Você está na página 1de 265

Editora Poisson

Tópicos em Administração
Volume 2

1ª Edição

Belo Horizonte
Poisson
2018
Editor Chefe: Dr. Darly Fernando Andrade

Conselho Editorial
Dr. Antônio Artur de Souza – Universidade Federal de Minas Gerais
Dra. Cacilda Nacur Lorentz – Universidade do Estado de Minas Gerais
Dr. José Eduardo Ferreira Lopes – Universidade Federal de Uberlândia
Dr. Otaviano Francisco Neves – Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais
Dr. Luiz Cláudio de Lima – Universidade FUMEC
Dr. Nelson Ferreira Filho – Faculdades Kennedy

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)


T674
Tópicos em Administração – Volume 2/
Organização Editora Poisson – Belo
Horizonte - MG : Poisson, 2018
265p
Formato: PDF
ISBN: 978-85-93729-59-1
DOI: 10.5935/978-85-93729-59-1.2018B001

Modo de acesso: World Wide Web


Inclui bibliografia

1. Administração 2. Gestão. I. Título

CDD-658

O conteúdo dos artigos e seus dados em sua forma, correção e confiabilidade são
de responsabilidade exclusiva dos seus respectivos autores.

www.poisson.com.br

contato@poisson.com.br
Sumário
Capítulo 1: Alinhamento dos objetivos organizacionais nas
alianças/parcerias intersetoriais ................................................................ 7
Sergio Marian, Marino Luiz Eyerkaufer, Valkyrie Vieira Fabre, Ana Carolina Sedlacek

Capítulo 2: Análise Envoltória de Dados: Uma aplicação no Polo Industrial


de Manaus (PIM) ....................................................................................... 18
Afonso Fonseca Fernandes, Américo Matsuo Minori, Raimundo Nonato Morais

Capítulo 3: Educação Ambiental: práticas extensionistas em escolas do


município de Rio Bonito do Iguaçu – PR ................................................... 28
Leonardo Khaoê Giovanetti, Micaelli Lobo dos Santos, Isaias Luis Leal, Ceyça Lia Palerosi
Borges, Lisandro Tomas da Silva Bonome

Capítulo 4: A Criminalidade no Rio Grande do Sul: Um estudo sobre os


tipos de crime e aspectos do desenvolvimento regional no período de 2007
a 2010 ....................................................................................................... 28
Nelson Guilherme Machado Pinto, Daniel Arruda Coronel, Reisoli Bender Filho

Capítulo 5: Desempenho da Agropecuária na América Latina: Análise da


eficiência e eficácia da região .................................................................. 48
Nelson Guilherme Machado Pinto, Vanessa Piovesan Rossato, Daniel Arruda Coronel

Capítulo 6: Análise do Orçamento: O caso de uma cooperativa do Rio


Grande do Sul ........................................................................................... 58
Maiquel Vinicius Fill Guindani, Nelson Guilherme Machado Pinto

Capítulo 7: Planejamento Estratégico e Adoção de práticas sustentáveis na


Arquitetura ................................................................................................. 68
Micaelli Lobo dos Santos, Debora Romanio, Ceyça Lia Palerosi Borges, Lucas Gazziero,
Ana Paula Boeira
Sumário
Capítulo 8: Uma análise do turismo de Ubajara embasada na perspectiva
de um planejamento integrado, participativo e estratégico como fomento ao
desenvolvimento municipal. ...................................................................... 79
Ana Laís Carvalho de Sousa, Deivid Oliveira Araújo

Capítulo 9: Qualidade de Vida no Trabalho dos Secretários Executivos da


Universidade Federal do Ceará ................................................................ 89
Kelane Bezerra de Aguiar, Sueli Maria de Araújo Cavalcante, Elidihara Trigueiro
Guimarães, Cláudia Buhamra Abreu Romero, Ana Paula da Cruz Holanda Barros

Capítulo 10: Classificação e Catalogação de Materiais, uma Metodologia


Essencial na Gestão Empresarial .............................................................. 110
Francisco José Azevedo da Silva Mattos, André Teixeira Pontes, Ruben H. Gutierrez

Capítulo 11: Desenvolvimento local sustentável: falácia ou realidade? .... 109


Maria Aparecida de Albuquerque Silva

Capítulo 12: Gestão da Segurança e Saúde no Trabalho: Ações Aplicadas


para Redução do Número de Acidentes numa Indústria de Papel .......... 116
Valmir Ferreira de Lima, Cheily de Fátima Martins de Souza, Luiz Eduardo Melo Lima

Capítulo 13: Processo de escolha de fornecedor para implantação de


software de força de vendas ..................................................................... 127
Jian Casasolla, Adriana Ariati

Capítulo 14: O empreendedor e o dilema da inovação: um estudo teórico


.................................................................................................................. 134
Paula Lopes de Oliveira Maia

Capítulo 15: Estudantes internacionais e o ciclo económico: o caso dos


estudantes latino-americanos na Espanha ............................................... 144
Jordi Olivella Nadal, Luciano Kingeski

Capítulo 16: Ações de Governança Digital em prol do Estado Democrático


.................................................................................................................. 153
Neusa Mª Gonçalves Salla, Angelo Abramowicz, Grace Kelly Holtz Scremin, Márcio
Ezequiel Diel Turra, Gean Carlo Schuster Konrath
Sumário
Capítulo 17: O processo de sucessão familiar de uma empresa de comércio
de combustíveis localizada em Criciúma-SC: um estudo de caso ........... 163
Maria Laura Spilere Benedet, Débora Volpato, Natália Martins Gonçalves

Capítulo 18: Princípios de Governança Corporativa para Gestão


Administrativa e Acadêmica de uma Instituição Pública de Ensino Superior
.................................................................................................................. 180
Francisco Robson da Silva Vasconcelos, Aline Wrege Vasconcelos

Capítulo 19: A importância do marketing verde nas estratégias de marcas


sustentáveis............................................................................................... 188
Aline Maria Celestino, Marlette Cassia de Oliveira Ferreira

Capítulo 20: Utilidades e Dificuldades no Uso de Smartphones pela Terceira


Idade ......................................................................................................... 199
Marcelo Rodrigues de Vasconcellos, Maria Aparecida de Brito Moreira, Denise De Micheli,
Janaína Sales, Rafael Braga, Rillaria Motta

Capítulo 21: A Geração e a Gestão do conhecimento através de Indicadores


de Desempenho ........................................................................................ 209
Manoel Rui Gomes Maravalhas

Capítulo 22: Technology transfer model: elements and critical success


factors ....................................................................................................... 219
Franciele Bonatto, João Dallamuta, Ana Carolina Braga

Capítulo 23: Plataforma tecnológica de governança e gestão dos recursos


da União .................................................................................................... 229
Luiz Lustosa Vieira, Ilka Massue Sabino Kawashita, José Antônio de Aguiar
Neto, Deborah Virginia Macedo Aroxa

Autores .................................................................................................. 250


18

Capítulo 1
Sergio Marian
Marino Luiz Eyerkaufer
Valkyrie Vieira Fabre
Ana Carolina Sedlacek

Resumo: As organizações públicas, privadas e sem fins lucrativos tendem a formar


alianças/parcerias buscando alcançar objetivos comuns e incorporar o elemento
social e o ambiental em sua estratégia. Com base nisso, o estudo discute a
implantação de alianças e parcerias em projetos socioambientais envolvendo os
três setores, para o qual desenvolveu-se amplo estudo bibliográfica para sustentar
a discussão das parcerias intersetoriais e sua importância nos projetos
socioambientais, mais tarde, foram analisados os projetos realizados em 2015 pelas
empresas privadas no setor de papel e celulose, listadas na BM&F Bovespa. Na
maioria das vezes, as parcerias buscadas principalmente pelo setor privado,
ocorrem com entidades que possuem objetivos alinhados com os projetos, com
isso, conseguem melhorar os resultados nesses projetos, alcançando a imagem
pretendida pelos investimentos socioambientais. Conclui-se que há alinhamento de
objetivos nos projetos das empresas com os seus parceiros, ou seja, 23% dos
projetos possuem parcerias e em sua totalidade os objetivos dos projetos estão
totalmente alinhados com os objetivos organizacionais dos parceiros.

Palavras chave: Objetivos organizacionais. Alianças/Parcerias intersetoriais.

Tópicos em Administração - Volume 2


8

1 INTRODUÇÃO documental e quantitativa efetuada entre os


meses de dezembro de 2016 e março de
O A sociedade brasileira compõe-se de
2017, tomando como base as informações
organizações públicas, privadas e sem fins
disponibilizadas no conjunto das
lucrativos, onde o primeiro tem a finalidade de
demonstrações financeiras publicadas na
promover o atendimento às demandas
BM&F Bovespa referente ao ano de 2015 e
públicas, o segundo, tem o objetivo de
também em informes existentes nos sites das
obtenção de lucro e o terceiro, como o nome
empresas pesquisadas.
já diz são entidades sem fins lucrativos.
O presente estudo justifica-se por permitir
Entre esses três setores da economia, muitas
que, ao atingir o objetivo proposto, seja
vezes existem alianças e/ou parcerias, que
possível verificar se as organizações
são tratadas como um só elemento, porém,
envolvidas estão alinhadas para evitar
possuem conceitos distintos. Segundo Fontes
desperdício de recursos financeiros ou não,
(2001), parceria é a atuação conjunta de dois
pois a sociedade vem exigindo, cada vez de
ou mais atores sociais, de maneira que a
forma mais contundente, ações eficazes,
atuação de um deles complemente a atuação
eficiente e efetivas de todas as organizações,
do outro, a fim de atingir um objetivo comum.
sejam elas públicas, privadas ou sem fins
Já a aliança se dá entre atores sociais que
lucrativos.
poderiam atuar isoladamente ou, até mesmo,
de forma concorrente mas que, motivados O trabalho está estruturado em cinco partes,
pelo fato de compartilharem um mesmo servindo a primeira para a contextualização
conjunto de princípios ético-políticos decidem do estudo, a segunda para apresentar os
atuar conjuntamente. subsídios teóricos, seguido da metodologia
usada para o desenvolvimento do estudo, na
Na maioria das vezes, as alianças/parcerias
terceira. Já na quarta, consta a análise dos
são realizadas com duas ou mais entidades
dados coletados e, na quinta, faz-se as
que possuem objetivos em comum, buscando
considerações finais.
melhorar os resultados de seus projetos. As
alianças/parcerias entre empresas de
diferentes setores, em especial entre grandes
2 SUBSÍDIOS TEÓRICOS
organizações e empresas sem fins lucrativos,
são uma ferramenta crucial para incorporar o Neste capítulo faz-se uma síntese das
elemento social e o ambiental na estratégia principais discussões teóricas que sustentam
corporativa (VOLPON; SOARES, 2007). a temática, tais como a definição de
Bianchi, Faé e Rocha (2013) afirmam que as alianças/parcerias, conceitos e exemplos de
empresas consideradas como socialmente projetos socioambientais. Também serão
responsáveis devem apresentar em sua visão definidos os conceitos de responsabilidade
e missão e nos seus princípios e valores, social e ambiental e a discussão final será em
enfim, na sua cultura organizacional, a torno da missão e visão dos envolvidos.
questão da responsabilidade social. O
Instituto Ethos (2006) entende a
responsabilidade social empresarial como a 2.1 PARCERIAS INTERSETORIAIS
forma de gestão que se define pela relação
De modo geral as organizações são
ética e transparente da empresa com todos
segregadas em três setores: Público –
os públicos com os quais ela se relaciona.
Estado; privado – empresas; e sem fins
O objetivo deste estudo é de identificar o lucrativos – organizações da sociedade civíl.
alinhamento dos objetivos nas Cada qual com suas características, porém,
alianças/parcerias intersetoriais a partir da seus objetivos, em muitos casos, se
análise dos projetos executadas em 2015 entrelaçam, em especial no que tange a
pelas empresas do ramo de papel e celulose, ações realizadas na área ambiental e social.
listadas na BM&F Bovespa. Ainda são
De acordo com Tachizawa (2014), as
definidos objetivos específicos para atender
organizações governamentais que constituem
ao objetivo de estudo: identificar os projetos
o setor público, são constituídas de: órgãos
sociais e ambientais das empresas; Identificar
da administração direta – federal, estadual e
a existência de alianças/parcerias; Analisar os
municipal; órgãos da administração indireta;
objetivos de tais projetos bem como dos
empresas públicas; sociedades de economia
objetivos sociais dos parceiros.
mista; autarquias; fundações; e estatais afins.
Trata-se de uma pesquisa descritiva, Para Souza et al. (2012) no setor privado, tem-

Tópicos em Administração - Volume 2


9

se o mercado cujo objetivo é a obtenção de  controle, recuperação ou reciclagem


lucro, decorrente de suas atividades das descargas líquidas da atividade
operacionais, baseadas na venda de bens ou industrial;
na prestação de serviços. Já as organizações
 controle ou recuperação de gases e
sem fins lucrativos assim como o estado e as
emissões gasosas geradas pelas
entidades privadas, também tem uma missão
atividades industriais;
a ser desempenhada, por meio de entidades
sem fins lucrativos. Ações antes consideradas  redução do uso de matérias-primas
isoladas, feitas por pessoas anônimas, são por qualidade de produto fabricado
encontradas atualmente nessas ou substituição de fonte de energia;
organizações, com uma formação jurídica que
se fortalece dentro do terceiro setor (SOUZA  disposição adequada de resíduos
et. al, 2012). sólidos e de lixo industrial;

No Brasil, o contexto político da década de  reciclagem de sucatas, resíduos ou


1990 é um dos fatores determinantes do refugos;
surgimento de um ambiente favorável a  mudança nos procedimentos de
aproximação entre organizações de estocagem, transporte, manuseio,
diferentes setores. A redemocratização do logística dos produtos e materiais
país foi consolidada, ampliando os espaços perigosos;
sociais para o exercício da cidadania e para
formas organizadas de participação  seletividade de
(FISCHER 2005). fornecedores/distribuidores
ambientalmente corretos;
Outro ponto relevante é a existência de
parcerias e alianças, que muitas vezes são  expansão dos investimentos em
confundidos, embora se tratar de conceitos controle ambiental;
distintos. Segundo Fontes (2001), parceria é a  desenvolvimento/aperfeiçoamento de
atuação conjunta de dois ou mais atores sistemas de auditoria ambiental;
sociais, de maneira que a atuação de um
deles complemente a atuação do outro. Deste  habilitação da organização para
modo, eles podem concatenar suas ações, a rotulagem ambiental;
fim de atingir um objetivo comum. Já a aliança  projetos sociais em meio ambiente;
estratégica se dá entre atores sociais que
poderiam atuar isoladamente ou, até mesmo,  projetos sociais em educação;
de forma concorrente. Porém, motivados pelo  projetos sociais em saúde;
fato de compartilharem um mesmo conjunto
de princípios ético-políticos e por terem  projetos sociais em cultura;
consciência da magnitude e complexidade do  projetos sociais em apoio à criança e
desafio a ser enfrentado, tais atores decidem ao adolescente;
atuar conjuntamente.
 projetos sociais em voluntariado; e
Empresas de Papel e celulose, segundo
Tachizawa (2014, p. 83), se enquadram nas  imagem ambiental da empresa para
Indústrias altamente concentradas. As fins de marketing.
principais estratégias de gestão ambiental e
As organizações devem ser visualizadas
de responsabilidade social, de caráter
como um conjunto de partes relacionadas,
genérico, normalmente aplicáveis às
trata-se da união de diversas partes inter-
organizações deste ramo são:
relacionadas orientadas para agirem visando
 redução do uso de energia por um determinado objetivo em comum, que por
quantidade de produto fabricado; sua vez mantem uma relação de
interdependência com o meio externo
 redução do uso, recuperação ou (TACHIZAWA, 2014). Entretanto cada setor
reciclagem de agua por quantidade tem sua peculiaridade e sofre pressões de
de produto fabricado; maneira diferentes de cada um dos
 mudança na composição, desenho e envolvidos. O quadro 1 apresenta alguns
embalagem do produto, para tornar tipos de negócios a ênfase e a
seu uso menos danoso à saúde exigência/necessidade de implantar projetos
humana e ao meio ambiente; sociais e/ou ambientais.

Tópicos em Administração - Volume 2


10

Quadro 1 - Tipos de negócios e necessidade de projetos sociais


Exigência/Necessidade
Tipo de negócio Ênfase
de projetos sociais/ambientais
Supermercados Giro de estoques Baixa
Recursos estratégicos Investimento de longo prazo Altíssima
Aeroportos Logística Alta
Comércio varejista Disponibilidade de produtos Baixa
Comunicações e correios Automação Moderada
Veículos automotores Produção em escala Alta
Aeronáutica Confiabilidade Altíssima
Satélite Complexidade Altíssima
Seguradoras Serviços Baixa
Química Integração Altíssima
Engenharia Acervo técnico e know-how Baixa
Publicidade e propaganda Talentos Humanos Baixa
Papel e celulose Economia de escala Altíssima
Fonte: Tachizawa, 2014, p. 73
Segundo Fischer (2005) muitas empresas se responsabilidade social e ambiental pode ser
envolvem com as questões sociais, de resumida no conceito de efetividade como o
alguma forma. O investimento social privado alcance de objetivos de desenvolvimento
se caracteriza, principalmente no Brasil, por econômico e social. Portanto, uma
projetos sociais levados a cabo a partir de organização é efetiva quando mantém uma
alianças/parcerias entre o setor privado e postura socialmente responsável. O Autor
organizações sem fins lucrativos. Porém, afirma ainda que a efetividade está
existe uma dificuldade de interação entre os relacionada à satisfação da sociedade, ao
dois, um dos pontos críticos é a definição dos atendimento de seus requisitos sociais,
objetivos e dos métodos a serem utilizados na econômicos e culturais.
conciliação de resultados econômicos e
As demandas para que as empresas
sociais (FISCHER, 2005).
destinem recursos à Responsabilidade
Socioambiental advêm de diversos grupos de
interesse, como clientes, empregados,
2.2 RESPONSABILIDADE SOCIAL E
fornecedores, grupos comunitários, governos
AMBIENTAL
e acionistas sendo que a gestão
O princípio da responsabilidade social socioambiental efetiva pode ser uma questão
baseia-se na premissa de que as de sobrevivência empresarial (BIANCHI, FAÉ
organizações são instituições sociais que e ROCHA, 2013). Segundo Melo, Almeida e
existem com autorização da sociedade, Santana (2012) a importância de ações de
utilizam os recursos da sociedade e afetam a socioambientais no meio empresarial tem
qualidade de vida da sociedade despertado e disseminado a atenção dos
(MAXIMIANO, 2006). O Instituto Ethos (2012) gestores e investidores para a incorporação
entende a responsabilidade social da variável ambiental nas práticas gerenciais
empresarial como a forma de gestão que se das empresas. Tal fato levou os mercados
define pela relação ética e transparência da financeiros a buscarem índices que fossem
empresa com todos os públicos com os quais capazes de refletir o desempenho das
ela se relaciona. empresas nessa área de atuação.
Tachizawa (2012) afirma que a Volpon e Soares (2007) afirmam que as

Tópicos em Administração - Volume 2


11

alianças/parcerias entre empresas de pode ser realizada através do balanço social,


diferentes setores, em especial entre grandes tendo como objetivo prestar contas do
organizações e empresas sem fins lucrativos, resultado gerado pela interação da empresa
são uma ferramenta crucial para incorporar o com o meio em que está inserida (BIANCHI,
elemento social e o ambiental na estratégia FAÉ e ROCHA, 2013).
corporativa.

3 METODOLOGIA
2.3 OBJETIVOS ORGANIZACIONAIS EM
No estudo, utilizou-se a pesquisa bibliográfica
MISSÃO, VISÃO E VALORES DA EMPRESA
para obtenção dos dados e informações,
Para Chiavenato, objetivos organizacionais iniciando com a elaboração do arcabouço
são o fim desejado que a organização teórico que aborda as parcerias intersetoriais
pretende atingir e que orientam o seu e sua importância nos projetos
comportamento em relação ao futuro e ao socioambientais. Em segundo momento,
ambiente interno e externo. Neste sentido os dados documentais foram analisados, ou
objetivos organizacionais são a razão de ser seja, os projetos de cinco empresas do ramo
das organizações, que necessitam de um fim de papel e celulose, listadas no site da BM&F
objetivo. Bovespa, a saber: Fibria, Irani, Klabin, Santher
e Suzano.
Segundo Griffin (2007) a missão da
organização é a declaração de seu objetivo A escolha do ramo de papel e celulose segue
único e fundamental, que a diferencia de a indicação de Tachizawa (2014),
outras empresas do mesmo tipo e que apresentado no quadro 1, que atribui
identifica o escopo das operações de negócio altíssima necessidade de projetos
quanto a produto e mercado. Guerreiro (1989) socioambientais para o negócio. Os dados
complementa afirmando que a missão levantados foram extraídos do conjunto das
caracteriza e direciona o seu modo de demonstrações financeiras publicadas na
atuação, que independe das condições BM&F Bovespa referente ao ano de 2015 e
ambientais do momento, bem como de suas também nos relatórios de sustentabilidade,
condições internas, e assume caráter disponibilizados nos sites das empresas
permanente. pesquisadas. A coleta foi realizada entre os
meses de dezembro de 2016 e março de
Já a visão de uma empresa é a definição do
2017.
que ela espera no futuro, explicitando como
deve ser vista, o que deseja realizar ou aonde Sumarizando a caracterização do estudo,
quer chegar. Os princípios são compromissos trata-se de uma pesquisa descritiva quanto
assumidos pela organização em consonância aos objetivos, documental quanto a técnica
com uma hierarquia de valores essenciais empregada e ainda quantitativa quanto à
(BIANCHI, FAÉ e ROCHA, 2013). Para Polizei análise dos dados.
(2010), a definição da visão da empresa é
uma declaração do propósito, estipulando o
que ela faz e aonde quer chegar. 4 RESULTADOS E DISCUSSÃO
Para Oliveira (2005) os valores representam o Todo segmento empresarial tem sua
conjunto dos princípios e crenças peculiaridade e sofre pressões de maneira
fundamentais de uma empresa, bem como diferentes de cada um dos envolvidos.
fornecem sustentação a todas as suas Conforme visto anteriormente na Tabela 1,
principais decisões. O autor afirma ainda que apresenta-se os tipos de negócios e
os valores da empresa devem ter forte necessidade de projetos sociais. Nota-se que
interação com as questões éticas e morais da cada setor tem seu foco de atuação e deve
empresa, e, por consequência, promoverem seguir a lógica do setor econômico da
sustentação à vantagem competitiva. atividade a qual está inserida, do contrário
seus projetos não terão o resultado desejado,
As empresas consideradas como socialmente
seja para reduzir ou melhorar a condição
responsáveis devem apresentar nas suas
social ou ambiental que pode ter sido
visão e missão e nos seus princípios e
comprometido pelo impacto da atividade
valores, enfim, na sua cultura organizacional,
econômica das empresas. É possível
a questão da responsabilidade social. Uma
identificar também que cada setor tem
vez atendida às demandas sociais requeridas
exigências diferentes para investir em
pelos grupos de interesse, a evidenciação

Tópicos em Administração - Volume 2


12

projetos sociais/ambientais. Há setor com altíssima para identificar quais projetos as


baixa exigência, como por exemplo, os empresas estão desenvolvendo e o ramo
supermercados, porém, há outros com escolhido foi o de papel e celulose, tendo em
exigência altíssima como é o caso do setor vista o tamanho de sua relevância para o
que explora recursos naturais. Brasil e o grande impacto que gera no meio
ambiente.
Foi escolhida uma atividade em que a
exigência de projetos sociais/ambientais seja

Tabela 1 – Projetos ambientais e sociais das empresas

Empresa Projetos Ambientais % Projetos Sociais % Total de Projetos

FIBRIA 11 38% 18 62% 29


IRANI 16 38% 26 62% 42
KLABIN 15 37% 26 63% 41
SANTHER 6 75% 2 25% 8
SUZANO 7 27% 19 73% 26
Total 55 38% 91 62% 146
Fonte: Elaborado pelos autores
Com base nas nos projetos das empresas estas trazem vantagens para todos os
listadas na BM&F Bovespa no ramo de papel envolvidos, mas nem todos os projetos a
e celulose, é possível, analisar os projetos a possuem. Para Volpon e Soares (2007) as
partir dos sites e relatórios de alianças/parcerias entre empresas de
sustentabilidade do ano de 2015 destas diferentes setores, em especial entre grandes
empresas, conforme demonstrado na Tabela organizações e empresas sem fins lucrativos,
1. são uma ferramenta crucial para incorporar o
elemento social e o ambiental na estratégia
Nota-se que em algumas empresas houve
corporativa.
maior número de projetos ambientais, a Irani
com 16 e a Klabin com 15. Já em relação aos Além disso, identificou-se o alinhamento dos
projetos sociais a Irani e a Klabin novamente objetivos dos projetos com o objetivo de seus
formam as que tiveram maior número de parceiros, pois como cita Tachizawa (2012)
projetos, tendo 26 cada. Totalizando 146 as organizações devem ser visualizadas
projetos pode se perceber que as empresas como um conjunto de partes relacionadas,
deste setor estão preocupadas em realizar trata-se da união de diversas partes inter-
projetos, tanto na área ambiental (55) como relacionadas orientadas para agirem visando
na área social (91) que são a grande maioria um determinado objetivo em comum. Outro
dos projetos realizados. ponto a ser analisado, são as principais
estratégias de gestão ambiental e de
Foram identificadas as alianças/parcerias na
responsabilidade social, normalmente
execução dos projetos, porem apenas 23%
aplicáveis às organizações deste ramo.
possuem alianças/parcerias. Entende-se que

Tópicos em Administração - Volume 2


13

Quadro 2 – Alinhamento dos objetivos com as alianças/parcerias e estratégias de gestão.


Empresa Projeto Objetivo Parceiro Objetivo do parceiro Estratégia

Pacto pela The Nature Proteger a natureza, para Expansão dos


Restaurar a mata
FIBRIA restauração da Conservancy as pessoas hoje e para investimentos em
atlântica
mata atlântica (TNC) as futuras gerações. controle ambiental

Formação e cultura Promover a educação Projetos sociais em


Programa SESI
IRANI esportiva para SESI - SP para o desenvolvimento apoio à criança e
Atleta do Futuro
crianças e jovens. econômico e social. ao adolescente

Promover a inclusão Desenvolver o voleibol e


Núcleos de Associação Projetos sociais em
social e o voleibol na transformar a região em
IRANI iniciação ao Joaçabense de apoio à criança e
região de Joaçaba - Centro de Excelência da
voleibol Voleibol (AJOV) ao adolescente
SC modalidade.

Promover a
Promover a inclusão
competitividade e o
social e o voleibol na Projetos sociais em
IRANI Broto do Galho Sebrae - SC desenvolvimento
região de Joaçaba - cultura
sustentável dos
SC
pequenos negócios

E.E.B. Galeazzo
Incentivar os alunos Escola pública com Projetos sociais em
Projeto aluno Paganelli, em
IRANI a continuar seus objetivo de ensinar apoio à criança e
destaque Campina da
estudos crianças e adolescentes ao adolescente
Alegria (SC)

Visão clara do Despertar o espírito


mundo dos negócios empreendedor nos
Junior Projetos sociais em
IRANI Voluntariado e facilitar o acesso jovens, estimulando o
Achievement voluntariado
ao mercado de seu desenvolvimento
trabalho. pessoal.

Reduzir os poluentes
Apoiar o
e promover a Confederação
Programa desenvolvimento e Projetos sociais em
IRANI educação ambiental Nacional do
despoluir representar o setor de educação
para os Transporte (CNT)
transporte e logística
transportadores.

Federação das
Empresas de
Reduzir os poluentes Representar e fortalecer
Transportes e
e promover a o setor de transporte
Programa Cargas Projetos sociais em
IRANI educação ambiental rodoviário de cargas em
despoluir Logísticas no educação
para os todos os cenários
Estado de Santa
transportadores. necessários.
Catarina
(Fetranscesc)

Sindicato das
Reduzir os poluentes
Empresas de
atmosféricos e Agente de defesa dos
Transporte de
Programa promover a interesses das empresas Projetos sociais em
IRANI Cargas de
despoluir educação ambiental de transporte de cargas educação
Catanduvas e
para os de Catanduvas e região
Região
transportadores.
(SETCCAR).

Despertar a Escola de
consciência Educação Básica
Escola pública com
ecológica e os Galeazzo Projetos sociais em
IRANI Horta ecologica objetivo de ensinar
benefícios em Paganelli de educação
crianças e adolecentes
consumir produtos Campina da
orgânicos Alegria (SC)

Distribuição de
Permite melhor eficiência
corretivo de acidez
produtiva, a redução dos
aos produtores rurais Reciclagem de
Uso de cinzas da Embrapa custos e o aumento da
IRANI para viabilizar a sucatas, resíduos
caldeira Florestas oferta de produtos
conservação e a ou refugos
florestais e agrícolas no
melhoria da
mercado
qualidade do solo.

Tópicos em Administração - Volume 2


14

Quadro 2 – Alinhamento dos objetivos com as alianças/parcerias e estratégias de


gestão.(continuação)
Empresa Projeto Objetivo Parceiro Objetivo do parceiro Estratégia

Desenvolve um
Construir e difundir o
estudo com espécies
Universidade do conhecimento e a Expansão dos
Estudo de de peixes para
IRANI Contestado tecnologia, formando investimentos em
ictiofauna estabelecer um
(UnC) cidadãos comprometidos controle ambiental
Índice de Qualidade
com o desenvolvimento
Integrado (IQ)

Estimula mudanças O Serviço


comportamentais Especializado em Procura evitar acidentes
para melhora nas Engenharia de que prejudicam as Projetos sociais em
IRANI Programa cuida
condições físicas do Segurança e empresas e os cultura
ambiente de Medicina no funcionários.
trabalho. Trabalho (SESMT

Organização que luta


Expansão dos
Proteção ao Protege os macacos Associação Pró- contra a extinção da
KLABIN investimentos em
muriqui Muriqui Muriqui espécie e estudar os
controle ambiental
hábitos desses animais.

Estimula a sociedade a
Projetos sociais em
Puma pela Atua contra a olhar para a questão da
KLABIN Childhood Brasil apoio à criança e
infância exploração sexual violência sexual contra
ao adolescente
crianças e adolescentes.

Formação de
Melhoria na educação de
profissionais de
Primeira Infância e
ensino infantil e a Projetos sociais em
Juventude, conectando
KLABIN Crescer lendo instalação de United Way Brasil apoio à criança e
empresas, voluntários,
bibliotecas para ao adolescente
sociedade civil e
educação infantil em
governo..
escolas municipais

Formação de
profissionais de Contribui para
ensino infantil e a qualificar a prática Projetos sociais em
KLABIN Crescer lendo instalação de Intituto Avisa Lá pedagógica das redes apoio à criança e
bibliotecas para públicas de Educação ao adolescente
educação infantil em Infantil.
escolas municipais

Ajuda a melhorar a
Associação de
qualidade de vida da
Preservação do Busca a qualidade de
Programa matas população e a Projetos sociais em
KLABIN Meio Ambiente e vida na Mata Atlântica e
legais aprimorar o meio ambiente
da Vida em outros Biomas
desenvolvimento
(Apremavi)
florestal.

Treinar estudantes
do Ensino Polícia Ambiental
Protetores Proteção ao Meio Projetos sociais em
KLABIN Fundamental sobre do Estado de
ambientais Ambiente educação
preservação da Santa Catarina
natureza

Os jovens recebem
treinamento teórico e Polícia Militar
Guardiões da Proteção ao Meio Projetos sociais em
KLABIN prático sobre Ambiental do
natureza Ambiente educação
preservação da Paraná
natureza

Prepara e distribui o
mel e derivados e Associação de Criação racional de
Apicultura e Projetos sociais em
KLABIN ajuda na geração Apicultores de abelhas e produção de
meliponicultura cultura
complementar de Telêmaco Borba mel e derivados
renda

Prepara e distribui o
mel e derivados e Cooperativa
Apicultura e Sua atividade principal Projetos sociais em
KLABIN ajuda na geração Caminhos do
meliponicultura é Apicultura. cultura
complementar de Tibagi
renda

Tópicos em Administração - Volume 2


15

Quadro 2 – Alinhamento dos objetivos com as alianças/parcerias e estratégias de


gestão.(continuação)
Empresa Projeto Objetivo Parceiro Objetivo do parceiro Estratégia

Reduz a disposição foca na formação de


Reciclagem de
de resíduos Universidade profissionais qualificados
SANTHER Resíduos sucatas, resíduos
industriais em Vale do Rio Doce para o mercado de
ou refugos;
aterros. trabalho.

Faz doações de Associação dos


tambores e Catadores de Trabalham com a venda Reciclagem de
SANTHER Coleta seletiva bombonas para a Materiais de materiais sucatas, resíduos
coleta seletiva e Reaproveitáveis recicláveis. ou refugos
uniformes. Natureza Viva

Ajuda na nutrição de O público-alvo prioritário


Projetos sociais em
Agricultura crianças carentes na do UNICEF são crianças
SANTHER Unicef apoio à criança e
urbana comunidade onde se e adolescentes
ao adolescente
encontra. desfavorecidos

Ajuda na nutrição de Participa da construção


Projetos sociais em
Agricultura crianças carentes na Pastoral da de uma sociedade justa
SANTHER apoio à criança e
urbana comunidade onde se Saúde e solidária a serviço da
ao adolescente
encontra. vida

Fortalecer
comunidades APIB – Instância de aglutinação
Projeto coisa de indígenas a partir da Articulação dos e referência nacional do Projetos sociais em
SUZANO
índio formação de jovens Povos Indígenas movimento indígena no cultura
na área de do Brasil Brasil.
comunicação.

Fortalecer a
produção e o Proteger o patrimônio
Extrativismo beneficiamento de Instituto Chico natural e promover o Projetos sociais em
SUZANO
sustentável frutos nativos e Mendes (ICMBio) desenvolvimento meio ambiente
outros produtos não socioambiental.
madeireiros

Apoia o aprendizado
desenvolver o ser
de crianças do
Instituto Ayrton humano por inteiro, Projetos sociais em
SUZANO Educar e formar ensino público
Senna preparando para a vida educação
fundamental e
no século 21
promover a leitura.

Apoia o aprendizado Contribuir para a


de crianças do expansão da consciência
Projetos sociais em
SUZANO Educar e formar ensino público Instituto Ecofruto socioambiental, pelo
educação
fundamental e compartilhamento de
promover a leitura. conhecimentos

Permite a troca de
experiênciasentre um Desenvolver o ser
grupo de municípios humano por inteiro,
Gestores em Instituto Ayrton Projetos sociais em
SUZANO que apresenta um preparando para a vida
rede Senna educação
desempenho de alta no século 21 em todas
qualidade dimensões.
educacional no Brasil

Visa ao incentivo à Contribuir para a


Ecofruto:
implantação de expansão da consciência
bibliotecas Projetos sociais em
SUZANO bibliotecas e a Instituto Ecofruto socioambiental, pelo
comunitárias ler é educação
democratização do compartilhamento de
preciso
acesso ao livro conhecimentos

Auxilia empresas dos


Levantamento das
Monitoramento setores florestal e Projetos sociais em
SUZANO espécies ameaçadas Casa da Floresta
da fauna e flora agrícola, na busca de meio ambiente
de extinção
soluções ambientais.

Fonte: Elaborado pelos autores

Tópicos em Administração - Volume 2


16

A existência de alianças/parcerias demonstra empresa Suzano.


que há interesse por parte destas empresas
em otimizar esforços agindo em prol de uma
causa única. Porém, levando em conta o total 3 CONCLUSÃO
de projetos, que foram 146, somente 33 deles
Por meio da análise dos projetos das
têm alianças/parcerias, o que corresponde a
empresas Fibria, Irani, Klabin, Santher e
23% do total de projetos. Isso significa que a
Suzano do ramo de papel e celulose, listadas
maior parte dos projetos não são realizados
no site da BM&F Bovespa, no ramo de papel
com alianças/parcerias.
e celulose, objetivou-se identificar se existem
A última coluna do quadro 2 ainda apresenta alianças/parcerias em seus projetos num
qual das estratégias socioambientais as setor, conforme Tachizawa (2014) que
empresas do setor de papel e celulose apresenta altíssima necessidade de projetos
normalmente empregam, segundo Tachizawa socioambientais para o negócio, portanto,
(2012). Das 20 estratégias apresentadas, 7 optou-se pelo ramo de papel e celulose.
são empregadas pelas empresas, são elas:
Com o objetivo de verificar a existência de
expansão dos investimentos em controle
alinhamento entre as empresas e as demais
ambiental; projetos sociais em meio ambiente;
organizações envolvida na execução dos
projetos sociais em educação; projetos
projetos foi efetuado um comparativo dos
sociais em saúde; projetos sociais em cultura;
objetivos destes projetos analisados e os
projetos sociais em apoio à criança e ao
objetivos as organizações e constatou-se que
adolescente; e projetos sociais em
em todos os projetos, houve esse
voluntariado.
alinhamento, demonstrando que as
Nota-se que em todos os projetos analisados, instituições buscam alianças/parcerias ato
os objetivos dos projetos e dos parceiros que potencializa os esforços dos envolvidos.
tiveram um alinhamento, o que significa que a Ao todo, as cinco empresas
aliança/parceria entre as instituições são analisadas apresentaram de 146 projetos,
motivados por um mesmo conjunto de porém somente 33 deles apresentam
princípios e buscam atingir um objetivo alinhamento o que corresponde a 23% do
comum, como afirma Fontes (2001). total de projetos.
Em se tratar da distinção de conceitos entre Como objetivos específicos buscou-se
alianças e parceria, nota-se que nos projetos identificar os projetos sociais e ambientais
das empresas, o termo utilizado é o de das empresas, e verificou-se a existência de
alianças, por se tratar de atores sociais que 146 projetos, sendo que destes, 62% são
poderiam atuar isoladamente ou em projetos sociais e 38% projetos ambientais.
concorrência, porém, motivados pelo fato de Buscou-se ainda identificar a existência de
compartilharem um mesmo e terem alianças/parcerias, quando o estudo revela
consciência do desafio a ser enfrentado, que apenas 33% do total de projetos contém
decidem atuar conjuntamente. A parceria por alianças e os demais são efetuados na
sua vez, acontece pela atuação conjunta em modalidade parceria. Também objetivou-se
que um complemente a atuação do outro. analisar os objetivos de tais projetos bem
como dos objetivos sociais dos parceiros,
Identifica-se que as alianças ocorrem com
quando os dados revelam que na totalidade
entidades de atuação nacional, como o
dos projetos com alianças/parcerias, há forte
instituto Ayrton Senna, assim com de atuação
alinhamento entre os objetivos.
internacional como a Unicef, e ainda ocorre
com entidades locais, como as associações. Atendendo ao objetivo geral do estudo,
As alianças são com órgãos públicos, constata-se nos projetos que houve o
empresas privadas e instituições sem fins alinhamento dos objetivos nas alianças
lucrativos. intersetoriais e que essas alianças ocorrem
com organizações sem fins lucrativos a fim de
As alianças com os órgãos públicos, não são
otimizar seus projetos e nos demais projetos
citadas no quadro 2 porque não apresentam
executados foram efetuadas parcerias, neste
alinhamento de objetivos, porém essas
caso, com órgão públicos locais, as
alianças ocorre em alguns dos projetos. As
prefeituras.
prefeituras contribuem nos projetos a nível
locais, como nos projetos “programa SESI Como todo ensaio cientifico esse também
atleta do futuro” e “broto do alho” da empresa apresentou limitações, uma delas trata da
Irani, e o projeto “educar e formar” da falta de transparência nos demonstrativos

Tópicos em Administração - Volume 2


17

financeiros e dos relatórios de outros. O estudo sugere a análise de outros


sustentabilidade das empresas, em relação setores em investigações futuras.
ao teor em que as alianças/parcerias
ocorrem, ou seja, recursos humanos,
materiais e financeiros envolvidos, entre

REFERÊNCIAS Cadeias de Valor. São Paulo: Instituto Ethos, 2006.


[8] MAXIMIANO, A.C.A. Introdução à
[1] BIANCHI, M.; FAÉ, M.D.; GELATTI, R.; Administração. São Paulo: Atlas, 2006.
ROCHA, J.M.L. A responsabilidade social como [9] MELO, E.C.; ALMEIDA, F.M. SANTANA,
parte integrante da cultura organizacional em G.A.S. Índice de sustentabilidade empresarial (ise)
empresas socialmente responsáveis: análise de e desempenho financeiro das empresas do setor
conteúdo entre a prática e o discurso. R. eletr. de papel e celulose. Universidade Federal do
Estrat. Neg., Florianópolis, v.6, n.1, p. 160-191, Paraná, Curitiba, v. 4, n.3, p. 95-112, 2012.
2013. [10] OLIVEIRA, D.P.R. Planejamento
[2] CHIAVENATO, I. Gestão de Pessoas: o Estratégico: conceitos, metodologia e práticas. 22
novo papel dos recursos humanos nas Ed. São Paulo: Atlas, 2005.
organizações. Rio de Janeiro: Campus, 1999. [11] POLIZEI, E. Plano de Marketing. 2 Ed. São
[3] FISCHER, R. M. Estado, Mercado e Paulo: Cengage Learning, 2010.
Terceiro Setor: uma análise conceitual das [12] SOUZA, F.J.V.; DANTAS,E.B.;
parcerias intersetoriais. Revista de Administração – ARAÚJO,A.O.; SILVA, M.C. Prestação de contas no
RAUSP. In: Universidade de São Paulo São Paulo, terceiro setor: uma análise das entidades
Brasil. vol. 40, n. 1, p. 5-18, 2005. possuídoras do título de utilidade pública federal
[4] FONTES, M. Marketing Social Revisado: no estado do Rio Grande do Norte. ConTexto, Porto
novos paradigmas do mercado social. Alegre, v. 12, n. 21, 2012, p. 105-116.
Florianópolis: Cidade Futura, 2001. [13] TACHIZAWA, T. Organizações Não
[5] GRIFFIN, R.W. Introdução à Governamentais e Terceiro Setor. 6. Ed. São Paulo:
Administração. São Paulo: Ática, 2007. Atlas, 2014.
[6] GUERREIRO, R. Modelo conceitual de [14] VOLPON, C.T., SOARES, T.D.L.V.A.
sistema de informação de gestão econômica: uma Alinhamento estratégico da responsabilidade
contribuição à teoria da comunicação. Tese de socioambiental corporativa em empresas que
Doutorado. In: FEA/USP, São Paulo, 1989. atuam em redes de relacionamento: resultados de
[7] INSTITUTO ETHOS DE EMPRESAS E pesquisa na Petrobras. Ver. Adm. Pública, v. 41, n.
RESPONSABILIDADE SOCIAL. Responsabilidade 3, p.391-418, 2007.
Social Empresarial nos Processos Gerenciais e nas

Tópicos em Administração - Volume 2


18

Capítulo 2

Afonso Fonseca Fernandes


Américo Matsuo Minori
Raimundo Nonato Morais

Resumo: O presente artigo teve como objetivo determinar os índices de eficiência


relativa dos setores industriais do Polo Industrial de Manaus nos de 2010 e 2014.
Para tanto, utilizou-se a técnica não-paramétrica de Analise Envoltória de dados
(DEA) para a estimação da eficiência a partir dos modelos CCR e BCC, ambos
orientados a insumos. Os dados das DMUs, de insumos e produtos são do relatório
Indicadores de Desempenho do Polo Industrial de Manaus (PIM) elaborado
anualmente pela Superintendência da Zona Franca de Manaus (SUFRAMA). Os
resultados obtidos mostraram que os nove principais setores industriais que
representam 90% do faturamento do PIM apresentaram-se ineficientes com a média
de eficiência em torno de 50%, exceto o setor Químico que apresentou-se eficiente,
global e tecnicamente. A ineficiência encontrada independente do ano observado,
2010, ano sem crise, com o registro do maior nível do PIB ou com crise, o ano de
2014 registrando o menor nível do PIB, segundo dados do IPEADATA.

Palavras chave: Dea. Ccr. Bcc. Eficiência.

Tópicos em Administração - Volume 2


19

1 INTRODUÇÃO (PIM) por meio da modelagem DEA nos anos


de 2010 e 2014.
Com a revolução industrial ocorrida no século
XVIII, a indústria ganhou importância A escolha do período de 2010 e 2014 se
principalmente no crescimento da produção justifica, conforme dados disponibilizados no
em escala para atender as necessidades da IPEADATA (2017), por representar,
sociedade, seja em quantidade e facilidade respectivamente, o ano sem crise com o PIB
de acesso aos produtos, seja em qualidade. real positivo no primeiro trimestre de 9,21%, e
Além do aumento da capacidade de ano com crise com o PIB real negativo no
transformação das matérias-primas em quarto trimestre de -0,31%. Por meio da
produto para atender a necessidade da técnica não-paramétrica Análise Envoltória de
população, outros benefícios inerentes da Dados (DEA) serão identificados quais
atividade industrial contribuíram para o bem- subsetores denominadas como Decision
estar da sociedade, pesquisa e Making Unit (DMU) permaneceram eficientes
desenvolvimento, geração e diversificação de nestes períodos de crise e não crise. De outra
outros produtos, criação de mais empregos, forma, a técnica DEA visou identificar quais
apenas para citar como exemplos. subsetores conseguiram a melhor
combinação no uso dos insumos disponíveis
No cenário da economia brasileira, uma
a fim de ser eficiente no período considerado
evidência da importância da indústria é que a
como não crise e crise.
indústria de transformação inclusos os
serviços de utilidade pública, tais como água,
energia, gás de cozinha e a indústria de
2 REFERENCIAL TEÓRICO
extrativa de mineral, representou 19% do
Produto Interno Bruto (PIB), conforme dados 2.2 CONCEITOS DE EFICIÊNCIA E TÉCNICAS
do Sistema de Contas Nacionais do Instituto DE ESTIMAÇÃO
Brasileiro de Geografia e Estatística-IBGE
Segundo Mariano (2007) dois fatores
(2015). Ainda, conforme esta entidade, a
impactam na eficiência ou ineficiência
indústria de transformação representou 11%
produtiva: o de ordem técnica ou de escala
do PIB, demonstrando a importância desse
de produção. Em consequência, surgem dois
segmento para o Brasil.
modelos para medição de desempenho:
De acordo com os dados da eficiência técnica e eficiência de escala. A
Superintendência da Zona Franca de eficiência técnica está relacionada a fatores
Manaus-SUFRAMA (2015), o Polo Industrial típicos de engenharia como, por exemplo:
de Manaus (PIM) é considerado o maior pólo treinamento ou qualificação dos funcionários,
industrial da América Latina com maquinário utilizado, qualidade do material,
aproximadamente 600 empresas de diversos uso ou não das tecnologias, por exemplo, o
portes e com faturamento acima de US$ 30,1 uso das técnicas da indústria 4.0 tendo como
bilhões. Gera aproximadamente 100 mil fulcro a Internet das Coisas dentre outros. A
empregos diretos e 400 mil empregos eficiência ou deficiência de escala está
indiretos somente em Manaus, e mais de 20 relacionada com fatores econômicos,
mil na Amazônia Ocidental (Acre, Rondônia e exemplo, a empresa estar ou não produzindo
Roraima). Desse conjunto de indústrias, nove em sua escala ótima de produção em função
subsetores se destacam: o eletroeletrônico, o da economia (não crise) ou deseconomia
de duas rodas, o termoplástico, o (crise) que a unidade está inserida.
metalúrgico, o mecânico, químico, o papelão,
O sistema de medição de eficiência,
o relojoeiro e o grupo composto por isqueiro,
categoriza a eficiência produtiva em: (a) a
barbeadores e descartáveis, tendo em vista
Eficiência Produtiva total, que mede a
que juntos representam mais de 90% do
capacidade de uma DMU transformar inputs
faturamento total do PIM. Todavia, a
em outputs em proporções adequadas e de
contribuição industrial para o
maneira produtiva; (b) a Eficiência Técnica
desenvolvimento de uma região ou país pode
que é um índice que representa o quanto da
pouco ser significativa se não existir um
eficiência produtiva de uma empresa pode
mecanismo de avaliação de eficiência diante
ser relacionada a fatores técnicos ou de
de uma crise econômica financeira.
engenharia e; (c) a Eficiência de Escala que é
Neste contexto, o objetivo deste artigo é um índice que representa o quanto da
determinar o índice de eficiência relativa de eficiência produtiva de uma empresa pode
nove subsetores do Polo Industrial de Manaus ser relacionada a fatores econômicos ou de

Tópicos em Administração - Volume 2


20

escala (MARIANO, 2007). Na figura 1, Belloni (2000) ilustra na direção da ineficiência.


Figura 1- Ineficiência técnica, de escala e total

Fonte Adaptado de Belloni (2000)


De acordo com a Figura 1, o segmento AB Segundo Colin (2011), a Análise Envoltória de
corresponde a ineficiência técnica; BC, a Dados (DEA), embora seja uma técnica
ineficiência de escala e AC a ineficiência relativamente nova, sua aplicação tem um
produtiva total. crescimento de destaque por ser
relativamente simples e ter aplicação em
Conforme Ferreira e Gomes (2009), a
diversos problemas do mundo real. Esta
eficiência produtiva pode ser classificada em
técnica de estimação de eficiência relativa é
eficiência: técnica, com a menor utilização de
bastante útil para unidades ou segmentos que
insumos; de escala, para obter o nível de
trabalham de forma similar. Exemplo: redes
produção mais adequado; e alocativa, com o
de supermercado, indústrias de
menor custo e maior receita aos preços de
eletroeletrônicos, fabricantes de duas rodas,
mercado.
dentre outros. Cada unidade dentro do
Segundo Lim e Zhu (2016) há muitas mesmo segmento, exemplo, farmácia 1,
abordagens de medição de eficiência. farmácia 2, assim por diante, são
Mariano e Rebelato (2010) defendem que há denominadas de Unidades de Tomada de
duas classes técnicas de análise de eficiência Decisão (UTD). Estas UTDs são também
produtiva. A primeira é as paramétricas que conhecidas como Decision Making Unit
necessitam da função produção relacionando (DMU).
os inputs às quantidades médias de outputs
Por fim, Lorenzett et al. (2010), alertam que
que eles podem produzir. Já a segunda, as
existe um grau de dificuldade para se
não paramétricas, não necessitam da
encontrar um método para avaliação de
determinação da função produção. Baseiam-
desempenho relativo de unidades dentro de
se no conceito de fronteira de eficiência.
um segmento que seja eficiente e ainda
Ainda, segundo os autores, dentre as
estabelecer metas a serem adotadas para
técnicas não paramétricas, uma das mais
alcançar o grau de eficiência das unidades
importantes é a DEA.
eficientes do grupo.
Ao longo das últimas décadas, a metodologia
DEA teve considerável atenção por parte dos
gestores como uma ferramenta para medir o 3 METODOLOGIA
desempenho das empresas que administram.
Conforme Andersson et al. (2016), a moderna
Além disso, tem sido amplamente utilizada
técnica empírica de estimação de eficiência
para avaliar a eficiência tanto em setor
foi resultado do trabalho dos pesquisadores
público, quanto no setor privado, desde
Charnes, Cooper e Rhodes (1978) com a
hospitais, universidades até companhias
denominação de DEA. O autor ainda
aéreas (LEE e JI, 2010).
menciona que a base empírica da

Tópicos em Administração - Volume 2


21

metodologia DEA foi o trabalho de Farrel μ, ν ≥ 0,


(1957) que fincou conceitos, princípios e
onde a mudança de notação de u e v para μ e
fundamentos da DEA.
ν é usado para denotar um problema de
programação linear diferente, conhecido
como forma dos multiplicadores.
3.1 ANÁLISE ENVOLTÓRIA DE DADOS (DEA)
Usando a dualidade em programação linear,
Conforme mencionado, Lim e Zhu (2016)
obtêm-se uma forma equivalente, a forma do
ratifica que há muitas abordagens de
envoltório (COELLI et al., 1998).
estimação de medidas de eficiência. Os
autores consideram que o modelo DEA min θ, λ θ,
possibilita uma melhor organização e análise
s.a. -qi + Qλ ≥ 0,
de dados.
θxi – Xλ ≥ 0,
A DEA é uma técnica não paramétrica que
mede a eficiência relativa entre as unidades λ ≥ 0,
tomadoras de decisão (DMU-Decision Making
onde θ é uma escalar e λ é um Ix1 vetor de
Unit). Estas unidades possuem objetivos
constantes. A forma do envoltório envolve
semelhantes e utilizam também variáveis de
menos restrições do que a forma dos
entradas e saídas semelhantes. E por ser uma
multiplicadores (N + M < I + 1). Conforme
técnica não-paramétrica, que difere das
Coelli et al (1998), o valor de θ obtido é o
técnicas estatísticas tradicionais, possibilita
índice de eficiência para a i-ésima firma.
estimar a eficiência relativa por meio de uma
Satisfaz: θ ≤ 1, com valor 1 indicando um
fronteira de eficiência que denomina quais os
pontos limitam a produtividade sobre a qual ponto na fronteira e, portanto, uma firma
tecnicamente eficiente, de acordo com a
uma unidade produtiva é eficiente (MORAIS,
2016). definição de Farrel (1957). O problema é
repetido I vezes, com θ sendo obtido para
Conforme Coelli et al. (1998), a metodologia cada firma.
DEA, em sua forma original, se inicia com o
modelo CCR orientado a insumo. O modelo
CCR consistia em que para cada empresa, 3.2 O MODELO CCR E O MODELO BCC
seria obtida uma medida de proporção de
todas as saídas sobre todas as entradas, tais A denominação do modelo CCR é derivada
como u’qi / v’xi, onde u é um vetor Mx1 de das iniciais dos seus autores Charnes,
pesos das saídas e v é um vetor Nx1 de Cooper e Rhodes (1978). Também conhecido
pesos das entradas. Os pesos ideias seriam como modelo de retorno constante de escala
obtidos pela solução de problema de (CRS-Constant Return to Scala), significando
programação: que os input e outputs (entrada ou insumos e
saídas ou produtos, respectivamente) são
max u, v (u’qi / v’xi) proporcionais entre si, ou seja, cresce ou
sujeito a decresce na mesma proporção (MARIANO et
al., 2006). Ainda segundo o autor, a análise
u’qj / v’xj ≤ 1 j = 1, 2, …, I de eficiência no modelo CCR, pode ser
u, v ≥ 0. orientada a insumos, para um dado produto,
ou pode ser orientada ao produto, dado um
Isso envolvia encontrar valores para u e v de determinado nível de insumos. O modelo de
modo que a eficiência da i-ésima firma fosse retorno constante de escala ocorre na prática
maximizada, sujeita a restrição de que todas com pouca frequência diante da realidade de
as medidas de eficiência devem ser menor ou mercado em razão das próprias imperfeições
igual a 1. Coelli et al. (1998) adverte que uma ou restrições e que se pressupõe que a
formulação igual a essa apresenta inúmeras tecnologia não muda de forma significativa
soluções, sendo impossível determinar a registra Mariano et al. (2006).
solução mais adequada para a estimar a
eficiência. Para evitar isso, pode-se impor a Conforme Morais (2016), no modelo CCR, as
restrição v’xi = 1, que prevê: DMUs são comparadas de forma
indiscriminada, independente da escala,
max μ, ν (μ’qi), calculando uma medida denominada de
eficiência total que é conjunto das eficiências
s.a. ν’xi = 1,
técnica e de escala. Em outros termos, o
μ’qj – ν’xj ≤ 0, j=1, 2, …, I modelo BCC leva em conta que o fato de que,

Tópicos em Administração - Volume 2


22

em diferentes escalas, as DMUs podem ter autores ainda afirmam que o modelo BCC
diferentes produtividades e ainda ser apresenta três tipos de retorno de escala:
consideradas eficientes. Benicio et al. (2015)
a) Retorno Crescente: quando um aumento
ratifica que o modelo de BCC considera que
do número de inputs provoca um aumento
em situações diferentes a produtividade
desproporcionalmente maior no número
máxima é variável.
de outputs, identificando que a empresa
Banker e Trall (1992) justificam que as está operando abaixo da capacidade
tecnologias de produção impactam na ótima.
produtividade em escala que as DMUs estão
b) Retorno Constante: quando um aumento
operando.
do número de inputs provoca um aumento
O modelo BCC, criado pelos autores Banker, proporcional no número de outputs,
Charnes e Cooper (1984), cujas primeiras identificando que a empresa está
letras dos seus nomes deram a denominação operando na capacidade ótima.
do modelo, tendo como característica o
c) Retorno Decrescente: quando um
retorno de escala variável (VRS-Variabel
aumento do número de inputs provoca um
Returns to Scale). O modelo mede a eficiência
aumento desproporcionalmente menor no
técnica com a restrição de convexidade a fim
número de outputs, identificando que a
de assegurar que a composição da DMU
empresa está operando muito acima da
permita retornos de escala constante,
capacidade ótima.
crescente ou decrescente. Conforme
Finamore et al. (2005), o modelo BCC Um melhor entendimento destes conceitos
compara DMUs em escalas diferentes. Estes pode ser na Figura 2.

Figura 2 – Retorno Crescente, constante e Decrescente

Fonte: Coelli et al. (1998)

Observa-se que na Figura 2, a linha reta Crescente). O trecho RND inicia no eixo dos x
representa o modelo CCR de retorno e vai até o ponto Rc, e o trecho RNC, acima
constante de escala (RC), ou seja, uma do ponto Rc. No trecho RND (crescente), uma
variação no insumo provoca uma variação variação de insumo provoca uma variação de
proporcional a esta variação. A curva saída maior que a variação de insumo, já no
pontilhada representa o modelo BCC e possui trecho RNC, uma variação de insumo provoca
dois trechos, o de retorno crescente uma variação menor de saída.
representado por RND (Retorno Não
Asevera Mariano et al. (2006) que os modelos
Decrescente) e o de retorno crescente
CCR e BCC possibilitam a estimativas de
representado por RNC (Retorno não
diferentes eficiências conforme Figura 3:

Tópicos em Administração - Volume 2


23

Figura 3 – Modelos da DEA e os tipos de eficiência

Fonte: Mariano, Almeida e Rebelatto (2006)


A eficiência estimada pelo modelo CCR é a 3.3 DADOS
eficiência global relativa cuja propriedade
Os dados das DMUs, os nove principais
principal é a proporcionalidade entre inputs e
setores industriais cujo somatório do
outputs na fronteira, ou seja, o aumento
faturamento destes no período representaram
(decremento) na quantidade dos inputs,
um valor superior a 90% do faturamento do
provocará acréscimo (redução) proporcional
PIM e dos insumos e produto,
no valor dos outputs, enquanto no modelo
respectivamente, a aquisição de insumos e a
BCC, a DMU que tiver o menor valor de um
quantidade média anual da mão-de-obra, e o
determinado input ou o menor valor de um
faturamento, são oriundos do relatório de
certo output será eficiente (SOARES DE
Indicadores de Desempenho do PIM
MELO et al., 2005).
publicado pela SUFRAMA (2015), no período
de 2010 e 2014, conforme a tabela 1.
Tabela 1 – Matriz das variáveis e DMUs

Fonte: Elaborado pelos autores (2017)


A orientação aos insumos nos modelos DEA é O período analisado foi 2010, um ano sem
pertinente, uma vez que os setores industriais crise com o PIB do primeiro trimestre de
do PIM buscam a combinação ótima dos seus 9,21%. Em 2014, um ano de crise, o PIB do
recursos para prover maior produção quarto trimestre foi de -0,31%, conforme
possível. figura 4 (IPEADATA, 2017).

Tópicos em Administração - Volume 2


24

Figura 4 – PIB Real

Fonte: Adaptado pelos autores do IPEADATA (2017)

clássica da DEA em discriminar as unidades


Para o cálculo da eficiência foi utilizado o eficientes. Isso pode se tornar um problema
SIAD, software desenvolvido pela quando se pretende tomar uma decisão, uma
Universidade Federal Fluminense (UFF) vez que as firmas apresentam uma falsa
disponibilizado gratuitamente. eficiência (SOARES DE MELO et al., 2005).
A solução dada ao problema de baixa
discriminação entre as DMUs foi a avaliação
4 RESULTADOS da eficiência em uma fronteira invertida,
introduzida por Yamada et al. (1994) e Entani
Os resultados obtidos pelos modelos DEA, o
et al. (2002), e usado por Lins et al. (2005) e
CCR e BCC, na forma de envelope, estão de
Leta et al. (2005). Com a fronteira invertida é
acordo com o descrito na metodologia e
possível apresentar a eficiência normalizada
atenderam ao objetivo proposto deste
das DMUs, aumentando o poder de
trabalho.
discriminação entre elas. Dessa forma, foram
Na construção do ranking dos resultados, apresentados os resultados das eficiências
verificou-se que, algumas DMU obtiveram um normalizadas para os modelos utilizados,
score de 100% de eficiência, tanto com uso conforme as tabelas 2 e 3:
do modelo CCR quanto do BCC,
evidenciando uma limitação da fronteira

Tabela 2 – Resultados das Eficiências utilizando o modelo CCR, orientado a input

Fonte: Elaboração própria

Tópicos em Administração - Volume 2


25

Tabela 3 – Resultados das Eficiências utilizando o modelo BCC, orientado a input

Fonte: Elaboração própria

Nas tabelas 1 e 2, confirmou-se que o setor variação positiva em 0,1% no nível de


Químico foi o mais eficiente no período eficiência tecnica, no ano de 2014. Além
analisado, conforme os conceitos de disso, evidenciou-se que os setores
estimação de eficiência pela DEA. O setor apresentaram-se uma média maior de
Metalúrgico apresentou a maior variação variação nos níveis de eficiência quando a
negativa nos níveis de eficiência, eficiência foi estimada pelo modelo BCC, -
respectivamente, de -39,0% e -45,6%, seja de 8,9% contra -0,8% pelo modelo CCR,
eficiência global ou técnica, do ano de 2010 respectivamente no ano de 2010, o ano sem
para o ano de 2014. O setor Eletroeletrônico crise e para o ano de 2014, o ano de crise. Os
apresentou uma grande variação positiva de gráficos 1 e 2, abaixo, representam a
32,6% no nível de eficiência global, no ano de eficiência das DMUS em função dos modelos
2010 para o ano de 2014 e manteve a CCR e BCC.

Gráfico 1 – Eficiências das DMUs utilizando o modelo CCR nos anos de 2010 e 2014, orientado a
input

Fonte: Elaboração própria

Tópicos em Administração - Volume 2


26

Gráfico 2 – Eficiências das DMUs utilizando o modelo BCC nos anos de 2010 e 2014, orientado a
input

Fonte: Elaboração própria

É importante notar nos gráficos que as industriais do Polo Industrial tem espaço para
médias de eficiência nos dois modelos estão ajustar seus planejamentos de produção a
distribuídas em torno de 50%, o que é partir do uso racional dos recursos,
corroborado pela estimação média das principalmente dos insumos- matérias-primas
eficiências global e técnica, normalizada, que em grande parte é de procedência
respectivamente, 51,92% e 51,51% no ano estrangeira, com o fim de atingir uma maior
de 2010 e 58,47% e 53,72% no ano de 2014. produção. Não custa lembrar que o Polo
Industrial de Manaus enfrentar problemas
crônicos de logística, infraestrutura e de
5 CONCLUSÃO efeitos da instabilidade econômica.
Este trabalho objetivou determinar os índices Vale ressaltar que os modelos utilizados para
de eficiência dos setores industriais do Polo a estimação da eficiência dos setores
Industrial de Manaus, nos anos de 2010 e industriais do Polo Industrial de Manaus,
2014 por meio da técnica não-paramétrica permitem inferir por meio do modelo CCR que
denominada de Analise Envoltória de Dados. os setores industriais podem reduzir a
Os resultados obtidos demonstraram que os utilização dos seus insumos em 50% e manter
setores industriais apresentaram ineficiência o nível de produção. De outra maneira, o
nos anos analisados, independente de ser um modelo BCC permite inferir que a estimada
ano sem ou com crise, conforme proposta do pode estar relacionada com os efeitos de
trabalho, exceto o setor Químico que escala e o tipo de retorno que os setores
apresentou-se eficiente de acordo com os industriais estão sujeitos. A identificação e os
conceitos da DEA. De forma geral, os demais ajustes na escala de produção por parte dos
setores apresentaram-se ineficientes, setores proporcionaria uma maior e melhor
variando negativamente na média de produção. Novos estudos de eficiência dos
eficiência de um ano para o outro. setores industriais do PIM não cobertos por
este trabalho proporcionariam identificar as
A média de eficiência nos dois anos
causas da ineficiência.
analisados, a partir dos modelos utilizados,
em torno de 50%, pode indicar os setores

REFERÊNCIAS Management Science, v.30, n.9, pp. 1078-1092,


Set. 1984.
[1] ANDERSSON, C.; ANTELIUS, J.; [3] ______; THRALL, R. Estimation of Returns
MANSSON, J.; SUND, K. Technical efficiency and to Scale Using Data Envelopment Analysis.
productivity for higher education institutions in European Journal Of Operational Research, v.62,
Sweden. Scandinavian Journal of Educational pp. 74-84, 1992.
Research. v.61(2), 2017. Disponível em: [4] BELLONI, José Ângelo. Uma metodologia
<http://www.tandfonline.com/action/showCitFormat de avaliação da eficiência produtiva de
s?doi=10.1080%2F00313831.2015.1120230&>. Universidade Federais Brasileiras. 2000. 245 f.
Acesso em: 25 Mar. 2017. Tese (Doutorado em Engenharia de Produção).
[2] BANKER, R. D.; CHARNES, A.; COOPER, Programa de Pós-Graduação em Engenharia de
W. Some Models for Estimating Technical and Produção/Departamento de Engenharia de
Scale Inefficiencies, in Data Envelopment Analysis.

