantes concordam
trabalhar em outro lugar”, respectivamente parcialmente com a afirmação de que a UFC
30,6% e 52,8% dos respondentes assinalaram merece a lealdade deles, sendo o item que
que discordam totalmente das afirmações que obteve a maior média (3,64) de todo o
estão dispostas nesses itens. Pode se componente normativo. Entretanto, 33,3% dos
deduzir, a partir desse resultado, que para respondentes concordam totalmente com a
essas pessoas não seriam poucas as afirmação de que devem muito à instituição
alternativas de trabalho, caso deixassem a em que trabalham, alcançando a segunda
UFC, e que mesmo após terem envidado maior média (3,50).
esforços em prol da universidade, ainda sim
5.4 Médias dos componentes do
poderiam pensar em trabalhar em outra
comprometimento organizacional avaliados
organização.
A Tabela 3 apresenta as médias alcançadas,
Em relação ao item “Uma das poucas
em ordem decrescente, pelos três
consequências negativas de deixar a UFC
componentes do comprometimento
seria a escassez de alternativas imediatas”,
organizacional.
33,3% dos servidores concordam

Tópicos em Administração - Volume 3


69

Tabela 1 - Médias dos três componentes do comprometimento organizacional


Componente Média
Comprometimento afetivo 3,85
Comprometimento normativo 2,77
Comprometimento instrumental 2,75
Fonte: Elaboração própria.
Infere-se, a partir da Tabela 1, que há um universidade pela necessidade, ou seja, pelos
grau elevado de comprometimento afetivo custos que estão envolvidos na saída desses
(média 3,85). Isso evidencia que os profissionais da instituição, tais como poucas
servidores avaliados se sentem alternativas de emprego, perda de
emocionalmente vinculados à UFC e que estabilidade e de vantagens, entre outros
permanecem nessa instituição porque fatores.
desejam, porque sentem que fazem parte
dela, por causa da importância que a mesma
tem para eles e por acreditarem que os 6 CONCLUSÃO
problemas da universidade também
Os resultados mostraram que os Secretários
pertencem a eles.
Executivos possuem elevado grau de
O resultado obtido pelo comprometimento comprometimento organizacional afetivo
normativo (média 2,77) demonstra que os (média 3,85), ou seja, estão emocionalmente
servidores envolvidos na pesquisa estão vinculados à UFC, se sentem integrados e
moderadamente vinculados à universidade avaliam que a instituição é importante para
por sentirem que devem permanecer nela, ou eles. Os resultados também mostraram que
seja, possuem um grau moderado de os servidores possuem vínculo moderado
obrigação moral e de dever em permanecer com a instituição por motivo de necessidade
na instituição. (comprometimento instrumental) e por
obrigação moral (comprometimento
Quanto ao resultado obtido pelo
normativo), considerando as médias obtidas
comprometimento instrumental (média 2,75), o
por esses componentes (2,75 e 2,77,
mesmo demonstra que os participantes da
respectivamente).
pesquisa estão moderadamente vinculados à

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Tópicos em Administração - Volume 3


71

Capítulo 7

Paulo Cesar Schotten


Catiele Cristina Xavier Dos Santos
Solange Fachin
Rodrigo Santolini

Resumo: O cooperativismo é uma alternativa socioeconômica baseada em valores


e princípios cujo objetivo é a construção de uma vida melhor. A partir desse
pressuposto, essa pesquisa teve por objetivo apresentar quais são as ações e
contribuições que agregam valor na sociedade onde as cooperativas de crédito
estão inseridas, mais especificamente na Cooperativa de Crédito Sicredi Rio Paraná
tendo como objetivos específicos descrever e apresentar o surgimento das
cooperativas como ela atua e com foco nas ações praticadas pelas cooperativas
que contribuam para o desenvolvimento da região onde atuam. Para embasar a
pesquisa, o referencial teórico expôs a funcionalidade do cooperativismo, sua
essência e evolução. Metodologicamente, optou-se por utilizar uma pesquisa
Descritiva quanto ao objetivo e em relação aos procedimentos técnicos, essa
pesquisa classifica-se como Estudo de Campo sendo como método de análise
qualitativa. Na cooperativa, ficou evidente que ela desenvolve quatro programas
com vistas ao desenvolvimento regional: Crescer, Pertencer, União Faz a Vida, e o
Encontro de Lideranças. A conclusão do trabalho mostra a importância desses
projetos e aponta que os projetos contribuem e agregam valor à sociedade,
principalmente à região onde está inserida.

Palavras chave: Cooperativa de crédito, cooperativismo, desenvolvimento regional


e desenvolvimento social

Tópicos em Administração - Volume 3


72

1 INTRODUÇÃO prosperidade e os ganhos obtidos com


equilíbrio e isonomia pelo trabalho coletivo
Ao longo dos anos, a sociedade vem
são de todos, na proporção de seus esforços
passando por inúmeras transformações,
em prol da iniciativa. E que a finalidade está
sejam elas, sociais, econômicas, tecnológicas
na necessidade de ampliar o acesso ao
ou políticas e tais mudanças foram sentidas
crédito e aos serviços financeiros, visando
no desenvolvimento das sociedades primitiva,
assim maior qualidade de vida e inclusão de
agrícola, industrial e de comércio. Como
grande parte da população que vive a mercê
conseqüência dessas mudanças, surgiu
de juros abusivos praticados por outras
assim a necessidade das pessoas se
instituições, onde não investem o lucro obtido
organizarem em forma de cooperativas para
na sociedade.
se fortalecerem e juntas buscarem soluções
para os problemas em comum. Boesche Meinen et al (2012, p .56) defende a idéia de
(2005, p.11). que a presença do cooperativismo de crédito
é decisiva no disciplinamento e no maior
A cooperação, desde os primórdios da
alcance do sistema financeiro, ainda mais se
humanidade, conforme apresentado por Silva
tratando de um país com dimensões
(2008, p. 1) sempre esteve presente na vida
continentais, cuja estrutura federativa conta
dos povos que buscando a sobrevivência,
com centenas de pequenos e distantes
ajudavam-se mutuamente na realização das
municípios e a estratificação social revela
tarefas. Para Meinen et al (2012, p. 49), o
grandes desníveis/distorções, deixando um
cooperativismo é uma alternativa
contingente substancial de cidadãos à
socioeconômica baseada, como já visto, em
margem do progresso e da inclusão social.
valores e princípios, cujo objetivo é a
construção de uma vida melhor para centenas Essa pesquisa identificou as atividades que
de milhões de pessoas ao redor do mundo. são desenvolvidas por meio das cooperativas
Entretanto, na visão de Silva (2008, p. 15), a de crédito e que contribuem para o
versão mais difundida é que o cooperativismo desenvolvimento da região onde atuam. Uma
surge na Europa, no final do século XVIII e contribuição importante do presente trabalho
início do século XIX durante a Revolução é que o tema desde já proporcionou as
Industrial, quando se tornou latente o quadro pessoas um maior entendimento do que é o
de injustiças sociais em que os trabalhadores cooperativismo, como funciona uma
viviam em situações subumanas de cooperativa de crédito e como ela pode
alimentação e moradia e eram explorados, contribuir para o desenvolvimento da região.
trabalhando 16 horas por dia, incluindo Pode-se, então, dizer que o cooperativismo é
mulheres e crianças que eram contratadas, a soma de esforços entre pessoas que
pois sua remuneração era inferior à mão-de- buscam atingir um objetivo através de ações
obra masculina. coletivas, que dificilmente seriam alcançados
individualmente.
Nessa mesma linha de pensamento, Pinho
(2008, p. 21) reafirma relatando o que Esse movimento para Meinen et al (2012,
aconteceu posteriormente às situações p.49) coloca as pessoas no centro das
decadentes vivenciadas no período da atenções, reservando ao capital um papel
revolução industrial, afirmando que o instrumental, as individualidades cedem
cooperativismo moderno, no entanto, na forma espaço à construção conjunta da
como hoje são conhecidas as sociedades prosperidade. Portanto, fica evidente que o
cooperativas, surgiu em 1844, na cidade cooperativismo é a porta de entrada para que
inglesa de Rochdale, quando 28 tecelões pessoas com objetivos em comum, possam
fundaram uma cooperativa de consumo, se unir e através dessa união, possam
formando assim a “Sociedade dos Probos de resolver problemas diários. Com uma forte
Rochdale”. atenção voltada para a sociedade, as
cooperativas procuram buscar o equilíbrio
Fica evidente a necessidade da inserção das
entre a situação econômica e a social de seus
cooperativas de crédito na sociedade, onde
associados, constituídas de forma
segundo Meinen et al (2012, p. 49), o
democrática, com o intuito de satisfazer as
movimento cooperativista coloca as pessoas
necessidades de serviços e produtos
no centro das atenções, reservando ao capital
financeiros e através dessa satisfação,
um papel instrumental (de respaldo
conseqüentemente contribuir para o bem
operacional) em que as individualidades
estar social dos cooperados.
cedem espaço à construção conjunta da

Tópicos em Administração - Volume 3


73

Essa pesquisa tem por objetivo geral trabalho. Começa nesse momento um dos
apresentar quais são as ações e maiores problemas do século, pois o que
contribuições que agregam valor na fazer para suprir as necessidades básicas
sociedade onde as cooperativas de crédito como alimentação, higiene, saúde e moradia
estão inseridas, mais especificamente na daquelas pessoas, já que lhe foram tiradas
Cooperativa de Crédito Sicredi Rio Paraná e sua única fonte de renda?
como objetivos específicos descrever e
Como resultado do manifesto ocorrido na
apresentar o surgimento das cooperativas,
Inglaterra, o exemplo de Rochadale se
como ela atua e com foco apresentar as
propagou por toda a Inglaterra e
ações praticadas pelas cooperativas que
posteriormente por outros países, inclusive o
contribuam para o desenvolvimento da região
Brasil, onde numerosas cooperativas de todos
onde atua.
os ramos se espalharam por todo o Mundo,
seguindo os princípios de Rochdale. No
Brasil, a cooperação começou a ser discutida
2. COOPERATIVISMO: ORIGENS E
e logo depois implantada no final do século
EVOLUÇÃO
IXX, onde foi estimulada por funcionários
Sociedades cooperativas na conceituação de públicos, militares e profissionais liberais no
Pinheiro (2008, p.7), são sociedades de intuito de satisfazer suas necessidades.
pessoas com forma e natureza jurídica Iniciando-se assim na área urbana como a
próprias, constituídas para prestar serviços primeira cooperativa de consumo, na cidade
aos associados cujo regime jurídico, de Ouro Preto (MG) no ano de 1989,
atualmente, é instituído pela Lei nº 5.764, de denominada Sociedade Cooperativa
16 de dezembro de 1971. As organizações Econômica dos Funcionários públicos de
cooperativas, segundo Etgeto et al (2005, p. Ouro Preto. Entretanto, há referência a uma
7) têm proliferado em todo o mundo, Sociedade Beneficente de Juiz de Fora,
principalmente a partir de meados do século fundada em 15 de março de 1885. Oceng
passado, até os dias de hoje e sua origem (1997) apud Banco Central do Brasil (2008,
remonta as necessidades dos agricultores, p .9)
artesãos e operários se organizarem como
Schardong (2002, p. 65) afirma que o
forma de defesa frente às situações de
cooperativismo de crédito chegou ao Brasil,
mercado. Ao contrário do que muitos pensam,
trazido da Europa, pelo Padre Theodor
as cooperativas não são mais um modismo,
Amstad, com o objetivo de reunir as
elas já estão inseridas no nosso meio há anos,
poupanças das comunidades de imigrantes e
sendo utilizadas como alavanca para o
colocá-las a serviço de seu próprio
crescimento econômico.
desenvolvimento. Impulsionada pela
Apresenta Silva (2008, p. 11) que a idéia de obstinação do seu precursor, a ideia do
trabalhar com o modelo cooperativo surgiu no cooperativismo de crédito se materializou em
século XVIII, após a Revolução Industrial na mais de 60 instituições espalhadas pelo Rio
Inglaterra, onde um marco histórico do Grande do Sul.
período foi a implantação da máquina a
Para Meinen et al (2012, p. 29), o
vapor, uma grande conquista para as
cooperativismo é o único movimento
indústrias, pois isso facilitaria o processo e
socioeconômico do planeta que se
traria muitos benefícios, pois aceleraria o
desenvolve sob uma mesma orientação
processo de produção e geraria vantagens
doutrinária desde o seu surgimento. E esses
competitivas, conseqüentemente produziriam
direcionadores doutrinários englobam alguns
mais, pois o trabalho de vários homens
aspectos em que especificam quais são as
passou a ser substituído por uma única
responsabilidades do Cooperativismo com a
máquina.
sociedade. Ainda, de acordo com o autor,
O autor ainda destaca que, em termos de uma das responsabilidades caracterizadas
industrialização e crescimento, foi muito como valores que relatam um dos
positivo, pois isso marcava uma nova era, um compromissos que o cooperativismo tem, está
novo tempo para as indústrias, porém em baseado no 9° valor, que seria a
contrapartida acarretou em inúmeros Responsabilidade Socioambiental que se
problemas e um deles foi à substituição da conecta ao compromisso do empreendimento
mão de obra por equipamentos com alto grau cooperativo, naturalmente de caráter
de desenvolvimento tecnológico, tornando comunitário com o bem estar das pessoas e
assim difícil a manutenção dos postos de com a proteção do meio ambiente

Tópicos em Administração - Volume 3


74

compreendidos na sua área de atuação, perpetuidade do próprio empreendimento)


preocupação que envolve desenvolvimento como sob a ótica social e ambiental.
econômico social, e respeito ao equilíbrio e às
Na visão de Pereira (2012, p. 9), acredita-se
limitações dos recursos naturais.
que há no desenvolvimento econômico um
Meinen et al (2012, p. 37) destaca ainda um elemento de projeto, de estratégia nacional de
outro compromisso essencial do desenvolvimento que envolve a ação do
cooperativismo com a sociedade que está governo e o poder regulador do Estado.
baseado em seu 5° principio, o da Educação, Entretanto, destaca que o desenvolvimento
Formação e Informação que assegura que as econômico não depende apenas do mercado,
cooperativas promovem a educação e a mas exige planejamento visando a realizar
formação dos seus membros, dos poupança forçada, financiar o investimento
representantes eleitos e dos trabalhadores, de privado e aproveitar-se das externalidades
forma que estes possam contribuir, derivadas de investimentos conjugados. E
eficazmente, para o desenvolvimento das prova disso pode ser conferida em uma
suas cooperativas. Informam ao público em entrevista cedida à Revista Sicoob (edição de
geral, particularmente os jovens e os líderes Março de 2011) em que a Presidente Dilma
de opinião, sobre a natureza e as vantagens Rousseff deixou explícita a importância do
da cooperação. Destacam ainda que as movimento para os rumos da nação,
cooperativas têm o dever de conduzir-se para afirmando que " As cooperativas de crédito
o desenvolvimento equilibrado das próprias são atores essenciais no processo
comunidades e para o bem estar de suas dedesenvolvimento econômico do país,
populações, universo no qual se inserem os fundamentais para a democratização do
seus associados (membros). Sendo assim, as crédito". Ainda,segundo ela, entre as
cooperativas devem respeitar as principais propostas para o "Brasil seguir
peculiaridades sociais e a vocação mudando" está a "continuidadedo
econômica do local, agindo de forma a fortalecimento do cooperativismo de crédito”.
desenvolver soluções de negócios apoiando
2.1 COOPERATIVA SICREDI, SUA
ações humanitárias.
EVOLUÇÃO E PRINCÍPIOS
Vale ressaltar que o interesse pela
Conforme documentos apresentados pela
comunidade, na visão de Meinen et al (2012,
própria cooperativa Sicredi Rio Paraná, objeto
p. 43 e 50) exige das cooperativas o apoio a
deste estudo de caso, as cooperativas Sicredi
projetos e soluções que sejam sustentáveis
tiveram a seguinte evolução:
tanto do ponto de vista econômico (para

Quadro 01 – Evolução histórica Sicredi


Em 10 de julho, por decisão de todas as cooperativas, a Cocecrer/RS e suas filiadas passam a
1992 adotar a marca Sicredi, unificando a identidade de todas as cooperativas do Sistema em
representação ao Sistema de Crédito Cooperativo
Em 16 de outubro, autorizadas pelo Conselho Monetário Nacional (Resolução nº 2.193/95), as
cooperativas filiadas à Central Sicredi RS constituem o Banco Cooperativo Sicredi S.A, primeiro
1995
banco cooperativo privado brasileiro. Integração da Cocecrer-PR ao Sicredi, atual Central Sicredi
PR.
O Banco Cooperativo Sicredi é autorizado a realizar operações de crédito rural com encargos
1999
equalizados pelo Tesouro Nacional
Em 25 de junho, o Conselho Monetário Nacional aprova a Resolução n° 3.106/03, que permite a livre
2003 admissão de associados às cooperativas de crédito. Em 26 de junho, o Sicredi inicia suas
atividades em Santa Catarina
Início das atividades do Sicredi em Goiás, Tocantins, Pará e Rondônia. Constituídas a Fundação
2005
Sicredi e a Administradora de Consórcios Sicredi Ltda
Fonte: Sicredi Rio Paraná.
Percebe-se que ao longo dos anos, a pela comunidade, Gestão democrática,
cooperativa Sicredi, norteada por seis Educação, formação e informação,
princípios básicos como: Adesão voluntária e Participação econômica dos membros, e Inter
livre, Autonomia e independência, Interesse cooperação, evoluiu e desenvolveu-se,

Tópicos em Administração - Volume 3


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utilizando de estratégias para cada vez mais quantitativas de características ou


atender as necessidades dos seus comportamentos. Em relação à
associados, visando proporcionar a melhoria operacionalidade da pesquisa, o
na qualidade de vida e, conseqüentemente, o pesquisador, de posse de um questionário
desenvolvimento econômico de cada previamente elaborado, foi até a organização
indivíduo e da região em que ela atua. De em horário previamente marcado e entrevistou
acordo com matéria publicada no site do a Assessora de Programas Sociais, tomando
Sicredi, a cooperativa conta hoje com mais de nota e identificando quais são aqueles
2 milhões de associados estando presente em voltados ao desenvolvimento regional. Além
10 estados brasileiros com mais de 1.200 da pesquisa com a Superintendência
unidades de atendimento, 113 Cooperativas, Regional do Sicredi Rio Paraná. A coleta de
R$ 34 bilhões de ativos e R$ 4,8 bilhões de dados aconteceu nos meses de julho e
patrimônio líquido. agosto de 2014.
No questionário de cada um dos programas,
foram questionadas sua funcionalidade e
3.MATERIAL E MÉTODOS.
aplicação bem como os resultados
O objetivo desta pesquisa é apresentar quais alcançados na visão da organização. De
são as ações e contribuições que agregam posse desses dados, a pesquisadora
valor à sociedade onde as cooperativas de descreveu individualmente cada um dos
crédito estão inseridas, mais especificamente programas e apresentou uma análise da
na Cooperativa de Crédito Sicredi Rio Paraná. relação deles com o desenvolvimento
Para que o objetivo fosse atingido, optou-se regional.
por utilizar uma pesquisa Descritiva. Na visão
de Cervo et al (2007, p. 61), a pesquisa
descritiva observa, registra, analisa e 4 – LEVANTAMENTO E ANÁLISE DE DADOS
correlaciona fatos ou fenômenos (variáveis)
4.1 SICREDI RIO PARANÁ
sem manipulá-los. Procura descobrir, com a
maior precisão possível, a frequência com Com relação ao Sicredi Rio Paraná PR/SP,
que um fenômeno ocorre, sua relação e que tem sede em Nova Londrina, estado do
conexão com outros, sua natureza e suas Paraná há 25 anos, o presidente da
características. Busca conhecer as diversas cooperativa, Jorge Bezerra Guedes relatou
situações e relações que ocorrem na vida em uma entrevista realizada e publicada no
social, política, econômica e demais aspectos site do Sistema Ocepar, que a cooperativa
do comportamento humano, tanto do possui atualmente 22 mil associados e ativos
indivíduo tomado isoladamente como de de aproximadamente R$ 180 milhões. A
grupos e comunidades mais complexas. cooperativa tem registrado crescimento de
até 30% ao ano. Guedes relata que o Sicredi
Em relação aos procedimentos técnicos, essa
Rio Paraná representa 21% de todos os
pesquisa classifica-se como Estudo de
depósitos da região, considerando inclusive
Campo. Para Gil (2002, p.52) pesquisas do
os bancos internacionais e nacionais
tipo Estudo de Campo, focaliza uma
presentes lá. Também conta com marketshare
comunidade que não é necessariamente
de 14% do crédito da região. “Isso
geográfica, já que pode ser uma comunidade
englobando todas as linhas de crédito, ou
de trabalho, de estudo, de lazer ou voltada
mesmo de investimento, linhas do BNDES, de
para qualquer outra atividade humana.
financiamento de autos ao produtor rural,
Basicamente, a pesquisa é desenvolvida por entre outros”.
meio da observação direta das atividades do
grupo estudado e de entrevistas com
informantes para captar suas explicações e 4.2 VISÃO DA EMPRESA PESQUISADA COM
interpretações do que ocorre no grupo. RELAÇÃO AO DESENVOLVIMENTO
REGIONAL
Em relação ao método de análise, essa
pesquisa é qualitativa. Pesquisa qualitativa é Na visão da cooperativa, o trabalho que a ela
apresentada por Richardson (1999, p.90) desenvolve, é realizado justamente para
como a tentativa de uma compreensão contribuir com o desenvolvimento do
detalhada dos significados e características associado, da comunidade e da região onde
situacionais apresentadas pelos entrevistados o Sicredi atua. O Sicredi por ser uma
em lugar da produção de medidas cooperativa não pensa como os bancos, que

Tópicos em Administração - Volume 3


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são sociedades anônimas. Para a cooperativa Respeito às normas oficiais e internas;


não é o lucro que vale, e sim o
Eficácia e transparência na gestão;
desenvolvimento da comunidade,
diferentemente dos bancos onde o lucro é Valorização e desenvolvimento das pessoas:
remetido para os donos, que fica concentrado que é o investimento que o Sicredi faz tanto
em grandes centros ou até no exterior, com seu público interno (colaboradores)
retirando assim a riqueza gerada na região, quanto seu público externo (associados)
empobrecendo-a cada vez mais e promovendo encontros, palestras,
enriquecendo cada vez mais os grandes treinamentos, viagens no intuito de possibilitar
centros. a eles desenvolvimento pessoal e também
profissional.
A Cooperativa visa ao desenvolvimento das
pessoas e das comunidades onde está Para alcançar o 7º princípio, o Interesse pela
inserida, aplicando ali os seus recursos e as Comunidade, trabalha-se fortemente para
sobras geradas em que, nessa negociação, atingir o objetivo através do Programa A União
os resultados obtidos, voltam para os próprios Faz a Vida, que é o principal programa de
sócios que a geraram, enriquecendo as responsabilidade social do Sicredi. É um
comunidades, que permitem que novos programa Sistêmico que a cooperativa Sicredi
negócios sejam realizados e que Rio Paraná PR/SP realiza desde 2009, iniciado
conseqüentemente melhore as condições de em Nova Londrina e neste ano ampliando-se
vida das pessoas que ali residem. para Terra Rica, Santa Mônica e Santa Cruz
de Monte Castelo. É um trabalho desenvolvido
com crianças cujo objetivo é a incorporação
4.3 AÇÕES DA EMPRESA QUE VISAM AO de valores como solidariedade, justiça,
DESENVOLVIMENTO REGIONAL diálogo, diversidade e empreendedorismo.
A cooperativa de crédito trabalha fortemente Nesse programa, trabalha-se, fortemente no
para cumprir com o 9° valor, caracterizado intuito de fazer a criança entender até onde
como: Responsabilidade Socioambiental e o vai o seu direito e onde começa o do outro,
7° Princípio, que é o Interesse pela respeitando as diferenças e trabalhando em
Comunidade, em que tem o foco voltado conjunto, no coletivo. É ajudar, é compartilhar,
fortemente na sustentabilidade que é respeitar os diversos pontos de vista, enfim,
necessariamente tem 03 braços; o atitudes de cooperação e cidadania que
econômico, o social e o ambiental. pouco se vê hoje em dia. São as mudanças
de comportamentos em busca de cidadãos
Toda empresa que atua hoje no mercado tem
melhores. E o trabalho é realizado diretamente
que se preocupar com o equilíbrio entre esses
com as crianças, pois estas conseguem
três braços, pois se focar em um ou em outro
influenciar os pais, os adultos que convivem
e esquecer os demais, ela não se torna
com ela e assim toda a comunidade é
perene. Quando se fala em sustentabilidade,
beneficiada. É, reflexo de um trabalho
não é somente economizar papel, água ou
realizado com determinação e que hoje esse
luz. Sustentabilidade é a empresa continuar
programa atende 4300 alunos, 355
com suas atividades normais, gerando
professores e 28 escolas envolvidas. Todos
riquezas à sociedade, fazendo a sua parte
atuando juntos para contribuir com uma
social e deixar na natureza os recursos
sociedade melhor, mais humanitária e
naturais encontrados, exatamente como eram
desenvolvida.
antes de iniciar seu processo produtivo. Em
suma, é gerar riquezas sem causar danos ao O sistema cooperativo também desenvolve
meio ambiente. programas que têm por finalidade contribuir
com o desenvolvimento regional e em se
A cooperativa adota uma política voltada
tratando de “Programa”, o Sicredi utiliza-se do
exatamente para isso em que seus valores
programa Crescer. O Programa Crescer está
são:
implantado e vem sendo realizado desde
Preservação irrestrita da natureza cooperativa 2010 em que é destinado aos associados e
do negócio; não associados. São encontros realizados
durante o ano na região em que a cooperativa
Respeito à individualidade do associado;
atua, no intuito de levar informação e
Valorização e desenvolvimento das pessoas; educação à comunidade de forma que
agreguem conhecimento tanto com relação
Preservação da instituição como sistema;
ao sistema cooperativo, ao Sicredi e assuntos

Tópicos em Administração - Volume 3


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pessoais, o que contribui para o políticos e lideranças de comunidade como:


desenvolvimento pessoal de cada um. prefeitos, deputados, vereadores, presidentes
de associações, reunindo estas pessoas e
Outro programa que tem gerado resultados
coletando o que é de necessidade básica e
satisfatórios e que foi apresentado pela
conjunta ter na região para o desenvolvimento
organização é o programa Pertencer. Esse
regional.
programa tem por finalidade equacionar o
problema da organização do quadro social, No 5° Encontro de Lideranças, realizado no
que possibilita a participação dos cooperados dia 29 de Novembro de 2013, conforme
nas tomadas de decisões por representação mostra matéria publicada no site do Diário do
delegada, através da descentralização do Noroeste, ficou definido algumas propostas,
Processo Assemblear. O regulamento do tais como:
programa demonstra que a implantação
Realizar tratamento oncológico ambulatorial
desse modelo preconiza um associado
em Paranavaí
consciencioso das necessidades estratégicas
e do processo de gestão do empreendimento Elevar a Comarca de Nova Londrina para
cooperativo. Dessa forma, entrância Intermediaria
concomitantemente, foi lançado o Programa
Mudar o traçado da ferrovia Norte-Sul
Crescer, que visa qualificar a participação do
associado na tomada de decisão. Criar cursos EAD pela UAB
Outro programa do qual a cooperativa Pavimentar a PR 218 de Querência do Norte a
desenvolve, que tem por finalidade atingir Porto Felício
seus objetivos cooperativistas, é o Encontro
Extensão de universidade e cursos
de Lideranças, que está em vigor desde
profissionalizantes para Terra Rica
2008. Esse encontro acontece a cada ano,
onde são levantadas as necessidades e quais Duplicar a BR 376 e reestruturar a PR 182 de
ações tomar para realizar cada uma. Tudo é Nova Londrina a Diamante do Norte
registrado e documentado, e após o encontro
Criar associação dos Municípios do Extremo
é direcionado documentos com as propostas
Noroeste do Paraná
pré-definidas e encaminhada aos deputados
para o conhecimento deles e para que eles Instalar campus da UFTPR em Loanda/PR
possam analisar a viabilidade e contribuir com
Implementar o PRE de Loanda/PR
a execução dos projetos, para assim ajudar
os municípios envolvidos. Com relação as Criar o batalhão da Policia Militar em Loanda
ideias e propostas discutidas no Encontro de e pelotão FV em Querência do Norte
Lideranças, a cooperativa entende que pelo
Apoiar a criação do curso de medicina em
tamanho dos municípios e da área de
Paranavaí
atuação, acabam sendo pouco favorecidos
quando se fala em desenvolvimento regional, Criar conselhos municipais e regionais de
pois os políticos priorizam os maiores centros esporte
onde se têm a maior concentração de votos,
Fortalecer o Projeto Costa Rica / RETUR
esquecendo-se dos pequenos municípios.
Assim, fica clara a necessidade de juntar Desmembrar Secretarias de Cultura,
esforços para lutar por esse desenvolvimento Educação e Esporte
regional.
Melhorar acesso do turista ao Rio Paraná
O que se pretende é dar visão do extremo
Criar Centro Regional de Esportes
noroeste, que hoje é visto somente até
Paranavaí. O objetivo é conscientizar as Regulamentar e fiscalizar a pesca
lideranças sobre as potencialidades regionais
Captar recursos para a aplicação de projetos
que podem ser exploradas, o que somente
esportivos
será possível a partir do momento em que o
trabalho for realizado em conjunto com todos Incentivar turismo rural associado à produção
os municípios, não cada gestor pensando familiar
cada um em seu próprio município, mais
Construir moradias para juízes e promotores
pensando na região como um todo. Porém, no
de justiça
encontro de Lideranças, a pretensão é
mobilizar os maiores envolvidos pelo Revisar zoneamento existente e plano da APA
desenvolvimento regional, que são os federal

Tópicos em Administração - Volume 3


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Fiscalizar a geração de poluição industrial Programa Pertencer: Conforme apresentado


pela cooperativa, a participação dos
Desenvolver a cadeia produtiva do pescado
associados, a partir da implantação do
Criar aeroporto regional para atender a tríplice programa Pertencer tem aumentado
fronteira consideravelmente, o que leva a conclusão
que também tem atingido seus objetivos.
Projetar o desenvolvimento da cadeia
Conforme apresentado pela assessoria de
pecuária leiteira.
comunicação, até 2011, antes da implantação
Nesse mesmo encontro, o presidente da do programa pertencer a média de
Cooperativa de Crédito Sicredi Rio Paraná participação do associado em assembléias
PR/SP declara que “Um dos objetivos desse era de 3,84 % , percentual este que atingiu
encontro é dar mais visibilidade aos 10,73% só nos dois primeiros anos do projeto.
problemas que atingem anossa região e
Programa Crescer: Também desenvolvido
construir coletivamente uma agenda positiva
pela cooperativa tem como principais
de soluções que contribuam para o
objetivos: levar informação e educação à
desenvolvimento regional”
comunidade de forma que agregue
Assim, para que se possa potencializar os conhecimento tanto com relação ao sistema
resultados e atingir os objetivos sociais, a cooperativo, ao Sicredi e assuntos pessoais, o
cooperativa realiza parcerias em feiras, no dia que contribui para o desenvolvimento pessoal
do agricultor de São José do Ivaí e no de cada um. A organização apresentou como
Encontro com mulheres empreendedoras de resultados obtidos, o aumento na participação
Nova Olímpia, tudo feito de maneira que da gestão da cooperativa e o aumento da
possa contribuir com o desenvolvimento da aquisição dos produtos que antes da
sociedade. participação do programa girava em torno de
1 a 6 produtos, para um aumento satisfatório
de 7 a 11 produtos depois que os associados
4.4 ANÁLISES DAS AÇÕES DA participaram do programa crescer,
ORGANIZAÇÃO aumentando os resultados da cooperativa, o
que comprova também sua eficácia.
Após análise dos dados, destaca-se que a
organização estudada vem apresentando de Programa Encontro de Lideranças: Os
forma satisfatória programas que auxiliam no resultados obtidos e apresentados, com
desenvolvimento da comunidade. Isso fica destaques para as conquistas já obtidas. As
evidente quando consideramos os principais iniciativas já geram frutos, como um início de
resultados obtidos em cada programa: desenvolvimento da fruticultura, um caminho
já sendo percorrido no turismo, a vinda do
União faz a vida: Os principais resultados
SESC/SENAC e SESI/SENAI para a região, a
colhidos no programa união faz a vida, e
Universidade tecnológica do Paraná que está
apresentados na pesquisa foram: A melhora
em fase de projetos para Loanda, um
no âmbito de convívio estudantil e familiar em
interesse maior das lideranças estaduais e
que a criança passa a entender até onde vai o
nacionais o noroeste do Paraná. Conquistas
seu direito e onde começa o do outro,
estas que mostram que esse programa tem
respeitando as diferenças. Promovendo na
sido eficaz no desenvolvimento da região.
criança o espirito de trabalhar em conjunto, no
coletivo, ensinando e despertando a vontade
de ajudar, de compartilhar e acima de tudo, é
5 CONSIDERAÇÕES FINAIS
respeitar os diversos pontos de vista, enfim,
atitudes de cooperação e cidadania que O objetivo inicial da pesquisa foi apresentar
pouco se vê hoje em dia. São as mudanças quais são as ações e contribuições que
de comportamentos em busca de cidadãos agregam valor na sociedade onde as
melhores. E o trabalho é realizado com as cooperativas de crédito estão inseridas, mais
crianças, pois estas conseguem influenciar os especificamente na Cooperativa de Crédito
pais, os adultos que convivem com ela e Sicredi Rio Paraná. No levantamento efetuado,
assim toda a comunidade é beneficiada. Ao ficou evidente que a Cooperativa estudada
analisar esses resultados com o objetivo do desenvolve quatro programas que contribuem
programa, pode-se verificar que os resultados para o desenvolvimento regional, sendo eles
estão sendo atingidos. mais especificamente o programa União faz a
Vida, o Programa Pertencer, o Programa
Crescer e o Encontro de Lideranças.

