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Editora Poisson

Sustentabilidade e Responsabilidade Social


em Foco
Volume 10

1ª Edição

Belo Horizonte
Poisson
2018
Editor Chefe: Dr. Darly Fernando Andrade

Conselho Editorial
Dr. Antônio Artur de Souza – Universidade Federal de Minas Gerais
Dra. Cacilda Nacur Lorentz – Universidade do Estado de Minas Gerais
Dr. José Eduardo Ferreira Lopes – Universidade Federal de Uberlândia
Dr. Otaviano Francisco Neves – Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais
Dr. Luiz Cláudio de Lima – Universidade FUMEC
Dr. Nelson Ferreira Filho – Faculdades Kennedy

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)


S587s
Sustentabilidade e Responsabilidade Social
em Foco – Volume 10/
Organização Editora Poisson – Belo
Horizonte - MG : Poisson, 2018
257pp

Formato: PDF
ISBN: 978-85-93729-84-3
DOI: 10.5935/978-85-93729-84-3.2018B001

Modo de acesso: World Wide Web


Inclui bibliografia

1. Gestão 2. Sustentabilidade. 3.
Responsabilidade Social I. Título

CDD-658

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Sumário
Capítulo 1: Avaliação Preliminar das Modificações no Plano Diretor Urbano e
Ambiental do Município de Manaus/AM. Estudo de Caso: Reserva Florestal
Adolpho Ducke ..............................................................................................................................
7
Caroline Guarim Sena Geraldini, Danilo Soeiro de Sousa Menezes, Luiza Regina Ramiro de
Carvalho, Reginelly Medeiros Gomes, Vanessa Letícia dos Santos

Capítulo 2: Análise da viabilidade técnica e econômica para o uso de


biodigestores em organização militar criadora de eqüinos levando em
consideração os créditos de carbono...........................................................................................
19
Romero de Albuquerque Maranhão, Norberto Stori

Capítulo 3: “Quem não se comunica se trumbica!”: Comunicação,


Treinamento e Gestão Ambiental em Organização Militar do Estado de São
Paulo..............................................................................................................................................
32
Romero de Albuquerque Maranhão, Norberto Stori

Capítulo 4: Desenvolvimento sustentável e responsabilidade socioambiental


nas forças armadas: Um estudo na marinha do Brasil .................................................................
41

Romero de Albuquerque Maranhão, Norberto Stori

Capítulo 5: Gestão de resíduos de serviço de saúde: Um estudo de caso na


construção do estaleiro e base naval da marinha em Itaguaí.......................................................
52
Romero de Albuquerque Maranhão, Norberto Stori

Capítulo 6: Violência doméstica e as implicações na saúde física e


emocional de mulheres: inferências de enfermagem ...................................................................
61
Ana Cláudia Ribeiro Paiva, Vaneska Ribeiro Perfeito Santos, Sandra Mara dos Santos

Capítulo 7: Logística Reversa de Pneus Inservíveis: um Sinal de Consciência


Socioambiental ou uma Estratégia Econômica? ...........................................................................
72
Luís Carlos de Andrade Silva, Antônio Lisboa da Silva, Elvia Florencio Torres Ximenes,
Liliane Araújo Pinto, Tales Antão de Alencar Carvalho, Cléverson Vasconcelos da Nóbrega
Sumário
Capítulo 8: Responsabilidade Social como estratégia de relacionamento
com o colaborador: Um estudo à luz da percepção da gerência de
recursos humanos. ...............................................................................................
87
Ana Valéria Vargas Pontes, Daiane Souza do Vale Carneiro, Ingrid de Oliveira, Marcelle
Rosso Ferreira, Tatiane Dias da Cunha Vieira

Capítulo 9: A vila autódromo, seu histórico de luta e remoções. .........................


98
Moyses Jaime Zeitune, Lincoln de Lima Faria, Guilherme Faria Souza Mussi de Andrade,
Joás Lessa Martins

Capítulo 10: Logística sustentável: a utilização de biodiesel na operação


de uma rede de restaurantes fast food ................................................................
104
Agostinho Augusto Figueira, Beatriz Monica Schuchmann, Marcos Roberto Buri, Ranulfo
Soares da Fonseca Junior, Rosa Maria Maia de Oliveira

Capítulo 11: Os desafios da gestão do terceiro setor: Um estudo de caso


da Instituição Eunice Weaver (Educandário Carlos Chagas)...............................
115
Aline Cristina de Oliveira Souza, Ana Valeria Vargas Pontes, Juliana Maioli Laval
Bernardo, Luciana Novaes Vieira Ferreira

Capítulo 12: Ranking do saneamento do Médio Paraíba do Sul ..........................


126
Lucas Pereira de Almeida, Lunara de Andrade Silva, Ana Paula da Silva Souza Costa,
Juliana Gonçalves Fernandes

Capítulo 13: A eficácia da logística reversa na cadeia de lâmpadas


fluorescentes: Um estudo na região do Vale do Paraíba .....................................
135
Henrique Martins Galvão, Camila de Paula Conrado Rosa, Juliana Vieira Braz, Thais
Eugênio de Moraes, Paládia de Oliveira Romeiro da Silva

Capítulo 14: Determinantes da Divulgação Voluntária do Balanço Social


no Brasil ................................................................................................................
149
Dilciléria da Rosa de Oliveira Joyce Gonçalves Altaf
Sumário
Capítulo 15: Análise comparativa dos indices de mérito de duas
instalações fotovoltaicas: Casos UTFPR Neoville x Lar Junshin ..........................
164XXX
Fabrício Fontoura dos Santos, Günther Kaltmaier Junior, Jair Urbanetz Junior
Juliana D’Angela Mariano

Capítulo 16: Um modelo de simulação computacional para análise do


custo-benefício da geração de biodiesel por uma empresa coletora de
resíduos sólidos urbanos......................................................................................
180
Glauco Oliveira Rodrigues, Eugenio De Oliveira Simonetto, Wellington Furtado
Santos, Daniel Visentini De Barcelos, Adriano Pereira, Marcelo Cassanta Antunes

Capítulo 17: Gestão Estratégica de Empresas do Terceiro Setor: um


Estudo de Caso ....................................................................................................
198
Rosilane Chimene, Ana Lúcia Magalhães , Éber José dos Santos, Bruno Andreoni

Capítulo 18: Os princípios do direito votados para a preservação


ambiental ..............................................................................................................
209
Ana Paula Lima Marques Fernandes, Amanda Araújo de Souza, Amauri Vítor dos Santos,
Carlos Everaldo Silva da Costa, Fábio Augusto Lima Silva, Lidiane Maria dos Santos,
Rodrigo Purcell

Capítulo 19: Resíduo Hospitalar: Um Estudo em um Município de


Pequeno Porte do Sudeste Paraense ...................................................................
218
Deuzenir Mendes Araújo, Wilcker Araújo Sampaio, Elizabete Campos Lima, Marcilene
Feitosa Araújo

Capítulo 20: Proposta de certificação para Implantação de ferrovias


verdes no Brasil ....................................................................................................
234
Ana Carolina L. de Azevedo, Fabrício de O. Lavorato, Marcelo de Miranda Reis, Mayssa
A. da Silva Sousa

Autores: ............................................................................................... 244


Capítulo 1

Caroline Guarim Sena Geraldini


Danilo Soeiro de Sousa Menezes
Luiza Regina Ramiro de Carvalho
Reginelly Medeiros Gomes
Vanessa Letícia dos Santos

Resumo: O presente estudo tem como objetivo avaliar as mudanças realizadas no


Plano Diretor Urbano e Ambiental do Município de Manaus, em relação a Reserva
Florestal Adolpho Ducke. A qual situa-se a 25 km da cidade, é uma das mais
importantes bases de pesquisa do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia
(INPA). Em virtude da expansão da cidade, a Reserva se tornou passível a sofrer
um processo de fragmentação e possíveis desmatamentos, expansão urbana e
ocupações. Com a mudança do Plano Diretor de Manaus, a reserva passa a ser
considerada uma área de transição, o mesmo determina como deve ser o
planejamento da cidade e como influenciará diretamente na sociedade. Por ser
uma área de transição, cabe ao planejamento considerar as questões de como se
procederão tais mudanças, tendo como base geral as normas de uso, ocupação
do solo, licenciamento e fiscalização. Ademais, verifica-se no estudo os impactos
ambientais e socioambientais que podem ser conseqüências de tal modificação e
natural expansão urbana.

Palavras Chave: Plano Diretor, Reserva Adolpho Ducke, Expansão Urbana


8

1 INTRODUÇÃO normativas que permitam controlar os


impactos territoriais negativos dos
O cenário atual do Brasil em relação à
investimentos público-privados sobre os
expansão urbana confere dados que
recursos naturais componentes das cidades.
possibilitam verificar o equilíbrio entre o
Com isso, almeja-se evitar a subutilização dos
crescimento populacional, a necessidade do
espaços já infraestruturados e a degradação
desenvolvimento de planejamentos urbanos e
urbana e imprimir uma maior eficiência das
ambientais e o trajeto projetado da economia
dinâmicas socioambientais de conservação
atual e futura. Vista de uma maneira geral, a
do patrimônio ambiental urbano (MMA, 2012).
urbanização particularmente, no Brasil, com
índice de urbanização de 31% observado em As conceituações de planejamento ambiental
1940, passando para 75% em 1990 e demonstram a necessidade da integração
chegando a 81% em 2001, conforme dados dos diferentes setores durante a elaboração
do Instituto Brasileiro de Geografia e de planos de desenvolvimento, ou seja, as
Estatística (IBGE, 2000). ações devem ser elaboradas sob princípios
holísticos e sustentáveis. Essa visão é
De acordo com Chaffun (1997), o crescimento
defendida por Santos ao postular o seguinte:
acelerado e desordenado das cidades, aliado
a concentração da população e das [...] os princípios do planejamento ambiental
atividades econômicas no espaço e os se remetem, diretamente, aos conceitos de
padrões tecnológicos da produção industrial, sustentabilidade e multidisciplinaridade, os
tem reforçado um quadro ambiental altamente quais, por sua vez, exigem uma abordagem
degradado em consequência de um estilo de holística de análise para posterior aplicação.
desenvolvimento que leva ao uso predatório Espera-se que temas biológicos, físicos e
dos recursos naturais (CHAFFUN, 1997, p. socioeconômicos sejam tratados de forma 19
28). integrada e possibilitem ações práticas
direcionadas a solução dos problemas
A realidade atual é complexa, pois as
(SANTOS, 2004, p. 27).
agressões ao meio ambiente são
influenciadas por interesses econômicos cada Com esses pressupostos, o planejamento
vez mais ávidos e por novas fontes de lucros ambiental é um processo contínuo, que
e de poder, encravados numa sociedade apresenta diversas etapas, como a coleta de
progressivamente imediatista e consumista. dados, a organização e a análise
Tal modelo de sociedade extremamente sistematizada das informações através de
capitalista e consumista leva a destruição dos procedimentos e métodos. Objetiva chegar a
ambientes naturais, trazendo, como decisões ou escolhas acerca das melhores
conseqüência, prejuízos e riscos ao próprio alternativas para o aproveitamento dos
homem. recursos disponíveis em função de suas
potencialidades, e com a finalidade de se
O planejamento das cidades no Brasil é
atingir metas específicas no futuro, levando à
prerrogativa constitucional da gestão
melhoria de determinada situação e a
municipal que responde, inclusive, pela
qualidade de vida das sociedades.
delimitação oficial da zona urbana, rural e
demais territórios para onde são direcionados Um importante papel que se destina ao
os instrumentos de planejamento ambiental. planejamento ambiental é ainda o de
No âmbito do meio ambiente urbano, os direcionar os instrumentos metodológicos,
principais instrumentos de planejamento administrativos, legislativos e de gestão para
ambiental são o Zoneamento Ecológico- o desenvolvimento de atividades num
Econômico - ZEE, o Plano Diretor Municipal, o determinado espaço e tempo, incentivando a
Plano de Bacia Hidrográfica, o Plano participação institucional e dos cidadãos,
Ambiental Municipal, a Agenda 21 Local, e o induzindo relações mais estreitas entre
Plano de Gestão Integrada da Orla. No sociedade e autoridades locais e regionais.
entanto, todos os planos setoriais ligados à
O presente estudo de caso, através de
qualidade de vida no processo de
levantamento de dados e pesquisas
urbanização, como saneamento básico,
relacionadas a modificações nas situações de
moradia, transporte e mobilidade, também
determinadas áreas, tem como objetivo
constituem instrumentos de planejamento
avaliar as mudanças ocorridas no Plano
ambiental (MMA, 2012).
Diretor Urbano e Ambiental do Município de
O fundamental é que esses instrumentos
Manaus, o qual foi sancionado e publicado no
sejam compostos por ações preventivas e
dia 16 de janeiro de 2014. Modificações estas

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realizadas especificamente no status da


Reserva Florestal Adolpho Ducke (RFAD).
2 INSTRUMENTOS DE POLÍTICAS URBANAS
Atualmente a Reserva é considerada Área de
Transição, onde representa a faixa do 2.1 O ESTATUTO DA CIDADE E O PLANO
território municipal que contorna os limites da DIRETOR
Área Urbana, podendo abrigar atividades
O Estatuto da Cidade de Manaus, Lei
agrícolas, usos e atividades urbanas de baixa
10.257/2001, destaca o Plano Diretor como
densidade, segundo o Art. 57 da Seção III do
instrumento de planejamento municipal. No
Plano Diretor Urbano e Ambiental do
Capítulo II, Dos Instrumentos da Política
Município de Manaus.
Urbana, Seção I, Dos Instrumentos em Geral,
Conforme as mudanças, o entorno da Reserva in verbis:
Ducke assumiria a classificação de Zona de
“Art. 4º Para os fins desta Lei, serão
Expansão Urbana (ZEU), passando a ser um
utilizados, entre outros instrumentos:
fragmento urbano, sendo assim, a área está
sujeita a diferentes formas de ocupação do I - planos nacionais, regionais e estaduais de
solo, colocando em risco a existência da ordenação do território e de desenvolvimento
reserva, acarretando impactos ambientais e econômico e social;
socioambientais. Segundo o Projeto de Lei
II - planejamento das regiões metropolitanas,
322/2013, da Câmara Municipal de Manaus,
aglomerações urbanas e microrregiões;
Art. 19 in verbis:
III - planejamento municipal, em especial:
“Art. 19. Para fins de planejamento, gestão e
aplicação das normas de Uso e Ocupação do a) plano diretor;
Solo, a Área de Expansão Urbana, definida no
b) disciplina do parcelamento, do uso e da
Plano Diretor Urbano e Ambiental do
ocupação do solo;
Município de Manaus, divide-se em Zonas de
Expansão Urbana – ZEU. c) zoneamento ambiental;
Parágrafo único. A Zona de Expansão Urbana d) plano plurianual;
é o compartimento territorial da Área de
e) diretrizes orçamentárias e orçamento anual;
Expansão destinado ao planejamento e
gestão da cidade, e apresenta aspectos f) gestão orçamentária participativa;
físicos ou características de ocupação e de
g) planos, programas e projetos setoriais;
uso homogêneos com as mesmas diretrizes
urbanísticas.” h) planos de desenvolvimento econômico e
social;”
A Reserva Florestal Adolpho Ducke, é uma
área de floresta amazônica primária de 100 O Plano diretor é um instrumento básico da
km², localizada próxima à cidade de Manaus política de desenvolvimento de cada
e pertence ao Instituto Nacional de Pesquisas município, tendo como finalidade atuar e
da Amazônia (INPA). Foi declarada como orientar o poder político na privatização da
Reserva Biológica em 1963, nesta época a construção dos espaços urbanos e rurais,
cidade de Manaus possuía uma população de visando melhorar condições de vida da
aproximadamente 40.000 habitantes. Nas população e como deve ser o Planejamento
últimas quatro décadas (até 2005) a da cidade. Os participantes da criação do
população saltou para cerca de 2.000.000 de plano são, o prefeito municipal, a população e
habitantes e a cidade expandiu sua área a câmara municipal, sendo assim, por
urbanizada, chegando aos limites da Reserva iniciativa destes, o plano é feito e
em duas de suas laterais. Aliado a isso, a transformado em lei. O que se espera sempre
devastação da floresta nas áreas próximas às de um plano como este, é que sejam
outras duas extremidades, vem transformando propostos meios para garantir uma
a Reserva em um fragmento florestal isolado. participação popular na gestão do município,
Apesar dessas interferências nos seus rumos para um novo desenvolvimento local,
arredores, os recursos naturais da Reserva economicamente viável, socialmente justo e
Ducke continuam bem preservados, muito ecologicamente equilibrado, soluções de
embora a área seja periodicamente invadida melhorias públicas e que proponham
por caçadores de animais silvestres e outras diretrizes para proteger o meio ambiente,
pessoas interessadas na extração de mananciais e principalmente as áreas verdes.
produtos florestais

