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Sustentabilidade e
responsabilidade social
artigos brasileiros

07
VOLUME

organizador
José Henrique Porto SIlveira
Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)
S587s
Sustentabilidade e Responsabilidade Social
volume 7/ Organizador José Henrique
Porto Silveira - Belo Horizonte (MG):
Poisson, 2017
305 p.

Formato: PDF
ISBN: 978-85-93729-19-5
DOI: 10.5935/978-85-93729-19-5.2017B001

Modo de acesso: World Wide Web


Inclui bibliografia

1. Gestão. 2. Metodologia. I. Silveira, José


Henrique Porto . II. Título

CDD-658.8

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Apresentação

A concepção de sustentabilidade está associada à qualidade do que é sustentável, que


por sua vez está associado com a possibilidade de uma determinada atividade humana
prosseguir por um tempo indeterminado, portanto sustentabilidade e sustentável estão
vinculadas à possibilidade de continuidade das atividades humanas ao longo de um
tempo que transcende gerações e gerações. Na gênese desta concepção está também a
impossibilidade de estabelecer garantias de que a sustentabilidade vai se manifestar
na prática, isto porque a longo prazo ou na medida do tempo indeterminado, muitos
fatores são desconhecidos e imprevisíveis, sobretudo considerando também a
persistência de um modelo econômico muito focado na produção e no consumo,
ainda sem considerar limites.

Na nossa opinião, não se trata de uma concepção pessimista, até pelo contrário enseja
otimismo, especialmente quando podemos apresentar uma extensa coletânea de
estudos acadêmicos, individuais e de grupos, que de uma forma ou de outra ensejam a
sustentabilidade em uma ou mais de suas três principais dimensões: a econômica, a
social e a ambiental. Cada uma destas com muitas possibilidades que, no seu
conjunto, podem contribuir para ampliar a realização da sustentabilidade como
modelo de continuidade do planeta, por meio da compreensão e da aplicação do
desenvolvimento sustentável.

Neste sentido, compartilho com a opinião de alguns autores que afirmam que ao
falarmos de sustentabilidade, mais que atribuir um significado rígido a essa
expressão, buscar as conexões possíveis é muito mais relevante. E é isso que revela
os artigos aqui apresentados que incluem desde pensar modelos de manejo de água na
agricultura e na indústria, aproveitamento de resíduos industriais, uso mais
apropriado de fertilizantes na agricultura, até as mais diversas manifestações de
responsabilidade social.

Isto significa riqueza de possibilidades, significa introjeção da ideia de


sustentabilidade no ensino superior, isto significa começar a pensar de forma
sistêmica, onde tudo tem conexão com tudo, mas é preciso estar atento, seja qual for a
conexão estabelecida com a concepção de sustentabilidade, na medida em o
fundamental é que ela abra possibilidades que conduzam para a ação compromissada
em busca do bem comum, das pessoas, de todos seres vivos, da natureza, do planeta.

Essa oportunidade de leitura é fruto de esforços científicos de diversos autores,


devidamente referenciados ao final dessa publicação. Aos autores e aos leitores,
agradeço imensamente pela cordial parceria.

José Henrique Porto Silveira


Capítulo 1: Tecendo boas práticas: reduzindo o uso de copos descartáveis na
UFRN .............................................................................................................................................
7
(Eliana de Jesus Lopes, Marjorie da Fonseca e Silva Medeiros, Mariana Medeiros de Araújo
Nunes, Sabrina Karla Rodrigues de Oliveira)

Capítulo 2: Proposta de abordagem para desenvolvimento de universidades


sustentáveis: uma pesquisa teórico-conceitual ............................................................................
18
(Nelson Dias da Costa Júnior, Stella Jacyszyn Bachega, José Waldo Martínez Espinosa)

Capítulo 3: Logística verde: práticas realizadas por empresas brasileiras que


apresentaram relatório de sustentabilidade GRI em 2014 ............................................................
29
(Jessica Isadora Santana Marques, Marcia Mazzeo Grande)

Capítulo 4: Aplicação da ferramenta M-Macbeth na análise multicritério do


reaproveitamento do óleo de cozinha ...........................................................................................
40
(Allison Pires dos Santos , Daniele da Silva Dutra , Francisca Rogéria da Silva Lima, Lauandes
Marques de Oliveira , Moisés dos Santos Rocha)

Capítulo 5: Interação universidade-empresa: o modelo Triple Helix como fonte


de sucesso para uma pequena empresa eco-inovadora .............................................................
54
(Mary Fernanda Sousa Melo, Willerson Lucas Campos-Silva, Roberta Castro Souza, Adriane
Angélica Farias Santos Lopes de Queiroz)

Capítulo 6: As vantagens da implantação da energia eólica no interior do país:


complexo eólico chapada do Araripe ...........................................................................................
65
(Fidel Barbosa Cardoso, Bentha Beatryz Carvalho Lima, Clicia Maria do Monte Batista, Caroline
de Andrade Ribeiro)

Capítulo 7: Meio ambiente e sociedade: a conformação da política nacional de


resíduos sólidos e suas implicações.............................................................................................................
71
(Alessandro Augusto Jordão , Patrícia Saltorato, Renata Nobre da Cunha, Carlos Henrique
Calegari)

Capítulo 8: Impactos sociais na empregabilidade do setor sucroalcooleiro em 78


meio à expansão da cana-de-açúcar e da mecanização: um estudo da região
da Alta Paulista ..............................................................................................................................
(Danilo Alexandre Francisco Vieira , Vanessa Prezotto Ximenes Satolo , Mara Elena Bereta de
Godoi Pereira , Maurício Dias Marques , Wagner Luiz Lourenzani)
Capítulo 9: Produção de tijolos ecológicos alinhada ao desenvolvimento
sustentável: adição de resíduos sólidos urbanos ..........................................................................
88
(Alessandro Campos, Fernando Celso de Campos)

Capítulo 10: Logística reversa das embalagens vazias de agrotóxicos:


conscientizar para fomentar um agronegócio sustentável ............................................................
97
(Jaqueline Aparecida Boni Souza, Ivo Pereira de Souza Júnior, Silvia Cristina Vieira, Renan Borro Celestrino)

Capítulo 11: Acessibilidade sob a ótica do turismo: um estudo de caso .....................................


108
(Eliacy Cavalcanti Lélis, Raula Yasmin Alves da Costa)

Capítulo 12: Análise sobre a possível influência dos conteúdos curriculares no


grau de consciência verde na formação dos alunos de um curso de engenharia
de produção ..................................................................................................................................
118
(Pedro Paulo Oliva Costa, Patrícia Soares Pinto Cardona, Raquel Cymrot, Virgínia do Socorro Motta
Aguiar)

Capítulo 13: Gestão Inovadora na Educação Pública: Sustentabilidade e melhores


práticas pelo uso de e-books e portadores eletrônicos de mídia .................................................
129
(Célio Alves Tibes Júnior)

Capítulo 14: A percepção ambiental do consumidor considerando a ACV e um


produto da indústria de Erva-Mate ................................................................................................
139
(Ronaldo José Seramim, Loreni Teresinha Brandalise)

Capítulo 15: A agricultura permanente como meio de harmonia entre o ciclo da


natureza e o ser humano ...............................................................................................................
161
(Getulio Kazue Akabane, José Roberto Kassai, Antônio César Galhardi, João Almeida Santos)

Capítulo 16: IDEB vs ISEP para a região serrana do estado do rio de janeiro, um 176
estudo a partir da Prova Brasil.......................................................................................................
(Telma de Amorim Freitas Silva, Roberta Montello Amaral)
Capítulo 17: Estudo sobre a introdução de filosofias de gestão ambiental em
escolas...........................................................................................................................................
187
(Bruna Maria Candido Neiva, Marina de Siqueira Marques, Vanessa Gisele Pasqualotto Severino,
Maico Roris Severino)

Capítulo 18: Iniciativas empresariais em clima (IECS) no mundo e no brasil: uma


análise das empresas brasileiras participantes do índice carbono eficiente (ICO2)
- BM&FBOVESPA ...........................................................................................................................
198
(André Luis Rocha de Souza, José Célio Silveira Andrade)

Capítulo 19: Caminhos para o desenvolvimento: o papel do programa cultivando


água boa para desenvolvimento rural sustentável ........................................................................
247
(Daniela Savi, Julie Mathilda Semiguem Pavinato, Emerson Ferreira da Silva)

Capítulo 20: Novos olhares para a produção sustentável na agricultura familiar:


avaliação da alface americana cultivada com diferentes tipos de adubações
orgânicas .......................................................................................................................................
258
(Renan Borro Celestrino, Juliano Antoniol de Almeida, João Pedro Tavares da Silva, Vitor Antônio
dos Santos Luppi, Silvia Cristina Vieira, Jaqueline Aparecida Boni Souza)

Capítulo 21: O consumidor como fator crítico na logística reversa de


eletroeletrônicos ............................................................................................................................
270
(Marcia Cristina Esteves Agostinho, Nayara Ferreira da Silva)

Capítulo 22: Validação de um instrumento para avaliar a utilização de práticas da TIV ........................
270
(Márcio Antônio dos Santos Souza, Daniel Nascimento-e-Silva)

Autores ...................................................................................................................................
286
TECENDO BOAS PRÁTICAS: REDUZINDO O USO DE
COPOS DESCARTÁVEIS NA UFRN

Eliana de Jesus Lopes


Marjorie da Fonseca e Silva Medeiros
Mariana Medeiros de Araújo Nunes
Sabrina Karla Rodrigues de Oliveira

Resumo: Os problemas ecológicos têm caráter universal, atingindo a todos,


independentemente da sua classe social. O processo de educação ambiental em
instituições públicas já não é uma tarefa fácil, nem ao menos lidar com a
transformação de hábitos de indivíduos adultos. Com o jargão “cabe uma caneca
aí?”, usuários do Restaurante Universitário (RU), da Universidade Federal do Rio
Grande Do Norte (UFRN), eram abordados na entrada e incentivados a trocar o
copo descartável por uma caneca retornável. A problemática deste artigo é o
abuso no uso excessivo de copos descartáveis no RU. O trabalho de mobilização,
integrante do Programa de Educação Ambiental da UFRN (PROEA), foi realizado
com o objetivo de reduzir, inicialmente, e num futuro próximo, eliminar, o uso de
copos descartáveis na universidade. Como resultados, tivemos a distribuição de
copos permanentes a alunos residentes e a interrupção da distribuição de copos
descartáveis no RU. Este artigo caracteriza-se como exploratório-descritivo e foi
baseado em monitoramentos contínuos, além de questionários abertos e relatórios.
Dessa forma, foi possível trabalhar a sustentabilidade nos seus âmbitos ambiental,
social e econômico.

Palavras-chave: Descartáveis; Consumo Consciente; Gestão Ambiental; Educação


Ambiental.
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1 INTRODUÇÃO Este estudo caracteriza-se como exploratório


e foi baseado em observações e aplicação de
Com o jargão Cabe uma caneca aí?, usuários questionários abertos e relatórios a quente e a
do Restaurante Universitário (RU), da frio. Através destes recursos foram obtidas
Universidade Federal do Rio Grande do Norte informações mais precisas sobre a utilização
(UFRN), eram abordados e incentivados a de copos descartáveis no RU e colhidas
trocar o copo descartável por uma caneca sugestões importantes para o funcionamento
retornável. mais sustentável do restaurante.

A campanha realizada pela Diretoria de Meio O objetivo deste artigo, além de divulgar o
Ambiente da Superintendência de trabalho de educação ambiental
Infraestrutura da UFRN, com o apoio da Sala desenvolvido, é despertar na comunidade
Verde, se utilizou de um tema bastante acadêmica e, em especial em jovens
discutido na atualidade ― a relação entre universitários, uma maior consciência sobre a
padrões de consumo e sustentabilidade com questão do consumo e levá-los a refletir sobre
foco no uso de produtos descartáveis. A importantes temas ambientais
prática do consumo e do descarte a curto contemporâneos, contribuindo para a adoção
prazo causa grandes impactos ao ambiente, de hábitos mais sustentáveis.
comprometendo consequentemente a vida útil
dos aterros sanitários, além de contribuir com
a emissão de gases de efeito estufa e, 2 FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA
também, afetar de diversas maneiras, direta
ou indiretamente, a saúde humana. Toda atividade humana, qualquer que seja,
Tendo em vista essa realidade, o trabalho de incide irrecorrivelmente no ecossistema, quer
mobilização, integrante do Programa de pela extração e utilização de recursos, quer
Educação Ambiental da UFRN (ProEA), foi pelo lançamento de dejetos. Entre as causas
realizado com o objetivo de reduzir, da deterioração ininterrupta do meio ambiente
inicialmente, e num futuro próximo, eliminar, o mundial está o padrão insustentável de
uso de copos descartáveis na universidade. consumo e produção, especialmente nos
Durante esta campanha, foi feito um países industrializados.
levantamento do uso de copos descartáveis Uma dos pontos discutidos na atualidade é
no RU e constatou-se que, diariamente, só no como colocar a questão do excesso de
horário do almoço, quando eram servidas consumo como um motivo relevante no
cerca de 1.800 (mil e oitocentas) refeições, debate sobre a atual crise ambiental mundial.
estavam sendo consumidos quase 40% a Pesquisas apontam que um quarto da
mais de copos que a quantidade de usuários, população mundial que vive nos países
ou seja, muitos estavam utilizando mais de um desenvolvidos demanda três quartos dos
copo por refeição. recursos naturais do planeta, restringindo
Ao longo do trabalho pôde-se observar assim a capacidade dos países em
pessoas utilizando até 6 (seis) copos, ou seja, desenvolvimento para aumentar de forma
enquanto alguns passavam a trazer sua sustentável seus níveis de bem estar
caneca ou garrafa retornável, e deixavam de (JACOBI, 2011).
utilizar o descartável, outros abusavam da sua
quantidade. Diante deste fato, viu-se a
necessidade de realizar um monitoramento 2.1 SISTEMA DE GESTÃO AMBIENTAL
dos copos utilizados, tanto para saber se a
campanha estava surtindo efeito, quanto para Nas últimas décadas, várias questões têm
saber mais informações sobre os impactos exercido uma maior influência nos custos
causados por esse uso indiscriminado. econômicos das nações, dentre elas a
proteção do meio ambiente têm se tornado
Para isso foi ouvida a opinião dos usuários do um importante campo de atuação para
RU quanto à utilização de mais de um copo governos, indústrias, grupos sociais e
por refeição e sobre a substituição dos copos indivíduos (MARCOMINI, 2011). Para o autor,
descartáveis por retornáveis e, também, a produção sustentável e o desenvolvimento
levantadas sugestões para a resolução desse de produto são desafios das indústrias no
problema.

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século 21, à luz da crescente pressão conservação ambiental no dia-a-dia da


ambiental. organização com mudanças de cultura e
postura em todos os níveis funcionais, com
Com o objetivo de regulamentar as atividades
estabelecimentos de programa de educação
das empresas em relação a questões
ambiental que mobilize todos os seus
ambientais, instituiu-se em 2004, normas de
integrantes. Assim, num processo contínuo e
gestão pela qualidade ambiental, a Norma
permanente de aplicação dessas ferramentas
Brasileira Regulamentadora NBR ISO
nasce uma conscientização diferenciada e
14000:2004.
direcionada para hábitos novos nas
Vários estudos demonstram que a legislação, organizações.
além de ser um importante instrumento de
controle e fiscalização das atividades
industriais, contribui para a melhoria da 2.2 GESTÃO DE RESÍDUOS SÓLIDOS
gestão das empresas, inclusive para a
implantação de medidas que resultam em As empresas são as principais responsáveis
proteção ambiental (MARCOMINI, 2011). pelo esgotamento e pelas alterações
ocorridas nos recursos naturais, de onde
Para Dias (2008), Sistema de Gestão
detém os insumos que serão utilizados para
Ambiental (SGA) é o conjunto de
fabricação e criação de bens e de alimentos
responsabilidades organizacionais,
que serão utilizados pelos seus
procedimentos, processos e meios que se
consumidores.
adotam para a implantação de uma política
ambiental em determinada empresa ou Quanto a conceituação, segundo a NBR
unidade produtiva. Desse modo, a 10004:2004, Resíduo Sólido é definido como:
implantação de um Sistema de Gestão
[...] Resíduos nos estados sólido e semi-
Ambiental (SGA) é a resposta dada pelas
sólido, que resultam de atividades de origem
empresas para controlar os impactos
industrial, doméstica, hospitalar, comercial,
causados, ou seja, representa uma mudança
agrícola, de serviços e de varrição. Ficam
organizacional, motivada pela internalização
incluídos nesta definição os lodos
ambiental e externalização de práticas que
provenientes de sistemas de tratamento de
integram o meio ambiente e a produção
água, aqueles gerados em equipamentos e
(MARCOMINI, 2011).
instalações de controle de poluição, bem
Assim, de acordo com Marcomini (2011), como determinados líquidos cujas
pode-se destacar como benefícios particularidades tornem inviável o seu
alcançados por meio da implantação do SGA, lançamento na rede pública de esgotos ou
a melhoria da imagem perante os diversos corpos de água, ou exijam para isso soluções
atores que interagem com o empreendimento técnica e economicamente inviáveis em face
(stakeholders); a redução dos custos à melhor tecnologia disponível.
ambientais e consequentemente menores
Outros autores consideram que os resíduos
riscos de infrações e multas; aumento de
sólidos urbanos compreendem, estritamente,
produtividade; melhoria da competitividade e
os resíduos de origem residencial, comercial,
surgimento de alternativas tecnológicas
de serviços de varrição, de feiras livres, de
inovadoras.
capinação e poda (BIDONE & POVINELLI,
Com a aplicação do SGA na organização faz- 1999; SCHALCH, 1992). Na figura 1 podemos
se necessário a incorporação de conceitos de observar a classificação dos Resíduos Sólidos
desenvolvimento sustentável e da em função de sua origem.

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Figura 1 – Classificação dos Resíduos Sólidos Urbanos segundo sua origem

Fonte: Retirado de Schalch, V., 1992

A Política Nacional de Resíduos Sólidos, brasileiros, estabelece a integração de


sancionada em 2 de agosto de 2010, deve municípios na gestão dos resíduos e
provocar mudanças na forma como a responsabiliza toda a sociedade pela geração
sociedade lida com seus resíduos. Um dos de resíduos. A lei aponta, também, no sentido
pilares do marco regulatório dos resíduos, a da redução, reutilização e reaproveitamento
coleta seletiva, não é plenamente difundida no dos resíduos, acabando com o conceito
país. Na Região Nordeste, por exemplo, primitivo de que a responsabilidade sobre os
66,3% dos municípios não separam resíduos se encerra quando é colocado no
apropriadamente o lixo. A nova lei estabelece saquinho. (MINISTÉRIO DO MEIO AMBIENTE,
prazo de quatro anos para o fim dos lixões e a 2010).
implantação da coleta seletiva nos municípios

Tabela 1: Estimativa da composição gravimétrica dos resíduos sólidos urbanos coletados no Brasil
em 2008

Resíduos Participação (%) Quantidade (t/dia)


Material reciclável 31,9 58.527,40
Metais 2,9 5.293,50
Aço 2,3 4.213,70
Alumínio 0,6 1.079,90

Papel, papelão e tetrapak 13,1 23.997,40

Plástico total 13,5 24.847,90


Plástico filme 8,9 16.399,60
Plástico rígido 4,6 8.448,30
Vidro 2,4 4.388,60
Matéria orgânica 51,4 94.335,10
Outros 16,7 30.618,90
Total 100 183.481,50
Fonte: Adaptado a partir de IBGE (2010b) apud Versão Preliminar do PNRS, 2011.
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Percebemos, assim, na tabela 1, que o tabela 2, observamos que de toda a


plástico corresponde a mais de 13% dos quantidade de resíduos sólidos coletados no
resíduos sólidos urbanos, ficando em primeiro Brasil, o Nordeste é a segunda maior região
lugar dentre os materiais recicláveis. Já na geradora.

Tabela 2: Estimativa da quantidade de resíduos sólidos domiciliares e/ou públicos coletados


Unidade de Quantidade de resíduos coletados Quantidade de resíduos por habitante
análise (t/dia) urbano (kg/hab.dia)
2000 2008 2000 2008
Brasil 149.094,30 183.481,50 1,1 1,1
Norte 10.991,40 14.637,30 1,2 1,3
Nordeste 37.507,40 47.203,80 1,1 1,2
Sudeste 74.094,00 68.179,10 1,1 0,9
Sul 18.006,20 37.342,10 0,9 1,6
Centro-Oeste 8.495,30 16.119,20 0,8 1,3
Fonte: Adaptado a partir de Datasus (2011) e IBGE (2002, 2010a) apud Versão Preliminar do PNRS, 2011.

Desse modo, a partir de diagnósticos, a municípios que dispõem seus


Política Nacional de Resíduos Sólidos elenca resíduos em aterros controlados a
algumas considerações importantes quanto a construírem aterros sanitários ou,
coleta regular e coleta seletiva recomenda-se: então, também partir para a opção
dos consórcios públicos, via
implantação de aterros sanitários,
 Desenvolver programas para para solucionar a questão, via
estimular a coleta regular em áreas implantação de aterros sanitários ou
rurais; formas ambientalmente adequadas
de destinação final.
 Consolidar programas de coleta
seletiva em grandes municípios e
expansão dos mesmos em municípios
Outro ponto importante a ser mencionado é o
de médio porte.
incentivo da PNRS à reciclagem de materiais.
A Universidade Federal do Rio Grande do
Norte, instituição pública de ensino, foco
Já em relação a disposição final dos resíduos
desse estudo, busca colocar em prática essa
e rejeitos, a Política Nacional de Resíduos
exigência, agregando a reciclagem no
Sólidos recomenda:
programa educativo da Diretoria de Meio
Ambiente da instituição. Essa medida poderia
ser modelo para as demais instituições
 Que sejam concentrados esforços na
públicas, podendo ser implantada em todo o
erradicação dos lixões focando os
Estado, de forma a destinar seus materiais da
municípios de pequeno porte, sendo
melhor forma possível.
uma das alternativas o incentivo à
formação de consórcios públicos para Vale salientar a limitação de que há materiais
a destinação final ambientalmente que não são recicláveis no Rio Grande do
adequada dos resíduos gerados. Norte e que a destinação destes por unidades
em outros estados tem o custo muito elevado.
 Paralelamente à erradicação dos
Apesar da UFRN ter implantado o programa
lixões, deve-se também instituir
de coleta seletiva solidária, desde 2007, e
mecanismos que incentivem os
realizado convênios com as cooperativas de
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catadores de materiais recicláveis de Natal, Frente a esse panorama, o projeto Tecendo


no RN ainda não há reciclagem de copos Boas Práticas, objetiva, através de ações de
descartáveis e todos que são coletados educação ambiental na UFRN, sensibilizar as
dentro do campus universitário e nas pessoas em suas atitudes para despertar uma
unidades adjacentes são destinados ao Aterro consciência ambientalmente sustentável.
Sanitário da Região Metropolitana de Natal,
que localiza-se no município de Ceará-Mirim,
distante 30 km da capital. 3 MÉTODO DA PESQUISA

O trabalho teve início com uma campanha de


2.3 EDUCAÇÃO AMBIENTAL E A mobilização e sensibilização entre os usuários
do restaurante universitário da UFRN (figuras
SUSTENTABILIDADE NAS INSTITUIÇÕES
2 e 3). Essa ação visou a sensibilização dos
PÚBLICAS mesmos a respeito do uso indiscriminado de
copos descartáveis.
O tema da sustentabilidade confronta-se com
A equipe de trabalho, multiprofissional e
o paradigma da “sociedade de risco”. Isso
multidisciplinar, envolveu estudantes e
implica na necessidade de se multiplicarem
técnicos de diversas áreas de conhecimento,
as práticas sociais baseadas no
como engenharia civil, arquitetura, biologia,
fortalecimento do direito ao acesso à
pedagogia, engenharia de produção, nutrição
informação e à educação ambiental em uma
e comunicação social.
perspectiva integradora.
Foi necessária, também, a busca de apoio
A constituição brasileira, ao consagrar o meio
teórico em diversos campos de atuação,
ambiente ecologicamente equilibrado como o
como a gestão e educação ambiental,
direito de todos, bem de uso comum e
políticas públicas de meio ambiente e
essencial à qualidade de vida saudável,
gerenciamento de resíduos, entre outros.
atribuiu a responsabilidade de sua
preservação e defesa não apenas ao Poder Com o intuito de averiguar a eficiência da
Público, mas também à coletividade. (Art. campanha, realizaram-se entrevistas por meio
255, Constituição Federal, 1988) de questionários abertos aos usuários do RU,
como também foi feito o acompanhamento
A partir da Conferência Internacional sobre
sistemático e diário da quantidade de copos
Meio Ambiente e Sociedade, Educação e
utilizados no RU uma semana (figura 4), em
Consciência Pública para a Sustentabilidade,
dois momentos diferentes: um antes do início
realizada em Tessalônica (Grécia), passa-se a
da campanha e outro após um mês de
chamar a atenção para a necessidade de se
iniciada a mesma.
articularem ações de educação ambiental
baseadas nos conceitos de ética, Além da contabilização do número de copos
sustentabilidade, identidade cultural, consumidos, estimou-se a média de uso de
diversidade, mobilização e práticas copos descartáveis por pessoa durante as
interdisciplinares (SORRENTINO, 1998). refeições – indicador denominado “taxa de
uso”, e a quantificação do número de usuários
O processo de educação ambiental em
que utilizavam copos retornáveis (figuras 5 e
instituições públicas já não é uma tarefa fácil,
6). Com o dado do número de copos
nem ao menos lidar com a transformação de
descartáveis consumidos extras, estimou-se o
hábitos de indivíduos adultos. Para tanto, a
custo extra que a universidade tem com o
conscientização é a primeira etapa da
desperdício ou consumo inapropriado dos
educação no processo de Gestão Ambiental.
copos descartáveis no RU.

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Figura 2- Alunos abordados na entrada do RU Figura 3 - Cartazes espalhados em pontos


estratégicos dentro do RU

Foto: Amanda Pereira. Foto: Eliana de Jesus

Figura 4- Exposição dos copos utilizados em uma semana

Foto: Eliana de Jesus

Figura 5 - Uso de dois copos por pessoa Figura 6 - Alunos utilizando copo e garrafa na
refeição

Foto: Luara Schamó Foto: Luara Schamó

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Outro dado obtido foi o número de sacos pode-se concluir que, apesar de termos
plásticos utilizados para a destinação dos pessoas deixando de usar descartáveis, há
copos descartáveis consumidos pós-refeição. outras que estão usando cada vez mais.
Essa informação objetivou saber se haveria
Já em relação ao indicador utilizado “taxa
desperdício do dinheiro público quanto a
média de uso”, que se trata da média de
utilização de outra matéria prima, sacos
copos usados por pessoa, observou-se que
plásticos, além dos copos, e, por meio desse
esse indicador possuiu uma pequena queda
dado seria possível realizar intervenções que
nos primeiros dias da semana, comparando a
visassem a minimização de desperdícios ou a
segunda contagem com a primeira, no
eficiência na utilização dos materiais
entanto ainda variou dentre 20% a 40% a mais
comprados pela universidade.
do número de usuários. Comparando uma
semana com a outra, houve queda no uso nos
três primeiros dias da semana que variaram
4 RESULTADOS ALCANÇADOS
de 7% à 8%. No entanto, na quinta e sexta-
feira houve aumento em relação à primeira
Após as intervenções realizadas junto aos
semana que variou de 3% á 12%.
usuários do restaurante universitário da UFRN,
com o intuito de questioná-los a respeito da Leff (2001) fala sobre a impossibilidade de
disponibilização e consumo extra de copos resolver os crescentes e complexos
descartáveis durante as refeições, como problemas ambientais e reverter suas causas
também saber a opinião dos entrevistados a sem que ocorra uma mudança radical nos
cerca da possibilidade do uso de copos sistemas de conhecimento, dos valores e dos
retornáveis, obtiveram-se os resultados a comportamentos gerados pela dinâmica de
seguir. racionalidade existente, fundada no aspecto
econômico do desenvolvimento. Desse modo,
Com a abordagem das entrevistas realizadas
podemos observar nesse estudo que a
com os usuários do RU durante o período do
questão do uso em excesso de copos
almoço, obtiveram-se diversas perspectivas
descartáveis causa, não apenas danos
sobre a problemática, dentre estas abaixo,
ambientais, mas também, danos financeiros à
apresentaremos alguns trechos reproduzidos
universidade e danos educacionais aos
das entrevistas.
usuários do RU e aos estudantes da UFRN em
“Seria mais eficaz se cortasse de vez a geral.
distribuição de copos descartáveis, pois os
Outra ação realizada foi que durante a
alunos são acomodados”.
contagem dos copos foi identificado que são
“Muitos até trazem copo ou garrafa, mas não usados em média 4 (quatro) sacos de lixo
usam por não ter onde lavar (...). Colocar pia todos os dias para armazenar os copos
dentro do salão deixaria tudo numa sujeira só! usados, porém, após a contagem, todos os
Mas se colocassem várias pias na saída do copos couberam num saco só, ou seja,
RU, o pessoal lavava seu copo ou garrafa e ia haveria economia de uso de 3 (três) sacos por
embora (...)”. dia e na semana seriam 15 (quinze) sacos
economizados. Todos os dias foram
“Uso mais de um copo porque a locomoção
encontrados talheres nos sacos de copos que
aqui dentro é muito ruim, (...) Assim, fica difícil
somaram um total de 13 (treze) unidades na
de ir pegar suco mais de uma vez!”
semana. No ano letivo seriam em média 468
Com a realização das entrevistas e a busca (quatrocentos e sessenta e oito) talheres que
da conscientização dos usuários através de teriam ido para o lixo e que deveriam ser
cartazes educativos expostos pelo RU, foi reposto, ou seja, mais um custo para a
identificado na segunda semana de universidade e mais um material que estaria
intervenção que houve um aumento sendo jogado indevidamente no meio
considerável no número de usuários com ambiente.
copo retornável, no entanto, a média de uso
Sabendo que o custo de um pacote com 100
de copos continuava a mesma (1,4 copos por
copos descartáveis é de R$ 1,47 percebemos
pessoa) correspondendo a uma média de
que por semana há um custo a mais que varia
3.000 (três mil) copos além do número de
dentre R$ 34,19 a R$ 46,85, ou seja, no ano
refeições servidas durante a semana, apenas
letivo esse valor pode chegar a R$ 1.686,60 a
no horário do almoço. Diante dos dados,
mais no orçamento do restaurante
Sustentabilidade e Responsabilidade Social - Volume 7
15

universitário. Além disso, poderia haver lixo cada semana, no ano, se continuasse
economia também no uso de sacos para lixo, nesse ritmo, seriam 572 (quinhentos e setenta
pois após a contagem, sobram 3 sacos de e dois) talheres.
lixo por dia. Caso fosse feita uma re-avaliação
No final da contagem observamos a variação
do descarte de descartáveis, seriam
de custo que esse resíduo causa a mais à
economizados cerca de 660 sacos por ano,
universidade. Na tabela 3, percebemos que
dentre outros benefícios.
no começo de nossa pesquisa o custo com
Durante a contagem de copos foram descartáveis era 34% a mais do que deveria e
encontrados cerca de 13 (treze) talheres no que este foi reduzido na segunda semana.

Tabela 3: Taxa média de uso de copos descartáveis por usuário e o custo decorrente do consumo
extra
Variação média Custo extra (R$)
Semana 1 34% 46,85

Semana 2 30% 34,19

Fonte: Elaborado pelos autores

Outro fator que foi levado em consideração que foi contada (figura 7). Assim, a variação
nessa contagem foi que o número de copos de copos contados versus copos que saem
contados não vale como dados reais, pois são do almoxarifado podem chegar a 60%.
distribuídos mais copos do que a quantidade

Figura 7 - Contagem de copos pós-consumo

Foto: Luara Schamó.

Dentre as soluções possíveis, no caso da a como: cortar a distribuição de descartáveis no


universidade manter os descartáveis, deveria RU; ao invés de dar camisetas, a universidade
colocar um coletor adequado para copos deveria dar uma caneca ou garrafinha
descartáveis, pois nesse, os copos seriam personalizada; a partir do momento que o
armazenados de forma adequada, evitando aluno ganha bolsa alimentação, ganhar um
que os usuários joguem lixo ou até mesmo copo; colocar pias para que o usuário possa
talheres no compartimento destinado aos lavar seu permanente; trocar o copo de 150
copos. ml por um maior, dentre outras.
Muitos usuários contribuíram justificando Outra solução ambiental destaca-se a
porque usam mais de um copo e dando sua possibilidade de a UFRN recolher os copos
opinião de como pode ser melhorada essa descartáveis da cidade e picotá-los para
situação do RU com o uso de descartáveis facilitar o transporte e armazenamento.
Sustentabilidade e Responsabilidade Social - Volume 7
16

Fazendo contato com alguma indústria A iniciativa de pesquisa partiu do grupo de


recicladora desse material, ao ter uma extensão universitária Tecendo Boas Práticas
quantidade X que seja viável o transporte, da Diretoria de Meio Ambiente da
seria enviado à reciclagem. universidade.
A campanha de substituição do copo Iniciamos com medidas educativas de
descartável pelo copo retornável resultou em sensibilização socioambiental com os
muitos benefícios ao meio ambiente, à usuários do restaurante universitário e,
universidade e aos usuários do RU. Dentre paralelamente, fizemos a contagem dos
eles podemos citar a entrega de canecas aos copos utilizados no período do almoço.
alunos residentes da universidade em Através disso, conseguimos observar de
novembro de 2012; os alunos começaram a forma quantitativa, o problema: uso excessivo
trazer seus copos, canecas, garrafas, etc. de copos descartáveis.
aderindo ao consumo sustentável e em março
A partir dos dados obtidos, foi possível
de 2013 houve a interrupção da entrega de
modelar a situação e nos posicionar diante
descartáveis no RU.
dela. Assim, este artigo atende aos objetivos
Para Quintas (2006) um trabalho de natureza iniciais que foi ajudar na reflexão sobre temas
educativa e que demanda conscientização, ambientais e instituir a mudança a fim de se
não acontece em um passe de mágica e não obter hábitos ambientalmente corretos na
há receita pronta para sua realização. Sua universidade.
efetivação exige das pessoas e organizações
Contudo, apesar das dificuldades
envolvidas objetivos comuns, compromisso
enfrentadas, foi possível trabalhar a
com a causa ambiental, transparência,
sustentabilidade nos seus âmbitos ambiental,
humildade e postura negociadora.
social e econômico. Desse modo, esse
trabalho serve como subsídio para tomada de
decisão dos dirigentes e responsáveis por
5 CONSIDERAÇÕES FINAIS
esta instituição de ensino, cabendo a eles
analisar os resultados obtidos e planejar as
Com base neste estudo, pudemos
ações futuras, se atentando ao viés da
acompanhar a evolução de problemas
sustentabilidade e como exemplo de
ambientais e econômicos, assim como sócio-
instituição pública de educação formadora de
educativos dentro do campus central da
opinião no Rio Grande do Norte.
Universidade Federal do Rio Grande do Norte.

REFERÊNCIAS [6] DONAIRE, Denis. Gestão Ambiental na


Empresa. 2. Ed. São Paulo: Atlas, 1999.
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Classificação. Rio de Janeiro: ABNT, 2004.
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[2] ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS Acesso em: 02 de maio de 2014.
TÉCNICAS. NBR 14000: Sistemas de Gestão
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Cortez, 2001.
Janeiro: ABNT, 2004.
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de Caso do Cemitério Parque “Jardim Dos
EESC/USP, 1999.
Lírios” – Município De Bauru-SP. Anais XVIII
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República Federativa do Brasil: promulgada SIMPEP, 2011.
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Sustentabilidade e Responsabilidade Social - Volume 7


17

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Digestão Anaeróbica. Dissertação (Doutorado)
Preliminar. BRASIL: Ministério do Meio
– Escola de Engenharia de São Carlos,
Ambiente. Resolução n° 7.404, Lei nº 12.305
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Acesso em: 08 de março de 2014. et al. (orgs.). Educação, meio ambiente e
cidadania: reflexões e experiências. São Paulo:
[12] QUINTAS, José Silva. Introdução à Gestão
SMA.1998. p.27-32.
Ambiental Pública, 2ª ed. Brasília: IBAMA,
2006.

Sustentabilidade e Responsabilidade Social - Volume 7


PROPOSTA DE ABORDAGEM PARA DESENVOLVIMENTO
DE UNIVERSIDADES SUSTENTÁVEIS: UMA PESQUISA
TEÓRICO-CONCEITUAL

Nelson Dias da Costa Júnior


Stella Jacyszyn Bachega
José Waldo Martínez Espinosa

Resumo: As universidades possuem um papel importante na formação de


profissionais para o mercado de trabalho. Aliando isso à evolução das diversas
concepções sobre sustentabilidade, é necessário que as instituições de ensino
superior, com intuito de formar profissionais que tenham uma visão favorável ao
meio ambiente, incorporem em sua realidade estas ideias, seja por meio de
procedimentos administrativos ou atividades acadêmicas. Com base nesse
contexto, o objetivo desse trabalho é propor o uso de métodos/ferramentas que
contribuam para o alcance de um campus sustentável. Para tanto, utilizou-se o
procedimento de pesquisa teórico-conceitual. Foram identificadas pesquisas em
universidades ao redor do mundo, que tomaram iniciativa em buscar a universidade
sustentável, por meio de análises e práticas. A partir disso, foi proposto o uso de
ferramentas/métodos que propiciem o desenvolvimento de universidades
sustentáveis de acordo com uma abordagem integrada.

Palavras-chave: Universidade Sustentável, Abordagem, Pesquisa Teórico-


conceitual.

Sustentabilidade e Responsabilidade Social - Volume 7


19

1. INTRODUÇÃO alcance de um campus sustentável, conforme


a abordagem de Alshuwaikhat e Abubakar
Sustentabilidade é melhorar a qualidade de (2008).
vida, enquanto estiver dentro das
Para tanto, o artigo foi estruturado da seguinte
capacidades do ambiente (WCU; UNEP;
forma: na seção 2 foi feita uma revisão
WWF,1991 apud BLACKBURN, 2007). Sendo
bibliográfica sobre o assunto abordado; na
assim, o objetivo do desenvolvimento
seção 3 há a metodologia utilizada; a seção 4
sustentável é habilitar as pessoas a satisfazer
apresenta a proposição da abordagem; e na
suas necessidades básicas e desfrutar de
seção 5 estão as considerações finais.
melhor qualidade de vida, não
comprometendo as futuras gerações (U.K.
GOVERNMENT, 2005 apud BLACKBURN,
2007). 2. REVISÃO BIBLIOGRÁFICA
A associação deste tema a projetos de
Nessa seção apresentam-se conceitos de
pesquisa, extensão, atividades administrativas
universidade sustentável, as formas de se
e de ensino torna-se importante. Por meio
abordar o tema e formas de buscar
desses esforços, é possível levar a melhor
excelência.
compreensão, desenvolver metodologias e
técnicas que tratem o tema de modo
responsável nas universidades, de forma que
parta delas o pontapé inicial para que a 2.1. UNIVERSIDADE SUSTENTÁVEL
sociedade comece a ter comportamentos
mais sustentáveis. Para isso, é necessário que Velazquez et al. (2006) definem universidade
haja ações concretas, de forma responsável e sustentável como aquela instituição de ensino
colaborativa, que busquem o superior, seja uma parte ou o todo, que
desenvolvimento sustentável. aborda e promove a minimização dos
impactos ambientais negativos, bem como os
As universidades podem fazer contribuições
efeitos econômicos, sociais e de saúde,
significativas para o desenvolvimento
gerados na utilização de seus recursos. A
sustentável, principalmente em relação à
finalidade é cumprir as funções de ensino,
formação de jovens com consciência pública
pesquisa e extensão e também de ajuda a
a respeito da sustentabilidade (VIEBAHN,
sociedade, através de práticas mais
2002). Ainda, Jabbour (2010) afirma que as
sustentáveis.
universidades geram impactos
socioambientais, assim como qualquer outra Outra definição é feita por Cole (2003), que
organização. Ao mesmo tempo em que têm advoga que um campus sustentável é aquele
um papel de formar ideias e profissionais, que, de acordo com suas responsabilidades
adquirem uma responsabilidade ainda maior locais e globais, age em prol das melhorias
na disseminação dos conceitos de de saúde e bem estar da sociedade. A
desenvolvimento sustentável. universidade deve se envolver ativamente,
abordando a ecologia, os desafios sociais
Contudo, não basta esboçar ideias e esperar
enfrentados no presente e os que podem se
que os resultados ocorram naturalmente e em
apresentar no futuro.
pouco tempo. A sustentabilidade enquanto
objetivo é extremamente complexa e deve ser Segundo Alshuwaikhat e Abubakar (2008), um
visada em longo prazo, pois o impacto de campus universitário sustentável é,
suas práticas se dá de forma gradativa. Em necessariamente, saudável, tem economia
contrapartida, existem atividades mais próspera através da conservação dos
simples que, mesmo dentro do contexto final recursos, e promove a exportação destes
e amplo, podem gerar respostas rápidas. valores para a comunidade, até o nível
Estas atividades contribuem para melhor nacional e global. Desta forma, os conceitos
aceitação do projeto como um todo por parte de sustentabilidade envolvem cinco
da sociedade, já que é possível enxergar dimensões essenciais: ecológica, social,
pequenas amostras no curto prazo. econômica, cultural e espacial. Isso significa
que abrangem todas as áreas de uma
Diante desta realidade, este trabalho tem
universidade, desde as salas de aula,
como objetivo propor o uso de
laboratórios de pesquisa, áreas
métodos/ferramentas que contribuam para o
Sustentabilidade e Responsabilidade Social - Volume 7
20

administrativas até os transportes (SEIFFERT; competências com a integração real no


LOCH, 2005, LOZANO; VALLÉS, 2007). currículo acadêmico.
Para ser eficaz, a educação para a
sustentabilidade deve basear-se numa
2.2. A BUSCA PELA UNIVERSIDADE
abordagem de sistemas com foco em valores
SUSTENTÁVEL e comportamentos, como prioridade em
relação ao conhecimento sustentável em si.
Alguns autores buscam desde o Também deve instigar os valores dos alunos
entendimento do tema universidades como método para motivar comportamentos
sustentáveis até sua aplicação, como sustentáveis e melhorar as resoluções de
apresentado a seguir. problemas (PAPPAS et al., 2013).
Nejati e Nejati (2013), através do uso de Outra forma de buscar a universidade
design scale, investigaram as percepções sustentável é a aplicação de atividades que
dos estudantes universitários em relação a visam o melhor tratamento dos recursos,
fatores de uma universidade sustentável. melhor aproveitamento energético e menores
Quatro questões foram consideradas: descartes de resíduos no meio ambiente.
sensibilização da comunidade; compromisso Marinho et al.. (2014) relataram o caso de um
com a sustentabilidade; resíduos e energia; e programa de economia de água na
planejamento de uso da terra. Universidade Federal da Bahia, denominado
AGUAPURA. Entre 1999 e 2008, reduziu-se
Zsoka et al. (2013) identificaram que há uma
pela metade o consumo de água per capita, e
forte correlação positiva entre educação
trouxe economia de recursos para a
ambiental e o conhecimento do meio
instituição. No entanto, os resultados internos
ambiente na Hungria. Verificaram também
e externos têm sido insuficientes para garantir
que o foco na educação sustentável é
a internalização do programa em atividades
importante na formação correspondente a
de rotina da universidade, e sua permanência
atitudes ambientais positivas.
depende do grupo que criou e gerencia o
Segundo Boman e Andersson (2013), uma programa.
forma de incentivar os responsáveis pela
Já Klein-Banai e Theis (2013) entendem que
criação de cursos e programas universitários
as universidades são grandes emissoras de
a envolver cada vez mais o desenvolvimento
Gases de Efeito Estufa (GEE). Analisaram os
sustentável, é aplicar um modelo de eco-
fatores que caracterizam as emissões brutas
rotulagem. Consiste em determinar se cada
das instituições de ensino superior e
um dos currículos acadêmicos abrange ou
descobriram que o principal desafio para as
não este tema, através de critérios simples e
grandes universidades de pesquisa é tornar-
pré-determinados. Essa metodologia foi
se mais eficiente na redução das emissões de
aplicada na Universidade de Göteborg, na
GEE per capita.
Suécia, e há uma forte organização no
formulário do Centre of Environment and Na linha de impactos ambientais, Frandoloso
Sustainability, onde o apoio ao processo é et al. (2012) acreditam que as instituições de
absolutamente notório e de extrema ensino superior podem ser comparadas a
importância. pequenas cidades, exibindo em muitos casos,
as infraestruturas complexas para a sua
Lambrechts et al. (2013) propõem que as
operação e que demandam recursos naturais.
disciplinas e programas das universidades
Avaliaram o desempenho térmico e
devem ser alterados com base em ‘valores de
energético de alguns edifícios da
abordagem’, incluindo abordagens holísticas,
Universidade de Passo Fundo (UPF) e
interdisciplinares, e mediante a utilização de
constataram que o consumo foi
uma estratégia de competências. Ainda, deve
correspondente ao de aproximadamente 3000
haver equilíbrio entre as competências já
residências com 4 pessoas cada, ou seja, o
integradas de responsabilidade e inteligência
equivalente a uma cidade de 12000
emocional com aquelas relacionadas a
habitantes.
perspectivas futuras sistêmicas e habilidades
de ação. Sugerem a realização de mais Lee et al. (2013) acreditam na necessidade
pesquisas que relacionem a integração do das universidades cumprirem com os
desenvolvimento sustentável em compromissos assumidos publicamente em
Sustentabilidade e Responsabilidade Social - Volume 7
21

relação a sustentabilidade, para que não haja busque alcançar o ambiente


o que se chama de retórica oca. Castro e sustentável. Visa, através de práticas
Jabbour (2013) também entendem que e regulamentos, gerir as questões
algumas universidades geram impactos ambientais de forma consistente e
ambientais tão expressivos quanto pequenas sistemática para reduzir o impacto
cidades. Neste sentido, a aderência de ambiental da universidade e aumentar
atividades sustentáveis foi analisada em uma sua eficiência operacional. A adoção
universidade indiana. Constaram que, assim deste sistema é defendida por muitos
como muitas outras, aquela universidade não especialistas da área, ao redor do
estava aderindo plenamente à abordagem mundo (BARNES; JERMAN, 2002;
recomendada por Alshuwaikhat e Abubakar PIPER, 2001; MORROW;
(2008). Houve a recomendação de que RONDINELLI, 2002).
trabalhos futuros fizessem esta mesma
verificação na realidade de outros países em
desenvolvimento, como China, Rússia e  Participação pública e
Brasil. responsabilidade social: A busca por
interessados em participar do
desenvolvimento social, através da
2.3. UMA ABORDAGEM PARA promoção da justiça e da equidade
ambiental para todos,
UNIVERSIDADES SUSTENTÁVEIS
independentemente da etnia ou do
gênero, e também cuidando das
Para que uma universidade seja
questões que envolvem as pessoas
sustentável na excelência do termo, é
com necessidades especiais. Sugere
necessário algo mais que apenas
também parcerias com organizações
conscientização, mesmo que ainda seja difícil
privadas, governamentais e/ou não
mapear o desenvolvimento desse processo
governamentais.
por completo. Alshuwaikhat e Abubakar
(2008) propuseram uma abordagem integrada
para alcançar um campus sustentável,
recomendando a adoção de três estratégias
 Ensino e pesquisa em
sustentabilidade: As universidades
(Figura 1):
têm responsabilidades de educar
seres humanos, inclusive no quesito
sustentabilidade. Isto pode ser
 Implementação de um SGA (Sistema
alcançado, se o tema for incorporado
de Gerenciamento Ambiental):
a conferências, seminários,
Constitui um conjunto de
workshops, currículos e cursos,
procedimentos, processos e recursos
pesquisas e desenvolvimento.
para desenvolver uma política que

Sustentabilidade e Responsabilidade Social - Volume 7


22

Figura 1 – Abordagem integrada para universidades sustentáveis

Fonte: Adaptado de Alshuwaikhat e Abubakar (2008)

3. METODOLOGIA 4. ABORDAGEM PROPOSTA

O procedimento utilizado nesse trabalho foi a Com base na abordagem integrada para
pesquisa teórico-conceitual, a fim de buscar universidades sustentáveis proposta por
orientação teórica e identificar aplicações e Alshuwaikhat e Abubakar (2008), vide Figura
práticas de sustentabilidade em 1, e em diversos trabalhos verificados durante
universidades. Segundo Berto e Nakano a pesquisa teórico-conceitual, foi possível
(1998; 2000), esse tipo de pesquisa é propor usos de métodos/ferramentas que
resultado de uma série de reflexões contribuem para a busca do Campus
fundamentadas em um fato observado ou Sustentável.
exposto pela literatura, interligação de
opiniões e ideias de vários autores, ou mesmo
por modelagem teórica e simulação. 4.1. UNIVERSIDADE SGA
Para isso, foram utilizadas as bases de dados
A utilização de métodos que procuram a
Science Direct, SCOPUS, Engineering Village,
economia de recursos, minimização de
Periódicos CAPES e Scielo. As palavras-
impactos provocados por universidades e
chave utilizadas durante o procedimento de
eficiência energética pode ser vista em
pesquisa nestas bases de dados foram:
Marinho et al. (2014), Klein-Banais e Theis
gestão ambiental, ecoeficiência, produção
(2013) e Frandoloso et al. (2012). Estes
mais limpa, sustentabilidade, universidade e
trabalhos se encaixam na estratégia de
educação superior. Foram feitas diversas
‘Universidade SGA’ proposta por
combinações desses termos tanto em
Alshuwaikhat e Abubakar (2008).
português quanto em inglês.