Tópicos em Administração - Volume 3


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Todos esses programas, conforme desenvolvimento regional através dos


apresentados, têm atingido seus objetivos e associados e colaboradores da cooperativa.
os resultados apresentados demonstram que
Dessa forma, fica evidente que a cooperativa
tem contribuído para o desenvolvimento da
como um todo tem desenvolvido programas e
cooperativa, destacando que o encontro de
cumprido com seu papel perante à
Lideranças e o União faz a Vida têm foco mais
comunidade, ajudando no desenvolvimento e
claro e externo atingindo toda a comunidade
trazendo ações especificas para melhorar a
local. O Programa Crescer e Pertencer
sociedade.
atingem o objetivo e contribuem para o

REFERÊNCIAS
[1]. BOESCHE, L. Fidelidade cooperativa, uma DOCUMENTOS ELETRÔNICOS
abordagem pratica, Sescoop-PR, Curitiba, 2005.
[14]. Cooperativismo de credito no mundo.
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Tópicos em Administração - Volume 3


81

Capítulo 8

Lucivone Maria Peres de Castelo Branco


Raquel Vieira Inácio
Thaís Furtado Mendes
Maria Eliene Barbosa Dias

Resumo: O diferencial nas empresas está na contribuição do indivíduo à


organização à qual ele está inserido, por isso o presente artigo estuda a influência
dos fatores internos e externos no Clima Organizacional e na Qualidade de Vida
dos colaboradores, pois para se ter pessoas comprometidas com os objetivos
organizacionais há que se levar em consideração a qualidade de vida das mesmas
enquanto desenvolvem suas atividades. Foi realizado um estudo de caso no Centro
Universitário de Goiatuba, onde foi elaborada uma pesquisa bibliográfica sobre
clima organizacional e qualidade de vida no trabalho e um modelo de questionário
adaptado de Bispo (2006).Os resultados mostram que com referência a fatores
internos, voltados a vida profissional 71% têm orgulho das atividades executadas e
se preocupam com o futuro da IES e 72% afirmaram possuir Qualidade de vida no
trabalho. Já com relação a fatores externos 48% estão satisfeitos com seu salário,
sendo que 50% estão satisfeitos com seu patrimônio. O que significa dizer que os
fatores Internos e Externos contribuem de forma direta para o Clima Organizacional
e à promoção da Qualidade de Vida no ambiente de trabalho.

Palavras chave: Qualidade de vida, Clima Organizacional, Centro Universitário.

Tópicos em Administração - Volume 3


82

1 INTRODUÇÃO que os indivíduos numa coletividade pensam


a respeito do lugar em que trabalham (BISPO,
A cultura organizacional tem uma forte
2006).
influência no comportamento das pessoas e
nos grupos dentro das organizações, seja ela Portanto, esse artigo busca compreender se o
pública ou privada, pois impacta no clima clima organizacional e qualidade de vida
organizacional e na qualidade de vida das estão significativamente associados ao
pessoas, afetando o crescimento desempenho profissional. Para tanto,
organizacional. procurou-se identificar as possíveis
influências das variáveis internas e externas
Ao longo dos anos, tem-se observado o
dentro de uma organização, interferindo na
quanto as organizações estão em constante
produtividade e no desempenho dos
mudança, e instigando as pessoas a se
colaboradores.
habituarem à cultura em que estão inseridas.
Assim o presente estudo tem por objetivo
estudar a influência dos fatores internos e
2 A CULTURA E SUA IMPORTÂNCIA NAS
externos no clima organizacional e na
ORGANIZAÇÕES
qualidade de vida no trabalho dos
colaboradores de um Centro Universitário, Segundo Dias (2003), através da cultura
considerando que as pessoas representam o organizacional podem-se identificar os valores
diferencial para manter a Instituição que são compartilhados pelo grupo de
competitiva e que impulsiona seu crescimento pessoas da organização e assim conhecer o
e à obtenção de melhores resultados. estilo de trabalho, o relacionamento e
conhecer a cultura e o clima organizacional
As discussões sobre clima organizacional e
da empresa.
qualidade de vida são importantes e atuais na
área de Recursos Humanos, pois cada vez Para Chiavenato (2014, p.368), a organização
mais as pessoas estão buscando um é “um sistema humano e complexo com
ambiente mais saudável para desempenhar características próprias que são típicas de
as suas atividades profissionais e que estejam sua cultura e clima organizacional”. Antes de
de acordo com as suas necessidades. É de abordar a temática sobre cultura se faz
suma importância que a organização entenda necessário compreender que ela trata da
que os fatores internos e externos podem construção do significado social e normativo,
influenciar no ambiente de trabalho, de forma possibilitando que um grupo se fortaleça ou
positiva ou negativa, alterando o nível de se desintegre dentro das organizações. A
motivação dos colaboradores. Por isso, é cultura expressa os valores e as crenças que
importante atentar-se para a saúde física e os membros desse grupo partilham. Sendo
psicológica dos indivíduos dentro das que esses valores podem se manifestar por
organizações. meio de símbolos, mitos, rituais, histórias,
lendas e uma linguagem especializada,
O clima é um grande influenciador da
orientando os indivíduos na forma de pensar,
produtividade na empresa, pois se refere ao
agir e tomar decisões.
grau de satisfação material e emocional das
pessoas no ambiente de trabalho. Por isso, Segundo Schein (apud FLEURY, 1996), a
torna-se extremamente relevante a busca por cultura organizacional segue um conjunto de
mantê-lo favorável. pressupostos básicos que um grupo inventou,
tentando aprender como lidar com os
A qualidade de vida no trabalho serve não
problemas de adaptação externa e integração
apenas para melhorar as condições físicas,
interna, sendo que a cultura deve ser
mas as condições de autonomia e opinião. O
aprendida, transmitida e partilhada.
comportamento humano nas organizações
tem relação direta com as necessidades A cultura não decorre de uma herança
humanas e dos sistemas de valores. Quando biológica ou genética, mas resulta de uma
se trata de uma temática com tanta relevância aprendizagem socialmente condicionada. Isto
se faz necessário utilizar um instrumento que é, numa organização seus colaboradores
permita às organizações identificar as adquirem valores, absorvendo-os e somando-
tendências de satisfação ou insatisfação a os a seus valores culturais individuais
partir da consulta a seus colaboradores. O integrando-se, ideologicamente, a adaptação
clima organizacional é um instrumento eficaz de um contexto social existente (SROUR,
que estabelece o elo entre o nível individual e 2005, p. 211).
o nível organizacional, levando-se em conta o

Tópicos em Administração - Volume 3


83

Através das manifestações e das práticas estabelece o elo entre o nível individual e o
sociais das organizações pode-se encontrar a nível organizacional, levando-se em conta o
chave da articulação e coerência dentro de que os indivíduos numa coletividade pensam
uma ideologia, conforme afirma Srour (2005). a respeito do lugar em que trabalham.
Dentro das organizações, partindo do A pesquisa sobre o clima organizacional trata-
comportamento humano se observa que se de um instrumento que norteia às
dentro de qualquer organização formal, existe organizações na identificação e na busca da
uma organização informal, cujos elementos satisfação ou insatisfação a partir de uma
mais importantes são normas de conduta e a pesquisa com os colaboradores. Nesse
cultura, os sentimentos e os grupos informais sentido, através da pesquisa de clima
(MAXIMIANO, 2000). organizacional, busca-se compreender a
percepção dos níveis de influência em
De acordo com Coda (1993), um dos
relação a fatores internos e externo no
indicadores do grau de satisfação das
comportamento do colaborador.
pessoas nas organizações é o clima
organizacional em relação a diferentes
aspectos da cultura organizacional, como a
2.2 CONDIÇÕES DO AMBIENTE INTERNO E
política de Recursos Humanos, os modelos de
EXTERNO QUE INFLUENCIAM NA
gestão, o processo de comunicação, a
QUALIDADE DO BEM ESTAR DOS
motivação do profissional e a identificação
COLABORADORES
com a organização.
Para que os colaboradores tenham um bom
desempenho em seu ambiente de trabalho, é
2.1 O CLIMA ORGANIZACIONAL E AS preciso oferecer qualidade e bem estar aos
FORMAS DE MELHORAR AS CONDIÇÕES colaboradores, sendo importante
NO AMBIENTE DE TRABALHO compreender que com o aperfeiçoamento de
ferramentas gerenciais é possível melhorar o
Quando se fala em clima organizacional é
relacionamento entre empresa e seus
preciso compreender que as organizações
colaboradores. Segundo Bispo (2006, p. 264)
precisam de profissionais capacitados, e
“Os fatores de influência são os itens que
engajados nos objetivos e metas da
influenciam o comportamento, as atitudes e as
organização. Maximiano (2000, p. 25) cita que
decisões dos funcionários de forma direta ou
“uma organização é uma combinação de
indireta”.
esforços individuais que tem por finalidade
realizar esforços coletivos”. Os fatores internos de influência surgem
dentro da própria empresa, influenciando
Chiavenato (2004) conceitua clima
diretamente sobre os fatores relacionados a
organizacional como:
produtividade e a geração de resultados para
O meio interno ou a atmosfera psicológica a organização e as partes envolvidas.
característica de cada organização. Está
Os fatores internos de influência podem ser
ligada a moral e à satisfação das
definidos através da análise sobre o grau de
necessidades dos participantes e pode ser
relacionamento entre os colegas de trabalho
saudável ou doentio, quente ou frio, negativo
nas atividades coletiva no ambiente do
ou positivo, satisfatório ou insatisfatório,
trabalho, através do estabelecimento do nível
dependendo de como os participantes se
de assistência médica e hospitalar aos
sentem em relação à organização.
colaboradores, através do nível de
(CHIAVENATO, 2004, p. 297).
interferência que as tradições práticas
O clima organizacional pode ser um grande adotados informalmente na organização,
influenciador da produtividade na empresa, através da sua cultura organizacional, do nível
pois dependendo do grau de satisfação no de reconhecimento profissional através dos
ambiente de trabalho e do emocional das incentivos profissionais, do risco das
pessoas os resultados podem ser diferentes. demissões sem motivos percebido pelos
A influência faz com que o fator motivacional e funcionários, da segurança profissional e
interesse dos funcionários sejam de extrema finalmente, através do grau de identificação
relevância para manter o ambiente favorável e dos funcionários com a empresa, buscando
mais produtivo (CHIAVENATO, 2003). medir o nível de orgulho em relação à
empresa e de seu sucesso profissional
Na percepção do Bispo (2006), o clima
(BISPO, 2006).
organizacional é um instrumento eficaz que

Tópicos em Administração - Volume 3


84

Já os fatores externos de influência são os Nem sempre a organização consegue obter a


oriundos do ambiente de fora da empresa, satisfação dos colaboradores, pois o
sendo que o mesmo tem influência direta no ambiente não pode ser propicio e gerador da
comportamento e nas decisões dos insatisfação, ou seja, ter um baixo índice o
funcionários dentro da empresa. Alguns clima organizacional, sendo que o mesmo
fatores externos de influência podem depende de alguns fatores como o ambiente
prejudicar o clima e qualidade dos físico, ambiente psicossocial, remuneração,
colaboradores como a convivência familiar; o jornada de trabalho e organização.
grau de satisfação dos funcionários com suas
férias e o lazer; a relação entre remuneração e
situação financeira, e por último o nível de 2.4 A INFLUÊNCIA DA LIDERANÇA NO
satisfação dos funcionários com a vida social. DESEMPENHO E SUA MOTIVAÇÃO
A teoria das relações humanas proporciona
algumas contribuições para um melhor
2.3 GRAU DE COMPROMETIMENTO DOS
entendimento das organizações no sentido de
COLABORADORES E QUALIDADE DE VIDA
entender a importância da participação dos
NO TRABALHO
profissionais no comportamento humano.
As organizações que buscam obter a sua Nesse sentindo é importante ressaltar que o
competitividade e sua participação no modelo de liderança adotado pelas
mercado globalizado estão investindo em organizações através dos seus líderes pode
pessoas com um alto grau de gerar vantagens competitivas. A liderança se
comprometimento e implantando tecnologias faz necessária para o sucesso da
na busca de qualidade total nos processos, organização, pois o gestor precisa conhecer a
produtos e na prestação de serviços. Sendo natureza humana e saber conduzir as
que para serem eficazes, há a necessidade pessoas.
da participação e comprometimento de todas
Teixeira (2002) afirma que a liderança exerce
as pessoas envolvidas com a organização em
grande influência no clima organizacional,
um objetivo comum, o de o sucesso
pois o líder deve promover um bom
organizacional.
relacionamento com seus subordinados
O conceito de qualidade abrange alguns visando a melhoria na qualidade do ambiente
aspectos como a qualidade do pessoal, da de trabalho, garantindo a satisfação dos
organização, dos produtos, dos serviços, das mesmos.
empresas, mas a qualidade pessoal deve ser
Sendo que para Chiavenato (2004), a
a base para todos os outros tipos de
liderança constituiu um dos temas mais
qualidade, ou seja, a satisfação das
pesquisados e estudados nas últimas
exigências humanas de cada individuo.
décadas. Para completar essa linha de
A Qualidade de Vida no Trabalho (QVT) raciocínio Rebouças (2008) cita os seis
aborda o comprometimento das pessoas e o fatores de influência que devem ser utilizados
bem estar dos funcionários na execução de dentro de uma organização: supervisão,
suas tarefas dentro da organização, visando à motivação, treinamento, administração
qualidade e satisfação total. Quando o participativa, comunicação e o
ambiente organizacional trabalha com uma comprometimento.
gestão dinâmica através de fatores físicos,
O comportamento humano precisa ser
sociológicos, psicológicos e tecnológicos da
motivado e para isso a empresa precisa
organização, o ambiente de trabalho se torna
conhecer as necessidades dos
mais agradável e mais produtivo.
colaboradores, a fim de satisfazê-las.
A qualidade de vida no trabalho tem como Conforme afirma Chiavenato (2004) que o
base à satisfação do colaborador e o seu bem estudo da motivação do comportamento
estar na execução de suas tarefas, conforme “supõe o conhecimento das necessidades
cita Rodrigues (1998). Já Limongi (2004), cita humanas”, pois na teoria das relações
que existe uma “correlação entre a melhoria humanas cita a respeito das necessidades
da qualidade de vida das pessoas e estilo de humanas básicas. Para melhor compreensão
vida fora e dentro da organização”, sendo que o autor cita que são três níveis de motivação
essa melhoria traz impactos na sua eficiência que correspondem às necessidades
e eficácia e na produtividade das pessoas no fisiológicas, psicológicas e de auto realização.
seu ambiente de trabalho.

Tópicos em Administração - Volume 3


85

A motivação dos colaboradores é um fator de 2690 alunos regularmente matriculados, e


influência da liderança, pois através dela com aproximadamente 207 funcionários.
pode-se explicar como as pessoas se
Para coleta dos dados foi utilizado um modelo
comportam. Para melhor compreensão
de questionário adaptado de Bispo (2006),
Rebouças (2008, p. 146), conceitua que a
dividido em duas secções sendo que a
motivação “é o processo e a consolidação do
primeira engloba dados demográficos e a
estímulo e da influência no comportamento
segunda constituída por um levantamento de
das pessoas, tendo em vista o objetivo
fatores internos de influência do
específico e comum para os profissionais da
relacionamento dos funcionários e o Centro
organização”.
Universitário e o Levantamento de fatores
Vale ressaltar que a motivação é algo externos de influência do relacionamento dos
intrínseco de cada pessoa, ou seja, ninguém funcionários e o Centro Universitário, com um
motiva outra pessoa, mas as organizações conjunto de afirmações que permitiram as
podem criar mecanismos que facilitem o características fundamentais para o
desenvolvimento da motivação nos seus Diagnóstico do Clima Organizacional e a
colaboradores. Qualidade de vida no trabalho. Os
questionários foram elaborados com base em
Andrade e Amboni (2010) afirmam que a
13 assuntos e constituídos por perguntas
liderança é a influência interpessoal por
fechadas através da escala Likert, dentro dos
intermédio do processo de comunicação com
fatores internos e externos, totalizando 53
a finalidade do atendimento das metas
perguntas.
específicas estabelecidas para a empresa,
pois o líder tende a influenciar o Para realização da pesquisa foi extraída uma
comportamento do influenciado numa amostra do tipo não probabilista, em forma de
determinada situação, através de uma boa cotas, ou seja, foi escolhida uma amostra de
comunicação. 25% da população de funcionários, gerando
uma mostra de 51 colaboradores.
A aplicação foi feita de forma aleatório entre
3 MATERIAL E MÉTODO
os funcionários concursados e contratados
O estudo trata-se de uma pesquisa qualitativa ( Administrativo, professores e estagiários ).
e quantitativa, quanto aos objetivos também Os questionários foram aplicados no mês de
classifica como de caráter descritiva, novembro e dezembro de 2016 no Centro
desenvolvida a partir de pesquisa Universitário.
bibliográfica e um estudo de caso.
Segundo Las Casas (2008), a amostragem
Em relação à pesquisa descritiva, Cervo, não probabilística é aquela em que não é
Bervian e Silva (2007) comentam que a utilizado método, o pesquisador é que vai
mesma tem por finalidade a descrição das escolher quem ele vai entrevistar. Da
características de uma determinada amostragem não probabilística por cotas é
população/empresa. Destacam ainda que retirado um percentual de candidatos de cada
essa pesquisa vai muito além da existência de segmento com os quais é realizada a
uma relação entre variáveis, mas sim aplicação do questionário.
identificar a relação desta natureza.
O modelo de pesquisa eleito para suporte da
Inicialmente foi realizada uma pesquisa análise realizada foi o modelo elaborado por
bibliográfica sobre clima Organizacional e Bispo (2006), sendo adequada pelas
Qualidade de Vida no Trabalho que serviu pesquisadoras para a abrangência de
como embasamento teórico bem como sobre variáveis internas e externas que podem
outros assuntos que estão interligados com o afetar de forma positiva ou negativa a
respectivo tema a fim de identificar os fatores Instituição, o grupo e ou as partes
a serem analisados. interessadas.
O método estudo de caso foi escolhido para
um estudo profundo e exaustivo de um ou
4 ANÁLISE E RESULTADOS
poucos objetos, de forma que permita um
amplo e detalhado conhecimento (GIL, Conhecer o perfil da população é de suma
2006).O objeto de estudo trata-se um Centro importância para que se possa entender a
Universitário no Estado de Goiás, que conta percepção das pessoas que detêm as
atualmente com 12 cursos de graduação e condições para opinar. Com base nos

Tópicos em Administração - Volume 3


86

resultados obtidos pode-se verificar que a profissional, foi constatado o desejo dos
faixa etária é importante, pois quanto maior é participantes em continuar a trabalhar na
a experiência adquirida maior é o grau de instituição um percentual de 73%, sinalizando
exigência quanto ao clima organizacional. um ponto positivo conforme apresentado na
Entre os participantes prevalece a media de Tabela 1. Os colaboradores dedicam boa
38 anos de idade. A maioria dos parte de suas vidas dentro das organizações
colaboradores são mulheres, correspondendo na busca de alcançar os seus objetivos. A
a 69% da amostra. São do sexo masculino os produtividade e eficiência da organização
demais 31%. dependem muito de sua equipe de trabalho,
da capacidade de iniciativa, da vontade de
O Centro Universitário é composto por uma
trabalhar, lealdade, e que estejam sempre
equipe multidisciplinar de colaboradores,
buscando o crescimento profissional.
sendo que através da pesquisa foi possível
identificar que, sendo 60% deles são Outro aspecto que merecem ser apresentado
concursados (efetivos), 32% contratados e é que os colaboradores têm orgulho das
8% estagiários. Entre os pesquisados 47% atividades executadas e se preocupam com o
são Administrativos, 45% professores e 8% futuro do Centro Universitário em 71%. Um
estagiários. Os colaboradores tem formação aspecto que chama a atenção é com relação
diferenciada devido à exigência para a a um índice de 47% de insatisfação, por não
execução de suas atividades sendo: 6% com se sentem emocionalmente ligados a IES. A
Doutorado 14% com mestrado, 45% com insatisfação constatada pode ser explicada
especialização, 18% com 2º grau completo e pelo fato da instituição ser pública, e com
9% com 2 º grau incompleto. Vale ressaltar profissionais contratados, oque gera uma
que os docentes possuem no mínimo a insegurança com relação ao seu vínculo
titulação de especialista em sua área de profissional.
formação.
No que se refere à satisfação no ambiente de
Ao analisar a totalidade das variáveis trabalho, com relação à estrutura
selecionadas, para o diagnóstico da organizacional, foi constatado que 54%
percepção que os colaboradores têm do tipo concordam totalmente que o seu superior
de Clima Organizacional existente no Centro hierárquico é uma pessoa com competência
Universitário, foi aplicado como base a escala para ocupar a função, e que confiam
tipo Likert através 1= Não concordo plenamente no seu chefe (62%). 8%
totalmente, 2= Não concordo parcialmente, demonstraram não concordar.
3= Indiferente, 4= Concordo Parcialmente, e
Ainda de acordo com as informações
5= Concordo Totalmente, através da média
levantadas, em relação aos incentivos
das percepções nas variáveis de fatores
profissionais e remuneração, observou-se que
internos dos colaboradores (Vida Profissional,
64% concordam que o seu trabalho é
estrutura organizacional, Incentivos
reconhecido e são valorizados pela IES, e
profissionais e remuneração, segurança
consideram que o seu trabalho é reconhecido
profissional, formação, ambiente de trabalho,
e valorizado pela família, amigos e parentes.
cultura organizacional e qualidade de vida no
Ainda nesse contexto, sobre a satisfação com
trabalho).
os salários, 59% não concordam que o salário
Em relação ao levantamento de FATORES está compatível com as atividades exercidas,
INTERNOS, quanto ao aspecto vida conforme apresenta na Tabela 2.

Tópicos em Administração - Volume 3


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Tabela 1 – Vida Profissional dos colaboradores do Centro Universitário de Goiatuba – UniCerrado.


VIDA PROFISSIONAL 1 2 3 4 5
Quero continuar a trabalhar na Faculdade de 4% 2% 2% 20% 73%
Filosofia e Ciências Humanas de Goiatuba
Tenho orgulho das atividades executadas 2% 4% 2% 20% 71%
Preocupa-se com o futuro da Faculdade 0% 0% 0% 29% 71%
Considera que está obtendo sucesso na sua 4% 2% 2% 34% 57%
carreira e na vida profissional
Gostaria que seus filhos trabalhassem na 10% 4% 16% 29% 41%
Instituição
A FESG aposta na contratação de profissionais 8% 12% 12% 33% 35%
com elevado potencial de desenvolvimento
Os cursos e treinamentos que já realizou foram 14% 18% 24% 27% 16%
suficientes para o exercício de suas atividades
Não me sinto “ emocionalmente ligado “ a IES 47% 10% 8% 27% 8%
Minha vida iria ser afetada se decidisse sair 4% 6% 13% 29% 48%
desta Instituição
A FESG merece minha lealdade 4% 0% 6% 33% 57%
Sinto-me “fazendo parte da família” 4% 9% 9% 28% 51%
FESG/FAFICH
Fonte: Elaborado pelas autoras (2017).

Tabela 2 – Incentivos Profissionais e Remuneração na percepção dos Colaboradores


INCENTIVOS PROFISSIONAIS E 1 2 3 4 5
REMUNERAÇÃO
Considera que o seu trabalho é 16% 16% 4% 33% 31%
reconhecido e valorizado pela IES
Considera que o seu trabalho é 2% 6% 8% 25% 58%
reconhecido e valorizado pela família,
amigos e parentes
O conjunto de benefício social 9% 26% 11% 28% 26%
proporcionado pela FESG é atrativo
perante o mercado local
A minha remuneração é compatível com 26% 12% 10% 26% 26%
as que são pagas no mercado, para as
funções equivalentes.
O salário está compatível com as 26% 17% 7% 33% 17%
atividades exercidas
O seu patrimônio é condizente com os 18% 24% 12% 26% 20%
esforços que tem feito no ambiente de
trabalho
Fonte: Elaborado pelas autoras (2017).

Tópicos em Administração - Volume 3


88

Considerando os dados levantados foi pesquisa, 47 % concordam totalmente que o


possível identificar que em relação à nível cultural é suficiente para o exercício das
segurança profissional 33% concordam atividades na Instituição, sendo que isso pode
parcialmente que o seu emprego lhe dá ser afirmado pelo fato de ser uma Instituição
estabilidade, que não correm o risco de ser de Ensino Superior e requer profissional que
demitido sem motivos e 24 % não concordam. tenham uma qualificação para o exercício de
Tal perspectiva vem ao encontro do que Luz suas atividades. Um dos pontos que chamou
(1996) quando ele aborda que salários e a atenção foi com relação a insatisfação de
benefícios não suficientes para motivar, a uma 28% dos colaboradores com o incentivo da
remuneração injusta torna-se o funcionário mantenedora (FESG) a capacitação como
insatisfeito. Nota-se que com relação à forma de desenvolvimento e valorização do
formação profissional dos participantes da seu capital humano.
Tabela 3- Ambiente de trabalho e suas condições ambientais
AMBIENTE DE TRABALHO 1 2 3 4 5
As condições ambientais de trabalho 12% 14% 10% 39% 24%
favorece a execução das atividades na IES
( Iluminação, ruídos, temperatura, entre
outros).
Está satisfeito (a) com o lanche que é 33% 17% 17% 11% 22%
oferecido na IES
A FESG/FAFICH é um local seguro para 15% 15% 13% 36% 21%
trabalhar.
Está satisfeito com o seu horário de 0% 10% 8% 33% 48%
trabalho
Como você avalia a comunicação e 27% 25% 18% 11% 18%
divulgação interna entre os colaboradores
com relação a eventos e atividades
realizadas
Fonte: Elaborado pelas autoras (2017).
O ambiente físico é um fator que esta horário de trabalho. Um ponto que merece
diretamente ligada ao clima organizacional. atenção diz respeito à comunicação, onde
Os dados da Tabela 3 demonstram que 63% 52% não estão satisfeito com a comunicação
concordam que as condições ambientais de interna e o repasse de informações dentro da
trabalho são favoráveis para a execução das Instituição. Neste ponto é importante que a
atividades como boa iluminação e poucos empresa melhore a comunicação interna, pois
ruídos. Quanto ao lanche que é oferecido 50% as atividades, para serem executadas de
não estão satisfeitos. Com relação ao horário forma correta, precisam ser bem informadas.
de trabalho 81% estão satisfeitos com o seu
Tabela 4 - A cultura organizacional da organização
CULTURA ORGANIZACIONAL 1 2 3 4 5
A cultura organizacional ( tradições, práticas 6% 23% 28% 26% 17%
e costumes adotados na IES que estão
previsto em qualquer regra), favorece a
execução das atividades

Fonte: Elaborado pelas autoras (2017).

A cultura expressa os valores e as crenças decisões, possibilitando que o grupo se


que os membros desse grupo partilham, fortaleça ou se desintegre. Nesse sentido,
sendo que os valores manifestam-se por meio pode-se perceber que 43% afirmaram que
de símbolos, mitos, rituais, histórias, lendas e concordam que as tradições e costumes
uma linguagem especializada, orientando os adotados na Instituição através de regras ou
indivíduos na forma de pensar, agir e tomar

Tópicos em Administração - Volume 3


89

normas favorecem a execução das atividades.

Tabela 5- Qualidade de Vida no trabalho


QUALIDADE DE VIDA NO TRABALHO 1 2 3 4 5
Possui qualidade de vida no trabalho 6% 12% 10% 38% 34%
Se sente cansado (a) durante o trabalho 19% 23% 17% 34% 6%
Está satisfeito (a) com a disposição que 5% 16% 5% 32% 43%
possui para trabalhar

Sente-se:
Capaz de realizar as suas tarefas no 0% 0% 4% 33% 63%
trabalho
Satisfeito com a sua capacidade de 0% 0% 4% 35% 61%
trabalho
Satisfeito (a) consigo mesmo(a) 3% 0% 3% 53% 43%
Importante com o trabalho que você realiza 4% 4% 4% 38% 49%
Satisfeito (a) com as informações que lhe 10% 10% 18% 36% 26%
fornecem sobre o seu desempenho no
trabalho
Que o seu salário é suficiente para 21% 19% 13% 27% 21%
satisfazer as suas necessidades básicas
Fonte: Elaborado pelas autoras (2017).