Tópicos em Administração - Volume 2


27

Produção e Sistemas/Universidade Federal de Profissional. Revista Eletrônica de Estratégia e


Santa Catarina, Florianápolis, 2000. Negócios, Florianópolis, v.1, n.3, jan. 2010.
[5] CHARNES, A.; COOPER, W.; RODES, E. Disponível em:
Measuring the efficiency of decision making units. <http://www.portaldeperiodicos.unisul.br/index.php
European Journal of Operational Rescarch, v.2, n. /EeN/issue/view/48>. Acesso em 02 deMar. 2017.
6, pp. 429-444, 1978. [19] MARIANO, E. B; REBELLATO. D. A. do N.
[6] COELLI, T.; RAO, D.; BATTESE, G. An Sistematização do processo de escolha dos
introduction to efficiency and productivity analysis. modelos e perspectivas da análise envoltória de
London: Kluwer Academic Publishers, 1998. dados por meio de um sistema especialista. In:
[7] COLIN, E. C. Pesquisa operacional: 170 ENCONTRO NACIONAL DE ENGENHARIA DE
aplicações em estratégia, finanças, logística, PRODUÇÃO, 30., 2010. São Carlos. Anais…
produção, marketing e vendas. Rio de Janeiro: Disponível
LTC, 2011. em:<https://www.researchgate.net/publication/2573
[8] ENTANI, T.; MAEDA, Y.; TANAKA, H. Dual 97203_Sistematizacao_do_processo_de_escolha_d
models of interval DEA and its extensions to interval os_modelos_e_perspectivas_da_analise_envoltoria
data. European Journal of Operational Research, _de_dados_por_meio_de_um_sistema_especialista
v.36, pp. 32-45, 2002. > Acessado em: 24 de Mar. 2017.
[9] FARRELL, M. J. The measurement of [20] ______; ALMEIDA M. R.; REBELATTO, D.
productive efficienty. Journal Royal Statistical A. N. Princípios Básicos para uma proposta de
Society, v.120, part III, pp. 253-259, 1957. ensino sobre análise por envoltória de dados. In:
[10] FERREIRA, C. M. C.; GOMES, A. P. CONGRESSO BRASILEIRO DE ENSINO DE
Introdução à análise envoltória de dados. Viçosa: ENGENHARIA (COBENGE 2006), 34., 2006, Passo
Editora UFV, 2009. 389 p. Fundo. Anais… Passo Fundo: Abenge, 2006.
[11] FINAMORE, E. B.; GOMES, M.; Disponível em:
PROVEZANO, A.; DIAS, R. S. Eficiência relativa dos <https://www.researchgate.net/profile/Enzo_Marian
setores econômicos do Rio Grande do Sul: uma o/publication/257409786_Principios_basicos_para_
aplicação do modelo DEA na matriz de insumo- uma_proposta_de_ensino_sobre_analise_por_envol
produto. Análise, v. 16, n.2. pp. 217-240, dez.2005. toria_de_dados/links/00463525379e8e2fbc000000/
Disponível Principios-basicos-para-uma-proposta-de-ensino-
em:<http://revistaseletronicas.pucrs.br/ojs/index.ph sobre-analise-por-envoltoria-de-dados.pdf>.
p/face/article/download/272/221>.Acesso em: 01 Acesso 02 de Mar. 2017.
de Mar. 2017. [21] ______. Conceitos Básicos de Análise de
[12] IBGE. Sistema de Contas Nacionais. Rio Eficiência Produtiva. In: SIMPÓSIO DE
de Janeiro: Ibge, 2015. 93 p. ENGENHARIA DE PRODUÇÃO (SIMPEP), 14.,
[13] IPEADATA. Produto interno bruto (PIB 2007. Bauru. Anais… Disponível em:
real). Disponível em: <http://www.simpep.feb.unesp.br/anais_simpep.ph
http://www.ipeadata.gov.br/ExibeSerie.aspx?serid= p?e=1>. Acesso 02 de Mar. 2017.
38414. Acesso em 20 Mar. 2017. [22] MORAIS, Raimundo Nonato de Souza.
[14] LEE, Choogoo; JI, Yong-bae. Data Análise da eficiência dos setores industriais do
Envelopment Analysis. The StataJournal. v.10, n.2, Polo Industrial de Manaus (PIM). 2016. 72 f.
p. 267-280, 2010. Dissertação (mestrado em economia de
[15] LETA, F. R.; SOARES DE MELLO, J. C. C. empresas). Universidade Católica de Brasília,
B.; GOMES, E. G.; ANGULO-MEZA, L. Métodos de Brasília, 2016.
melhora de ordenação em DEA aplicados à [23] SOARES DE MELLO, João Carlos C. B. et
avaliação estática de tornos mecânicos. al . Fronteiras DEA Difusas. Inv. Op., Lisboa , v.
Investigação Operacional, v.25, n.2, pp. 229-242, 25, n. 1, p. 85-103, jun. 2005 . Disponível em
2005. <http://www.scielo.mec.pt/scielo.php?script=sci_ar
[16] LIM, S.; ZHU, J. A note on two-stage ttext&pid=S0874-
network DEA model: Frontier projection and duality. 51612005000100005&lng=pt&nrm=iso>. acessos
European Journal of Operational Research, em 24 fev. 2017.
Elsevier, vol.248(1), pages 342-346, 2016. [24] SUFRAMA. Perfis das indústrias.
[17] LINS, M. P. E.; NOVAES, L. F. L.; LEGEY, Disponível em: <http://www.suframa.gov.br/
L. F. L. Real estate value assessment: a double downloads/download/indicadores/RelIndDes_7_20
perspective data envelopment analysis. Annals of 15_julho.pdf.> Acesso em 24 Fev. 2017.
Operations Research, v. 138, n.1, pp. 79-96, 2005. [25] YAMADA, Y.; MATUI, T.; SUGIYAMA, M.
[18] LORENZETT, J. R.; LOPES, A. L. M.; LIMA, New analysis of efficiency based on DEA. Journal
M.V. A. de. Aplicação de Métodos de Pesquisa of the Operations Research Society of Japan, v.37,
Operacional (DEA) na Avaliação de Desempenho n.2, pages 158-167. 1994.
de Unidades Produtivas para a área de educação

Tópicos em Administração - Volume 2


28

Capítulo 3

Leonardo Khaoê Giovanetti


Micaelli Lobo dos Santos
Isaias Luis Leal
Ceyça Lia Palerosi Borges
Lisandro Tomas da Silva Bonome

Resumo: O presente estudo relata as experiências vividas em um projeto de


extensão desenvolvido entre os meses de julho de 2016 a janeiro de 2017 em cinco
escolas estaduais do município de Rio Bonito do Iguaçu – PR, referente a práticas
relacionadas à educação ambiental. De natureza qualitativa e descritiva com
abordagem exploratória, buscou-se compreender os anseios e maiores problemas
relacionados ao meio ambiente nas escolas do referido projeto para posteriormente
desenvolver oficinas que propiciassem fomentar práticas sustentáveis nos
ambientes escolares como também no próprio dia-a-dia dos envolvidos. No total
foram 1276 pessoas, entre discentes e docentes, que participaram das 7 oficinas
desenvolvidas pelo projeto de extensão de maneira a incentivar atitudes e práticas
sustentáveis.

Palavras chave: Extensão universitária, Educação Ambiental, Sustentabilidade.

Tópicos em Administração - Volume 2


29

1 INTRODUÇÃO desenvolvam estratégias de Educação


Ambiental, visto que a extensão é pautada em
A preocupação com o meio ambiente se
princípios de interação entre atores sociais
intensificou com o elevado crescimento do
(VIANA; SANTOS, 2017). Neto et al. (2013),
processo de urbanização. A busca de um
nota a importância da extensão universitária
desenvolvimento que integre o uso racional
na educação ambiental para a capacitação
da natureza e seus recursos com o
da sociedade envolvida, repassando as
crescimento econômico no atual sistema em
medidas a serem tomadas para o uso
que vivemos passou a ser discutida
sustentável dos recursos exercendo a
globalmente em diversas conferências sobre
cidadania participativa.
o meio ambiente e também em grupos de
interesse que passaram a tratar as melhores Nesse contexto, busca-se com esse artigo
estratégias para alcançar o desenvolvimento fomentar a educação ambiental através de
sustentável, sendo a educação ambiental um oficinas em cinco escolas estaduais do
dos meios para conscientizar a população município de Rio Bonito do Iguaçu-PR a partir
acerca da importância de preservação. da extensão universitária.
A degradação permanente do ecossistema
torna duvidoso a qualidade de vida da
2 REFERENCIAL TEÓRICO
humanidade, com essa preocupação os
estudos de técnicas envolvidas para o 2.1 MEIO AMBIENTE E A
desenvolvimento sustentável devem ser CONTEMPORANEIDADE
considerados principalmente no universo da
O meio ambiente é um termo bastante amplo
educação, integrando a realidade com o
de diferentes conceitos que vem sendo
conhecimento científico (JACOBI, 2003).
discutido em escala mundial. De acordo com
Dentre as ações de extensão, destaca-se a a legislação brasileira, a Lei 6938/81 que
Educação Ambiental (EA), que busca atuar dispõe sobre a Política Nacional do Meio
como instrumento de sensibilização dos Ambiente (PNMA), meio ambiente é “o
indivíduos, refletindo de forma crítica sobre conjunto de condições, leis, influências e
essa questão complexa que envolve aspectos interações de ordem física, química e
sociais, econômicos e ecológicos (BEHLING; biológica, que permite, abriga e rege a vida
ISLAS, 2014). É grande o desafio da em todas as suas formas” (BRASIL, 1981, p.
educação ambiental para lidar com a atual 1).
sociedade, visto que deve relacionar a
Segundo Barbieri (2011) meio ambiente
destruição ambiental, o atual padrão de
compreende o ambiente natural e artificial,
produção capitalista, os problemas sociais e
isto é, o ambiente físico e o biológico originais
os diferentes interesses da sociedade quanto
e o que foi alterado, destruído e construído
a proteção ambiental (CAVALCANTE, 2011).
pelos humanos, como as áreas urbanas,
O saber científico construído no âmbito industriais e rurais. Corroborando com
universitário é expresso para a sociedade Krzysczak (2016) que entende o ambiente
através da extensão que fornece no contexto como sistema integrado entre ecossistema e
da educação ambiental a troca de ideias sociedade, de modo a possibilitar a vida na
sobre a informação, sustentabilidade e Terra.
conservação a partir de projetos lúdicos e
É a partir disso define-se o meio ambiente
participativos construídos por saberes
como um sistema formado por recursos
múltiplos dirigidos a sustentabilidade e
naturais e artificiais que se relacionam entre si
melhoria da qualidade de vida (LEME;
e que vem sofrendo diversas modificações
NORONHA; VIANA, 2009). O debate
pelos seres humanos.
construtivo nesse aspecto é relevante
principalmente para indivíduos em formação O homem passou a se preocupar com as
educativa, em especial crianças e jovens que questões ambientais, logo após a eclosão da
serão o futuro do planeta, pois apresentarão industrialização, que resultou em um aumento
com esses fundamentos outra postura acerca do desenvolvimento econômico, da
da realidade do mundo (MEDEIROS et al., acumulação de capital e na ascensão do
2011). consumo. A preocupação com a
sustentabilidade é histórica e se desenvolveu
As experiências da extensão universitária
quando a sociedade começou a ter ciência
propiciam a concepção de metodologias e
dos problemas ambientais e da desigualdade
tecnologias inovadoras de educação que

Tópicos em Administração - Volume 2


30

social potencializada pelo desenvolvimento que assim a atual e futura geração, consigam
desenfreado (SARTORI; LATRÔNICO; sobreviver com qualidade, como prega o
CAMPOS, 2014). desenvolvimento sustentável, vinculando a
economia com o uso consciente de recursos
Na década de 60, com a exploração e
pela sociedade (MAZZAROTTO; BERTÉ,
utilização massiva de recursos naturais a fim
2013).
de promover o desenvolvimento econômico,
acentua a ocorrência de crises ecológicas. Pensar em um desenvolvimento sustentável
Paralelamente, surge a percepção que os no atual sistema em que vivemos, é um
recursos naturais são finitos e a participação enorme desafio, uma vez que este sistema é
do homem na natureza, é debatida no campo predatório dos recursos limitados. A dinâmica
social, político e filosófico (BARBOSA, 2008). da sociedade é inconciliável com a
Doravante a isto, surgiram as conferências sustentabilidade de um ecossistema salubre,
ambientais que passaram a versar sobre as pois as necessidades humanas são ilimitadas
melhores estratégias e ações pautadas na e os recursos naturais são escassos. Assim,
sustentabilidade. não necessariamente deve-se trocar o atual
sistema, mas sim conciliá-lo com um
Foram nas conferências nacionais e
desenvolvimento que atenda às questões
internacionais, tais como a Conferência de
econômicas, sociais e ecológicas, utilizando
Estocolmo (1972), Cúpula da Terra ou Rio 92
ferramentas que contribuam para a solução
(1992), Conferência das Nações Unidas sobre
dos problemas ambientais já identificados.
o Desenvolvimento Sustentável Rio + 20
(2012), que iniciaram as ideias de A educação ambiental, pode ser uma
desenvolver-se economicamente de forma eficiente ferramenta e essa precisa ganhar
sustentável, utilizando os recursos naturais importância nas escolas, buscando integrar
com responsabilidade. Esses encontros entre práticas educacionais com aspectos
as nações promovem a discussão dos sustentáveis.
problemas ambientais e tentam elaborar
mecanismos para prevenir e mitigar os
impactos causados ao meio ambiente. Assim 2.2 EDUCAÇÃO AMBIENTAL E
os países são incentivados a se preocuparem AGROECOLOGIA
com o meio ambiente e a sua preservação,
A educação ambiental veio como uma forma
entretanto, muitos ainda são movidos por
de conscientização às pessoas em torno dos
seus próprios interesses, como crescer
problemas ambientais que surgiram de um
economicamente independente dos reflexos
contexto histórico inapagável.
negativos que possam causar ao meio
ambiente. Segundo a Lei nº 9.795/99, que dispõe sobre
a educação ambiental, institui a Política
Em consonância, Silva (2014) acrescenta que
Nacional de Educação Ambiental e dá
a expansão econômica é a condição
algumas outras providências:
inalienável da acumulação capitalista, por
isso as ações governamentais nem sempre Art. 1º Entendem-se por educação
são atentas às questões ambientais, uma vez ambiental os processos por meio dos
que o foco é sempre crescer e se quais o indivíduo e a coletividade
desenvolver. O desenvolvimento refere-se a constroem valores sociais, conhecimentos,
progresso, que sob uma perspectiva habilidades, atitudes e competências
econômica, envolve o acúmulo de riquezas. voltadas para a conservação do meio
Segundo Boff (2014) esse vigora em quase ambiente, bem de uso comum do povo,
todos os países e não pode ser considerado essencial à sadia qualidade de vida e sua
sustentável. sustentabilidade (BRASIL, 1999, p. 1).
Para se atingir o desenvolvimento sustentável, Conforme o Ministério da Educação (2007) a
se faz necessário se desprender do modelo educação ambiental se propõe a fomentar
capitalista-industrial e progredir para o processos que possibilitem o respeito à
crescimento e desenvolvimento a longo diversidade biológica, cultural, juntamente
prazo, respeitando os recursos naturais e com o fortalecimento da resistência da
sociais, propondo assim minimizar os sociedade a um modelo devastador das
desequilíbrios ambientais (ROOS; BECKER, relações de seres humanos entre si e destes
2012). Para tanto, são necessárias mudanças com o meio ambiente.
drásticas no modo de desenvolvimento, para

Tópicos em Administração - Volume 2


31

É uma prática pedagógica que contribui para relação entre solo, plantas e animais pelo
a conscientização do indivíduo a respeito da acréscimo da diversidade (ALTIERI, 2004).
importância de preservar o meio ambiente. A
Um dos trabalhos que mesclam a educação
aplicação da alfabetização ecológica não se
ambiental e a agroecologia, são as atividades
restringe somente no meio acadêmico, mas
desenvolvidas em hortas escolares, pois
também em todas as ações diárias do
estas contribuem para a compreensão dos
homem. Segundo Silva (2012, p. 4) entende-
alunos quanto aos riscos da utilização de
se como educação ambiental “um ramo da
agrotóxicos para saúde humana e do meio
educação cujo objetivo é a disseminação do
ambiente, tornando amplo a percepção dos
conhecimento sobre o ambiente, a fim de
alunos para a preservação do ambiente
ajudar à sua preservação e utilização
escolar e coloca em discussão nas escolas,
sustentável dos seus recursos”
temas como a segurança e soberania
A melhoria da qualidade de vida está alimentar podendo ser trabalhado de maneira
intimamente ligada com o uso racional de multidisciplinar (CRIBB, 2010),
recursos e o conhecimento de como isso é
Nas universidades, a educação ambiental em
possível podem ser passados através da
suas práticas pedagógicas, deve abranger
educação ambiental, inserindo novas visões
não somente o ensino, mas também a
sobre a conservação do meio ambiente e da
pesquisa e a extensão, abrindo novos
cidadania, mudando hábitos de cada
caminhos de aprendizagem sustentando a
indivíduo no seu dia-a-dia. A educação
observação da teia da vida e o
ambiental traz a consciência ao indivíduo,
comprometimento com a construção de
demonstrando que é possível a partir de
valores fundamentais para a conquista de
simples práticas, garantir a preservação do
cidadãos críticos com atitudes conscientes
ambiente às gerações futuras (MEDEIROS et
voltadas ao desenvolvimento sustentável
al., 2011).
(ALVES et al., 2014).
Para Costa, Carneiro e Almeida (2013) a
educação ambiental deve contemplar não
somente saberes e conteúdos, mas também 2.3 EXTENSÃO UNIVERSITÁRIA E SEUS
estratégias que permitam aos alunos e DESAFIOS
demais atores envolvidos no processo
Umas das questões mais debatidas acerca
educacional o pleno exercício da cidadania.
da expansão universitária é sobre o papel que
Para que a educação ambiental seja eficiente,
esta deve desempenhar a serviço da
os educadores não devem se limitar somente
sociedade. As práticas extensionistas
a conteúdos teóricos, mas fazer com que os
possibilitam mobilizar a comunidade externa
alunos exerçam um conhecimento prático, só
sobre temas e questões que necessitam de
assim eles perceberão a realidade dos
transformação. É imprescindível a extensão
problemas ambientais que estão combatendo
no processo integral da formação
e reconhecerão a importância de agir
universitária, já que não se espera do ensino
ecologicamente para garantir a qualidade de
superior unicamente o conhecimento técnico-
vida da sociedade.
científico, mas também uma nova
Em busca da construção de novos compreensão e atuação social por parte dos
conhecimentos e produção de alimentos profissionais formados pela universidade
sustentáveis dentro da ciência, nasce a (SEVERINO, 2009).
agroecologia (CAPORAL; COSTABEBER,
É visível a necessidade da contribuição
2004). Na qual a prática da educação
universitária para o desenvolvimento
ambiental deve construir novos saberes com
sustentável da comunidade em que está
o objetivo de desenvolver estilos de
inserida. Nesse sentido, a educação
agricultura e de manejo dos recursos naturais,
ambiental é indispensável, reformulando
a fim de estabelecer patamares crescentes
valores éticos e melhorando os três alicerces
de sustentabilidade (SANTOS; OLIVEIRA,
universitários: ensino, pesquisa e extensão,
2015).
produzindo informações sobre a
As vantagens de integrar a agroecologia na responsabilidade socioambiental (ARAÚJO;
educação ambiental são imensas, visto que RAMOS, 2014).
um ambiente agroecológico sustentável
Córdula e Nascimento (2012), nota que há
diversifica o agroecossistema, aumentando a
décadas, estudos e pesquisas trazem em
âmbito universitário a realidade da

Tópicos em Administração - Volume 2


32

responsabilidade socioambiental necessária particularidades dos indivíduos (DIEHL,


para promover o futuro, entretanto, poucos 2004).
resultados são relatados na sociedade nos
Para compreender a realidade das escolas,
últimos anos com ações conscientes sobre
primeiramente foi realizada uma entrevista
medidas a serem tomadas, dessa maneira é
semi estruturada com os cinco diretores e
através da pesquisa e projetos que práticas
posteriormente por meio de questionários eles
sociais visando o desenvolvimento
escolheram as oficinas mais adequadas à
sustentável são idealizadas e principalmente
realidade de cada escola. Segundo Alencar
a partir da extensão universitária que ocorre a
(2000), a entrevista é o método de coleta de
integração dessas práticas com a sociedade.
informações mais utilizado nas pesquisas
Associar o conhecimento científico com o sociais. Demo (2001) defende que para a
saber e práticas populares, é função da análise científica, o questionamento é
extensão universitária. Assim, a educação essencial. É preciso combinar a capacidade
ambiental precisa estar alinhada às práticas de saber acreditar no interlocutor e de saber
de estudo do dia-a-dia, formando discentes duvidar, para ser possível desconstruir e
conscientes da sua participação no âmbito reconstruir criativamente e criticamente.
socioambiental, promovendo a cidadania a
Os resultados alcançados na extensão foram
partir da reflexão sobre o estado atual que se
através de 7 oficinas desenvolvidas com os
encontram perante o meio ambiente (PIRES;
discentes e docentes das escolas envolvidas
BROMBERGER, 2005).
de maneira a incentivar atitudes e práticas
Desta maneira a educação ambiental aliada a sustentáveis.
extensão deve proporcionar experiências que
possibilitem colocar os educandos em
contato direto com o mundo e sensibilizá-los 4 RESULTADOS E DISCUSSÃO
quanto ao ecossistema em que estão
Os problemas ambientais ultrapassam a
inseridos, discutindo a importância da
especialização do saber e faz preciso
preservação do meio ambiente garantindo
compreender os processos biológicos,
assim a formação de profissionais que
geográficos, históricos, econômicos e sociais
promovam o desenvolvimento sustentável
que geram esses problemas. Com a
(MORADILLO; OKI, 2004).
aplicação das oficinas pautadas pela
Educação Ambiental, isso se torna possível,
pois constitui-se uma prática interdisciplinar,
3 METODOLOGIA
capaz de envolver todos os agentes do meio
O presente estudo relata as experiências acadêmico (XAVIER, 2008).
vividas em um projeto de extensão
Tendo em vista a importância da Educação
desenvolvido entre os meses de julho de 2016
Ambiental e a Extensão Universitária, o
a janeiro de 2017 em cinco escolas estaduais
projeto ÉCOM.VC atuou na realização de
do município de Rio Bonito do Iguaçu – PR,
ações de responsabilidade socioambiental,
referente a práticas relacionadas à educação
educação e saúde. Segundo a Engie (2016),
ambiental.
este projeto é representado de forma lúdica
De natureza qualitativa e descritiva com por 4 elementos da natureza: terra, água, sol
abordagem exploratória, buscou-se e ar. Sendo o eixo ar, contemplado neste
compreender os anseios e maiores problemas trabalho, a educação de crianças e jovens a
relacionados ao meio ambiente nas escolas respeito da cidadania, meio ambiente e o uso
do referido projeto para posteriormente consciente de energia e dos recursos naturais
desenvolver oficinas que propiciassem e o eixo sol, também trabalhado nas
fomentar práticas sustentáveis nos ambientes atividades, abordando questões sobre
escolares como também no próprio dia-a-dia resíduos sólidos, conscientizando a
dos envolvidos. população sobre a importância de fomentar a
coleta seletiva, reciclagem e a possibilidade
Para Roesch (1999), a escolha da abordagem
de geração de renda nas comunidades com
depende muito da postura filosófica adotada
essa atividade.
para investigar a realidade do problema. Os
estudos qualitativos podem descrever a Com o objetivo de conscientizar a
complexidade de determinado problema, e comunidade na região em que está inserida a
possibilitando o atendimento das Universidade Federal da Fronteira Sul,
campus Laranjeiras do Sul-PR, o trabalho se

Tópicos em Administração - Volume 2


33

desenvolveu em cinco colégios estaduais do escolar, principalmente crianças e jovens,


município de Rio Bonito do Iguaçu - PR, como se observa na tabela 1 a seguir.
envolvendo todas as pessoas do âmbito

Tabela 1 – Colégios e respectivo número de pessoas envolvidas no projeto de cada âmbito escolar.

Colégio Estadual de Rio Número de alunos (Ensino Número de Outros Total


Bonito do Iguaçu – PR Fundamental; Ensino Médio) Professores Profissionais do
âmbito escolar

Iraci Salete Strozak 260; 200 23 22 505

Ireno Alves dos Santos 141; 95 37 13 286

Joaquim Nazário Ribeiro 78; 34 28 0 140

José Alves dos Santos 99; 55 33 0 187

Pinhalzinho 74; 53 31 0 158


estão inseridos de maneira lúdica,
despertando valores e cidadania participativa
Assim, foram envolvidas 1.276 pessoas em
(RÊIS; SÊMEDO; GOMES, 2012).
oficinas desenvolvidas a demonstrar a melhor
concepção do meio ambiente e práticas Para a efetivação do projeto, ocorreram
sociais voltadas ao desenvolvimento diversas oficinas, como se observa na tabela
sustentável. Essas, objetivando a modificação 2, com o intuito de promover a
da mentalidade dos envolvidos perante ao conscientização a respeito da preservação do
mundo e meio ambiente, passando novos meio ambiente.
conhecimentos sobre o ambiente em que

Tabela 2 – Oficinas realizadas em cada colégio, envolvendo toda a comunidade escolar

Colégio Estadual de Rio Oficinas


Bonito do Iguaçu – PR

Iraci Salete Strozak Biofertilizante; Reaproveitamento de materiais (canteiros de plantas


medicinais); Reaproveitamento de materiais (confecção de puff de
garrafa pet); Reaproveitamento de alimentos

Ireno Alves dos Santos Biofertilizante; Compostagem; Reaproveitamento de alimentos

Joaquim Nazário Ribeiro Confecção de sabão; Plantas medicinais; Reaproveitamento de


alimentos;

José Alves dos Santos Biofertilizantes; Compostagem; Confecção de sabão; Plantas


Medicinais

Pinhalzinho Compostagem; Reaproveitamento de materiais (canteiros de


plantas medicinais com pneus); Reaproveitamento de materiais
(confecção de estojo de garrafa pet); Reaproveitamento de
materiais (confecção de puff de pneus); Sustentabilidade:
confecção de velas com óleo usado

Tópicos em Administração - Volume 2


34

Na atualidade a questão ambiental é sobre o desperdício de alimentos auxilia no


colocada em questão no dia-a-dia, é aumento da qualidade de vida das famílias e
perceptível que o meio ambiente é finito e o preservação do ambiente.
desenvolvimento desenfreado da atualidade
está esgotando com os recursos dada a
degradação sem fins que é vivenciada, desta Oficina: reaproveitamento de materiais-
maneira, é necessário esse debate na canteiros de plantas medicinais com pneus
comunidade escolar, de modo a elucidar os
Quase metade dos pneus produzidos no país,
problemas e apontar soluções (MARION,
são descartados de forma incorreta, poluindo
2013). As atividades desenvolvidas em cada
o meio ambiente (COELHO et al., 2015).
escola, teve esse objetivo de abordar os
Assim em busca a outras utilizações possíveis
problemas vivenciados na sociedade atual e
a pneus velhos, a construção de canteiros
demonstrar atitudes sustentáveis, como se
para o plantio de plantas medicinais pode ser
observa a seguir.
uma prática útil.

Oficina: Biofertilizante
Oficina: reaproveitamento de materiais-
O objetivo desta oficina foi a produção de um confecção de estojo de garrafa pet
fertilizante a partir de recursos locais de baixo
Esta teve como objetivo a reutilização de
custo, como resíduo vegetais e dejetos
materiais recicláveis a fim de produzir
animais. Esse material pode ser utilizado
utensílios, como o estojo de garrafa pet, com
como adubo, defensivo agrícola aumentando
a finalidade de reduzir os impactos
a biodiversidade e atividade biológica no solo
ambientais que as garrafas pets causam ao
é de fácil acesso e de alto proveito
meio ambiente. Segundo Oliveira et al., (2015)
(MARQUES et al., 2014). Corroborando com
projetos de Educação Ambiental podem
práticas sustentáveis, é um tema que precisa
esclarecer ao aluno sobre as relações Meio
ser trabalhado na Educação Ambiental.
ambiente, Sustentabilidade e Reciclagem,
além de desenvolver práticas educacionais
voltadas para a compreensão de como
Oficina: compostagem
reutilizar materiais que seriam descartados no
São poucas as destinações e a importância meio ambiente para confecção de objetos
dada aos resíduos orgânicos, sendo que úteis no cotidiano.
estes podem gerar diversos impactos
ambientais, tais como: contaminação do solo,
água e ar com a produção de chorume e gás Oficina: sustentabilidade- confecção de lápis
metano (SANTOS; FEHR, 2008). Sendo assim, de jornal reutilizado
a oficina de compostagem demonstrou de
A dados que mostram que o Brasil produz 76
maneira prática o passo-a-passo da
milhões de toneladas de lixo/ano, desses 30%
compostagem, visando uma destinação
poderiam ser reciclados, todavia apenas 3%
segura para os resíduos orgânicos que pode
tem essa destinação. Dado preocupante já
facilmente preparar um adubo altamente
que a grande maioria do restante
benéfico, para utilização em hortas, jardins e
provavelmente seja descartado de maneira
afins.
incorreta poluindo assim o ambiente em que
vivemos (SOUSA et al., 2016). A fim de
reutilizar jornais velhos, reciclando-os, essa
Oficina: reaproveitamento de alimentos
oficina trouxe aos educandos a prática útil de
O Brasil é um dos países que mais reutilizar esse material, para produzir lápis
desperdiçam alimentos no mundo, 35% dos ecológicos com um custo benefício acessível
alimentos produzidos vão para o lixo sem a a todos.
correta utilização, isso é preocupante
(GOULART, 2008). Com esse problema
elencado a aplicação desta oficina tem como Oficina: reaproveitamento de materiais-
intuito incentivar os alunos a evitarem o confecção de puff de garrafa pet
desperdício de alimentos a partir da máxima e
Com o objetivo de diminuir o volume de
correta utilização dos mesmos, com didáticas
garrafa pet jogada no meio ambiente, a
simples e receitas práticas. Segundo Oliveira
oficina reutiliza o material e confecciona puffs
et al. (2009) a sensibilização das pessoas

Tópicos em Administração - Volume 2


35

de maneira prática, fácil e rápida. Esta importância de se preservar o meio ambiente.


proposta atende os requisitos da Assim, os objetivos da educação ambiental
sustentabilidade, já que o plástico reutilizado, para crianças e jovens foram contemplados,
será útil para outras finalidades. Quando formando discussões e visões mais
descartado de maneira incorreta pode sustentáveis, demonstrando comportamentos
demorar cerca de 400 anos para se adequados com o desenvolvimento
decompor na natureza (MMA, 2017). sustentável (AGUILAR et al., 2013).

Oficina: reutilização de óleo - confecção de 5 CONSIDERAÇÕES FINAIS


velas e sabão líquido com óleo usado
Durante a execução do projeto que beneficiou
O óleo quando descartado incorretamente cinco escolas Estaduais do município de Rio
pode poluir significamente o meio ambiente. Bonito do Iguaçu envolvendo 1.276 pessoas,
Segundo Castellanelli et al. (2007) o resíduo foram desenvolvidas oficinas de Educação
do óleo de cozinha, gerado nas residências, Ambiental, com o propósito de auxiliar na
indústrias e em outros estabelecimentos é conscientização dos envolvidos a respeito da
despejado diretamente em rios, pias e vasos preservação do meio ambiente. As escolas
sanitários de maneira irregular por falta de tiveram a oportunidade de escolher as
conhecimento da população na maioria das oficinas que mais lhe agregassem
vezes, fazendo com que este resíduo pare conhecimento e possibilidade de mudanças
nos sistemas de esgoto causando danos, voltadas às práticas sustentáveis.
como entupimento dos canos, poluição do
Um dos problemas enfrentados ao decorrer
meio aquático, ou ainda no lixo doméstico.
do projeto é a questão dos horários, pois
Desta maneira, essa oficina vem com a
como a Educação Ambiental não faz parte da
finalidade de debater a problemática e
grade curricular das escolas, gera uma
demonstrar destinações sustentáveis a esse
preocupação dos diretores e professores
resíduo poluente. A confecção de velas e de
quanto a participação dos alunos nas
sabão a partir do óleo utilizado em cozinhas é
atividades para não perderem o conteúdo
um dos mecanismos que reduzem os
normal da grade.
impactos causados à natureza e além disso
pode trazer renda extra aos interessados. Com este projeto pode-se perceber há
necessidade do debate de práticas
As atividades práticas e oficinas devem ser
sustentáveis atingidas com a educação
diversificadas para estimular o
ambiental principalmente com crianças e
desenvolvimento dos alunos (ZARA;
jovens, que assim estarão educadas sobre a
TAVARES, 2014). As oficinas aplicadas nos
realidade do meio ambiente em que estão
colégios estaduais estimularam os alunos a
inseridos, além de terem participação ativa na
participarem de dinâmicas com o foco na
melhoria desse meio com simples práticas do
responsabilidade socioambiental. Essa
dia-a-dia.
prática pedagógica contribuiu para a
conscientização dos alunos a respeito da

REFERÊNCIAS Seminário Internacional de Educação Superior. 1.


2014. Sorocaba. Anais... Sorocaba: UNISO, 2014.
[1] AGUILAR, T. M.; REIS, J. E.; CASTILLO, V. [5] ARAÚJO, A. O.; RAMOS, M. C. P. Inserção
M.; RIBEIRO, F.; GOMES, V. M.; LINS, L. V. da questão da sustentabilidade no ensino de
OFICINAS DE EDUCAÇÃO AMBIENTAL DO ciências empresariais em uma universidade
PROJETO PATO AQUI, ÁGUA ACOLÁ EM portuguesa. INTERFACE, Natal, v.11, n.2, jul/dez.
ESCOLAS DE SÃO ROQUE DE MINAS, MINAS 2014.
GERAIS, BRASIL. e-Scientia, Belo Horizonte, v. 6, [6] BARBIERI, J. C. Gestão ambiental
n. 1, p. 16-35. 2013. empresarial: Conceitos, modelos e instrumentos. 3.
[2] ALENCAR, E. Métodos de pesquisa nas ed. São Paulo: Saraiva, 2011. 358 p.
organizações. Lavras: UFLA/FAEPE, 2000. 109 p. [7] BARBOSA, G. S. O Desafio do
[3] ALTIERI, M. Agroecologia: a dinâmica desenvolvimento sustentável. Visões, Macaé, v.1,
produtiva da agricultura sustentável. 4 ed. Porto n. 4, Jan/Jun. 2008.
Alegre: Editora da UFRGS, 2004. [8] BEHLING, G. M.; ISLAS, C. A. Extensão
[4] ALVES, T. C. U.; NONENMACHER, R.; Universitária, Educação Ambiental e Ludicidade na
PEDROSO, K. G.; DANNA, S. A.; DUARTE, W. Preservação de Animais Silvestres. Revista
M.Horta agroecológica na prática escolar. In:

Tópicos em Administração - Volume 2


36

Conexão Uepg, Ponta Grossa, v. 10, n. 1, p. 128- sustentabilidade-em-cinco-estados-brasileiros>.


139, jun. 2014. Acesso em: 15 jun. 2016.
[9] BOFF, L. Sustentabilidade: O que- O que [22] GOULART, R. M. M. Sustentabilidade-
não é. 3. ed. Petrópolis: Vozes, 2014. 200 p. Confecção de lápis de jornal reutilizado.
[10] BRASIL. Lei nº 6938, de 31 de agosto de Integração, São Paulo, v. 16, n. 54, p. 285 - 288.
1981. Política Nacional do Meio Ambiente. Brasília, 2008.
Disponível em: [23] JACOBI, P. EDUCAÇÃO AMBIENTAL,
<http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/L6938.ht CIDADANIA E SUSTENTABILIDADE. Cadernos de
m>. Acesso em: 29 maio 2017. Pesquisa, São Paulo v. 118, n. 1, p. 189-206, mar.
[11] BRASIL. Lei nº 9795, de 27 de abril de 2003.
1999. Política Nacional de Educação Ambiental. [24] KRZYSCZAK, F. R. As diferentes
Brasília, Disponível em: concepções de meio ambiente e suas visões.
<http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/L9795.ht Revista de Educação do Ideau, Rio Grande do Sul,
m>. Acesso em: 05 jun. 2017. v. 11, n. 23, p.1-17, jun. 2016.
[12] CAPORAL, F. R., COSTABEBER, J. A. [25] LEME, S. E. G.; NORONHA, M. G. R. C. S.;
Agroecologia: alguns conceitos e princípios. VIANA, L. H. PROTAGONISMO JUVENIL E
MDA/SAF/ DATER-IICA, Brasília, p.24, 2004. EDUCAÇÃO AMBIENTAL POR MEIO DE
[13] CASTELLANELLI, C. A.; MELLO, C. I.; ATIVIDADES LÚDICAS. In: Congresso Nacional de
RUPPENTHAL, J. E.; HOFFMANN, R. Óleos Educação, 4, 2009, Curitiba. Anais... Curitiba:
Comestíveis: RÓTULO DAS EMBALAGENS COMO PUCPR, 2009.
FERRAMENTA INFORMATIVA DA CORRETA [26] MARION, C. V. A QUESTÃO AMBIENTAL
DESTINAÇÃO PÓS- USO. In: ENCONTRO DE E SUAS PROBLEMÁTICAS ATUAIS: UMA VISÃO
SUSTENTABILIDADE EM PROJETO DO VALE DO SISTÊMICA DA CRISE AMBIENTAL. In: Congresso
ITAJAÍ, 1., 2007, Itajaí. Anais...Itajaí: Ensus, 2007. Internacional de Direito e Contemporaneidade, 2,
p. 1 - 11. 2013, Santa Maria. Anais... Santa Maria: UFSM,
[14] CAVALCANTE, M. B. O papel da 2013.
educação ambiental na era do desenvolvimento [27] MARQUES, S. M. A. A.; JÚNIOR, F. J. S.;
(In)sustentável. Educação Ambiental em Ação, Rio MONTEIRO, M. K. D.; VIEIRA, A. S.; VENTURA, A.
Grande do Norte, v. 1, n. 36, p.1-5, jun. 2011. F. A.; JÚNIOR, R. V. Produção de biofertilizante,
[15] COELHO, A. L.; RODRIGUES, M.; SOUSA, adubo orgânico e biogás para agricultura familiar.
H.; RESENDE, A. IMPACTOS AMBIENTAIS Revista do Centro do Ciências Naturais e Exatas,
CAUSADOS PELO DESCARTE INCORRETO DOS Santa Maria, v. 18, n. 3, p. 990-999, Set-Dez. 2014.
PNEUS INSERVÍVEIS, E A SUA UTILIZAÇÃO NA [28] MAZZAROTTO, A. S.; BERTÉ, R. Gestão
MASSA ASFÁLTICA. Sistema Integrado de ambiental no mercado empresarial. 1 ed. Curitiba:
Publicações Eletrônicas da Faculdade Araguaia, InterSaberes, 2013.199 p.
Goiânia, v. 3, n. 1, p. 321. 2015. [29] MEDEIROS, A. B.; MENDONÇA, M. J. S.
[16] CÓRDULA, E. B. L.; NASCIMENTO, G. C. L.; SOUSA, G. L.; OLIVEIRA, I. P. A Importância da
C. A hermenêutica da educação ambiental e o educação ambiental na escola nas séries iniciais.
paradoxo da sustentabilidade. Revista Eletrônica Revista Faculdade Montes Belos, São Luís de
em Gestão, Educação e Tecnologia Ambiental, Montes Belos, v. 4, n. 1, set. 2011
Santa Maria, v. 8, n. 8, p. 1573-1580, SET-DEZ. [30] MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO. Vamos
2012. cuidar do Brasil: Conceitos e práticas em
[17] COSTA, A. O.; CARNEIRO, B. H. M. G.; Educação ambiental na escola. Brasília: Unesco,
ALMEIDA, B. G Educação Ambiental: 2007. Disponível em:
Conscientização que não pode faltar no âmbito <https://preajf.files.wordpress.com/2009/07/educac
escolar. Pro-docência, Londrina, v. 1, n. 5, p.81-94, 3beoo-ambiental-conceitos-e-princypios.pdf>.
dez. 2013. Acesso em: 06 jun. 2017.
[18] CRIBB, S. L. S. P. Contribuições da [31] MINISTÉRIO DO MEIO AMBIENTE.
educação ambiental e horta escolar na promoção Impactos das embalagens no meio ambiente.
de melhorias ao ensino, à saúde e ao ambiente, Disponível em
REMPEC - Ensino, Saúde e Ambiente, São Paulo, <http://www.mma.gov.br/responsabilidade-
v.3 n. 1 p. 42-60, Abr. 2010. socioambiental/producao-e-consumo-
[19] DEMO, P. Pesquisa e Informação sustentavel/consumo-consciente-de-
Qualitativa: Aportes Metodológicos. Campinas: embalagem/impacto-das-embalagens-no-meio-
Papiros, 2001. ambiente> acesso em: 15/06/ 2017.
[20] DIEHL, A. A. Pesquisa em ciências sociais [32] MORADILLO, E. F.; OKI, M. C. M.
aplicadas: métodos e técnicas. São Paulo: Prentice Educação ambiental na universidade: construindo
Hall, 2004. possibilidades, Química Nova, São Paulo, v. 27, n.
[21] ENGIE. ENGIE Tractebel Energia 2, 332-336, nov. 2004.
apresenta projeto de educação e sustentabilidade [33] NETO, F. O. L.; MENTES, J. S.; RABELO,
em cinco estados brasileiros. 2016. Disponível em: F. B. D.; SILVA, E. V.; GORAYEB, A. Educação
<http://www.atrecomunicacao.com.br/single- ambiental e extensão universitária: conservação e
post/2016/06/03/ENGIE-Tractebel-Energia- preservação dos recursos naturais da comunidade
apresenta-projeto-de-educação-e- de Mundaú-Trairi/Ceará. Extensão em ação,
Fortaleza, v. 3, n. 1, p. 15-25, Jan/Jun. 2013.

Tópicos em Administração - Volume 2


37

[34] OLIVEIRA, C. C. A.; SILVA, J. M.; REIS, T. rural. Revista Eletrônica do Mestrado em Educação
C. NUNES, J. E. A.; NUNES, J. E. A.; LIMA, D. E. S.. Ambiental, Rio Grande do Sul, v. 1, n. 1, p.135-147,
Aproveitamento Integral dos Alimentos: set. 2015.
Contribuições para melhoria da qualidade de vida [42] SARTORI, S.; LATRÔNICO, F.; CAMPOS,
e meio ambiente de um grupo de mulheres da L. M. S. Sustentabilidade e desenvolvimento
cidade do Recife-PE. In: CONGRESSO sustentável: uma taxonomia no campo da literatura,
BRASILEIRO DE ECONOMIA DOMÉSTICA, 20., Ambiente & Sociedade, v. 17, n. 1, p. 1-22,jan.-
2009, Fortaleza. Anais... Fortaleza: Cbed, 2009. p. mar. 2014.
1 - 9. [43] SEVERINO, A. J. Expansão do ensino
[35] OLIVEIRA, F. C.; SOUZA, F. F.; SANTOS, superior: contextos, desafios, possibilidades.
J. N.; FERREIRA, L. D. C. Educação ambiental Avaliação, Sorocaba, v. 14, n. 2, p. 253-266, jul.
através de oficinas pedagógicas nas escolas do 2009.
campo. In: CONGRESSO NACIONAL DA [44] SILVA, D. G. A importância da educação
EDUCAÇÃO, 2. 2015, Campina Grande. II ambiental para a sustentabilidade. 2012. 11 f.
CONEDU, Campina Grande: RALIZEVENTOS, Trabalho de conclusão de curso (curso de
2015. Ciências Biológicas com ênfase em Gestão
[36] PIRES, P. A. G.; BROMBERGER, S. M. T. Ambiental) – Faculdade Estadual de Educação,
Educação ambiental e extensão universitária: uma Ciências e Letras de Paranavaí, São Joaquim,
estratégia de contribuição para a construção e/ou 2012.
resgate da cidadania. MOMENTO - Diálogos em [45] SILVA, P. L. M. Desenvolvimento
Educação, Rio Grande, v. 17, n. 1, 2005. Sustentável e suas contradições. Revista
[37] RÊIS, L. C. L.; SÊMEDO, L. T. A. S.; Internacional de Ciências, [s.l.], v. 4, n. 2, p.107-
GOMES, R. C. Conscientização Ambiental: da 119, nov. 2014.
Educação Formal a Não Formal. Revista [46] SOUSA, D. C. G.; MATOS, L. L.; ARAUJO,
Fluminense de Extensão Universitária, Vassouras, M. K. S. LIMA, E. V. A IMPORTÂNCIA DA
v. 2, n. 1, p. 47-60, jan/jun. 2012. RECICLAGEM DO PAPEL NA MELHORIA DA
[38] ROESCH, S. M. A. Projetos de estágio do QUALIDADE DO MEIO AMBIENTE. In: Encontro
curso de administração: guia para pesquisas, Nacional de Engenharia de Produção. 36., 2016,
projetos, estágios e trabalhos de conclusão de João Pessoa. Anais… João Pessoa: ENEGEP,
curso. São Paulo: Atlas, 1999. 2016. p. 1 - 16.
[39] ROOS, A.; BECKER, E. L. S. Educação [47] VIANA, E. D.; SANTOS, H. V. Estratégias
Ambiental e Sustentabilidade. Revista Eletrônica de Educação Ambiental em contextos de Extensão
em Gestão, Educação e Tecnologia Ambiental, Universitária. In: ENCONTRO PARANAENSE DE
Santa Maria, v. 5, n. 5, p. 857-866, jul. 2012. EDUCAÇÃO AMBIENTAL, 17., 2017, CURITIBA.
[40] SANTOS, H. M. N.; FEHR, M. EDUCAÇÃO Anais... Curitiba: Epea, 2017. p. 1 - 4.
AMBIENTAL POR MEIO DA COMPOSTAGEM DE [48] XAVIER, M. A. Oficinas de Educação
RESÍDUOS SÓLIDOS ORGÂNICOS EM ESCOLAS Ambiental. 2008. 50 f. Trabalho de conclusão de
PÚBLICAS DE ARAGUARI-MG. Caminhos de curso (Curso de Educação Ambiental - Senac,
Geografia, Uberlândia, v. 9, n. 25, p. 65-86, 2008. Brasília, 2008.
[41] SANTOS, T. R.; OLIVEIRA, H. S. [49] ZARA, R. C. S.; TAVARES, B. A Educação
Agroecologia como temática de educação Ambiental e a utilização de Oficinas Pedagógicas
ambiental na preservação dos ecossistemas na formação de Cidadania. Revista Tecnologia e
através da redução de agrotóxicos no contexto Sociedade, Curitiba, v. 1, n. 1, p.88-143, mar. 2014.

Tópicos em Administração - Volume 2


38

Capítulo 4

Nelson Guilherme Machado Pinto


Daniel Arruda Coronel
Reisoli Bender Filho

Resumo: O objetivo do trabalho consiste em verificar os impactos do


desenvolvimento regional sobre os tipos de crimes praticados no Rio Grande do
Sul, considerando o período de 2007 a 2010. Especificamente, buscou-se verificar
se há diferenças locais nas regiões gaúchas entre os tipos de crimes praticados:
contra o patrimônio e contra pessoa. Para isso, foram desenvolvidos dois modelos
analíticos, baseados em painel; o primeiro, para verificar os impactos de aspectos
regionais sobre os crimes contra patrimônio e o segundo, contra a pessoa. Foram
adicionadas variáveis dummies, com a finalidade de verificar diferenças regionais
quanto à criminalidade nas três macrorregiões do estado: Norte, Nordeste e Sul. Os
resultados indicaram que a renda mostrou-se como um dos fatores
potencializadores do crime, enquanto que melhores condições de saúde tendem a
reduzir a prática de atos criminosos. Em termos geográficos, a maior incidência de
crimes foi constatada na região Nordeste, região com características diferenciadas
de desenvolvimento local.

Palavras chave: Desenvolvimento Regional, Criminalidade, Rio Grande do Sul.

Tópicos em Administração - Volume 2


39

1INTRODUÇÃO Além disso, nota-se que muitos dos aspectos


ligados à criminalidade possuem relação com
O ser humano possui a sua vida marcada por
o desenvolvimento regional. Isso porque,
escolhas. De maneira geral, essas decisões
conforme afirmam Batella e Diniz (2010),
são tomadas de forma racional, sendo que o
variáveis como riqueza, desigualdade de
indivíduo pondera os benefícios e os custos
renda, infraestrutura, educação e estrutura
relacionados a cada uma de suas decisões.
populacional possuem impactos na
Assim, questões profissionais e pessoais do
ocorrência de atos criminosos. Corroborando
indivíduo são tomadas de acordo com a sua
essa ideia, nota-se que a criminalidade é um
racionalidade e a relação que ele possui com
fenômeno local, visto que diferentes cidades
o ambiente.
dentro de uma mesma unidade federativa
Entretanto, em determinados contextos, os podem apresentar diferentes níveis de
indivíduos não conseguem atingir os seus criminalidade. A ocorrência dessa situação é
objetivos por meio do setor legal da decorrente dos diferentes níveis de
economia. Em decorrência dessa situação, o desenvolvimento econômico, social e cultural
mesmo pensamento racional do indivíduo que as cidades apresentam entre si
pode determinar a escolha pela ilegalidade (OLIVEIRA, 2005).
mensurando os custos e os benefícios por
Faz parte do senso comum creditar a
optar pelo setor ilegal, levando,
resolução de problemas socioeconômicos de
consequentemente, à criminalidade
uma região como solução para os problemas
(BECKER, 1968).
da violência. Dessa forma, apesar de haver
Diante desse contexto, o crime é uma um relacionamento bilateral entre
atividade considerada das mais antigas da criminalidade e desenvolvimento, existem
humanidade. Ela pode ser entendida como evidências de que os fatores
um mecanismo de distribuição de riqueza ou socioeconômicos são causadores da
então como um fardo econômico e social. criminalidade. Além disso, acredita-se que, na
Contudo, no decorrer de sua evolução, a medida em que os indicadores de
sociedade procurou combater a criminalidade desenvolvimento aumentem, a incidência de
com diferentes formas de punição (GORDON crimes tende a diminuir (SHIKIDA; OLIVEIRA,
et al., 2009). 2012).
A criminalidade é um problema presente na Afora isso, questões relacionadas aos
sociedade com consequências sobre o bem- agentes envolvidos no combate à
estar social, pois aumenta os gastos públicos criminalidade consistem em um ponto a ser
e privados com segurança, diminui a explorado. Isso porque a exploração das
qualidade de vida e de estoque de capital relações entre os aspectos que são
humano como também reduz as atividades ineficientes em determinados setores da
relacionadas a investimentos e turismo de sociedade demonstram-se como um primeiro
uma determinada região. Dessa forma, o passo no combate à criminalidade (SCALCO;
problema do crime causa preocupação nas AMORIN; GOMES, 2012).
questões de desenvolvimento de uma
Dessa forma, verificar aspectos da
localidade (SOARES, ZABOT, RIBEIRO,
criminalidade demonstra-se como um tema
2011).
de relevância na sociedade brasileira, se
De uma forma geral, os crimes são agrupados comparado a outras partes do mundo, visto
em dois grandes grupos. Existem aqueles que os índices de criminalidade no país são
com fins estritamente econômicos, que até cinco vezes superiores comparativamente
podem ser denominados crimes contra o aos dos países europeus (OLIVEIRA, 2008).
patrimônio. Ademais, existem crimes que Por sua vez, não diferente desse contexto de
partem de motivações pessoais dos seus violência, está a realidade do estado do Rio
agentes e são denominados como crimes Grande do Sul, pois, apesar de apresentar
contra a pessoa. Esses crimes tendem a taxas de homicídios menores que a média
estarem mais presentes em áreas menos nacional, os furtos e os roubos possuem
desenvolvidas economicamente e os crimes médias superiores ao resto do país. De certa
contra o patrimônio tendem a serem mais forma, essa conjuntura do estado justifica que
recorrentes em regiões onde os indivíduos a criminalidade seja um dos temas mais
possuem maior poder aquisitivo (BATELLA; discutidos em campanhas e em meios de
DINIZ, 2010). comunicação (OLIVEIRA, 2008).

Tópicos em Administração - Volume 2


40

Apesar da preocupação política e social, metodológicos; na quarta seção, os


ainda são escassos os trabalhos que tratam resultados são analisados e discutidos e, por
sobre o tema. Dentre as principais causas último, são apresentadas as considerações
para essa situação está a dificuldade de finais acerca da temática.
encontrar estatísticas disponíveis com
padronização e confiabilidade. Além disso, a
criminalidade demonstra-se como um tema 2 REFERENCIAL TEÓRICO
complexo que envolve as mais variadas áreas
2.1 CRIMINALIDADE: CONCEITUAÇÕES E
de conhecimento (OLIVEIRA, 2008), de modo
EVIDÊNCIAS
que alguns estudos dentro das ciências
sociais procuram retratar aspectos O padrão de criminalidade de uma região
relacionados à criminalidade. Dentre esses se está ligado às características regionais, tais
pode citar os de Batella, Diniz e Teixeira como localidade e concentração de riqueza.
(2008), Farias, Figueiredo e Lima (2008), Além disso, o tamanho da cidade pode ser
Oliveira (2008), Oliveira e Marques Júnior um fator explicativo para as atividades
(2009), Batella e Diniz (2010), Nascimento et criminosas. Assim, a criminalidade possui
al. (2011), Resende e Andrade (2011), maior ocorrência nas grandes cidades devido
Soares, Zabot e Ribeiro (2011), Scalco, ao maior retorno que o crime proporciona, sua
Amorin e Gomes (2012) e Shikida e Oliveira menor probabilidade de punição e menores
(2012). custos relacionados ao crime (OLIVEIRA,
2005; BATTELA; DINIZ, 2010).
A partir disso, a fim de contribuir com os
estudos de criminalidade no contexto gaúcho, Existem três vertentes que buscam explicar a
explorando os aspectos locais da origem e expansão dos aspectos
criminalidade bem como suas relações com o relacionados ao crime. A primeira delas, de
desenvolvimento e propensão ao crime, o origem marxista, preconiza que o aumento da
objetivo do presente trabalho consiste em criminalidade está vinculado às
verificar os impactos que questões de características do processo capitalista cada
desenvolvimento regional possuem nos tipos vez mais concorrencial, principalmente
de crimes praticados no Rio Grande do Sul, aqueles crimes classificados como lucrativos.
no período de 2007 a 2010. Especificamente, A segunda vertente afirma que o aumento da
pretende-se verificar se há diferenças locais criminalidade possui associação com
nas regiões gaúchas quando considerados os problemas estruturais e conjunturais da
tipos de crimes praticados no Rio Grande do sociedade, tais como alto desemprego, alta
Sul no referido período. Dessa forma, o concentração de renda, baixos níveis de
estudo avança em relação aos demais na escolaridade e problemas em atividades de
medida em que relaciona aspectos da policiamento e justiça. Por fim, a última
criminalidade com questões de reconhece que os crimes nada mais são do
desenvolvimento, além de verificar se a que um setor ou atividade da economia,
localidade influencia nas práticas criminosas. assim como outra atividade econômica
tradicional qualquer (PEREIRA; FERNANDEZ,
É pertinente destacar que as teorias
2000).
relacionadas remontam para determinados
aspectos, os quais englobam um conjunto de Ademais, os crimes praticados podem ser
áreas das ciências sociais a fim de discutir e comumente classificados em uma perspectiva
ampliar o conhecimento relacionado ao tema. dual, considerando os crimes que envolvem
Entretanto, essas diferentes abordagens aspectos econômicos e os que não ocorrem
estudam em geral quatro elementos motivados por esse aspecto. O tratamento do
presentes ao ato criminoso, sendo eles a lei, o crime a partir de uma perspectiva econômica
criminoso, o alvo e o lugar (SILVA, 2004). teve seu primeiro enfoque mais relevante em
Aqui, por se verificar os aspectos da Becker (1968). Para o autor, a motivação
criminalidade e seus diferentes impactos em econômica para a realização de um crime
determinadas localidades, o foco é dado ao ocorre pela escolha racional de um indivíduo
último elemento, o lugar. em mensurar os benefícios e os custos entre
o setor legal e ilegal, considerando o setor
Com a finalidade de atingir os objetivos, o
ilegal como mais vantajoso.
presente texto está estruturado, além desta
introdução, em outras quatro seções. Na Neste trabalho, optou-se pela classificação da
segunda, é apresentado o referencial teórico; criminalidade pelos aspectos quanto ao
na seção seguinte, os procedimentos patrimônio e quanto à pessoa. No caso do

Tópicos em Administração - Volume 2


41

primeiro, existem interesses financeiros ou oportunidades no mercado de trabalho pelos


relacionados a algum bem que são de baixos níveis educacionais, tendo assim o
propriedades dos agentes que sofrem o crime como uma das saídas (BATELLA;
crime. Já os crimes contra a pessoa são DINIZ, 2010). Por último, a estrutura
caracterizados como os que não possuem as populacional e a imigração estão
mesmas motivações, afetando apenas relacionadas ao tamanho e às oportunidades
aspectos não econômicos dos indivíduos geradas aos indivíduos, as quais, não
como a sua integridade física e moral. ocorrendo, tornam-se aspectos
desencadeadores de crimes, principalmente,
A criminalidade possui uma série de
contra o patrimônio (BEATO FILHO, 1998).
condicionantes que levam o indivíduo desde
a elaboração à execução de fato do ato Além disso, uma dentre as tantas causas da
criminoso. Para Batella e Diniz (2010), criminalidade é o que se denomina como
algumas dessas condicionantes se patologia individual, sendo caracterizada pelo
relacionam ao desenvolvimento humano, ao fato de indicar que algumas pessoas com
grau de riqueza, ao nível de desigualdade de determinados aspectos genéticos ou
renda, às questões de infraestrutura, aos adquiridos no decorrer do tempo são mais
aspectos educacionais, à estrutura propensas a cometer crimes em relação a
populacional e às questões referentes à outros indivíduos sem tais características.
imigração. Dessa forma, por meio dessa linha de
discussão, o indivíduo nasce para ser
O principal condicionante relacionado ao
criminoso (BARCELLOS; PEREZ, 2009).
desenvolvimento humano está no fato de que
certas regiões possuem melhores condições A partir das questões levantadas acerca da
econômicas do que outras. Além disso, criminalidade, alguns estudos procuraram
grandes concentrações populacionais levam determinar aspectos relacionados à
de certa forma a um enfraquecimento dos criminalidade. Apesar de algumas regiões
mecanismos de controle da sociedade e, necessitarem de atenção imediata quanto a
consequentemente, favorecem uma maior políticas públicas para redução da
propensão à ocorrência de atos criminosos. criminalidade, o tratamento isolado de regiões
Ademais, o aspecto de riqueza das regiões quanto ao tema mostra-se insuficiente.
acaba gerando mais oportunidades para as Conforme Oliveira (2008), isso se dá porque
ações criminosas, visto que há a existência as políticas públicas devem ser globais, visto
de alvos mais compensadores (BEATO que, como a vizinhança é relevante, uma
FILHO, 1998). política pública adotada em apenas uma
cidade não reduziria a criminalidade se as
A desigualdade de renda é outra
cidades vizinhas não adotassem políticas
condicionante da criminalidade por aproximar
públicas semelhantes.
realidades muito distantes. Dessa forma,
principalmente nas grandes cidades onde
riqueza e pobreza são realidades muito
3 PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS
próximas, há um desencadeamento de atos
criminosos em uma maior frequência se Para alcançar os objetivos estabelecidos, foi
comparada a regiões onde essa “distância” é utilizada a modelagem em painel, sendo
maior (BRICEÑO-LEÓN, 2002). Já o aspecto desenvolvidos dois modelos analíticos. O
da infraestrutura está muito ligado ao primeiro buscou verificar os impactos dos
problema da moradia, no qual a exclusão aspectos regionais nos crimes contra o
territorial e as más condições de moradia patrimônio e o segundo procurou avaliar os
levam ao conflito e à violência urbana impactos do desenvolvimento regional nos
(ROLNIK, 1999). crimes contra a pessoa. A estimação de
ambos os modelos teve como finalidade
Quanto ao aspecto educacional, tem-se uma
comparar as influências dos dois tipos de
correlação negativa com a criminalidade,
crimes. Ademais, foram adicionadas variáveis
visto que regiões com baixos níveis de
dummies com a finalidade de verificar
escolaridade podem vir a possuir atividade
possíveis diferenças regionais quanto à
criminal praticada de forma mais constante.
criminalidade nas três macrorregiões do Rio
Isso ocorre principalmente em função da falta
Grande do Sul.
de conscientização da população por falta de
escolaridade, praticando, consequentemente,
o ato criminoso, ou pela falta de

Tópicos em Administração - Volume 2


42

3.1 DADOS EM PAINEL estimação é feita por meio do modelo de


Efeitos Fixos.
A tipologia de dados em painel consiste em
observações de n entidades ou objetos de A fim de testar os pressupostos dos modelos,
análise para dois ou mais períodos de tempo, com intuito de não gerar resultados
combinando as dimensões de séries enviesados, foram realizados testes
temporais e corte transversal. Uma das econométricos. Para verificar a presença de
vantagens na utilização de dados em painel heterocedasticidade, no caso de os termos
consiste em proporcionar mais eficiência e de erro possuírem variâncias divergentes, foi
graus de liberdade para análise, captando realizado o teste de Wald. Para a verificação
aspectos que não são visualizados quando é de autocorrelação, foi utilizado o teste de
feita outro tipo de análise (GREENE, 2008). Woodridge.
Conforme Baltagi (2005), a equação geral de
Quanto à característica dos dados, o modelo
regressões em painel é expressa da seguinte
de painel é do tipo balanceado quando os
forma:
dados estão disponíveis para todas as
yit = 𝛼 + 𝑋´𝑖𝑡 𝛽 + 𝜇𝑖𝑡 , i = 1,...,N; t = 1, ..., T unidades de corte transversal em todos os
(1) períodos de tempo (GREENE, 2008). Por meio
do estabelecimento da relação entre
em que i denota unidades de medidas
criminalidade e desenvolvimento regional, ou
pesquisadas como indivíduos, empresas e
seja, que questões do desenvolvimento
países; t representa o período de tempo; 𝛼 o
influenciam na criminalidade, os modelos
efeito individual específico; 𝛽 o coeficiente
buscam verificar como os crimes contra o
angular; 𝑋´𝑖𝑡 a matriz de variáveis regressores
patrimônio e contra a pessoa são impactados
da unidade i no período de tempo t, e; 𝜇
por aspectos do desenvolvimento regional do
representa o termo de erro aleatório.
Rio Grande do Sul.
Considerando os modelos de painel, os mais
Para isso, utiliza-se o somatório de crimes
utilizados são os de Efeitos Fixos (EF) e os de
contra o patrimônio e o somatório de crimes
Efeitos Aleatórios (EA). Particularmente, o
contra a pessoa como proxy para esses
modelo de EF considera o fato de que pode
crimes, respectivamente Além disso, os
haver correlações entre o intercepto e as
aspectos relacionados ao desenvolvimento,
variáveis explicativas em qualquer período de
por possuírem, de acordo com Todaro e
tempo. Já o modelo de EA possui as mesmas
Smith (2009), característica multidimensional,
suposições do modelo de EF, variando
devem ser captados por mais de um aspecto.
apenas no tratamento do intercepto, que
A partir disso, utilizou-se como proxy para os
passa a ser tratado como variável aleatória e
diferentes aspectos do desenvolvimento os
não mais como um parâmetro fixo (BALTAGI,
blocos educação, renda e saúde do Índice de
2005; GREENE, 2008). Entretanto, a utilização
Desenvolvimento Socioeconômico (Idese),
destes modelos acaba tornando-se
desenvolvido pela Fundação de Economia e
excludente e, conforme as características dos
Estatística (FEE) do Rio Grande do Sul (FEE,
dados, um modelo terá sua utilização mais
2014).
recomendada.
Quanto à forma dos dados, foram
Portanto, uma forma de decidir entre qual
transformados em logaritmo natural a fim de
modelo utilizar está na comparação de
serem verificadas diretamente as
ambos, verificando se existe correlação entre
elasticidades das relações. Ademais, pelo
os fatores não observados e as variáveis
fato de a criminalidade demonstrar-se como
explicativas a partir da aplicação do teste de
um fenômeno local, visto que diferentes
Hausman. Este teste analisa se a diferença cidades dentro de uma mesma unidade
entre os coeficientes dos EF e EA não é
federativa podem possuir diferentes níveis de
sistemática. Além disso, o método de EA
criminalidade, foram utilizadas dummies.
acaba consumindo muitos graus de
Essas procuram evidenciar as diferenças
liberdade, existindo a necessidade de haver
entre os tipos de crime nas regiões do Rio
número de períodos superiores ao número de
Grande do Sul, sendo que foram criadas três
coeficientes da regressão e, quando não é
dummies, correspondentes às três
possível fazer a estimação por meio desse
macrorregiões gaúchas: Norte, Nordeste e
empecilho, deve-se utilizar EF (GREENE,
Sul.
2008). Aqui ocorre a última situação, sendo
que existem seis coeficientes de regressão e
quatro períodos de análise. Portanto, a

Tópicos em Administração - Volume 2


43

Diante de tais definições, a relação a ser i-ésimo período de tempo fazer parte da
estudada pode ser verificada formalmente a região Sul do Rio Grande do Sul; 𝛼 efeito
partir das equações em (2) e (3): individual específico; 𝛽1,2,3,4,5 é o coeficiente
angular de relação das variáveis da
regressão, e; 𝜇 é o termo de erro aleatório.
𝑐𝑟𝑖𝑝𝑎𝑡𝑟𝑖𝑖𝑘 = 𝛼 + 𝛽1 𝑙𝑛𝐷𝑒𝑖𝑘 + 𝛽2 𝑙𝑛𝐷𝑟𝑖𝑘 +
𝛽3 𝑙𝑛𝐷𝑠𝑖𝑘 + 𝛽4 𝐷1𝑖𝑘 + 𝛽5 𝐷2𝑖𝑘 + 𝜇𝑖𝑡 (2) A partir da análise de tais modelos analíticos,
é possível verificar como os tipos de crime
𝑐𝑟𝑖𝑝𝑒𝑠𝑠𝑖𝑘 = 𝛼 + 𝛽1 𝑙𝑛𝐷𝑒𝑖𝑘 + 𝛽2 𝑙𝑛𝐷𝑟𝑖𝑘 + são impactados pelos aspectos do
𝛽3 𝑙𝑛𝐷𝑠𝑖𝑘 + 𝛽4 𝐷1𝑖𝑘 + 𝛽5 𝐷2𝑖𝑘 + 𝜇𝑖𝑡 (3) desenvolvimento regional do Rio Grande do
Sul, bem como se existem diferenças nas
macrorregiões do estado. Essas
em que 𝑐𝑟𝑖𝑝𝑎𝑡𝑟𝑖𝑖𝑘 são os crimes contra o macrorregiões são classificadas com base
patrimônio do k-ésimo município para o i- em aspectos do desenvolvimento e no
ésimo período de tempo; 𝑐𝑟𝑖𝑝𝑒𝑠𝑠𝑖𝑘 são os processo histórico do Rio Grande do Sul,
crimes contra a pessoa do k-ésimo município sendo denominadas como Nordeste, Norte e
para o i-ésimo período de tempo; 𝐷𝑒𝑖𝑘 é o Sul (ALONSO, 2003; SILVA; MARION FILHO;
desenvolvimento do bloco educação do Idese CORONEL, 2007).
do k-ésimo município para o i-ésimo período
de tempo; 𝐷𝑟𝑖𝑘 é o desenvolvimento do bloco
renda do Idese do k-ésimo município para o i- 3.2 VARIÁVEIS E FONTE DOS DADOS
ésimo período de tempo; 𝐷𝑠𝑖𝑘 é o
O universo de estudo ficou limitado aos
desenvolvimento do bloco saúde do Idese do
municípios 496 do Rio Grande do Sul. O
k-ésimo município para o i-ésimo período de
período de análise compreendeu os anos de
tempo; 𝐷1𝑖𝑘 é a dummy do k-ésimo município
2007 a 2010, período mais recente com os
para o i-ésimo período de tempo fazer parte
dados disponíveis. A partir destas definições,
da região Nordeste do Rio Grande do Sul;
para a construção dos modelos foram
𝐷2𝑖𝑘 é a dummy do k-ésimo município para o
utilizadas as variáveis apresentadas no
i-ésimo período de tempo fazer parte da
Quadro 1.
região Norte do Rio Grande do Sul;
𝐷3𝑖𝑘 é a dummy do k-ésimo município para o
Quadro 1 – Variáveis
Bloco Variável Variável Descrição
Desenvolvimento Desenvolvimento Bloco de educação do Idese que capta aspectos da pré-escola, ensinos
regional Educação fundamental e médio e escolaridade adulta.
Desenvolvimento Renda Bloco de renda do Idese que capta aspectos da apropriação de renda
per capita e geração de renda.
Desenvolvimento Saúde Bloco de saúde do Idese que capta aspectos da saúde materno-infantil,
longevidade e condições gerais de saúde.
Crimes contra Furtos Crime que consiste em subtração de coisa alheia móvel para o próprio
patrimônio indivíduo ou para outros beneficiados.
Roubos Crime que consiste em subtração de coisa alheia móvel para o próprio
indivíduo ou para outros beneficiados mediante a grave ameaça ou
violência ao agente envolvido.
Extorsão Crime que consiste no ato de obrigar alguém por meio de ameaças e
violência a tomar determinado comportamento a fim de obter vantagem
econômica ou recompensa.
Estelionato Crime que consiste em subtração de coisa alheia móvel para o próprio
indivíduo ou para outros beneficiados mediante a indução do agente ao
erro ou por ato fraudulento.
Delitos relacionados à Crime relacionado a obter vantagem indevida relacionada a patrimônio
corrupção público.
Entorpecentes - tráfico Crime relacionado a possuir ou utilizar substâncias ilegais para
comercialização.
Crimes contra Homicídio doloso Crime que ocasiona morte e demonstra intenção do agente em querer ou
pessoa assumir o risco de matar alguém.
Latrocínio Crime de roubo acompanhado de morte antes ou depois do ato violento.
Delitos relacionados à Crimes relacionados a aspectos ilegais referentes a armas e munições.
armas e munições
Entorpecentes – posse Crime relacionado a possuir ou utilizar substâncias ilegais.
Fonte: Elaborado pelos autores.