Sustentabilidade e Responsabilidade Social - Volume 7


23

O Quadro 1 apresenta o resumo dos na Universidade. Ainda, apresenta os autores


métodos/ferramentas identificados que que utilizaram os métodos/ferramentas e o
contribuem para o alcance do Campus local (universidade) em que estas foram
Sustentável no que tange a estratégia de aplicadas.
Sistema de Gerenciamento Ambiental (SGA)

Quadro 1 - A estratégia de Universidade SGA

Método/Ferramenta Autores Local


AGUAPURA, um programa de Universidade
economia de água Marinho et al. (2014) Federal da Bahia
Campus Sustentável

Universidade SGA

Avaliação do desempenho
energético e térmico de Universidade de
edifícios da universidade Frandoloso et al. (2012) Passo Fundo

Análise das emissões de GEE Instituição de Ensino


por instituições de ensino Klein-Banai e Theis (2013) Superior ( EUA)
Fonte: Adaptação feita pelo autor

Marinho et al. (2014) ao relatarem o programa ambiente interno e externo, bem como a
de consumo de água realizado na temperatura global. Por fim, foi aplicado um
Universidade Federal da Bahia (o caso questionário para saber as opiniões dos
AGUAPURA), identificaram os fatores que usuários sobre o conforto geral.
afetavam o consumo de água e
desenvolveram ações como: controle do
consumo através do acompanhamento diário, 4.2. PARTICIPAÇÃO PÚBLICA E
prevenções e correção de vazamentos e
RESPONSABILIDADE SOCIAL
cadastro eletrônico das informações
registradas.
Contribuições para alcance da estratégia de
Para a análise das emissões brutas de Gases ‘Participação Pública e Responsabilidade
de Efeito Estufa, Klein-Banai e Theis (2013) Social’ podem ser notadas em Yuan e Zuo
utilizaram um método para desenvolver (2013), Nejati e Nejati (2013), Zsoka et al.
inventários adaptados a universidades. Além (2013) e Rodríguez-Barreiro et al. (2013).
disso, utilizaram informações contextuais
Nestes trabalhos foram feitas pesquisas para
sobre as universidades, como tamanhos,
investigar e/ou avaliar consciência, práticas e
locais, região, entre outras. Para a análise,
percepções de alunos sobre assuntos como
usaram métodos estatísticos, como: estatística
sustentabilidade, desenvolvimento sustentável
descritiva, correlação de Pearson, análise de
e educação sustentável para ensino superior.
componentes e análise de regressão
Esses métodos podem contribuir para
multivariada.
conscientização da comunidade em geral,
Frandoloso et al. (2012) avaliaram os através, por exemplo, de feedbacks que
rendimentos térmico e energético dos mostrem o quanto estão aderindo às questões
edifícios da Universidade Federal de Passo abordadas.
Fundo. Utilizaram um método de auditoria
Os métodos/ferramentas verificados que
adaptada que avalia e identifica as
cooperam para propiciar a estratégia de
características do sistema sobre as fontes de
participação pública e responsabilidade
energia. As análises comparativas foram
social, seus respectivos autores e as
obtidas através do software DesignBuilder e a
universidades em que foram aplicados estão
avaliação dos padrões de conforto foi feita
expostos no Quadro 2.
utilizando as médias das variáveis de

Sustentabilidade e Responsabilidade Social - Volume 7


24

Quadro 2 - A estratégia de Participação Pública e Responsabilidade Social

Método/Ferramenta Autores Local


Investigação de consciência e Universidade
percepções de alunos sobre Yuan e ZUO ( 2013)
Shandong (China)
HEDS
Responsabilidade Social
Participação pública e

Aplicação de escala para


Campus Sustentável

Universidade de
avaliar práticas e percepções Nejati e Nejato ( 2013)
Sains (Malásia)
de alunos sobre HESD
Pesquisa que captura Universidades
informações sobre consciência Zsoska et al.(2013)
Húngaras
ambiental de

Rodriguez-Barreiro et al. Universidades de


Escala que avalia a eduacação (2013) Zaragoza (Espanha)
ambiental e se ela proporciona
virtudes sobre
Fonte: Adaptação feita pelo autor

Yuan e Zuo (2013) fizeram um estudo estudos de confiabilidade e confirmação da


baseado em uma ferramenta gráfica, escala desenvolvida, sendo o primeiro através
denominada GASU (Graphical Assessment do Alfa de Cronbach, e o segundo por análise
Sustainability in Universities), que é uma fatorial confirmatória, utilizando AMOS
modificação da Global Reporting Initiative (Analysis of Moment Structures).
Sustainability Guidelines adaptada para
Zsoka et al. (2013), com intuito de descobrir o
instituições de ensino superior. Este estudo foi
quão forte é a relação entre a educação
focado em investigar as percepções dos
ambiental e os comportamentos reais de
estudantes universitários em relação aos
estudantes, realização duas pesquisas com
fatores que contribuem com a HESD (Higher
questões como: i) ‘O que os estudantes, de
Education for Sustainable Development). Os
idades diferentes, influenciados por
autores concluíram que houve considerável
características de educação ambiental
sensibilização e desenvolveram uma lista das
diferentes, pensam a respeito das questões
dez maiores prioridades: transporte
ambientais?’; ii) ‘Como os alunos veem a
sustentável; segurança; alojamento
relação entre o meio ambiente e o estilo de
sustentável; redução de materiais tóxicos e
vida consumidor?’; e iii) ‘Como os alunos
resíduos radioativos; reciclagem de resíduos;
realmente se comportam e o que determina
conservação de energia; paisagismo
sua vontade de agir de uma forma pró-
sustentável; proporcionar práticas com a
ambiental?’. Com os dados em mãos, foram
sustentabilidade; redução de resíduos; e
feitas análises estatísticas básicas (como
acesso adequado para pessoas deficientes.
frequências e tabulação cruzada),
Nejati e Nejati (2013), para investigar as escalonamento multidimensional e análise de
percepções dos estudantes universitários em cluster.
relação a fatores de uma universidade
Rodríguez-Barreiro et al. (2013) analisaram as
sustentável, desenvolveram uma escala para
atitudes dos universitários graduados na
avaliar práticas de sustentabilidade, a partir
Universidade de Zaragoza, na Espanha. Foi
de uma análise de percepção de vários
utilizada uma escala de atitudes,
estudantes. Esse processo foi denominado
desenvolvida em um trabalho anterior por
Design Scale, que consistiu numa extensa
Fernández-Manzanal et al. (2007), para obter
revisão bibliográfica sobre o assunto e no
uma visão sobre as atitudes ambientais dos
desenvolvimento de Análise Fatorial
diplomados. Foram aplicados questionários
Exploratória. Foram realizados também
com 20 itens, com uso de Escala Likert. A
Sustentabilidade e Responsabilidade Social - Volume 7
25

análise dos dados foi feita com dois vieses: e Andersson (2013), Pappas et al. (2013),
exploratório e de confirmação. A primeira foi Lambrechts et al. (2013) e Gaziulusoy e Boyle
feita utilizando métodos de regressão linear (2013). Nestes casos, os autores procuraram
múltipla e a ferramenta AMOS. A segunda, formas de implantar a educação sustentável,
através da metodologia SEM (Structural desenvolver projetos interdisciplinares e a
Equation Modelling). conscientização dentro dos cursos e
currículos.
O Quadro 3 sintetiza os métodos/ferramentas
4.3. PESQUISA E ENSINO EM
que convergem para o sucesso da
SUSTENTABILIDADE implantação da estratégia de pesquisa e
ensino em sustentabilidade, os respectivos
Com relação à ‘Pesquisa e Ensino em autores e universidades em que foram
Sustentabilidade’ foram identificados quatro aplicados.
estudos que buscam essa estratégia: Boman

Quadro 3 – A estratégia de Pesquisa e Ensino em Sustentabilidade

Método/Ferramenta Autores Local


Aplicação de um modelo de
Boman e Andersson Universidade de
eco rotulagem nos cursos e
(2013) Goteborg (Suécia)
currículos da universidade
Pesquisa e Ensino em
Campus Sustentável

Aplicação da Taxonomia de James Madison


Sustentabilidade

Bloom' para desenvolver um Pappas et al. (2013) University School of


programa de engenharia Enginnering ( EUA)

Análise das competências Universidades


Lambrechts et al. (2013)
sobre SD em alguns contextos Belgas

Desenvolvimento de uma
Indeterminado
ferramenta heurística para Gaziulusoy (2013)
(Nova Zelândia)
projetos interdisciplinares
Fonte: Adaptação feita pelo autor

Boman e Andersson (2013) analisaram o caso Lambrechts et al. (2013) analisaram a eficácia
da Universidade de Götenborg, na Suécia, do desenvolvimento sustentável e suas
onde foi aplicado um modelo de eco- competências em três contextos: Gestão de
rotulagem dos cursos e currículos. Antes Empresas, Gestão de Escritório e Tecnologia
desse processo, houve várias discussões a da Informação. Foi desenvolvido um quadro
respeito da definição de desenvolvimento de análise utilizando competências-chave e
sustentável, baseadas em diversas três pesquisadores analisaram os programas
referências. Com isso, chegaram a três de bacharelado isoladamente, e depois
critérios de classificação, e a universidade discutiram os resultados de suas
passou a usá-los, através de um sistema de descobertas, para se chegar a um consenso.
informação especializado.
Gaziulusoy e Boyle (2013) desenvolveram
Pappas el al. (2013) fizeram uma avaliação uma ferramenta heurística com quatro níveis
que abrangeu medidas da ‘Taxonomia de (valores normativos, intencionais, pragmáticos
Bloom’, com objetivos educacionais para e empíricos) para auxiliar a realização de
desenvolver um programa de engenharia. projetos interdisciplinares com estruturação
Esse processo durou três anos e envolveu de forma sistemática e priorização de
estudos de casos e projetos de ‘mudança literatura. Para ilustrar, apresentaram um
intencional’, baseados em quatro contextos estudo de caso sobre sustentabilidade no
de sustentabilidade: social, ambiental, desenvolvimento de produto. A ferramenta
econômico e tecnológico. identificou que as questões sustentáveis são
Sustentabilidade e Responsabilidade Social - Volume 7
26

complexas e as abordagens interdisciplinares identificação dos riscos e oportunidades


sistêmicas podem ajudar o corpo docente a relacionados à sustentabilidade, assim como
superar a fragmentação acadêmica. garantir que os mesmos sejam corretamente
avaliados e gerenciados.
Devido à forma como as universidades
5. CONSIDERAÇÕES FINAIS
funcionam, uma força externa significativa
deve ser requerida para promover a ação
Foram apresentadas algumas situações e
multidisciplinar. Uma pesquisa atrativa ou
pesquisas em universidades ao redor do
alunos motivados pode fazer a diferença.
mundo, que tomaram iniciativa em buscar a
Evidências de que programas transversais
universidade sustentável, por meio de
são populares entre os alunos podem também
análises e práticas. Estas universidades
ajudar. Mas, a mudança para o ensino
tinham o intuito de melhorar o desempenho
integrado deve ser feito com equilíbrio.
dos modelos já existentes e também de criar
novas possibilidades dentro do Sendo assim, o objetivo almejado no presente
desenvolvimento sustentável para o ensino trabalho foi atingido com êxito, já que foi
superior. proposto o uso de ferramentas/métodos que
auxiliem no alcance de um Campus
Estudar formas e metodologias de como
Sustentável de acordo com uma abordagem
atingir a sustentabilidade, mesmo que para
integrada.
universidades, é de extrema importância para
ajudar a preencher uma grande lacuna na Este trabalho contribui para maior divulgação
área. Atualmente, ainda se tem uma do tema universidade sustentável e maior
resistência de algumas organizações em conscientização da sua importância.
implantar políticas sustentáveis, já que agrega Apresenta também contribuição para o ramo
custos, mas não necessariamente valor. empresarial, pois este modelo ser adaptado
Nesse sentido, quanto mais estudos forem para tal área. Como sugestão de pesquisas
feitos sobre o tema, como consequência futuras, tem-se a aplicação do modelo de
haverá um leque maior de possíveis abordagem integrada para universidades
ferramentas e métodos para aplicá-lo. sustentáveis em uma universidade nacional.
Ainda, sugere-se realizar aplicações práticas
As universidades podem embutir a gestão da
dos métodos/ferramentas apresentados neste
sustentabilidade na gestão do negócio,
trabalho, com intuito de identificar e analisar
integrando-a com as demais, de forma a
as dificuldades e os benefícios gerados.
fomentar a ecoeficiência. O sistema de gestão
ambiental deve, portanto, permitir a

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Sustentabilidade e Responsabilidade Social - Volume 7
28

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Journal of Cleaner Production, v. 48, p. 126-138,

Sustentabilidade e Responsabilidade Social - Volume 7


LOGÍSTICA VERDE: PRÁTICAS REALIZADAS POR
EMPRESAS BRASILEIRAS QUE APRESENTARAM
RELATÓRIO DE SUSTENTABILIDADE GRI EM 2014

Jessica Isadora Santana Marques


Marcia Mazzeo Grande

Resumo: Empresas no mundo todo tem sofrido pressão para incorporar aspectos
do Triple Bottom Line em suas operações e na gestão da cadeia de suprimentos.
Grandes consumidoras de recursos naturais e geradoras de contaminação ao
ambiente, as atividades logísticas começam a incorporar práticas “verdes”. Por
meio de uma pesquisa documental, este trabalho verificou se empresas brasileiras
que disponibilizaram relatórios de sustentabilidade na base Global Reporting
Initiative (GRI) em 2014 adotam práticas de logística verde. Os resultados obtidos
demonstram que as empresas analisadas ainda possuem uma baixa aderência às
práticas de logística verde.

Palavras-chave: Sustentabilidade; Práticas de Logística Verde; Logística.

Sustentabilidade e Responsabilidade Social - Volume 7


30

1. INTRODUÇÃO de dados do Global Reporting Initiative (GRI)


em 2014.
A partir da última década do século XX,
Além dessa introdução, este capítulo está
observa-se uma crescente preocupação com
estruturado em mais 5 tópicos:
o contexto ambiental, devido ao esgotamento
Fundamentação Teórica, onde são
de recursos naturais. Dessa forma, as
apresentados os conceitos de logística verde
autoridades responsáveis começam a criar
e suas práticas; Metodologia, onde descreve-
leis e regulamentos para impedir ou minimizar
se os caminhos percorridos na pesquisa;
ações que afetam e destroem o meio
Apresentação dos Resultados, onde
ambiente. Surge assim, o chamado
apresenta-se os resultados obtidos e
desenvolvimento sustentável, que é a
finalmente Discussão dos Resultados e
integração das vertentes econômicas, sociais
Conclusão.
e ambientais. O modelo de sustentabilidade
de referência é o triple bottom line
(ELKINGTON, 1997).
2. FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA
Empresas de todos os setores sofrem
variados tipos de pressão dos seus De acordo com o Council of Supply Chain
stakeholders para utilizarem práticas Management Professionals (CSCMP, 2014)
sustentáveis. A atividade logística Gestão Logística é a parte da Gestão da
desempenha um importante papel na Cadeia de Suprimentos que planeja,
economia global e é grande consumidora de implementa e controla de forma eficiente e
recursos naturais, além de gerar grande eficaz o fluxo, para frente e reverso, de
contaminação no meio ambiente (MURPHY; materiais, o armazenamento de bens, serviços
POIST, 2003). Em resposta a essas novas e informações entre o ponto de origem e o
demandas, as atividades logísticas começam ponto de consumo, a fim de atender às
a incorporar práticas consideradas “verdes”: exigências dos clientes. Decisões logísticas
a Logística verde, que tem por objetivo têm impacto no meio ambiente, já que após o
coordenar as atividades dentro de uma processo logístico direto são gerados
cadeia de suprimentos de tal forma que as diversos resíduos, tanto de bens no final de
necessidades dos clientes sejam atendidas sua vida útil, como também de bens sem ou
com o “menor custo” para o ambiente com pouco uso (GUARNIERI, 2010). Porém, é
(MCKINNON et al. 2010). a partir da década de 1990 que a discussão
logística versus meio ambiente ganha
Diversos trabalhos recentes sobre a
importância e começam a surgir propostas de
implantação de práticas de logística verde e
como considerar os aspectos ambientais nos
os determinantes para essa implantação
projetos dos sistemas logísticos das
foram realizados, tais como Lin e Ho (2011),
empresas (MURPHY; POIST, 2003).
Kim e Lee (2012), González-Benito e
González-Benito (2006) e Murphy e Poist Dentre as propostas que estão sendo
(2003). No entanto, no Brasil há poucos desenvolvidas tem-se o conceito de Logística
estudos sobre o assunto. Uma busca nas Verde, também designada por ecológica,
bases Scielo e Web of Science com as ambiental ou sustentável que, segundo o
palavras-chave logistics practices; green Reverse Logistics Executive Council (RLEC,
logistics practices; environmental logistics 2015), são ações praticadas pelas
practices foi realizada e não forma organizações com intuito de medir e minimizar
encontrados estudos sobre a aderência de o impacto ecológico das atividades logísticas.
práticas de logística verde em organizações Segundo Rogers e Tibben-Lembke (1998), a
brasileiras. logística verde ou ecológica refere-se à
compreensão e minimização do impacto
Assim, o objetivo deste trabalho foi verificar se
ecológico da logística. As atividades da
empresas brasileiras orientadas para a
logística verde incluem a medida do impacto
sustentabilidade adotam práticas de logística
ambiental dos modais de transporte, a
verde. Buscou-se também identificar quais
certificação ISO 14000, a redução do
práticas são adotadas por essas empresas.
consumo de energia e a redução do consumo
Para esse fim, realizou-se uma análise
de materiais.
documental dos relatórios de sustentabilidade
de empresas brasileiras publicados na base
Sustentabilidade e Responsabilidade Social - Volume 7
31

Para Kutkaitis e Župerkienė (2011, p.135) a  Gestão verde da cadeia de


logística verde ou sustentável é um processo suprimentos: alinhamento e
que engloba ações da organização para criar integração da gestão ambiental na
um sistema global de logística eficiente e gestão da cadeia de suprimento.
ambientalmente amigável, de forma a garantir
o uso eficiente de energia; a conservação dos
recursos; a eliminação de resíduos; a melhoria Murphy e Poist (2003) apresentam ações
da produtividade do trabalho; a redução do específicas a serem tomadas pelas empresas
impacto negativo da organização sobre o para implementar o conceito de logística
meio ambiente e o aumento da verde:
competitividade da organização.

 Reestruturação dos componentes de


A abordagem da logística verde apoia-se em sistemas de logística, de acordo com
cinco frentes de trabalho (VALLE; SOUZA, o ambiente e fatores sociais;
2014):
 Rejeição dos serviços prestados
pelos fornecedores que não tomam
cuidado sobre causar problemas
 Redução de externalidades de
ambientais;
transporte de carga: impactos no
volume de tráfego e poluição da  Treinamento de funcionários;
atmosfera;
 Colaboração com instituições
governamentais;
 Logística Urbana: além da avaliação  Relatórios públicos sobre a iniciativa e
dos impactos acima, envolve o sucesso da empresa no domínio da
avaliação dos benefícios econômicos, proteção do ambiente;
alocação de espaço viário e
 Auditoria de controle do ambiente;
investimento em transporte;
 Colaboração com países estrangeiros
no domínio da proteção do ambiente;
 Promover a responsabilidade social
 Logística Reversa: retorno de entre os empregadores da empresa.
resíduos à cadeia produtiva e
redução do volume de resíduos
destinados à disposição final (aterros González-Benito e Gonzáles-Benito (2006)
ou incineração); apresentam oito práticas logísticas que
contribuem para a preservação ambiental
(figura 1). Os autores partem da premissa de
 Estratégias ambientais das que a presença de tais práticas nas empresas
organizações no sentido da logística: é um indicador do comprometimento
incorporação do meio ambiente como ambiental da organização referente à
elemento-chave do modelo de logística.
negócios da organização, iniciativas e
programas ambientais;

Sustentabilidade e Responsabilidade Social - Volume 7


32

Figura 1 - Práticas Logísticas Ambientais

Fonte: González-Benito e González-Benito (2006, p. 1356)

 Preferência por comprar produtos materiais pouco poluentes e/ou


verdes - as organizações optam por biodegradáveis, como plástico
produtos que são sustentáveis e biodegradável para as embalagens;
ecológicos, como comprar papel
 Sistemas de recuperação e
reciclado em vez de branco;
reciclagem - criação de canais
 Critérios ambientais para contratação reversos de distribuição para triagem
de fornecedores - fornecedores e desmanche de produtos e
devem atender aos critérios desenvolvimento de novos negócios
ambientais estabelecidos pela baseados em reciclagem de
organização contratante; produtos;
 Prática de consolidação de  Descarte responsável - destinação
carregamentos - empresas diferentes final correta e segura dos produtos e
utilizam o mesmo transporte para dos resíduos gerados pela empresa,
suas mercadorias, reduzindo tanto o o que implica em assumir a
custo econômico quanto o ambiental; responsabilidade pelos produtos
durante todo o ciclo de vida do
 Prática de seleção de métodos de
mesmo.
transporte mais limpo - engloba a
substituição de modais de transporte,
como por exemplo, substituir o
No estudo de Lin e Ho (2011), os fatores
transporte rodoviário pelo hidroviário
determinantes que influenciam a adoção de
ou mesmo substituir um veículo a
práticas verdes de logística são compostos
gasolina por um a biodiesel;
de dimensões tecnológicas, organizacionais e
 Uso de embalagens/recipientes ambientais. Os fatores tecnológicos incluem a
reutilizáveis ou recicláveis em vantagem relativa, compatibilidade, e a
logística - por exemplo, caixas de complexidade das práticas ecológicas. Os
plástico que podem ser utilizadas fatores organizacionais incluem suporte
várias vezes para transporte e organizacional, qualidade dos recursos
armazenamento; humanos e tamanho da empresa. Os fatores
ambientais incluem pressão dos clientes,
 Uso de materiais ecológicos para
pressão reguladora, apoio governamental e
embalagem primaria - utilização de
incerteza ambiental.
Sustentabilidade e Responsabilidade Social - Volume 7
33

González-Benito e González-Benito (2006), desempenho econômico, ambiental e social


também advogam que, além da de uma organização, além de ter sido
regulamentação, a percepção que os concebida para ser utilizada por organizações
gestores têm da pressão dos stakeholders de qualquer porte, setor ou localidade. As
para a implantação de práticas de logística Diretrizes para Elaboração de Relatórios de
verde é fundamental para a adoção de tais Sustentabilidade da GRI incluem o conteúdo
práticas. Ou seja, as organizações tendem a do relatório, um composto de indicadores de
ter uma postura mais reativa do que proativa desempenho e outros itens de divulgação,
frente à adoção de práticas de logística além de orientações sobre temas técnicos
verde. específicos relativos à elaboração do relatório
(GLOBAL REPORTING INITIATIVE, 2014). A
base de dados GRI engloba mais de 10.000
3. METODOLOGIA relatórios referentes a mais de 4.800
empresas de todo o mundo.
Trata-se de uma pesquisa documental, que se
O conteúdo básico do relatório GRI é
caracteriza pelo exame de documentos em
constituído de três partes: (1) Perfil:
busca de interpretações novas ou
Informações que fornecem o contexto geral
complementares (GODOY. 1995). Os
para a compreensão do desempenho
aspectos que necessitam de mais atenção do
organizacional, incluindo sua estratégia, perfil
pesquisador neste tipo de pesquisa é a
e governança; (2) Informações sobre a Forma
escolha dos documentos, o acesso a eles e a
de Gestão: Dados cujo objetivo é explicitar o
análise dos mesmos. Assim, para a
contexto no qual deve ser interpretado o
consecução desta pesquisa os documentos
desempenho da organização numa área
utilizados foram os relatórios de
específica; (3) Indicadores de Desempenho:
sustentabilidade disponibilizados por
Expõem informações sobre o desempenho
organizações brasileiras na base de dados do
econômico, ambiental e social da organização
Global Reporting Initiative (GRI) segundo as
passíveis de comparação (GLOBAL
diretrizes G3.1. A utilização de dados
REPORTING INITIATIVE, 2014).
secundários se justifica pelas vantagens de
serem de acesso fácil, de custo relativamente As empresas que disponibilizam os relatórios
baixo e de obtenção rápida (MALHOTRA, na GRI devem declarar qual o nível de
2012). Entretanto, segundo Aaker (2001), a aplicação do relatório, isso implica uma
pesquisa documental tem algumas limitações, comunicação clara e transparente de quais
tais como: por serem coletados para outros elementos da Estrutura de Relatórios da GRI
propósitos as informações contidas nos foram aplicados na elaboração do relatório.
documentos podem gerar vieses; não há um Para atender às necessidades de relatores
controle sobre como os dados foram iniciantes, intermediários e avançados, o
coletados; os dados podem não ser muito sistema apresenta três níveis, intitulados C, B
precisos para a pesquisa; podem não ser e A. Os critérios de relato encontrados em
apresentados de forma ideal, com a cada um dos níveis indicam a evolução da
categorização necessária, entre outros. aplicação ou cobertura da Estrutura de
Relatórios da GRI. Uma organização poderá
A GRI é uma organização não governamental
autodeclarar um ponto a mais (+) em cada
composta por uma rede de multistakeholders;
nível (por exemplo, C+, B+, A+), caso tenha
foi fundada em 1997 pelo Programa das
sido utilizada verificação externa. A figura 2
Nações Unidas para o Meio Ambiente
apresenta os critérios para classificar o
(UNEP). A Estrutura de Relatórios da GRI visa
relatório de acordo com o nível (GLOBAL
servir como um modelo amplamente aceito
REPORTING INITIATIVE, 2014).
para a elaboração de relatórios sobre o

Sustentabilidade e Responsabilidade Social - Volume 7


34

Figura 2 - Nível de Aplicação do GRI


C C+ B B+ A A+

Perfil G3 Responder aos Todos os indicadores de Todos os


itens: perfil e governança:1,1 - indicadores de
4,17 perfil e
1,1
governança:
2,1; 2,10; 1,1 - 4,17

3,1; 3,8;3,10;
3,12;

Forma de Não exigido Informações sobre a Forma de


Gestão da G3 forma de gestão para gestão
cada aspecto de divulgada para
indicador cada aspecto
de indicador
Com verificação externa

Com verificação externa

Com verificação externa


Conteúdo do Relatório

Indicadores de Mínimo de 10 Mínimo de 20 Reporte


Desempenho indicadores de indicadores de obrigatório dos
da G3.1 & desempenho desempenho (essenciais indicadores
indicadores de (essenciais ou ou adicionais), incluindo, setoriais após
desempenho adicionais), ao menos, um de cada um ano do
do suplemento incluindo, ao dimensão econômica, lançamento da
setorial menos, um de ambiental e social versão final do
cada dimensão suplemento
econômica,
ambiental e
social

Se houver Se houver
disponibilidade, disponibilidade, podem
podem ser ser reportados
reportados indicadores setoriais,
indicadores contando que 14 não
setoriais, sejam setoriais
contando que
sete não sejam
setoriais

Fonte: Global Reporting Initiative, 2014

Assim, partiu-se das premissas de que: a) as e González-Benito e González-Benito (2006).


empresas que divulgam seus relatórios de A análise consistiu na leitura de cada relatório
sustentabilidade na base GRI tem forte buscando informações que respondessem as
orientação para a Sustentabilidade; e b) os questões levantadas. Houve a necessidade
relatórios que seguem a estrutura do GRI e dessa análise detalhada, já que cada relatório
são divulgados em sua base de dados adere a um nível de Diretriz diferente, ou seja,
oferecerão informações adequadas para não apresenta necessariamente todas as
analisar quais práticas de logística verde as informações e as mesmas estão dispostas
organizações brasileiras adotam. nos relatórios de formas distintas. Dessa
forma, pode-se ter uma avaliação de como as
Os relatórios foram analisados segundo um
empresas estão utilizando as práticas de
roteiro (Quadro 1) elaborado a partir dos
logística verde.
trabalho de Lin e Ho (2011), Kim e Lee (2012)

Sustentabilidade e Responsabilidade Social - Volume 7


35

Quadro 1- Roteiro de Questões


Praticas de Logística Verde
A empresa prioriza a compra produtos verdes?
Possui Critérios ambientais na seleção de fornecedores?
Faz consolidação de carregamentos?
Utiliza seleção de métodos de transporte mais limpos?
Utiliza Embalagens / recipientes recicláveis ou reutilizáveis em logística?
Utiliza Materiais ecológicos para embalagem primária?
Tem Sistemas de recuperação e reciclagem?
Faz destinação responsável de resíduos?
Tem processo de racionalização logístico, utilizando sistema logístico de informação e de TI?
Tem processo de logística reversa relativos à reutilização, reciclagem e itens retornáveis?
Possui Localização das instalações para a rede logística ambientalmente orientadas?
Tem Sistema de carga da unidade por meio da padronização logística?
Fonte: o autor

A amostra de empresas cujos relatórios foram desta pesquisa foi composta por 17
analisados foi determinada da seguinte forma empresas, já que um dos relatórios era uma
na Base de Dados da GRI: (1) Ano de consolidação dos relatórios das empresas do
publicação: 2014; (2) País: Brasil; (3) Versão setor de energia, que apresentaram relatórios
do Relatório: G3.1. Nesta seleção obteve-se próprios.
18 empresas, a base de dados foi acessada
A Tabela 1 traz o perfil das empresas
no dia 04 de agosto de 2014. Destaca-se que
estudadas. Pode-se verificar que a amostra é
os relatórios que foram divulgados no ano de
composta por empresas que possuem uma
2014 na Base de Dados da GRI referem-se a
grande estrutura operacional e também
relatórios de empresas no ano base de 2013.
financeira.
Após esta coleta de dados, a amostra final

Sustentabilidade e Responsabilidade Social - Volume 7


36

Tabela 1 - Perfil das empresas


Variáveis Porcentual (%)
1) Setor
Concessionárias de energia elétrica 24%
Energia: Distribuição 23%
Serviços: Financeiros 23%
Logística 6%
Gestão de resíduos 6%
Água: Distribuição 6%
Conglomerados 6%
Outros 6%

2) Nível de aderência às diretrizes do GRI


A+ 29%
B+ 18%
B 29%
C 29%

3) Número de Colaboradores
Até 50 6%
De 51 a 200 12%
De 201 a 500 6%
De 501 a 2000 23%
De 2001 a 5000 18%
Mais de 5001 35%

4) Lucro líquido
Até 100 milhões 15%
De 100 a 500 milhões 46%
De 501 milhões a 1 bilhão 8%
De 1 bilhão a 5 bilhões 31%
Fonte: autor

4. APRESENTAÇÃO DOS RESULTADOS

No Gráfico 1 tem-se os resultados alcançados amostra há empresas que contratam


com a análise documental. Identificou-se que fornecedores via licitação, entretanto,
59% das empresas afirmaram possuir critérios informaram que nos editais há critérios
ambientais para selecionar fornecedores. Na ambientais que precisam ser cumpridos. Para
Sustentabilidade e Responsabilidade Social - Volume 7
37

outras organizações há necessidade de responsabilidade onde constam critérios


cadastro e aceite de um termo de ambientais de responsabilidade social.

Gráfico 1 - Práticas de Logística Verde

Fonte: o autor

Outra prática analisada foi a realização de garantia dos fornecedores, o valor adicionado
consolidação de carregamentos. Somente 6% para a Companhia desde 2012 ascendeu aos
das empresas relataram realizar essa prática R$ 26,1 milhões. Ou seja, essas práticas
logística. Quanto à seleção de métodos de verdes, além de benéficas ao meio ambiente,
transporte mais limpos, 76% das empresas podem reduzir custos e gerar receitas para a
não informaram em seus relatórios realizar empresa. Sobre a localização das instalações
essa prática. para a rede logística ambientalmente
orientada, somente 18% das empresas
Quanto aos sistemas de recuperação e
informaram realizar esse processo. Quanto ao
reciclagem, 53% das empresas afirmam
sistema de carga da unidade por meio da
possuir um sistema estruturado de forma a
padronização logística, somente 12% das
fazer a reutilização de equipamentos, triagem
empresas afirmam realizar essa prática.
e coleta seletiva de resíduos. Outra importante
prática analisada é a destinação responsável
de resíduos: 76% das empresas relataram
5. DISCUSSÃO DOS RESULTADOS
realiza-lo. Analisou-se também se as
empresas possuem processo de
Uma das primeiras descobertas de Kim e Han
racionalização logística, utilizando sistema
(2012) é que o tamanho da organização é
logístico de informação e de TI: 53% das
altamente significativo para a adoção de
empresas não relataram esta prática.
práticas de logística verde, já que para adota-
Quanto ao processo de logística reversa las exigem-se recursos significativos. Assim,
relativos à reutilização, reciclagem e itens dado que 53% das empresas aqui
retornáveis, 29% das empresas relataram investigadas possuem mais de 2000
fazê-lo. Exemplos são a logística reversa de colaboradores, esperava-se grande aderência
cabos elétricos e transformadores. Além às práticas de logística vede; fato este que
disso, uma das empresas relatou no relatório não se verificou.
que com as iniciativas de logística reversa
Analisado os relatórios de sustentabilidade,
das distribuidoras, processos de recuperação
pode-se perceber que das doze práticas de
de medidores, equipamentos e
Logística Verde listadas, as quatro mais
transformadores, óleo e acionamento de
relatadas são:
Sustentabilidade e Responsabilidade Social - Volume 7
38

fim de cada organização pode ter influência


no conjunto de práticas de logística verde que
 Processo de logística reversa relativos
são adotadas por ela.
à reutilização, reciclagem e itens
retornáveis;
 Sistemas de recuperação e 6. CONCLUSÃO
reciclagem;
Este trabalho verificou as práticas de logística
 Critérios ambientais na seleção de
verde implementadas pelas empresas
fornecedores;
brasileiras que divulgaram relatório de
 Destinação responsável de resíduos. sustentabilidade na Base GRI em 2013. As
análises dos relatórios sustentabilidade
levaram aos seguintes resultados: Primeiro, é
Assim, notou-se que as práticas mais perceptível o desenvolvimento de algumas
relatadas são aquelas em que há mais forte práticas, como destinação responsável de
regulamentação, como destinação adequada resíduos; critérios verdes na seleção de
de resíduos, resultado este que vai na direção fornecedores; e sistema de recuperação e
dos resultados apontados por Lin e Ho (2011), reciclagem por parte das empresas em favor
quanto à influência positiva da da logística verde. No entanto, as demais
regulamentação na adoção de práticas de práticas como consolidação de
logística verde. carregamentos; priorizar a compra de
produtos verdes; materiais ecológicos para
Neste ponto, é importante ressaltar que nas
embalagem primária são incipientes. Esse
Diretrizes do G3.1 não há indicadores
fato pode estar relacionado à estrutura da
específicos sobre a cadeia de suprimentos e
empresa, a natureza da atividade da empresa
o indicador sobre transportes (Impactos
ou mesmo à estrutura da cadeia de
ambientais do transporte de produtos, bens e
suprimentos da organização. No entanto, esse
materiais e trabalhadores) é um indicador
é um aspecto a ser investigado em trabalhos
adicional. Assim, as práticas relatadas pelas
futuros.
empresas foram aquelas relacionadas com os
indicadores requeridos, sinalizando que as Segundo, as empresas investigadas reúnem
empresas estão implantando somente as as condições necessárias, de acordo com Kin
práticas que são requisitadas no relatório de e Han (2012), para implantarem práticas
sustentabilidade dependendo do nível de sustentáveis, entretanto, demonstram baixa
aderência. aderência às práticas de logística verde. Os
motivos disso são questões em aberto,
As práticas mais adotadas são destinação
necessitando de outros estudos para
responsável de resíduos seguida da
elucidação.
preferência em comprar produtos verdes.
Assim, os resultados obtidos neste trabalho Terceiro, observou-se também que as
apontam na mesma direção dos achados de, práticas mais adotadas são aquelas em que
Gonzáles-Benito e Gonzáles-Benito (2006). há indicadores específicos nas Diretrizes do
G3.1, sugerindo um direcionamento para as
Já as práticas de utilizar materiais ecológicos
empresas na adoção das práticas de logística
para embalagens primárias e utilização de
verde.
embalagens/recipientes recicláveis ou
reutilizáveis em logística, consideradas Sendo um tema recente, torna-se assim,
componentes relevantes da logística verde relevante o desenvolvimento de outros
por Gonzáles-Benito e Gonzáles-Benito (2006) estudos para averiguar este fenômeno. Neste
não foram mencionadas no caso das sentido, o roteiro utilizado nesse trabalho
empresas investigadas. Neste ponto é pode servir de base para a elaboração de
preciso considerar a compatibilidade das questionários sobre práticas de logística
práticas: para algumas organizações práticas verde a serem aplicados em empresas de
como Embalagens / recipientes recicláveis ou diversos setores econômicos a fim de se obter
reutilizáveis em logística não são pertinentes um panorama de tais atividades no contexto
às suas atividades, como a distribuição de brasileiro com dados primários.
energia, já que seu produto fim não necessita
Como limitação do trabalho pode-se apontar à
de embalagem. Isso sugere que a atividade
estrutura dos relatórios de sustentabilidade:
Sustentabilidade e Responsabilidade Social - Volume 7
39

cada empresa estrutura o relatório de forma sobre logística não são apresentadas de
distinta, o que dificulta a análise dos mesmos. forma detalhada nos relatórios. Outra
Além disso, não há controle por parte do limitação do estudo é que a amostra de
pesquisador de como os dados foram empresas utilizada não se caracteriza como
coletados para gerar o relatório. Outro ponto a probabilística, o que limita a possibilidade de
ser considerado é que a estrutura do GRI generalização dos resultados. Contudo, o
G3.1 não contempla indicadores essenciais método empregado permitiu uma série de
sobre transportes e cadeias de suprimentos. análises e conclusões a respeito do tema e
Devido a isso, informações operacionais levantou questões para trabalhos futuros.

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Sustentabilidade e Responsabilidade Social - Volume 7
APLICAÇÃO DA FERRAMENTA M-MACBETH NA ANÁLISE
MULTICRITÉRIO DO REAPROVEITAMENTO DO ÓLEO DE
COZINHA

Allison Pires dos Santos


Daniele da Silva Dutra
Francisca Rogéria da Silva Lima
Lauandes Marques de Oliveira
Moisés dos Santos Rocha

Resumo: Atualmente a preocupação com as questões ambientais é bem maior do


que há certo tempo, visto que os problemas ambientais vêm crescendo
diariamente. Um desses problemas é o descarte inadequado do óleo de cozinha. O
óleo de fritura utilizado na indústria alimentícia é considerado um resíduo e
necessita de tratamento. Do ponto de vista organizacional, a utilização de
estratégias sustentáveis tem retornos tanto internos, em prol do desenvolvimento de
uma cultura organizacional sustentável, quanto externos, repercutindo na forma
como estas organizações se relacionam com a sociedade e influenciando na forma
como esta última vê a organização. Este artigo foi desenvolvido para realizar uma
análise multicritério em uma empresa do ramo alimentício, através do software M-
MACBETH, no que diz respeito ao reaproveitamento dos resíduos provenientes do
óleo de cozinha, a fim de propor uma solução sustentável para o destino final do
mesmo.

Palavras-chave: Sustentabilidade, Óleo de Cozinha, Resíduos, Análise Multicritério,


M-Macbeth.

Sustentabilidade e Responsabilidade Social - Volume 7


41

1. INTRODUÇÃO modelagem multicritério para avaliar o


reaproveitamento dos resíduos do óleo de
Atualmente a sociedade vivencia grandes cozinha.
problemas no que diz respeito às questões
ambientais. Um dos principais contribuidores
para o agravamento desses problemas é o 2. REFERENCIAL TEÓRICO
descarte inadequado de óleo de cozinha,
utilizado para frituras na maioria das SUSTENTABILIDADE, RESÍDUOS SÓLIDOS,
residências, bem como em lanchonetes e
ÓLEO DE COZINHA
restaurantes. A presença de óleos na rede de
esgoto pode causar o entupimento das
A sustentabilidade tornou-se um tópico de
mesmas, o mau funcionamento das estações
reincidência em diversos âmbitos dentre os
de tratamento, e em contato com lençóis
quais ganham destaque: o contexto
subterrâneos compromete a qualidade da
empresarial, o controle governamental e a
água que consumida por populações
atuação da sociedade.
humanas e provoca a impermeabilização do
solo. A Comissão Mundial sobre Meio Ambiente e
Desenvolvimento (1991), conceituou
Nesse contexto, a geração dos resíduos do Desenvolvimento Sustentável como “um
óleo de fritura ganha destaque. O óleo desenvolvimento que satisfaz as
utilizado na cocção de alimentos, cujo necessidades do presente sem comprometer
descarte deve ser realizado em aterros a capacidade das gerações futuras
sanitários, na maioria das vezes é despejado satisfazerem suas próprias necessidades”.
nos ralos de pias de cozinhas, sendo capaz
de poluir aproximadamente um milhão de No Brasil estima-se que a população produz
litros de água para cada litro de óleo de cerca de 44 milhões de toneladas de lixo,
cozinha incorretamente descartado. sendo que 60% dos resíduos urbanos
coletados não recebem a destinação correta.
Dentre os aspectos relacionados ao Um resíduo de difícil descarte é o óleo de
desenvolvimento sustentável ganha destaque fritura. Além de não possuir destinação
o tratamento adequado em relação à correta nem tratamento, ao atingir o solo, tem
destinação final dos resíduos sólidos. A busca a capacidade de impermeabilizá-lo,
pela conservação ambiental, também já dificultando a água chegar até o lençol
ganha destaque a nível organizacional para a freático (TEIXEIRA, 2004).
criação de uma cultura sustentável e o
emprego de políticas e estratégias É caracterizado como resíduo o que é gerado
sustentáveis envolvendo os vários níveis de em processos produtivos que não possui
organizacionais. aproveitamento econômico (FIPA, 2007). Os
resíduos podem provocar impactos
Diante desta problemática, foi realizado um ambientais importantes, quais sejam no solo,
estudo de caso em uma micro empresa do nas águas ou na atmosfera, levando à
ramo alimentício, utilizando-se a análise chamada poluição industrial que, além de
multicritério, onde foi realizada a escolha da provocar danos ambientais muitas vezes
melhor alternativa de reaproveitamento do graves, pode ser visualizada como forma de
óleo de cozinha, através da utilização de desperdício e indício de ineficiência de
umas das ferramentas da análise multicritério: processos produtivos, pois os resíduos
o software M-MACBETH. A avaliação industriais representam, na maioria dos casos,
multicritério pode ser organizada com vistas a perda de matéria prima e insumos (VALLE,
produzir uma conclusão sintética simples no 2002).
final da avaliação ou, pelo contrário, com vista
a produzir conclusões adaptadas às O óleo vegetal pode causar vários danos ao
preferências e prioridades de diferentes meio ambiente se for descartado de forma
parceiros. incorreta. Uma diminuição significativa na
poluição do meio ambiente poderia ser
Sendo assim, o objetivo deste artigo é propor constatada com o reaproveitamento do óleo
um modelo para priorização de alternativas para fabricar sabão caseiro, mas exige
que podem ser entendidas como políticas de cuidados por utilizar produtos químicos
sustentabilidade para destinação adequada (BALDASSO, 2010).
dos resíduos do óleo de cozinha, aplicando
Sustentabilidade e Responsabilidade Social - Volume 7
42

Os óleos e gorduras são ésteres, que podem desenvolvimento organizacional ou gestão de


sofrer uma reação de hidrólise ácida ou sistemas de informação. (BUYSSOU, 1993).
básica. A hidrólise ácida produzirá
Na Engenharia de Produção, as técnicas da
simplesmente o glicerol e os ácidos graxos
Metodologia de Multicritério são de grande
constituintes. Já a hidrólise básica produzirá o
importância principalmente na avaliação de
glicerol e os sais desses ácidos graxos. Desta
projetos industriais e tecnológicos, e tem sido
forma, aquecendo gordura em presença de
usadas com êxito nas questões relativas à
uma base, realiza-se uma reação química que
planejamento estratégico, localização
produz sabão, reação de saponificação, que
industrial, impacto ambiental, qualidade de
ocorre através da mistura de um ácido graxo
serviços e sistemas de apoio à decisão em
existente em óleos ou gorduras com uma
geral, sempre que para a tomada de decisão
base com forte aquecimento (ALBERICI,
necessitarmos ouvir a opinião de um grupo
2004).
seleto de especialistas, sobre determinadas
Outra forma de garantir o destino sustentável ações e suas consequências.
do óleo de cozinha é através da produção de
O objetivo da técnica consiste em estruturar e
biodiesel, que pode ser considerada
combinar as diferentes análises a ter em
importante para o reaproveitamento do óleo,
consideração no processo de tomada de
como forma de diminuir o impacto ambiental,
decisão, sendo que a tomada de decisão se
em virtude de bons resultados obtidos no
baseia em escolhas múltiplas e o tratamento
processo de biodiesel em termos de
dado a cada uma das escolhas condiciona,
rendimentos através da utilização deste
em grande medida, a decisão final.
insumo (CAVALCANTE, 2010). O biodiesel
(BUYSSOU, 1993).
proveniente do óleo de fritura pode reduzir a
emissão de gases do efeito estufa em valores A análise multicritério é uma ferramenta de
próximos a 78% e perto de 100% quando comparação, em que são tidos em conta
utilizado o metanol e o etanol. vários pontos de vista, tornando-se desta
forma particularmente útil durante a
Além destes, o óleo de fritura é reaproveitado
formulação de uma conclusão sobre questões
para diversas finalidades, tais como a
complexas. A análise pode ser aplicada com
produção de resina de tintas, ração animal e
critérios de apreciação contraditórios (por
detergentes, gerando renda e reduzindo os
exemplo, na comparação do emprego com o
impactos ambientais. A transformação e a
ambiente) ou quando for difícil a escolha entre
influência ecológica nos negócios fazem
os critérios.
sentir de maneira crescente e com efeitos
econômicos cada vez mais profundos. As O uso de métodos multicritério para apoiar a
organizações que tomarem decisões tomada de decisão sobre o problema em
estratégicas integradas à questão ambiental e questão será baseado na problemática de
ecológica conseguirão significativas ordenação que tem como objetivo final a
vantagens competitivas, quando não, redução obtenção de uma ordem de ações (ALMEIDA,
de custos e incremento nos lucros a médio e 2013).
longo prazos (TACHIZAWA, 2005).

2.3 M-MACBETH
2.2 ANÁLISE MULTICRITÉRIO
O M-Macbeth é um software que usa uma
A análise multicritério surgiu nos anos 60 metodologia de apoio de tomada de decisão
enquanto instrumento de apoio à decisão. que permite avaliar opções tendo em vista,
Através desta técnica podem ser tidos em múltiplos critérios. O Macbeth requer apenas
conta diversos critérios, em simultâneo, na julgamentos qualitativos sobre a diferença de
analise de uma situação complexa. A atratividade entre elementos para gerar
avaliação multicritério pode ser organizada pontuações para as opções em cada critério
com vista a produzir uma conclusão sintética e para ponderar os critérios. Sete categorias
simples no final da avaliação ou, pelo semânticas de diferença de atratividade são
contrário, com vista a produzir conclusões introduzidas em MACBETH: nula, muito fraca,
adaptadas às preferências e prioridades de moderada, forte, muito forte e extrema
diferentes parceiros. A análise multicritério é (COSTA, 2005).
similar às técnicas adaptadas no campo do
Sustentabilidade e Responsabilidade Social - Volume 7
43

À medida que os julgamentos qualitativos são ferramenta de análise multicritério M-


expressos pelo avaliador e introduzidos em MACBETH.
M-Macbeth, o software verifica
automaticamente a sua consistência e oferece
sugestões para resolver eventuais 4. ESTUDO DE CASO
inconsistências. Depois, o processo evolui
para um modelo quantitativo de avaliação. 4.1 A EMPRESA
A partir dos julgamentos do avaliador e
A empresa escolhida é uma microempresa do
utilizando a funcionalidade do software, uma
ramo alimentício localizada na cidade de São
escala de pontuação em cada critério e pesos
Luís/MA, e que já se apresenta estabilizada
relativos para os critérios são gradualmente
no mercado.
sugeridos e discutidos. Em seguida, uma
pontuação global é calculada para cada Trata-se de uma microempresa, cujo razão
opção, fazendo a soma ponderada de suas social é Carlenilce Setúbal, sendo mais
pontuações nos múltiplos critérios. Essa conhecida como Fábio’s Lanches. Esta
pontuação global reflete a atratividade da empresa também presta serviço terceirizado
opção respectiva no conjunto de todos os para outras empresas do ramo alimentício.
critérios (COSTA, 2005). Seu quadro atual é de 16 funcionários, e foi
escolhida, pois para cozimento dos seus
produtos, a mesma se utiliza de uma
3. METODOLOGIA quantidade aproximadamente 15 litros de óleo
por mês.
O presente trabalho é caracterizado como
Pensando nisso, resolveu-se propor para esta
uma pesquisa exploratória, pois de acordo
empresa uma solução sustentável para
com Gil (2002) não é viável restringir-se a um
destinação final do óleo utilizado, já que a
levantamento bibliográfico no intuito de tornar
princípio o destino final desse resíduo é o lixo
o problema explícito e construir hipóteses.
ou o esgoto.
Esse tipo de pesquisa proporciona maiores
informações sobre o assunto que se vai
investigar, facilita a delimitação do tema de
4.2 APLICAÇÃO DO MODELO PROPOSTO
estudo, orienta a fixação dos objetivos e a
formulação de hipóteses. Com base nisso,
O modelo multicritério de priorização das
foram utilizados dados, consulta em artigos e
alternativas para resolução de problemas de
livros relacionados ao tema exposto no
sustentabilidade na empresa se utilizará de
trabalho. Sendo esta pesquisa, constituída por
alternativas, julgando-as de acordo com o
duas etapas; sendo a primeira, o
grau de importância atribuído pelo
levantamento bibliográfico sobre os assuntos
proprietário e analisadas posteriormente pelo
que permeiam esta discussão, referente ao
software M - MacBeth. Este modelo é
reaproveitamento do óleo de cozinha;e a
composto basicamente por três etapas:
segunda etapa, a visita à empresa do setor de
estruturação do problema, definição das
alimentação com o objetivo de refinar os
alternativas e critérios e aplicação de método
conceitos bibliográficos. Para tanto,
de apoio a decisão.
inicialmente foram coletados dados
quantitativos, tais como, custos e a produção Primeiramente, na fase de Estruturação do
da quantidade de óleo produzido na empresa, Modelo, foi iniciado o processo de construção
e dados qualitativos, tais como a descrição da árvore de critérios com a definição das
dos níveis de impacto do óleo para a opções e suas performances que serão
empresa. Em seguida, foram definidos os posteriormente avaliadas. As opções no caso
critérios a serem avaliados pelo tomador de são as alternativas de medidas sustentáveis
decisão principal (o proprietário da empresa) que a empresa pode adotar no futuro para
para a realização da análise multicritério, com destinação final do óleo utilizado pela mesma.
o intuito de estabelecer o grau de importância E quanto à árvore de critérios, no caso em
dos critérios escolhidos para delimitar opção estudo, ela é relativamente simples e foi
de reaproveitamento do óleo de cozinha para elaborada de acordo com o ponto de vista do
sua empresa, através da utilização da facilitador em relação aos critérios. Já a
classificação dos níveis foi feito de acordo
Sustentabilidade e Responsabilidade Social - Volume 7
44

com o ponto de vista do tomador de decisão. níveis de impactos são mostrados na Tabela
Os procedimentos iniciais da formação da 1.
árvore de critérios e da classificação dos

Tabela 1- Tabela de apoio a estruturação do problema

Níveis de Descrição dos níveis de impacto


Critérios Referência/classificação
impacto para cada critério

Não contaminação dos lençóis


N3 Muito bom
C1: Influência do freáticos.
Aproveitamento do Não entupimento da rede de
óleo de cozinha no N2 Bom
esgoto.
impacto Ambiental
N1 Não contaminação dos solos. Regular

N4 R$10/Uni Muito bom


C2: Custo de N3 R$20/Uni Bom
Produção por
Unidade N2 R$30/Uni Regular
N1 R$40/Uni Fraco
N4 12Uni/1L Muito bom
C3: Produção por N3 9Uni/1L Bom
unidade a partir de
1L de óleo usado. N2 6Uni/1L Regular
N1 3Uni/1L Fraco
Fonte: Elaboração própria

Logo na primeira fase de estruturação do definida pelo dono da empresa em estudo e


modelo, foi iniciado o processo de construção as opções abordadas neste trabalho serão os
da árvore de critérios e a definição das produtos finais feitos a partir da utilização do
opções de estudo a serem analisadas. A óleo de cozinha, tais como são demonstrados
ordem dos critérios na árvore de critérios foi na Figura 1.

Figura 1- Definição das Opções de Estudo

Fonte: Elaboração própria

Sustentabilidade e Responsabilidade Social - Volume 7


45

[1] Biodiesel: Por ser uma nova opção [3] Resina de Tintas: 1 litro de óleo de
para o reuso do óleo vegetal, ainda soja usado 2,85 litros de resina e 7,2 litros
possui poucas técnicas econômicas de de tinta (TACHIZAWA, 2005).
reutilização. Para cada 1l de óleo produz-
se 1l de biodiesel, podendo variar de
acordo com os processos produtivos. E [4] Ração para animais: É dentre as
dentre as outras opções é a que mais opções é um dos que menos agride o
causa impacto ambiental (CAVALCANTE, meio ambiente. O óleo é misturado ao
2010). alimento que é consumido por animais e,
mesmo deixando o farelo com uma cor
mais forte, o preço da ração pode cair
[2] Sabão Caseiro: Para cada 6l de óleo cerca de 10%, de acordo com pesquisas
produz-se 5 tabletes de sabão. Esse (TACHIZAWA, 2005).
procedimento de fabricação de sabão é
de alta qualidade, livre de química nociva
e mais amigável ao meio ambiente [5] Detergentes: Esse produto destaca-se
(ALBERICI, 2004). pelos baixos custos e pelo bom
rendimento do óleo em seu processo
produtivo. (TACHIZAWA, 2005)

Figura 2 - Árvore de Critérios construída para o estudo

Fonte: Elaboração própria

A Figura 2 mostra a árvore MACBETH que foi árvore no M-Macbeth, em que foram adotadas
construída, para o estudo do níveis qualitativos de performance para o
reaproveitamento do óleo de cozinha. Os nós critério “Impacto Ambiental”, pois este é
assinalados de vermelho: “Impacto definido de acordo com as opções em que o
Ambiental”, “Custo” e “Produção” são os óleo de cozinha pode deixar de agredir o
critérios de avaliação. meio ambiente. Já os critérios Custo e
Produção foram adotados níveis quantitativos
A partir do quadro apresentado, foram
de performance.
definidas as propriedades de cada critério da

Sustentabilidade e Responsabilidade Social - Volume 7


46

Figura 3- Definição das propriedades do critério “Impacto Ambiental”, no MacBeth

Fonte: Elaboração própria

A Figura 3 mostra a definição dos níveis regular. É a base para realizar posteriormente
qualitativos de performance do critério a comparação intercritérios.
“Impacto Ambiental” (IOIA): Muito bom, bom e

Figura 4- Definição das propriedades do critério “Custo”, no MacBeth

Fonte: Elaboração própria

Sustentabilidade e Responsabilidade Social - Volume 7


47

A Figura 4 mostra a definição dos níveis “Custo” (CP): 10, 20, 30 e 40. É o custo, em
quantitativos de performance do critério reais, de produção por unidade fabricada.

Figura 5- Definição das propriedades do critério “Produção”, no MacBeth

Fonte: Elaboração própria

A Figura 5 mostra a definição do nível “Produção”: 3, 6, 9, 12. É a produção por


quantitativo de performance do critério unidade a partir de 1litro de óleo usado.

Tabela 2 - Tabela de Julgamentos dos Produtos

Influência do
Produção por
Aproveitamento do Custo de Produção
Produtos Unidade a partir de
óleo de cozinha no por Unidade
1L de óleo usado
Impacto Ambiental

Biodiesel Regular 7 8
Sabão Muito Bom 8 7
Resina Bom 8.5 10
Ração para Animais Muito Bom 9 8
Detergentes Bom 9.5 9
Fonte: Elaboração própria

Os critérios definidos para a questão podem foi definida a influência do aproveitamento do


ser descritos pelos indicadores demonstrados óleo de cozinha no impacto ambiental, o custo
na Tabela 2, que foi construída a partir do de produção por unidade e a produção por
filtro de informações de pesquisas realizadas unidade a partir de 1 litro de óleo, usados
de cada possível opção. Para cada descritor,
Sustentabilidade e Responsabilidade Social - Volume 7
48

para classificar cada nível conforme as de performances do M-Macbeth como mostra


informações coletadas. a Figura 6.
A partir das informações da tabela de
julgamentos do produto alimenta-se a tabela

Figura 6- Tabela de desempenho das opções após preenchimento.

Fonte: Elaboração própria

Por conseguinte, realizou-se a ordenação das As diferenças de atratividade foram definidas


opções ou níveis de desempenho dos pelos autores (facilitadores) deste artigo e
critérios, e assim foi feito o julgamento preenchidas no software.
qualitativo de atratividade para cada critério.

Figura 7- Preenchimento mostrando o nível de atratividade do critério “Impacto Ambiental”.

Fonte: Elaboração própria

Sustentabilidade e Responsabilidade Social - Volume 7


49

Para exemplificar o preenchimento da compatibilidade acusando JULGAMENTOS


atratividade, será demonstrado o critério CONSISTENTES.
“Impacto Ambiental”, na qual foi feita a
Foram definidos os níveis quantitativos de
correlação para o julgamento qualitativo,
desempenho para o critério “Custo de
mostrando o nível de atratividade dos níveis.
Produção Por Unidade”, pois este é definido
A Figura 7 mostra a ordenação do critério de acordo com o custeio de produção de
“Impacto Ambiental”, comparando os níveis cada unidade em reais. Em seguida, foi feito o
de performance quanto a atratividade. À julgamento quantitativo das opções para o
medida que cada julgamento é introduzido, o critério “Produção Por Unidade a partir de 1L
M-MACBETH verifica automaticamente a sua de óleo usado”, onde foi feita a correlação
compatibilidade com os julgamentos para o julgamento quantitativo, mostrando o
previamente introduzidos na matriz. No nível de atratividade dos níveis.
exemplo acima pode ser observada a

Figura 8 – Resultado das diferenças de atratividades julgadas para o critério “Impacto Ambiental”
com sua respectiva escala Macbeth definida pelo software

Fonte: Elaboração própria

A Figura 8 apresenta uma escala de propriedades do critério e atribui as


pontuação ancorada nos dois níveis de pontuações 0 e 100 às referências inferior e
referência previamente definidos nas superior, respectivamente.

Sustentabilidade e Responsabilidade Social - Volume 7


50

Figura 9 – Resultado das diferenças de atratividades julgadas para o critério “Custo de Produção
Por Unidade” com sua respectiva escala Macbeth definida pelo software.