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Sendo assim, neste estudo de caso, foram A Lei 672/2002, que institui as normas de Uso
analisadas as questões da mudança realizada e Ocupação do Solo no município de Manaus
na Reserva Adolpho Ducke para uma Área de e trata das unidades espaciais de transição,
Transição, tendo como ponto geral o código também anterior a publicação das mudanças
de normas de uso e ocupação do solo, no Plano Diretor, in verbis:
código de obras e edificações, lei de
"Art. 24 - A Área de Transição é dividida nas
licenciamento e fiscalização de atividade em
seguintes Unidades Espaciais de Transição e
estabelecimento e logradouros, lei do
setor urbano:
parcelamento do solo urbano e áreas
habitacionais de interesse social. II - UET Ducke unidade residencial e agrícola,
de integração do uso residencial de baixa
Visto isso foram levadas em considerações as
densidade com a produção agrícola;[...]".
seguintes Leis que possibilitam a mudança da
Reserva Floresta Adolpho Ducke para uma
Área de Transição:
2.2 PLANO DIRETOR
Lei nº 1.838/2014, que dispões sobre as
Conforme o Plano Diretor Urbano e Ambiental
normas de Uso e Ocupação do Solo no
do Município de Manaus, o qual caracteriza a
município de Manaus, vale ressaltar que a Lei
área da Reserva Florestal Adolpho Ducke, nos
foi promulgada na mesma data da publicação
seguintes eixos:
no Diário Oficial do novo Plano Diretor de
Manaus, segue o Art.1º da Lei in verbis: Título II – Das estratégias de desenvolvimento,
Art. 2º que constitui estratégias para o
“Art. 1º: As Normas de Uso e Ocupação do
desenvolvimento do município de Manaus, no
Solo no Município de Manaus passam a
seu Parágrafo único, in verbis:
vigorar na forma estabelecida nesta Lei, tendo
por pressuposto a utilização do potencial de “São objetivos centrais das estratégias de
adensamento das áreas territoriais mediante desenvolvimento, dentro da área urbana, as
os seguintes critérios: I - a preservação das Zonas Territoriais Urbanas de Manaus, a partir
áreas de proteção e de fragilidades das características vocacionais a seguir
ambientais, incluídas as nascentes e as descritas:
margens dos cursos d`água, as unidades de
I - Zona Norte: constitui a grande área de
conservação, os fragmentos florestais e as
transição e habitacional da Cidade, possuindo
áreas de fundo de vales;[...]”
como limite a Reserva Florestal Adolpho
A Lei 671/2002, regulamenta o Plano Diretor Ducke;”
Urbano e Ambiental, estabelece diretrizes
Título IV – Da Macroestruturação do
para o desenvolvimento da cidade de Manaus
município, Capítulo I – Do Macrozoneamento,
e dá outras providências relativas ao
Seção III – Da Área Urbana e da Área de
Planejamento e à gestão do território do
Transição, Art.57, in verbis:
município. Destaca-se que tal Lei é anterior as
modificações realizadas no Plano Diretor, já “Área de Transição é a faixa do território
considerando os limites onde se encontram a municipal que contorna os limites da Área
Reserva como Área de transição. O Art. 48, Urbana, incluindo a Reserva Florestal Adolpho
Da Área Urbana e Área de Transição, in Ducke, podendo abrigar atividades agrícolas,
verbis: usos e atividades urbanas de baixa
densidade, onde são incentivadas atividades
"Art. 48: - Área de transição é a faixa do
ecoturísticas.
território municipal que contorna os limites da
Área Urbana, incluindo a Reserva Florestal Parágrafo único. Quaisquer atividades
Adolpho Ducke, podendo abrigar atividades desenvolvidas na Área de Transição deverão
agrícolas e usos e atividades urbanos de atender à legislação ambiental, visando à
baixa densidade, onde são incentivadas proteção dos recursos naturais,
atividades ecoturísticas. especialmente os recursos hídricos.”
Parágrafo único Quaisquer atividades Título V – Da Estruturação do Espaço Urbano,
desenvolvidas na área de transição deverão Capítulo I – Do Modelo Espacial, Art. 63, in
atender à legislação ambiental, visando à verbis:
proteção dos recursos naturais,
“Para efetivação da estruturação do espaço
especialmente os recursos hídricos."
urbano é adotado Modelo Espacial, no qual:

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I - a Área Urbana é dividida em Zonas A Reserva também serve como suporte há


Urbanas, subdivididas em Setores Urbanos, mais de 50 anos para todos os segmentos
Subsetores e Corredores Urbanos; das pesquisas do INPA e de outras
instituições nacionais e internacionais. Sua
II - a Área de Transição é dividida em Zonas
fauna e flora sendo compostas por, espécies
de Transição, respeitadas as unidades de
de plantas (2136); espécies de anfíbios (50);
conservação urbanas e os corredores
espécies de peixes (71); espécies de répteis
ecológicos urbanos, assim delimitadas:
(80); espécies de aves (350); espécies de
a) ZT Ducke: compreende área contribuinte mamíferos (50) (PELD, 2015). Não sendo
da bacia do Rio Puraquequara, incluindo a aberta a visitação pública e as visitas são
Reserva Florestal Adolpho Ducke, com permitidas apenas para propósitos de
presença de ocupação por população de pesquisa e educação. O acesso só é
baixa renda, de estímulo à baixa densificação, permitido para pesquisadores e visitantes
relacionada à proteção dos recursos naturais, autorizados pelo setor de reservas do INPA
à valorização da paisagem e à promoção de (PELD, 2015).
programas e projetos de interesse social;”
Foi declarada Reserva Ecológica em 1972,
A Lei Nº 1.839, 01/2014, dispõe sobre o havendo apenas um local de plantação de
perímetro urbano do município de Manaus e árvores de valor comercial em seu extremo
descreve os limites da Cidade, conforme as noroeste. Como não faz parte do Sistema
diretrizes do Plano Diretor Urbano e Ambiental Nacional de Unidades de Conservação
de Manaus, no Art. 3º, in verbis: (SNUC), ela não se beneficia das vantagens
desse sistema, como o direito legal à
“A Zona Urbana limita-se ao Sul pela margem
manutenção de uma zona tampão em seu
esquerda dos rios Negro e Amazonas, segue
entorno. Por outro lado, sua condição de
a Leste, a partir da margem esquerda do Rio
reserva independente permite a realização de
Amazonas, pelo divisor de águas das bacias
atividades de pesquisa que sofreriam grandes
do rio Puraquequara e do igarapé do Aleixo,
restrições na maioria das categorias do SNUC
por este divisor até encontrar o novo limite
(PELD, 2015).
oficial do Distrito Industrial II seguindo por
este, na direção Norte, até reencontrar o O clima da reserva é classificado como
divisor de águas do rio Puraquequara e por tropical úmido, com umidade relativa de 75-
este até o limite Sul da Reserva Florestal 86% e precipitação anual de 1.750 a 2.500
Ducke, deste ponto segue no sentido Oeste- mm. A estação chuvosa ocorre de novembro
Norte pelo contorno da Reserva Ducke até o a maio, sendo os meses de março e abril os
divisor de águas das bacias dos igarapés da de maior precipitação. A estação seca ocorre
Bolívia e do Mariano e seu prolongamento até de junho a outubro, sendo setembro
encontrar a Oeste a margem esquerda do normalmente o mês mais seco. A temperatura
igarapé Tarumã-Açu e por esta seguindo até média anual é de 26 ºC existindo pouca
sua foz no Rio Negro.” variação térmica durante o ano, com as
temperaturas médias mensais diferindo entre
si em menos que 3 ºC. A maior variação de
3 ESTUDO DE CASO temperatura ocorre ao longo do dia, podendo
chegar a 8 ºC (RESERVA DUCKE, 2008).
3.1 INFORMAÇÕES SOBRE A RESERVA
FLORESTAL A topografia é um importante fator na
formação de solos na região da Amazônia
A Reserva Florestal Adolpho Ducke (RFAD),
Central. Nos platôs os solos são argilosos e
se encontra a 25 km da cidade de Manaus,
nas vertentes, a fração de argila vai
Amazonas, Brasil. Possui 10.072 hectares
gradativamente diminuindo até predominar a
(100 km²) e aproximadamente 10 km de cada
fração de areia nas áreas de baixios. Na
lado, totalmente demarcada e é cercada na
Reserva Ducke, o terreno é formado
borda adjacente à área urbana. Atualmente,
basicamente por platôs com altitudes
se encontra em excelente estado de
variando de 80 a 140 m de altitude. Os baixios
conservação, mesmo tendo sofrido pequenos
são freqüentemente inundados na época das
impactos antrópicos antes de sua
chuvas, sendo que grande parte deles
demarcação em 1959, os mesmos foram
apresentam igarapés, mesmo durante a
minimizados e ordenados após a doação da
estação seca (RESERVA DUCKE, 2008).
área ao Instituto Nacional de Pesquisa na
Amazônia.

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No eixo Norte-Sul a reserva é cortada por um de palmeiras acaules como Astrocaryum spp.
platô central, que é o divisor de águas entre e Attalea spp. A flora é extremamente
duas bacias hidrográficas. No lado oeste diversificada, com aproximadamente 1.000
estão os igarapés que deságuam no rio Negro espécies de árvores com altura entre 30 e 35
e a leste drenam os igarapés que são metros, com árvores emergentes alcançando
afluentes do rio Amazonas. Quase todas 45 a 50 metros (RESERVA DUCKE, 2008).
nascentes desses corpos de água estão
A Reserva Ducke é localidade de dezenas de
dentro da reserva, o que preserva a
espécies e foi objeto de alguns dos guias de
integridade desse sistema (RESERVA DUCKE,
campo mais completos que existem para
2008).
região neotropical, como o da flora (RIBEIRO
Toda a região está coberta pela floresta ET AL., 1999), serpentes (MARTINS &
tropical úmida de baixa altitude, com dossel OLIVEIRA, 1998), miriápodos (ADIS, 2002),
bastante fechado e sub-bosque com pouca sapos (LIMA ET AL., 2006) e lagartos (VITT ET
luminosidade, caracterizado pela abundância AL., 2008).

Figura 3.1.1 Imagem Landsat (2003) da região de Manaus.

Fonte: Siglab/Inpa.

3.2 QUESTIONAMENTOS comunidade científica. Essa nova perspectiva


ganhou destaque mundial com a conferência
Durante a década de 1960 as questões
das Nações Unidas sobre meio ambiente que
relacionadas com o meio ambiente passaram
procurou conciliar a necessidade de
a ganhar maior ênfase não só apenas junto à
desenvolvimento econômico da sociedade
sociedade leiga, mas, sobretudo, junto à

Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 10


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com a promoção do desenvolvimento social e urbana desenvolvida no meio da floresta e


com o respeito ao meio ambiente, aonde veio que atualmente tem pagado um preço
consolidar essa tomada de consciência ambiental muito alto por conta da expansão
emergente. urbana que vem sofrendo nos últimos 20
anos, o modelo de desenvolvimento urbano
A problemática ambiental apresenta enfoques
excludente é a estruturação de arranjos
diferentes por diversos estudiosos, dando
urbanos marcados por um “mosaico” de
destaque a vários fatores como o crescimento
paisagens reveladoras e geradoras da
populacional, o crescimento econômico, a
segregação sócio-espacial. Lado a lado
correção dos danos naturais, a desocupação
erguem-se cidades modernizadas, cidades
humana de alguns ecossistemas, a
tradicionais, cidades operárias, cidades
redistribuição de poder e de recursos
faveladas, cidades ilegais, perdendo-se,
produtivos e a sustentabilidade ambiental e
portanto, a concepção de cidade enquanto
social. Elas têm em comum o mesmo conceito
totalidade.
de ambiente, isto é, as relações dos homens
com a natureza para a preservação dos Na Tabela 1, percebe-se o crescimento
recursos naturais. demográfico do município de Manaus, onde a
população aumenta significativamente
Segundo Araújo (2004), a cidade de Manaus,
conforme o passar dos anos.
capital do Amazonas, é um exemplo de zona

Tabela 1. Censo demográfico do município de Manaus.


Ano Manaus Amazonas Brasil
1991 1.011.501 2.103.243 146.825.475
1996 1.154.330 2.376.965 156.032.944
2000 1.405.835 2.812.557 169.799.170
2007 1.646.602 3.221.939 183.987.291
2010 1.802.014 3.483.985 190.755.799
Fonte: IBGE: Censo Demográfico 1991, Contagem Populacional 1996, Censo Demográfico 2000, Contagem
Populacional 2007 e Censo Demográfico 2010.

De 2014 para 2015, Manaus teve um aumento de Manaus tinha preocupação com o entorno
de 37.410 habitantes, representando 1,8% a da reserva, fato que não se encontra no
mais que a última estimativa do órgão. Somado contexto atual.
a população da Região Metropolitana da capital,
Com base no exposto, observa-se que a
que inclui cidades como Manacapuru, Irandura
Reserva tornou-se alvo de uma fragmentação,
e Itacoatiara, o número chega a 2.523.901.
visto que é uma das mais importantes bases
A cidade de Manaus registrou em 2015 um total de pesquisa do Instituto Nacional de
de 2.057.711 habitantes, conforme estimativa do Pesquisas da Amazônia. O mesmo realizou
Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística um workshop com o tema da Reserva, com o
(IBGE). A capital manteve a posição de 7º objetivo de mobilizar e sensibilizar a
município mais populoso do país. Conforme a sociedade, principalmente os moradores ao
pesquisa, o Amazonas teve um acréscimo entorno da reserva, acadêmicos e
populacional de mais de 64,5 mil (GLOBO, pesquisadores para a importância da
2015). preservação de áreas verdes e discutir o
impacto que trará a cidade caso venha
Portanto, as cidades vêm sofrendo com o
transformar por completo o entorno da
processo de urbanização acelerado e
reserva.
desordenado gerando conflitos sócio-
ambientais. A falta de planejamento Os pesquisadores afirmam que a região pode
urbanístico-ambiental, a poluição das ser urbanizada rapidamente com o avanço do
industrias, a expansão urbana, a degradação mercado imobiliário, por exemplo. Em
ambiental nos faz pensar em um diagnóstico discussão no INPA, no dia 4 de dezembro de
sombrio, em um grande desequilíbrio 2013, Jaime Kuck, presidente do Conselho de
ambiental. O antigo Plano diretor da cidade Arquitetura e Urbanismo do Amazonas (CAU-

Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 10


14

AM), lamentou que: “Esse novo plano deixa 3.3 POSSÍVEIS IMPACTOS AMBIENTAIS E
claro que o entorno da reserva é uma área SOCIOAMBIENTAIS
para onde a cidade pode crescer. No plano
Segundo Leite (2003), o meio ambiente
anterior dizia que aquela era uma área para
ecologicamente equilibrado é um dos bens
onde a cidade não podia crescer.”. Enquanto
indispensáveis ao ser humano, por força de
que o vereador Elias Emanuel, relator do
sua contribuição à sadia qualidade de vida e
Plano Diretor na Câmara Municipal de Manaus
à dignidade social (LEITE, 2003, p. 284). Visto
(CMM), afirma que a área está protegida, uma
no âmbito do direito do indivíduo e de acordo
vez que, segundo ele “a proposta atual do
com o Artigo 225 da Constituição brasileira, in
documento não fez nenhuma mudança no
verbis:
regime de proteção da área de entorno da
Reserva Adolpho Ducke. (...) E se em 11 anos [...] todos têm direito ao meio ambiente
não foi possível depredar e cortar a ecologicamente equilibrado, bem de uso
comunicação da fauna da reserva para o comum do povo e essencial à sadia
Puraquequara, como que na redação mantida qualidade de vida, impondo-se ao Poder
no Plano Diretor teremos essa depredação? A Público e à coletividade o dever de defendê-
gente só mudou a nomenclatura.” (ELIAS lo e preservá-lo para as presentes e futuras
EMANUEL, 2013). gerações [...] (BRASIL, 1998, p. 133).
Não concordando com o argumento de Elias Souza (2000) acrescenta que, a questão
Emanuel, o geógrafo Marcos Coelho, citou ambiental assume hoje uma magnitude
que “estabelecendo no mapa que a área se impensada há décadas, visto que a pressão
torna uma zona de expansão, induz o setor exercida pelo homem no meio ambiente tem
imobiliário a buscar tal eixo de crescimento, aumentado significativamente desde a
também trouxe o fato de que a economia não revolução industrial, assumindo uma situação
está como dez anos atrás, que atualmente de crise global. Souza diz que a “questão
tem ênfase no setor imobiliário”. Concluindo ambiental” diz respeito ao intenso processo
que não há como comparar a realidade de de degradação generalizada do meio
dez anos com a atual (UOL, 2013). ambiente e dos recursos naturais, provocados
pela intensificação do crescimento econômico
Segundo a população do entorno existe uma
e populacional no século XX (decorrente da
preocupação com a mudança no status da
industrialização, da explosão demográfica, da
Reserva e a qualidade de vida e ambiental do
produção e do consumo em massa, da
local. Como exemplo o aposentado José
urbanização e da modernização agrícola,
Teixeira de Castro tem 72 anos, dez deles
dentre outras causas). Com isso aumenta o
vividos em um terreno de 250 metros
nível de demanda ambiental e uma perda de
quadrados nas vizinhanças da Reserva
biodiversidade e de recursos naturais nunca
Ducke. “Sou idoso e escolhi um lugar
antes imaginados (SOUZA, 2000, p. 15).
saudável para morar o resto da via”, afirma
José. Acredita que o sossego no qual vive No entanto, muitas dessas degradações
pode acabar. Com o Plano Diretor do trazem consigo riscos que ameaçam a vida
Município transformando o entorno da reserva humana, ao provocarem profundas alterações
em Área de Transição, estudiosos defendem no meio ambiente, trazendo implicações
que a região estará sujeita a diferentes formas significativas na perda da biodiversidade e
de ocupação do solo, colocando em risco, nas alterações climáticas. E esta nova
inclusive, a existência da reserva (UOL, 2013). realidade que tem que ser reconhecida, onde
novas medidas devem ser adotadas (O
Para o aposentado José Teixeira, os
NOSSO FUTURO COMUM, 1987 apud
moradores do entorno da reserva contribuem
CMMAD, 1991).
com a preservação da área. “Faça uma visita
ao lado do prédio administrativo da reserva, A Resolução do CONAMA 001/86 dispõe,
do lado do bairro Nova Cidade, você vai sobre critérios básicos e diretrizes gerais para
encontrar toneladas de lixo. E visite o lado da a avaliação de impacto ambiental, em seu Art.
reserva indo para o Puraquequara, onde têm 1º que impacto ambiental é, in verbis:
moradores, você não vai encontrar lixo.
“ [...] qualquer alteração das propriedades
Porque nós somos a cerca da reserva”, disse
físicas, químicas e biológicas do meio
Teixeira (UOL, 2013).
ambiente, causada por qualquer forma de
matéria ou energia resultante das atividades
humanas que, direta ou indiretamente, afetam:

Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 10


15

I – a saúde, a segurança e o bem estar da assim, nessa concepção da cidade como


população; II – as atividades sociais e bem ambiental, segue alguns exemplos de
econômicas; III – a biota; IV – as condições questões urbano-ambiental que afetam o
estéticas e sanitárias do meio ambiente; V – a equilíbrio, como:
qualidade dos recursos ambientais.”
 Alteração na fauna: Causando a
Assim, entende-se o impacto ambiental como fragmentação florestal, tirando a mobilidade
qualquer alteração produzida pelos homens e animal de muitas espécies,perda da
suas atividades no meio ambiente, que biodiversidade, manejo ambiental;
excedam a capacidade de suporte desse
mesmo ambiente. Para alguns pesquisadores  Na flora e espaços territoriais
o termo Impacto Ambiental está diretamente protegidos: Supressão de vegetação e
ligado aos danos causados ao meio ambiente intervenções em área de preservação
pelo homem, como é o caso de Silva: O permanente (APP) situadas em áreas
conceito de impacto ambiental refere-se urbanas, empreendimentos em expansão;
exclusivamente aos efeitos da ação humana  No clima: Poluição causada por
sobre o meio ambiente. Portanto, fenômenos veículos automotores, comprometimento na
naturais como tempestades, enchentes, qualidade do ar, mudanças climáticas;
incêndios florestais por causa natural,
terremoto e outros, apesar de poderem  Perda de uma grande área de floresta
provocar as alterações ressaltadas não se primária;
caracterizam como impacto ambiental (SILVA,  Solo: Contaminação, poluição,
1999, p. 36). aumento de resíduos sólidos;
De acordo com o Glossário de Ecologia
(ACIESP, 1997), impacto ambiental é uma
 Meio Ambiente artificial:
Assentamentos e loteamentos irregulares.
ação ou atividade, natural ou antrópica, que
produz alterações bruscas em todo meio
ambiente ou apenas em alguns de seus
3.4 POSSÍVEIS SUGESTÕES
componentes, e que a alteração pode ser
ecológica, social ou econômica. São Considerando as modificações no Plano
processos que perturbam, descaracterizam, Diretor Urbano e Ambiental do Município de
condições ou processos no ambiente natural; Manaus, o crescimento populacional, a
ou que causam modificações nos usos expansão urbana e os consequentes
instalados, tradicionais, históricos, do solo e impactos ambientais e socioambientais no
nos modos de vida ou na saúde de entorno da Reserva Florestal Adolpho Ducke,
segmentos da população humana, ou que recomenda-se o estabelecimento de uma
modifiquem de forma significativa opções zona de amortecimento, pois prevenir a
ambientais (FEARO, 1979 apud FRANCO, degradação ambiental, preservar os
2001, p. 29). ambientes naturais, e recuperar seus atributos
ambientais tornaram-se necessidades vitais.
O atual Plano Diretor de Manaus prevê a
transformação do entorno da Reserva A Zona de Amortecimento (ZA, também
Florestal Adolpho Ducke em Zona de chamada de "Zona Tampão") é uma área
Transição. A área de transição é estabelecida ao redor de uma unidade de
caracterizada pela presença de elementos conservação com o objetivo de filtrar os
rurais e urbanos. Com essas características, a impactos negativos das atividades que
região pode ser urbanizada rapidamente com ocorrem fora dela, como: ruídos, poluição,
o avanço, por exemplo, do mercado espécies invasoras e avanço da ocupação
imobiliário, pelo comprovado aumento humana, especialmente nas unidades
populacional. É uma área onde pode-se ter próximas a áreas intensamente ocupadas.
uso livre, podendo ser ocupada, ocorrer a
Ela foi criada pelo artigo 2º, inciso XVIII da Lei
construção de condomínios, conjuntos
do Sistema Nacional de Unidades de
habitacionais, entre outros.
Conservação - SNUC (Lei nº 9.985/2000), que
Referente a esses avanços urbanos, deve-se a define como o "entorno de uma unidade de
alertar a tais impactos, pois o mesmo causa conservação, onde as atividades humanas
insustentabilidade das cidades, afetando o estão sujeitas a normas e restrições
equilíbrio ambiental não só dos espaços específicas, com o propósito de minimizar os
urbanos, mas também dos animais. Sendo impactos negativos sobre a unidade". As

Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 10


16

zonas de amortecimento não fazem parte das quando da elaboração dos estudos do plano
Unidades de Conservação, mas localizadas de manejo da unidade.
no seu entorno, têm a função de proteger sua
Definida pelo art. 2º da Lei do SNUC como a
periferia, ao criar uma área de proteção que
região do "entorno das unidades de
não só as defende das atividades humanas,
conservação, onde as atividades humanas
como também previnem a fragmentação,
estão sujeitas a normas e restrições
principalmente, o efeito de borda.
específicas, com o propósito de minimizar os
A borda da área protegida é uma área impactos negativos sobre a unidade" as zonas
sensível a uma gama de efeitos de amortecimento se inserem no Sistema
degradadores, o que a torna mais vulnerável Nacional de Unidades de Conservação com o
a quaisquer alterações físicas (maior objetivo de contribuir para a manutenção da
penetração do sol e do vento), químicas estabilidade e equilíbrio do ecossistema
(luminosidade e umidade do solo) e garantindo a integridade da área protegida.
biológicas (mudanças na interação entre as
Como a própria definição legal deixa
espécies). Uma ocorrência comum nas zonas
transparecer, a finalidade da zona de
limítrofes de áreas naturais, suas fronteiras
amortecimento consiste na contenção dos
acabam expostas e, por consequência, se
efeitos externos que possam de alguma
tornam mais frágeis a condições que
maneira influenciar negativamente na
influenciam negativamente a estabilidade e o
conservação da unidade. Desta maneira,
equilíbrio do ecossistema.
mesmo não prevendo expressamente como
Não são apenas os fatores ecológicos que seu objetivo a proteção aos reflexos
preocupam a vizinhança das unidades de ecológicos provocados pelo entorno,
conservação. Não mensurando as destinam-se as zonas de amortecimento a
consequências de suas ações, atividades minimizar as conseqüências do efeito borda,
humanas desenvolvidas proximamente à área de ocorrência comum nas zonas limítrofes,
protegida podem afetar significativamente os estabelecendo uma gradatividade na
atributos da unidade. Assim é que a simples separação entre os ambientes da área
criação de uma UC onde as restrições das protegida e de sua região envoltória, além de
atividades humanas fossem fixadas apenas impedir que atuações antrópicas interfiram
dentro dos seus limites legais não seria prejudicialmente na manutenção da
suficiente para alcançar os objetivos da diversidade biológica.
preservação.
Pela Resolução CONAMA nº 428, de 17 de
4 CONSIDERAÇÕES FINAIS
dezembro de 2010, atividades que possam
afetar a zona de amortecimento só terão seu Em virtude do que foi mencionado, a Reserva
o licenciamento ambiental concedido após Florestal Adolpho Ducke é considerada uma
autorização do órgão gestor da unidade de Área de Transição que é caracterizado pela
conservação que ela circunda, que fará tal presença de elementos rurais e urbanos,
decisão mediante devidos estudos ambientais sendo considerada uma grande área de
(EIA/RIMA). Se a Unidade foi estabelecida floresta primária preservada. Infelizmente com
sem a definição de zona de amortecimento, a expansão da cidade, a Reserva vem
empreendimentos com capacidade de sofrendo um processo de fragmentação e
impacto significativo ao ambiente deverão possivelmente um isolamento, tendo como
respeitar uma faixa estabelecida de 3 km de exemplo, desmatamentos, expansão urbana e
distância e serão obrigados a obter o ocupações irregulares. Apesar dessas
licenciamento. intercessões ao redor da Reserva, seus
recursos naturais continuam preservados.
A faixa de proteção da ZA pode ser
estabelecida no momento da criação da Percebe-se que, a expansão da área urbana
unidade ou em momento posterior pelo de Manaus é ocasionada pelo grande
Instituto Chico Mendes de Conservação da crescimento demográfico que a cidade vem
Biodiversidade (ICMBio), na esfera federal, ou enfrentando nas ultimas décadas. Assim
órgão ambiental responsável (nas demais como, podemos destacar que o mesmo
esferas). Mais apropriado, tanto do ponto de ocorre nas grandes capitais brasileiras, a
vista ecológico quanto institucional, que a ausência de um planejamento urbano
fixação da zona de amortecimento seja feita sistemático e a falta de controle relacionado
ao crescimento da cidade ocasionando sérios

Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 10


17

problemas ambientais. Referente ao Sendo assim, é preciso refletir sobre as


desmatamento, a cidade passa por uma premissas para a construção de políticas
situação de insustentabilidade, foi agravado publicas sustentáveis, que faz parte de todo
por essa expansão e modernização dos um conjunto, este o qual afeta a qualidade da
espaços intra-urbanos decorrente dessa falta vida humana, seu desenvolvimento
de planejamento, gerando praticas socioeconômico e o desenvolvimento
predatórias. ambiental.

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Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 10


19

Capítulo 2

Romero de Albuquerque Maranhão


Norberto Stori

Resumo: A geração de biogás produz inúmeras vantagens, principalmente em


relação ao meio ambiente, transformando dejetos causadores de poluição em
energia útil a ser aproveitada, através da biodigestão. Este trabalho consiste em
uma análise técnica e econômica e preliminar da viabilidade de produção de
energia térmica por meio de biogás, levando em consideração os créditos de
carbono e sintetizado a partir de resíduos provenientes dos eqüinos criados por
uma Organização Militar do Estado de São Paulo. Embora haja custos para
implantação do sistema, o uso de biodigestores é: uma possível solução para o
problema da destinação dos resíduos dos eqüinos; uma fonte de energia renovável;
e uma fonte de recursos com a venda dos créditos de carbono, em função da não
emissão de metano.

Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 10


20

1. INTRODUÇÃO destacando: “... essa caracterização do


cavalo brasileiro como o animal, mais que
A criação de eqüinos, não diferente de outros
qualquer outro, a serviço do domínio dos
manejos, causa impacto significativo ao meio
‘defensores da Ordem’ sobre a massa”
ambiente e como tal requer adequada
(FREYRE, 1937, p. 66).
destinação dos resíduos gerados, sendo a
implantação de biodigestores uma alternativa. Acredita-se que os primeiros cavalos voltados
Basicamente o biodigestor consiste, em uma para utilização em solo brasileiro, chegaram
câmara fechada onde a biomassa (volume de em 1534, quando D. Ana Pimentel, esposa e
esterco produzido) é fermentada procuradora de Martin Afonso de Souza
anaerobicamente (sem a presença do ar (donatário da Capitânia de São Vicente),
atmosférico), produzindo biogás e trouxe diversos animais domésticos das ilhas
biofertilizante. Por si só, o biodigestor não da Madeira e das Canárias. No ano seguinte,
produz o biogás, ele cria condições para que em 1535, Duarte Coelho (donatário da
as bactérias metanogênicas produzam o gás Capitânia de Pernambuco) iniciou a criação
metano, atuando sobre os materiais orgânicos de animais domésticos no nordeste brasileiro
na produção deste combustível (GASPAR, incluindo, provavelmente, alguns cavalos
2003). (CEPEA, 2006).
A geração de biogás produz inúmeras De acordo com o CEPEA (2006), oficialmente,
vantagens, principalmente em relação ao a chegada de cavalos no Brasil só foi
meio ambiente, transformando dejetos registrada em 1549. Naquele ano, Tomé de
causadores de poluição em energia útil a ser Souza (primeiro governador-geral) mandou vir
aproveitada, através da biodigestão. Resíduos alguns animais, de Cabo Verde para a Bahia,
animais, domiciliares ou industriais podem ser na caravela Galga. Assim, nos primeiros anos
aproveitados, gerando economia e controle da Colônia, a sua criação (junto com o gado
da poluição ambiental (MOURA & PANNIR bovino) foi iniciada formalmente e que seria
SELVAM, 2006). fundamental para a formação do Brasil.
Desta forma, a principal contribuição deste A criação de cavalos no Brasil colonial teve
sistema é que os dejetos, produzidos são também importância estratégica. Durante o
transformados em gás, além da possibilidade século XVII e parte do século XVIII o Brasil foi
de utilizar os resíduos como fertilizantes. A fornecedor de cavalos para as tropas
produção de energia apresenta baixo custo, e portuguesas na África. Portugal tinha
o aproveitamento dos resíduos evita que estes necessidade de cavalos para suas tropas,
sejam lançados no meio ambiente, poluindo- tanto para utilizar como armas de guerra
o. quanto para intimidar os africanos (que
demonstravam pavor ao cavalo) (CEPEA,
Assim, o presente trabalho consiste em uma
2006).
análise técnica e econômica e preliminar da
viabilidade de produção de energia térmica De acordo com dados do IBGE (2006), havia
por meio de biogás, levando em consideração no Brasil, 5.787.250 eqüinos distribuídos por
os créditos de carbono e sintetizado a partir diversos Estados, conforme os dados da
de resíduos provenientes dos eqüinos criados tabela 1. Sendo importante destacar que tais
por Organizações Militares, especificamente informações foram coletadas em correlação
nesse estudo pelo Regimento de Cavalaria 9 com a criação de bovinos junto aos criadores,
de Julho da Policia Militar do Estado de São estando fora da estatística os animais
Paulo. existentes em jockey clube ou Organizações
Militares.
Em pesquisa realizada pelo CEPEA, em 2005,
2. EQÜINOS NO BRASIL
havia no Exército Brasileiro 1.570 cavalos,
O cavalo ocupa uma posição de destaque distribuídos por sete Estados, de acordo com
nos países desenvolvidos e em muitos a figura 1 e dados da tabela 2. Há
daqueles em desenvolvimento. No Brasil, ao predominância de eqüinos nas regiões
analisar o ciclo do açúcar no Brasil colonial, sudeste, sul e centro-oeste. Além disso,
Gilberto Freire, destaca o papel do boi e do registra que no mesmo ano havia nas Polícias
cavalo: o boi associado ao escravo e ao Militares estaduais, um total 3.730 cavalos
trabalho, e o cavalo ao senhor de engenho, distribuídos pelo Brasil. (CEPEA, 2006).

Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 10


21

Tabela 1: Rebanho de eqüinos no Brasil, por Unidade da Federação, em 1990 e 2004.


UF Rebanho em 1990 Rebanho em 2004
AC 10.518 32.752
AL 58.408 52.686
AM 11.199 11.907
AP 3.757 3.706
BA 659.330 614.073
CE 231.894 139.102
DF 8.350 6.000
ES 84.823 72.956
GO 452.330 442.818
MA 286.923 175.027
MG 971.952 859.974
MS 286.181 366.399
MT 169.622 311.598
PA 252.220 282.835
PB 74.911 52.020
PE 135.332 119.680
PI 171.920 150.866
PR 448.567 434.381
RJ 107.300 105.827
RN 39.103 40.338
RO 52.263 146.683
RR 36.316 27.800
RS 593.555 484.512
SC 164.418 128.343
SE 82.646 68.640
SP 611.563 500.177
TO 152.430 156.150
Brasil 6.157.831 5.787.250
Fonte: IBGE (2006).

No Exército, os eqüinos são utilizados para Armas; e, EsEqEx – Escola de Equitação do


diversas finalidades, tais como: a) ações de Exército); e) produção de imunobiológicos
Garantia da Lei e da Ordem (GLO), nos (soro antiofídico) em convênio do Ministério
Regimentos de Cavalaria (1º, 3º e REsC); b) da Saúde com o IBEx – Instituto de Biologia
participação em cerimonial militar (desfiles, do Exército; f) prática desportiva, integrando
guarda de honra e escoltas de autoridades); comissões de desportos nacionais; g)
c) patrulhamento em Organizações Militares e atividades de equoterapia; e h) programas de
nos Campos de Instrução; d) instrução militar estudos e melhoramentos da eqüídeocultura
nas escolas de formações de oficiais e praças nacional, na Coudelaria de Rincão (CEPEA,
(AMAN – Academia Militar das Agulhas 2006).
Negras; EsSA – Escola de Sargentos das

Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 10


22

Figura 1: Distribuição de eqüinos no Exército Brasileiro.

Fonte: CEPEA, 2006.

Tabela 2: Distribuição de eqüinos por Região Militar do Exército em 2005.

Fonte: CEPEA, 2006.

3. BIODIGESTOR E BIOGÁS ar. Como resultado desta fermentação ocorre


à liberação de biogás e a produção de
Chama-se digestor a câmara onde se
biofertilizante. Esse aparelho, não produz o
processa a digestão. Trata-se de um tanque
biogás, apenas fornece as condições
fechado em concreto ou alvenaria onde a
propícias para que as bactérias, as
mistura (6 a 20% de sólidos e a restante água)
metanogênicas, degradem o material
a ser digerida é colocada (BATISTA, 1981).
orgânico, com a conseqüente liberação do
O biodigestor é composto, basicamente, de gás metano (COELHO et al, 2006).
uma câmara fechada chamada de digestor na
Existem vários tipos de biodigestor, mas, em
qual biomassas (em geral detritos de vegetais
geral, todos são compostos, basicamente, de
e animais), são fermentadas
duas partes: um recipiente (tanque) para
anaerobicamente, isto é, sem a presença de
abrigar e permitir a digestão da biomassa, e o

Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 10


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gasômetro (campânula), para armazenar o palha ou forragem misturada a dejetos


biogás. animais.
Em relação ao abastecimento de biomassa, o De acordo com Coldebella et al. (2006), o
biodigestor pode ser classificado como biogás é composto por uma mistura de gases
contínuo, isto é, abastecimento diário de que tem sua concentração determinada pelas
biomassa, com descarga proporcional à características do resíduo e as condições de
entrada de biomassa, ou intermitente, quando funcionamento do processo de digestão. É
utiliza sua capacidade máxima de constituído principalmente por metano (CH4) e
armazenamento de biomassa, retendo-a até a dióxido de carbono (CO2), geralmente
completa biodigestão. Então, retiram-se os apresenta em torno de 65% de metano, o
restos da digestão e faz-se nova recarga. O restante é composto na maior parte por
modelo de abastecimento intermitente é mais dióxido de carbono e alguns outros gases
indicado quando da utilização de materiais como nitrogênio, hidrogênio, monóxido de
orgânicos de decomposição lenta e com carbono entre outros, porém, em menores
longo período de produção, como no caso de concentrações, conforme demonstrado na
tabela 3.