Tópicos em Administração - Volume 2


44

As variáveis de desenvolvimento foram patrimônio como variável dependente, a partir


utilizadas como independentes, enquanto que do teste de Woodridge, observou-se a
as variáveis de criminalidade destacadas no presença de autocorrelação e, a partir do
Quadro 2 foram agrupadas conforme a sua teste de Wald, a presença de
classificação. Portanto, as variáveis heterocedasticidade. O mesmo diagnóstico
classificadas como crimes contra o patrimônio foi verificado para o modelo 2, o qual utilizou
e contra a pessoa foram somadas entre seus crimes contra a pessoa como variável
grupos a fim de representar o total de cada dependente.
um dos grupos. Esse somatório compõe a
Para corrigir esses problemas, as estimações
variável dependente em cada um dos dois
foram obtidas a partir do Método de Newey-
modelos.
West. No que tange à definição dos modelos,
As informações sobre criminalidade foram ambos foram estimados pelo método de
coletadas na base de dados da Secretaria de efeitos fixos.
Segurança Pública do Rio Grande do Sul
As estimativas obtidas para o modelo 1
(SSP-RS) e os referentes ao desenvolvimento
demonstraram que os aspectos relacionados
na base de dados da Fundação de Economia
à educação e à saúde possuem relação
e Estatística (FEE). Todos os dados
negativa com a incidência de crimes contra o
apresentam periodicidade anual e
patrimônio, enquanto que a renda possui
correspondem ao período de 2007 a 2010.
relação positiva (ver Tabela 1). Entretanto,
4 ANÁLISE E DISCUSSÃO DOS apenas as variáveis de desenvolvimento
RESULTADOS relacionadas à renda e à saúde apresentaram
significância estatística. Com relação às
A apresentação dos resultados seguiu a
dummies, observam-se diferenças na
ordem apresentada, primeiro o modelo 1, o
incidência de crimes contra o patrimônio
qual está relacionado à relação de
apenas com relação à Região Nordeste –
desenvolvimento e crimes contra o patrimônio
dummy 1, a qual foi significativa a 1%. Vale
e em seguida, o modelo 2, o qual relaciona
destacar que o poder explicativo, medido
desenvolvimento e crimes contra a pessoa.
pelo R², foi de 32,57%.
Para tanto, inicialmente são discutidos os
testes de diagnóstico e de definição. Quanto
ao modelo 1, o qual utilizou crimes contra o

Tabela 1 – Resultados da estimação da regressão do modelo 1 pelo método de Efeitos Fixos com
variável dependente crimes contra o patrimônio no período de 2007 a 2010 para os municípios do
Rio Grande do Sul
Variável Coeficiente Estatística t Significância
constante 0,0075 1,0845 0,2782
De -0,0042 -0,8246 0,4097
Dr 0,0640 2,0508 0,0404*
Ds -0,0563 -3,0781 0,0022**
D1 0,0095 3,4450 0,0005**
D2 0,0011 0,4583 0,6467
R² ajustado = 0,3257
Nota: Valores com ** e * denotam coeficientes significativos ao nível de 1% e 5%, respectivamente.
Fonte: Elaborado pelos autores

A apresentação dos resultados seguiu a Para tanto, inicialmente são discutidos os


ordem apresentada, primeiro o modelo 1, o testes de diagnóstico e de definição. Quanto
qual está relacionado à relação de ao modelo 1, o qual utilizou crimes contra o
desenvolvimento e crimes contra o patrimônio patrimônio como variável dependente, a partir
e em seguida, o modelo 2, o qual relaciona do teste de Woodridge, observou-se a
desenvolvimento e crimes contra a pessoa. presença de autocorrelação e, a partir do

Tópicos em Administração - Volume 2


45

teste de Wald, a presença de negativa com a incidência de crimes contra o


heterocedasticidade. O mesmo diagnóstico patrimônio, enquanto que a renda possui
foi verificado para o modelo 2, o qual utilizou relação positiva (ver Tabela 1). Entretanto,
crimes contra a pessoa como variável apenas as variáveis de desenvolvimento
dependente. relacionadas à renda e à saúde apresentaram
significância estatística. Com relação às
Para corrigir esses problemas, as estimações
dummies, observam-se diferenças na
foram obtidas a partir do Método de Newey-
incidência de crimes contra o patrimônio
West. No que tange à definição dos modelos,
apenas com relação à Região Nordeste –
ambos foram estimados pelo método de
dummy 1, a qual foi significativa a 1%. Vale
efeitos fixos.
destacar que o poder explicativo, medido
As estimativas obtidas para o modelo 1 pelo R², foi de 32,57%.
demonstraram que os aspectos relacionados
à educação e à saúde possuem relação

Tabela 2 – Resultados da estimação da regressão do modelo 2 pelo método de Efeitos Fixos com
variável dependente crimes contra a pessoa no período de 2007 a 2010 para os municípios do Rio
Grande do Sul
Variável Coeficiente Estatística t Significância
Constante 0,0102 1,4246 0,1544
De -0,0034 -0,7376 0,4608
Dr 0,0634 2,0504 0,0405*
Ds -0,0558 -3,0793 0,0021**
D1 0,0094 3,3898 0,0007**
D2 0,0009 0,3815 0,7028
R² = 0,2197
Nota: Valores com ** e * denotam coeficientes significativos ao nível de 1% e 5%, respectivamente.
Fonte: Elaborado pelos autores.

Referente à renda, encontrou-se relação incidência de crimes que as demais, nesse


positiva com relação aos crimes contra a caso, referente ao crime contra pessoas, por
pessoa. Quantitativamente, o aumento de 1% apresentar as grandes aglomerações urbanas
no nível de renda per capita determina a uma e aspectos relacionados à renda maior que
expansão de aproximadamente 6,34% na nas demais regiões do Rio Grande do Sul
quantidade de crimes contra a pessoa. (OLIVEIRA, 2008).
Apesar de sofrer aumento de forma menos
A partir dos resultados de ambos os modelos,
intensa do que os crimes contra o patrimônio,
nota-se a influência dos níveis de
que possuem ligação mais direta com a
desenvolvimento na criminalidade. De forma
renda, o ato criminoso contra as pessoas
geral, níveis elevados de renda tendem a
também possui associação com aspectos
aumentar os crimes contra o patrimônio e
monetários e financeiros (PEREIRA;
contra as pessoas; igualmente, níveis de
FERNANDEZ, 2000).
desenvolvimento mais levados quanto à
Já com relação à saúde, verifica-se relação saúde tendem a gerar reduções na incidência
inversa, com diminuição de 5,58% na de crimes. Por outro lado, verifica-se que o
quantidade de crimes contra a pessoa nível de educação, um dos aspectos-chave
quando as condições de saúde melhoram em para a superação de muitos problemas
1%. Essa relação corrobora a ideia de que sociais, não apresentou significância
muitos crimes são causados por demandas estatística nos modelos estudados,
sociais de saúde (CERQUEIRA; LOBÃO; demonstrando a incidência de problemas
CARVALHO, 2005). Por último, verifica-se que para dados desse gênero bem como a
a região Nordeste possui uma maior possibilidade de utilização de alternativas a

Tópicos em Administração - Volume 2


46

fim de captar esses aspectos. Ademais, nota- pouco investimento nesses itens gera uma
se que a criminalidade no estado possui certa maior propensão à realização de crimes.
diferenciação com relação às regiões Logo, para o Rio Grande do Sul, os
estudadas, o que corrobora as evidências municípios com maiores níveis de
encontradas. desenvolvimento em saúde apresentaram
menor incidência de crimes. Além disso, é
válido destacar que a educação, mesmo
5 CONSIDERAÇÕES FINAIS tendo importância na literatura abordada, não
pode ser explorada em função da sua não
A criminalidade é um problema social que
significância estatística nos modelos
impacta a sociedade em diversos aspectos,
estudados. Porém, por apresentar sinais
ao passo que questões relacionadas ao crime
negativos nas análises de regressões
mostram-se de difícil mensuração devido à
realizadas, estão coerentes com a literatura,
complexidade do assunto. A partir disso,
pois a falta de investimentos e de educação
estabelecer determinadas relações
da população tende a potencializar aspectos
considerando aspectos econômicos, sociais e
da criminalidade.
geográficos com a criminalidade demonstra-
se como um passo importante para o maior Por fim, quando discutidas as possíveis
conhecimento do assunto, haja vista que se diferenças geográficas na prática de crimes,
encontram estudos em pequeno número. é válido destacar a maior incidência de
crimes na região Nordeste do estado.
Dessa forma, procurou-se estudar os tipos de
Resultado que se justifica por ser essa a
crimes nos municípios do Rio Grande do Sul,
região com maiores níveis de renda e com
no período de 2007 a 2010, quanto à relação
grandes aglomerações urbanas, aspectos
com o nível de desenvolvimento. Os
que elevam a propensão à prática criminosa.
resultados permitiram verificar que os
aspectos relacionados com a renda Diante das evidências encontradas, o
demonstram-se como fatores potencializados presente trabalho apresenta como limitações
do crime no estado. Isso porque, a não consideração de outras questões na
principalmente, os crimes contra o patrimônio, composição dos modelos e não apresentação
são motivados por questões econômicas, dos resultados de criminalidade para cada
financeiras e materiais e, portanto, regiões município. Além disso, ressalta-se o reduzido
com maiores níveis de renda tendem a ser número de informações. A partir disso, para
mais atrativas para os praticantes de atos futuros estudos, sugere-se ampliar o modelo
criminosos. aplicado e utilizar-se de outras metodologias
a fim de avaliar aspectos da criminalidade em
A saúde revelou uma relação inversa com a
cada município, caso da utilização dos
prática criminosa. Isso se deve ao fato de
métodos de Análise Envoltória de Dados
que, juntamente com questões de educação
(DEA) e da construção de índices.
e moradia, os aspectos relacionados à saúde
são potencializadores de atos criminosos
quando são menos desenvolvidos, ou seja,

REFERÊNCIAS Natureza, Uberlândia, v. 22, n. 1, p. 151-163 ,


2010.
[1] ALONSO, J. A. F. O cenário regional [5] BATELLA, W. B.; DINIZ, A. M. A.;
gaúcho nos anos 90: convergência ou mais TEIXEIRA, A. P. Explorando os determinantes da
desigualdade? Indicadores Econômicos FEE, Porto geografia do crime nas cidades médias mineiras.
Alegre, v.31, p.97-118, 2003. Revista de Biologia e Ciências da Terra, v. 8, n. 1,
[2] BALTAGI, B. H. Econometric Analysis of p. 21-31, 2008.
Panel Data. 3 ed. England: John Wiley & Sons, [6] BEATO FILHO, C. C. Determinantes da
2005. Criminalidade em Minas Gerais. Revista Brasileira
[3] BARCELLOS, O.; PEREZ, R. T. A dinâmica de Ciências Sociais, São Paulo, v. 13, n. 37, p. 74-
da criminalidade brasileira entre a exclusão social 89, 1998.
e o crescimento econômico. Perspectiva [7] BECKER, G. S. Crime and punishment: an
Econômica, v. 5, n. 2, p. 92-112, 2009. economic approach. Journal of Political Economy,
[4] BATELLA, W. B.; DINIZ, A. M. A. Análise Los Angeles, v. 76, n. 1, p. 1-50, 1968.
espacial dos condicionantes da criminalidade
violenta no estado de Minas Gerais. Sociedade &

Tópicos em Administração - Volume 2


47

[8] BRICEÑO-LEÓN, R. La nueva violencia Paulo sob a ótica da economia do crime. Revista
urbana de America Latina. Sociologias, Porto Econômica do Nordeste, v. 31, n. especial, p. 898-
Alegre, a. 4, n. 8, p. 34-51, 2002. 918, 2000.
[9] CERQUEIRA, D.; LOBÃO, W.; CARVALHO, [20] RESENDE, J. P. de; ANDRADE, M. V.
A. X. O jogo dos sete mitos e a miséria da Crime Social, Castigo Social: Desigualdade de
segurança pública no Brasil. Texto para Discussão, Renda e Taxas de Criminalidade nos Grandes
IPEA, Rio de Janeiro, n. 1144, 2005. Municípios Brasileiros. Estudos Econômicos, São
[10] GORDON, M. B.; IGLESIAS, J. R.; Paulo, v. 41, n. 1, p. 173-195, 2011.
SEMESHENKO, V.; NADAL, J. P. Crime and [21] ROLNIK, R. Exclusão territorial e violência.
punishment: the economic burden of impunity. The São Paulo em perspectiva, v. 13, n. 4, p. 100-111,
European Physical Journal B, v. 68, p. 133-144, 1999.
2009. [22] SCALCO, P. R.; AMORIN, A. L.; GOMES,
[11] GREENE, W. H. Econometric analysis.6 A. P. Eficiência técnica da Polícia Militar em Minas
ed. New Jersey: Prentice Hall, 2008. Gerais. Nova Economia, Belo Horizonte, v. 22, n. 1,
[12] FARIAS, C. A.; FIGUEIREDO, A. M.; LIMA, p. 165-190, 2012.
J. E. de. Dependência Espacial e Análise de [23] SECRETARIA DE SEGURANÇA PÚBLICA
Agrupamento de Municípios para Diferentes Tipos DO RIO GRANDE DO SUL – SSP-RS. (2014).
de Crime em Minas Gerais. Reuna, Belo Horizonte, Indicadores Criminais SSP de 2002 a 2012.
v. 13, n. 3, p. 67-83, 2008. Disponível em:
[13] FUNDAÇÃO ECONÔMICA E ESTATÍSTICA <http://www.ssp.rs.gov.br/?model=conteudo&menu
– FEE. (2014). FEE Dados. Disponível =191>. Acesso em: 23.09.,2014.
em:<http://www.fee.rs.gov.br/feedados/consulta/sel [24] SHIKIDA, P. F. A.; OLIVEIRA, H. V. N.
_modulo_pesquisa.asp>. Acesso em: 23.09.,2014. Crimes violentos e desenvolvimento
[14] FUNDAÇÃO ECONÔMICA E ESTATÍSTICA socioeconômico: um estudo sobre a mesorregião
– FEE. (2014). Idese. Disponível em: Oeste do Paraná. Revista Brasileira de Gestão e
<http://www.fee.rs.gov.br/indicadores/indice-de- Desenvolvimento Regional, Taubaté, v. 8, n. 3, p.
desenvolvimento-socioeconomico/>. Acesso em: 99-114, 2012.
07.09.,2014. [25] SILVA, B. F. A. Coesão Social, Desordem
[15] NASCIMENTO, J. S.; CARDOSO, B. F.; Percebida e Vitimização em Belo Horizonte. 2004.
BRITO, M. A. de; CORONEL, D. A. Estudo dos Dissertação (Mestrado em Sociologia) –
Determinantes do Crime de Homicídio no Município Universidade Federal de Minas Gerais. Belo
de Aracaju-SE. Revista Economia & Gestão, v. 11, Horizonte, MG.
n. 25, p. 62-88, 2011. [26] SILVA, M. A. e; MARION FILHO, P. J.;
[16] OLIVEIRA, C. A. de. Análise espacial da CORONEL, D. A. Análise das desigualdades entre
criminalidade no Rio Grande do Sul. Revista de os COREDES no período de 1990 a 2003: origem e
Economia, v. 34, n. 3, a. 32, p. 35-60, 2008. evolução. Perspectiva Econômica, São Leopoldo,
[17] OLIVEIRA, C. A. de. Criminalidade e o v. 3, n. 1, p. 62-81, 2007.
Tamanho das Cidades Brasileiras: Um enfoque da [27] SOARES, T. C.; ZABOT, U. C.; RIBEIRO,
Economia do Crime. Texto para Discussão, G. M. Índice geral de criminalidade: uma
CEPEAC, Passo Fundo, n. 14, 2005. abordagem a partir da análise envoltória de dados
[18] OLIVEIRA, C. A. de; MARQUES JÚNIOR, para os municípios catarinenses. Leituras de
L. dos S. Uma Análise da Criminalidade na Região Economia Política, Campinas, v. 19, p. 89-109,
do Corede Produção a partir da Teoria Econômica 2011.
do Crime (1997-2005). Análise, Porto Alegre, v. 20, [28] TODARO, M. P.; SMITH, S. C. Economic
n. 2, p. 65-83, 2009. Development. Tenth Edition, Addison –Wesley,
[19] PEREIRA, R.; FERNANDEZ, J. C.; A Boston, 2009.
criminalidade na região policial da grande São

Tópicos em Administração - Volume 2


48

Capítulo 5

Nelson Guilherme Machado Pinto


Vanessa Piovesan Rossato
Daniel Arruda Coronel

Resumo: O objetivo deste trabalho consistiu em analisar o desempenho da


atividade agropecuária a partir de modelos de eficiência e eficácia nas regiões da
América Latina por meio da utilização de dados referentes à década de 2000.
Percebe-se que mesmo a atividade agropecuária sendo de fundamental relevância
para os países da América Latina, há grande amplitude dos resultados referentes a
essas atividades, visto que para cada país observa-se um impacto diferenciado.
Nesse sentido, nota-se que as regiões com maiores índices de eficiência
encontram-se no Uruguai, Panamá e Argentina e a eficácia tem maiores valores na
Argentina, Brasil e Uruguai. Destaca-se um nível maior de atenção aos países de El
Salvador e Paraguai que possuem baixos índices nos aspectos estudados
comparados com as demais regiões. Referente à relação dos dois aspectos
estudados, nota-se que para a América Latina a eficácia impacta positivamente a
eficiência no contexto da agropecuária.

Palavras chave: América Latina; Análise Envoltória de Dados; Análise de Índices.

Tópicos em Administração - Volume 2


49

1INTRODUÇÃO voltada na utilização dos recursos nesse


processo, ou seja, os melhores métodos para
A atividade agropecuária é de fundamental
que os objetivos sejam conquistados
importância para a sociedade humana, visto
(McAULEY; DUBERLEY; JOHNSON, 2007).
que é através dela que se consegue suprir as
principais necessidades alimentícias dos Em virtude de maior preocupação com o meio
indivíduos. Nesse sentido, as práticas ambiente buscou-se construir através de
agropecuárias possuem alto patamar de valor indicadores, panoramas que demonstrem as
para as questões sociais e econômicas das regiões que não estão utilizando os recursos
organizações (CERDÁ, 2003). A atividade no da natureza de forma correta, para que após
setor primário da economia foi uma das as analises dos resultados possam ser
primeiras tarefas econômicas criadas políticas públicas que auxiliem as
desempenhadas nas regiões da América organizações na busca de um processo mais
Latina, como por exemplo, no Brasil em que eficiente e eficaz no ramo agropecuário
se começou a desenvolver as práticas (MIHAIU; OPREANA; CRISTESCU, 2010;
econômicas na colonização com a cultura da RAHMATI; JALIL, 2014).
cana- de- açúcar, e após essa com a
Os termos eficiência e eficácia podem ser
produção de café.
considerados partes integrantes de um
Salienta-se que além do ramo agropecuário sistema aberto da administração, ou melhor,
ser de suma importância para suprir as eles formam uma rede em que um fator
necessidades alimentícias da população, ele depende do outro, sendo que alguma
também é responsável por gerar emprego e alteração em algum componente influencia
renda a muitas pessoas que vivem nesse nos demais. Desse modo, pode-se inferir que
meio. Diante desse cenário, é vital conhecer em muitos casos a eficiência é uma condição
os aspectos que caracterizam essa atividade indispensável para que a eficácia ocorra. Por
(COSTA et al., 2013). Grande parte dos conseguinte, a eficiência está mais
países da América Latina tem o trabalho no relacionada às maneiras para atingir os
campo como principal fonte de renda sendo objetivos, enquanto que a eficácia enfoca no
este um dos principais fatores de divisas resultado propriamente dito que é
internacionais, ou seja, a diferença entre as pertencente à atividade (MIHAIU; OPREANA;
importações e exportações. Assim, no âmbito CRISTESCU, 2010).
geral, a agropecuária tem por objetivo a
Como a realidade dos países da América
maximização do crescimento econômico e
Latina está atrelada nas atividades
consequentemente o desenvolvimento das
pecuaristas e extrativista essa análise de
regiões (ECHEVERRÍA, 1998).
eficiência e eficácia é levada para essas
Nesse contexto, as organizações buscam regiões. A partir disso, busca-se atualizar as
ampliar seu desempenho nas atividades informações existentes a respeito do tema e
usando novas tecnologias, técnicas e meios focar para uma visão mais crítica acerca dos
que alavanquem ainda mais a produção e resultados obtidos para que possam ser
satisfaçam os anseios da comunidade geral. tomadas atitudes que minimizem as práticas
Entretanto, com a exploração em demasia que estão em desacordo ao desempenho da
dos recursos naturais o ser humano molda o organização de maneira exploratória.
meio em que vive, fazendo com que os
É fato que as atividades agropecuárias geram
recursos provenientes da natureza se tornem
impactos na sociedade, podendo ser positivo
escassos. Portanto, é essencial estudar o
com a produção de alimentos, porém
comportamento agropecuário das regiões a
negativo quando prejudica a natureza
fim de constatar as questões relacionadas ao
fazendo com que os recursos se tornem
desempenho da organização, verificar se está
escassos. Segundo Braga et al. (2004) o
aceitável, isto é, quando os anseios da
trabalho agropecuário transforma o meio
sociedade são satisfeitos pelo uso correto dos
gerando consequências na sociedade e no
meios.
ambiente. Diante disso, trabalhos que
O desempenho está relacionado a efetivação analisem o desempenho das atividades
e o cumprimento das tarefas. Assim, existem agropecuárias embasados nos modelos de
dois conceitos capazes de promover o eficiência e eficácia através de indicadores
entendimento dessa situação. Dessa forma, a são de fundamental importância (PINTO;
eficácia caracteriza-se pela obtenção dos CORONEL, 2016).
resultados, enquanto que a eficiência está

Tópicos em Administração - Volume 2


50

Diante dessa conjuntura, como forma de Em virtude destes termos possuírem certa
aprofundar os conhecimentos e o debate relação, é fundamental que as empresas
sobre as questões agropecuárias no cenário busquem estratégias para manter uma
da América Latina o problema dessa sincronia dessas práticas dentro da
pesquisa tem por finalidade esclarecer a organização, assim a instituição obtenha
seguinte pergunta: Qual o desempenho da benefícios com maior produtividade e
agropecuária nos países da América Latina engajamento. Para que uma corporação
sob o olhar da eficiência e eficácia a partir obtenha progresso é necessário que os
dos anos 2000? Assim, o objetivo deste fatores que compõem uma organização
trabalho consistiu em analisar o desempenho estejam em harmonia dentro do sistema
da atividade agropecuária a partir de modelos caracterizado como aberto, justamente por
de eficiência e eficácia nas regiões da esse conjunto manter certo grau de
América Latina por meio da utilização de dependência com os outros como é o caso
dados referentes à década de 2000. da eficiência e eficácia. Assim, esses termos
fazem parte do todo e que para existir a
O presente artigo está estruturado, além
eficácia, a eficiência deve ser uma condição
desta introdução, em quatro seções. Na
essencial (MOUZAS, 2006; MIHAIU;
segunda seção, é esboçado o referencial
OPREANA; CRISTESCU, 2010; OZCAN,
teórico. Na terceira, apresentam-se os
2014).
procedimentos metodológicos aplicados, na
seção seguintes os resultados são analisados Dado que a economia de muitos países da
e discutidos. Por fim, são apresentadas as América Latina é centrada na produção de
principais conclusões do trabalho. sementes, tais como Brasil, Argentina e
México, é normal que os mesmos utilizem
diversos meios e recursos modernizados no
2 REFERENCIAL TEÓRICO ciclo produtivo de determinado produto, a fim
de alavancar seu faturamento. Dessa forma,
Nas organizações um dos principais objetivos
pode-se deduzir que o período produtivo de
dos colaboradores é alcançar os propósitos
diversa cultura afeta negativamente a
da empresa constantemente, de modo a
natureza, com perda da biodiversidade,
utilizar os recursos ofertados pela entidade de
depredando as vegetações nativas e,
forma correta. Uma das maneiras de
portanto, alterando o clima dos locais (PINTO;
mensurar o desempenho das instituições é
CORONEL; CONTE, 2014).
estudar a eficiência e eficácia das mesmas, a
fim de se obter os resultados desejados com Destaca-se que as atividades agropecuárias
o mínimo de insumos possíveis no processo, são de grande relevância para a sociedade,
avaliando e elaborando formas para que isso pois é através delas que se tem a produção
aconteça. Assim, gerir com eficácia significa de alimentos para o suprimento das
atingir propriamente os resultados que foram necessidades básicas da população,
projetados. Em relação à eficiência, destaca- desenvolvendo a região economicamente.
se que é o método utilizado com os recursos Nesse contexto, é essencial que o
disponíveis para se obter o resultado. Assim, desempenho da atividade de cada região
enquanto a preocupação da eficácia são com seja explicitado para que as ações
os resultados de um processo a eficiência pertinentes possam ser tomadas (PINTO
está preocupada com os seus meios, isto é, CORONEL, 2016).
com aquilo que é realizado para se chegar a
um resultado (PINTO; CORONEL, 2016).
3 PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS
É importante ressaltar que mesmo podendo
haver confusão em relação ao significado O presente estudo analisou quantitativamente
desses tópicos o conteúdo dos mesmos é as questões de eficiência e eficácia dentro da
divergente, já que sua aplicabilidade afeta realidade agropecuária da América Latina. O
diretamente a empresa, ou seja, muitas vezes modelo de eficiência foi realizado com a
uma organização eficiente não é eficaz. Do técnica de eficiência de Análise Envoltória de
mesmo modo que podem existir organizações Dados (DEA). Já o modelo de eficácia foi
ineficientes, mas que sejam eficazes, isto é, realizado pela elaboração de um índice a fim
cumprem com seu objetivo, mas muitas vezes de mensurar esse aspecto. Pela metodologia
utilizam métodos inapropriados (GUZMÁN, de cálculo da DEA e do índice e as
2003; MOUZAS, 2006). consequentes análises quantitativas
realizadas para verificar os resultados, o

Tópicos em Administração - Volume 2


51

trabalho pode ser classificado como objetos de análise (INIDE, 2001, INDEC, 2002;
quantitativo. Ademais, o trabalho caracteriza- IBGE, 2006; INE, 2007; INEGI, 2007; DCEA,
se pelo cunho descritivo, pois foram 2008; EL SALVADOR, 2008; DIEA, 2011;
realizadas observações e análises a fim de INEC, 2011; INEI, 2012). As variáveis são
registrar e correlacionar fenômenos sem embasadas na disponibilidade das fontes de
manipulá-los (RAMPAZZO, 2002). Isso porque dados e nos determinantes da agropecuária
os aspectos de eficiência e eficácia foram apontados pela literatura acadêmica,
discutidos na realidade agropecuária latino- principalmente os relacionados a mão de
americana. obra, condições da atividade, meio ambiente,
desenvolvimento econômico e infraestrutura
O universo deste estudo é a região da
(WONG; CARVALHO, 2006; SILVA; GÓMEZ;
América Latina, que engloba países das três
CASTAÑEDA, 2010; PERAL; GARCÍA-
subdivisões do continente da América. Esses
BARRIOS; CASALDUERO, 2011; COSTA et
países são agrupados nessa região latino-
al., 2013).
americana devido às características de
colonização em que foram estruturadas as Como os resultados foram construídos a partir
suas sociedades com pontos em comum. O dos dados de eficiência e eficácia, as
principal deles são as línguas faladas nos informações foram separadas em entradas
países dessa região, que primordialmente são (input) e saídas (output). Nesse sentido, as
derivadas do latim (espanhol, francês e variáveis de entrada utilizadas para o estudo
português). foram: área de produção da atividade
agropecuária, quantidade de
Com uma área de aproximadamente
estabelecimentos agropecuários, número de
21.069.501 km², essa região é composta por
indivíduos que moram em domicílios ligados a
20 países e mais duas dependências, que
atividade agropecuária, número de indivíduos
são Guiana Francesa e Porto Rico. Esses
que trabalham na atividade agropecuária,
países estão divididos nas três subdivisões
mecanização dos estabelecimentos e uso de
do continente americano, isto é, América do
corretivos e assistência técnica. Em relação
Sul, América Central e América do Norte. Na
às variáveis de saída, estas são
América do Sul, fazem parte da América
representadas pela quantidade de produção
Latina os seguintes países: Argentina, Bolívia,
vegetal, quantidade de produção animal,
Brasil, Chile, Colômbia, Equador, Paraguai,
quantidade de produção total, quantidade de
Peru, Uruguai e Venezuela. Na América
produção do principal produto e área de
Central, são também países latino-americanos
produção não degradada.
Costa Rica, Cuba, El Salvador, Guatemala,
Haiti, Honduras, Nicarágua, Panamá e A eficiência e a eficácia podem não ser
República Dominicana. Por fim, na América alcançadas conjuntamente, porém, mesmo
do Norte, o México também é um país assim, seus resultados podem estar
componente da América Latina. interligados. Assim, não é possível, por meio
de uma metodologia única, medir esses dois
Diante do universo de estudo, sua amostra foi
aspectos conjuntamente, conforme algumas
filtrada entre os países que possuem censos
evidências na literatura (BILOSLAVO;
agropecuários publicados de forma
BAGNOLI; FIGELJ, 2013). Diante desse
estruturada a partir dos anos 2000 e nos
contexto é que duas técnicas distintas foram
quais esses censos englobassem as variáveis
desenvolvidas para avaliar separadamente
de degradação ambiental agropecuária.
essas questões.
Diante desses critérios, a amostra deste
estudo será restringida a 10 países, ou seja, Assim, para a análise de eficiência foi
Argentina, Brasil, Chile, El Salvador, México, aplicada a Análise Envoltória de Dados (DEA)
Nicarágua, Panamá, Paraguai, Peru e que é uma técnica de programação linear em
Uruguai. Mais especificamente, a amostra do que há a proposição de se medir a eficiência
estudo é composta pelas subdivisões em de processos por meio de análise de insumos
estados/províncias/departamentos/regiões de (inputs) e produtos (outputs) não
cada um desses países. Ao todo, serão paramétricos de um processo (BANKER;
pesquisadas 236 subdivisões, as quais serão CHARNES; COOPER, 1984). De forma
os objetos de análise. sucinta, a DEA estabelece fronteiras de
eficiência por meio da comparação do
Para a construção do índice, foram utilizadas
desempenho de vários grupos de tomadores
11 variáveis, que foram coletadas, em cada
de decisão (Decision Making Unit ou DMU),
um dos censos agropecuários dos 10 países
estabelecendo aquelas que são referências

Tópicos em Administração - Volume 2


52

às demais (benchmark). De maneira distinta


do que outras metodologias, tal como a
econometria, a DEA não é voltada a uma (2)
tendência central, mas, sim, para as
fronteiras. Portanto, de acordo com Lins et al. onde:
(2007), o problema de otimização da DEA IBE j corresponde ao Índice Bruto de Eficácia
para cada DMU analisada pode ser expresso
da seguinte forma: da j-ésima subdivisão estudada; i refere-se ao
número de variáveis de eficácia incluídas no
modelo; IV j é índice parcial de cada variável
∑𝑗 𝑢𝑗 𝑌𝑗𝑘 𝑢𝑌𝑘
= da j-ésima subdivisão estudada. (1)
∑𝑖 𝑣𝑖 𝑋𝑖𝑘 𝑣𝑋𝑘
Por meio da interpolação do IBE,
considerando o maior valor como 100 e o
em que menor valor como zero, é obtido o Índice de
Eficácia (IE). Portanto, da mesma forma que a
u e v são pesos ou multiplicadores; 𝑋𝑘 são os eficiência, a eficácia neste estudo será
insumos; 𝑌𝑘 são os produtos; e por analisada de forma relativa, visto que a escala
𝑢𝑌
convenção, 𝑘 ≤ 1, o que gera índices de utilizada tem seus valores baseados na
𝑣𝑋𝑘
média.
eficiência entre 0 e 1.
Entretanto, há evidências de que eficiência e
Referente à eficácia, que verifica os
eficácia estão relacionadas e, principalmente,
resultados obtidos por meio de um objeto de
que a eficiência é um caminho para a eficácia
análise, os índices que visam quantificar
ser alcançada (MOUZAS, 2006; MIHAIU;
esses resultados são uma das metodologias
OPREANA; CRISTESCU, 2010; OZCAN, 2014;
mais utilizadas para tratar desse aspecto. A
PINTO; CORONEL, 2016). Assim, análises
eficácia pode ser calculada por meio de um
econométricas de regressão foram realizadas
índice que demonstra questões relacionadas
a fim de verificar o grau de influência da
ao resultado de uma ação (BILOSLAVO;
eficiência na eficácia da realidade estudada.
BAGNOLI; FIGELJ, 2013). Não há padrão
estabelecido quando índices são Portanto, para verificar a relação entre
desenvolvidos e a metodologia a ser utilizada eficiência e eficácia, foi realizada uma análise
irá variar dependendo dos responsáveis na de regressão a fim de verificar o grau de
elaboração do índice. Neste estudo, levando influência da eficiência na eficácia da
em consideração a realidade estudada e a realidade estudada (GREENE, 2008). Através
ausência de evidências empíricas do cálculo da DEA para a eficiência e do IE
estruturadas em análises de eficácia com a para eficácia, há a possibilidade de verificar
utilização de índices, o Índice de Eficácia (IE) como a eficácia agropecuária é impactada
utilizado foi uma adaptação dos índices de pela eficiência agropecuária na América
desenvolvimento rural utilizados por Latina. Portanto, utilizam-se os resultados da
Kageyama (2004), Conterato, Schneider e Análise Envoltória de Dados como proxy para
Waquil (2007), Melo e Parré (2007) e Pinto e a eficiência e o os resultados do Índice de
Coronel (2016). Eficácia como proxy para a eficácia da
agropecuária. O impacto da eficiência na
Para a construção do Índice de Eficácia,
eficácia na realidade agropecuária pode ser
devem-se levar em consideração todos os
verificado na seguinte análise regressiva:
resultados, isto é, apenas as saídas e não as
entradas e o processamento de um processo.
A construção do IE pode ser realizada a partir
da construção do Índice Bruto de Eficácia IEk = α + β1 Eficiênciak + μk (3)
(IBE) e a transformação do IBE para IE. Com
esse procedimento, cada variável de saída
será um indicador parcial. O somatório onde:
desses índices parciais resultará no Índice 𝐼𝐸𝑘𝑗 é o Índice de Eficácia da j-ésima
Bruto de Eficácia (IBE) (KAGEYAMA, 2004; subdivisão de análise estudada; 𝐸𝑓𝑖𝑐𝑖ê𝑛𝑐𝑖𝑎𝑘𝑗
MELO; PARRÉ, 2007; PINTO; CORONEL, nível de Eficiência do j-ésima subdivisão de
2016). análise estudada; 𝛼 coeficiente angular; 𝛽1 é
coeficiente angular de relação das variáveis

Tópicos em Administração - Volume 2


53

da regressão; e 𝜇𝑘𝑗 é o termo de erro 4 ANÁLISE E DISCUSSÃO DOS


aleatório. RESULTADOS
Portanto, utiliza-se a eficiência como variável 4.1 EFICIÊNCIA AGROPECUÁRIA
independente e a eficácia como dependente.
Baseado nos dados das onze variáveis de
A partir da Equação 3 foi possível verificar a entradas e saídas para o cálculo de eficiência
estimação do modelo por um método de
agropecuária na década de 2000, a análise
regressão simples. A fim de verificar se os foi desenvolvida no âmbito dos 236 objetos
dados da regressão apresentavam
de análise e as análises foram agrupadas
heterocedasticidade e autocorrelação, foram para os dez países da América Latina
realizados os testes de White e Durbin-
pesquisados, com a obtenção do valor médio.
Watson, respectivamente. Os softwares Dessa forma, os países em termos de
utilizados, para a estimação, foram o Statiscal
eficiência agropecuária são apresentados por
Package for the Social Sciences (SPSS) 20.0, meio da Tabela 1.
DEAP 2.1 e Stata 14.0, que realizaram,
respectivamente, os procedimentos de
análise de índices, DEA e a análise de
regressão.

Tabela 1 – Média, número de casos, desvio-padrão, máximo e mínimo dos valores de eficiência para
os países da América Latina
Países Média Ranking Número de Casos Desvio-padrão Máximo Mínimo
Uruguai 60,41 1º 19 2,61 69,00 54,27
Panamá 56,24 2º 12 10,70 74,52 35,86
Argentina 56,09 3º 23 3,49 66,48 51,16
Nicarágua 54,60 4º 15 5,70 70,64 50,08
Brasil 51,23 5º 27 9,50 72,48 34,16
Chile 50,39 6º 52 11,49 100,00 1,01
México 47,80 7º 32 2,43 49,63 36,9
Peru 44,12 8º 25 6,42 60,09 30,46
Paraguai 39,08 9º 17 14,36 57,96 0,00
El Salvador 37,11 10º 14 5,57 42,78 24,47
América 49,70 - 236 0,07 100 0
Latina
Fonte: Elaborado pelos autores.

Pela Tabela 1 constata-se que a média dos atividade agropecuária e isso,


países da América Latina é 49,70%. Ademais, consequentemente, afeta fortemente o meio
é perceptível que existe uma grande ambiente com o uso de corretivos e técnicas
disparidade nos valores médios de eficiência para o aumento da produtividade. Por esse
dos países, com uma diferença em torno de motivo é essencial que se tenha políticas
23% entre o país de maior contra o de menor públicas que minimizem os impactos
eficiência. Esse fato pode ser justificado em negativos e alinhem o desenvolvimento de
virtude de alguns países como Uruguai e forma sustentável, justificando o bom
Panamá utilizarem técnicas para minimizar os desempenho relacionado com a eficiência
efeitos negativos da produção agropecuária (THEIS; FERNANDES, 2002; STUKER, 2003).
(REVELES, 2006).
Os resultados satisfatórios de algumas
Já a Argentina, terceiro país de maior média, regiões latinos americanos podem ser
é um país com elevado envolvimento na explicados pela concentração de algumas

Tópicos em Administração - Volume 2


54

medidas de políticas públicas que auxiliem na 4.2 EFICÁCIA AGROPECUÁRIA


recuperação das terras agropecuárias,
Com base nas variáveis de saídas para o
gerando como consequência um alinhamento
cálculo de eficácia agropecuária na década
do progresso da agropecuária com
de 2000, a análise foi desenvolvida no âmbito
desenvolvimento sem prejudicar o meio. A
dos 236 objetos de análise e as análises
partir disso fica explícito um cenário de
foram agrupadas para os dez países da
heterogeneidade entre os países da América
América Latina pesquisados, com a obtenção
Latina. Assim, cada país oferece
do valor médio. Dessa forma, os países em
particularidades de forma múltiplas, diferentes
termos de eficácia agropecuária são
e complexas, sendo heterogêneos entre si
apresentados por meio da Tabela 2.
(REVELES, 2006; RAMÍREZ-MIRANDA, 2014).

Tabela 2 – Média, número de casos, desvio-padrão, máximo e mínimo dos valores de eficácia para
os países da América Latina
Países Média Ranking Número de Casos Desvio-padrão Máximo Mínimo
Argentina 75,15 1º 23 6,34 83,73 60,40
Brasil 73,64 2º 26 12,89 100,00 43,15
Uruguai 67,17 3º 19 7,39 78,64 40,36
México 62,58 4º 31 8,63 77,56 36,63
Nicarágua 56,98 5º 16 5,31 64,75 46,87
Panamá 54,63 6º 9 15,65 78,85 28,51
Peru 54,32 7º 25 6,98 67,03 41,44
Chile 51,57 8º 54 13,34 68,24 0,00
Paraguai 49,68 9º 17 11,58 69,27 21,30
El Salvador 31,41 10º 14 5,64 38,63 21,18
América Latina 49,70 - 237 9,37 100,00 0,00
Fonte: Elaborado pelos autores.
Visualizando a Tabela 2 constata-se que a posição dos países com menor valor de
média latina americana para a eficácia é de eficácia constata-se que El Salvador
49,70%. Ademais, nota-se que no topo do encontra- se nessa posição. Isso pode ser
ranking dos países com maior eficácia justificado pelo simples fato deste país não ter
encontra-se a Argentina. Essa situação pode economia fortemente ligada ao ramo
ser comprovada já que esse país tem sua agropecuário, tendo outras fontes de renda
base econômica fundamentada nas para a população, destacando-se muitas
atividades agropecuárias evidenciando seu indústrias relacionadas ao processamento de
alto grau de eficácia. Ressalta-se que as bebidas, móveis e cimento (EL SALVADOR,
próximas três posições são ocupadas por 2016).
Brasil, Uruguai e México nas posições de
A partir dos dados obtidos é possível inferir
segundo, terceiro e quarto lugar do ranking,
que mesmo a atividade agropecuária sendo
respectivamente. Esse país tem forte relação
de fundamental importância na agropecuária
com o agronegócio além de possuírem uma
desses países, há divergência entre as
maior área de terras ligadas a essa atividade
regiões, como é o caso de Panamá que
(REVELES, 2006; CEPALSTAT, 2015).
possui representantes nos dois lados da
Além disso, verifica-se que o maior desvio tabela, tanto em maiores valores de eficácia,
padrão dos países encontra-se no Panamá, tanto para menores valores. Isso pode ser
inferindo-se, portanto que algumas regiões justificado, pois algumas regiões podem
desse país possuem suas posições receber mais políticas públicas do que outras
alternadas nos índices com melhores e piores e terem uma concentração histórica mais
graus de eficácia. Quando se analisa a última acentuada que outras, mesmo sendo do

Tópicos em Administração - Volume 2


55

mesmo país (REVELES, 2006; RAMÍREZ- A fim de verificar se a eficiência é um


MIRANDA, 2014). caminho para a eficácia pela estimação da
análise de regressão, verificou-se, conforme
Tabela 3, a relação entre eficiência e eficácia.
4.3 EFEITOS DA EFICIÊNCIA NA EFICÁCIA
NA AGROPECUÁRIA LATINO-AMERICANA
Tabela 3 - Resultados da estimação da regressão do modelo de estudo pelo método de Mínimos
Quadrados Ordinários (MQO) por meio de Erros Padrão Robusto (VCE) com variável dependente
eficácia agropecuária
Variável Coeficiente Estatística t Significância
const 12,8442 2,0188 0,0446
Eficiência Agropecuária 0,918187 7,0252 0,0001**
R² ajustado = 0,393405
Nota: Valores com dois asteriscos (**) denotam coeficientes significativos ao nível de 5% e com três
asteriscos (***) denotam coeficientes significativos ao nível de 1%.
Fonte: Elaborado pelos autores.
Para este estudo, os dados apresentaram Por conseguinte, o ramo agropecuário é de
heterocedasticidade e autocorrelação. Para fundamental importância para muitos países
isso, foi necessário realizar a regressão por da América Latina que tem sua base
MQO com erros-padrões consistentes com econômica centrada na atividade
heterocedasticidade e autocorrelação (VEC) agropecuária. Dessa forma, é necessário que
(GREENE, 2008). Ao analisar o R², que cada vez mais que se invista em melhorias
significa o poder de explicação desse nas técnicas, nos meios e procedimentos
modelo, tem-se um valor de 39,34% da para que consequentemente o rendimento do
eficiência agropecuária tem relação com a objetivo final seja alcançado com mais êxito e
eficácia agropecuária. Nos aspectos menores custos, intensificando cada vez mais
relacionados à significância, nota-se que as o setor agropecuário.
mesmas são viáveis visto que as variáveis
apresentam significância menor que 0,05 em
relação a variável dependente sendo possível 5 CONSIDERAÇÕES FINAIS
que o coeficiente entre as duas variáveis
A eficiência e a eficácia são de extrema
fosse estudado. Além disso, o coeficiente
importância no estudo da Administração, pois
apresenta valor positivo, e como é
quando esse conteúdo se ramifica para
estatisticamente significativo, comprovam a
outras questões, como na atividade
relação entre eficiência e eficácia
agropecuária, em que torna-se ainda mais
mencionada nesse trabalho (MOUZAS, 2006;
rico por estar expandindo uma teoria nas mais
MIHAIU; OPREANA; CRISTESCU, 2010;
diversas áreas como, no caso dessa
OZCAN, 2014; PINTO; CORONEL, 2016).
pesquisa, para o ramo agropecuário. À
Explorando o valor do coeficiente de medida que a eficiência enfatiza os meios,
regressão, percebe-se que maiores valores procedimentos para o alcance de um
de eficiência provocam maiores índices de resultado, a eficácia evidencia o resultado
eficácia no ramo agropecuário latino- propriamente dito, ou seja, o objetivo final.
americano. Portanto, a partir do estudo Dessa forma, esse trabalho buscou analisar a
constata-se que um aumento de 1% na eficiência e eficácia fundamentada nas
eficiência agropecuária nos países da questões empíricas alicerçadas na
América Latina leva a uma alavancagem de bibliografia do tema.
0,91% na eficácia da América Latina.
Assim, percebe-se que mesmo a atividade
Diante desse cenário, é visível que os agropecuária sendo de fundamental
avanços dos resultados finais da atividade relevância para os países da América Latina,
agropecuária da América Latina, ou seja, a há grande amplitude dos resultados
eficácia está diretamente relacionada com a referentes a essas atividades, visto que para
eficiência. Assim, percebe-se que uma cada país gera um impacto diferenciado.
melhoria nos meios das atividades favorece Esses resultados são fruto de concentrações
no resultado final, aumentando cada vez mais históricas que fazem com que os países
o desempenho no setor. tenham grande envolvimento com a

Tópicos em Administração - Volume 2


56

agricultura e consequentemente a sendo, portanto, uma aproximação já que


necessidade de aperfeiçoar cada vez mais muitas vezes, não se consegue deter
seus métodos para o alcance dos objetivos completamente os dados de eficiência e
finais em detrimento de outras realidades. eficácia na atividade agropecuária. Ademais,
a amostra de estudo foi restringida para dez
Além disso, o entendimento teórico sobre
países da América Latina, impossibilitando a
eficiência e eficácia comprova na prática que
conclusão de um dado final para toda a
a eficiência está diretamente relacionada à
região latino-americana.
eficácia. O caso desse estudo contribui para
corroborar essa discussão, demonstrando Por conseguinte, propõem-se para pesquisas
que os aspectos são interligados e que futuras, o estudo da eficiência e eficácia em
muitas vezes para se melhorar o resultado ciclos maiores de tempo aumentando o
final, isto é, a eficácia pode ser melhorada os desempenho do trabalho. Também se sugere
processos anteriores, isto é, a eficiência dos que sejam estudados os aspectos de
meios que irão gerar resultados. eficiência e eficácia em outras regiões do
mundo para que futuramente se possa fazer
Essa pesquisa ficou limitada a um curto
comparação com essas realidades e com
período de tempo, dificultando o alcance para
mais estudos do tema verificar se a hipótese
os próximos anos. Além disso, observa-se
de que a eficiência induz a eficácia pode ser
que a interpretação da eficiência e eficácia
ratificada novamente ou refutada para novos
com as variáveis selecionadas tem grande
ambientes.
amplitude com a realidade desses elementos

REFERÊNCIAS agropecuário nos municípios. Revista de


Administração, v. 48, n. 2, p. 295-309, 2013.
[1] BANKER, R. D.; CHARNES, A.; COOPER,
W. W. Some models for estimating technical and [8] DIRECCIÓN DE CENSOS Y
scale inefficiencies in data envelopment analysis. ESTADÍSTICAS AGROPECUÁRIA - DCEA. (2008).
Management Science, v. 30, n. 9, p. 1078-1092, Censo Nacional Agropecuário. Disponível em:
1984.
[9] <http://www.mag.gov.py/Censo/Book%20
[2] BILOSLAVO, R.; BAGNOLI, C.; FIGELJ, R. 1.pdf>. Acesso em: 24.05., 2016.
R. Managing dualities for efficiency and
[10] DIRECCIÓN DE ESTADÍSTICAS
effectivness of organisations. Industrial
AGROPECUÁRIAS - DIEA. (2011). Censo General
Management & Data Systems, v. 113, n. 3, p. 423-
Agropecuário. Disponível em:
442, 2013.
[11] <http://redatam.org/binury/RpWebEngine.
[3] BRAGA, T. M.; FREITAS, A. P. G. de;
exe/Portal?BASE=CGA2011&lang=esp>.
DUARTE, G. de S.; CAREPA-SOUZA, J. Índices de
Acessoem: 24.05., 2016.
sustentabilidade municipal: o desafio de mensurar.
Nova Economia, v. 14, n. 3, p. 11-33, 2004. [12] ECHEVERRÍA, R. G. Agricultural Research
Policy Issues in Latin America: An Overview. World
[4] CERDÁ, A. C. Agricultura Eficiente y
Development, v. 26, n. 6, p. 1103-1111, 1998.
Agricultura Eficaz. Mediterráneo Económico, n. 4,
p. 219-230, 2003. [13] EL SALVADOR – Ministério do Comércio e
Indústria. (2008). Censo Agropecuário. Disponível
[5] COMISSÃO ECONÔMICA PARA A
em:
AMÉRICA LATINA E O CARIBE BASE DE DADOS E
<http://www.mag.gob.sv/index.php?option=com_p
PUBLICAÇÕES ESTATÍSTICA- CEPALSTAT.
hocadownload&view=category&id=35&Itemid=229
(2015). Panorama Regional da América Latina e
>. Acesso em: 24.05., 2016.
Caribe. Disponível
em:<http://estadisticas.cepal.org/cepalstat/WEB_C [14] GREENE, W. H. Econometric analysis.6
EPALSTAT/Portada.asp>. Acesso em: 10.08., 2016. ed. New Jersey: Prentice Hall, 2008.
[6] CONTERATO, M. A.; SCHENEIDER, S.; [15] GUZMÁN, C. A. El Logro del Value for
WAQUIL, P. D. Desenvolvimento rural no Estado do Money en La Gestión Pública: Consideraciones en
Rio Grande do Sul: uma análise multidimensional torno a los indicadores de eficiencia, eficacia y
de suas desigualdades regionais. REDES, Santa economia. Revista Contabilidade & Finanças –
Cruz do Sul, v. 12, n. 2, p. 163-195, 2007. USP, n. 32, p. 99-110, 2003.
[7] COSTA, C. C. de M.; ALMEIDA, A. L. T. [16] INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA
de; FERREIRA, M. A. M.; SILVA, E. A. E ESTATÍSTICA – IBGE. (2006). Censo
Determinantes do desenvolvimento do setor Agropecuário de 2006. Disponível

Tópicos em Administração - Volume 2


57

em:<http://www.sidra.ibge.gov.br/bda/pesquisas/c Journal of Economic Forecasting, v. 4, p. 132-147,


a/default.asp?o=2&i=P>. Acesso em: 24.05., 2016. 2010.
[17] INSTITUTO NACIONAL DE ESTADÍSTICA - [28] MOUZAS, S. Efficiency versus
INE. (2007). Censo Agropecuário e Florestal. effectiveness in business networks. Journal of
Disponível em: Business Research, v.59, p. 1124-1132, 2006.
<http://www.ine.cl/canales/chile_estadistico/censos
[29] OZCAN, Y. A. Health Care Benchmarking
_agropecuarios/censo_agropecuario_07.php>.
and Performance Evaluation: An Assessment Using
Acesso em: 24.05., 2016.
Data Envelopment Analysis (DEA). 2ª ed. New York:
[18] INSTITUTO NACIONAL DE ESTADÍSTICA Springer Science + Business Media, 2014.
Y CENSOS - INDEC. (2002). Censo Nacional
[30] PERAL, A. T.; GARCÍA-BARRIOS, L.;
Agropecuário. Disponível em:
CASALDUERO, A. G. Agricultura y Conservación
<http://www.indec.gov.ar/nivel4_default.asp?id_tem
em Latinoaméricaenelsiglo XXI: ¿Festejamos la
a_1=3&id_tema_2=8&id_tema_3=87>. Acesso em:
‘transiciónforestal’ o construímos activamente ‘la
24.05., 2016.
matriz de lanaturaleza’? Interciencia, v. 36, n. 7, p.
[19] INSTITUTO NACIONAL DE ESTADÍSTICA 500-5007, 2011.
Y CENSO - INEC. (2011). Censo Nacional
[31] PINTO, N. G. M.; CORONEL, D. A. .
Agropecuário. Disponível
Efficiency and efficacy model application for the
em:<https://www.contraloria.gob.pa/inec/publicacio
Brazilian livestock farming activity: mapping with
nes/subcategoria.aspx?ID_CATEGORIA=15&ID_S
panel data. Academy of Agriculture Journal, v. 1, p.
UBCATEGORIA=60&ID_IDIOMA=1>. Acesso em:
42-52, 2016.
24.05., 2016.
[32] PINTO, N. G. M.; CORONEL, D. A.;
[20] INSTITUTO NACIONAL DE ESTADÍSTICA
CONTE, B. P. Mapping of Environmental
E INFORMATICA - INEI. (2012). Censo
Degradation in Regions and States of Brazil.
Agropecuário Nacional. Disponível em:
WSEAS Transactions on Business and Economics,
<http://censos.inei.gob.pe/cenagro/tabulados/>.
v. 11, p. 453-464, 2014.
Acesso em: 24.05., 2016.
[33] RAMÍREZ-MIRANDA, C. Critical reflections
[21] INSTITUTO NACIONAL DE ESTADÍSTICA
on the New Rurality and the rural territorial
Y GEOGRAFÍA - INEGI. (2007). Censo Agrícola,
development approaches in Latin America.
Ganadero y Forestal. Disponível em:
Agronomía Colombiana, v. 32, n. 1, p. 122-129,
<http://www3.inegi.org.mx/sistemas/tabuladosbasic
2014.
os/default.aspx?c=17177&s=est>. Acesso em:
24.05., 2016. [34] RAHMATI, E.; JALIL, S. H. A. Efficiency
and Effectiveness of Marketing of the Hotels in
[22] INSTITUTO NACIONAL DE
Kuala Lumpur. International Journal of Economics
INFORMACIÓN DE DESARROLLO - INIDE. (2001).
and Management, v. 8, n. 1, p. 195-214, 2014.
Censo Nacional Agropecuário. Disponível em:
<http://www.inide.gob.ni/cgibin/RpWebEngine.exe/ [35] RAMPAZZO, L. Metodologia científica:
PortalAction?&MODE=MAIN&BASE=CENAGRO01 para alunos dos cursos de graduação e pós-
&MAIN=WebServerMain.inl>. Acesso em: 24.05., graduação. São Paulo: Loyola, 2002.
2016.
[36] REVELES, I. L. A. Balance del
[23] KAGEYAMA, A. Desenvolvimento Rural: modeloagroexportadoremAmérica Latina al
conceito e medida. Cadernos de Ciência & comenzar el siglo XXI. Revista de Estudios Rurales,
Tecnologia, v. 21, n. 3, p. 379-408, 2004. v. 7, n. 13, p. 1-25, 2006.
[24] LINS, M. E.; LOBO, M. S. C.; SILVA, A. C. [37] SILVA, J. G. da; GÓMEZ, S. E.;
M.; FISZMAN, R.; RIBEIRO, V. J. P. O uso de CASTAÑEDA, R. S. “Boom” agrícola e persistência
Análise Envoltória de Dados (DEA) para avaliação da pobreza na América Latina: algumas reflexões.
de hospitais universitários brasileiros. Ciência & Revista NERA, a. 13, n. 16, p. 7-21, 2010.
Saúde Coletiva, Rio de Janeiro v. 12, n. 4, p. 985-
998, 2007. [38] STUKER, H. Uma Metodologia de
Avaliação da Eficiência Agropecuária de
[25] McAULEY, J.; DUBERLEY, J.; JOHNSON, Municípios. 2003. Tese (Doutorado em Engenharia
P. Organization Theory: challenges and de Produção) – Universidade Federal de Santa
perspectives. London: Prentice Hall, 2007. Catarina. Florianópolis, SC.
[26] MELO, C. O. de.; PARRÉ, J. L. Índice de [39] THEIS, I. M.; FERNANDES, C. A. Políticas
desenvolvimento rural dos municípios públicas e degradação ambiental em Itajaí, SC.
paranaenses: determinantes e hierarquização. Geosul, v. 17, n. 33, p. 95-116, 2002.
Revista de Economia e Sociologia Rural, Rio de
Janeiro, v. 45, n. 2, p. 329-365, 2007. [40] WONG, L. L. R.; CARVALHO, J. A. O
rápido processo de envelhecimento populacional
[27] MIHAIU, D. M.; OPREANA, A.; do Brasil: sérios desafios para as políticas
CRISTESCU, M. P. Efficiency, Effectiveness and públicas. Revista Brasileira de Estudos
Performance of the Public Sector. Romanian Populacionais, v. 23, n. 1, p. 5-26, 2006.

Tópicos em Administração - Volume 2


58

Capítulo 6
Maiquel Vinicius Fill Guindani
Nelson Guilherme Machado Pinto

Resumo: Este estudo se limita a uma cooperativa localizada no estado do Rio


Grande do Sul, que possui em suas estratégias o auxílio da ferramenta de
orçamento. A fim de estudar o orçamento da cooperativa, o objetivo desse estudo
consiste em descrever os tipos e os modelos de orçamentos utilizados na
cooperativa, analisar as principais contas do orçamento da cooperativa e propor
planos de ação para a melhoria do processo. Em síntese, a cooperativa como um
todo apresenta um bom desenvolvimento de seu sistema orçamentário, seja no
planejamento ou no controle, porém precisa melhorar em alguns aspectos. É
necessário que a organização tome ações no planejamento e controle
orçamentário, seja em previsibilidade econômica mais ajustada com o esperado ou
nas próprias ferramentas de controle orçamentária, buscando como objetivo a
assertividade na realização do orçado. Outro fator a ser considerado é capacitação
dos empregados na gestão orçamentária, pois é visível a dificuldade exposta por
parte dos empregados responsáveis pela administração.

Palavras chave: Orçamento, Planejamento, Controle.