Fonte: Elaboração própria


A Figura 9 apresenta uma operação e dois gráficos: à esquerda, um eixo vertical no qual as
pontuações propostas são apresentadas junto aos níveis quantitativos de performance respectitivos;
à direita, um gráfico da performance representado no eixo horizontal e as pontuações respectivas.
Observando que o de menor custo, 9, foi o mais atrativo.

Figura 10 – Resultado das diferenças de atratividades julgadas para o critério “Produção” com sua
respectiva escala Macbeth definida pelo software.

Fonte: Elaboração própria

Sustentabilidade e Responsabilidade Social - Volume 7


51

Como a Figura 9, a 10 apresenta os dois julgados por ordem de prioridade por meio da
gráficos por possuir dados quantitativos, e a opinião do entrevistado, mas é importante
opção de maior atratividade é a opção 12 oficializar esta informação pelo software em
unidades por litro de óleo. estudo.
Ainda em fase de avaliação dos critérios, foi A Figura 11 mostra as referências de
feita uma análise realizada a partir da ponderação indicando as mais viáveis. Nessa
ponderação dos critérios, que consiste em mesma janela é apresentada uma referência
julgar a atratividade entre os critérios. global com performances nos critérios iguais
Anteriormente esses critérios já tinham sido as respectivas referências inferiores.

Figura 11 – Referências de ponderação resultantes de informações processadas pelo M-Macbeth


quantos aos níveis de impacto de cada critério considerado no estudo.

Fonte: Elaboração própria

Logo depois do preenchimento das análise da atratividade para cada opção em


Referências de Ponderação, foi realizada a relação a cada critério.

Figura 12 – Informações resultantes da ponderação.

Fonte: Elaboração própria

Sustentabilidade e Responsabilidade Social - Volume 7


52

O resultado do julgamento de atratividade (Figura 13) para cada opção do problema em


intercritérios pode ser resumido pela Figura relação aos 3 critérios, onde se pode notar
12, onde apresenta as pontuações de cada também os pesos de cada critério.
critério com base na avaliação qualitativa.
Após análise da tabela de pontuações, pode-
se perceber que a escala resultante de
valores ficou entre os dois valores de
5. ANÁLISE DO MODELO E RESULTADOS
referência, muito bom (100) e muito fraco (0).
OBTIDOS Portanto não se pode descartar nenhuma
opção nessa etapa de análise. Ao se ordenar
Após a etapa de modelagem do estudo, o M- as opções tem-se: Sabão, Ração, Resina,
Macbeth fornece a tabela de pontuações Detergente, Biodiesel.

Figura 13 – Resultado da tabela de pontuação resultante para cada opção em relação aos critérios
envolvidos e pesos de cada critério.

Fonte: Elaboração própria

6. CONCLUSÕES Sendo assim, verificou-se que entre das


opções sustentáveis apresentadas a que
O óleo de fritura utilizado em cozinha é possui melhor pontuação foi a de produção
considerado um resíduo e necessita de de sabão através dos resíduos do óleo de
tratamento. Esse resíduo pode ser utilizado fritura, seguido pela produção de ração,
como matéria prima para produção de outros produção de resina, produção de detergente
produtos, como por exemplo, o biodiesel. e por fim, a produção de biodiesel.
Partindo desse pressuposto, decidiu-se
Por fim, é válido salientar que foi a sugerido
avaliar em uma microempresa qual seria a
ao proprietário da empresa que promova
melhor destinação sustentável para este
futuramente parcerias com outras empresas
resíduo.
para o aproveitamento do óleo de fritura como
Manuseando a ferramenta M-MACBETH matéria prima na fabricação de outros
montou-se primeiramente as opções, e em produtos, a fim de aumentar seus lucros,
seguida foram analisados os critérios assim como contribuir de forma sustentável
envolvidos, bem como os pesos de cada com a sociedade e o meio ambiente.
critério no M-M-MACBETH, com o intuito de
descobri qual a melhor opção sustentável de
reaproveitamento do óleo para a empresa.

Sustentabilidade e Responsabilidade Social - Volume 7


53

REFERÊNCIAS [8] ESTRAZULAS, TIAGO SEVERO.et al.


Fluxograma do processo de produção de
[1] ALBERICI, R. M. Reciclagem de óleo biodiesel usando óleo de cozinha e licor
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Ambiental – CREUPI. Engenharia Ambiental: PRODUCAO. Engenharia de Produção,
Pesquisa e Tecnologia. Espírito Santo do Infraestrutura e Desenvolvimento Sustentável:
Pinhal, SP, 2004. a Agenda Brasil+10.Curitiba, PR, Brasil, 07 a
10 de outubro de 2014.
[2] ALMEIDA, A. T. Processo de Decisão nas
Organizações: construindo modelos de [9] FIPA. Boletim informativo da Federação das
decisão multicritério. São Paulo: Atlas, 2013. Indústrias Portuguesas Agro-Alimentares,
2007. Disponível em
[3] BALDASSO, E.; PARADELA, A. L.; HUSSAR, G.
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J. Reaproveitamento de óleo de fritura na
Acesso em 20 de novembro de 2014
fabricação de sabão. Engenharia Ambiental -
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2010. COSTA, A. P. C. S. Priorização de Projetos
Socialmente Sustentáveis: uma abordagem
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multicritério. In: Anais do XXXIII Encontro
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Nacional de Engenharia de Produção,
adoção sustentabilidade nos negócios. Jornal
Salvador, 2013.
de Negócios, v. 10, n. 2, pp. 231-245, 2012.
[11] ROY, BUYSSOU D. A Avaliação do
[5] CAVALCANTE, R. M. Predição da Densidade
Desenvolvimento Socioeconômico, MANUAL
de Biodiesel Proveniente de Diferentes
TÉCNICO II: Métodos e Técnicas. Instrumentos
Matérias-Primas. Dissertação (Mestrado em
de Enquadramento das Conclusões da
Tecnologia de Processos Químicos e
Avaliação: Análise Multicritério, 1993.
Bioquímicos) – Universidade Federal do Rio de
Janeiro, Escola de Química, Rio de Janeiro, [12] TEIXEIRA, A. C. Lixo ou rejeitos
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XIV, Edição 87, Fevereiro 2004.
[6] COMISSÃO MUNDIAL SOBRE MEIO
AMBIENTE E DESENVOLVIMENTO. Relatório [13] TACHIZAWA, TAKESHY. Gestão Ambiental e
Brundtland: nosso futuro em comum. 2ª ed., Responsabilidade Social Corporativa:
Rio de Janeiro: Editora da Fundação Getúlio estratégias de negócio focadas na realidade
Vargas, 1991. brasileira. 3ª ed. São Paulo: Atlas, 2005.
[7] COSTA, CARLOS A. BANA E COsta . et al [14] VALLE, C. E. Qualidade Ambiental: ISO 14
.Manual do usuário M-MACBETH versão 1.1, 000. São Paulo: SENAC, 2002.
2005.

Sustentabilidade e Responsabilidade Social - Volume 7


INTERAÇÃO UNIVERSIDADE-EMPRESA: O MODELO
TRIPLE HELIX COMO FONTE DE SUCESSO PARA UMA
PEQUENA EMPRESA ECO-INOVADORA

Mary Fernanda Sousa Melo


Willerson Lucas Campos-Silva
Roberta Castro Souza
Adriane Angélica Farias Santos Lopes de Queiroz

Resumo: Este artigo tem como objetivo analisar a interação Universidade-Empresa-


Governo como base para o sucesso de uma pequena empresa eco-inovadora, a
partir do caso da empresa Brasil Ozônio. Para alcance deste a pesquisa teve uma
abordagem qualitativa, com estudo de caso e o instrumento de coleta de dados foi
entrevista semi-estruturada, a qual foi analisada por meio da técnica de análise do
discurso. Como principais resultados o estudo trouxe que é possível que a
sustentabilidade aconteça em pequenas empresas de forma proporcionalmente tão
ampla quanto nas grandes empresas, no que tange a atenção aos fornecedores,
produto, processo, tecnologia e até possibilidade de exportação. Os principais
motivadores da relação Universidade – Empresa, no caso da empresa estudada
foram, além de redução de risco, acesso a recursos humanos qualificados e a
laboratórios e instalação, a melhoria de sua imagem e prestígio dentro da
sociedade. A principal barreira observada foi a burocracia universitária. Quanto aos
principais facilitadores tem-se o acesso aos fundos governamentais de apoio à
pesquisa, onde é colocado o papel do Governo na interação e, o debate entre os
diferentes níveis de conhecimento e resultados da pesquisa. Por fim a principal
dificuldade presente tanto do processo inovativo quanto na interação U-E-G, foi à
questão cultural.

Palavras-chaves: Hélice Tríplice; Inovação; Pequena empresa; Sustentabilidade.


Sustentabilidade e Responsabilidade Social - Volume 7
55

1. INTRODUÇÃO responder o problema de pesquisa, o estudo


traz como objetivo geral: analisar a interação
É crescente a preocupação da sociedade Universidade-Empresa-Governo como base
quanto a um desenvolvimento que seja para o sucesso de uma pequena empresa
sustentável e, em resposta as pressões do eco-inovadora, a partir do caso da empresa
mercado, as empresas vem agindo de forma Brasil Ozônio.
a atender essa demanda (VEIGA; RIOS,
2009). Ações proativas de prevenção de
emissões, redução dos impactos ambientais e 2. O MODELO TRIPLE HELIX
sociais, são alguns dos exemplos das
práticas adotadas pelas empresas. E, é neste O modelo Triple Helix é uma abordagem,
cenário que o termo eco-inovação traz para desenvolvida por Henry Etzkowitz e Loet
os gestores uma forma de combinar as Leydesdorff, na década de 90, baseada na
mudanças tecnológicas e não tecnológicas perspectiva de que três agentes:
de modo a produzir benefícios a todos os universidade, empresas/indústrias e governo
stakeholders da empresa (Organization for (U-E-G) devem interagir entre si, ampliando
Economic Co-Operation and development, sua atuação além do que é tradicionalmente
2009). proposto, focando na geração de inovação
(LEYDESDORFF; ETZKOWITZ, 1998;
Autores como Andersen (2008) e Reid e
ETZKOWITZ, 2004). Para Leydesdorff e
Miedzinski (2008), concordam ao dizer que a
Etzkowitz (1998) a inovação é resultante de
pesquisa sobre eco-inovação, mesmo sendo
um processo complexo e dinâmico de
um tema rico, ainda está no início de seu
experiências nas relações entre U-E-G, em
percurso, tendo muito a ser conhecido. Sendo
uma espiral de “transições sem fim”.
assim, o presente artigo vem como forma de
contribuir no preenchimento da lacuna Devido a dinamicidade da inovação, seu
existente no tema, em especial ao relacionar entendimento deve ser feito baseado em
os modelos Triple Helix e de interação diferentes pontos de vistas, independentes,
Universidade – Empresa (BONACCORSI; porém complementares, para uma maior
PICCALUGA, 1994; ETZKOWITZ; efetividade no seu alcance (LEYDESDORFF;
LEYDESDORFF, 1995) como sendo base para ETZKOWITZ, 1998). Na visão dos criadores
o sucesso de uma pequena empresa eco- do modelo, a Universidade deve ser vista
inovadora. como indutora das relações com as Empresas
e o Governo (setor regulador e fomentador da
Tão escassos quanto os estudos
atividade econômica), visando à produção de
aprofundados sobre eco-inovação, são os
novos conhecimentos, a inovação tecnológica
que tratam da sustentabilidade em pequenas
e o desenvolvimento econômico.
e médias empresas (PME), mesmo sendo
essas capazes de fazer a integração de A base do modelo é a interinstitucionalidade,
questões sociais e ambientais em suas tendo os atores cada vez mais uma
estratégias (MOORE; MANRING, 2009). É proximidade nas relações, não sendo um
neste momento que surge o possível apoio do superior ou submisso ao outro, mas sim
que é proposto pelo modelo Triple Helix de complementares no esforço de embasar a
Etzkowitz e Leydesdorff (1995), que foca na inovação do país (LEYDESDORFF;
relação de transições sem fim entre ETZKOWITZ, 1998). A representação da ideia
Universidade, Empresa e Governo, com o do modelo Triple Helix é um espiral com três
intuito de produzir inovação. linhas, que visa demonstrar as relações
múltiplas e recíprocas existentes entre U-E-G,
Assim, optou-se por estudar a realidade de
sendo a inovação seu resultado
um pequena empresa eco-inovadora, a qual
(LEYDESDORFF; ETZKOWITZ, 1998).
apresentaria as duas realidades, tanto a
dificuldade de lidar com a eco-inovação,
quando o próprio fato de ser pequena
3. A RELAÇÃO UNIVERSIDADE-EMPRESA
empresa. Com base no exposto surge o
problema de pesquisa: como a interação
Uma forma de interação que está
Universidade-Empresa-Governo pode
compreendida no modelo Triple Helix
impactar no sucesso de uma pequena
(ETZKOWITZ; LEYDESDORFF, 1995), mas
empresa eco-inovadora? Com o intuito de
que possui literatura própria é a relação
Sustentabilidade e Responsabilidade Social - Volume 7
56

Universidade-Empresa. Essa relação é uma O presente estudo partiu do processo de


forma de arranjo interinstitucional entre cooperação proposto por Bonaccorsi e
organizações de natureza fundamentalmente Piccaluga (1994) é ilustrado na Figura 1, o
diferentes, com finalidades distintas e que qual retrata que o início da relação entre
ocorre de diversos formatos. Segundo Universidade e Empresas, é baseado em
Segatto-Mendes e Sbragia (2002), o conceito motivações, seguido do processo de
compreende desde interações com baixo cooperação, o qual é influenciado por
nível de compromisso tal como vagas de barreiras e facilitadores, finalizando na
estágios profissionalizantes, até vínculos satisfação resultante da integração.
fortes, como os grandes programas de
pesquisa cooperativa.

Figura 1. Processo de cooperação Universidade – Empresa

Processo de Satisfação
Motivações
cooperação resultante

Barreiras e/ou
Facilitadores

Fonte: Baseado em Bonaccorsi; Piccaluga (1994)

Segatto-Mendes e Sbragia (2002) propuseram na atual economia global. Essa globalização


uma série de fatores que podem ser traz como exigência, em resposta às pressões
entendidos como: barreiras, facilitadores e dos stakeholders, a inserção da
não influenciadores na relação Universidade- sustentabilidade nas inovações, para que as
Empresa. Dentre eles, serão utilizados nesta empresas se tornem mais ambiental e
pesquisa os seguintes fatores: localização socialmente responsáveis, proporcionando
geográfica da universidade; elevado grau de assim uma nova fonte de inovações e
incerteza do projeto; burocracia universitária; vantagem competitiva (HANSEN; GROSSE-
propriedade de patente e de resultados da DUNKER; REICHWALD, 2009).
pesquisa; duração muito longa do projeto;
No entanto tem-se que apenas uma minoria
incentivos fiscais existentes; fundos
das empresas consideram a sustentabilidade
governamentais de apoio à pesquisa (FINEP,
como uma fonte de inovação (HOCKERTS;
CNPq, BNDES...); sistema de distribuição de
MORSING, 2008), mesmo ela apresentando
benefícios financeiros da universidade e;
diferentes potenciais de mercado, tais como:
diferenças de nível de conhecimento entre as
redução de custos através de aumento de
pessoas da universidade e da empresa
eficiência, redução de riscos, segurança no
envolvidas na cooperação.
planejamento, garantia de legitimidade,
captação de novos segmentos de clientes e
desenvolvimento de novos produtos e
4. A INSERÇÃO DO ECO À INOVAÇÃO
segmentos de negócio (HOCKERTS;
MORSING, 2008; MCWILLIAMS; SIEGEL,
Há quase duas décadas Porter e Van der
2001).
Linde (1995) já ressaltavam que a resistência
a inovação levaria a perda de competitividade
Sustentabilidade e Responsabilidade Social - Volume 7
57

De acordo com Machiba (2012), a evolução observar na 6ª delas a integração do tema a


da inovação ocorre em ondas, onde pode-se questão da sustentabilidade (Figura 2).

Figura 2 – Ondas da Inovação

Fonte: Machiba (2012)

Esta junção entre inovação e sustentabilidade As questões relacionadas à sustentabilidade


deu origem a um novo termo chamado de podem significar tanto benefícios, quanto
eco-inovação. A definição deste termo é grandes esforços para as PME (KLENITZ;
baseada no conceito de inovação, tendo HANSEN, 2013). Um exemplo de benefício
como complemento: a diminuição dos seria a redução de custos, ao utilizar métodos
impactos ambientais (JAMES, 1997); a de eco-eficiência ou pela percepção de
redução de riscos, poluição e impactos vantagem competitiva advinda da produção e
ambientais negativos (RENNINGS, 1998; comercialização de produtos eco-inovadores
KEMP; FOXON, 2007); a atração de rendas de sucesso. Complementando as
verdes no mercado (ANDERSEN, 2008; características vantajosas das PME em
FOXON; ANDERSEN, 2009); melhoria do comparação as grandes empresas têm-se,
desempenho ambiental (KÖNNÖLÄ; segundo Bos-Brouwers (2010), os tipos
CARRILLO-HERMOSILLA; GONZALEZ, 2008) informais de comunicação e as estruturas
e, melhoria da qualidade de vida, com o flexíveis e enxutas de organização, as quais
mínimo de liberação de substâncias tóxicas dão agilidade à tomada de decisão ao reduzir
(REID; MIEDZINSKI, 2008). a burocracias nas questões ambientais e
sociais.
Já no que diz respeito ao esforço, as PME
5. PEQUENAS E MÉDIAS EMPRESAS
estão em desvantagem em relação às
grandes devido as limitações de recursos, de
O desenvolvimento sustentável não é mais
capital humano, de infra-estrutura e o fato de
apenas uma obrigação e um desafio das
possuírem uma gestão informal da
grandes corporações, mas também as
sustentabilidade (JENKINS, 2004). Estas
pequenas e médias empresas (PME) são
dificuldades acabam por colocar muitas das
desafiadas a contribuir para o seu alcance
PME no comportamento estratégico
(JAMALI et al, 2009). Para a realidade das
sustentável denominado reativo,
PMEs, a preocupação com a sustentabilidade
apresentando inovações mais incrementais do
pode significar grandes oportunidades de
que radicais (KLENITZ; HANSEN, 2013).
negócios, ao atingirem nichos de mercados e
trabalharem com tecnologias específicas, que Uma forma de lidar com as questões que
não são foco das grandes corporações. deixam as PME em desvantagem quanto ao

Sustentabilidade e Responsabilidade Social - Volume 7


58

desenvolvimento sustentável, seria essas prima o ar, como resíduo o oxigênio e baixo
fazerem parcerias com terceiros, tais como consumo de energia (PEQUENAS EMPRESAS
universidades, órgãos governamentais ou & GRANDES NEGÓCIOS, 2013).
consultorias, objetivando ter acesso ao
A Brasil Ozônio, criada no ano de 2003 e
conhecimento que seria impossível, ou muito
tendo apoio do Centro Incubador de
custoso conseguir de forma individual
Empresas Tecnológicas (CIETEC) da
(JENKINS, 2004; VALLIERE, 2006).
Universidade de São Paulo, abriu as portas
para o mercado em 2007. Com menos de
uma década de comercialização, a empresa
6. PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS
já possui como clientes, além de grandes
pontos turísticos do Estado de São Paulo
A pesquisa apresenta uma abordagem
como o Aquário e o Zoológico de SP, as
qualitativa, quanto aos fins, ela possui caráter
principais multinacionais com atuação no
exploratório-descritivo e, quanto aos meios, é
país, tais como: Bunge, Unilever, Mc
caracterizada como estudo de caso
Donald’s, Coca-Cola e 3M (BRASIL OZÔNIO,
(VERGARA, 2013). O caso estudado será uma
2014).
pequena empresa eco-inovadora sediada na
Universidade de São Paulo (USP) que atua,
dentre outros, com processos de tratamento,
7.1 ECO-INOVAÇÃO NA EMPRESA BRASIL
sanitização, esterilização e oxidação por meio
do sistema BRO3, o qual utiliza o ozônio como OZÔNIO
principal agente.
Quando questionado a respeito do tipo de
Para tal, foi utilizado como instrumento para
inovação (foi utilizado o termo “inovação” e
coleta de dados, entrevista semi-estruturada
não “eco-inovação” na questão, devido a
(CERVO; BERVIAN, 1996). A entrevista foi
proximidade da definição dos mesmos, sendo
realizada com o proprietário Samy Menasce,
a diferença feita pela interpretação do
escolhido devido ao seu total conhecimento
pesquisador) percebido na realidade da
da atuação da empresa desde o início de
empresa, o entrevistado respondeu que: “Nós
suas operações, vinculado a possibilidade de
temos uma inovação dupla, porque é uma
analisar a percepção de um gestor que
tecnologia nova e um produto novo”. Fazendo
participa desde o nível estratégico ao nível
um paralelo com a teoria, percebe-se que a
operacional.
empresa se enquadra nas eco-inovações
Quanto à análise dos dados foi utilizada a tecnológicas propostas por Rennings (1998)
técnica de análise de discurso (VERGARA, ao utilizar uma tecnologia totalmente nova, em
2005). A partir da análise foram observadas especial para a realidade brasileira.
as relações existentes tendo como base o que
A Brasil Ozônio também se enquadra nas
foi dito pelo proprietário a respeito do
eco-inovações de produto alternativo de
surgimento do negócio eco-inovador na
Andersen (2008) e nas inovações em
realidade de uma pequena empresa, bem
produtos e serviços que oferecem benefícios
como das pressões para a adoção de uma
ambientais de Kemp e Foxon (2007), por
postura sustentável frente o mercado,
trazer uma nova forma de tratar um bem
relacionando esta percepção com a teoria,
comum essencial a todo ser vivo, a água.
originando assim um quadro comparativo.
Além disso, a empresa se enquadra na
dimensão de produto e serviço de Könnölä,
Carrillo-Hermosilla e Gonzalez (2008) ao
7. APRESENTAÇÃO E DISCUSSÃO DOS
colocar no mercado não apenas um produto
RESULTADOS eco-inovador, mas também preocupado com
a forma de entregá-lo pois “não tem
Esta pesquisa teve como objeto de estudo a movimentação de nada para você levar e
empresa Brasil Ozônio que está entre as 99 fazer o sistema funcionar lá, ele gera o ozônio
principais empresas inovadoras do Estado de no local da aplicação”.
São Paulo, sendo referência para outras
Ao ser questionado a respeito dos problemas
empresas ou para outros setores (FRANZOSI,
observados pelo desenvolvimento de uma
2009). Além de inovadora a empresa possui a
eco-inovação, o entrevistado ressaltou que o
vertente sustentável, pois tem como matéria
problema é cultural, pelo receio do que é
Sustentabilidade e Responsabilidade Social - Volume 7
59

novo, além da ausência de legislações que Etzkowitz e Leydesdorff (1995), os dados


abranjam seu produto. Outro ponto que cabe empíricos corroboram com a teoria pois, foi
destaque quanto aos problemas culturais é o observado que a Universidade agiu como
da falta de consciência ambiental de parte da indutora das relações com as Empresas e o
população, sendo em especial os gestores de Governo, com o objetivo de produzir novos
empresas os que observam o cuidado com a conhecimentos, a inovação tecnológica e o
natureza como tendo um baixo nível de desenvolvimento econômico.
atenção. O entrevistado coloca que “o
Dentre os fatores motivadores para que
problema é mais cultural [...] infelizmente a
ocorra a interação entre a Universidade e a
contaminação no Brasil ainda é vista como
Empresa, de acordo com as variáveis
dá-se um jeito”, o que pode ser entendido
propostas por Sbragia (2006), pode-se
como um problema quanto a demanda de
destacar três pontos. O primeiro ponto
produtos eco-inovadores.
compreende a variável “redução de risco e
Contudo, mesmo com os gestores não agindo custos de pesquisa”, onde o pesquisado ao
de forma proativa, como por exemplo tratando afirmar que "é muito importante, quem faz um
e reutilizando a água ao invés de descartá-la desenvolvimento tecnológico, na minha
na natureza de maneira incorreta, as opinião, não pode ficar longe, fora de uma
mudanças climáticas se apresentam como universidade”, reforça o fato de que o
uma oportunidade para as pequenas conhecimento proporcionado pela
empresas. Ao ser tratado o tema de Universidade é um diferencial para as
continuidade do negócio da empresa o empresas de tecnologia, em especial para as
respondente trouxe que “(a empresa) não tem pequenas empresas que não possuem renda
limite, e vai crescer, a própria natureza até suficiente para investir em planejamento e
hoje ajuda, por exemplo: a gente já tratava desenvolvimento.
água de chuva há muito tempo em empresas
O segundo ponto que cabe destaque é
que tiveram uma visão da necessidade futura
quanto as variáveis “janela ou antena
há quase 5 anos, agora todo mundo vem
tecnológica (conhecer os avanços em sua
querer tratar água de chuva mas não tem
área de atuação)” e “acesso precoce a
chuva. Mas todo mundo já percebeu que
resultados de pesquisa”. Neste ponto o
tratar água de chuva é uma grande saída”.
respondente disse que são fatores altamente
Um aspecto interessante extraído do discurso motivadores, porém que só acontecem se o
analisado foi o de que mesmo se tratando de empresário corre atrás, ressaltando que a
uma pequena empresa, o cuidado com a Universidade tem muito a oferecer, mas as
sustentabilidade numa visão de cadeia pode próprias empresas da Incubadora não sabem
ser visto, tal como na realidade de grandes utilizar os recursos e benefícios disponíveis.
empresas. O entrevistado ressaltou que
Como último ponto a ser destacado dentre os
“quanto a fornecedores eu diria que hoje a
motivadores está a variável “melhoria de sua
gente consegue que uma boa parte, 60, 70%
imagem e prestígio dentro da sociedade”,
dos fornecedores também nos deem garantia
onde o entrevistado afirmou que “a gente nem
de não utilizar trabalho infantil, de terem
seria recebido pelas empresas no início se
certificações, então nós temos também um
não tivesse o carimbo da USP [...] hoje não
bom approach de sustentabilidade daqui pra
mais porque nós temos o nosso nome, mas no
fora e de fora pra dentro”.
inicio muito importante”. Observa-se que a
interação Universidade–Empresa reforça a
confiabilidade da empresa, ao demonstrar
7.2 INTERAÇÃO UNIVERSIDADE – EMPRESA
que esta está preocupada com a atualização
– GOVERNO, O CASO BRASIL OZÔNIO do conhecimento e ainda que suas
tecnologias já foram testadas em laboratórios
A interação direta observada no caso Brasil científicos.
Ozônio ocorreu entre a Universidade,
Quanto aos tipos de relacionamento
representada pela Incubadora e a própria
observados entre a Universidade e a Empresa
empresa, sendo o Governo um elemento
estudada, de acordo com as modalidades
chave para que o sucesso ocorresse, por
propostas por Bonaccorsi e Piccaluga (1994),
meio do apoio financeiro. Dessa forma,
o Quadro 1 traz duas formas, sendo
fazendo um paralelo com a ideia proposta por
Sustentabilidade e Responsabilidade Social - Volume 7
60

exemplificados com trechos do discurso do entrevistado.

Quadro 2. Modalidades de Relacionamento entre a Universidade e a Empresa


observadas na Brasil Ozônio

Tipos de relações Descrição Exemplos

Relação de parceria via terceiros sob a


forma de associações industriais,
Envolvimento de uma
institutos de pesquisa aplicada, escritórios “Ai entra o CIETEC, que foi
instituição de
de assistência social, consultoria realmente a melhor coisa”
intermediação
institucional (companhias/fundações
universitárias)

Criação de estruturas Parques tecnológicos, institutos, “porque não existia essa


próprias para a laboratórios, incubadoras de empresas, figura, e a gente inventou
interação consórcios de pesquisa. um parque pré tecnológico”

Fonte: elaborado pelos autores

Ao ser questionado a respeito dos fatores que questão cabe ressaltar a presença do
podem ser facilitadores, barreiras ou não Governo, sendo este essencial para a
influenciadores na relação Universidade– execução das pesquisas ao financiá-las,
Empresa, de acordo com a teoria proposta permitindo assim que, em especial, as
por Segatto-Mendes e Sbragia (2002), as pequenas empresas tenham suporte para
respostas originaram o Quadro 2. Nesta colocar em prática suas ideias inovadoras.

Quadro 2 – Facilitadores, barreiras e não influenciadores na interação U-E no caso Brasil Ozônio
Fatores
Localização geográfica da universidade
Elevado grau de incerteza do projeto
Propriedade de patente e de resultados da pesquisa

Facilitadores Duração muito longa do projeto


Fundos governamentais de apoio à pesquisa (FINEP, CNPq,
BNDES...)
Diferenças de nível de conhecimento entre as pessoas da
universidade e da empresa envolvidas na cooperação
Barreiras Burocracia universitária
Incentivos fiscais existentes
Não Influenciam Sistema de distribuição de benefícios financeiros da
universidade
Fonte: elaborado pela autora baseado em Segatto-Mendes e Sbragia (2002).

Por fim, os dados empíricos permitiram a ser observado a partir do discurso do


elaboração do Quadro 3, que é o resumo entrevistado. Sendo que o único ponto que a
entre o que é trazido pela teoria e o que pode visão empresarial não corrobora totalmente

Sustentabilidade e Responsabilidade Social - Volume 7


61

com a teoria é quanto a variável “a atual visão que é possível que a sustentabilidade
da sustentabilidade nas empresas” pois, aconteça em PME de forma
mesmo a literatura apresentando que o futuro proporcionalmente tão ampla quanto nas
das empresas será baseado na atuação grandes empresas, no que tange a atenção
sustentável das mesmas, sendo isto uma aos fornecedores, produto, processo,
fonte de vantagem competitiva, a realidade tecnologia e até possibilidade de exportação.
empresarial traz que ainda não se paga mais
A análise possibilitou verificar quais eram os
por esse diferencial.
principais motivadores da relação
Universidade – Empresa, no caso da Brasil
Ozônio foram, além de redução de risco,
8. CONCLUSÃO
acesso a recursos humanos qualificados e a
laboratórios e instalação, a melhoria de sua
O objetivo desta pesquisa foi analisar a
imagem e prestígio dentro da sociedade o
interação Universidade-Empresa-Governo
principal motivador ressaltado pelo
como base para o sucesso de uma pequena
respondente.
empresa eco-inovadora, a partir do caso da
empresa Brasil Ozônio. Este estudo trouxe

Quadro 3 - Comparativo entre o conhecimento teórico e empírico a respeito da influência da


sustentabilidade e da interação U-E-G no desempenho da empresa eco-inovadora.
Variáveis Conhecimento teórico Conhecimento empírico
“via de regra tem sido a
“um produto totalmente novo, a gente
empresa que bate a porta das
Contato empresa nem tinha muito espaço para entrar no
Instituições, apresenta os
- Universidade mercado e comparar, e dai então eu
desafios e as solicitações”
tomei a decisão de vir para o CIETEC”
(LIMA; FIALHO, 2009 p. 47).
Entrevistado falando sobre a visão da
Coca-Cola quanto a manter grandes
reservatórios de água: “Mas eles
falaram não, aqui chove muito e é uma
garantia para nós. E hoje a gente vê
Antecipação às que eles eram visionários né”
Vantagens de se adotar uma
pressões/risco
agenda de sustentabilidade “redução de riscos e custos de
incorporada à estratégia pesquisa [...] é muito importante, quem
empresarial: “antecipação a faz um desenvolvimento tecnológico,
pressões legais e da na minha opinião, não pode ficar
sociedade; facilidade no longe, fora de uma universidade”
acesso ao capital; menor
exposição a riscos; impacto “a gente acabou de aprovar mais um
positivo na reputação” projeto FAPESP agora de 400 mil, tem
Acesso a capital
(BM&FBOVESPA, 2010 p. 9). em torno de 12 milhões já em termo de
projetos aprovados, a fundo perdido”
“Melhoria de imagem e prestígio 5 com
Melhoria de certeza, é, a gente nem seria recebido
imagem pelas empresas no início se não
tivesse o carimbo da USP”

Sustentabilidade e Responsabilidade Social - Volume 7


62

Quadro 3 - Comparativo entre o conhecimento teórico e empírico a respeito da influência da


sustentabilidade e da interação U-E-G no desempenho da empresa eco-inovadora. (Continuação)
Variáveis Conhecimento teórico Conhecimento empírico
“o ponto principal não era só a
O alcance de novos mercados
empresa pequena estar numa boa
por meio de exportações para
Vendas externas condição, estar se desenvolvendo e
países com leis ambientais
inovando, mas sim como faria para
mais rígidas (ROSEN, 2011).
exportar com sustentabilidade”
Fato resultante da ausência de
alinhamento de ideias e
“A grande dificuldade que a gente teve
imposições feitas pelas
no início, agora menos, é cultural de
universidades há, no começo
Questão cultural novo, porque o pesquisador, ele no
da relação entre esta e a
Brasil é formado com uma mentalidade
empresa, uma diferença de
de pesquisa e não de negócio”
linguagem ou conflito cultural
(SBRAGIA, 2006).
“quando chegamos nos 2 anos, eu
cheguei pra eles e falei: olha, hoje o
As relações entre a meu cartão de apresentação é o fato
universidade, indústria e de estar na USP, [...] não estou
Continuidade da governo são continuamente suficientemente desenvolvido pra sair
relação reformuladas em "uma daqui e não poder mais apresentar no
universidade - transição sem fim" para meu cartão de visitas a USP. Do outro
empresa melhorar a inovação lado o CIETEC diz também olha, nós
(ETZKOWITZ; LEYDESDORFF, temos problemas em conseguir que
1995). empresas em 2, 3 anos saiam daqui
com sucesso, [...] então nós queremos
também que você fique”
No Triple Helix as agências
governamentais devem fazer,
“Tanto com CNPq quanto FAPESP
além da sua função tradicional
como BNDES, FUNCET, FUNTEC, é, a
de regulação e controle,
Relação com o gente acabou de aprovar mais um
investimentos e prestação de
governo projeto FAPESP agora de 400 mil, tem
capital de risco público, como
em torno de 12 milhões já em termo de
forma de auxiliar o a esfera
projetos aprovados, a fundo perdido”
empresarial (RANGA;
ETZKOWITZ, 2013).
Fonte: elaborado pelos autores.

A principal barreira observada foi a integrada para que aconteça tanto a


burocracia universitária, a qual não permite inovação, quanto a eco-inovação.
que aconteça a mesma agilidade percebida
A principal dificuldade, tanto do processo
no mundo dos negócios. Quanto aos
inovativo quanto na interação U-E-G, relatada
principais facilitadores tem-se o acesso aos
pelo entrevistado durante a pesquisa foi a
fundos governamentais de apoio à pesquisa,
questão cultural, onde a academia não coloca
onde é colocado o papel do Governo na
em seus pesquisadores a forma prática de
interação e, o debate entre os diferentes
seus estudos, faltando assim a relação com o
níveis de conhecimento e resultados da
mercado. Com relação a Universidade, a
pesquisa, mostrando a importância de
principal alternativa de melhoria seria a
acontecer o que é proposto pelo modelo
atualização do modo de ensino, de forma que
Triple Helix, as esferas U-E-G, indo além de
seja facilitada a interação entre empresários e
seus objetivos tradicionais e agindo de forma
pesquisadores. A Universidade poderia
Sustentabilidade e Responsabilidade Social - Volume 7
63

modificar a base da formação dos alunos, assim, como proposta para trabalhos futuros,
relacionando a pesquisa com a realidade a aplicação deste roteiro de entrevista a um
empresarial, colocando no programa de aula número maior de gestores advindos do
os assuntos que estão sendo requisitados CIETEC, bem como a elaboração de uma
pelo mercado, aumentando assim a pesquisa que agregue não apenas a visão
possibilidade de interação. dos gestores, mas sim que possua uma visão
multilateral, entrevistando também o lado
Como limitação do estudo tem-se a visão
governamental e universitário do caso em
unilateral no qual foi baseado. Sugere-se
questão.

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Sustentabilidade e Responsabilidade Social - Volume 7


AS VANTAGENS DA IMPLANTAÇÃO DA ENERGIA EÓLICA
NO INTERIOR DO PAÍS: COMPLEXO EÓLICO CHAPADA
DO ARARIPE

Fidel Barbosa Cardoso


Bentha Beatryz Carvalho Lima
Clicia Maria do Monte Batista
Caroline de Andrade Ribeiro

Resumo: O presente artigo tem por objetivo identificar quais características


proporcionaram ao estado do Piauí as condições necessárias para a implantação
de parques eólicos em seu interior com capacidades semelhantes a parques
localizados em regiões litorâneas. Assim sendo, tal estudo se baseia em revisões
bibliográficas e em uma pesquisa de campo realizada na forma de entrevista com
um representante do Complexo Eólico da Chapada do Araripe, apresentando
características, capacidade dos parques, e condições econômicas, sociais,
tecnológicas e ambientais da região na qual o parque está instalado. O resultado
confirma como a instalação de parques em regiões interioranas apesar de ainda
pouco convencional tem significativo impacto na minimização de resíduos sólidos,
emissão de dióxido de carbono e contribui positivamente para a modernização do
país, tornando-o mais sustentável. Dessa forma, a Engenharia de Produção é
fundamental para a gestão de recursos naturais e produção ecoeficiente, sendo
impreterível tanto para o complexo quanto para a comunidade local.

Palavras-chave: Energia eólica; Gestão de recursos naturais

Sustentabilidade e Responsabilidade Social - Volume 7


66

1. INTRODUÇÃO produção, dando importância tanto ao


desenvolvimento tecnológico como social e
A energia dos ventos pode ser explicada, em econômico, servindo de exemplo para outros
termos físicos, como a energia cinética estados que possuem condições semelhantes
formada nas massas de ar em movimento. no interior do Brasil e, assim, possibilitar a
Seu aproveitamento é feito por meio da construção de mais parques eólicos e
conversão da energia cinética de translação incentivando o desenvolvimento tecnológico,
em energia cinética de rotação. Para a visando um maior aproveitamento desse
produção de energia elétrica, são utilizadas recurso natural: o vento.
turbinas eólicas, também conhecidas como
O presente artigo teve como região de análise
aerogeradores, e para a realização de
o Complexo Eólico da Chapada do Araripe, e
trabalhos mecânicos, cata-ventos de diversos
espera-se que o exemplo de sucesso sirva de
tipos (Alves, 2006).
incentivo para a instalação de parques eólicos
Segundo o Conselho Global de Energia Eólica em regiões não litorâneas do país. Outro fator
(GWEC), o Brasil ocupa a décima primeira que contribui para a interiorização dos
posição entre os países com a maior parques é que suas instalações são rápidas
capacidade de energia eólica instalada, já em quando comparadas com outras fontes e a
relação à expansão anual, ocupa a quarta energia gerada é a segunda mais barata do
posição entre os que têm mais megawatts país, atrás apenas da energia hidrelétrica.
eólicos operando. Levando em conta também
o que diz a Associação Nacional de Energia
Elétrica (ANEEL), dentre os estados da 2. O COMPLEXO EÓLICO DA CHAPADA DO
federação, o Piauí, apesar de sua pequena
ARARIPE
faixa litorânea, ocupa a sétima posição entre
os maiores responsáveis pela produção total
2.1. CAPACIDADE EÓLICA NO INTERIOR
de energia eólica no Brasil. Os dados dos
rankings mostram como é crescente a
O Nordeste Brasileiro aparece como destaque
utilização da energia eólica como método
na produção de energia eólica, sendo o Piauí
alternativo, em função de tal energia não
um dos estados com significativa contribuição
emitir dióxido de carbono na atmosfera
e que vem recebendo muitos investimentos.
quando comparada com outras fontes
Com um total de 88 MW em operação,
energéticas. Dessa forma, sendo possível
produzido por parques eólicos, o estado dá
complementar nossas necessidades
sua contribuição para a produção de energia
energéticas e diminuir os impactos ambientais
provida dos ventos. Felizmente, esse cenário
que seriam resultantes do uso de energias
deve mudar para melhor em breve, tendo em
não renováveis.
vista que ocorrerá a construção de mais
Outro fato relevante sobre a construção de parques eólicos, principalmente os do
parques eólicos é que a maioria ocorre em Complexo Eólico da Chapada do Araripe.
litorais, já que os ventos nesses locais
Tal complexo abrange os municípios de
tendem, por fatores geográficos, a serem
Simões, Padre Marcos e Marcolândia e é
mais fortes e constantes, tornando a produção
dividido em dois blocos: o Norte e o Sul,
de energia com aerogeradores mais viável.
resultando em 14 parques eólicos, cada um
Porém, a partir de estudos realizados no
possuindo capacidade produtiva média de
estado do Piauí, foram descobertas regiões
420MW. O Bloco Norte, localizado em Simões,
no interior do estado que são propícias à
Padre Marcos e Marcolândia, foi vendido para
implantação desse método de produção de
as empresas Contour Global e Chesf, sendo
energia, com a mesma eficiência de parques
que a Casa dos Ventos, ainda continuou com
localizados nas regiões litorâneas, sendo esse
uma pequena porcentagem no projeto. O
o motivo de que mesmo havendo pequena
bloco Sul, localizado em Simões, foi
faixa costeira, o estado está entre os maiores
comercializado para a operadora inglesa
geradores de energia eólica do país.
Cubico Sustainable Investments.
Deste modo, este estudo visa identificar as
De acordo com estudos realizados pela
características que fizeram o estado do Piauí
empresa Geoconsult, a partir da implantação
ser um grande gerador de energia eólica,
de torres anemométricas que captaram
principalmente na visão de um engenheiro de
durante um período médio de três anos a
Sustentabilidade e Responsabilidade Social - Volume 7
67

velocidade dos ventos na região sudeste do tecnológico e ao desenvolvimento de áreas


estado do Piauí, chegou-se à conclusão de que são ainda relativamente pouco
que a velocidade dos ventos locais supriam o exploradas na região, como a engenharia de
valor mínimo necessário. Silva (2003), afirma produção, que pode fomentar vários estudos
que no litoral Piauiense os ventos possuem e o desenvolvimento de conhecimento técnico
uma variação de 7 a 9,5 m/s, sendo uma boa e cientifico. Havendo, assim, a necessidade
quantidade para o fornecimento de energia de profissionais especializados, resultando no
para movimentar os aerogeradores. Na região incentivo à criação de cursos técnicos e
do Complexo, que está localizado na superiores, como os propostos pela
Chapada do Araripe, os ventos tem uma Universidade Federal do Piauí.
velocidade média de 8 m/s, observando-se
Para Sastresa apud Simas; Pacca (2013), no
que possuem velocidades semelhantes.
que diz respeito aos empregos locais, para
Outros fatores importantes para a geração de
aumentar a sua geração são necessárias
energia eólica foram constatados a partir da
duas abordagens. A busca por inovação, que
pesquisa anteriormente citada, são eles:
ao trazer o desenvolvimento tecnológico para
constância desses ventos durante o ano todo,
o nível regional cria empregos estáveis e de
sua unidirecionalidade e não apresentarem
alta qualificação, e o investimento em
turbulências ou condições extremas, tais
capacitação para aumentar o número de
como tufões.
trabalhadores locais em instalação e
comissionamento, com a finalidade de reduzir
a quantidade de trabalhadores vindos de
2.2. CRESCIMENTO EDUCACIONAL,
outros locais, dando oportunidade para os
TECNOLÓGICO E ECONÔMICO moradores da região. Assim, a imigração de
mão de obra advinda de outros estados será
Com a construção do Complexo, a minimizada e o foco estará no aumento de
implantação de empresas e a consequente pessoas locais empregadas e especializadas.
chegada de trabalhadores, as cidades
Também é valido ressaltar que a construção
contempladas por tal projeto estão passando
de parques eólicos demanda grande
por fases de desenvolvimento, seja no
quantidade de água, devido ao alto consumo
aspecto econômico, educacional ou social.
de concreto. Ainda de acordo com Simas e
Segundo Moama Simas, mestre em energia
Pacca:
pela Universidade de São Paulo e Sergio
Pacca, Professor associado da Escola de Em regiões semiáridas, como é o caso do
Artes, Ciências e Humanidades (EACH), interior do Nordeste, os poços abertos para a
dentre os benefícios percebidos pelos construção podem ser deixados para
moradores locais e pelos empreendedores, o consumo pela população local. As melhores
mais visível é o benefício dos proprietários práticas na construção de parques, como
das terras onde está instalado o parque essa, são inovadoras do ponto de vista de
eólico. Esses, no geral, assinam contratos de relacionamento com a comunidade e estão
locação com os investidores em energia ganhando cada vez mais espaço entre os
eólica, pelos quais recebem rendas mensais empreendedores, tornando-se uma atividade
ou anuais provenientes do arrendamento da com potencial para o desenvolvimento local.
terra, o que permite que continuem exercendo (SIMAS, M.; PACCA, S. 2012).
suas atividades econômicas, resultando no
Diante desse panorama, é essencial que se
investimento em melhorias na produção e na
avalie o impacto que o rápido crescimento do
infraestrutura da propriedade e maior
setor eólico terá sobre a economia brasileira,
facilidade para obtenção de créditos. Durante
especialmente em relação ao seu potencial
a etapa de construção pode-se citar ainda o
de geração de empregos e os impactos
benefício direto da população vizinha ao
sócios ambientais. De modo a formular e gerir
parque pelo consumo de bens e serviços,
políticas energéticas e industriais para o setor
especialmente alimentação e hospedagem.
eólico e avaliar a sua possível contribuição
Com tais avanços, é importante ressaltar a para o desenvolvimento sustentável.
influência que o Complexo do Araripe trará à
Para tornar mais acessível a construção do
educação, pois, sendo um projeto de
Complexo Eólico da Chapada do Araripe, em
tamanha relevância, torna-se fonte de
Simões–PI, foi criada e sancionada pelo
pesquisa e fomento ao conhecimento
Sustentabilidade e Responsabilidade Social - Volume 7
68

governo municipal, a Lei nº 551/2013 que De acordo com o Estudo de Impacto


estabelece incentivos fiscais para instalação Ambiental (EIA) feito pela Geoconsult, o
de empreendimentos voltados para a geração Complexo Eólico da Chapada do Araripe
de energia eólica no município. Foi reduzido, mostra-se adequado tanto nos quesitos
assim, para 3% o imposto de ISS (Imposto técnico, como também ambiental e
Sobre Serviços) para atividade de construção econômico, tornando viável sua implantação e
civil na edificação de unidade industrial para operação. No entanto, houve algumas
fabricação de torres eólicas, bem como nas recomendações com o objetivo de integrar o
atividades de construção do parque eólico e empreendimento com o meio ambiente,
por fim foi concedida isenção de 10 anos do minimizando assim os impactos ambientais,
IPTU (Imposto Predial e Territorial Urbano). além de adotar programas de controle
específicos permanentes, como por exemplo,
o Plano de Gerenciamento de Resíduos
3. SUSTENTABILIDADE E POTENCIAL Sólidos, Programa de Controle de Efluentes e
Desmatamento, Programa de Educação
EÓLICO NO NORDESTE
Ambiental e Recuperação das Áreas
Degradadas.
Para a criação do Estudo de Impacto
Ambiental (EIA), foram necessárias três As condições em que os ventos se encontram
etapas: a fase de licença prévia, a de licença no Nordeste proporcionam um melhor
de instalação e a de operação. De acordo aproveitamento dos aerogeradores e
com tal estudo a vegetação local foi favorável, contribuem para reduzir custos de geração. A
visto que essa não tinha um grande porte e distribuição, especificações, modelos e
havia atividade agrícola no local, de forma potência dos mesmos podem ser observados
que não era uma área de mata virgem. no Quadro 1 conseguido em entrevista com
Mesmo assim, em todas as áreas que um representante do Complexo Eólico da
ocorreram desmatamento, houve o Chapada do Araripe . Cada parque tem em
acompanhamento de biólogos para resgatar e média 15 ou 16 aerogeradores, sendo que o
desvanecer a fauna local. bloco norte acumula 115 e o bloco sul 105
deles.

Quadro 1 – Especificações dos parques do Complexo Eólico da Chapada do Araripe

Quantidade de Modelo do Potência Altura Potência


Parque Eólico
Aeorogeradores Aerogerador Unitária do Hub Total

Ventos de Santa Joana IX


Ventos de Santa Joana X GE 1.85-
16 1.85 MW 80.0 m 29.6 MW
82.5
Ventos de Santa Joana XI
Ventos de Santa Joana XIII
Ventos de Santa Joana XII
GE 1.7-
Ventos de Santa Joana XV 17 1.7 MW 80.0 m 28.9 MW
100.0
Ventos de Santa Joana XVI
Ventos de Santa Joana II
Ventos de Santa Joana VI
Ventos de Santa Joana VIII Gamesa
Ventos de Santa Joana XIV 15 G97 2.0 MW 78.0 m 30.0 MW
Ventos de Santo Onofre I Class 2ª
Ventos de Santo Onofre II
Ventos de Santo Onofre III
Fonte: Adaptado de entrevista com representante do Complexo Eólico da Chapada do Araripe.

Sustentabilidade e Responsabilidade Social - Volume 7


69

3.1 CONTRIBUIÇÃO DO COMPLEXO DA parques. A previsão é que, até 2017, o Piauí


produzirá 10,4% da energia eólica consumida
CHAPADA DO ARARIPE
no país. Atualmente ele ocupa a sétima
posição no ranking nacional de energia
A partir da pesquisa, descobriu-se que cada
eólica, como pode se observar no Quadro 2,
componente do parque deve produzir em
com dados da ANEEL.
média 30 MW, os quais totalizam quatorze

Quadro 2 – Ranking da energia eólica nos estados produtores

Usinas Eólicas do Brasil - Valores em MW em 15/maio/2015

Estado Operando Construção A Iniciar Até 2018

RN 2.030.54 734.80 1.990.70 4.756.04

CE 1.231.17 290.70 1.150.90 2.672.77

RS 1.174.38 405.00 523.70 2.103.08

BA 959.29 830.01 2.677.70 4.467.00

SC 242.50 0.00 3.00 245.50

PE 106.65 228.30 637.60 972.55

PI 88.00 510.00 811.80 1.409.80

PB 69.00 0.00 0.00 69.00

SE 34.50 0.00 0.00 34.50

RJ 28.05 0.00 0.00 28.05

PR 2.50 0.00 0.00 2.50

MA 0.03 0.00 432.50 432.53

Brasil 5.966.61 2.998.81 8.227.90 17.193.32

Usinas 266 114 330 710

Fonte: Adaptado de: http://www.brasil247.com/pt/247/economia/181132/Brasil-atinge-recorde-na-


produ%C3%A7%C3%A3o-de-energia-e%C3%B3lica.htm

Após observar o Quadro 2, conclui-se que até 4. CONCLUSÃO


o ano de 2018, o Piauí deve saltar da sétima
para a quinta posição, produzindo um total de A partir das informações expostas nesse
1409 MW, ficando atrás apenas do Rio artigo foi possível observar que em regiões
Grande do Norte, Bahia, Ceará e Rio Grande com ventos unidirecionais, como as do
do Sul. Complexo Eólico da Chapada do Araripe, a
implantação de parques eólicos em regiões

Sustentabilidade e Responsabilidade Social - Volume 7


70

interioranas do país é viável, desde que sejam todas essas áreas, sendo ele o engenheiro de
realizados estudos para determinar se as produção.
mesmas possuem os requisitos necessários,
Além disso, o Complexo Eólico da Chapada
como uma boa velocidade e constância de
do Araripe pode servir de incentivo para a
ventos durante o ano todo, além de análises
instalação de fábricas no Piauí que visam a
socioambientais para garantir que não se
produção em massa de hélices, turbinas,
prejudique a fauna, flora ou a sociedade local.
torres e outros componentes de um
É notório ressaltar também que as aerogerador. Logo, com uma demanda
implantações de projetos como esse trazem crescente, há um estímulo na movimentação
crescimento local, como foi citado de capital no interior do estado, pois com o
anteriormente, a exemplo do desenvolvimento desenvolvimento desse tipo de indústria, a
educacional e financeiro para a região em compra de aerogeradores por parte dos
questão. Além disso, é possível ajudar a parques eólicos tende a se tornar mais
tornar a matriz enérgica brasileira mais econômica.
sustentável, diminuindo a utilização de
Assim, diversificando a matriz energética
energia a partir de hidrelétricas, que é a
brasileira, diminuindo os impactos ambientais
principal fonte de energia do país, não é tão
que seriam resultantes do uso de energias
limpa e depende das chuvas, o que se torna
não renováveis que geram resíduos sólidos e
perigoso pela atual crise hídrica em que
emitem dióxido de carbono (CO2) na
vivemos, assim pensando em todos os
atmosfera, o Complexo Eólico da Chapada do
aspectos, como já foi dito anteriormente,
Araripe deixará de lançar 2,85 mil toneladas
sociais, econômicos e tecnológicos,
de gases poluentes por ano, contribuindo
necessitando da participação de um
dessa forma para um país mais limpo e
profissional que tenha conhecimento em
sustentável.

REFERÊNCIAS [4] GWEC.Brasil deve liderar performance do


mercado eólico na América Latina. Disponível em:
[1] ALVES, Jose JaksonAmancio. Estimativa <http://www.gwec.net/gwec-brasil-deve-liderar-
da potência, perspectiva e sustentabilidade da performance-mercado-eolico-na-america-latina/>.
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Tese (Doutorado em Processos Ambientais) –
[5] LIMA,E.Energia: Simões aprova lei de
Universidade Federal de Campina Grande,
incentivo fiscal para construção de parque eólico
Campina Grande – PB.
no município. Disponível em
[2] BRASIL 247.Brasil atinge recorde na :<http://blogdoevangelista.com.br/2014/01/07/ener
produção da energia eólica. Disponível em: gia-simoes-aprova-lei-de-incentivo-fiscal-para-
<http://www.brasil247.com/pt/247/economia/18113 construcao-de-parque-eolico-no-
2/Brasil-atinge-recorde-na- municipio/>.Acesso em :14 abr.2016.
produ%C3%A7%C3%A3o-de-energia-
[6] SIMAS, M.; PACCA, S. Energia eólica,
e%C3%B3lica.htm>. Acesso em :14 abr. 2016.
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Disponível em :<
[7] UFPI. CEAD participa de reunião com
http://epocanegocios.globo.com/Caminhos-para-o-
empresas do Complexo Eólico. Disponível em:
futuro/Energia/noticia/2015/08/forca-dos-
<http://www.leg.ufpi.br/noticia.php?id=29660>.
ventos.html>.Acesso em : 14. Abr. 2016.
Acesso em: 14 abr.2016.