A qualidade de vida no ambiente de trabalho possível concluir que: com relação à situação
favorece a motivação dos colaboradores, financeira dos participantes da pesquisa, 48%
sendo que 72% afirmaram que possui estão satisfeitos com o seu salário, sendo que
qualidade de vida no trabalho. 41% afirmaram 50% estão satisfeitos com o seu patrimônio.
ter disposição para trabalhar não se sentindo Quando o assunto é proporcionar bens
cansados durante o trabalho, mas 40% essenciais para a sua família 57%
sentem-se cansados durante o trabalho. Um concordaram afirmando que estão oferecendo
fator importante a ser diagnosticado é que boas condições aos seus familiares, mas 49%
75% estão satisfeitos com disposição que afirmaram que passam por dificuldades
possuem para trabalhar. financeiras.
Quando estamos falando de qualidade de A convivência familiar é um fator importante a
vida no trabalho se faz necessário saber ser analisado sendo que 93% afirmaram que
como o colaborador se sente para a mantêm uma boa relação com esposa ou/
realização das suas atividades, onde foi marido e filhos (as), sendo que 95% estão
possível identificar que 96% sentem-se satisfeitos com a sua vida afetiva familiar.
capazes de realizar as suas atividades e com
Quando o assunto é o convívio social 80%
sua capacidade de trabalho, sendo que 87%
afirmaram que estão satisfeitos com o seu
concordam que se sentem realizados
nível social e 85% estão satisfeitos com o
profissionalmente. Além disso, 62% estão
convívio social e cultural.
satisfeitos com as informações que lhe
oferecem sobre o seu desempenho no Com relação à saúde do trabalhador, 74%
trabalho. Quando o assunto foi saber se o afirmaram que possuem possibilidade de
salário é suficiente para satisfazer as suas realizar atividades físicas e de lazer, esse
necessidades básicas 48% concordam, mas fator é de suma importância para melhorar a
40% não estão satisfeitos. qualidade de vida do colaborador, além de
melhorar a sua capacidade física. Outro fator
Quanto ao levantamento dos FATORES
importante é com relação à alimentação
EXTERNOS de influência do relacionamento
saudável, onde 70% afirmam que mantêm
(Situação Financeira, Conivência familiar, vida
uma boa alimentação. Pelas informações
social, saúde e por últimos férias e Lazer) foi

Tópicos em Administração - Volume 3


90

obtidas foi possível identificar que 71% não Foi possível perceber que os fatores internos
têm problemas de saúde na família, sendo e externos realmente influenciam de forma
que 68% não concordam que o problema de positiva ou negativa no Clima Organizacional,
saúde na família reflete no bem estar e no dia bem como na qualidade de vidas das
a dia de trabalho. pessoas dentro da organização.
Outro ponto importante na análise dos fatores As pessoas, geralmente, carregam suas
externos de influência diz respeito à experiências sociais, familiares, religiosas
satisfação dos colaboradores com relação às para dentro da organização e isto em um
férias e lazer, onde 55% estão satisfeitos com primeiro momento gera um impacto
o período de férias, mas o que chama a desconfortável para as partes, tendo a pessoa
atenção é que 44% não têm meios financeiros que se adequar a cultura organizacional e
para realizar férias fora de casa, 42% afirmam alterar seu comportamento frente às
possuir meios para desfrutar de viagens no necessidades da empresa.
período de férias. Segundo Matos (1997), a
Este estudo mostra que o ambiente externo e
valorização humana na empresa importa com
interno se complementam e influenciam para
a realização humana, principalmente nos
que ocorra as mudanças comportamentais do
polos existenciais: fé, amor, trabalho e lazer.
indivíduo dentro da empresa.
Os gestores precisam prestar atenção nas
Foi possível perceber, através dos resultados
atitudes dos colaboradores periodicamente,
apresentados, que a cultura organizacional,
pois a satisfação no trabalho representa uma
como fator interno, tem impacto direto no
parcela da satisfação da vida conforme afirma
clima organizacional, contribuindo de forma
Davis e Newstron (1992, p. 123), a satisfação
significativa na Qualidade de Vidas dos
no trabalho influência à satisfação pessoal,
Colaboradores.
com a vida, de uma pessoa.
A presente pesquisa demonstrou pontos a
serem melhorados, e por isso, sugere-se a
5 CONSIDERAÇÕES FINAIS continuação da pesquisa, em outros
momentos e com outras abordagens, para
Tendo por base as tabelas apresentadas no
uma melhor avaliação dos pontos negativos e
presente estudo pode se concluir que o Clima
a disseminação do assunto para torná-lo mais
Organizacional do Centro Universitário-
conhecido na perspectiva de abranger um
UNICERRADO, possui um destaque positivo.
público maior. E ainda que seja elaborado um
Ficou evidenciado também como ponto a ser
planejamento para as melhorias a que
melhorado pela IES, em relação a
necessita.
Comunicação interna e a intensificação de
investimentos na capacitação dos
colaboradores.

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Reimpressão. Rio de Janeiro: Elsevier, 2004.
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[8]. DIAS, R. Cultura Organizacional.
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91

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1997.
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Teoria geral da administração: uma abordagem [16]. TEIXEIRA, José Emídio. Clima
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Gestão de Pessoas e Equipes. São Paulo: Gente,
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[17]. RODRIGUES, Marcus Vinicius Carvalho.
Trabalho: conceitos e práticas na sociedade pós-
Qualidade de vida no trabalho: evolução e análise
industrial. 4. Ed. São Paulo: Atlas, 2004.
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Tópicos em Administração - Volume 3


92

Capítulo 9

Tatiane Dias Fritz


Paulo Cesar Schotten
Solange Fachin
Rodrigo Santolini

Resumo: O modelo VRIO é uma teoria baseada na analise dos recursos internos
que uma organização detém a fim de classificá-los quanto seu Valor, Raridade,
Imitabilidade e Organização. Essa teoria foi elaborada pelos professores Barney e
Hesterly com a pretensão de identificar se as organizações estão obtendo alguma
Vantagem Competitiva através de seus recursos internos. A pesquisa foi realizada
em uma empresa do ramo de metais sanitários localizada no noroeste do Paraná,
sendo assim, o objetivo geral dessa pesquisa foi identificar os recursos internos
existentes na organização estudada e classificá-los segundo a teoria VRIO de
Barney e Hesterly (2011). Em relação ao objetivo, adotou-se como método de
pesquisa a pesquisa descritiva e em relação aos procedimentos técnicos a
pesquisa se classificou como estudo de campo. A empresa, antes de adquirir
algum recurso interno, busca analisar o que os concorrentes possuem e se acaso
esse recurso está dando certo, só então que a empresa passa a adotá-lo e explorá-
lo. A empresa em relação ao mercado, ou seja, aos seus concorrentes possui uma
vantagem competitiva sustentável através do capital de giro utilizado ser
praticamente cem por cento próprio. Desta forma, conclui-se com o trabalho que as
forças competitivas estratégicas da organização são provenientes de seus recursos
financeiros, ao passo que sua força de vantagem competitiva temporária é
proveniente dos Recursos Humanos e Paridade Competitiva vem dos demais
fatores como os recursos Organizacionais e Físicos.

Palavras chave: Estratégia; Recursos Internos; VRIO.

Tópicos em Administração - Volume 3


93

1 INTRODUÇÃO 2 VANTAGEM COMPETITIVA, ESTRATÉGIA


ORGANIZACIONAL E A TEORIA VRIO.
A pretensão da adoção de uma estratégia
dentro das organizações é fazer com que as Em uma empresa, a estratégia está
tornem mais competitivas e sobressaiam com relacionada, de acordo com Oliveira (2009, p.
vantagem em comparação aos concorrentes. 178) à arte de utilizar adequadamente, os
Para conseguir vantagem competitiva é recursos físicos, financeiros e humanos, tendo
necessário que a organização trace um plano em vista a minimização dos problemas e a
de ação com base em uma análise do maximização das oportunidades. Desde
ambiente ao qual esta inserida e em especial quando são adquiridas
ao seu conjunto de subsistemas existentes, máquinas/equipamentos, até funcionários
que se caracterizam pelos seus para os diversos setores, deve se ter em
departamentos internos, e principalmente nos mente que esses elementos são chaves
recursos utilizados pela organização. impactantes na produtividade e imagem da
organização na busca por resultados. A
Sabendo a importância de se conhecer uma
estratégia, segundo Franco e Amaral (2005, p.
organização internamente e da relevância dos
61) entram para planejar a evolução da
recursos que uma empresa possui como
empresa.
elementos estratégicos que proporcionam
vantagens competitivas organizacionais, os Para o alcance de objetivos sejam quais eles
professores Barney e Hesterly (2011) forem, é imprescindível ter uma estratégia,
elaboraram uma teoria chamada VRIO (Valor, que se caracteriza pela “criação” de meios
Raridade, Imitabilidade e Organização). O que venham facilitar e ao mesmo tempo
propósito dessa teoria é observar os recursos conduzir quem quer alcançar com o que se
que uma determinada organização possui pretende galgar. A partir do momento em que
internamente, e a partir desses quatro são definidos os critérios do sucesso
elementos pré-determinados pelos criadores, empresarial (objetivos), Fernandes (2011, p.
classificá-los. Essa análise serve para saber 65) relata que há de se escolherem os
se uma empresa em evidência está utilizando caminhos para alcançá-los (estratégia
estrategicamente seus recursos para obter empresarial). E ainda esclarece que enquanto
alguma vantagem competitiva. Surge então o os objetivos representam os fins que a
objetivo dessa pesquisa que foi entender o empresa tenta alcançar, as estratégias
quanto a organização estudada possui consistem no meio de atingi-los.
estratégia e vantagem competitiva através
A estratégia é essencial para a sobrevivência
dos recursos adotados internamente
das organizações, pois segundo Franco e
Apesar de o modelo VRIO gerar parâmetros Amaral (2005, p. 60) permite uma visão critica
para uma auto-análise de uma distinta do futuro, fornecendo suporte para analisar o
organização, ainda é uma teoria pouco seu setor de atuação, os concorrentes, os
difundida e conseqüentemente inserida no produtos, a expectativa dos clientes e a
meio organizacional, pelo fato de em um lucratividade, entre outros aspectos. A
primeiro momento apresentar-se muito ampla estratégia faz parte da vida organizacional,
para compreensão. No entanto, o que a sendo assim diante do cenário competitivo e
minoria das pessoas sabe é que na realidade da economia globalizada, Ruiz (2013, p. 19)
pode ser facilmente entendida e colocada em esclarece que as organizações buscam novas
prática, subsidiando informações que venham estratégias para melhoria de seu desempenho
a auxiliar em tomadas de decisões, que frente ao mercado, com o objetivo de obter
resultam em conduzir determinada vantagens e garantir os resultados almejados.
organização a galgar melhores resultados e Qualquer organização, de acordo com
posicionamento no ramo de atuação. Diante Camargos e Dias (2003, p. 31)
disso, o trabalho é de relevância para o meio conscientemente ou não, adota uma
social, uma vez que contribui para a estratégia, considerando-se que a não
propagação de teorias estratégicas, além de adoção deliberada de estratégia por uma
fornecer esclarecimentos e modelo de organização pode ser entendida como uma
implantação prática da teoria VRIO no cenário estratégia.
de negócios.
A estratégia está atrelada a vantagem
competitiva, pois quando uma organização
opta por determinada estratégia, utiliza desse
recurso para obter uma vantagem

Tópicos em Administração - Volume 3


94

competitiva, ou seja, um diferencial no qual a empresa está competindo e também à


mercado que atua. A estratégia a ser adotada disponibilidade de seus recursos para
pela empresa, conforme Fernandes (2011, p. competir. As empresas utilizam de seus
64), deve proporcionar aos clientes maior recursos internos para obter um diferencial
valor que o da concorrência. Esse valor é que competitivo e conseqüentemente um aumento
irá gerar uma vantagem competitiva em em sua lucratividade. Para poder analisar e/ou
relação aos concorrentes e aumentar a até mesmo avaliar o quanto esses recursos
lucratividade. A vantagem competitiva, de podem ter essa característica de vantagem
acordo com Bacurau (2006, p. 42) surge competitiva e serem utilizados
fundamentalmente do valor que uma empresa estrategicamente por uma organização
consegue criar para os seus compradores e Barney e Hesterly (2011) classificam os
que ultrapassa seu custo de fabricação. recursos internos conforme a teoria VRIO.
Esses professores propõem a realização de
uma análise a partir de uma reflexão sobre o
2.1 RECURSOS INTERNOS E TEORIA VRIO Valor, Raridade, Imitabilidade e Organização
de determinado recurso interno que a
Os recursos internos são imprescindíveis para
organização detém, conforme consta na
obtenção de vantagem competitiva e a chave
Tabela 1.
para estratégias empresariais. Essas
estratégias para Ribeiro et al (2010, p. 302)
estão ligadas ao ciclo de vida da indústria na

Tabela 1. Perguntas para uma análise baseada em recursos das forças e fraquezas internas de uma
empresa.
1 A questão do valor. O recurso permite que a empresa explore uma oportunidade ambiental e/ou
neutralize uma ameaça do ambiente?
2 A questão da raridade. O recurso é controlado atualmente apenas por um número de empresas
concorrentes?
3 A questão da As empresas sem o recurso enfrentam uma desvantagem para obtê-lo ou
imitabilidade. desenvolvê-lo?
4 A questão da As outras políticas e os outros procedimentos da empresa estão
organização. organizados para dar suporte à exploração de seus recursos valiosos, raros
e custosos para imitar.
Fonte: Adaptação de Barney e Hesterly (2011, p. 61).

Quando mencionado a questão do valor deve- Levando em consideração a possibilidade de


se levar em consideração o quanto esse imitar e a amplitude de recursos existentes,
recurso possui característica de valioso para talvez poucas empresas em um setor, como
uma organização em especifico. O critério de relata Daniel et al (2014 p. 80), possuam um
valor, segundo Buzzerio (2012, p. 29) diz recurso valioso específico e, ainda assim,
respeito à capacidade de geração de valor gerem uma vantagem competitiva. Sendo
econômico, seja para os clientes ou na assim, as organizações devem estar
redução dos custos econômicos, de forma a constantemente atentas aos concorrentes. Em
obter a condição de vantagem competitiva. outras palavras, como afirma Buzzerio (2012,
p. 29-30), uma organização só saberá se seus
Em geral, de acordo com Barney e Hesterly
recursos são valiosos se os comparar com
(2011, p. 9) uma empresa possui vantagem
outra organização concorrente.
competitiva quando é capaz de gerar maior
valor econômico do que seus concorrentes. Não existem recursos valiosos pré-
Os recursos valiosos são em sua maioria estabelecidos no meio organizacional, uma
aqueles que um número significativamente vez que dependendo do ramo de atuação e
pequeno de organizações detém. Os recursos dos recursos que os concorrentes desse
mais valorizados, para Ruiz (2013, p. 74) são mercado possuir é que irão determinar se o
aqueles que têm menor possibilidade de recurso é considerado valioso naquele
imitação, garantindo à organização uma momento ou não. Não há nada inerentemente
vantagem estratégica. valioso referente a recursos e capacidades de
uma empresa, de acordo com Barney e
Hesterly (2009, p. 61), em vez disso, eles são

Tópicos em Administração - Volume 3


95

valiosos somente na medida em que que gere vantagem competitiva, se os seus


permitem à empresa melhorar sua posição concorrentes consigam imitar ou adquirir
competitiva. facilmente essa força organizacional. Esse
acontecimento gerará uma paridade
Os recursos valiosos, segundo D’Ávila (2011,
competitiva para a organização, pois as
p. 82) estão ligados diretamente ao
empresas que investirem em recursos
desempenho e capacidade da empresa para
semelhantes obterão os mesmos resultados,
exercer de forma primaz uma atividade,
impulsionando a empresa pioneira a se
melhorando a sua performance e reduzindo o
igualar as demais em termo de vantagem
seu custo, quando comparado aos seus
competitiva, devido à imitação. A empresa
competidores. Para uma empresa um recurso
detentora desse recurso ficará em igualdade
valioso serve para explorar as oportunidades
em relação à vantagem em comparação aos
existentes e neutralizar as ameaças. Isto é,
concorrentes que copiarem sua estratégia.
muitas empresas têm recursos e capacidades
que são utilizados para explorar suas A última questão a ser analisada na teoria é a
oportunidades e neutralizar suas ameaças, Organização da exploração dos recursos
para Barney e Hesterly (2011, p. 63) o uso internos que a empresa adota e/ou possui.
desses recursos e capacidades permite Para que uma empresa consiga ter vantagem
aumentar suas receitas líquidas ou diminuir competitiva e use os recursos internos
seus custos líquidos. estrategicamente é necessário que se
organize da melhor forma possível para
O segundo elemento analisado na teoria VRIO
explorar e obter os melhores resultados de
é a questão da raridade, que serve para
determinado recurso. Esta última variável, a
determinar se um recurso em específico é
questão da Organização, para D’Ávila (2011,
controlado apenas por um pequeno número
p.82) apresenta-se como essencial na
de empresas, propiciando-o ser considerado
articulação de recursos, capacidades e
como raro no mercado. Recursos e
competências internas, muitas vezes
capacidades valiosos, segundo Barney e
constituindo por si só na real fonte de
Hesterly (2011, p. 66), mas comuns (isto é,
vantagem competitiva sustentável das
não raros), são fontes de paridade
empresas. Gonçalves (2011, p. 831) afirma
competitiva. Ou seja, deixará a organização
que, não basta ter os recursos e não fazer uso
nos mesmos patamares que os concorrentes,
eficaz e eficiente dos mesmos e, por isso, a
de forma que não ofereça vantagem
sua aplicação como VRIO confirma a gestão
competitiva em relação aos demais, mas
estratégica calcada no atributo Organização.
também não deixará a empresa em uma
posição de desvantagem competitiva em Para exemplificar de uma melhor forma, a
relação ao seu ramo de atuação, o que é Tabela 2 ressalta o modelo VRIO e as
considerado como algo de relevância. implicações competitivas no meio
organizacional. Essas implicações podem se
Além de um determinado recurso interno para
caracterizar como uma Desvantagem
gerar vantagem competitiva em longo prazo
Competitiva; quando a empresa detém
ter que possuir característica de valioso e
internamente recursos que não são
raro; é necessário que seja difícil de imitar.
considerados valiosos, raros, difíceis de imitar
Essa vantagem competitiva será sustentável,
e não são explorados pela organização,
de acordo com Gonçalves et al (2011, p. 825)
dessa forma a empresa que os possuir estará
se os concorrentes, atuais ou potenciais, não
em desvantagem em relação aos
tiverem a capacidade de copiar ou imitar os
concorrentes que possuem recursos com
benefícios dessa estratégia. Dessa forma não
essas características.
adianta uma organização possuir um recurso

Tabela 2. Modelo VRIO.


Valioso? Raro? Custoso de imitar? Explorado pela organização? Implicações competitivas
Não - - Não Desvantagem Competitiva
Sim Não - Paridade competitiva
Sim Sim Não Vantagem competitiva temporária
Sim Sim Sim Sim Vantagem competitiva sustentável
Fonte: Barney e Hesterly (2011, p.62).

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A Paridade Competitiva se caracteriza por A Vantagem Competitiva Sustentável é obtida


uma organização ter posse de um recurso pelos recursos internos que forem
considerado apenas valioso, mas não raro e considerados valiosos, raros, custosos de
nem difícil de imitar; ao mesmo tempo em que imitar e explorados de forma organizada pela
a empresa não se organiza para explorá-lo, empresa, proporcionando vantagem
sendo assim, esse recurso em virtude de seu competitiva de longo prazo. Para os
valor para as organizações devem ou serão concorrentes conseguirem desenvolver ou
inseridos nas demais empresas do ramo obter esse recurso é algo que levará tempo,
provido da facilidade de adquiri-lo e valor que devido sobre tudo sua raridade e dificuldade
possui. A Vantagem Competitiva Temporária de ser imitado.
ocorre quando determinado recurso é valioso
A tabela 3 relaciona o modelo VRIO às
e raro, no entanto não é custoso de imitar e
implicações competitivas da organização em
nem explorado pela organização, gerando
relação as suas forças e fraquezas,
uma vantagem competitiva temporária, pois
resultando em fraqueza quando na teoria
os concorrentes terão acesso a essa
VRIO a implicação competitiva for de
estratégia e podem se organizar de uma
Desvantagem Competitiva; assim como se
melhor forma para explorá-lo. Levando em
igualar em Força quando resultar em Paridade
consideração esses elementos os
Competitiva; do mesmo modo, em Força e
concorrentes não necessitarão de muito
Competência Distintiva quando for Vantagem
tempo para conseguirem aderirem esse
Competitiva Temporária; e em Força e
recurso, deixando a empresa que primeiro o
Competência Distintiva Sustentável no caso
adotou com uma vantagem competitiva por
do resultante for a Vantagem Competitiva
pouco tempo.
Sustentável.

Tabela 3. Modelo VRIO e sua relação com as forças e fraquezas organizacionais.


Valioso? Raro? Custoso de Imitar? Explorado pela organização? Implicações competitivas
Não - - Não Fraqueza
Sim Não - Força
Sim Sim Não Força e competência
distintiva
Sim Sim Sim Sim Força e competência
distintiva sustentável
Fonte: Barney e Hesterly (2011, p.62).
3 MATERIAL E MÉTODOS compreensão de um grupo social, de uma
organização, etc.
O objetivo dessa pesquisa foi identificar os
recursos internos existentes na organização Na sua operacionalidade a pesquisa ocorreu
estudada e classificá-los segundo a teoria través de entrevistas com o responsável da
VRIO de Barney e Hesterly (2011). Em relação empresa sem necessariamente do
ao objetivo proposto adota-se a pesquisa acompanhamento de um questionário pré-
descritiva, como método de pesquisa, que na elaborado, mas de tópicos que deveriam ser
visão de Gil (2002, p.42), têm como propósito enaltecidos e esclarecidos a respeito dos
primordial a descrição das características de recursos internos da organização em analise,
determinada população ou fenômeno ou, se caracterizando como uma entrevista não
então, o estabelecimento de relações entre roteirizada. Com essa pretensão foram
variáveis. realizadas cinco visitas à empresa no mês de
julho de 2014, no período vespertino, onde foi
Em relação aos procedimentos técnicos, essa
possível visitar todos os setores da
pesquisa rotula-se como estudo de campo.
organização com o acompanhamento do
Quanto aos procedimentos técnicos
responsável que explicou detalhadamente
classifica-se como qualitativa, pois como
cada atividade desenvolvida na empresa,
relata Gerhardt e Silveira (2009, p. 31) não se
desde o nível operacional até o nível
preocupa com representatividade numérica,
estratégico. Desse modo, os dados obtidos
mas, sim, com o aprofundamento da
nas entrevistas e visitas realizadas foram

Tópicos em Administração - Volume 3


97

descritos através da transcrição de forma garantindo à organização uma vantagem


sistematizada, e logo após analisados de estratégica.
acordo com a teoria VRIO de Barney e
Para medir a qualidade de seus produtos e
Hesterly (2011).
serviços, a empresa faz uso de relatórios, e
observação atráves de câmeras e dos
encarregados, onde são realizadas vistorias e
4. RESULTADOS E DISCUSSÃO
analise do desempenho de cada colaborador
4.1 CARACTERIZAÇÃO DA EMPRESA e do setor em geral. Todos os suprimentos de
produção, ou seja, as matérias-primas são
A organização estudada é uma empresa que
adquiridas de fornecedores, os quais são
está há mais de quinze anos no ramo de
reconhecidos tanto pelo mercado quanto
metais sanitários, se caracterizando como
pelos concorrentes que também adquirem
uma empresa de médio porte localizada na
materiais deles, tendo-os como viáveis pela
região noroeste do Paraná. São realizados
qualidade requerida de seus suplementos e
todos os processos de produção no interior
pelo preço inserido, bem como prazo de
da organização, desde os moldes dos
pagamento e entrega.
produtos até a expedição. Além da produção
de metais sanitários são realizadas O espaço físico utilizado pela empresa
importações de acessórios complementares impossibilita a expansão. A eficiência da
que são utilizados na maioria das vezes no empresa atual é considerada pelo empresário
interior dos produtos. como satisfatória para o seu posicionamento e
tamanho relacionado ao mercado. Atualmente
a empresa possui pontos de vendas e
4.2 ESTRATÉGIA NA ORGANIZAÇÃO E vendedores, assim como a maioria de seus
ADOÇÃO DA METODOLOGIA VRIO concorrentes, que atingem quase todo o
território nacional, exceto Amazonas e
A organização abordada desconhece e não
Rondônia. O maior mercado consumidor está
adere à metodologia VRIO como método de
localizado no estado do Ceará e Maranhão.
reflexão sobre as decisões de aquisições
Em termos de qualidade a empresa estudada
internas. Apesar disso qualquer organização,
ocupa o segundo lugar, com base em testes
como relata Camargos e Dias (2003, p. 31),
que são feitos periodicamente com a
conscientemente ou não, adota uma
produção.
estratégia, considerando-se que a não
adoção deliberada de estratégia por uma Um tipo de ameaça de produtos ou bens
organização pode ser entendida como uma substitutos tem sido o surgimento das
estratégia. torneiras de material PVC, que entrou muito
rápido no mercado, e devido seu baixo custo
Dados obtidos junto a empresa demonstram
ganharam grandes índices de vendas. Os
ações que são relacionados à teoria estudada
produtos da empresa não possuem
e que servem de parâmetros para analise da
características diferenciadas dos demais
aplicação da teoria. Destaca-se que a
existentes no mercado, uma vez que as
empresa atua com a busca constante de
empresas de metais sanitários, assim como o
informações no mercado como um todo, seja
mercado de uma forma geral seguem
a cerca de designers,
tendências. Dessa forma, os produtos
máquinas/equipamentos, processos
oferecidos pelas empresas possuem
produtivos, sistemas de gerenciamento e até
semelhanças e padrões equiparados com os
mesmo de brindes. A empresa atua com uma
demais.
ampla gama de produtos. O processo
produtivo é realizado parte manualmente e A empresa possui nove linhas de produtos,
parte automatizado. A empresa não possui levando em consideração que são destinadas
máquinas com tecnologia de ponta. Ao todo a cada uma a um segmento de mercado
empresa conta com 179 funcionários e diferente. Uma vez inserido e lançado algum
desenvolve programas de capacitação. Essa produto “novo” no mercado, permanece
pratica não garante uma vantagem de longo disponível para pedidos permanentemente no
prazo, pelo fato da possibilidade de ser catalogo da empresa. A elaboração dos
facilmente copiada pelos concorrentes, uma preços dos produtos fabricados pela empresa
vez que os recursos mais valorizados, de segue uma linha de preços regionais.
acordo com Ruiz (2013, p. 74) são aqueles
O prazo de compra da empresa depende de
que têm menor possibilidade de imitação,
material, para material, pois são comprados

Tópicos em Administração - Volume 3


98

para um estoque com duração média de vinte O recurso humano é considerado como algo
a trinta dias, devido o almoxarifado ser valioso para a organização, pois sem as
insuficiente para armazenar uma quantidade pessoas não seria possível à estruturação de
maior de materiais. No caso dos fornecedores uma empresa. Os recursos valiosos, como
atrasarem a entrega, a empresa possui uma esclarece D’Ávila (2011, p. 82) estão ligados
segunda alternativa pouco viável, que é a diretamente ao desempenho e capacidade da
compra de produtos de empresas locais empresa para exercer de forma primaz uma
(concorrentes) para suprir a necessidade. atividade, melhorando a sua performance e
reduzindo o seu custo, quando comparado
A organização é constituída por capital de
aos seus competidores. Ao mesmo tempo em
giro próprio. Devido a empresa estar no
que esse recurso é considerado como algo
mercado a mais de quinze anos possibilitou
raro de se possuir, uma vez que a empresa
nesse tempo que se pagassem todos os
em analise não consegue obter mão-de-obra
investimentos realizados e gerasse lucro, os
qualificada para desenvolver as funções,
quais são revertidos em investimentos,
devido estar localizada em uma cidade de
propiciando-a se auto gerir. O relacionamento
pequeno porte.
do setor financeiro tanto em si como com os
demais departamentos da empresa é bem Os recursos físicos são considerados apenas
integrado, com a finalidade de chegar ao como algo valioso e são explorados pela
melhor resultado possível, fazendo com que empresa. É o caso das
todos os resultados alcançados sejam os máquinas/equipamentos, que não são tão
desejáveis. O setor financeiro se organiza atualizados e o imóvel próprio que a empresa
com base em projeções de vendas, média de encontra-se instalada, se caracterizando
faturamento anual anteriores e com a projeção como elementos não raros de serem
para o crescimento do mercado atuante, encontrados no mercado, como também algo
levando em conta o andamento do mercado fácil de ser imitado. A empresa se organiza
financeiro e político. para tirar o melhor proveito desses recursos,
tanto que a capacidade comportada pelo
prédio já está limitada, impedindo a expansão
4.3 ANÁLISE DA EMPRESA SEGUNDO OS e o aumento da capacidade produtiva, bem
CRITÉRIOS DA METODOLOGIA VRIO como armazenamento de matérias-primas e
materiais.
Conforme foi descrito a empresa de uma
forma geral antes de adquirir algum recurso Uma organização, segundo Buzzerio (2012, p.
interno busca analisar o que os concorrentes 29-30), só saberá se seus recursos são
possuem e se acaso esse recurso está dando valiosos se os comparar com outra
certo, só então que a empresa passa a adotá- organização concorrente. Assim sendo, a
lo e explorá-lo. Essa atitude se caracteriza empresa em relação ao mercado, ou seja, aos
como imitação dos recursos que os demais seus concorrentes possui uma vantagem
concorrentes possuem, e isso vale para competitiva sustentável através do capital de
sistema de informação gerencial, giro utilizado pela empresa ser praticamente
máquinas/equipamentos, fornecedores, como cem por cento próprio. Essa vantagem
também do designer dos produtos, esses e competitiva será sustentável, como confirma
tantos outros fatores de relevância. Todavia a Gonçalves et al (2011, p. 825), se os
estratégia não acontece por si mesma, para concorrentes, atuais ou potenciais, não
Ruiz (2013, p. 19) ela deve ser criada, bem tiverem a capacidade de copiar ou imitar os
escolhida e bem implantada. No entanto, fica benefícios dessa estratégia.
claro que a empresa não “cria” elementos que Conseqüentemente esse recurso possibilita
poderiam a tornar mais competitiva no ramo que a empresa explore uma oportunidade
de atuação, pelo fato de achar essa prática ambiental, pois permite um poder de
custosa e duvidosa quanto à obtenção dos negociação tanto na compra de matérias-
resultados finais desejáveis. Uma empresa primas e suprimentos para a organização
que não possuir recursos de valor para quanto em termos de negociação como um
explorar, como relata Arrebola (2009, p. 34), todo, sem a necessidade prévia de buscar
tem duas possibilidades: desenvolver novos recursos externamente. Essa pratica garante
recursos e capacidades valiosos ou tentar mais confiabilidade para os seus
aplicar as tradicionais e atuais forças de fornecedores e neutraliza uma ameaça do
modo diferente. ambiente, então esse recurso pode ser
considerado valioso. Contudo, de acordo com

Tópicos em Administração - Volume 3


99

Maciel et al (2007, p. 101), para que um que possui receitas positivas. Ao passo que
recurso seja considerado fonte efetiva de prioriza o pagamento de fornecedores,
vantagem competitiva sustentável, têm de ser trabalhando com uma política interna voltada
avaliados quanto a sua geração de Valor, para a diminuição da inadimplência e
Raridade, Imitabilidade, e a Organização projeções de crescimento. Outro ponto
(VRIO) dos processos e estrutura para positivo é o bom relacionamento e
exploração dos recursos. comunicação existente no meio interno e
externo. Observa-se também que a empresa
Uma empresa atua com capital de giro
atua com funcionários que são capacitados
praticamente cem por cento próprio é um
na maioria das vezes internamente, porém
elemento que poucas empresas do mercado
não há um plano elaborado de treinamento e
possuem, sendo assim é raro de se obter.
nem são destinados recursos financeiros para
Desse modo, apenas quando um recurso não
esse setor. Em uma empresa, a estratégia
é controlado por inúmeros concorrentes,
está relacionada, de acordo com Oliveira
segundo Barney e Hesterly (2011, p. 66) é
(2009, p. 178) à arte de utilizar
que tenderá a se tornar uma fonte de
adequadamente, os recursos físicos,
vantagem competitiva. As empresas que não
financeiros e humanos, tendo em vista a
possuem um capital de giro próprio enfrentam
minimização dos problemas e a maximização
uma desvantagem competitiva para obtê-lo,
das oportunidades.
pois na maioria das circunstâncias há uma
dificuldade na busca de recursos externos Apesar de o prédio ser um imóvel próprio
para suprir as necessidades da organização, limita a capacidade de produção,
o que classifica esse recurso como algo difícil necessitando ser maior, para comportar toda
de ser imitado. Porém, não basta ter os a necessidade da empresa. As estratégias
recursos e não fazer uso eficaz e eficiente dos adotadas, assim como técnicas de produção,
mesmos e, por isso para Gonçalves (2011, p. know-how, processo produtivo, políticas
831), a sua aplicação como VRIO conforma a internas da maioria dos setores, controle da
gestão estratégica calcada no atributo empresa, matérias-primas, designer e preço
Organização. Desse modo, a empresa de produtos, marketing, vendedores
organiza suas políticas internas com o intuito estaduais. Ainda os fornecedores, avaliação
de tirar o maior proveito desse recurso. de desempenho, publico alvo, estrutura
organizacional dentre outros fatores de
A capacidade de selecionar, de desenvolver,
relevância relatados se caracteriza na maioria
de acumular, de combinar e de articular os
das vezes, como a imitação dos concorrentes.
recursos internos, para Bacurau (2006, p. 35)
Esses elementos contribuem para que a
pode permitir a formação de competências
organização seja proveniente de recursos
organizacionais que sejam consideradas
organizacionais com característica de
estratégicas, por conduzirem a empresa a
valiosos e explorados pela organização, mas
uma posição vantajosa. Á vista disso, todos
não raros e nem difíceis de ser imitados pelos
esses fatores evidenciados contribuem para
concorrentes.
que a organização possua uma força e
competência distintiva sustentável atrelada a Levando em consideração a classificação dos
uma vantagem competitiva sustentável recursos e das capacidades de uma
proveniente dos recursos financeiros. organização, que Barcelos et al (2011 p. 119)
enaltece como sendo a abrangência de
Quanto aos recursos organizacionais, apesar
quatro categorias: Financeiras, Físicas,
da empresa possuir recursos financeiros
Humanas e Organizacionais. A tabela 4 é um
provenientes na maioria das vezes de capital
resumo da análise da organização em
próprio, evitando empréstimos e
evidência com a teoria VRIO e suas
financiamentos, podendo-se ainda considerar
implicações competitivas para a empresa.