Tópicos em Administração - Volume 2


59

1INTRODUÇÃO a gestão econômica do sistema. Esses


imprevistos devem ser levados para o
As organizações atualmente reconhecem a
aspecto positivo, ou seja, é necessário que se
importância do planejamento e controle para
tome como base para a melhoria contínua do
uma boa gestão de suas atividades. Todas as
processo orçamentário, pois há uma série de
atividades humanas devem possuir metas e
vantagens que precisam ser exploradas para
objetivos, a fim de alcançar sucesso no
viabilização desse instrumento (PADOVEZE,
desempenho de suas funções. Desta forma, a
2007).
tomada de decisão é um processo de suma
importância para atividade empresarial, Diante desse contexto, este estudo se limita a
sendo necessário procurar estratégias e uma cooperativa localizada no estado do Rio
mecanismos que forneçam informações Grande do Sul, que possui em suas
antecipadas para resultados futuros. estratégias o auxílio da ferramenta de
orçamento. A fim de estudar o orçamento da
A partir disso, o planejamento e controle nas
cooperativa, o objetivo desse estudo consiste
organizações é um ponto de partida e
em descrever os tipos e os modelos de
também de continuidade que possibilita a
orçamentos utilizados na cooperativa, analisar
previsão interna e externa de estratégias,
as principais contas do orçamento da
fatos e oportunidades de mercados que
cooperativa e propor planos de ação para a
propiciam em geral, maior promoção e
melhoria do processo.
expansão das metas e objetivos traçados
pelo negócio. Portanto, o planejamento e O presente artigo está estruturado, além
controle são funções que estão atreladas a desta introdução, em quatro seções. Na
todos os setores da empresa e possibilitam segunda seção, é apresentado o referencial
mensurar previsões futuras e verificar o teórico. Na terceira, apresentam-se os
andamento das mesmas. procedimentos metodológicos aplicados e, na
seção seguinte, os resultados são discutidos
A partir dessa discussão, o setor financeiro
e analisados. Por fim, são apresentadas as
das organizações tem um papel fundamental
principais conclusões do trabalho.
neste processo, principalmente no contexto
de orçamento organizacional, pois o
orçamento possibilita verificar e analisar se o
2 REFERENCIAL TEÓRICO
plano da empresa terá meios financeiros para
sustentar as ações propostas e ao mesmo 2.1 CONCEITUAÇÃO E OBJETIVO DO
tempo assegurar que consiga manter os ORÇAMENTO
custos de seu funcionamento. Dessa maneira,
Para poder acompanhar a concorrência e as
uma abordagem adequada do planejamento
rápidas mudanças do mercado, a gestão
de negócios é aquela que considera o
organização dos dias atuais tem percebido a
orçamento como a forma de planejamento
possibilidade de delinear suas atividades com
das ações futuras e controle do resultado
antecipação e usar técnicas que possibilitem
futuro (FREZATTI, 2009).
garantir coordenação e controle das
Ademais, percebe-se que o contexto atual operações. Assim, a concretização dos
das organizações pressupõe uma crescente objetivos torna-se mais provável com a
procura pelo controle de suas finanças, a fim utilização de planejamento e controle dos
de racionalizar ao máximo os seus custos e resultados (WELSCH, 2015).
para aumentar o faturamento e
Aparentemente, o orçamento está presente e
consequentemente os seus lucros. Dessa
vem sendo utilizado como ferramenta de
forma, o objetivo principal do orçamento é
gestão desde a idade das cavernas, quando
agir como guia, também controlar,
já era necessário estabelecer previsões de
contingenciar e organizar os gastos, de forma
alimentação com base em informações e
que a receita estipulada consiga produzir o
cenários internos e externos. Neste contexto,
resultado positivo desejado (LUNKES, 2009).
o orçamento se originou da própria
Entretanto, o orçamento está sujeito a sobrevivência do indivíduo e sendo elaborado
diversos imprevistos que são inerentes ao constantemente com o passar do tempo
processo de orçar qualquer situação. Apesar (GUINDANI et al., 2012).
desses imprevistos, não há dúvida que
No contexto empresarial, o orçamento
orçamento é fundamental para as
começou a ser utilizado em 1919 na empresa
organizações atuais, pois é uma ferramenta
Dupont e foi implementado pelo seu gerente
vital para a atividade da controladoria e para

Tópicos em Administração - Volume 2


60

financeiro. No Brasil, o orçamento começou a


ser utilizado nas organizações de forma mais
2.2 TIPOS DE ORÇAMENTO
estruturada a partir da década de 1940,
porém passou a ser utilizado com mais É importante que se observe qual tipo ou
freqüência a partir da década de 1970 método de orçamento se utilizar, pois ele está
(LUNKES, 2009). ligado diretamente ao modelo de gestão e à
cultura orçamentária interna. Cabe aos
O orçamento é abordado em termos amplos
gestores designar qual orçamento melhor se
como um enfoque sistemático e formal à
enquadrara e que melhor se adaptara a
execução das responsabilidades de
realidade organizacional. Assim, o objetivo
planejamento e controle da administração.
principal é fazer com que os conceitos e
Essa definição implica em elementos de
modelos levem aos resultados esperados ou
realismo, flexibilidade e atenção permanente
planejados anteriormente (PADOVEZE, 2012).
às funções de planejamento e controle da
administração. Além disso, para muitas Segundo Padoveze e Taranto (2009), o
organizações bem coordenadas, o orçamento primeiro conceito de orçamento foi o
tem sido visto como um modo de administrar, orçamento estático, também chamado de
focalizando especificamente uma abordagem budget. Este tipo de orçamento é o mais
racional e sistemática ao planejamento global comum e o mais utilizado pelas organizações.
e também a um controle ativo, dando ênfase à Nele as peças orçamentárias partem da
flexibilidade realista na execução das tarefas fixação do volume de produção ou de
administrativas (WELSCH, 2015). vendas, para então se determinar os volumes
do restante dos setores e atividades. O
O orçamento deve reunir diversos objetivos
orçamento é considerado estático quando a
organizacionais na busca da expressão do
administração do sistema não permite
planejamento e controle dos resultados.
nenhuma alteração das peças orçamentárias
Assim, é importante destacar que o plano
(WELSCH, 2015).
orçamentário não é apenas prever o que vai
acontecer e seu respectivo controle, mas sim, Entretanto, atualmente é comum que os
estabelecer e coordenar objetivos pra todos orçamentos apresentarem ciclos
os departamentos da organização, orçamentários anuais e, portanto, as vezes
possibilitando com que todos os integrantes um ano pode ser um período muito longo para
trabalhem sinergicamente em busca dos determinados mercados ou ramos que a
planos de lucro (PADOVEZE, 2007). empresa atua (LUNKES, 2009). Assim,
Welsch (2015), caracteriza um outro tipo de
É incerto que as técnicas, os modelos
orçamento, isto é, o orçamento contínuo que é
matemáticos e simulações substituam o
normalmente usado quando pode ser feito
julgamento humano na gestão das atividades
planos orçamentários para curtos períodos e
complexas. Por outro lado, esses
também caso seja necessário planejar de
instrumentos, podem ter utilidade no aumento
novo ou até mesmo refazer projeções devido
significativo no grau de sofisticação da
a circunstâncias inesperadas.
administração e fornecer mais objetivos e
eficiência aos julgamentos pessoais Outro tipo de orçamento é denominado
(WELSCH, 2015). orçamento base zero (OBZ), que é conhecido
como o principal modelo de conceito de
Diante disso, o orçamento retrata-se com o
orçamento. Isso porque ele possibilita uma
objetivo geral de servir como plano e controle,
maior robustez no processo de planejamento
se especificando em estabelecer os objetivos
e controle orçamentário, permite o dever de
distintos a cada departamento organizacional.
cada administrador justificar seu pedido de
Assim, alguns dos principais objetivos
verba. Nesse processo, todas as atividades e
específicos do orçamento são: controlar,
operações são identificadas em “pacotes de
estabelecer projeções, estabelecer
decisão”, avaliados e priorizados por ordem
coordenação, estabelecer uma fonte de
de importância, a partir de uma análise
informação e estabelecer alinhamentos gerais
sistemática (PADOVEZE, 2012).
em áreas específicas. Cabe observação, que
objetivo geral das organizações deve vir Para o orçamento ter sucesso nas
apresentado em objetivos específicos, que organizações atuais, é imprescindível a
exibirão seu nível de complexidade de acordo utilização de bases e métodos sólidos que
com o tamanho da organização (GUINDANI et possibilitem projetar e orçar um período futuro
al., 2012). em determinado tempo. Uma das dificuldades

Tópicos em Administração - Volume 2


61

encontradas é que ao se orçar para um trabalho procura identificar e caracterizar


determinado período, tem-se que recorrer a pontos específicos sobre o orçamento em
métodos de estimativas. Para tentar diminuir uma cooperativa do Rio Grande do Sul.
essa dificuldade, o método encontrado foi o
O tratamento e a análise dos dados tiveram
orçamento flexível, pois o mesmo proporciona
como base a descrição e discussão dos
mudanças no decorrer do período
resultados do período estudado,
orçamentário (WELSCH, 2015).
comparando-os entre orçado e realizado.
Quanto ao processo decisório, o orçamento Após isso, foi organizada uma tabela
pode seguir três tipologias que são: top- explicando as variações das principais contas
down, bottom-up e u-plannig. O orçamento para o ano de 2015 na cooperativa objeto de
top-down ocorre quando os objetivos do análise.
orçamento são estabelecidos pelos níveis
É importante destacar que segundo os
mais altos na hierarquia organizacional, sendo
procedimentos orçamentários, contas que
o oposto do orçamento bottom-up o qual é
variam entre orçado e realizado em mais de
mais participativo do que o primeiro. Por fim,
5% merecem um maior destaque, o que foi
o orçamento u-planning, também chamado de
realizado no presente estudo (WELSCH,
orçamento misto, é o meio termo dos dois
2015). Além disso, foram consideradas
tipos de orçamento citados anteriormente
apenas as contas da cooperativa que tiveram
(WELSCH, 2015).
orçamento anual maior que um milhão de
reais no ano para objeto de análise. Isso
porque se tem um entendimento que essas
3 PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS
contas irão ocasionar um maior impacto nos
No decorrer do trabalho, buscou-se por uma resultados orçamentários gerais da
pesquisa e análise documental da organização e representam mais de 80% do
cooperativa em estudo, conforme Gil (2010) é valor do orçamento geral da cooperativa.
recomendável que o material consultado seja
Além disso, foi realizada uma caracterização
interno da organização. Já Cervo, Bervian e
inicial da forma que o orçamento é realizado
Silva (2007), afirmam que na pesquisa
na cooperativa. Por último, foram explicitados
documental são investigados documentos
alguns planos de ação para que o processo
com o propósito de descrever e comparar
orçamentário da cooperativa possa evoluir a
usos e costumes, tendências, diferenças e
partir dos dados analisados. É valido destacar
outras características. O autor descreve que
que foram utilizados softwares para essas
as bases documentais possibilitam analisar e
atividades, sendo eles o SIGA – Oracle
estudar tanto a realidade presente como o
(sistema interno da cooperativa) e Microsoft
passado. A partir disso, a pesquisa
Excel.
documental foi realizada nos orçamentos
divulgados internamente na cooperativa em
estudo.
4 ANÁLISE E DISCUSSÃO DOS
Essa pesquisa documental teve dois RESULTADOS
objetivos. O primeiro deles foi o de coletar os
4.1 CARACTERIZAÇÃO DO ORÇAMENTO DA
dados orçamentários das principais contas
COOPERATIVA
que irão subsidiar as análises do estudo.
Além disso, a pesquisa documental procurou O orçamento tem grande papel na
dar subsídios para que a descrição do cooperativa em estudo, sendo bem
processo orçamentário na cooperativa fosse organizado, executado e controlado.
realizada. Praticamente, a maioria dos setores e
atividades está diretamente envolvida no
Além disso, verifica-se que o trabalho
processo orçamentário, desde a alta
caracteriza-se como um estudo de caso.
administração até o nível operacional. Há uma
Nessa perspectiva, Yin (1989, p. 23) afirma
cobrança e respeito por parte dos
que "o estudo de caso é uma inquirição
colaboradores diante do sistema, seja nas
empírica que investiga um fenômeno
disponibilidades de recursos orçados ou na
contemporâneo dentro de um contexto da
realização dos mesmos conforme planejado
vida real, quando a fronteira entre o fenômeno
anteriormente.
e o contexto não é claramente evidente e
onde múltiplas fontes de evidência são Neste contexto, a organização possui um
utilizadas". O estudo de caso do referente sistema de planejamento e controle

Tópicos em Administração - Volume 2


62

orçamentário interno que é ratificado em pode possuir revisões durante o exercício


diversas ramificações pelas unidades projetado. Portanto, a cooperativa adota um
condizentes, sejam elas comerciais industriais método de custeio flexível, sendo esse
ou de logística. Em especial na cooperativa descrito por Welsch (2015) como qualquer
em estudo, a indústria possui um tentativa de ajuste de estimativa orçamentária
planejamento orçamentário relacionado a de despesa ao nível de produção ou
despesas, orçamento esse denominado atividade de um centro de responsabilidade,
Gerenciamento Matricial de Despesas (GMD), em consideração ao efeito do volume ou nível
sistema esse gerado por um software da de atividade sobre as despesas.
Oracle. Sendo assim, todas essas despesas
Nesse contexto, a cooperativa em estudo
são baseadas e divididas em um plano de
utiliza essa ferramenta orçamentária em
produção anual elaborado pelo setor de
benefício de necessidades de ajuste no
Planejamento e Controle Produtivo embasado
plano, ajustes esses realizados na maioria
no calendário de produção. Os demais gastos
dos casos dentro do período determinado.
e custos são distribuídos em outras
Assim, geralmente no 2º semestre do período
plataformas orçamentárias.
(julho ou agosto) são avaliados e executados
Quanto ao método de base de dados, a os ajustes conforme a necessidade. Essas
cooperativa utiliza o método orçamentário alterações só podem ser realizadas após
base zero (OBZ), onde todos os dados e liberação do setor de Planejamento e
informações são calculados com base ao Orçamento, pois geralmente há uma análise
plano de produção anual. Este tipo de geral do orçamento e posteriormente
orçamento tem como objetivo diminuir gastos repassada as unidades que necessitam das
e despesas, buscando aumentar o resultado alterações condizentes. Outra justificativa leva
da cooperativa. Conforme Padoveze (2012) em consideração o fato de ocorrer
essa modalidade orçamentária tem por base divergências, erros ou até mesmo cenários
questionar cada gasto, despesa ou estrutura expostos pelo mercado econômico, onde são
buscando verificar a real necessidade dele. tomadas as ações cabíveis para prevenção
ou oportunismo ao fato gerador.
Essas informações levam em consideração
premissas orçamentárias geradas pelo setor Quanto ao processo decisório, à cooperativa
de Planejamento e Orçamento geral da utiliza o método de u-plannig também
organização, que denominam as diretrizes e chamado de orçamento misto, que segundo
ações a serem consideradas no processo Welsch (2015) é o tipo de orçamento em que
orçamentário. Em geral, o orçamento possui os níveis mais altos da administração traçam
95 contas orçamentárias, que levam em as diretrizes e os objetivos em função dos
consideração o plano de produção anual. meios disponíveis e, com parâmetros as
unidades elaboram os planos de trabalho que
Em relação ao horizonte de planejamento a
serão consolidados e apoiados pela alta
cooperativa adota um sistema de
administração. Sendo assim, o setor de
planejamento periódico e contínuo, onde é
Planejamento Estratégico da cooperativa
elaborado e considerado um período anual
simula determinados cenários e em cima
(janeiro à dezembro) para o determinado
desses cenários são tomadas as decisões
exercício, sendo orçado geralmente no 2º
para o processo orçamentário, decisões
semestre do exercício anterior. Outro fator diz
essas determinadas e repassadas pela
respeito à abordagem contínua, pois o
diretoria e demais responsáveis.
orçamento é renovado ano a ano, isso ocorre
em reflexo ao motivo de possuir contas Após essas decisões, são estipuladas
orçamentárias com variância de quantidade, premissas orçamentárias dos responsáveis
ou seja, é determinado em cima do plano de pelos pacotes de contas orçamentárias
produção anual. Conforme Lunkes (2009), o Posteriormente a isso, é encaminhado o
orçamento contínuo deve levar em planejamento orçamentário ao setor de
consideração a variação que o orçamento Planejamento e Orçamento onde após
possui no tempo, ou seja, quando um período análises, ajustes e aprovação da diretoria são
termina outro é acrescentado ao final do efetivadas para o próximo exercício.
período fixo. Particularmente na cooperativa em estudo,
essas diretrizes e premissas são avaliadas
Apesar de o orçamento possuir um período
pelos gestores responsáveis e posteriormente
anual e contínuo, em decorrência do
repassadas em reunião para os demais
surgimento de variáveis imprevistas, o mesmo

Tópicos em Administração - Volume 2


63

indivíduos designados em elaborar o do mês anterior, nesta reunião são tratados


orçamento. assuntos relativos ao cumprimento dos
indicadores orçamentários, conforme previsto
Dentro da cooperativa o setor incumbido pela
anteriormente, e também cobrança das
total gestão do mesmo é a Controladoria,
justificativas dos desvios caso ocorridos no
onde ocorre o planejamento e controle de
período, assim como os planos de ação com
todo o processo orçamentário. Após a
os respectivos prazos. Ainda, são avaliados e
geração dos dados e informações, há uma
discutidos assuntos e diretrizes a serem
avaliação da controladoria e chefias da
tomadas a respeito do orçamento da
unidade e posteriormente o envio para o setor
cooperativa.
de Planejamento e Orçamento coorporativo
para análise, adequação e validação. Há
também gestores de pacote na própria
4.2 VARIAÇÕES NAS PRINCIPAIS CONTAS
unidade, ou seja, empregados encarregados
por determinadas contas do orçamento, onde A partir da divisão das contas que passaram
os mesmos possuem total responsabilidade. de um milhão no orçamento anual de 2015
para a cooperativa objeto de estudo, verifica-
Após o fechamento do período orçamentário
se que doze contas representaram mais de
mensal, o setor de Controladoria faz uma
80% do orçamento da cooperativa para o ano
varredura nas contas orçamentárias à procura
de 2015. As doze contas são: remuneração,
de não conformidades atreladas aos
férias, 13º salário, INSS, FGTS, manutenção
indicadores. Caso ocorra, é comunicado ao
de edifícios, manutenção de máquinas e
gestor de pacote da conta para que tome as
equipamentos, conservação e limpeza,
devidas providências. Sendo assim, o setor
depreciação fiscal, energia elétrica,
de Controladoria estará cobrando uma
participação em resultados e transporte de
justificativa nas reuniões de trabalho.
empregados.
Todo início de mês é efetuada uma reunião de
trabalho referente à realização do orçamento

Tabela 1 – Análise do orçado, realizado e da diferença das principais contas da cooperativa para o
ano de 2015
Transporte de Variação Variação
Empregados Orçado Realizado Monetária Percentual
Remuneração 17.416.153,69 17.079.622,21 336.531,48 1,93%
Férias 2.171.280,70 2.183.424,62 -12.143,92 -0,56%
13º Salário 1.623.823,57 1.547.702,28 76.121,29 4,69%
INSS 2.661.168,69 2.561.487,57 99.681,12 3,75%
FGTS 1.950.821,18 1.831.462,42 119.358,76 6,12%
Mant, de Edifícios 1.427.939,00 1.610.329,53 -182.390,53 -12,77%
Mant. de Máq. e Equip. 1.696.681,00 1.906.265,39 -209.584,39 -12,35%
Conservação e Limpeza 1.012.129,00 907.009,58 105.119,42 10,39%
Depreciação Fiscal 1.122.781,40 934.555,28 188.226,12 16,76%
Energia Elétrica 5.418.531,00 5.591.172,81 -172.641,81 -3,19%
Participação em
Resultados 2.938.771,15 1.430.946,66 1.507.824,49 51,31%
Transporte de
Empregados 1.023.212,00 969.391,27 53.820,73 5,26%
Total 40.463.292,38 38.553.369,62 1.909.922,76 4,72%
Fonte: Relatórios da cooperativa pesquisada, 2015.

Tópicos em Administração - Volume 2


64

Conforme a Tabela 1 nota-se que a alguns aspectos. Ao mesmo tempo, os


cooperativa não obteve êxito no cumprimento indivíduos em maioria envolvidos no
das contas orçadas durante o ano. Em uma processo, buscam um bom progresso e
análise geral, é visível que em todas as realização do mesmo, sempre procurando de
contas ocorreram desvios, sejam eles a maior alguma forma aperfeiçoar e expandir o
ou a menor, desvios esses causados por sistema orçamentário interno. Assim, devido
vários motivos. Deste modo, ficam evidentes às variáveis impostas, se faz necessário
que se tornam necessárias algumas programar melhorias e ajustes no processo
mudanças e/ou medidas de planejamento e orçamentário, procurando de uma maneira
controle orçamentário. geral, a excelência de todo o sistema.
Em relação aos desvios a maior, a Tabela 1
expõe as contas de manutenção com os
4.3 PLANOS DE AÇÕES
maiores índices de variação, despesas essas
geradas por fatores não previstos, como Com base na pesquisa realizada na
reformas, não conformidades em questões de cooperativa em estudo, pode-se perceber
segurança ou até mesmo por estratégias que a mesma obteve algumas dificuldades
internas de redução de estoque de em cumprir com o orçado em determinadas
manutenção. Em contrapartida, os desvios a contas orçamentárias analisadas. Ao mesmo
menor ocorreram de maneira mais expressiva, tempo, apesar das dificuldades encontradas
ou seja, em oito contas pesquisadas. A no decorrer do período, notou-se também
maioria desses desvios ocorreram devido à algumas melhorias que em uma
crise econômica e política que se iniciava no eventualidade podem ser analisadas e
mercado como um todo, tomando-se como implementadas na organização. Apoiado
estratégia empresarial a redução de custos e nessas variáveis optou-se pela aplicação de
despesas. uma ferramenta de gestão chamada de Plano
de Ação. É importante destacar que tais
Ao analisar o resultado geral, a organização
análises e sugestões serão focadas mais na
realizou um índice regular, com variação de
unidade em estudo como um todo.
4,72% no ano motivada principalmente pela
redução de gastos determinada pela Uma das variáveis a ser destacada é a melhor
cooperativa. Grande parte também deste observação dos históricos passados, pois por
índice, foi ocasionado pela sobra de mais que a cooperativa adote um orçamento
orçamento da conta de Participação em do tipo base zero é de grande relevância que
Resultados, onde a cooperativa não atingiu o a mesma opte por uma análise mais crítica e
resultado líquido desejado. Em complemento, atenciosa perante aos fatos transpassados
as contas analisadas individualmente, como anteriormente. É notável em algumas contas
no caso da conta de remuneração e férias, analisadas a falta de atenção em mudanças
são notáveis o bom desempenho anual. ou imprevistos que ocorreram no período, ou
até mesmo maior previsibilidade política e
Em síntese, a cooperativa como um todo
econômica, a citar de exemplo a conta de
apresenta um bom desenvolvimento de seu
energia elétrica que obteve grandes
sistema orçamentário, seja no planejamento
variações no decorrer do período.
ou no controle, porém precisa melhorar em

Quadro 1 – Plano de ação: análise dos históricos passados


Ação Descrição da Ação Responsáveis Referência
Melhor análise Buscar analisar com mais Responsáveis pelo Welsch (2015)
dos históricos de atenção os históricos planejamento e controle
períodos orçamentários de períodos orçamentários em geral
passados. passados, buscando levar e demais encarregados
em consideração mais pela previsão.
previsibilidade de mercado e
variáveis impostas em geral.
Fonte: Elaborado pelos autores, 2016.

Tópicos em Administração - Volume 2


65

Outra questão a ser considerada é o fato da Uma sugestão seria revisar o orçamento duas
realização de mais revisões orçamentárias vezes ao ano, e futuramente trimestralmente.
dentro do período anual. Isso porque no Sendo assim, com uma maior reavaliação do
período em estudo, notaram-se variações nas orçamento dentro do período proposto,
contas devido a imprevistos ou reajustes poderá se ter consequentemente mais
ocorridos dentro da competência do mesmo. exatidão das contas declaradas.

Quadro 2 – Plano de ação: revisões orçamentárias


Ação Descrição da Ação Responsáveis Referências
Mais revisões Atualmente a cooperativa Todos os envolvidos na Bruni e Gomes
orçamentárias executa revisões do programação (2010); Lunkes
dentro do período orçamento somente uma vez orçamentária da (2009); Padoveze
proposto. no período e quando muito unidade. e Taranto (2009);
necessário. Portanto, indica- Welsch (2015)
se optar por mais revisões
orçamentárias, duas no
primeiro ano para teste e
posteriormente trimestral.
Fonte: Elaborado pelos autores, 2016.

Atrelado a isso, é significativo que se tenha devido à mesma produzir e comercializar em


maior previsibilidade do mercado econômico, grande escala, seja no mercado nacional ou
pois se observou em algumas contas orçadas estrangeiro. Mas se faz necessário uma
que muitas de suas justificativas se análise mais crítica e aprofundada, pois
originaram ou tiveram consequência devido à conforme demonstra o estudo no período
atual conjuntura econômica e política analisado, muitas variações se deram pelo
instalada, que se propagou de forma maior não aprofundamento das variáveis
em 2016. Atualmente, a cooperativa analisa o mercadológicas.
mercado principalmente macroeconômico,

Quadro 3 – Plano de ação: previsibilidade política e econômica


Ação Descrição da Ação Responsáveis Referências
Melhor Crítica e aprofundada análise Diretoria em geral, Bruni e Gomes
previsibilidade política e econômica em setor de Planejamento (2010); Frezatti
política e âmbito geral, mas e Controle (2009); Lunkes
econômica. principalmente por parte das Orçamentário, (2009); Padoveze
chefias e setores Planejamento e Taranto (2009);
responsáveis pelo Estratégico e demais Sertek et al (2011);
planejamento. responsáveis pelo Welsch (2015)
planejamento e
controle orçamentário.
Fonte: Elaborado pelos autores, 2016.

De outro modo, outro ponto a ser destacado é vezes por falta de análise ou descuido das
o que tange a gestão orçamentária por parte ações tomadas, ou até mesmo por equívocos
dos responsáveis, principalmente no no planejamento orçamentário. Assim, muitas
cumprimento, ou seja, na realização do que dessas variações são ocasionadas pela má
se foi orçado. Atualmente a unidade possui gestão do orçamento e descontrole
uma deficiência na realização das despesas orçamentário.
por parte de suas chefias setoriais, muitas

Tópicos em Administração - Volume 2


66

Quadro 4 – Plano de ação: gestão orçamentária


Ação Descrição da Ação Responsáveis Referências
Melhor gestão Investindo em educação, Diretoria, Planejamento e Bruni e Gomes
orçamentária por treinamento e desenvolvimento Controle Orçamentário e (2010); Lunkes
parte de suas de seus empregados, pois são setor de Atração e (2009);
chefias eles umas das peças do Desenvolvimento de Padoveze e
conjunto que trarão resultados Pessoas. Taranto (2009);
a cooperativa. Welsch (2015)
Fonte: Elaborado pelos autores, 2016

Em contrapartida, sugere-se um maior indispensável à busca por ferramentas de


acompanhamento e controles rígidos pelo maior controle do que as já usadas, tentando
sistema orçamentário e chefias imediatas. É de certa forma barrar essas variações e ao
indispensável maior controle e cobrança, no mesmo tempo possuir uma cobrança por
caso da unidade em estudo, por parte das parte das chefias de maior intensidade do
chefias, ou seja, gerente e supervisores das que a atual, buscando como base a
áreas (administrativo, produção, manutenção excelência orçamentária e melhoria contínua.
e de controle de qualidade). É também

Quadro 5 – Plano de ação: controle orçamentário


Ação Descrição da Ação Responsáveis Referências
Atribuir maior Acompanhar cada item ou Gerência e Supervisores Bruni e Gomes
controle e contas mais relevantes do de áreas (administrativo, (2010); Frezatti
acompanhamento do orçamento por parte das produção, manutenção e (2009);
orçamento da chefias imediatas, buscando de controle de Guindani et al
unidade. controles mais eficientes para qualidade). (2012); Lunkes
avaliar se os resultados estão (2009);
conforme anteriormente Padoveze e
planejados, e também Taranto (2009);
ganhando tempo para Sertek et al
implantar medidas (2011); Welsch
necessárias em relação aos (2015)
desvios ocorridos.
Fonte: Elaborado pelos autores, 2016.

Resumindo, é necessário que a organização 5 CONSIDERAÇÕES FINAIS


tome ações no planejamento e controle
Devido às exigências do mercado econômico,
orçamentário, seja em previsibilidade
as organizações precisam estar cada vez
econômica mais ajustada com o esperado ou
mais atentas e capacitadas para a
nas próprias ferramentas de controle
competitividade instalada. Por isso, é
orçamentária, buscando como objetivo a
necessária a busca por uma gestão financeira
assertividade na realização do orçado. Outro
sólida, e acima disso, com maior
fator a ser considerado é capacitação dos
previsibilidade possível diante dos cenários
empregados na gestão orçamentária, pois é
propostos e atuais. Desta forma, o orçamento
visível a dificuldade exposta por parte dos
apresenta-se como uma excelente ferramenta
empregados responsáveis pela
para gestão de finanças, proporcionando
administração. Em síntese, é comum que a
maior visibilidade, planejamento e controle
cooperativa adote medidas mais condizentes
perante as ações tomadas.
com a realidade em relação a determinadas
contas, pois existem casos que é visível o não Constatou-se por meio das análises
atendimento das metas propostas. realizadas que a cooperativa não alcançou o
resultado esperado, que em todas as contas
orçamentárias pesquisadas houve variações,

Tópicos em Administração - Volume 2


67

sejam elas pequenas ou de grande Como limitações, o presente trabalho


significância. Uma das principais causas enfrentou a questão da limitação de
encontradas para justificar esses desvios, foi informações por parte da organização
à crise econômica e política que se instalava pesquisada na liberação dos dados para
no período, que fez com que a economia estudo. Outra dificuldade encontrada foi a
nacional retraísse e a internacional observa-se falta de conhecimento mais específico do
com mais atenção o mercado econômico. orçamento por parte dos empregados
responsáveis pelo planejamento e realização,
Em síntese, foram diversas variáveis que
principalmente por informações mais
contribuíram para o desempenho gerado,
aprofundadas, como no caso da elaboração e
mais sendo representada de forma principal
desvios ocorridos nas contas. Ainda, por
pela recessão econômica iniciada no ano.
trocas de gestores de alguns setores da
Neste contexto, a organização tomou como
unidade, como se pesquisava dados
meta redução de custos e despesas, tendo
passados, muitos deles não sabiam dizer a
como objetivo gastos apenas com essencial,
origem específica do desvio, causando assim
ou seja, gastos relacionados principalmente
uma maior demanda por informações
ao processo produtivo. Além disso, foram
condizentes as variações sofridas.
feitos cortes no quadro de mão-de-obra,
benefícios e ações sociais realizadas na Para trabalhos futuros, sugere-se verificar o
região. desempenho em termos de resultados, a
aplicação de revisões orçamentárias
Para a cooperativa a importância deste
trimestrais no orçamento anual. Outra
trabalho está em ajudá-la a aperfeiçoar o seu
sugestão de trabalho acadêmico, seria o
sistema orçamentário, reavaliando as
acompanhamento da implementação de
variações ocorridas, assim como, adotar
treinamentos para aperfeiçoamento dos
melhorias dentro seu processo. Da mesma
gestores responsáveis pela elaboração e
forma, o presente estudo oportunizará uma
realização orçamentária.
forma de a organização reavaliar as decisões
tomadas e priorizar o aumento do
conhecimento do sistema para os
responsáveis pela sua elaboração e
realização.

REFERÊNCIAS [7] PADOVEZE, C. L. Contabilidade gerencial:


um enfoque em sistemas de informação contábil. 5.
[1] BRUNI, A. L.; GOMES, S. M. da S. ed. São Paulo: Atlas, 2007.
Controladoria: conceitos, ferramentas e desafios. 1. [8] PADOVEZE, C. L. Orçamento empresarial.
ed. Salvador: Edufba, 2010. São Paulo: Pearson Education do Brasil, 2012.
[2] CERVO, A. L.; BERVIAN, A.; SILVA, R. da. [9] PADOVEZE, C. L.; TARANTO, F. C.
Metodologia científica. 6. ed. São Paulo: Pearson Orçamento empresarial: novos conceitos e
Prentice Hall, 2007. técnicas. São Paulo: Pearson Education do Brasil,
[3] FREZATTI, F. Orçamento empresarial: 2009.
planejamento e controle gerencial. 5 ed. São Paulo: [10] SERTEK, P.; GUINDANI, R. A.; MARTINS,
Atlas, 2009. T. S. Administração e planejamento estratégico. 3.
[4] GIL, A. C. Como elaborar projetos de ed. Curitiba: Ibpex, 2011.
pesquisa. 5. ed. São Paulo: Atlas, 2010. [11] WELSCH, G. A. Orçamento empresarial. 4.
[5] GUINDANI, A. A.; GUINDANI, R. A.; ed. São Paulo: Atlas, 2015.
CRUZ, J. A. W.; MARTINS, T. S. Planejamento [12] YIN, Robert K. - Case Study Research -
estratégico orçamentário. Curitiba: Intersaberes, Design and Methods. SagePublications Inc., USA,
2012. 1989.
[6] LUNKES, R. J. Manual de orçamento. 2ª
ed. São Paulo: Atlas, 2009.

Tópicos em Administração - Volume 2


68

Capítulo 7

Micaelli Lobo dos Santos


Debora Romanio
Ceyça Lia Palerosi Borges
Lucas Gazziero
Ana Paula Boeira

Resumo: O processo de urbanização resultou na utilização irresponsável dos


recursos naturais, impactando gravemente o meio ambiente. Com isso, a
sustentabilidade passou a ser discutida em diversas vertentes, sendo na arquitetura
um tema bastante retratado. Neste contexto o presente artigo contribuiu para
explanar a questão da arquitetura sustentável, bem como auxiliar no planejamento
estratégico da empresa “Arquitetura”, na qual por meio da matriz Swot identificou-
se todos os pontos fortes e fracos da organização e as oportunidades e ameaças
que o ambiente externo proporciona, permitindo que a análise da matriz cruzada
identificasse as estratégias a serem adotadas. Com base no planejamento
estratégico, os resultados obtidos proporcionaram um plano de ação que permitiu à
organização a adoção de práticas estratégicas sustentáveis voltadas ao
desenvolvimento da instituição no mercado competitivo.

Palavras chave: Sustentabilidade, Arquitetura Sustentável, Planejamento


Estratégico.

Tópicos em Administração - Volume 2


69

1 INTRODUÇÃO sustentabilidade ou desenvolvimento


sustentável integra dimensões muito amplas
A aceleração dos processos de urbanização
que não se restringem somente às questões
elevou o consumo dos recursos naturais e
ambientais. Para Curi (2011), os aspectos do
resultou na geração de poluição e resíduos,
crescimento econômico sustentável vão
causando negativos impactos
desde a questão demográfica, ecológica,
socioambientais. Juntamente a esse cenário,
social, econômica, cultural, institucional,
iniciou-se o movimento ambientalista, que se
política, até a ambiental.
consolidou a partir da criação de políticas
públicas que não integrassem somente As definições acima também se referem ao
práticas ambientais, mas também sociais. ambiente empresarial. Para muitas empresas
a sustentabilidade ainda é um desafio, apesar
Para Mikhailova (2004), a concepção de
de já ser um tema retratado há anos, muitas
justiça ambiental implica no direito a um
delas possuem dificuldades em mudar o seu
ambiente seguro e produtivo para todos. Para
objetivo que é expandir seus lucros. Sendo
tanto o papel da sociedade na construção de
assim, a sustentabilidade empresarial é
cidades socioambientalmente corretas auxilia
entendida como:
de forma significativa ao alcance do
desenvolvimento sustentável, na qual as [...] um conjunto de ações que uma
empresas são um dos principais agentes empresa toma, visando o respeito ao meio
econômicos que devem atuar nesta ambiente e o desenvolvimento sustentável
problemática. Entretanto para que estas da sociedade. Logo, para que uma
conquistem uma posição favorável no empresa seja considerada sustentável
mercado é preciso de um planejamento eficaz ambientalmente e socialmente, ela deve
que garanta o sucesso da organização. adotar atitudes éticas, práticas que visem
seu crescimento econômico (sem isso ela
O Planejamento estratégico é apontado como
não sobrevive) sem agredir o meio
uma ferramenta de gestão, na qual aponta as
ambiente e também colaborar para o
medidas positivas que uma empresa deve
desenvolvimento da sociedade. (PALMA;
tomar para enfrentar as ameaças e aproveitar
KLAPPER, 2015).
as oportunidades que o ambiente externo lhe
oferece (TEIXEIRA; ALONSO, 2014). Nesta A importância dessas ações que visam a
perspectiva, uma gestão estratégica voltada responsabilidade socioambiental é irrefutável,
ao marketing verde contribui para as pois torna a imagem das organizações
organizações que visam à responsabilidade positivas junto aos consumidores, reduz os
socioambiental; para tanto os gestores devem custos de produção e satisfaz todos os
pensar em soluções para conciliar o stakeholders.
desenvolvimento econômico com práticas
A partir do conceito acima, podemos explanar
sustentáveis. Sendo assim, fica uma dúvida
o que seria sustentabilidade na arquitetura.
pertinente: como construir uma cidade
Conforme a Associação Brasileira dos
desenvolvida sustentavelmente?
Escritórios de Arquitetura (AsBEA) (2012) o
Diante disto, o objetivo do artigo é contribuir crescimento populacional acarreta no
para o desenvolvimento de um planejamento aumento do consumo dos recursos naturais,
estratégico para uma empresa cujo ramo de surgindo assim a necessidade de um
atividade é a arquitetura, visando à adoção equilíbrio entre a urbanização e o meio
de práticas sustentáveis como um diferencial ambiente, isso é possível por meio da
competitivo. construção de cidades sustentáveis que
atendam as necessidades das pessoas no
presente, de forma que não comprometa as
2 REFERENCIAL TEÓRICO futuras gerações, além disso deve-se levar
em consideração as condições sociais da
2.1 SUSTENTABILIDADE NA ARQUITETURA
população mais carente, pois uma cidade
Segundo a Comissão Mundial sobre Meio sustentável é aquela que tem
Ambiente e Desenvolvimento (CMMAD) responsabilidade socioambiental e
(1988), o termo sustentabilidade pode ser caracteriza-se não somente pelas condições
entendido como a capacidade de satisfazer adequadas da economia, mas também pela
as necessidades presentes sem comprometer busca da adequação ambiental e social.
a capacidade das gerações futuras de
Contribuir na construção dessa cidade é
satisfazerem suas próprias necessidades. A
papel de toda a sociedade, especificamente

Tópicos em Administração - Volume 2


70

dos urbanistas, arquitetos, projetistas, O Estado também possui um forte papel nesta
contratantes e contratados, pois ao falar em indústria, pois é a partir deste que começa a
arquitetura sustentável, deve-se começar implantação de práticas de construção
desde o projeto inicial até o término da sustentável, conceituando uma política
construção em si e o uso dela, e isso só será ambiental que influencia diretamente as
possível se houver a contribuição de todos organizações na esfera pública e privada e
esses agentes. determina responsabilidades para todas as
autoridades federais, estaduais e municipais
“A arquitetura sustentável é a busca por
(SERRADOR, 2008). É a partir de
soluções que atendam ao programa
regulamentos e leis que enfatizam a
definido pelo cliente, às suas restrições
importância da sustentabilidade, que as
orçamentárias, ao anseio dos usuários, às
práticas construtivas mencionadas acima e o
condições físicas e sociais locais, às
desenvolvimento de projetos de construções
tecnologias disponíveis, à legislação e à
ecológicas acontecem de forma eficiente.
antevisão das necessidades durante a
vida útil da edificação ou do espaço E para essa construção sustentável acontecer
construído. Essas soluções devem atender existem diversas inovações no mercado,
a todos esses quesitos de modo racional, como materiais com certificação para a
menos impactante aos meios social e construção civil, feitos a partir de entulhos
ambiental, permitindo às futuras gerações moídos gerando assim blocos ecológicos,
que também usufruem de ambientes madeira manufaturada, telhado verde que
construídos de forma mais confortável e regula melhor a temperatura da residência,
saudável, com uso responsável de resfriando-a ou aquecendo-a de acordo com
recursos e menores consumos de energia, a necessidade que se faz presente e também
água e outros insumos.” (ASBEA, 2012, p. absorve grande parte da água da chuva, os
14). tijolos de terra, entre outros.
Quando um arquiteto utiliza os propósitos
citados acima, ele cresce profissionalmente
2.1.2 TECNOLOGIAS SUSTENTÁVEIS
tornando-se responsável com toda a
UTILIZADAS NA CONSTRUÇÃO CIVIL
sociedade e o meio em que vive. Ele deve
atentar-se a correta aplicação de elementos Com as necessidades do mundo atual, que
arquitetônicos e tecnologias construtivas que otimiza todos os tipos de recursos, é possível
minimizem os impactos ambientais e os a análise de novas tecnologias nos edifícios
desperdícios das edificações. ou ambientes físicos destinadas a diversas
atividades. (CASTRO NETO, 1994)
Para Serrador (2008) a indústria de
construção deve adotar boas práticas a Os materiais ecológicos são exemplos de
serem avaliadas para a obtenção de seus tecnologias desenvolvidas de origem
produtos, são essas: reutilizar patrimônios artesanal ou industrializadas que não são
construídos existentes, as projeções que poluentes, reduzindo assim os impactos
utilizam o mínimo de resíduos possíveis causados ao meio ambiente. No ramo da
também são cruciais, pois evitam os impactos construção civil esses materiais ou elementos
negativos causados ao meio ambiente, são bastante utilizados nas edificações de
minimizar o consumo de energia durante a caráter sustentável. Um exemplo é o tijolo
construção e o uso da mesma é uma das ecológico, de acordo a redação do
práticas mais importantes ao meio ambiente Pensamento Verde (2013) diz que esses
evitando o uso desenfreado dos recursos tijolos são feitos de terra e cimento e, por isso,
naturais, utilizar a gestão ambiental de acordo sua cura não envolve energia. O material não
com a ISO 14.001 ou EMAS é um dos vai para o forno, deixando de utilizar lenha e
exercícios que toda organização deve exercer emitir gases que causam o efeito estufa. Além
para garantir a responsabilidade disso, ele economiza cerca de 70% do
socioambiental, essa gestão para Barbieri concreto e argamassa de assentamento e
(2011) são as diretrizes e as atividades 50% de ferro, além de diminuir o tempo de
administrativas e operacionais, tais como construção. Existe outra opção de tecnologia
planejamento, direção, controle e alocação de sustentável que seria as placas fotovoltaicas,
recursos com o objetivo de reduzir os para que você possa usar energia solar em
problemas ambientais causados pelas ações casa é preciso ter um painel com esta
humana. tecnologia. Conforme Haydée (2016) o
produto da Bosch tem potência acima de

Tópicos em Administração - Volume 2


71

240Wp e durabilidade de pelo menos 25 que retrata a gestão estratégica de marketing


anos. Os coletores fotovoltaicos podem ser voltada a projetos arquitetônicos sustentáveis.
uma boa forma de diminuir a conta de luz, já
que eles se conectam a rede da
concessionária elétrica, o que garante bônus 2.2 GESTÃO ESTRATÉGICA DE MARKETING
para os usuários. Podemos considerar as EM PROJETOS ARQUITETÔNICOS
cisternas como uma opção ecológica na hora SUSTENTÁVEIS
de planejar uma obra voltada a
Gestão estratégica é uma forma de
sustentabilidade. De acordo com Keller
administração, na qual se deve atuar
(2010) a qualidade da água constitui na
organizações inseridas em perfis competitivo,
quantidade dela a se tratar. Assim sendo,
a fim de desenvolver estratégias buscando a
uma das maneiras mais eficientes para a
otimização das taxas de lucros e a
economia da água é a utilização de cisternas
permanência do mercado. A estratégia
ou grupo das mesmas, que são utilizadas
organizacional segundo Fernandes (2005)
para coletar e armazenar água.
apud Nascimento, Lemos e Mello (2008, p.18)
Todas essas inovações no mercado consiste no “o conjunto dos grandes
contribuem fortemente para o propósitos, dos objetivos, das metas, das
desenvolvimento sustentável e principalmente políticas e dos planos para concretizar uma
para o setor da construção civil, que é um dos situação futura desejada, considerando as
mais poluidores que existe. O papel do oportunidades oferecidas pelo ambiente e os
arquiteto na criação de projetos recursos da organização”.
arquitetônicos que visam a sustentabilidade
Na gestão estratégica é fundamental possuir
como principal objetivo em seu trabalho é de
um foco no diferencial competitivo estratégico
extrema importância, entretanto não é tão
e na forma com qual a organização irá atingir
simples, é preciso conhecer os conceitos da
metas desenvolvidas na gestão, na qual
sustentabilidade e o que isso implica no
muitas dessas metas podem ser sustentadas
projeto. Apesar de ser preciso uma interação
utilizando o Marketing. Segundo Kotler apud
com outros profissionais da área, são os
Nascimento, Lemos e Mello (2008, p. 139), “o
arquitetos que iniciam os projetos e
marketing tem por objetivo conhecer as
convencem os clientes a aderirem a ideia,
necessidades do consumidor, determinando
mostrando o custo benefício a todos eles. Se
um mercado alvo e ações para maximizar a
o profissional aderir às inovações presentes
satisfação do cliente”.
neste segmento e usarem as obras
sustentáveis como exemplos a serem Desta maneira pode-se definir gestão
seguidos, eles passarão a desenvolver uma estratégica de marketing como a junção dos
melhor noção e consultoria acerca do tema, dois elementos, sendo a gestão pertinente à
pois a temática ambientalista tem sido criação e acompanhamento das metas
bastante abordada pelas empresas que competitivas, e o marketing relacionado ao
passaram a ter como meta a processo de “[...] conhecer profundamente as
responsabilidade socioambiental. necessidades dos clientes [...]” (BASTA et al.,
2006, p. 22) e encontrar meios de
As práticas de ações com base na
consumação dos objetivos.
responsabilidade socioambiental
corporativa são vistas pelo mercado como
uma forma inovadora de diferenciar-se das
2.2.1 COMPOSTO DE MARKETING OU OS
demais organizações ou de criar
4P’S SUSTENTÁVEIS
vantagens competitivas em mercados
saturados de concorrência sem fronteiras. Geralmente as estratégias de marketing são
(NASCIMENTO; LEMOS; MELLO, 2008). baseadas na utilização de quatro ferramentas
básicas, sendo denominado como composto
A questão socioambiental assumiu
de marketing, mix de marketing ou 4P’s.
proporções estratégicas nas organizações,
Kotler (1998) apud Amaral (2000) destaca o
pois conforme citado acima, essa ideia é
conceito como [...] o conjunto de ferramentas
vislumbrada como inovadora e é um
que a empresa usa para atingir seus objetivos
diferencial competitivo para a organização
de marketing no mercado-alvo.
que busca pela adoção de práticas
sustentáveis em suas atividades. Isso será
abordado precisamente no tópico a seguir,

Tópicos em Administração - Volume 2


72

Este modelo se baseia na ideia que a O preço é a quantidade de valor que está em
empresa produz um bem ou serviço determinado no produto. Assim segundo
(produto), o consumidor deve ser Cobra (1992, p. 43) apud Steffen (2009) diz
comunicado que este bem ou serviço que é necessário que o preço seja justo e
existe (promoção), devendo este ser proporcione descontos estimulantes à compra
distribuído aos mais variados tipos e locais dos produtos ou serviços ofertados, com
de venda (praça), e por fim a empresa subsídios adequados e períodos (prazos) de
deve cobrar um montante pelo pagamento e termos de créditos efetivamente
fornecimento do produto (preço). atrativos. Segundo Araújo (2014) o marketing
(MACHADO et al., 2000) verde pode evidenciar aos consumidores que
o produto agrega valores ambientais, fazendo
Na gestão ambiental, os compostos de
que eles se disponham a pagar mais pelo
marketing são conduzidos para a
produto. Alguns produtos e serviços
sustentabilidade, onde o produto, promoção,
sustentáveis podem possuir esta concepção
preço e a praça atendam a este diferencial e
sobre o nível de preços, por razão da
ao mercado inserido a organização.
propaganda institucional essencialmente
O produto é caracterizado por abranger bens produtos ambientalmente tecnológicos.
tangíveis e não tangíveis como serviços, cujo Contudo, o mercado sustentável também
significado é “conjunto de benefícios que necessita chegar próximo ao equilíbrio, para a
satisfaz um desejo ou uma necessidade do propagação dos serviços socioambientais.
consumidor e pelo qual ele está disposto a
A praça corresponde segundo Machado et al
pagar em função da sua disponibilidade de
(2012), como o canal de distribuição no qual
recursos” (BASTA et al., 2006, p. 34). A venda
o produto percorre desde a produção ao
do produto ou serviço é o objetivo principal
consumo. Esse composto tem relação com o
da empresa, na qual encontra o marketing
modo em que produto ou serviço será
como meio influenciador dos clientes. Assim
oferecido e entregue ao consumidor final, que
segundo Kotler (2000, p.27), “toda oferta de
pode ocorrer em um modo direto ou com
marketing traz em sua essência uma ideia
auxílios de intermediários. Em um mercado
básica. [...] Produtos e serviços são
sustentável os profissionais de marketing de
plataformas para a entrega de algum conceito
sucesso selecionam canais de distribuição
ou benefício”. Dentro do perfil sustentável de
com características que combinem com seus
uma empresa da arquitetura, é essencial a
produtos e com o tipo de consumidores que
relação dos produtos e serviços com o meio
eles procuram atender (STEFFEN, 2009). Ou
ambiente, utilizando-se essa distinção
seja, a oferta de produtos sustentáveis requer
ecológica para atrair clientes. Um dos meios
uma estrutura física e de distribuição com
de transcorrer é por meio das questões
estratégias voltadas ao tema.
tecnológicas como a criação de obras
inovadoras sustentavelmente, ou seguindo o
conceito dos três Rs de reciclar, reutilizar e
2.2.2 MARKETING VERDE, TENDÊNCIAS E
reduzir, além da confecção de produtos
ACEITAÇÃO DOS CLIENTES REFERENTE AO
sustentáveis.
MERCADO SUSTENTÁVEL
Referente à promoção, atualmente “a
Em meio do cenário competitivo, a
organização, no seu dia a dia, estabelece
diferenciação é fundamental para o avanço e
diversas formas de comunicação que visam
permanência da empresa no mercado. Desta
promover os seus produtos, serviços,
maneira, a gestão ambiental de marketing
benefícios, valores e marca, bem como
necessita impor a ação-alvo para distinguir e
fortalecer o relacionamento em longo prazo
aprimorar sua influência. Sendo a
com os clientes” (BASTA, et al., 2006, p. 44).
sustentabilidade uma atual tendência, à
É existente na publicidade segundo Basta et
questão ambiental é um método do foco da
al (2006) a propaganda referente ao produto
estratégia de marketing, constituindo o termo
e a institucional. A primeira busca fortalecer o
marketing verde ou marketing ambiental.
posicionamento do produto na sua categoria
ou marca, e a segunda pretende repassar O marketing ambiental desenvolve uma
uma imagem corporativa, por base de estratégia de diferenciação para obter
atitudes julgadas positivas, como fatos de vantagem competitiva. Trata-se de uma
interesses com interesse sociais, como a adaptação do marketing tradicional que
sustentabilidade. inclui assuntos ambientais no
desenvolvimento do produto, na

Tópicos em Administração - Volume 2


73

divulgação do produto da distribuição e todos os pontos de vista relevantes. Utilizou-


estratégia de precificação (MILES E se do método qualitativo, pois na análise do
COVIN 2010 apud ARAÚJO, 2014). macroambiente, o mecanismo usufruído foram
documentos, tais como: artigos, livros,
Os quatro compostos do marketing
documentos jurídicos, entre outros. Já na
apresentados auxiliam a constituir um
inspeção do microambiente e do ambiente
planejamento estratégico de marketing, que
interno da organização, o resultado foi
tendo sua base sustentável, influencia os
expresso na forma de transcrição de um
clientes e a comunidade em geral. As
questionário e entrevista aplicada.
publicidades tendo como referências os
assuntos ambientais contribuem para a O objetivo da pesquisa é de caráter
distribuição e conscientização dos indivíduos descritivo, pois descreve os fatos da
ecologicamente, deste modo Boroto (2007) realidade sem interferência dos autores.
destaca que no Brasil, o lucro através da Conforme Gil (2008) a pesquisa descritiva tem
venda de produtos com eco-qualidade será como objetivo a descrição das características
uma consequência da mudança de valores de um determinado fenômeno ou o
por parte das organizações e seus estabelecimento de relações entre variáveis.
consumidores. Trata-se de uma descrição porque as
informações são registradas, como é o caso
A questão socioambiental é tendência na
dos fatores externos da empresa.
sociedade contemporânea, onde há uma
busca do progresso econômico juntamente É por natureza uma pesquisa exploratória,
com a preservação ambiental, criando o pois examina a realidade e procura um maior
termo desenvolvimento sustentável. Com as aprimoramento, investigando e analisando
ferramentas de marketing, a influência da melhor os fatos. Segundo Fantinato (2015)
importância da sustentabilidade está em essa pesquisa proporciona maior
expansão, alterando a concepção de familiaridade com o problema, com vistas a
consumidores. Deste modo, as empresas que torná-lo mais explícito ou construir hipóteses.
optam pelo marketing verde tem um Porém, Gil (2008) também ressalta que por
importante diferencial competitivo, tendo a ser um tipo de pesquisa muito específica,
possibilidade de se sobressair sobre as quase sempre ela assume a forma de um
organizações tradicionais e sobre seus estudo de caso.
concorrentes.
“O método do estudo de caso enquadra-se
como uma abordagem qualitativa e
frequentemente utilizada para coleta de
3 METODOLOGIA
dados na área de estudos organizacionais.”
Esta pesquisa é de finalidade aplicada, pois (CESAR, 2016, p. 3).
está relacionada com o valor prático da
Considerando ambos os conceitos desses
realidade. Segundo Gerhardt e Silveira (2009)
autores, a pesquisa é um estudo de caso,
a pesquisa aplicada objetiva gerar
pois procura conhecer com profundidade a
conhecimentos para aplicação prática,
realidade das organizações, bem como o seu
dirigidos à solução de problemas específicos,
segmento de atuação e propõe planos de
envolvendo verdades e interesses locais.
ação para que a empresa garanta uma
Entretanto de acordo com Appolinário (2011, posição favorável no mercado competitivo.
p. 146) citado por Del-Masso, Cotta e Santos
Em relação à técnica de coleta de dados,
(s.a), esta pesquisa é realizada com o intuito
utilizaram-se questionários, entrevistas e
de “resolver problemas ou necessidades
documentos externos. Os questionários foram
concretas e imediatas”. Neste caso a
com questões abertas e fechadas. De acordo
pesquisa é aplicada, pois o intuito é investigar
com Günther e Lopes Júnior (1990) a
uma empresa do setor de arquitetura para
pergunta aberta permite que o respondente
desenvolver um planejamento estratégico.
se expresse em suas próprias palavras, o que
Quanto ao método, ela se dá de forma permite explorar o tema com profundidade.
qualitativa, pois não utiliza instrumentos As questões desse tipo foram utilizadas para
estatísticos em seu desenvolvimento. Para conhecer melhor as preferências dos
Godoy (1995) na pesquisa qualitativa, o entrevistados e no caso da entrevista sobre o
pesquisador vai a campo buscando “captar" o ambiente interno, as perguntas abertas são
fenômeno em estudo a partir da perspectiva primordiais para que não haja uma análise
das pessoas nele envolvidas, considerando dúbia. As questões fechadas para Chagas

Tópicos em Administração - Volume 2


74

(2000) são aquelas em que os respondentes 4 ANÁLISES E DISCUSSÕES


optarão por uma das alternativas, ou por
4.1 HISTÓRICO DA EMPRESA
determinado número permitido de opções.
Fez-se necessário as perguntas fechadas A Microempresa “Arquitetura” foi fundada em
para que as respostas fossem mais precisas, 09 de maio de 2014, localizada em
gerando praticidade no momento da análise Laranjeiras do Sul- Paraná. Onde a sócia-
do questionário. proprietária Cláudia H. D - Arquiteta e
Urbanista, deu início a este empreendimento,
Outra técnica foram as entrevistas, um
atendendo as necessidades projetuais
procedimento bastante utilizado em
apenas da cidade em que está inserida a
pesquisas qualitativas como essa. Nela
empresa. A partir de 10 de janeiro de 2016 o
podemos observar aspectos mais subjetivos
escritório contou com a sociedade da
do entrevistado. A entrevista foi estruturada,
Arquiteta e Urbanista- Ana P. B, que em
segundo Marconi e Lakatos (2003) essa
conjunto desenvolvem trabalhos que atendem
entrevista é aquela em que o entrevistador
a demanda de Laranjeiras do Sul e também
segue um roteiro previamente estabelecido;
das cidades vizinhas, realizando serviços de
as perguntas feitas ao indivíduo são
projetos em geral como: arquitetônicos,
predeterminadas. A escolha dessa técnica foi
interiores, paisagismo, regularização e
justamente para que o entrevistador tivesse
consultoria.
uma maior organização quanto às perguntas
a serem feitas e direcionar melhor a
abordagem ao entrevistado.
4.2 ANÁLISES DO MACRO,
Quanto aos documentos, eles foram precisos MICROAMBIENTE E DO AMBIENTE INTERNO
na análise dos fatores externos, e trouxeram DA ORGANIZAÇÃO
uma maior base teórica do assunto e dados
Sabendo que o ambiente é mutável e
muito mais formalizados de acordo com as
competitivo, as organizações devem estar
leis do país voltadas a área de atuação da
preparadas para todas as contingências que
empresa, se tratando dos fatores políticos
aparecem ao enfrentar o mercado. Assim, a
legais. Ao se tratar dos dados de base
empresa deve identificar todos os fatores
econômica, eles foram mais exatos e
externos e internos que influenciam de forma
necessários na análise, por isso utilizou a
significativa nas operações diárias e na sua
consulta em relatórios técnicos que falavam
posição de mercado.
sobre os assuntos econômicos.
No macroambiente, por exemplo, devemos
A análise de conteúdo foi imprescindível por
levar em consideração seis fatores cruciais
trabalhar com a transcrição de entrevistas e
para a análise do ambiente. Ao longo da
materiais textuais, esse método é bastante
pesquisa, identificamos que os fatores
específico para o planejamento estratégico.
econômicos podem ser considerados uma
Em consonância, Cavalcante, Calixto e
oportunidade à organização estudada, pois
Pinheiro (2014) dizem que a análise de
embora os dados nos mostram que o PIB
conteúdo compreende técnicas de pesquisa
interno bruto vem sendo negativo e com
que permitem, de forma sistemática, a
perspectivas ainda negativa de crescimento
descrição das mensagens e das atitudes
devido a recessão econômica, o país mostra
atreladas ao contexto da enunciação, bem
uma tendência de melhoria, com a diminuição
como as inferências sobre os dados
da inflação nos produtos e serviços deste
coletados.
setor, o que beneficia toda a sociedade. Os
Assim, o uso desta análise colaborou para a fatores socioculturais também são
descrição das cinco forças de Porter, que determinantes na análise do ambiente externo
determina a forma como uma empresa deve e neste caso podem ser considerados uma
se posicionar diante da concorrência, oportunidade à empresa, uma vez que o
fornecedores e clientes, a Matriz Swot que processo de êxodo rural e de maior
permite a definição das ameaças e urbanização contribuiu para aumentar a
oportunidades com base nos fatores externos procura por profissionais do setor da
da organização e dos pontos fortes e fracos construção civil, de forma a aproveitar mais
de acordo a análise interna, a Matriz cruzada os espaços disponíveis que podem ser
e no plano de ação que foram as estratégias utilizados pelas famílias. Os fatores
a serem estabelecidas em um determinado demográficos são uma ameaça à
período de tempo. organização, pois a maior parte das pessoas

Tópicos em Administração - Volume 2


75

que procuram os serviços referentes à oportunidade para a organização ficar em


construção civil são aquelas com mais de 27 conformidade com as leis do país.
anos, uma idade já tardia e de classe social
No que diz respeito à análise interna, a
predominante média a alta, fazendo com que
empresa tem sua estrutura organizacional
a classe baixa não tenha poder de compra
centralizada, onde o processo decisório
suficiente para acessar esse tipo de serviço.
ocorre apenas na coordenação. O negócio
Os fatores políticos-legais parecem
principal da empresa é ofertar serviços de
burocráticos, mas são uma ótima
projetos arquitetônicos, interiores e
oportunidade para as organizações
paisagismos, tendo a missão de satisfazer as
mostrarem seus valores aos clientes,
necessidades dos clientes, com valores que
atendendo as exigências do governo em
prezam honestidade, responsabilidade, ética
todas as esferas e se sobressair no mercado
e transparência. Cuja visão é de ampliar
competitivo. Quanto aos fatores tecnológicos,
mercados na região Cantuquiriguaçu, sendo
verificamos mais uma oportunidade, pois há
o melhor escritório de arquitetura atuante,
uma gama de recursos disponíveis para o
com o diferencial sustentável.
setor de arquitetura, desde os programas,
softwares, até materiais ecológicos e a
plataforma BIM, que auxilia na aplicação dos
4.3 ANÁLISES DA MATRIZ SWOT E
conceitos sustentáveis na arquitetura.
CRUZADA
Analisando os fatores ecológico-ambientais
percebemos também uma oportunidade, uma A análise SWOT estuda a competitividade de
vez que a empresa tem buscado agir com uma organização segundo quatro variáveis:
responsabilidade socioambiental em seus Strengths (Forças), Weaknesses (Fraquezas),
serviços prestados. Oportunities (Oportunidades) e Threats
(Ameaças) (SILVA et al, 2011), na qual
No microambiente, não é diferente, devemos
permite um diagnóstico completo sobre o
levar em consideração todos os grupos de
mercado e o negócio no qual a empresa é
interesse da organização. O mercado de
atuante, para assim formular estratégias a fim
construção civil é um segmento bastante
de se destacar no setor.
recente na região em que a organização se
estabelece e está em contínua expansão, Assim, as ameaças são responsáveis por
cada vez mais as pessoas reconhecem a acarretar contingências à organização,
importância de recorrer a um profissional da portanto devem ser consideradas, visto que
área quando precisa de um produto ou exercem grande influência ao setor. Apesar
serviço desse tipo. Os clientes são aqueles de presentes, elas são de menor quantidade
em que a empresa deve conhecer muito bem e grau de importância, em relação com as
para sobreviver no mercado, os resultados do oportunidades, tendo suas principais
questionário mostraram que a demanda por ameaças produtos similares e substitutos
profissionais da área de construção civil ofertados pelos concorrentes, juntamente com
subiu, o que gera mais um ponto positivo para a padronização dos serviços, onde pode
a organização. Os fornecedores afetam acarretar a perda do mercado, entre outros.
diretamente o processo de produção da As oportunidades proporcionam uma visão de
empresa, neste caso específico, não há futuro dentro do mercado, gerando segurança
tantos fornecedores na região, prejudicando para a organização, sendo de grande número
assim a produção da instituição. Os e grau de importância. Assim, há amplas
concorrentes são de suma importância e uma oportunidades no setor, como o aumento da
variável forte no mercado, diagnosticamos procura por arquitetos especializados, devido
sete concorrentes em potencial, o que traz à conscientização de sua importância e a
uma ameaça para a organização. Em relação preocupação socioambiental, que demanda
aos produtos e serviços, às obras serviços sustentáveis, juntamente com o
sustentáveis tem recebido destaque no reconhecimento da certificação ambiental,
mercado, através da conscientização entre demais outros.
socioambiental e da tendência relacionada à
Os pontos fracos referem-se às fraquezas
conservação do meio ambiente, explanada
observadas internamente na empresa, nas
por movimentos ambientalistas e meios de
quais foram observadas apenas três,
comunicação. As agências regulamentadoras
referente à localização, a falta de
influenciam em todas as operações da
credibilidade e a baixa especialização dos
empresa, a presença do Conselho dos
profissionais. Eles aparecem em uma baixa
Arquitetos e Urbanistas gera uma grande

Tópicos em Administração - Volume 2


76

frequência na organização e são superadas desenvolvimento econômico de um lugar com


pelos pontos fortes. Entretanto, foram a preservação dos recursos naturais. Para
verificados diversos pontos fortes, isso ocorrer, houve diversos debates sobre o
possibilitando um possível sucesso da que é a arquitetura sustentável, como fazê-la,
empresa dentro do mercado, por apresentar como atender a demanda de todos os
diferenciais competitivos como pontualidade clientes, como conscientizá-los da
com as entregas dos serviços, não importância de realizar obras sustentáveis e
encontrado nos concorrentes, entre demais fazer com que reconheçam o custo benefício
fatores. dessas edificações, sendo o marketing verde
um estímulo ao mercado sobre os produtos e
Com a análise da matriz de SWOT cruzada,
serviços deste setor. Nele a promoção, preço,
verificou-se um maior número de
praça e produto devem estar evidenciados
oportunidades e pontos fortes, o que
para o diferencial competitivo da empresa, no
caracteriza um plano de ação baseado no
caso a sustentabilidade.
desenvolvimento da organização, pois a
empresa está inserida em um setor onde é Assim baseado no referencial teórico o
existente muitas oportunidades para o presente artigo contribuiu para explanar a
crescimento, cujo cenário interno é favorável questão da arquitetura sustentável, bem como
para prosperidade do negócio. auxiliar no planejamento estratégico da
empresa “Arquitetura”, na qual por meio da
matriz Swot identificou-se todos os pontos
5 CONSIDERAÇÕES FINAIS fortes e fracos da organização e as
oportunidades e ameaças que o ambiente
O processo de urbanização resultou na
externo proporciona, permitindo que a análise
utilização irresponsável dos recursos naturais,
da matriz cruzada identificasse as estratégias
impactando gravemente o meio ambiente.
a serem adotadas. Com base no
Com isso, a sustentabilidade passou a ser
planejamento estratégico, os resultados
discutida em diversas vertentes, sendo na
obtidos proporcionaram um plano de ação
arquitetura um tema bastante retratado.
que permitiu à organização a adoção de
Os profissionais do setor da construção civil práticas estratégicas sustentáveis voltadas ao
passaram a se questionar sobre como desenvolvimento da instituição no mercado
construir uma cidade desenvolvida competitivo.
sustentavelmente, ou seja, como conciliar o

6 REFERÊNCIAS [5] BARBIERI, José Carlos. Gestão ambiental


empresarial: Conceitos, modelos e instrumentos. 3.
[1] AMARAL, Sueli Angélica do. Os 4Ps do ed. São Paulo: Saraiva, 2011. 358 p.
composto de marketing na literatura ciência da
informação. 2000. Disponível em: [6] BOROTO, Anderson. 2007. Marketing
http://www.scielo.br/pdf/tinf/v12n2/04.pdf . Acesso verde. Disponível em:
em: 04 mai. 2017 http://faccrei.edu.br/gc/anexos/rvartigos_19.pdf.
Acesso em: 04 mai. 2017.
[2] ARAÚJO,Arthur Xavier de Oliveira. O
marketing verde como fator de diferenciação das [7] CASTRO NETO, Jayme Spinola. Edifício
empresas do ibovespa. (2014). Disponível em: de Alta Tecnologia. São Paulo: Carthago e Forte,
file:///C:/Users/DEB/Downloads/Araujo_Arthur_Xavie 1994.
r_de_Oliveira.pdf. Acesso em: 03 mai. 2017.
[8] CAVALCANTE, Ricardo Bezerra;
[3] ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DOS CALIXTO, Pedro; PINHEIRO, Marta Macedo Kerr.
ESCRITÓRIOS DE ARQUITETURA. Análise de Conteúdo: considerações gerais,
Sustentabilidade na Arquitetura: Diretrizes de relações com a pergunta de pesquisa,
escopo para projetistas e contratantes. São Paulo, possibilidades e limitações do método. Informação
2012. Disponível em: < e Sociedade: Estudos, João Pessoa, v. 24, n. 1,
http://www.caubr.gov.br/wp- p.13-18, abr. 2014. Disponível em:
content/uploads/2014/02/AF6_asbea_sustentabilida <http://basessibi.c3sl.ufpr.br/brapci/_repositorio/20
de.pdf> Acesso em: 16 mar. 2017. 15/12/pdf_ba8d5805e9_0000018457.pdf>. Acesso
em: 01 jun. 2017.
[4] BASTA, Darci; et al. Fundamentos de
Marketing. 7. ed. Rio de Janeiro. 2006. Editora [9] CESAR, Ana Maria Roux Valentini Coelho.
management, p. 148. Método do Estudo de Caso ( Case Studies ) ou
Método do Caso ( Teaching Cases )?: Uma análise
dos dois métodos no Ensino e Pesquisa em
Administração.. Disponível em:

Tópicos em Administração - Volume 2


77

<http://www.mackenzie.br/fileadmin/Graduacao/CC Disponível em: <http://exame.abril.com.br/estilo-


SA/remac/jul_dez_05/06.pdf>. Acesso em: 01 jun. de-vida/vai-reformar-a-casa-veja-12-materiais-e-
2017. produtos-ecologicos/>. Acesso em: 03 maio 2017.
[10] CHAGAS, Anivaldo Tadeu Roston. O [20] KEELER, Marian. Fundamentos de projeto
questionário na pesquisa científica. Administração de edificações sustentáveis. Porto Alegre:
On Line Fecap: Prática - Pesquisa - Ensino, Bookman (2010)
Campinas, v. 1, n. 1, p.1-13, mar. 2000. Disponível
[21] KOTLER, Philip – Administração de
em:
Marketing – 10ª Edição, 7ª reimpressão – Tradução
<http://www.inf.ufsc.br/~vera.carmo/Ensino_2012_1
Bazán Tecnologia e Lingüística; revisão técnica
/metodologia_de_questionario.pdf>. Acesso em: 01
Arão Sapiro. São Paulo: Prentice Hall, 2000.
jun. 2017.
[22] MACHADO, Carolina de Mattos Nogueira,
[11] COMISSÃO MUNDIAL SOBRE MEIO
et al,. Os 4 P’s do Marketing: uma Análise em uma
AMBIENTE E DESENVOLVIMENTO - CMMAD.
Empresa Familiar do Ramo de Serviços do Norte
Nosso futuro comum. Rio de Janeiro: Fundação
do Rio Grande do Sul. Disponível em:
Getúlio Vargas, 1988. Disponível em: <
http://www.aedb.br/seget/arquivos/artigos12/32016
https://www.passeidireto.com/arquivo/5957493/rela
481.pdf . Acesso em: 04 mai. 2017.
torio-brundtland-nosso-futuro-comum-em-
portugues >. Acesso em: 22 mar.2017. [23] MARCONI, Marina de Andrade; LAKATOS,
Eva Maria. Fundamentos de Metodologia Científica.
[12] CURI, Denise. Gestão Ambiental. São
5. ed. São Paulo: Atlas, 2003.
Paulo: Pearson, 2011. 313 p.
[24] MIKHAILOVA, Irina. Sustentabilidade:
[13] DEL-MASSO, Maria Candida Soares;
Evolução dos conceitos teóricos e os problemas da
COTTA, Maria Amélia de Castro; SANTOS, Marisa
mensuração prática. Revista Economia e
Aparecida Pereira. Ética em Pesquisa Científica:
Desenvolvimento, Pernambuco, n. 16, p.22-41,
Conceitos e finalidades. Disponível em:
2004. Disponível em:
<https://acervodigital.unesp.br/bitstream/unesp/15
<https://periodicos.ufsm.br/eed/article/viewFile/344
5306/1/unesp-nead_reei1_ei_d04_texto2.pdf>.
2/1970>. Acesso em: 22 mar. 2017.
Acesso em: 01 jun. 2017.
[25] NASCIMENTO, Luis Felipe; LEMOS,
[14] FANTINATO, Marcelo. Método de
Ângela Denise da Cunha; MELLO, Maria Celina
Pesquisa. 2015. Disponível em:
Abreu de. Gestão socioambiental estratégica. Porto
<http://each.uspnet.usp.br/sarajane/wp-
Alegre: Bookman, 2008. 232 p.
content/uploads/2015/09/Métodos-de-
Pesquisa.pdf>. Acesso em: 01 jun. 2017. [26] PALMA, Fabiana; KLAPPER, Alessandra.
Sustentabilidade e Sustentabilidade Empresarial.
[15] GERHARDT, Tatiana Engel; SILVEIRA,
2015. Disponível em:
Denise Tolfo. Métodos de Pesquisa. 2009. 120 f.
<http://www.abrifar.org.br/novo/Site/anexos/BOLETI
TCC (Graduação) - Curso de Planejamento e
M_ABRIFAR_0115_Sustentabilidade2.pdf>. Acesso
Gestão Para O Desenvolvimento Rural da
em: 01 maio 2017.
SEAD/UFRGS, Universidade Federal do Rio
Grande do Sul, Rio Grande do Sul, 2009. [27] PENSAMENTO VERDE. Confira quais são
Disponível em: os materiais alternativos utilizados na construção
<http://www.ufrgs.br/cursopgdr/downloadsSerie/de civil. 2013. Disponível em:
rad005.pdf>. Acesso em: 31 maio 2017. <http://www.pensamentoverde.com.br/arquitetura-
verde/confira-sao-materiais-alternativos-utilizados-
[16] GIL, Antonio Carlos. Método e Técnicas
construcao-civil/>. Acesso em: 03 maio 2017.
de Pesquisa Social. 6. ed. São Paulo: Atlas, 2008.
[28] SERRADOR, Marcos Eduardo.
[17] GODOY, Arilda Schmidt. Pesquisa
Sustentabilidade em arquitetura: referências para
Qualitativa: Tipos fundamentais. Revista de
projeto. 2008. 267 f. Dissertação (Mestrado) -
Administração de Empresas, São Paulo, n. 335,
Curso de Arquitetura, Arquitetura e Urbanismo,
p.20-29, jun. 1995. Disponível em:
Universidade de São Paulo, São Carlos, 2008.
<http://bibliotecadigital.fgv.br>. Acesso em: 01 jun.
Disponível em:
2017.
<http://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/18/1814
[18] GUNTHER, Hartmut; LOPES JÚNIOR, Jair. 1/tde-17022009-140800/pt-br.php>. Acesso em: 02
Perguntas abertas versus Perguntas fechadas: maio 2017.
Uma comparação empírica. Psicologia: Teoria e
[29] SILVA, Andréia Aparecida da et al. A
Pesquisa, Brasília, v. 6, n. 2, p.203-213, out. 1990.
Utilização da Matriz Swot como Ferramenta
Disponível em:
Estratégica – um Estudo de Caso em uma Escola
<https://metodos0planejamento.files.wordpress.co
de Idioma de São Paulo. In: SIMPÓSIO DE
m/2012/10/gunther-1990-e-lopes-pergunta-
EXCELÊNCIA EM GESTÃO E TECNOLOGIA, 8.,
aberta.pdf>. Acesso em: 01 jun. 2017.
2011, Resende. Anais... . Resende: Seget, 2011. p.
[19] HAYDÉE, Lygia. Vai reformar a casa? Veja 1 - 11. Disponível em:
12 materiais e produtos ecológicos. 2016.