Sustentabilidade e Responsabilidade Social - Volume 7


MEIO AMBIENTE E SOCIEDADE: A CONFORMAÇÃO DA
POLÍTICA NACIONAL DE RESÍDUOS SÓLIDOS E SUAS
IMPLICAÇÕES

Alessandro Augusto Jordão


Patrícia Saltorato
Renata Nobre da Cunha
Carlos Henrique Calegari

Resumo: A Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS) é um instrumento que


estabelece e norteia ações estratégicas que viabilizam a criação e a difusão de
técnicas capazes de poupar o desperdício de recursos produtivos e energia,
recuperar a potencialidade produtiva e energética presente nos resíduos e, ao
mesmo tempo, propiciar a inclusão e o controle social. Busca-se, com este estudo,
avançar na compreensão do contexto constitutivo da PNRS e, esperançosamente,
construir aportes pra a compreensão dos seus movimentos e horizontes no Brasil.

Os autores agradecem as contribuições e o prestimoso trabalho de revisão dos


pareceristas ad hoc do XX Simpósio de Engenharia de Produção da Universidade
do Estado de São Paulo (UNESP).

Palavras-chave: Meio ambiente; Resíduos sólidos

Sustentabilidade e Responsabilidade Social - Volume 7


72

1. INTRODUÇÃO de força, disputas e estratégias entre atores


sociais ou grupo de atores que buscam
A Política Nacional de Resíduos Sólidos constantemente melhorar seus
(PNRS) corrobora com o processo de posicionamentos sociais.
transição para um novo paradigma atrelado
Nesse sentido, um campo de força consiste
ao consumo e à produção sustentável. Este
em uma rede de articulação de forças, de
novo paradigma, resultante de uma relação
refração de interesses e também de
de forças estabelecidas, é demarcado pela
transformação capaz de traduzir as
emergência de padrões produtivos e
demandas e as pressões sociais (GRILLO,
tecnológicos que degradem menos o meio
2005).
ambiente garantindo a melhoria da qualidade
ambiental e a promoção do desenvolvimento A dinâmica social no interior de cada campo é
sustentável. mantida, pela disputa contínua entre os
agentes que visam manter ou alterar as
O conjunto estabelecido de relações de força
relações de força e a distribuição das formas
consiste em um campo social, isto é, um
de capital específico (BOURDIEU, 2005).
espaço estruturado de posições ocupado por
agentes que buscam continuamente assumir O campo representa uma rede estruturada de
posições sociais visando manter ou alterar as posições ocupada por agentes que possuem,
relações de força e a distribuição das formas de um lado, interesses comuns que os unem
de capital específico e, a partir disso, obter em uma determinada estrutura social e, por
vantagens específicas e atender a interesses outro lado, estão imersos em relações sociais
também específicos (BOURDIEU, 2005; que se caracterizam por interesses diversos.
FLIGSTEIN, 2007).
O campo é um ambiente de concorrência
Nesse contexto, a PNRS se configura a partir constante por vantagens específicas, e por
do cruzamento de redes de relações de força interesses também específicos. Este
oriundas de diferentes campos sociais interesse, de acordo com Bourdieu (2005),
(ambiental, político, social, econômico) e, ao está embasado por condutas, ações e
mesmo tempo, configura uma rede autônoma atitudes individuais ou coletivas (habitus) dos
de relações de força ocupada por agentes agentes que são determinados por elementos,
que existem e subsistem na interseção que vão além de uma simples intenção
desses campos. objetiva e que são adquiridas
inconscientemente, dentro do próprio convívio
A PNRS está inserida, portanto, em uma rede
social e são por estes determinados.
de articulação de forças, de refração de
interesses e também de transformação que A conduta individual ou coletiva é, portanto,
permite a constituição de instrumentos resultado de um processo de interiorização da
específicos e estratégias objetivas capazes objetividade social que, por sua vez, resulta
de incorporar mudanças na cultura das na exteriorização da interioridade (GRILLO,
organizações e, conseqüentemente, induzir 2005).
mudanças na economia e na sociedade.
A teoria de Bourdieu defende que o conceito
Busca-se, com este estudo, avançar na de habitus e a noção de campo estão
compreensão do contexto constitutivo da entrelaçados de forma cíclica e contínua. A
PNRS e construir aportes pra a compreensão conduta individual ou coletiva é constituída
dos seus movimentos e horizontes no Brasil. socialmente pela disputa entre os agentes
que, por sua vez, estabelece as posições
particulares dos agentes na estrutura social
2 .A NOÇÃO DE CAMPO E SUAS que, por fim, determina novamente a
condutas e as ações dos agentes.
IMPLICAÇÕES NO CAMPO DAS POLÍTICAS
Os agentes sociais agem e procuram a
AMBIENTAIS
interação na tentativa de alcançar a
cooperação para a criação de instituições, ou
O campo de força, de acordo com Bourdieu
seja, para o estabelecimento de regras
(2005), é um espaço construído socialmente
socialmente aceitas e confiáveis no campo
por atores ou grupo de atores com
(FLIGSTEIN, 2007).
disposições subjetivas e específicas. A
estrutura do campo é delineada por relações
Sustentabilidade e Responsabilidade Social - Volume 7
73

O campo, para Fligstein (2007), é um espaço A concepção de sustentabilidade, inserida na


de confronto ocupado por agentes com PNRS, é constituída socialmente pela
posições desiguais e com diferentes capitais interação entre os agentes e organizações e
que buscam constantemente instituir regras delineada por interesses específicos do grupo
sociais e estabelecer um conjunto de relações dominante. Nesse sentido, o conceito de
de privilégio. sustentabilidade está em um processo
constante de definição e redefinição.
Um campo de forças é um espaço
institucional de interesses em disputa, O setor público um agente social com
construído socialmente por organizações habilidade de traduzir e transformar os
detentoras de poder. Essas organizações, acordos resultantes dos confrontos, entre
liderada individual ou coletivamente por grupos e organizações do campo ambiental,
agentes, influenciam as regras de atuação e em regras e ações que serão implantadas
dominação no campo em função de seus (GODOY, 2011).
interesses que, por sua vez, são reflexos de
O setor público tem, portanto, um papel
suas posições na estrutura social (FLIGSTEIN,
fundamental no campo ambiental, pois é
2007).
capaz de traduzir as demandas e as pressões
O campo de força atua, portanto, no sentido externas e, a partir disso, instituir regras e
de conservar o poder e o privilégio do grupo estabelecer ações para a melhoria da
dominante e de definir a posição social do qualidade ambiental.
grupo desafiante. Partindo da noção de
Para Godoy (2011) que o setor público possui
campo desenvolvida por Bourdieu (2005) e
uma particularidade em relação aos outros
por Fligstein (2007), o campo ambiental pode
agentes sociais uma vez que possui a
ser entendido como outro campo social
autoridade e o poder de implementar ou vetar
qualquer, cheio de relações de força,
as decisões. Nesse contexto, os agentes
disputas e estratégias que atendem a
sociais interagem e disputam com o setor
interesses específicos de um grupo
público o poder de direcionamento das
dominante.
instituições a serem implantadas.
O campo de produção de política, inserido no
campo ambiental, pode ser analisado como
um espaço de disputa contínua ocupado por 3. A QUESTÃO AMBIENTAL NO CONTEXTO
agentes e organizações, com posições
DAS POLÍTICAS PÚBLICAS
desiguais e com diferentes capitais, que
buscam constantemente instituir regras e
A intensificação das atividades poluentes na
estabelecer concepções em favor de
composição setorial do produto industrial
interesses específicos.
pode ser explicada, por um lado, pelo atraso
Nesse sentido, o campo de política ambiental no estabelecimento de normas ambientais e
se constitui em uma rede de articulação de agências especializadas no controle da
forças, de refração de interesses e também poluição industrial e, por outro lado, pelo
de transformação capaz de traduzir as processo de industrialização brasileiro por
demandas e as pressões ambientais e, a substituição de importações (LUSTOSA,
partir disso, instituir regras ambientais e 2002).
estabelecer ações estratégicas para a
O atraso no estabelecimento de normas
melhoria da qualidade ambiental. As políticas
ambientais e na criação de agências
ambientais resultam, portanto, da interação e
especializadas no controle das atividades
do confronto entre diferentes forças e
industriais poluidoras revela que, de fato, a
poderes.
questão ambiental não configurava entre as
A Política Nacional de Resíduos Sólidos prioridades de política pública.
(PNRS) resulta, em particular, do cruzamento
Por recomendação da Conferência das
de redes de relações de força oriundas de
Nações Unidas sobre Meio Ambiente, criou-
diferentes campos sociais (ambiental, político,
se, em 1973, a Secretaria Especial de Meio
social, econômico) e, ao mesmo tempo,
Ambiente – SEMA (Decreto nº73.030). Desde
configura uma rede autônoma de relações de
então, a questão ambiental passou a ser
força ocupada por agentes que existem e
tratada com uma estrutura independe.
subsistem na interseção desses campos.
Sustentabilidade e Responsabilidade Social - Volume 7
74

Estabeleceu-se, em 1981, a Política Nacional 203/1991 que estabelece um conjunto de


do Meio Ambiente (Lei 6.938/1981), visando diretrizes voltadas à gestão de resíduos
preservar, melhorar e recuperar a qualidade sólidos nomeadamente no que se refere à
ambiental além de assegurar as condições coleta, ao tratamento, ao transporte e a
para o desenvolvimento socioeconômico aos destinação adequada dos resíduos sólidos.
interesses da segurança nacional e à
Em 1998, o Conselho Nacional de Meio
proteção da dignidade da vida humana.
Ambiente (CONAMA) criou um Grupo de
Em seguida, constituíram-se o Sistema Trabalho formado por representantes dos três
Nacional do Meio Ambiente – SISNAMA e o níveis de governo e da sociedade civil. O
Conselho Nacional do Meio Ambiente – objetivo do Grupo era lançar a Proposição nº
CONAMA, responsáveis por assessorar, 259/1999 constituída por um conjunto de
estudar e propor as diretrizes de políticas diretrizes técnicas para a gestão de resíduos
governamentais para o meio ambiente e os sólidos. Apesar de aprovada pelo Plenário do
recursos naturais. CONAMA, a proposição não entrou em vigor.
Como influência internacional, a Comissão Em 2001, a Câmara dos Deputados
Mundial sobre o Meio Ambiente e implementou a Comissão Especial da Política
Desenvolvimento – CMMAD organizou, em Nacional de Resíduos. A Comissão buscava
1982, o relatório Brundtland, consolidando analisar o Projeto de Lei nº 203/1991 e
uma visão crítica do modelo de formular uma proposta substitutiva global.
desenvolvimento adotado pelos países Entretanto, ao fim da legislatura, a Comissão
industrializados e mimetizado pelas nações foi extinta, sem que houvesse nenhum
em desenvolvimento. O relatório estimulou o encaminhamento. Em 2005 foi instituída uma
debate sobre a incompatibilidade entre os nova Comissão Especial com o mesmo
padrões de produção e consumo vigentes, o propósito.
uso racional dos recursos naturais e a
A I Conferencia Nacional de Meio Ambiente,
capacidade de suporte dos ecossistemas.
realizada em 2003, reuniu, pela primeira vez,
O documento tornou-se uma referência diversas representações da sociedade para
importante para a Conferência das Nações discutir propostas de melhoria da qualidade
Unidas sobre o Meio Ambiente e ambiental, tornando-se um marco na política
Desenvolvimento – CNUMAD, realizada no Rio ambiental brasileira.
de Janeiro em 1992. Essa conferência
Cria-se, ainda em 2003, o Grupo de Trabalho
consolidou o conceito desenvolvimento
Interministerial de Saneamento Ambiental com
sustentável, tornando as questões ambientais
o objetivo de promover a integração nacional
parte integrante do processo de
das ações de saneamento ambiental. O
desenvolvimento e não mais uma
Grupo foi responsável pela reestruturação do
responsabilidade setorial fragmentada. O
setor de saneamento nacional e pela criação
conceito de desenvolvimento sustentável
do Programa Resíduo Sólido Urbano.
refere-se à utilização racional dos recursos
naturais de maneira que possam estar O Programa Resíduo Sólido Urbano é
disponíveis para as futuras gerações, coordenado, em 2003, pelo Ministério do Meio
garantindo a construção de uma sociedade Ambiente e integrado pelo Ministério das
mais justa, do ponto de vista ambiental, social Cidades, pelo Ministério do Trabalho e
e econômico. Emprego, pelo Ministério do Desenvolvimento
Social e Combate à Fome, pela Fundação
Assinala-se, a partir da noção de campo
Nacional de Saúde e pelo Banco Nacional de
desenvolvida por Bourdieu (2005) e Fligstein
Desenvolvimento Social, possibilitando uma
(2007), que o conceito de desenvolvimento
integração entre diversos órgãos federais O
sustentável é constituído socialmente pela
Programa busca garantir inclusão social e a
interação entre agentes e organizações
emancipação econômica dos catadores,
diversas e, nesse sentido, esta em um
promover a ampliação dos serviços de
processo constante de definição e
limpeza urbana, estimular as iniciativas de
redefinição.
redução, de reutilização e de reciclagem dos
As primeiras iniciativas legislativas resíduos e garantir a erradicação das lixeiras
direcionadas à questão dos resíduos sólidos a céu aberto. Esse programa permitiu a
foram integradas ao Projeto de Lei nº implementação de medidas mais acertadas e
Sustentabilidade e Responsabilidade Social - Volume 7
75

efetivas na área de resíduos sólidos devido à 4. POLÍTICA NACIONAL DE RESÍDUOS


melhor integração entre diversos órgãos
SÓLIDOS: UMA ANÁLISE DOS SEUS
federais.
MOVIMENTOS E HORIZONTES
Durante o ano de 2004, o Ministério do Meio
Ambiente, por meio do CONAMA, organizou o
Estatísticas divulgadas pela Associação
Seminário “Contribuições à Política Nacional
Brasileira de Empresas de Limpeza Pública e
de Resíduos Sólidos”, visando elaborar uma
Resíduos Especiais (ABRELPE), oriundas do
proposta nacional de regulamentação da
Panorama dos Resíduos Sólidos (2009),
questão dos resíduos sólidos.
revelam que, no Brasil, foram geradas
Em 2005, a Secretaria de Qualidade 182.728 toneladas de resíduos sólidos
Ambiental buscou consolidar e sistematizar as urbanos por dia e, no entanto, foram
principais contribuições decorrentes do coletadas 88,15% desse total o que equivale
Seminário CONAMA/2004. O resultado foi a a 161.084 toneladas de resíduos por dia.
elaboração de uma versão preliminar da Desse total, apenas 56,8% foram dispostos
Política Nacional de Resíduos Sólidos em aterros sanitários, 23,9% em aterros
Urbanos. Em seguida, a versão foi controlados e 19,3% em lixeiras a céu aberto.
amplamente debatida com o Ministério das é, uma vez que aproximadamente 62% dos
Cidades, o Ministério do Trabalho e Emprego, municípios brasileiros dispõem seus resíduos
o Ministério do Desenvolvimento Social e de forma inadequada, isto é, ainda utilizam
Combate à Fome, com a Fundação Nacional aterros controlados e lixeiras a céu aberto
de Saúde e com o Banco Nacional de como forma de disposição final (ABRELPE,
Desenvolvimento Social, buscando garantir 2009).
uma gestão de resíduos sólidos integrada e,
A Política Nacional de Resíduos Sólidos
sobretudo, sustentável.
(PNRS), sancionada em 2010, tem o objetivo
A II Conferência Nacional de Meio Ambiente, de traçar ações estratégicas que viabilizem
realizada também em 2005, reforçou a processos capazes de agregar valor aos
necessidade de estabelecimento de diretrizes resíduos aumentando a capacidade
em âmbito nacional para amparar questão da competitiva do setor produtivo, propiciando a
gestão integrada e ambientalmente adequada inclusão e o controle social, norteando os
dos resíduos sólidos. governos estaduais e municipais para uma
gestão integrada e sustentável de resíduos
Ao longo dos últimos anos, o Ministério do
sólidos (Lei 12.305/10).
Meio Ambiente em conjunto com o Ministério
das Cidades, o Ministério do Trabalho e Destaca-se que a Lei 12.305/10 em conjunto
Emprego, a Fundação Nacional de Saúde, a com a Lei de Consórcios Públicos (Lei nº
Confederação Nacional das Indústrias, a 11.107, de 2005) e a Lei de Parcerias Público-
Associação Brasileira de Engenharia Privadas (Lei nº 11.079, de 2004) viabiliza
Sanitária, a Caixa Econômica Federal, a novos arranjos integrados para a adequada
Federação das Indústrias do Estado de São gestão dos resíduos sólidos, contribuindo
Paulo, o Compromisso Empresarial para a para a expansão do setor de saneamento e,
Reciclagem e com outras entidades sobretudo, do setor de resíduos sólidos.
promoveram seminários regionais para
A PNRS, baseada no conceito de
discutir amplamente a Política Nacional de
responsabilidade compartilhada entre
Resíduos Sólidos.
governo, indústria e sociedade, estabelece
A Política Nacional de Resíduos Sólidos, que todas as possibilidades de reutilização,
instituída pela Lei 12.305/10, tramitou por reciclagem e reaproveitamento dos resíduos
tempo demais antes de ser, finalmente, devem ser esgotadas. Apenas os resíduos
aprovada. Nesse tempo, a quantidade de que não apresentarem potencialidades de
resíduos sólidos gerados cresceu recuperação poderão ser descartados em
exponencialmente em razão da ausência de aterros sanitários. O sistema de logística
um marco regulatório para os resíduos reversa é um instrumento da responsabilidade
sólidos, incorrendo em prejuízos ao meio compartilhada, caracterizado por um conjunto
ambiente, em particular à saúde e a de ações e procedimentos, destinados a
segurança pública. facilitar a coleta e a restituição dos resíduos
sólidos aos seus geradores para que sejam
Sustentabilidade e Responsabilidade Social - Volume 7
76

tratados e reaproveitados em novos produtos, 5. CONSIDERAÇÕES FINAIS


na forma de novos insumos, em seu ciclo ou
em outros ciclos produtivos, visando a não Conclui-se, a partir da noção de campo
geração de rejeitos. desenvolvida por Bourdieu (2005) e Fligstein
(2007), que a Política Nacional de Resíduos
A Lei 12.305/10 estabelece inicialmente a
Sólidos resulta da interação entre agentes
obrigatoriedade de estruturação e
sociais e organizações, dotados de forças
implantação de sistema de logística reversa
diferentes e poderes desiguais, que disputam
para as cadeias produtivas de agrotóxicos
continuamente o poder e a autoridade de
(seus resíduos e embalagens); pilhas e
conduzir as regras e as ações estratégicas
baterias; pneus; óleos lubrificantes (seus
instituídas.
resíduos e embalagens); lâmpadas
fluorescentes (de vapor de sódios e mercúrio A PNRS é delineada por relações de forças
e de luz mista); e produtos eletroeletrônicos e presentes no campo ambiental ocupado por
seus componentes. As duas últimas cadeias agentes sociais e organizações, dotados de
serão prioritárias, uma vez que terão de ser poderes e capitais específicos, que disputam
construídas do zero no país. O tratamento continuamente com o setor público a
também é diferente para cada um dos vantagem de conduzir as regras e as ações
produtos. A reciclagem de eletroeletrônicos, estratégicas em favor de seus interesses.
por exemplo, exige reengenharia na
A Política Nacional de Resíduos Sólidos está
separação, trituração e limpeza.
inserida, portanto, em uma rede de
A Política Nacional de Resíduos Sólidos articulação de forças, de refração de
determina que os municípios têm a obrigação interesses e também de transformação que
legal de erradicar todas as lixeiras a céu estabelece e norteia ações estratégias que
aberto até agosto de 2014. Estabelece, ainda, viabilizam processos ambientalmente mais
que os municípios destinem aos aterros limpos e capazes de aproveitar de maneira
sanitários apenas os resíduos que não sejam eficiente e sustentável os recursos produtivos
passíveis de reaproveitamento, isto é, exige e energéticos e de despoluir o meio ambiente.
que apenas os rejeitos sejam dispostos em
A PNRS abre perspectiva para o
aterros que seguem normas ambientais. Além
desenvolvimento de processos e tecnologia
disso, proíbe a catação, a criação de animais
que corroboram com a prática do consumo e
e a instalação de moradias nessas áreas
da produção sustentável e, nesse sentido, se
insalubres.
configura em um instrumento social capaz de
O tratamento ambientalmente inadequado de incorporar mudanças culturais nas
resíduos sólidos configura-se entre os organizações e, conseqüentemente, induzir
principais problemas ambientais do país, mudanças na economia e na sociedade.
gerando impactos nocivos e irreversíveis ao
Nesse contexto, o setor público é um
meio ambiente, principalmente no que se
importante agente social, capaz de traduzir e
refere à saúde e à segurança pública.
transformar os acordos resultantes dos
Entretanto, ao tentar equacionar a
confrontos, entre grupos e organizações do
problemática dos resíduos no país, esbarra-se
campo ambiental, em regras e ações
em alguns desafios que, por sua vez, faz
estratégicas.
surgir oportunidades para o crescimento e o
desenvolvimento de novos setores. A política e a regulamentação, constituída e
instituída pelo campo ambiental, se mostra
A Lei 12.305/2010 abrirá perspectiva para o
essencial para a melhoria da qualidade
desenvolvimento de um setor de tecnologia
ambiental na medida em que pressiona o
ambiental capaz de viabilizar a criação e a
setor produtivo a adotar práticas de produção
difusão de novas tecnologias direcionadas
sustentáveis e ambientalmente mais
para mitigar o problema da disposição e do
eficientes.
tratamento ambientalmente inadequado dos
resíduos no país. A tendência é que haja uma O setor público tem um papel fundamental no
diversificação nas tecnologias buscando campo de política ambiental uma vez que é
esgotar todas as possibilidades de capaz de traduzir as demandas e as pressões
recuperação presente nos resíduos sólidos. externas e, a partir disso, instituir regras e
estabelecer ações para a melhoria da
qualidade ambiental.
Sustentabilidade e Responsabilidade Social - Volume 7
77

Nota-se, portanto, que a produção política agentes e organizações, a influência de


ambiental resulta da interação e do confronto conduzir as ações e políticas estabelecidas.
entre diferentes forças e poderes oriundos de
Campo de política ambiental é, portanto,
agentes e organizações que buscam
definido como um espaço relacional
constantemente influenciar a condução de
estruturado por posições relativas e ocupado
regras e o estabelecimento de ações em favor
por agentes e organizações, dotados de
de interesses específicos.
diferentes tipos de capital, que disputam
O setor público, de acordo com Bourdieu constantemente com o setor público a
(2005) e Fligstein (2007), é um agente social definição da estrutura social do campo e,
dotado de poderes particulares que possui a conseqüentemente, os movimentos e
oportunidade de instituir políticas e horizontes das políticas e ações estratégicas
regulamentações ambientais e, ao mesmo instituídas.
tempo, disputa no campo ambiental, com

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Sustentabilidade e Responsabilidade Social - Volume 7


IMPACTOS SOCIAIS NA EMPREGABILIDADE DO SETOR
SUCROALCOOLEIRO EM MEIO À EXPANSÃO DA CANA-DE-
AÇÚCAR E DA MECANIZAÇÃO: UM ESTUDO DA REGIÃO
DA ALTA PAULISTA

Danilo Alexandre Francisco Vieira


Vanessa Prezotto Ximenes Satolo
Mara Elena Bereta de Godoi Pereira
Maurício Dias Marques
Wagner Luiz Lourenzani

Resumo: A mão de obra do setor sucroalcooleiro enfrenta diversos impactos sociais


decorrentes da expansão da cana-de-açúcar e a adoção de novas tecnologias que
substituem o trabalho manual por máquinas especializadas no corte mecanizado.
As transformações no setor exigem novas ações por parte das empresas e do
governo para reduzir os impactos em relação aos empregos que deixaram de
existir com as mudanças no setor. Este trabalho tem como objetivo identificar
impactos sociais na empregabilidade do setor sucroalcooleiro na região da Alta
Paulista, centro oeste do Estado de São Paulo no período de 2006 à 2012. para
alcançar este objetivo foi realizado uma revisão de literatura com levantamento de
dados e informações sobre o setor, trabalhadores, cidades e usinas de açúcar e
álcool encontradas na região de estudo. Diante da realidade deste estudo e da
compreensão do papel do estado e das organizações em relação ao
desenvolvimento social, podemos afirmar que há necessidade de criar políticas
públicas que promovam formação de pessoas, fiscalização do cumprimento das
leis trabalhistas, reavaliação da eficiência dos programas de requalificação e maior
investimento das empresas em capacitação e treinamento de pessoas em meio a
transição tecnológica.

Palavras-chave: Empregabilidade. Setor sucroalcooleiro

Sustentabilidade e Responsabilidade Social - Volume 7


79

1. INTRODUÇÃO maneira particular e sente seu impacto de


maneira diferenciada. Para Moreira e Baptista
O Brasil é o maior produtor de cana-de- (2012), quanto mais planejadas forem as
açúcar do mundo. Ao longo dos anos essa mudanças, menor será seu impacto na
produção vem crescendo impulsionada por sociedade.
diferentes fatores, trazendo mudanças nos
Estudos já realizados discutiram ao longo dos
cenários agrícolas regionais e,
anos as condições de trabalho dos cortadores
consequentemente, reações e impactos
da cana-de-açúcar, o sistema de pagamento,
econômicos, sociais e ambientais. O estado
ações que tinham como intenção reduzir a
de São Paulo é responsável por 60% da
exploração, garantir direitos trabalhistas e os
produção nacional (BRASIL, 2014a), e
impactos consequentes das queimadas. Hoje,
emprega mais de 400 mil trabalhadores no
com algumas mudanças que ocorreram no
setor (BRASIL, 2014b).
setor, com a introdução de novas tecnologias
O cultivo da cana-de-açúcar no Brasil e proibição das queimadas, a discussão tem
remonta da época da colonização e sido sobre os impactos que essas ações
concentrava-se na produção de subsistência geram em relação ao emprego do trabalhador
do açúcar. A partir de 1920, o país começou a do corte manual da cana (MORAES, 2007).
utilizar etanol como combustível em veículos
A região da Alta Paulista, localizada no estado
automotivos. Com a instituição do Programa
de São Paulo, tem apresentado um
Nacional do Álcool (PRÓALCOOL) o país
crescimento expressivo do cultivo da cana-
passa a produzir etanol em grande escala e o
de-açúcar. Considerando que nessa região a
cultivo da cana-de-açúcar ganha incentivo
economia agrícola se destaca, assim como a
legal à expansão e modernização da
quantidade de empregos gerados pelas
produção (BRASIL, 1975).
usinas em estudo, o objetivo deste trabalho é
Em 2002, as montadoras de veículos verificar o panorama da mão de obra no
perceberam o mercado potencial do etanol e cultivo e produção da cana-de-açúcar na
começaram a desenvolver motores flexíveis região da Alta Paulista, identificando os
ao combustível, operando tanto com gasolina impactos sociais na empregabilidade do setor
como etanol, ficando a critério do consumidor sucroalcooleiro na região estudada em meio à
a utização do combustível considerando os expansão da cana-de-açúcar e ao avanço da
preços praticados (LEITE e LEAL, 2007). Este mecanização, levando em consideração o
evento marcou novamente a expansão do período de 2006 à 2012.
cultivo da cana-de-açúcar em áreas onde não
era predominante, como a região da Alta
Paulista. 2. A EXPANSÃO DO SETOR
Com a proibição da tradicional queima da SUCROALCOOLEIRO
palha da cana-de-açúcar, dada pela Lei
Estadual nº 11.241 em 2002 (São Paulo, O Brasil destaca-se no cenário mundial como
2002), houve um grande crescimento no maior produtor de cana-de-açúcar. Em 2010,
processo de mecanização do corte da cana. o país possuía em áreas plantadas
Essa questão implica na redução do número aproximadamente 9 milhões de hectares,
dos trabalhadores no corte e poderá gerar, seguido pela Índia (4,2), China (1,6) e
em breve, uma extinção desse tipo de mão de Tailândia (978.000) (BRASIL, 2012b).
obra, que chamaríamos de “sem qualificação”
O avanço do setor sucroalcooleiro deu-se a
ou com baixa escolaridade.
partir da instituição do PROÁLCOOL em 1975,
As mudanças decorrentes da globalização e que proporcionou a expansão do cultivo para
do desenvolvimento tecnológico geram regiões onde esta cultura não predominava ou
impactos nos modelos de trabalho de todo o existia, além de implantação de novas usinas
mundo. As novas exigências do mercado e modernização de todo o processo
demandam um maior grau de instrução. produtivo. A partir desse evento, a área
Apesar das mudanças serem globais, cada plantada de cana-de-açúcar no Brasil passou
sociedade se relaciona com as mesmas de de aproximadamente 2 milhões de hectares
Sustentabilidade e Responsabilidade Social - Volume 7
80

em 1975 para 5 milhões em 2001, ano em que contribuíram para que muitos trabalhadores
o PROÁLCOOL foi desregulamentado fossem contratados sob uma condição de
(BRASIL, 2012b). trabalho escravo com um tratamento
desumano. Trabalho árduo e exaustivo, sem
Com a chegada dos veículos flex em 2003, a
equipamentos de proteção adequados, falta
área plantada no Brasil que ainda permanecia
de infraestrutura, higiene e comida foram
em aproximadamente 5 milhões de hectares,
problemas relatados com frequência. Em
saltou para 9 milhões em 2010 (BRASIL,
meio a essas condições, muitos trabalhadores
2012b). O estado de São Paulo dobrou sua
saíram das mais diversas regiões do país,
área plantada, saindo de 2,5 milhões de
para trabalhar na safra da cana-de-açúcar
hectares em 2001 para aproximadamente 5
nas regiões paulistas (FERRARI, 2010).
milhões de hectares em 2012. Das 700
milhões de toneladas de cana produzidas no Essa grande quantidade de pessoas que
Brasil em 2012, 400 milhões foram produzidas fazem parte da migração em busca de
no estado de São Paulo. Mais de 70% das emprego na lavoura da cana, conhecida
cidades do estado aderiram participação como “boom”, tornou-se um grande desafio
nesta produção (BRASIL, 2012a). Essa social no processo de expansão da cana-de-
expansão no estado foi muito evidente na açúcar. Este fato é muito frequente nas
região da Alta Paulista. A produção de cana- pequenas cidades em época de safra. Os
de-açúcar tem um destino diversificado, estudos de SILVA (2009) relatam o caso da
sendo matéria-prima para vários produtos, cidade de Salmourão, localizada na região da
sendo que o álcool e o açúcar possuem maior Alta Paulista, que recebe cerca de mil
representatividade (BRASIL, 2008). trabalhadores no início da safra e não possui
infraestrutura para atender tal demanda, que
O aumento da produção da cana-de-açúcar
impacta principalmente no atendimento dos
busca atender principalmente uma nova
serviços básicos à saúde. As usinas
demanda influenciada pelo crescimento
existentes na região não estão localizadas
contínuo da produção de veículos bi-
nesse município, logo nem o imposto
combustível flex. As ações determinadas para
arrecadado com a produção da cana é retido
o processo de cultivo e colheita, como as
no mesmo.
queimadas que facilitam o corte manual,
trouxeram também um maior número de Outro fator que possibilitou essa condição de
problemas, como, impactos ambientais, trabalho desumano foi o contrato de
econômicos e sociais (MORAES, 2007). pagamento por produção e não por hora
trabalhada. Desta forma, o pagamento do
Considerando o exposto, este trabalho
cortador de cana ficou condicionado a um
consiste em uma abordagem dos impactos
volume de produtividade. Algumas
sociais no processo de expansão da cana-de-
consequências foram um aumento do número
açúcar em meio à geração de empregos,
de doenças, de acidentes de trabalho e de
qualificação da mão de obra e salários. O
mortes devido à exaustão dos trabalhadores.
setor sucroalcooleiro é um dos setores que
Estas estatísticas negativas denigrem a
mais empregam trabalhadores no Brasil. É
imagem do setor sucroalcooleiro e colaboram
conhecido tradicionalmente por gerar muitos
para adoção de mudanças no processo de
empregos sem a necessidade de
corte da cana-de-açúcar, como incentivo ao
especialização. No entanto, as mudanças no
corte mecanizado. (XAVIER; PITTA;
setor têm afetado diretamente essa classe de
MENDONÇA, 2011; KAPHENGST; WUNDER;
trabalhadores e alterado o conceito de que o
TIMEUS, 2012). É importante entender o papel
profissional que ocupa um cargo em uma
da organização corporativa e sua
usina não precisa ter formação e qualificação.
responsabilidade para com a sociedade,
consequentemente sua contribuição para o
desenvolvimento social e do bem-estar das
2.1 OS IMPACTOS SOCIAIS NO SETOR
pessoas (HOLT, 1999).
SUCROALCOOLEIRO
A responsabilidade social refere-se à
responsabilidade que uma organização
É notória a situação degradante que
assume pelos impactos causados por suas
trabalhadores das usinas sempre
decisões e atividades na sociedade e no meio
vivenciaram. O baixo grau de escolaridade e
ambiente por meio de um comportamento
as poucas exigências para atuar no emprego
Sustentabilidade e Responsabilidade Social - Volume 7
81

ético e transparente que contribua para o mecanização possibilita um aumento


desenvolvimento sustentável, inclusive a significativo na produção da cana-de-açúcar
saúde e bem-estar da sociedade, esteja de e uma diferenciação da mão de obra. As
acordo com a legislação aplicável e com as novas tecnologias influenciam diretamente os
normas internacionais de comportamento, empregos não especializados oferecidos
integre toda a organização e seja praticada pelas usinas, reduzindo significativamente o
em suas ações (ABNT NBR ISO 26000, 2010). número de trabalhadores, e exigindo uma
maior qualificação técnica não encontrada
A queima da palha da cana é conhecida
nos cortadores de cana-de-açúcar (ABREU et
como um método despalhador que facilita o
al, 2009).
corte manual feito pelos trabalhadores, no
entanto causa diversos impactos. A poluição
pela fuligem da queima, além de ocasionar
2.3 IMPACTOS SOBRE O EMPREGO DO
problemas ambientais, traz consequências
sociais. Através das substâncias SETOR
cancerígenas em suas partículas, geram
internações com gastos ao sistema de saúde O uso de novas tecnologias altera o perfil dos
e perda de mão de obra. Na visão de Ricci empregados da usina. As habilidades para
(1994), a liberação de gases de nitrogênio, operar ferramentas manuais, como por
enxofre, ozônio e gás carbônico devem ser exemplo um facão de cortar cana, dão lugar a
considerados além da fuligem. Com o funções e atividades especializadas. Sem
advento da preocupação com o meio muitas exigências para contratação, o grau de
ambiente e a redução de impactos negativos escolaridade dos trabalhadores do corte da
provenientes da produção, a evolução da cana-de-açúcar ao longo dos anos,
tecnologia e o aumento da consciência por permaneceu concentrado entre ensino
um desenvolvimento sustentável, surgem leis fundamental, semianalfabetos e analfabetos,
que preveem a redução das queimadas e a sendo a média 12 toneladas diárias de
mecanização no cultivo da cana. colheita por trabalhador (OLIVEIRA, 2010).
As novas tecnologias adquiridas pelas
indústrias do setor sucroalcooleiro, segundo
2.2 LEIS DE PROIBIÇÃO DAS QUEIMADAS E
Baptista (2012), possuem características
O PROCESSO DE MECANIZAÇÃO operacionais como comando por computador
de bordo, joystick eletrônico, monitoramento
O Governo do Estado de São Paulo por telas, GPS, sistema de monitoramento,
promulgou a Lei Estadual nº 11.241, de 19 de direção noturnos, entre outras. Suprir uma
setembro de 2002, que dispõe sobre a demanda por profissionais que operem novas
eliminação gradativa da queima da palha da tecnologias passou a ser um grande desafio
cana-de-açúcar. Ao longo de 20 anos, as das indústrias sucroalcooleiras. Surge uma
usinas devem gradativamente eliminar as demanda por funções, como operador de
queimadas em áreas mecanizáveis e para colhedora, tratorista, mecânico, auxiliar
áreas não mecanizáveis o prazo é estendido mecânico, eletricista. São funções que exigem
até 2031. A lei trata também das algumas habilidades, competências mínimas
responsabilidades das empresas em para exercício do cargo.
promoverem a requalificação dos
Nastari (2010), aponta que uma colhedora de
trabalhadores que atuavam no corte manual
cana-de-açúcar consegue cortar por dia
(SÃO PAULO, 2002).
cerca de 500 a 700 toneladas, sendo capaz
O protocolo agroambiental incentiva as usinas de substituir dezenas de trabalhadores. Uma
às boas práticas ambientais, embora não propriedade rural dedicada a esse cultivo
tenha força de lei, foi um acordo estabelecido necessita de colhedoras, tratores ou
entre as associações das usinas e o governo caminhões e, para operá-los, necessita de
para antecipar a proibição das queimadas trabalhadores que demonstrem qualificação
para o ano de 2014 e 2017 (SÃO PAULO, técnica especializada. O projeto Renovação é
2014). uma parceria entre a União das Indústrias de
Cana-de-Açúcar (UNICA), a Federação dos
O processo gradativo de eliminação das
Empregados Rurais Assalariados do Estado
queimadas ocorre na medida em que as
de São Paulo (Feraesp), e outras empresas
empresas investem em tecnologias. A
Sustentabilidade e Responsabilidade Social - Volume 7
82

privadas, e prevê o treinamento especializado interpretação de dados secundários, visto que


dos trabalhadores. Até 2012, o projeto o enfoque parte da perspectiva do sujeito,
requalificou cerca de 5.700 trabalhadores, como afirma Martins (2010, p. 50). O trabalho
destes 78% no próprio setor sucroenergético é classificado como uma pesquisa descritiva.
(UNICA, 2014). O objeto de estudo é a região da Alta Paulista,
cuja vocação econômica predominante na
Segundo estimativas da UNICA, no estado de
região é a agropecuária, em especial a cana-
São Paulo, entre as safras de 2006/2007 e
de-açúcar, amendoim, ovos pastagem e
2020/2021, é esperado um aumento de 20 mil
fruticultura (IEA, 2007). Está localizada no
empregados na indústria sucroalcooleira. Esta
oeste do estado de São Paulo e atualmente é
situação excludente pode causar impactos
composta por 33 municípios (Figura 1):
extremamente negativos na sociedade. Ao se
Adamantina, Arco Íris, Bastos, Dracena, Flora
deparar com a falta de trabalho na colheita da
Rica, Flórida Paulista, Herculândia, Iacri,
cana-de-açúcar, o cortador da cana
Inúbia Paulista, Irapuru, Junqueirópolis,
analfabeto ou semianalfabeto encontra-se
Lucélia, Mariápolis, Monte Castelo, Nova
quase sem possibilidades de recolocação no
Guataporanga, Oriente, Osvaldo Cruz, Ouro
setor. Vieira e Simon (2005) afirmam que
Verde, Pacaembu, Panorama, Parapuã,
outras culturas no setor agrícola que se
Paulicéia, Pompéia, Pracinha, Queiroz,
encontram em fase de expansão podem
Quintana, Rinópolis, Sagres, Salmourão, Santa
absorver trabalhadores, assim como o setor
Mercedes, São João do Pau d'Alho, Tupã e
de construção civil.
Tupi Paulista (APTA, 2014). As cidades em
estudo formam uma população de 410.590 mil
habitantes e uma área de 9.832,11 km². A
3. PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS
cultura da cana-de-açúcar é muito tradicional
nas cidades mencionadas, em 2012 a área
A revisão de literatura apresenta um breve
ocupada passou de 240.000 hectares,
panorama do trabalho no setor
ocupando 2.422,46 km² e atingindo uma
sucroalcooleiro, diante dessa proposta
produção de 17 milhões de toneladas,
emerge a necessidade da utilização de uma
(BRASIL, 2013).
abordagem qualitativa na análise e

Figura 1 - Região da Alta Paulista

Fonte: Apta (2014).

4. RESULTADOS E DISCUSSÃO municípios, todas as cidades têm alguma


relação com o setor sucroalcooleiro. Muitos
O estudo identificou na região da Alta Paulista trabalhadores se deslocam de suas cidades
nove usinas em funcionamento, localizadas para trabalharem em cidades vizinhas.
em oito cidades. Embora as usinas de Produtores de outras culturas passam a
fabricação de açúcar e álcool estejam arrendar suas terras para o plantio da cana-
concentradas em apenas 24% dos

Sustentabilidade e Responsabilidade Social - Volume 7


83

de-açúcar. Os impactos sociais extrapolam a qualidade de vida dentro de um padrão


localidade onde a usina está instalada. sustentável, as ações das empresas passam
a ser em função de si próprias sem equilíbrio
No ano de 2012, dos 140.633 empregos
no ciclo de desenvolvimento para com a
gerados por diferentes setores na região da
sociedade e os direitos humanos.
Alta Paulista, 14.343 ou 10% estavam
concentrados diretamente no setor A Figura 2 mostra a queda que tem ocorrido
sucroalcooleiro, entre cultivo da cana-de- no número de empregados do setor
açúcar e fabricação de açúcar e álcool sucroalcooleiro no período de 2006 – 2012 na
(BRASIL, 2014b). Para cinco municípios, os região da Alta Paulista. A concentração maior
empregos gerados pelas usinas apresentam dessa queda está nos trabalhadores do
uma representatividade maior, cultivo que em 2007 chegou a representar
aproximadamente 50% dos trabalhadores mais que 50% dos trabalhadores do setor,
estão diretamente ligados a este setor. caindo em 2012 para 38%. Embora o número
Segundo Ávila e Ávila (2007), o fato de uma de trabalhadores da indústria tenha mostrado
única empresa gerar empregos para a grande crescimento na maior parte desse período,
maioria dos trabalhadores ativos em uma houve uma pequena queda em 2009 e 2012.
pequena cidade não representa uma

Figura 2 - Trabalhadores do setor sucroalcooleiro na Alta Paulista 2006-2012.

Fonte: elaborado pelos autores com base nos dados do MTE/RAIS, (BRASIL, 2014b).

A produção da cana-de-açúcar na região da O aumento da produtividade em relação ao


Alta Paulista destinada à fabricação de número de empregados é justificado pela
açúcar e álcool vem acompanhando o substituição do trabalho manual pelas novas
crescimento do setor no estado de São Paulo tecnologias. Algumas máquinas como
(BRASIL,2014b). A Figura 3 permite uma colhedora mecanizada tem uma capacidade
análise da relação, produção e número de de realizar o trabalho de colheita que 80
empregados das usinas. Entre 2008 e 2009 a homens realizariam manualmente. A tabela 1
região da Alta Paulista superou a média de demonstra que embora o número de
produtividade por homem, do estado de São estabelecimentos que cultivam cana-de-
Paulo. Em 2012 a produtividade alcança açúcar tenha crescido e se multiplicado ao
1232,5 toneladas/homem, se posicionando longo dos anos na região da Alta Paulista,
21% acima da média do estado. Há uma assim como a produção, o número de
maior quantidade de produção por uma trabalhadores tem uma tendência de redução.
menor quantidade de homens no cultivo.

Sustentabilidade e Responsabilidade Social - Volume 7


84

Figura 3: Produtividade tonelada/homem (2006-2012).

Fonte: elaborado pelos autores com base nos dados do MTE/RAIS, (BRASIL, 2014b).

Tabela 1: Número de Empresas, Empregos e Média empregados.


Empregos setor Média empregados
Empresas cultivam
Ano sucroalcooleiro Alta por empresas que
Cana
Paulista cultivam
2006 118 18.021 153
2007 136 21.006 154
2008 261 20.094 77
2009 394 18.014 46
2010 450 17.837 40
2011 507 17.392 34
2012 611 14.343 23
Fonte: Elaborado com base nos dados do MTE/RAIS, (BRASIL, 2014b).

Com as novas tecnologias, a mão de obra mencionados na realocação de trabalhadores


especializada passa a ser um grande desafio do setor. Para receber treinamentos de
para as empresas, em meio aos capacitação e exercer funções especializadas
conhecimentos, habilidades e competências é necessário uma formação mínima. Percebe-
requeridas. se também, que houve um crescimento em
relação ao número de trabalhadores que
A Tabela 2 demonstra que a maioria dos
possuem o ensino médio e ensino superior.
trabalhadores do setor sucroalcooleiro
Com o aumento da especialização dos
apresenta o grau de escolaridade entre
trabalhadores do setor, a tendência é que os
ensino fundamental completo e incompleto.
mesmos sejam melhor remunerados, mesmo
Em 2012, dos 14.415 trabalhadores do setor,
nas atividades de cultivo, que começam a
9.442 ou 66% apresentavam até o ensino
exigir também aumento da qualificação
fundamental. Essa concentração em baixa
profissional.
escolaridade reflete nos desafios

Sustentabilidade e Responsabilidade Social - Volume 7


85

Tabela 2: Grau de escolaridade dos trabalhadores do setor sucroalcooleiro da Alta Paulista.


Grau de Escolaridade 2006 2007 2008 2009 2010 2011 2012
Analfabeto 154 324 140 126 129 117 102
1 – 8 anos estudo 6.650 7.838 7.681 6.612 6.194 6.288 5.467
Ens. Fund. Completo 4.415 5.272 4.939 4.826 4.839 4.933 3.975
Ensino médio 3.105 2.770 3.461 4.173 4.238 4.346 4.533
Ensino superior 188 239 265 282 313 323 338
Total 14.512 16.443 16.486 16.019 15.713 16.007 14.415
Fonte: Elaborado pelos autores com base nos dados do MTE/RAIS, (BRASIL, 2014b).

Em 2012, dos 33 municípios da região, 20 veículos utilizados são computadorizados e


deles já adotavam a colheita mecanizada em altamente controlados. Interrupções não
mais de 70% da área plantada (INPE/Canasat, previstas das jornadas de trabalho são
2014), reduzindo o número de trabalhadores penalizadas administrativamente. Apesar da
no corte da cana. Algumas estratégias foram necessidade de conhecimento especializado,
adotadas na busca de reduzir esse impacto. o trabalhador não é remunerado
adequadamente. Percebe-se uma condição
O Programa Renovação foi adotado pelas
de opressão onde os trabalhadores
empresas em estudo com intuito de treinar
continuam a sofrer física e psicologicamente.
pessoas que atuavam no corte manual para
outros setores. Embora alguns trabalhadores Diante das realidades mostradas neste
tenham sido realocados para outras estudo, podemos afirmar que é necessário a
atividades, o programa não pode ser criação de políticas públicas como incentivo à
considerado tão eficiente nas empresas formação de pessoas para atuarem nas
estudadas, uma vez que a grande maioria dos empresas que operam novas tecnologias no
trabalhadores não tem um requisito mínimo de processo de expansão da cana-de-açúcar em
qualificação para receber treinamento e meio a proibição das queimadas. Um maior
operar tecnologias com características investimento em capacitação e treinamento
práticas operacionais especializadas por parte das empresas pode contribuir para
(BAPTISTA, 2012). qualificação de pessoas para atuar nas
usinas, realizando uma operação com
As novas tecnologias contribuem para a
eficiência, resultando em melhor
redução da poluição do ar, melhor utilização
produtividade. Há necessidade de uma
do solo, menos impactos negativos em
fiscalização contínua nas usinas, em relação
relação à saúde do trabalhador do campo,
ao cumprimento dos direitos e condições
redução no número de acidentes e incêndios
oferecidas para o trabalhador.
em áreas de proteção e áreas urbanas. No
entanto, devemos considerar alguns impactos
causados na empregabilidade e realocação
5. CONSIDERAÇÕES FINAIS
dos trabalhados do corte manual. Os estudos
de Vergínio e Almeida, (2013) relatam o caso
Embora tenham sido criados programas de
de uma usina na cidade de Ouroeste/SP. A
qualificação e realocação para os
substituição do trabalho manual pela
trabalhadores da cana-de-açúcar, essas
operação de máquinas ocasionou diversos
ações não são suficientes para reduzir os
questionamentos sobre as condições do
impactos causados no processo de expansão
trabalhador especializado. Foi constatado que
da mecanização da cana. A eliminação das
a produção é realizada initerruptamente em
queimadas e introdução da mecanização
três turnos. Não há um horário determinado
trouxe muitos benefícios, no entanto as
para a alimentação, necessidades
condições oferecidas ao trabalhador em
fisiológicas, os trabalhadores tem que se
algumas localidades revelam outros impactos
adequar a esta realidade. As máquinas e
Sustentabilidade e Responsabilidade Social - Volume 7
86

sociais que surgem com essa mudança. O necessário criar políticas públicas para que
baixo grau de escolaridade é um dos maiores os problemas e impactos sejam amenizados;
desafios encontrados para realocar investir em educação (alfabetização,
trabalhadores que atuavam em funções não formação técnica), infraestrutura, capacitação
especializadas. para promover desenvolvimento e reduzir os
impactos sociais apresentados no mercado
A universalidade da Responsabilidade Social
de trabalho do setor sucroalcooleiro da região
coloca o Estado e as organizações como
da Alta Paulista.
responsáveis pelo desenvolvimento social, é

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Sustentabilidade e Responsabilidade Social - Volume 7
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Sustentabilidade e Responsabilidade Social - Volume 7


PRODUÇÃO DE TIJOLOS ECOLÓGICOS ALINHADA AO
DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL: ADIÇÃO DE
RESÍDUOS SÓLIDOS URBANOS.

Alessandro Campos
Fernando Celso de Campos

Resumo:O crescimento urbano não devidamente planejado resulta em uma


geração de resíduos sólidos urbanos em larga escala, que é um grave passivo
ambiental, desencadeando a busca de alternativas desafiadoras para minimizar
estes problemas. Este artigo apresenta uma pesquisa alternativa para tais questões
pela reutilização de pneus inservíveis, e propõe um processo alinhado aos
princípios sustentáveis na produção de tijolos de solo cimento adicionando
resíduos de pneus com os princípios do triple botton line ou desenvolvimento
sustentável. Para avaliar a qualidade do produto apresentado, foram desenvolvidos
testes com adições de raspas de pneus sendo acrescidas gradativamente à
composição da mistura de solo cimento, buscando-se manter a resistência mínima
dos elementos embasados nas normas brasileiras. Como resultado visa-se a
produção de tijoslos ecológicos gerando benefícios ambientais, econômicos e
responsabilidade social com redução de materiais e tempo de produção. A
perspectiva é que isso gerará benefícios elencados pelo desenvolvimento
sustentável, pois os agentes na produção destes tijolos serão os mesmos que,
porventura, poderão utilizá-los na construção de suas residências, alcançando
desse modo aspectos sociais interessantes a partir de uma intervenção com
benefícios ambientais e econômicos.