Tabela 3: Composição do biogás.


Gás Símbolo Concentração no biogás(%)
Metano CH4 50-80
Dióxido de carbono CO2 20-40
Hidrogênio H2 1-3
Nitrogênio N2 0,5-3
Gás Sulfídrico e outros H2S, CO, NH3 1-5
Fonte: La Farge, 1979.

Como pode ser observado na tabela 4, os produção de metano é variável e dependente


dejetos de eqüinos apresentam uma grande da ração do animal.
capacidade de produção de biogás, porém a

Tabela 4: Produção de biogás por dejetos animais.


Sólidos Produção biogás Gás metano
Dejetos
(kg/animal/dia) (m3/animal/dia) produzido (%)

Bovinos 10 – 15 0,292 – 0,980 55


Suínos 2,25 – 2,5 0,799 – 0,933 50
Eqüinos 10 0,36 – 1,225 Variável
Ovinos 0,5 – 2,28 0,25 – 0,32 50
Aves 0,12 – 0,18 0,001 – 0,017 Variável
Fonte: Nogueira (1986), Barrera (1993), Santos (2000) e Salomon (2007).

Costa (2006) ressalta que o poder calorífico do biogás, de acordo com o gráfico da figura
do biogás depende fundamentalmente das 2.
proporções de metano e gás carbônico.
O valor a ser utilizado como referência nesse
Através da compilação dos trabalhos de
estudo é o proposto por Nogueira & Zürn
Avellar (2001) apud Costa (2006) e de
(2005), pois diversos autores citam que a
Coldebella et al. (2006), é possível
concentração de metano no biogás costuma
estabelecer uma relação linear entre a
variar entre 50 e 60% (COSTA, 2006;
concentração de metano e o poder calorífico

Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 10


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COLDEBELLA et al, 2006; TEIXEIRA, 1985). aquecimento global cerca de 21 vezes maior
Segundo Lucas Júnior (1987), o biogás se comparado ao dióxido de carbono e é
produzido em biodigestores, pelo período de responsável por 20% do aquecimento global
um ano, é em média, 57,7% de CH4 e 34,2 de e, por isso, não deve ser lançado na
CO2. atmosfera (CENBIO, 2008).
É importante destacar que o gás metano é um
gás de efeito estufa com potencial de

Figura 2: Relação linear entre a Concentração de Metano e o Poder Calorífico do Biogás.

Fonte: Baseado em COSTA (2006) e COLDEBELLA et a.l (2006).

Em função da porcentagem com que o Segundo Sganzerla (1983) e Lucas Júnior et


metano participa na composição do biogás, o al. (2003), 1 m3 de biogás pode ser aplicado
poder calorífico deste pode variar de 5.000 a para gerar 1,428 kWh de eletricidade,
7.000 kcal por metro cúbico. Esse poder conforme dados constantes da tabela 5.
calorífico pode chegar a 12.000 kcal por
metro cúbico uma vez eliminado todo o gás
carbônico da mistura.

Tabela 5: Correspondência entre o biogás e outras fontes de energia.

1,8 Kg de l enha seca


910 ml de ácool
610 ml de gasolina
1 m3 de biogás corresponde a 570 ml de querosene
550 ml de óleo diesel
0,45 Kg de GLP
1,428 kwh de energia elétrica
Fonte: LUCAS JÚNIOR et al., 2003.

De acordo com Oliveira (2004), a geração de - Conjunto Gerador Economizador de


energia elétrica, com o uso de biogás como Eletricidade: consiste em um motor de
combustível, pode ser dividida nas seguintes combustão interna ciclo Otto (álcool, gasolina
tecnologias disponíveis no momento: ou diesel) adaptado para o uso do biogás
como combustível, acoplado a um motor
- Conjunto Gerador de Eletricidade: consiste
assíncrono, 2 ou 4 pólos, que passa a gerar
em um motor de combustão interna ciclo Otto
energia ao ser conectado à rede de energia
(álcool, gasolina ou diesel) adaptado para o
elétrica da concessionária local.
uso do biogás como combustível, acoplado a
um gerador de eletricidade, independente da No primeiro caso, o conjunto é independente
rede de energia elétrica da concessionária de rede de energia elétrica local, gerando
local; e energia dentro da propriedade com o sistema
de distribuição interno isolado. No segundo

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25

caso, gerador economizador de eletricidade, A central de produção de biogás do RCG é


o equipamento gera energia somente se composta por dois biodigestores que
estiver conectado à rede de distribuição da recebem cerca de 500kg/dia de estrume, um
concessionária de energia elétrica, deixando misturador (figura 3) e um motor que gera a
de funcionar se a mesma sofrer interrupção, energia elétrica (EXÉRCITO BRASILEIRO,
ou manutenção nas redes elétricas externas. 2010). Numa primeira fase do projeto, a
Neste caso a energia gerada é distribuída na expectativa é de que a energia gerada ilumine
propriedade e na rede externa até o o regimento durante a noite. "Tendo em vista a
transformador mais próximo (OLIVEIRA, economia de luz, a gente mantinha o mínimo
2004). necessário; com isso eu posso manter todas
as luzes acesas, aumentando a segurança do
regimento", afirma o Comandante, coronel
4. BIODIGESTOR EM ORGANIZAÇÃO Souto Martins (AGÊNCIA BRASIL, 2007).
MILITAR
De acordo com o Comandante da
A primeira Organização Militar a utilizar Organização Militar, a economia na conta de
biodigestores, no Brasil, é o 1º Regimento de energia pode chegar a até 20% dos R$ 16 mil
Cavalaria de Guarda (RCG), do Exército em que são gastos mensalmente na unidade.
Brasília, oficialmente conhecido como Numa segunda etapa do programa, a
Dragões da Independência. O projeto dos produção de gás pode abastecer o regimento
biodigestores foi desenvolvido por uma também durante o dia, gerando uma
parceria entre o Ministério de Minas e Energia, economia de luz maior (AGÊNCIA BRASIL,
o Exército e o Instituto de Tecnologia para o 2007).
Desenvolvimento (LACTEC) - laboratório
ligado à Universidade Federal do Paraná
(UFPR) (AGÊNCIA BRASIL, 2007).

Figura 3: Misturador de estrume com água do 1º Regimento de Cavalaria de Guarda (RCG).

Fonte: http://www.youtube.com/watch?v=fkOU4UU6eXg.
O LACTEC tem a intenção de implementar o do regimento, no sul de Londres. A medida
projeto também com a Polícia Militar do está alinhada com a meta do governo para
Estado do Paraná, para geração de energia, reduzir as emissões de carbono (REVISTA
pois atualmente, as fezes dos animais são EXAME, 2010).
utilizadas para compostagem e fertilização do
solo, mas esse é um processo bastante
trabalhoso e de alto custo (PARANÁ ONLINE, 5. METODOLOGIA
2007).
O Estudo foi desenvolvido no Regimento de
Na Inglaterra o estrume dos cavalos da Policia Montada 9 de Julho que é uma
unidade de cavalaria cerimonial do Exército unidade da Polícia Militar do Estado de São
britânico, cerca de 170 animais, terá a partir Paulo, constitui em órgão especial de
de 2011 um novo destino: a produção de execução subordinado ao Comando de
energia para aquecer e iluminar a nova sede Policiamente de Choque atuando na

Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 10


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preservação da órdem pública em operações que são confinados quando em estábulos


especiais rurais e urbanas e controle de (figura 4). Em decorrência de seu porte e de
tumultos. Possui atualmente 3 destacamentos sua mobilidade, os eqüinos de Cavalaria são
na Grande São Paulo, nas cidades de Mauá, utilizados para vários fins, sendo
São Bernardo do Campo e na Academia de insubstituíveis em situações específicas como
Polícia Militar do Barro Branco. no patrulhamento urbano e no controle de
multidões. No entanto, para que exerçam sua
O regimento da cavalaria possui 300 cavalos,
função adequadamente, devem permanecer
com peso médio de 500 kg (CURY, 2010),
próximos ao homem (LEAL, 2007).

Figura 4: Regimento de Cavalaria 9 de Julho e os cavalos nos estábulos.

Foto: Marcelo Fioravanti.


6. RESULTADOS E DISCUSSÃO alvenaria e enterrado no solo, para ocupar
menos espaços. Este modelo tem o custo
6.1. VIABILIDADE TÉCNICA
mais barato em relação aos outros, pois sua
Os tipos de biodigestores mais usados são o cúpula também é feita em alvenaria.
indiano, o chinês e o canadense. O modelo Enquanto o modelo Canadense (figura 5) é
indiano tem sua cúpula geralmente feita de um modelo tipo horizontal, apresentando uma
ferro ou fibra. Nesse tipo de biodigestor o caixa de carga em alvenaria e com a largura
processo de fermentação acontece mais maior que a profundidade, possuindo,
rápido, pois aproveita a temperatura do solo portanto, uma área maior de exposição ao sol,
que é pouco variável, favorecendo a ação das o que possibilita numa grande produção de
bactérias. Ocupa ainda pouco espaço e a biogás e evitando o entupimento. Durante a
construção por ser subterrânea, dispensa o produção de gás, a cúpula do biodigestor
uso de reforços, tais como cintas de concreto. infla porque é feita de material plástico
maleável (PVC), podendo ser retirada. O
Já modelo chinês foi desenvolvido voltado
maior empecilho deste equipamento é o alto
para as pequenas propriedades rurais. É um
custo da cúpula (CASTANHO e ARRUDA,
modelo de peça única, construído em
2008).

Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 10


27

Figura 5: Biodigestor modelo canadense.

Para Lindemeyer (2008), o modelo canadense motor de 4,9l e 55cv de potência a 1800 RPM,
com cobertura de lona de PVC, em tradicionalmente utilizado no veículo F-1000 a
substituição às campânulas (metálica ou de gasolina e um gerador de 60Hz com
fibra de vidro), vem ganhando maior espaço capacidade de gerar 44kWh em regime
em virtude dos menores custos e facilidade continuo com custo de implantação em torno
de implantação (LINDEMEYER, 2008). dos R$ 20.000,00. Desta maneira, o custo
total para implantar o sistema seria de
Desta forma, o modelo sugerido por esse
R$ 44.300,00.
estudo será o canadense, que possui custo
para construção de R$ 16.000,00, acrescido As dimensões do biodigestor foram obtidas a
da manta de PVC flexível modelo 200 m3 e partir dos dados constantes das tabelas 4, 6 e
área de 480 m2 que custa em média 7. Cabendo ressaltar que para dimensionar o
R$ 8.300,00, totalizando R$ 24.300,00. biodigestor optou-se por utilizar a quantidade
Associado a este sistema de tratamento esta mínima de biogás produzido por um eqüino.
o conjunto motor/gerador composto por um

Tabela 6: Dimensionamento do biodigestor.

Fonte: Almeida et al. (2008)

Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 10


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Tabela 7: Estimativa de biogás produzido por eqüinos da cavalaria do Estado de São Paulo.
Número de eqüinos Biogás por animal (m3) Total de biogás produzido (m3)
300 0,36* 108
300 0,79*** 237
300 1,225** 367,5
* quantidade mínima de biogás produzido por um eqüino
** quantidade máxima de biogás produzido por um eqüino
*** média entre quantidade mínima e máxima de biogás produzido por um eqüino

6.2. VIABILIDADE ECONÔMICA O Payback quer dizer retorno do investimento,


ou seja, quanto tempo será necessário para
A análise econômica do empreendimento
que o capital investido inicialmente seja
consiste em fazer estimativas de todo o gasto
recuperado. O Payback pode ser calculado
envolvido com o investimento inicial, operação
conforme a expressão:
e manutenção e receitas geradas durante um
determinado período de tempo.

Onde:
Investimento Inicial = custo do investimento inicial,
em R$
FC = fluxo de caixa ao ano, em R$

É importante registrar que o payback não Em termos de condições técnicas e


considera o valor do dinheiro no tempo operacionais, a ANEEL, através do Decreto
(GITMAN, 2002), normalmente é empregado Federal nº 5.163/04 e pela Norma Técnica
para calcular o retorno de pequenos 167/05, reconheceu e regulamentou a
investimentos, pois é um método simples de geração de energia próxima ao local de
avaliação. consumo. Em julho de 2008, a Agência emitiu
a Resolução nº 1.482, autorizando a
De acordo com Lindemeyer (2008), a
Companhia Paranaense de Energia Elétrica
implantação de uma unidade geradora se
(COPEL) a implantar projeto-piloto que prevê
viabiliza economicamente pelo equivalente
a compra da energia excedente produzida em
em quilowatts/hora evitados no consumo
pequenas propriedades rurais no Paraná a
tradicional. A economia é grande quando, por
partir de dejetos de animais. Com isso abre-
exemplo, a energia gerada é utilizada para
se a possibilidade para pequenos produtores
suprir a demanda durante o horário de ponta
de energia vender para a concessionária local
(entre as 18 e as 21 horas), em que o custo
o excedente de energia produzida e não
da eletricidade chega a sete vezes o valor do
consumida.
horário normal. Utilizar a eletricidade gerada
pela biomassa apenas em determinados A receita com energia elétrica, que servirá
horários só é possível porque essa fonte, sob como fluxo de caixa, para o payback foi
esse aspecto, assemelha-se muito a outra calculada e servirá para economizar no
renovável, a hidreletricidade. Assim como a consumo da Organização Militar. Conforme
energia é armazenada na forma de água nos dados da tabela 8 é possível estabelecer a
reservatórios das usinas hidrelétricas, ela quantidade de energia gerada a produção de
pode ser armazenada na forma de biogás em biogás.
gasômetros.

Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 10


29

Tabela 8: Produção de energia a partir do biogás produzido pelos eqüinos.


Quantidade biogás Fator Kwh Quantidade dia Quantidade mês
3
108 m 1,428 154 kwh 4620 kwh
3
237 m 1,428 338 Kwh 10140 kwh
3
367,7 m 1,428 525 kwh 15750 kwh

Para auferir a receita, foi utilizada a taxa de taxa de câmbio R$ 2,75, podemos obter
R$ 0,22, conforme constante no sítio R$ 13.471,28.
eletrônico da ANEEL. Para 108 m3 é possível
Se considerarmos o valor obtido com os
obter uma redução de R$ 1.016,40 ao mês e
créditos de carbono no payback, o retorno no
R$ 12.196,80. Conforme dito anteriormente,
investimento passa a ser em 39 meses (3
foi somente utilizado o valor mínimo de
anos e 3 meses). Caso seja considerado os
produção do biogás para se obter o cálculo
ganhos com energia e créditos de carbono, o
da receita e estabelecer o payback, estimado
retorno do investimento seria em
em 44 meses (3 anos e 8 meses). Caso
aproximadamente 20 meses.
considerado o valor médio de biogás
produzido, o payback seria menor que 2
anos, e com o valor máximo de biogás
7. CONCLUSÕES
produzido, o payback seria de 1 ano.
Embora haja custos para implantação do
sistema, o uso de biodigestores é: uma
6.3. CRÉDITOS DE CARBONO possível solução para o problema da
destinação dos resíduos dos eqüinos; uma
De acordo com a EMBRAPA (2002), emissões
fonte de energia renovável; e uma fonte de
de metano a partir dos processos digestivos
recursos com a venda dos créditos de
de todos os animais têm sido estimadas entre
carbono, em função da não emissão de
65 e 100 Tg/ano (média de 85 Tg/ano),
metano.
representando cerca de 15% das emissões
totais de metano. As emissões de metano a A viabilidade ambiental do trabalho não foi
partir de dejetos animais, estimadas em 25 Tg apresentada, todavia o atendimento a
(20 - 30 Tg) (IPCC, 1995), estão associadas legislação atinente aos resíduos sólidos; a
com o manejo de animais confinados, onde os eliminação ou redução de esterco, com a
dejetos são manipulados como líquidos. produção de biofertilizante e não considerado
com uma possível fonte de receita para a
A possibilidade de auferir receitas extras
Organização Militar; e a minimização dos
através da venda de créditos de carbono
gases de efeito estufa, por si só já
provenientes do não lançamento de gases do
representam características que justifiquem a
efeito estuda é outro aspecto que contribui
viabilidade ambiental do projeto.
para o aumento no interesse pela tecnologia.
Para obter receitas com créditos de carbono é Não foram levados em consideração a mão-
preciso ter um projeto de Mecanismo de de-obra e os custos para manutenção do
Desenvolvimento Limpo (MDL). sistema, por entender que há pessoal
qualificado para tais atividades. Mesmo
De forma resumida é possível obter ganho
assim, o investimento é considerado baixo
com o metano, a partir da energia gerada ao
para o retorno com a energia elétrica que
mês 4620 kwh, para o valor mínimo de biogás
poderá ser economizada.
produzido. Em um ano estima-se que seja
produzida 55,44 Mwh. Conforme instruções O estudo manteve o valor mínimo de biogás
da United Nations Framework Convention on produzido como referência por entender que
Climate Change, o fator de correção (0,27) há uma gama de atividades, em diversos
aplicado ao valor de 55,44 Mwh/ano, obtemos horários para os eqüinos e, portanto sem uma
14,96 total RCE CO2 (Reduções Certificadas produção de esterco em ciclos homogêneos.
de Emissões).
A dificuldade na obtenção de dados para
Fazendo a conversão de 14,96 x Fator de eqüinos é um fator que limitou o
correção para metano (327,45 Euros), desenvolvimento do trabalho, todavia
obtemos 4898,65 euros, convertendo a uma apresenta lacunas que poderão ser

Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 10


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preenchidas com pesquisa mais ruas do Estado de São Paulo; obtenção de


aprofundada, entre elas: acompanhamento da financiamento para colocação de um
rotina dos animais, sua alimentação e biodigestor nas unidades que possuem
atividades, para que se possa entender o eqüinos em São Paulo para que seja possível
ciclo dos cavalos que prestam atividades nas verificar se o retorno in situ é positivo.