Tópicos em Administração - Volume 2


78

<http://eng.aedb.br/seget/artigos11/26714255.pdf> [31] TEIXEIRA, Carlos Alberto Chagas;


. Acesso em: 16 jun. 2017. ALONSO, Vera Lucia Chaves. A Importância do
Planejamento Estratégico para as Pequenas
[30] STEFFEN, Renata Aline. 2009. Influência
Empresas. In: SIMPÓSIO DE EXCELêNCIA EM
do mix de marketing e dos fatores
GESTÃO E TECNOLOGIA, 11., 2014, Resende.
comportamentais nas decisões do consumidor: O
Anais... . Rio de Janeiro: Seget, 2014. p. 1 - 8.
caso SAYURI produtos orientais. Disponível em:
Disponível em:
http://tcc.bu.ufsc.br/Adm283853.pdf . Acesso em
<http://www.aedb.br/seget/arquivos/artigos14/1320
04 mai 2017.
20.pdf>. Acesso em: 18 jun. 2017.

Tópicos em Administração - Volume 2


79

Capítulo 8

Ana Laís Carvalho de Sousa


Deivid Oliveira Araújo

Resumo: A cidade de Ubajara localiza-se na Serra da Ibiapaba, na região Noroeste


do Estado do Ceará. Reconhecida por ser “a capital do turismo da Serra da
Ibiapaba”, se insere no contexto de turismo alternativo. Diante do cenário turístico
do município de Ubajara foi realizado um estudo de caso, com abordagem
qualitativa, trazendo o intuito de analisar o turismo local embasando-se na
perspectiva de um futuro planejamento que aconteça de forma integrada,
participativa e estratégica. O objeto de estudo da pesquisa, o turismo de Ubajara,
contém um potencial de atrativos naturais exuberantes, com florestas de árvores,
cachoeiras, mirantes, grutas com formações rochosas que atraem turistas do Brasil,
do mundo e a atenção de pesquisadores e estudiosos. Mediante ao contexto de
uma cidade de clima agradável, apesar de inserida em uma região considerada
seca, onde só se é reconhecido o litoral, facilmente encontram-se recursos naturais.
Sob essa perspectiva, foi realizado um diagnóstico do turismo municipal e
consequentemente utilizado uma ferramenta estratégica de administração chamada
Matriz GUT como meio para buscar alternativas para o melhoramento e
desenvolvendo o município de Ubajara. Foi constatado que progredir no turismo é
um desafio, uma vez que necessita haver desenvolvimento no âmbito municipal ou
mesmo regional. É necessário então, haver planejamento capaz de integrar o
estado, a comunidade, a iniciativa privada e o terceiro setor em um engajamento
participativo. Para tanto, cabe ao poder público agir estrategicamente para planejar
o turismo, de forma que seja capaz de haver desenvolvimento municipal.

Palavras chave: Desenvolvimento, Município, Planejamento, Turismo

Tópicos em Administração - Volume 2


80

1. INTRODUÇÃO economia local e o desenvolvimento


municipal, promovendo o bem estar social
O turismo recebe diversas conceituações e
econômico e ambiental, da cidade. Os
torna-se evidente a potencialidade que ele
objetivos específicos são apresentar fontes
detém para fortalecer o desenvolvimento
históricas arquivadas que relatem a riqueza
econômico e social em nível municipal,
cultural e ecológica do município, realizar um
regional, estadual, nacional e global. O
diagnóstico, utilizando-se de entrevistas
turismo apresenta-se como um dos mais
semiestruturadas com guias- turísticos, com
eficientes indutores do desenvolvimento
empreendedores da cidade, turistas e
socioambiental no século XXI. Segundo
comunidade local, para a identificação de
dados do Ministério do Turismo em 2014, a
problemas relacionados ao turismo local sob
participação do turismo na economia
diferentes dimensões e eixos, por fim, a
brasileira já representava 3,7% do PIB do
detecção de problemas expostos em uma
nosso país e estima-se ainda que, para o ano
Matriz GUT, para identificação dos principais
de 2022, o turismo seja responsável por 3,63
problemas a serem solucionados
milhões de empregos. Em meio à busca de
prioritariamente e ressaltar a importância da
oportunidades diante de instabilidade
qualidade na condução de políticas públicas,
econômica, faz-se necessário reconhecer o
implantadas pela administração pública do
que pode ser melhorado para evitar possíveis
munícipio aliada à participação da sociedade.
altas nos índices de desemprego. Para tanto,
é fundamental o reconhecimento das
potencialidades turísticas de um munícipio
1.1 TURISMO MUNICIPAL
para melhor analisar o cenário. Baseado
nessa perspectiva argumenta-se que o A cidade de Ubajara, situada na região
estímulo ao turismo na cidade de Ubajara seja Serrana da Ibiapaba é um dos destinos mais
uma oportunidade para seu desenvolvimento atraentes do estado do Ceará e se insere no
social, econômico e ambiental. contexto de turismo alternativo, que envolve o
ecoturismo, turismo de aventura e turismo
O potencial turístico identificado na cidade de
cultural. Ainda que não seja tão requisitada
Ubajara, considerada popularmente como a
por turistas quanto o litoral cearense, é um
capital do Turismo da Serra da Ibiapaba, se
destino que abriga uma gama de riquezas
destaca principalmente por seu Parque
naturais que encanta a cada visitante que a
Nacional. A cidade possui um patrimônio
conhece. A cidade abriga alguns casarões
natural exuberante, dispondo de cachoeiras,
históricos construídos na primeira metade do
trilhas ecológicas, piscinas e cenários que
século XX e mantém sua beleza original. O
não se encontram em concomitância com o
Turismo de Ubajara se tornou reconhecido
desenvolvimento econômico e social do
desde a construção do Parque Nacional de
município. Diante disso, pensa-se que uma
Ubajara, lugar que atrai visitantes de diversos
análise do cenário turístico atual com o intuito
estados brasileiros e até mesmo do exterior.
de expor problemas identificados ao longo da
Dispõe de trilhas ecológicas no qual dá
pesquisa traria grande relevância para a
acesso a mirantes e cachoeiras propícias
construção de um futuro planejamento
para o banho, sob o acompanhamento de
estratégico, participativo e integrado do
guias- turísticos da Cooperativa de Trabalho e
turismo municipal de Ubajara. Dessa forma a
Assistência ao Turismo - COOPTUR. O
atuação do município, como participante
Parque possui um Teleférico que dá acesso a
direto da atividade turística, ganharia
Gruta de Ubajara conhecida desde o início do
alternativas capazes de serem executadas
século XVIII, quando os portugueses
pelos gestores públicos, empreendedores,
realizaram expedições na região em busca de
funcionários ligados ao turismo e pela própria
minérios, especialmente prata.
população local. Mediante a prática de tais
alternativas, seria possível fortalecer o turismo O principal atrativo turístico é o Parque
do município de Ubajara, assim como Nacional de Ubajara, uma Unidade de
consequentemente da Serra da Ibiapaba, Conservação Federal de Proteção Integral,
fomentando o avanço na infraestrutura, no administrada pelo Instituto Chico Mendes de
turismo, nas políticas públicas, na economia e Conservação da Biodiversidade (ICMBio),
na sustentabilidade do município. com a finalidade de garantir a integridade e o
processo de evolução do conjunto de
O objetivo geral do presente artigo é
formações geológicas existentes em Ubajara.
apresentar o turismo do município de Ubajara
O Parque Nacional atualmente possui uma
como estratégia de fortalecimento para a

Tópicos em Administração - Volume 2


81

área de 6.288 hectares e abrange os temporalidade, objeto do turismo (bens


municípios de Ubajara, Tianguá e subjetivos ou imateriais não apropriáveis e
Frecheirinha. Embora esteja inserido no bens turísticos).
Bioma Caatinga, ele está distribuído em três
Existe uma linguagem, dentro do Turismo,
Ecossistemas: Floresta Ombrófila Aberta
chamada de Teoria Geral do Sistema, que
(Mata Atlântica), Floresta Subperenifólia e
segundo Beni (2000 p.44) “deve ser
Caatinga. O parque possui um teleférico de
considerado um sistema aberto que permite a
tecnologia italiana que encontra-se em
identificação de suas
reforma pelo governo estadual com
compromisso de entrega para o ano de 2018. características básicas, que se tornam os
(Registro de informações do diário de campo, elementos do sistema”. Beni ressalta ainda
março de 2017). que tal abordagem facilita estudos
multidisciplinares de aspectos particulares do
Turismo, possibilitando assim a realização de
2. REFERENCIAL TEÓRICO análises interdisciplinares a partir de várias
perspectivas com ponto de referência
2.1 ANÁLISE ESTRUTURAL TURÍSTICA
comum. Pode-se visualizar três grandes
De acordo com Beni (Op. Cit., p. 35-36), “as conjuntos: o das Relações Ambientais, o da
mais diversas noções de Turismo Organização Estrutural e o das Ações
apresentam, alguns elementos comuns ou Operacionais, bem como seus componentes
relativamente diferentes entre elas, que básicos e as funções primárias atuantes em
convém destacar para melhor compreensão cada um dos conjuntos e em interação no
do fenômeno.” Beni ressalta que tais sistema total, através do diagrama de
elementos são: viagem ou deslocamento, contexto do Sistema de Turismo proposta por
permanência fora do domicilio, Beni (2000), observe:

Figura 1 - Sistema de Turismo (SISTUR)- modelo referencial

Fonte: Mário Carlos Beni, Sistema de turismo – construção de um modelo teórico referencial para aplicação na
pesquisa em turismo, São Paulo, ECA/USP
.

Tópicos em Administração - Volume 2


82

2.2 PRINCIPAIS MODELOS DE planejamento estratégico baseado numa


PLANEJAMENTO TURÍSTICO: INTEGRADO, abordagem sistêmica não segue uma
PARTICIPATIVO E ESTRATÉGICO. linearidade, mas sim, um ciclo (vicioso ou
virtuoso) de causas e efeitos (com entradas)
Conceitua Beni (Op. Cit.), sobre o
que desencadeiam (processos), de forma
planejamento integrado para o turismo,
dinâmica, resultados (saídas) positivos ou
dizendo que:
negativos, ainda mais complexos e difíceis de
(...) é o planejamento em que todos os serem compreendidos e mapeados
seus componentes devem estar (feedback).
sincronizados e sequencialmente
ajustados a fim de produzir o alcance das
metas e diretrizes da área de atuação de 3. PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS
cada um dos componentes a um só
A presente pesquisa traz um estudo de caso.
tempo, para que o sistema global possa
É possível afirmar segundo Yin (2001) que o
ser implantado imediatamente e passe a
estudo de caso é um método de pesquisa
ofertar oportunidades de pronto
que abrange abordagens especificas de
acompanhamento, avaliação e revisão.
coletas e análise de dados. A pesquisa
A partir do envolvimento da população no realizada entre fevereiro e maio de 2017, com
turismo constitui-se um sistema de abordagem qualitativa, se deu através de
cooperação em prol do desenvolvimento documentação indireta (pesquisa documental
integrado, “o sistema turístico é resultado de e bibliográfica), e documentação direta
uma ampla cooperação e articulação de (pesquisa de campo e entrevistas
estruturas privadas, sociais e públicas semiestruturadas). Para a realização da
orientadas para melhorar a rentabilidade e a análise baseada na perspectiva de um
atratividade do destino turístico” (VIGNATI, planejamento integrado, participativo e
2008, p. 15). O planejamento turístico estratégico, foi feita uma analise situacional
participativo é constituinte das políticas do turismo municipal de Ubajara. Tal análise
públicas de cooperação, é um processo de englobou a construção de um diagnóstico de
desenvolvimento integrado, conduzido pelo diferentes dimensões e eixos do turismo e por
Estado. Os atores principais de acordo com a fim a exposição dos problemas identificados
OMT (1997 apud VIGNAT, 2007, p. 15) para a no turismo de Ubajara apresentados em uma
formação do sistema turístico durante o matriz GUT.
planejamento são o estado, a comunidade, a
iniciativa privada e o terceiro setor.
4. RESULTADOS E DISCUSSÕES
A conceituação de planejamento estratégico
conforme Holanda (1974, p.36), é “(...) a 4.1 DIAGNÓSTICO DA ANÁLISE
aplicação sistemática do conhecimento SITUACIONAL DO TURISMO
humano para prever e avaliar cursos de
Sabe-se, como já ressaltado por diferentes
ações alternativas com vistas à tomada de
autores que o turismo é uma ciência
decisões adequadas e racionais, que sirvam
multidisciplinar e, portanto envolvem estudos
de base para a ação futura”. Ao tratar do
relacionados á administração, economia,
planejamento estratégico do turismo sob uma
marketing, direito, psicologia, entre outros.
abordagem sistêmica, Petrocchi (1998, p. 52)
Dessa forma, faz-se necessário uma analise
aponta que, “a cidade como um todo é um
situacional que envolve diferentes aspectos.
sistema turístico, com suas ruas, construções
Abaixo, será exposto o diagnóstico do turismo
e habitantes. O visitante é o cliente e deve ser
municipal de Ubajara sob diferentes
tratado como um rei, já que dele vem a
dimensões e eixos.
receita que alimenta os negócios turísticos da
cidade”. Dessa forma, observa-se que o

Tópicos em Administração - Volume 2


83

Tabela 1 - Diagnóstico da análise situacional do turismo.

DIMENSÕES E EIXOS DIAGNÓSTICO


Baixa capacidade de atendimento médico para o turista.
Paralisação do Teleférico do Parque Nacional de Ubajara, com previsão para
voltar a funcionar em 2018.
Infraestrutura Sistema de fornecimento de energia com baixa capacidade de atendimento.
Geral
Ineficiência no recolhimento do lixo.
Boa estrutura urbana nas vias turísticas.
Saneamento Básico ruim
Ausência de transporte coletivo do centro da cidade para os pontos turísticos
Infraestrutura

Acesso Acesso rodoviário ruim.


Inexistência de proximidade de grandes centros turísticos.
Comunicação interna entre guias turísticos em processo de execução.
Sinalização turística ineficiente.
Estrutura inadequada para realização de eventos, como convenções, fóruns e
Serviços e feiras.
Equipamentos Grande o número de turistas por trilhas ecológicas no Parque Nacional de
Turísticos Ubajara.
Existência de trilha ecológica dentro do Parque Nacional, específicas para
portadores de deficiência física.
Inexistência de guias turísticos que se comuniquem em inglês fluente.
Riquezas naturais belíssimas, onde o turista pode desfrutar de um clima
Área especifica no Parque Nacional somente para pesquisadores
Atrativos Turistas entrevistados, de forma aleatória, satisfeitos com os atrativos e com
turísticos pretensão de retornar ao município.
Existência de roteiro histórico e cultural no Parque Nacional de Ubajara.
TURISMO

Atrativos naturais valorizados, porém desestruturados.


Inexistência do Plano de Marketing.
Inexistência de uma página na internet específica para promoção dos destinos
Marketing e turísticos de Ubajara.
Promoção do Excesso de divulgação de destino turístico litorâneo em detrimento do destino
Destino turístico alternativo de Ubajara.
Pouca diversidade de materiais para divulgação dos destinos turísticos do
município.
DIMENSÕES E EIXOS DIAGNÓSTICO
Inexistência de um Plano Municipal de Turismo.
Compromisso de reforma e modernização do Teleférico do Parque Nacional
pelo governo estadual para ser entregue em 2018.
Políticas
POLÍTICAS PÚBLICAS

Públicas Inexistência de implantação de postos de informações turísticas do município


Necessidade de ação governamental para desapropriação de terras em áreas
de preservação ambiental.
Ausência de implantação de estruturas de segurança em locais de risco.
Ineficiência do suporte da rede pública e privada na promoção e
comercialização dos destinos turísticos.
Cooperação Existência de parceira com a população local para a conservação ambiental.
Regional Roteirização regional existente, porém o inventário municipal ainda está em
andamento.
Grau de cooperação público-privada pouco consolidada.

Tópicos em Administração - Volume 2


84

Tabela 1 - Diagnóstico da análise situacional do turismo (continuação)

DIMENSÕES E EIXOS DIAGNÓSTICO


Pesquisa de demanda turística existente apenas no principal atrativo turístico,
o Parque Nacional de Ubajara.
Existência do sistema de estatísticas de turismo apenas do Parque Nacional
Monitoramento de Ubajara.
Inexistência de medição dos impactos das atividades turísticas.
Setor específico de estudos e pesquisas inexistentes.
Baixa no faturamento de pousadas, hotéis e restaurantes desde a paralização
do Teleférico do Parque Nacional.
Economia Local Agricultura e comércio são as principais atividades econômicas do município.
Empresa multinacional de agroindústria com grande geração de empregos na
ECONOMIA

Região da Serra da Ibiapaba.


Capacidade de qualificação e aproveitamento do pessoal local prevalecente,
porém pouco explorada.
Capacidade Apenas uma agência bancária em funcionamento.
Empresarial Solo fértil e condições climáticas capazes de atrair a instalação de empresa
multinacional de agroindústria.
Falta de grupos nacionais ou internacionais no setor do turismo.
Baixo número de empregos gerados pelo turismo.

Aspectos Boa receptividade local das pessoas entrevistas para a realização da presente
Sociais pesquisa.
Inexistência de sensibilização e participação na atividade turística, através de
Projetos Educacionais em escolas municipais.
SUSTENTABILIDADE

Desenvolvimento de atividades de educação e interpretação ambiental, de


recreação em contato com a natureza e de turismo ecológico no Parque
Nacional de Ubajara.Desmatamento e queimadas em florestas.
Aspectos Garantia de proteção, por meio do Instituto Chico Mendes de Conservação da
Ambientais Biodiversidade (ICMbio), nas áreas de grande valia para a natureza.
Garantia de proteção, por meio do Instituto Chico Mendes de Conservação da
Biodiversidade (ICMbio), nas áreas de grande valia para a natureza.
Poluição por resíduos sólidos em ambientes indevidos.
Patrimônio histórico e cultural em processo de conservação.
Produção cultural associada ao turismo não desenvolvida.
Aspectos
Culturais Necessidade de maior valorização interna e externa dos eventos culturais que
acontecem no município.
Desconhecimento da população local de sua própria história e cultura.
Fonte: Elaborada pela autora em maio de 2017.

Tópicos em Administração - Volume 2


85

O diagnóstico aqui exposto se deu através de consiste em separar e priorizar os problemas


entrevistas semiestruturadas com turistas, para fins de análise e posterior solução onde,
guias- turísticos do Parque Nacional, G= Gravidade a qual consiste em avaliar as
empreendedores voltados ao setor turístico e consequências negativas que o problema
aplicação de questionário ao Secretário de pode trazer aos clientes. U= Urgência
Turismo, Meio Ambiente, Cultura e Esporte de consiste em avaliar o tempo necessário ou
Ubajara. Para identificação do diagnóstico disponível para corrigir o problema, T=
utilizou-se também o método da observação. Tendência avalia o comportamento evolutivo
da situação atual” (LEAL et al.,2011). É
preciso reconhecer, que habitualmente
4.2 MATRIZ GUT E SUA APLICAÇÃO NO atribui-se valores entre 1e 5, a cada uma das
CENÁRIO TURÍSTICO dimensões (G.U.T), correspondendo o 5 à
maior intensidade e o 1 à menor ( TRISTÃO,
A matriz de priorização de GUT (gravidade,
2009). Tristão (2011) ressalta que
urgência, tendência) foi proposta por Charles
multiplicando os valores obtidos para o G, U e
H. Kepner e Benjamin B. Tregoe, em 1981.
T, a fim de se obter um valor para cada
Segundo Grimaldi apud Aguiar (2004), a
problema ou fator de risco estudado. Abaixo
“técnica de GUT foi desenvolvida com o
serão apresentados os campos de análise,
objetivo de orientar decisões mais complexas,
propostos por Kepner & Tregoe (1981):
isto é, decisões que envolvem muitas
questões”.“A Matriz GUT é uma das
ferramentas de mais simples aplicação, pois

Tabela 2 - Campos de análise da Matriz GUT


GRAVIDADE URGÊNCIA TENDÊNCIA
1- Sem gravidade (dano 1 - Longuíssimo prazo (dois ou 1-Desaparece (não vai piorar)
mínimo). mais meses)
2- Pouco grave (dano leve) 2 - Longo prazo (um mês) 2-Reduz-se ligeiramente (vai
piorar em longo prazo)
3- Grave (dano regular) 3 - Prazo médio (uma quinzena) 3-Permanece (vai piorar em
médio prazo)
4- Muito grave (grande dano) 4 - Curto prazo (uma semana) 4-Aumenta (vai piorar em pouco
tempo)
5- Extremamente grave (dano 5 - Imediatamente (está 5-Piora muito (vai piorar
gravíssimo) ocorrendo). rapidamente).

Fonte: Kepner & Tregoe (1981)

Tópicos em Administração - Volume 2


86

Tabela 3- Problemas identificados e avaliados na Matriz GUT


Problemas identificados no turismo Gravidade Urgência Tendência Prioridade
Baixa capacidade de atendimento médico para o turista. 4 4 3 48
Paralisação do Teleférico do Parque Nacional de Ubajara, com 5 1 5 25
previsão para voltar a funcionar em 2018.
Sistema de fornecimento de energia com baixa capacidade de 4 4 3 48
atendimento.
Ineficiência no recolhimento do lixo. 5 4 4 80
Saneamento básico ruim. 5 4 5 100
Ausência de transporte coletivo do centro da cidade para os 4 3 3 36
pontos turísticos.
Pouca oferta de táxi ou moto-táxi no centro da cidade. 4 3 3 36
Acesso rodoviário ruim. 4 2 4 32
Inexistência de proximidade de grandes centros turísticos. 3 1 3 9
Sinalização turística ineficiente. 4 3 3 36
Estrutura inadequada para realização de eventos, como 4 2 3 24
convenções, fóruns e feiras.
Grande o número de turistas por trilhas ecológicas no Parque 4 3 3 36
Nacional de Ubajara.
Inexistência de guias turísticos que se comuniquem em inglês 5 2 3 30
fluente.
Atrativos naturais valorizados, porém desestruturados. 4 2 4 32
Inexistência do Plano de Marketing. 5 1 3 15
Inexistência de uma página na internet específica para 5 2 3 30
promoção dos destinos turísticos de Ubajara.
Excesso de divulgação de destino turístico litorâneo em 4 2 3 24
detrimento do destino turístico alternativo de Ubajara.
Pouca diversidade de materiais para divulgação dos destinos 4 2 4 32
turísticos do município.
Inexistência de um Plano Municipal de Turismo. 5 1 5 25
Inexistência de implantação de postos de informações turísticas 5 2 3 30
do município.
Necessidade de ação governamental para desapropriação de 5 1 3 15
terras em áreas de preservação ambiental.
Ausência de implantação de estruturas eficientes de segurança 5 3 4 60
em locais de risco.
Ineficiência do suporte da rede pública e privada na promoção 4 2 4 32
e comercialização dos destinos turísticos.
Roteirização regional existente, porém o inventário municipal 3 2 3 18
ainda está em andamento.
Grau de cooperação público-privada pouco consolidada. 4 2 4 32
Pesquisa de demanda turística existente apenas no principal 3 2 3 18
atrativo turístico, o Parque Nacional de Ubajara.
Existência do sistema de estatísticas de turismo apenas do 3 2 3 18
Parque Nacional de Ubajara.
Inexistência de medição dos impactos das atividades turísticas. 3 3 4 36
Setor específico de estudos e pesquisas inexistentes. 3 2 3 18
Baixa no faturamento de pousadas, hotéis e restaurantes desde 4 3 3 36
a paralização do Teleférico do Parque Nacional.
Capacidade de qualificação e aproveitamento do pessoal local 3 2 4 24
prevalecente, porém pouco explorada.
Apenas uma agência bancária em funcionamento. 3 2 4 24
Falta de grupos nacionais ou internacionais no setor do turismo. 4 1 3 12
Baixo número de empregos gerados pelo turismo. 5 1 4 20
Inexistência de sensibilização e participação na atividade 4 2 5 40
turística, através de Projetos Educacionais em escolas
municipais.
Desmatamento e queimadas em florestas. 5 5 4 100
Poluição por resíduos sólidos em ambientes indevidos. 5 5 4 100
Produção cultural associada ao turismo não desenvolvida. 4 2 4 32
Necessidade de maior valorização interna e externa dos 4 3 4 48
eventos culturais que acontecem no município.
Desconhecimento da população local de sua própria história e 5 3 3 45
cultura.
Fonte: Elaborada pela autora, maio de 2017.

Tópicos em Administração - Volume 2


87

De acordo com a avaliação da ferramenta Região pelo turismo, mas existem outras
estratégica da Matriz GUT, os problemas que cidades como Tianguá (turismo de negócios)
aparecem com maior prioridade a serem e São Benedito (turismo religioso), que
solucionados são: saneamento básico ruim, poderiam estar em um projeto de cooperação
desmatamento e queimadas em florestas e regional para planos de ação juntamente com
poluição por resíduos sólidos em ambientes as governanças da esfera estadual e federal.
indevidos, no qual atingiram uma pontuação Isso em concomitância com a participação de
100. Seguidamente aparece como problemas forma integrada entre o estado, comunidade,
prioritários a ineficiência no recolhimento do iniciativa privada e 3º setor, considerado
lixo, com pontuação 80 e por fim a ausência como os “stakeholders” do turismo. Assim,
de implantação de estruturas eficientes de seria possível haver eficiência e eficácia no
segurança em locais de risco, com pontuação desenvolvimento turístico do município.
60.
No entanto, existem grandes empecilhos que
Dessa forma, avalia-se: é necessário haver inviabilizam a construção de um cenário
solução para os 40 problemas listados na turístico capaz de inserir Ubajara como
tabela da matriz GUT, dos quais os eixos referência no contexto de turismo alternativo
prioritários a serem solucionados se inserem do Ceará. Atualmente com a abrangência do
em infraestrutura, aspectos ambientais e turismo aliada ao crescimento da
políticas públicas. Assim, é necessária a competividade de empresas do setor turístico,
atuação do poder público municipal para da profissionalização e o aumento das
melhorar o saneamento básico, implantar inquietações sociais e ambientais em prol de
estruturas de segurança eficientes em locais um melhor espaço social, onde o bem-estar e
de risco e estabelecer leis de legislação o cuidado com o habitat prevaleça, torna-se
ambiental para o município. Em contrapartida, fundamental uma ação proativa e
a comunidade local deve participar dessa comprometida do Estado. O mesmo deve se
melhoria respeitando cada vez mais o meio responsabilizar em agir estrategicamente
ambiente, ainda que não seja lei municipal. buscando implementar ações capazes de
Somente através da atuação do poder público melhorar a infraestrutura, o acesso, os
municipal em concomitância com a serviços e equipamentos turísticos, os
participação da comunidade local, o turismo atrativos turísticos, o marketing e a promoção
de Ubajara se fortalecerá de uma forma do destino turístico, as políticas públicas, a
participativa, integrada e estratégica. cooperação regional, o monitoramento, a
economia local, a capacidade empresarial, os
aspectos sociais, os aspectos ambientais e os
5. CONSIDERAÇÕES FINAIS aspectos culturais. Mesmo diante da
necessidade de um maior investimento na
A presente pesquisa traz um papel de
capacitação dos guias-turísticos, para que os
conscientização para a população ubajarense
mesmos aprendam outro idioma viabilizando
(autoridades públicas, empreendedores,
a comunicação com os turistas estrangeiros,
estudantes, pesquisadores, entre outros)
foi possível analisar que tal dificuldade não
acerca do potencial ecológico, natural e
impede de acolher com boa receptividade o
cultural encontrado no município. Podendo
turista estrangeiro. Um fator negativo e
assim, ser explorado com maior propriedade
relevante que merece destaque é paralisação
em futuras ações de políticas públicas, de
do Teleférico do Parque Nacional de Ubajara
forma a enriquecer a cultura local propiciando
que resulta em uma queda crescente no fluxo
o desenvolvimento social e econômico do
de turistas. No entanto, há um
município. Isso tudo, através da inserção e
comprometimento do governo estadual para
consolidação da cidade de Ubajara como um
ser entregue a obra de modernização do
respeitado destino turístico por meio de um
Teleférico em 2018.
marketing competente, capaz de favorecer
cidades próximas que pertencem à Região da Ao findar a pesquisa, tornou-se possível
Serra da Ibiapaba, que também dispõem de constatar que a realização de uma analise
grandes potencialidades em seus atrativos através da ferramenta estratégica Matriz GUT
turísticos. Pode-se destacar a grande identifica problemas da administração para
necessidade de haver um planejamento assim poder utilizar um dos princípios básicos
turístico para um consequente plano de ação da função do administrador que é o
capaz de promover o turismo municipal. planejamento. Sob essa perspectiva, o
Ubajara é o município mais reconhecido da cenário turístico de Ubajara necessita de um

Tópicos em Administração - Volume 2


88

planejamento integrado, participativo e município e até mesmo na Região da Serra da


estratégico para que a soma das forças da Ibiapaba. Dessa forma, a pesquisa atua como
comunidade local, iniciativa privada, terceiro fomento a indução de futuros planos de
setor e poder público sejam capazes de ações, a serem executadas pelo poder
introduzir meios para que haja um público municipal, sempre alinhado as
fortalecimento do turismo de Ubajara, capaz diretrizes estaduais e federais.
de proporcionar desenvolvimento no

REFERÊNCIAS [5] PETROCCHI, Mario. Turismo:


Planejamento e Gestão. São Paulo: Pearson
[1] ANDRADE, J. V. Turismo: fundamentos e Prentice Hall, 2009.
dimensões. 8. ed. São Paulo, Ática, 2002. [6] TRISTÃO, R. G. C. A importância das
[2] BARRETO, M. Manual de Iniciação ao ações corretivas e ações preventivas nos sistemas
estudo do turismo. 5. ed. Campinas – SP: Papirus de gestão da qualidade: um estudo em empresas
Editora, 1995. BENI, Mário Carlos. Análise certificadas ISO 9001 no Estado do Rio de Janeiro.
estrutural do turismo. São Paulo: Senac, 2000. 2009. 92 f. Dissertação (Mestrado Profissional em
[3] Ibiapaba – “Quatro Séculos de Sistemas de Gestão)- Universidade Federal
Caminhada”. Ubajara: Papelaria Gráfica Tavares Fluminense-UFF. Niterói, RJ. 2009.
Ltda., 2004. KEPNER, C. H.; TREGOE, B. B. O [7] VIGNATI, F. Gestão de destinos turísticos:
administrador racional. São Paulo, Atlas, 1989. como atrair pessoas para pólos, cidades e países.
[4] MINISTÉRIO DO TURISMO. Plano Rio de Janeiro: Ed. Senac Rio, 2008.
Nacional de Turismo. Brasília, 2014 [8] YIN, R. K. Estudo de caso – planejamento
e métodos. 2. ed. Porto Alegre: Bookman. 2001.

Tópicos em Administração - Volume 2


89

Capítulo 9

Kelane Bezerra de Aguiar


Sueli Maria de Araújo Cavalcante
Elidihara Trigueiro Guimarães
Cláudia Buhamra Abreu Romero
Ana Paula da Cruz Holanda Barros

Resumo: Esta pesquisa tem como propósito analisar a qualidade de vida no


trabalho (QVT) dos Secretários Executivos da Universidade Federal do Ceará
(UFC). Apresenta a origem e a evolução da qualidade de vida no trabalho e
descreve o modelo de avaliação da QVT proposto por Walton (1973), como
também destaca as atribuições do Secretário Executivo em uma organização.
Caracteriza-se como uma pesquisa do tipo descritiva, bibliográfica e estudo de
caso, com abordagem quantitativa. O universo da pesquisa é composto de 52
servidores técnico-administrativos, ocupantes do cargo de Secretário Executivo, e a
amostra composta por 36 deles, por estarem lotados nos campi da UFC em
Fortaleza. Os resultados obtidos demonstraram que os participantes estão
satisfeitos em relação a todas as categorias de QVT analisadas, considerando a
média total alcançada (3,57). A categoria que obteve a melhor avaliação (média
3,89) diz respeito à Integração Social na organização, significando que os
profissionais investigados estão satisfeitos com o relacionamento que é mantido
com a chefia e com os colegas de trabalho, assim como estão satisfeitos com o
senso comunitário e com a ausência de preconceitos na instituição. Entretanto, a
categoria denominada Trabalho e Espaço Total de Vida obteve a mais baixa
avaliação (média 3,00), o que pode indicar a menor satisfação quanto ao equilíbrio
de tempo entre o trabalho e a vida pessoal, assim como em relação ao tempo que
dispõem para a família e para o lazer.

Palavras chave: Qualidade de vida no trabalho. Secretários Executivos.


Universidade Federal do Ceará.

Tópicos em Administração - Volume 2


90

1. INTRODUÇÃO prazeroso (SANT’ANNA; KILIMNIK; MORAES,


2011).
Considerando que o trabalho é algo relevante
na vida das pessoas, observa-se especial Apenas com a Administração Científica é que
atenção destinada a temas voltados a esse o trabalho é detalhadamente estudado, na
contexto, sobretudo em relação à qualidade busca por melhores resultados dos esforços
de vida nas instituições. Especificamente em dos trabalhadores (SANT’ANNA; KILIMNIK;
relação às instituições públicas, observa-se MORAES, 2011). Tal escola, surgida no final
que as mesmas também estão inseridas em do século XIX e início do século XX, tem
um cenário que apresenta competitividade e Frederick Taylor como principal mentor. Em
alterações nos contextos do trabalho. Do sua visão, o homem se movia apenas por
mesmo modo que as organizações privadas, interesses econômicos e que a extinção dos
as instituições públicas também devem conflitos entre trabalhadores e empregadores
possuir processos organizacionais ocorreria a partir da maximização da
adequados e corpo funcional qualificado para prosperidade de ambos. Para Taylor, a
atender as exigências de uma população que organização racional do trabalho baseia-se na
se beneficia com a prestação dos serviços da divisão de tarefas, especialização do
instituição pública. trabalhador, rígidas hierarquias e mão-de-
obra padronizada, com vistas a uma maior
Considerando a relevância da participação
eficiência e produtividade, por meio do
das pessoas para alcance do sucesso
controle e da oferta de incentivos monetários
organizacional, principalmente em uma
(MEDEIROS, 2002).
instituição pública de grande importância
para o Estado do Ceará, como a Universidade Os métodos tayloristas provocaram o
Federal do Ceará, o papel do profissional de descontentamento dos trabalhadores,
secretariado executivo torna-se estratégico e gerando níveis elevados de absenteísmo,
vem se modificando para atender a um sabotagens, greves e diversos outros
mercado de trabalho cada dia mais exigente, conflitos, à medida que promoviam a
tendo em vista as necessidades das fragmentação do trabalho e reduziam o
organizações que vêm se transformando ao trabalhador a uma peça da engrenagem do
longo do tempo. Medeiros e Hernandes sistema produtivo. Diante de um cenário de
(2010) enfatizam a importância desse aumento da conscientização dos
profissional ao afirmarem que o mesmo é trabalhadores e da ampliação do movimento
responsável pelo assessoramento do sindical, as organizações e os pesquisadores
executivo, dominando habilidades buscaram formas de anular os efeitos
demandadas no escritório, assumindo negativos gerados pelos métodos propostos
responsabilidades sem supervisão direta e pela Administração Científica (SANT’ANNA;
tomando decisões segundo objetivos KILIMNIK; MORAES, 2011).
destacados pela autoridade, podendo tornar-
A Escola das Relações Humanas surge em
se ponte entre os que tomam decisões
reação à Administração Científica ao destacar
gerenciais e aqueles que executam tais
as pessoas, os grupos informais e os
decisões.
aspectos psicossociais do trabalho. A escola
Este artigo tem, portanto, como objetivo originou-se a partir das experiências
analisar a qualidade de vida no trabalho realizadas por Elton Mayo e outros
(QVT) dos Secretários Executivos da colaboradores, na fábrica da Western Eletric
Universidade Federal do Ceará (UFC). Company, em Hawthorne, na cidade de
Chicago, que objetivavam relacionar a
luminosidade do ambiente laboral com a
2. QUALIDADE DE VIDA NO TRABALHO produtividade dos trabalhadores (MEDEIROS,
2002).
2.1 ORIGEM E EVOLUÇÃO DA QUALIDADE
DE VIDA NO TRABALHO Os resultados dos experimentos levaram à
conclusão de que o rendimento do trabalho
O homem tem buscado, desde os primórdios
não dependia apenas do desempenho do
da civilização, formas de amenizar a luta pela
trabalhador, mas estava relacionado também
sobrevivência, desenvolvendo, desde os
com as relações que o mesmo mantinha no
tempos mais remotos, artefatos, ferramentas e
grupo em que estava inserido, assim como a
métodos que minimizem os desgastes
natureza social e psicológica desse
decorrentes do trabalho e/ou que o torne mais
trabalhador e dos aspectos intrínsecos

Tópicos em Administração - Volume 2


91

relacionados ao ambiente de trabalho (SÁ, estrangeira, voltando-se para produtividade,


2000). qualidade e outros problemas da organização
(TOLFO; PICCININI, 2011). Nesse período, a
Para Medeiros (2002), a abordagem
maior participação da classe trabalhadora
humanística da Escola das Relações
nas empresas recebeu elevado destaque nos
Humanas contribuiu para o que mais tarde
programas de QVT e decorreu da maior
seria chamado de Qualidade de Vida no
organização e mobilização dos mesmos que,
Trabalho, ao destacar a influência dos
a partir da conscientização de seus direitos,
aspectos psicológicos e o bem-estar do
solicitavam condições melhores de trabalho,
trabalhador como fatores decisivos para o
remuneração justa, autonomia e participação
desempenho do mesmo e para os resultados
nas decisões que afetavam o seu próprio
da organização.
trabalho. Tal fato propicia a busca de uma
Historicamente, a origem da denominação de gestão que possua caráter participativo e
Qualidade de Vida no Trabalho (QVT) é democrático, tendo como objetivo a
atribuída a Eric Trist e seus colaboradores, satisfação dos trabalhadores e o
por meio de estudos desenvolvidos no comprometimento com o trabalho
Tavistock Institute, na cidade de Londres, em (MEDEIROS, 2002).
1950. Esses estudos tinham como base a
Para Bom Sucesso (1997), na década de
análise e reestruturação da tarefa e
1990, o termo qualidade de vida invadiu todos
objetivavam tornar menos penosa a vida dos
os espaços, integrando o discurso
trabalhadores (FERNANDES, 1996).
acadêmico, a literatura do comportamento
Na década de 1960, o movimento em torno organizacional, os programas de qualidade
da qualidade de vida no trabalho toma total, conversas informais e também a mídia
impulso, devido ao aumento das em geral. Utilizava-se o termo para avaliar
preocupações em torno de temas condições de vida, incluindo transporte,
relacionados aos direitos civis e de saneamento, lazer, segurança, saúde,
responsabilidade social das empresas. Os conforto e bens materiais. A autora considera
cientistas organizacionais e os dirigentes que são múltiplos os parâmetros para a
empresariais se viram pressionados a definição do que é viver com qualidade e que
pesquisar melhores formas de organização e os mesmos resultam das características,
gerenciamento do trabalho, em virtude do expectativas e interesses individuais.
aumento do escopo de suas
responsabilidades sociais e do nível de
conscientização dos trabalhadores 2.2 MODELO DE AVALIAÇÃO DA
(SANT’ANNA; KILIMNIK; MORAES, 2011). QUALIDADE DE VIDA NO TRABALHO
PROPOSTO POR WALTON
A partir de 1974, decresceu o interesse nos
Estados Unidos pela QVT, motivado por Walton é o primeiro autor norte-americano que
questões econômicas, como o aumento da fundamenta um conjunto de critérios sob a
inflação e a crise energética. Os interesses óptica organizacional, iniciando linha de
dos funcionários foram deixados em segundo pesquisa sobre satisfação em qualidade de
plano em virtude da necessidade de vida no trabalho (LIMONGI-FRANÇA, 2010).
sobrevivência das empresas. A preocupação Em 1973, Walton estabeleceu oito critérios
com a QVT volta a se intensificar apenas no básicos ou categorias que visavam fornecer
final da década de 1970, em decorrência da um método de se avaliar a qualidade de vida
perda de competitividade das indústrias no trabalho. De acordo com Fernandes
norte-americanas em relação às concorrentes (1996), os critérios propostos são:
japonesas. Esse fato propiciou a investigação Compensação Justa e Adequada, Condições
dos estilos de gestão praticados em outros de Trabalho, Uso e Desenvolvimento de
países, bem como da relação dos programas Capacidades, Oportunidade de Crescimento
de produtividade com melhorias no âmbito da e Segurança, Integração Social,
vida no trabalho (TOLFO; PICCININI, 2011). Constitucionalismo, Trabalho e Espaço Total
de Vida e Relevância Social da Vida no
A partir da década de 1980, a QVT passa a
Trabalho. Tais critérios são apresentados no
se associar aos mais diversos programas
Quadro 1.
criados pelas empresas, tornando-se uma
espécie de remédio contra a concorrência

Tópicos em Administração - Volume 2


92

Quadro 1 - Critérios e indicadores de QVT propostos por Walton

CRITÉRIOS INDICADORES DE QVT

Compensação Justa e Equidade interna e externa; Justiça na compensação Partilha


Adequada dos ganhos de produtividade; Proporcionalidade entre salários

Condições de Trabalho Jornada de trabalho razoável; Ambiente físico seguro e


saudável; Ausência de insalubridade

Uso e Desenvolvimento de Autonomia; Autocontrole relativo; Qualidades múltiplas


Capacidades Informações sobre o processo total do trabalho

Oportunidade de Crescimento e Possibilidade de carreira; Crescimento pessoal;


Segurança
Perspectiva de avanço salarial; Segurança de emprego

Integração Social na Ausência de preconceitos; Igualdade; Mobilidade;


Organização Relacionamento; Senso comunitário

Constitucionalismo Direitos de proteção do trabalhador; Privacidade pessoal;


Liberdade de expressão; Tratamento imparcial; Direitos
trabalhistas

Trabalho e Espaço Total de Papel balanceado no trabalho; Estabilidade de horários;


Poucas mudanças geográficas; Tempo para lazer e família
Vida

Relevância Social da Vida no Imagem da empresa; Responsabilidade social da empresa;


Trabalho Responsabilidade pelos produtos; Práticas de emprego

Fonte: Adaptado de Fernandes (1996, p. 48)

De acordo com Fernandes (1996), os termos f) Constitucionalismo: mensura o


do modelo de Walton podem ser definidos da cumprimento dos direitos dos funcionários
seguinte forma: na instituição;
a) Compensação Justa e Adequada: g) Trabalho e Espaço Total de Vida: mensura
mensura a QVT em relação à remuneração o equilíbrio entre vida pessoal e vida no
recebida pelo trabalho realizado; trabalho;
b) Condições de Trabalho: mensura a QVT h) Relevância Social da Vida no Trabalho:
em relação às condições existentes no mensura a QVT por meio da percepção do
local de trabalho; funcionário em relação à responsabilidade
social da empresa, assim como em
c) Uso e Desenvolvimento de Capacidades: relação à qualidade da prestação dos
mensura a QVT em relação às
serviços e ao atendimento a seus
oportunidades que o empregado tem de
empregados.
aplicar seus conhecimentos e aptidões
profissionais no seu dia-a-dia; Em relação ao modelo de Walton, Fernandes
(1996, p. 52) destaca:
d) Oportunidade de Crescimento e
Segurança: mensura a QVT em relação às [...] embora não se desconheçam a
oportunidades de desenvolvimento e diversidade das preferências e às
crescimento pessoal e em relação também diferenças individuais ligadas à cultura,
à segurança que a instituição estabelece classe social, educação, formação e
para o empregado; personalidade, tais fatores são
intervenientes, de modo geral, na
e) Integração Social: mensura o grau de qualidade de vida no trabalho da maioria
integração social na instituição; das pessoas. Ou seja, quando tais

Tópicos em Administração - Volume 2


93

aspectos não são bem gerenciados, os VII - versão e tradução em idioma


níveis de satisfação experimentados pelos estrangeiro, para atender às necessidades de
trabalhadores em geral deixam muito a comunicação da empresa;
desejar, repercutindo nos níveis de
VIII - registro e distribuição de
desempenho.
expedientes e outras tarefas correlatas;
Sant’Anna, Kilimnik e Moraes (2011) afirmam
IX - orientação da avaliação e seleção
que, para Walton, o estabelecimento de
da correspondência para fins de
prioridades e programas de ação que
encaminhamento à chefia;
permitem a elevação da qualidade de vida
dos trabalhadores, pode ser feito por meio de X - conhecimentos protocolares.
levantamento em torno das oito dimensões,
Na UFC, de acordo com o Ofício Circular nº
seguido do mapeamento e análise dos
015/2005/CGGP/SAA/SE/MEC, de 28 de
depoimentos dos mesmos. O autor descarta a
novembro de 2005, os Secretários Executivos,
possibilidade de correlação entre QVT e
ocupantes dos cargos técnico-administrativos
produtividade. No entanto, afirma que o ponto
em educação, possuem as seguintes
ótimo da produtividade se encontra na
atribuições:
ascendência da qualidade de vida no
trabalho, não no seu ponto máximo. Assessorar direções, gerenciando
informações, auxiliando na execução de
tarefas administrativas e em reuniões,
3 O PAPEL DO SECRETÁRIO EXECUTIVO marcando e cancelando compromissos;
coordenar e controlar equipes e
A escolha dos Secretários Executivos, como
atividades; controlar documentos e
foco desta pesquisa, deve-se, sobretudo, em
correspondências; atender usuários
virtude da atuação desses profissionais, que
externos e internos; organizar eventos e
está se tornando cada vez mais estratégica, e
viagens e prestar serviços em idioma
da importância dos mesmos para as
estrangeiro. Assessorar nas atividades de
organizações.
ensino, pesquisa e extensão.
No Brasil, a profissão secretarial evoluiu
Em relação à modificação da atuação desses
consideravelmente a partir da sua
profissionais, que vem ocorrendo ao longo
regulamentação em 1985 (DURANTE, 2012).
dos anos, Durante (2012, p. 7) afirma que “O
A Lei nº 7.377, de 30 de setembro de 1985,
secretário se efetiva hoje como um agente de
regulamentou o exercício da profissão desses
resultados, um agente facilitador, um gestor,
trabalhadores e definiu suas atribuições,
consultor e empreendedor do negócio,
conforme dispõe o Artigo 4º:
prestando assessoria aos dirigentes e
Art. 4º - São atribuições do Secretário tomadores de decisão”.
Executivo:
Na percepção de Mazulo e Liendo (2010, p.
I - planejamento, organização e direção 19) é importante que esses profissionais
de serviços de secretaria; possuam conhecimentos relativos a todas as
áreas de uma instituição, e destacam as
II - assistência e assessoramento direto
seguintes: “marketing, administração,
a executivos;
recursos humanos, finanças, logística,
III - coleta de informações para a contabilidade, telecomunicações, mercado e
consecução de objetivos e metas de clima organizacional”.
empresas;
Mazulo e Liendo (2010, p. 26) ressaltam ainda
IV - redação de textos profissionais que, ao desempenharem o papel de
especializados, inclusive em idioma assessores dos executivos, os secretários
estrangeiro; devem conhecer as técnicas utilizadas por
esses gestores, no intuito de conhecer suas
V - interpretação e sintetização de
ações, e enfatizam a “liderança, motivação,
textos e documentos;
comunicação efetiva, negociação e
VI - taquigrafia de ditados, discursos, criatividade”.
conferências, palestras de explanações,
Durante (2012) enfatiza que os secretários
inclusive em idioma estangeiro;
ganharam mais espaço nas instituições, com
atuação e interferência mais ativa nos
processos organizacionais e maior autonomia

Tópicos em Administração - Volume 2


94

para desenvolver seu trabalho, sendo sua expansão geográfica, aumento de


atuação considerada muito mais estratégica contratações de servidores docentes e
do que operacional. Esclarece ainda que técnico-administrativos, criação de novos
independentemente do tipo e do tamanho da cursos, ampliação do número de vagas nos
organização, os secretários desempenham cursos ofertados, e investimento em pesquisa
papel fundamental e que vêm se destacando e tecnologia.
por suas competências e contribuições para o
Atualmente, a UFC é composta por sete
sucesso das organizações.
campi, sendo três localizados na cidade de
Fortaleza e os demais no interior do estado do
Ceará. Os campi localizados na capital
4. ASPECTOS METODOLÓGICOS
cearense são denominados de Campus do
4.1 TIPO DA PESQUISA Benfica, Campus do Pici Prof. Prisco Bezerra
e Campus do Porangabuçu. Os demais campi
Para classificar esta pesquisa, será adotada a
localizados no interior do Estado são
tipologia proposta por Vergara (2014), por
denominados de Campus de Sobral, Campus
meio da utilização de dois critérios: quanto
de Crateús, Campus de Russas e Campus de
aos fins e quanto aos meios. Quanto aos fins,
Quixadá.
esta pesquisa pode ser classificada como
descritiva, pois se propõe a expor
características de uma determinada
4.3 UNIVERSO E AMOSTRA
população ou fenômeno, não possuindo o
compromisso de explicar os fenômenos que O universo de uma pesquisa, segundo
descreve, mas que pode servir de base para Andrade (2010), constitui-se de todos os
essa explicação. elementos de uma classe ou população.
Vergara (2014) esclarece que população é
Quanto aos meios, classifica-se como
um conjunto de elementos, tais como
pesquisa bibliográfica e estudo de caso.
empresas, pessoas e produtos, que possuem
Bibliográfica por ser baseada em material já
características que são objeto do estudo.
publicado e acessível ao público em geral
(VERGARA, 2014), possibilitando assim pôr o A amostra, de acordo com Andrade (2010) é
pesquisador em contato direto com tudo o composta pelos sujeitos da pesquisa, ou seja,
que já foi dito, escrito ou filmado sobre algum são elementos do universo que serão
assunto (MARCONI; LAKATOS, 2010). Estudo investigados. Baptista e Campos (2007)
de caso por estar voltado para um estudo ressaltam que a amostra é formada por um
mais aprofundado de um ou poucos objetos, subconjunto finito e qualquer de elementos da
de tal forma a permitir seu amplo e detalhado população que apresentam as mesmas
conhecimento (GIL, 2010). características dessa população.
Quanto à natureza, pode ser classificada Nesta pesquisa, a população é composta
como pesquisa quantitativa, pois, segundo pelos servidores técnico-administrativos,
Richardson (2012), é caracterizada pelo ocupantes do cargo de Secretário Executivo,
emprego da quantificação por meio de que estão lotados nos campi da UFC em
técnicas estatísticas usadas tanto na coleta Fortaleza. De acordo com dados fornecidos
das informações quanto no tratamento delas. pela Pró-Reitoria de Gestão de Pessoas
(PROGEP) da instituição analisada, até a
primeira quinzena do mês de outubro de
4.2 LOCUS DA PESQUISA 2016, foi contabilizado um total de 52
profissionais que se enquadravam no perfil
O local escolhido para a realização da
mencionado. A amostra total obtida compõe-
pesquisa foi a Universidade Federal do Ceará
se de 36 servidores.
(UFC), instituição de ensino superior fundada
há mais de 60 anos e vinculada ao Ministério
da Educação (MEC). O motivo da escolha
5 RESULTADOS E DISCUSSÃO
deve-se ao fato da instituição ser considerada
como uma das principais universidades do 5.1 PERFIL DA AMOSTRA
Brasil, sendo referência em educação de
O perfil dos profissionais ocupantes do cargo
qualidade e que vem passando por um
de Secretário Executivo na UFC, lotados nos
processo de crescimento acelerado nos
campi de Fortaleza, apresenta-se melhor
últimos anos, principalmente em termos de
ilustrado na Tabela 1.

Tópicos em Administração - Volume 2


95

Tabela 1 - Síntese do perfil da amostra dos Secretários Executivos da UFC

DADO PREVALÊNCIA %

Sexo Feminino 88,9 %

Faixa etária 26 a 35 anos 44,4%

Estado civil Casado 50%

Número de filhos 0 52,8%

Escolaridade Especialização 75%

Tempo de serviço na UFC 4 a 10 anos 72,2%

Faixa salarial líquida R$ 3.000,00 a R$ 5.000,00 44,4%


Fonte: Elaboração própria.

O perfil mencionado na Tabela 1 caracteriza- qualidade de vida no trabalho dos


se por ser formado, em grande maioria, por participantes da pesquisa, por meio da
mulheres, que estão na faixa etária de 26 a 35 análise do grau de satisfação em relação ao
anos, casadas, sem filhos, com titulação de assunto. A avaliação encontra-se estruturada
especialista, que possuem entre 4 e 10 anos de acordo com as oito categorias, critérios ou
de serviço na instituição e com faixa salarial dimensões do modelo teórico proposto por
líquida compreendida entre R$ 3.000,00 e Walton em 1973.
R$ 5.000,00.
Para a avaliação dos resultados, serão
5.2 Avaliação da qualidade de vida no adotados os índices propostos por Borges
trabalho dos Secretários Executivos da UFC (2005), conforme Tabela 2.
Este tópico apresentará os resultados que
foram obtidos a partir da avaliação da

Tabela 2 - Índices para avaliação dos resultados de QVT

Índice Avaliação

1 – 2,9 Insatisfatória (baixa)

3 – 3,9 Satisfatória (normal)

4–5 Alta
Fonte: Adaptado de Borges (2005, p. 64).

Os índices utilizados na Tabela 2 consideram 3,83 e desvio padrão 0,88, foi o item “Salário
as médias situadas entre 1 e 2,9 como recebido em comparação com o salário dos
avaliação insatisfatória ou baixa, entre 3 e 3,9 demais colegas de trabalho que exercem as
como avaliação satisfatória ou normal e entre mesmas atividades”. Esse item objetivava
4 e 5 como avaliação alta. avaliar o nível de equidade salarial interna da
instituição, ou seja, a igualdade de
remuneração entre os profissionais. A
5.2.1 COMPENSAÇÃO JUSTA E ADEQUADA avaliação em média satisfatória no referido
item pode estar relacionada ao fato de que
Em relação à categoria denominada
numa instituição pública como a UFC, o
Compensação Justa e Adequada, o item do
salário (vencimento básico) dos funcionários
questionário melhor avaliado, obtendo média
ser estabelecido por meio de legislação

Tópicos em Administração - Volume 2


96

pertinente e que visa garantir que ocasionar problemas de saúde diversos, tanto
profissionais que ocupam o mesmo cargo físicos como psicológicos.
estejam enquadrados na mesma faixa salarial.
A pior avaliação nesta categoria foi obtida
5.2.3 USO E DESENVOLVIMENTO DE
pelo item que trata dos benefícios oferecidos
CAPACIDADES
na UFC, tais como o auxílio alimentação, o
auxílio saúde, a assistência pré-escolar e o No que tange à categoria Uso e
auxílio transporte, obtendo uma média de Desenvolvimento de Capacidades, os
2,42 pontos. Os valores vigentes dos três resultados obtidos demonstram que os
primeiros benefícios citados e concedidos servidores estão, em média, entre altamente
aos servidores do Poder Executivo Federal satisfeitos e satisfeitos com a relevância das
foram reajustados pelo Ministério do atividades que desempenham (média 3,92),
Planejamento, Orçamento e Gestão em com a possibilidade de uso de habilidades e
janeiro de 2016. Esse reajuste foi efetivado capacidades na realização das mesmas
apenas após acordo de negociação salarial (média 3,92) e com o nível de
ocorrido após a deflagração da greve dos responsabilidade que lhes é atribuído em seu
servidores no ano de 2015, o que vem se trabalho (média 4,03).
tornando recorrente nos últimos anos.
Os respondentes avaliaram que estão
Entretanto, os atuais valores pagos dos
satisfeitos com a autonomia que possuem,
benefícios estão bem aquém do que é pago
podendo tomar decisões próprias em relação
em outras organizações, inclusive nas demais
ao planejamento e execução de suas
esferas do poder, fato esse que pode ter
atividades (média 3,61) e também estão
contribuído para a avaliação insatisfatória
satisfeitos com as informações que recebem
nesse item.
da chefia em relação ao desempenho das
mesmas (média 3,61), fatores esses que
podem influenciar na qualidade do trabalho
5.2.2 CONDIÇÕES DE TRABALHO
desenvolvido.
No que diz respeito à categoria Condições de
Trabalho, os itens que obtiveram as maiores
médias foram os que buscavam analisar a 5.2.4 OPORTUNIDADE DE CRESCIMENTO E
qualidade e a quantidade dos móveis e SEGURANÇA
materiais de consumo (média 4,03) e
No que concerne à categoria Oportunidade
equipamentos tecnológicos disponibilizados
de Crescimento e Segurança, o item
pela UFC (média 3,78), bem como as
“Estabilidade no emprego” obteve a maior
condições físicas estruturais (média 3,92) e
média de toda a categoria, alcançando índice
de saúde e segurança do local de trabalho de
alto de satisfação com média 4,31 e o menor
cada profissional (média 3,64). O resultado,
desvio padrão (0,58), o que representa a
classificado entre alto e satisfatório, pode
menor divergência de opinião dos
estar relacionado aos investimentos que a
respondentes em relação ao assunto. Esse
UFC vem realizando nos últimos anos em
resultado está relacionado ao fato dos
relação à aquisição de novos equipamentos e
servidores alcançarem estabilidade no
mobiliário, bem como na reforma e
emprego após três anos de efetivo exercício,
construção de prédios, proporcionando,
cuja perda do cargo se dará apenas em
assim, melhores condições de trabalho.
virtude de sentença judicial transitada em
Os itens relacionados à jornada e a carga de julgado ou de processo administrativo
trabalho, bem como ao nível de estresse e disciplinar, no qual seja assegurada a ampla
cansaço provocados pelo mesmo, obtiveram, defesa, conforme estabelece a Lei nº 8.112,
respectivamente, as menores médias (3,33, de 11 de dezembro de 1990, que dispõe
3,56, e 3,17), mas também foram avaliados sobre o regime jurídico único dos servidores
como satisfatórios. Dessa forma, os públicos civis da União, das autarquias e das
respondentes estão, em sua maioria, fundações públicas federais.
satisfeitos com o tempo semanal que devem
Em relação ao item “Oferta e incentivo à
dedicar ao trabalho, com a quantidade de
participação em treinamentos e
atividades que devem desempenhar e com o
capacitações”, os participantes avaliaram-no
nível de estresse e cansaço provocados por
como satisfatório, alcançando média 3,36. Na
essas atividades, fatores esses que podem
UFC, há a disponibilização de cursos de

Tópicos em Administração - Volume 2


97

capacitação voltados para os servidores, público, e também pelo fato de que, em


sendo esses cursos ofertados pela Pró- alguns casos, o acesso às funções de chefia,
Reitoria de Gestão de Pessoas (PROGEP), de direção e de assessoramento ocorrer por
que faz o levantamento das necessidades de indicação e não por mérito profissional, o que
treinamento e capacitação dos profissionais pode gerar desmotivação e desestimular a
da instituição. Entretanto, a participação permanência desse servidor na instituição.
nesses cursos está condicionada à prévia
autorização por parte da chefia do
trabalhador, fato esse, entre outros, que pode 5.2.5 INTEGRAÇÃO SOCIAL
gerar empecilhos à participação do mesmo.
Quanto à categoria Integração Social, os itens
Outro aspecto a ser observado é que o citado
que analisam, respectivamente, o
item apresentou desvio padrão elevado
relacionamento dos participantes com os
(1,07), o que caracteriza a diversidade de
colegas de trabalho e com a chefia,
opinião dos respondentes em relação ao
alcançaram índices altos de satisfação
assunto.
(médias 4,17 e 4,03). Já os demais itens que
O item que avalia os incentivos recebidos analisam a ausência de preconceitos e o
para continuidade dos estudos por meio da senso comunitário existentes na UFC, foram
participação em programas de pós- avaliados como satisfatórios (médias 3,64 e
graduação, línguas, entre outros, obteve uma 3,72). Os resultados apresentados podem
avaliação média satisfatória (3,14), mas que significar a presença de um bom clima no
está muito próximo do nível insatisfatório, ambiente de trabalho, com baixa existência
considerando que 30,6% dos respondentes de conflitos, respeito às individualidades e
avaliaram-no nesse nível. Outro ponto a se boa integração e companheirismo entre os
destacar está no fato de que este item profissionais, podendo influenciar na
apresentou o maior desvio padrão (1,17) de motivação e na produtividade dos mesmos.
toda a categoria em análise, o que caracteriza
a ampla variação de respostas dos
participantes. Deve se ressaltar que os 5.2.6 CONSTITUCIONALISMO
servidores pesquisados trabalham em uma
A respeito da categoria Constitucionalismo,
instituição federal de ensino superior que
todos os itens foram avaliados como
oferta uma ampla gama de cursos de
satisfatórios, considerando as médias
graduação, pós-graduação, línguas, etc., cuja
alcançadas pelos mesmos (3,69, 3,86, 3,61 e
missão, em síntese, é formar profissionais
3,14), o que significa que, para boa parte dos
altamente qualificados, gerar e difundir
servidores analisados, há o respeito aos
conhecimentos para o desenvolvimento do
direitos dos trabalhadores, à privacidade
Ceará, do Nordeste e do Brasil. Dessa forma,
pessoal e à liberdade de expressão, além das
os profissionais que integram a UFC também
normas e rotinas existentes serem claras e
fazem parte da sociedade que essa
adequadamente difundidas na instituição.
instituição busca atender, e isso deveria ser
um fator a mais para que a instituição
elevasse os incentivos dados aos seus
5.2.7 TRABALHO E ESPAÇO TOTAL DE VIDA
próprios trabalhadores para continuidade dos
estudos, possibilitando, assim, maiores No tocante à categoria Trabalho e Espaço
chances de crescimento pessoal e, Total de Vida, os itens que analisam,
consequentemente, profissional dos mesmos, respectivamente, o tempo que é destinado
elevando também a qualidade dos serviços entre o trabalho e a vida pessoal e o tempo
prestados. disponível para o lazer e atividades sociais
foram avaliados como satisfatórios pelos
A avaliação da oportunidade de crescimento
servidores, atingindo médias idênticas (3,03).
profissional na UFC resultou na pior média de
O item que analisa o tempo que os
toda a categoria (2,78), sendo avaliada como
respondentes conseguem disponibilizar para
insatisfatória. Dessa forma, na opinião dos
a família, foi avaliado como satisfatório por
respondentes, as oportunidades de avanço
38,9% dos participantes, mas obteve média
na carreira são muito baixas. Esse fato pode
2,94, o que enquadra esse item como
estar relacionado a fatores diversos, tais
insatisfatório. Deve-se enfatizar que o trabalho
como o fato de que os servidores que
não deve consumir todo o tempo que o
ocupam determinado cargo só poderem
trabalhador dispõe, pois isso poderá trazer
ocupar outro se prestarem novo concurso

Tópicos em Administração - Volume 2


98

consequências para a sua saúde e provocar opiniões dos participantes, sobre os assuntos
efeitos negativos na vida pessoal e familiar. tratados nesses itens, divergem bastante.
O que se observa nesta categoria é que os
participantes se sentem satisfeitos em
5.2.8 RELEVÂNCIA SOCIAL DA VIDA NO
trabalhar na UFC e também em relação ao
TRABALHO
que a instituição representa e oferece para a
Relativamente à categoria Relevância Social sociedade, mas não se sentem valorizados e
da Vida no Trabalho, os itens que analisam, não aprovam a política de gestão de pessoas
respectivamente, a imagem, a importância e existente. Dessa forma, torna-se importante
os serviços prestados pela UFC, além do nível rever e adequar essa política e adotar ações
de satisfação em fazer parte dessa instituição, que possam gerar o sentimento de
foram avaliados com índice alto de satisfação, valorização e pertencimento por parte dos
com médias acima de 4,00. Esse resultado trabalhadores, o que poderá,
demonstra o reconhecimento da importância consequentemente, proporcionar benefícios
da universidade para a sociedade como um para todos, ou seja, para os funcionários,
todo, engrandecendo o trabalho dos para a própria organização e para os clientes
profissionais que nela atuam. externos.
Entretanto, os itens voltados,
respectivamente, para análise da valorização
5.2.9 MÉDIAS DAS CATEGORIAS DE
que é dada aos servidores, bem como da
QUALIDADE DE VIDA NO TRABALHO
política de gestão de pessoas da instituição,
AVALIADAS
foram avaliados como insatisfatórios (médias
2,97 e 2,81), mas também obtiveram desvio A Tabela 3 apresenta as médias alcançadas,
padrão elevado, o que significa que as em ordem decrescente, pelas oito categorias
avaliadas.
Tabela 3 - Médias das oito categorias de avaliação da QVT

Categoria Média

Integração Social 3,89

Uso e Desenvolvimento de Capacidades 3,82

Relevância Social da Vida no Trabalho 3,82

Condições de Trabalho 3,63

Constitucionalismo 3,58

Oportunidade de Crescimento e Segurança 3,40

Compensação Justa e Adequada 3,38

Trabalho e Espaço Total de Vida 3,00

Total Geral 3,57


Fonte: Elaboração própria

Infere-se, a partir dos valores apresentados a vida pessoal e familiar dos participantes,
na Tabela 3, que os profissionais estão levando-se em consideração a menor média
satisfeitos com a qualidade de vida que alcançada (3,00).
possuem no ambiente no trabalho,
considerando a média geral alcançada (3,57),
e que há uma boa integração social no 6 CONCLUSÃO
ambiente de trabalho e na instituição (média
Os resultados obtidos demonstraram que os
3,89), mas que há um desequilíbrio na relação
participantes estão satisfeitos em relação a
que se estabelece entre a vida profissional e
todas as categorias de QVT analisadas,

Tópicos em Administração - Volume 2


99

considerando a média total alcançada (3,57). preconceitos na instituição. Entretanto, a


A categoria que obteve a melhor avaliação categoria denominada Trabalho e Espaço
(média 3,89) diz respeito à Integração Social Total de Vida obteve a mais baixa avaliação
na organização, significando que os (média 3,00), o que pode indicar a menor
profissionais investigados estão satisfeitos satisfação quanto ao equilíbrio de tempo entre
com o relacionamento que é mantido com a o trabalho e a vida pessoal, assim como em
chefia e com os colegas de trabalho, assim relação ao tempo que dispõem para a família
como estão satisfeitos com o senso e para o lazer.
comunitário e com a ausência de

REFERÊNCIAS [13] MAZULO, R.; LIENDO, S. Secretária: rotina


gerencial, habilidades comportamentais e plano de
[1] ANDRADE, M. M. Introdução à carreira. São Carlos: Senac São Paulo, 2010.
metodologia do trabalho científico: elaboração de [14] MEC. Ofício Circular nº
trabalhos na graduação. 10. ed. São Paulo: Atlas, 015/2005/CGGP/SAA/SE/MEC, de 28 de novembro
2010. de 2005. Disponível em:
[2] BAPTISTA, M. N.; CAMPOS, D. C. <http://portal.mec.gov.br/arquivos/pdf/canalcggp/o
Metodologias de pesquisa em ciências: análises ficios/oc01505.pdf>. Acesso em: 11 nov. 2016.
quantitativa e qualitativa. Rio de Janeiro: LTC, [15] MEDEIROS, E. G. Análise da qualidade de
2007. vida no trabalho: um estudo de caso na área da
[3] BOM SUCESSO, E. P. Trabalho e construção civil. 2002. 137 f. Dissertação
qualidade de vida. Rio de Janeiro: Dunya, 1997. (Mestrado em Administração) - Escola de
[4] BORGES, R. S. G. Investigando as Administração, Universidade Federal do Rio
relações entre políticas de recursos humanos e os Grande do Sul, Porto Alegre, 2002.
construtos comprometimento e qualidade de vida [16] MEDEIROS, J. B.; HERNANDES, S.
no trabalho. 2005. 148 f. Dissertação (Mestrado em Manual da secretária: técnicas de trabalho. 12. ed.
Administração) - Faculdade de Ciências São Paulo: Atlas, 2010.
Econômicas, Universidade Federal de Minas [17] RICHARDSON, R. J. Pesquisa social:
Gerais, Belo Horizonte, 2005. métodos e técnicas. 3. ed. 14. reimpr. São Paulo:
[5] BRASIL. Lei nº 7.377, de 30 de setembro Atlas, 2012.
de 1985. Dispõe sobre o Exercício da Profissão de [18] SÁ, G. E. V. L. Comprometimento
Secretário, e dá outras Providências. Disponível organizacional e qualidade de vida no trabalho em
em: uma empresa de economia mista do estado de
<http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/L7377con Minas Gerais. 2000. 156 f. Dissertação (Mestrado
sol.htm>. Acesso em: 11 nov. 2016. Interinstitucional em Administração) – Faculdade
[6] ______. Lei nº 8.112, de 11 de dezembro de Ciências Econômicas, Universidade Federal de
de 1990. Dispõe sobre o regime jurídico dos Minas Gerais, Minas Gerais, 2000.
servidores públicos civis da União, das autarquias [19] SANT'ANNA, A. S.; KILIMNIK, Z. M.;
e das fundações públicas federais. Disponível em: MORAES, L. F. R. Antecedentes, origens e
[7] <https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/ evolução do movimento em torno da Qualidade de
L8112cons.htm>. Acesso em: 08 nov. 2016. Vida no Trabalho. In: SANT'ANNA, A. S.; KILIMNIK,
[8] DURANTE, D. G. Tópicos especiais em Z. M. (Org.). Qualidade de vida no trabalho:
técnicas de secretariado. Curitiba: IESDE Brasil, abordagens e fundamentos. Rio de Janeiro:
2012. E-book. Elsevier; Belo Horizonte: Fundação Dom Cabral,
[9] FERNANDES, E. C. Qualidade de vida no 2011. p. 3-30.
trabalho: como medir para melhorar. Salvador: [20] TOLFO, S. R.; PICCININI, V.C. A
Casa da Qualidade, 1996. Qualidade de Vida no Trabalho nas melhores
[10] GIL, A. C. Como elaborar projetos de empresas para se trabalhar no Brasil:
pesquisa. 5. ed. São Paulo: Atlas, 2010. descompassos entre teoria e prática. In: In:
[11] LIMONGI-FRANÇA, A. C. Qualidade de SANT'ANNA, A. S.; KILIMNIK, Z. M. (Org.).
vida no trabalho-QVT: conceitos e práticas nas Qualidade de vida no trabalho: abordagens e
empresas da sociedade pós-industrial. São Paulo: fundamentos. Rio de Janeiro: Elsevier; Belo
Atlas, 2010. Horizonte: Fundação Dom Cabral, 2011. p. 85-112.
[12] MARCONI, M. A.; LAKATOS, E. M. [21] VERGARA, S. C. Projetos e relatórios de
Fundamentos de metodologia científica. 7. ed. São pesquisa em administração. 15. ed. São Paulo:
Paulo: Atlas, 2010. Atlas, 2014.