Palavras-chave: Tijolos ecológicos; Desenvolvimento sustentável

Sustentabilidade e Responsabilidade Social - Volume 7


89

1. INTRODUÇÃO onde o planejamento deve ser mais eficiente,


para poder alcançar uma distribuição entre
Um problema ainda enfrentado pelas grandes indivíduos equitativa. Porém o objetivo final na
cidades são os resíduos sólidos urbanos apresentação destas propostas a partir do DS
(RSU) e seu descarte, e a partir do princípio consiste em encontrar um conjunto de ações
do desenvolvimento sustentável (DS), a viáveis para elevar o ganho em valores, tanto
reciclagem pode reduzir o impacto ambiental. financeiros quanto de responsabilidade
social. Outro ponto a ser ponderado no DS
Interessantes alternativas de reciclagem estão
implica na conservação dos recursos naturais,
sendo aplicadas e pesquisadas, dentre estas,
com a qual devem ser feitos esforços na
utilizar raspas de pneus em massa asfáltica.
minimização dos impactos ambientais. Devem
Estudos de novos materiais e procedimentos
ser realizadas abordagens regulares para
obtidos a partir desta óptica apresentam
indicar valores, e considerar a equidade com
modelos mais adequados com custo reduzido
relação à responsabilidade social, visando
na aplicação destes materiais como insumos
minimizar custos e maximizar os objetivos de
para a construção civil.
conservação ambiental. (HALPERN et al.,
A proposta deste trabalho é produzir tijolos de 2013).
solo cimento com adição de raspas de pneus
Diversos fatores que atingiram o planeta como
como agregado, para obter maior volume da
crises financeiras, conflitos entre países,
mistura e sem perda de resistência mínima
crises energéticas, escassez de recursos
com base nas normas aplicáveis a estes
naturais, aquecimento global e as mega
produtos visando atender os princípios da
fusões determinaram o crescente interesse
base do DS.
pela sustentabilidade. Isto fez com que novos
grupos que apoiam o DS se comprometessem
e majorassem os esforços na busca da
2. DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL (DS)
sustentabilidade, mas a falta de compreensão
da população em aplicar conceitos de
O conceito de sustentabilidade está dentro do
preservação e manutenção dos recursos
tripé: i) ambiental, ii) social e iii) econômico. O
naturais por ser um fundamento relativamente
conceito criado por volta de 1990 por John
novo e com bases filosóficas (RENUKAPPA et
Elkington, cofundador da organização não
al., 2012).
governamental SustainAbility (IDEA; 2009), se
desdobra em novos conceitos, sendo um Segundo Regino (2010), atualmente o
destes conhecido como TRIPLE BOTTOM mercado busca empresas e profissionais
LINE (TBL), que mensura o desempenho sintonizados com processos embasados no
econômico, social e ambiental, por meio de DS, mas para que isto possa ocorrer, todos os
algumas ferramentas para avaliação de envolvidos no processo produtivo devem
impactos. estar engajados nesta filosofia.
O TBL concentra-se não apenas sobre o valor Kucukvar; Tatari (2013), afirmam que o
econômico, mas também sobre o valor ambiente construído tem significativos
ambiental e social, pois não visa valorizar impactos sobre o meio ambiente, sendo
somente os lucros, mas valorizar o planeta e necessário levantar questões acerca da
as pessoas, com ênfase no meio ambiente, construção sustentável e conservação dos
nos estilos de vida e nos meios de recursos, sejam naturais ou industrializados.
subsistência, e sugere avaliar os impactos
Um dos principais contribuintes no grande
ambientais, para propor ações de acordo com
consumo de bens naturais e grande poluidor
os problemas levantados, avaliar o impacto
vêm do setor da construção civil, a exemplo
social para identificar as consequências do
dos Estados Unidos, onde 80% de todos
cenário exposto, sugerindo também uma
recursos em massa são empregados na
avaliação do impacto da saúde dos
construção, reformas, e retrofit de edifícios
envolvidos (ambiental e da população), e
(GRADEL; ALLENBY, 2009).
desta forma apresentar um plano estratégico
com os princípios no DS (VANCLAY, 2004). No momento em que se encontra a
construção civil no país, percebe-se que é
Kucukvar; Tatari (2013), sugerem que
importante incentivar a criação e execução de
conservar e gerenciar recursos exigem
novos métodos que contribuem com a
decisões sobre os benefícios acerca do DS,
Sustentabilidade e Responsabilidade Social - Volume 7
90

melhoria contínua do atual quadro de nível de longe de conseguir eliminá-lo (AKASAKI,


escolaridade dos trabalhadores da 2002).
construção civil.
Conforme a RECICLANIP (2014), quando um
Entende-se que um trabalhador qualificado pneu chega ao fim de sua vida útil sem
possa exercer sua atividade de maneira condições de rodagem, este deve ser
eficaz, aumentando suas competências deixado em local apropriado, como uma
profissionais, a qualidade do produto, revenda de pneus e borracharia ou um Ponto
qualidade profissional, social e educacional, de Coleta de Pneus.
se estendendo para sua qualidade de vida.
Com estas constatações, no ciclo de vida de
E uma empresa que somente investe em qualquer produto, um dia tudo se
“estoques de produtos”, e não investe em transformará em resíduo, desde imóveis,
“estoques de conhecimento”, estará fadada a automóveis, equipamentos mobiliários, aviões
sofrer problemas futuros em sua organização, e até pontes, onde se devem somar a este
por isso deve ser importante alinhar teoria e total, os resíduos do processo de extração de
prática através de ferramentas e matérias-primas e produção de bens de
procedimentos padronizados, sendo a consumo, e em alguns casos, os resíduos
padronização destacada como um importante gerados podem superar a quantidade de
meio para a redução da variação de produtos bens consumidos, afirma ROCHA (2003).
nos processos.
Sáffaro (2008) apud Imai (1997) justifica que a
2.2. TIJOLOS DE SOLO-CIMENTO COM
padronização contribui para a diminuição da
variabilidade, pois tem a intenção de ADIÇÃO DE MATERIAIS RECICLADOS
minimizar erros e estabelecer uma
metodologia a seguir e ser cumprida por Diferentes materiais são possivelmente
todos os envolvidos no processo para a aplicados na confecção de produtos
redução da variabilidade. utilizados na construção civil, minimizando o
uso de areia ou solo, podendo oferecer
Para definir padrão, apresenta uma
melhor capacidade de absorção de impactos
metodologia a partir de uma estrutura com o
e também maior desempenho acústico.
intuito de solucionar problemas, com os
passos: i)definir uma estratégia, envolvendo Sob esta óptica, foi realizado um estudo da
um método e uma meta para atingi-la; ii) viabilidade de adicionar raspas de pneus à
executar esta estratégia; iii)verificar a mistura na produção de tijolos de solo
execução e os resultados desta estratégia e; cimento.
iv)ajustar as anormalidades ao exercer o
Estudos têm sido feitos no sentido de
padrão ou desenhar um novo plano. E o
melhorar as propriedades de produtos
padrão pode ser definido a partir de um
cimentícios por meio da inclusão de resíduos
processo de experimentação, com uma
sólidos na composição destes produtos, com
investigação acerca de entender o fato
o intuito de minimizar impactos ambientais,
pesquisado (CAMPOS,1992).
visando disponibilizar alternativas em
beneficio de caráter técnico, do material e
também de caráter ambiental.
2.1. CICLO DE VIDA DE PNEUS E POSSÍVEIS
Recentemente no Brasil, estudos para
APLICAÇÕES
reciclagem e utilização dos pneus inservíveis
visam diminuir o problema, e o CONAMA
Os pneus, quando no estado de meia vida ou
publicou a RESOLUÇÃO Nº 416, DE 30 DE
com as carcaças passíveis de
SETEMBRO DE 2009, esta dispõe sobre a
recauchutagem, têm "valor positivo", e pneus
prevenção à degradação ambiental causada
não passíveis de recuperação têm "valor
por pneus inservíveis e sua destinação
negativo", mas algumas empresas
ambientalmente adequada (RECICLANIP,
comercializam estas raspas (CEMPRE, 2014).
2014).
E embora exista alternativas para reciclagem
Formagini (2007) ressalta o uso de raspas de
destes resíduos, a enorme quantidade deste
pneus para o setor da construção civil ou
material acumulada nos centros urbanos faz
produção de concretos como alternativa
com que o mercado brasileiro ainda esteja
Sustentabilidade e Responsabilidade Social - Volume 7
91

perfeitamente viável. Diversos trabalhos têm pesquisa bibliográfica um apoio ao trabalho


demonstrado que a inserção das raspas na para a condução o texto.
produção de concretos mostra-se uma boa
Para a determinação do solo, foram utilizadas
alternativa na aplicação deste produto.
como parâmetros as normas vigentes
Yoneyama (2002), constatou que, para aplicadas pela ABNT para tijolos maciços e
quantidades de borracha da ordem de 15% a blocos vazados de solo-cimento, onde os
20%, a característica do concreto se solos devem ser caracterizados de acordo
modificava e o amassamento se tornava mais com a NBR 6457:1986, a NBR 6459:1984, a
difícil, dificultando a moldagem dos corpos de NBR 7180:1988 e a NBR 7181:1988.
prova e prejuízo na qualidade das peças.
Segundo Akasaki (2002), o uso deste material
3.1. MOLDAGEM E DOSAGEM DE
na produção de bloco estrutural sem
comprometer a resistência mecânica dos MATERIAIS
blocos e sem elevar o consumo de cimento, é
de 13% (volume de raspas de pneus). Já Ao pesquisar e avaliar a melhor utilização
Katuta (2007) verificou que a substituição de deste resíduo sólido industrial em matrizes
7,5% da massa de areia por raspas de pneus para blocos de solo cimento, foi feita uma
foi a que apresentou resultados mais investigação experimental que se inicia com a
satisfatórios em termos do desempenho classificação e caracterização do resíduo in
mecânico do concreto quanto à resistência à natura, avaliando seu potencial.
compressão.
A partir da pesquisa bibliográfica e dos
Alguns resultados até então demonstram que estudos realizados em laboratório, os traços
os tijolos de solo cimento utilizando materiais para produção destes blocos foram utilizados
antes descartados, além de apresentar bom na proporção de 1:5:1 (cimento: solo: raspas
desempenho técnico, podem vir a competir de pneus), com aplicação 1000ml de água.
com o bloco de solo cimento tradicional,
Para os ensaios de estabilização da mistura
apresentando boa resistência à compressão
assim como resultado da massa no estado
dos corpos de prova testados.
endurecido, foram moldadas inicialmente
Portanto, estudos utilizando a raspa de pneus séries de 6 (seis) corpos-de-prova cilíndricos,
como agregado na massa de tijolos de solo com 10 cm de diâmetro e 20 cm de altura e
cimento, tem se destacado como um ensaiados com 07 dias de idade, buscando-
elemento pouco valorizado. Por sua se alcançar a resistência à compressão axial
propriedade elástica, no processo de de acordo com o procedimento da norma
compactação por prensa hidráulica, há NBR 12024 - Solo cimento- Moldagem e cura
compressão e reversão ao seu estado natural, de corpos de prova cilíndricos.
o que é um inconveniente conforme a
O processo produtivo para tijolos de solo
composição no traço.
cimento consiste em misturar de forma
homogênea uma parte de cimento, com
partes de solo e água para dar “pega” ou
3. ABORDAGEM METODOLÓGICA
“liga” e assim estabilizar essa massa e
posteriormente, possibilitar seu amassamento
Este trabalho tem como finalidade gerar
para ser prensado. Tanto o solo quanto a
conhecimento com o intuito de uma aplicação
raspa de pneu devem ser passar por peneira
prática, a partir de uma experimentação de
com malha de 4,8mm, ou a peneira utilizada
processo produtivo propondo um modelo de
para café, com abertura de malha em
tijolo de solo cimento com agregado
aproximada de 5mm x 5mm.
reciclado, no caso, raspa de pneu.
A prensagem é feita dentro de moldes e
A pesquisa está fundamentada nos
fôrmas variadas, que possibilitam produzir
conhecimentos empíricos realizados
diversos tipos de tijolos. Estes elementos
conjuntamente entre uma ação ou resolução
fabricados são estocados em uma área para
de um problema, ao qual os pesquisadores e
“cura” e, mantidos úmidos, por um período
demais participantes estão envolvidos de
nunca inferior a 07 dias.
modo cooperativo (MIGUEL, 2007), e a

Sustentabilidade e Responsabilidade Social - Volume 7


92

Para estudar o desempenho do tijolo obter o valor de material a ser incorporado na


adicionando as raspas de pneus, foi mistura, neste caso, a borracha, sem diminuir
elaborado um traço inicial como referência e a as propriedades de estabilização.
partir de um, sendo realizada a adição de
Foram preparados três traços de solo-cimento
raspas de pneus gradativamente na porção
com adição de raspas de pneus, sendo um
de solo para a produção dos blocos, obtendo-
traço com valores de 1:5:1, outro com traço
se diferentes traços.
de 1:5:2 e uma terceira mistura com traço de
Depois de concluída a moldagem e verificada 1:5:3, onde cada mistura feita foi capaz de
a estabilização do mesmo, foram feitos moldar no mínimo corpos de prova, para
ensaios para verificar a qualidade da mistura poder curá-los como estabelecido e enviá-los
após 24 horas de secagem do bloco ao ao laboratório para ser submetido ao teste de
natural, sem submetê-lo a cura por meio de compressão em prensa hidráulica, após curá-
câmera úmida. Estes ensaios foram realizados los como estabelecido na norma NBR
por meio de testes de resistência a 10833/1989 .
compressão em prensa hidráulica, para
Após sete dias de cura em câmara úmida, os
avaliar suas características físicas após o
corpos-de-prova foram ensaiados de acordo
teste.
com as instruções da NBR 8492 ou 10836,
Após determinado o traço para a produção da para poder determinar qual obteve melhor
mistura, foram moldados os corpos de prova resistência a partir da adição das raspas, e
cilíndricos para avaliação da mistura assim escolher o traço mais econômico que
endurecida, submetidos aos ensaios de atenda às exigências estabelecidas na NBR
compressão simples para a avaliação da 8491 e NBR 10834.
resistência à compressão.

3.3. TRAÇO
3.2. CORPOS DE PROVA
O traço de referencia unitário em massa
Os procedimentos de dosagem para utilizado foi 1:5 (uma parte de cimento para
preparação dos corpos de prova de solo cinco partes de terra) e a relação
cimento foram estabelecidos no preparo de água/cimento em torno de 1,0 (1000ml).
um traço para determinar a quantidade de Foram definidos, além do traço de referência,
materiais juntamente com o fator três traços com adição das raspas de pneus,
água/cimento, sendo que a determinação da nas taxas de 1:5:1, 1:5:2, 1:5:3, sendo que
quantidade de materiais indicados foi no teor para cada traço, estes foram determinadas
de 1:5 (uma parte de cimento para cinco nomenclaturas como M 01 (Mistura 01), M 02
partes de terra). Essa dosagem foi realizada (Mistura 02) e M 03 (Mistura 03), conforme a
para poder mensurar a quantidade indicada e Tabela 01.

Tabela 01 – Traço dos concretos analisados para 06 corpos de prova


Solo cimento Cimento Terra Raspas de Fator
pneus agua/cimento
Referência 1 5 0 1,0
M01 1 5 1 1,3
M02 1 5 2 1,6
M03 1 5 3 2,1
Obs.: Os números da tabela anterior indicam uma relação das proporções dos traços
Fonte: Dados do estudo

Sustentabilidade e Responsabilidade Social - Volume 7


93

3.4. MATERIAIS prensagem e colocados à sombra, sobre uma


superfície plana, por 24 horas.
Os materiais utilizados foram: cimento
Para o processo de cura dos corpos de
Portland CP32VII, solo proveniente da fazenda
prova, após 24 horas de moldagem e durante
escola da Universidade Católica Dom Bosco
os sete primeiros dias, estes foram mantidos
(Campo Grande - MS), raspas de pneus
dentro de câmara úmida, sendo que após
proveniente da recauchutagem de pneus e
este período os corpos de prova foram
água proveniente da rede pública de
submetidos a ensaios de compressão para
abastecimento.
verificação de sua capacidade de resistência
Foi utilizada a fração de raspas de pneus à ruptura.
passante na peneira de arroz (peneira n 5),
produzidas com aro de madeira e tela de
arame galvanizado malha 10 (abertura 3.6. ANÁLISE E DISCUSSÃO
#2,18mm), conforme figura 04, sendo
indicada pelo menos utilizar a peneira #4,8 Visando diminuir o problema passivo
mm (nº 4), sendo passante 100% dos ambiental dos pneus inservíveis, Martins
materiais a ser utilizados na produção dos (2004) afirma que a reciclagem de pneus
tijolos. Foi descartada a fração retida nesta pode ser um meio adequado para a aplicação
peneira, por a dimensão das raspas de pneus deste material.
podem afetar a fabricação nas prensas
Com base nos princípios do DS, a proposta
hidráulicas, prejudicando as paredes das
deste trabalho fundamentou-se em
fôrmas das prensas.
desenvolver um produto com menor utilização
de materiais não renováveis e inclusão de
materiais reciclados em sua composição.
3.5. MOLDAGEM E RUPTURA

Conforme sugere a norma NBR 10833/1989, o


3.7. DETERMINAÇÃO DO TRAÇO
composto deve ser obtido por meio do
processo de misturar o cimento ao solo,
Nos traços com adição de raspas de pneus,
sendo este destorroado e peneirado, até obter
foram constatados que quanto maior a
uma coloração uniforme, e logo após essa
quantidade de resíduos incorporados, maior a
mistura ficar homogênea, colocar água aos
proporção de água adicionada, pois o volume
poucos até atingir a umidade ideal de
resultante dificultava o amassamento e a
trabalho.
estabilização da mistura, sem permitir manter
Deve-se transferir imediatamente a mistura o valor da relação água/cimento em 1,0 para
para o corpo de prova e executar a ajustar a trabalhabilidade, conforme Tabela
02.

Tabela 02 – Trabalhabilidade e amassamento das misturas


Solo cimento Cimento Terra Raspas de Fator Tempo de
pneus agua/cimento amassamento
Referência 1 5 0 1,0 15 minutos
M01 1 5 1 1,3 15 minutos
M02 1 5 2 1,6 18 minutos
M03 1 5 3 2,1 25 minutos
Obs.: Os números da tabela anterior indicam uma relação das proporções dos traços.
Fonte: Dados do estudo

Sustentabilidade e Responsabilidade Social - Volume 7


94

3.8. MASSA ESPECÍFICA DO SOLO CIMENTO raspas de pneus), traços M02 na proporção
de 1:5:2 (1 cimento : 5 areia : 2 raspas de
Foi constatado que, adicionando-se uma pneus), e traços M03 na proporção de 1:5:3
quantidade de raspas de pneus à mistura (1 cimento : 5 areia : 3 raspas de pneus), a
desde os valores iniciais com traços M01 na resistência foi diminuindo, observados na
proporção de 1:5:1 (1 cimento : 5 areia : 1 Tabela 03.

Tabela 03 – Resultado do ensaio de resistência à compressão.


Corpos de prova (cp) Mistura 01 (m01) Mistura 02 (m02) Mistura 03 (m03)
1:5:1 1:5:2 1:5:3
CP 01 2,80 MPa 2,98 MPa 1,20 MPa
CP 02 4,19 MPa 1,99 MPa 1,10 MPa
CP 03 2,57 MPa 2,36 MPa 1,18 MPa
CP 04 3,36 MPa 2,69 MPa 1,36 MPa
CP 05 3,85 MPa 2,41 MPa 1,58 MPa
CP 06 3,75 MPa 2,38 MPa 1,01 MPa
MÉDIAS 3,42 MPa 2,96 MPa 1,23 MPa
Fonte: Dados do estudo

Como o propósito foi avaliar o desempenho finalidade não estrutural, considerando a


dos corpos de prova adicionados com raspas possibilidade de utilizar estes tijolos para
de pneus, foram adotados como referencia de construção civil aliado aos princípios do DS.
melhor teor raspas/solo cimento o traço 1:5:2,
Ao propor a utilização de materiais de baixo
pois a quantidade adicionada não diminuiu a
custo e fácil aplicação, gera oportunidades
quantidade especificada por norma para este
junto à grupos da população e oferecendo um
tipo de material.
produto de qualidade a um custo acessível,
Isto demostra estar em em conformidade com indo de encontro à minimização dos impactos
valores de 2,0 MPa para este tipo de material, ambientais, econômicos e sociais, sugerindo
demonstrando ser o traço mais adequado desta forma uma possibilidade de
para tal uso. atendimento aos princípios propostos pelo
DS.
Desta forma, novos estudos podem ser
realizados utilizando novas proporções de Com os resultados apresentados nos testes
raspas de pneus adicionadas na mistura, de resistência e avaliações de disponibilidade
visando o aumento de teor de solo nas de material, demonstrou-se ter grande
misturas para maior rendimento na produção potencial como alternativa para a construção
dos tijolos e blocos de solo-cimento e civil, pois além da vantagem de ser um
melhorar o desempenho mecânico destes material regional o solo é utilizado in natura,
elementos. gerando menor custo no processo produtivo.
Ao se utilizar raspas de pneus na mistura do
tijolo solo-cimento, há uma redução sensível
4. CONCLUSÃO
do passivo ambiental gerado por pneus que
não teriam como ser reutilizados quando
A utilização de raspas de pneus no processo
descartados inadequadamente, porém, essa
de confecção de tijolo de solo cimento
proposta soluciona em parte essa
apresentou-se como uma alternativa que
problemática pelo uso no traço proposto.
proporcionou resultados satisfatórios no que
se refere às normas estabelecidas pela ABNT Essa vertente gera influência ao impacto
para elementos de solo-cimento com social ao haver a preocupação com a

Sustentabilidade e Responsabilidade Social - Volume 7


95

possibilidade de geração de empregos, de qual este processo seja responsável por


renda e organização às comunidades mudanças culturais como uma filosofia,
podendo ser em formato de cooperativas ou atribuindo maior responsabilidade e
pequenas empresas na comunidade. comprometimento em todos os segmentos.
Desta forma, o processo produtivo a partir da
visualização do DS deve ser um conceito ao

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Sustentabilidade e Responsabilidade Social - Volume 7


LOGÍSTICA REVERSA DAS EMBALAGENS VAZIAS DE
AGROTÓXICOS: CONSCIENTIZAR PARA FOMENTAR UM
AGRONEGÓCIO SUSTENTÁVEL
Jaqueline Aparecida Boni Souza
Ivo Pereira de Souza Júnior
Silvia Cristina Vieira
Renan Borro Celestrino

Resumo: O Brasil está entre os maiores consumidores mundiais de agrotóxicos o


que pode reverberar interferências diretas ao meio ambiente. O uso de
agrotóxicos na agricultura brasileira corrobora com a farta produtividade.
Contudo, tende a reverberar ações antrópicas com efeitos ambientais nocivos.
Para minimizar impactos do agronegócio, o modelo nacional de devolução das
embalagens vazias de agrotóxicos tornou-se referência mundial em
sustentabilidade. Esse artigo tem como objetivo geral identificar fatores de
conscientização sustentável no agronegócio, quanto à logística reversa das
embalagens vazias de agrotóxicos no Brasil. De maneira específica, objetiva-se
pontuar a importância do profissional engenheiro agrônomo, neste processo de
educação ambiental informal sobre a prática da devolução correta das embalagens
vazias de agrotóxicos. A atual pesquisa buscou trazer elementos existentes na
legislação e a relevância da conscientização dos atores por meio do papel do
engenheiro agrônomo, neste processo de educação ambiental informal. Este
ensaio segue a linha de pesquisa qualitativa, ancorado em revisão bibliográfica e
documental com aporte da legislação sobre a Logística Reversa das Embalagens
Vazias de Agrotóxicos em harmonia com a Política Nacional de Resíduos Sólidos.
Foram observadas diversas contribuições de sucesso para conscientização do
manejo sustentável dos agrotóxicos como o Programa Sistema Campo Limpo do
Instituto Nacional de Processamento de Embalagens Vazias complementado pela
atuação profissional de engenheiros agrônomos. Contudo, ainda ocorre a
necessidade de uma maior atenção para o assunto, notou-se baixo potencial de
coalizão visando efetivar melhor desenvoltura nas relações entre a rede de
responsabilidade compartilhada para promover a logística reversa das embalagens
de agrotóxicos.

Palavras-Chave: Logística reversa. Agrotóxico. Sustentabilidade.


Sustentabilidade e Responsabilidade Social - Volume 7
98

1. INTRODUÇÃO alimentos, podem mesmo provocar


contaminação.
O Brasil está entre os maiores consumidores
Em território nacional tornou-se usual a
mundiais de agrotóxicos o que pode gerar
utilização de agrotóxicos de uma forma
consideráveis interferências diretas no meio
irracional, ainda por resquícios da
ambiente.
“Revolução Verde” visando elevar a
As questões que envolvem a degradação do produtividade agrícola e seus efeitos
ecossistema na sociedade contemporânea negativos foram desprezados. Atualmente, a
conscientização dos atores envolvidos na
corroboram para uma reflexão que percorre
cadeia produtiva do agronegócio tende a
várias dimensões: a social, a ambiental e a
fomentar um paradigma de sustentabilidade.
econômica, que permeiam questões dos
sistemas de produção agrícola, da crescente A Revolução Verde é um modelo baseado no
demanda por alimentos e da práxis do uso de uso intensivo de agrotóxicos e fertilizantes
insumos químicos sintéticos, entre eles os sintéticos na agricultura, com objetivo de
agrotóxicos. promover a modernização da agricultura.
Pode-se concluir que a Revolução Verde não
Os agrotóxicos são moléculas sintetizadas,
foi apenas um avanço técnico para elevar a
usadas para comprometer determinadas
produtividade, mas também existe uma
reações bioquímicas de insetos,
intencionalidade inserida dentro de uma
microrganismos, animais e plantas que se
estrutura de um processo histórico, pós a
quer controlar ou extinguir numa cultura
Segunda Guerra Mundial onde ocorreu
agrícola (SPADOTTO et al., 2004).
reaproveitamento de armas químicas como
Apesar dos rendimentos agrícolas insumos para a agricultura (ANDRADES;
apresentarem um potencial aumento de GANIMI, 2007).
produtividade, os agrotóxicos podem causar
Para colaborar com este movimento
intoxicações humanas, contaminação
sustentável brasileiro, surgem políticas
ambiental e geração de resíduos sólidos no
públicas que norteiam o descarte correto dos
descarte de suas embalagens. A logística
resíduos da produção agrícola. Para minimizar
reversa dessas embalagens, tornou-se
o impacto ambiental causado pelo descarte
ferramenta importante para diminuição de
incorreto das embalagens, o Brasil criou uma
resíduos descartados de maneira incorreta
legislação específica para o tema. Assim, no
pelo setor agrícola no meio ambiente
dia 6 de junho de 2000, declarou-se a Lei n°
(OLIVEIRA; CAMARGO, 2014).
9.974, que alterou a Lei de Agrotóxicos,
No Brasil, muitas vezes por falta de garantindo um controle maior sobre as
conscientização, os agricultores, carentes de embalagens, que retrata sobre a pesquisa,
qualificação profissional e com informações experimentação, produção, embalagem e
fragmentadas, enterram as embalagens de rotulagem, transporte, armazenamento,
agrotóxicos usadas em locais inadequados. comercialização, propaganda, utilização,
Outras são jogadas as margens de rios e importação e exportação, destino final dos
lagos, algumas vezes até queimadas a céu resíduos e embalagens, registro,
aberto, emitindo poluentes tóxicos na classificação, controle, inspeção e
atmosfera (SOARES; FREITAS; COUTINHO, fiscalização de agrotóxicos. Essa lei foi
2004). A reutilização destas embalagens determinada, em última instância, pelo
como utensílios domésticos ou cochos para Decreto 4.074/2002 (MARQUES; BRAGA
animais, armazenando água e alimentos JUNIOR; CATANEO, 2015).
acarreta sérios riscos de saúde, já que as
A Lei trouxe algumas responsabilidades a
embalagens possuem ainda resíduos tóxicos
serem divididas entre todos os agentes
prejudiciais à saúde humana e animal.
participantes no uso de agrotóxicos. Ao
Em complemento a este diálogo, confirmam produtor rural, coube a responsabilidade da
Cometti e Alves (2010) que, se as tríplice lavagem e devolução das
embalagens forem descartadas no meio embalagens pós-consumo; aos
ambiente podem contaminar o solo e o comerciantes, a responsabilidade de
lençol freático, se forem usadas como preparar um local adequado para
utensílios domésticos, armazenando água ou recebimento das embalagens ou indicar nas
notas fiscais de venda os locais de
Sustentabilidade e Responsabilidade Social - Volume 7
99

devolução; ao fabricante, a responsabilidade agrotóxicos, surge a seguinte questão,


de recolher e dar destinação final adequada norteadora para esta pesquisa: O
as embalagens ; e ao governo, a agronegócio brasileiro encontra-se
responsabilidade de supervisionar e conscientizado para uma produção
desenvolver, junto com os fabricantes, a sustentável?
orientação técnica e educação ambiental
(MARQUES; BRAGA JUNIOR; CATANEO,
2015). 2. DESENVOLVIMENTO
Visando colaborar com este processo, a
2.1 SUSTENTABILIDADE: ESTREITO
Política Nacional de Resíduos Sólidos
(PNRS) – Lei 12.305/2010, instituiu-se como VÍNCULO COM A LOGÍSTICA REVERSA DAS
instrumento de desenvolvimento econômico
EMBALAGENS VAZIAS DE AGROTÓXICOS
e social a implantação de sistemas de
logística reversa, atribuindo a EM TERRITÓRIO BRASILEIRO
responsabilidade do pós-consumo aos
fabricantes, importadores, distribuidores, As instituições que estão ligadas a cadeia
comerciantes e consumidores (MOURÃO; produtiva do agronegócio possuem uma
SEO, 2012). relação direta com práticas de educação
ambiental informal, já que grande parte dos
Esse artigo tem como objetivo geral identificar
recursos utilizados no processo produtivo
fatores de conscientização sustentável no
provém da natureza e do meio ambiente
agronegócio, principalmente para produtores
(LAMARCA; VIEIRA; MORALES, 2016). O
rurais, quanto à logística reversa das
descarte incorreto de resíduos provenientes
embalagens vazias de agrotóxicos no Brasil.
destas instituições, apresenta-se como ponto
De maneira específica, objetiva-se pontuar a fraco do setor, mas tende a ser minimizado
importância do profissional engenheiro com ações de logística reversa.
agrônomo, neste processo de educação
Segundo Benck e Duarte (2007) a logística
ambiental informal sobre a prática da
reversa pode ser explicada como uma
devolução correta das embalagens vazias de
forma de contribuição positiva de
agrotóxicos.
preservação ao meio ambiente, pois a
Os agricultores, muitas vezes carentes de devolução dessas embalagens proporciona
informações, desconhecem a maneira sustentabilidade.
correta de higienizar, inutilizar e descartar as
A logística reversa é a área da logística
embalagens vazias de agrotóxicos, agindo de
empresarial que projeta, realiza e controla o
tal forma, que possa agredir o meio ambiente.
fluxo e as informações logísticas
O assunto é muito importante e apropriado correspondentes, da devolução dos bens de
para o setor do agronegócio, pois a Lei n° pós-venda e pós-consumo ao ciclo de
12.305, de 2 de agosto de 2010 determina a negócios ou ao ciclo produtivo, ou seja, é
obrigatoriedade do retorno das embalagens um responsável ativo no processo de
de todos os resíduos sólidos (Brasil 2010). reciclagem dos produtos, além disso,
Neste sentido, o Programa Sistema Campo acrescenta valores de recursos de reputação
Limpo torna-se um exemplo de estratégia como tais como o econômico e o ecológico
para sustentabilidade no agronegócio e um (LEITE, 2010). O fluxo da destinação das
modelo para outros setores produtivos. embalagens vazias de agrotóxicos encontra-
se esquematizado na Figura 1.
Diante das reflexões e da práxis da
logística reversa das embalagens vazias de

Sustentabilidade e Responsabilidade Social - Volume 7


100

Figura 1: Fluxo da destinação das embalagens de agrotóxicos

Fonte: MACEDO et al., 2015

Foram compilados na Figura 1 os principais setor agrícola e 27 empresas. No ano de


elos do sistema para que ocorra o processo 2002 partiu para a ação efetiva de
de logística reversa das embalagens de conscientização, pois originou programas de
agrotóxicos. reuniões em vários Estados do país para
padronizar entendimentos sobre a legislação
No trajeto apresentado, é de fundamental
da logística reversa para embalagens vazias
relevância ressaltar a presença do
com diversos fatores.
profissional engenheiro agrônomo em todos
os elos, desde o complexo industrial de Essa organização coletiva, responde pela
insumos, perpassando pelos distribuidores, gestão do Sistema Campo Limpo que está
revendas e cooperativas, permeando o presente em todas regiões do país e
setor produtivo primário (propriedades rurais), promove vários programas de educação
unidades de recebimento até seu destino final. ambiental e conscientização referente às
embalagens vazias de defensivos agrícolas.
Tal profissional assume a característica de
Como representante da indústria, o InpEV
multiplicador e emissor de conteúdo
passou a criar campanhas e materiais
informacional sobre os trâmites da logística
educativos, em especial visando incentivar a
reversa das embalagens vazias de
realização da tríplice lavagem e a devolução
agrotóxicos, pois conhece e transita por todo
das embalagens vazias pelos agricultores.
o fluxo do processo, podendo além de
Mas também foi além, transformando-se em
educar, detectar falhas no sistema propor
propagador da mensagem sobre a
ajustes.
importância da preservação ambiental,
De maneira coletiva, surgiram ações causa maior onde se insere o correto
educativas para conscientizar e fomentar a descarte de embalagens vazias de
sustentabilidade do agronegócio nacional. agrotóxicos (InpEV, 2013).
No dia 14 de dezembro de 2001, foi criado o Nesse cenário do agronegócio, a educação
InpEV (Instituto Nacional de Processamento ambiental informal desponta como
de Embalagens Vazias) é uma entidade sem ferramenta capaz de promover a discussão
fins lucrativos voltada a promover em todo o e análise da problemática da logística
Brasil o correto descarte das embalagens reversa, não somente conscientizando, mas
vazias de defensivos agrícolas. Tendo como agrupando também de forma integral a
associadas sete entidades representativas do participação da sociedade na sua vertente

Sustentabilidade e Responsabilidade Social - Volume 7


101

política, considerando os aspectos históricos que as práticas sofram um processo reflexivo.


e culturais. Loureiro (2002) desenvolve Vieira e Bernardo (2016) reafirma a mesma
críticas e problematiza que a educação posição.
ambiental não pode ser considerada
As autoras pontuam que não basta repetir
somente pelo aspecto ambiental, pois
igual, é necessário a compreensão do
diminui o seu valor e potencial, entretanto,
porquê se deve fazer assim, para que a
é necessário pensar a educação ambiental
conscientização, com função educativa, se
como fonte de conscientização para a
concretize no cenário do agronegócio. Neste
sociedade.
sentido, o processo de comunicação pode
“As representações sociais equivalem a um apresentar-se como fator facilitador ou
conjunto de princípios construídos dificultar o entendimento da mensagem.
interativamente e compartilhados por
Para entender a comunicação no meio rural,
diferentes grupos que através delas
torna-se necessário identificar as formas de
compreendem e transformam sua realidade”
agir e de pensar do homem do campo, que
(REIGOTA, 1997, p.70).
por muitas vezes acabam gerando códigos
No Brasil, na tentativa de enfrentar desafios e meios de comunicação próprios e
impostos pela necessidade conscientização particulares, construindo modelos específicos
de uma produção agrícola mais limpa, de comunicação para o agronegócio
compatível com os ideários do (BORDENAVE, 1983).
desenvolvimento rural, um referencial com
A concepção de agronegócio foi apontada
viés de sustentabilidade permeia toda a
pela primeira vez como marco referencial nos
cadeia do agronegócio e tenta mitigar ações
Estados Unidos, por Davis e Goldberg
antrópicas, apoiadas por atuações de
(1957), onde relataram que o segmento
educação informal por meio da Assistência
deveria ser entendido de forma sistemática,
Técnica e Extensão Rural (ATER) nacional
atrelado a todas as atividades a ele
(BERNARDO et al., 2015).
relacionado, estabelecendo, a partir desse
No setor corporativo do agronegócio, esse raciocínio, o conceito de agribusiness que é
processo pedagógico informal, embora utilizado até os dias atuais.
interdisciplinar, encontra-se com forte
No Brasil a definição de agronegócio foi
aderência ao engenheiro agrônomo. Em toda
complementada por Batalha (2001), ao
a cadeia produtiva do agronegócio é possível
afirmar que a cadeia produtiva do
identificar traços de sustentabilidade,
agronegócio é um conjunto de elementos
provenientes deste processos de ensino
geradores de riquezas extraídas de recursos
aprendizagem, fundamentado no campo, por
naturais e renováveis, divididos em três fases
meio da assistência técnica e na extensão
distintas a montante e a jusante do elo
rural.
produtivo primário, classificadas em: antes da
Além de uma atuação baseada em porteira; porteira adentro e fora da porteira.
métodos e técnicas que estimulem a Vale lembrar que o engenheiro agrônomo
participação dos envolvidos, o modelo de percorre toda a cadeia produtiva descrita por
ATER atual precisa ser, verdadeiramente, Batalha (2001), o que ressalta sua
uma ação educativa, democrática e importância como elo comunicacional entre
participativa (CAPORAL; RAMOS, 2006). os atores do agronegócio.
Com o intuito de propor uma construção do
Múltiplos conceitos foram desenvolvidos para
conhecimento que leve a conscientização
o termo agronegócio: “agronegócio é um
sobre um problema.
conjunto de operações que incluem a
Torna-se fundamental que a conscientização produção, o processamento, o
quanto a logística reversa das embalagens armazenamento, a distribuição e a
vazias de agrotóxicos não seja apenas comercialização de produtos agropecuários e
ancorado no processo de aprendizagem insumos” (BERNARDO; BERNARDO 2013,
baseado na reprodução de ações dos p.45). Entre os insumos citados, destaca-se
extensionistas. Freire (2010) e Bordenave os agrotóxicos.
(2002) são categóricos ao afirmarem que,
A estrutura do ambiente institucional que
para que a de transferência da informação
permeia as cadeias produtivas do
e a conscientização ocorra, é fundamental
agronegócio, exibe cultura, tradições,
Sustentabilidade e Responsabilidade Social - Volume 7
102

educação e costumes (ZYLBERSZTAJN, elaborada compilando materiais que não


2000). Outros aspectos pertinentes do receberam tratamento analítico. Utilizou-se
ambiente institucional como Leis e também a leitura de documentos externos de
normativas tendem a solidificar a fonte secundária e técnica de observação
conscientização quanto à sustentabilidade no com aderência ao site do Instituto Nacional
cenário do agronegócio. de Processamento de Embalagens Vazias -
InpEV, Lei nº 9.974/00, Plano Nacional de
A relevância do agronegócio de modo geral,
Resíduos Sólidos e robusta legislação da
transcende sua importância para a produção
Logística Reversa das Embalagens Vazias de
de alimentos e caráter econômico. Engloba
Agrotóxicos.
fatores sociais, culturais, políticos e
ambientais com caráter de sustentabilidade
que, por vezes, passam despercebidos
4. ANÁLISE DOS RESULTADOS
(VIEIRA, 2016).
Identifica-se que houve uma evolução no
sistema de logística reversa de embalagens
3. TRILHA METODOLÓGICA
vazias de agrotóxicos no Brasil, isso devido
ao sistema de redes que foi disponibilizado
O caminho metodológico trilhado neste
por meio do Instituto Nacional de
ensaio encontra-se ancorado em uma
Processamento de Embalagens Vazias
abordagem qualitativa e de caráter
(InpEV), e determinações anteriores
exploratório, apropriou-se de vários
determinadas pela Lei n° 9.974/00, que
procedimentos metodológicos para focar na
alterou a Lei nº 7.802, de 11 de julho de
interpretação dos fenômenos, no contexto
1989 (BRASIL, 2000).
particular em que ocorrem (COOPER;
SCHINDLER, 2011; HAIR et al., 2005). O Brasil se destaca como referência na
questão sustentabilidade do agronegócio: O
Torna-se pesquisa de abordagem qualitativa,
InpEV afirma que atualmente, a nação serve
na medida que não se utiliza recursos
de modelo na logística reversa de
estatísticos como suporte do processo de
embalagens vazias de agrotóxicos, segundo
análise de um determinado problema.
dados referentes ao ano de 2009, apontaram
Busca-se interpretar os fenômenos e
que 94% das embalagens plásticas primárias
descrevê-los, priorizando a preocupação com
(aquelas que tem contato direto com produto)
o estudo e análise do mundo empírico em
foram recolhidas do campo e enviadas para
seu ambiente natural (RICHARDSON, 2007).
o destino ambientalmente correto e 80% do
Segundo as autoras Lakatos e Marconi total das embalagens comercializadas são
(2011), segue a linha de pesquisa qualitativa, devolvidas. Na Alemanha, o índice de
que tem como objetivo analisar e interpretar recolhimento é de 68%, enquanto França e
aspectos mais profundos, descrevendo a Japão recolhem cerca de 50%. Nos Estados
complexidade do comportamento humano. Unidos a taxa de recolhimento é bem mais
baixa: 33%. Os números provam que no
Ancorada em Gil (1991), a pesquisa
assunto sustentabilidade, o agronegócio
bibliográfica foi arquitetada a partir de um
brasileiro também é de primeiro mundo
referencial bibliográfico científico impresso e
(ANDEF, 2014).
digital. A pesquisa documental foi

Sustentabilidade e Responsabilidade Social - Volume 7


103

Gráfico 1: Porcentagem das embalagens plásticas de defensivos corretamente destinadas, por país

Fonte: InpEv (2013)

O programa de conscientização e fomento recolhimento de toneladas de material. Pode-


da logística reversa de embalagens de se observar no Gráfico 2 que nos primeiros
agrotóxicos do InpEV denominado Sistema três anos a devolução das embalagens
Campo Limpo, que teve início no ano de quase dobrou e o crescimento contínuo foi
2001 obteve resultados significativos, o expressivo. Isso indica que a rede está
índice da destinação ambientalmente correta permanente e o sistema está equilibrado em
de embalagens cresceu continuamente com todo país.

Gráfico 2: Evolução do total de embalagens destinadas no período de 2002 a 2016 no Brasil


(Ano/toneladas)

Fonte: InpEv, 2016

Sustentabilidade e Responsabilidade Social - Volume 7


104

Na Figura 2 os números relatam a Neste sentido, as contribuições trazidas por


porcentagem das embalagens devolvidas Loureiro (2002) e Reigota (1997) relatam que
pelos agricultores em todo Brasil, (em a educação ambiental informal auxiliam no
toneladas) e revelam o crescente processo pedagógico para o fomento de um
recolhimento em comparação com os ambiente sustentável além das questões
resultados obtidos em anos anteriores. ambientais, incluindo um viés social e
Demonstram a evolução no país a cada ano econômico, que constituem o tripé que
desde a implantação do Sistema Campo norteia a sustentabilidade e tendem a possuir
Limpo no ano de 2002, e estima previsão para eficácia transformadora numa sociedade.
o ano de 2017. Em apoio aos processos
Muitos desafios ainda precisam ser
coletivos como os da InpEV, foi apontado por
superados na abordagem da problemática
Bernardo et al., (2015) que o processo de
das embalagens de agrotóxico na etapa pós-
assistência técnica e extensão rural,
consumo, até mesmo pela dimensão territorial
desempenha relevante papel no
do Brasil.
compartilhamento de informações e
conscientização para fomentar um Com a observação da evolução dos índices
desenvolvimento rural sustentável em solo que conduzem a logística reversa de
brasileiro. embalagens
No processo de ATER ou de maneira vazias no setor do agronegócio,
particular o profissional engenheiro apresentados no Gráfico 2, pode ser
agrônomo embora amparado por profissionais possível que o modelo seja copiado para
das ciências agrárias e demais modalidades outros setores da economia, a fim de diminuir
interdisciplinares, assume um importante o impacto ambiental e alcançar diferencial
papel de fomentador de ações sustentáveis competitivo pela utilização de instruções de
no agronegócio do Brasil, em especial na boas práticas de gestão, planejamento
conscientização sobre a Logística Reversa estratégico e fomento a sustentabilidade.
das Embalagens Vazias de Agrotóxicos. Sua
Comprovou-se que a responsabilidade
atuação profissional possui permeabilidade
compartilhada entre indústria, governo e
em todos os elos da cadeia produtiva do
consumidores, como no caso do InpEV
agronegócio, neste ensaio, descrita por Devis
mostrou ser ótimo modelo, observou-se
e Golgberg (1957), complementada por
através da pesquisa que o Brasil, como
Batalha (2001) e Bernardo e Bernardo
potência produtiva, consumidora e produtora
(2013). Assim, fica a cargo do profissional
de resíduos sólidos pode utilizar o modelo
que prescreve o uso do agrotóxico e
base desse estudo, considerado um caso de
normalmente apresenta-se como
sucesso em termos de logística reversa no
responsável técnico das lavouras ser o
país, que de forma progressiva alcança níveis
emissor do processo de conscientização,
de elevada excelência.
onde ele detêm o vocabulário específico para
informar cada público nos diversos elos da
cadeia, principalmente no elo produtivo
5. CONCLUSÃO
primário, entre os produtores rurais que
possuem especificidades e vocabulário
A Logística reversa das embalagens vazias
próprio segundo relatos já apresentados por
de agrotóxicos mostrou-se uma estratégia
Bordenave (1983).
baseada em princípios de sustentabilidade
A decodificação da mensagem e a reflexão que vão além das questões ambientais.
sobre uma problematização, visando a
Projetos como Sistema Campo Limpo
conscientização e minimização de um
desenvolvido pelo InpEV após o ano 2000
problema tornou-se explicita nas falas de
com apoio técnico multidisciplinar, da ATER,
Freire (2010) e Bordenave (2002) que foram
com destaque ao profissional engenheiro
categóricos ao afirmarem que, para que a
agrônomo contribui para um movimento em
de transferência da informação e a
direção à reflexão e ação para uma
conscientização ocorra, é fundamental que
aprendizagem mais ativa.
as práticas sofram um processo reflexivo
para que ocorra a construção do saber de O processo de educação ambiental informal
maneira participativa. torna-se uma opção de estratégia
pedagógica a partir da reflexão do problema
Sustentabilidade e Responsabilidade Social - Volume 7
105

e conscientização para resolver problemas produção sustentável e encontra base sólida


autênticos e promover a tomada de decisões no Programa Sistema Campo Limpo em
assertivas para minimizar ações antrópicas harmonização com a atuação profissional do
no agronegócio brasileiro. A abordagem de engenheiro agrônomo.
ensino aprendizagem favorece a
Esse trabalho acende distintas
conscientização não apenas de produtores
oportunidades de benchmarking2 e estudos
rurais, mas abarca todos os elos da cadeia
futuros como a cadeia interorganizacional
produtiva do agronegócio.
que afeta a logística reversa de metais como
Diante das reflexões e da práxis da o alumínio e o cobre, entre outros que
logística reversa das embalagens vazias de apresentam um ciclo frequente e os
agrotóxicos, responde-se a seguinte impactantes resíduos plásticos, hospitalares,
questão, norteadora desta pesquisa: O óleos e construção civil que se concentram
agronegócio brasileiro encontra-se em no meio ambiente reverberando obstáculo a
processo de conscientização para uma sustentabilidade nacional.

AGRADECIMENTO

 À UNIFAI pelo fomento ao ensino, pesquisa e extensão.


 À docente e orientadora Silvia Cristina Vieira pelo incentivo e dedicação a ciência.

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Sustentabilidade e Responsabilidade Social - Volume 7


ACESSIBILIDADE SOB A ÓTICA DO TURISMO: UM
ESTUDO DE CASO

Eliacy Cavalcanti Lélis


Raula Yasmin Alves da Costa

Resumo: O Mercadão Municipal de São Paulo é referência no turismo gastronômico


e cultural brasileiro, com um intenso fluxo de visitantes. Por isso, este espaço
público turístico precisa de estudos sobre suas atuais condições para permitir o
investimento adequado em acessibilidade. O objetivo deste trabalho foi estudar a
acessibilidade no Mercadão Municipal de São Paulo sob a ótica do turismo. A
metodologia de pesquisa usou o método dedutivo, com abordagem qualitativa,
com base na pesquisa bibliográfica, documental e de campo. Os resultados
mostraram que há um atendimento parcial às normas vigentes sobre acessibilidade
na circulação externa e interna, com destaque na participação do Mercadão na
programação da VIRADA INCLUSIVA, revelando a preocupação dos gestores com
a acessibilidade. Entretanto, há necessidade de melhorias em aspectos previstos
na normatização e legislação brasileira. Conclui-se que há significativo investimento
em acessibilidade nos corredores, banheiros, elevadores e estacionamento que
permitem a mobilidade das pessoas que utilizam cadeiras de rodas, mas há
aspectos técnicos que não atendem às normas pertinentes, e falta a devida
atenção de recursos para as pessoas com outros tipos de deficiência e com
mobilidade reduzida.

Palavras-chave: acessibilidade, turismo, Mercadão de São Paulo

Sustentabilidade e Responsabilidade Social - Volume 7


109

1. INTRODUÇÃO com a geração de quase 3 milhões de


empregos diretos entre 2003 e 2012. Em
De algum tempo pra cá a atividade turística 2011, foram gerados 7,65 milhões de
vem ganhando mais espaço e mais empregos diretos e indiretos, e em 2012, 8,04
importância na economia brasileira (Figura 1). milhões que representaram, respectivamente,
O turismo é um dos setores que gera um 7,8% e 8,3% do total de empregos gerados
grande volume de empregos, renda e no país. O turismo já representa 3,7% do PIB
investimentos através das atividades e – Produto Interno Bruto Brasileiro (Comitê
serviços prestados. O Plano Nacional de Gestor do Conselho Nacional de Turismo,
Turismo 2013-2016 mostra que o setor 2012).
cresceu 18,5% somente entre 2007 – 2011,

Figura 1 - Participação do turismo na economia brasileira.

Fonte: World Travel&TourismCouncil – WTTC apud Comitê Gestor do Conselho Nacional de Turismo (2012).

O turismo em si, incrementa as necessidades (COMITÊ GESTOR DO CONSELHO


de maior produção de bens, serviços e NACIONAL DE TURISMO, 2012).
empregos e, consequentemente, a geração
O censo brasileiro do IBGE 2000 mostra a
de maiores lucros, que levam ao aumento de
existência de aproximadamente 24,5 milhões
riquezas pela produção da terra (ANDRADE,
de pessoas com deficiência e 14 milhões de
1995). Isso mostra o quanto o turismo é
pessoas idosas que precisam de condições
importante para o desenvolvimento da
adequadas de mobilidade urbana, com
economia local e também do desenvolvimento
condições de mobilidade condizentes. Os
de seu arredor, seja material ou imaterial.
espaços públicos turísticos precisam estudar
É preciso investir em pesquisa e qualificação suas atuais condições e projetar a igualdade
do turismo no Brasil, que tem sido e será sede social, com garantia de acessibilidade para
de vários megaeventos, para assim preparar todos, entendendo a diversidade como regra,
toda a cadeia produtiva para receber os e não como exceção (MINISTERIO DO
turistas internacionais e o aumento no fluxo TURISMO, 2006). Por isso esta pesquisa é
doméstico de turistas durante o período dos importante, porque ela poderá revelar um
eventos, qualificando os serviços e produtos diagnóstico da atual condição no mercadão
turísticos que serão ofertados. Estes para receber seus visitantes, principalmente
investimentos é que possibilitam o aumento os turistas, que trazem renda para o nosso
da competitividade no setor, para a projeção país. O local foi escolhido para ser
da imagem do Brasil e para a consolidação desenvolvido como projeto devido à
do país como destino turístico de excelência importância que o Mercadão Municipal como
Sustentabilidade e Responsabilidade Social - Volume 7
110

um atrativo de grande destaque no turismo


nacional e internacional.
3. TURISMO E ACESSIBILIDADE
O Mercadão Municipal de São Paulo recebe
um fluxo muito grande de pessoas e muitos A acessibilidade é um assunto que precisa de
turistas, a preocupação é verificar se o mais divulgação e conscientização da
acesso está adequado a todos os população, levando em consideração que a
visitantes/turistas, e se a acessibilidade acessibilidade pode gerar resultados sociais
atende às regras exigidas pela legislação. Por positivos, além de contribuir para o
ser referência no turismo gastronômico e desenvolvimento da inclusão. Esta é uma
cultural de São Paulo, tem um intenso fluxo de questão cultural e comportamental que vem
visitantes, o que leva ao seguinte essencialmente da educação e do
questionamento: como estão os acessos e a investimento em recursos.
acessibilidade no mercadão para receber os
As ações do governo e as políticas públicas
turistas? Atendem à legislação e às diretrizes
são importantes para mudar a forma de
do Ministério do Turismo sobre
pensar, criando algo novo, agindo e
acessibilidade? O objetivo desta pesquisa é
construindo recursos públicos para garantir a
estudar a acessibilidade sob a ótica do
realização dos direitos e da cidadania. Para
turismo no mercadão municipal de São Paulo.
que sejam prestados serviços adequados às
pessoas com deficiência ou mobilidade
reduzida, é necessária infraestrutura para
2. METODOLOGIA DA PESQUISA
isso, além de profissionais capacitados para
conseguir oferecer bons serviços aos
Na metodologia foi utilizado o método
usuários.
dedutivo, com pesquisa bibliográfica;
documental e de campo, com abordagem Segundo o Ministério do Turismo (2006), é
qualitativa. O método dedutivo é a necessário o planejamento de ações para a
argumentação que aponta verdades qualificação profissional no atendimento
particulares em verdades universais. Para os adequado às pessoas com deficiência ou
autores, a técnica de argumentação consiste mobilidade reduzida, com isso, será possível
em construir estruturas lógicas, que leva o incluir na carteira de clientes uma demanda
pesquisador do conhecido ao desconhecido maior de consumidores. Outra preocupação é
com uma margem de erro pequena (CERVO, a adaptação das instalações e a aquisição de
BERVIAN e SILVA, 2007). equipamentos para estruturar o local para
esta inclusão social.
Na pesquisa documental foram consideradas
as legislações sobre acessibilidade e O turismo vem crescendo e com isso trazendo
segurança em locais públicos de grande a necessidade de se adaptar a todos os seus
movimentação, seguindo as diretrizes do tipos de consumidores, o que inclui pessoas
Ministério do Turismo (2006) e do Ministério com deficiência ou mobilidade reduzida que
do Trabalho (2014), em relação às Normas também possuem o desejo de viajar,
Regulamentadoras (NR) de segurança e as conhecer novas culturas e explorar novos
normas da ABNT NBR 9050 (ABNT, 2004); lugares, independentemente de sua condição
13994 (ABNT, 2000); 14022 (ABNT, 1997); de mobilidade. O Brasil tem 45,6 milhões de
15250 (ABNT, 2005) e NR 23 (MINISTÉRIO pessoas com deficiência, segundo o Instituto
DO TRABALHO E DO EMPREGO, 2011). Brasileiro de Geografia e Estatística – IBGE
(COMITÊ GESTOR DO CONSELHO
A pesquisa de campo está limitada a um
NACIONAL DE TURISMO, 2012). É necessário
estudo de caso no Mercado Municipal de São
promover à estas o direito de praticar a
Paulo, conhecido como “Mercadão”. A
atividade turística, o direito de ter lazer, assim
pesquisa foi estruturada em quatro fases: 1)
como toda e qualquer pessoa.
Seleção e leitura do material técnico sobre
acessibilidade; 2) Montagem do instrumento É necessário oferecer um turismo sem
de pesquisa para uma análise aprofundada barreiras, com infraestrutura e instalações
da circulação interna do Mercadão para um necessárias, transporte adequado para todos
projeto posterior 4) Estudo da acessibilidade os usuários e serviços oferecidos por pessoas
na área interna e externa do Mercadão treinadas, além de sistemas, sites e serviços
Municipal de São Paulo. acessíveis. Um turismo para todos com
Sustentabilidade e Responsabilidade Social - Volume 7
111

qualidade, assegurando a igualdade e a desenvolve pode necessitar de meios e


possibilidade de que todos possam praticar infraestrutura adequados para os
turismo. deslocamentos das pessoas e bens naquele
local. A mobilidade urbana é importante para
É importante que não haja discriminação na
a economia e o desenvolvimento de
forma pela qual os produtos turísticos são
localidades. É indispensável para o
adaptados para receber as pessoas com
deslocamento diário de pessoas, logo,
deficiência. (KIEFER; CARVALHO, 2013.)
precisa ser satisfatória.
A acessibilidade dentro do turismo exerce um
O tema mobilidade urbana tem chamado a
importante papel, tanto para promover a
atenção do setor público e privado devido ao
atividade turística que se destaca por
caos do trânsito de cargas e pessoas nas
aumentar seu público, como promovendo a
grandes e médias cidades brasileiras. A crise
pessoa com deficiência o direito ao lazer, ao
de mobilidade urbana vivenciada atualmente
conhecimento e cultura.
no Brasil deve-se ao baixíssimo nível de
O Brasil tem normas técnicas que definem investimentos públicos no setor de transportes
diretrizes e orientações sobre a urbanos frente às taxas de crescimento da
acessibilidade. A NBR13994 (ABNT, 2000) população urbana brasileira, passou de 80
tem o como objetivo estabelecer critérios para milhões em 1980 para 153 milhões de
a criação do projeto, fabricação e instalação habitantes em 2008, e o crescimento
de elevadores de passageiros, para que econômico que ampliou o índice de
possam transportar pessoas com deficiência mobilidade das cargas e pessoas nas
física ou mobilidade reduzida de forma cidades (IBGE;PNAD apud VACCARI;FANINI,
segura. A NBR15250 (ABNT, 2005) visa no 2011).
projeto, instalação e localização de
A Lei número 12.587, de 3 de janeiro de 2012
equipamentos com o objetivo de prestar
institui as diretrizes da Política Nacional de
serviços de autoatendimento bancário, de
Mobilidade Urbana. Segundo BRASIL (2012)
forma que qualquer pessoa tenha acesso. A
a Lei tem como objetivo integrar os diferentes
NBR9050 (ABNT, 2004) é estabelecida de
tipos de transporte e melhorar a mobilidade e
acordo com critérios para a criação de
acessibilidade de pessoas. A Lei especifica
espaços urbanos em geral adaptados às
os tipos de transportes, a infraestrutura
condições de acessibilidade. Essas normas
necessária, além dos objetivos gerais da
são importantes pelo fato de determinarem a
Política Nacional de Mobilidade Urbana. A
infraestrutura básica e necessária para
existência de uma lei relacionada a
atender as necessidades das pessoas com
mobilidade urbana é de grande importância,
deficiência ou mobilidade reduzida.
visando que esta defende a acessibilidade
para todos, deixando claro o que se faz
necessário para que se obtenha uma boa
4. MOBILIDADE URBANA E TURISMO
infraestrutura de mobilidade, além de
GASTRONÔMICO assegurar desenvolvimento quando se é
aplicada.
No ambiente urbano, o foco na mobilidade
Na ótica do turismo, a mobilidade urbana
também tem sua conceituação e legislação
destaca o fluxo turístico como aspecto
definidas. Segundo o Instituto Pólis e o
gerencial chave, principalmente em áreas de
Ministério das Cidades (2005), mobilidade
grande movimentação de pessoas, pois lida
urbana refere-se à facilidade de pessoas e
com a infraestrutura que recebe a demanda
bens se deslocarem no espaço urbano
de turistas e com o respeito ao direito de ir e
através de veículos, vias e toda a
vir de todos.
infraestrutura, tais como calçadas. Então
mobilidade não é transporte urbano, é um Há uma relação entre cultura e turismo, no
conjunto de serviços e meios de momento em que as atividades turísticas
deslocamentos de pessoas e bens: Por isso, a consideram as manifestações culturais, da
disponibilidade de meios e infraestrutura arte e dos artefatos da cultura. Existe uma
adequados para os deslocamentos de reciprocidade, pois a cultura pode utilizar o
pessoas e bens numa área da cidade pode desenvolvimento do turismo para se
ajudar a desenvolver tal área e o inverso expressar (BATISTA, 2005, MINISTÉRIO DO
também é válido, ou seja, uma área que se TURISMO, 2015).
Sustentabilidade e Responsabilidade Social - Volume 7
112

No turismo cultural, o turismo gastronômico costumes, história, que marque o crescimento


tem se destacado, especialmente com a de cada povo, suas lutas e meios de
ampla divulgação na mídia dos espaços sobrevivência.
gourmet (XAVIER, 2014). Com isso o turismo
A gastronomia passa a andar lado a lado com
gastronômio tem recebido um expressivo
o turismo, pois o homem tem a necessidade
aumento na demanda, principalmente no
de viajar, assim como descobrir mais sobre a
Mercadão Municipal de São Paulo, que é
cultura de um lugar, e a Gastronomia é um
referência nacional e internacional no turismo
dos caminhos para isso. O indivíduo é curioso
gastronômico, em um prédio de 12.600
e precisa de novas experiências e as
metros quadrados de área construída, com
encontra quando escolhe conhecer mais
mais de 290 boxes (MERCADÃO MUNICIPAL
sobre a alimentação de um povo que possui
DE SÃO PAULO, 2014). O mercadão
costumes diferentes dos seus.
municipal de São Paulo completou 81 anos,
pois foi inaugurado no dia 25 de janeiro de
1933 pelo escritório do renomado arquiteto
5. PESQUISA DE CAMPO
Francisco de Paula Ramos de Azevedo
(BRAUN, 2014).
Foram realizadas visitas ao local no período
Segundo Furtado (2004), é necessário de dezembro de 2014 e janeiro de 2015, para
perceber e entender as características a observação e registro. Algumas evidências
gastronômicas diferentes de cada região, o foram destacadas na visita ao local em
porquê de cada região ou grupos localizados estudo, conforme descrito a seguir.
próximos possuírem características diferentes.
Na circulação externa, há um pátio
Entender a satisfação alimentar do ser
pavimentado com calçada rebaixada em
humano como necessidade e depois
vários pontos para a entrada ao Mercadão,
evoluindo para as diferenças atuais, com o
mas a visualização do desnível não é muito
prazer e a experiência ao comer, proposto
clara pois não há um contraste de cores na
pela gastronomia, tornando-se até mesmo
sinalização da calçada, revelando uma
uma maneira de escapar do stress da vida
situação antiga, já detectada por Rios (2011).
urbana.
As vagas reservadas no estacionamento tem
A alimentação evoluiu, e afirmar isso não
90º com espaço para circulação na lateral e
significa dizer que em outra época ela foi
rebaixamento da calçada, mas a sinalização
“pobre”, mas que deixou de ser apenas para
no pavimento do estacionamento precisa ser
sobrevivência, se tornou única de acordo com
reforçada, pois está desgastada e com as
cada povo, construindo assim uma
faixas brancas, e segundo a NBR9050 e
alimentação que faça parte de seus
conforme Rios (2011), deveriam ser amarelas.