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Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 10


32

Capítulo 3

Romero de Albuquerque Maranhão


Norberto Stori

Resumo: A comunicação ambiental serve para informar e motivar continuamente a


gestão, bem como divulgar os benefícios práticos e econômicos de sua adoção.
Este trabalho tem por objetivo conhecer como ocorre o processo de comunicação
ambiental em uma Organização Militar do Estado de São Paulo, visando o
estabelecimento de uma política de comunicação ambiental que possa contemplar
as partes interessadas, produzindo melhoria no desempenho ambiental da
instituição e ampliando sua responsabilidade socioambiental. A pesquisa conclui
que apesar de existir um processo de comunicação ambiental na Organização
Militar, vinculado a prática de gestão ambiental, torna-se necessária a divulgação
dos resultados dessas práticas, o estabelecimento de uma política de comunicação
mais efetiva e a intensificação dos treinamentos ambientais como ferramenta de um
Programa de Educação Ambiental crítico e construtivo.

Palavras-chave: comunicação, educação; gestão ambiental; organização militar.

Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 10


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1 INTRODUÇÃO vivências, pois a questão ambiental agrega


variados conhecimentos.
A comunicação sobre questões ambientais
atravessa vários níveis de interação – desde Sendo importante registrar que:
uma simples conversa entre agricultores
Comunicação não pode ser simplesmente
sobre culturas biológicas até estudos
confundida com informação, pois informação
integrados de avaliação sobre problemas
pode ser transmitida mecanicamente e até de
globais (ex. buraco na camada de ozônio) –
forma impessoal. Entretanto, informação é
refletindo a complexidade e o caráter holístico
uma excelente matéria-prima para a
do Ambiente. Neste contexto pode-se inferir
comunicação, pois quem está informado está
que a comunicação ambiental pode tomar a
bem mais preparado para o diálogo, está em
forma de um discurso mediado, desenvolvido
melhores condições para entender e confiar
para facilitar a negociação e decisão sobre
no interlocutor, ainda mais se houver a
problemas ambientais concretos; o debate
confiança de que o interlocutor passou todas
sobre a preservação de uma paisagem
as informações necessárias e não apenas as
natural; ou a discussão sobre a relevância
que lhe interessavam, pois, nesse caso, ainda
estratégica de determinados impactos
haverá manipulação e não uma atitude nobre
ambientais (COPPOLA, 2000).
com o intuito de convocar o outro para o
Desta forma, a comunicação ambiental vem diálogo ou ação cooperativa e comunitária
se constituindo como um amplo campo de (SILVA, 1997).
práticas e estudos ainda pouco explorado na
Segundo a norma ISO 14.063 (2006) a
literatura acadêmica brasileira, na qual
comunicação ambiental é o processo de
predominam pesquisas empíricas sobre
partilha de informação para construir
jornalismo ambiental e o papel da mídia na
confiança, credibilidade e parcerias, para
educação ambiental (AGUIAR e CERQUEIRA,
sensibilização, e instrumento na tomada de
2012).
decisão. Os processos utilizados e o
Inseridos na maioria dos Sistemas de Gestão conteúdo da comunicação variam de acordo
Ambiental (SGA), especialmente na norma com os objetivos e as circunstâncias da
ISO 14.001 (1996), estão os requisitos sobre a organização e deve ser construído tendo
comunicação ambiental. De acordo com como base informação substantiva. Para
Campos (2007), a comunicação ambiental é o assegurar o sucesso dos processos de
processo de compartilhar informações sobre comunicação ambiental, é importante para a
temas ambientais entre organizações e suas organização considerar-se parceira
partes interessadas, visando construir responsável na sociedade e corresponder às
confiança, credibilidade e parcerias, para expectativas ambientais das partes
conscientizar os envolvidos, e então, utilizar interessadas.
as informações no processo decisório.
Assim, Moreira (2001) defende que a
Para Sammalisto e Brorson (2008) treinamento comunicação ambiental é importante nos
e comunicação são elementos essenciais processos que regem as relações
para a adoção de Sistemas de Gestão corporativas e a comunicação com seu
Ambiental (SGA). De acordo com os autores público externo e interno, bem como a
a comunicação serve para informar e motivar obtenção de informações úteis à tomada de
continuamente a gestão, e colaboradores decisão em gestão ambiental participativa.
internos e externos acerca forças motrizes do
Para García e Santiso (2010) comunicação
SGA, bem como demonstrar os benefícios
ambiental é um processo de gestão integral e
práticos e econômicos de sua adoção.
responsável, envolvendo antecipação e
Desta forma Sammalisto e Brorson (2008) satisfação das necessidades do receptor, do
registram que as informações podem ser público e da sociedade, de uma forma
disseminadas através dos Programas de integrada e sustentável.
Educação Ambiental (PEA), com a finalidade
Neste sentido, o presente trabalho tem por
de possibilitar aos indivíduos a aquisição de
objetivo conhecer como ocorre o processo de
conhecimentos, valores, habilidades e
comunicação ambiental em uma Organização
experiências para participar da solução dos
Militar do Estado de São Paulo, visando o
problemas ambientais; possibilitar a mudança
estabelecimento de uma política de
de atitudes para o desenvolvimento
comunicação ambiental que possa
sustentável; e integrar diferentes saberes e
contemplar as partes interessadas,

Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 10


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produzindo melhoria no desempenho minimizar e compensar os impactos


ambiental da instituição e ampliando sua ambientais na comunidade próxima do local
responsabilidade socioambiental. de implantação do empreendimento. Além
disso, a comunicação acontece de forma
desorganizada e não planejada.
2 REVISÃO DA LITERATURA
Para alguns autores, a comunicação
Os problemas ambientais estão cada vez ambiental precisa ser planejada, desenhada e
mais presentes na vida dos cidadãos. A gerenciada estrategicamente, sem que isso
preocupação com o planeta é tema abordado signifique que os únicos objetivos a alcançar
freqüentemente. Porém, a falta de sejam os corporativos (FERNANDES et al.,
conscientização e até descaso de grande 2014).
parte da população com ações efetivas,
De acordo com Lara (2004), a comunicação
dificulta a solução e a melhoria de grande
ambiental tornou-se nos últimos anos parte
parte desses problemas. Diante disso, as
estratégica e de grande relevância dentro do
interfaces entre comunicação e meio
planejamento da comunicação corporativa
ambiente ganham importância para o fomento
das empresas. Entre seus objetivos mais
de ações conscientizadoras (MORALES et al.,
importantes, está a otimização dos resultados
2014).
obtidos a partir da instalação de sistemas de
A comunicação ambiental é um dos gestão ambiental nas indústrias.
elementos - chave de estratégias eco-
orientadas, ao lado de fatores como a eco-
eficiência, os sistemas de controle ambiental, 3 METODOLOGIA
entre outros fatores que têm se tornado uma
O presente trabalho é de natureza estudo
questão de competitividade nas empresas
exploratório-interpretativa, onde se buscou
(ROTONDARO e TURATTI, 2005).
analisar se ocorre e como ocorre o processo
Para Andreoni et al. (2008), a relevância da de comunicação ambiental utilizado para a
comunicação ambiental é justificada, entre disseminação das informações em uma
outros aspectos, pela necessidade de se instituição militar.
utilizar termos, expressões e vocábulos, sejam
O estudo classifica-se também em pesquisa
os mesmos científicos ou não, mais
bibliográfica, pois conforme afirmou Martins
adequados ao contexto ambiental - global e
(2000) “a leitura é uma das maneiras mais
local - e eficazes no sentido de produzirem
utilizadas para se conhecer a realidade”.
uma reação ou sentimento na massa que
Procurou-se recolher, selecionar, analisar e
conduza à ação, à manifestação, à
interpretar as contribuições teóricas já
transformação. Pois, o uso aleatório ou
existentes, de modo a aperfeiçoar os
malicioso de um discurso específico pode
conhecimentos dos autores, com vistas a
significar o velamento de determinadas
garantir o sucesso da aplicação prática na
questões ou problemas ambientais, através
instituição.
de eufemismos, por exemplo.
Os estudos de casos (descritivos) não
A prática da comunicação ambiental
precisam ficar limitados a uma única fonte de
pressupõe a utilização dos fundamentos
evidências, quanto maior a variedade maior a
comunicacionais a favor do exercício da
confiabilidade fornecida pelo estudo, pois as
cidadania planetária, que estimule ações
fontes de evidências são revisadas e
transformadoras pela sustentabilidade do
analisadas em conjunto, de forma que as
nosso meio (LIMA et al., 2013).
descobertas do estudo de caso sejam
Fernandes et al. (2014), registram em seu oriundas da convergência das informações
estudo que a comunicação é implementada destas diferentes fontes (YIN, 2001).
de forma instrumental, pragmática,
Para Yin (2001), um estudo de caso é uma
direcionada para a resolução de problemas
investigação empírica que investiga um
pontuais e assume um caráter informativo e
fenômeno contemporâneo dentro de um
de divulgação de mensagens de interesse
contexto de vida real, especialmente quando
das empresas. Outra questão apontada pelos
os limites entre o fenômeno e o contexto não
autores diz respeito à abrangência da
estão claramente definidos. O estudo de caso
comunicação, que não permeia todo o
representa uma maneira de se investigar um
processo de licenciamento ambiental, se
restringindo somente a contribuir para

Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 10


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tópico empírico, através de procedimentos SP, e sua missão é coordenar o esforço de


específicos. integração das Forças Armadas com as
indústrias, as Instituições de Ensino Superior e
Diante disto, esta pesquisa caracteriza-se
as Instituições de Pesquisas do Estado de
também como estudo de caso, pois esta tem
São Paulo, em áreas acadêmicas, científicas e
como objetivo primordial investigar um
tecnológicas, portanto na área administrativa.
fenômeno, dentro do contexto, de um
Atualmente, servem nessa OM 16 militares e
ambiente Militar situado na cidade de São
50% desse efetivo respondeu voluntariamente
Paulo – SP. Para atingir o objetivo almejado
o questionário.
foi aplicado um questionário aos militares que
servem na Organização Militar (OM) com o Os militares que responderam o questionário
intuito de conhecer se ocorre comunicação são todos do sexo masculino (100%) e com
ambiental e de que forma ocorre, além disso, idade compreendida entre 26 – 50 anos,
buscou-se analisar a percepção que os distribuídos de acordo com os dados
mesmos possuem do seu ambiente de apresentados na figura 1 e nível de
trabalho. escolaridade majoritariamente com o Ensino
Médio completo, conforme gráfico da figura 2.
É importante destacar que a Organização
Militar em estudo vai ser denominada de OM-

Figura 1. Distribuição etária dos militares da OM. Figura 2. Nível de escolaridade dos militares
da OM.

4 ANÁLISE DOS RESULTADOS E se há algum processo em seu local de


DISCUSSÃO trabalho, 75% dos militares afirmaram que
participaram em outros locais e 25% em casa,
Alguns militares que responderam o
portanto registram que não há comunicação
questionário já serviram em Organizações
ambiental na OM-SP (fig. 4). Mas, é preciso
Militares que realizam processos de
investigar se as empresas e governos já
conscientização ambiental, todavia, quando
mudaram de atitude e adotaram políticas
indagados sobre a participação em tais
ambientais sérias, contudo não investiram
processos, somente 49% registraram que já
adequadamente na divulgação de seus
participaram (fig. 3). Contudo, 100% dos
resultados e continuam sendo vistos como
militares mencionou que os processos de
vilãos do meio ambiente (BERNA, 2011).
conscientização são importantes para
mudança de mentalidade, corroborando com Além disso, é preciso entender se as ações
Berna (2011), ao afirmar que a opinião pública de gestão ambiental não são visíveis para seu
está cada vez mais consciente e sensível às público interno ou se não conseguem atingir
questões ambientais e cobra das empresas, as expectativas dos militares por intermédio
políticos e governos cada vez maior dos treinamentos e campanhas de
responsabilidade ambiental. comunicação ambiental.
Buscando conhecer em que local o militar
participou do processo de conscientização e

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Figura 3. Militares da OM-SP que já Figura 4. Local em que participou de


participaram de processo de processo de conscientização.
conscientização ambiental.

Com essa concepção o estudo investigou, estações de trabalho com microcomputador,


sabendo que a OM-SP é do setor em média uma para cada militar e, portanto
administrativo, qual a percepção dos militares apresenta consumo de energia razoável,
em relação ao consumo de água, energia, conforme respondido por 74% dos militares,
papel e material descartável. Em relação ao pois as máquinas são novas ou semi-novas e
consumo de água 50% dos militares (fig. 5) com configuração para economizar energia
registraram que seu consumo no local de caso não esteja em uso.
trabalho é muito baixo ou baixo, em
Além disso, é preciso registrar que apesar
consonância com a atividade exercida
dos militares não mencionarem, há cartazes
estritamente administrativa.
afixados próximos aos interruptores com a
Quanto ao consumo de energia (fig. 6), é seguinte expressão: “a luz que você apaga, a
preciso mencionar que a OM possui diversas organização não paga”.

Figura 5. Percepção dos militares quanto ao Figura 6. Percepção dos militares quanto ao
consumo de água. consumo de energia.

Em relação ao consumo de papel 37% dos Já em relação ao uso de material descartável,


militares (fig. 7) mencionaram que apresentam 50% dos militares (fig. 8) disseram que é
alto consumo e 37% registraram que possuem muito baixo ou baixo e, portanto coerente com
baixo. Esse antagonismo se deve as tarefas o horário de expediente dos militares na
exercidas pelos militares na OM-SP, pois nem instituição e suas atividades laborais que não
todos lidam com a confecção de documentos, exigem consumo excessivo de água no caso
relatórios, reprodução de manuais, livros, dos copos descartáveis, bem como toalhas
apostilas, dissertações ou teses. de papel.

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Figura 7. Percepção dos militares quanto ao Figura 8. Percepção dos militares quanto ao
consumo de papel. consumo de material descartável.

Ainda com o intuito de verificar a percepção acham que é razoável (fig. 10), sugerindo que
dos militares quanto à geração de resíduos plásticos, alumínios e vidros podem ter origem
orgânicos no local de trabalho, ficou evidente não da atividade laboral, mas de consumo
que 62% geram muito pouco e 25% pouco particular, como refrigerantes, embalagens
(fig.9). para conservar comida, bebidas energéticas
e produtos de higiene pessoal.
Quanto à geração de resíduos recicláveis,
49% dos militares acreditam ser baixo e 25%

Figura 9. Percepção dos militares quanto à Figura 10. Percepção dos militares quanto à
geração de resíduos orgânicos. geração de resíduos recicláveis.

Em contrapartida, em função da missão da a geração de papel na Organização e 13%


OM-SP, a geração de papel apresenta consideraram alto os resíduos de papel
números compatíveis com tal atividade, pois gerado (fig. 11).
62% dos militares registraram que é razoável

Figura 11. Percepção dos militares quanto à geração de papel.

Buscando subsidiar a elaboração de um inserir a pessoa e suas relações no contexto


Programa de Educação Ambiental (PEA), da questão ambiental (fig. 12). Tal situação
investigou-se a relação que os militares corrobora com os dados obtidos por Busato &
estabelecem entre os diferentes aspectos do Arigoni (2008), ao pesquisarem a opinião dos
cotidiano com a questão ambiental. Observa- funcionários de uma fábrica de cimento em
se que a percepção dos militares é, ainda, Minas Gerais em relação a participação dos
descritiva dos processos da natureza, sem mesmos na questão ambiental.

Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 10


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Figura 12. Relação entre diferentes aspectos do cotidiano com a questão ambiental.

Enquanto isso, ao serem perguntados sobre a Essa postura também é encontrada no


quem compete resolver os problemas trabalho realizado por Busato & Arigoni
ambientais da sua realidade, os militares se (2008).
incluem na construção das soluções (fig. 13).

Figura 13. Opinião acerca da competência para solucionar os problemas ambientais.

Essa visão mostra que, apesar de não se informando sobre como estão gerenciando o
perceber como parte da questão ambiental, meio ambiente. Ao fazerem isso, podem
há certa disposição de participar na solução contribuir para a formação de consciência
dos problemas. Além disso, ao incluir-se ambiental na população e mesmo dar o
como um dos agentes de transformação para exemplo para outros, estimulando novos
a construção da sustentabilidade, o militar investimentos em meio ambiente, num efeito
admite enxergar-se como parte do problema. cascata. Qualquer plano ou campanha de
Comunicação Ambiental deve estar baseado
Com isso, foi perguntado aos militares se há
no desejo sincero em se comunicar com seus
no local de trabalho algum processo de
diversos públicos. Adotar o silêncio como
conscientização ambiental e 87%
estratégia para se proteger de problemas,
responderam que não, apenas 13% disseram
pode até dar certo em alguns casos, mas,
que sim (fig. 14) e exemplificaram com a
quando não dá, pode ser tarde demais ou
explicação de que existem cestos para coleta
custar muito mais caro.
de material reciclado – papel e plástico.
Interessante registrar que os militares não O autor também ressalta que só democratizar
mencionam os cartazes e avisos para a informação ambiental pode não ser
economizar energia. Ou seja, não suficiente para produzir as mudanças
conseguem perceber que tais informativos necessárias de opinião. Pois, a simples
seja um processo de conscientização veiculação de informação ambiental
ambiental. desassociada de um compromisso com a
cidadania crítica e participativa como defende
Isso demonstra que a OM-SP necessita
a educação ambiental, pode agravar a
ampliar seus processos de comunicação,
degradação do meio ambiente (BERNA,
para que seu público possa perceber as
2011).
iniciativas já em andamento na instituição.
Pois, para Berna (2011), as organizações têm Verificou-se que dentre as formas de poluição
o direito e o dever de se comunicarem mais comum no local de trabalho (fig. 15)
adequadamente com o público interessado, estão à poluição sonora com 62% e a

Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 10


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poluição visual com 38%, em virtude da falta telefone e outros sons. Quanto à poluição
de segregação dos setores de trabalho e visual o amontoado de papel nas mesas é o
conseqüente ruído produzido pelo que mais incomoda alguns entrevistados.
atendimento ao público, conversas ao

Figura 14. Campanha de conscientização Figura 15. Poluição mais comum no ambiente de
ambiental no local de trabalho. trabalho.