Tópicos em Administração - Volume 2


100

Capítulo 10

Francisco José Azevedo da Silva Mattos


André Teixeira Pontes
Ruben H. Gutierrez

Resumo:A gestão de materiais em uma organização hospitalar é uma atividade


complexa que envolve um volume financeiro significativo. Este trabalho tem a
finalidade analisar a Classificação e Catalogação de Materiais de uma Instituição
Hospitalar de caráter pública, localizado no Rio de Janeiro. A metodologia da
pesquisa inclui uma revisão bibliográfica, bem como entrevista com profissionais da
instituição. Observou-se que o catálogo de materiais apresenta não conformidades
que podem prejudicar as atividades de gestão dos materiais. O estudo apresentou
soluções pontuais as quais atenderam substancialmente os profissionais envolvidos
no processo, bem como o consumidor final. É ponto pacifico que os gestores
devam buscar a eficiência da Gestão hospitalar em Suprimentos, visto que o capital
envolvido é relevante e a instituição em estudo envolve um valor intangível, a vida
Humana.

Palavras-Chave: Gestão hospitalar; Suprimento hospitalar; Instituição Pública.

Tópicos em Administração - Volume 2


101

1. INTRODUÇÃO analisar o cadastramento de medicamentos


de um hospital público de grande porte
Devido à diversidade de materiais que são
localizado no Rio de Janeiro, com foco no
gerenciados pelas organizações, surgiu a
sistema de Codificação e Classificação de
necessidade de classificá-los, para permitir
Materiais.
um melhor planejamento e controle, além de
auxiliar no processo de compra. Um bom
sistema de Codificação e Classificação de
2. METODOLOGIA
Materiais é fundamental para a eficiência
operacional e contábil. A presente pesquisa é de natureza qualitativa
exploratória, com a intenção de fornecer uma
O ambiente hospitalar é um sistema complexo
descrição que demonstre a riqueza do que
com um grande fluxo fixo (medicamentos,
está acontecendo e enfatize a forma como
materiais, documentos, etc.), de informações
isso envolve as intenções e estratégias
(prescrições, prontuários, etc.) e financeiro
(GIBBS, 2009). Trata-se de uma pesquisa
(contas de pacientes, transações financeiras,
investigatória descritiva, realizada através de
etc.). Desta forma, a adoção de um sistema
pesquisa bibliográfica, análise documental e
informatizado que auxilie na gestão destes
entrevistas. A pesquisa ocorreu na Central de
fluxos é fundamental. Em relação ao fluxo de
Abastecimento Farmacêutico (CAF), local de
materiais, torna-se importante, também, a
estoque de medicamentos, de um hospital
padronização da Codificação e Classificação
público de grande porte. A coleta dos dados
de Materiais e a obediência, pelos
deu-se no mês de janeiro de 2017, através de
funcionários, à padronização definida no
análise documental.
momento do cadastramento.
Como instrumento de coleta de dados
Os medicamentos, por exemplo, por suas
utilizou-se análise documental por ser esta “o
características técnicas, pelo risco ao
exame de materiais de natureza diversa, que
paciente e por questões culturais dos
ainda não receberam um tratamento analítico,
funcionários que atuam no setor hospitalar,
ou que podem ser reexaminados, buscando-
exigem um cuidado no cadastramento.
se novas e/ou interpretações
Em relação às características técnicas, complementares” (GODOY, 1995).
informações como concentração, forma
A pesquisa documental envolveu o relatório
farmacêutica e via de administração são,
de Produtos considerados: Padronizados e
muitas vezes, vitais para a identificação
não padronizados. A partir deste relatório,
correta do produto. A forma farmacêutica é
obtiveram-se os dados para análise da
definida como o estado físico no qual se
codificação, classificação e descrição das
apresenta um medicamento com o objetivo de
unidades pelo CAF (código, descrição e
facilitar seu fracionamento, posologia,
unidade de consumo).
administração, absorção e conservação.
Enquanto que a via de administração é a o
caminho pelo qual o medicamento interage
3. FUNDAMENTAÇÃO
com o organismo.
Severino Filho (2006) define gestão de
Especial atenção, em relação ao risco ao
materiais como “um conjunto ambiental
paciente, deve ser dada para os casos onde
constituído por todos os órgãos da empresa,
há a presença de medicamentos com efeitos
interagindo entre si, proporcionando
diferentes, mas com nomenclaturas
condições necessárias a uma atuação
parecidas, e a presença de medicamentos
integrada e eficiente, com objetivo de atender
potencialmente perigosos, cuja utilização
convenientemente às necessidades
errada põe em risco a vida do paciente.
operacionais daempresa”.
Ambos bastantes comuns em ambientes
hospitalares. Para Tadeu et al. (2012) “administrar estoques
consiste em estabelecer um equilíbrio entre
Outro agravante é a cultura, muitas vezes
as necessidades e disponibilidades dos
estimulada pela propaganda massiva das
recursos de uma empresa, sejam eles
indústrias farmacêuticas, de se referenciar o
humanos, materiais, de espaços físicos,
medicamento pelo nome comercial. Como em
financeiros etc.”.
outros produtos, um mesmo medicamento
pode ter diferentes marcas. Alguns autores, como Dias (2010) e Viana
(2010), entendem a Codificação e
O objetivo do presente trabalho, portanto, é

Tópicos em Administração - Volume 2


102

Classificação de Materiais, como processo características em vez de reunir apenas


atual e necessário a uma eficiente materiais para ser classificado, ter
administração de estoques. flexibilidade, deverá permitir interface entre
diversos tipos de classificação, ter
Dias (2010), tem como entendimento que a
praticidade, deverá ser direta e simples. Estes
codificação é um subgênero da classificação,
aspectos tendem a determinar a forma como
ou seja, a codificação é a base do
os materiais serão classificados. Há diversas
mecanismo para que se realize a
formas de classificação de materiais, mas
classificação adequada dos materiais. Viana
cabe ao gestor à escolha desta, devendo
(2010) acredita que para uma armazenagem
este, o gestor, estar atento para as
correta de materiais é necessário utilizar
características especifica de cada situação.
métodos e linguagem especifica que facilite a
De acordo com Dias (2010), “(...) o objetivo
identificação destes materiais em função da
de uma classificação consiste em um
sua frequência de utilização.
catalogação, simplificação, especificação,
Segundo Calvallini e Bisson (2002), a gestão normalização, padronização e codificação
do material “medicamento” precisa ser: dos insumos que compõem o estoque da
racional, eficiente, econômico, seguro, empresa”. Já Costa (2002) “define a
devendo estar em consonância com a classificação como um mecanismo de
prescrição médica. Tem-se como fatores de controle que se aplica aos materiais”.
risco e críticos ao sucesso desta operação o
envolvimento direto do setor de compras, o
controle do estoque e o controle dos 3.2 PRINCÍPIOS DA CLASSIFICAÇÃO
processos.
Alguns princípios devem ser observados na
classificação de materiais, como:
A Organização Pan-americana de Saúde
(Opas) entende que este sistema de gestão
3.2.1 CATALOGAÇÃO
dos medicamentos no ambiente hospitalar
deve ter os seguintes objetivos (SANTOS Segundo Barbierri e Machline (2009) esta fase
2006): é voltada para uma fase do processo em que
cada material deverá ser identificado e
 Diminuir erros demedicação;
ordenado logicamente a fim de atender as
 Racionalizar a distribuição e a necessidades operacionais e facilitar a leitura
administração demedicamentos; deste seja para processo de distribuição ou
de requerimento, ao setor de compras ou
 Aumentar o controle sobre
fornecedores, e também atingir a clareza
osmedicamentos
necessária ao solicitante (médico, enfermeira
 Diminuir custos commedicamentos; ou afins) para o atendimento do usuário
final(paciente).
 Aumentar a segurança para
opaciente;
Segundo Barbieri e Machline (2009) a seleção 3.2.2 ESPECIFICAÇÃO
de medicamentos de uma organização de
saúde passa por várias etapas: É uma minuciosa descrição do item visando
especificação, simplificação, padronização, um melhor entendimento entre consumidor e
classificação, codificação e catalogação. fornecedor. Os critérios a serem adotados
para uma correta descrição, figura 1,
deveram ser atendidos de forma a que sejam
3.1 SISTEMA DE CLASSIFICAÇÃO. permitidos eliminar confusões com
materiaissimilares:
A classificação de materiais deverá ter
abrangência, contemplar uma gama de

Tópicos em Administração - Volume 2


103

FIGURA 1: Critérios descritivos. Fonte: Barbierri e Machline, 2009

Descrever o material partindo do geral para o particular;


Incluir todas as informações necessárias para identifica-lo de modo a não gerar
dúvida;

Evitar características desnecessárias ou redundantes;
 Usar terminologia padronizada

3.2.3 NORMALIZAÇÃO organização torna obrigatório o uso, a compra


e a distribuição de determinado material,
Tem como principal preocupação a maneira acrescenta que a padronização é uma forma
pela qual o material vai ser utilizado em suas de normalização, definida pela International
diversas finalidades e da padronização e Organization of Standardization (ABNT
identificação do material, desta forma tanto o ISO/IEC guia 2:2006) como “processo de
almoxarife e o usuário podem atender e formulação e aplicação de regras para o
solicitar os itens utilizando a mesma tratamento de uma atividade especifica”. Seja
terminologia. Calvallini e Bisson (2002), bem ela na cadeia produtiva, na cadeia de
como Barbieri e Machline (2009), entendem distribuição, no processo de solicitação ou
que os principais objetivos, figura 2, da processo decompras.
padronização são um processo pelo qual a

FIGURA 2: Objetivos da padronização. Fonte: Calvallini e Bisson (2002)

 Reduzir o custo sem prejuízo para segurança do usuário final e eficácia dos
medicamentos;
 Racionalizar o número de medicamentos, trazendo como consequência a
redução de custos de aquisição;
 Facilitar processos logísticos de planejamento, aquisição, armazenamento,
distribuição e controle de estoque.
 Possibilitar o uso de uma mesma terminologia por todos os membros da cadeia
produtiva

3.2..4 CODIFICAÇÃO armazenamento, a distribuição e a


implantação de sistemas uniformizados,
É a forma pelo qual apresentamos cada item facilitando as atividades operacionais e
através de um código, com a utilização de administrativas, visando o tratamento
números e letras. Desta forma facilita a diferenciado para cada tipo de materiais,
localização de materiais armazenados no como o valor de utilização, criticidade de uso,
armazém. Para Gomes e Reis (2001) tem dificuldade de armazenamento e dificuldade
como objetivo definir critérios consistentes e de aquisição.
sustentáveis que permitam e facilitem o

Tópicos em Administração - Volume 2


104

Tabela 1 - Criticidade de uso


Classificação Objetivo Vantagem Desvantagem Aplicações
Fundamental.
Não fornece Deve ser
Materiais de maior Demonstra os materiais
Valor de análise de utilizada em
valor (consumo) de grande to no
consumo importância conjunto
método ABC estoque
operacional comimportância
operacional.
Fundamental.
Importância dos Não fornece Deve ser
Importância materiais para o Demonstra os materiais análise utilizada em
operacional funcionamento da vitais para a empresa econômica dos conjunto com
empresa estoques valor de
consumo
Identifica os materiais
Básica. Deve ser
sujeitos à perda por
Se o material é utilizada com
Perecibilidade perecimento, facilitando
perecível ou não classificação de
armazenagem e
perecibilidade.
movimentação.
Determina
incompabilidade,com Básica. Deve ser
Grau de
outros materiais utilizada com a
Periculosidade periculosidade de
facilitando a classificação de
material
armazenagem e periculosidade
movimentação
Se o material deve
Facilita a organização Complementar
sercomprado,
Fazer ou da programação e para os
fabricado
comprar planejamento de procedimentos
internamente ou
compras de compras
recondicionado
Complementar
Dificuldade de Materiais de fácil ou Agiliza a reposição de para os
aquisição difícil aquisição estoques procedimentos
de compras
Auxilia a elaboração Complementar
Origem dos materiais
Mercado dos programas de para os
(nacional ou
fornecedor importação programas procedimentos
importado)
de importação de compras
Fonte: Viana, 2010

4.2 PADRONIZAÇÃO itens.


É um processo que visa eliminar as  Simplificar o trabalho de estocagem.
variedades desnecessárias. Dentro desta
 Permitir a obtenção de melhores
conceituação estabelecem-se padrões de
preços.
medição, qualidade, peso, dimensão do
material, etc. Existem órgãos responsáveis  Reduzir o trabalho de compras.
pelo processo de padronização, pode-se
citar: Associação Brasileira de Normas  Diminuir os custos de estocagem.
Técnicas, American Society for Testing and  Permitir a aquisição dos materiais
Materials, e outros (LIMA, 2013). com maior rapidez e economia.
Caso o programa de padronização não seja
Segundo Lima (2013) as vantagens da realizado criteriosamente poderá acarretar
padronização são: extrema confusão.(Lima, 2013).

 Favorecer a diminuição do número de A definição da padronização pode seguir


recomendações e exemplos disponíveis na na

Tópicos em Administração - Volume 2


105

relação com fornecedores e clientes como: substituem informações importantes no


Consulta de catálogos; informações dos cadastro. Como exemplo identificou-se o
fornecedores; analise dos estoques medicamento “Aciclovir Creme 50 MG/G
existentes; informações do setor usuário. Bisnaga 10G” estava cadastrado como
“Aciclovir Creme 5% -??G Bisnag”, excluindo
informações importantes que podem gerar
4 RESULTADOS E DISCUSSÃO confusão com outros produtos semelhantes,
além de adicionar símbolos que não
Observou-se que a maior quantidade de não
acrescentam informações relevantes.
conformidades encontradas no sistema de
classificação, codificação e descrição de Continuando a análise do catálogo encontrou-
materiais do hospital analisado está se também a mistura de descrição comercial
relacionada a descrição inadequada do com nomenclatura técnica. O exemplo é o
material, material classificado de forma errada material “Adesivo Cirúrgico (Hystoacryl) ”. O
e duplicidade de material cadastrado. cadastro de materiais em instituições públicas
deve evitar conter o nome comercial do
Além dos erros observados, identificou-se
produto, no caso “Hystoacryl”. Além disso, o
que, no contexto de uma empresa pública,
termo “Adesivo Cirúrgico” é muito genérico,
seria mais eficaz que o sistema utilizado, além
uma vez que trata-se de uma classe de
de possuir uma codificação, classificação e
produtos. A especificação foi dada, nesse
descrição adequadas, tivesse também
caso, pelo nome comercial, o que exige
campos próprios para inserção do código
conhecimento técnico do servidor para
CATMAT (Catálogo de Materiais utilizados
identificar o produto. O cadastro correto
pelo COMPRASNET) e a sua respectiva
desse produto poderia ser “Adesivo cirúrgico,
descrição. Isso facilitaria o processo de
Composição N- Butil2Cianoacrilato, Tipo
compra, uma vez que a licitação pública
Tissular, Não Toxico”.
realizada no Portal de compras do Governo
Federal (ComprasNet) requer a descrição e Outro caso observado foi a presença de
codificação CATMAT. produtos com a mesma concentração
descritos de forma matemática diferente. O
A análise dos cadastros dos materiais do
medicamento Citarabina possui disponível no
hospital estudado permitiu identificar que a
mercado a apresentação em Fraco Ampola
descrição é confusa, algumas apresentam
de solução injetável com concentrações de
incoerência e inconformidades, como
20mg/ml contendo 100mg no conteúdo de
duplicidade de cadastro de um mesmo
5ml do frasco. Observou-se a presença de
material com duas descrições diferentes.
dois cadastros, o primeiro como “Citarabina
Destaca-se o caso do mesmo medicamento
100 MG/Ml Framp” e o segundo como
cadastrado como “Surfactante de origem
“Citarabina 20 MG/Ml Framp 5 Ml”. Esse é
Porcina 80 MG/ML” e como “Alfaporactano 80
apenas um exemplo entre outros semelhantes
MG/ml”. Observou-se que a presença destes
observados (Tabela 2), que podem ocasionar
dois cadastros para esse mesmo
erros de compra, estocagem, entrada de
medicamento gerou erro na entrada e
notas fiscais e convergindo para relatórios
estocagem, pois havia dois códigos de
inconsistentes que tendem a levar a decisões
entrada e dois locais de armazenagem.
estratégicas equivocadas.
Outros produtos ao invés de ter uma
descrição completa apresentam símbolos que

Tópicos em Administração - Volume 2


106

Tabela 2: Produtos com a mesma concentração


Codigo Descricao Unidade Ação
(Não Usar Este Código
FRASCO Excluir código do catálogo de
662 Interferon
produtos
Alfa-2A 3.000.000 Ui Framp) AMPOLA
(Não Usar) Ketamina 50Mg/Ml FRASCO Excluir código do catálogo de
682
Framp AMPOLA produtos
(Não Usar Citarabina 500 Mg -
Excluir código do catálogo de
272 ??Ml AMPOLA
produtos
Amp
Excluir código do catálogo de
9568 3 UNIDADE
produtos
Aciclovir Creme 50 MG/G
Bisnaga Aciclovir Creme 50 mg/g Bisnaga
21 BISNAGA
10G Aciclovir Creme 5% -??G 10g
Bisnaga.
Adesivo Cirúrgico (Hystoacryl)
Adesivo cirúrgico, Composição N-
Adesivo cirúrgico,
Composição N- Butil2Cianoacrilato, Tipo Tissular,
10332 ADESIVO
Butil2Cianoacrilato, Tipo Não
Tissular,
Toxico.
Não Toxico.
Adesivo Selante De Fibrina
9722 CONJUNTO Adesivo Selante De Fibrina 3 ml
(Beriplast) 3 Ml
Albumina Humana 20% -
Albumina Humana 20% - Frasco
Frasco C/
C/ 50
69 FRASCO
50 Ml Albumina Humana 20% -
ml
??Ml Fr
Manter apenas a descrição do
11531 Alfaporactano 80 Mg/Ml C/ 3Ml FRASCO
Surfactante (Cód. 15521)
Alfaporactante 80 Mg/Ml C/ 1,5
Ml
Alfaporactante (Fração Manter apenas a descrição do
Fosfolipídica
13825 FRASCO
De Pulmão Porcino)
Surfactante De Origem
Surfactante (Cód. 15521)
Porcina-
80Mg/Ml Frasco De 1,5 Ml
FRASCO
11545 Cisplatina 100 MG Cisplatina 100 mg
AMPOLA
FRASCO
269 Cisplatinum 10 MG Framp Cisplatina 10 mg
AMPOLA
FRASCO
271 Citarabina 100 MG/Ml Framp Citarabina mg/ml Framp 5 mll
AMPOLA
Citarabina 20 MG/Ml Framp 5 FRASCO
13971 Citarabina 20 mg/ml Framp 5 ml
Ml AMPOLA
Surfactante Pulmonar - Surfactante Pulmonar - Porcino-
15521 Porcino- 80 FRASCO 80 MG/
MG/ Ml - 3 Ml Ml - 3 Ml
Fonte: Elaborado pelos autores

Tópicos em Administração - Volume 2


107

Essas não conformidades identificadas qualidade do serviço.


prejudicam a qualidade do serviço da gestão
Desta forma o trabalho realizado está em
de materiais no hospital em estudo,
conformidade com as necessidades atuais da
prejudicando o atendimento dos objetivos do
organização. Atendendo os setores que se
setor de almoxarifado, entre outros, ter o
entrelaçam objetivando um atendimento
material certo, na hora certa, na quantidade
seguro e qualificado, diminuindo o tempo e
correta, no local certo e a custos econômicos
custo operacional e também a redução
seriam mais facilmente atingidos.
deerros.
Desta forma é necessário uma correção e ou
recadastramento de todos os materiais desta
empresa, tendo como principal resultado a 5. CONCLUSÃO
convergência a relatórios precisos e capazes
Conclui-se que um catálogo padronizado de
de levar informações para um planejamento
materiais é um bem intelectual corporativo e
estratégico correto.
quando usado em conjunto com outras
Segundo o farmacêutico responsável pela ferramentas gera economia em todas as fases
rotina da distribuição de medicamentos do do empreendimento e aumenta o controle
hospital analisado, que faz uma análise sobre gerencial. Entende-se que padronizar,
o sistema operacional da unidade: classificar e codificar é um meio de assegurar
qualidade e, normalmente, resulta também
“O sistema informatizado de gestão
em redução de custos. Nesse sentido, esse
hospitalar, sendo composto de vários
processo, conduz à redução da variedade
módulos entre os quais se encontra o de
demateriais utilizados na administração
gerenciamento de estoque, que é utilizado
demateriais.
pela farmácia da dispensação para se ter
controle de entrada e saída de A boa catalogação dos materiais é um
medicamentos, o sistema estava elemento de primordial importância.
amplamente desatualizado contando com Observou-se que o hospital estudado enfrenta
diversas informações imprecisas em dificuldades oriundas de problemas de
relação ao descritivo dos medicamentos, catalogação, que prejudicam as atividades de
como grafia errada, omissão e divergência administração de materiais de forma
de concentração e forma farmacêutica no competitiva e em perfeita conformidade com
sistema, o que gerava uma dificuldade de as normas vigente.
se encontrar determinados itens e
Na presente pesquisa foi possível identificar a
possibilitava a diversos erros de
relevância de uma eficiente classificação e
informação. Com a adoção da descrição
codificação de materiais, o que facilitaria a
do cat-mat para atualização das
armazenagem e o controle de estoque.
informações no sistema, esse processo se
Conclui- se que, a realização de uma revisão
tornou mais fácil e preciso, pois foram
na classificação e codificação de materiais irá
eliminados as divergências e incoerências
contribuir para a eficiência de gestão de
assim como as omissões antes relatadas. ”
estoque, e a otimização do tempo e mão de
Desta forma pode-se assegurar que a obra na guarda e controle do estoque no
inclusão de medidas corretivas ao sistema foi hospitalestudado.
bem aceita e proporcional ganho na

REFERÊNCIAS Informatizados. São Paulo Editco Comercial Ltda.


São Paulo. 2002.
[1] ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE [6] DIAS, Marco Aurélio P. Administração de
NOROMAS TÉCNICAS. ABNT ISSO/IEC Guia 2: Materiais: Uma Abordagem Logística – 4. ed.
[2] Normalização e atividades relacionadas – reimpr. – São Paulo: atlas 2010.
Vocabulário geral – Rio de Janeiro, 2006. [7] GIBBS, Graham. Análise de dados
[3] BARBIERI, J.C.; MACHLINE, C. Logística qualitativos. Porto Alegre: Artmed, 2009.
Hospitalar: teoria e prática. 2.ed. rev. e atual. São [8] GODOY, A. S. Pesquisa qualitativa: tipos
Paulo: Saraiva, 2009 fundamentais. RAE-Revista de Administração de
[4] CAVALLINI, M.E.; BISSON, M.P. Farmácia Empresas. São Paulo: FGV. V. 35. n. 3 – Maio/ jun.,
hospitalar: um enfoque em sistemas de saúde. 1995.
Barueri: Manole, 2002. [9] GOMES, M.J.V.M., REIS, A.M.M. Ciências
[5] COSTA, Fábio Leal. Introdução à farmacêuticas: uma abordagem em farmácia
Administração de Materiais em Sistemas hospitalar. São Paulo: Editora Atheneu; 2001.

Tópicos em Administração - Volume 2


108

[10] LIMA, Aildo, Administração de materiais a [12] SEVERINO FILHO, J. Administração de


apostila. Fev. 2013, disponível em: Logística Integrada: materiais, PCP e marketing.
http://pt.slideshare.net/Aildodelima/administrao-de- Rio de Janeiro: E -papers, 2006.
materiais-a-apostila-cpia. Acessado em 04 de abril [13] TADEU, H. F. B. et al. Logística reversa e
2017. sustentabilidade. São Paulo: Cengage Laerning.
[11] SANTOS, G.A. Gestão de Farmácia 2012.
Hospitalar. São Paulo, Editora SENAC. 2006. [14] VIANA, João José Administração de
Materiais: Um Enfoque Prático. -1.ed.-11.reimpr.
São Paulo: Atlas, 2010.

Tópicos em Administração - Volume 2


109

Capítulo 11
Maria Aparecida de Albuquerque Silva

Resumo: O desenvolvimento local sustentável é um direito da sociedade e é de


dever dos governantes municipais realizar sua implementação de forma efetiva,
porem existem lacunas entre os projetos e a realidade. Tendo em vista esta
situação esta pesquisa se propôs a demostrar as contradições do plano de
desenvolvimento local sustentável, apresentando as lacunas entre o discurso e a
realidade, tomando como campo de estudo um município do interior de
Pernambuco. Portando, discorreu-se sobre construtores teóricos relacionados ao
desenvolvimento local sustentável e a sustentabilidade. Foi utilizada uma
metodologia qualitativa, pautada por um estudo de caso desenvolvido a partir de
entrevista semiestruturada e observações, sendo a análise destes procedida de
modo descritivo. Obteve-se como resultado do estudo, informações que permitem
advogar que não existe um desenvolvimento local sustentável no município
estudado, não por falta de iniciativa, mas por problemas de administração publica.
Observou-se que o processo de implementação dos projetos apresenta problemas
de continuidade levando ao abandono dos mesmos.

Palavras chave: Desenvolvimento local sustentável, sustentabilidade, contradição.

Tópicos em Administração - Volume 2


110

1. INTRODUÇÃO objetivo que norteia este estudo esta em


demostrar as contradições do plano de
A preocupação com as questões ambientais
desenvolvimento local sustentável,
e de como será o futuro da terra fez com que
apresentando as lacunas entre o discurso e a
a sociedade voltasse seus olhos para o
realidade, tomando como campo de estudo
desenvolvimento sustentável, questão esta,
um município do interior de Pernambuco.
que já vem sendo discutido há muito tempo,
Como objetivo específico procura-se
entretanto a sua aplicabilidade nem sempre
responder a seguinte problemática: Como se
sai do papel, mesmo sendo de
configura a incompatibilidade entre o plano
responsabilidade dos municípios aplicarem a
de desenvolvimento local sustentável e a
politica do desenvolvimento local sustentável.
sustentabilidade propriamente dita?
Franco (2000), diz que o desenvolvimento
local sustentável é o processo endógeno de
mobilização das energias sociais em espaços
2. FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA
de pequena escala que promove melhorias
significativas nas condições de vida da 2.1 DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL
população, a partir da elevação das
O termo desenvolvimento sustentável foi
oportunidades sociais e a viabilidade
discutido pela primeira vez através de
econômica.
estudos realizados pela Organização das
O projeto de desenvolvimento local deve ser Nações Unidas (ONU) sobre as mudanças
coletivo envolvendo os fatores sociais, climáticas, sendo adotada como uma
contemplando a formação do capital social resposta à sociedade frente à crise ambiental
comunitário, fortalecendo a comunidade e as e social em que o planeta se encontrava
instituições sociais; a criação do capital quando o século XX chegou ao fim da sua
humano, aprimorando as capacidades segunda metade. O termo foi discutido
técnicas e a melhoria da escolaridade dos durante a “Rio 92” onde foi desenvolvido o
envolvidos nas atividades laborais; tornando- relatório “Nosso Futuro Comum” onde trata
se uma vantagem competitiva, a partir do das questões sociais e ambientais e define o
aproveitamento das potencialidades e desenvolvimento sustentável como “aquele
especificidades locais. Compreende-se que que satisfaz as necessidades do presente,
essas três arestas devem funcionar sem comprometer a capacidade de as
conjuntamente para fomentar o gerações futuras satisfazerem as suas
desenvolvimento local. Enfatiza-se que o próprias necessidades” (COMISSÃO
desenvolvimento endógeno deve ser MUNDIAL SOBRE MEIO AMBIENTE E
realizado de “baixo para cima”, ou seja, DESENVOLVIMENTO CMMAD, 1988).
partindo das potencialidades
De acordo com a CMMAD (1991), o principal
socioeconômicas locais, a traves de um
objetivo do desenvolvimento é satisfazer as
processo de construção social (FRANCO,
necessidades e as aspirações humanas.
2000; MORAES, 2003).
Necessidades básicas como saúde,
Veiga (2005), considera que o habitação, alimentação, roupas e trabalho,
desenvolvimento sustentável é uma incógnita que não são atendidas como deveriam. Além
podendo ser minunciosamente analisada, de tais necessidades as pessoas buscam
mesmo não conseguindo resolver o problema. uma melhor qualidade de vida. Vivemos em
Em um de seus livros ele defende o conceito uma sociedade onde a pobreza,
de desenvolvimento sustentável como ainda criminalidade e injustiças são frequentes,
sendo uma utopia no século XXI, mesmo diante disto problemas ecológicos sempre
afirmando que é necessário buscar novos poderão ocorrer. O objetivo do
paradigmas científicos capazes de substituir desenvolvimento sustentável engloba
as utopias do “globalismo”. O relações bastante complexas entre as
desenvolvimento sustentável tem diretrizes diversas dimensões da realidade econômica,
politicas que vai além das praticais sociais, tecnológica, institucional, social e ambiental,
sem uma ação consistente do meio politico com processos e dinâmicas nem sempre
não tem desenvolvimento sustentável efetivo. convergentes e combinados no tempo e no
espaço (BUARQUE, 1994).
Neste sentido, este estudo se justifica pelo
fato das politicas de desenvolvimento local Canepa (2007), caracteriza o
sustentável apresentarem lacunas entre o desenvolvimento sustentável não como sendo
discurso e a realidade. Sendo assim, o um estado fixo da sociedade, mas como

Tópicos em Administração - Volume 2


111

sendo um processo de constantes mudanças, Para tanto é preciso educar a sociedade


onde é compatível a exploração de recursos, sobre as questões ambientais, sendo assim
gerenciando os investimentos em tecnologias foi elaborado durante a ECO-92 o tratado de
e mudanças institucionais no presente e no Educação Ambiental para Sociedades
futuro. Para tanto é preciso expandir a Sustentáveis e responsabilidade Global, que
questão do desenvolvimento sustentável. diz que a educação ambiental deve tratar das
Colocando sobre a responsabilidade dos questões globais críticas, suas causas e inter-
municípios a politica do desenvolvimento local relações em uma perspectiva sistêmica, em
sustentável. Buarque (1999), define o mesmo seu contexto social e histórico. Aspectos
como sendo. fundamentais relacionados com o
desenvolvimento e o meio ambiente, tais
O conceito genérico de desenvolvimento
como população, direitos humanos,
local pode ser aplicado para diferentes
democracia, fome, saúde, paz, degradação
cortes territoriais e aglomerados humanos
da flora e da fauna, devem ser abordados
de pequena escala, desde a comunidade
dessa maneira. (CASCIANO, 1999).
e os assentamentos de reforma agrária,
até o município ou mesmo microrregiões É extremamente importante estimular as
homogêneas de porte reduzido. “O praticas sustentáveis, e a educação ambiental
desenvolvimento municipal é, portanto apareceu com a intenção de incentivar e
delimitado pelo corte politico- elaborar praticas e estratégias de
administrativo do município.” desenvolvimento ambiental local entrando em
harmonia com a realidade da comunidade
Boiser (1992), considera o desenvolvimento
envolvida. O grande desafio é promover o
local como sendo um processo endógeno,
potencial endógeno, aproveitando as
difundido ao aumento da autonomia de
potencialidades locais ou criando propostas
decisões do município, ao aumento da
coletivas que são aceitas pelos atores sociais
capacidade de gerar, captar e reinvestir o
que promovem a melhoria da qualidade de
excedente econômico, a uma permanente e
vida, com a geração de emprego e renda; a
crescente inclusão social e à preservação do
distribuição da riqueza (justiça social); a
meio ambiente. Carvalheiro (2005), relata que
preservação da identidade cultural e a
o desenvolvimento local parte do princípio
conservação dos ecossistemas locais
que é possível tornar dinâmica uma
(MORAES, 2003; SACHS, 2004).
potencialidade individual, identificando a
vocação da comunidade, trazendo vantagens
com relação às outras, entretanto o foco no
2.2 SUSTENTABILIDADE
crescimento não é o bastante. Estimular todos
os fatores que envolvem o desenvolvimento O conceito de sustentabilidade foi
em termos de perspectivas sociais, politico, oficialmente apresentado na CMMAD (1988),
moral, ético e cultural é fundamental. e aparentemente o termo foi aceito por uma
quase unanimidade dos países participantes
Não vai ser de uma hora para outra que uma
da conferencia, entretanto existiram varias
Nação vai se conscientizar da importância do
críticas. A Comissão de Brundtland tinha o
seu papel diante das questões sociais e
objetivo de propor uma agenda global, com a
ambientais. Perante todas as discursões
intenção de conduzir a humanidade diante
sobre o tão falado desenvolvimento
dos principais problemas ambientais do
sustentável, abre-se a discursão de que é
planeta, sem comprometer os recursos para o
possível sim se desenvolver sem agredir o
futuro das próximas gerações.
meio ambiente. De tal maneira que o conceito
presente no relatório “Nosso Futuro Comum”, A Comissão Brundtland (CMMAD, 1988),
sobre o desenvolvimento sustentável, foi também afirma que para haver
adotado pelo Direito Ambiental. Como sendo sustentabilidade ambiental é preciso não
uma matéria autônoma que se baseia em colocar em risco os elementos naturais que
“princípios e formas de regulamentar as suas sustentam a integridade global do
diretrizes e objetivos de maneira a se ecossistema: a qualidade do solo, das águas,
expandir para todas as normas, abrangendo do ar e dos seres vivos. Para Cavalcanti
todos os atuantes desta área e esclarecendo (2003), a sustentabilidade é uma
suas possíveis dúvidas diante da possibilidade de se obter condições de vida
compreensão do que são as normas iguais ou até mesmo superiores de forma
ambientais.” (RODRIGUES, 2002). continua para um determinado grupo de
pessoas, tanto para elas como para as futuras

Tópicos em Administração - Volume 2


112

gerações e para o ecossistema. Há uma um municipal do interior de Pernambuco.


possibilidade da tão falada sustentabilidade Utilizando-se do método qualitativo a fim de
não apresentar resultar relevantes. Emelianoff se obter uma avaliação mais detalhada da
(2003), afirma que a questão da situação. Para Godoy (1995), a pesquisa
sustentabilidade pode sofre uma redução qualitativa não procura medir e nem enumerar
pela população local a um marketing voltado os eventos estudados, nem empregar
a valorização de vantagens territoriais, instrumentos estatísticos na análise dos
aumentando a sua atratividade e o seu pode. dados. Está envolve a obtenção de dados,
Fator este que ocorre em varias regiões do descritivos com a situação estudada, tendo
país. assim, compreender os fatos, levantando em
conta a perspectiva dos envolvidos no
Mas a sustentabilidade que buscamos tem a
estudo.
capacidade de se auto manter, de se auto
sustentar. Uma atividade sustentável qualquer Foi adotado como estratégia de investigação
é aquela que pode ser desenvolvida por um o estudo de caso que segundo Yin (2001), o
longo período, ou seja, para sempre, de forma estudo de caso representa uma investigação
a não se esgotar nunca, apesar dos empírica e compreende um método
imprevistos que podem vir a ocorrer durante abrangente, com a lógica do planejamento,
este período (PHILIPPI, 2001). Para Sachs da coleta e da análise de dados. Este estudo
(1993), a sustentabilidade ambiental pode ser foi desenvolvido em um município no interior
alcançada intensificando os seus recursos de Pernambuco, que por questão de ética
potenciais. Mas para Souza (2000), a relação seu nome não será mencionado.
entre a natureza e o crescimento econômico
A obtenção dos dados se deu por meio de
apresenta conflitos desde os tempos remotos,
entrevistas semiestruturada e observações,
no século XX estes conflitos atingiram
que de acordo com Triviños (1987), a
grandes dimensões que poderiam colocar em
entrevista semiestruturada tem como
perigo a sustentabilidade da vida na terra.
característica propor questionamentos
Isto devido à exploração desregulada da
básicos que são apoiados em teoria ou
terra, causando conflitos ambientais
hipóteses que se relacionam ao tema
presentes até hoje.
estudado. Para Günter (2006), o ponto forte
Dias (2009), explica que, embora haja um da observação é o realismo da situação
grande crescimento da mobilização ao redor estudada. A entrevista foi aplicada ao
da sustentabilidade, ela ainda está mais secretario de desenvolvimento da cidade. E
centrada no ambiente interno das empresas, as observações se deram ao analisar o plano
voltada para os processos e produtos de de desenvolvimento local sustentável e visitas
forma a cuidar dos desperdícios e técnicas aos locais onde supostamente
degradação do meio ambiente. Entretanto o estaria sendo aplicados os projetos
correto seria não só focar nesta aba, mais sim ecológicos. Onde foi possível ver a realidade
expandir sua preocupação com as questões do desenvolvimento do município podendo
ambientais como um todo. Para tanto é comparar o que de fato foi feito com o plano
preciso haver uma educação ambiental de de desenvolvimento apresentado pelos
forma a informa a sociedade a importância da governastes da cidade.
sustentabilidade para que aja um futuro para
Há analise dos dados se deu por método
as próximas gerações. Conduzir uma
descritivo já que este possibilita demostrar as
sociedade ou uma cidade para um futuro
de forma clara o que foi observado durante o
sustentável significa neste caso promover a
estudo. A pesquisa descritiva exige do
produtividade no uso dos recursos ambientais
investigador uma série de informações sobre
e fortalecer as vantagens competitivas
o que deseja pesquisar. Este tipo de estudo
(DURAZO, 1997).
pretende descrever os fatos e fenômenos de
determinada realidade (TRIVIÑOS, 1987). A
entrevista se deu em um local neutro sendo
3. PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS
toda gravada em áudio contando um tempo
O presente estudo foi elaborado a partir do de 45 minutos e posteriormente transcrita. A
método qualitativo com o proposito de partir desta entrevista e observação pode ser
demostra as contradições do plano de feita a análise de forma descritiva dos dados,
desenvolvimento local sustentável, reconhecendo as lacunas entre a falácia e a
apresentando as lacunas entre o discurso e a realidade do plano de desenvolvimento local
realidade, tomando como campo de estudo sustentável.

Tópicos em Administração - Volume 2


113

4. APRESENTAÇÃO E ANÁLISE DOS executados tais projetos foi encontrado


RESULTADOS problemas que restringe a eficácia dos
mesmos. Analisamos primeiro o projeto de
Na análise dos resultados foram encontrados
recuperação e reflorestamento das nascentes
vários problemas entre o que estava presente
fluviais, onde foi constatado o abandono do
no plano de desenvolvimento local
projeto por falta de recursos financeiros e
sustentável e os projetos que estavam sendo
outros fatores, impossibilitando o seu
aplicado no município. Os problemas eram
andamento. Até então o que foi realizado
evidentes por toda parte da cidade, projetos
pelos responsáveis da prefeitura foi o
inacabados, falta de recursos e incentivo a
mapeamento das nascentes fluviais, e o
preservação ambiental. A partir do momento
arrecadamento de cerca de 125 mudas de
em que o projeto não é posto em pratica ou
arvores realizado por voluntários, porem
finalizado da maneira esperada, ele esta
devido à demora da autorização para fazer o
incompatível com o que foi designado
plantio varias mudas morreram ou foram
inicialmente. É dever dos governantes do
consumidas por alguma praga. Deixando o
município implementar de forma efetiva o
projeto à deriva e sem um posicionamento
plano de desenvolvimento local sustentável,
efetivo da secretaria de desenvolvimento
de tal forma a preserva os recursos naturais e
sustentável da cidade.
elevar a qualidade de vida social. Entretanto o
que foi constatado foi uma desordem e uma O segundo projeto analisado foi às hortas
contradição entre o plano de desenvolvimento comunitárias, este foi implementado com a
local e o que estava sendo colocado em colaboração de produtores rurais que
pratica. forneceram as sementes ou mudas das
hortaliças e verduras, a prefeitura liberou os
O projeto de desenvolvimento local de forma
locais e elaborou um sistema de irrigação
sustentável do município tinha foco nas
onde os voluntários poderiam utilizar para
questões ambientais relevante para o local,
cuidar das hortas. Parte dos frutos poderia ser
visando recrutar a população para participar
colhidos por qualquer pessoa da comunidade
de projetos socioambientais podendo gerar
sem custo algum, a outra parte era destinado
renda para os mesmo ou não. Há principio o
as escolas municipais de ensino fundamental,
projeto municipal visavam implementar cerca
com a intenção de estimular o consumo de
de 5 projetos no período de 4 anos, projetos
produtos saudáveis. O mesmo por tem um
estes que buscariam restaurar árias verdes
custo muito baixo e ter resultados rápidos foi
da cidade, construção de hortas
realizado com sucesso, e esta sendo mantido
comunitárias, produção artesanal com
pela população com colaboração da
produtos recicláveis, recuperação e
prefeitura.
reflorestamento das áreas em volta das
nascentes fluviais que abastecem o O terceiro projeto verificado foi à recuperação
município, e educação ambiental nas escolas de áreas verdes da cidade, onde inicialmente
municipais com profissionais qualificados. as praças seriam reformadas e arborizadas.
Porem a realidade encontrada se contradiz Porem foi constatado que as obras ficaram
com os objetivos finais dos projetos. pela metade deixando uma das praças sem
funcionalidade alguma e outras com sérios
Tais projetos têm grande relevância e
problemas de infraestrutura e com poucas
aceitação da comunidade, os mesmos
áreas verdes. O motivo segundo o
contam com a colaboração de representantes
entrevistado foi á falta de verba para terminar
escolares, entusiastas da sustentabilidade de
as obras, porem segundo ele a verba foi
cidades vizinhas, jovens preocupados com as
repassada para a prefeitura, mas não foi
quentões ambientais além de representantes
liberada por completo para que as praças
da prefeitura segundo consta no relatório de
fossem restauradas e arborizadas como
desenvolvimento local. Os mesmos são
consta no projeto apresentado pela secretaria
analisados antes de serem implementados,
de desenvolvimento sustentável.
toda questão de viabilidade, resultados
esperados, financiamento são levados em O quarto projeto observado foi o artesanato
consideração para que não venham a ter com produtos recicláveis, inicialmente o
problemas durante a sua execução, enfatiza o mesmo receberia da prefeitura incentivo
entrevistado. financeiro e colaboração para arrecadar os
produtos que seriam transformados em
Porem durante as visitas realizadas aos locais
matéria prima para o processo artesanal
onde supostamente estariam sendo
realizado em um espaço cedido pela própria

Tópicos em Administração - Volume 2


114

prefeitura. O objetivo era gerar renda para os neste caso especifico o desenvolvimento local
envolvidos e retirar das ruas materiais sustentável é mais uma falácia e não condiz
poluentes. Inicialmente teve resultados com o que estar presente no plano de
relevantes, mas com o passar do tempo os desenvolvimento sustentável do município.
recursos financeiros deixaram de chegar às
artesãs até mesmo as matérias primas
ficaram escassas dificultando a continuidade 5. CONSIDERAÇÕES FINAIS
da produção artesanal levando ao fim das
Concluiu-se que o referido estudo encontrou
atividades.
lacunas entre a falácia e a realidade do plano
O ultimo projeto analisado diz respeito à de desenvolvimento local sustentável do
educação ambiental em escolas municipais, município estudado. Foi possível ver os cinco
onde profissionais foram contratados para projetos que deveriam ser implementados e a
ensinar as crianças à importância da realidade de cada um, sendo evidenciado o
educação ambiental e das praticas abandono dos mesmos sem um motivo
sustentáveis para o futuro do planeta. Porem consistente. Os problemas são notórios e
a prefeitura deixou de pagar os salários dos preocupantes já que a prefeitura recebem as
profissionais contratados, ocasionando no verbas, mas não as repassam para finalizar
abandono das suas atividades, levando ao as obras que deveriam ser realizadas para a
fim do projeto de educação ambiental há melhoria da qualidade de vida da população
crianças da rede municipal. e a preservação do meio ambiente,
retardando assim o desenvolvimento
Podemos constatar que a prefeitura tem bons
sustentável do local.
projetos, recebem verbas para por em
praticas o plano de desenvolvimento local É de estrema importância que tais projetos
sustentável, porem abandonam os mesmo no sejam levados a diante, e cabe à comunidade
meio deixando a população indignada. De cobrar aos responsáveis medidas para que
cinco projetos apenas um foi implementado os mesmos tenham efetividade e possam
com eficiência e mantido pela população, trazer benefícios para os moradores e para o
talvez pelo seu baixo custo, ou porque a meio ambiente. Tendo em vista tal situação
comunidade tomou a frente. Os outros quatro seria interessante investigar as causas que
ficaram evidentes que teve inicio e levaram ao abandono dos projetos no meio
posteriormente um abandono repentino e sem de suas execuções.
explicação. O que nos leva a constatar que

REFERÊNCIAS [7] CAVALCANTI, C. (org.). Desenvolvimento


e Natureza: estudos para uma sociedade
[1] BOISIER, Sérgio. El difícil arte de hacer sustentável. São Paulo: Cortez, 2003.
región: Las regiones como actores territoriales del
nuevo ordem internacioanl. Cusco, Peru: Centro de [8] COMISSÃO MUNDIAL SOBRE MEIO
estúdios Regionales Bartolomé de las Casas, 1992. AMBIENTE E DESENVOLVIMENTO (CMMAD).
214p. Nosso futuro comum. Rio de Janeiro: Fundação
[2] BUARQUE, S. C. “Metodologia de Getúlio Vargas, 1988.
Planejamento do Desenvolvimento Sustentável”. [9] COMISSÃO MUNDIAL SOBRE MEIO
IICA, Recife, 1995. AMBIENTE E DESENVOLVIMENTO (CMMAD).
[3] BUARQUE, S. C. Metodologia de Nosso Futuro Comum. 2ª ed., Rio de Janeiro:
planejamento do desenvolvimento local e municipal Editora da Fundação Getúlio Vargas, 1991.
sustentável. Brasília: Instituto Interamericano de [10] DIAS, R. Gestão Ambiental:
Cooperação para a Agricultura-IICA, 1999. Responsabilidade Social e Sustentabilidade. 1ª Ed.
[4] CARVALHEIRO, E. M. A Agroindústria São Paulo: Atlas, 2009.
Canavieira do Paraná: evolução histórica e [11] DURAZO, E. P. “Desarrollo sustentable de
impactos sobre o desenvolvimento local. Toledo, las ciudades”. Ciudades, México, n.34, p.51, abr.-
2005, f. Dissertação. Universidade Estadual do jun. 1997.
Oeste do Paraná – UNIOESTE.
[5] CASCINO, F. Educação ambiental: [12] EMELIANOFF, C. Les Villes Durables:
princípios, história, formação de professores. São L’émergence de nouvelles temporalités dans de
Paulo: Editora SENAC São Paulo, 1999. vieux espaces urbains. In: MAGALHÃES, Roberto
[6] CANEPA, C. Cidades Sustentáveis: o Anderson de Miranda. A Construção da
município como lócus da sustentabilidade. São Sustentabilidade Urbana Obstáculos e
Paulo: Editora RCS, 2007. Perspectivas. Brasília-DF: III Encontro da ANPPAS,
2006.

Tópicos em Administração - Volume 2


115

[13] FRANCO, A. Porque precisamos de Questões Ambientais – Conceitos, História,


Desenvolvimento Local Integrado e Sustentável? 2 Problemas e Alternativa. 2. ed, v. 5.
ed. Brasília: Millenium, 2000. Brasília:Ministério do Meio Ambiente, 2001.
[14] GODOY, A. S. Introdução à pesquisa [18] RODRIGUES, M. A. Instituições de direito
qualitativa e suas possibilidades. In: Revista de ambiental. Vol I – Parte Geral, São Paulo: Max
Administração de Empresas. São Paulo: v.35, n.2, Limonad, 2002.
p. 57-63, abril 1995. [19] SACHS, I. Desenvolvimento includente,
[15] GÜNTHER, H. (2006). Pesquisa Qualitativa sustentável e sustentado. Rio de Janeiro:
Versus Pesquisa Quantitativa: Esta é a Questão? Garamond, 2004.
Psicologia: Teoria e Pesquisa, pp. 201-210. [20] SOUZA, R. Entendendo a Questão
[16] MORAES, J. L. A. Capital Social e Ambiental. Santa Cruz do Sul: Edunisc, 2000.
Desenvolvimento Regional. In: CORREA, Silvo [21] TRIVIÑOS, A. N.S. Introdução à pesquisa
Marcus de Souza (org.). Capital Social e em ciências sociais: a pesquisa qualitativa em
Desenvolvimento Regional. Santa Cruz do Sul- Rio educação. São Paulo: Atlas, 1987.
Grande do Sul: EDUNISC, 2003. p. 124-146. [22] VEIGA, J. E. Cidades Imaginárias – o
[17] PHILIPPI, L. S. A Construção do Brasil é menos urbano do que se calcula.
Desenvolvimento Sustentável. In.: LEITE, Ana Lúcia Campinas: Editora da Unicamp, 2005.
Tostes de Aquino; MININNI-MEDINA, Naná. [23] Yin R. Estudo de caso: planejamento e
Educação Ambiental (Curso básico à distância) métodos. (2ed). Porto Alegre: Bookman; 2001.

Tópicos em Administração - Volume 2


116

Capítulo 12

Valmir Ferreira de Lima


Cheily de Fátima Martins de Souza
Luiz Eduardo Melo Lima

Resumo: Tem-se conhecimento de que por meio da gestão da Segurança e Saúde


no Trabalho (SST) é possível a redução dos riscos de acidentes, o fortalecimento
da imagem da organização, maior eficiência de produção, principalmente do setor
industrial. A certificação deste sistema leva em consideração os aspectos
operacionais, o gerenciamento e o comprometimento da alta direção com o
processo, tal como, a melhoria contínua das condições de segurança e saúde do
trabalho. Por meio de pesquisa bibliográfica, descritiva e exploratória, e análise
qualitativa de dados, este trabalho tem como objetivo relatar as ações estruturadas
e aplicadas com o intuito de minimização de acidentes e melhoria na qualidade do
ambiente de trabalho em uma indústria de papel na região dos Campos Gerais do
estado do Paraná. O estudo demonstrou a importância da ativa participação dos
funcionários nos resultados esperados, a importância da gestão de pessoas no
apoio à realização dos treinamentos e a necessidade de mudança de
comportamento para se prevenir acidentes.

Palavras chave: Segurança do trabalho. Sistemas de gestão. Acidentes de trabalho.

Tópicos em Administração - Volume 2


117

1. INTRODUÇÃO comportamento de risco que influencia nos


acidentes de trabalho, treinamento e
Com a crescente globalização dos mercados,
educação nas ações de prevenção, pirâmide
nota-se um aumento considerável da
de Heinrich, percepção de risco na
competitividade em escala mundial, o que
prevenção de acidentes e cenário nacional
tem demandado às organizações uma busca
referente à segurança do trabalho.
contínua por novos métodos ou ferramentas
de gerenciamento que contribuam para
melhoria de seus processos.
2.1. GESTÃO DE PESSOAS
Por meio da implantação de sistemas de
A gestão de pessoas pode ser definida como
gestão, como de qualidade, de
algo incerto e circunstancial que depende
responsabilidade social, de meio ambiente e
diretamente de vários aspectos tais como: a
de segurança e saúde do trabalho, etc., as
estrutura organizacional adotada pela
organizações tem por objetivos o
empresa, a cultura existente em cada
desenvolvimento sustentável do negócio,
organização, as particularidades do assunto
aumentar a qualidade de produtos e serviços
ambiental, o ramo de atividade da empresa,
fornecidos, manter um bom relacionamento
os procedimentos internos e outras variáveis
com a sociedade e, como consequência, o
importante (CHIAVENATO, 1999). Ainda neste
aumento da lucratividade. Desta forma, é
sentido, é possível identificar a gestão de
possível transformar as pressões de mercado
pessoas como o ato de empregar esforços
em vantagens competitivas, ou seja,
pessoais para alcançar metas e objetivos
transformar as ameaças em oportunidades.
estabelecidos pela organização, por meio da
Portanto, o desempenho em Segurança e gestão eficiente e eficaz, de modo que as
Saúde no Trabalho (SST) torna-se necessidades e objetivos individuais sejam
determinante para as organizações, uma vez sólidos, integrando-se aos objetivos da
que este sistema, se desenvolvido de forma organização as quais estão ligadas
eficaz, proporciona a satisfação e a saúde (CARDELLA, 1999).
dos trabalhadores, promove a redução dos
Segundo Vieira (2014), é possível assegurar
riscos de acidentes, os resultados
que a administração de recursos humanos
operacionais são melhorados e a imagem da
surge para atender diversas necessidades
organização é fortalecida, surgindo novas
que existem nas organizações, ligados a
oportunidades de crescimento.
objetivos sólidos que quando colocados em
No ambiente industrial, especialmente no prática auxiliam na melhoria do ambiente de
setor de produção de papel, a SST adquire trabalho.
importância ainda mais evidente em função
Uma alta direção comprometida e a
das especificidades de seu processo
participação realmente efetiva dos
produtivo, bem como das máquinas e dos
colaboradores no processo de criação de
equipamentos empregados.
uma cultura de segurança forte e consistente
O direcionamento deste trabalho está refletem no sentimento de responsabilidade
relacionado às práticas gerenciais dos funcionários quanto à prevenção e à
necessárias a serem adotadas para a manutenção de um ambiente de trabalho livre
melhoria das características do ambiente de de acidentes e riscos à saúde (CHOUDHRY;
trabalho e minimização dos riscos e da FANG; MOHAMED, 2007 apud OLIVEIRA;
incidência de acidentes e doenças OLIVEIRA; ALMEIDA, 2010).
ocupacionais em uma empresa de fabricação
A aceitação e o entendimento do conceito de
de papel localizada na região dos Campos
SST por parte da diretoria e a participação da
Gerais do estado do Paraná.
área de recursos humanos neste processo de
mudança são de fundamental importância
para que se consiga o envolvimento de todos
2. REFERENCIAL TEÓRICO
os colaboradores e a obtenção de bons
O presente referencial teórico aborda os resultados no projeto. As organizações
seguintes tópicos relacionados ao tema podem melhorar os resultados em segurança
discutido no presente trabalho: gestão de focando em melhorias de equipamentos e de
pessoas, hierarquia das necessidades ou procedimentos, e procurando mudar
pirâmide de Maslow, sistemas de gestão da positivamente o comportamento humano por
segurança e saúde no trabalho; meio da educação e do treinamento

Tópicos em Administração - Volume 2


118

(MOHAMED, 2002 apud OLIVEIRA; que cada pessoa busca atender suas
OLIVEIRA; ALMEIDA, 2010). necessidades pessoais e profissionais,
conforme Figura 1. Sendo este, um projeto
que demonstra uma categoria hierárquica na
2.2. HIERARQUIA DAS NECESSIDADES OU qual as necessidades consideradas na base
PIRÂMIDE DE MASLOW de baixo devem ser satisfeitas primeiro que
as necessidades de nível mais elevado.
A hierarquia das necessidades ou pirâmide
de Maslow é fundamentada no conceito de
Figura 1 – Hierarquia das necessidades ou pirâmide de Maslow

Fonte: Chiavenato (2009)


De acordo com a Série de Avaliação de
Destaca-se neste ponto, a categoria das Segurança e Saúde Ocupacional
necessidades de segurança que estão (Occupational Health and Safety Assessment
atreladas com as necessidades de sentir-se Series – OHSAS), Segurança e Saúde no
seguros e livres de perigo, através de Trabalho (SST) são fatores e condições que
condições seguras de trabalho. As teorias afetam, ou podem vir a afetar, a segurança e
das necessidades partem do principio de que a saúde dos trabalhadores (compreendendo
os motivos do comportamento humano os trabalhadores terceirizados e temporários),
residem no próprio indivíduo: sua motivação visitantes ou qualquer outro indivíduo no local
para agir e se comportar deriva das forças de trabalho (OHSAS, 1999).
que existem dentro dele (CHIAVENATO, 2009, Os principais aspectos capazes de influenciar
p. 52). na segurança são o porte da empresa, o
desempenho, o comprometimento dos
funcionários em relação à SST e a gestão da
2.3. SISTEMAS DE GESTÃO DA SEGURANÇA organização (LIN; MILLS, 2001).
E SAÚDE NO TRABALHO
Especificamente, um sistema de gestão de
Um sistema de gestão pode ser definido SST tem sua definição como sendo um
como “um conjunto de elementos inter- elemento ou parte de um sistema de gestão
relacionados utilizados para estabelecer, maior de uma determinada organização
executar e alcançar políticas e objetivos de aplicada no desenvolvimento e implantação
diversas ordens, a partir de atividades de da sua política e gerenciamento dos seus
planejamento, responsabilidades, práticas, riscos de SST (OHSAS, 1999).
procedimentos, processos e recursos”
(OHSAS, 1999, p. 5). Segundo Salomone (2008), dentre os fatores
que motivam as organizações a adotarem um
sistema de gestão em SST tem-se: manter-se

Tópicos em Administração - Volume 2


119

competitiva, alta produtividade, melhoria aprimoram as noções para o trabalho. De


contínua, garantia da boa imagem da acordo com Bley (2011, p. 11), “capacitar e
empresa, possibilidade de redução de custos desenvolver pessoas para que se tornem
com gestão, abertura de oportunidades de competentes em pensar, sentir e agir
mercado e até mesmo melhoria de produto. cuidando de si mesmas, dos outros e
deixando-se cuidar pelos outros parecem ser
Trivelato (2002) ressalta que possuir um
o grande objetivo da segurança baseada no
sistema de gestão em SST tem sido utilizado
comportamento humano”. Para que isso se
como uma das principais estratégias das
torne realidade em nosso país, onde o cenário
organizações para reduzir o sério problema
de doenças e acidentes de trabalho está
econômico e social das doenças ligadas ao
longe do que se considerado aceitável (se é
trabalho e dos acidentes, destacando
que isso existe), é preciso que governantes e
também a importância deste, para o aumento
dirigentes de organizações revejam suas
de sua competitividade.
políticas de gestão de pessoas,
A OHSAS 18001 é uma ferramenta com o especialmente no que diz respeito às
intuito de fornecer às empresas os estratégias de treinamento e desenvolvimento
componentes de um sistema de gestão de (BLEY, 2011).
SST realmente eficaz, podendo auxiliar para
Ainda segundo Bley (2011), se a prevenção
que se possa atingir os objetivos e metas de
de acidentes do trabalho pode ser
segurança e saúde do trabalho (OHSAS,
considerada um método comportamental,
1999).
instruir-se conceber a possibilidade de
incidirem comportamentos expressivos para a
segurança dos trabalhadores é proeminente
2.4. COMPORTAMENTO DE RISCO QUE
que seja analisado a importância da
INFLUENCIA NOS ACIDENTES DE
metodologia de ensino e aprendizado com
TRABALHO
foco na prevenção de acidentes do trabalho.
Para Alves e Miranda Junior (2013), As melhores tecnologias de trabalho são
comportamento é algo que pode ser ineficazes nas mãos de trabalhadores
observado e mensurado, sendo este desmotivados ou sem a capacitação
gerenciado por meios de ferramentas que adequada para executar suas atividades.
visam melhoria continua em busca do Sendo assim, o objetivo é aplicar o
comportamento aceitável para a prevenção conhecimento da ciência do comportamento
de acidentes. a moldagem dos processos de formação de
grupos e das relações intergrupais, a fim de
Com base na abordagem de Bley (2011), é
assegurar a eficácia organizacional.
possível afirmar que podem ser chamados de
psicológicos os fatores que possuem relação
com o acidente, sendo que na prevenção se
2.6. PIRÂMIDE DE HEINRICH
faz necessária o julgamento de suas
influências. O denominado comportamento de Herbert William Heinrich em seus estudos
risco possui suas variáveis, tendo como sua concluiu a seguinte proporção: uma lesão
consequência o avanço dos números de incapacitante para vinte e nove lesões leves e
acidentes. O que se observa na maioria das trezentos acidentes sem lesão. Esta
vezes é a falta de percepção de risco. proporção ficou intitulada como a pirâmide de
Heinrich, conforme Figura 2, possibilitando a
analise dos números de acidentes ocorridos e
2.5. TREINAMENTO E EDUCAÇÃO NAS um planejamento criterioso para traçar as
AÇÕES DE PREVENÇÃO ações necessárias à redução dos acidentes
(TAVARES, 2008).
Para Araújo (2010), o treinamento é o conjunto
metodologias nas quais se produzem ou se

Tópicos em Administração - Volume 2


120

Figura 2 – Pirâmide de Heinrich

Fonte: Tavares (2008)


Conforme citado por Pastore (2011), aplicar 2.8. CENÁRIO NACIONAL REFERENTE À
apreciações econômicas para mensurar o SEGURANÇA DO TRABALHO
valor da vida é uma tarefa que mexe com as
Muitas são as evoluções que ocorreram na
emoções humanas, todavia esta apreciação
cadeia produtiva de papel, através da
relacionada aos custos dos acidentes se faz
redução dos riscos do processo produtivo,
necessária, visto que é importante para
que envolvem a atividade de várias
destacar a seriedade que envolve o assunto
empresas. Portanto, outras empresas
de prevenção de acidentes do trabalho.
necessitam de esforços em longo prazo para
conquistar esta redução, por meio de ações
definidas e estruturadas pela cultura de
2.7. PERCEPÇÃO DE RISCO NA PREVENÇÃO
segurança de cada empresa.
DE ACIDENTES
Atualmente, é difícil encontrar um funcionário
Segundo Pastore (2011), a percepção de
que “nunca” tenha passado por pelo menos
risco é o ato de tomar contato com um perigo
uma palestra sobre prevenção de acidentes
por meio dos sentidos (audição, tato, visão,
de trabalho, uso de Equipamentos de
olfato, paladar), interpretar essa informação e
Proteção Individual (EPI), integração, etc.
então decidir o que fazer. Alves e Miranda
(WALDHELM NETO, 2013).
Junior (2013, p. 10) afirmam: “Apesar de ser
um tema muito falado e mencionado, pouco Para Pastore (2011), o que se caracteriza
se trabalha para evoluir efetivamente a como urgente no Brasil é induzir nos
percepção dos riscos das pessoas nas empregadores e empregados a percepção
empresas”. A percepção dos riscos aparece de que a condição de segurança é um
como fator humano recorrente em muitas componente de trabalho de boa qualidade,
investigações de acidentes e desafia os que por sua vez é crucial para competir e
gestores em atividades perigosas a reduzir os vencer. Tinha-se no passado, que se tornar
mesmos de forma geral (ALVES, 2014). competitivo era essencial, todavia é
inadmissível admitir desperdício bem como
Com base na abordagem de Alves (2014),
perdas envolvendo vidas humanas.
para almejar melhores resultados na
prevenção de acidentes de trabalho, se faz O Brasil viveu nos últimos 44 anos uma
necessário que sejam explorados os aspectos melhoria real nas condições de trabalho, que
que envolvam a percepção de risco, pode ser percebida no gráfico apresentando
identificando a probabilidade de ocorrência na Figura 3. Enquanto o numero de
de atos inseguros. trabalhadores saltou de 7 milhões para 47
milhões entre 1970 e 2013, o numero de
óbitos passou de 2.232 para 2.797. O gráfico
da Figura 3 mostra uma projeção de óbitos

Tópicos em Administração - Volume 2


121

(área em amarelo) que teriam acontecido se o projeção 154.120 mortes no Brasil


elevado índice da década de 70 se (MINISTÉRIO DA PREVIDÊNCIA SOCIAL,
mantivesse. Naquele último ano, quase 0,3% 2015). A partir do gráfico da Figura 3, é
dos trabalhadores foram vítimas levadas a possível analisar a evolução ocorrida na
óbito por acidentes de trabalho. Foram prevenção de acidentes de trabalho no Brasil.
evitadas no período, de acordo com esta

Figura 3 – Evolução na prevenção de acidentes de trabalho no Brasil Social (2015)

Fonte: Ministério da Previdência

Desde 1970, morreram no Brasil em acidentes dos anos 90, conforme pode ser observado
de trabalho 161.380 trabalhadores com no gráfico da Figura 4 (MINISTÉRIO DA
carteira assinada, segundo os registros PREVIDÊNCIA SOCIAL, 2015).
oficiais. Apesar de representar uma estatística
triste, houve melhoria nos números a partir

Figura 4 – Estatística do número de vítimas fatais de acidentes de trabalho no Brasil

Fonte: Ministério da Previdência Social (2015)

Tópicos em Administração - Volume 2


122

3. METODOLOGIA 4. RESULTADOS E DISCUSSÕES


O desenvolvimento desta pesquisa foi Esta seção apresenta as ações realizadas na
realizado através da análise das ações empresa analisada, em termos da gestão em
aplicadas na empresa estudada do ramo de segurança e saúde do trabalho, bem como os
fabricação de papel, localizada nos Campos resultados alcançados com estas ações.
Gerais, no município de Arapoti, estado do
Paraná, com área total de 794.500 m², sendo
68.990,07 m² de área construída. 4.1. DESENVOLVIMENTO DAS 8 REGRAS
ESSENCIAIS DE SEGURANÇA
A gestão de segurança no trabalho na
empresa certificada foi analisada de acordo Foi necessário analisar as normas e
com a norma OHSAS 18001 (OHSAS, 1999), procedimentos existentes de acordo com a
relatando as ações adotadas para a melhoria legislação aplicável, trazendo para o
das características do ambiente de trabalho e documento todas as informações necessárias
minimização dos riscos e da incidência de a fim de permitir uma ação direta na
acidentes e doenças ocupacionais. prevenção de incidentes, com ações
essenciais de segurança claras e objetivas,
Este estudo possui cunho bibliográfico quanto
facilitando o entendimento por partes dos
aos métodos, pois é por meio de leituras e
colaboradores. Sendo que nesse projeto, a
pesquisas sobre o tema antes decorrido que
participação de todos os funcionários no
se elaborou a fundamentação deste estudo,
processo de desenvolvimento das regras
realizando-se uma abordagem qualitativa dos
essenciais de segurança foi fundamental,
dados levantados, isto é, considerando o
agregando o valor à ferramenta.
entendimento dos fatos, gerando reflexões
sobre o tema e análise de conhecimento. Desenvolveram-se então as 8 regras
essenciais de segurança, conforme Quadro 1,
Em relação aos objetivos, a pesquisa
buscando seu entendimento e aplicabilidade
enquadra-se no campo exploratório, com o
em todos os níveis hierárquicos da empresa,
intuito de levantar informações, delimitando o
servindo como alicerce para a cultura de
campo de trabalho (SEVERINO, 2007). É
segurança como valor. A divulgação das 8
também descritiva, pois de acordo com Gil
regras essenciais de segurança deu-se por
(2002), a pesquisa descritiva é útil quando
meio de cartilhas e banners dispostos pelas
visa descrever as características de um
áreas.
fenômeno específico.