Figura 2 – Sinalização no estacionamento do Mercadão.

Fonte: Autores da pesquisa (2015).

Sustentabilidade e Responsabilidade Social - Volume 7


113

A central de informação turística fica Há uma adequada sinalização nas áreas


localizada no corredor principal do Mercadão, internas para o fluxo turístico, inclusive para
na direção do portão de entrada que fica em turistas estrangeiros, pois algumas placas tem
frente à região da famosa rua Santa Ifigênia. a informação em português, inglês e
O balcão da central é baixo, permitindo a espanhol, como mostra a figura 3.
aproximação lateral de pessoas com cadeira
As larguras das portas dos banheiros
de rodas. Entretanto, nesta central de
atendem à norma NBR 9050, pois medem
informação não há nenhum material impresso
mais que 0,90 cm, com elevador para acesso
ou digital de apoio informativo sobre
aos banheiros do primeiro subsolo e do
acessibilidade.
primeiro andar, com rampa de acesso para os
Para uma visão macroambiental do banheiros do primeiro andar. Entretanto, os
Mercadão, há um banner da planta baixa com banheiros atendem parcialmente à norma,
todas as ruas e um totem com painel principalmente porque o banheiro do subsolo
eletrônico, ao lado dos caixas eletrônicos de tem a porta fechada com um cadeado, com
auto-atendimento e próximo do portão 12. um aviso conforme mostra a figura 3.
Esta informação facilita a mobilidade nos
endereços dos corredores internos.

Figura 3 – Porta do banheiro do primeiro subsolo.

Fonte: Autores da pesquisa (2015).

A circulação nos corredores internos é locomoção de cadeirante tanto nas vias


dividida por vias principais e laterais, com a principais, quanto vias laterais, com guias
sinalização de ruas e tem extintores em rebaixadas, mas não tem piso tátil para
alguns pontos (figura 4). O corredor principal deficientes visuais ou baixa visibilidade.
do Mercado Municipal é largo e possibilita a

Sustentabilidade e Responsabilidade Social - Volume 7


114

Figura 4 – Corredores internos do Mercadão

Fonte: Autores da pesquisa (2015).

O quadro 1 apresenta um resumo geral de técnicas consideradas na metodologia de


todos os itens considerados na pesquisa pesquisa.
qualitativa, conforme previsto nas normas

Quadro 1 – Pesquisa qualitativa sobre acessibilidade no Mercadão


ASPECTO
SITUAÇÃO
Estacionamento
As vagas do estacionamento possuem sinalização horizontal? Parcialmente
Possuem um espaço adicional de circulação com no mínimo 1,20 m de largura,
Sim
quando afastadas da faixa de travessia de pedestres?
As vagas estão localizadas de forma a evitar a circulação entre veículos? Não
Os rebaixamentos das calçadas são sinalizados? Estão apagados Parcialmente
A quantidade de vagas corresponde ao indicado na norma? * Sim
Circulação Externa ao Redor do Mercadão
A área do estacionamento ao redor do Mercadão tem pavimentação com
revestimento e acabamento com superfície regular, firme, estável e antiderrapante
Parcialmente
sob qualquer condição (seco ou molhado), e que minimize a trepidação em
dispositivos com rodas (cadeiras de rodas)?
Banheiro
A largura da porta é superior a 0,90 cm para entrada? Sim
A área de circulação interna do banheiro tem 1,2 x 1,2 cm para condições da
Sim
manobra?
Tem suportes laterais para apoio? Sim
A superfície da pia e balcão tem altura entre 0,75 e 0,85 cm? Sim
Os corrimões e barras de apoio são afastados no mínimo 40 mm da parede? Sim
As maçanetas são do tipo alavanca e possuem pelo menos 10 cm de
Não
comprimento e acabamento recurvado na extremidade?
Os sanitários se encontram em rotas acessíveis e devidamente sinalizados? O
Parcialmente
banheiro do subsolo é fechado com cadeado.

Sustentabilidade e Responsabilidade Social - Volume 7


115

Quadro 1 – Pesquisa qualitativa sobre acessibilidade no Mercadão (Continuação)


ASPECTO
SITUAÇÃO
Circulação no Corredor
Os corredores possuem largura de no mínimo 0,90 m? Sim
Restaurantes
Os restaurantes, refeitórios e bares possuem pelo menos 5% do total de mesas,
Não
com no mínimo uma, acessíveis a P.C.R - Pessoas em Cadeira de Rodas?
A largura do corredor para chegar até a mesa tem no mínimo 0,90 cm? Sim
Caso exista cardápio, pelo menos um é em Braille? Não
Sinalização e Informação
Onde há semáforo ou focos de acionamento manual para travessia de pedestres,
Não
o dispositivo de acionamento situa-se à altura entre 0,80 m e 1,20 m do piso?
Os semáforos são equipados com mecanismos que emitem sons sonoros para
Não
alertar as pessoas com deficiência visual?
Balcão de Informação
As mesas de atendimento acessíveis são facilmente identificadas e localizadas
Sim
dentro de uma rota acessível?
A mesa tem altura de tampo entre 0,75 a 0,85 m do piso acabado e largura
Sim
mínima de 0,90m?
O balcão tem altura livre inferior do tampo de 0,73 m, possibilitando o P.C.R.
Sim
avançar sob a mesa até no máximo 0,50m?
O tampo da mesa acessível apresenta material de contraste visual com a frente
desse mobiliário, para que o deficiente com visão parcial possa identificar melhor Não
a área de atendimento?
Bebedouro
Permite a aproximação lateral de uma P.C.R. e seus controles de acionamento
Não
estão posicionados na altura entre 0,80 m e 1,20 m do piso acabado?
Estão localizados em rotas acessíveis? Não
Caso haja copos descartáveis, o local para retirada deles deve está à altura de no
Não
máximo 1,20 m do piso?
Acesso aos Elevadores
Há uma especificação precisa, clara e apropriada para os elevadores, contendo
Sim
símbolos, alertas sonoros e pictogramas grandes?
Os elevadores estão localizados em lugares acessíveis ao portador de
Sim
deficiência?
A largura livre mínima é de 800 mm e a altura livre mínima é de 2 000 mm? Sim
A área defronte da entrada do elevador está livre de obstáculos? Sim
A distância entre os painéis laterais possui no mínimo 1 725 mm, para garantir o
Sim
giro completo da cadeira de rodas?

Sustentabilidade e Responsabilidade Social - Volume 7


116

Quadro 1 – Pesquisa qualitativa sobre acessibilidade no Mercadão (Continuação)


ASPECTO
SITUAÇÃO
Escada Rolante
Na escada rolante tem sinalização visual com instruções de uso? Sim
Caixa Eletrônico
A sinalização tátil das teclas é em alto-relevo, com altura mínima de 0,5 mm em
Não
relação à superfície da tecla?
Os equipamentos possuem dispositivo sonoro capaz de reproduzir, de forma
falada, todas as informações necessárias para os usuários interagirem de forma Não
audível e autônoma, em qualquer etapa da transação?
Prevenção à Incêndio
Tem extintor com altura suficiente para o cadeirante puxar a alavanca? Parcialmente
Há sinalização indicando o fluxo de saída de emergência? Não
Fonte: Autores da pesquisa (2015)

O investimento em acessibilidade observado significativo investimento em acessibilidade,


possibilitou a participação do Mercadão na mas precisa de melhorias, por isso, em
programação da VIRADA INCLUSIVA, relação à pergunta da pesquisa, pode-se
revelando a preocupação dos gestores da afirmar que a acessibilidade ao Mercadão
entidade com a acessibilidade (SECRETARIA Municipal atende parcialmente às normas e
DE ESTADO DOS DIREITOS DAS PESSOAS legislação vigentes.
COM DEFICIÊNIA, 2014).
São indicadas opções de investimento como:
piso tátil nos corredores e áreas externas do
estacionamento; caixa de auto-atendimento
6. CONSIDERAÇÕES FINAIS
para pessoas em cadeiras de rodas; telefone
para deficiente auditivo; mudança na
Os resultados mostraram que há um
alavanca da porta dos banheiros; porta sem
atendimento parcial às normas vigentes sobre
cadeado no banheiro do subsolo; faixas
acessibilidade na circulação externa no pátio
amarelas na sinalização no pavimento do
ao redor do prédio principal; no
estacionamento e disponibilização de
estacionamento e nos pontos de ônibus e táxi
informações impressas e digitais no site do
ao redor do Mercadão.
Mercadão sobre acessibilidade.
Na área interna, os corredores principais e
Este estudo tem seus resultados limitados a
secundários têm a largura, sinalização e a
este caso, e não podem ser feitas
pavimentação necessária para a circulação
generalizações a respeito destas afirmações.
de pessoas em cadeira de rodas, mas não
O tema abre a discussão para estudos futuros
tem nenhum tipo de recurso para a
sobre acessibilidade em outros ambientes,
movimentação de pessoas com deficiência
adotando o instrumento de pesquisa
visual e auditiva. A acessibilidade nos
elaborado, e a pesquisa mais aprofundada
banheiros tem alguns problemas e não há
sobre o Mercadão Municipal de São Paulo em
acessibilidade nos caixas eletrônicos dos
relação a outros aspectos referente ao turismo
bancos.
cultural e gastronômico.
Conclui-se que a circulação externa e interna
no Mercadão Municipal de São Paulo tem um

Sustentabilidade e Responsabilidade Social - Volume 7


117

REFERÊNCIAS [13] MERCADÃO MUNICIPAL DE SÃO PAULO.


Institucional. Disponível em
[1] ABNT – Associação Brasileira de Normas <http://www.oportaldomercadao.com.br/index.
Técnicas. NBR 9050: acessibilidade a php?page=institucional> . Acesso em 21,
edificações, mobiliário e equipamentos dezembro. 2014.
urbanos. RJ: ABNT, 2004.
[14] MINISTÉRIO DO TRABALHO E EMPREGO. NR
[2] ____. NBR 13994: elevadores de passageiros – 23: proteção contra incêndios. Publicada em
elevadores para transporte de pessoa com 2011. Disponível em
deficiência.RJ: ABNT, 2000. <http://portal.mte.gov.br/data/files/8A7C816A2
E7311D1012FE5B554845302/nr_23_atualizada
[3] ____. NBR 14022: transporte – acessibilidade à
_2011.pdf> Acesso em 03,fevereiro. 2014.
pessoa portadora de deficiência em ônibus e
trólebus, para atendimento urbano e [15] MINISTÉRIO DO TURISMO. Secretaria
intermunicipal. RJ: ABNT, 1997. Nacional de Políticas de Turismo. Turismo e
acessibilidade: manual de orientações.
[4] ____. NBR 15250: acessibilidade em caixa de
Brasília: Ministério do Turismo, 2006.
auto-atendimento bancário. RJ: ABNT, 2005.
[16] ____. Turismo cultural. Disponível em
[5] ANDRADE, José Vicente de. Turismo:
Fundamentos e dimensões. São Paulo, Ática, [17] <http://www.turismo.gov.br/turismo/programas
1995. _acoes/regionalizacao_turismo/estruturacao_s
egmentos/turismo_cultural.html> Acesso em
[6] BATISTA, Cláudio Magalhães. Memória e
10, fevereiro. 2015.
identidade: aspectos relevantes para o
desenvolvimento do turismo cultural. Caderno [18] RIOS, F. Acessibilidade na prática: passeando
Virtual de Turismo, vol. 5, n. 3, 2005. pelo mercado municipal paulistano. Publicado
em 30 de junho de 2011. Disponível em <
[7] BRASIL. LEI nº 12.587, de 3 de janeiro de
http://www.acessibilidadenapratica.com.br/ava
2012. Disponível em
liacoes-e-visitas/passeando-pelo-mercado-
<http://www2.camara.leg.br/legin/fed/lei/2012/l
municipal-paulistano/>. Acesso em 10, agosto.
ei-12587-3-janeiro-2012-612248-norma-
2014.
pl.html>. Acesso em 21, dezembro. 2014.
[19] SECRETARIA DE ESTADO DOS DIREITOS DA
[8] BRAUN, Sophia. 80 anos de mercadão.
PESSOA COM DEFICIÊNCIA. 4ª. virada
Disponível
inclusiva. 2013. Disponível em ,
em:<http://vejasp.abril.com.br/materia/mercad
http://viradainclusiva.sedpcd.sp.gov.br/>.
o-municipal-sp>. Acesso em 02, fevereiro.
Acesso em 10, agosto. 2014.
2014.
[20] INSTITUTO PÓLIS; MINISTÉRIO DAS
[9] CERVO, A. L.; BERVIAN, P. A.; SILVA, R. da
CIDADES. Mobilidade urbana é
Metodologia científica. 6ª. ed. SP: Pearson
desenvolvimento urbano, 2005.
Prentice Hall, 2007.
[21] VACCARI, Lorreine Santos. FANINI, Valter.
[10] COMITÊ GESTOR DO CONSELHO NACIONAL
Mobilidade urbana. Série de Cadernos
DE TURISMO. Plano nacional do turismo 2013-
Técnicos da Agenda Parlamentar, 2011.
2016: o turismo fazendo muito mais pelo Brasil.
Disponível em
Brasilia: Instituto Brasileiro de Turismo, 2012.
file:///C:/Users/12110981/Downloads/mobilidad
[11] FURTADO, F.L. A gastronomia como produto e.pdf. Acesso em 9, fevereiro. 2015.
turístico. Revista Turismo, 2004.
[22] XAVIER, Maurício. De atacadão a espaço
[12] KIEFER, Sandra. CARVALHO, Maria. Turismo gourmet. Revista Veja São Paulo. São Paulo,
acessível e inclusivo: uma realidade possível, ano 47, n.5, p.28,29 jan. 2014.
2013.

Sustentabilidade e Responsabilidade Social - Volume 7


ANÁLISE SOBRE A POSSÍVEL INFLUÊNCIA DOS
CONTEÚDOS CURRICULARES NO GRAU DE CONSCIÊNCIA
VERDE NA FORMAÇÃO DOS ALUNOS DE UM CURSO DE
ENGENHARIA DE PRODUÇÃO

Pedro Paulo Oliva Costa


Patricia Soares Pinto Cardona
Raquel Cymrot
Virgínia do Socorro Motta Aguiar

Resumo: Preservar o meio ambiente e manter o equilíbrio ecológico assumem


importância vital em todos os setores da vida moderna. De alguma forma, todos os
bens e serviços consumidos desgastam (ou destroem diretamente) o planeta ou
perturbam o equilíbrio ambiental. Sendo assim, é intensa a busca por práticas
sustentáveis, tornando clara a necessidade de mudança de consciência ambiental
individual e empresarial nos mais variados setores. Este trabalho visa, por meio de
pesquisa exploratória, confrontar atitudes simples do cotidiano (tais como
tratamento dado ao lixo doméstico, hábitos relacionados à economia de energia,
reciclagem e reutilização de materiais, tendência ao consumo de produtos
ecologicamente corretos e certificados entre outros aspectos) com o grau de
consciência ecológica dos alunos do curso de Engenharia de Produção da
Universidade Presbiteriana Mackenzie, e verificar se existem ou não alterações
positivas em tais perfis em função das disciplinas com enfoque em educação
ambiental. Constatou-se que a prática cotidiana de atitudes que visam a
preservação do meio ambiente deve-se em grande parte à educação previamente
recebida, e que disciplinas curriculares com enfoque ecológico não exercem
significativamente efeito positivo no sentido de proporcionar mudanças de
mentalidade e de posturas que promovam efetivamente a proteção ambiental.

Palavras-chave: Consciência ecológica, Educação ambiental, Curso de Engenharia


de Produção.

Sustentabilidade e Responsabilidade Social - Volume 7


119

1. INTRODUÇÃO profissional detentor de amplo conhecimento


em processos (horizontalização) ao se aliar
Os inúmeros avanços tecnológicos ocorridos aos profissionais de outras especialidades
ao longo da História permitiram que as (verticalização) pode, por meio da adoção ou
sociedades se tornassem cada vez mais desenvolvimento de novas metodologias (ou
interconectadas. Desta forma, um tecnologias) e do aperfeiçoamento ou
acontecimento local atualmente é substituição dos processos já existentes,
rapidamente noticiado e difundido em quase reduzir os impactos ambientais na produção
todo mundo. de bens e de serviços, como mostrado por
Herzog (2006) ao citar que empresas que
Essa visão integradora nas sociedades e a
adotaram os Princípios da Ecoeficiência,
noção de que o homem vem causando
difundidos pelo World Business Council for
agressões cada vez maiores à Natureza,
Sustainable Development (WBCSD),
motivam a busca da minimização de seus
encontrando novas formas de controle de
prejuízos causados à vida e ao bem estar de
custos.
todos os seres da Terra. Assim, por se tratar
de um ponto vital para o ser humano, medidas Neste sentido, o problema de pesquisa é: Há
vêm sendo tomadas (ora por governos mais influência dos conteúdos programáticos do
atuantes, ora por cidadãos mais conscientes), curso de Engenharia de Produçãoda da
de forma que desde os grandes Universidade Presbiteriana Mackenzie no
conglomerados empresariais até os pequenos grau de consciência ecológica de seus
empreendedores têm procurado formas de alunos, refletido nos seus comportamentos e
reduzir seus impactos ambientais. nos seus hábitos de consumo?
A crescente preocupação com o meio
ambiente é igualmente apresentada por Hinz,
2. A PESQUISA REALIZADA
Valentina e Franco (2006) que ressaltam que
esta tem motivado debates, eventos e
Foi realizada uma survey exploratória, pois
acordos internacionais. Essa necessidade
segundo Forza (2002) este tipo de pesquisa
torna-se a cada dia mais evidente, crescendo
contribui para o conhecimento existente em
desde a década de 1960 com o Movimento
uma área de interesse. A pesquisa foi feita
Hippie até hoje, tanto por meio da crescente
com alunos da primeira, terceira, oitava e
atividade de Organizações Não
décima etapas do curso de Engenharia de
Governamentais (ONGs) pelo bem estar
Produção, que respectivamente cursavam as
sócio-ambiental (por exemplo: Greenpeace e
seguintes disciplinas: “Ciências do Ambiente”,
World Wide Fund for Nature (WWF)), como de
“Evolução do Pensamento Administrativo”,
governos presentes desde a ECO-92 (ou Rio-
“Gestão de Sistemas” e “Garantia da
92) até a RIO+20 e em outras conferências
Qualidade e Gestão Ambiental”.
que buscam definir metas e critérios de
caráter ambiental para os países A pesquisa foi realizada nos últimos dias
participantes. letivos do 1º semestre de 2011 e por ser
relacionada a seres humanos, desenvolveu-se
Sendo um dos assuntos mais discutidos na
um instrumento de pesquisa anônimo, e antes
atualidade, a sustentabilidade nas
de sua aplicação ao corpo discente, foi
sociedades, é definida por Hinz, Valentina e
previamente submetido e aprovado pela
Franco (2006), como um equilíbrio entre seus
Comissão de Ética em Pesquisa da Escola de
desempenhos econômico, social e ambiental.
Engenharia da UPM.
Neste contexto, destacam-se os diversos
segmentos profissionais que vêm atuando de Para que fosse obtida uma amostra capaz de
forma incisiva na conscientização dos fornecer informações confiáveis e livre de
cidadãos quanto ao papel que cada um deva vieses, conforme Bolfarine e Bussab (2005), a
exercer, de forma que gradativamente seja pesquisa foi respondida pelos alunos,
possível mitigar o impacto ambiental causado presentes em sala de aula que se dispuseram
ao suprir às necessidades de sobrevivência a preencher o questionário e recolhidos em
da espécie humana. um único envelope, evitando-se o
constrangimento para quem desejasse
Jardim e Costa (2009) ressaltam a posição do
entregá-lo em branco, tornando o processo
engenheiro de produção, cuja atuação é cada
de amostragem o mais adequado possível.
vez mais relevante na sociedade. Este
Sustentabilidade e Responsabilidade Social - Volume 7
120

Mesmo a amostra não sendo probabilística, o satisfeitas. Contudo, por não fazerem
fato de existir um protocolo estabelecido de suposições tão fortes, estes testes não são,
seleção torna a amostragem criteriosa uma em geral, tão robustos quanto os testes
vez que a amostra resultante independe dos paramétricos na detecção de diferenças entre
pesquisadores. grupos (MONTGOMERY; RUNGER, 2009).
O questionário foi dividido em duas partes, Na análise estatística deste trabalho,
sendo a primeira com questões para empregou-se os seguintes testes não
caracterização do pesquisado (faixa etária, paramétricos: Quiquadrado (χ2, para teste de
gênero e forma de moradia) e a segunda com independência) e Kruskal-Wallis (para Análise
questões assertivas para o aluno responder o de Variância).
grau de concordância (de 1=Discordo/Nunca
Usado para verificar se dois grupos diferem
a 5=Concordo/Sempre), no qual quanto maior
quanto a alguma característica, Segundo
o valor escolhido, maior o grau de
Siegel e Castellan Jr. (2008), no teste
“consciência verde” do aluno.
Quiquadrado, vereifica-se com base nas
O coeficiente alpha de Cronbach mede a frequências de categorias discretas, se duas
correlação entre respostas, para questões de variáveis aleatórias são independentes.
um instrumento de pesquisa que usam escala
Já o teste de análise de variância (ANOVA),
de medição, realizando uma análise do perfil
visa a verificação da existência de diferença
das respostas fornecidas e servindo como
significativa entre as médias de variáveis ou
uma estimativa da confiabilidade do
de níveis de fatores que exerçam influência
instrumento de pesquisa. Supondo-se
em alguma variável dependente. Tais fatores
independência entre as perguntas, se houver
podem ter origem qualitativa ou quantitativa e
padrões comuns de respostas, infere-se que
a variável deve ser essencialmente contínua,
há consistência entre as perguntas e
permitindo que vários grupos sejam
respostas. Apesar de não haver um valor
comparados a um só tempo.
mínimo definido para tal coeficiente, no meio
científico aceita-se o valor 0,70 como mínimo A análise de variância de um fator (ou análise
para atestar a confiabilidade do instrumento de variância univariada) não paramétrica é
de pesquisa (HORA et al., 2010). O valor do realizada por meio do teste de Kruskal-Wallis
alpha de Cronbach para as questões das por postos, o qual testa se as amostras
assertivas foi igual a 0,86, sendo a amostra independentes vêm de populações iguais ou
considerada adequada e pertencente ao diferentes (SIEGEL; CASTELLAN JR; 2008).
mesmo constructo social.
A análise estatística das respostas para as
Foi inicialmente realizada uma análise questões assertivas foi realizada com auxílio
descritiva e construídos para as respostas do programa estatístico Minitab® 16, por meio
das questões assertivas gráficos de Boxplot, de análise descritiva e os testes de hipóteses
os quais permitem visualizar medidas de pertinentes.
posição, variabilidade e assimetria dos dados
(MAGALHÃES; LIMA, 2010). Para algumas
variáveis de caracterização da amostra foram 2.1 RESULTADOS OBTIDOS E DISCUSSÃO
calculados intervalos com 95% de confiança
(I.C.) para média ou porcentagem. A amostra foi composta por 219
respondentes, contudo três questionários
Realizando-se testes iniciais com os dados
foram desconsiderados devido à insuficiência
coletados, constatou-se que a suposição
de respostas. Dos 216 respondentes, 67,13%
inicial de distribuição Normal, pré-requisito
(I.C. = [60,82; 73,44]) são do gênero
para a aplicação de testes paramétricos, não
masculino. A idade média foi igual a 20,70
se verificou, sendo então indicada a aplicação
anos (I.C. = [20,33; 21,04]) anos. Ao se
de testes não paramétricos sobre a amostra.
questionar acerca de “Com quem reside?”,
Os testes não paramétricos (ou de 78,24% responderam que moram com a
distribuição livre) necessitam obedecer família (I.C. = [72,69; 83,79]), 9,26% com
menos requisitos a respeito da forma da amigos e 12,5% moravam sozinhos.
distribuição. Geralmente de fácil utilização,
Seguem gráficos de boxplot para a
são usados quando as suposições de modelo
concordância/frequência dos aspectos
exigidas por outras técnicas não são
pesquisados (quando da aplicação do
Sustentabilidade e Responsabilidade Social - Volume 7
121

questionário) versus semestre (ou etapa) do à esquerda do gráfico), bem como em realizar
curso de graduação. o correto descarte nas lixeiras seletivas (vide
canto inferior esquerdo). Porém, não é
Conforme se pode observar no Gráfico 1,
predominante a conscientização em separá-
independentemente da etapa do curso, os
los por tipo de recicável (vide canto superior
resultados mostraram que os alunos já não
direito) nem a prática de incentivar familiares,
são indiferentes à questão da separação entre
parentes e amigos (canto inferior direito).
lixo orgânico e reciclável (vide canto superior

Gráfico 1 – Concordância em relação ao descarte de lixo

Separa o lixo Separa lixo por tipo


5 5

4 4
concor dância

concor dância
3 3

2 2

1 1

1 3 8 10 1 3 8 10
Semestr e Semestr e

Descarte correto do lixo Incentiva separação de lixo


5 5

4 4
concor dância

concor dância

3 3

2 2

1 1

1 3 8 10 1 3 8 10
Semestr e Semestr e

Fonte: Autoria própria

O Gráfico 2 mostra que o hábito de apagar as provocados pela produção, distribuição,


luzes e a TV ao sair de um ambiente (vide consumo e descarte – tem menor aderência
canto superior à esquerda) já está fortemente em todas as etapas do curso (vide coluna
incorporado no cotidiano dos alunos direita cantos superior e inferior
independentemente da etapa em curso. No respectivamente). Quanto à realização do
entanto, a preocupação em se retirar das correto descarte do óleo de cozinha utilizado,
tomadas os equipamentos eletrônicos que existe um início muito sútil de tomada de
não estão sendo utilizados, bem como a consciência neste sentido (vide canto inferior
procura por meios para reduzir a própria esquerdo).
pegada de carbono – impactos ambientais

Sustentabilidade e Responsabilidade Social - Volume 7


122

Gráfico 2 – Concordância entre hábitos relacionados aos impactos ambientais causados de forma
individual

A paga luz e desliga a TV Retira da tomada


5 5

4 4
concor dância

concor dância
3 3

2 2

1 1

1 3 8 10 1 3 8 10
Semestr e Semestr e

Descarte de óleo correto Reduz a pegada de carbono


5 5

4 4
concor dância

concor dância

3 3

2 2

1 1
1 3 8 10 1 3 8 10
Semestr e Semestre

Fonte: Autoria própria

No Gráfico 3 as questões “Opta pelo ocorre com menor frequência em quaisquer


transporte coletivo, ao invés do transporte das etapas (vide canto inferior direito).
individual?” e “Informa-se de produtos
No Gráfico 4 as assertivas tratam das
“verdes” antes que sejam divulgados pela
relações entre o interesse pela compra de
mídia” estão representadas na coluna da
determinado produto se for “verde”, ou a
esquerda respectivamente canto superior e
opção pela compra apesar de seu custo, e
inferior, este último ocorrendo com menor
ainda se há interesse em saber se o método
frequência em quaisquer das etapas. O uso
para sua fabricação é certificado. Neste caso
de rascunho (ou o uso dos dois lados de uma
a análise descritiva aponta para uma
folha de papel) se mostra bastante
indiferença na preferência pela compra de um
incorporado ao dia-a-dia dos alunos em todas
produto “verde” (linha superior) e
as etapas conforme se pode ver no canto
desinteresse se determinado produto a ser
superior à direita. Além disso, no canto inferior
consumido teve sua forma de fabricação
direito percebe-se que a prática de procurar
conduzida de maneira correta do ponto de
produtos divulgados em informes publicitários
vista sócio-ambiental (linha inferior).
sendo ditos como ambientalmente corretos,

Sustentabilidade e Responsabilidade Social - Volume 7


123

Gráfico 3 – Concordância em relação ao uso de transporte coletivo, uso consciente de papel e


consumo de produtos “verdes”

Opta por transporte coletivo Usa rascunho


5 5

4 4
concor dância

concor dância
3 3

2 2

1 1

1 3 8 10 1 3 8 10
Semestr e Semestr e

Informa-se de produtos verdes Informes ambientalmente corretos


5 5

4 4
concor dância

concor dância

3 3

2 2

1 1

1 3 8 10 1 3 8 10
Semestr e Semestr e

Fonte: Autoria própria

Gráfico 4 – Concordância em relação ao consumo consciente de produtos

Se motiva por compra correta Pode pagar mais por certificação "verde"
5 5

4 4
concor dância

concor dância

3 3

2 2

1 1

1 3 8 10 1 3 8 10
Semestr e Semestr e

A ções sócio-ambientais dos fabricantes Postura ambiental dos fabricantes


5 5

4 4
concor dância

concor dância

3 3

2 2

1 1

1 3 8 10 1 3 8 10
Semestr e Semestr e

Fonte: Autoria própria

Sustentabilidade e Responsabilidade Social - Volume 7


124

Análise análoga pode ser realizada no Gráfico superior e canto inferior esquerdo
5, trata da embalagem dos produtos respectivamente). Já o grupo pesquisado
consumidos quanto aos aspectos reciclagem, pareceu ligeiramente menos indiferente
tamanho (incluindo a ausência de quanto à decisão em optar pela compra de
embalagem) e origem sustentável (linha refil dos produtos (canto inferior direito).

Gráfico 5 – Concordância com relação à embalagem dos produtos

Fabricantes certificados Produtos com reciclagem


5 5

4 4
concor dância

concor dância
3 3

2 2

1 1

1 3 8 10 1 3 8 10
Semestr e Semestr e

Embalagem pequena ou sem Produtos com refil


5 5

4 4
concor dância

concor dância

3 3

2 2

1 1

1 3 8 10 1 3 8 10
Semestr e Semestr e

Fonte: Autoria própria

Por fim, no Gráfico 6, pode-se afirmar que o ainda não é uma constante em todas as
cuidado em se consumir produtos cujos etapas do curso (canto superior direito).
fabricantes tenham certificação de origem

Sustentabilidade e Responsabilidade Social - Volume 7


125

Gráfico 6 – Concordância com preferência por produtos “verdes” e em relação aos aspectos
sociais

Estágio/tr abalho com pr áticas sustentáveis Produtos com certificações "verdes"


5 5

4
concor dância

concor dância
3 3

2 2

1 1
1 3 8 10 1 3 8 10
Semestr e Semestr e

Papel crucial do Engenheiro de Produção Sociedade c/ novas tendências


5 5

4 4
concor dância

3
concor dância 3

2 2

1 1

1 3 8 10 1 3 8 10
Semestr e Semestr e

Fonte: Autoria própria

Nota-se também que os alunos pesquisados indicam ter a boa vontade em buscar postos
não acreditam que a sociedade brasileira de trabalho ou estágio que possuam práticas
esteja alinhada com as novas tendências sustentáveis (canto superior esquerdo), com
sustentáveis adotadas ao redor do mundo, nova indicação de queda a partir do oitavo
sendo mais descrentes os alunos da terceira semestre, se acentuando no décimo
etapa (canto inferior direito). Entretanto, os semestre, quando já estão atuando realmente
futuros engenheiros de produção apresentam no mercado de trabalho. As tendências aqui
uma boa autoestima em relação ao papel que percebidas por meio de análise descritiva
cumprirão junto à sociedade (canto inferior foram confirmadas nos testes de hipótese
esquerdo), principalmente nas primeiras realizados adiante.
etapas. Contudo há indicações de uma queda
Completando a análise descritiva, o Gráfico 7
deste sentimento a partir do ingresso dos
apresenta os intervalos com 95% de
alunos no mercado de trabalho que se dá por
confiança para os valores médios atribuídos
volta do sétimo semestre quando a maioria
em cada questão. Ao se observar tal gráfico
dos alunos já está realizando estágios em
pode se ter uma idéia geral das respostas
empresas. Ainda assim, os estudantes
obtidas:

Sustentabilidade e Responsabilidade Social - Volume 7


126

Gráfico 7 – Gráfico de intervalos com 95% de confiança para cada média dos valores atribuídos.

Gráfico de intervalos para os valores atribuídos às assertivas


4,5

4,0
concordância

3,5

3,0

2,5

2,0

o o o o V a o o o o s s a r is s s il s s . t.
lix tip r et l ix a T ad r et on etiv nh r de eto ret Ve nta nte ado gem sem ref r de cia rod ten
o r o e r r b u r r
m o r l c e r o if e a ic la u . e ên P s
a ra po e c o d l iga a to o c ca e c o ras s v .c o a c ert bi br ic rtif cic a o com t. v nd ng. su
p xo r t çã s d le e r t a to nt r c am fa e r e n s er te E as
s e a li sca ar a de i ra e ó a d po us odu bie mp por io- tal s c m que uto s c as do ti c
r e p e t d d s o c e á
pa d se luz r e te ega ran pr m c is ó n nt c o e od to ov ial Pr
se a r p t de s a por ma s s bie i ca tos m p pr odu / n ruc b.
a a e e m r u e c
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c en ap de du a- nfor oti pag a ura f pr o bala da p io
e
in re orm i m e o st m cie pa tág
f e
s od e s
in p
p so e

Fonte: Autoria própria

O teste de Kruskal-Wallis foi realizado em mundo (P = 0,048). Por sua vez na 10ª etapa
todas as questões a fim de testar a igualdade há uma tendência, vide Gráfico 3, a ser
das médias obtidas nos quatro semestres. confirmada de que nesta os alunos dizem
Devido ao grande número de testes informarem-se mais sobre produtos “verdes”
realizados, serão apresentados apenas os antes que sejam divulgados pela mídia (p =
que obtiveram resultados significantes. 0,051 muito próximo de 0,05).
Ao nível de significância de 5%, pode-se O teste Quiquadrado de independência foi
afirmar, com relação às etapas (1ª, 3ª, 8ª e utilizado a fim de verificar (ou não) a possível
10ª), que a 3ª etapa respondeu ter mais dependência entre pares de variáveis
concordância e a 10ª etapa respondeu ter aleatórias. No presente estudo a hipótese H0
menos concordância com acreditar que o estabelece a independência de cada
Engenheiro de Produção tem/terá um papel assertiva do questionário em relação às
crucial na transformação a qual a sociedade seguintes variáveis: gênero, se mora sozinho
está passando (p = 0,001) e que existe (ou com os pais ou com amigos), etapa do
interesse em estagiar/trabalhar em uma curso de graduação, idade dos participantes
empresa com postura sócio-ambiental com e naturalidade.
práticas sustentáveis (P = 0,034). Provável
Os testes de independencia, com nível de
justificativa para tal comportamento é o maior
significância de 5%, mostraram que as
contato com o mercado que ocorre com as
variáveis: gênero, idade dos participantes,
etapas que estão terminando o curso, mais
naturalidade, e morar sozinho (ou com os pais
próximas do mundo real, deixando de lado o
ou com amigos) não influenciaram os
idealismo das primeiras etapas.
resultados, sendo as respostas às assertivas
Já a 3ª etapa respondeu ter menos independentes destas características; no
concordância com acreditar que a sociedade entanto, a etapa do curso de graduação
brasileira está alinhada com as novas apresentou alguma influência nas respostas
tendências sustentáveis adotadas ao redor do de algumas questões.

Sustentabilidade e Responsabilidade Social - Volume 7


127

Excetuando-se as respostas obtidas para as sustentáveis” versus parte do curso, rejeitou-


variáveis que serão discutidas a seguir, as se a hipótese de independência entre as
demais não apresentaram resultados que variáveis (p = 0,022), afirmando-se que a
mereçam ser destacados como significativos primeira parte do curso concorda
e que apontem para tendência (ou evidência) proporcionalmente mais que existe interesse
real para a rejeição da hipótese, pois nestes em estagiar/trabalhar em uma empresa com
casos os valores obtidos para o valor-p (nível postura sócio-ambiental, com práticas
descritivo) não foram inferiores a 5%, sustentáveis.
implicando em independência entre os pares
Ressalta-se que 84,26% dos alunos
de variáveis aleatórias.
pesquisados não concordam positivamente
Para a questão “Opta pelo transporte coletivo, com a assertiva de que a sociedade brasileira
ao invés do transporte individual?”, obteve-se esteja alinhada com as novas tendências
nível descritivo p = 0,045 e pode-se afirmar sustentáveis adotadas ao redor do mundo.
por meio da análise conjunta da oitava e
Vale ressaltar que mesmo não havendo uma
décima etapas que estas optam
boa conscientização “verde” entre os
proporcionalmente menos pelo transporte
estudantes do curso de Engenharia de
coletivo se comparadas as etapas iniciais.
Produção, alguns questionários apresentaram
Muito provavelmente devido ao fato de que
sugestões defendendo o processo de envio
nesta fase do curso de graduação muitos
eletrônico do mesmo (ao invés do uso de
estudantes já dispõem de carteira de
papel) e de se imprimir em “frente e verso”
habilitação e utilizam ou carro próprio ou
para reduzir o impacto ambiental.
emprestado de seus pais.
Especialmente um respondente citou que
A análise da pergunta “Informa-se de trabalha em uma empresa que realiza práticas
produtos “verdes” antes que sejam sustentáveis e que o fato de estar conectado
divulgados pela mídia?” revela que a maioria com as novas tendências foi fator
dos alunos (83,34%) de todas as etapas da determinante para sua contratação.
sondagem não tem uma concordância
Todavia, alguns alunos reconheceram, ao
positiva com informar-se sobre produtos
responder o questionário, que não possuíam
“verdes” antes que sejam divulgados pela
uma conscientização ecológica – fato
mídia, porém como o nível descritivo está
promissor que pode indicar uma futura
próximo a 5% (p = 0,071), aconselha-se que
mudança – e outros sugeriram uma
sejam realizadas novas pesquisas para
participação mais efetiva da faculdade na
confirmar ou não a tendência aqui
formação da “consciência verde”,
apresentada de que a segunda parte do
mencionando “que o exemplo deve vir de
curso (alunos da oitava e décima etapas) ,
cima”.
proporcionalmente, informam-se mais sobre
produtos “verdes” antes que sejam
divulgados pela mídia.
3. CONSIDERAÇÕES FINAIS
Quanto à questão “Procura produtos
divulgados em informes publicitários como Devido à crescente preocupação com o meio
ambientalmente corretos?” rejeitou-se a ambiente, face ao consumo de bens e de
hipótese de independência entre as variáveis serviços, este trabalho apresentou por
“parte do curso” e “procurar produtos intermédio de uma pesquisa exploratória
divulgados em informes publicitários como aplicada a alunos de um curso de Engenharia
ambientalmente corretos” (p = 0,044) e de Produção, uma análise estatística do
afirma-se que a segunda parte do curso, comportamento e das convicções a respeito
proporcionalmente procura mais produtos de meio ambiente destes, por meio dos
divulgados em informes publicitários como hábitos e atitudes adotados no cotidiano.
ambientalmente corretos. Pode-se observar o
Neste estudo, foram confrontados o semestre
resultado obtido em relação aos semestres do
cursado com vários aspectos e práticas do
curso no Gráfico 3 – canto inferior direito.
dia a dia, na tentativa de se verificar a
A análise das respostas obtidas para a existência de alguma relação entre o
pergunta “Existe interesse em gradativo contato com as disciplinas que de
estagiar/trabalhar em uma empresa com alguma forma trariam um pouco mais de
postura sócio-ambiental, com práticas consciência ambiental.
Sustentabilidade e Responsabilidade Social - Volume 7
128

Constatou-se que as disciplinas cujos para realizar as mudanças necessárias nas


semestres do curso foram pesquisados, em empresas, por meio de sua capacidade de
nada influenciaram no comportamento associar as preocupações tradicionais –
ecológico dos jovens (independentemente do eficiência de processos e redução de custos
gênero de forma geral) sendo os bons ou – com a evolução do tempo e do
maus hábitos ecológicos provavelmente conhecimento humano, criando sinergia entre
resultados da educação previamente os problemas das organizações e as
recebida em seus lares junto às suas famílias. exigências do mercado consumidor e
regulatório das questões ambientais.
Assim, é responsabilidade das instituições de
ensino, a adoção priorotária desta postura, Cabe lembrar a necessidade de mudança na
sendo inaceitável a não observância quanto à ação governamental acerca do assunto, de
urgência e seriedade necessárias acerca do forma a atuar incisivamente no estímulo às
tema sustentabilidade. Desta forma, famílias, reforçando a idéia de que cada um
educadores dos futuros profissionais têm faz parte do todo no qual a contribuição
papel decisivo na formação do consumo individual é essencial na preservação do
consciente dos mesmos. ambiente, visando tanto a saúde de todos no
presente quanto o usufruto das gerações
Neste cenário, enxerga-se o potencial que a
futuras.
profissão do Engenheiro de Produção tem

REFERÊNCIAS [5] HORA, H.; MONTEIRO, G.; ARICA, J.


Confiabilidade em Questionários para
[1] BOLFARINE, H.; BUSSAB, W. O. Elementos de Qualidade: Um Estudo com o Coeficiente Alfa
amostragem. ABE-Projeto Fisher, São Paulo: de Cronbach. Produto & Produca ̧ o
̃ , Rio Grande
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[2] FORZA, C. Survey research in operations
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[6] JARDIM, E. G. M; COSTA, R. S. O Papel do
[3] HERZOG, A.L. A Era da Fábrica Verde: A
Engenheiro de Produção. Blog ÚNICA: 2009.
Estratégia de Ecoeficiência da Ambev Revela
Disponível em:<http://blog.unica.br/?p=402>.
que Reduzir o Impacto da Produção não é só
Acesso em: 22 ago. 2011.
Ambientalmente Correto - é também mais
Lucrativo. Revista Exame. Ed. Abril: [7] MAGALHÃES, M. N.; LIMA, A. C. P. Noções de
Agosto/2006. Disponível em: Probabilidade e Estatística. 7. Ed. São Paulo:
<http://planetasustentavel.abril.com.br/noticia/ Edusp, 2010.
desenvolvimento/conteudo_225102.shtml>.
[8] MONTGOMERY, D. C.; RUNGER, G. C.
Acesso em: 18 mai 2011.
Estatística Aplicada e Probabilidade para
[4] HINZ, R.T.P.; VALENTINA, L. V. D.; FRANCO, Engenheiros. 4. Ed. Rio de Janeiro: LTC, 2009.
A. C. Sustentabilidade Ambiental das
[9] SIEGEL; S.; CASTELLAN JR., N. J. Estatística
Organizações através da Produção mais
não-paramétrica para ciências do
Limpa ou pela Avaliação do Ciclo de Vida.
comportamento. Métodos de Pesquisa. 2. Ed.
Revista Estudos Tecnológicos, v. 2, n. 2, p. 91
Porto Alegre: Bookman, 2006, reimpressão,
-98. UDESC: 2006.
2008.

Sustentabilidade e Responsabilidade Social - Volume 7


GESTÃO INOVADORA NA EDUCAÇÃO PÚBLICA:
SUSTENTABILIDADE E MELHORES PRÁTICAS PELO USO
DE E-BOOKS E PORTADORES ELETRÔNICOS DE MÍDIA

Célio Alves Tibes Júnior

Resumo: Este artigo tem como objetivo discutir os principais desafios na gestão e
inovação de produtos em educação a distância – EAD no IFPR, especialmente no
que se refere à produção de livros didáticos escritos e seu impacto ambiental.
Teoricamente se contextualiza a evolução da gestão em EAD, e o papel dos
agentes interlocutores na condução e evolução de programas de educação
mediada pelas novas tecnologias, assegurando sustentabilidade na condução de
processos organizacionais do desenho educacional, que se ocupa da produção de
materiais didáticos. Perspectiva-se como hipótese que a substituição da produção
dos livros escritos, por livros digitais (e-books) pode diminuir intensivamente os
custos ambientais e ainda garantir melhoria da relação de ensino-aprendizagem
pela adoção da inovação nos processos educativos. Para tanto, será utilizada
pesquisa exploratória, de caráter qualitativo da temática de inovação e
sustentabilidade a partir da análise da produção/utilização de livros didáticos
escritos, da REDE e-TEC BRASIL, no IFPR, com vistas à identificação do impacto e
custo ambiental desse investimento e a discussão de proposta que conduza à
produção de livros didáticos digitais, (e-book), com vistas à sustentabilidade em
sentido lato. Para tanto, utilizam-se de fontes secundárias, com abordagem lógica
dedutiva a partir de dados pré-existentes no IFPR. Os resultados apontam um
quantitativo de matrículas no IFPR de 2014 a 2017 de 50060 alunos na modalidade
de EAD que demandam cada um 24 livros didáticos para a sua formação se todos
forem até o final, impactando em número impressionantes de utilização de árvores.
Os dados principais foram: massa total de papel utilizada (kg): 408.489,6, total de
árvores consumidas por aluno, 0,19, total de árvores consumidas no e-Tec IFPR,
9.803,75 e um custo total de investimento para todos os livros de R$ 36.043.200,00.
Diante de tais dados apontou-se para a necessidade de mudança de paradigma
tanto pelas questões orçamentárias quanto pelo investimento em desenvolvimento
sustentável necessário.

Palavras chave: Materiais Didáticos para EAD; e-books; Inovação e


Sustentabilidade; Desenvolvimento Sustentável
1. INTRODUÇÃO Inovação decorre de um espectro de
Sustentabilidade e Responsabilidade Social - Volume 7
130

acontecimentos mundiais, como a processamento, transmissão e


globalização, além da rápida e contínua armazenamento de conhecimentos (MORAN,
evolução tecnológica. Organizações são 2003). Trata-se de buscar paradigmas de
desafiadas a promoverem mudanças e inovação na produção do conhecimento para
estabelecerem qualidade em seus serviços, a gestão em educação.
superando suas próprias realidade (Rocha e
A EAD, nesse contexto, mostrou-se uma
Ferreira, 2001; Lacerda, 2001; Ferraz, 2002;).
modalidade inovadora de ensino também a
No Brasil a inovação está na ordem do dia
partir da década de 90 (Saviani, 2007):
como base para o desenvolvimento
sustentável (Cruz, 2003) com a gestão do A educação passa a ser entendida como um
conhecimento para a inovação como recurso investimento em capital humano individual
essencial da economia - fator de produção que habilita pessoas para a competição pelos
decisivo para além do capital e trabalho. O empregos disponíveis {...} A teoria do capital
Conhecimento é, assim, o novo fator de humano foi, pois, refuncionalizada e é nessa
produção, ou de produção inovadora condição que ela alimenta a busca de
(Drucker, 1994). produtividade na educação
(neoprodutivismo)” (SAVIANI, 2007, p. 428)
A inovação (de processo, de produto, de
gestão) constitui um elemento central da Este artigo discute a problemática dos
estratégia de desenvolvimento sustentável impactos ambientais ocasionados pela
que representa a capacidade efetiva, tanto de produção de livros didáticos escritos, tradição
adquirir como de operacionalizar no Brasil e utilizado também nos cursos EAD
conhecimento para lidar com mudanças da Rede e-TEC Brasil, no IFPR, discutindo a
(NONAKA e TAKEUCHI, 1997; BAÊTA, necessidade de inovação de gestão de
MARTINS e BAÊTA, 2002). Um estudo do produtos em educação a distância com vistas
IAPMEI (1982) define inovação como o à sustentabilidade. Para tanto se analisa o
resultado do encontro de uma ideia quantitativo de livros didáticos utilizados nos
tecnicamente realizável, com uma oportunidade cursos do IFPR, pela Rede e-Tec Brasil a
econômica e social; a inovação é caracterizada partir da oferta de 2014/2016 que contou com
pela transformação de uma ideia num novo 17 cursos técnicos, sendo eles:
produto, num processo operacional para a Administração, Agente Comunitário de Saúde,
indústria ou para o comércio, ou num novo Alimentação Escolar, Aquicultura, Eventos,
método social. Contudo é na sua obra Business Hospedagem, Infraestrutura Escolar,
Cycles que Schumpeter (1939) melhor define o Logística, Meio Ambiente, Multimeios
conceito de inovação, distinguindo-o de outro Didáticos, Pesca, Reabilitação de
conceito tradicionalmente associado, a Dependentes Químicos, Secretaria Escolar,
invenção. Segundo o autor, e ao contrário de Secretariado, Segurança do Trabalho,
economistas anteriores, estes conceitos não Serviços Públicos e Transações Imobiliárias.
devem ser confundidos, pois a distinção entre Os cursos foram/são ministrado em 25 polos
inovação e invenção baseia-se no seu impacto de educação a distância, em cidades
econômico. Adam Smith ainda no século XVIII espalhadas pelo Estado do Paraná, são elas:
antecipada essas realidades dinâmicas Assis Chateaubriand, Astorga, Barracão,
quando falou da aliança entre mudança Campo Largo, Capanema, Cascavel,
tecnológica, divisão de trabalho, crescimento Colombo, Coronel Vivida, Curitiba, Foz do
da produção e competição que conduziriam a Iguaçu, Goioerê, Irati, Ivaiporã, Jacarezinho,
um processo inovador. (Freeman e Soete, Jaguariaíva, Londrina, Palmas, Paranaguá,
1997). Paranavaí, Pinhais, Pitanga, Quedas do
Iguaçu, Telêmaco Borba, Umuarama e União
Na gestão educacional, igualmente, se faz
da Vitória. Foram atendidos (matriculados,
necessário transformar o conhecimento em
atendendo ao critério de ter estados pelo
inovação aplicada, isto é, novos produtos ou
menos um dia em aula), um total de 50060
serviços por meio de soluções inovadoras
alunos em cursos de EAD nos anos de 2014,
com apoio de novas tecnologias sem perder
2015, 2016 e 2017. As matrículas ano a ano e
de vista o processo de ensino- aprendizagem
em comparação com o ensino presencial
com seu processo de criação,
podem ser vistas no Gráfico 1:
Gráfico 1: Alunos matriculados

Sustentabilidade e Responsabilidade Social - Volume 7


131

Fonte: SETEC/MEC 02/2017


Informações mais detalhadas do Campus EAD podem ser encontradas no link a seguir
http://info.ifpr.edu.br/unidades-ifpr/ead/ .