Tópicos em Administração - Volume 3


100

Tabela 4 Análise dos recursos da empresa em estudo.


Recurso Valioso Raro Custoso Explorado Implicações Implicações Competitivas
de pela Competitivas
Imitar Empresa

Financeiro Sim Sim Sim Sim Vantagem Força e competência distintiva sustentável
Competitiva
Sustentável

Físico Sim Não Não Sim Paridade Força


Competitiva

Humanos Sim Sim Não Sim Vantagem Força e Competência Distintiva


Competitiva
Temporária

Organizacional Sim Não Não Sim Paridade Força


Competitiva

Fonte: Tabela desenvolvida pelo autor.


De acordo com a tabela 4 a organização competitiva sustentável através de seu
possui recursos físicos e organizacionais que recurso financeiro, vantagem competitiva
proporcionam paridade competitiva para a temporária através dos recursos humanos e
organização. Recursos e capacidades paridade competitiva em relação aos demais
valiosos, segundo Barney e Hesterly (2011, p. recursos adotados internamente, implicando
66), mas comuns (isto é, não raros), são em força e competência distintiva sustentável,
fontes de paridade competitiva. Ou seja, são força e competência distintiva e força
recursos que a igualam aos mesmos organizacional.
patamares que os concorrentes, resultando
No modelo VRIO, ressaltando Barney e
em força organizacional. Entretanto, isso
Hesterly (2011), as implicações competitivas
também não significa que eles não sejam
da organização, que são na verdade o
importantes para o gerenciamento
resultado da analise a respeito do valor,
estratégico, pois como confirma Arrebola
raridade, imitabilidade e organização de
(2009, p. 35), os recursos valiosos e comuns
determinado recurso. Esse resultado pode se
são importantes para a paridade competitiva.
igualar em forças, fraquezas, força e
Os recursos humanos resultam em vantagem
competência distintiva ou até mesmo em força
competitiva temporária e conseqüentemente
e competência distintiva sustentável.
em força e competência distintiva. A
vantagem competitiva, de acordo com Desta forma é correto concluir que as forças
Bacurau (2006, p. 42) surge competitivas estratégicas da organização são
fundamentalmente do valor que uma empresa provenientes de seus Recursos Financeiros
consegue criar para os seus compradores e ao passo que sua força de vantagem
que ultrapassa seu custo de fabricação. De competitiva temporária é proveniente dos
contra partida o recurso financeiro é Recursos Humanos e Paridade Competitiva
considerado como uma vantagem competitiva vem dos demais fatores como os recursos
sustentável, uma vantagem competitiva em Organizacionais e Físicos.
longo prazo, uma vez que é valioso, raro,
Como recomendação para a organização,
difícil de imitar e a empresa se organiza para
sugere-se investimentos em seus recursos de
explorá-lo da melhor forma possível,
Paridade Competitiva e Vantagem
implicando em força e competência distintiva
Competitiva Temporária transformando-os em
sustentável.
Vantagem Competitiva Sustentável que
impulsionariam a organização a atingir o nível
de competitividade estratégica.
5. CONSIDERAÇÕES FINAIS
Algumas sugestões de ações estratégicas
O objetivo dessa pesquisa foi identificar os
futuras para a empresa e que podem ser
recursos internos existentes na organização
apresentadas são a aquisição de um imóvel
estudada e classificá-los segundo a teoria
maior, com o intuito de aumentar a
VRIO de Barney e Hesterly (2011). Após
capacidade tanto produtiva quanto de
analises efetuadas, pode-se afirmar que a
armazenamento de materiais. As
organização possui uma vantagem
possibilidades da formulação de novas

Tópicos em Administração - Volume 3


101

políticas internas voltadas a um objetivo métodos de produção e/ou a viabilidade de


central, além de investimento em um plano de investimento na área de pesquisa e
treinamento e aperfeiçoamento contínuo, para desenvolvimento de novos produtos
descoberta e desenvolvimento de novos internamente. Possibilitando galgar melhores
talentos. Assim, como a reestruturação do posicionamentos no ramo, bem como
plano de cargos e salários para a retenção vantagens competitivas sustentáveis. Quanto
desses funcionários. Faz-se necessário ainda maior o risco, maior o retorno, no entanto
uma pesquisa de mercado (mais cabe ao nível estratégico averiguar a
aprofundada) da possibilidade de adquirir viabilidade de enfrentar determinados riscos
recursos inéditos, como no presente para ganhos futuros.
máquinas/equipamentos, até mesmo,

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Tópicos em Administração - Volume 3


102

Capítulo 10
Kelen Koupak

Resumo: O presente artigo, utilizando-se da pesquisa bibliográfica e documental,


objetiva apresentar os principais aspectos do governo eletrônico, o qual foi
proporcionado pelo surgimento das Tecnologias de Informação e Comunicação
(TICs) visando democratizar o acesso à informação e viabilizar a prestação de
serviços públicos através de meios eletrônicos, alavancando, assim, o
desenvolvimento e a eficiência da Administração Pública, além de possibilitar um
melhor relacionamento do governo com os cidadãos, empresas, e inclusive, entre
os órgãos do próprio governo. Inicia com uma abordagem sobre o conceito e a
importância do governo eletrônico. Após, apresenta algumas ações de governo
eletrônico existentes no Brasil. Por fim, aborda o tema da exclusão e inclusão
digital. Conclui pela importância no avanço das práticas de governo eletrônico,
bem como pela necessidade de disseminação das tecnologias de informação e da
alfabetização digital.

Palavras chave: Governo Eletrônico, Internet, Informação, Serviços Públicos,


Inclusão Digital.

Tópicos em Administração - Volume 3


103

1 INTRODUÇÃO estrutura social, na qual há possibilidade de


comunicação em escala global em virtude,
A Administração Pública sempre foi vista
principalmente, das redes de comunicação
como ineficiente, caracterizada por
digital, de forma que todas as ações humanas
procedimentos burocráticos e avessa à
devem ter como base essa sociedade. Nas
participação da sociedade em seu
palavras do autor: “Redes constituem a nova
funcionamento. Contudo, esse cenário
morfologia social de nossas sociedades, e a
começou a se modificar com a utilização,
difusão da lógica de redes modifica de forma
pelos governos, das novas tecnologias na
substancial a operação e os resultados dos
prestação de serviços e informações,
processos produtivos e de experiência, poder
culminando no surgimento do governo
e cultura.” (CASTELLS, 2000, p. 565).
eletrônico, que pretende promover a
modernização e o desenvolvimento da Os governos também estão percebendo o
Administração Pública. potencial das redes, utilizando-se das novas
tecnologias, em especial a internet, para
Assim, o objetivo do artigo, sem pretender
promover a transparência e a eficiência da
esgotar o assunto, é apresentar o tema do
Administração Pública, o que, inclusive, é
governo eletrônico, destacando seus
uma demanda da sociedade atual que prima
principais aspectos e benefícios no sentido de
pela qualidade dos serviços públicos, com a
possibilitar a eficiência, efetividade e
simplificação dos processos e procedimentos,
desburocratização da Administração Pública,
bem como deseja conhecer e fiscalizar as
melhorando, assim, a relação do governo com
ações estatais no que tange a gestão da
os seus cidadãos, fornecedores e com ele
coisa pública.
próprio no âmbito das relações
intragovernamentais. Nesse contexto, é que se insere o governo
eletrônico ou e-governo, definido por Rover
Justifica-se o tema escolhido, devido à
(2009, p. 21) como:
crescente necessidade de se adotar novas
práticas para alcançar a eficiência estatal, [...] uma infra-estrutura única de comunicação
frente às demandas dos cidadãos que exigem compartilhada por diferentes órgãos públicos
qualidade e agilidade nos serviços e a partir da qual a tecnologia da informação e
informações do setor público, bem como da comunicação é usada de forma intensiva
possibilidades de participar das decisões para melhorar a gestão pública e o
governamentais. atendimento ao cidadão. Assim, o seu
objetivo é colocar o governo ao alcance de
Para a elaboração deste trabalho, foi utilizado
todos, ampliando a transparências das suas
o método dedutivo e a técnica de pesquisa
ações e incrementando a participação
bibliográfica e documental. Assim, em
cidadã.
primeiro plano aborda-se o conceito, a função
e os benefícios do governo eletrônico. Destaca-se que existem três tipos de
Posteriormente, são apresentadas algumas relacionamentos no governo eletrônico: G2G
ações de governo eletrônico existentes no (Government-Government), quando trata de
Brasil, que se materializam, principalmente, transações intra ou intergovernos; G2B
através de portais na internet. Por fim, (Government – Business), caracterizado por
discutem-se os desafios para a implantação relações entre governos e fornecedores, a
do governo eletrônico que se referem à exemplo da realização de compras e
inclusão e a alfabetização digital. licitações através de meios eletrônicos e G2C
(Government – Citizen), que envolve a relação
do governo com o cidadão, prestando a ele
2 GOVERNO ELETRÔNICO: DEFINIÇÃO E informações e serviços. (TAKAHASHI, 2000,
IMPORTÂNCIA p. 69).
O avanço das Tecnologias de Informação e Dessa forma, o objetivo primordial do e-
Comunicação (TICs) nos últimos anos governo, constitui-se em promover uma
ocasionou o aumento do fluxo e circulação de verdadeira transformação nas relações do
informações, transformando a sociedade governo com os cidadãos, empresas, e
contemporânea na denominada Sociedade da inclusive, entre os órgãos do próprio governo,
Informação e do Conhecimento. no intuito de ampliar a prestação de
informações através de canais eletrônicos,
Castells (2006, p.24) afirma que vivemos em
melhorar a qualidade dos serviços públicos,
uma sociedade em rede, tratando-se de uma
promover a transparência, a participação da

Tópicos em Administração - Volume 3


104

sociedade na gestão pública e, veículo traga benefícios aos cidadãos e


consequentemente, possibilitar o controle garanta o acesso aos serviços públicos.
social sobre as ações governamentais, Ademais, esse acesso precisa ser amplo,
resultando em uma administração mais possibilitando a construção de capacidades
eficiente, democrática e legítima. coletivas de controle social e participação
política. (BRASIL, 2004, p.6).
Agune e Carlos (2005, p.1) destacam que o
governo eletrônico representa muito mais do O terceiro papel do governo eletrônico é o de
que a utilização da tecnologia da informação promotor do processo de disseminação das
pelo Poder Público, devendo ser entendido TICs, de forma que suas políticas devem
como a transição de um governo incentivar o desenvolvimento de empresas
hierarquizado e burocrático, para um Estado nacionais, mediante o aumento da demanda
mais horizontal, flexível e colaborativo, em por produtos e serviços e da articulação de
consonância com a sociedade do iniciativas de financiamento. (BRASIL, 2004,
conhecimento. Nesse aspecto Rover (2009, p. p. 6-7).
96) salienta que:
Por fim, o último papel do governo eletrônico é
O governo eletrônico é uma exigência o de promover, na Administração Pública, a
emergencial de ordem econômica e disseminação de práticas de Gestão do
gerencial. A simplificação da burocracia Conhecimento, entendida como o: “[...]
estatal, a agilização dos procedimentos, conjunto de processos sistematizados,
utilizando menos e melhor os recursos articulados e intencionais, que governam as
humanos, e a incrível redução das ações de criação, captação, armazenamento,
necessidades de aquisição, transporte e tratamento, disseminação e utilização de
armazenamento de papéis não são opções, conhecimentos, com o propósito de atingir
mas a base para a redução de custos que objetivos institucionais.“ (BRASIL, 2004, p.7).
hoje se tornou obrigatória para a maioria dos Essas práticas, através da produção
estados nacionais. compartilhada e colaborativa da informação e
do conhecimento no setor público, permitem
Com efeito, o governo eletrônico também
uma nova capacidade de articulação do
contribui para a diminuição dos gastos da
processo decisório, bem como a inclusão da
Administração Pública e para a melhor
sociedade e suas organizações que também
utilização dos recursos, uma vez que muitos
são produtoras do conhecimento. (BRASIL,
serviços passam a ser realizados através de
2004, p.7).
meio eletrônico, pelos próprios cidadãos e a
qualquer hora, reduzindo, inclusive, o número Acrescente-se a isso, que o e-governo,
de servidores e/ou terceirizados que até então conforme destaca Jardim (2000, p. 4) tem o
realizavam as atividades burocráticas. (GOES; condão de possibilitar a expansão da
DAMASCENO, 2004, p. 5). efetividade dos governos em quatro aspectos,
a saber: a sociedade terá mais facilidade em
Desse modo, o governo eletrônico é um
ver seus anseios considerados pelos
elemento de transformação da sociedade
governos na definição de políticas públicas;
brasileira e, nesse processo, ele assume
poderá adquirir melhores serviços das
diversos papéis.
organizações governamentais através do
O primeiro papel é o de promotor da ambiente online; disporá de serviços mais
cidadania e do desenvolvimento, de forma integrados, pois as organizações poderão se
que deve estar voltado para as demandas comunicar de maneira mais efetiva entre si, e
dos cidadãos e para promover o acesso e a por fim será mais informada, visto que obterá
consolidação de seus direitos, tais como o informação atualizada e de fácil compreensão
direito de acesso aos serviços públicos, no que respeita ao governo, leis políticas e
direito à informação, direito à participação serviços.
política, entre outros. (BRASIL, 2004, p.6).
Obviamente que a implantação de um
O seu segundo papel é o de funcionar como governo eletrônico, capaz de estar ao alcance
ferramenta de mudança das organizações de todos não é algo simples de ser
públicas, com a melhoria do atendimento ao concretizado, demandando grandes esforços
cidadão e a racionalização do uso de e altos investimentos pelo Estado, mas
recursos públicos. Isso não significa apenas certamente trará inúmeras vantagens tanto
colocar serviços e informações disponíveis na para a Administração Pública, quanto para a
internet, mas permitir que sua presença nesse sociedade de uma maneira geral. Com

Tópicos em Administração - Volume 3


105

relação a isso, Rover (2009, p. 23) cita que: sistemas existentes, englobando informações
“[...] os custos de implantação e manutenção hospitalares, ambulatoriais, gerenciais de
do governo eletrônico não são insignificantes, ambiente, programas de prevenção,
mas no cômputo geral representam um estatísticas vitais e de gestão administrativa.”
verdadeiro milagre de economia com a (ROVER, 2009, p. 101).
eliminação quase que total dos suportes
Além disso, menciona-se também a existência
físicos das informações.”
do Portal da Previdência Social, responsável
por disponibilizar uma série de serviços
eletrônicos aos cidadãos, como a
3 PRÁTICAS DE GOVERNO ELETRÔNICO NO
possibilidade de agendar atendimento,
BRASIL
perícia, emitir extrato de pagamento de
As ações de governo eletrônico iniciaram no benefício, entre outros.
Brasil através do Decreto Presidencial de 03
Outro exemplo significativo do governo
de abril de 2000, o qual institui o Grupo de
eletrônico é a Declaração de Imposto de
Trabalho Interministerial, com a finalidade de
Renda pela Internet, o que contribui para
examinar e propor políticas, diretrizes e
agilizar o procedimento, reduzir custos, além
normas relacionadas com as novas formas
de beneficiar o cidadão contribuinte que pode
eletrônicas de interação. (ROVER et. al., 2010,
efetuar referida declaração através de meio
p.12).
eletrônico, sem precisar sair de casa. De
A partir de então, vêm sendo implementadas acordo com Nazareno et al. (2006, p.134):
diversas iniciativas voltadas ao uso das “[...] o Receitanet não apenas valida a
tecnologias, sendo que atualmente o país transmissão de declarações por meio
possui diversas ações de governo eletrônico eletrônico, como também realiza o
que ocorrem, principalmente, através da processamento, a auditoria, a monitoração de
existência de portais na internet, visando dados e a geração de estatísticas.”
oferecer serviços e informações aos
Destaca-se também o Portal de Serviços do
cidadãos, com mais rapidez no acesso e na
Governo Federal, referindo-se a uma: “[...]
execução, proporcionando comodidade,
plataforma centralizada que facilita cidadãos
redução de custos, expansão do atendimento,
e empresas a acessarem os serviços públicos
além de tornar a Administração Pública mais
federais, tais como seguro-desemprego, a
transparente, efetiva e responsável,
farmácia popular, o financiamento estudantil,
possibilitando a participação social nos
dentre outros.” (BRASIL, 2016, p.8).
processos decisórios e no controle das contas
públicas. O Portal da Transparência, lançado em 2004
por iniciativa da Controladoria Geral da União
Entre essas ações de governo eletrônico
(CGU), igualmente, representa importante
destaca-se o Comprasnet (Portal de Compras
medida na vertente do governo eletrônico,
do Governo Federal) instituído pelo Ministério
tratando-se de sítio na internet que tem por
de Planejamento, Orçamento e Gestão, que
objetivo permitir ao cidadão o
disponibiliza informações sobre licitações e
acompanhamento e a fiscalização da
contratações efetuadas pelo governo,
aplicação dos recursos públicos. No portal
possibilitando, ainda, a realização de
podem ser encontradas informações sobre
processos eletrônicos de aquisição em tempo
transferências de recursos, gastos diretos,
real, de modo que torna os processos de
receitas, convênios realizados pelo Governo
compra mais céleres e econômicos para o
Federal, lista de empresas sancionadas pelos
Estado, além de permitir o acompanhamento
órgãos e entidades da Administração
pela sociedade, reduzindo práticas corruptas
Pública, informações sobre a situação
envolvendo as licitações.
funcional dos servidores e agentes públicos
Outra prática de governo eletrônico é o do Poder Executivo Federal, relação dos
Obrasnet, tratando-se- do Portal de Obras do órgãos e entidades do Governo Federal que
Governo Federal, no qual é possível possuem Páginas de Transparência Pública
acompanhar e fiscalizar as obras públicas, próprias, informações sobre participação e
bem consultar custos de insumos e produtos controle social, entre outras.
de engenharia.
No que tange aos canais de participação
No campo da saúde, há o portal DATASUS social no contexto do e-governo, há o portal
(Departamento de Informática do Sistema Participa.br, que é um: “[...] ambiente de
Único de Saúde), que: “[...] reúne diversos discussão organizado em comunidades

Tópicos em Administração - Volume 3


106

temáticas para que a sociedade debata e governo eletrônico foi mais comum entre
colabore com as políticas públicas.” (BRASIL, indivíduos com alta escolaridade (81% dos
2016, p.8). Ressalta-se, ademais, a existência que têm Ensino Superior e 61% dos com
do portal e-Cidadania do Senado Federal, o Ensino Médio) e renda (86% dos usuários
qual possibilita à sociedade dar opiniões com renda maior que 10 salários mínimos e
sobre projetos de leis em tramitação, 77% dos usuários com renda entre 5 e 10
participar de audiências públicas interativas e salários mínimos). Além disso, constatou-se
apresentar sugestões de novas leis. que há mais usuários do governo eletrônico
em áreas urbanas (61%) do que rurais (47%).
Referidas ações revelam-se de suma
(COMITÊ GESTOR DA INTERNET NO BRASIL,
importância para incrementar a relação entre
2016, p. 29).
os governos, cidadãos e empresas,
precipuamente, no que tange a agilidade e Desse modo, observa-se que o maior ou
transparência dos processos, promovendo, menor acesso ao governo eletrônico está
dessa maneira, a modernização da estreitamente vinculado ao nível de educação
Administração Pública no sentido de torná-la e condição socioeconômica dos cidadãos, de
mais eficaz e interativa com o cidadão. modo que a inclusão digital perpassa
necessariamente pela inclusão social, sendo
emergencial o investimento em políticas
4 DA EXCLUSÃO A INCLUSÃO DIGITAL governamentais no intuito de disseminar a
utilização das TICs por toda a sociedade, sob
A despeito dos avanços tecnológicos e dos
pena de somente as classes mais
inúmeros benefícios advindos da implantação
privilegiadas desfrutarem das informações e
de um governo eletrônico, não se pode
serviços disponibilizados, contribuindo para
ignorar o fato de que grande parte da
aumentar ainda mais as desigualdades
população brasileira ainda não possui acesso
sociais. Nesse sentido, Sorj (2003, p. 61)
às tecnologias da informação, em especial, a
menciona que:
internet, ocorrendo, assim, o fenômeno da
exclusão digital. Como toda inovação social, o impacto da
telemática aumenta potencialmente a
Nesse sentido, Castells (2006, p. 18) destaca
desigualdade social, já que dela se apropriam
que:
inicialmente os setores mais ricos da
[...] a sociedade em rede difunde-se por todo população. Assim, a luta contra a exclusão
o mundo, mas não inclui todas as pessoas. digital não é tanto uma luta para diminuir a
De facto, neste início de século, ela exclui a desigualdade social, mas um esforço para
maior parte da humanidade, embora toda a não permitir que a desigualdade cresça ainda
humanidade seja afectada pela sua lógica, e mais com as vantagens que os grupos da
pelas relações de poder que interagem nas população com mais recursos e educação
redes globais da organização social. podem obter pelo acesso exclusivo a este
instrumento.
Segundo a pesquisa TCI Domicílios 2015
realizada sob a coordenação do Comitê
Gestor da Internet (CGI.br), 58% da
Para romper esses impasses na efetivação do
população brasileira com 10 anos ou mais usa
governo eletrônico, Silva e Lima (2007, p. 2)
a internet, representando 102 milhões de
indicam que: “[...] a solução é incluir camadas
usuários (COMITÊ GESTOR DA INTERNET NO
crescentes sucessivas e concomitantes da
BRASIL, 2016, p. 138). Embora esse número
população no acesso ao mundo digital, tanto
seja expressivo, verifica-se que metade dos
no âmbito do contato físico e utilização
brasileiros ainda não possui acesso à rede
básica, quanto nas informações disponíveis
mundial de computadores, não podendo
na Internet.”
assim, usufruir de seus benefícios.
Ressalta-se, no entanto, que o problema da
Referida pesquisa também investiga o uso de
inclusão digital ultrapassa a mera facilitação
serviços de governo eletrônico pelos usuários
na aquisição de computadores e da
de internet com 16 anos ou mais, em áreas
democratização do acesso à internet, sendo
como saúde, educação, impostos e obtenção
caso de uma política muito mais abrangente
de documentos. De acordo com os dados
que primeiramente deve começar pela
obtidos em 2015, a proporção desses
alfabetização digital e capacitação dos
indivíduos foi de 59%, cerca de 51,8 milhões
indivíduos para o uso das novas tecnologias
de pessoas, sendo que a utilização do
da informação, desenvolvendo habilidades

Tópicos em Administração - Volume 3


107

que lhes permitam efetivamente apropriar-se instrumentos que universalizem o acesso à


dessas ferramentas e de seu conteúdo. A internet. A próxima condição relaciona-se ao
respeito disso, Lévy (1999, p. 242) destaca: incremento da comunicação do governo com
a sociedade a respeito dos serviços públicos
É certo que é preciso favorecer de todas as
disponibilizados na internet, visando instruir a
formas adequadas a facilidade e a redução
população quanto às possibilidades de seu
dos custos de conexão. Mas o problema do
uso. Por fim, após a universalização e a
"acesso para todos" não pode ser reduzido às
capacitação, o governo eletrônico avançará
dimensões tecnológicas e financeiras
efetivamente quando o cidadão conseguir se
geralmente apresentadas. Não basta estar na
apropriar de seus benefícios, o que depende
frente de uma tela, munido de todas as
da compreensão e assimilação dos serviços
interfaces amigáveis que se possa pensar,
públicos eletrônicos.
para superar uma situação de inferioridade.
Embora insuficientes, existem alguns
Com efeito, embora muitas pessoas possuam
programas de inclusão digital no Brasil, entre
acesso à rede mundial de computadores, não
eles o GESAC (Serviço de Atendimento ao
sabem utilizar os serviços fornecidos e não
Cidadão) que se direciona para comunidades
conseguem se apropriar das informações
em estado de vulnerabilidade social,
disponibilizadas, pois muitas vezes
oferecendo conexão à internet de forma
apresentam linguagem rebuscada e formatos
gratuita em instituições públicas de saúde,
técnicos que não permitem a compreensão
ensino, unidades de serviço público
pelo cidadão comum, ainda mais tendo em
localizadas em áreas remotas ou de interesse
conta a realidade brasileira em que grande
estratégico. (BRASIL, 2010, p.8).
parte da sociedade tem um baixo nível de
instrução, o que afeta a assimilação das Também merece nota o PROINFO (Programa
informações adquiridas. Nacional de Tecnologia Educacional) do
Ministério da Educação, o qual objetiva
Portanto, é imprescindível o investimento em
promover o uso de informática na rede
programas de treinamento para o uso do
pública de educação básica, levando às
computador e da internet, de forma a
escolas computadores e recursos digitais.
capacitar intelectualmente a população,
(NAZARENO et al., 2006, p.9).
sendo que de acordo com Goes e
Damasceno (2004, p.13), a maneira mais Outras políticas de inclusão digital
eficaz de combater a exclusão digital a longo relacionam-se aos telecentros, que são
prazo é investir diretamente nas escolas, para espaços de acesso público e gratuito com
que os alunos desde cedo tenham acesso às computadores conectados a internet, onde
novas tecnologias. são realizados cursos e atividades, visando
promover a inclusão digital e social das
A propósito, Silvia e Lima (2007, p.7),
comunidades atendidas. (BRASIL, 2017).
abordam que o governo eletrônico é
sustentado pela relação com os cidadãos, de Diante dessas ações, verifica-se que, ainda
modo que se estes não o conhecem, não o que de forma paulatina, é realmente possível
utilizam ou não veem importância em seus promover a integração de toda sociedade às
serviços, desaparece a razão para o mesmo TICs, efetivando assim a realidade do governo
existir, sendo assim, uma via de mão dupla: eletrônico e de todas as benesses por ele
proporcionadas para o desenvolvimento do
[...] o e-governo procura ir ao encontro das
país como um todo.
necessidades do cidadão em termos de
informações e serviços, mas precisa do
acesso e participação para justificar e manter
5 CONCLUSÃO
sua existência; o cidadão, por sua vez, em
diversos momentos da sua vida, precisa dos O emprego das TICs pelo Estado na
serviços e informações do Governo, mas para prestação de serviços e informações deu
utilizá-los precisa conhecer as possibilidades origem ao denominado governo eletrônico, de
oferecidas através dos meios eletrônicos. modo que o presente artigo procurou
apresentar os principais aspectos de tal
De acordo com Barbosa; Cappi e Gatto
fenômeno.
(2009, p.71), o desenvolvimento do governo
eletrônico no Brasil depende de três Verificou-se que o governo eletrônico acarreta
condições indispensáveis. Primeiramente, inúmeros benefícios, fazendo com que o
devem-se criar políticas públicas e governo interaja de forma mais eficaz com

Tópicos em Administração - Volume 3


108

seus fornecedores, com os cidadãos e com integradas as novas tecnologias; a


ele mesmo. Além disso, possibilita a disponibilização de informações
democratização do acesso à informação e compreensíveis com linguagem adequada ao
amplia a participação popular na entendimento de todos, bem como a
Administração Pública. alfabetização digital para capacitar os
cidadãos ao uso das tecnologias da
O e-governo também contribui para a
informação.
efetividade e eficiência do Estado ao
possibilitar a simplificação dos procedimentos Enfim, a concretização do governo eletrônico
burocráticos, a redução de custos com mostra-se como uma medida urgente para
pessoal e papel, a disseminação de aumentar a eficiência da Administração
informações governamentais, a agilidade e Pública e atender as demandas dos cidadãos
transparência na prestação dos serviços, que almejam qualidade nos serviços, acesso
permitindo que os cidadãos possam amplo às informações públicas e
acompanhar, avaliar e fiscalizar o transparência nas ações governamentais.
desempenho dos gestores públicos. Para tanto, é necessário investimentos e
especial engajamento do Poder Público para
Embora o Brasil possua diversas ações no
que as ações do governo eletrônico no Brasil,
campo do governo eletrônico, constata-se
aliada a inclusão de toda a sociedade nesse
que ainda precisa superar grandes desafios
processo, continuem avançando, de forma
para alcançar sua expansão e
que assim se alcançará o ideal de um Estado
desenvolvimento, os quais se referem à
mais eficiente e desenvolvido no contexto da
inclusão digital, de modo permitir o aceso à
Sociedade da Informação e do
internet àquelas pessoas que ainda não estão
Conhecimento.

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Tópicos em Administração - Volume 3


110

Capítulo 11

Carlos Victor Correa


Renato Ribeiro Nogueira
Mateus Oliveira de Assis
Ana Valéria Vargas Pontes
Victor Miranda de Oliveira

Resumo: Adotar práticas de estratégia competitiva com valores éticos significa ter
um diferencial de competitividade, é destacar-se diante do mercado de forma
positiva. Nesta perspectiva determina-se para análise da pesquisa a questão de
investigação: qual é a importância da ética empresarial na elaboração das
estratégias de negócio? E como objetivo abordar as práticas de ética empresarial
frente às negociações, como parâmetro de estratégia e valor. Para o
desenvolvimento da temática em questão realizou-se uma pesquisa de cunho
bibliográfico e um estudo de caso realizada no “Ponto de distribuição Aruba” com
os gestores do nível tático da organização, e para tanto, utilizou-se de livros e
artigos, fundamentados pelos seguintes autores: Lampel (2006), Alencastro (2009),
Porter (1999), Cortella (2015), Srour (2008), dentre outros. A pesquisa traz, em sua
conclusão, uma contribuição para a aplicabilidade da ética nos processos
estratégicos da organização e aponta a necessidade de se difundir valores e
princípios éticos na organização. Pôde-se perceber que a relação da empresa com
seus públicos precisa ser pautada em princípios éticos e transparentes, o que,
possivelmente, trará ganho de imagem e legitimidade nos processos de
negociação.

Palavras-chave: Ética. Estratégia. Negócio. Responsabilidade Social.