Quadro 1 – Regras essenciais de segurança desenvolvidas pela empresa analisada


Regra Descrição
1 Equipamentos de proteção individual e coletiva: uso obrigatório
2 Riscos em pontos de pensamento (NIP e GAP)
3 Elevação e transporte (carga suspensa)
4 Bloqueio de equipamentos (energias perigosas)
5 Trabalho em altura
6 Espaço confinado
7 Trabalho a quente
8 Produtos químicos
Fonte: Autoria própria

4.2. REGRAS ESPECÍFICAS DE SEGURANÇA acordo com os perigos e riscos específicos


de cada setor, as regras específicas de
Para orientar e fortalecer a cultura de
segurança foram desenvolvidas pelos
segurança dos funcionários envolvidos nas
trabalhadores.
atividades, por meio da prevenção, e de

Tópicos em Administração - Volume 2


123

O próximo passo foi disponibilizar as regras trabalho saudável e seguro, tem como
essenciais e específicas de segurança para a princípio que se o comportamento é
consulta dos trabalhadores no Sistema de “observável”, ele também pode ser
Gestão Integrada. Com objetivo de fortalecer “gerenciado” e conduzido para uma direção
as regras de segurança, as mesmas foram mais segura.
revisadas nos comitês mensais de segurança,
Para que se possa gerenciar o
em reuniões da Comissão Interna de
comportamento das pessoas e fazê-las
Prevenção de Acidentes (CIPA), nos Diálogos
acreditar que a mudança de comportamento
Diários de Segurança, nas integrações de
será benéfica, é necessário observar e
novos funcionários e colaboradores.
comparar a maneira correta de se executar
uma determinada atividade, independente de
crenças pessoais, sempre se baseando em
4.3. TREINAMENTOS E PALESTRAS
procedimentos de segurança estabelecidos
Foram realizados diversos treinamentos e pela empresa.
palestras com foco na mudança de
Neste sentido, foram realizadas dinâmicas
comportamento os quais contribuíram no
voltadas para o desenvolvimento da
processo de desenvolvimento de segurança
percepção dos riscos envolvendo atividades
dos funcionários.
rotineiras da empresa. Foi preparada uma
sala com cenários de atividades que
demandassem o uso de equipamentos de
4.4. SENTINELAS DA VIDA
proteção individual e a aplicabilidade das
Foram selecionados funcionários regras essenciais e específicas de
pertencentes a cada área, desenvolvendo-se segurança, desenvolvidas pela empresa.
a equipe de Sentinelas da Vida, os quais
auxiliam nas ações de segurança. A fim de
evidenciar o trabalho dos mesmos, foram 4.7. PERCEPÇÃO DOS RISCOS
desenvolvidas camisetas padronizadas para
Foram desenvolvidas atividades visando
a equipe.
melhorar a percepção dos riscos, nas quais
foi simulada a realização de tarefas que
apresentavam situações de diversos riscos no
4.5. SIPAT (SEMANA INTERNA DE
seu desenvolvimento, sendo necessária por
PREVENÇÃO DE ACIDENTES)
parte dos funcionários à identificação e
Atuou-se nas ações preventivas de segurança descrição da maneira segura, por meio de
para a redução de incidentes, realizando formulário.
campanhas de conscientização junto aos
funcionários por meio da SIPAT envolvendo a
família dos funcionários. A SIPAT foi 4.8. DESENVOLVIMENTO DE
idealizada e organizada com o objetivo de MARKETING/COMUNICAÇÃO
sensibilizar e aproximar o funcionário e sua
Para Tavares (2008), o emprego de cartazes,
família para com as metas de segurança da
apresentações, periódicos de segurança,
empresa. Foi realizado o desenvolvimento de
filmes, sugestões, revistas especializadas,
um vídeo ponderando sobre a importância da
etc., auxiliam na conscientização do
segurança no trabalho, onde que neste vídeo
trabalhador em relação à segurança do
os familiares explicam a importância do
trabalho.
retorno de cada trabalhador íntegro aos seus
lares após a jornada de trabalho. Ao final da Neste sentido, foram desenvolvidos materiais
produção, o vídeo foi apresentado aos de comunicação para orientação dos
funcionários durante a SIPAT do ano de 2014. funcionários, com base na proposta do
fortalecimento da cultura de segurança, tais
como banners, faixa, cartazes, adesivos,
4.6. OBSERVAÇÃO DE COMPORTAMENTO bonecos e cartilhas com as 8 regras
EM SEGURANÇA essenciais de segurança, de acordo com o
Quadro 2.
O processo de segurança baseado em
observação de comportamento em
segurança, que visa obter um local de

Tópicos em Administração - Volume 2


124

Quadro 2 – Desenvolvimento do material de comunicação visual da empresa analisada


Material Atividade
Banners Fixação de dois banners de 45,0 cm de comprimento por 25,0 cm de altura no acesso
a área de produção
Faixa Fixação de uma faixa de 4,73 m de comprimento por 0,65 m de altura na entrada da
fabrica
Cartazes Desenvolvimento de cartazes com as 8 regras essenciais de segurança que foram
enviadas de forma individual e em dias alternados para o e-mail dos funcionários
Adesivos Desenvolvimento de adesivos ilustrando a frase “regras: um só objetivo, minha
segurança”, que foram entregues a todos os funcionários
Bonecos Desenvolvimento e confecção de oito bonecos contendo as regras essenciais de
segurança
Cartilhas Desenvolvimento de cartilhas de 8,0 cm de comprimento por 14,5 cm de altura
ilustrando as 8 regras essenciais de segurança, que foram entregues a todos os
funcionários
Fonte: Autoria própria
de segurança e saúde por meio de ações de
treinamentos e palestras realizadas no
4.9. RELAÇÃO ENTRE O NÚMERO DE
período avaliado. Conforme observado na
INCIDENTES E A QUANTIDADE DE HORAS
Tabela 1, é possível ver uma redução do
DE TREINAMENTO
número de incidentes em virtude do aumento
Observou-se um aumento do acesso à do número de horas de treinamento.
informação e conhecimento sobre aspectos
Tabela 1 – Ocorrência de incidentes por quantidade de horas de treinamento por ano
Ano Horas de treinamento Número de incidentes
2013 117 76
2014 3601 41
Fonte: Autoria própria

4.10. ANÁLISE DA REDUÇÃO DOS gerência, comparando o ano de 2014 em


NÚMEROS DE INCIDENTES ATRAVÉS DAS relação ao ano de 2013. As gerências
AÇÕES APLICADAS analisadas são: Fibras e Utilidades (FUT);
Papel e Acabamento (PAC); Qualidade e Meio
A funcionalidade das ações realizadas pelo
Ambiente (QMA); Tecnologia da Informação
sistema de gestão de segurança pode ser
(TI); Supply Chain (SUPPLY CHAIN);
evidenciada no Gráfico 1, que apresenta o
Engenharia e Manutenção (ENG E MAN.);
índice de redução dos incidentes por
Recursos Humanos (RH).

Gráfico 1 – Índice de redução dos incidentes por gerência no ano de 2014 em relação a 2013

Fonte: Autoria própria

Tópicos em Administração - Volume 2


125

5. CONCLUSÕES elemento central de todo o processo de


prevenção de incidentes no trabalho.
Guiados pela consciência que os incidentes
de trabalho não são exclusividade de alguns Este estudo possibilitou sistematizar e
segmentos da economia nacional, é notório a identificar de forma resumida algumas ações
necessidade de ações de segurança praticadas na referida organização. Foi
baseados na gestão comportamental de verificado que a empresa com sistema de
forma sólida e consistente, na busca pela gestão SST certificado vai além do que pede
redução dos números de incidentes de a legislação, sendo evidenciada uma gestão
trabalho. preventiva no que diz respeito à segurança
do trabalho.
Conforme citado por Bley (2011), é importante
que ocorra uma ponderação e assimilação O apoio da alta direção, da área de gestão de
dos perigos e a redução dos riscos de pessoas e a ativa participação dos
acidentes, além de ações que visem colaboradores na gestão da SST é
disponibilizar aos trabalhadores um ambiente fundamental ao sucesso do sistema, em
mais seguro. No qual, destaca-se que só será consonância com o que a teoria conceitua.
possível de obter a partir da presença Os resultados da presente pesquisa
intensiva das lideranças das empresas, (estruturação das ações e treinamentos)
trabalhando na relação interpessoal dos foram validados, conforme descreve Bley
funcionários, buscando cada vez mais (2011), embasados no referencial teórico no
equipes de trabalho desenvolvidas em caso da empresa estudada.
padrões satisfatórios de segurança do
Considera-se, portanto, que o objetivo deste
trabalho.
trabalho foi atingido, uma vez que, por meio
Os resultados obtidos significam um grande do estudo de caso realizado e da síntese do
avanço para área de prevenção de incidentes referencial teórico apresentado, foi possível
no trabalho, auxiliando no desenvolvimento da apontar as ações de segurança e saúde no
cultura da segurança como valor nas trabalho, desenvolvidas pela empresa.
organizações, por meio da gestão de
Portanto, espera-se que este trabalho possa
segurança do comportamento humano,
auxiliar e incentivar outras empresas a
enfatizando a contribuição de cada
implantarem um sistema de gestão em SST,
trabalhador, em cada nível da organização.
praticando a gestão da cultura de segurança,
Permitindo assim, que a empresa priorize
dessas organizações, melhorando o
suas ações de segurança, buscando
desempenho em segurança, reduzindo
melhorar o desempenho em segurança do
custos e impactos causados pelos incidentes
trabalho, através de ações proativas de
de trabalho.
desenvolvimento do trabalhador sendo ele o

REFERÊNCIAS comportamento-seguro/>. Acesso em: 10 abr.


2015.
[1] ALVES, J. L. L. Comportamento de risco. [5] CARDELLA, Benedito. Segurança no
Revista Proteção, n. 1, 2014. Disponível em: trabalho e prevenção de acidentes: uma visão
<http://www.protecao.com.br/edicoes/1/2014/AAjj> holística. São Paulo: Atlas, 1999. 254 p.
. Acesso em: 11 abr. 2015. [6] CHIAVENATO, Idalberto. Gestão de
[2] ALVES, J. L. L.; MIRANDA JUNIOR, L. C. pessoas: o novo papel dos recursos humanos nas
Mudança cultural orientada por comportamento: organizações. 4ª ed. Rio de Janeiro: Campus,
elementos para uma cultura de saúde, segurança, 1999. 457 p.
confiabilidade e produtividade, atuando com as [7] CHOUDHRY, R. M.; FANG, D.;
pessoas. 1ª ed. Rio de Janeiro: Qualitymark, 2013. MOHAMED, S. The nature of safety culture: a
240 p. survey of the state-of-the-art. Safety Science, v. 45,
[3] ARAÚJO, W. T. Manual de segurança do n. 10, p. 993-1012, 2007.
trabalho. São Paulo: DCL – Difusão Cultural do [8] VIEIRA, Juliana Fachi. Gestão de Pessoas.
Livro, 2010. 453 p. Site da Comunidade ADM. Disponível em:
[4] BLEY, J. Comportamento seguro: a <http://www.administradores.com.br/artigos/acade
psicologia da segurança no trabalho e a educação mico/gestao-de-pessoas/79383/>. Acesso em: 30
para a prevenção de doenças e acidentes. Versão jun. 2015.
e-book, 2011. Disponível em: [9] GIL, A. C. Como elaborar projetos de
<http://temseguranca.com/livro-gratuito-sobre- pesquisa. 4ª ed. São Paulo: Atlas, 2002. 175 p.

Tópicos em Administração - Volume 2


126

[10] LIN, John; MILLS, Anthony. Measuring the Reino Unido: British Standards Institution, 1999, 30
occupational health and safety performance of p.
construction companies in Australia. Facilities, v. [15] PASTORE, José. O custo do acidente e
19, n. 3-4, p. 131-139, 2001. doença do trabalho no Brasil. 2011. Palestra
[11] MOHAMED, S. Safety climate in proferida no Tribunal Superior do Trabalho, 20 out.
construction site environments. Engineering 2011.
Construction and Architectural Management [16] MINISTÉRIO DA PREVIDÊNCIA SOCIAL.
Journal, v. 128, n. 5, p. 375-84, 2002. Anuário estatístico de acidentes do trabalho 2013.
[12] WALDHELM NETO, Nestor. A importância 2015. Disponível em:
da segurança do trabalho. Blog Segurança do <http://www.previdencia.gov.br/aeat-2013/>.
Trabalho. Disponível em: Acesso em: 1 jun. 2015.
<http://segurancadotrabalhonwn.com/a- [17] SALOMONE, Roberta. Integrated
importancia-da-seguranca-do-trabalho/>. Acesso management systems: experiences in Italian
em: 12 abril 2015. organizations. Journal of Cleaner Production, v. 16,
[13] OLIVEIRA, Otávio José de; OLIVEIRA, n. 16, p. 1786-1806, 2008.
Alessandra Bizan de; ALMEIDA, Renan Augusto [18] SEVERINO, A. J. Metodologia do trabalho
de. Gestão da segurança e saúde no trabalho em científico. 23ª ed. rev. e atual. São Paulo: Cortez,
empresas produtoras de baterias automotivas: um 2007. 304 p.
estudo para identificar boas práticas. Prod., São [19] TAVARES, J. C. Noções de prevenção e
Paulo, v. 20, n. 3, p. 481-490, set. 2010. Disponível controle de perdas em segurança do trabalho. 6ª
em ed. São Paulo: Senac, 2008. 143 p.
<http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext [20] TRIVELATO, G. C. Sistema de gestão da
&pid=S0103- segurança e saúde no trabalho: fundamentos e
65132010000300015&lng=pt&nrm=iso>. Acesso: alternativas. Belo Horizonte, 2002. In: Seminário
10 set. 2015. Nacional sobre Gestão da Segurança e Saúde no
[14] OHSAS. 18001: Sistemas de gestão de Trabalho. Brasília, 2009. Disponível em:
segurança e saúde ocupacional – especificação. <http://www.fundacentro.gov.br/CTN/sistemas_gest
ao_saude_trabalho.pdf>. Acesso em: 8 set. 2015.

Tópicos em Administração - Volume 2


127

Capítulo 13

Jian Casasolla
Adriana Ariati

Resumo: O presente artigo mostra as atividades desenvolvidas durante o processo


de seleção de fornecedores para a implantação de um software de força de vendas
utilizando a ferramenta Request for Proposal (RFP). Para a utilização da ferramenta
foram elaboradas uma apresentação da empresa contratante, questões
relacionadas aos requisitos do software desejado, questões referentes ao
fornecedor candidato e a definição dos critérios de análise utilizados para cada
questão respondida. A metodologia utilizada foi a construtivista. O objetivo da
utilização dessa técnica é fazer com que as empresas realizem contratos mais
duradouros, firmando uma parceria de sucesso e diminuindo custos para o cliente.
O resultado dessa avaliação mostra para a empresa contratante os pontos positivos
e negativos de cada fornecedor de acordo com as respostas e facilita o processo
de escolha baseando-se nos critérios estabelecidos.

Palavras chave: RFP, Fornecedor, Implantação de Força de Vendas.

Tópicos em Administração - Volume 2


128

1 INTRODUÇÃO 2 METODOLOGIA
O cenário mercadológico está em constante Na metodologia utilizada para a realização
crescimento e transformação. A concorrência desse trabalho foram realizadas pesquisas
entre empresas do mesmo ramo faz com se teóricas e bibliográficas referentes a RFP,
tornem mais competitivas e seus clientes suas formas de uso e seus benefícios em
optem não somente por avaliar o produto livros e artigos disponíveis na internet. Depois,
oferecido. Segundo Bertaglia (2006), ao foi elaborada um RFP para ser aplicada em
selecionar um fornecedor, deve ser um contexto de seleção de fornecedores,
considerado no processo de decisão o custo, utilizando a metodologia construtivista.
a qualidade e o serviço prestado.
O pesquisador Lima (2003, p.134), afirma
Muitas empresas possuem experiências que:
desagradáveis ao contratar fornecedores.
A visão construtivista tem na essência a
Alguns vendedores de empresas
aprendizagem como decorrência da
fornecedoras são treinados para utilizar
participação e elemento propulsor do
métodos de trabalho que demonstrem para
processo de análise da tomada de
seu futuro cliente somente os pontos positivos
decisão. Em todas as etapas do processo
do produto ou serviço oferecido. Outras
decisório, percepções, julgamentos sobre
vezes, durante o processo de escolha não é
a realidade, ações e fatos precisam ser
realizado a análise de aderência em relação
colocados em discussão e analisados.
ao produto e ao ambiente em que o ele será
inserido, resultando na insatisfação do cliente. O construtivismo exige participação e
discussão dos participantes do processo
Para que o produto correto seja selecionado é
fazendo com que as ideias sejam
importante que a empresa contratante realize
organizadas e aperfeiçoadas durante seu
uma análise do escopo do produto esperado
desenvolvimento permitindo uma partilha de
e elabore a documentação necessária que
conhecimento.
possa comprovar os requisitos desejados. Por
esses motivos que Delaqua (2009), afirma Esse método foi escolhido para que a
que bons contratos começam com boas ferramenta pudesse ser criada e moldada de
RFPs, onde os fornecedores que se mostram acordo com o cenário, escopo e as
interessados apresentam suas propostas dos necessidade da empresa contratante.
produtos e serviços prestados, enfatizando
seus riscos e benefícios.
3 FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA
Através da RFP é possível identificar os
pontos chaves esperados do produto ou 3.1 REQUEST FOR PROPOSAL
serviço oferecido pelo seu fornecedor,
A RFP é uma ferramenta importante para a
fazendo com que a empresa foque na
gestão de fornecedores e pode abranger
definição clara de suas necessidades e
vários segmentos, pois estabelece um
objetivos, permitindo ao fornecedor expor
ambiente de concorrência definindo os
suas propostas e apresentar seu produto ou
alicerces para a negociação como: escopo,
serviço sem ter conhecimento de seus
condições e responsabilidades, podendo
concorrentes.
assim, ser moldada conforme a necessidade
O presente artigo visa expor um modelo de do cliente (RODRIGUES, 2012).
utilização da ferramenta RFP no processo de
Segundo Andren (1997), para a elaboração
seleção de fornecedores de produtos ou
da RFP é necessário documentar os
serviços. O modelo apresentado foi utilizado
requisitos desejados para o software ou
na escolha de um software de força de
tecnologia a ser adquirida, para que fique o
vendas, mas o uso da ferramenta pode ser
mais claro possível a necessidade do cliente
adaptado para qualquer cenário que
e, desta forma, poderá ser elaborada uma
dependa da seleção de fornecedores e de
proposta comercial mais efetiva e competitiva
acordo com a necessidade da empresa
extraindo informações necessárias para
contratante.
tomada de decisões.
De acordo com Fagundes (2017), uma RFP
deve definir quais informações e em que
detalhes serão passados para os
fornecedores, com o objetivo de auxiliá-los a

Tópicos em Administração - Volume 2


129

direcionar suas propostas criando uma Em um arquivo do Microsoft Office Excel


solução mais próxima do esperado pelo foram criadas quatro abas, denominadas:
cliente. Instruções apresentação, Informações da
empresa, Requisitos técnicos e Requisitos
Existem outras solicitações semelhantes,
funcionais.
como a Request for Quotation (RFQ) que se
refere a uma inclusão de pedido de cotação Na primeira aba “Instruções apresentação”,
para casos em que o cliente está procurando foram detalhadas algumas instruções para
uma cotação de preços e a Request for auxiliar no preenchimento da RFP e um
Information (RFI) para quando o cliente contato da empresa para que o fornecedor
necessita de maiores informações dos candidato pudesse entrar em contato em
fornecedores antes de enviar uma RFP caso de dúvidas. Ainda nessa aba, foi
(MELO, 2012). formulada uma breve apresentação da
empresa para que o fornecedor pudesse ter
conhecimento prévio do futuro cliente.
4 PROCESSO DE SELEÇÃO DE
Para que o fornecedor candidato pudesse ter
FORNECEDORES
uma conhecimento do processo utilizado pela
4.1 ELABORAÇÃO DA RFP empresa contratante, foi realizada uma
explanação sobre o segmento que precisava
O primeiro passo antes de entrar em contato
ser automatizado.
com os fornecedores, é elaborar o documento
RFP. Este foi preparado conforme o conceito Na segunda aba, denominada “Informações
da ferramenta e aprimorado de acordo com da empresa”, o fornecedor candidato deverá
as necessidades da empresa contratante. Em inserir informações relacionadas a companhia
definições com os usuários chaves de cada participante do processo de seleção. A Figura
setor, conhecidos como stakeholders, foi 1 mostra as questões que foram direcionadas
definido como seria o andamento do projeto. aos candidatos desse processo.
Os parágrafos a seguir detalham o que foi
definido.

Figura 1 – Informações organizacionais dos candidatos

Para a empresa contratante era importante saber qual era a capacidade de atendimento de suporte
do fornecedor para posterior à implantação e se utilizava alguma metodologia de desenvolvimento,
permitindo uma visão mais completa após o projeto implantado. Desse modo, foram solicitadas
informações sobre a capacidade de atendimento que é apresentada na Figura 6.

Tópicos em Administração - Volume 2


130

Figura 2 – Capacidade de atendimento

A visibilidade econômica do projeto é o um questões, o fornecedor deve ter


dos pontos considerados mais importantes na conhecimento de todos os requisitos
maioria dos projetos, e foi um dos critérios solicitados para o sistema antes deste item
definidos pela empresa contratante. Sendo ser respondido oficialmente. A Figura 3
assim, foram solicitadas algumas questões mostra as questões que foram consideradas
orçamentárias relacionadas ao projeto a ser importantes para esse projeto.
desenvolvido. Para responder essas

Figura 3 – Condições financeiras

Tópicos em Administração - Volume 2


131

Após definidas as condições financeiras, o c) Atende com Solução de Terceiros (AT),


fornecedor se direciona para a aba de sendo um requisito externo, que ocorre
“Requisitos técnicos” e responde as questões quando é gerado fora da organização
sem entrar em detalhes do funcionamento do para atender à solicitação, podendo ser
software. ela hardware, software, instalações,
demandas legais, regulatórias e de
Nessa aba, o fornecedor informará se o
padronização estabelecida pelo Governo
requisito:
Federal;
a) Atende como Solução Standard (AS), ou d) Não atende (NA) conforme o Guia de
seja, um requisito em que a boas práticas em contratações de
funcionalidade do software já possui a soluções de tecnologia da informação do
opção disponível, atendendo a área Tribunal de Contas da União (TCU, 2017).
requisitante e as necessárias ao usuário
Caso algum dos requisito seja assinalado
final;
com AD pelo fornecedor, este deverá informar
b) Atende com Desenvolvimento na Solução
a quantidade de horas necessárias para
Standard (AD), sendo um requisito não
realizar o desenvolvimento do requisito.
funcional. O sistema não possui
disponível esse requisito mas há um A Figura 4 mostra um totalizados utilizado
empenho por parte do setor de para identificar a quantidade dos requisito em
desenvolvimento para atender o cliente, cada tipo de solução e o nível de importância
envolvendo tempo e custo; para o projeto.

Figura 4 – Exemplo de totalizador das abas requisitos técnicos e funcionais

Por fim, os fornecedores preenchem o item 4 Para a avaliação dessa RFP, foram utilizados
relacionado aos requisitos funcionais. Neste como critérios o orçamento apresentado, os
item são representadas as funcionalidades ou riscos relacionados a estrutura de TI do
os serviços esperados do fornecedor para fornecedor e o escopo baseado nos
que o software realize as atividades de interesses da empresa contratante.
acordo com a necessidade da empresa.
Deste modo, para cada item da RFP do
Nesta etapa devem ser informadas todas as
fornecedor foi atribuído um peso. Na aba
restrições e comportamentos do sistema.
“informações da empresa”, os pesos
Ao preencher a RFP é aconselhável que o estabelecidos variam de 0 à 5, sendo zero
responsável pelo preenchimento, envolva quando não exerce peso nenhum sobre o
todos os responsáveis dos setores, como projeto e cinco quando tem peso máximo.
programação, suporte, projetos, gestores, Nas abas de “Requisitos técnicos” e
dentre outros, para que o documento fique o “Requisitos funcionais” os pesos foram
mais transparente possível. atribuídos de acordo com a quantidade total
de itens que são atendidos em Solução
Após preenchido atentamente, o documento
Standard.
deve ser retornado ao cliente.
O fornecedor candidato não tem
conhecimento dos critérios de avaliação
4.2 CRITÉRIOS E CONCEITOS utilizados pela empresa contratante. Essa
medida foi adotada com o objetivo de que as
A empresa contratante recolheu todas as
respostas sejam dadas com total veracidade.
RFPs dos fornecedores e iniciou o processo
de análise baseada em critérios pré-definidos Na Figura 5 é possível visualizar a nota
pela direção. atribuída a questão “Quantidade de
funcionários” e o critério para obtenção dessa
nota, listado na coluna Definição.

Tópicos em Administração - Volume 2


132

Figura 5 – Exemplo de pesos na aba informações da empresa.

Com os critérios definidos foram avaliados Um terceiro fornecedor não preencheu as


seis fornecedores, que demonstraram informações solicitadas a respeito da
interesse no projeto e que estiveram de capacidade de atendimento e atrasou o
acordo ao preenchimento da documentação retorno da RFP preenchida.
RFP. Alguns fornecedores foram
Desse modo foram classificados outros três
desclassificados mediante uma avaliação das
fornecedores, sendo eles: X, Y e Z. Para
RFP entregues.
facilitar a escolha, foi elaborado um quadro
Um dos fornecedores foi desclassificado de análise comparativa dos critérios,
devido à baixa capacidade de atendimento destacando os três fornecedores, do pior ao
verificada pelos dados referentes ao suporte melhor em cada critério, colorindo com as
apresentando pouca maturidade, sem cores vermelho, amarelo e verde,
controles automatizados e metodologias respectivamente.
específicas. Mesmo esse fornecedor
A Figura 6 apresenta o resultado das
possuindo um cliente com software na mesma
avaliações realizadas pela empresa baseadas
área, a equipe avaliadora optou por
nos critérios que foram definidos pela direção.
desclassificá-lo.
Outro fornecedor foi desclassificado por não
preencher as informações referentes à
empresa.
Figura 6 – Quadro de sinalização

De acordo com esses critérios, a empresa Y 5 RESULTADOS


foi eliminada pelo baixo número de
Nesse artigo, foi mostrado a importância da
atendentes ao suporte, sendo considerado
utilização de um RFP no processo de seleção
pela equipe avaliadora como um risco alto,
de fornecedores, como ela pode ser criada e
além do custo ser quase o dobro das demais.
avaliada.
As empresas X e Z permaneceram
A empresa contratante que optou por utilizar a
empatados no critério de custo, porém a X se
ferramenta cresceu rapidamente no mercado
adequou melhor ao escopo do projeto e a Z
e passou por várias mudanças de software
demonstrou maior segurança no suporte.
nesse período. Todos os softwares que foram
A decisão final ficou a cargo da direção, que escolhidos anteriormente não se adequavam
por resultados obtidos no processo de ao rápido crescimento e não atendiam a
avaliação e por determinação, escolheu a todos os requisitos essenciais para o bom
empresa X como seu fornecedor para funcionamento de uma empresa em seu ramo
implantação de seu sistema de força de de negócios.
vendas.
A criação de uma RFP auxiliou não somente
no processo de seleção de um fornecedor,

Tópicos em Administração - Volume 2


133

mas também na definição de um escopo que Na pesquisa apresentada, a empresa


representasse todas as principais contratante optou por escolher o software que
funcionalidades esperadas por um software não oferecesse tantos riscos em seu projeto e
para atender as necessidades que até então utilizou o critério do escopo para desempatar
os softwares implantados não atendiam. o critério de custo que se adequasse melhor
ao escopo esperado do sistema.
Depois de elaborada a RFP e tendo em mãos
as respostas dadas pelos fornecedores
candidatos, a empresa contratante iniciou o
processo de seleção baseadas nos critérios
que mais achava pertinente.

REFERÊNCIAS https://repositorio.ufsc.br/bitstream/handle/1234567
89/85785/194974.pdf?sequence=1&isAllowed=y
[1] ANDREN, E. Creating and Using RFPs for Acessado em 26/05/2017.
Fun and Profit. Strategic Analysis Report. Gartner [6] MELO, Maury. Guia de estudo para o
Group, Jan. 1997. exame PMP@: Project Management Professional
[2] BERTAGLIA, P. R. Logística e Exam. 4º ed. Rio de Janeiro: Editora Rosa Maria
gerenciamento da cadeia de abastecimento: São Oliveira de Queiroz. 2012.
Paulo: Saraiva, 2006. [7] RODRIGUES, E. Como fazer uma RFP.
[3] DELAQUA, Lucas. Bons contratos Disponível em:
começam com boas RFPs. Disponível em: http://www.elirodrigues.com/2012/10/19/como-
https://lucasdelaqua.wordpress.com/2009/10/15/bo fazer-uma-rfp/. Acesso em: 12/02/2017.
ns-contratos-comecam-com-boas-rfps/ Acesso em: [8] TCU, Tribunal de Contas da União. Rede
08/02/2017. de Bibliotecas. Guia de boas práticas em
[4] FAGUNDES. E. Como elaborar uma RFP. contratação de soluções de tecnologia da
Disponível em: http://efagundes.com/artigos/como- informação. Versão 1.0. Brasília, DF, 2012.
elaborar-uma-rfp-request-for-proposal/ Acesso em: Disponível em:
27/05/2017. http://portal.tcu.gov.br/lumis/portal/file/fileDownload
[5] LIMA, M.V.A. Metodologia construtivista .jspfileId=8A8182A24D6E86A4014D72AC8219546
para avaliar empresas de pequeno porte no Brasil, 4&inline=1. Acesso em: 03/04/2017.
sob a ótica do investidor. Maio/2003. Disponível
em:
[9]

Tópicos em Administração - Volume 2


134

Capítulo 14

Paula Lopes de Oliveira Maia

Resumo: O presente trabalho propõe reunir conceitos e ideias, e discorrer a


respeito do papel do empreendedor mediante a inovação sob a perspectiva da
competitividade, procurando demonstrar como inovação é capaz de incrementar a
competitividade. O estudo apresenta como resultado, a partir de um amplo
levantamento teórico-conceitual, que a inovação é elemento essencial para a
competitividade dos negócios, independentemente do porte ou segmento no qual a
empresa atua e que o empreendedor é o protagonista da inovação bem como do
desenvolvimento econômico. Contudo, nota-se que muitas vezes os
empreendedores, em especial os menores, possuem um conceito limitado ou até
mesmo incorreto sobre inovação, o que dificulta sua aplicabilidade nos negócios.

Palavras chave: Inovação. Empreendedor. Competitividade.

Tópicos em Administração - Volume 2


135

1. INTRODUÇÃO Qual o papel do empreendedor mediante a


inovação e qual impacto desta para a
A globalização inquieta e desintegra os
competitividade do negócio? A partir do
mercados, ditando assim, novos desafios
problema de pesquisa, o objetivo geral do
competitivos às empresas, forçando-as a
presente trabalho é analisar a importância da
serem mais inovadoras e ágeis. Esta
inovação para o empreendedor do negócio
instabilidade faz com que as mesmas
próprio. Tendo como objetivos específicos:
procurem as melhores estratégias
clarificar o conceito de inovação bem como
competitivas de acordo com o mercado no
sua aplicabilidade nas empresas, identificar
qual estão inseridas (TIGRE, 2006).
como a inovação pode influenciar a
Hamel e Prahalad (2005) ressaltam que competitividade de um negócio e ainda
muitas empresas nos dias de hoje encontram verificar o papel do empreendedor mediante
como problema, em termos de a inovação.
competitividade, o fato de enfrentarem outras
Tendo em vista o exposto anteriormente, esta
não tradicionais, ou seja, a competição ocorre
pesquisa justifica-se, por ser a inovação um
entre “líderes” versus “inovadores”, ou
tema que tem sido cada vez mais discutido
“copiadores” versus “criativos”, por exemplo,
tanto no meio acadêmico quanto no meio
e não apenas por conta da entrada de
empresarial como forma de garantir a
empresas internacionais. Já Shumpeter
competitividade e a longevidade dos
(1988) observa a importância da inovação
negócios nos mais variados segmentos e pelo
para o desenvolvimento econômico tanto das
fato de o conceito de inovação ser amplo e
organizações quanto dos países.
possuir definições diversas o que por vezes
Neste contexto, segundo Christensen (2001) dificulta o seu entendimento e aplicação.
independentemente do ambiente no qual a
empresa está inserida e do tipo de empresa,
todas enfrentam o dilema da inovação. 2. METODOLOGIA
Inserida em um ambiente de mudanças lentas
Este estudo utilizou-se da pesquisa
ou rápidas, sendo uma empresa de produtos
bibliográfica para o seu desenvolvimento,
ou serviços, de tecnologia de ponta ou não,
tendo como base artigos e livros. Segundo
torna-se necessário neste momento uma
Marconi e Lakatos (2016, p. 166):
gestão muito diferente para que seus lucros e
crescimento se mantenham no longo prazo. É A pesquisa bibliográfica ou de fontes
necessário antever as mudanças com as secundárias, abrange toda a bibliografia já
quais poderão se deparar a fim de evitar o tornada pública em relação ao tema de
fracasso, apesar de aparentemente terem estudo, desde publicações avulsas,
uma boa gestão e um bom relacionamento boletins, jornais, revistas, livros, pesquisas,
com clientes. monografias, teses, material cartográfico,
etc.,até meios de comunicação oral [...]
Entretanto, observa-se no cenário nacional
Sua finalidade é colocar o pesquisador em
certa dificuldade em implementar a inovação,
contato com tudo que foi escrito, dito ou
o que decorre muitas vezes, do fato de que o
filmado sobre determinado assunto [...]
conceito de inovação é amplo e muitos o
desconhecem ou têm uma visão restrita do
mesmo. Para Figueiredo (2011),
Para Gil (2010), a pesquisa bibliográfica
frequentemente tem-se uma ideia limitada ou
permite a análise de diferentes autores e
até mesmo, incorreta sobre determinados
pontos de vista sobre um mesmo tema e
conceitos, tais como o processo de inovação,
desta forma, é possível se fundamentar
dificultando assim sua aplicabilidade nas
melhor o estudo em questão.
empresas.
Tendo em vista que inovação pode ser
compreendida através de diferentes 3. O PAPEL DO EMPREENDEDOR NO
conceitos como já evidenciado anteriormente CONTEXTO DA INOVAÇÃO
e que o tema tem sido abordado com uma
INOVAÇÃO
frequência crescente nos últimos anos - tanto
no meio acadêmico quanto no meio Apesar de inovação ser uma palavra que
empresarial - este estudo pretende analisar atualmente está presente tanto em empresas
sob esta perspectiva: privadas quanto em órgãos públicos como
origem de vantagem competitiva, tem sido

Tópicos em Administração - Volume 2


136

entendida por vezes de maneira restrita, processos estruturados de P&D (TERRA,


incerta e até mesmo incorreta, o que impede 2007, p. 23).
decisões relativas à sua gestão tanto em nível
empresarial quanto governamental.
A inovação está ligada tanto à descoberta,
Comumente confunde-se inovação com
experimentação e desenvolvimento, quanto à
invenção, pois no início do processo de
imitação e adoção de novos produtos, novos
inovação tecnológica estão presentes as
processos de produção e novos arranjos
invenções, porém nem todo produto da
organizacionais (DOSI, 1982). Schumpeter
capacidade inventiva do homem, leva a uma
(1988, p. 48), conclui afirmando que a
inovação visto que, uma invenção é uma
inovação engloba:
ideia, um rascunho, um protótipo dirigido a
um produto, ou um processo novo, 1)Introdução de um novo bem- ou seja, um
aperfeiçoado, que pode ser patenteado. Já a bem com que os consumidores ainda não
inovação, no sentido econômico, acontece estão familiarizados- ou de uma nova
apenas quando este produto é qualidade de um bem. 2) Introdução de
comercializado, colocado no mercado um novo método de produção, ou seja, um
(FIGUEIREDO, 2011). Tigre (2006), ressalta a método que ainda não tenha sido testado
diferença entre invenção e inovação. A pela experiência no ramo próprio da
invenção é caracterizada pela criação de algo indústria de transformação, que de modo
original, seja um produto, uma técnica ou um algum precisa ser baseada numa
processo. Já a inovação acontece através da descoberta cientificamente nova, e pode
real aplicação prática de uma invenção. consistir também em nova maneira de
manejar comercialmente uma mercadoria.
A inovação é instrumento específico dos
3) Abertura de um novo mercado, ou seja,
empreendedores, o meio pelo qual eles
de um mercado em que o ramo particular
exploram a mudança como uma oportunidade
da indústria de transformação do país em
para um negócio diferente. Ela pode bem ser
questão não tenha ainda entrado, quer
apresentada como uma disciplina, ser
este mercado tenha existido antes ou não.
apreendida e praticada. Os empreendedores
4) Conquista de uma nova fonte de oferta
precisam buscar com propósito deliberado,
de matérias-primas ou de bens
as fontes de inovação, as mudanças e seus
semimanufaturados, mais uma vez
sintomas que indicam oportunidades para
independentemente do fato de que essa
que uma inovação tenha êxito. E os
nova fonte já existia ou teve que ser criada.
empreendedores precisam conhecer e pôr
5) Estabelecimento de uma nova
em prática os princípios da inovação bem
organização de qualquer indústria, como a
sucedida (DRUCKER, 2005, p. 25).
criação de uma posição de monopólio (por
Para Tidd, Bessant e Pavitt (2005, p.24) “a exemplo, pela trustificação) ou a
inovação é movida pela habilidade de fragmentação de uma posição de
estabelecer relações, detectar oportunidades monopólio.
e tirar proveito das mesmas”. E completam “a
inovação não consiste apenas na abertura de
novos mercados- pode também significar Uma pesquisa bibliométrica realizada por
novas formas de servir a mercados já Maia (2014) sobre o conceito de inovação
estabelecidos e maduros”. utilizado nos principais periódicos de
Administração aponta as palavras mais
O mais comum e tradicional é associar
utilizadas nesta definição. Ao analisar o
inovação ao desenvolvimento de novos
conceito de inovação utilizado nos 337 artigos
produtos, principalmente ligados a
pesquisados pela autora, constata-se que as
progressos tecnológicos. Uma perspectiva
palavras mais utilizadas na definição sobre o
mais moderna e interessante, no entanto, é
conceito de inovação são: “novo”, “nova”,
aquela compreende que as organizações
“processo”, “produto”, “serviço”,
podem inovar em várias dimensões:
“organizacional”, “desenvolvimento”,
processos, relacionamento com clientes,
“produção”, “conhecimento”, como pode ser
agregação de serviços, sistema de crédito
visualizado na figura a seguir.
ou cobrança, relacionamento com a
comunidade etc. Assim, torna-se evidente
que a inovação não pode se limitar aos

Tópicos em Administração - Volume 2


137

Figura 1: Word Cloud para as palavras mais utilizadas no conceito de inovação.

Fonte: Maia (2014), pág. 71.

A pesquisa identifica também os autores mais 3.1 TIPOS E NÍVEIS DE INOVAÇÃO


citados nos conceitos de inovação. O que
De acordo com Tigre (2006), o manual de
obteve o maior número de citações foi
Oslo, que é a referência conceitual e
“Schumpeter”. Ou seja, do total de artigos
metodológica mais usada para examinar o
que utilizaram o conceito de inovação, em
processo de inovação, amplia a definição de
17,9% o autor foi citado. Assim, o conceito de
inovação, focando-a como um “solucionador
inovação mais utilizado nos artigos foi o que a
de problemas” nas diversas etapas do
define como a introdução de produtos novos
processo produtivo. Assim, de acordo com o
ou significativamente melhorados no
manual de Oslo existem quatro tipos de
mercado, a criação ou o aperfeiçoamento de
inovação, a saber: inovações de produto,
processos, abertura de novos mercados, a
inovações de processo, inovações
conquista de novas fontes de suprimento de
organizacionais e inovações de marketing.
matéria-prima e a reestruturação
organizacional (MAIA, 2014). Inovações de produto envolvem
mudanças significativas nas
O segundo autor mais citado foi “Dosi”,
potencialidades de produtos e serviços.
representando 11,9%. Este autor define
Incluem-se bens e serviços totalmente
inovação como a busca por a descoberta,
novos e aperfeiçoamentos importantes
experimentação, desenvolvimento, imitação e
para produtos existentes. Inovações de
adoção de novos produtos, novos processos
processo representam mudanças
produtivos e novos sistemas organizacionais
significativas nos métodos de produção e
(MAIA, 2014).
de distribuição. As inovações
Destaca-se também o uso do conceito de organizacionais referem-se à
inovação proposto pela OCDE, que foi o implementação de novos métodos
terceiro mais citado e que a entende como a organizacionais, tais como mudanças em
implementação de um produto (bem ou práticas de negócios, na organização do
serviço) novo ou significativamente local de trabalho ou nas relações externas
melhorado, ou um processo, ou um novo da empresa. As inovações de marketing
método de marketing, ou um novo método envolvem a implementação de novos
organizacional nas práticas de negócios, na métodos de marketing, incluindo
organização do local de trabalho ou nas mudanças no design do produto e na
relações externas. Esse uso foi seguido, em embalagem, na promoção do produto e
quarto lugar, pelo conceito de Drucker, o qual sua colocação, e em métodos de
propõe que a inovação refere-se ao ato de estabelecimento de preços de bens e de
atribuir novas capacidades aos recursos serviços (OCDE, 2005, p. 23).
(processos e pessoas) existentes na empresa
para gerar riqueza (MAIA, 2014).

Tópicos em Administração - Volume 2


138

Shumpeter (1988), como já destacado  Adoção de nova fonte de matéria-


anteriormente, classifica cinco tipos de prima
inovações:
 Estabelecimento de uma nova
 Lançamento de um novo bem; organização.
 Implementação de novo método Já Tidd, Bessant e Pavitt (2005) classificam as
produtivo; inovações em quatro tipos que denominam os
“4 Ps da inovação” como pode ser visualizado
 Abertura de novo mercado;
a seguir:

Quadro 1: Tipos de Inovação


Inovação de produto Alterações nos produtos e/ou serviços que a empresa
disponibiliza aos seus clientes.
Inovação de processo Modificações na maneira pela qual os produtos e/ou serviços são
desenvolvidos e entregues.
Inovação de posição Variações no contexto em que os produtos e/ou serviços são
introduzidos.
Inovação de paradigma Transformação nos modelos mentais que direcionam a empresa.
Fonte: adaptado de Tidd, Bessant e Pavitt (2005, pág. 30).

Um outro conceito fundamental é o de Ou seja, elas que criam algo novo e fazem
inovação tecnológica, que está ligada ao uso com que sejam adotadas novas rotinas com
do conhecimento a partir de diferentes transformações inclusive nas crenças e
maneiras de produzir e comercializar bens e valores normativos das pessoas da
serviços. (LASTRES e FERRAZ, 1999). A organização (MOREIRA e QUEIROZ, 2007).
inovação tecnológica é fundamental para
Montanha Junior et al. (2008, p.4), destacam
tornar e manter um país competitivo
que “a inovação radical traz consigo uma
(FREEMAN e SOETE, 2008; STAL, 2007; e
revolução tecnológica, levando a extinção o
TIGRE 2006). Stal (2007), ressalta que
que existia antes dela”. E complementam:
Shumpeter estudou de forma aprofundada a
“[...] é fortemente baseada na pesquisa
relação entre tecnologia e desenvolvimento
científica e tecnológica, originando-se nas
econômico, focando nos benefícios das
empresas por meio de parcerias com
inovações de processo e produto para o
universidades e institutos de pesquisa”. Por
desenvolvimento econômico e destacando a
outro lado, a aceitação comercial da inovação
relevância das organizações e dos
radical é capaz de proporcionar lucros
empreendedores neste processo.
maiores para empresa. Já as inovações
Existem diferentes níveis de melhoria nos incrementais, estão relacionadas à diferenças
processos de inovação “desde melhorias discretas em relação às práticas usuais.
incrementais menores até mudanças Referem-se às pequenas adaptações nas
realmente radicais que transformam a forma rotinas organizacionais e que se adequam às
como vemos ou usamos as coisas” (TIDD, normas e valores dos membros da
BESSANT, PAVITT, 2005, pág. 32). organização (MOREIRA; QUEIROZ, 2007).
Montanha Júnior el al (2008, pág. 4) ressaltam
Uma diferenciação importante que deve ser
que:
ressaltada é entre a inovação radical e a
inovação incremental. As inovações radicais As inovações incrementais são mais
alteram a maneira como enxergamos e como seguras, baratas e mais facilmente trazem
utilizamos as coisas, “às vezes são tão retorno em um tempo razoável, pois são
radicais e vão tão além que mudam a própria geralmente feitas dentro das empresas. O
base da sociedade” (TIDD, BESSANT e curso das inovações nas empresas é
PAVITT, 2008, pág. 32). As inovações normalmente caracterizado por longos
radicais, criam alterações essenciais nas períodos de inovações incrementais,
atividades de uma empresa e representam pontuado por poucas inovações radicais.
uma exclusão das práticas vigentes até então.

Tópicos em Administração - Volume 2


139

Schumpeter conclui destacando que (1982, p. produtos e serviços inovadores, fazendo com
68), “inovações radicais provocam grandes que atinjam e mantenham uma performance
mudanças no mundo, enquanto inovações competitiva.
incrementais preenchem continuamente o
Entretanto, como já dito anteriormente,
processo de mudança”.
observam-se, no cenário nacional, poucas
empresas que adotam tal prática e, além
disso, nota-se, no âmbito empresarial, certa
3.2 INOVAÇÃO, COMPETITIVIDADE E
dificuldade em implementar a inovação
EMPREENDEDORISMO
subsidiada, muitas vezes sob a justificativa de
As empresas procuram maneiras de que a inovação é produto do desenvolvimento
destacar-se frente às concorrentes, buscando de tecnologia de ponta e altos investimentos.
diferentes estratégias visando à fidelização de Dessa forma, essa dificuldade ocorre pelo
clientes, à ampliação da sua participação no fato de, muitas vezes, as empresas – em
mercado e objetivando a obtenção de especial, as menores – acreditarem que a
maiores lucros para sua maior permanência e inovação é privilégio das grandes, por
crescimento no mercado em um contexto que desconhecerem ou terem um conceito
é caracterizado por intensa competição incorreto ou limitado sobre inovação e a
devido à concorrência crescente e constante, importância da sua gestão.
clientes mais exigentes, além de produtos e
De acordo Terra (2007, p. 42, grifo no
serviços de melhor qualidade e muito
original), inovar:
semelhantes entre si.
É criar diferenças que surpreendam a
Neste contexto, “[...] é comum observar a
concorrência. É alavancar a curva de
abrangência e capilaridade de novas
experiência transformando as habilidades
empresas que nem existiam há cerca de dez
e atitudes em melhores soluções para as
anos e que se tornaram líderes de mercado
empresas, seus stakeholders e para a
num curto espaço de tempo” (DORNELAS,
sociedade como um todo.
2008, p. 5). Por isso, na atualidade a inovação
desempenha um papel extremamente Diante do exposto, vale destacar que apesar
relevante, podendo ser vital para o sucesso de o Brasil possuir um processo de abertura
de uma empresa, tendo em vista que inovar é de empresas lento e difícil, se comparado a
uma maneira de se diferenciar dos outros países, o país apresenta uma taxa alta
concorrentes, agregando valor à empresa. de atividade empreendedora, em torno de
Também a esse respeito, Ziviani (2012) 12%. Contudo a maioria das pessoas
menciona: empreende por necessidade no país,
evidenciando, assim, negócios pouco
A inovação é um desafio de alta
inovadores, caracterizados por pequeno
complexidade que as organizações vêm
investimento e conteúdo tecnológico. Desse
enfrentando, com a finalidade de obter
modo, é urgente o desenvolvimento do
vantagem competitiva, atender às
espírito empreendedor e da inovação no
exigências dos mercados consumidores e
empreendedor brasileiro, que necessita
até mesmo para a sobrevivência do
observar a inovação e utilizá-la como uma
empreendimento (ZIVIANI, 2012, p. 3, grifo
ferramenta (SARKAR, 2008). A esse respeito,
no original).
Dornelas (2008, p. 5, grifos no original))
Dessa forma, neste cenário que se mostra também destaca:
cada vez mais competitivo e globalizado, a
O “velho” modelo econômico era regido
inovação desempenha papel essencial tanto
por grandes empresas – caracterizadas
para o crescimento das empresas quanto
por seus ativos físicos, número expressivo
para sua própria sobrevivência no mercado.
de funcionários, várias fábricas, imóveis,
Dornelas (2008) observa que muitos
maquinários etc., prevalecendo o poder
competidores ainda presos ao modelo
dos músculos e o tamanho físico que
econômico antigo estão buscando a inovação
criavam barreiras de entrada aos players
para não perderem mais fatias de mercados
de menor porte, os quais não ousavam
nos quais reinavam no passado. Sob esta
competir com o gigante, dono do
perspectiva, Figueiredo (2011) afirma que, a
mercado. Isso vem sendo substituído aos
partir desse ativo valioso que é a inovação, as
poucos por um novo modelo, no qual as
empresas são capazes de se antecipar às
empresas mais ágeis, flexíveis e com
demandas dos clientes, disponibilizando
respostas rápidas às demandas do

Tópicos em Administração - Volume 2


140

mercado sobreviverão e prosperarão Em pesquisa realizada, Gonçalves, Veit e


também de forma rápida. Monteiro (2013, p. 96) relacionaram a
inovação ao desempenho das empresas e ao
Drucker (2005, p. 25) complementa
perfil empreendedor, obtendo os seguintes
reforçando o papel do empreendedor
resultados:
mediante a inovação:
Grupos de alto desempenho e alto grau de
A inovação é instrumento específico dos
inovação se revelaram mais
empreendedores, o meio pelo qual eles
empreendedores e orientados ao
exploram a mudança como uma
mercado. O grupo de baixo desempenho e
oportunidade para um negócio diferente.
baixa inovação possui perfil pouco
Ela pode bem ser apresentada como uma
empreendedor e baixa orientação ao
disciplina, ser apreendida e praticada. Os
mercado, o que revela os riscos deste tipo
empreendedores precisam buscar com
de atuação e perfil empresarial. Por outro
propósito deliberado, as fontes de
lado, há um grupo inovador e de baixo
inovação, as mudanças e seus sintomas
desempenho, caracterizado por níveis
que indicam oportunidades para que uma
mais baixos de orientação ao mercado, e
inovação tenha êxito. E os
por fim um grupo meio termo, que inova
empreendedores precisam conhecer e pôr
pouco e tem baixo desempenho.
em prática os princípios da inovação bem
sucedida. Portanto, processos de inovação eficientes
fazem com que as empresas se desenvolvam
Nesse sentido, Schumpeter (1988) enfatiza a
melhor e com mais rapidez, além de terem
importância do empresário inovador para o
uma melhor percepção do que as
desenvolvimento da economia, sendo este
concorrentes. Davila, Epstein e Shelton (2007
caracterizado como agente fundamental do
p. 23) reforçam essa visão, afirmando que
processo. Em um modelo de economia no
“[...] a longo prazo (sic), o único fator
qual as atividades acontecem de forma
realmente capaz de garantir o futuro de
idêntica, repetindo-se constantemente, o
qualquer empresa é sua capacidade de
empresário inovador deverá ser capaz de
inovar melhor e de forma mais contínua por
trazer novos produtos ao mercado a partir de
mais tempo que as concorrentes”.
combinações eficientes de tal forma que os
consumidores desejem estes novos produtos.
Dosi (1982) complementa afirmando que as
3.3 O EMPREENDEDOR E A GESTÃO DA
evidências do mercado indicam que a
INOVAÇÃO
atividade inovativa está diretamente
relacionada ao crescimento econômico e que Tendo em vista que a inovação por si própria
a transformação da economia envolve a pode ser entendida como um processo de
realocação de recursos em diferentes setores gestão, verifica-se a necessidade de se
e buscando sempre novas oportunidades de administrar este processo. Nesse sentido,
lucro. Hamel, Mol (2008, pág. 825) definem a gestão
da inovação como: “a invenção e
Para Drucker (2010, p. 39) “os
implementação de práticas gerenciais,
empreendedores inovam. A inovação é o
processos, estrutura ou técnicas novas no
instrumento específico do espírito
estado da arte que tem como objetivo
empreendedor”. Ainda sobre a figura do
promover as metas organizacionais”.
empreendedor, Dornelas (2008) menciona:
A gestão da inovação pode ser entendida
Os empreendedores são pessoas ou
como um conjunto de atividades
equipes de pessoas com características
gerenciais que tentam controlar o
especiais, que são visionárias,
processo inovador. O espectro de
questionam, ousam, querem algo
questões que o gestor deve monitorar
diferente, fazem acontecer, ou seja
neste âmbito vai do estágio de geração da
empreendem. Os empreendedores são
ideia, passa pelo desenvolvimento/adoção
pessoas diferenciadas, que possuem uma
do produto ou processo até o seu
motivação singular, gostam do que fazem,
lançamento no mercado (DREIJER, 2002;
não se contentam em ser mais um na
OJASALO, 2008 apud Pereira e Campos,
multidão, querem ser reconhecidas e
2013, pág. 38)
admiradas, referenciadas e imitadas e
querem deixar um legado. (DORNELAS,
2008, p. 61)

Tópicos em Administração - Volume 2


141

Entretanto, para Eveleens (2010) a maneira as empresas inovadoras fazem uso de


pela qual o processo de inovação é diferentes fontes de conhecimento, podendo
gerenciado depende da forma como as estes ser tanto internos quanto externos. As
empresas enxergam a inovação, tendo em fontes internas referem-se às tarefas
vista que existem várias definições para o direcionadas para a criação de novos
termo. Além disso, existem diferentes produtos e processos e também para a
modelos de gestão da inovação, porém, estes aquisição de melhorias incrementais através
em geral são compostos por seis fases de programas de qualidade, treinamento de
distintas ordenadas da seguinte forma: recursos humanos e aprendizado
geração da ideia, seleção, desenvolvimento, organizacional. Já as fontes externas utilizam:
implementação/lançamento, pós lançamento
 Livros, revistas técnicas, manuais,
e avaliação.
vídeos, entre outros;
Bautzer (2009), reforça a importância de se  Consultorias;
criar processos para gerenciar a inovação,  Licenças de fabricação;
pois o autor acredita que a inovação deve ser  Tecnologias embutidas em
provocada e seus processos devem ser equipamentos e máquinas.
administrados de forma que gerem vantagem
competitiva para a empresa. Drucker (2010) Tidd, Bessant e Pavitt (2005, pág. 87),
completa enfatizando que os reforçam que a inovação é uma “atividade
empreendedores devem aprender a praticar a genérica, associada a sobrevivência e
inovação sistêmica, que consiste em uma crescimento”. Segundo os autores, há um
procura por mudanças e na análise processo comum a todas as empresas que
sistemática das oportunidades que estas percorre as seguintes etapas:
mudanças são capazes de oferecer para a a) Procura: verifica-se os cenários
inovação econômica ou social. interno e externo a fim de identificar
Os esforços para ser inovativo dizem ameaças e oportunidades para
respeito ao modo como as empresas mudança;
criam, adquirem e/ou combinam seus b) Seleção: a partir da estratégia
recursos com vistas a inovar. Estudos empresarial, determina-se de que
confirmam que projetos de inovação forma a empresa pode se desenvolver
necessitam de diferentes estratégias e melhor de acordo com a prévia
estruturas, diferentes modelos de adoção identificação da etapa anterior;
de tecnologias, diferentes ambientes,
fatores organizacionais e processos, c) Implementação: transformar a ideia
pessoas, conhecimentos, entre outros. inicial em algo novo ofertado ao
(SARTORI, 2011, pág. 53) mercado interno ou externo. Nesta
etapa deve-se atentar as seguintes
Silva, Serafim e Spaleta (2010), ressaltam a questões:
necessidade da inovação estar integrada à
cultura da empresa penetrando em todas as  Aquisição de conhecimentos
áreas da organização. Tigre (2006, pág.1) necessários à inovação;
completa afirmando que:  Execução do projeto ajustando-o a
imprevistos;
A geração e apropriação de inovações,  Lançamento da inovação e
entretanto, é um processo complexo que acompanhamento;
depende não apenas das qualificações e  Sustentabilidade: consultar a ideia
dos recursos técnicos-financeiros detidos inicial frequentemente ajustando-a de
pela firma, mas também do ambiente modo a aumentar sua longevidade –
institucional no qual está inserida e do reinovação;
poder de negociação com fornecedores e  Aprendizagem: aprender com este
clientes. ciclo, aperfeiçoando o processo
Tigre (2006) afirma que a inovação refere-se a constantemente.
um processo coexistente de alterações que Este processo pode ser representado de
envolvem diferentes atividades internas e maneira simplificada, conforme observa-se na
externas à empresa. Partindo deste figura a seguir:
pressuposto teórico é possível entender que,

Figura 2: Processo de Inovação

Tópicos em Administração - Volume 2


142

Fonte: Adaptado, Tidd, Bessant e Pavitt (2005), pág. 88.

Com base nos estudos acima percebe-se que estratégica capaz de permitir não somente a
a inovação pode e deve ser estimulada no sobrevivência e a longevidade dessas
âmbito empresarial de diversas formas, a fim empresas, mas, especialmente, por poder
de atender as necessidades da organização garantir-lhes uma posição de destaque frente
e melhorar sua competitividade no mercado. suas concorrentes.
Entretanto, Santos (2010) apud Pereira e
As empresas que mantêm uma mentalidade
Campos (2013) destacam a importância de
antiga que não se preocupam em renovar
estudar como ocorre o processo de geração
nem em fazer algo diferente, estão fadadas a
e de gestão da inovação em PMEs tendo em
perder a competitividade, visto que
vista que representam 99% das empresas
atualmente, independentemente do tamanho
brasileiras e contribuem com 20% do PIB do
da organização, a competição ocorre de uma
país. Apesar de sua relevância para o
maneira mais acirrada.
cenário nacional, a inovação ainda é um
grande desafio para estas empresas, pois Contudo, nota-se que apesar da relevância e
seus índices de inovação são bastante do crescimento pelo tema nos últimos anos,
inferiores aos de grandes empresas. os empreendedores brasileiros,
especialmente os menores, desconhecem
esta temática ou possuem um conceito
4. CONSIDERAÇÕES FINAIS limitado ou incorreto o que inviabiliza sua
aplicação em seus negócios. Por isso, é
Este estudo chama atenção para a temática
extremamente relevante a disseminação do
da inovação, que é de vital importância para
tema, tendo em vista que o empreendedor é o
as organizações, especialmente na
protagonista da inovação e também do
atualidade, na qual vivenciam elevado grau
desenvolvimento econômico.
de concorrência, além de mudanças rápidas
e profundas tanto no mercado quanto na É importante destacar que a pesquisa
sociedade de uma forma geral, o que exige apresentada neste trabalho possui algumas
das empresas respostas cada vez mais limitações que devem ser consideradas.
rápidas as novas tendências. Logo, a Como tratou-se de um estudo teórico, não
inovação é um tema que tem ganhado cada foram ouvidos os empreendedores que são
vez mais importância e tem sido abordado de os protagonistas da inovação, o que poderia
maneira crescente nos últimos anos por permitir uma visão mais ampla quanto à sua
empresários e também pelo meio acadêmico, percepção sobre o tema, o que pode ser uma
uma vez que pode se tornar uma ferramenta possibilidade para próximas investigações.