Em relação aos alunos em curso neste ano de 2017 podem ser vistos no Quadro 1. Assim, o
problema de pesquisa deste trabalho é: identificar quais os custos ambientais decorrentes da
produção/uso de livros didáticos na REDE e-TEC Brasil, em cursos técnicos a distância do IFPR e
qual a viabilidade de inovação tecnológica com vistas à produção/utilização exclusiva e sustentável
de e-books em substituição aos livros escritos? Parte-se da hipótese de que essa prática inovadora
pode diminuir grandemente os custos ambientais e permitir o desenvolvimento de competências
multimidiáticas na gestão de cursos Ead, ainda minimizando gargalos de gestão e orçamento na
Instituição.

Quadro 1: Alunos em curso

Tipo de Curso Em Curso


Especialização 2
Especialização em EAD com habilitação e TEC EDUC 2
Técnico 8864
Administração 1490
Agente Comunitário de Saúde 991
Logística 2527
Meio Ambiente 928
Segurança do Trabalho 2049
Serviços Públicos 835
Transações Imobiliárias 44
Total 8866
Fonte: elaboração do autor com dados do SISTEC/IFPR de 3/05/2017

Sustentabilidade e Responsabilidade Social - Volume 7


132

2. REFERENCIAL TEÓRICO tecnológica centenária, que teve sua origem


no Decreto n.º 7.566, de 23 de setembro de
2.1 O MATERIAL DIDÁTICO NA EDUCAÇÃO 1909, assinado pelo Presidente Nilo Peçanha,
através do qual foram criadas 19 Escolas de
A DISTÂNCIA (EAD)
Aprendizes Artífices, uma em cada capital
federativa, para atender os filhos dos
Um dos desafios que merecem destaque
“desfavorecidos da fortuna”, ou seja, as
dentro da concepção pedagógica são as
classes proletárias da época.
atividades relacionadas ao planejamento,
produção e distribuição, no sentido de O Instituto Federal de Rondônia conta
socialização, de materiais didáticos. É comum atualmente com 25 Câmpus e uma Reitoria
que no contexto de um sistema de Educação que está na capital, Curitiba. Também nesta
a Distância o material didático seja um dos cidade está o Campus Curitiba e a Diretoria
aspectos mais discutidos e que exigem mais de Educação a Distância, também
ações de planejamento das equipes considerada historicamente como um
pedagógicas (gestores, professores- campus.
conteudistas, pedagogos, desenhista
Essa rede, financiada pela SETEC/MEC é hoje
instrucional, entre outros) e de produção
uma das maiores produtoras de projetos de
(produtores gráficos e infográficos, produtores
formação técnica em EAD e uma das maiores
de vídeo, animações e simulações,
produtoras de livros didáticos. A questão é
programadores, revisores ortográficos, entre
que esses livros são em grande parte todos
outros). Isso não acontece por acaso, pois em
impressos, aos milhares, gerando altos custos
se tratando de EaD, o material didático
e impactos ambientais consideráveis.
assume o papel de mediador principal... das
interações dos alunos com os conteúdos.
(BARBOSA, pg. 8, 2005).
2.3 O LIVRO DIDÁTICO NA EAD
De acordo com Ebert (2003), o material
didático na EAD tem por objetivos: formar um É o mais tradicional. São livros ou apostilas
indivíduo autônomo, independente, crítico, para autoestudo e com proposta de
criativo, inovador, colaborativo; maximizar a atividades a serem realizadas pelos alunos de
interação entre o aluno e o professor de forma modo presencial ou on-line, individual ou em
síncrona ou assíncrona; possibilitar o domínio grupo. No que se refere ao ensino à distância,
dos conteúdos necessários à formação do o material impresso é empregado quando o
aluno; centrar a atenção no indivíduo, público-alvo tem dificuldade no manejo de
preparando-o para o trabalho e facilitando o tecnologias de informática e de acesso à
desenvolvimento de competências. É um internet (MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO, 2010).
sistema de ensino centrado no aluno, Via de regra também é feito por conta da
provocando-o o tempo todo.” chamada “cultura do papel” segundo a qual
as pessoas gostam de ter o papel em mãos,
para a leitura (KENSI, 2004).
2.2 O INSTITUTO FEDERAL DO PARANÁ E
Na EAD a situação é mais grave, pois todo
OS CURSOS DA REDE E-TEC BRASIL curso de EAD, na esfera pública, tem pelo
menos um livro didático escrito que é doado
O Instituto Federal de Educação, Ciência e ao aluno, desde os cursos técnico até os
Tecnologia do Paraná (IFPR), autarquia superiores e pós-graduação. Ou seja, para
federal vinculada ao Ministério da Educação nosso exemplo, que são os cursos técnicos
(MEC), foi criado através da Lei n.º 11.892, de de 2 anos, ao final o estudante terá recebido
29 de dezembro de 2008, que reorganizou a uma média 20 livros, muitos dos quais são
rede federal de educação profissional, usados somente para aquela disciplina
científica e tecnológica composta pelas específica e depois passam a ser guardados
escolas técnicas, agrotécnicas e CEFETs, e juntar poeira em alguma estante ou são
transformando-os em 38 Institutos Federais de simplesmente descartados.
Educação, Ciência e Tecnologia distribuídos
Recentemente, novas tecnologias que
em todo o território nacional.
pretendem substituir o papel utilizado
Esta Instituição faz parte de uma rede federal principalmente em livros têm ganhado
de educação profissional, científica e destaque. Conhecidos pela alcunha de e-
Sustentabilidade e Responsabilidade Social - Volume 7
133

readers, populares com os tablets ou “leitores Buscou-se proceder à identificação do custo


de livros digitais” (Wikipédia, 2011), esses ambiental da produção de livros didáticos
equipamentos agregam em um único escritos e a análise de viabilidade de
aparelho enormes quantidades de dados e inovação sustentável que conduza à
informações em forma de textos digitais. Tem- produção de livros didáticos em formato e-
se também a probabilidade de melhora no book, com vistas à sustentabilidade em
aprendizado atribuída ao uso destes sentido lato.
equipamentos. Seus defensores também
Para tanto, utilizam-se de fontes secundárias,
alegam que sua adoção traria vantagens ao
com abordagem lógica dedutiva, que tem por
meio ambiente, devido a não utilização de
finalidade principal “desenvolver, esclarecer e
papel (Cleantech Group, 2009). Isto, pois as
modificar conceitos e ideias, a fim de fornecer
indústrias de papel e celulose estão entre
hipóteses pesquisáveis para estudos
aquelas que causam maior impacto ambiental
posteriores” (Tripodi, Fellin e Meyer, 1981,
por usarem intensivamente recursos florestais
p.64). Ainda Andrade (2002) elenca os
e causarem danos durante o processo
objetivos desse tipo de pesquisa: 1)
produtivo, o qual demanda grande volume de
proporcionar maiores informações sobre o
água e produz grandes quantidades de
assunto que se vai investigar; 2) facilitar a
efluentes líquidos, resíduos sólidos e
delimitação do tema de pesquisa; 3) orientar a
emissões atmosféricas (Mieli, 2007).
fixação dos objetivos e a formulação das
A enorme quantidade de papel impresso na hipóteses; e, 4) descobrir um novo tipo de
forma de livros (ou cópias e impressões) enfoque sobre o assunto.
resultante da realização de um curso técnico
A abordagem lógica dedutiva, segundo
da REDE ETEC BRASIL que seria descartado
Popper (1972, p.33) é um método para
após a conclusão do curso poderia ser
submeter uma ideia nova e ainda não
reduzida com a utilização desses e-books,
justificada de algum modo (antecipação,
como já vem sendo feito em algumas
hipótese, sistema teórico ou analógico). A
universidades dos Estados Unidos, como
partir daí se tiram as conclusões por meio de
Princeton University, University of Virginia e
dedução lógica para comparação com outros
Arizona State University (Cleantech Group,
enunciados pertinentes, de modo a descobrir-
2009).
se que relações lógicas (equivalência,
Neste trabalho, buscamos quantificar o dedutibilidade, comparabilidade ou
volume de papel utilizado unicamente na incomparabilidade) existem.
forma de livros ou cópias e impressões de
Também se usa a pesquisa bibliográfica, a
livros, no cenário específico de um aluno
partir de artigos e textos referenciais teóricos
médio dos cursos técnicos da REDE ETEC
já publicados para que se entre em contato
BRASIL, no IFRO. Espera-se com isso, sugerir
direto com os estudos já realizados (Marconi
a viabilidade da utilização de e-books como
e Lakatos, 2002), formando também o marco
alternativa para a economia de papel neste
referencial teórico.
contexto, gerando valor de sustentabilidade
com a inovação tecnológica nos processos de A escolha do objeto da pesquisa para tentar
produção de materiais didáticos, tendo por responder ao problema e procedimento de
base a hipótese de que essa inversão pode coleta de dados foi intencional em função da
ocasionar diminuição do custo e impacto acessibilidade aos dados. O IFPR, como
ambiental e propiciar o desenvolvimento de executor de políticas da Rede e-Tec Brasil
competências outras, multimidiáticas, com a possui muita documentação publicada e
implementação de materiais didáticos digitais. disponível. O pesquisador nominado neste
artigo, que é servidor na mesma instituição
tem total acesso à fontes e à vasta produção
3. PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS sobre materiais didáticos. Assim, a coleta de
dados se dá em fonte bibliográfica técnica e
Propomos em nossa discussão, um estudo científica pré-existente.
proveniente de pesquisa exploratória, de
caráter quantitativo/qualitativo da temática de
inovação e sustentabilidade a partir da análise
da produção de livros didáticos escritos, para
os cursos do IFPR, pela REDE e-TEC BRASIL.
Sustentabilidade e Responsabilidade Social - Volume 7
134

3.1 PROCEDIMENTOS DE ANÁLISE DOS média 24 árvores para produzir 1 tonelada de


papel sulfite (Conservatree, 2011).
DADOS
A partir da informação de que o IFPR ofereceu
Como a abordagem da pesquisa tem como nos últimos 4 anos um total de 50060
objetivo obter apenas uma estimativa do matrículas em cursos técnicos em EAD e que
volume de papel consumido pelos alunos da todos os cursos tem em média o período de
REDE e-TEC utilizamos os dados já execução de 2 (dois) anos e que para cada
conhecidos das massas (kg) do papel que é curso é produzido um conjunto de 24
utilizado para a produção de livros didáticos disciplinas e que cada uma possui um livro
do IFPR. Estes materiais têm em média de didático escrito, com aproximadamente 180
180 páginas, no formato A4, com massa páginas, em formato A4, com
aproximada de 0,340 kg. Buscam-se outros aproximadamente 340 gramas. Sabendo
dados sobre a quantidade de árvores ainda que de acordo com o projeto
necessárias para a produção de papel em pedagógico dos cursos, a reprodução e
quantidade proporcional para a produção de entrega de cada livro tem o custo médio de
um livro em fontes confiáveis e a partir disso, R$ 30,00 (trinta reais) de acordo com dados
fazem-se as comparações e análises. da licitação IFPR/ETEC (2012) e que o aluno
recebe gratuitamente um livro didático por
disciplina.
4. DOS RESULTADOS DA PESQUISA
Assim, temos um total de mais de 1.201,440
livros que deveriam ser produzidos e
É sabido que a produção de 1 tonelada de
utilizados pelos atuais alunos nos últimos 4
papel obriga ao abate de cerca de 24 árvores
anos. Sabe-se que por restrições de
de médio porte (eucalipto). Cada resma de
orçamento apenas parte desse livros foram
papel A4 (com cerca de 500 folhas) pesa
impressos, sendo outros apenas
aproximadamente 2,6Kg. Com os dados
disponibilizados online, por uma contingência
obtidos na Tabela 1, pudemos calcular a
econômica e não necessariamente ambiental
quantidade total de papel (em quilogramas)
ou inovadora e de sustentabilidade. Tais
consumida por cada aluno pesquisado,
conceitos ainda são pouco utilizador como
considerando o número de semestres
corolários de processos de produção e
decorridos desde o seu ingresso. Fizemos as
licitações em Instituição Federais de ensino.
seguintes estimativas: o gasto médio de papel
Como a abordagem da pesquisa tem como
com livros de um aluno por período de curso
objetivo obter apenas uma estimativa do
(2 anos) e por 1 ano, além das variações do
volume de papel consumido pelos alunos da
gasto combinado de todos os alunos do curso
REDE E-TEC utilizamos os dados já
durante um semestre e no curso inteiro.
conhecidos das massas (kg) do papel que é
Analisamos também o número de árvores
utilizado para a produção de livros didáticos
necessárias para a produção da quantidade
do IFPR: média de 180 páginas, no formato
de papel em cada um desses casos, partindo
A4, com massa aproximada de 0,340 kg.
da estimativa de que são necessárias em

Tabela 1. Estimativa de massa para a quantidade de livros do IFPR x número de alunos 2014/2017.
Livro Massa (g) Total de livros Total de alunos
por aluno EAD IFPR
Livro IFPR 340 24 50060
Fonte: elaboração do autor.

Identificou igualmente a quantidade de produção de um livro para que a partir disso


árvores necessárias para a produção de se possa fazer a análise dos dados, conforme
papel em quantidade proporcional para a dados adiante:

Sustentabilidade e Responsabilidade Social - Volume 7


135

Tabela 2. Referências de massa de papel do livro didático do IFPR x quantidade de árvores


abatidas para a produção

Unidade Referência 1 Referência 2 500 folhas 1 livro e-Tec


papel A4 (180 folhas)
Kg 1.000 kg 1 kg 2,6 kg 0,340 kg
Árvores 24 0,024 0,0624 0,00816
Fonte: elaboração do autor.

5. ANÁLISE DOS DADOS lado o custo ambiental nominal, posto que


não se esteja, nesse artigo, analisando os
A partir das informações obtidas na fase de custos prévios e consequentes da atividade
levantamento de dados, pode-se fazer uma das empresas que produzem os livros e, por
análise entre os dados unitários e os totais de outro lado, podemos analisar o impacto de
consumo de papel, livros e custo financeiro para o orçamento público da
consequentemente de árvores, pelo IFPR, em Instituição que utiliza verbas federais
seus projetos de EAD, via e-Tec. Também é descentralizadas pela SETEC/MEC. Veja-se
possível determinar o custo, em reais, de todo na tabela abaixo os dados já em sua relação
esse investimento para que se obtenha de um predita.

Tabela 3. Quantidade de árvores consumidas por aluno no IFPR x quantidade total de árvores
consumidas no IFPR nos cursos do e-Tec em 2014/2017.
Massa total de Total de árvores Total de árvores Custo do total de
papel utilizada consumidas por consumidas no livros
aluno - IFPR
(kg) e-Tec IFPR (R$)
408.489,6 0,19 9.803,75 36.043.200
Fonte: elaboração do autor.

Notamos pela tabela que, apesar da uso que pela tabela de depreciação contábil
quantidade média de papel presente em é de 2 anos – portanto o limite exato que se
livros que um aluno adquire durante todo o necessita na maioria dos cursos técnicos
curso parecer pequena - não é necessário brasileiros. Sem falar que se poderia utilizar
nem uma árvore inteira para produzir todo o por pelo menos mais 2 anos, a despeito da
papel - se considerarmos todos os alunos tabela de depreciação. Apesar de os
esse número aumenta significativamente. principais e-readers do mercado atualmente
Devido aos sérios problemas ambientais terem uma capacidade de armazenamento
causados pela fabricação de papel, como o que varia de um modelo para outro, em média
desmatamento, poluição de água e ar eles são capazes de guardar entre 1000 e
(Carvalho, D. et al, 2010), é mandatório 3500 livros (Barnes & Noble, 2011);
buscar reduzir o consumo de papel através (Amazon.com, 2011); (Sony, 2011); o que é
de alternativas ambientalmente viáveis. bem mais que suficiente para armazenar,
simultaneamente, todos os livros envolvidos
Uma alternativa relativamente recente e
na presente análise.
promissora é a substituição do uso físico do
papel pela tela reutilizável de um dispositivo No entanto, a discussão técnica quanto à real
digital, o chamado e-Reader ou Leitor de e- vantagem em termos ambientais da adoção
Books., ou mesmo um Smartphone ou tablet, dos e-books ao invés do livro tradicional foge
devido ao barateamento e manutenção de do escopo desse artigo e ainda permanece
Sustentabilidade e Responsabilidade Social - Volume 7
136

um debate em aberto. Por exemplo, análises que se refletem na aprendizagem a distância


técnicas mostram que a emissão de gases do – e, dessa forma, o professor tutor não foge
efeito estufa é pelo menos 2,5 vezes menor na dessa regra. Neste cenário é importante
leitura digital do que na impressão também considerar a educação corporativa,
(Salon.com, 2011). Porém, outra fonte aponta como necessária e inevitável, sendo uma das
que a emissão desses gases na fabricação estratégias mais eficientes para se preparar o
do dispositivo só é compensada após usá-lo futuro, além da ocupação de espaços
para ler cerca de 40 livros (Fairlady Test privilegiados do mercado de trabalho e do
House, 2011). processo produtivo. O ambiente mediatizado
em EAD é um processo de transformação do
Outro fator importante é que nos e-books ou
cenário educativo, onde professores e alunos
arquivos digitais é possível mesclar mídias,
constroem novos procedimentos e relações
integrar acessos a outros ambientes e tornar o
de cooperação em busca da aprendizagem
“livro” muito mais que um sistema
proativa.
omnidirecional, partindo para uma mídia
portadora de outras mídias intertextuais e Os dados da pesquisa demonstram a
interdisciplinares. inviabilidade financeira e orçamentária da
manutenção dos livros didáticos impressos,
como são ainda em geral, tanto no ensino
6. CONSIDERAÇÕES FINAIS presencial quanto no EAD. Isto devido ao seu
alto custo. Em segundo lugar confirmou-se a
O material didático para EAD tem que atender questão de sustentabilidade como variável
a este movimento citado por Andrade (2003) e premente na decisão por imprimir ou não,
o grande desafio da educação a distância é pelos impactos reflexos de tal prática. Em
justamente terceiro lugar, mostrou-se viável, possível e
vantajoso financeiramente e tecnologicamente
“produzir um material didático capaz de
o uso de mídias digitais com portadores de
provocar ou garantir a necessária
mídias (tablets e assemelhados). Em quarto
interatividade do processo ensino-
lugar, apenas para fins de provocação de
aprendizagem” (p.137), onde o professor
novos estudos, pode-se suspeitar que o
passa a exercer o papel de “condutor de um
processo de ensino-aprendizagem pode ser
conjunto de atividades que procura levar a
incrementado e ter resultados bem mais
construção do conhecimento; daí a
interessantes e eficazes com a utilização da
necessidade de esse material apresentar-se
tecnologia digital proposta.
numa linguagem dialógica que, na ausência
física do professor, possa garantir um certo Finalmente este trabalho se propõe a dar
tom coloquial, reproduzindo mesmo, em subsídios para os gestores institucionais de
alguns casos, uma conversa entre professor e EAD para que no planejamento didático e
aluno, tornando sua leitura leve e motivadora” tecnológico possam abrir-se a novas
(p. 138). possibilidades, inovadoras, para além da
prática centenária do uso exclusivo do livro
No cenário global, a sociedade do
didático escrito. Pode-se partir para uma
conhecimento demanda atores sociais que
gestão inovadora do ensino, com impacto
produzam de uma forma inovadora, e nos
ambiental menor, sustentabilidade
casos de programas de EAD, os mesmos
socioeconômica e orçamentária na EAD,
devem gerar indicadores para a devida
possibilitando assim uma aprendizagem
tomada de decisão por parte tanto dos
significativa na construção da gestão do
gestores como de certa forma da sociedade,
conhecimento ao aluno para além destas
no sentido de obter a união entre os objetivos
questões técnicas apenas.
e a estratégia de inovar nos projetos de
desenvolvimento de produtos de qualidade

Sustentabilidade e Responsabilidade Social - Volume 7


137

REFERÊNCIAS Inovação Tecnológica no Brasil: comparação entre


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138

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Florianópolis, SC, 2012

Sustentabilidade e Responsabilidade Social - Volume 7


A PERCEPÇÃO AMBIENTAL DO CONSUMIDOR
CONSIDERANDO A ACV E UM PRODUTO DA INDÚSTRIA
DE ERVA-MATE

Ronaldo José Seramim


Loreni Teresinha Brandalise

Resumo: Este estudo buscou identificar o grau de percepção do consumidor em


relação às questões ambientais ao longo da Análise do Ciclo de Vida do produto
(ACV) à base de Chá Mate. Para isso, o modelo Vapercom de Brandalise (2008) foi
adaptado e aplicado ao público consumidor de chá mate gelado “Xima”, produzido
por uma indústria localizada no município de Laranjeiras do Sul, Paraná. Esse
modelo possibilita à organização desenvolver ações sobre a gestão do produto na
ótica da redução, reutilização e possibilidade de reciclagem. A metodologia é
quanti e qualitativa, aplicada a uma amostra de 138 potenciais consumidores do
produto em um processo que envolveu a caracterização do produto e do público
pesquisado, identificação da percepção ambiental, do consumo ecológico e das
etapas ACV. Ao final foi possível descrever a importância para organizações em
aplicar o modelo e obter maior conhecimento sobre sua clientela, propiciando
ações norteadas pela conduta do consumidor em relação ao produto. Os principais
resultados indicam que a organização deve desenvolver ações mercadológicas
para informar as fortes características ecológicas presentes no produto, pouco
percebidas pelos consumidores.

Palavras-chave: ACV; Consumidor ecológico; Meio ambiente; Percepção ambiental.

Sustentabilidade e Responsabilidade Social - Volume 7


140

1 INTRODUÇÃO Neste estudo, o modelo foi utilizado para


analisar a percepção do consumidor na
A sociedade contemporânea compreende Análise do Ciclo de Vida do produto (ACV)
que os recursos naturais são finitos e alguns chá mate gelado “Xima”, mapeando as
até escassos, por isso a necessidade do uso características do produto, produzido por uma
racional, domando, controlando e adequando indústria de erva-mate. Busca-se, por meio
o progresso ao bem-estar do ser humano, por desse estudo, compreender: qual é o nível de
meio da preservação do meio ambiente percepção do consumidor em relação às
(Brandalise, 2012). questões ambientais e em relação ao produto
da empresa. Levando-se em consideração a
Por meio da discussão em torno dos recursos,
ACV, o objetivo do trabalho é identificar o
produtos, consumo e impactos é que
grau de percepção do consumidor em
organizações passam a analisar as
relação às questões ambientais ao longo da
percepções do consumidor em relação ao
ACV.
meio ambiente e como podem impactar em
seus processos internos e externos, neste A ACV compreende alguns aspectos, desde a
caso, podem adotar um modelo de apoio à aquisição da matéria-prima até a disposição
decisão empresarial, considerando o final, que possibilitam ações de suporte
desenvolvimento sustentável. Em relação ao empresarial sobre a gestão do produto, na
meio ambiente, as organizações podem ótica da redução, reutilização e possibilidade
avaliar a percepção do consumidor para de reciclagem (Brandalise, 2008). Portanto,
alinhar estratégias integradas e impactantes serve de apoio à gestão organizacional
em todo o ciclo de vida de um produto. industrial, ainda não aplicado em um produto
à base de mate.
Lemke e Luzio (2014) afirmam que poucos
estudos têm analisado como os consumidores Outras abordagens ocorreram com produtos
verdes percebem a produção, o design do diversos, tais como Poliestireno Expandido
produto e as dimensões da análise do ciclo (EPS) (Forlin, Brandalise, & Bertolini, 2014);
de vida (LCA – Life Cycle Assessment). papel, papelão, editoria e gráfica; mecânica;
Analisam, ainda, que existem lacunas metalúrgica; madeira e mobiliário; têxtil,
importantes entre o que os consumidores vestuário, artefatos de tecidos e indústria de
verdes exigem e as condições ou a vontade produtos alimentícios, e empresários
de atender das empresas. industriais (Thomas, Sontag, & Brandalise,
2014), produtos orgânicos (Debastiani, Tugoz
O modelo Vapercom (sigla que significa:
& Brandalise, 2016), dentre outros. Nestes
VA=variável ambiental, PER=percepção e
estudos, a percepção “ecológica ou
COM=comportamento de compra) foi
ambiental” foi analisada sob a ótica da prática
desenvolvido por Brandalise (2008) para
ambiental e permitiu sugestões de melhorias
identificar as características ambientais dos
às organizações pesquisadas. O modelo
produtos e comparar com as esperadas pelos
também foi apropriado quando aplicado ao
consumidores de acordo com sua percepção,
público consumidor de jogos de videogame,
para auxiliar a tomada de decisão empresarial
considerando a substituição da mídia física
quanto à fabricação ou em relação ao
por digital (Back & Brandalise, 2015).
marketing.
Este estudo se justifica porque é importante
Em 2009, o Vapercom foi adaptado para
investigar se realmente a variável ambiental é
analisar a percepção e o comportamento
considerada quando da tomada de decisão
ambiental de universitários em relação ao
na compra ou consumo do Xima, e se há
grau de educação ambiental (Brandalise,
relação entre gênero e a preocupação com o
Bertolini, Rojo, Lezana, & Possamai, 2009),
meio ambiente, pois o modelo é constituído
comprovando utilidade para análise sobre o
de etapas que vão desde a caracterização do
comportamento do consumidor considerando
produto até a definição de estratégias
sua percepção da variável ambiental, pois
organizacionais. Assim, os resultados podem
compreender o comportamento e os hábitos
contribuir para o incremento de ações em
do consumidor diante de produtos com
relação ao produto ou à divulgação do
impacto ambiental reduzido pode orientar
mesmo, visando incremento de vendas.
decisões de marketing com objetivo de obter
vantagem competitiva (Reyes-Ricon, 2010; A estrutura do trabalho se organiza em
Castanho, Spers, & Farah, 2006). seções que apresentam, no referencial
Sustentabilidade e Responsabilidade Social - Volume 7
141

teórico, conceitos relacionados ao tema que houve um grande avanço no quesito


serviram de base para esta pesquisa. Na ambiental, apresentado no Capítulo VI
seção 3 são apresentados os aspectos (Stadler & Maioli, 2012). Além dos tratados
metodológicos relacionados à obtenção e internacionais realizados posteriormente, há
tratamento dos dados. Na seção 4, um grande ordenamento jurídico ambiental
apresentam-se as discussões, finalizando, na desde a Constituição Federal do Brasil de
seção 5, com as considerações finais sobre 1988, e desenvolve-se com várias outras leis
os principais resultados obtidos com a estaduais, municipais, decretos, portarias,
pesquisa. instruções e outras que regulam as questões
ambientais e interferem diretamente nas
organizações. Da mesma forma, os
2 FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA consumidores passam a ser mais perceptivos
com relação a variável ambiental (Brandalise,
O referencial teórico utilizado aponta 2008).
contextualizações e esclarecimentos sobre as
Pilger (2013) ressalta que normas e leis
empresas e o meio ambiente, percepção
influenciam as empresas e que, dependendo
ambiental, o comportamento e consumo
do ramo de atuação, organizações não
ecológico, a análise do ciclo de vida do
podem ser constituídas sem o devido
produto e o modelo Vapercom.
licenciamento ambiental. Além disso,
consumidores e fornecedores também
influenciam fortemente na adoção de ações
2.1 AS EMPRESAS E O MEIO AMBIENTE
ambientais em toda cadeia produtiva, com
impactos no ciclo de vida dos produtos,
Nos primórdios da industrialização, os
exigindo uma relação sustentável. Eckert,
problemas ambientais eram pouco
Neto e Boff (2015) estudaram pequenas e
expressivos, com indústrias mais espalhadas
médias empresas do Vale do Caí no Rio
e escalas de produção reduzidas. As
Grande do Sul, e confirmaram fatores de
indústrias eram vistas como símbolos de
influência que indicam a preocupação
crescimento, modernização e riqueza, e as
organizacional principalmente sobre a
exigências ambientais eram mínimas (Pilger,
geração e destinação dos resíduos poluentes
2013). Com o tempo, a crescente ocorrência
e a redução do consumo de energia. Além
de sinistros ambientais, exploração
disso, utilizam canais de comunicação
desenfreada do meio ambiente para
informais para repassar informações sobre
produção e desigualdades sociais evidentes
iniciativas e práticas ambientais.
pautam discussões em vários países, as
organizações começam a perceber como o Essa dinâmica entre stakeholders demonstra
meio ambiente é importante para as gerações a relevância do tema, por isso investiga-se a
futuras e para a continuidade existencial das percepção ambiental dos consumidores, as
próprias empresas. influências no seu comportamento e
efetivamente as razões que levam ao
A partir da década de 1970, as conferências
consumo. Para manter a imagem de empresa
mundiais de meio ambiente e discussões
responsável, algumas passam a adotar “selos
importantes passaram a fazer parte da
verdes” ou rótulos ecológicos (Atkinson &
agenda de grandes países, incluindo avanços
Rosenthal, 2014) como uma forma de
na legislação para controle de agressões aos
evidenciação das ações voltadas ao meio
recursos naturais não-renováveis (Brandalise,
ambiente.
2008). Um dos casos mais conhecidos na
relação “meio ambiente e empresa” é o da O primeiro e mais antigo selo verde em
organização americana 3M, que, em 1975, atuação no mercado foi criado na Alemanha
implantou uma política ambiental conhecida em 1977, chamado de certificação Blue
como 3P – Pollution Prevention Pays, para Angel, desenvolvido pelo governo alemão.
prevenir a poluição gerada nos processos de Outros países também desenvolveram seus
produção. Essa estratégia gerou economia próprios selos. No Brasil, a Associação
para a empresa e redução de poluentes num Brasileira de Normas Técnicas (ABNT) criou o
período de 30 anos (Stadler & Maioli, 2012). selo de Qualidade Ambiental para certificar
produtos, considerando o seu ciclo de vida
No Brasil, a partir de 1988 com a
(Stadler & Maioli, 2012), a certificação e os
promulgação da atual Constituição Federal,
Sustentabilidade e Responsabilidade Social - Volume 7
142

rótulos ecológicos, que acabou atraindo produtos/marcas/empresas relacionados com


consumidores ecológicos (Atkinson & a variável meio ambiente ou ambiental.
Rosenthal, 2014).
Bertolini (2004) e Brandalise (2008) utilizam
Dutra, Mazza e Menezes (2014) destacam alguns indicadores para observar a
que o número crescente de consumidores percepção ambiental baseados em ações
brasileiros interessados em produtos individuais, tais como a reutilização e
ecologicamente corretos irá, provavelmente, reciclagem do lixo; não queimar lixo; não
resultar em um aumento da demanda por deixar a torneira aberta ao escovar dentes, ao
informações claras sobre economia de fazer a barba ou lavar calçadas; apagar as
recursos, redução da poluição e desperdício luzes e Tvs ao sair do ambiente; utilizar a
no processo de produção e utilização de capacidade máxima das máquinas de lavar;
componentes mais sustentáveis. Os rótulos não jogar lixo na rua; e utilizar rascunhos ou
ecológicos representam uma alternativa útil aproveitar, ao máximo, o uso dos papéis.
para indústrias para melhorar a sua
Battistella, Grohmann, Mello e Radons (2013),
comunicação com os consumidores.
quando destacam que outros atributos além
Os estudos de Leite (2003), ao analisar a do preço e qualidade são levados em
logística reversa, revelam que o novo consideração no momento da compra,
consumidor cada vez mais se sensibiliza com apontam o marketing verde presente em
aspectos ambientais do planeta e as rótulos como estímulo que aumenta a
possibilidades de impacto dos produtos no atratividade para determinado produto.
meio ambiente. Conjuntamente há um avanço Complementam sobre a existência de
na legislação de diversos países, visando consumidores que percebem e observam o
responsabilizar as empresas pelo retorno de rótulo ambiental.
seus bens e materiais, evitando o impacto
Estudos mostram que a consciência
destes no meio ambiente, ao mesmo passo
ambiental advém da percepção e que o
que as empresas passam a preocupar-se em
comportamento advém da consciência
manter a imagem corporativa, associada ao
ambiental (Brandalise, 2008). Frederico,
respeito, cuidado e preservação do meio
Quevedo-Silva e Freire (2013) consideram o
ambiente.
fator confiança entre a consciência ambiental
e o consumo ambiental, pois precisa haver
confiança para que o consumo de produtos
2.2 PERCEPÇÃO AMBIENTAL,
ecologicamente corretos se consolide.
COMPORTAMENTO E CONSUMO
Acredita-se na mudança individual para
ECOLÓGICO atingir um nível macro de consciência e
percepção ambiental. A ideia não é consumir
Brandalise (2008, p. 117) considera a menos nem mais, mas consumir melhor
percepção como o reflexo aos estímulos que (Peixoto, & Pereira, 2013). Grohmann,
as pessoas recebem, ou seja, é o processo Battistella, Velter e Casasola (2012) destacam
de “decodificação dos estímulos recebidos”. que a preocupação ambiental é alvo das
Neste contexto, há uma série de fatores inter- gerações atuais e é frequentemente
relacionados, tais como consciência e relacionada com o comportamento dos
confiança, que recebem influência social consumidores. As atitudes ambientais do
(cultura, subcultura, classe social, classe cidadão têm um impacto substancial no
social, grupos de referência, família, comportamento ecológico e compromisso real
ocupação e renda, necessidades pessoais, para abordar a sustentabilidade ambiental de
idade, motivação, percepção, atitude, longo prazo (Dutta, 2014).
aprendizagem, personalidade ou
Monteiro, Giuliani, Zambon, Pizzinatto e
autoconceito, estilo de vida), influências de
Cunha (2012) descrevem que a consciência
marketing (produto, preço, praça, promoção)
ecológica pode ser mensurada de acordo
e influências situacionais (ambiente físico,
com os valores e as crenças dos
ambiente social, tempo, tarefa, condições
consumidores. O consumidor consciente é
momentâneas). Portanto, a percepção
aquele que pratica as premissas ecológicas,
ambiental ocorre quando o consumidor
além disso busca informações da empresa,
decodifica os estímulos recebidos de

Sustentabilidade e Responsabilidade Social - Volume 7


143

do processo de produção do produto ou estão relacionados com a interpretação das


serviço que não prejudicam o meio ambiente. informações mercadológicas transmitidas por
uma organização e pela própria consciência
Frederico et al. (2013) realizaram uma
do que é, ou não, ecologicamente correto
pesquisa não-probabilística em nível nacional
(Monteiro et al., 2012). Neste ponto, ressalta-
e identificaram que a relação entre
se o fator emocional, que “[...]é um preditor
consciência ambiental e a intenção de
melhor do que o cognitivo para o consumo
consumo ambiental é significativa. A
ecológico, pelo menos no que se refere ao
confiança dos consumidores torna o gap
conhecimento subjetivo” (Reyes-Ricon, 2010,
entre consciência e consumo menor, que é
p. 65).
explicada pela falta de confiança em relação
à ética dos varejistas. Pesquisas na área de cosméticos (mulheres)
indicam que o público conhece pouco sobre
No entanto, nem sempre produtos com
os produtos ecológicos, mas 95% apresenta
característica ambiental, ou orgânicos, são
elevado grau de afeto ecológico e elevado
viáveis financeiramente. Certos casos indicam
grau de preocupação ecológica, o que
que os consumidores nem sempre estão
impacta na quantidade de pessoas que
dispostos a pagar um valor superior ao do
possui um comportamento de compra
mercado para adquirir um produto orgânico. É
ecológica (Tamashiro, Silveira, Mantovani, &
importante a observância do tipo de produto a
Campanário, 2014).
ser produzido (Bertolini, Brandalise, Rojo, &
Lezana Correio, 2013). O perfil do consumidor ecológico considera:
saber a postura ambiental do fabricante antes
Peixoto e Pereira (2013) analisam as
de comprar; comprar produtos e embalagens
convergências entre o discurso
de produtos fabricados com material
ambientalmente responsável e o
reciclado; identificar os produtos
comportamento de consumo, baseados na
ecologicamente corretos pela embalagem;
teoria de Argyris et al. (1985), e destacam que
adquirir produtos orgânicos, biodegradáveis,
há um reconhecimento de que é certo adotar
lâmpadas e eletrodomésticos que consomem
hábitos de consumo ambientalmente
menos energia; e pagar mais por um produto
responsáveis, e também destacam que a
que não agride o meio ambiente (Bertolini,
comodidade, falta de interesse, impotência,
2004).
condição financeira e falta de incentivo do
governo são os principais limitadores da Barboza e Filho (2013) analisaram a ideologia
efetivação do comportamento ambientalmente verde e o comportamento do consumidor
responsável. tecnológico, e concluíram sobre a existência
de alguns consumidores que não acreditam
Dessa forma, mensurar o comportamento de
em tecnologia sustentável ou verde,
compra ambientalmente responsável e
argumentam sobre propagandas falsas,
consciente tem sido uma das principais
chamado greenwashing (maquiagem verde).
dificuldades (Reyes-Ricon, 2010). Peixoto e
O consumidor moderno focado no valor social
Pereira (2013) concluem que seria impossível
da tecnologia possui predisposição ao verde,
ter hábitos de consumo completamente
porém o ato da compra não reflete essa
favoráveis ao meio ambiente nas condições
atitude por sempre existir um produto mais
atuais em que vive a sociedade. Dessa forma,
novo e moderno que o ecológico.
nem sempre o comportamento é coerente
com o discurso ambientalmente responsável O fato de o consumidor estar atento às
pela existência de elementos motivacionais e causas ambientais não indica que isso reflete
contextuais. Entretanto, alguns autores, tais em suas práticas de consumo (Monteiro et al.,
como Castanho et al. (2006), afirmam que o 2012). Estudos com universitários indicam
consumidor dá preferência de compra às consciência ambiental, no entanto, a prática
empresas que incentivem ou pratiquem a do consumo valoriza o custo-benefício em
reciclagem. detrimento da relação custo-conservação
ambiental (Gomes, Gorni, & Dreher, 2011),
Para Battistella et al. (2013), as crenças e o
por isso algumas práticas de consumo não
comportamento ambiental são
corroboram com a preservação. Portanto, a
comprovadamente antecedentes do consumo
participação do público consumidor é
ecológico. Dessa forma, os consumidores
relevante para detalhar o ciclo de vida dos
tomam decisões baseados em estímulos que
Sustentabilidade e Responsabilidade Social - Volume 7
144

produtos e adequá-los as exigências do 2.4 O MODELO VAPERCOM


mercado.
Brandalise (2008, p.141) apresenta o modelo
para “[...]identificar o grau de percepção da
2.3 ANÁLISE DO CICLO DE VIDA DO variável ambiental na cadeia produtiva, na
ótica da redução, reutilização e
PRODUTO - ACV
reciclabilidade dos recursos, associada ao
comportamento do consumidor”. A partir da
O ciclo de vida é o conjunto de todas as
ACV, o modelo é aprimorado na intenção de
etapas necessárias, desde a extração dos
agregar e quantificar informações para
recursos até sua destinação final, para que
evidenciar a importância atribuída aos
um produto cumpra sua função. A ACV é uma
aspectos ambientais na tomada de decisão
ferramenta técnica para a avaliação dos
de compra e consumo.
aspectos ambientais e dos impactos
potenciais associados a um produto, Esse modelo possibilita à organização
compreendendo etapas que vão desde a verificar se os consumidores valorizam os
retirada dos recursos da natureza até a produtos considerados ecologicamente
disposição do produto final (Brandalise, corretos, permitindo conhecer seu
2008). A ACV consiste numa inevitável e comportamento, fornecendo subsídios no
valiosa opção para avaliar os produtos verdes planejamento de ações no sentido de manter
e a eficácia do sistema (Lemke & Luzio, ou lançar novos produtos no mercado,
2014). considerando suas expectativas (Brandalise,
2008).
Para a análise de cada estágio do ciclo, a
ACV depende muito da sensibilidade e
consciência ambiental de quem realiza a
São quatro etapas para a aplicação:
análise, por isso é difícil fazer comparações
entre produtos similares e ainda não é [1] A caracterização do produto e do
possível realizar uma análise completa do potencial consumidor;
ciclo de alguns produtos (Brandalise, 2008).
[2] Identificação do pesquisado, da
As fases da ACV são: a definição do objetivo percepção ambiental, do consumo
e escopo (compreende a condução do ecológico e das etapas ACV;
estudo, sua abrangência e suas limitações, a
[3] Identificação das discrepâncias
unidade funcional, a metodologia e os
(gaps) entre as características
procedimentos necessários); a análise do
ambientais do produto e as que o
inventário do ciclo de vida (a entrada e saída,
consumidor percebe;
coleta de dados sobre a aquisição da
matéria-prima e energia, manufatura e [4] Definição das oportunidades de
transportes); a avaliação de impacto ações de incremento ou ajustes. As
(processo qualitativo e quantitativo, com aplicações e respectivas análises do
classificação, caracterização e valoração); e a modelo são descritas nas discussões.
fase de interpretação (que identifica os A etapa de caracterização do produto
principais problemas, faz-se uma avaliação, utiliza da matriz apresentada na
análise de sensibilidade e tiram-se Figura 1.
conclusões) (Chehebe, 1998).

Sustentabilidade e Responsabilidade Social - Volume 7


145

Figura 1. Matriz de característica de produto ecologicamente correto

Fonte: Brandalise (2008, p.152)

A identificação das características do produto aprofundadas em relação ao fenômeno


é realizada diretamente pelo pesquisador, estudado e visa observar as características
utilizando a Matriz, em que as linhas da Figura não apontadas pelo estudo quantitativo.
1 representam as etapas ACV (matéria-prima, Quanto aos objetivos caracteriza-se como
processo de produção, utilização do produto, pesquisa descritiva, por utilizar técnica
pós-utilização e descarte). Considera-se padronizada de coleta de dados e avaliar
característica ambiental forte o produto que relações entre variáveis (Raupp & Beuren,
tem origem de matéria-prima renovável, 2009).
impacto ambiental irrelevante na extração,
A aplicação ocorreu em três etapas com
armazenagem e transporte; na produção e
duração de seis meses: (1) diagnóstico e
utilização consome pouca energia e têm baixa
caracterização do produto por meio de
geração de resíduos sólidos, efluentes
entrevista e visita na empresa, realizada no
líquidos e emissões atmosféricas; além das
mês de abril de 2015; (2) Aplicação do
demais características evidenciadas na figura
questionário de coleta de dados com base no
(Brandalise, 2008).
modelo de Brandalise (2008); (3) análise
estatística e inferências sobre o perfil
consumidor.
3. PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS
Um pré-teste com 10 respondentes foi
Esta é uma pesquisa quantitativa pelo aplicado para verificar se o instrumento de
emprego de instrumentos estatísticos, tanto coleta apresenta fidedignidade, durante o
na coleta quanto no tratamento dos dados. É mês de abril de 2015, com esclarecimentos
qualitativa quanto à caracterização do ao grupo sobre a relevância da pesquisa.
produto e proposição de ações empresariais, Observou-se que os respondentes não
pois nela concebem-se análises conseguem compreender as diferenças na

Sustentabilidade e Responsabilidade Social - Volume 7


146

análise ACV em relação ao produto Xima, e e ocorreu durante a primeira quinzena do mês
preocupam-se no descarte da garrafa pet. de maio de 2015 com recolhimento no dia
seguinte ao da distribuição.
O questionário foi aplicado a uma amostra de
138 potenciais consumidores do produto O cálculo da amostra foi baseado na fórmula
Xima, com abordagem presencial, no de Costa Neto (1977), considerando um erro
município de Laranjeiras do Sul, Paraná. A amostral de 5%, com 95% de confiança, e
distribuição foi proporcional e intencional por sabendo que a proporção populacional
conglomerados, no comércio local, escolas, seguramente não é superior a 0,10 (o produto
universidades, instituições governamentais, de referência não vem sendo comercializado
com intuito de atingir o maior número de pela empresa e sua proporção no mercado
potenciais consumidores do produto (o Xima), pesquisado é de 10%).

𝑍𝛼
𝑛=( ) ∗ 𝑝 ∗ (1 − 𝑝)
𝜀𝑜

Aplicando a fórmula, n = tamanho da amostra visita técnica, com a gerência geral (1),
necessária; 𝑍𝛼 = variável normal padronizada administradora (1) e gerente de vendas (1).
Z para um nível de significância 𝛼; 𝜀𝑜 = erro Foram realizadas na indústria e a matriz de
amostral tolerável – expresso na mesma caracterização do produto (Figura 1) foi
unidade variável coletada); p = proporção utilizada para identificar as características do
populacional, os dados são: 𝑍𝛼 = 1,96; 𝜀𝑜 = item analisado em cada etapa da ACV.
0,05; p = 0,10, resultando n = 138,29, ou, 138
Foi aplicado teste de independência com
elementos ou amostras.
auxílio do software Action visando identificar a
Para a obtenção de 138 respostas, foram relação entre questões, a 5% de significância,
distribuídos 166 documentos impressos, com as hipóteses: H0 – existe relação
sendo que 21 retornaram em branco e 7 não significativa entre o sexo e a influência pela
retornaram. Portanto, trata-se de amostra propaganda, pelos amigos ou pela família em
composta apenas de pessoas com relação às questões ambientais; H1 – não há
disponibilidade para voluntariamente relação significativa entre o sexo e a influência
despender tempo em responder. pela propaganda, pelos amigos ou pela
família em relação às questões ambientais
Os dados foram tabulados e analisados em
(Martins, 2001). A etapa final de análises e
quatro etapas: 1 – a caracterização do
proposições ocorreu em agosto de 2015, com
produto e do potencial consumidor com uma
entrega do relatório de respostas e sugestões
análise qualitativa sobre as etapas da ACV e a
à empresa.
classificação ambiental quanto à
característica forte, mediana ou fraca de cada
fase; 2 – identificação do pesquisado, da
4 ANÁLISES E DISCUSSÕES DOS
percepção ambiental, do consumo ecológico
e das etapas ACV com tabulação dos dados RESULTADOS
e análises unidimensionais; 3 – identificação
das discrepâncias (gaps) entre as A aplicação ocorreu na indústria de erva-mate
características ambientais do produto e as localizada em Laranjeiras do Sul, Paraná, que
que o consumidor percebe com abordagem atua no mercado de erva-mate (Ilex
bidimensional; e 4 – definição das paraguariensis) e chá mate desde 1976, e
oportunidades de ações de incremento ou possui certificação da Associação de
ajustes com sugestões para a organização de Certificação do Instituto Biodinâmico Brasileiro
acordo com os resultados apresentados (IBD). A empresa utiliza basicamente a
(Brandalise, 2008). matéria-prima da erva-mate orgânica, pois
acredita na agricultura orgânica como uma
A etapa de caracterização do produto foi
forma sustentável de produção, promovendo
obtida por meio de três entrevistas e uma
e estimulando a biodiversidade e os ciclos
Sustentabilidade e Responsabilidade Social - Volume 7
147

biológicos. Assim como maioria das chá mate, cuja matéria-prima básica é a erva-
organizações industriais, houve mudanças mate orgânica e água, produzida na região de
com o tempo em relação à ação sobre o meio Laranjeiras do Sul, Paraná. Atende as
ambiente (Pilger, 2013), fazendo-a pensar exigências legais ambientais e possui
estrategicamente a sustentabilidade permissão para produção (Leite, 2003; Stadler
ambiental. & Maioli, 2012; Pilger, 2013)
Com base na matriz de característica de
produto ecologicamente correto do modelo
4.1 CARACTERIZAÇÃO DO PRODUTO
Vapercom, foi elaborada a Tabela 1 com a
característica ecológica analisada de acordo
O produto em estudo é o chá mate envasado
com a Matriz apresentada na Figura 1.
em garrafa pet “Xima” que tem como base o

Tabela 1. Caracterização do produto nas principais etapas ACV


Etapas da Impactos ambientais relacionados à erva-mate orgânica Característica
ACV utilizada na fabricação do Xima da Indústria de Mate ecológica
Origem dos recursos Médio. Recursos extraídos e renováveis Mediana
em longo prazo. Necessidade de
Matéria- planejamento de replantio.
prima Impacto ambiental Baixo. A erva-mate orgânica plantada Forte.
na extração tem poda regular ano a ano,
renovando-se a cada ano.
Consumo de energia Baixo. Com planejamento de consumo Forte
de energia e utilização de resíduos de
madeira no processo de secagem.
Geração de resíduos Os resíduos da erva-mate no processo Forte
sólidos, efluentes de secagem não causam danos ao
Processo de
líquidos e emissões meio ambiente. A emissão atmosférica
produção
atmosféricas. é insignificante.
Consumo de O consumo de energia utilizado no Forte
combustível no transporte interno do produto é baixo.
transporte/
distribuição
Vida útil do produto Alto Forte
Necessidade de Não há Forte
energia
Potencial de Não há Forte
Utilização
contaminação ao
meio ambiente
Embalagem Baixo (a garrafa pet não ocasiona risco Forte
na utilização do produto).
Possibilidade de Não há. Fraco
reutilização
Potencialidade de Não há. Fraco
Pós-
reaproveitamento de
utilização
componentes
Possibilidade de Há possibilidade de reciclagem Forte
reciclagem
Periculosidade ou Não há Forte
toxidade.
Descarte Volume do material Baixo Forte
Biodegradabilidade Não no que diz respeito à embalagem. Fraco
O produto em si é biodegradável.
Fonte: Pesquisa aplicada (2015)

Sustentabilidade e Responsabilidade Social - Volume 7


148

Além da matéria-prima (erva-mate) para a homens parecem ser mais resistentes


fabricação do Xima, existem outros itens (Romeiro, Prearo, & Cordeiro, 2011). Estas
essenciais: a água tratada e o situações ficaram evidenciadas nesta
acompanhamento na indústria; gás carbônico amostra, pois, do total de mulheres
para produção do refrigerante; garrafa pet pesquisadas, 57 (73,08%), separa o lixo que
para embalagem. A principal preocupação da pode ser reciclado e o dispõe para coleta.
empresa é voltada ao descarte da
Quanto à idade, a maioria está na faixa dos 21
embalagem (garrafa pet), que não é tóxica,
a 30 anos (35,51%), e com renda familiar de 1
mas demora anos para sua decomposição na
a 4 salários mínimos (51,45%) (Tabela 2).
natureza já que não é biodegradável,
entretanto é 100% reciclável. Quando perguntados sobre a fonte de
obtenção de informações sobre questões
Seria ideal analisar o produto, considerando
ambientais, 81,88% responderam que é a
todas as matérias-primas em todo ciclo de
mídia (tv, rádio, jornal, revistas) (Tabela 2).
vida, que demandaria muito tempo, trabalho e
Destacam-se aqui argumentos apresentados
dificuldades para mensurar algumas
por Castanho et al. (2006) sobre a
variáveis, mas pode-se analisar o produto a
participação da mídia na influência do
partir das principais matérias-primas e etapas
comportamento consumista das pessoas, na
da ACV (Brandalise et al., 2014). A empresa
produção de resíduos no meio ambiente.
adota políticas ambientais voltadas à redução
Além da conclusão de Reyes-Ricon (2010, p.
e uso racional de recursos naturais durante a
66) que apesar de “[...]críticos e céticos com
fabricação do produto, além de campanhas
relação ao marketing verde custem a
para incentivo ao plantio de árvores de Erva-
acreditar na sua eficácia em promover o
Mate, essas atitudes também representam
desenvolvimento sustentável, a orientação
economia para a organização (Stadler &
ecológica nas decisões de consumo é o
Maioli, 2012).
elemento principal que poderá levar a
mudanças nos padrões produtivos”.
4.2 APLICAÇÃO DO INSTRUMENTO DE Acerca da pergunta relacionada com a ACV,
observou-se que 72,46% dos respondentes
COLETA DE DADOS
não sabiam e tinham dúvidas sobre o
significado da Análise do Ciclo de Vida do
Em relação aos respondentes, dos 138
produto, o que prejudica uma análise mais
pesquisados, 78 (56,52%) representam
criteriosa das questões sobre a percepção
pessoas do sexo feminino e 60 (43,48%) do
das ações ambientais da empresa em relação
sexo masculino (Tabela 2). A maior presença
as etapas ACV. E quando perguntados se
de mulheres na amostra permite apontar que
sabiam que o produto que usam causa
estas tendem a ter atitudes mais favoráveis
impacto no meio ambiente, as respostas
em relação a produtos verdes (Reyes-Ricon,
foram 81,88% afirmando que sim, 12,32%
2010). Mulheres também têm comportamento
possuem dúvidas, 2,9% não responderam e
favorável à reciclagem, considerando a
2,9% não sabiam.
separação do lixo domiciliar, enquanto

Sustentabilidade e Responsabilidade Social - Volume 7


149

Tabela 2. Dados demográficos e questões sobre ACV


Questão Respostas Percentual %
Feminino 56,52%
Sexo
Masculino 43,48%
Até 20 anos 18,12%
Entre 21 e 30 anos 35,51%
Idade Entre 31 e 40 anos 28,26%
Mais de 41 anos 17,39%
Não respondeu 0,72%
Até 1 salário mínimo 11,59%
De 1 a 4 salários mínimos 51,45%
De 4 a 7 salários mínimos 25,36%
Renda
De 7 a 10 salários mínimos 7,25%
Mais de 10 salários mínimos 2,90%
Não respondeu 1,45%
Amigos 0,72%
Escola 9,42%
Onde você obtém informações Família 1,45%
sobre as questões ambientais no
dia a dia? Mídia 81,88%
Rótulos/embalagens 5,80%
Não respondeu 0,72%
Você sabe o que é ACV (análise Não 31,88%
do ciclo de vida do produto
Sim 27,54%
desde a matéria-prima até o
descarte) Tenho dúvidas 40,58%
Você sabe que o produto que Não 2,90%
você usa causa impacto ao meio
Sim 81,88%
ambiente?
Tenho dúvidas 12,32%
Não respondeu 2,90%
Fonte: Pesquisa aplicada (2015)

4.2.1 CONJUNTO PERCEPÇÃO AMBIENTAL essas questões estão relacionadas com a


conduta ambiental no cotidiano considerando
Em relação à percepção ambiental, foram os elementos de redução e conservação de
efetivadas sete perguntas com opções de recursos no consumo, reutilização e
resposta: sempre, frequentemente, algumas reciclabilidade. As respostas estão descritas
vezes, pouquíssimas vezes e nunca (Escala na Tabela 3.
de Likert). De acordo com Brandalise (2008),

Sustentabilidade e Responsabilidade Social - Volume 7


150

Tabela 3. Frequência de respostas do conjunto percepção ambiental

Frequentemente

Algumas vezes

Pouquissimas
Sempre

Nunca
Vezes
CONJUNTO 02 - PERCEPÇÃO AMBIENTAL

Antes de jogar algo no lixo, você pensa em como poderia reutilizá- 16 25 73 14 10


lo?
Você é adepto da reciclagem? (3 pessoas sem resposta). 36 41 37 16 5
Você separa o lixo que pode ser reciclado (papel, plástico, 50 26 33 14 11
alumínio, vidro, metais) e os dispõe para coleta? (4 pessoas sem
resposta)
Apaga as luzes, desliga TV, aparelho de som, ventilador / 88 24 14 11 1
aquecedor quando sai do ambiente?
Procura não deixar a torneira aberta ao escovar os dentes ou ao 93 22 12 5 4
fazer a barba? ( 2 pessoas sem resposta)
Você utiliza os dois lados dos papéis, ou reutiliza rascunhos? 60 41 27 5 5
Você evita imprimir coisas desnecessárias? 79 35 13 5 6
TOTAIS (957 respostas / 9 sem resposta) 422 214 209 70 42
Fonte: Pesquisa aplicada (2015)

Dos totais apresentados, 9 campos ficaram É importante ressaltar que o comportamento


sem resposta, de um total de 966 (Tabela 3). ambientalmente responsável não está
Observa-se, nestas questões, o predomínio relacionado apenas ao benefício ambiental,
da resposta “sempre”, exceto na questão se o mas também pessoal, e, na maioria das
consumidor pensa como poderia reutilizar vezes, financeiro com vantagem econômica,
algo antes de jogar no lixo, onde maior parte como a economia de água, energia,
optou por “algumas vezes”. Além disso, na reutilização de produtos, compra de
questão sobre a pessoa ser adepta da eletrodomésticos e lâmpadas de baixo
reciclagem também houve maior número de consumo (Peixoto, & Pereira, 2013).
respostas entre: frequentemente, algumas
Brandalise (2008) propõe a tabulação dos
vezes e sempre. Demonstra que pessoas
resultados de acordo com a Tabela 4. Os
acreditam que a reciclagem compensa
valores atribuídos às questões alternativas de
(Castanho et al., 2006), no entanto, aspectos
respostas para a classificação foram: para A
subjetivos sobre a percepção e a economia
(sempre) = 4 pontos; para B (frequentemente)
financeira merecem atenção, já que o público
=3 pontos; para C (algumas vezes) = 2
acaba conciliando economia de recursos com
pontos; para D (pouquíssimas vezes) =1
a financeira.
ponto; e para E (nunca) =0.