Tópicos em Administração - Volume 3


111

1 INTRODUÇÃO 2 ÉTICA NOS NEGÓCIOS


Hoje, diante das mudanças que o mundo vem Moreira (2002) destaca que a ética nos dias
sofrendo, tornou-se imperativo que as atuais vem se tornando um tema bastante
empresas se posicionem estrategicamente pertinente. Casos de corrupção nas empresas
em uma combinação de pessoas e recursos têm resultado em um novo comportamento na
para garantir que as metas e objetivos sejam sociedade que busca adquirir e valorizar
alcançados. Dessa forma, em busca de produtos e serviços de empresas que se
competitividade, num mercado concorrido em comportam de forma ética.
que o cliente cada vez mais se torna exigente,
Segundo Alencastro (2009, p.60)
o falar de ética tem sido necessário para as
corporações. Durante anos a ética não era um assunto
comum no meio corporativo e os gestores não
Portanto, é preciso conciliar o planejamento
davam a devida atenção ao assunto. A
estratégico numa perspectiva ética e
justificativa principal era a forma como o
responsável, na qual a empresa e seus
mercado se comportava, onde as empresas
stakeholders, que são todos os afetados e
faziam de tudo para sobreviver, estando
que têm direitos e expectativas legítimos em
assim em um ambiente desleal com ampla
relação às atividades da organização, o que
concorrência.
inclui os empregados, os consumidores, e os
fornecedores, assim como a comunidade Ainda de acordo com o autor, a ética nem
envolvida e a sociedade em seu conjunto, sempre foi tratada com a devida importância
representados pelo Estado ou pela própria pelos gestores, mas observa-se que é um
sociedade, se relacionem para a consecução conceito que vem se desenvolvendo ao longo
dos objetivos organizacionais. dos anos. O autor ainda destaca que por volta
dos anos de 1960 aconteceram muitos
Diante deste contexto, formulou-se o seguinte
escândalos nas empresas nos Estados
problema de pesquisa: qual a importância da
Unidos, e a partir desses acontecimentos a
ética empresarial na elaboração das
ética empresarial passa a ter importância
estratégias de negócio? Como objetivo geral
nesse cenário. A década de oitenta foi
abordar as práticas de ética empresarial
marcada por muitas discussões, cursos, e
frente às negociações, como parâmetro de
seminários, a fim de instruir os executivos
estratégia e valor. Como objetivos específicos,
sobre essa temática. Nessa mesma época a
buscou-se compreender as questões
ética foi inserida nos currículo de muitas
conceituais que envolvem o estudo da ética
universidades.
nos negócios, e também verificar a ética
numa perspectiva estratégica e a verificar a Moreira (2002) sugere que uma grande parte
influência da ética no comportamento da literatura sobre Ética nos negócios traz
organizacional. perspectiva de que a adoção de
comportamentos éticos pode gerar lucros
Para o alcance dos objetivos aqui propostos,
para as empresas que assumem a ética como
utilizou-se como metodologia uma pesquisa
estratégia, e dessa forma, podem auferir
exploratória quanto aos fins. Quanto aos
vantagem competitiva no mercado.
meios, bibliográfica para levantamento teórico
do tema apontado e uma pesquisa de campo Esse entendimento é compartilhado por
realizada no “Ponto de Distribuição Aruba”, Swiatkewicz (2009), ao afirmar que muitos
com a finalidade de investigar a percepção pesquisadores se posicionam no sentido de
dos gestores, nível tático, sobre a relevância que a ética e a Responsabilidade Social
do uso da ética na elaboração das estratégias Empresarial podem ser potencializadores de
de negócio. lucro nas organizações.
Este trabalho foi estruturado em cinco seções, Na visão de Alencastro (2009), apesar de ser
constituindo a primeira seção da introdução. um tema recente nas organizações, a ética
Na seção dois, aborda-se a Ética nos vem sendo desenvolvida há anos, e cada vez
negócios; na seção, três aborda-se a mais as empresas vêm se alertando para esse
Influência da ética no comportamento tema e sua importância.
profissional; na seção quatro, a Metodologia,
A ética e a responsabilidade social podem se
e por fim, na seção cinco, as considerações
tornar aliadas do negócio e serem
finais.
instrumentos para o sucesso da organização
como ferramenta estratégica. Não apenas

Tópicos em Administração - Volume 3


112

comportamentos adotados, a fim de atender para as empresas, dessa forma influenciando


as pressões externas de consumidores e o comportamento profissional e, por
comunidades. A ética deve ser uma escolha, consequência, trará influência aos negócios
que agrega valor para empresa e pode da empresa.
influenciar a cultura organizacional.
Srour (2008) salienta que é preciso a
A corporação ética equilibra lucros e ética tão obtenção de lucro com ética e que a ética
completamente que os empregados são precisa ser trabalhada continuamente para o
recompensados por se afastarem de ações atingimento dos objetivos almejados, que são
comprometedoras; inclui problemas éticos na definidos na construção das estratégias
educação; dispõem de mentores para dar organizacionais gerando uma série de
orientação moral aos novos empregados. Ela benefícios, como melhoria do clima
começa por uma instância moral que permeia organizacional e também como alavanca para
sua cultura. (ALENCASTRO, 2009, p. 69). auxiliar a busca de resultados que sejam
lucrativos.
Ainda de acordo com o autor, as empresas
têm se preocupado em trazer a
responsabilidade moral para suas relações
2.1 A CONTRIBUIÇÃO DA ÉTICA NA
internas e externas. E para se ter um
ESTRATÉGIA ORGANIZACIONAL
comportamento ético é necessário um esforço
de aprendizagem e aprimoramento que deve O ambiente competitivo está passando por
ser acompanhado e incentivado pelos mudanças cada vez mais rápidas e
gestores. significativas nos processos de negociação, e
as empresas precisam ser flexíveis para
Esse pensamento é compartilhado por Mello
adaptarem-se às diferentes formas de atuar
(2003), ao afirmar que a sociedade está mais
no mercado na obtenção de vantagem
sensível, perceptível a atos imorais, esse fato
competitiva.
se deu após a divulgação pela mídia de
escândalos políticos e financeiros, posições Segundo Lampel et al (2006), uma estratégia
antiéticas de empresas, esquemas de fraudes é um forma para integrar e atuar de forma
e corrupção. sinérgica com as metas, políticas e ações da
organização. Uma adequada caracterização
Com a facilidade de comunicação disponível
de uma estratégia ampara na alocação de
atualmente, o diálogo entre as empresas e os
recursos em uma postura coerente, com base
consumidores se tornam mais amplo, com
em variáveis externas como mudanças no
isso também a pressão sobre as empresas
ambiente e ações dos concorrentes, como
aumenta, “o consumidor volta-se contra as
também considerando suas competências e
organizações pelas quais se sente lesado e
pontos fracos.
promove toda sorte de ações legais, boicotes
e campanhas de difamação, como forma de De acordo com Maximiano (2008), as
proteção e retaliação” (ALENCASTRO, 2009, organizações dispõem de várias ferramentas
p. 62). Ou seja, atitudes antiéticas não são para auxílio nas definições de suas
toleradas pelos consumidores, e sua estratégias levando em consideração a
insatisfação vai refletir diretamente na imagem verificação dos pontos fortes e fracos,
da empresa perante a sociedade de forma oportunidades e ameaças relacionado como
negativa. ambiente no qual a organização está inserida.
Observa-se que Para Porter (1999, p. 63-64), “[...] estratégia é
criar uma posição exclusiva e valiosa,
Em um mundo globalizado no qual a
envolvendo um diferente conjunto de
competição resvala muitas vezes para
atividades”.
concorrência desleal e no qual a pressão dos
clientes ganha dimensão inédita, adotar um Diante disso, a maneira que a empresa vai
posicionamento eticamente orientado reduz a adotando estratégias de diferenciação e
vulnerabilidade das empresas, assume o posicionamento, agindo compatíveis entre si,
papel de diferencial competitivo e serve de fornecem ganhos de vantagem competitiva.
nervura para a perpetuidade do negócio.
Segundo Lampel et al (2006, p. 29) “uma
(SROUR, 2008, p. 5).
estratégia é o padrão ou plano que integra as
O autor ainda argumenta que a ética tem a principais metas, políticas e sequências de
capacidade de oferecer pontos de referências ação da organização em um todo coeso”, ou

Tópicos em Administração - Volume 3


113

seja, sendo bem definida ajuda a organizar e de ferramentas e instrumentos para sua
alocar fontes de recursos de modo a obter execução, pode proporcionar a corporação
competências e diferenciais no ambiente, e vantagem competitiva, desde o ponto de
promover mudanças antecipadas com origem quando de seu estabelecimento até
relação aos concorrentes. sua execução e avaliação contínua dos
resultados.
Para Maximiano (2008), alguns setores como
o de “Pessoas e de Operações” são Santos (2013) afirma que, de fato, o código de
responsáveis pela implementação de ética é um instrumento de estratégia, que,
estratégias no campo da ética, o que se dá quando implantado e disseminado para todos
por meio de políticas e planos operacionais, os colaboradores da organização, tem um
os quais foram elaborados e construídos no bom efeito educativo, pois coloca a todos
nível estratégico com a participação, se numa mesma perspectiva de aprendizado,
possível, de representantes de todos os níveis facilitando bons processos de
organizacionais. relacionamentos organizacionais.
O autor ainda afirma que as estratégias Andrade (2011) ressalta que a ética pode ter
relacionam a empresa com o ambiente, no um papel estratégico importante, quando
entanto, as políticas adotadas coordenam consegue gerir seus relacionamentos na
pessoas, atividades e decisões no ambiente busca por conciliar interesses da organização
empresarial, cujo foco principal se dá no e de seus stakeholders.
comportamento das áreas funcionais e nas
A autora ainda destaca que cabe aos
suas relações com seus stakeholders.
gestores a responsabilidade na estruturação e
Srour (2008, p. 5) corrobora ao afirmar que o na transmissão de valores e princípios na
conhecimento ético "[...] exige análise de formação de um sistema corporativo forte
conjunto, mapeia o peso desigual dos voltado para a missão e visão da organização,
‘públicos de interesses’ e traça cenários bem como o desafio de sensibilizar a todos os
consistentes para tomada de decisão". envolvidos sobre os resultados, lucros, de
longo prazo que a empresa poderá obter ao
O código de ética surge como instrumento
se tornar uma empresa ética.
que possibilita a implementação da estratégia
nas relações que se desenvolvem no dia a dia
da empresa. Portanto, de acordo com os
3 INFLUÊNCIA DA ÉTICA NO
indicadores do Instituto Ethos (2004, p. 3), “o
COMPORTAMENTO PROFISSIONAL
código de ética ou de compromisso social, é
um instrumento de realização da visão e Para Srour (2008) as organizações têm
missão da empresa, que orienta suas ações e aprimorado processos internos para a
explica sua postura social a todos com quem melhoria da qualidade, no entanto os gestores
mantém relações.” percebem que tanto os aspectos técnicos
quanto éticos influenciam o comportamento
Moreira (2002) afirma que, de fato, a formação
organizacional.
do código de ética deve ser transparente para
todos os colaboradores e parceiros que estão Segundo Sá (2007), a ética está relacionada
envolvidos com a organização. A prática dos ao comportamento de conduta que é
princípios que constam deste instrumento expressa por ações e estímulos, que
pode gerar mudanças perceptíveis no manifestando-se variavelmente, pode ser
comportamento dos colaboradores, tanto observada e analisada.
internamente na organização quanto
Srour (2008), por sua vez, argumenta que a
externamente abrangendo todos seus
ética pode provocar mudanças no
stakeholders.
comportamento profissional com resultados
O Instituto Ethos (2004) corrobora que o importantes para o contexto empresarial.
código de ética pode auxiliar, por meio de Nesse sentido, a ética auxilia no bom
seus parâmetros, na verificação por parte da relacionamento e comportamento, facilitando
sociedade se a organização age com postura a tomada de decisão.
ética empresarial na condução dos negócios
Diante disso, para Froes e Mello Neto (2001),
de forma socialmente responsável.
a falta de conhecimento e posicionamento
Diante desse parâmetro, o planejamento ético e moral dentro das organizações, e a
estratégico, bem estruturado, e que se utiliza forma de gestão não pautada em

Tópicos em Administração - Volume 3


114

responsabilidades éticas, faz com que as Responsabilidades éticas correspondem a


posturas dos seus colaboradores possam atividades, práticas, políticas e
prejudicar o crescimento da mesma, comportamentos esperados [...] ou proibido
incitando, muitas vezes, uma competição [...] por membros da sociedade, apesar de
maléfica, sendo assim: não codificados em leis. Elas envolvem uma
série de normas, padrões ou expectativas de
Empresas que estimulam a competição
comportamento para atender àquilo que os
interna entre seus empregados, como forma
diversos públicos (stakeholders) com as quais
de aumentar a produtividade, e, sem o
a empresa se relaciona consideram legítimo,
perceberem, criam uma verdadeira cultura
correto, justo, ou de acordo com seus direitos
organizacional do ‘vale tudo’, despertando em
morais ou expectativas (ASHLEY, 2005, p. 4).
seus empregados comportamento antiéticos.
(FROES; MELLO NETO, 2001, p. 137). Diante desse contexto, Ashley (2005) afirma
que a competição global dos negócios trouxe
Esse comportamento influenciado pela
a adoção, por todo o mundo, de padrões
competição produtiva individual caracteriza-
éticos morais mais rigorosos, ou seja, à
se pelo entendimento de que as atitudes
medida que a sociedade passa por profundas
antiéticas trazem malefícios não só para o
transformações, o Estado as organizações,
indivíduo, ou para um pequeno grupo, mas
devem adequar-se em agir coletivamente.
para toda instituição.
As organizações terão de aprender a
Para Cortella (2015), é relevante o
equacionar a necessidade de obter lucros,
conhecimento de ética numa corporação, pois
obedecer às leis, ter um comportamento ético
abrange a ligação dos critérios e valores na
e envolver-se em alguma forma de filantropia
forma de conduta num meio coletivo, assim a
para com as comunidades em que se
“[...] ética esta ligada a ideia de liberdade.
inserem. [...] principalmente porque, cada vez
Ética é como eu decido minha conduta. E a
mais, as novas tecnologias de informação e
palavra ‘decido’ é marcante porque sinaliza
oportunidades comerciais e empresariais
quais são os critérios e valores que eu uso
abertas pela globalização tendem a levar
para me conduzir na vida coletiva.”
todas as organizações a abraçar padrões
(CORTELLA, 2015, p.15)
globais de operação. (ASHLEY, 2005, p. 5).
A partir da enunciação de Srour (2008), para
De fato, a globalização tornou-se um agente
que uma empresa possa se manter em
propulsor que fomentou a difusão da ética em
harmonia, o uso de conhecimento dos
todas as esferas da sociedade das
princípios e regras, colaboram para combater
organizações e das formas de fazer negócios
desafios.
na comunidade global.
O conhecimento ético trás a tona questões
polêmicas e desenha um leque de opções no
sentido de enfrentá-las. Ao ser convertido em 4 METODOLOGIA
pano de fundo das estratégias empresariais,
A metodologia científica abrange um conjunto
evita o conforto da benevolência ou a
de métodos que proporciona o alcance de
preguiça da omissão, contribui para manter a
objetivos evidentes. Segundo Lakatos (2006),
coesão organizacional e cria um escudo
é o conjunto de atividades sistemáticas e
contra a crise. (SROUR, 2008, p. 5).
racionais que, com maior segurança e
Logo se observa que a ética empresarial e economia, permite alcançar o objetivo,
seu conhecimento servem como fator de conhecimentos válidos e verdadeiros,
transformação e mudança dentro da empresa, traçando o caminho a ser seguido,
pois além de estabelecerem vínculo de detectando erros e auxiliando as decisões do
equipe, ainda intervêm no comportamento cientista.
profissional, gerando possibilidades de
Quanto aos fins, utilizou-se de uma pesquisa
crescimento da empresa nas áreas de gestão
exploratória no qual procurou abordar um
trabalhada.
assunto ou um tema em que há pouco
Nesse sentido, além das obrigações conhecimento sistematizado. Segundo
econômicas e legais, a empresa deve Vergara (2007) é o primeiro passo para quem
também preocupar-se com as não conhece suficientemente o campo que
responsabilidades éticas, sociais e morais. pretende abordar.

Tópicos em Administração - Volume 3


115

E quanto aos meios, uma pesquisa de cunho indiferente, 4 - relevante e 5 - muito relevante,
bibliográfico no qual procurou-se explicar um permitindo aos participantes marcarem a
assunto a partir de referências teóricas opção desejada. Nesta parte, buscou-se
publicadas em artigos, livros, dissertações e entender a percepção dos gerentes sobre a
teses (CERVO et al, 2007), que abrangeu as caracterização da ética empresarial como
aplicações dos autores Lampel (2006), instrumento de estratégia de negócios.
Alencastro (2009), Cortella (2015), Santos
(2013), Srour (2008), Ashley (2005), Moreira
(2002) dentre outros, bem como a realização 4.2 PROCEDIMENTOS DE COLETA
de busca de informações teóricas de artigos
A pesquisa foi feita entre os dias 17 de Março
científicos em sites eletrônicos relacionados a
a 27 de Abril no “Ponto de Distribuição
pesquisa, com a finalidade de abranger a
Aruba”, no qual se objetivou, por meio de uma
caracterização da ética empresarial como
pesquisa de campo, abordar a importância da
instrumento de estratégia de negócios.
ética como instrumento de estratégia de
Outro procedimento metodológico utilizado, negócios, e, para tanto, utilizou-se para
quanto aos meios, foi uma pesquisa de levantamento de informações a aplicação de
campo relacionada numa empresa localizada questionários estruturados em duas etapas,
na zona da mata mineira região de Juiz de sendo que a primeira em caracterizar os
Fora, cujo segmento de ramo de atuação é participantes e a segunda em escala de likert,
centro de distribuição. O nome da empresa que permite aos respondentes atribuir suas
não será divulgado por questões de sigilo opiniões em concordância com as afirmações
solicitado pelo responsável da empresa. do assunto abordado.
Adotou-se, portanto um nome fictício para
essa instituição denominado aqui de “Ponto
Os questionários foram enviados, ao “Ponto
de Distribuição Aruba”. A pesquisa foi
de Distribuição Aruba”, por meio de e-mail ao
realizada no nível tático da organização, a fim
responsável autorizado por um dos
de verificar qual a percepção dos gestores de
proprietários da mesma a conduzir a pesquisa
áreas sobre a importância da ética na
dentro da organização. Os questionários
elaboração de estratégias de negócios.
foram impressos e distribuídos aos gestores
Este estudo contou com uma pesquisa de áreas por esse funcionário responsável. Ao
quantitativa, e a amostra compreendeu todos fim da aplicação do questionário ele enviou os
os gerentes de área, responsáveis pelo nível mesmos para os pesquisadores por meio de
tático. Portanto, a amostra e o universo são os malote para uma das lojas do grupo no centro
mesmos, devido ao fato do universo ser da cidade de Juiz de Fora, MG.
composto por oito gestores, nível tático
organizacional, e a pesquisa ter sido realizada
com todos. 4.3 ANÁLISE DAS INFORMAÇÕES
COLETADAS
A parte A do questionário buscou caracterizar
4.1 INSTRUMENTO DE PESQUISA
os respondentes, em que 62,5% dos
O instrumento utilizado foi um questionário entrevistados são do sexo masculino e 37,5%
composto de duas partes A e B. Na parte A, são do sexo feminino, e constatou-se que
buscou-se conhecer o perfil dos entrevistados 75% têm de 5 a 10 anos de trabalho de
com os seguintes aspectos: sexo, idade e atuação no “Ponto de Distribuição Aruba”, e
tempo de atuação na empresa. 25% tem mais de 10 anos, e também que a
média de idade dos colaboradores que
E a parte B do questionário foi estruturada em
participaram da pesquisa é de 37,1 anos,
11 questões de múltipla escolha todas
sendo que todos os gestores ocupam cargos
dispostas em diagrama de Likert escalonada
na área tática da empresa. Passa-se a análise
em 1 - nada relevante, 2 pouco relevante, 3 -
da parte B do questionário.

Tópicos em Administração - Volume 3


116

Quadro 1 - A postura ética da organização reflete ganho de credibilidade e de imagem para a


empresa.
MUITO RELEVANTE INDIFERENTE POUCO NADA
RELEVANTE RELEVANTE RELEVANTE
Valor Valor Valor Valor Valor Valor Valor Valor Valor Valor
Relativo Absoluto Relativo Absoluto Relativo Absoluto Relativo Absoluto Relativo Absoluto

75% 6 25% 2 - 0 - 0 - 0

Fonte: Elaborado pelos autores (2017)

Por meio do quadro 1 observa-se que 75% âmbito organizacional que são transmitidos
dos gestores consideram muito relevante e para os stakeholders, refletindo na maneira
25% relevante apresentar uma postura ética pela qual são conduzidos os negócios. Pode-
exemplar para ganhos de imagem e se, então, perceber que uma postura ética em
credibilidade para a empresa. perspectiva avaliativa pode trazer ganhos de
credibilidade e imagem, caso a organização
Alencastro (2012) corrobora ao afirmar que a
se enquadre no julgamento de seus
adoção de posturas morais influencia o
stakeholders.

Quadro 2 - Aplicação dos princípios e valores éticos como instrumento de acompanhamento de


resultados.
MUITO RELEVANTE INDIFERENTE POUCO NADA
RELEVANTE RELEVANTE RELEVANTE
Valor Valor Valor Valor Valor Valor Valor Valor Valor Valor
Relativo Absoluto Relativo Absoluto Relativo Absoluto Relativo Absoluto Relativo Absoluto

62,5% 5 37,5% 3 - 0 - 0 - 0

Fonte: Elaborado pelos autores (2017)

A resposta dada pelos entrevistados no com esse resultado ao salientar que a


quadro 2, demonstra que a soma dos índices: obtenção de resultados precisa ser pautada
muito relevante e relevante, totaliza 100% das em princípios e valores éticos.
respostas. A fala de Srour (2000) contribui

Quadro 3 - A empresa possui em seu regimento interno um código de ética.


MUITO RELEVANTE INDIFERENTE POUCO NADA
RELEVANTE RELEVANTE RELEVANTE
Valor Valor Valor Valor Valor Valor Valor Valor Valor Valor
Relativo Absoluto Relativo Absoluto Relativo Absoluto Relativo Absoluto Relativo Absoluto

37,5% 3 50% 4 12,5% 1 - 0 - 0

Fonte: Elaborado pelos autores (2017)

Demonstrado no quadro 3 que 37,5% exposto pelo Instituto Ethos (2004) ao


afirmaram ser muito relevante, 50% deles ressaltar que o código de ética se apresenta
asseguram que é relevante constar no como um instrumento para implementação da
regimento interno um código de ética. Essa estratégia empresarial na realização da
visão dos gestores vem ao encontro do missão e visão da empresa.

Tópicos em Administração - Volume 3


117

Quadro 4 - Para o gerenciamento de uma equipe, o gestor necessariamente precisa ter


conhecimento no campo ético.
MUITO RELEVANTE INDIFERENTE POUCO NADA
RELEVANTE RELEVANTE RELEVANTE
Valor Valor Valor Valor Valor Valor Valor Valor Valor Valor
Relativo Absoluto Relativo Absoluto Relativo Absoluto Relativo Absoluto Relativo Absoluto

87,5% 7 12,5% 1 - 0 - 0 - 0

Fonte: Elaborado pelos autores (2017)

Os resultados obtidos no quadro 4, conhecimento para gerir uma equipe. Froes e


evidenciam a importância para os gestores Mello Neto (2001) corroboram ao
em um mercado altamente competitivo do
declarar que a falta de conhecimento e
conhecimento no campo ético. Observa-se
posicionamento ético dentro das
nos dados que 87,5% dos entrevistados
organizações prejudicam o crescimento da
afirmam ser muito relevante este
empresa. E afirmam que

Quadro 5 - A empresa cria uma cultura organizacional para aumentar a produtividade dos
empregados numa disputa de vale "tudo".
MUITO RELEVANTE INDIFERENTE POUCO NADA
RELEVANTE RELEVANTE RELEVANTE
Valor Valor Valor Valor Valor Valor Valor Valor Valor Valor
Relativo Absoluto Relativo Absoluto Relativo Absoluto Relativo Absoluto Relativo Absoluto

- 0 24% 2 25% 2 25% 2 25% 2

Fonte: Elaborado pelos autores (2017)

O quadro 5 aponta que apenas 25% dos produtividade estimulando competições


gestores pesam ser relevante uma cultura de internas, pode causar um desiquilíbrio no
competição a qualquer custo. De acordo com clima organizacional ocasionando
Froes e Mello Neto (2001), na tentativa de comportamentos antiéticos.
induzir os colaboradores a aumentar a

Quadro 6 - A empresa difunde para os colaboradores princípios e valores pautados na missão e


visão da organização.
MUITO RELEVANTE INDIFERENTE POUCO NADA
RELEVANTE RELEVANTE RELEVANTE
Valor Valor Valor Valor Valor Valor Valor Valor Valor Valor
Relativo Absoluto Relativo Absoluto Relativo Absoluto Relativo Absoluto Relativo Absoluto

12,5% 1 50% 4 37,5% 3 - 0 - 0

Fonte: Elaborado pelos autores (2017)

O índice de 37,5% indiferente aparece pela Para Srour (2008) o conhecimento precisa ser
primeira vez nos dados analisados. E o pano de fundo das estratégias, a fim de
observa-se que a soma das respostas de manter a organização coesa e criar um
muito relevante e relevante cai para 62,5%. escudo contra a crise.

Tópicos em Administração - Volume 3


118

Quadro 7 - Comportamentos antiéticos prejudicam as relações da empresa.


MUITO RELEVANTE INDIFERENTE POUCO NADA
RELEVANTE RELEVANTE RELEVANTE
Valor Valor Valor Valor Valor Valor Valor Valor Valor Valor
Relativo Absoluto Relativo Absoluto Relativo Absoluto Relativo Absoluto Relativo Absoluto

37,5% 3 62,5% 5 - 0 - 0 - 0

Fonte: Elaborado pelos autores (2017)

Dos gestores que participaram da pesquisa, empresarial, mas a ética nos traz princípios
37,5% afirmaram ser muito relevante e 62,5% para que essa competição não traga
relevante que práticas de adoção antiéticas consequências ruins para o clima
podem prejudicar relações sociais entre os organizacional, e para que as relações sociais
colaboradores. Para Alencastro (2012), o sejam mantidas de forma profissional.
mercado competitivo faz parte do mundo
Quadro 8 - A empresa difunde de forma clara e transparente uma consciência ética-social para os
colaboradores.
MUITO RELEVANTE INDIFERENTE POUCO NADA
RELEVANTE RELEVANTE RELEVANTE
Valor Valor Valor Valor Valor Valor Valor Valor Valor Valor
Relativo Absoluto Relativo Absoluto Relativo Absoluto Relativo Absoluto Relativo Absoluto

12,5% 1 87,5% 7 - 0 - 0 - 0

Fonte: Elaborado pelos autores (2017)

No quadro 8, fica claro que é relevante a ética pode provocar mudanças no


comunicação dos princípios éticos para os comportamento profissional com resultados
colaboradores. Srour (2008) destaca que a importantes para o contexto empresarial.

Quadro 9 - A adoção pela empresa de postura clara e transparente em relação aos seus objetivos e
compromissos fortalece o ganho de legitimidade social em suas relações de negócio.
MUITO RELEVANTE INDIFERENTE POUCO NADA
RELEVANTE RELEVANTE RELEVANTE
Valor Valor Valor Valor Valor Valor Valor Valor Valor Valor
Relativo Absoluto Relativo Absoluto Relativo Absoluto Relativo Absoluto Relativo Absoluto

62,5% 5 37,5% 3 - 0 - 0 - 0

Fonte: Elaborado pelos autores (2017)

No quadro 9, 62,5% dos participantes Alencastro (2009) afirma que a comunicação


apontaram com muita relevância que uma entre empresa e seus stakeholders se tornou
postura clara e transparente ligada aos mais próxima, e com isso a obtenção de
objetivos organizacionais da empresa informações sobre os comportamentos éticos
fortalecem ganho de legitimidade social nas estão mais acessíveis, essa transparência
relações de negócio. pode se traduzir em ganho de legitimidade
social.

Tópicos em Administração - Volume 3


119

Quadro 10 - A empresa é bem avaliada pela sociedade, governo, fornecedores, cliente,


concorrentes por apresentar um comportamento ético empresarial exemplar.
MUITO RELEVANTE INDIFERENTE POUCO NADA
RELEVANTE RELEVANTE RELEVANTE
Valor Valor Valor Valor Valor Valor Valor Valor Valor Valor
Relativo Absoluto Relativo Absoluto Relativo Absoluto Relativo Absoluto Relativo Absoluto

50% 4 50% 4 - 0 - 0 - 0

Fonte: Elaborado pelos autores (2017)

No quadro 10 relativo à postura ética da De acordo com Alencastro (2012), a ética


empresa perante seus públicos de interesse, empresarial envolve a determinação da
50% dos que responderam a pesquisa organização em cumprir os compromissos
esclareceram que é muito relevante a assumidos para com todos os que têm algum
empresa ter esse ganho de legitimidade em tipo de envolvimento com ela. Dessa forma, a
vantagem competitiva em atividades sociais, empresa que mantêm relacionamento ético e
e 50% responderam que é relevante e muito honesto reflete expectativas de ganho de
relevante diante da sociedade, a empresa credibilidade com a sociedade.
apresentar um comportamento empresarial
exemplar.

Quadro 11 - A empresa utiliza a ética como estratégia para alcançar melhores resultados num
mercado altamente competitivo.
MUITO RELEVANTE INDIFERENTE POUCO NADA
RELEVANTE RELEVANTE RELEVANTE
Valor Valor Valor Valor Valor Valor Valor Valor Valor Valor
Relativo Absoluto Relativo Absoluto Relativo Absoluto Relativo Absoluto Relativo Absoluto

50% 4 50% 4 - 0 - 0 - 0

Fonte: Elaborado pelos autores (2017)

Dos participantes da pesquisa, 50% rapidamente as mudanças. Para tanto, é


responderam que é muito relevante para a preciso que ajustem seu planejamento e
empresa a utilização da ética como estratégias numa combinação de variáveis,
instrumento de estratégia para alcançar os pessoas e recursos na busca de vantagem
melhores resultados, e os outros 50% competitiva.
responderam que é relevante este uso de
E dessa forma, para alavancar o crescimento
prática num ambiente altamente competitivo.
competitivo, não só os fatores econômicos
Maximiano (2008) ressalta que a maneira
estão diante dos gestores para análise
como os gestores estão envolvidos com o
críticas, mas também fatores éticos se
compromisso de ser ético influenciará
destacam no universo corporativo.
estrategicamente a corporação a adotar
posturas adequadas que se refletirá em todos Este trabalho teve como questão de
os níveis organizacionais, e como resultado, a investigação a compreensão da importância
empresa poderá obter melhores resultados. da ética empresarial na elaboração de
estratégias empresariais. Com a pesquisa
bibliográfica e a de campo pode-se perceber
5 CONSIDERAÇÕES FINAIS que a ética passou a ter um papel de
relevância no cenário organizacional.
Observa-se na pesquisa que diante de um
cenário competitivo, as organizações Por meio da pesquisa de campo realizada no
precisam adaptar-se a todas as pressões que “Ponto de Distribuição Aruba”, evidenciou-se
ocorrem no ambiente interno e externo, que é importante que uma organização
fazendo com que as empresas se adaptem apresente em sua estrutura interna, um

Tópicos em Administração - Volume 3


120

código de ética que seja voltado e numa organização, é essencial que o gestor
direcionado para questões estratégicas, como apresente conhecimento no campo ético.
conhecimento e cumprimento dos princípios
Ficou claro que a relação da empresa com
pertencentes a missão e visão da
seus públicos precisa ser pautada em
organização.
princípios éticos e transparentes o que,
Observou-se, também, que os gestores ao possivelmente, trará ganho de imagem e
difundirem os princípios e valores legitimidade nos processos de negociação.
organizacionais aos seus colaboradores tem a
E por fim, ficou evidenciado que as
possibilidade de motivar comportamentos
estratégias organizacionais precisam estar
éticos. E dessa forma, conscientizá-los que
alinhadas a princípios e comportamentos
atitudes antiéticas podem provocar
éticos. Essa realidade se faz presente no
desiquilíbrio no clima organizacional, criando
“Ponto de Distribuição Aruba”, quando da
competições impróprias e desagradáveis. O
análise sobre a percepção dos gestores, nível
entendimento e clareza dessas questões
tático. Fato esse que reafirma que
impactam na cultura que permeia atitudes dos
posicionamentos éticos impactam nos
indivíduos na tomada de decisão.
resultados da empresa.
Outro ponto evidenciado na pesquisa é o fato
de que, para gerir relações entre indivíduos

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Tópicos em Administração - Volume 3


122

Capítulo 12

Carla Janaina Hanneck


Pamela Kauana Santos

Resumo: No presente artigo, encontra-se uma pesquisa bibliográfica, que aborda


as principais teorias e estudos a respeito do Comportamento Organizacional e
como a sua aplicação correta no cotidiano empresarial, de modo eficaz, auxilia
líderes e equipes a obter êxito, nos objetivos individuais e da organização como um
todo. O objetivo deste trabalho é a representação através de uma pesquisa
bibliográfica abrangendo desde os níveis gerenciais, a importância do
comportamento organizacional, seus valores e o equilíbrio entre a vida pessoal e
profissional dos colaboradores, através de fundamentos do comportamento
humano, administrando conflitos visando o comportamento do indivíduo
relacionado ao ambiente de trabalho.