Tópicos em Administração - Volume 2


143

REFERÊNCIAS organização e desenvolvimento de produtos. São


[1] BAUTZER, D. Inovação: repensando as Paulo: Atlas, 2008.
organizações. São Paulo: Atlas, 2009. [14] MOREIRA, D. A.; QUEIROZ, A. C. S.
[2] CHRISTENSEN, Clayton M. O Dilema da (coord.). Inovação organizacional e tecnológica.
Inovação. São Paulo: Edna Veiga, Makron Books, São Paulo: Thonson Learning, 2007.
2001. [15] ORGANIZAÇÃO PARA COOPERAÇÃO
[3] DAVILA, T.; EPSTEIN, M. J.; SHELTON, R. ECONÔMICA E DESENVOLVIMENTO. Manual de
As regras da inovação – como gerenciar, como Oslo: Diretrizes para coleta e interpretação de
medir e como lucrar. Porto Alegre: Bookman, 2007. dados sobre inovação. 3. ed. FINEP, 2005.
[4] DORNELAS, José Carlos Assis. Disponível em:
Empreendedorismo corporativo. Rio de Janeiro: http://download.finep.gov.br/dcom/brasil_inovador/
Elsevier, 2008. arquivos/manual_de_oslo/prefacio.html . Acesso
[5] DOSI, Giovanni. Technological paradigms em: 01/06/2017.
and technological trajectories. Research Policy. [16] PRAHALAD, Coimbatore Krishnarao;
v.11, n.3, p.147-162, 1982. HAMEL, Gary. Competindo pelo Futuro. Rio de
[6] DRUCKER, Peter F. Inovação e Espírito Janeiro: Campus. 2005.
Empreendedor. São Paulo: Entrepreneurship, 2005. [17] SARKAR, Soumodip. O empreendedor
[7] EVELEENS, Chris. Innovation inovador: faça diferente e conquiste seu espaço no
management; a literature review of innovation mercado. Rio de Janeiro: Elsevier, 2008.
process models and their implications. Working [18] SARTORI, Simone. Características da
paper University of Nijmegen, 1-16. 2010. Inovação: Uma Revisão de Literatura. INGEPRO.
[8] FIGUEIREDO, Paulo N. Gestão da vol. 03, no. 09 - setembro de 2011- pág. 52-64.
Inovação: conceitos, métricas e experiências de [19] SCHUMPETER, Joseph Alois. Teoria do
empresas no Brasil. Rio de Janeiro: LTC, 2011. desenvolvimento econômico: uma investigação
[9] FREEMAN, C.; SOETE, L. A Economia da sobre lucros, capital, crédito, juro e o ciclo
Inovação industrial. Campinas, SP: Ed. UNICAMP, econômico. 3 ed. São Paulo: Nova Cultural, 1988.
2008. [20] STAL, Eva. Inovação organizacional e
[10] GONÇALVES, Cid Filho; VEIT, Mara tecnológica. São Paulo: Thomson Learning, 2007.
Regina; MONTEIRO, Plínio Rafael R. Inovação, [21] SILVA, L.; SERAFIM, L. E.; ESPALETA, A.
estratégia, orientação para o mercado e Os princípios e requisitos da inovação: estudo de
empreendedorismo: identificação de clusters de caso 3M. In:
empresas e teste de modelo de predição do [22] RODRIGUEZ, M. V. R. Gestão do
desempenho nos negócios. Revista de conhecimento e inovação nas empresas. Rio de
Administração e Inovação. São Paulo, v. 10, n.2, p. Janeiro: Qualitymark, 2010.
81-101, abr./jun. 2013. [23] TERRA, José Cláudio Cyrineu (Org.)
[11] HAMEL, Gary; MOL, Michael J. Inovação: quebrando paradigmas para vencer.
Management Innovation. Academy of Management São Paulo: Saraiva, 2007.
Review, 2008, Vol. 33, No. 4, 825–845. [24] TIGRE, Paulo, B. Gestão da inovação: a
[12] MAIA, Paula L. de O. Gestão da Inovação: economia da tecnologia do Brasil. Rio de Janeiro,
uma análise bibliométrica e sociométrica das Editora Elsevier, 2006.
principais publicações no Brasil na área de [25] TIDD, J.; BESSANT, J.; PAVITT, K. Gestão
Administração no período de 2000 a 2013. da inovação. Porto Alegre, Editora Bookman, 2005.
Dissertação (Mestrado Profissional em [26] ZIVIANI, Fabrício. A dinâmica de
Administração) Faculdade de Estudos conhecimento e inovação no setor elétrico
Administrativos, Belo Horizonte, 2014. brasileiro: proposta de um conjunto de indicadores
[13] MONTANHA JUNIOR, I. R.et al. gerenciais. Tese (Doutorado em Ciência da
Importância, definições e modelos de inovação. In: Informação) Programa de Pós Graduação em
CORAL, E.; OGLIARI, A.; ABREU, A. F. de (org). Ciência da Informação, Universidade Federal de
Gestão Integrada da Inovação: estratégia, Minas Gerais, Belo Horizonte, 2012.

Tópicos em Administração - Volume 2


144

Capítulo 15

Jordi Olivella Nadal


Luciano Kingeski

Resumo: A mobilidade de estudantes latino-americanos para países estrangeiros é


um fenômeno muito importante no contexto da globalização e da
internacionalização do ensino superior. O volume total de estudantes que se
destinam a Espanha para realizar seus estudos é crescente ao longo dos anos,
porém atualmente identifica-se uma redução no fluxo destes sujeitos.
Aparentemente os motivos que justificam esta redução têm a ver com o ciclo
econômico que se encontra tanto o país de origem “push” ou como o país de
destino “pull”. Assim que, este trabalho tem o objetivo de verificar a relação entre o
volume de estudantes internacionais e o ciclo econômico, em particular; o caso dos
estudantes latino-americanos na Espanha. A metodologia utilizada foi uma pesquisa
descritiva, através de dados disponíveis nas bases de dados UOE (UNESCO,
OCDE e Eurostat), SIIU (Sistema Universitário Integrado de Informação) e
Observatório Permanente de Imigração do Ministério do Emprego e Segurança
Social da Espanha. A partir da análise dos distintos dados, conclui-se que a crise
econômica dos últimos anos foi o fator responsável de uma forte redução de
estudantes latino-americanos na Espanha. Apesar disso, é possível considerar que
se mantem a tendência de fundo ao crescimento destes fluxos de estudantes.

Palavras chave: Estudantes latino-americanos, estudantes internacionais, ciclo


econômico

Tópicos em Administração - Volume 2


145

1 INTRODUÇÃO baixos que se repetem com alguma


regularidade ao longo dos anos.
Vários termos são usados para caracterizar a
mobilidade de estudantes, "estudantes Assim que, este trabalho tem o objetivo de
estrangeiros", "estudantes internacionais" e o verificar a relação entre o volume de
termo "mobilidade internacional dos estudantes internacionais e o ciclo
estudantes" adotada pela UNESCO (2006). econômico, em particular, o caso dos
estudantes latino-americanos na Espanha nos
O termo também é consenso frente a OCDE e
últimos anos.
Eurostat, que concordam que o termo
"estudantes internacionais móveis" que se
refere a estudantes que tenham atravessado
2. REFERENCIAL TEÓRICO
uma fronteira nacional para estudar ou estão
matriculados em um programa de educação à 2.1 FATORES DE DECISÃO PARA ESTUDOS
distância no exterior. Neste ultimo caso, eles NO EXTERIOR “PULL-PUSH”
não são residentes ou cidadãos do país onde
Atualmente, é possível encontrar na literatura
estudam.
uma ampla contribuição acerca dos fatores
Os estudantes internacionais móveis são um de decisão para estudos no exterior, porém
subgrupo de "estudantes estrangeiros". identifica-se uma lacuna e carência de
Caracteriza-se por uma categoria diferente pesquisas realizadas com estudantes latino-
daqueles que possuem residência americanos que destinam-se a Espanha,
permanente no país anfitrião. Por esta razão, apesar da representatividade destes sujeitos
o número de estudantes estrangeiros em todo no país.
o mundo tende a ser mais elevados
Destacam-se por estes temas de estudos
(UNESCO, 2014).
principalmente os países: Estados Unidos,
Frente a esse cenário, os autores descrevem Reino Unido, China e Austrália. Neste
as diferentes situações dos estudantes contexto, por exemplo a contribuição de
internacionais. Marchetto (2005) classificados Altbach (1998) apresenta uma lista de fatores
nas seguintes categorias: conhecidos como "pull-push". Os fatores
"push" operam dentro do país de origem antes
(a) aqueles que se movem
da decisão de estudar no exterior, e os
independentemente: "freemovers", que são
fatores de "pull" dentro do país anfitrião para
estudantes que se autofinanciam,
torná-lo mais atraente do que outros destinos
geralmente vivem em melhores condições
potenciais.
econômicas. (b) aqueles que recebem
incentivos acadêmicos: por exemplo, os Os resultados da pesquisa apontam 11
estudantes que se inscrevem em acordos / grandes fatores que influenciam as decisões
convenções, programas governamentais, dos estudantes na realização de seus estudos
acordos inter-programa, os alunos no exterior que segundo ele são: o custo da
recebem bolsas de estudos durante a mobilidade, taxa de emprego no país de
formação e intercâmbio de possibilidades acolhida, distancia geográfica, o entorno
no exterior. (c). estudantes refugiados e (d) ambiental, qualidade das instituições, apoio
aqueles que emigram por motivos financeiro, perspectivas de futuro profissional,
económicos. situação econômica do país de origem,
idioma e formação intercultural da instituição
Ampliando esta visão, há outra situação que
de origem, influencia da família e o interesse
são chamados de estudantes de intercâmbio,
pela mobilidade.
estes não vão conseguir um diploma
universitário da universidade de destino, outro Mais tarde, o mesmo autor Altbach & Knight
caso, são estudantes que residem no país de (2007), descrevem um estudo mostrando a
nacionalidade estrangeira. Estes não estão educação internacional como vantagem
considerados neste estudo, porque eles não comercial, aquisição de conhecimento,
são frutos de captação de estudantes planos de melhorias, conteúdos
internacionais pelas universidades internacionais, entre outros. O estudo
(OLIVELLA, 2016). descreve ainda a internacionalização atual
dos continentes da Ásia, África, Europa,
Quanto ao conceito de ciclo econômico, este
América do Norte e América Latina.
estudo apropria-se da definição de Galindo
(2008) que são as variações na oferta e Em outro exemplo, Brown & Oplatka (2006)
demanda agregada, expressos em altos e fizeram uma revisão sistemática da literatura

Tópicos em Administração - Volume 2


146

sobre a comercialização do ensino superior Por outro lado, a situação econômica do país
com a finalidade de explorar a natureza da de origem influi claramente no interesse que
comercialização do ensino superior e podem ter seus jovens a emigrar a outro.
universidades em um contexto internacional.
O ciclo econômico também influi em outros
Os objetivos desta revisão foram
fatores que motivam a realizar estudos em
sistematicamente coletar, documentar, rever e
outros países. Uma crise no país de destino
analisar criticamente a literatura de pesquisa
pode implicar que as universidades deste
atual sobre a comercialização da oferta no
país disponibilizem de menos incentivos,
ensino superior; estabelecer a extensão da
ajudas e bolsas de estudos para estudantes
mercantilização da educação superior;
internacionais, por exemplo. Outro efeito da
identificar lacunas na literatura de pesquisa; e
crise no país de destino pode ser a perda de
fazer recomendações para futuras pesquisas
prestigio e, portanto, de atração pelo país.
neste campo.
Finalmente, os problemas no país de destino
podem diminuir os preços, o que redundaria
uma maior afluência dos estudantes,
Na mesma direção e período, outro exemplo
especificamente daqueles sem interesse de
que ilustra este fenômeno global são os
permanecer no país.
estudos de Marginson (2006), narrando o
surgimento de uma posição no mercado Por outra parte, a má situação econômica no
mundial de universidades de elite nos EUA e país de origem pode ter também
Reino Unido e no rápido desenvolvimento consequências negativas para os estudantes
comercial da Austrália. O exemplo da que pretender estudar no exterior ao diminuir
Austrália ilustra bem as tendências neste os fundos disponíveis, tanto de bolsas de
cenário atual. As universidades australianas estudos como, dos próprios estudantes.
levam uma política muito agressiva de
internacionalização, com duas dimensões
principais. Por um lado, expandir o número de 3. METODOLOGIA
estudantes estrangeiros que viajam para
3.1 OBJETIVO DA PESQUISA
estudar na Austrália. Por outro,
desenvolveram uma oferta de sua educação à O objetivo desta pesquisa é: Analisar o fluxo
distância e instalaram escritórios de de estudantes universitários latino-americanos
universidades australianas em outros países. que realizam estudos superiores oficiais na
Espanha, através de uma análise do ciclo
econômico.
2.2 CICLO ECONÔMICO E FLUXO DE
Devido à carência de pesquisas prévias em
ESTUDANTES INTERNACIONAIS
relação ao tema de pesquisa e o volume
De acordo com a literatura, vários fatores limitado de dados disponíveis, este estudo se
influem a motivação para estudos no exterior, realiza através de uma pesquisa descritiva,
estes são suscetíveis às variações em função pois se busca descobrir a existência de
do ciclo econômico. Como se mencionou associações entre variáveis (GIL, 2006) e
anteriormente, um dos motivos é a intenção enfoque qualitativo. Neste caso, a relação do
de viver no país em que irá realizar os volume do fluxo de estudantes internacionais
estudos. Esta intenção dá lugar, em alguns com o ciclo econômico existente. Esta análise
casos, a estudar no exterior sem interesse pretende ser um primeiro passo, para propor
real nos estudos em que vai realizar. no futuro um modelo explicativo do fenômeno.
Em outros casos, trata-se das pessoas que
possuem o interesse real em estudar, e a
3.2 PASSOS DA METODOLOGIA
partir disso, valoram positivamente a
possibilidade de permanecer no país, uma Primeiro buscou-se obter uma aproximação
vez concluídos os estudos. Porém se o país ao tema, através da literatura existente a
de destino que se imagina para estudos no respeito dos estudos de mobilidade
exterior, não apresente uma estabilidade acadêmica internacional e fatores de decisão
econômica, este reduzirá seu interesse para “pull-push”. Assim que, foi possível obter uma
emigrar, portanto a força deste fator como lista de fatores de decisão, e deduzir quais
motivação. destes podem ser afetados pelo ciclo
econômico.

Tópicos em Administração - Volume 2


147

Em seguida, foram levantados os dados  - Observatório Permanente de


estatísticos referentes ao número de vistos, Imigração do Ministério do Emprego e
matrículas e cota de participação dos Segurança Social da Espanha: Inclui
estudantes internacionais no mundo e em dados sobre vistos para estudos, feito
particular, dos estudantes latino-americanos, a partir dos dados do registo central
o objeto principal de estudo. Também se de estrangeiros.
buscou o número de bolsas de estudos, o
fluxo de imigração e PIB, com o objetivo de
contrasta-lo com de outras partes do mundo. 4. ANÁLISE DOS DADOS ESTATÍSTICOS
Finalmente, deduz-se dos dados analisados o 4.1 NÚMERO DE ESTUDANTES
efeito que possa ter ocorrido no ciclo nos INTERNACIONAIS
últimos anos. As fontes de dados utilizadas
Primeiramente, levaram-se em consideração,
para o presente estudo foram:
os dados de vistos de estudantes. Porém
 - Base de dados UOE (Data Collection estes não distinguem os vistos concedidos a
on Education Systems): A principal estudantes que solicitam realizar estudos
referência estatística sobre educação universitários, daqueles que pedem para
de forma geral e a respeito de outros tipos de estudos. Além disso, o visto
estudantes internacionais, em não é necessário para os cidadãos da União
particular, administrada pela UNESCO, Europeia, de modo que, aqueles que se
OCDE e Eurostat. destinam estudar na Espanha não estão
incluídos nestes dados. No entanto, é um fator
 - Sistema Universitário Integrado de
a considerar, porque é representativo o
Informação (SIIU): Seus dados é
número de estudantes internacionais que os
parcialmente acessível a partir do site
solicitam. A seguir, na Tabela 1. apresenta-se
do Ministério da Educação, Cultura e
a seleção de dados do Observatório
Desporto de Espanha.
Permanente de Imigração, correspondentes
aos anos de 1992 a 2015.

Tabela 1. Números de vistos

1.992 1.995 2.000 2.005 2.010 2.011 2.012 2.013 2.014 2.015

Total 9.250 9.906 27.813 29.900 46.914 51.804 42.864 44.519 49.053 49.669

África 1.931 1.640 5.247 3.686 4.303 3.807 3.923 4.163 4.445 4.041

América 5.518 6.811 19.219 22.174 32.082 35.729 27.290 25.987 28.647 29.394

América do Norte 9.459 12.931 7.875 7.948 8.943 9.332

América C. e Sul 22.623 22.798 19.415 18.039 19.704 20.062

USA e Canadá 5.451 2.385

Ibero-américa 13.768 19.789

Ásia 1.235 1.182 2.529 2.896 7.927 8.928 8.441 10.618 11.723 12.056

Resto de Europa 538 223 732 1.048 2.427 3.055 3.012 3.485 3.937 3.939

Oceania 13 31 65 89 170 285 193 248 278 222

Não consta 15 273 21 7 5 - 5 18 23 17

Fuente: Olivella (2017)

Tópicos em Administração - Volume 2


148

Os dados mostram uma forte tendência ao Espanha. Assim que, a América foi dividida
longo dos anos. Porém esta é interrompida a entre América Latina e Caribe por um lado, e
partir de 2011, para os estudantes os Estados Unidos (USA) e Canadá, de outro.
provenientes do continente americano. O Também se considerou um diferencial a zona
efeito, referente ao número de estudantes do norte da África e Oriente Médio, por razoes
deste continente passou de 35.729 em 2011 a culturais, politicas e econômicas, e também a
28.647 em 2014. Os estudantes do resto do zona do resto da África. De um lado a
mundo incrementaram-se, até compensar a agrupação da Ásia, excluindo o Oriente
cifra dos estudantes de América. Médio e do outro, a Oceania. A seguir, na
Tabela 2. apresentam-se os dados, a partir da
Neste momento, passa-se a considerar os
Base UOE, referente ao número de
dados de estudantes universitários na
estudantes matriculados por regiões no
Espanha. Para uma melhor apresentação,
mundo, no período de 2009 a 2014.
buscou-se agrupar os países frente à

Tabela 2. Estudantes internacionais por regiões no mundo

Número

2009 2010 2011 2012 2.013 2.014

Total 48.517 56.018 62.636 55.759 56.361 48.247

África 1.576 1.668 1.444 1.527 1.211 1.134

América Latina e Caribe 24.923 30.394 32.853 27.391 27.539 20.088

Ásia e Oceania 1.259 1.533 1.997 2.457 2.322 2.838

Canadá y USA 801 681 872 958 977 917

Europa-União Europeia 12.287 14.084 15.957 15.252 16.836 16.105

Europa-Resto 2.901 3.263 3.530 3.706 3.477 3.420

Oriente Medio e N. África 3.741 4.195 3.878 3.968 3.911 3.651

Não identificados 1.029 200 2.105 33 88 94

Fonte: Olivella (2017)

Observa-se através dos dados, um declínio menor atração pela Espanha nestes anos ou
no número de estudantes internacionais na de uma menor tendência de estudos no
Espanha no período de 2011 a 2014, uma exterior por parte destes sujeitos.
caída aproximadamente de 40%. Novamente,
Os dados da Tabela 3. apresentam a
o decrescimento provém basicamente da
proporção de estudantes dos distintos países
América Latina e do Caribe. A cifra de
latino-americanos que se dirigem a Espanha,
estudantes do resto do mundo cresce de
entre os que se destinam ao exterior. Os
maneira importante, porém distante de
dados demonstram uma importante queda na
compensar o decréscimo dos de América.
participação ao país em questão, onde a
É importante levar em consideração se, a perda de atração seria o fator predominante
diminuição no fluxo de estudantes latino- na acentuação destes dados.
americanos na Espanha provém de uma

Tópicos em Administração - Volume 2


149

Tabela 3 Estudantes internacionais por origem, América Latina e Caribe

Número Cota na região de origem

2009 2012 2014 2009 2012 2014

Argentina 2.297 2.109 1.255 25,10% 25,61% 15,89%

Bolívia 749 1.206 1.013 7,38% 13,01% 10,65%

Brasil 1.859 1.541 949 7,05% 5,01% 2,56%

Chile 1.434 1.431 1.195 17,21% 15,78% 12,77%

Colômbia 4.501 5.855 3.721 20,37% 23,17% 13,40%

Equador 2.461 3.609 3.158 25,12% 31,87% 23,82%

México 2.880 2.542 1.543 10,62% 9,30% 5,40%

Peru 3.489 3.338 2.633 22,13% 21,80% 17,06%

República Dominicana 731 1.007 1.245 24,74% 28,94% 28,28%

Venezuela 1.897 1.946 1.232 12,31% 13,28% 7,92%

Fuente: Olivella (2017)

4.2 FATORES DE CICLO ECONÔMICO muitas vezes considerado a maneira mais


fácil de migrar para um país. A este respeito,
Outro fator a levar em consideração neste
a emigração para a Espanha passou de
estudo é o histórico de imigração na Espanha,
599.000 pessoas em 2008 para 305.000
acredita-se que a crise econômica do país
pessoas em 2.014 (INEbase, 2017).
entre os anos de 2011 a 2013
especificamente, contribuíram diretamente A seguir no Gráfico 1. o histórico do fluxo de
para desaceleração deste fenômeno. O imigração no período de 2004 a 2015.
número de vistos de estudantes tem sido

Gráfico 1: fluxo de imigração no período de 2004 a 2015

958,266
719,284
840,844
684,561
599,075
392,962 371,331 342,114
280,772
360,705
304,053 305,454

2004 2005 2006 2007 2008 2009 2010 2011 2012 2013 2014 2015

Fonte: Eurostat (2017)

Tópicos em Administração - Volume 2


150

De acordo com Banco Mundial (2017) no Espanha, a 2.56% nos últimos informes
período de 2011 a 2013, o PIB (Produto disponíveis de 2014. Apesar disso, o sistema
Interno Bruto) da Espanha foi negativo com os universitário brasileiro é importante e tem a
valores de (-1,0%), (-2,9%) e (-1,7%) especificidade do idioma português que
respectivamente, vindo a subir em 2014 difere dos demais países de América Latina.
(1,4%) e 2015 (3,2%).
A importância do Programa “Ciência sem
Por outra parte, é importante considerar a Fronteiras” (CsF), criado em 2011, que busca
oferta de bolsas de estudos no exterior, onde promover a consolidação, expansão e
os dados guardam uma clara relação com a internacionalização da ciência e tecnologia,
situação econômica do país. Neste contexto, da inovação e da competitividade brasileira
um fator-chave para o desenvolvimento são: por meio do intercâmbio e da mobilidade
as políticas de internacionalização e internacional. A iniciativa é fruto de esforço
programas de bolsas de estudos dos países, conjunto dos Ministérios da Ciência,
que podem ser a porta de entrada dos Tecnologia e Inovação (MCTI) e do Ministério
estudantes internacionais no exterior e que da Educação (MEC), por meio de suas
estão diretamente relacionados com o ciclo respectivas instituições de fomento – CNPq e
econômico, pois podem incentivar ou Capes –, e Secretarias de Ensino Superior e
desmotivar a saída de seus países para a de Ensino Tecnológico do MEC. (CIENCIA
realização de estudos (pull-push). SEM FRONTEIRAS, 2017).
Em particular, o caso do Brasil ao longo dos A seguir, na Tabela 4. apresenta-se o
últimos anos, houve um decréscimo histórico do número de bolsas de estudos e
significativo, passando de 7,06% em 2009 de os principais países de destinos dos
sua cota de participação de estudantes na estudantes brasileiros no exterior.

Tabela 4. Número de bolsas de estudos no exterior

Fonte: http://cnpq.br/series-historicas

Nota-se a evolução dos números a partir do econômico através do financiamento do


ano 2012 com a implantação do (CsF) e os ensino superior.
principais países de destinos foram: Reino
Unido, Austrália e Canadá. É importante
mencionar, que até o presente ano, o 5. CONCLUSÕES
Programa era destinados para estudantes de
Um número crescente de estudantes se dirige
graduação e pós-graduação, e que neste
a outros país distintos dos seus para obter um
momento deixou de oferecer as ajudas para
titulo universitário, o que é um fenômeno
estudantes de graduação.
importante tanto para o país de origem e os
Também neste contexto, outro exemplo próprios estudantes, como para o país de
importante a mencionar é o caso do México, destino e suas universidades. A decisão de
através do Conselho Nacional de Ciência e viajar ao exterior para estudar depende de
Tecnologia/CONACYT, fundado com o distintos fatores, uns ligados ao país de
objetivo global de suportar o desenvolvimento origem e outros ao país que finalmente se
destina estudar.

Tópicos em Administração - Volume 2


151

Algum dos fatores que levam a estudos no outros países. Estes dados indicam que a
exterior está com relacionados com o ciclo redução corresponde-se com os países
econômico, em particular, a mudança a outro latino-americanos, de grande imigração na
país se associa em certo número de casos, Espanha.
com a possiblidade de emigrar a esse país.
Assim mesmo, observa-se que a redução da
A tendência em emigrar vincula-se com a proporção de estudantes latino-americanos
situação econômica, tanto no país de origem que se destinam ao exterior, em particular, a
como o de destino. A disponibilidade dos Espanha, reduziu em uma grande proporção,
fundos necessários, tanto na origem como no e a queda é especifica deste fluxo.
destino, o prestigio do país escolhido e o
Finalmente, os dados da evolução do PIB, os
custo das despesas a este mesmo país
dados de imigração a Espanha e os dados de
podem relacionar-se também com o ciclo
bolsas de estudos concedidas refletem a
econômico.
simultaneidade entre a crise econômica, seus
Analisou-se, como um caso particular o efeitos e as caídas no volume de estudantes
fenômeno de estudo, a relação entre o latino-americanos no país.
número de estudantes latino-americanos que
Deduz-se que as diminuições sofridas são
dirigem-se a Espanha e o ciclo econômico.
devidas a relação entre emigração, viagem
Para isso foram utilizados os dados
de estudos e os fatores da crise. Pode-se
estatísticos disponíveis.
pensar, por tanto que, as quedas no número
Historicamente, o fluxo de estudantes latino- de estudantes podem recuperar-se com a
americanos a este país se incrementa de evolução do ciclo.
maneira continuada, apesar de que nos
Os autores pretendem desenvolver novos
últimos anos, nota-se uma diminuição muito
estudos, tanto sobre a relação entre ciclo
significativa nos números. Tem-se em conta o
econômico e estudos no exterior, como sobre
indicador de vistos de estudantes com a
o caso especifico dos estudantes latino-
diminuição entre 2011 e 2014 que foi de 20%,
americanos na Espanha. Propõe-se, ademais,
utilizado para análise.
estudar de maneira mais ampla os distintos
Para a valoração adequada destes dados, é intercâmbios no âmbito universitário entre os
necessário considerar os dados de países ibero-americanos.
estudantes na Espanha provenientes de

REFERÊNCIAS [7] Brown J. H.;Oplatka I.; Universities in a


competitive global marketplace: A systematic
[1] Altbach, P. G. Comparative Higher review of the literature on higher education
Education: Knowledge, the University, and marketing: 2006; International Journal of Public
Development. Hong Kong: Comparative Education Sector Management, Vol. 19 Issue: 4, pp.316-
Research Centre; 1998; The University of Hong 338, https://doi.org/10.1108/0951355061066917
Kong, p. 240. 6
[2] Altbach, P., & Knight, J.: 11, no. 3/4 [8] CIÊNCIA SEM FRONTEIRAS. O programa,
(Fall/Winter), p. 290-305, 2007 2014. Disponível em:
[3] Banco Mundial <http://www.cienciasemfronteiras.gov.br> Acesso
BIRF/AIF. Disponivel em www.bancomundial.org em 20 abril. 2017.
Acesso em 22 de abril 2017. [9] GIL , Antônio Carlos. Como elaborar
[4] Base de dados UOE data collection on projetos de pesquisa. São Paulo: Atlas, 2006
education systems. Manual on concepts, definitions [10] Marginson, S. Dynamics of national and
and classifications. UNESCOUIS / OECD / global competition in higher education; 2006;
EUROSTAT, Montreal, Paris, Luxemburgo 2014. Monash Centre for Research in International
[5] Base de dados UOE. Table A Tertiary Education, Monash University, VIC 3168 Clayton,
Education. International flows of mobile students by Australia.
country of origin; 2017; Instituto de Estadística de [11] Ministerio de Educación y Deporte. Datos
la UNESCO. y cifras del sistema universitario español.
[6] Base de dados INEbase, serie Población Disponivel em:
residente por fecha, sexo, grupo de edad y http://www.mecd.gob.es/educacion-mecd/areas-
nacionalidad, Comunidades Autónomas. Cifras a 1 educacion/universidades/estadisticas Acesso
de enero de 2.016. Consultada en INEbase, em: 28 de janeiro de 2016.
Instituto Nacional de estadística, en marzo del
2.017.

Tópicos em Administração - Volume 2


152

[12] OECD (2004) Education at a Glance 2012: [15] Olivella, J. España como destino de
OECD Indicators. Paris: OECD Publishing. estudiantes universitarios internacionales: datos y
[13] OECD (2009) Education at a Glance 2012: tendencias; 2017; Disponible en:
OECD Indicators. Paris: OECD Publishing. http://ssrn.com/abstract=2723368 Acesso em: 28
[14] OECD de maio de 2017.
(2014) Education at a Glance 2012: OECD
Indicators. Paris: OECD Publishing

Tópicos em Administração - Volume 2


153

Capítulo 16

Neusa Mª Gonçalves Salla


Angelo Abramowicz
Grace Kelly Holtz Scremin
Márcio Ezequiel Diel Turra
Gean Carlo Schuster Konrath

Resumo: O presente estudo tem por objetivo identificar as ações de governança


digital realizadas pela administração pública federal na prestação de serviços aos
cidadãos brasileiros, buscando refletir sobre a participação da sociedade na
gestão do ente público por meio da governança digital, com a intenção de
contribuir com a melhor participação da sociedade na gestão pública. Para o
desenvolvimento do estudo foram utilizados métodos de abordagem qualitativo e
exploratório, através da pesquisa descritiva e estudo de caso. A técnica utilizada
para desenvolver o estudo foi à pesquisa documental. O resultado do estudo
mostra que a administração pública federal tem adotado várias formas de
governança digital, como a Secretaria de Tecnologia da Informação em conjunto
com o Sistema de Administração dos Recursos de Tecnologia da Informação. Outra
norma que trata de ações de Governança Digital identificada é o decreto
8.638/2016 que tem por objetivo principal atender aos anseios da sociedade com o
uso da tecnologia da informação, estimulando sua participação na gestão pública e
ainda propõe melhorias no acesso à informação através do estabelecimento da
obrigatoriedade de os órgãos públicos manterem um Comitê de Governança Digital
para tratar constantemente de assuntos relativos à Governança Digital.

Palavras chave: Palavras-chave: Governança Digital, Gestão Pública, Administração


Pública.

Tópicos em Administração - Volume 2


154

1 INTRODUÇÃO hoje se vive a era da tecnologia da


informação, tudo isso visando o atendimento
As regiões noroeste e missões do estado do
aos objetivos de cada individuo e da
Rio Grande do Sul, a muitos anos atrás fora
sociedade. Dentre esses objetivos podem-se
povoada por civilizações indígenas, povos
citar, em atenção a algumas respostas dos
estes que viviam em tribos, onde o bem-estar,
questionamentos, a participação da
a saúde, o alimento, a diversão, a religião, a
sociedade na gestão do ente público através
segurança era preocupação de todos para
da Governança Digital.
com todos, ou seja, esses grupos viviam em
sociedade em prol da subsistência e de seu Aspirando contribuir com a melhor
desenvolvimento. Isso só ocorria nestas participação da sociedade na gestão pública
sociedades tendo em vista uma gestão em governamental, o tema Governança Digital na
prol dos interesses do coletivo. Não existiam Administração Pública Federal tem como
aparatos financeiros, fiscalizações de objetivo identificar as ações de governança
tribunais, sindicatos, governo municipal, digital realizadas pela Administração Pública
estadual, federal, poder legislativo ou Federal na prestação de serviços aos
executivo, dentre outros, existia apenas a cidadãos brasileiros. Todavia para buscar
necessidade de atender aos anseios da tribo responder a problemática do estudo, foi
com transparência e lealdade. necessário o aprofundamento bibliográfico
em alguns assuntos que serão tratados na
Após essa reflexão retoma-se aos tempos
sequência como: gestão pública e sua
atuais, onde a sociedade brasileira clama por
transparência para com a sociedade,
trabalho, estradas, saúde e educação com
governança digital primeira e segunda
qualidade, principalmente com atenção plena
geração e por fim a política de governança
e total pelo ser humano ou simplesmente
digital.
assegurar os direitos estabelecidos na
Constituição Federal de 1988 em que mesmo
com todos os aparatos administrativos
2 REFERENCIAL TEÓRICO
governamentais existentes, órgãos,
secretarias, associações, dentre outras 2.1 GESTÃO PÚBLICA
formas de organização em sociedade, não se
Matias-Pereira (2012), relata que Gestão
consegue atender as necessidades mínimas
Pública pode ser entendida como algo amplo
que as “tribos modernas” necessitam para
e muito complexo, pois abrange todas as
garantir seu direito de ter uma vida digna de
questões internas e externas de um país,
ser humano.
estados e municípios para serem
Pagam-se cada vez mais encargos, impostos, rigorosamente governados não dependendo
tributos e tem-se a sensação de que cada vez somente da eficiência e eficácia, mas também
menos retornam em benefícios para a precisam atender as questões com legalidade
sociedade. Ao se ler até aqui, pode-se pensar e legitimidade para realizar um governo
que os governos são culpados pelo caos excelente. O planejamento na gestão pública
existente, talvez alguns administradores tem o propósito de definir os objetivos futuros,
públicos tivesse sim sua parcela neste nos quais serão alcançados por meios de
cenário, mas remetemo-nos aqui também ao debates entre a administração pública e a
cidadão brasileiro e sua participação como tal sociedade em geral, além de ser uma
nesta sociedade moderna. O que cada importante ferramenta para a gestão pública o
cidadão tem feito para contribuir com o planejamento está sujeito a varias limitações
desenvolvimento social de seu bairro, vila, na pratica (SANTOS, 2006).
município, região ou até o país. Como estão
Entretanto, a gestão pública consiste em
sendo eleitos os representantes políticos para
cinco princípios fundamentais nos quais estão
a administração pública. Que critérios estão
estabelecidos na constituição federal, sendo
sendo adotados para 165d165gê-los. E após
a legalidade, impessoalidade, moralidade,
eleitos como estão sendo fiscalizados. A
publicidade e a eficiência. No entanto, cabe
comunidade tem participado de seções nas
ao gestor público obedecer aos princípios
câmaras de vereadores em suas cidades.
adequando-os para a sua gestão, e buscando
Com o advento da internet na década de sempre a melhor forma de divulgar as
1960 e sua evolução ao longo dos anos, informações públicas para a sociedade
muitas facilidades, bem como ferramentas (LOZANO, 2010).
tecnológicas foram criadas e aprimoradas,

Tópicos em Administração - Volume 2


155

Na administração pública, segundo Matias- A transparência na gestão pública estimulou a


Pereira (2012), o gestor público tem um sociedade a participar dos debates sobre os
importante papel para a sociedade, cujo assuntos públicos, cujas informações são
objetivo é estruturar e implantar políticas divulgadas no portal da transparência
públicas em beneficio da sociedade, com (JACOBI, 2003), criado em 2004 pelo governo
base nisso, gestão pública pode ser definido federal, cujo objetivo é a divulgação das
como um conjunto de atividades diretamente informações em relação aos recursos
destinadas à execução das tarefas públicos destinados ao país, estados e
consideradas de interesses público previstas municípios para que os cidadãos possam
nas leis. acompanhar e fiscalizar para onde que é
investido o dinheiro público
Portanto cabe a sociedade a fiscalização dos
(CONTROLADORIA-GERAL DA UNIÃO,
investimentos públicos destinados ao país,
2017).
estados e municípios através do portal da
transparência que permite o acesso a todas
as informações da área pública.
2.3 GOVERNANÇA DIGITAL
A governança digital pode ser entendida
2.2 TRANSPARÊNCIA NA GESTÃO PÚBLICA como uma ferramenta de capacitação política
para a sociedade gerando maior eficiência
A transparência na gestão pública tem como
para o governo, pois o seu objetivo central é o
objetivo o relato de todas as informações das
de estreitar os diversos campos de
esferas públicas para os cidadãos, com o
conhecimento utilizado as tecnologias da
intuito de proporcionar confiança entre o
informação e comunicação – TICs, nos quais
estado e a sociedade brasileira, contribuindo
são abrangidos por plataformas,
para a redução da corrupção nas entidades
metodologias, processos e tecnologias
públicas, tornando um país democrático
digitais para a reflexão sobre e a realização
(SACRAMENTO; PINHO, 2007; SOUZA,
de atividades relacionadas a Governo, em
2009). Com a Lei de Responsabilidade Fiscal
todas suas esferas, chamando de Governo
a transparência das informações relacionadas
Eletrônico. (SOUZA, 2012; HECKERT;
à gestão pública ficou ainda mais exigente,
AGUIAR, 2016).
pois com a adoção de instrumentos como o
sistema integrado de administração financeira De acordo com Vaz (2015), a governança
e controle as informações detalhadas sobre a digital possui duas gerações características
gestão publica para a sociedade passaram a bem distintas sendo a que primeira
ser em tempo real. característica apresenta as ações
governamentais com interação e decisões de
A Lei da Responsabilidade Fiscal consiste
oferta de informação mantidas sob o controle
nos princípios de planejamento, transparência
do Estado, instrumentos digitais vistos como
e a participação social, pois estabelece
complementos e meios de divulgação para as
instrumentos como o Plano Plurianual (PPA),
práticas de transparência e o acesso ao
Lei das Diretrizes Orçamentárias (LDO), Lei
direito à informação intermediada pelos
Orçamentária Anual (LOA). O Plano Plurianual
governos. A segunda característica apresenta
é um documento que apresenta as diretrizes,
definição de novos padrões de
objetivos e metas para ser realizado no
desenvolvimento de soluções de acesso à
período de quatro anos, e demonstra a visão
informação e transparência, novas formas de
estratégica do gestor público para com a
governança e práticas de acesso à
sociedade. A Lei das Diretrizes
informação, com ampliação da abertura à
Orçamentárias é um documento elaborado
participação dos diversos segmentos da
anualmente com objetivo de apontar as
sociedade, quebra do monopólio do estado
prioridades para o ano seguinte e a Lei
em relação às decisões sobre participação e
Orçamentária Anual prevê os orçamentos
transparência, ações da sociedade que
fiscais, seguridade fiscal e os investimentos
produzem informação pública de forma
vindos dos estados, dividida por área com
independente, ativismo digital,
maior importância para o país como a saúde,
desenvolvimento colaborativo de aplicações,
educação, segurança e transporte para a
estímulo a iniciativas da sociedade e novos
sociedade (PLATT NETO et al, 2007; BLUME,
padrões de relacionamento para aproveitar
2016).
iniciativas sociais.

Tópicos em Administração - Volume 2


156

Como consequência o governo federal 3 METODOLOGIA DE PESQUISA


instituiu o Decreto de 8.638 de janeiro de
Para a realização desta pesquisa foi utilizada
2016 que instituiu a Política de Governança
a classificação metodológica de Pinheiro
Digital no âmbito dos órgãos e das entidades
(2010) cuja abordagem e métodos são
da administração pública federal direta,
definidos como pesquisa qualitativa tendo em
autárquica e fundacional com o objetivo de
vista não requer uso de métodos e técnicas
gerar benefícios a sociedade com os recursos
estatísticas, caracterizando-se como pesquisa
da tecnologia da informação e comunicação
descritiva, documental e estudo de caso.
na prestação dos serviços públicos; estimular
a participação da sociedade na formulação, A configuração descritiva ocorre pela busca
implementação, monitoramento e avaliação do conhecimento e interpretação da
das políticas públicas e assegurar a obtenção realidade, na descoberta de fenômenos,
de informações pela sociedade. classificação e interpretação sem a
interferência nos mesmos. A documental
utiliza materiais que não receberam ainda um
2.4 POLÍTICA DE GOVERNANÇA DIGITAL tratamento analítico, ou que ainda podem ser
(DECRETO 8.638/2016) reelaborados de acordo com os objetivos da
pesquisa. O estudo de caso, considerado
A política de governança digital apresenta os
como o aprofundamento do conhecimento a
princípios básicos que deverão ser
cerca de um problema não suficientemente
observados pela entidade pública, de forma
definido, visando estimular a compreensão,
prioritária, conforme descrito no art. 3º do
seguir hipóteses e questões ou desenvolver
Decreto 8638/2016):
teorias (PINHEIRO, 2010).
Art. 3º A Política de Governança Digital
A coleta de dados surge através de um
observará os seguintes princípios:
ambiente natural que é fonte direta, e o
I – foco nas necessidades da sociedade;
instrumento chave é o pesquisador. É
II – abertura e transparência;
aplicada de forma descritiva, ocasião em os
III – compartilhamento da capacidade de
pesquisadores analisam os dados
serviço;
indutivamente, o processo e significado são
IV – simplicidade;
os focos principais, tendo sido tratados de
V – priorização de serviços públicos
forma qualitativa com base nos documentos
disponibilizados em meio digital;
disponibilizados para a realização da
VI – segurança e privacidade;
pesquisa.
VII – participação e controle social;
VIII – governo como plataforma; e
IX – inovação.
4 RESULTADOS DA PESQUISA
Por sua vez, a nova política de governança Nesta seção serão apresentados os
digital deve contar com a edição de redes de resultados obtidos a partir dos documentos
conhecimento sobre assuntos relativos à eletrônicos disponibilizados através dos
governança digital com a finalidade da órgãos integrantes do Ministério de
geração de conhecimentos dos assuntos Planejamento, a fim de identificar ações de
públicos, compartilhamentos de ideias e governança digital utilizadas pela
sugestões a respeito da gestão pública, Administração Pública Federal.
sendo a participação social muito útil para a
ampliação de novos conhecimentos sobre a
governança digital na gestão pública (SORDI, 4.1 SECRETARIA DE TECNOLOGIA DA
2016). De acordo com o Decreto 8.638/2016 INFORMAÇÃO – STI
as entidades públicas deverão estabelecer
A governança digital na Administração
canais digitais de participação no qual serão
Pública Federal tem como um de seus
disponibilizadas todas as informações sobre a
principais órgãos a Secretaria de Tecnologia
gestão pública para que a sociedade faça
da Informação – STI, vinculada ao Ministério
parte de modo direto ou indireto no processo
do Planejamento, Desenvolvimento e Gestão
de tomada de decisão sobre as políticas
é o órgão central responsável pelo
públicas.
gerenciamento dos recursos de tecnologia da
informação nesta esfera. A STI ainda é uma
instituição recente, foi criada em dezembro de
2015, através de uma reestruturação dos

Tópicos em Administração - Volume 2


157

órgãos internos do Ministério do Planejamento Recursos de Tecnologia da Informação –


ocorrido com a instituição do decreto n.º SISP, a STI pretende atingir um Estado 100 %
8.578/2015. A STI tem a atribuição de propor digital, com melhores serviços, mais
políticas, planejar e coordenar, além de informação e novas formas de participação
estabelecer normatizações das atividades de social. A estrutura organizacional da STI
governança digital em 222 órgãos públicos pode ser ilustrada no organograma da figura
da Administração Federal. Em conjunto com 1.
os órgãos do Sistema de Administração dos

Figura 1 – Organograma da Secretaria da Informação – STI

Fonte: Ministério do Planejamento (2016).

A STI está, portanto estruturada em três 4.2 POLÍTICA DE GOVERNANÇA DIGITAL


departamentos, o Departamento de Governo ESTRATÉGICA
Digital – DEGDI, o Departamento de
A política de governança digital estratégica
Governança e Sistemas de Informação –
da Administração Pública Federal está
DEGSI e o Departamento de Infraestrutura de
fundamentada no decreto n.º 8.638/2016, ao
Serviços de Tecnologia da Informação –
qual estabelece diversas regras de
DEIST. Cada um destes departamentos
governança digital a serem seguidas pelos
funcionais possui atribuições específicas
órgãos públicos vinculados. Os principais
definidas regulamentadas por decreto para o
objetivos desta norma estão voltados à
desenvolvimento da gestão dos recursos de
sociedade com o uso da tecnologia da
tecnologia da informação. Com esta nova
informação, estímulo à participação da gestão
estrutura organizacional, o governo tem o
e melhorias no acesso à informação. Uma
intuito de desburocratizar serviços públicos,
obrigatoriedade é que os órgãos deverão
reduzir gastos, melhorar a gestão das ações
manter um Comitê de Governança Digital
do governo, assim como possibilitar um maior
para deliberar sobre os assuntos relativos à
foco na especialização dos profissionais
Governança Digital.
envolvidos.
Uma ferramenta de gestão da governança
O alinhamento entre as diretrizes estratégicas
digital criada pelo referido decreto é a
de governança digital e as necessidades dos
Estratégia de Governança Digital – EGD, que
órgãos públicos ocorre por meio da
substitui a Estratégia Geral de Tecnologia da
descentralização de profissionais analistas de
Informação e Comunicações (EGTIC),
tecnologia da informação nos órgãos
instrumento anteriormente utilizado para
setoriais, tendo como base três aspectos
alinhar as iniciativas de TIC às estratégias do
definidos: projetos estratégicos estabelecidos
governo federal. O EGD é elaborado através
pelos órgãos, iniciativas da Estratégia de
da participação da alta administração dos
Governança Digital – EGD, e fortalecimento
ministérios, autarquias, fundações e
dos sistemas estruturais do governo federal.
empresas públicas, servidores públicos dos
três poderes da união e representantes da
sociedade civil.

Tópicos em Administração - Volume 2


158

O EGD é um documento que define os Administração Pública Federal, como por


objetivos estratégicos, as metas, os exemplo, os desafios e oportunidades
indicadores e as iniciativas da Política de encontrados, metas, indicadores, iniciativas
Governança Digital e norteia os programas, estratégicas e integração com outras
projetos, serviços, sistemas e atividades a ela estratégias e planos governamentais. Os
relacionados, ao qual está vinculado ao Plano objetivos estratégicos do EGD estão
Plurianual – PPA. É possível identificar no categorizados em três eixos conforme
documento diversos fatores relevantes de descritos na tabela 1:
gestão da governança digital pela

Tabela 1 – Objetivos estratégicos


Eixo Objetivos Estratégicos
 Fomentar a disponibilização e o uso de dados abertos.
 Ampliar o uso de TIC para promover a transparência e dar publicidade
Acesso à
à aplicação dos recursos públicos.
informação
 Garantir a segurança da informação e comunicação do Estado e o
sigilo das informações do cidadão.
 Expandir e inovar a prestação de serviços digitais.
 Melhorar a governança e a gestão por meio do uso da tecnologia.
Prestação
 Facilitar e universalizar o uso e o acesso aos serviços digitais.
de Serviços
 Compartilhar e integrar dados, processos, sistemas, serviços e
infraestrutura.
 Fomentar a colocação no ciclo de políticas públicas.
Participação  Ampliar e incentivar a participação social na criação e melhoria dos
Social serviços públicos.
 Aprimorar a interação direta entre governo e sociedade.
Fonte: Ministério do Planejamento (2016).

A STI também possui como ferramenta de transporte, comunicações administrativas e


gestão o Planejamento Estratégico para documentação.
projetar o futuro da tecnologia da informação
O referido decreto instituiu o Sistema
na Administração Pública Federal. O
Integrado de Administração de Serviços
documento aborda diversos mecanismos
Gerais (SIASG), para auxiliar do SISG,
estratégicos de planejamento, inclui o
destinado a sua informatização e
conceito de negócio, missão, visão e valores,
operacionalização, com a finalidade de
e o uso de técnicas como Análise SWOT,
integrar órgãos. O SIASG é um sistema
Balanced Scorecard e Gestão de Projetos. A
informatizado, disponível em terminais ou
maior parte dos objetivos está voltada ao
microcomputadores das unidades
fortalecimento de parceiros estratégicos e
administrativas integrantes do SISG, ao qual
alcance de resultados à população.
possibilita em tempo real, consulta, registro
de documentos, operações, controle e
compatibilização das atividades das
4.3 GOVERNANÇA DIGITAL NAS
atividades e procedimentos. O sistema
COMUNICAÇÕES ADMINISTRATIVAS
abrange a publicação e a realização dos
A governança digital nas comunicações certames licitatórios, operação de pregões
administrativas é essencial para o bom eletrônicos, emissão de notas de empenho,
funcionamento operacional dos órgãos da registros dos contratos administrativos,
Administração Pública Federal. O Sistema de catalogação de materiais e serviços e o
Serviços Gerais – SISG, instituído pelo cadastro de fornecedores.
Decreto 1.094/1994, tem por objetivo
Uma importante ferramenta de comunicação
organizar sob a forma de sistema, as
administrativa que está sendo promovida pelo
atividades de administração de edifícios
Ministério do Planejamento é o Processo
públicos e imóveis residenciais, material,
Eletrônico Nacional – PEN. Esta ferramenta

Tópicos em Administração - Volume 2


159

busca a melhoria no desempenho de Como instrumento de regulamentação, o


processos administrativos na Administração decreto n.º 8.936/2016 prevê a Carta de
Pública Federal, através da agilidade, Serviços ao Cidadão, um documento que
produtividade, satisfação dos usuários, deve ser mantido pelos órgãos públicos a fim
redução de custos com a eliminação de informar os cidadãos quanto ao trabalho
completa de papel na tramitação de por eles desenvolvidos.
documentos ou processos, inclusive de um
Com a finalidade de melhorar a qualidade dos
órgão para outro.
serviços por meio do alinhamento entre os
serviços prestados e as necessidades do
cidadão, bem como a simplificação do
4.4 PADRÃO DE INTEROPERABILIDADE
acesso e informações prestadas nos portais
ENTRE ÓRGÃOS PÚBLICOS
públicos, o governo federal nos últimos anos
A capacidade de vários sistemas e está implantando indicadores e métricas para
instituições desenvolverem trabalhos a avaliação dos serviços públicos federais,
conjuntos, a fim de possibilitar que pessoas, coordenado pelo Departamento de Governo
sistemas computacionais e organizações Eletrônico (DGE). Os indicadores estão
troquem informações de maneira eficiente e centrados na avaliação de maior ou menor
eficaz é conhecida como interoperabilidade. conveniência para a população quanto aos
Sem esta ferramenta, os direitos e deveres serviços prestados na forma eletrônica,
quanto à participação da sociedade seriam considerando o seu nível de maturidade,
limitados, uma vez que favorece uma maior facilidade de uso, comunicabilidade,
integração entre a gestão e os cidadãos. A multiplicidade de acesso, disponibilidade,
interoperabilidade permite, por exemplo, os acessibilidade, transparência e
serviços prestados pelo portal da confiabilidade.
transparência e também a declaração do
imposto de renda.
4.6 LEI DE ACESSO À INFORMAÇÃO
Como forma de gestão dos padrões de
interoperabilidade (ePing), o governo federal A lei n.º 12.527/2011, que regulamenta o
por meio da Secretaria de Logística e acesso à informação determina que as
Tecnologia da Informação – SLTI, expediu a entidades públicas sejam obrigadas a
Portaria n.º 92/2014, que define um conjunto divulgarem em sítios oficiais na internet
mínimo de premissas, políticas e informações de interesse público. Com este
especificações técnicas que regulamentam a propósito social, o governo federal
utilização da Tecnologia de Informação e disponibiliza à sociedade diversos canais de
Comunicação (TIC) na interoperabilidade de comunicação digital, como por exemplo o
serviços de Governo Eletrônico. Os órgãos e portal da transparência, portal brasileiro de
entidades integrantes do Sistema de dados abertos, ouvidorias, redes sociais,
Administração dos Recursos de Tecnologia entre outros.
da Informação (SISP) devem observar a ePing
A Controladoria-Geral da União – CGU
no planejamento da contratação, aquisição e
mantém o Sistema Eletrônico do Serviço de
atualização de sistemas e equipamentos de
Informação ao Cidadão (e-SIC), que funciona
TIC, sendo facultativo para os demais órgãos.
como uma porta de entrada única para
pedidos de informação. Este sistema tem o
objetivo de facilitar o procedimento de acesso
4.5 PLATAFORMAS DE SERVIÇOS PÚBLICOS
à informação para os cidadãos e a
São atualmente inúmeros os websites Administração Pública, inclusive todos os
disponibilizados à população para a pedidos feitos fisicamente por meio dos SICs
prestação de serviços, no entanto há instalados fisicamente nos órgãos e
dificuldades na obtenção de informações dos instituições do governo federal que devem ser
serviços prestados pelo governo. Para registrados no sistema. Uma ferramenta
promover maior transparência, integração, interessante no sistema é a possibilidade de
participação e qualidade dos serviços, o fazer o acompanhamento de pedidos,
governo pretende centralizar em um único consultar respostas, interpor recursos e
portal eletrônico todas as diversas áreas de apresentar reclamações. Os órgãos públicos
atuação a fim de fornecer as informações, também tem a possibilidade de acompanhar
documentos e serviços eletrônicos aos a implementação da lei e gerar relatórios
cidadãos, empresas e gestores públicos. estatísticos do seu cumprimento.

Tópicos em Administração - Volume 2


160

auxiliar na gestão da segurança da


informação e comunicação, os órgãos da
4.7 ACESSIBILIDADE E INCLUSÃO DIGITAL
Administração Pública Federal seguem
A acessibilidade digital diz respeito a sítios orientações do Departamento de Segurança
eletrônicos desenvolvidos para que todas as da Informação e Comunicação e do Gabinete
pessoas possam navegar efetivamente pelas de Segurança Institucional da Presidência da
páginas. O governo federal disponibiliza uma República, além de normas estabelecidas no
ferramenta chamada Modelo de decreto n.º 3.505/2003 e a instrução
Acessibilidade em Governo Eletrônico – normativa n.01/DSCI/GSIPR.
eMAG, que auxilia profissionais
A partir de uma resolução governamental foi
desenvolvedores a projetarem sites mais
instituído um grupo formado por membros de
acessíveis conforme padrões internacionais,
órgãos e entidades do Sistema de
no entanto contemplando as necessidades
Administração dos Recursos de Tecnologia
brasileiras. Além deste, existem diversas
da Informação - SISP, que prestam auxílio
alternativas como o tradutor de libras, jogos
técnico e consultivo, denominado Núcleo de
de acessibilidade, cursos de treinamentos a
Segurança da Informação e Comunicações –
desenvolvedores, inclusive prêmios a
NSIC, com objetivos de realização de
projetistas como forma de promover e
estudos, elaboração e implantação normas e
homenagear ações em favor da
boas práticas sobre segurança da informação
acessibilidade que ocorre através de
e comunicação. Alguns dos principais
parcerias entre entidades e governo, pois
projetos de segurança na Administração
diversas são as barreiras enfrentadas por
Pública Federal são: a) Arquitetura de Gestão
portadores de deficiência ao acessarem
de Acesso e Identidade Digital; b)
websites. A legislação brasileira torna
Certificação Digital; c) Gestão de Riscos de
obrigatório o acesso à informação por sites
SIC do SISP; d) Plataforma de Autenticação
mantidos pelo governo, assim como por
Digital do Cidadão; e) Programa Nacional de
empresas.
Certificação e Homologação de Ativos de TIC.
As ações de inclusão digital do governo
4.9 SOFTWARE LIVRE NA ADMINISTRAÇÃO
visam à disseminação das tecnologias da
PÚBLICA
informação e comunicação aliado ao
desenvolvimento social, econômico, cultural, O software livre é disponibilizado
político e tecnológico principalmente de gratuitamente, podendo ter acesso ao código
classes sociais menos favorecidas. A fonte, o que possibilita modificações e
democratização do acesso à tecnologia da aperfeiçoamentos sem custos, permitindo à
informação na Administração Pública Federal Administração Pública dominar a tecnologia
está fundamentada em diversos decretos e aplicada. Várias são as razões que
portarias instituídas que estimulam a criação fundamentam o uso de programas gratuitos
de vários programas de inclusão social, como por instituições públicas, as principais delas
as parcerias entre o governo e operadoras são:
para disponibilizar banda larga em escolas
 Necessidade de adoção de padrões
públicas, ou então telecentros onde são
abertos para o Governo Eletrônico;
oferecidos o acesso público gratuito de
 Nível de segurança proporcionado
computadores conectados à internet.
pelo Software Livre;
Basicamente estes estímulos do governo têm
 Eliminação de mudanças
como objetivo o treinamento dos usuários, o
compulsórias periódicas em
acesso à internet e o fornecimento aparelhos
decorrência de suporte a versões;
apropriados para o acesso.
 Independência tecnológica;
 Desenvolvimento de conhecimento
4.8 GESTÃO DA SEGURANÇA DA local;
INFORMAÇÃO E COMUNICAÇÃO  Possibilidade de auditabilidade dos
sistemas;
O governo entende que a segurança da  Independência de fornecedor único;
informação de comunicação deve ser incluída  Economia ao erário.
nas diretrizes e metas contempladas no
planejamento estratégico de todos os órgãos A partir destes benefícios a Administração
a fim de motivar e promover uma cultura de Pública Federal adotou como estratégia a
segurança da informação. Com o intuito de promoção da utilização de softwares gratuitos
pelas entidades públicas, e embora não

Tópicos em Administração - Volume 2


161

exista uma lei que obrigue a utilização deste da Informação que em conjunto com órgãos
tipo de software, o Estado se ampara do Sistema de Administração dos Recursos
principalmente nos princípios constitucionais de Tecnologia da Informação – SISP pretende
da impessoalidade, eficiência e razoabilidade atingir a plenitude de um Estado Digital
para conscientizar os gestores das entidades proporcionando melhores serviços, mais
públicas. No ano de 2003 foi instituído o informações e inúmeras novas formas de
Comitê Técnico de Implementação de participação da sociedade na gestão pública.
Software Livre do Governo Federal com a
Outra norma que trata de ações de
finalidade de informar e sensibilizar a
Governança Digital identificada é o decreto
sociedade a respeito de software livre, criar
8.638/2016 que tem por objetivos principais
normas e recomendações aos órgãos
atender aos anseios da sociedade com o uso
públicos como auxílio na migração gradativa
da tecnologia da informação, estimulando sua
de softwares proprietários para os softwares
participação na gestão pública e ainda
livres.
propõe melhorias no acesso à informação
através do estabelecimento da
obrigatoriedade de os órgãos públicos manter
4.10 SOFTWARE PÚBLICO BRASILEIRO
um Comitê de Governança Digital para tratar
Uma forma de gestão na Administração constantemente de assuntos relativos à
Pública Federal para gerar maior economia Governança Digital. Esse mesmo decreto
com desenvolvimento, aquisição e criou o EGD – Estratégia de Governança
manutenção dos softwares, além de maior Digital que atua em três eixos estratégicos em
independência de fornecedores, com maior favor da Governança Digital e em prol da
segurança e compartilhamento do sociedade que são: acesso a informação,
conhecimento foi o desenvolvimento do portal prestação de serviços e participação social. A
Software Público Brasileiro – SBP. esse decreto pode-se juntar a Lei
Coordenado pela Secretaria de Tecnologia da 12.527/2011 que também estabelece
Informação – STI, o portal é um instrumento obrigatoriedade de divulgação de
disponível que possibilita o compartilhamento informações de interesse público por parte do
gratuito de softwares para a sociedade, governo para a sociedade, como exemplo: o
gestores, servidores públicos e todas as portal da transparência.
esferas de governo. O SBP é regulamentado
Identificou-se que a Administração Pública
pela Portaria n.º 46 de 28 de setembro de
Federal pretende centralizar os vários
2016, que estabelece as diretrizes para o
websites hoje disponibilizados a população
desenvolvimento, disponibilização e uso dos
para prestação de serviços em um único
softwares.
portal eletrônico a fim de facilitar o acesso a
O portal foi lançado em 2007 e reformulado informações, documentos, serviços
no ano de 2013, e possui atualmente o eletrônicos em atenção às necessidades de
oferecimento de 70 (setenta) softwares todos os cidadãos, inclusive com atenção
divididos em 22 (vinte e duas) categorias, tais especial para as pessoas portadoras de
como Administração, Educação, Indústria, deficiências (ferramenta chamada de Modelo
Comunicação, entre outros. Alguns exemplos de Acessibilidade em Governo Eletrônico –
de programas gratuitos que podem ser eMAG), empresas e gestores públicos. Junto
acessados são o gerenciamento de gestão a essa pretensão, a Administração Pública
estratégica e planejamento para empresas, Federal também tem-se dedicado nos últimos
geoprocessamento, gestão escolar e vários anos a implantação de indicadores e métricas
outros que podem auxiliar nas atividades para avaliação dos serviços públicos federais
diárias dos órgãos públicos de todo o país. por parte dos cidadãos brasileiros.
O incentivo a utilização de software livre, bem
como ao Software Público Brasileiro – SBP
5. CONSIDERAÇÕES FINAIS
sãos outras ações de Governança Digital da
Realizada a investigação sobre os documento Administração Pública Federal identificadas
eletrônicos disponibilizados pelos órgãos que em nossa pesquisa que se amparam nos
compõem o Ministério do Planejamento, princípios constitucionais da impessoalidade,
conclui-se que existem inúmeras ações de eficiência e razoabilidade, com a intenção de
Governança Digital que estão sendo sensibilizar os gestores públicos e a
adotadas pela Administração Pública Federal, sociedade a respeito do software livre e
a exemplo da STI – Secretaria de Tecnologia motivá-los a migrarem gradativamente de

Tópicos em Administração - Volume 2


162

softwares privados para os livres. O SBP Por fim, conclui-se que a Administração
oferece aproximadamente setenta softwares Pública Federal tem adotado várias ações de
disponíveis gratuitamente para a sociedade, Governança Digital, no entanto, reforça-se a
gestores, servidores públicos para serem necessidade de melhor divulgação destas
utilizados por exemplo em gerenciamento de para a sociedade, pois subentende-se que
gestão estratégica e planejamento para são realizados vultosos investimentos,
empresas, geoprocessamento, gestão inclusive financeiros (estes oriundos dos
escolar, dentre vários outros que pretendem impostos por essa mesma sociedade
facilitar as atividades diárias em órgãos honrados) em tecnologias voltadas ao
públicos e empresas privadas. atendimento de suas necessidades mas muito
sutilmente expostas.

REFERÊNCIAS O%20%20%20P%C3%9ABLICA_2.pdf. Acesso


em: 5 de março de 2017
[1] BLUME, Bruno André. PPA, LDO E [9] MATIAS-PEREIRA, Jose. Manual de
LOA: As três siglas que definem o Gestão Pública Contemporânea. 4ªed. Revista e
Orçamento do Governo atualizada. Inclui análise dos efeitos das mudanças
http://www.politize.com.br/ppa-ldo-loa-3-siglas- de paradigmas na administraçao ̃ pública brasileira.
que-definem-orcamento-governo/ Publicado em 09 Editora ATLAS, São Paulo.
de março de 2016. [10] PINHEIRO, José Maurício dos
[2] BRASIL. Ministério da Transparência, Santos.2010. Da iniciação científica ao TCC uma
Fiscalização e Controladoria-Geral Da União. Portal abordagem para os cursos da Tecnologia. Rio de
da transparência do governo federal. Disponível Janeiro: Ed. Ciência Moderna Ltda. ISBN: 978-85-
em: http://www.cgu.gov.br/assuntos/transparencia- 7393-890-6
publica/portal-da-transparencia. Acesso em 08 de [11] PLATT NETO, Orion Augusto et. al.
março de 2017. Publicidade e Transparência das Contas Públicas:
[3] BRASIL. Ministério do Planejamento, Obrigatoriedade e Abrangência desses Princípios
Orçamento e Gestão. Estratégia de Governança na Administração Pública Brasileira. Contabilidade
Digital da Administração Pública Federal. Brasília/ Vista & Revista. Belo Horizonte, v. 18, n. 01, p. 75-
DF. M.P. 2016. Disponível em: 94, jan./mar. 2007.
https://www.governoeletronico.gov.br/documentos- [12] SACRAMENTO, Ana Rita Silva; PINHO,
e-arquivos/Estrategia-de-Governanca-Digital.pdf Jose Antonio Gomes. Transparência na
[4] Decreto n° 8.638, de 15 de janeiro de Administração Pública: o que mudou depois da Lei
2016. Institui a Política de Governança Digital no de Responsabilidade Fiscal? Um estudo
âmbito dos órgãos e das entidades da exploratório em seis municípios da Região
administração pública federal direta, autárquica e Metropolitana de Salvador. Revista de
fundacional. Diário Oficial [da] República contabilidade da UFBA. V.1,n°1, pg. 48-61, set/dez
Federativa do Brasil - Seção 1 - 18/1/2016, Página 2007.
2 (Publicação Original) Brasília, DF. Disponível em: [13] SANTOS, Clezio Saldanha dos. Introdução
http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2015- à Gestão Pública. 1ª Ed. São Paulo, Saraiva, 2006.
2018/2016/decreto/D8638.htm [14] SORDI, Neide de. Nova política de
[5] HECKERT, Cristiano Rocha Lopes; governança digital deve reverter à exclusão digital.
AGUIAR, Everson de. Governança digital na Disponível em: http://cgp.cfa.org.br/nova-politica-
administração pública federal: uma abordagem de-governanca-digital-deve-reverter-a-exclusao-
estratégica para tornar o governo digital mais digital/. Publicado em: 26 de janeiro de 2016.
efetivo e colaborativo - a ótica da sociedade Centro Acesso em: 08 de Março de 2017.
de Convenções Ullysses Guimarães –Brasilia/Df. [15] SOUZA. Auriza Carvalho et al A relevância
Disponível em http://consad.org.br/wp- da transparência na gestão pública municipal.
content/uploads/2016/06/Painel-32-01.pdf/ Revista Campus. Paripiranga, v.2, n° 5, pg. 6-20,
download. Acesso: 28/02/2017. IX Congresso dez 2009
CONSAD de Gestão Pública [16] SOUZA. F. J. V.; MELO, M. M. D.; SILVA,
[6] JACOBI, Pedro. Educação ambiental, M. C.; ARAUJO, A. O. Uma avaliação das práticas
cidadania e sustentabilidade. Caderno de de governança eletrônica das capitais brasileiras.
Pesquisa [online], n.118, p. 189-20