Sustentabilidade e Responsabilidade Social - Volume 7


151

Tabela 4. Alocação de pesos e elaboração do grau de percepção ambiental


(a) Nº Respostas (b) Valores (a X b) Resultado
A = 422 4 1688
B = 214 3 642
C = 209 2 418
D = 70 1 70
E = 42 0 0
(c) Soma dos Resultados 2818
(d) Nº de questões 957
(e = c / d) Resultado 2,94
Fonte: Dados da pesquisa (2015)

Para viabilizar os cálculos de mensuração dos classificação do grau de percepção ambiental


indicadores desse conjunto, utiliza-se a (Tabela 5).

Tabela 5. Classificação do grau de percepção ambiental


Grau de percepção em relação às questões
Valores
ambientais
A) Possui alta percepção ecológica Entre 3,3 e 4,0
B) Possui percepção ecológica Entre 2,5 e 3,2
C) Possui potenciais traços de percepção ambiental Entre 1,7 e 2,4
D) Possui poucos traços de percepção ambiental Entre 0,9 e 1,6
E) Não possui percepção ecológica. Até 0,8
Fonte: Brandalise (2008, p. 156)

As escalas de classificação obedecem a 4.2.2 CONJUNTO CONSUMO ECOLÓGICO


intervalos de 0,7 pontos com a divisão: entre
3,3 e 4,0; entre 2,5 e 3,2; entre 1,7 e 2,4; entre Para analisar as respostas obtidas no
0,9 e 1,6; e até 0,8 (Brandalise, 2008). conjunto sobre consumo ecológico foi
Conforme esta classificação, o resultado 2,94 utilizado o mesmo método de alocação de
(Tabela 4) mostra que os pesquisados pesos do conjunto percepção, apontando os
possuem percepção ecológica. Assim como resultados mostrados na Tabela 6.
em outros estudos, o modelo permitiu
identificar a percepção ecológica (Back &
Brandalise, 2015; Brandalise et al., 2009;
Forlin et al., 2014; Thomas et al., 2014).

Sustentabilidade e Responsabilidade Social - Volume 7


152

Tabela 6. Frequência de resposta – consumo ecológico

Frequentemente

Pouq. Vezes
Alg. Vezes
Sempre

Nunca
CONJUNTO 03 – CONSUMO ECOLÓGICO

Você considera a variável ambiental quando da compra de um 7 21 56 35 14


produto? (5 sem resposta)
Ao comprar você se deixar influenciar pela propaganda, pelos 2 13 52 39 30
amigos ou pela família em relação às questões ambientais? (2 sem
resposta)
Ao comprar, você procura saber se o fabricante pratica ações 1 14 29 47 44
ambientais? (3 sem resposta)
Ao comprar, você valoriza o fabricante que tem ‘postura’ 13 20 41 35 27
ecologicamente correta? (2 sem resposta)
Antes da compra você verifica rótulos e embalagens, para 9 15 36 45 32
identificar um ‘produto’ ecologicamente correto? (1 sem resposta)
Procura comprar produtos e/ou embalagens fabricados com 8 19 44 40 26
material reciclado ou que tem potencial para serem reciclados? (1
sem resposta)
Você verifica o consumo de energia quando da compra de um 45 18 23 31 21
produto?
Você compra produtos biodegradáveis? (1 sem resposta) 6 28 53 40 10
Você se dispõe a pagar mais por um produto ecologicamente 10 19 52 34 21
correto? (2 sem resposta)
Você se dispõe a mudar de marca de produto para auxiliar na 23 29 54 27 4
conservação do meio ambiente? (1 sem resposta)
Você pagaria mais por um caderno fabricado com papel reciclado 24 30 41 35 8
ou proveniente de árvore reflorestada?
TOTAIS (1500 respostas / 18 sem resposta = 1518) 148 226 481 408 237

Fonte: Dados da pesquisa (2015)

Neste conjunto de questões, a maioria das seguindo a metodologia apresentada na


respostas concentrou-se entre “algumas variável percepção na Tabela 4. A soma dos
vezes” e “pouquíssimas vezes”. A análise da resultados com peso fica em 2640, dividido
pontuação obtida nesse conjunto deve ser pelo número de respostas de 1500, resulta em
realizada de acordo com a alocação de pesos 1,76. A seguir, utiliza-se a classificação da
e elaboração do grau de consumo ecológico, Tabela 7.

Sustentabilidade e Responsabilidade Social - Volume 7


153

Tabela 7. Classificação do comportamento de compra e consumo ecológico


Grau de consumo de produtos ecologicamente corretos Valores
A) Consumidor ecológico Entre 3,3 e 4,0
B) Grande possibilidade de tornar-se um consumidor ecológico Entre 2,5 e 3,2
C) Potencial possibilidade de tornar-se um consumidor ecológico Entre 1,7 e 2,4
D) Fraca possibilidade de tornar-se um consumidor ecológico Entre 0,9 e 1,6
E) Não é um consumidor ecológico Até 0,8
Fonte: Brandalise (2008)

Com o resultado de 1,76, pode-se verificar ter interesse (1,45%); por não gostar (0,72%);
que o consumidor pesquisado classificou-se não ter hábito (0,72%) e não ter oportunidade
como “potencial possibilidade de tornar-se de experimentar (0,72%).
um consumidor ecológico”. A partir da opinião
Apesar de 54,35% não utilizar o produto,
de Leite (2003), é possível concluir que há
82,61% compraria o Xima. Quando
uma sensibilidade do potencial consumidor
questionados se pagariam mais caro, 73,19%
em relação aos impactos que o produto pode
afirmaram que não; 24,64%, sim e 2,17%, não
causar no meio ambiente.
respondeu. O fato de que consumidores não
Quando se utiliza o termo “potencial estão dispostos a pagar mais por um produto
possibilidade” de tornar-se consumidor orgânico corrobora com os resultados de
ecológico, considera-se que este público Bertolini et al. (2013). Nota-se que o
possui crenças e um comportamento consumidor não está disposto a pagar mais
ambiental propício a tornar-se um futuro caro pelo produto, visto o seu baixo
consumidor ecológico (Battistella et al., 2013). envolvimento com o mesmo (Atkinson, &
Com base no resultado da pesquisa, neste Rosenthal, 2014), já que maior parte também
caso, não há como validar a dimensão indicou não ter utilizado.
emocional (Reyes-Ricon, 2010). Denota
Em relação à preferência por chá mate
também, que a empresa deverá repassar
gelado, com gás ou natural, os dados
informações claras sobre economia de
demonstraram que 73,19% optam pelo natural
recursos, ações de redução da poluição e do
e 22,46%, com gás; e 4,35%, não respondeu.
desperdício, como indicam Dutra et al. (2014).
No entanto, não foi possível aprofundar se a
preferência se dá por razões ambientais, de
saúde ou econômicas. No entanto, assim
4.2.3 QUESTÕES SOBRE O PRODUTO
como o estudo de Frederico et al. (2013), há
uma relação significativa ou expressiva entre
As questões sobre o produto foram incluídas
a consciência ambiental, neste caso
com a intenção de obter mais informações
evidenciada no resultado da percepção e na
sobre os consumidores potenciais, e algumas
intenção de consumo.
são adicionais ao modelo de Brandalise
(2008). Foi possível identificar que 45,65%
usa ou já utilizou o produto Xima, enquanto
4.2.5 CONJUNTO DE ETAPAS ACV
54,35% não. As razões para não utilizar foram
obtidas por pergunta aberta, e são: não
Os dados obtidos neste conjunto de questões
conhecer o produto (34,06% do total); por não
“etapas da ACV” estão representados na
estar dentre as opções nas lojas (14,49%);
Tabela 8.
pela qualidade do produto (2,17%); por não

Sustentabilidade e Responsabilidade Social - Volume 7


154

Tabela 8. Dados da etapa ACV

Nenhuma preocupação
CONJUNTO 04 - ETAPAS ACV

Média preocupação
Frequentemente me

Fraca preocupação
Forte preocupação
Em relação à matéria-prima (Erva-Mate) indique o grau

preocupo
Sempre
de preocupação com:

27 Origem dos recursos (se são renováveis) (1 sem 22 34 51 19 11


resposta)
28 Impacto ambiental na extração (e no transporte) 27 36 45 23 7
Em relação ao processo de produção, indique o grau de
preocupação com:
29 Consumo de energia (na produção) 25 26 44 27 16
30 Geração de resíduos sólidos, efluentes líquidos e 31 30 44 19 14
emissões atmosféricas
31 Consumo de combustível na armazenagem e/ou 22 26 45 31 12
transporte e distribuição (2 sem resposta)
Em relação à utilização do produto, indique o grau de
preocupação com:
32 Vida útil do produto 40 33 36 21 8
33 Necessidade de energia 21 41 46 21 9
34 Potencial contaminação ao meio ambiente 41 29 42 17 9
35 Embalagem (tipo e/ou volume) (5 sem resposta) 25 36 41 23 8
Em relação à pós-utilização do produto, indique o grau
de preocupação com:
36 Possibilidade de reutilização 21 42 43 21 11
37 Potencialidade de reaproveitamento de 19 39 44 24 10
componentes (2 sem resposta)
38 Possibilidade de reciclagem (1 sem resposta) 35 33 44 19 6
Em relação ao descarte do produto, indique o grau de
preocupação com:
39 Periculosidade ou toxidade 68 20 29 12 9
40 Volume de material (incluindo embalagem) (4 sem 28 36 43 18 9
resposta)
41 Biodegradabilidade 31 25 49 20 13
TOTAIS (2055 respostas / 15 sem resposta) 456 486 646 315 152
Fonte: Dados da pesquisa (2015)

Sustentabilidade e Responsabilidade Social - Volume 7


155

Nesse conjunto de questões (Tabela 8), Para a tabulação dos dados obtidos, utiliza-se
observa-se mediana preocupação em todas novamente a Tabela 4: Alocação de pesos e
as etapas da ACV, com destaque para a elaboração do grau de percepção, de
“utilização do produto” em que de houve forte consumo ecológico e de preocupação em
e frequente preocupação com maior número relação à ACV. Obtém-se um indicador de
de respostas. A preocupação com a “pós- 2,38 que permite verificar a classificação do
utilização” e “descarte” foi evidente, grau de preocupação do consumidor
especialmente quanto à periculosidade amostrado em relação à ACV na Tabela 9.
obteve quantidade expressiva de marcações.

Tabela 9. Classificação do grau de preocupação /ACV


Grau de preocupação em relação às etapas da ACV Valores
A) Forte preocupação Entre 3,3 e 4,0
B) Frequente preocupação Entre 2,5 e 3,2
C) Mediana preocupação Entre 1,7 e 2,4
D) Fraca preocupação Entre 0,9 e 1,6
E) Nenhuma preocupação Até 0,8
Fonte: Brandalise (2008, p.158)

O resultado confirma que há “mediana indicar que o consumidor realmente não


preocupação” com as características possui total atenção com as etapas ACV.
ambientais ao longo do ciclo de vida do
Os resultados em cada etapa da ACV
produto (Tabela 9). O potencial consumidor
permitem identificar onde há mediana e
pode apresentar preocupações diferentes
frequente preocupação do consumidor em
dependendo do tipo de produto que está
relação às questões ambientais (Brandalise,
sendo analisado (Back & Brandalise, 2015;
2008). Portanto, a Tabela 10 apresenta as
Brandalise et al., 2009; Forlin et al., 2014;
discrepâncias entre o que o consumidor
Thomas et al., 2014). Este resultado pode
percebe e as características do produto.

Tabela 10. Caracterização do produto versus preocupação do consumidor

Características do produto Preocupação do


Ciclo de vida do produto
ecologicamente correto consumidor

Matéria-prima Forte (3,3) Mediana preocupação


(2,32)
Processo de Forte (3,3) Mediana preocupação
produção (2,19)
Utilização do Forte (3,3) Mediana preocupação
produto (2,44)
Pós-utilização Mediana (1,7) Mediana preocupação
(2,36)
Descarte Mediana (1,7) Frequente preocupação
(2,54)
Fonte: Adaptado de Brandalise (2008)

Sustentabilidade e Responsabilidade Social - Volume 7


156

Nas fases ciclo de vida, a matéria-prima, atribuído de acordo com os limites mínimos
produção e utilização são caracterizadas apresentados na Tabela 8.
como “forte” (Tabela 1), enquanto a pós-
Já a preocupação do consumidor é mediana,
utilização e descarte como “mediana”, por
com exceção do descarte, onde a
considerar o material plástico que não é
discrepância é maior e pode ser visualizada
biodegradável, porém 100% reciclável. O
na Figura 2.
indicador numérico das características foi

Figura 2. Gaps entre o produto e a preocupação do consumidor

Fonte: Adaptado de Brandalise (2008)

A Figura 2 permite realizar a última fase do baixo envolvimento do consumidor com o


modelo Vapercom, que pressupõe a definição produto e do tipo de produto. Com o baixo
das oportunidades de ações de incremento envolvimento do produto, os consumidores
ou ajustes para reduzir o gap existente, que tendem a confiar no rótulo e o alto
são: envolvimento leva os consumidores a não
observância do rótulo como fator
determinante (Atkinson & Rosenthal, 2014).
 Abordar um diálogo aberto com
consumidores e esclarecer a
utilização de certos materiais no  Adotar parcerias com organizações
produto. Reforçar sobre as potenciais de catadores e instituições para
consequências da remoção de alguns promover campanhas de
componentes. Para isso, são recolhimento e reutilização dos
necessárias estratégias de marketing resíduos do produto. Para resolver
e produção para além de exploração pontos fracos destacados na Figura 2.
do comportamento de compra, mas
as outras fases do consumo (pós-
 Futuramente a organização pode
analisar a seleção de materiais (por
utilização e descarte). Além disso,
exemplo, uso de outras opções para
pode-se direcionar ações de
substituir a garrafa pet), em uma
marketing verde para o público do
distribuição eficiente (por exemplo,
sexo feminino, considerando relação
usando menos / baixo impacto /
significativa.
embalagens reutilizáveis).

Uma forma de promover a confiança e as


As sugestões 1 e 3 corroboram com as
atitudes positivas dos consumidores é utilizar
contribuições de Lemke e Luzio (2014). É
rótulos ecológicos que fornecem explicações
importante ressaltar que os fabricantes devem
detalhadas sobre o produto e aumentam a
abordar as emoções negativas evocadas por
credibilidade. No entanto, depende do alto ou
Sustentabilidade e Responsabilidade Social - Volume 7
157

embalagens ecologicamente responsáveis e Como há indicações de que o sexo impacta


não assumir que a alternativa "verde" será no consumo ecológico e influencia no
avaliada favoravelmente, especialmente a marketing verde, foi realizada uma análise
nível emocional (Koenig-Lewis, Palmer, bidimensional da relação entre sexo e a
Dermody, & Urbye, 2014). questão “Ao comprar você se deixa
influenciar pela propaganda, pelos amigos ou
No entanto, no momento de efetivar o
pela família em relação às questões
consumo, aqueles consumidores ecológicos
ambientais?” Para analisar estatisticamente,
ocupados podem ser mais influenciados
foi aplicado o Teste de Independência,
pelos preços ou outros atributos não
considerando 5% de significância. As classes
ambientais do produto, ao invés de
adjacentes foram unidas visando não deixar
características verdes (Belk, 1975; Belk,
frequências com menos de 5 dados (Martins,
DeVinney, & Eckhardt, 2005; Atkinson &
2001).
Rosenthal, 2014).

Tabela 11. Sexo versus influência pela propaganda em relação às questões ambientais
Ao comprar você se deixa influenciar pela propaganda, pelos amigos ou pela
família em relação às questões ambientais?
Sempre e Pouquíssimas
Sexo Frequentemente Algumas vezes vezes Nunca
Feminino 6 38 15 17
Masculino 9 14 24 13
Fonte: Dados da pesquisa (2015)

O teste de independência retornou p-valor de Não significa que a empresa não deve utilizar
0,00564, portanto existe relação significativa um marketing verde, pois o estudo de Koenig-
entre a variável sexo com a influência por Lewis et al. (2014) conclui que as emoções e
propaganda ou amigos sobre questões a racionalidade dirigem o comportamento de
ambientais. compra pró-ambiental. Além disso, as
emoções são mediadoras da intenção de
compra, com um resultado diferente ao da
5 CONSIDERAÇÕES FINAIS racionalidade no processo (Koenig-Lewis et
al., 2014; Reyes-Ricon, 2010).
Dentre os resultados, ressalta-se a forte
Outros resultados em relação à renda indicam
presença da mídia no repasse de informações
que a organização tem um quadro específico
quanto às questões ambientais, e nas dúvidas
de público com faixa de renda no município
que os consumidores têm sobre a ACV, que
pesquisado, assim, a empresa pode dedicar
impacta no conjunto de questões
ações direcionadas, como, por exemplo, a
“preocupação com a ACV”, onde prevaleceu
estratégia de penetração no mercado para
mediana preocupação.
precificação do produto. A empresa também
Cabe investigar os fatores relacionados e pode centralizar alguns esforços em relação à
adotar estratégias de transmissão de preferência, que, de acordo com os dados,
informações sobre a ACV tanto na apontam para um maior consumo do chá
organização quanto por meio da mídia. Essa mate gelado sem gás (natural).
transmissão de informações deve considerar
A maioria dos consumidores pesquisados
a conclusão de Lemke e Luzio (2014), de que
possui compreensão sobre a importância do
o consumidor e a empresa devem possuir
consumo ecológico, no que diz respeito ao
uma relação de confiança, evitar o ceticismo
impacto que os produtos podem causar no
do consumidor e insatisfação com
meio ambiente, pois possui percepção
maquiagem verde e estabelecer a
ecológica, corroborando com outras
credibilidade e transparência de informações.
aplicações do modelo de Brandalise (2008).

Sustentabilidade e Responsabilidade Social - Volume 7


158

Já quanto à ACV, o potencial consumidor Ao final, destaca-se a importância em aplicar


carece de esclarecimentos. o modelo Vapercom nas organizações, pois
indicou oportunidades de ações para
Pode-se dizer que o produto tem mais
estimular o consumo consciente do produto
características ecologicamente corretas (em
pesquisado. Foi possível contribuir com
cada etapa da ACV) do que o consumidor
informações ao fabricante por avaliar o fator
percebe. O público classificou-se com
emocional, a confiança do consumidor
potencial possibilidade de tornar-se um
ecológico, incluir questões específicas sobre
consumidor ecológico, possibilitando
o produto e aplicar testes estatísticos em
desenvolver ações de marketing informativas
amostras probabilísticas. Quanto ao modelo
para estimular a compra do produto e até
Vapercom, ocorreu evolução em relação aos
adotar a rotulagem ambiental dentro das
estudos anteriores, ao adaptar o modelo à
normas ISO.
realidade do produto a ser analisado,
A amostra de 138 potenciais consumidores do permitindo amplas abordagens gerenciais e
produto permitiu realizar comparações e teóricas.
apontamentos sobre a influência das
Quanto às limitações do estudo, é relevante
mulheres no comportamento ambientalmente
ressaltar que a pesquisa foi aplicada a um
correto (Romeiro et al., 2011); o fator
público específico e trata da relação com um
emocional envolvido e os impactos nas
único produto, portanto, os resultados não
organizações e nos produtos (Koenig-Lewis et
podem ser generalizados. Pesquisas futuras
al., 2014; Reyes-Ricon, 2010); a reciclagem
podem ser realizadas com públicos
dos produtos e a percepção do consumidor
diferenciados, considerando todas as
(Castanho et al., 2006); o discurso e o
matérias-primas em todo o ciclo de vida, e
comportamento ambientalmente responsável
outras análises estatísticas bidimensionais
(Peixoto, & Pereira, 2013); a influência de
podem ser efetivadas para ampliar a
selos ambientais em relação ao consumo
discussão entre a percepção de diferentes
(Atkinson, & Rosenthal, 2014); além do design
grupos de consumidores de diferentes
do produto e da disposição de consumidores
produtos.
verdes para pagar mais (Bertolini et al., 2013;
Lemke, & Luzio, 2014).

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Sustentabilidade e Responsabilidade Social - Volume 7
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Sustentabilidade e Responsabilidade Social - Volume 7


A AGRICULTURA PERMANENTE COMO MEIO DE
HARMONIA ENTRE O CICLO DA NATUREZA E O SER
HUMANO

Getulio Kazue Akabane


José Roberto Kassai
Antônio César Galhardi
João Almeida Santos

Resumo: O espírito transformacional da evolução nos fez como seres humanos que
somos que moldam tanto as paisagens que habitamos e o universo do pensamento
que nos entretêm; ele se move ao longo de tudo o que experimentamos,
observamos, refletimos e nos envolvemos. Esta pesquisa no formato de caso
exploratório foi realizada numa propriedade agrícola na Bolívia por meio do projeto
de investigação usado para detectar as percepções, opiniões e sentimentos dos
participantes com base em suas experiências com a agricultura permanente ao
longo de décadas. Procurou-se obter uma compreensão aprofundada das
essências do fenômeno central que segue o guia pedagógico modificado do
princípio da permacultura de Brown (2009) que descreve as propriedades
essenciais da agricultura permanente. Como reflexões resultantes, a transformação
fundamental do sistema agrícola exige uma mudança de perspectiva cultural e
consciência em torno das inter-relações humanas com o mundo natural e a
industrial. Isso também desafia as pessoas a agirem em suas comunidades para
adotar práticas agrícolas sustentáveis que atendam às necessidades humanas
numa escala prática capazes de transformar a forma como vemos a nossa relação
com a terra e uns com outros. E este caso de sucesso com desempenhos
favoráveis, sobretudo nos aspectos econômicos, mostra um caminho de transição
para modelos que contemplem os aspectos sociais, ambientais e de boa
governança.

Palavras-chave: agricultura permanente, sustentabilidade, ecossistema, ciclos


naturais

Sustentabilidade e Responsabilidade Social - Volume 7


162

1. INTRODUÇÃO habitamos e o universo do pensamento que


nos entretêm; ele se move ao longo de tudo o
Neste século XXI, todos os seres vivos do que experimentamos, observamos, refletimos,
mundo herdam de forma sem precedentes, e nos envolvemos.
grandes questões como catástrofe ecológica,
A qualidade é a consequência dessa
extinção das espécies, a destruição do
transformação, no entanto, requerem em
habitat natural, a polução do ar e das bacias
grande parte de orientação e
hidrográficas, o esgotamento dos recursos
redirecionamento. Pois, o futuro da vida na
naturais e o desaparecimento de regiões
Terra não reage de forma equilibrada neste
verdadeiramente selvagens (NABHAN e
balanço contábil.
TRIMBLE 1994; (RIETBERGEN, 2008;
WILSON, 2002). Berry (1977) alertou que as inúmeras
realizações das industriais modernas citadas
A maior parte dessa desarmonia decorre da
como grande triunfo da humanidade, tais
equivocada interação humana com os
como a propagação das culturas alimentares
sistemas orgânicos e o ciclo da natureza
em escala industrial, a distribuição global de
(MERCHANT, 2005; METZNER, 1999;
commodities são fatores que contribuem na
SHELDRAKE, 1994).
direção da sobrevivência dos seres
Enquanto o século XX foi caracterizado pelo orgânicos. Completa Wilson (2002), que o
considerável avanço nas áreas de exploração momento ecológico que vivemos é
científica, no crescimento tecnológico e consequência da hiperindustrialização do ser
industrial e a democratização dos direitos humano, pois o mesmo sacou da natureza os
humanos também estabeleceu uma série sem recursos não renováveis acelerando o
precedentes do esgotamento de recursos desaparecimento de ecossistemas inteiros e a
vivos do planeta terra (WILSON, 2002). extinção de milhares de espécies de milhões
de anos de idade.
Swimme e Berry (1994, p. 17) destacam que a
herança fundamental dos seres humanos é Lovelock (2000b) pesquisou as habilidades
uma história incorporada de transformação, notáveis que o planeta Terra tem para auto
desde o "Big Bang", o nascimento do universo ajustes criando as condições propícias para a
onde e a nossa própria existência é uma série vida. Capacidades estes de auto regulação
acumulada de momentos num grande da atmosfera, temperaturas da superfície
desdobramento da transformação criativa. A terrestre, ecossistemas, entre outros.
transformação é talvez o tema mais
Pode se assim considerar a capacidade da
consistente em termos de ancestralidade
humanidade como uma força global
comum entre a história do cosmos onde a
semelhante para a auto regulação planetária.
herança evolutiva dos seres orgânicos
Dadas às certas circunstâncias e orientação,
caracterizada por fisiológico extraordinário e a
não existe razão pela qual a espécie humana
diversidade biológica.
não poder desempenhar um papel na cura do
Portanto, não é surpreendente que uma das planeta como um todo.
tendências humanas mais básicas é a
Ou seja, se o planeta Terra como um
tentativa de compreender esta natureza da
organismo capaz em promulgar uma resposta
transformação bem como a transformação da
imune é bastante concebível em incluir a
própria natureza.
espécie humana como parte desta reação.
Mudança das estações, a experimentação
Hawken (2007) lembra que a resposta
científica, oscilações entre o calor e o frio, a
humana à cura planetária já está em curso.
criação de fogo, a confecção e a
Novas estratégias estão surgindo a partir dos
implementação de ferramentas, celebrando
sistemas de governo, da sociedade civil,
as alegrias da vida, enquanto luto pelas
agricultura e indústria.
perdas dos mortos, ficar doente, o
metabolismo em nosso próprio corpo humano, Neste sentido, a presente pesquisa tem como
a maturação física e psicológica, todos propósito de explorar por meio de estudo de
requerem a participação íntima com a caso, o conceito da cultura permanente para
transformação. O espírito transformacional da apoiar os impulsos criativos da vida civilizada
evolução nos fez como seres humanos que no sentido de transformar os detritos da
somos que moldam tanto as paisagens que destruição humana em uma representação
Sustentabilidade e Responsabilidade Social - Volume 7
163

funcional. Trata se da chácara Asano, uma Estes apelos de "produção local"


área de 4ooom², localizado no município de proporcionam aos consumidores a criarem
Samaipata, capital da província de Flórida no uma imagem do sistema alimentar próximo e
departamento de Santa Cruz de la Sierra na familiar (EDWARDS-JONES et al., 2008).
Bolívia. Tem como característica de um agro
De fato, as agriculturas regenerativas lutam
ecossistema tradicional construídos pela
por um sistema de circuito fechado onde a
agricultura camponesa que guardam os
cultura em si e a mão de obra são
ecossistemas naturais dos lugares e que
provenientes de dentro do sistema agrícola e
possui um conjunto de relações sociais e
da comunidade em oposição ao modelo
econômicas com a função de gerar produtos
industrial que é um sistema aberto que exige
para os seres humanos (GLIESSMAN, 2000).
a importação de produtos químicos, sementes
Pois, para Berry (1988), a humanidade exige e combustíveis fósseis fora do sistema
uma reorientação completa do compromisso agrícola e da comunidade (PEARSON, 2007).
de transformar num mundo industrial
Estes aspectos implicam no desenvolvimento
maravilhoso por meio de estratégias e táticas
de sistemas agrícolas e sociais que realmente
num esforço mútuo de substituir dois dos
enriquecem e nutrem a terra (solo, as bacias
maiores mitos da ordem industrial moderna: a
hidrográficas, flora, fauna e a saúde geral do
conquista da natureza como objeto único e o
ecossistema) e as comunidades adjacentes
falso crescimento industrial infinito para a qual
(economia local, acesso equitativo a uma
atirou em si, com suas ideias de
alimentação saudável, a ligação com a
desenvolvimento e progresso.
natureza.)
Desta forma, apregoa que os seres humanos
possam afiar suas ferramentas e focar em
habilidades físicas para repensar, re- 2. REFERENCIAL TEÓRICO
contextualizar e reestruturar os sistemas com
base nas suas histórias culturais e visões 2.1 DEFINIÇÃO DA NATUREZA
filosóficas que orientam as mais profundas
percepções como os sonhos, visões do futuro Sheldrake (1994) oferece o ponto de partida
e os relacionamentos no presente, para apropriado, apontando para a etimologia da
capacitar o mito ecológico mais poderoso à palavra, pois, em línguas europeias são
visão sedutora e comportamento viciante da femininas; physis em grego, natura em latim,
sociedade industrial. la nature em francês, die natur em alemão. Na
palavra latina significa literalmente
Os historiadores avaliam o grau de
"nascimento". A palavra grega physis vem da
degradação ambiental seja pelo retorno
raiz phu-cujo significado principal é também
rápido dos investimentos na produção
associado com o nascimento. Assim, a
agrícola, pelo crescimento da densidade
palavra física advém da física e como a
populacional e as gradativas restrições das
natureza é natural, têm suas origens no
áreas de plantio e oportunidades de trabalho.
processo de maternidade. Sheldrake (1994)
De fato, com o continuo crescimento
reconhece assim como inúmeros outros que
populacional e a crescente dependência pela
procuram definição adequada para palavras
elevada produtividade das culturas agrícolas
cujos limites podem ser tão onipresente e ao
contribuíram rapidamente para o crescimento
mesmo tempo tão ilusória quanto à de Deus
dos impactos ambientais negativos. Assim o
ou do Divino, que a definição da natureza é
crescimento do desejo social na redução dos
multivalente.
passivos ambientais é proporcional à
elevação do nível de consciência pelos Dentro da frase natureza pode definir
fatores envolvidos (CAPUTO, NAYAGA e substância material, em outro, "caráter inato
SCARPA, 2013). ou disposição”, como na palavra natureza
humana. No entanto, Sheldrake (1994) ainda
Born e Purcell (2006) destacam os
explica que a natureza deve ser entendida
movimentos de localização de sistemas
como o poder criativo e regulador em
alimentares com foco em fatores como
operação no mundo físico, a causa imediata
frescor, origem, segurança no cultivo, valor
de todos os seus fenômenos. E, portanto, a
nutricional e a redução no tempo e na
natureza vem a significar o mundo natural ou
distância percorrida são elementos de
físico como um todo. Quando a natureza,
redução do impacto ambiental do produto.
Sustentabilidade e Responsabilidade Social - Volume 7
164

nesse sentido, é personificada, ela é a Mãe 2.2. AGRICULTURA CONVENCIONAL E A


Natureza, um aspecto da Grande Mãe, a fonte
SUSTENTÁVEL
e sustentadora de toda a vida, e o ventre para
quais todas as vidas retornam.
Hansen (1996) destaca a agricultura
Neste sentido, a natureza humana de convencional caracterizada por monoculturas
comportamentos, emoções, sonhos, visões e em grande escala de capital intensivo e uso
aspirações são parte de um todo que é a extensivo de recursos químicos como
natureza, ou seja, o mundo natural. Quanto à fertilizantes, herbicidas e pesticidas enquanto
natureza selvagem refere se àqueles vestígios que para Ikerd (1993), a agricultura
muito raros, fugaz e saudável, inteiro, sustentável é caracterizada por pequenas
extensões sem mácula de terras que ainda explorações agrícolas que dependem da
não foram objetos de atenções da indústria gestão dos recursos internos que limita a
moderna. Isso não quer dizer que a natureza escala comercial no sentido de reduzir os
selvagem traduz a ausência de seres impactos ecológicos negativos do manuseio
humanos. Certamente existem lugares da terra.
selvagens onde a voz humana é raramente
Embora as diferenças de tecnologias
ouvida, mas o mundo já conheceu por meio
aplicadas entre a agricultura convencional e
de relações como a pastoral, indígenas e de
sustentável são significativas, onde a principal
outras formas harmoniosas entre a terra e
diferença entre as duas abordagens resultam
humanos (ANDERSON, 2005; BERKES, 1999).
nas diferenças na filosofia agrícola (Ikerd,
As florestas fornecem serviços ecossistêmicos 1993), pois:
essenciais para o ser humano, como saúde e
serviços sociais, controle de moléstias, apoio
ao estilo de vida proporcionando locais e “a agricultura convencional é,
postos de trabalho, suprimento de água fundamentalmente baseada num modelo
através da proteção de bacias hidrográficas, de desenvolvimento industrial que
regulação do fluxo e geração da precipitação enxergam as fazendas como fábricas e
d’água, fornecimento de alimentos por meio considera campos, plantas e animais,
de produtos naturais, estímulo na ciclagem de como unidades de produção”.
nutrientes e segurança climática (MEA, 2005).

Figura 1: Entradas e saídas no campo da agricultura insutrial

Fonte: Reddy (2010)

O objetivo do desenvolvimento industrial é modelo de desenvolvimento que considera as


aumentar o bem estar humano, aumentando a unidades de produção como organismos que
produção de bens materiais e serviços... decompõem em muitos sub organismos
Enquanto que a agricultura sustentável é complexos e inter-relacionados..as pessoas
baseada num paradigma holístico ou no

Sustentabilidade e Responsabilidade Social - Volume 7


165

são vistas como parte dos organismos ou contínuo das necessidades básicas atuais
sistemas na qual derivam o seu bem-estar. sem dizimar o ambiente para as gerações
futuras. O ambiente econômico e tecnológico
Por outro lado, a agricultura sustentável tem
refere-se a viabilidade e produção econômica
sido descrito como um termo abrangente, um
das atividades agrícolas. Retornos
guarda-chuva com várias abordagens
econômicos precisam ser suficientes para
incluindo a agricultura orgânica, agricultura
assegurar a continuidade dos produtos
ecológica, agricultura regenerativa,
agrícolas.
agroecologia e a agricultura permanente
(permacultura) (HANSEN, 1996). Yunlong e Smit (1994) observam o enfoque
biofísico como sócio politicamente aceitável, e
O quadro da agricultura sustentável incorpora
tecnicamente e economicamente viável para
valores sociais como processo de
que a agricultura seja sustentável (p. 302).
descentralização, a integração da
comunidade, a harmonia com a natureza, a Ikerd (1993) também discute a dimensão
autossuficiência e a preservação da cultura social e propõe que a agricultura sustentável
agrária (HANSEN, 1996). seja definida pela sua capacidade de
conservar os recursos, proteger o meio
Yunlong e Smit (1994) descrevem a
ambiente, produzir de forma eficiente e
agricultura sustentável como um processo
melhorar a qualidade de vida dos agricultores
complexo que ocorre num quadro ambiental
e as sociedades em que nela compartilham.
tríplice com base no ambiente biofísico, o
ambiente sócio-político e o ambiente Os sistemas que não conseguem conservar e
econômico e tecnológico. proteger a sua base de recursos degrada a
produtividade e eventualmente perde a
O ambiente biofísico refere-se ao mundo
capacidade de produzir.
natural dentro do qual a agricultura opera, e
está fundamentada na necessidade de Desta forma, os sistemas que deixam de
manter relações ecológicas saudáveis. proteger o meio ambiente, eventualmente,
produzir mais mal do que bem e perdem a
A sustentabilidade ecológica exige a
sua utilidade social e, portanto, não são
preservação de condições físicas e à
socialmente sustentáveis. Sistemas agrícolas
proteção da diversidade biológica. O
que não proporcionam abastecimentos
ambiente sócio-político e tecnológico refere-
adequados e seguro, alimentos saudáveis a
se ao papel que as relações humanas e da
custos razoáveis e de outra forma melhorar a
cultura têm em influenciar a forma como a
qualidade de vida do ser humano não são
agricultura é praticada.
politicamente sustentáveis.
Deste modo, a dimensão social da
sustentabilidade depende do fornecimento

Figura 2: Entradas e saídas no campo da agricultura sustentável

Fonte: Reddy (2010)

Sustentabilidade e Responsabilidade Social - Volume 7


166

É claro que a agricultura sustentável vai além tecnológico) para se assemelhar a padrões
dos limites da agronomia, incorporando saudáveis de relações com a natureza
processos sociais, políticos e econômicos a (MOLLISION, 1988; HEMENWAY, 2009).
própria ciência da produção de alimentos.
A principal preocupação é criar sistemas
Buttel (1993) descreve a incorporação da
inteiros para cuidar da terra e preservar para
disciplina das ciências sociais como a
a humanidade com formas sustentáveis para
sociologia da sustentabilidade agrícola.
assegurar o bem-estar dos seus filhos e da
Assim, os sociólogos e outros cientistas
colheita, enquanto os eventuais excedentes
sociais têm desempenhado um papel
de energia retornando de volta para a saúde
significativo na "emergência,
do sistema planetário (MOLLISON e
institucionalização e concepção de agricultura
HOLMGREN, 1978).
sustentável".
Por esta definição, design da permacultura é
uma ciência ecológica. Isto é, Mollison (1988)
2.3 AGRICULTURA PERMANENTE escreve como:
"um sistema de montagem conceitual,
Certamente, não há nada permanente na
material, e componentes estratégicos em um
agricultura, uma ciência baseada em ciclos e
padrão que funciona para beneficiar a vida
nas mudanças das estações.
em todas as suas formas".
Mollison (1988) destaca a agricultura
Devido à sua dimensão ética, a permacultura
permanente como uma associação da ciência
além da parceria com a natureza também
e a prática com base nas observações e
pode ser considerada como uma vertente do
mimetismo das relações ecológicas saudáveis
ambientalismo (Mollison, 1988) e uma
e padrões da natureza formando um sistema
resposta direta à agricultura moderna e a
amplo de abordagem ética e design
indústria da dominação. Pois, trabalhando
ecológico. Ela atua como um tradutor entre
contra a natureza, esgotando os recursos
muitas disciplinas, e reúne informações de
naturais com imprudente abandono posterior
diversas áreas. Pode ser descrito como um
e o envenenamento dos ecossistemas com
quadro ou padrão em que muitas formas de
resíduos tóxicos restam como subproduto da
conhecimento são montadas em relação a
civilização moderna (CAPRA, 1982;
uns aos outros. A permacultura é uma síntese
MERCHANT, 2005; MOLLISON, 1988;
de diferentes disciplinas.
WILSON, 2002). Desde que a permacultura
Bell (2005) oferece uma definição mais está enraizada nas culturas e ecossistemas
abrangente como sendo “um projeto locais, a abordagem pode ser aplicada de
consciente e manutenção da agricultura como forma adequada em todas as regiões do
sistemas produtivos e preservando a globo.
diversidade, estabilidade e resiliência sobre
ecossistemas naturais”. É a integração
harmoniosa da paisagem com pessoas que 2.4 PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS
presam seus alimentos, energia, abrigo e
outros materiais e não materiais de forma Esta pesquisa no formato de estudo de caso
sustentável. exploratório trata do projeto de investigação
usado para explorar as percepções, opiniões
Para Jacke e Toensmeier (2005) é uma
e sentimentos dos participantes com base em
policultura perene de plantas polivalentes, ou
suas experiências sobre um determinado
seja, uma arte de aprender e imitar um dos
fenômeno. Procura explorar as experiências
mais saudáveis dos ecossistemas da Terra,
de pessoas no sentido de obter uma
que são as florestas maduras, onde uma
compreensão aprofundada das essências do
diversidade de espécies-microbianas, animal
fenômeno central (YIN, 2014).
e vegetal que cooperam para formar uma
rede interligada de resiliência e harmonia No presente caso, a pesquisa fenomenológica
ecológica. torna se apropriada para explorar a harmonia
proporcionada pela agricultura permanente
A permacultura centra-se na transformação
junto à natureza e ao ser humano. Pois, o
dos sistemas humanos (agrícola, social e
problema de pesquisa dita a técnica
Sustentabilidade e Responsabilidade Social - Volume 7
167

apropriada para o estudo (STRAUSS E com o ciclo da natureza e o ser humano é


CORBIN, 1998). Esta premissa é suportada uma busca de sentido.
por pesquisadores na afirmação das
Desta forma, a presente pesquisa segue o
necessidades situacionais em conduzir a
guia pedagógico modificado do princípio da
escolha da investigação; se a abordagem é
permacultura de Brown (2009) que combina
método qualitativo, quantitativa, ou mista
com seus aplicativos de design como segue:
(HITCHCOCK, NASTASI e SUMMERVILLE,
2010; JOHNSON, ONWUEGBUZIE e TURNER,
2007).
Princípio 1-observar e interagir: A sua base é
Assim, o método de pesquisa qualitativa é a cultura baseada na prática da interação
relevante para "explorar e a compreender os com a natureza de quando interferir ou não
significados dos atributos individuais ou de conforme a existência de limitações e
grupos num problema social ou humano" abundâncias do ecossistema para atender às
(CRESWELL, 2009, p. 4). O método é mais nossas necessidades. A observação prática
apropriado para um problema orientado em inclui a contemplação, a mediação,
descobrir os meandros de um fenômeno fotossíntese, caminhadas e ecoturismos e
central (CRESWELL, 2008; STRAUSS e observação do impacto dos ciclos do globo
CORBIN, 1998). Desta forma, a abordagem que afetam a cultura.
qualitativa foi apropriada para o estudo como
meio de conduzir ao objetivo de explorar o
conceito da cultura permanente para apoiar Princípio 2- Captura e armazenamento de
os impulsos criativos da vida civilizada no energia: Toda a energia proveniente do sol e
sentido de transformar os detritos da os desperdícios podem ser aproveitados,
destruição humana em uma representação armazenadas e devolvidos o excedente para
funcional. o sistema conforme necessário. Outra forma é
o aproveitamento da queda d’água e
Desta forma, a abordagem metodológica
armazená-lo como potencial de energia
adotada é a "interpretativa” ou "hermenêutica",
cinética, enquanto absorve a luz solar e
método este que pode trabalhar no espaço
armazená-lo na forma de calor, o que cria um
delicado entre o "humano" e o "natural", e que
microclima adicional.
trata de divulgar aspectos da relação homem-
natureza em que a ciência normal
simplesmente não pode contemplar na sua
Princípio 3- Rendimento obtido: Trata se da
totalidade.
soma total de energia excedente produzido,
armazenado, conservado, reutilizado ou
convertidos pelo sistema. Os ecossistemas
3. METODOLOGIA
criados e cultivados produzem alimentos,
abrigos, fibras e culturas medicinais Cada
Como o primeiro a distinguir as ciências
projeto da permacultura deve produzir
humanas das naturais, van Manen (1990) e
rendimentos múltiplos e abundantes. Assim,
Dilthey (1883, 1988) afirmaram que os temas
uma produção com abundância numa
do pensamento, de acordo com a sua lei
monocultura pode ser compartilhada com
infalível, atribui predicados (através do qual
várias culturas para se obter rendimento maior
todo o conhecimento tem seu lugar) são
numa mesma área de terra.
elementos, que as ciências naturais chegam
apenas hipoteticamente para dividir com a
realidade externa, rompendo e desmontando
Princípio 4-Auto-regulação e feedback:
coisas considerando que as ciências
relaciona se com questões de escala,
humanas encontram se como unidades reais
começando em pequena escala, recebendo
como experiência dos fatos internos.
feedback para se redesenhar gradativamente.
O método fenomenológico de entrevista visa As mudanças gradativas com ciclos de
descobrir e descrever as experiências de vida feedback positivo e negativo minimiza se os
ou processos dos experimentos humanos desafios difíceis. No caso dos animais
(van MANEN, 2002). O estudo da domésticos que se alimentam de vegetais
harmonização entre a agricultura permanente fertilizam a terra que fornecem alimentos para
voadores predadores.
Sustentabilidade e Responsabilidade Social - Volume 7
168

Princípio 5- Valorização dos recursos e elementos isolados não contribui com a saúde
serviços renováveis: o uso dos recursos que do sistema, a menos que os elementos estão
estão disponíveis localmente estimula a conectados entre si. É a diversidade das
capacidade de regeneração em curtos conexões que importa, e não apenas a
períodos de tempo. Pois, o uso de madeiras diversidade crua de elementos.
disponíveis localmente para estruturas tem a
sua vida útil na mesma proporção do seu
próprio ciclo de regeneração. Princípio 11-Uso das bordas e valorização
das margens: a borda de uma floresta possui
árvores mais robustas, e os pântanos são
Princípio 6- Produção sem resíduos: Cada ricos em biodiversidade. Desta forma, as
subproduto de um elemento será utilizado arestas entre dois sistemas têm maior
pela concepção seguinte. O biodigestor de variedade de espécies e maior produtividade
metano capta o gás metano gerado dos do que qualquer sistema isolado. O projeto
resíduos humanos que converte em gás que deve prever aumentar a borda entre dois
abastece os fogões domésticos. sistemas.

Princípio 7- Design dos detalhes a partir de Princípio 12- Respostas criativas à mudança:
padrões: Avaliação de todos os materiais e adoção do critério de mudanças esperadas
energias disponíveis antes da etapa de bem como a flexibilidade para responder a
planejamento do projeto. Requer análise dos mudanças não previstas visando a
detalhes da paisagem e da vegetação antes estabilidade do sistema. Ambientes em que
da intervenção humana que permite os animais e plantas se desenvolvem em
determinar o estado de saúde do solo e da condições de baixa energia ou árvores que se
própria cultura. curvam em áreas onde ocorrem ventos
intensos ou inundações.
Assim, o objetivo da fenomenologia é
Princípio 8-Integração à segregação: sistema
esclarecer os elementos essenciais de
maduro da natureza possui relações mútuas e
experiências dos participantes sem
simbióticas entre todos seus elementos do
necessariamente explicá-los. A investigação
sistema onde os designers de permacultura
fenomenológica é naturalmente mental e não
trabalham no sentido de criar relações de
factual. Não está, portanto, preocupado em
cooperação em todos os aspectos.
descrever todas as propriedades de alguma
coisa em particular, mas para descobrir as
propriedades essenciais sobre algo
Princípio 9-Adoção de soluções simples e
(CROWELL, 2009, p. 10).
lentas: o sistema deve ser projetado para
executar funções em menor escala que seja No entanto, a inclinação natural da
pratico e eficiente no consumo de energia. A fenomenologia está longe do desenvolvimento
manipulação de sistemas em pequenas da teoria ou em direção a uma compreensão
escalas permite mudanças mensuráveis e específica, mas identificar evidências através
evita falhas pontuais onde o projeto de forma das experiências vividas dos participantes.
incremental começa a partir de um núcleo e
O método de entrevista de pesquisa
se externaliza gradativamente.
qualitativa foi apropriado porque foi voltado
Assim pode se começar ocupando cinco por para descrever e fornecer sobre temas
cento de terra com plantas perenes com centrais e experiências práticas dos
acréscimo anual cinco por cento levando a participantes. O conceito foi em linha com a
uma sobreposição completa da terra em 10 tarefa geral, que foi compreender respostas
anos. dos entrevistados (GANZ, 2002). O método de
entrevista é um dos meios mais eficazes de
captar as histórias e experiências dos
Princípio 10- Diversidade do valor: quanto participantes onde a informação é revelada
maior a diversidade dos elementos no em profundidade durante todo o processo.
sistema, maior será a diversificados dos
rendimentos. No entanto, a diversidade dos
Sustentabilidade e Responsabilidade Social - Volume 7
169

3.1 POPULAÇÃO E AMOSTRA A técnica de auto-reflexão foi utilizado na


coleta de dados, como um prelúdio para o
A amostra selecionada para o estudo foi contato inicial com os participantes, como
contatada através de e-mail bem como em forma de preparação para entrevistas, e como
contatos pessoais com o gestor e um passo na análise dos dados
representantes operacionais recrutados por (MOUSTAKAS, 1994; POLKINGHORNE,
meio de amostragem não probabilística 1994).
intencional em que os funcionários (total de
Senge (1994) também sugeriu as mesmas
cinco) foram convidados verbalmente.
ideias como meio de preparar, analisar e
Tamanho pequeno de amostras é apropriado
sintetizar informações. Jacques (1996) sugere
para a pesquisa qualitativa como metodologia
a reformulação para descrever uma forma de
de investigação por causa da proximidade
refletir sobre um conceito, uma questão ou o
que existe entre o pesquisador e a população.
comportamento para definir ideia ou a
De fato, na pesquisa fenomenológica
situação em diferentes contextos. Junto com
depende quase exclusivamente de entrevistas
entrevistas, observou se ainda o tom, a
longas (no caso foram três dias de duração)
expressão corporal, atitude e outras nuances
com participantes da amostra
de comunicação que foram utilizados durante
cuidadosamente selecionados (LEEDY e
a prática o conceito de escalonamento
ORMROD, 2010, p. 141).
(epoché), e deixando de lado eventuais
O método fenomenológico coleta informações preconceitos. A técnica de escalonamento
de apenas o grupo que experimentou o ajuda o pesquisador permanecer fiel aos
fenômeno. Assim, o processo longo de participantes, para relatar livre e abertamente
entrevista torna impraticável ter um grande suas experiências vividas para retratar suas
tamanho da amostra, pois, tamanhos de verdades de forma fidedigna.
amostras menores são mais apropriados para
No processo de investigação narrativa,
investigações de pesquisa mais específicos.
Creswell (1998) recomenda o uso de
A amostragem também é importante para a
protocolos numa planilha preparada de dados
investigação interpretativa, porque muitos
e informações obtidas durante a entrevista e
estudos qualitativos, se não a maioria,
observação. Como apoio na identificação dos
envolvem generalizações (CRESWELL, 2011).
problemas de campo, o pesquisador utilizou
Os participantes tiveram instruções verbais e
um quadro como técnica de diário reflexivo
escritas sobre o estudo, a explicação dos
influenciado por CRESWELL (1998), SCHÖN
protocolos de confidencialidade e outros
(1987), E JOHNS (1994). O diário reflexivo tem
materiais necessários para garantir uma
um quadro claro para guiar as reflexões e um
participação ativa.
artefato que permite a análise crítica em
profundidade incluindo seções como
preparação pré-reflexiva, reflexão,
3.2 COLETA DE DADOS
aprendizagem e ação de aprender (WALL,
GLENN, MITCHINSON e POOLE, 2004).
A hora e o dia para as entrevistas foram
Mediante o apoio em técnica de notas e
programados conforme conveniência dos
diários para identificar noções e expectativas
participantes (NADEN e SAETEREN, 2006). As
pré-concebidas (GARZA, 2007; MACNEE e
entrevistas foram realizadas localmente, livres
MCCABE, 2008).
da influência de alimentos ou na formalidade
dos escritórios. Os participantes tiveram
tempo suficiente para um relato detalhado de
4. APRESENTAÇÃO E ANÁLISE DOS
suas experiências. As entrevistas terminaram
quando os participantes indicaram que não RESULTADOS
tinha mais nada a acrescentar. As diferenças
individuais dos participantes influíram no Os dados coletados sugerem que os
tempo, no detalhe e na intensidade da praticantes possuem uma compreensão
entrevista durante os três dias de intensa profunda da agricultura natural e da
atuação. Os participantes tiveram a opção de permacultura relacionadas com os aspectos
rever o processo de entrevista e de follow up, técnicos bem como uma apreciação profunda
de esclarecimento, e conclusão. do “estilo de vida” filosófica bem como uma
compreensão holística da agricultura além
Sustentabilidade e Responsabilidade Social - Volume 7
170

dos aprendizados técnicos específicos com base em experiências.

Quadro 1: Princípio da permacultura


Princípios Sumário das respostas
Princípio 1- Observar e interagir - passo muito mais tempo cultivando a minha família
de forma humana e suas necessidades do o solo
que nos proporcionam os nutrientes.
- a gestão dos espaços vazios do solo cuja
superfície está coberta por capins e ervas daninhas
fixadoras de nitrogênio no solo que favorecem o
desenvolvimento de minhocas e micro-organismos
que fertilizam o solo proporcionando cultivar a
harmonia no subsolo da terra.
Henri Bortoft (1996) escreve sobre as dificuldades na - o projeto paisagem que é alocada para mão-de-
compreensão que vem do hábito de longa data de ver obra intensiva mostra sinais evidentes da
as c