Tópicos em Administração - Volume 3


123

1 INTRODUÇÃO bastante imprevisível. Isso acorre porque ele


nasce de necessidades humanas
Desde o inicio dos tempos à relação humana
profundamente arraigadas e dos sistemas de
é comum no fator organização, à arte de
valores”.
trabalhar a mesma de uma maneira complexa
não é relativamente nova, o trabalho isolado Este trabalho tem como objetivo representar
ou em pequenos grupos tem suas relações através de uma pesquisa bibliográfica desde
facilmente resolvidas, trabalhando em cima os níveis gerenciais a importância do
do seu objetivo. O Comportamento comportamento organizacional, seus valores e
Organizacional influencia todo o clima da o equilíbrio entre a vida pessoal dos
corporação e correlatam quais são as visões colaboradores, através de fundamentos do
e impactos que o individuo a ela ligada comportamento humano, administrando
possuem desse local de trabalho em questão. conflitos visando o comportamento humano
relacionado ao ambiente de trabalho.
O estudo contempla a empresa como um
todo, através de uma visão holística,
auxiliando a reter novos talentos, reprimindo a
2 REFERENCIAL TEÓRICO
alta rotatividade de funcionários, promovendo
engajamento e harmonia entre seus 2.1 OS NÍVEIS ORGANIZACIONAIS
interesses, semeando um melhor ambiente,
De maneira geral, as empresas possuem três
sendo designados pela alta gerencia, com
partes ou níveis hierárquicos dentro da
propósito de entreter mais interesses pessoais
organização, sendo elas o nível institucional, o
para que se consigam atender melhor as
nível gerencial ou intermediário e por último o
necessidades do publico interno e externo.
nível técnico ou operacional. (CHIAVENATO,
Segundo DAVIS (1992, p. 4) “O 2010)
comportamento humano nas organizações é

Figura 1 – Níveis Organizacionais

Fonte: Chiavenato (2010)

O nível institucional é o mais alto entre os O nível institucional ou nível estratégico como
níveis da organização, e é nele onde se é muito chamado, tem como função na
encontram os executivos, gestores, organização traçar estratégias para superar
administradores e donos das respectivas as adversidades no ambiente inseguro e
empresas, além de todos que dão suporte incerto do mercado, além de ser o nível
direto a esse pessoal, como por exemplo, as também responsável por definir metas,
secretárias, assistentes e até mesmo o estratégias, objetivos e a tomada de decisões.
conselho administrativo, no caso da maioria (CHIAVENATO, 2010)
das sociedades anônimas.

Tópicos em Administração - Volume 3


124

Já o nível intermediário, encontra- se entre os pessoas ou os órgãos que transformam as


dois demais níveis, e atua como um mediador estratégias elaboradas para atingir os
entre o nível institucional e o nível operacional, objetivos empresariais em programas de
nele encontram- se os gerentes e os ação, pois o nível institucional costuma estar
departamentos. Fundamental para este nível é ligado ao nível operacional por uma linha
a flexibilidade, devido servir como um simples, o topo à base da organização,
“amortecedor” entre os outros dois níveis, que fazendo com que cada subordinado tenha
são entre si muito diferentes. apenas um superior (CHIAVENATO, 2010, p.
45).
Cuida também da escolha e da captação dos
recursos necessários, bem como da Por último temos o nível operacional ou nível
distribuição e da colocação do que foi técnico, que popularmente é conhecido como
produzido pela empresa nos diversos o “chão de fábrica” devido estar localizado
segmentos do mercado. É o nível que lida nas áreas inferiores da organização e cuida
com os problemas de adequação das diretamente da parte técnica, como a
decisões tomadas no nível institucional com produção por exemplo, os serviços da
as operações realizadas no nível operacional. empresa, além de operações produtivas,
financeiras, mercadológicas e informacionais.
Segundo Chiavenato (2010) O nível
No nível operacional é onde ficam as
intermediário é geralmente composto da
instalações da empresa, linha de montagem e
média administração da empresa, isto é, as
escritórios. (CHIAVENATO, 2010)

Figura 2 – Quadro explicativo dos Níveis Organizacionais

Fonte: Chiavenato (2010)

2 2 FUNDAMENTOS DO COMPORTAMENTO dados comportamentais em qual o individuo


INDIVIDUAL obtém fora da empresa.
Analisando os elementos do comportamento Segundo Davis (1992),
organizacional fica expostamente evidente
Cada uma é diferente de todas as outras,
que o primeiro fator que interfere no
provavelmente em milhares de maneiras,
comportamento e desempenho das
assim como cada uma das suas impressões
organizações seja a própria pessoa através
digitais é diferente, tanto quanto se saiba. E
de suas características.
essas diferenças são habitualmente
O comportamento humano é particularizado substanciais em vez de pouco significativas
por envolver inúmeros fundamentos e (DAVIS, 1992, p. 10).
aprendizados que atingem diretamente as
Características biográficas
relações sociais e profissionais, fornecendo

Tópicos em Administração - Volume 3


125

As características biográficas estão de um indivíduo pode fazer”. Normalmente


imediatos acessíveis para os administradores, divididos por dois grupos de fatores:
estabelecendo o primeiro conjunto a ser habilidades físicas e habilidades intelectuais.
analisada juntamente a ficha pessoal do
Elas têm certas influencias quanto ao nível de
funcionário com uma maior facilidade,
desempenho e de satisfação do funcionário. É
obviamente seria a idade, o sexo e
de extrema importância buscar uma correta
estabilidade.
harmonização em meio de habilidades e as
a) Idade: embora disponha certa demandas da função.
conformidade que o desempenho propende a
decrescer com a idade, pesquisas não
mostram esta relação, ao contrario, os a) Habilidades intelectuais: É necessária para
empregadores percebem uma grande o funcionamento de atividades mentais como
quantidade de qualidades positivas. Quanto a solução de problemas, raciocinar e pensar.
mais velho você fica, menor será a Da mesma maneira que um teste de QI é
possibilidade de perder seu emprego. elaborado para medir sua capacitação
Segundo Robbins (2005, p. 32) especialmente intelectual.
a experiência, bom senso, ética e o
Dunnette (1976, p. 478-483) destaca as sete
comprometimento são aliados para uma maior
habilidades intelectuais de maior relevância:
percepção;
 Aptidão para números – Habilidades
b) Sexo: há de certa maneira certo
para fazer cálculos rápidos e precisos,
preconceito nessa questão polemica que
contador.
abrange se mulheres podem ter relativamente
o mesmo desempenho profissional que os  Compreensão verbal – habilidade
homens, tais diferenças não existem. para entender o que é lido ou escutado, gente
Segundo ROBBINS (2005) p. 33 “Não existe, de fabrica.
por exemplo, qualquer diferença consistente
 Rapidez de percepção – Identifica de
entre homens e mulheres quanto ás
maneira rápida e precisa semelhanças e
habilidades de resolução de problemas,
diferenças, investigador de incêndios.
capacidade de analise, espírito competitivo,
motivação, sociabilidade ou capacidade de  Raciocínio indutivo - identificar
aprendizagem”. Uma possível exceção na sequência lógica para resolver um problema,
questão sobre o absenteísmo, geralmente o pesquisador de mercado.
papel de mãe pode levar a ausência do
 Raciocínio dedutivo - lógica e
trabalho;
avaliação de implicações de argumentos,
c) Estabilidade: Analisando a estabilidade de supervisor.
forma geral, o comportamento do individuo
 Visualização espacial – imaginar a
referente ao tempo de casa, mostra uma
substituição de um objeto numa posição
maior satisfação relativa ao absenteísmo e a
modificada, decorador de interiores.
rotatividade. De acordo com Robbins (2005,
p. 34), a estabilidade é uma grande aliada  Memória - reter e evocar experiências
para que haja um maior comprometimento, passadas e informações guardadas,
relacionada à experiência, incrementando em vendedor.
uma maior produtividade do funcionário.
Segundo Bobko (1999, p. 561-589) nem
Tomando como base os conceitos citados à sempre os testes de habilidades mentais
cima, contribuindo para uma futura seleção seriam a melhor forma para promover e tomar
de candidatos, a idade tão pouco se relaciona certas decisões, isso pode causar certo
com a produtividade, assim como os mais impacto dentre grupos raciais ou étnicos.
experientes evitam uma maior rotatividade.

b) Habilidades Físicas: Segundo Robbins


2.2.2 HABILIDADES (2005, p. 35-36) da mesma forma que as
habilidades intelectuais, elas exercem um
Segundo Robbins (2005, p. 32) a habilidade
grande papel nas funções complexas “que
“refere-se à capacidade de um individuo para
demandam o processamento de informações,
desempenhar as diversas tarefas de uma
habilidades físicas especificas ganham
função. É uma avaliação geral de tudo o que
importância na realização bem-sucedida de

Tópicos em Administração - Volume 3


126

serviços mais padronizados e não bom desempenho do funcionário pode ser


especializados” funções que exijam obtido quando os executivos definem quais
resistência física. dessas nove habilidades, e em que extensão,
são necessárias para a realização das tarefas
Robbins (2005) também cita que as pessoas
e se asseguram que os funcionários no cargo
exercem suas habilidades em extensões
as tenham na medida certa (ROBBINS, 2005,
diversificadas,
p. 36).
Uma alta pontuação em uma habilidade não é
Sendo assim, as nove habilidades básicas no
garantida do mesmo sucesso nas demais. O
desempenho de tarefas físicas:

Fatores de Força
Força dinâmica. Habilidade em exercer força muscular repetidamente ou
continuamente, por certo tempo;

Força no tronco Habilidade em exercer força muscular usando os músculos do


tronco (especialmente os abdominais);

Força estática Habilidade em exercer força muscular em relação a objetos


externos: puxá-Ios, empurrá-Ios, levantá-Ios, carregá-Ios ou baixá-
Ios.

Força explosiva Habilidade em gastar um máximo de energia em uma ou uma série


de ações explosivas; Exercer força muscular em investidas rápidas
(energia muscular).

Fatores de Flexibilidade
Flexibilidade de Habilidade em realizar movimentos de flexão rápidos e repetidos;
extensão Habilidade em estender os músculos do tronco e das costas o
máximo possível;

Flexibilidade dinâmica Capacidade para flexionar e estender os membros do corpo para


trabalhar em posições incômodas ou contorcidas.

Outros Fatores
Coordenação motora Habilidade em coordenar movimentos simultâneos de diferentes
partes do corpo; Capacidade de movimento seqüencial dos
dedos, braços, pernas ou corpo para resultar em ação qualificada.

Equilíbrio Habilidade em manter o equilíbrio apesar de forças


desequilibrantes; Capacidade de manter o corpo numa posição
estável e resistir a forças que provoquem perda de estabilidade.

Resistência Habilidade em manter o esforço máximo durante grandes períodos


de tempo. Exercer força muscular contínua no tempo, com
resistência à fadiga. Capacidade para manter atividade física que
resulte em aumento da pulsação por um período prolongado.
Fonte: Adaptado de HRMagazine, Publicada pela Society for human Resourse Management, Alexandria.

Tópicos em Administração - Volume 3


127

c) Aprendizagem: é consequentemente aprendizagem podem ser respostas


qualquer metamorfose relativamente invariável involuntárias, emocionais e fisiológicas. Na
no comportamento que ocorra como resultado época da introdução do condicionamento
de uma experiência. Existem três grandes clássico, Pavlov, trabalhava em outro
teorias sobre aprendizagem: condicionamento desenvolvimento de uma pesquisa, notando
clássico, condicionamento operante e seu que o cão que ele usava para o experimento
desenvolvimento, a teoria da aprendizagem começava a salivar, não só quando a comida
social. era dada, mas mesmo ao ouvir seus passos.
É este incidente que influenciou Pavlov
a estudar o conceito de aprendizagem. Ele
2.2.3 DIFERENÇA ENTRE conduziu uma experiência com a intenção de
CONDICIONAMENTO CLÁSSICO E entender esse conceito. Cada vez que ao cão
CONDICIONAMENTO OPERANTE foi dado alimento ou até mesmo com a
simples visão ou cheiro da comida, o cão
a) Condicionamento clássico: Teoria
começava a salivar. Podendo ser
introduzida por Ivan Pavlov no inicio do século
compreendido do seguinte modo.
XX. Relatando que algumas formas de

Fonte: psicoativo.com

Segundo Robbins (2005, p. 38) dessa forma introduziu dois tipos de reforços; reforço
com os conceitos utilizados “podemos resumir positivo e reforço negativo.
o condicionamento clássico. Essencialmente,
No reforço positivo, o indivíduo é apresentado
para aprender uma resposta condicionada, é
a estímulos agradáveis que resultam no
preciso criar uma associação entre um
aumento do comportamento. Dar uma
estimulo condicionado e um estímulo não
recompensa para um estudante por bom
condicionado. Quando ambos os estímulos, o
comportamento pode ser tomado como um
provocador e o neutro, são igualados, o
exemplo.
neutro passa a ser um estimulo condicionado
e, assim, adquire as propriedades do estimulo O reforço negativo é a ausência de estímulos
não condicionado”. desagradáveis. Por exemplo, terminar um
trabalho escolar rápido, em vez de no último
b) Condicionamento Operante: Desenvolvido
minuto, remove a tensão que o aluno sente.
pelo psicólogo americano B. F Skinner. Ele
Em ambos os casos, o reforço funciona no
acreditava que “o comportamento operante
sentido de aumentar um comportamento
refere-se a um comportamento voluntario ou
particular que é considerado como bom.
aprendido, em contraste com o
comportamento reflexivo ou não aprendido”
(ROBBINS, 2005, p. 38).
2.3 EQUILÍBRIO ENTRE A VIDA PESSOAL E
No condicionamento operante, ação está PROFISSIONAL DOS COLABORADORES
associada a consequências pelo organismo.
Inúmeros fatores interferem na relação entre a
Ações que são reforçadas tornam-se
vida pessoal e profissional de cada
fortalecidas enquanto as ações que são
colaborador. Seja pelo surgimento de
punidas estão sendo enfraquecidas. Ele
empresas globais, que funcionam com

Tópicos em Administração - Volume 3


128

jornadas ininterruptas, pelo avanço da indivíduo, variáveis no nível do grupo e


tecnologia, que fez com que os colaboradores variáveis no nível do sistema organizacional.
levassem no bolso o trabalho e
Variáveis no Nível do Indivíduo
consequentemente, os conflitos e situações
diversas que podem surgir no decorrer no dia, Ao entrar em uma organização, as pessoas
ou pela praticidade das técnicas ou carregam consigo uma bagagem.
profissões liberais, que permitem flexibilidade Experiências que certamente irão interferir no
de horário e local para realizar o serviço. seu comportamento no ambiente de trabalho.
Dessa forma, o trabalho acaba tomando mais Tais características podem ser pessoais ou
tempo e espaço na vida dos colaboradores biográficas, como por exemplo, idade, sexo e
do que o desejado, pois no período em que estado civil; como também podem ser
era para estarem em casa descansando, as características de personalidade; estrutura
preocupações continuam ativas na empresa, emocional; valores e atitudes; e ainda, seus
fazendo com que o mesmo fiquem cada vez níveis básicos de capacitação.
mais insatisfeitos com o emprego.
Essas características já estão no indivíduo
Segundo Robbins (2006), quando ele passa a fazer parte do quadro de
funcionários da empresa, podendo sofrer
Poucas famílias têm apenas um membro que
pequenas alterações através do
trabalha fora atualmente. Os funcionários de
gerenciamento. Mesmo assim, elas possuem
hoje, em sua maioria, integram um casal de
um grande impacto sobre o comportamento
trabalhadores. Isto torna muito difícil para
do colaborador.
essas pessoas encontrar tempo para atender
a compromissos domésticos, conjugais ou
com os filhos, parentes e amigos (ROBBINS,
Variáveis no Nível do Grupo
2006, p. 19).
O comportamento individual é distinto ao
Como consequência disso, algumas
comportamento em grupo, pois quando a
organizações podem encontrar dificuldades
pessoa está sozinha, ela terá que lidar apenas
em atrair e manter funcionários, se não
com as suas características, o que se torna
souberem auxiliar os colaboradores a
fácil, quando comparado a lidar com as
desenvolver o equilíbrio entre a vida pessoal e
características de várias pessoas no mesmo
profissional.
ambiente.
Para Robbins (2006),
2.4 VARIÁVEIS DEPENDENTES E VARIÁVEIS
O comportamento de um grupo é mais do que
INDEPENDENTES QUE INFLUENCIAM NO
a soma das ações dos indivíduos que fazem
COMPORTAMENTO ORGANIZACIONAL
parte dele. A complexidade do modelo
Existem algumas variáveis que podem aumenta quando compreendemos que o
interferir no comportamento organizacional, comportamento das pessoas é diferente
elas são subdivididas em variáveis quando elas estão sozinhas e quando estão
dependentes e variáveis independentes. em grupo (ROBBINS, 2006, p. 23).
As variáveis dependentes são os fatores que Variáveis no Nível do Sistema Organizacional
você deseja explicar ou prever e que são
Assim como os grupos são mais que a soma
afetados por algum outro fator. Essas
de seus membros individuais, a organização
variáveis são enfatizadas como:
também é que a soma dos grupos da qual é
a) Produtividade; composta.
b) Absenteísmo; Segundo Robbins (2006),
c) Rotatividade; O comportamento organizacional alcança seu
mais alto nível de sofisticação quando
d) Cidadania Organizacional;
somamos a estrutura formal ao nosso
e) Satisfação no Trabalho. conhecimento prévio sobre o comportamento
dos indivíduos e dos grupos (ROBBINS, 2006,
Já as variáveis independentes, são descritas
p. 24).
como a suposta causa de algumas mudanças
em variáveis dependentes. Podendo ser Dessa forma, o desenho da organização
classificadas como variáveis no nível do formal, os processos do trabalho e as

Tópicos em Administração - Volume 3


129

funções; as políticas e práticas de gestão de O modelo abaixo deixa evidentes as cinco


recursos humanos – que englobam o variáveis dependentes básicas e algumas
processo de seleção, treinamentos e os variáveis independentes, respectivamente
métodos de avaliação de desempenho – e, a organizadas por nível de análise.
cultura interna da organização, tem impacto
sobre as variáveis dependentes.

Figura 3 – Modelo Básico de Comportamento Organizacional

Fonte: Comportamento Organizacional, (ROBBINS, 2006, p. 24)

É possível identificar que foram incluídos os Segundo Chiavenato (2004),


conceitos de mudança e estresse no quadro
O conflito é muito mais do que um simples
acima, demonstrando que a dinâmica do
acordo ou divergência: constitui uma
comportamento e o fato de que o estresse no
interferência ativa ou passiva, mas deliberada
trabalho é um aspecto individual, grupal e
para impor um bloqueio sobre a tentativa de
organizacional.
outra parte de alcançar os seus objetivos
Pode-se observar que os três níveis de (CHIAVENATO, 2004, p. 416).
análise estão ligados entre si. Fazendo com
Dentro do ambiente organizacional, é muito
que a estrutura da organização relacione-se
comum existir conflitos devidos á grande
com a liderança, por exemplo, significando
diversidade de comportamentos, onde
que, esse vínculo demonstra que a autoridade
encontramos diferentes grupos de pessoas,
e a liderança estão interligadas, permitindo
com personalidades e valores distintos, o que
que os executivos exerçam influência sobre o
consequentemente acarreta divergências de
comportamento do grupo através da liderança
ideias e opiniões.
da equipe.
De acordo com Berg (2012),
O conflito nos tempos atuais é inevitável e
2.5 CONFLITOS NO AMBIENTE
sempre evidente. Entretanto, compreendê-lo,
ORGANIZACIONAL
e saber lidar com ele, é fundamental para o
Para entendermos os conflitos dentro do seu sucesso pessoal e profissional (BERG,
ambiente organizacional, precisamos 2012, p.18).
entender primeiramente o que é um conflito.
Segundo Burbridge e Burbridge (2012), os
O conflito é natural do ser humano e por isso conflitos são naturais e em muitos casos
tão presente no ambiente empresarial, que é necessários. É o motor que impulsiona as
composto por pessoas, das mais diversas mudanças. No entanto muitos conflitos são
opiniões e personalidades. desnecessários e destroem valores, causando

Tópicos em Administração - Volume 3


130

prejuízo para as empresas e pessoas que Indivíduos e grupos podem contribuir com
trabalham nela. O principal desafio dos novas abordagens para os problemas.
gestores é identificar os conflitos produtivos e
Aspectos Negativos:
contra produtivos e gerenciá-los.
Podem causar estresse e insatisfação no
Existem alguns tipos de conflitos que podem
trabalho;
ser observados dentro do ambiente
organizacional, sendo eles: Podem reduzir o nível de comunicação entre
os indivíduos;
Conflitos funcionais: esse conflito é importante
para as mudanças pessoais, grupais e Podem ocasionar resistência à mudança;
sociais, pois ele combate a estagnação da
O comprometimento e a lealdade à
concordância constante, além de promover o
organização podem ser afetados.
interesse pelo desafio.
Chiavenato (2004, p. 418), afirma que, “uma
Conflitos disfuncionais: enquanto os conflitos
qualidade importante no administrador é sua
funcionais contribuem para o desenvolvimento
qualidade de administrar conflitos”.
da equipe, os conflitos disfuncionais
prejudicam o desempenho organizacional e O maior desafio então é saber escolher a
do grupo. melhor estratégia de resolução para cada
caso, levando em consideração tudo que for
Conflito de relacionamentos: baseado nas
importante, escutando os envolvidos e
relações interpessoais, o conflito de
buscando aumentar os efeitos construtivos e
relacionamentos influencia diretamente na
minimizar os destrutivos, promovendo o bem
execução de tarefas, uma vez que a
estar entre as pessoas e o desenvolvimento
hostilidade e as diferenças na personalidade
da organização.
prejudicam a compreensão e,
consequentemente, a realização de O que sempre fará a diferença serão as
atividades. pessoas, suas intenções e habilidades, por
isso são tão importantes nas organizações, e
Conflito de tarefa: relacionado aos objetivos
estudar formas de auxiliar na sua convivência
do trabalho, esse tipo de conflito, quando em
e bem estar se faz necessário e
nível baixo e moderado, pode ser produtivo,
imprescindível para todo gestor a as
uma vez que estimula a discussão de ideias
organizações que desejam sucesso.
do grupo, contribuindo diretamente para o
desempenho das atividades.
Conflito de processo: este tipo de conflito 3 MATERIAIS E MÉTODOS
relaciona-se à forma com que o trabalho é
Sob o ponto de vista do objeto, a pesquisa
realizado. Em nível baixo, ele pode ser
elaborada neste artigo, é uma pesquisa
importante para o desenvolvimento da equipe.
bibliográfica, pois foi baseada em trabalhos já
Porém, quando atinge níveis altos, pode gerar
existentes de outros autores.
dúvidas sobre as funções de cada membro,
diminuir a produtividade e levar a um No que se refere à natureza, a pesquisa
retrabalho. considera-se básica, visto que o objetivo da
mesma é gerar conhecimento através do seu
Os conflitos fazem parte da natureza humana.
conteúdo.
Não devemos atribuir ao conflito, ainda que
profundo e complexo, uma conotação Quanto à abordagem do problema,
negativa. Afinal, dependendo do modo como considera-se qualitativa, pois consiste em
é gerido pode ser uma fonte de criatividade, fundamentação teórica, em trabalhos,
de mudança e de maior produtividade. pesquisas e teorias de outros autores.
Podemos identificar aspectos positivos e Do objetivo, caracteriza-se como descritivo,
negativos nos conflitos, como por exemplo: pois será possível obter uma discussão a
respeito do assunto exposto na pesquisa,
Aspectos Positivos:
identificando a importância do
Podem estimular a inovação e a criatividade; Comportamento Organizacional eficaz, a nível
individual e em grupo.
O processo decisório organizacional pode ser
melhorado; Finalmente, sob o ponto de vista dos
procedimentos técnicos, considera-se
Soluções alternativas podem ser encontradas;

Tópicos em Administração - Volume 3


131

pesquisa bibliográfica, pois foi desenvolvida eficaz, atua diretamente no auxílio para
com base em materiais já elaborados, administrar conflitos intra e interpessoais, no
dispondo de livros e artigos científicos, que diz respeito a líderes e liderados.
relacionados ao assunto.
Saber tratar as pessoas de maneira
4 CONCLUSÃO respeitosa, superando as barreiras
comportamentais, faz com que a organização
Com base nas pesquisas referentes ao
se torne mais forte, agregando profissionais
assunto do presente artigo, fica evidente que,
que realmente vestem a camisa da empresa,
para manter um clima agradável no ambiente
superando juntos as diferenças e usando
organizacional, deve-se saber lidar com
suas características ímpares como um
diversos conflitos e comportamentos dos
diferencial positivo para a organização.
colaboradores, tanto de modo grupal quanto
individual. A fim de se obter uma equipe Em vista do exposto, compreende-se a
capaz de dispor as suas diferenças e importância de se ter de modo eficaz, a
individualidades para o bem comum, para administração de conflitos através do estudo
obter êxito nos objetivos propostos pela do Comportamento Organizacional, tanto em
organização. nível individual, quanto em nível grupal.
Pode-se concluir com o presente artigo, que o
Comportamento Organizacional de modo

REFERÊNCIAS
[1]. BERG, Ernesto Artur. Administração de Organizacional. – Trabalho revisado: Manual de
conflitos: abordagens práticas para o dia a dia. Psicologia Industrial e Organizacional. Revisão:
1ed. Curitiba: Juruá, 2012. Tove Helland Hammer, John Anderson, Michael
Gurdon, Todd Jick, Andre Petit, Robert Stern,
[2]. BURBRIDGE, R. Marc; BURBRIDGE,
Howard Schwartz, Yoav Vardi – Ciência
Anna. Gestão de Conflitos: desafios do mundo
Administrativa Trimestral – Vol. 22, No. 1 (Mar.,
corporativo. São Paulo: Saraiva, 2012.
1977), pp. 151-170.
[3]. CHIAVENATO, Idalberto. Gestão de
[8]. LEE, C., LAW, K. S. & BOBKO, P. (1999).
pessoas: e o novo papel dos recursos humanos na
The importance of justice perceptions on pay
organização. 2ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2004.
effectiveness: a two-year study of a skill-based pay
[4]. CHIAVENATO, Idalberto. Comportamento plan. Journal of Management, 25(6), 851-873.
Organizacional: A dinâmica de sucesso das
[9]. ROBBINS, Stephen P. Comportamento
organizações. São Paulo: Elsevier, 2005.
Organizacional. São Paulo: Pearson Prentice Hall,
[5]. CHIAVENATO, Idalberto. Gestão de 2006.
Pessoas. São Paulo: Elsevier, 2010.
[10]. TIPOS DE CONFLITOS – Disponível em:
[6]. DAVIS, Keith & NEWSTRON, Jhon W. http://www.duomoeducacao.com.br/Perguntas-
Comportamento Humano no Trabalho. São Paulo: Frequentes/quais-tipos-de-conflitos-podem-surgir-
Pioneira, 1992. no-ambiente-de-trabalho.html Acesso em: Março,
2017.
[7]. DUNNETTE, Marvin D. ARTIGO DE
JORNAL Revisão: Manual de Psicologia Industrial e

Tópicos em Administração - Volume 3


132

Capítulo 13

Raquel Antônia Sabadin Schmidt

Resumo: O presente estudo tem por objetivo identificar de forma prática e ágil,
quais são as ferramentas de estratégias da gestão mais utilizadas nas pequenas e
médias empresas importadoras, localizadas no município de Dionísio Cerqueira-
SC. Adotou-se como procedimentos metodológicos a pesquisa bibliográfica e a
realização de entrevistas para coleta de dados “in loco” e em alguns casos envio
de e-mail do questionário aos colaboradores e gestores das empresas
importadoras. Considerando as dificuldades e barreiras impostas pelo mercado
altamente competitivo, buscamos através do diagnóstico apresentado neste artigo,
facilitar ao gestor a identificação das deficiências voltadas à gestão. Nesse
contexto de incertezas voltadas ao comércio exterior, no segmento de importação,
a pesquisa revela que as estratégias de gestão, representadas pelas ferramentas
de gestão gerencial oferecem as empresas a oportunidade de segurança no
processo decisório e a possibilidade de crescimento.

Palavras-Chave: Estratégia, Gestão, ferramentas de gestão, importação, decisão.

Tópicos em Administração - Volume 3


133

1 INTRODUÇÃO as suas deficiências com relação às


estratégias de gestão. Através de uma
A globalização provoca cada vez mais entre
pesquisa exploratória, estaremos validando as
as pequenas e médias empresas uma
informações. Os objetivos específicos do
acirrada competição, já é de conhecimento
estudo são: (a) caracterizar os critérios de
geral dos consumidores e gestores (SHANK &
enquadramento das pequenas e médias
GOVINDARAJAN, 1997), isso ocorre na
empresas; (b) identificar as principais
maioria das atividades, e não é diferente na
dificuldades na gestão sob enfoque da gestão
atividade de importação, a busca incessante
contábil gerencial; (c) identificar as práticas
pela eficácia e eficiência na gestão, com
de gestão utilizadas; (d) identificar o perfil das
vistas à continuidade do negócio e
empresas e dos respondentes da pesquisa; e,
maximização dos resultados, em que pese à
(e) analisar os benefícios práticos através da
globalização impacta os negócios no
aplicabilidade do diagnóstico sintético de
mercado interno e externo, tanto quanto
algumas das ferramentas de gestão.
proporciona oportunidades e ameaças
(ANTHONY E GOVINDARAJAN, 2008). Este estudo contribui para a gestão das
empresas importadoras de pequeno e médio
Nesse contexto as estratégias de gestão são
porte, ramo de negócio ainda carente de
necessárias e a partir delas podemos definir
informações e maiores investigações
as diretrizes a serem seguidas, partindo deste
empíricas, com a pretensão de contribuir para
prisma queremos descobrir se as ameaças
com a comunidade científica, e servir de certa
(deficiências) podem estar sendo motivadas
forma de ferramenta de suporte a gestão das
pelo desconhecimento das ferramentas de
pequenas e médias empresas de forma tornar
gestão, ou até mesmo pelo incorreto uso da
conhecido os artefatos gerenciais, conhecer o
informação contábil - má gestão contábil,
que inibe e causa instabilidade na gestão.
corrobora com este entendimento
Além dessa introdução compõem o texto
Longenecker, Moore e Petty (1997, p.515)
outras quatro partes: na seção dois o
considerando que “[...] os administradores
referencial teórico, (ii) na seção três a
precisam ter informações precisas,
metodologia; (iii) na quarta seção resultados e
significativas e oportunas, se quiserem tomar
discussão dos achados da pesquisa e (iv) as
boas decisões”.
conclusões. Por fim, nas referências são
A gestão das empresas importadoras de listadas as obras utilizadas no
pequeno e médio porte necessitam ser desenvolvimento e fundamentação do
alimentadas de informações das mais referencial teórico da pesquisa.
variadas, à busca incessante por ferramentas
de controle de gestão, exige que todas as
informações estejam aliadas no intuito de 2 REFERENCIAL TEÓRICO
diagnosticar os pontos deficientes na gestão
2.1 COMÉRCIO EXTERIOR E IMPORTAÇÕES
contábil, o equilíbrio de informação e o correto
NO BRASIL
uso, servem de base de sustentação para
definir as estratégias de gestão. O comércio exterior pode ser entendido pelo
conjunto das compras e vendas de bens e
As análises dos achados das pesquisas
serviços de todos os tipos entre os diferentes
evidenciam a ausência de estudos nas
países, bem como tudo o que estiver ligado à
pequenas e médias empresas importadoras
sua execução, incluindo transporte e
na atividade de importação, considerando a
financiamento. (RATTI, 2000). Nesse norte
sua relevância econômica no mercado atual,
podemos afirmar que comércio exterior se
motivados diante disso, propõe-se o problema
traduz pelas operações de compra e venda
de pesquisa que norteia este estudo: Quais as
de bens e serviços, entre comprador e
ferramentas de gestão, com enfoque contábil
vendedor, localizados em diferentes pontos
gerencial, são mais utilizadas nas empresas
do planeta valendo-se da prática de
de pequeno e médio porte que atuam na
importação e exportação. No tocante à
atividade de importação, localizadas no
importação segundo Lopez e Gama (2013, p.
município de Dionísio Cerqueira- SC? Objetivo
303) conceituam à importação como sendo:
geral consiste em identificar de forma prática
“[...] a entrada de produtos vindos de outros
e ágil através do diagnóstico sintético: quais
países, e perante a legislação brasileira a
as ferramentas de gestão, sob prisma contábil
importação se concretiza quando se configura
gerencial, são mais utilizadas nas pequenas e
o desembaraço aduaneiro”. As exportações
médias empresas importadoras, e conhecer
são as vendas de bens e serviços para

Tópicos em Administração - Volume 3


134

pessoa física ou jurídica, residentes ou o principal país de origem dos produtos


domiciliados em outros países distintos do importados é a China com uma participação
Brasil. nas importações brasileiras de 17,28% em
2016 e em Santa Catarina 32,78% no período
O comércio exterior brasileiro segundo os
de janeiro a abril de 2017. A balança
últimos dados oficiais publicados pelo
comercial brasileira teve um superávit em
Ministério da Indústria, Comércio Exterior e
2016, considerando que as exportações
Serviços- MDIC (2017) nos dão por conta as
foram superiores as importações, em que
seguintes estatísticas: (i) as importações por
pese quando analisada o registro na série
categoria econômica o produto de maior
histórica de dados é o maior já registrado, o
representativa é o de bens intermediários
contrário ocorreu em 2016 em Santa Catarina
representando 59,65% no Brasil e em Santa
em que tivemos um déficit, tendo em vista que
Catarina 53,68%, já com relação ao
as importações foram superiores as
(ii)principal produto importado no Brasil são
exportações.
os manufaturados representando 85,20%; (iii)

Gráfico 1- Importações – Brasil: Evolução das importações em US$ bilhões

Fonte: MDIC e *Estimativa Mercados & Estratégias

Segundo as estimativas da Mercados & O gestor quando define para sua empresa as
Capitais para o ano de 2016 ficaram um estratégias, necessita definir algumas
pouco a baixo dos dados oficiais do MDIC, competências centrais e suas respectivas
divulgou que as importações em 2016 oportunidades no mercado de negócio
chegaram num patamar de 137,5 bilhões atuante, tendo presente os riscos,
(MDIC, 2016), ainda registrando queda desde deficiências, oportunidades e ameaças; ainda
2013. que por vezes tais definições acerca das
estratégias divergem, há que se ter uma
concordância de que a estratégia norteia a
2.2 ESTRATÉGIAS DE GESTÃO direção e os planos para atingir as metas.
(ANTHONY E GOVINDARAJAN, 2008).
No Brasil, no tocante as práticas de gestão
Segundo Oliveira (1991, p. 27) “[...] numa
adotadas pelas empresas importadoras, não
empresa, a estratégia está relacionada à arte
encontramos informações tanto por parte do
de utilizar adequadamente os recursos físicos,
MDIC, tanto quanto, pelo Instituto Brasileiro de
financeiros e humanos, tendo em vista a
Geografia e Estatística – IBGE e nem pelo
minimização dos problemas e a maximização
SEBRAE.
das oportunidades do ambiente da empresa”.
Segundo Oliveira, Grzybovski e Sette (2010),
Segundo o autor Fernandes et al. (2016) relata
foi no ano de 1962 que começaram as
em seu artigo que o pensar estrategicamente
análises do tema estratégia partindo dos
passou a ser considerado a nova
estudos de Chandler, a estratégia está
competência organizacional, ao passo que as
relacionada com a definição dos objetivos
empresas cada vez mais têm investido na
organizacionais, bem como da adoção de
busca de resultados, motivados por diversos
ações, e tem como ponto de maior relevância
fatores externos e internos a elas, em um
a alocação dos recursos da organização que
revigorar constante em busca do seu
são limitados.

Tópicos em Administração - Volume 3


135

fortalecimento; afirma ainda que o processo (Balanced Scorecard), ABC (Activity Based
estratégico possibilita ao gestor tomar Costing) e custeio meta, corroborando com
decisões e se antecipar às mudanças que este entendimento Soutes e Guerreiro (2007
afetam a organização, em que pese é o ponto apud TEIXEIRA et al., 2011) evidenciam como
de partida para uma organização estruturada ferramentas modernas: ABC, custeio meta,
alcançar seus objetivos, por meio da benchmarking, kaizen, just-in-time (JIT),
elaboração de estratégias diferenciadas que gestão baseada em valor (VBM), teoria das
venham a agregar valor nas ações restrições, planejamento estratégico, ABM,
desenvolvidas; todavia não há modelos GECON (Gestão Econômica), EVA- Economic
prontos do processo estratégico, contudo ao Value Added (valor econômico adicionado),
ser elaborado, deve-se adequar às simulação e BSC- Balance Scorecard. Por
características da organização com outro lado temos as ferramentas gerenciais
flexibilidade para readequações de novas tradicionais, que segundo Sulaiman et al.
estratégias. (2004 apud TEIXEIRA et al., 2011)
classificadas as ferramentas como: análise de
Concordamos com a visão do autor, de fato
custo/volume/lucro e custeio-padrão, retorno
não existem modelos de processos
sobre os investimentos e orçamentos; nesse
estratégicos para gestão prontos, e salvo
mesmo contexto os autores Soutes e
melhor juízo, o importante mesmo é a
Guerreiro (2007 apud TEIXEIRA et al., 2011)
identificação da relevância de cada estratégia
consideram como artefatos tradicionais:
de gestão, representada por suas ferramentas
custeio por absorção, variável e padrão, o
de gestão aplicadas a cada empresa,
preço de transferência, moeda constante,
considerando as variáveis que cada empresa
valor presente, retorno sobre investimento,
está inserida.
bem como orçamento descentralizado.
Outras ferramentas de gestão também são
2.3 FERRAMENTAS PARA A PRÁTICA DA aplicadas a partir da tradução das
GESTÃO informações contábeis representas pelas
demonstrações contábeis trazidas a luz pelas
No tocante as estratégias de gestão que
leis contábeis e respectivas normas e
podem ser utilizadas pelas empresas,
resoluções, controle das finanças,
inexistem um padrão a ser seguido para
suprimentos, entre outras informações
gestão, o que existem são artefatos gerenciais
extraídas com base na gestão contábil.
utilizados como ferramentas gerenciais
segregadas entre artefatos tradicionais e Pressupõe considerar como ponto de partida
modernos. Segundo Soutes (2006, p. 9) a visão estratégica, permite que as empresas
entende-se por artefatos: “atividades, sobrevivam diante dos momentos de crise,
ferramentas, instrumentos, filosofias de posto que alimentadas pela criatividade dos
gestão, filosofias de produção, modelos de gestores ao analisarem as variáveis do
gestão e sistemas que possam ser utilizados ambiente externo e interno da empresa, e
pelos profissionais da Contabilidade gerencial decidirem quais ferramentas gerenciais
no exercício de suas funções”. atendem suas necessidades; confirma-se que
não existem modelos prontos, para qualquer
Nesse norte, temos como ferramentas
tipo de atividade ou negócio, os gestores
gerenciais modernas: gestão baseada em
precisam sim, estar amparados por
ABC- Activity Based Costing (Custeio
ferramentas que lhes permitam ter segurança
Baseado em Atividade), ABM- Activity Based
para tomada de decisões; de toda sorte, é de
Management (Gestão Baseada em Atividade),
extrema relevância respeitar o “modus
contabilidade de ganhos, custeio do ciclo de
operandi” e as características/ perfil da
vida, avaliação contábil com relação ao
administração de cada empresa, levando em
posicionamento competitivo, gestão
consideração os diversos elementos variáveis,
estratégica de custos para cadeia de valor,
que por vezes estão motivados pelos seus
custeio meta e custeio kaizen, com relação ao
valores, crenças, entre outros elementos, os
desempenho medidas qualitativas, BSC –
quais regem os critérios que passarão a
Balanced Scorecard (indicadores
compor as diretrizes da empresa, e assim
balanceados de desempenho). (COAD, 1999
definir um possível modelo de gestão.
apud TEIXEIRA et al., 2011). Segundo
entendimento de Sulaiman et al.(2004 apud
TEIXEIRA et al., 2011) considera como
moderno a gestão da qualidade total, BSC

Tópicos em Administração - Volume 3


136

2.4 CRITÉRIOS DE ENQUADRAMENTO DE pequenas empresas é algo necessariamente


PEQUENAS E MÉDIAS EMPRESAS arbitrário porque adotam padrões diferentes
para propósitos diferentes.”
A importância econômica das pequenas e
médias empresas segundo estatísticas Analisando os critérios demonstrados na
SEBRAE - Serviço de Apoio às Pequenas Figura 1, observamos que de maneira geral
Empresas (2014), os pequenos negócios as empresas utilizam-se dos mesmos
atuando nos setores: industrial, comercial e critérios: faturamento e empregados, porém
de serviços representam em média 52% dos ocorre que os valores e relação de
empregos gerados com carteira assinada, e empregados definidos por elas são na maioria
representam 40% dos salários pagos, e diferentes, para o nosso estudo utilizaremos a
geram 27% do PIB - Produto Interno Bruto. Fonte do MDIC, por ser o órgão que está
diretamente relacionado as atividades de
Atualmente no Brasil as principais instituições
comércio exterior, em valores de faturamento
nacionais de sólida participação econômica e
aplicado ao comércio, considerando que o
social, classificam as pequenas e médias
objeto de estudo são importadoras, e dentre
empresas através dos seguintes critérios: pelo
as empresas pesquisadas todas estão
faturamento, pelo número de empregados,
enquadradas como comércio, apenas
bem como tem algumas empresas que
equiparadas a indústria para fins de
conseguem articular estes dois critérios
tributação do IPI.
combinados; segundo Longenecker, Moore e
Petty (1997, p. 15), afirmam: “Especificar
qualquer padrão de tamanho para definir

Figura 1 – Critérios de enquadramento do porte das empresas

Fonte: Elaboração própria com informações extraídas da Lei Complementar nº. 123/2006 atualizada, BNDES,
MDIC e SEBRAE

Tópicos em Administração - Volume 3


137

2.5 PRINCIPAIS DIFICULDADES com base nos dados quantitativos. (ROESCH,


ENFRENTADAS PELAS PEQUENAS E 2005).
MÉDIAS EMPRESAS
Com relação à pesquisa, inicialmente
Em consonância ao entendimento de partimos pela busca do referencial teórico
Iudícibus e Marion (2000) corroborado com sobre o tema, por meio de pesquisa
Resnik (1990) atribuem a falta de bibliográfica em: artigos correlatos
competência dos gestores como elemento publicados, livros, revistas, dados de
crítico na entidade. Segundo as pesquisas pesquisas realizadas pelo SEBRAE e MDIC e
apontam que a falta de conhecimento técnica demais estudos de teses e dissertações.
na área de gestão, problemas relacionados Segundo Lakatos e Marconi (1999, p.27) a
aos custos contribui decisivamente para pesquisa bibliográfica “é um apanhado geral
sobrevivência das pequenas e médias sobre os principais trabalhos já realizados,
empresas, como comprovam estudos revestidos de importância por serem capazes
estatísticos, e, a taxa de sobrevivência das de fornecer dados atuais e relevantes sobre o
empresas de 2 anos na região Sul é de até tema”.
76% e de mortalidade 24%, as fontes
Considerando o objetivo trata-se de uma
estatísticas ainda ressaltam que o motivo
pesquisa exploratória, pois busca analisar e
alegado pelas empresas que deixaram de
entender através da aplicação de um
funcionar, principalmente são: custos e
diagnóstico sintético os meios de gestão
despesas (juros, impostos e outros), forte
atuais adotados nas pequenas e médias
concorrência, problemas financeiros
empresas importadoras, para fins de
(inadimplência, falta de linha de crédito,
definição das estratégias de gestão, com
capital de giro) e falta de gestão (problemas
base na gestão contábil, de modo a identificar
administrativos e contábeis, incapacidade)
as deficiências de forma ágil e prática.
entre outros, segundo SEBRAE (2016).
A pesquisa foi delimitada as empresas
Neto e Caciatori JR. (2006, p. 3) atentam para:
importadoras do município de Dionísio
“as causas da alta mortalidade das empresas
Cerqueira- SC, com base na relação de
no Brasil estão fortemente relacionadas, em
empresas cadastradas no município que
primeiro lugar, a falhas gerenciais na
atuam no ramo de importação combinado
condução dos negócios, seguida de causas
com algumas informações extraídas do site
econômicas conjunturais e tributação”.
MDIC; a escolha do município está motivada
Elucida Oliveira et al. (2015) que realmente há pelo fato de ser um município de fronteira,
dificuldades claras nas tomadas de decisões, onde a atividade preponderante está
decorrentes da variedade e quantidade de relacionada ao comércio exterior; a pesquisa
papéis, os quais, proprietário e gestor, empírica foi desenvolvida através da
acabam por provocar ineficiências nos aplicação de um questionário combinado com
processos estratégicos e, como um formulário o qual o identificamos como
consequência nos resultados; a falta de diagnóstico sintético, que tem por objetivo
conhecimento e habilidades administrativas, identificar a real situação das empresas
comerciais, financeiras e tecnológicas são a pesquisadas, sob aspecto da situação de
grande razão para o insucesso empresarial. gestão; coleta de dados deu-se por meio de
Concordamos com os autores, as empresas entrevistas “in loco” e envio de questionários
de pequeno e médio porte notoriamente tem por e-mails, os dados foram coletados no mês
grande fragilidade no uso das informações de maio de 2017; por conseguinte, com vista
contábeis quando da tomada de decisões. a mensurar os resultados, após os
questionários respondidos, utilizamos a
metodologia da escala Likert para identificar
3 METODOLOGIA os níveis de indicadores entre outras
variáveis.
A metodologia utilizada nesta investigação
classifica-se em quantitativa considerando
que utilizou-se técnicas estatísticas para
análise e interpretação dos dados, bem como
usufruiu de aspectos quantitativos com vistas
a solidificar os argumentos utilizados
decorrente das análises e relações realizadas

Tópicos em Administração - Volume 3


138

4 RESULTADOS E DISCUSSÃO importadoras cadastradas no município


Dionísio Cerqueira- SC, que corresponde a
4.1 COMPOSIÇÃO DA AMOSTRA DA
100% da nossa amostra, dessas 12 empresas
PESQUISA
responderam à pesquisa, obtivemos os
Após identificado um total de seguintes resultados:
aproximadamente de 45 empresas

Gráfico 2- Composição da amostra da pesquisa

Fonte: Elaboração própria

4.2 PERFIL E CARACTERÍSTICAS DAS definido seguindo a fonte do MDIC; e, (d)


EMPRESAS Tempo de existência/ início das atividades
empresariais: 17% das empresas tem menos
Para identificação do perfil e características
de 2 anos de vida, 25% tem de 2 a 5 anos,
das empresas solicitamos informações
8% responderam que foi de 5 a 7 anos, 17%
específicas, quais sejam: (a) Principal produto
de 7 a 10 anos e 33% a mais de 10 anos, a
importado: considerando em
maioria das empresas pesquisadas está
representatividade de valores, temos 35%
dentro do grupo das sobreviventes, pois se
frutas frescas, 17% artigos de vestuário, 8%
mantém a mais de dois anos no mercado,
batata pré-frita, 8% alho fresco, 7% mochilas
segundo as estatísticas do SEBRAE (2016).
escolares, 7% artigos de bazar, 5% feijão
preto, 4% farinha de trigo, 4% alpiste, 3% Com relação às características dos
azeitona e 2% pasta de alho, considerando os responsáveis por responder a entrevista
resultados podemos afirmar que cerca de temos os seguintes resultados: (a) Cargo
70% dos produtos importados são gêneros ocupado na empresa: 75% atuam como
alimentícios; (b) Regime tributário: 75% utiliza gestores (administrador, diretor, empresário,
o lucro real contra 25% regime presumido sócio e gerente) e 25% atuam como
para apuração dos seus impostos; sob a ótica contadores e assistentes das empresas; (b)
tributária, considerando o resultado do regime Quanto a formação profissional: com nível
tributário mais praticado pelas empresas educacional superior terceiro grau completo
respondentes, presumimos que a maioria das 33% nas áreas de administração, contábeis,
empresas não trabalha com margens de lucro comércio exterior, agronegócios), 33% são
elevadas (75% das respondentes) queremos pós graduados (nas áreas contábeis e
acreditar que as margens de lucros não administração), 25% tem segundo grau
ultrapassam a 8%, salvo melhor juízo, ou completo e aproximadamente 9% tem o
aderiram ao regime tributário que não as ensino fundamental concluso; (c) Tempo de
favorece.(c) Número de empregos diretos: experiência na área de importação: 58% dos
75% das empresas responderam que tem até respondentes que estão atuando na área a
05 empregados, 17% possui de 6 a 30 menos de 3 anos, 17% de 3 a 5 anos de
empregados e 8% possui de 31 a 60 experiência na área, 8% de 5 a 10 anos de
empregados; (d) Receita Bruta Anual: em experiência e 17% dos respondentes tem
33% das empresas a receita bruta anual é de mais de 10 anos de experiência da área de
até US$ 1,5 milhões – de pequeno porte, e comércio exterior.
42% das empresas responderam que é de até
US$ 7 milhões – médio porte e em apenas
25% da empresas importadoras o faturamento
bruto anual está acima de US$ 7 milhões – de
grande porte, o porte das empresas foi

Tópicos em Administração - Volume 3


139

4.3 PRINCIPAIS DIFICULDADES VOLTADAS merecem uma atenção dado ao fato de seus
A GESTÃO indicadores: não tem ou não aplica,
deficiente, razoável, a somatória destes
No segundo bloco de perguntas buscou-se
indicadores ultrapassou a 50%, considerando
saber: (a) As empresas importadoras
que a falta de critérios na concessão do
atribuem algum problema que estejam
crédito, pode levar a empresa a uma situação
enfrentando ou tenham enfrentado à falta de
de dificuldades financeiras, e aumento da
estratégias de gestão dos seus negócios e
necessidade líquida de capital de giro entre
outros fatores relacionados a gestão? Com
outros agravantes, os resultados corroboram
base nas respostas obtidas, podemos
com os achados da pesquisa do SEBRAE
confirmar o que Resnik (1990); Neto e
(2016).
Caciatori JR. (2006); SEBRAE (2016)
evidenciaram em seus estudos e pesquisas, o Com relação ao processo de gestão dos
que se confirma para maioria das empresas, estoques a Curva ABC, é a menos utilizada
também se aplica a atividade de importação pelas empresas, ocorre que esta ferramenta
pois 67% dos respondentes afirmaram que quando aplicada corretamente poderia
sim, 25% afirmaram que não e 8% não substituir ou otimizar algumas ferramentas de
souberam responder se podem atribuir aos controle de estoque; esta ferramenta
problemas enfrentados aos fatores considera a importância dos materiais
relacionados a gestão. (b) Após apresentação baseadas em quantidade e valores, e como a
do Diagnóstico sintético informativo de maioria das empresas não utiliza, poderá ter
algumas das ferramentas de gestão, as dificuldades relacionadas: à administração
perguntamos aos respondentes da pesquisa, do estoque, definição de política de vendas e
se consideram que ele pode ser usado como compras, giro do estoque, grau de
uma ferramenta de gestão pelas pequenas e representatividade no faturamento, nível de
médias empresas importadoras, a fim de lucratividade.
identificar as suas deficiências, e definir as
No tocante aos resultados do processo de
estratégias de controle das deficiências, bem
gestão de Custos, Despesas, Ponto de
como tornar conhecida as demais
Equilíbrio e Preço de Venda, com bases nos
ferramentas de gestão para sua
resultados, consideramos que existem em
aplicabilidade na gestão. Na percepção de
aproximadamente 30% das empresas
100% dos respondentes afirmam que sim, o
pesquisadas, evidências de dificuldades
diagnóstico sintético das ferramentas de
relacionadas à ausência do cálculo do ponto
gestão (Figura 2) pode ser considerado para
de equilíbrio, para estas empresas haverá
fins de identificação das deficiências
dificuldade para obter respostas para
relacionadas as ferramentas de gestão
seguintes informações: A partir de qual
contábil gerencial.
momento terão lucros? Quanto precisam
vender para obter lucro? Contudo, se não
tem estas informações poderá haver
4.4 ANÁLISE DAS FERRAMENTAS
incertezas quando a meta for - lucro; ao
UTILIZADAS NA PRÁTICA DA GESTÃO
fazermos analogia ao que Anthony e
PELAS EMPRESAS PESQUISADAS COM
Govindarajan (2008) nos ensinam: as
BASE NA APLICAÇÃO DO DIAGNÓSTICO
estratégias norteiam a direção dos planos
SINTÉTICO INFORMATIVO DE ALGUMAS
para atingir a meta.
DAS FERRAMENTAS DE GESTÃO
Considerando os resultados das Outras
Com relação aos resultados obtidos pelo
Ferramentas Utilizadas no Processo de
diagnóstico sintético (Figura 2), separamos
Gestão, considerando os artefatos modernos
por processos de gestão, onde os
de gestão, dentre eles os voltados à
respondentes deviam assinalar uma das
mensuração de resultados das empresas tais
opções de indicadores de resultados aplicada
como: Balanced Scorecard, EVA,
na empresa: não tem ou não aplica,
Benchmarking; outra ferramenta que tivemos
deficiente, razoável, bom e ótimo; com base
altos resultados da não aplicabilidade é a
no total de empresas respondentes e na
gestão estratégica de custos por cadeia de
somatória das respostas calculamos a
valor que conceitualmente sugere controle
representatividade para o total da amostra-
que definirá a sustentabilidade da empresa
empresas que se propuseram a responder.
em um ambiente altamente competitivo;
Analisando os principais resultados no também é pouco utilizada, ou não se aplica
processo de gestão financeira, os quais nas empresas segundo resultados obtidos à

Tópicos em Administração - Volume 3


140

análise swot, que ao nosso entendimento vivenciada na empresa. Os percentuais


possibilitaria as empresas diagnoticar de apresentados na figura referem-se aos
forma estratégica o meio ao qual estão resultados da pesquisa.
inseridas e obter algumas vantagens
O respectivo diagnóstico sintético possibilita
competitivas no mercado, com base nos
as empresas identificar seus limitadores –
pontos fracos, fortes, ameaças e fraquezas e
deficiências e a partir deles desenvolver suas
oportunidades.
diretrizes ou metas para acompanhá-los, bem
4.5 APRESENTAÇÃO E ALGUNS DOS como redefinir um modelo de gestão,
BENEFÍCIOS PRÁTICOS ATRAVÉS DA estratégias para cada empresa de acordo
APLICABILIDADE DO DIAGNÓSTICO com sua atividade, respeitando suas
SINTÉTICO DE ALGUMAS DAS particularidades seu “modus operandi”.
FERRAMENTAS DE GESTÃO Ressaltamos que o diagnóstico apenas torna
conhecida as deficiências voltadas aos
Apresenta-se na Figura 2 o diagnóstico
artefatos gerenciais cabe ao gestor tomar a
desenvolvido para as empresas, o modo de
decisão de controlar ou não, a decisão de se
usar é assinalando uma das colunas dos
fazer algo é que fará toda a diferença.
indicadores de resultado para cada item e
processo (Não tem ou não aplica, deficiente,
razoável, bom ou ótimo), conforme a situação

Figura 2 – Apresentação do diagnóstico sintético informativo de algumas das ferramentas de gestão


– com os resultados obtidos na pesquisa com as empresas importadoras de Dionísio Cerqueira- SC

Fonte: Elaboração própria

Tópicos em Administração - Volume 3


141

5 CONSIDERAÇÕES FINAIS com base na correção das deficiências


podemos alcançar melhores resultados.
Os estudos, resultados da pesquisa através
de questionário combinado com as pesquisas Uma das principais contribuições do artigo é
bibliográficas nos permitiram concluir, que os disseminar a informação e apresentar algo
artefatos gerenciais modernos são bem que permita de certa forma facilitar à
menos utilizados do que os tradicionais, o que identificação de algumas deficiências
nos remete a crer que existem algumas voltadas a gestão, com base nos resultados
limitações relacionadas aos artefatos da pesquisa, vimos oportunidade para futuras
modernos, que possibilita uma lacuna de pesquisas e trabalhos, considerando que
estudo futuro; as empresas importadoras, em pode ser aplicado este estudo em outros
que pese algumas delas são do mesmo porte, municípios para saber se o resultado se
não utilizam as mesmas ferramentas de repete em outras regiões, se existe alguma
gestão, o que confirma o referencial teórico variável ou particularidade que deve ser
onde segundo Fernandes et al. (2016) não há considerada em uma determinada região,
modelos prontos do processo estratégico de bem como com o enfoque para grandes
gestão. O estudo também nos permitiu empresas importadoras.
identificar quais são as ferramentas de gestão
O conhecimento nos remete a uma busca
mais utilizadas pelas empresas importadoras
constante, onde o limite é a nossa força de
de Dionísio Cerqueira SC, o perfil das
vontade, e o preço a ser pago, é com a
empresas e dos respondentes, confirmar que
moeda do tempo despendido, e na ânsia de
em dado momento a falta de gestão está
cada dia poder construir um legado de
relacionada a algum tipo de problema que
contribuição científica, que ofereça a
empresa tenha enfrentado ou está
possibilidade de algo melhor e desperte o
enfrentando, bem como confirmar que através
interesse de pensar, é gratificante; e, esse é
do diagnóstico aplicado (Figura 2) pode ser
nosso papel, servir, servir os gestores de
evidenciado algumas deficiências na empresa
informações, cabendo a eles a principal tarefa
que podem ser trabalhadas para melhorar o
- da decisão, à decisão que pode decidir o
desempenho, que segundo nossos estudos
futuro de suas empresas.

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dissertações e estudos de caso. São Paulo: Atlas, e Contabilidade da USP, São Paulo- SP, 2006,
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Tópicos em Administração - Volume 3


143

Capítulo 14

Lucila Naiza Soares Novaes


Sonia Regina Amorim Soares de Alcântara
Thays Lyanny da Cunha Garcia da Rocha

Resumo: Com a competitividade crescente torna-se necessário que as empresas


busquem melhorar a qualidade de suas ofertas agregando-lhes valor. Nessa busca,
a inovação é um dos caminhos a ser seguido para encantar o cliente e se
diferenciar no mercado. Assim, a pesquisa está centrada no seguinte
questionamento: como a inovação em serviço pode maximizar o resultado dos
projetos de arquitetura? O objetivo geral é mapear impactos da inovação em
serviços no desempenho dos projetos de arquitetura. O estudo justifica-se por
buscar conhecer o impacto da inovação no ambiente da Arquitetura, inserida na
importante cadeia produtiva da Indústria da Construção Civil, e com base neste
conhecimento favorecer práticas direcionadas a uma melhor gestão de recursos e
benefícios para a sociedade, consumidora final destes serviços. A Metodologia
utilizada consiste em pesquisa de campo, descritiva, com abordagem qualitativa
em uma amostra de empresas do Ceará filiadas ao Programa de Inovação da
Indústria da Construção Civil (INOVACON) e à Associação Brasileira dos Escritórios
de Arquitetura Regional Ceará (AsBEA-CE). A coleta de dados deu-se através de
entrevista com profissionais representantes das empresas filiadas às respectivas
instituições e da universidade, contemplando as visões executiva e acadêmica.
Constatou-se que as inovações em serviços são complexas e acontecem nos
últimos 20 anos em grande escala no âmbito da adoção de softwares, com
destaque para a plataforma BIM (Building Information Modeling). Como resultado
das inovações no processo de projeto tem-se projetos mais assertivos, criativos e
focados nas necessidades dos clientes, execução facilitada, redução de custo e de
tempo de execução.

Palavras chave: Inovação, Setor de Serviço, Projeto de Arquitetura.

Tópicos em Administração - Volume 3


144

1 INTRODUÇÃO O estudo justifica-se porque permite conhecer


o impacto da inovação no ambiente da
O setor de serviços por ser dinâmico e
Arquitetura, e com base neste conhecimento
possuir destacada importância para a
favorecer práticas direcionadas a uma melhor
economia e o desenvolvimento do país,
gestão de recursos e benefícios para a
permite que em sua essência exista inovação
sociedade, consumidora final destes serviços.
que, neste segmento, pode ser apoiada e
desenvolvida em parceria com o consumidor A Metodologia utilizada consiste em uma
final, o cliente. Autores como Schumpeter pesquisa de campo, descritiva, com
(1957), Freeman (1987, 1994) e Tidd (2001) abordagem qualitativa em uma amostra de
destacam a importância da inovação para o empresas do Ceará filiadas ao Programa de
desenvolvimento das empresas. Em Inovação da Indústria da Construção Civil
consonância Vargas, Bohrer, Ferreira e (INOVACON), núcleo existente no Sindicato
Moreira (2013, p. 3), refletem sobre esta das Construtoras do Ceará (SINDUSCON-CE)
situação no Brasil, afirmando que hoje o setor e à Associação Brasileira dos Escritórios de
já responde por mais de dois terços do Arquitetura regional Ceará (AsBEA-CE). A
Produto Interno Bruto e questionam a coleta de dados deu-se através de entrevista
capacidade do setor de serviços de com profissionais representantes das
“contribuir para longos períodos de empresas das respectivas instituições e da
desenvolvimento econômico sustentável que Universidade Federal do Ceará -UFC,
permita a inserção e consolidação brasileira contemplando as visões executiva e
no rol das principais economias do mundo”. acadêmica.
Além disso, com a competitividade crescente Por fim, a análise de dados foi baseada na
as empresas buscam melhorar a qualidade análise de conteúdo. A pesquisa contou com
de suas ofertas agregando valor a elas. A as seguintes etapas: levantamento de
inovação é opção a ser seguida por empresas referencial teórico, definição da metodologia,
para reter o cliente e se diferenciar no análise de dados e considerações finais.
mercado. Nesse contexto, o tema da inovação
significa algo novo, conforme discutido por
diversos autores. (TIDD; BESSANT; PAVITT, 2 O PROCESSO DE INOVAÇÃO E O
2001). CONTEXTO DA INOVAÇÃO EM SERVIÇOS
No âmbito da prestação de serviços em Diante de um cenário mundial de
projetos de arquitetura, por estes serem os competitividade e busca por diferenciais, a
responsáveis pelos insumos mais estratégicos inovação torna-se necessária para que as
no resultado do processo de projeto, empresas alavanquem seus resultados e
considera-se o processo de inovação mantenham-se no mercado (TIDD, 2001).
essencial para atingir seu objetivo, que é Além de proporcionar estímulo ao
valorizar, otimizar e atender as necessidades desenvolvimento e oportunidades de
do cliente (CARVALHO, 2003). Portanto, esta ampliação da eficácia organizacional TIDD;
pesquisa pretende responder à seguinte BESSANT; PAVITT, 2001).
questão: Como a inovação em serviço pode
Um conceito mais contemporâneo de
maximizar o resultado dos projetos de
inovação, pode ser o da Organização para a
arquitetura?
Cooperação do Desenvolvimento Econômico
Em decorrência, o objetivo geral é mapear (OCDE) (2005, p. 55), que considera uma
impactos da inovação no desempenho dos inovação “a implementação de um produto
projetos de arquitetura. Especificamente, (bem ou serviço) novo ou significativamente
busca-se: melhorado, ou um processo, ou um novo
método de marketing, ou um novo método
Diferenciar o processo de inovação em
organizacional nas práticas de negócios, na
produtos do processo de inovação em
organização do local de trabalho ou nas
serviços;
relações externas”.
Levantar a ocorrência e a frequência de
Para chegar ao conceito acima, muitos
inovação no serviço de projeto de arquitetura;
estudos já foram implementados. Destaca-se
Identificar os impactos das inovações no que um dos maiores precursores no que
processo de projeto de arquitetura. tange a inovação relacionada aos negócios foi
Schumpeter. Buscando investigar o que
garantia o desenvolvimento dos negócios, o

Tópicos em Administração - Volume 3


145

autor identificou que a inovação possuía organizacional. E a de cunho tecno-


grande impacto. Em sua obra “The Theory of econômico surge da combinação de
Economic Devefopment”, Schumpeter (1957), inovações tecnicamente factíveis, afetando
destaca que a inovação pode ocorrer de fortemente a estrutura da economia e as
diferentes formas: através da inserção de um formas de produção. (FREEMAN, 1987).
novo bem ou qualidade de bem, de um novo
De acordo com Tidd, Bessant e Pavitt (2001),
meio de produção ainda não testado, que não
o processo de inovação está associado à
necessita ser baseado numa descoberta
renovação e evolução do negócio,
científica nova, a abertura de um novo
independentemente do porte da empresa.
mercado, no qual o ramo de atuação do
Nas grandes empresas este processo se dá
produto ainda não tenha entrado, o alcance
por meio de áreas de pesquisa e
de novas fontes de matérias-primas, a fixação
desenvolvimento, e nas menores empresas,
de uma nova organização, como exemplo, um
pelas soluções embasadas em experiências
monopólio.
práticas de resolução de problemas.
Conforme Abernathy e Clark (1985) esse
Acerca da inovação em serviços, é
processo promove diferentes impactos na
necessário primeiramente caracterizá-los.
produção, tecnologia e mercado. Portanto,
Silva e Meireles (2008, p. 134) afirmam sobre
desenvolveram o conceito de transiliência,
o conceito de serviços que “é
que consiste em como a inovação pode afetar
fundamentalmente diferente de um bem ou de
a competitividade conforme afeta
um produto. Serviço é trabalho em processo,
conhecimentos, recursos e habilidades já
e não o resultado da ação do trabalho; por
existentes nas organizações, com impactos
esta razão elementar, não se produz um
diferentes na forma de produção e
serviço, e sim se presta um serviço”. Portanto,
tecnologias.
reafirma-se a diferenciação no processo de
Sobre os tipos de inovação, Tushman e inovação em produto e em serviço, ante aos
Nadler (1986), reconhecem haver diferenças diferentes focos de cada um destes setores.
entre a inovação em produtos e a inovação
No que tange a literatura científica sobre
em serviços. A de produtos ocorre quando há
inovação em serviços os estudos nessa área
a fabricação de algo novo ou de processos,
ainda são tímidos se comparados aos
quando ocorre alguma alteração na maneira
relacionados a produtos físicos, apesar do
em que um produto é fabricado. A inovação
setor continuar em expansão. Conforme
em serviço ocorre na forma como um serviço
pesquisa realizada pela Confederação
é oferecido ou executado.
Nacional de Serviços (CNS, 2014), o maior
Freeman (1987) em sua concepção acerca da índice de geração de empregos no Brasil é do
inovação, a divide em incremental, radical, de setor de serviço.
mudanças do sistema tecnológico e de
Kon (2009. p. 298), corrobora a percepção
mudanças no paradigma tecno-econômico
das autoras e afirma que as inovações e
(revolução tecnológica). Na inovação
mudanças nos setores produtivos e
incremental podem ocorrer variações de
organizacionais acabaram por “acrescentar
intensidade constante seja no ramo de
às atividades de serviços uma relevância
serviços ou indústria e geralmente surgem de
crescente, não apenas como
programas de pesquisa e desenvolvimento e
complementação das demais atividades
como resultado de melhorias sugeridas por
produtivas, mas também como indutora do
profissionais ou usuários. A inovação pode ser
desenvolvimento econômico”.
resultado de uma solução criativa de um
colaborador, uma nova forma de atender o Referente ao processo inovação em serviços,
cliente, uma alternativa de determinada etapa autores como Gallouj e Weinstein (1997),
do processo produtivo ou a modificação de Sundbo e Gallouj (1998) e Gallouj e Savona
um insumo para o novo produto. (2009) definem que as modificações
presentes nesse processo podem ser de
A inovação radical ocorre de forma
diferentes tipos:
descontínua e provém dos resultados de
pesquisa e desenvolvimento. A inovação Melhoria – Inovação que aprimora o serviço e
através de mudanças do sistema tecnológico não altera a estrutura do sistema agregando
alcança diversos setores da economia e valor das características finais, seja por
resulta do cruzamento entre a inovação competência ou caraterística técnica;
radical e incremental, juntamente com a

Tópicos em Administração - Volume 3


146

Incremental – Altera a estrutura do sistema 3 O PROCESSO DE PROJETO DE


através da inserção de novos aspectos ARQUITETURA: A GERAÇÃO DE VALOR E A
técnicos ou substituindo elementos anteriores, INOVAÇÃO
podendo envolver melhorias de
Conhecer o processo de projeto de
características finais e otimização de custos,
arquitetura e sua cadeia de valor é
não alterando a estrutural geral do sistema.
fundamental para se investigar como inovar
Recombinadora / Arquitetural – Inovação que nessa área e agregar valor a esse serviço. A
expande as possibilidades a partir de novas identificação da cadeia de valor remete aos
combinações de aspectos finais e técnicas; estudos de Porter (1985), que propõe um
modelo acerca de como uma atividade de
Formalizadora – Ordenação de aspectos do
negócio recebe insumos (matéria prima),
serviço a fim de especificá-lo e concretizá-lo,
agrega valor a ela e entrega valor aos clientes
dando-lhe uma forma;
na versão final do produto.
Ad hoc – Baseada na solução de problemas
Dessa forma, é necessário olhar para o
previamente definidos por demandas de
processo de projetos arquitetônicos, para
clientes, utilizando informações para formular
identificar a sua cadeia de valor. Conforme
novas soluções e conhecimentos.
Andrade, Ruschel e Moreira (2011), existem
Desde Gallouj e Weinstein (1997) foram diversas formas de descrever o processo de
propostos modelos de inovação em serviço. projeto de arquitetura, porém pelas suas
Inicialmente abordando elementos de características, as definições são por vezes,
competência dos clientes, competência do inconclusivas, decorrente do fato deste tipo
prestador de serviço, tecnologia do prestador de projeto envolver criatividade como
de serviço e o serviço final. Outros modelos principal componente e pela complexidade e
foram aprimorados posteriormente com base diversidade no processo, influenciada por
no modelo de Gallouj e Weinstein (1997), são aspectos como a natureza do projeto, as
eles o modelo de Den Hertog, (2000), que necessidades dos clientes, o perfil do
consiste do alinhamento e interferência da projetista, dentre outros fatores.
comunicação nas relações de coprodução
O processo de projeto envolve uma
entre o cliente e o prestador do serviço; o
sequência de atividades e habilidades para
modelo geral de De Vries (2006), adaptado
análise, síntese de informações e problemas,
com relação à adequação aos moldes de
criatividade e avaliação para a busca de
inovação em rede adotados pela sociedade; o
soluções adequadas para os problemas
modelo geral ampliado de Klement (2007), em
identificados e propostos para um projeto
que a inovação é classificada conforme as
arquitetônico (FABRÍCIO, 2002).
modificações nas características finais dos
serviços; e o modelo das seis dimensões de Segundo Liu, Oliveira e Melhado (2011), a
Den Hertog et. al. (2010) que apresenta criação do projeto de arquitetura é uma
dimensões de novo conceito de serviço, nova atividade complexa, executada pelos
interação com o cliente, novo sistema de seguintes agentes: arquitetos e demais
valores/parceiros de negócios, novo modelo projetistas que traduzem as necessidades
de receita, o novo sistema organizacional ou dos empreendedores em documentos,
tecnológico de prestação de serviços. empreendedores que viabilizam a execução
do projeto, construtores que constroem o que
Em suma, cada modelo apresenta melhorias
foi projetado, usuários que utilizam o serviço
na explicação do processo de inovação em
final, dentre outros intercessores.
serviços, apresentando ainda sim limitações
devido ao ambiente macro e complexo da É consenso entre os autores a relevância dos
prestação de serviços e do mercado. projetos no processo construtivo, e
Conforme revisão de literatura feita por Morrar notadamente o projeto de arquitetura por ser
(2014), a inovação em serviços vem a base de todos os demais projetos e,
adquirindo importante papel no principalmente, por ser estratégico na gestão
desenvolvimento de economias mundiais. do processo. É no projeto arquitetônico onde
Assim, a seguir traz-se uma análise acerca da estão as decisões que influenciam no custo e,
inovação no processo de projeto de ao mesmo tempo, são potencialmente os
arquitetura, um tipo de serviço prestado por maiores responsáveis pela geração de
empresas da área de Arquitetura que geram qualidade nas construções, além de serem os
insumos para o mercado da construção civil. definidores dos espaços que influenciam o
consumidor final (CARVALHO, 2003).

Tópicos em Administração - Volume 3


147

Assim, para obter qualidade na gestão dos processo produtivo da Arquitetura e das
processos que envolvem o projeto de Engenharias” (BRAZ, 2016, p. 3).
arquitetura, destaca-se o início em razão das
Conforme Tzortzopoulus e Formoso (1999),
seguintes etapas: estabelecimento dos
essas mudanças foram necessárias para a
objetivos e parâmetros para o projeto;
melhoria do processo de projeto. Em estudos
definição do escopo, conforme suas
realizados por Dantas Filho (2016), verificou-
especialidades e etapas; planejamento dos
se que mais de 70% do tempo do processo
recursos, prazos das diversas etapas e
de projeto de arquitetura é tempo sem
estabelecimento de cronograma (LIU;
agregação de valor e impactam diretamente
OLIVEIRA; MELHADO, 2011, p. 64).
no tempo total, assim sendo necessário
Ainda no contexto da gestão do processo de mapear e analisar o seu fluxo de valor para
projetos arquitetônicos, conforme Melhado et permitir melhorias do processo. Leite (2014)
al. (2005), este envolve um conjunto de corrobora afirmando, que novas pesquisas
atividades de planejamento, organização, em gerenciamento de projetos têm sido
direção e controle do projeto e atividades desenvolvidas e que estas consideram o
estratégicas, como contratação de equipe contexto atual caracterizado por incertezas,
para assegurar a qualidade do produto final, o alto grau de complexidade e a questão de
projeto. “A gestão do processo do projeto é valor sob o ponto de vista do cliente.
entendida como a administração que começa
Na perspectiva do modelo Lean Desgin, “há a
com uma ideia e finaliza com a produção de
necessidade do aprendizado contínuo ao
uma documentação (o projeto), cujos
longo do processo, o que não ocorre no
parâmetros geram a construção de um
modelo tradicional” (LEITE, 2014, p. 35). O
edifício” (FABRICIO; MELHADO, 2011, p. 64).
modelo BIM - Building Information Modeling,
De acordo com Liu, Oliveira e Melhado (2011, diferentemente do sistema de desenhos CAD
p. 75), ocorre em muitos casos, a falta de -Computer Aided Design, não é apenas uma
integração direta entre a concepção do forma de representação do projeto final após
produto e o detalhamento de sua produção, sua criação, trata-se de uma simulação e
durante o processo de projeto, assim “o utilização de modelagem computacional para
relacionamento entre projetistas e a construção e operação do empreendimento
construtoras muda conforme a complexidade em si (NASCIMENTO et al, 2012). Ou seja,
do empreendimento”. Com relação ao caracteriza-se como uma ferramenta de
histórico de soluções para agregar valor ao desenvolvimento de projetos integrados no
processo do projeto de arquitetura têm-se processo de construção do projeto, é,
alterações que saem de um modelo portanto, uma das principais formas de inovar
tradicional para um de construção enxuta na entrega e agregar valor ao cliente.
(Lean Design), chegando ao estágio atual do
Conforme Abernathy e Clark (1985), para que
BIM (Building Information Modeling ou
a inovação seja eficiente é necessário que
Building Information Model). Segundo
esteja embasada em alguma necessidade do
Anderser et. al. (2013) e Kowaltowski et. al.
cliente, pois não é coerente inovar e ter custos
(2006), o processo denominado sequencial -
sem que seja atrativo e útil. Sendo este um
tradicional é feito linearmente, ou seja,
processo que envolve elementos como
concepção dos arquitetos, concepção do
aquisição e transferência de conhecimento.
projetista, elaboração de projetos
Os estudos de Lawson (2011) indicam que
complementares e execução da obra pelo
para agregar valor através de uma inovação,
construtor criados pela equipe de projeto.
é necessário conhecer as necessidades do
Conforme Braz (2016, p.2-3) “os desenhos cliente, pensar como ele e colocar-se no seu
produzidos anteriormente, à mão, estão sendo lugar, como exemplifica: “... conhecer os
executados também através da utilização do movimentos de nado de peito não impede
computador. Vários softwares são hoje que alguém se afogue na piscina. Cada um
utilizados na criação e desenvolvimento de terá de entender como aquilo funciona por
projetos de arquitetura e urbanismo”. A autora conta própria” (LAWSON, 2011, p.48). Assim,
cita softwares como: AutoCAD e SketchUP, para garantir a sobrevivência, as empresas
ArchiCAD, Revit, Grasshopper, Rinocerus. devem elaborar projetos com soluções
Destaca em especial aqueles ligados a concretas, definir critérios de prioridades,
Modelagem da Informação da Construção - promover ações e iniciativas de
BIM, como uma “plataforma que integra vários desenvolvimento sócio-econômico mediante
softwares, causando uma revolução no formação interdisciplinar e multifacetada, para

Tópicos em Administração - Volume 3


148

uma intervenção prática, funcional e positiva conjunto de técnicas de análise das


na sociedade (NOVAES, 2003). comunicações, que utiliza procedimentos
sistemáticos e objetivos de descrição do
Kowaltowski, Bianchi e Petreche (2011, p. 23),
conteúdo das mensagens”.
afirmam que “com a crescente complexidade
no mundo do projeto, a inovação, ou o
estímulo ao pensamento criativo, deve deixar
5 PESQUISA: DISCUSSÃO E RESULTADOS
de confiar no talento ou no acaso. Para muitos
profissionais, a inovação é a meta principal, As entrevistas foram realizadas com 13
afastando a repetição de ideias”. pessoas, conforme definido nos critérios da
amostra: 06 Engenheiros Civil do INOVACON,
06 Arquitetos da AsBEA-CE, 01 Engenheiro
4 METODOLOGIA Civil, professor/doutor e diretor do Centro de
Tecnologia da UFC. As perguntas foram as
Para configurar a metodologia da pesquisa,
mesmas para todos os participantes da
aqui serão abordados aspectos referentes à
pesquisa, a fim de viabilizar o estudo das
caracterização do um estudo e sua
percepções.
delimitação dentro do campo científico.
Conforme Vergara (2013) pesquisa consiste A análise dos dados está dividida em três
em buscar conhecer o novo através de etapas, conforme os objetivos da pesquisa.
questionamentos e investigações. Portanto, a primeira está relacionada à
diferenciação do processo de inovação em
O estudo caracteriza-se como descritivo e de
produtos do processo de inovação em
abordagem qualitativa, já que se propõe a
serviço. A segunda etapa refere-se a
mapear impactos da inovação em serviços no
ocorrência e a frequência de inovação no
desempenho dos projetos de arquitetura. A
serviço de projeto de arquitetura e a última
pesquisa descritiva define “características de
identifica os impactos das inovações no
determinada população ou de determinado
processo de projeto de arquitetura.
fenômeno” (VERGARA, 2013, p. 42).
A estratégia de pesquisa utilizada foi a
pesquisa de campo, tendo em vista a atuação 5.1 DIFERENCIAÇÃO DO PROCESSO DE
dos pesquisadores em campo junto a amostra INOVAÇÃO EM PRODUTOS DO PROCESSO
escolhida. A técnica de coleta de dados foi DE INOVAÇÃO EM SERVIÇO
entrevista.
A fim de conhecer melhor a visão dos
O instrumento de coleta de dados utilizado foi entrevistados sobre o processo de inovação,
o roteiro de entrevista padronizada, com indagou-se a eles se haveria diferença entre a
dezessete perguntas abertas. O Universo da inovação em produtos e a inovação em
pesquisa é composto por 28 empresas serviços, já que todo o estudo está centrado
filiadas ao Programa de Inovação da Indústria na temática da inovação. Dessa forma, todos
da Construção Civil (INOVACON), núcleo de os entrevistados afirmaram que o processo de
inovação dentro do Sindicato das inovação em produtos é diferente do
Construtoras do Ceará (SINDUSCON-CE), e processo de inovação em serviços no sentido
27 escritórios de arquitetura associados a de que demonstrar o valor da inovação em
Associação Brasileira dos Escritórios de produtos tangíveis é mais compreendido pelo
Arquitetura Regional Ceará (AsBEA-CE). A cliente, enquanto que inovar em serviços é
amostra, por acessibilidade, resultou na gerar um valor a ser percebido, intangível,
entrevista a doze empresas, sendo seis do portanto, mais complexo. Conforme
INOVACON e seis da AsBEA-CE. Além disso, destacado no referencial por Tushman e
foi entrevistado representante do segmento Nadler (1986) a inovação entre produtos e
acadêmico, professor/doutor do Centro de serviços é diferente devido ao processo de
Tecnologia da UFC, permitindo enriquecer a elaboração de ambos. Também Andrade,
análise com a percepção do setor que presta Ruschel e Moreira (2011), reconhecem que o
o serviço e do setor que gera o conhecimento projeto de arquitetura pode variar pela
científico no uso da inovação nos projetos de complexidade e diversidade no processo,
arquitetura. influenciada por aspectos como a natureza do
projeto, as necessidades dos clientes, o perfil
Para o tratamento das informações coletadas,
do projetista, dentre outros fatores,
foi utilizada a análise de conteúdo. Para
confirmando a diferenciação destacada pelos
Bardin (2006, p. 38), consiste em “um
entrevistados.

Tópicos em Administração - Volume 3


149

Sobre como se caracterizam as etapas do informação, aspectos fundamentais para a


processo de inovação no projeto de gestão dos resultados do negócio.
arquitetura os participantes em sua maioria
Conforme citado no referencial, o BIM ter
citaram que a inovação está em todo o
aparecido com mais frequência pode ser
processo do projeto, desde a concepção até
justificado por Nascimento et. al. (2012), que
a finalização, porém, mais especificamente na
o caracteriza como uma das principais formas
concepção pela visão mais presente nas
de inovar na entrega e agregar valor ao
palavras dos entrevistados do INOVACON.
cliente. Corrobora o que foi citado por Braz
Nesse aspecto o professor entrevistado
(2016), de que a forma de desenho do projeto
também afirmou que a inovação pode surgir
manual foi transformada pela utilização de
em todo o processo projetual, sendo mais
softwares, sendo que a plataforma BIM, é o
intensa na concepção, pois é a fase em que
mais revolucionário por integrar o projeto com
são pensadas as principais soluções de todo
vários outros softwares.
o processo. Conforme referenciado por Tidd,
Bessant e Pavitt (2001), o processo de Ainda com relação a ocorrência da inovação
inovação está associado à renovação e no processo de projeto foi questionado aos
evolução do negócio, assim ela pode surgir entrevistados quais as principais barreiras /
em diversas etapas. dificuldades para a implementação da
inovação na atividade do processo de projeto
de arquitetura. Constatou-se que, em sua
5.2 OCORRÊNCIA E FREQUÊNCIA DE maioria, tanto os filiados da AsBEA-CE como
INOVAÇÃO NO SERVIÇO DE PROJETO DE os filiados do INOVACON, apontam a cultura
ARQUITETURA das pessoas de resistência a mudanças e a
falta de mão-de-obra especializada para lidar
Com relação ocorrência da inovação e sua
com a inovação. Os arquitetos revelam ainda
frequência no processo de projeto de
os seguintes aspectos dificultadores da
arquitetura, perguntou-se inicialmente para os
inovação: dificuldade de passar a inovação
entrevistados que inovações já foram
para o cliente e a desvalorização do serviço
utilizadas no processo de projeto de
de projeto de arquitetura.
arquitetura.
A cultura das pessoas / resistência a
Percebe-se que os arquitetos, representados
mudanças é um dos aspectos mais citados
pela AsBEA-CE e engenheiros pelo
por ambas categorias de entrevistados,
INOVACON, citaram mais fortemente
seguida pela dificuldade em passar a
softwares como principais inovações já
inovação para o cliente. Isso pode ser
utilizadas (AUTOCAD, REVIT e SKETCHUP),
relacionado com o que foi afirmado por Liu,
sendo que as inovações por outros meios
Oliveira e Melhado (2011), que em muitos
foram menos citadas, como a utilização da
casos ocorre uma falta de integração direta
maquete fisica e utilização de materiais pré-
entre a concepção do produto e o
fabricados na obra. Ante a indagação sobre
detalhamento de sua produção, fatores que
qual seria a principal inovação ocorrida no
exigem compreensão por parte do arquiteto,
processo de projeto de arquitetura nos últimos
quem fornece o serviço de projeto, e o
20 anos, 100% da AsBEA-CE e do
construtor, quem recebe esse serviço. Assim,
INOVACON, citaram o BIM. O posicionamento
as pessoas são parte fundamental nesse
do professor foi também direcionado para o
processo, o que pode ocasionar resistência
BIM, fundamentado no processo de mudança
por outros fatores com relação à implantação
do desenho do projeto a mão para a evolução
da inovação e adaptação a ela.
dos softwares, passando de um modelo 2D,
que tem somente visualização plana, feito em A resistência das pessoas a inovação também
CAD - Computer Aided Design, para foi evidenciada na análise das desvantagens
dimensão 3D, que é a visualização do plano, com relação a utilização da inovação, ante a
profundidade e altura, feita na modelagem da afirmação da AsBEA-CE de que faltam
informação - BIM. No sistema BIM é possível profissionais capacitados para lidar com os
ainda, a visualização da obra de acordo com softwares. Em sua maioria, INOVACON e
o cronograma, inclusive em estágios futuros AsBEA-CE afirmaram não haver desvantagem
no tempo, permitir inclusão de dados de em adotar inovação em seus processos.
especificações, custos, garantias,
E, quanto a frequência do uso dessa inovação
fornecedores dos elementos do projeto,
nos projetos todos os entrevistados arquitetos
dentre outros, qualificando o acesso à
afirmaram que a inovação está presente em

Tópicos em Administração - Volume 3


150

todos, na totalidade ou parcialmente Também foi indagado aos entrevistados a


implementada, e quatro engenheiros finalidade da utilização da inovação no
concordam com esse posicionamento, sendo processo de projeto. Os entrevistados
que os outros dois afirmam que ela está registraram, em sua maioria, que a inovação
presente em quase todos. no processo de projeto destina-se a agregar
valor ao projeto e a atender às necessidades
dos clientes. Ainda nessa perspectiva, todos
5.3 IMPACTOS DAS INOVAÇÕES NO os participantes da AsBEA-CE afirmaram que
PROCESSO DE PROJETO DE ARQUITETURA. a inovação nos projetos gerou ao final maior
agregação de valor e satisfação do cliente, e
No que tange a impactos no processo de
todos os entrevistados do Sinduscon,
projeto, avaliou-se a visão dos entrevistados
afirmaram perceber essa agregação e
com base no desempenho do projeto,
estarem satisfeitos.
maximização dos resultados, finalidades e
principais melhorias já implementadas a partir Essa discussão sobre a finalidade da
da utilização da inovação. inovação e seus impactos no processo de
projeto pode ser justificada como citado no
Com relação aos aspectos positivos, percebe-
embasamento teórico por Schumpeter (1957),
se pelo menos cinco dos seis entrevistados
Freeman (1987, 1994) e Tidd (2001) de que a
de cada instituição citou a otimização do
inovação é importante para o
tempo, seguido de soluções mais precisas,
desenvolvimento das empresas. Neste
modernas, corretas e que atendem mais
cenário, verifica-se que tanto os fornecedores
normas projetuais. Isso pode ser justificado
do serviço do projeto de arquitetura, como os
pelo posicionamento anterior de terem citado
compradores deste, empresas de construção
o BIM como a principal ferramenta de
civil, percebem que a inovação é para
inovação dos últimos 20 anos. Sobre impactos
agregar valor.
negativos, os arquitetos citaram: Não
conseguir implantar todas as inovações A fim de consolidar as percepções colhidas
desejadas, postura resistente do arquiteto a anteriormente junto aos entrevistados, foi
se adaptar as inovações em ferramentas, questionado aos entrevistados da AsBEA-CE
resistência das pessoas, custos da inovação se os clientes deles conseguiam perceber
e, com relação aos engenheiros, citaram essa inovação e, aos do INOVACON, se eles
ainda os custos da inovação e apenas um conseguiam perceber as inovações geradas
citou a resistência das pessoas. pelos arquitetos nos projetos. Nesse sentido,
constatou-se que apenas quatro arquitetos
Questionou-se também aos entrevistados
afirmaram com certeza de que o cliente
sobre como a inovação pode maximizar o
conseguia perceber a inovação e dois
resultado dos projetos de arquitetura.
afirmaram que não. Na visão dos engenheiros
As percepções dos entrevistados acerca da todos afirmaram que conseguem perceber
inovação como vetor de otimização dos quando os arquitetos inovam e inclusive dois
resultados no projeto destacam: na visão dos deles afirmaram que essas inovações são
arquitetos, estão centradas na utilização de avaliadas em conjunto.
ferramentas/softwares tecnológicos como
E por fim, foi indagado aos participantes quais
forma de melhorar o processo e qualidade do
as principais melhorias já foram
projeto e, na visão dos engenheiros, na
implementadas com relação ao processo de
redução de custos/melhores resultados
projeto de arquitetura. Essas melhorias são:
financeiros. Outras percepções de ambos
profissionais estão relacionadas entre si e AsBEA-CE – Conseguir trazer o desenho
envolvem: melhor informatização do arquitetônico para o computador, através de
projeto/especificações. O posicionamento do ferramentas e softwares e hardwares,
entrevistado da UFC é de que a inovação eliminando perdas de informações; algumas
proporciona maior capacidade para o melhorias foram: ganho qualitativo nas
arquiteto em desenvolver projetos mais decisões do projeto, minimização de perdas e
arrojados, com mais detalhes de conflitos, diminuição de tempo projetual;
apresentação, que facilitam a compreensão utilização de softwares para verificação de
do cliente. Essa percepção também está inconformidades; melhoria dos processos,
citada por ambos profissionais, arquitetos e com controles mais precisos e organização
engenheiros. da equipe de trabalho; os softwares
proporcionam fidelidade ao objeto construído,

Tópicos em Administração - Volume 3


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rapidez, compreensão e qualidade do Acerca da diferenciação do processo de


produto final; os softwares propiciam melhor inovação em produtos do processo de
visualização do projeto, de forma mais precisa inovação em serviços constatou-se que, a
em diversos ângulos do observador. maioria dos entrevistados, têm consciência de
que o processo é distinto, mais difícil no
INOVACON – Qualidade e precisão, e melhor
âmbito dos serviços em face da sua
clareza nas informações; redução de
complexidade, e pode acontecer durante todo
desperdícios e consequente resultado
o processo de projeto, evoluindo com sua
financeiro melhor, possibilidade de
execução.
desenvolver um volume maior de projeto para
as obras; antecipação de problemas, melhor No que tange a ocorrência e a frequência de
visualização do projeto em softwares, inovação no serviço de projeto de arquitetura,
soluções mais adequadas; os softwares nos últimos vinte anos, a maior inovação no
permitem a execução de modelagem e a processo de projeto foi o uso de softwares
redução do tempo de entrega; os softwares para substituir o desenho manual, com maior
propiciam maior integração das informações e versatilidade para a criação e aplicação dos
melhor qualidade no detalhamento do projeto. projetos, e a modelagem de informação da
construção - BIM é atualmente uma
Constata-se que a utilização dos softwares
plataforma que integra softwares tornando-se
permite a melhoria mais citada entre os
a mais recente inovação. Nestes vinte anos, o
entrevistados, a partir da exploração de suas
cenário demonstra grande ocorrência de
variadas funções que proporcionam
inovação no serviço de projeto de arquitetura,
integração e segurança de informações,
o que é corroborado pelos arquitetos e
melhor visualização do projeto, controles mais
engenheiros entrevistados, que afirmaram
precisos, otimização do tempo, redução de
introduzir inovações frequentes em seus
despesas/desperdícios e a qualidade no
projetos. Estes profissionais citaram como
detalhamento do projeto.
principais dificuldades para adotar inovação:
Essa situação pode ser reforçada a partir do cultura de resistência a mudanças,
que foi destacado por Tidd, Bessan e Pavitt dificuldade em demonstrar inovação para o
(2001), de que a inovação, além de cliente e escassez de mão de obra
proporcionar estímulo ao desenvolvimento, qualificada para a aplicação das inovações.
também gera oportunidades de ampliação da
Os impactos da inovação no processo de
eficácia organizacional.
projeto são projetos mais assertivos, criativos
e focados nas necessidades dos clientes,
execução facilitada, redução de custo e de
6 CONCLUSÃO
tempo de execução. E sobre impactos
Conforme descrito no referencial, a inovação negativos, os mais citados foram resistência
é uma das formas de maximizar os resultados das pessoas e custos da inovação.
das organizações e proporcionar um
Acredita-se que os objetivos da pesquisa
diferencial competitivo. Nesse contexto, esta
foram alcançados e que ela pode ser insumo
pesquisa teve como questionamento como a
para elaboração de novos estudos que
inovação em serviço pode maximizar os
venham somar conhecimentos para a gestão
resultados no projeto de arquitetura.
da inovação em serviços e de projetos de
Com relação ao objetivo geral da pesquisa arquitetura, ampliando assim, a comunicação
constatou-se que os principais impactos da entre os membros da cadeia produtiva da
inovação no desempenho dos projetos de inovação no segmento de serviços.
arquitetura estão diretamente ligados a
utilização de softwares, através da plataforma
BIM.

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