5 CONCLUSÕES ambientais adversos decorrentes do consumo


e geração de resíduos dentro da instituição.
De acordo com Leff (2001), o ambiente
emerge como um saber reintegrador da Além disso, com os resultados obtidos nesta
diversidade, de novos valores éticos e avaliação preliminar sugerem a intensificação
estéticos e dos potenciais sinergéticos da comunicação ambiental através de jornais
gerados pela articulação de processos periódicos internos, reuniões diárias, página
ecológicos, tecnológicos e culturais. O saber da intranet que proponham e relatem as
ambiental ocupa seu lugar no vazio deixado ações de melhoria contínua no que diz
pelo progresso da racionalidade científica, respeito às questões de consumo sustentável,
como sintoma de sua falta de conhecimento e geração e disposição de resíduos, bem como
como sinal de um processo interminável de campanhas para reduzir o consumo de água
produção teórica e de ações práticas e energia.
orientadas por uma utopia: a construção de
Esta pesquisa teve como objetivo conhecer se
um modelo sustentável, democrático,
há um processo de comunicação ambiental
igualitário e diverso.
em uma Organização Militar do Estado de São
Para que possamos ampliar o saber ambiental Paulo, visando o estabelecimento de uma
é necessário ampliar e divulgar as política de comunicação ambiental que possa
ferramentas de comunicação da Organização. contemplar as partes interessadas,
De acordo com Maranhão (2011) os seguintes produzindo melhoria no desempenho
canais poderão ser utilizados como forma de ambiental da instituição e ampliando sua
atingir eficácia das comunicações: intranet, responsabilidade socioambiental.
informativos internos, quadros murais, caixas
Assim, a pesquisa conclui que apesar de
de sugestões, mala direta eletrônica para os
existir um processo de comunicação
colaboradores.
ambiental, vinculado a prática de gestão
Neste contexto, o estudo sugere a ambiental torna-se necessária a divulgação
implantação de uma política de comunicação dos resultados dessas práticas, o
ambiental local e de um Programa de estabelecimento de uma política de
Educação Ambiental, vinculados ao Sistema comunicação mais efetiva e a intensificação
de Gestão Ambiental, que resultem em ações dos treinamentos ambientais como ferramenta
concretas para a redução de impactos de um Programa de Educação Ambiental
crítico e construtivo.

Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 10


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Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 10


41

Capítulo 4

Romero de Albuquerque Maranhão


Norberto Stori

Resumo: As Forças Armadas apresentam características comuns às demais


organizações da administração pública, mas também especificidades que lhe são
peculiares, como as operações militares. Ao desenvolverem práticas de
sustentabilidade e responsabilidade socioambiental utilizam estratégias visando à
inserção em espaços sociais não comumente ocupados por eles. A presente
pesquisa tem como objetivo mapear o interesse das Organizações Militares da
Marinha do Brasil a respeito da temática socioambiental, por meio da análise das
práticas socioambientais e representações sociais dos militares. A análise tem
como fio condutor a Sociologia Reflexiva de Pierre Bourdieu e as contribuições
teóricas de Mary Douglas sobre representações sociais. Os resultados obtidos
indicam que as práticas socioambientais realizadas pelos militares possuem
enfoques filantrópicos e ambientais, e estão relacionadas às atividades isoladas em
algumas organizações militares, não sendo a totalidade da Força Armada. A
pesquisa conclui que a falta de divulgação e mensuração das atividades
socioambientais são entraves para o desenvolvimento sustentável.

Palavras-chave: Sustentabilidade; Responsabilidade Socioambiental; Forças


Armadas.

Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 10


42

1. INTRODUÇÃO A administração pública, principalmente as


Forças Armadas (FA), tem sido
A preocupação ambiental vem sendo tratada
freqüentemente omitida nas pesquisas sobre
no âmbito internacional desde a realização da
desenvolvimento sustentável e
Conferência de Estocolmo em 1972,
responsabilidade socioambiental, o que gera
ganhando destaque na Conferência das
uma lacuna na literatura cientifica. Todavia, a
Nações Unidas para o Meio Ambiente e
administração pública além de ser uma
Desenvolvimento (RIO-92), onde a proposta
grande consumidora de bens e serviços, é
da sustentabilidade foi consolidada como
responsável por colocar em prática as
diretriz para a mudança de rumo no
políticas públicas.
desenvolvimento, com a aprovação da
Agenda 21. Desde então, o conceito de As FA brasileiras são constituídas por
desenvolvimento sustentável passou a ser um Marinha, Exército e Aeronáutica, instituições
referencial para todos os países (COSTA et nacionais permanentes e regulares que
al., 2012). possuem missão definida pela Constituição
Federal. As três armas são encarregadas da
Na Conferencia de Estocolmo foi estabelecida
defesa nacional externa e podem realizar
uma agenda ambiental patrocinada pelo
intervenções internas para garantir a lei e a
Programa das Nações Unidas para o Meio
ordem.
Ambiente (PNUMA). Foi uma agenda
multilateral que determinou as ações para as De acordo com a Lei Complementar nº 97/99,
décadas seguintes a fim de solucionar os as FA podem, ainda, realizar ações
problemas ambientais vigentes: a proteção da subsidiárias que completam o esforço
fauna silvestre, a contaminação e o tratamento nacional de desenvolvimento, como por
das águas, a contaminação do ar, a exemplo: apoio de saúde às comunidades
eliminação e tratamento dos resíduos sólidos. ribeirinhas da Amazônia pela Marinha,
construção de ferrovias pelo Exército, e o
A RIO 92 ou ECO 92 veio reforçar os
serviço de Correio Aéreo Nacional (CAN) pela
princípios do desenvolvimento sustentável e
Aeronáutica (COSTA, 2005).
possibilitou a emissão de importantes
declarações e tratados firmados pelos 113 Ao desenvolverem práticas de
países participantes. Além disso, motivou a sustentabilidade e responsabilidade
incorporação de temas da proteção ambiental socioambiental, as FA utilizam estratégias
em diversos setores e segmentos da visando à inserção em espaços sociais não
sociedade brasileira, dentre eles, as Forças comumente ocupados por elas. A presente
Armadas (FA) do Brasil. pesquisa tem como objetivo mapear o
interesse das Organizações Militares da
De acordo com Simões (2010), o Estado
Marinha do Brasil a respeito da temática
brasileiro, de uma forma geral, vem
socioambiental, por meio da análise das
desenvolvendo projetos de responsabilidade
práticas socioambientais e representações
social, sem prejuízo quanto à objetividade da
sociais dos militares.
missão institucional de seus órgãos. Neste
contexto Jacobi (2005) registra que a O artigo está organizado, além desta
incorporação do marco ecológico nas introdução, em uma base teórica sobre
decisões e instituições políticas implica desenvolvimento sustentável,
reconhecer que as conseqüências ecológicas responsabilidade social e responsabilidade
do modo como a população utiliza dos socioambiental. Em seguida apresenta os
recursos do planeta estão associadas ao procedimentos metodológicos, os dados da
modelo de desenvolvimento. pesquisa, a análise dos resultados e por
último as considerações finais do estudo.
No âmbito governamental a sustentabilidade
pode ser um diferencial da nova gestão
pública, onde os administradores passam a
2. DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL
serem os principais agentes de mudança, por
intermédio de pequenas ações diariamente, A preocupação pública pelos problemas de
como por exemplo, o uso eficiente da água e deterioração ambiental vem crescendo desde
da energia, a coleta seletiva, o consumo meados da década de 1960, quando começa
responsável de produtos e serviços, entre a revolução ambiental norte-americana,
outros, contribuem para este processo. expandindo-se para os outros países
desenvolvidos na década de 1970 e
culminando na década de 1980, quando

Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 10


43

atinge os países da América Latina e os uma nova postura que leve em conta a ética
demais continentes em desenvolvimento em relação à preservação ambiental. Apesar
(VIOLA, 1992). das críticas ao conceito de desenvolvimento
sustentável, devido ainda não se ter uma
Como resultado dessa preocupação, emerge
definição precisa deste, trata-se de um
e desenvolve-se uma série de iniciativas de
avanço, uma vez que considera a complexa
diversos atores sociais, que representam o
relação entre desenvolvimento e o meio
movimento ambientalista global, o qual, com o
ambiente numa variedade de áreas,
passar do tempo, se transformou num
destacando a sua pluralidade, diversidade,
movimento multissetorial capilarizado. Isto
multiplicidade e heterogeneidade (JACOBI,
permitiu que o antigo debate dos anos 1970,
2006).
que de certa forma tinha pensado
isoladamente as questões ambientais e de Tendo em vista as dificuldades em definir e
desenvolvimento, fosse substituído por outro interpretar a expressão desenvolvimento
mais convergente e otimista, preocupado sustentável, nessa pesquisa adotaremos
fundamentalmente com a questão de como como referência o conceito de
alcançar um desenvolvimento sustentável desenvolvimento de Amartya Sen - “o
(VIOLA e LEIS, 1995). desenvolvimento como liberdade” -, o
aumento da capacidade de as pessoas
A I Conferência Mundial das Nações Unidas
fazerem escolhas, inclusive em relação ao
sobre Meio Ambiente, realizada em Estocolmo
meio ambiente. Para o autor, o
(1972), estabelece a origem de um processo
“desenvolvimento tem que estar relacionado,
de gestão planetária dos problemas
sobretudo, com a melhoria da vida que
ambientais — como a criação do Programa
levamos e das liberdades que desfrutamos.
das Nações Unidas Para o Meio Ambiente —
Expandir as liberdades que temos razão para
ou de âmbito nacional ou regional, no qual a
valorizar não só torna nossa vida mais rica e
poluição urbana, industrial, de rios e oceanos,
desimpedida, mas permite que sejamos seres
entre outras, passa a mobilizar não só
sociais mais completos, pondo em prática
especialistas, mas diferentes agrupamentos
nossas volições, interagindo com o mundo em
sociais originários de estratos de
que vivemos e influenciando esse mundo”
comunidades locais.
(SEN, 2000:29).
A proposição de que é necessário e possível
Neste contexto desenvolvimento sustentável é
intervir e direcionar o processo de
um processo de transformação no qual a
desenvolvimento econômico, de modo a
exploração dos recursos, a direção dos
conciliar eficiência econômica, desejabilidade
investimentos, a orientação do
social e prudência ecológica, passa a ter uma
desenvolvimento tecnológico e a mudança
aceitação generalizada, sendo este processo
institucional se harmonizam e reforçam o
denominado desenvolvimento sustentável.
potencial presente e futuro, a fim de atender
Entretanto, de forma previsível, existem as às necessidades e aspirações sociais
divergências, principalmente no que concerne (CMMAD, 1991). Nesse sentido, a palavra
aos mecanismos dessa intervenção. Tais sustentabilidade ganha uma dimensão maior,
divergências estão relacionadas e se torna um dos principais temas de
especialmente ao entendimento do aparente discussão no dia-a-dia das empresas e na
paradoxo entre crescimento econômico e academia.
meio ambiente. As dificuldades desse
De acordo com Rezende e Santos (2006), a
entendimento revelam-se não apenas nas
adesão das empresas à sustentabilidade,
incontáveis definições de desenvolvimento
equivale a um compromisso com a
sustentável, mas, principalmente, nas
integridade do meio ambiente e com os
diferenças de interpretação de uma mesma
princípios da responsabilidade social. Isso diz
definição. No Relatório Brundtland (CMMAD,
respeito à aderência das organizações a um
1991:46), por exemplo, ele é definido como
projeto de comprometimento social.
“aquele que atende às necessidades do
presente sem comprometer a possibilidade
de as gerações futuras atenderem a suas
3. RESPONSABILIDADE SOCIAL
próprias necessidades”.
O princípio da responsabilidade social
A expressão desenvolvimento sustentável
baseia-se na premissa de que as
reforça a relação entre economia, tecnologia,
organizações são instituições sociais que
sociedade e política chamando atenção para

Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 10


44

existem com autorização da sociedade, sociedade de que as organizações participem


utilizam os recursos da sociedade e afetam a voluntariamente de atividades sociais não
qualidade de vida da sociedade exigidas pela lei ou pela ética, através da
(MAXIMIANO, 2006). filantropia.
Na revisão do conceito de responsabilidade O termo filantropia, de origem religiosa, trata a
social, Godói-de-Souza et al.(2009) concluem ideia de que a qualidade de vida da
que primeiramente a responsabilidade social sociedade depende do grau com o qual cada
organizacional era sinônimo de caridade, um de seus integrantes genuinamente se
visão influenciada pelo aporte das entidades preocupa com o bem-estar de seu próximo. A
religiosas. Com o transcorrer do tempo, as filantropia seria a ação ou a atitude daqueles
práticas de responsabilidade social se que são solidários, expressando-se sob a
transformaram em formas mais assertivas de forma de doação ou caridade (FERREIRA,
pensar os problemas sociais, o que foi 1977).
conceituado como filantropia organizada.
Já Rothgiesser (2004) define filantropia como
Assis (2010) registra que após a II Guerra investimento de uma empresa em ações
Mundial a discussão sobre responsabilidade pontuais periódicas, como campanhas de
social é direcionada às definições de arrecadação de bens e alimentos, assim
responsabilidade da organização junto à como as doações de ordem material e/ou
sociedade, através do interesse legislativo em financeira. Comumente não obedecem a um
regulamentar as corporações. As crises processo sistematizado de atuação social e
econômicas, a guerra e as degradações sim reativo, em momentos de maior demanda
ambientais atribuídas ao processo produtivo da sociedade.
levaram a sociedade a pressionar as
Neste estudo adotaremos filantropia como
organizações que, de alguma forma, estavam
uma ação de caridade dirigida à comunidade,
ligadas a estes fatores. Pressões políticas e
desvinculada do planejamento estratégico da
públicas favorecem a concepção mais
empresa. A responsabilidade social preconiza
concreta do conceito de responsabilidade
que as empresas possuem deveres para com
social.
a sociedade (SANTOS, 2003).
Archie Carroll definiu, em 1979, que a
De acordo com o Instituto Ethos,
responsabilidade social empresarial abrange
responsabilidade social é uma forma de
a expectativa econômica, legal, ética e
gestão que se define pela relação ética e
discricionária (filantrópica) que a sociedade
transparente da organização com todos os
tem da organização em um determinado
públicos com os quais ela se relaciona e pelo
momento no tempo (CARROLL; BUCHHOLTZ,
estabelecimento de metas compatíveis com o
2006, p.35). Nesse contexto, Carroll dividiu a
desenvolvimento sustentável da sociedade,
responsabilidade social da organização em
preservando recursos ambientais e culturais
quatro dimensões (CARROLL; BUCHHOLTZ,
para as gerações futuras, respeitando a
2006, p.35-37):
diversidade e promovendo a diminuição das
- A responsabilidade econômica envolve as desigualdades sociais (GONÇALVES, 2006,
obrigações da organização em produzir bens p.5).
e serviços que a sociedade deseja e vendê-
Para Young (2004), as organizações têm co-
los a um preço justo, mas que haja lucro
responsabilidade na solução dos problemas
suficiente para a perpetuação da empresa em
sociais e ambientais, pois têm poder político e
longo prazo e ampliação dos ganhos dos
habilidade de mobilizar recursos financeiros e
investidores.
tecnológicos para desenvolverem ações que
- A responsabilidade legal corresponde às podem ser replicadas pelos outros atores
expectativas da sociedade de que as sociais. Nesse sentido emerge a
organizações cumpram suas obrigações de responsabilidade socioambiental.
acordo com as legislações existentes.
- A responsabilidade ética refere-se a que as
4. RESPONSABILIDADE SOCIOAMBIENTAL
organizações tenham um comportamento de
acordo com as normas, padrões e Responsabilidade Socioambiental pode ser
expectativas da sociedade. definida como “a integração voluntária de
preocupações sociais e ambientais por parte
- A responsabilidade discricionária
das empresas nas suas operações e na sua
(filantrópica) reflete a expectativa da

Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 10


45

interação com outras partes interessadas”, ou Pierre Bourdieu e as contribuições teóricas de


seja, as empresas decidem, numa base Mary Douglas sobre representações sociais.
voluntária, contribuir para uma sociedade
Para Bourdieu, o cientista possui um grande
mais justa e um ambiente mais limpo (ATP,
papel na sociedade. Cabe a ele destruir as
2011).
pré-noções e o senso comum, buscando
As organizações que se envolvem em elaborar novas maneiras de compreender
projetos de responsabilidade socioambiental suas instituições, suas relações, seu modo de
estão dispostas a integrar os valores do vida, sua sociedade e a si próprio.
desenvolvimento sustentável na sua gestão.
A sociologia reflexiva de Bourdieu significa a
Deste modo, as organizações “responsáveis”
constante vigilância em relação ao cientista
não trabalham apenas para satisfazer as suas
como ser produtor de conhecimento, em
próprias necessidades, mas também para o
relação ao próprio campo científico e ao
bem-estar da sua geração e das gerações
objeto de estudo, que deve ser trabalhado em
futuras (ATP, 2011).
todas as suas nuances até a exaustão.
Ser socialmente responsável não se restringe
Nesta pesquisa serão considerados os
ao cumprimento de todas as obrigações
conceitos de “espaço social”, “campo” e de
legais, implica ir mais além através de um
habitus. Bourdieu afirma que as variáveis não
maior investimento em capital humano, no
devem ser analisadas isoladamente, mas
ambiente e nas relações com outras partes
consideradas dentro de um amplo contexto,
interessadas e comunidades locais (ATP,
percebendo as relações existentes. Uma
2011).
pesquisa que ignora “o mundo relacional”
A Responsabilidade Socioambiental pode ser possui limitações, já que o “real é relacional”.
considerada uma ferramenta para o De acordo com Bourdieu, “Se é que o real é
desenvolvimento humanitário, além de, uma relacional, pode acontecer que eu nada saiba
oportunidade de negócios na esfera de uma instituição acerca da qual se julga
empresarial, incitando o uso gradual das saber tudo, porque ela nada é fora das suas
organizações em prol da sociedade. Na relações com o todo.” (BOURDIEU, 1989, p.
esfera das organizações não empresariais, o 31).
trabalho social, em uma primeira análise, não
A noção de campo, por sua vez, busca
estaria relacionado à oportunidade de
englobar – para além da esfera da sociedade
converter as demandas sociais em
– o campo de produção (de mercadorias ou
oportunidade de negócio, visto que o objetivo
de cultura) como espaço social de relações,
principal delas não é o lucro. A
como um universo relativamente autônomo de
responsabilidade socioambiental estaria,
relações práticas. Já o habitus é um conjunto
neste caso, relacionada ao voluntarismo,
de conhecimentos adquiridos, são
direcionado a projetos sociais, projetos
disposições incorporadas ao longo do tempo.
construtivos, cujo compromisso ético, moral e
Através deste conceito Bourdieu desejava
social coadunam para o melhoramento da
evidenciar as capacidades criadoras, ativas,
imagem de uma organização. Além disso, o
inventivas do habitus e do agente, que não
voluntarismo usufrui de princípios os quais
seriam contempladas pela noção comum de
asseguram a capacidade de assimilar o
“hábito”. Este poder criador não é o de um
crescimento e processá-lo de forma lógica e
espírito universal ou de uma natureza, mas
coerente, agregando valor ético e moral
sim o de um agente em movimento, em ação.
(MIRANDA et al., 2013).
Na lógica de Bourdieu há uma relação de
As práticas sustentáveis podem ser mão dupla entre as estruturas objetivas
direcionadas para o público interno e para o (campo) e as estruturas subjetivas (habitus)
público externo, desta forma, a organização (BOURDIEU, 1989; BOURDIEU, 2002a;
estaria não somente agindo em prol dos seus BOURDIEU, 2002b; BOURDIEU, 2004).
funcionários, mas da sociedade local,
A Sociologia Reflexiva de Bourdieu serve de
conseqüentemente contribuindo para o
base para identificar e analisar as variáveis
desenvolvimento sustentável.
envolvidas na construção do discurso dos
militares a respeito da responsabilidade
socioambiental e sustentabilidade, além de
5. METODOLOGIA
seu habitus em relação às questões
A análise dos dados desta pesquisa tem ambientais.
como fio condutor a Sociologia Reflexiva de

Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 10


46

Acrescido as reflexões propostas por Brasileiro (EB) e pela Força Aérea Brasileira
Bourdieu será levado em consideração, (FAB), instituições nacionais, permanentes e
também, as contribuições de Mary Douglas regulares que têm como missão constitucional
que auxiliará na busca pela compreensão de zelar pela defesa da Pátria, pela garantia dos
influências das instituições sobre o indivíduo, poderes constitucionais e, por iniciativa
ao propor um entendimento de como a destes, da lei e da ordem.
temática ambiental se insere na organização.
O Comando da Marinha é o órgão da União
Para Mary Douglas, as instituições em si não
responsável pela Marinha do Brasil (MB). O
têm propósitos, objetivos, pois somente os
órgão foi criado em 10 de junho de 1999,
indivíduos podem elaborar estratégias
através da extinção do Ministério da Marinha
conscientemente (DOUGLAS, 1998).
e sua respectiva transformação em Comando.
Contudo, ao analisar o funcionamento das Está diretamente subordinado ao Ministro da
instituições Mary Douglas registra o quanto os Defesa e é comandado por um Almirante-de-
seres estão sujeitos às convenções sociais e Esquadra nomeado pelo Presidente da
ressalta que a independência intelectual, República.
defendida pela filosofia moral, é algo a ser
A missão primordial da Marinha é garantir a
conquistado através da resistência dos
defesa da Pátria juntamente com as demais
indivíduos ao procurar descobrir como o
Forças Armadas. Para o cumprimento de sua
controle institucional é imposto à mente dos
missão constitucional a Marinha deve
mesmos (DOUGLAS, 1998).
preparar e aplicar o Poder Naval. Cabe ainda
A pesquisa foi realizada a partir de à Marinha, como missão secundária, cooperar
levantamento e revisão bibliográfica para com o desenvolvimento nacional e a defesa
identificação do objeto de pesquisa e civil, na forma determinada pelo Presidente da
construção teórica. O estudo de caso contou República (BRASIL, 2011a; BRASIL, 2011b).
com a leitura documental dos registros de
Como o Brasil não possui um órgão exclusivo
práticas socioambientais realizadas por
para organizar, fiscalizar e orientar a Marinha
Organizações Militares da Marinha do Brasil e
Mercante e policiar a costa brasileira e águas
da observação de caráter etnográfico,
interiores, ela também exerce o papel de
participando do planejamento das atividades
"Guarda Costeira". Estas funções são
a serem empreendidas pelas Organizações e
definidas como atribuições subsidiárias
nas reuniões após as atividades.
particulares e são discriminadas a seguir: -
A pesquisa documental, por intermédio da Orientar e controlar a Marinha Mercante e
análise de conteúdo, trás subsídios suas atividades correlatas, no que interessa à
importantes para a pesquisa, pois, “há de se defesa nacional; - Prover a segurança da
considerar que os documentos constituem navegação aquaviária; - Contribuir para a
fonte rica e estável de dados como os formulação e condução de políticas nacionais
documentos substituem ao longo do tempo, que digam respeito ao mar; e - Implementar e
tornam-se a mais importante fonte de dados fiscalizar o cumprimento de leis e
em qualquer pesquisa de natureza histórica” regulamentos, no mar e nas águas interiores,
(GIL, 2006, p. 46). em coordenação com outros órgãos do poder
executivo, Federal ou Estadual, quando se
A etnografia é a ferramenta metodológica
fizer necessária, em razão de competências
fundamental utilizada nas pesquisas
específicas (BRASIL, 2011a; BRASIL, 2011b).
antropológicas, mas nesta pesquisa será
utilizada de maneira não convencional, pois Sua visão de futuro é: “A Marinha do Brasil
se trata de uma pesquisa qualitativa na área será uma Força moderna, equilibrada e
de Gestão. Não há a pretensão de balanceada, e deverá dispor de meios navais,
desenvolver uma etnografia, mas sim de aeronavais e de fuzileiros navais compatíveis
utilizar alguns preceitos metodológicos da com a inserção político-estratégica do nosso
Antropologia como a descrição e a País no cenário internacional e, em sintonia
observação do cotidiano estudado (MINAYO, com os anseios da sociedade brasileira,
2007). estará permanentemente pronta para atuar no
mar e em águas interiores, de forma singular
ou conjunta, de modo a atender aos
5.1. MARINHA DO BRASIL propósitos estatuídos na sua missão”
(BRASIL, 2011a, p. 3-2).
As Forças Armadas do Brasil são constituídas
pelo Comando da Marinha, pelo Exército

Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 10


47

A Marinha conta atualmente com um efetivo farmacêutico, centro de munição,


de aproximadamente 60.0000 militares estabelecimentos de ensino para diversos
dispostos em mais de 300 Organizações postos ou graduações, adidâncias navais,
Militares (OM) (BRASIL, 2011b) distribuídas sanatório naval, arsenal de marinha e várias
pelo território nacional em nove distritos outras OM.
navais. As OM são agrupadas em operativas,
ou seja, aquelas precipuamente destinadas
ao emprego de meios em operações militares 6. ANÁLISE DOS RESULTADOS E
em geral. São elas: os meios navais (como DISCUSSÃO
navios e submarinos), meios aeronavais,
As práticas analisadas, a partir do registro
Fuzileiros Navais e Forças Especiais como o
documental, foram divididas para o público
Grupamento de Mergulhadores de Combate.
interno e público externo. Para o público
As demais OM, administrativas ou de apoio, interno as atividades estão relacionadas, em
visam a contribuir para o sucesso das sua maioria, ao meio ambiente, com a
operações militares, fornecendo o necessário finalidade de estimular hábitos que
auxílio para a atividade fim da instituição. Por contribuam para a preservação do meio
conseguinte, é formada toda uma rede de ambiente por parte da tripulação (conjunto
suporte com OM de pesquisas, hospitais, dos marinheiros, Oficiais e Praças, de um
bases navais ou aeronavais, depósitos navio, todavia, a expressão também é
diversos (depósitos de gêneros alimentícios, empregada para as Organizações Militares de
peças sobressalentes, fardamento e terra), de acordo com os dados constantes do
combustíveis, por exemplo), laboratório quadro 1.

Quadro 1: Práticas socioambientais para o público interno.


Atividade Ação Justificativa
Sabe-se que as substâncias encontradas no interior de pilhas e
baterias são tóxicas e prejudiciais ao meio-ambiente e à saúde.
Se não forem descartados corretamente, esses materiais correm
Lixeira para o risco de amassar ou estourar, deixando vazar o líquido tóxico
Aquisição de
descarte de pilhas e de seus interiores. Portanto, a utilização de uma lixeira
lixeiras
baterias específica para tal finalidade visa evitar que possíveis danos
físicos ao material descartado se configurem em risco e
contaminação para o meio-ambiente e, conseqüentemente, para
os seres humanos.
Coleta de lixo Comemoração do Dia Mundial do Meio Ambiente (DMMA),
Regata Ecológica1 da Baía de principal celebração das Nações Unidas que busca estimular a
Guanabara ação e conscientização sobre o meio ambiente.
Conscientizar a tripulação e o público externo sobre a
Aquisição de
importância do assunto e contribuir com a adequada destinação
coletores para
Programa “Papa desses materiais, cujos resíduos tóxicos trazem riscos ao meio
pilhas e baterias
pilhas/Baterias” ambiente e à saúde pública, incutindo em todos a filosofia da
e afixação de
responsabilidade pessoal e coletiva, sustentabilidade e
cartazes
preservação da vida humana.
Instalação de
Sistema de um reservatório Reduzir o consumo de água potável e conseqüentemente os
captação de água com a gastos, e ainda preservar o meio ambiente reduzindo a
da chuva capacidade de escassez dos recursos hídricos.
3.600 litros
Palestra sobre o
impacto da Conscientização
Conscientizar o público interno a respeito dos danos causados
Operação Lei Seca do público
pela combinação bebida e direção.
na Sociedade interno
Fluminense
Conscientização
Palestra sobre o Fomentar a importância da detecção precoce do câncer de
do público
câncer de mama mama.
interno

Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 10


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Legenda: 1 - O evento também contou com a ética. Tal perspectiva corrobora visão de
participação das seguintes Instituições: Carrol et al. (2006), segundo os quais a
Instituto Baía de Guanabara, Laboratório de responsabilidade ética refere-se a que as
Mamíferos Aquáticos e Bioindicadores – organizações tenham um comportamento de
MAQUA (UERJ), Projeto Grael, ONG acordo com as normas, padrões e
Guardiões do Mar, Equipe da Recicloteca, expectativas da sociedade.
Capitania dos Portos do Rio de Janeiro,
Quanto à captação de água das chuvas, os
Escola Estadual Fernando Magalhães e as
militares ressaltam que a água é um “rico
Escolas Municipais Deodoro e Profª Lúcia
recurso captado terá fins domésticos, tais
Maria Silveira Rocha, que abrilhantaram a
como torneiras de jardins, lavagens de
regata com exposições e oficinas
calçadas e viaturas”. Com este sistema de
relacionadas às questão ambiental. Foram
captação os militarem esperam reduzir o
coletados 363 Kg de resíduos.
consumo de água potável e,
As práticas listadas no quadro 1 apresentam conseqüentemente, os gastos e ainda
um caráter predominante ambiental, cerca de preservar o meio ambiente reduzindo a
60% das atividades identificadas e 40% escassez dos recursos hídricos.
relacionadas à questões de saúde, ou seja
Em relação à palestra sobre o câncer de
social, o que implica numa preocupação com
mama cabe registrar que o objetivo não foi
o próprio ser humano. Tais atividades
atingir apenas o público interno, mas também
indicam uma representação social vinculada,
seus familiares. De acordo com o registro
predominantemente, à natureza e aos
realizado pela Organização Militar: “o Centro
problemas decorrentes do ambiente à saúde
Materno Infantil Enfermeiro Laércio Foss
do indivíduo. Além disso, tais atividades não
proferiu uma palestra nas dependências da
estão diretamente relacionadas com os
Delegacia, sobre a importância da detecção
exercícios e atividades militares, porém, as
precoce do câncer de mama, tendo como
atividades militares causam impacto ao meio
público-alvo a Família Naval. Esta atividade
ambiente.
fez parte do “Outubro Rosa”, que consiste em
Para os militares, em relação à colocação de diversas ações realizadas pelo Ministério da
lixeira para descarte de pinhas e baterias, há Saúde, órgãos e entidades que conscientizam
a seguinte concepção: “as substâncias a população sobre o assunto supracitado”.
encontradas no interior de pilhas e baterias
Tais atividades corroboram entendimento de
são tóxicas e prejudiciais ao meio-ambiente e
Young (2004), de acordo com este autor as
à saúde. Se não forem descartados
organizações têm co-responsabilidade na
corretamente, esses materiais correm o risco
solução dos problemas sociais e ambientais,
de amassar ou estourar, deixando vazar o
pois têm poder político e habilidade de
líquido tóxico de seus interiores. Portanto, a
mobilizar recursos financeiros e tecnológicos
utilização de uma lixeira específica para tal
para desenvolverem ações que podem ser
finalidade visa evitar que possíveis danos
replicadas pelos outros atores sociais.
físicos ao material descartado se configurem
em risco e contaminação para o meio- Em relação ao público externo as atividades
ambiente e, conseqüentemente, para os seres realizadas pelos militares em prol da
humanos”. sociedade estão listadas no quadro 2. De
acordo com os militares, as atividades têm
Apesar do apelo ambiental fica implícita uma
como base principal as Responsabilidades
preocupação com o meio ambiente e com a
Socioambiental, ética e de controle social,
saúde dos trabalhadores, ou seja, a
demonstrando o empenho da OM e de toda
Organização assume seu compromisso com o
sua tripulação com o desenvolvimento social.
bem-estar dos seus servidores e uma postura

Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 10


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Quadro 2: Práticas socioambientais para o público externo.


Atividade Ação Justificativa
Levar voluntários para realizaram coleta de sangue, sendo
Campanha de Doação Identificar voluntários respeitados os critérios que permitem ou impedem a
de Sangue Voluntária para doação doação de sangue, determinados por normas técnicas do
Ministério da Saúde.
Arrecadar alimentos Estimular o comportamento ético, implementando práticas
Doação de Alimentos1 para instituições voltadas para o crescimento social por meio de projetos e
carentes atividades sociais com comunidades.
A Marinha do Brasil firmou uma parceria junto ao jornalista
Oferecer atividades
Recreação para Ivan de Jesus Costa com o objetivo de manter viva, em
de Recreação no
crianças do morro crianças e jovens, a esperança de um futuro melhor.
campo de esportes e
Chapéu Mangueira Dedicado à inclusão social, o jornalista organiza, desde
parque aquático
1999, a colônia de férias do morro Chapéu Mangueira.
Oferecer visitas Oferecer visita guiada, com historiadores, pela exposição
Projeto “Uma Tarde no
guiadas ao Museu “O Poder Naval na Formação do Brasil”, Oficina de Arte e
Museu"
Naval Educação.
Conscientizar sobre os impactos que o descarte
Realizar campanhas inadequado de lixo e a falta de responsabilidades com o
“Projeto Cidade Limpa” de Educação ambiente podem causar principalmente o perigo aviário, é
Ambiental (EA) realizada uma campanha de educação ambiental (ciclo de
palestras, Gincanas etc.).
Levar bem estar ao próximo, incentivar a doação e
Arrecadar
Gincana Solidária2 colaborar com novas estratégias para o desenvolvimento
brinquedos
social.
Intensificar parceria entre as diversas instituições e a
Realizar cerimônia
Marinha do Brasil, com o objetivo de ampliar a
Dia da Bandeira alusiva ao Dia da
mentalidade estudantil ao culto aos símbolos da
Bandeira
identidade brasileira e do nacionalismo.
Prestar atendimentos
médico-odontológico
Ação Cívico-Social
em crianças, adultos Dar apoio à população na área médico-odontológico.
(ACISO)
e idosos,
gratuitamente
Conscientizar a tripulação e o público externo sobre a
importância do assunto e contribuir com a adequada
Aquisição de
destinação desses materiais, cujos resíduos tóxicos
Programa “Papa coletores para pilhas
trazem riscos ao meio ambiente e à saúde pública,
pilhas/Baterias” e baterias e afixação
incutindo em todos a filosofia da responsabilidade pessoal
de cartazes
e coletiva, sustentabilidade e preservação da vida
humana.
Legenda: 1 - Foram arrecadados 600 Kg de alimentos. 2 - Foram arrecadados 972 brinquedos para meninos e
meninas de diversas faixas etárias. Dentre as instituições agraciadas estavam a Casa Geração Vida, a Creche
Lar do Anjo Rafael, o Lar Integrado Amor Puro, o Instituto Dr. March e o Projeto Criançando, todas responsáveis
por amparar e cuidar de menores sem família no Estado do Rio de Janeiro.

De acordo com as atividades listadas no Em relação às atividades sociais relacionadas


quadro 2, percebe-se um forte apelo aos atos de civismo e apoio de saúde, cabe
filantrópico. Tais atividades estão em registrar que são atividades em cooperação
consonância com o preconizado em parte ao com as lideranças locais, para instigar o
postulado por Rothgiesser (2004) ao explicitar espírito comunitário do cidadão brasileiro,
que filantropia é um investimento da com o escopo de preparar a comunidade
organização em ações pontuais periódicas, para auto-assistir e manter, em qualquer
como campanhas de arrecadação de bens e situação, a normalidade da vida comunitária,
alimentos, assim como as doações de ordem tal qual como preconizado por Simões (2010).
material.

Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 10


50

Essas atividades denominadas de ACISO, de práticas socioambientais realizadas pelos


caráter temporário, apresentam o objetivo de militares possuem enfoques filantrópicos e
cooperar com as autoridades governamentais ambientais, e estão relacionadas às
na solução de problemas que assolam a atividades isoladas de algumas organizações
população e, ao mesmo tempo, no militares, não sendo a totalidade da Força
desenvolvimento do espírito comunitário do Armada.
cidadão brasileiro. Para Simões (2010) estas
Todavia, em consonância com Simões (2010),
atividades não devem acarretar prejuízo para
a princípio quem age com responsabilidade
a atividade fim da Força, mas contribuir para
social assume postura adequada para o
o desenvolvimento socioeconômico da
desenvolvimento sustentável e contribui para
comunidade.
a melhoria do ambiente, trazendo benefícios a
Os profissionais militares e servidores civis todos e sendo merecedor de elogios e de
participantes das ACISO na área de saúde e admiração social.
na região amazônica devem contribuir e
Os resultados desta pesquisa não podem ser
estimular o reforço dos vínculos do paciente
generalizados por representar uma parcela
com sua comunidade, partindo da idéia que a
das atividades realizadas pelos servidores
saúde não se restringe apenas aos aspectos
civis e militares da Marinha do Brasil, mas
biológicos. É um imperativo que as atividades
podem fornecer subsídios para pesquisas
ofereçam subsídios para que as lideranças
futuras e possíveis comparações com as
desempenhem fortemente o seu papel de
atividades realizadas pelas demais Forças
agentes transformadores de suas
Armadas do Brasil e de outros países.
comunidades, tal afirmação também
corrobora entendimento de Simões que A pesquisa conclui que a falta de divulgação
analisou as ACISO realizadas pelo Exército na e mensuração das atividades socioambientais
região do Amazonas. realizadas pelos militares são entraves para o
desenvolvimento sustentável, mesmo
sabendo que os militares possuem prestígio e
7. CONCLUSÕES respeito junto à população. As atividades em
prol da sociedade realizada pelos militares
A Marinha do Brasil há muito tempo contribui
demonstram a seriedade, o respeito, a
para o bem-estar da sociedade em algumas
probidade, a dedicação e o profissionalismo,
regiões do País, onde, muitas vezes, o Poder
exercido pelos militares da Marinha, no
Público não se faz presente. Os resultados
exercício das suas funções constitucionais e
obtidos, neste estudo, indicam que as
de Responsabilidade Socioambiental.

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Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 10


52

Capítulo 5

Romero de Albuquerque Maranhão


Norberto Stori

Resumo: A busca de uma solução adequada para a destinação correta dos


Resíduos de Serviços de Saúde constitui uma medida importante para o dia a dia
de uma unidade de saúde. O presente artigo busca analisar a gestão de resíduos
de serviços de saúde em um canteiro de obra. A unidade de análise do estudo de
caso foi o Posto de Atendimento Médico do Estaleiro e Base Naval, localizado em
Itaguaí – Rio de Janeiro. Os resultados mostram que a gestão dos resíduos de
serviço de saúde está sendo aplicada e o Plano de Gerenciamento de Resíduos
implantado evita problemas ambientais e atende as exigências legais, pois gera
aumento no tempo de vida útil dos aterros sanitários, em função da correta
separação e destinação final dos resíduos gerados, bem como benefícios
ambientais à sociedade.

Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 10


53

1. INTRODUÇÃO No Brasil a gestão dos RSS teve como marco


a Resolução CONAMA n°. 5/1993 (BRASIL,
A busca de uma solução adequada para a
1993), sendo atribuídas responsabilidades
destinação correta dos Resíduos de Serviços
específicas aos vários segmentos envolvidos
de Saúde (RSS) constitui uma medida
como: geradores, autoridades sanitárias e
importante para o dia a dia de uma unidade
ambientais. Entretanto, a Resolução CONAMA
de saúde, contribuindo para manter a saúde
n°. 358/2005complementa os procedimentos
pública, recuperar o ambiente e beneficiar a
do gerenciamento, estabelecendo as
qualidade de vida dentro e fora da unidade
diretrizes para o tratamento e disposição dos
(SISINNO e MOREIRA, 2005; VIRIATO e
RSS (BRASIL, 2005). Já a RDC n°. 306/2004
MOURA, 2011).
da ANVISA dissemina o Regulamento Técnico
Conforme Silva & Hoppe (2005) os RSS são para o gerenciamento dos RSS e,
gerados por prestadores de assistência recentemente, a Lei Ordinária Federal n°.
médica, odontológica, laboratorial, 12.305, de agosto de 2010, institui a Política
farmacêutica e instituições de ensino e Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS) que
pesquisa na área de medicina relacionadas solidifica o princípio poluidor pagador
tanto à população humana quanto à (MACEDO et al., 2007; VIRIATO e MOURA,
veterinária, bem como canteiros de obras que 2011).
possuem enfermaria ou posto médico.
A Resolução CONAMA n° 358/2005 trata do
De acordo com Castro (2003), os serviços de gerenciamento dos RSS sob o prisma da
assistência médica são um dos grandes preservação dos recursos naturais e do meio
geradores de resíduos perigosos, com ambiente e define as competências dos
práticas que colocam em risco o meio órgãos ambientais estaduais e municipais,
ambiente, apesar de imprescindíveis ao para estabelecerem critérios para o
desenvolvimento humano (CALEGARE et al., licenciamento ambiental dos sistemas de
2005). Os RSS, apesar de representarem uma tratamento e destinação final dos RSS. Além
pequena parcela em relação ao total de disso, tal Resolução preconiza que os
resíduos gerados em uma comunidade, são resíduos infectantes devem ser submetidos a
fontes potenciais de contaminação ao meio processos de tratamento que promova
ambiente e apresentam um risco adicional redução de carga microbiana, antes de serem
aos trabalhadores dos serviços de saúde e a encaminhados para aterro sanitário, bem
comunidade em geral, quando gerenciados como menciona que a redução na fonte
de forma inadequada (SILVA e HOPPE, 2005; (reduzir ou evitar a produção de resíduos)
ALI e KUROIWA, 2009). poderá aumentar a eficiência dos
equipamentos e dos processos.
Estes resíduos podem conter microrganismos
patogênicos com capacidade de A RDC n° 306/2004 concentra sua regulação
disseminação de doenças infectocontagiosas no controle dos processos de segregação,
no caso de restos de cirurgias e autopsias, acondicionamento, armazenamento,
seringas, roupas descartáveis, gazes, transporte, tratamento e disposição final.
bandagens. Além disso, alguns constituintes Estabelece procedimentos operacionais em
apresentam características de toxidade, função dos riscos envolvidos e concentra seu
inflamabilidade, corrosividade e reatividade controle na inspeção dos serviços de saúde.
no caso de ácidos, remédios vencidos, além
A PNRS preconiza, no seu Art. 1°, que estão
de outros resíduos (ALI e KUROIWA, 2009;
sujeitas à observância da lei as “... pessoas
CAMARGO et al., 2009).
físicas ou jurídicas, de direito público ou
O êxito no manejo adequado em uma unidade privado, responsáveis, direta ou
de saúde ultrapassa os seus limites, indiretamente, pela geração de resíduos
beneficiando a comunidade local e o entorno. sólidos e as que desenvolvam ações
Em diversos estabelecimentos de saúde, a relacionadas à gestão integrada ou ao
baixa eficiência no gerenciamento dos RSS, gerenciamento de resíduos sólidos”.
em especial na etapa de segregação, é
O presente artigo busca analisar a gestão de
decorrente do acondicionamento do resíduo
RSS em um canteiro de obra. A unidade de
comum juntamente com o biológico-infectante
análise do estudo de caso foi o Posto de
(ALI e KUROIWA, 2009; VIRIATO e MOURA,
Atendimento Médico, do Canteiro de Obra do
2011).
“Estaleiro e Base Naval para Construção de
Submarinos Convencionais e com Propulsão

Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 10


54

Nuclear” (EBN), localizado na Ilha da Madeira, a maioria dos centros de saúde em países em
no Município de Itaguaí, no Estado do Rio de desenvolvimento têm enfrentado dificuldades
Janeiro. O estudo justifica-se, pela verificação financeiras na procura de métodos eficientes
da apropriada implementação de um plano de eliminação de resíduos hospitalares
que evita problemas ambientais e atende às (TAGHIPOUR e MOSAFERI, 2009a; HOSSAIN
exigências legais. Além disso, registra-se que et al., 2011).
não foram identificados, na literatura nacional,
Para Ananth et al. (2010), que avaliaram doze
artigos relacionados à Gestão de Resíduos
países asiáticos, os riscos dos resíduos
Sólidos de Saúde no setor da Construção
associados com a saúde e sua gestão
Civil, o que gera uma oportunidade de
ganharam a atenção de todo o mundo em
pesquisa.
vários eventos, fóruns locais e internacionais.
Este estudo ganha relevância à medida que, No entanto, embora ainda lentamente, a
segundo Alves (2008), o gerenciamento dos necessidade de gestão adequada dos RSS
resíduos nos estabelecimentos de saúde é vem ganhando reconhecimento, devido aos
uma realidade ainda pouco explorada no problemas associados com as práticas
Brasil. inapropriadas, incluindo a exposição a
agentes infecciosos e substâncias tóxicas.
Apesar da magnitude do problema, em muitos
2. REVISÃO BIBLIOGRÁFICA
países, especialmente nas nações em
A questão da redução da geração dos desenvolvimento, as práticas, capacidades e
resíduos sólidos ou até mesmo da sua não políticas para lidar com a destinação final dos
geração é atualmente um dos maiores RSS são ainda inadequadas e requerem
desafios, tanto para o setor público como intensificação e providências urgentes
para o setor privado de fornecimento de bens (ANANTH et al., 2010). Corrobora tal
e serviços. A partir da publicação da Política entendimento os estudos realizados por
Nacional de Resíduos Sólidos, esse desafio Taghipour e Mosaferi (2009a) no Irã, Ndidi et
tornou-se uma necessidade premente, uma al. (2009) na Nigéria e Ali et al. (2009) no
vez que metas de redução – com vistas a Paquistão, na Tailândia e na Mongólia.
diminuir a quantidade de resíduos Mohamed et al. (2009) avaliando a questão no
encaminhados para disposição final – passou Bahrein registra que os problemas de má
a ser demandada para todas as esferas gestão (segregação, manuseio, transporte e
(SISINNO et al., 2011). destinação final) são identificados em
instituições públicas e privadas de saúde.
Em vários estabelecimentos de saúde, a baixa
Taghipour e Mosaferi (2009a) também
eficiência no gerenciamento dos RSS pode
evidenciam os mesmos problemas nos
acarretar diversos problemas de ordem
hospitais iranianos.
econômica, social e ambiental. De acordo
com Hossain et al. (2011) a gestão de RSS Além disso, Uysal e Tinmaz (2004), estudando
continua a ser um grande desafio, hospitais da Turquia, registraram que os RSS
particularmente, na maioria das instalações não recebem a devida atenção por parte do
de saúde dos países em desenvolvimento. poder público e são eliminados junto com o
Inúmeras pesquisas têm sido realizadas sobre lixo municipal e industrial. Para Abd El-Salam
a gestão de resíduos de saúde. A destinação (2010), que estudou as características físico-
final inadequada desses resíduos, bem como químicas dos resíduos hospitalares no Egito,
o manuseio impróprio e o descarte indevido quase dois terços dos RSS são semelhantes
têm aumentado significativamente os riscos à aos resíduos domésticos. Taghipour e
saúde e poluição ambiental devido à natureza Mosaferi (2009b) constataram que
infecciosa dos resíduos. aproximadamente 70% dos resíduos
provenientes das instituições de saúde
Embora, haja iniciativas significativas em
(públicas, privadas e militares) no Irã são
relação à manipulação e destinação final dos
considerados resíduos domésticos, enquanto
RSS, na prática a gestão é insatisfatória,
30% dos resíduos são considerados
ficando evidente a partir da coleta inicial até a
infecciosos.
disposição final. Na maioria dos casos, os
principais motivos para uma gestão Outrossim, Abd El-Salam (2010), constatou
insatisfatória são a falta de legislação também que a segregação dos RSS não
adequada, de funcionários especializados, e obedece procedimentos ou padrões, sendo
de consciência e controle efetivo. Além disso, descartados como lixo doméstico. Observou,

Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 10


55

ainda, que os resíduos líquidos são geral, oriundos do manejo inadequado,


encaminhados para o sistema municipal de principalmente de resíduos que possuem
esgoto sem tratamento prévio, tal fato elevado grau de periculosidade. Este Plano
corrobora com as pesquisas realizadas por deve ser estruturado pelos geradores de RSS
Uysal e Tinmaz (2004), e Abdulla et al. (2008). e deve conter ações relativas ao manejo de
tais resíduos, considerando suas
Taghipour e Mosaferi (2009a) registram que
características e os aspectos referentes ao
não existem instruções práticas, ou de
processo de geração, segregação,
supervisão adequada, sobre os diferentes
acondicionamento, coleta, armazenamento,
níveis de gestão de resíduos nos hospitais do
transporte, tratamento e destinação final, além
Irã. Todavia, registram que em quase todos os
da proteção à saúde pública e ao meio
hospitais há um gestor para a Gestão de RSS,
ambiente (BRASIL, 2004). Em toda a sua
porém o programa de treinamento de pessoal
estrutura, devem ser considerados princípios
não é eficiente. Ressaltam, também, que não
que levem a minimização e soluções
são satisfatórias as condições de
integradas ou consorciadas que visem o
armazenamento temporário dos RSS, nem os
tratamento e a disposição final destes
equipamentos de proteção para o pessoal
resíduos de acordo com as diretrizes
envolvido no manuseio e transporte do
estabelecidas pelos órgãos competentes
material.
(BRASIL, 2004).
Desta maneira, é possível inferir que a
3. GESTÃO E GERENCIAMENTO DE RSS Gestão antecede o Gerenciamento de RSS e
que são atividades correlatas e não correntes.
A GESTÃO de RSSs abrange atividades
A Gestão está relacionada ao nível estratégico
referentes à tomada de decisões estratégicas
da Organização e o Gerenciamento ao nível
com relação aos aspectos institucionais,
operacional (MARANHÃO, 2012). Todavia,
administrativos, operacionais, financeiros e
Ferreira (2007) ressalta que a Gestão é uma
ambientais, ou seja, à organização do setor
etapa fundamental durante o processo de
para esse fim, envolvendo políticas,
manejo dos resíduos e está diretamente
instrumentos e meios (FERREIRA, 2007).
atrelada com a tomada de decisão acerca
Enquanto o GERENCIAMENTO engloba os dos resíduos, o que propicia alcançar um
aspectos tecnológicos e operacionais da Gerenciamento (operacionalização) mais
questão, envolvendo fatores administrativos, eficaz, na busca de atender os aspectos
gerenciais, econômicos, ambientais e de legais em vigor.
desempenho: produtividade e qualidade, por
exemplo, e relaciona-se à prevenção,
redução, segregação, reutilização, 4. MÉTODOS DA PESQUISA
acondicionamento, coleta, transporte,
De acordo com Morin (1996, 2000) o método
tratamento, recuperação de energia e
é o caminho percorrido para a construção do
destinação final de resíduos sólidos
saber. Do ponto de vista de seu objetivo esta
(FERREIRA, 2007).
pesquisa é classificada como descritiva e
De acordo com a ANVISA, gerenciamento de exploratória. Conforme Gil (2002) a pesquisa
RSS é um conjunto de procedimentos de descritiva é útil quando se objetiva descrever
gestão, planejados (integrados) e as características de determinado fenômeno.
implementados a partir de bases científicas e
Essa pesquisa exploratória foi desenvolvida
técnicas, normativas e legais, com o objetivo
por intermédio da abordagem de estudo de
de minimizar a produção de resíduos e
caso único. Registra-se que esse tipo de
proporcionar aos resíduos gerados, um
pesquisa facilita a compreensão do fenômeno
encaminhamento seguro, de forma eficiente,
investigado. Nesse caso, optou-se por um
visando à proteção dos trabalhadores, a
estudo de caso único, pela natureza e
preservação da saúde pública, dos recursos
magnitude do fenômeno (YIN, 2005).
naturais e do meio ambiente (BRASIL, 2004).
A escolha do Posto de Atendimento Médico
A concepção, operação e monitoramento do
do Canteiro de Obras do EBN como unidade
sistema de gerenciamento devem estar
de análise, deve-se ao fato de ser a um
previsto e descritos em um Plano de GRSS,
canteiro de obra pertencente ao maior projeto
que tem como propósito fundamental reduzir
de construção civil do setor de defesa do
o máximo possível, os riscos à saúde de
Brasil. Além disso, os dados sobre as
pacientes, funcionários e comunidade em

Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 10


56

quantidades de RSS, disponibilizados pela os resultados obtidos com as entrevistas,


Marinha, possibilitam uma análise e análise de documentos e registros em
interpretação sobre o tema no setor da arquivos, como sugere Yin (2005).
construção civil. Desta forma, o Posto em
questão reúne condições de ser estudado,
por se mostrar como um caso decisivo, de 5. RESULTADOS E DISCUSSÃO
acordo com Yin (2005), e satisfazer as
Nesta seção são apresentados os resultados
condições para testar os objetivos propostos.
obtidos na pesquisa, bem como uma análise
O estudo de caso único adotado aqui do PGRSS, a classificação e os tipos de
representa uma maneira de investigar um resíduos gerados pelo Posto de Atendimento
tópico empírico, pois “... o estudo de caso, Médico em questão, além das estratégias
permite uma investigação para se preservar empregadas para o tratamento dos seus RSS.
as características significativas da vida real”
(YIN, 2005), por meio de trabalhos
explanatórios (causais), exploratório ou 5.1. ANÁLISE DO PGRSS
descritivo, sendo indicados para os casos em
O PGRSS do Posto de Atendimento Médico,
que o foco se encontra em fenômenos
do Canteiro de Obras do EBN, apresenta-se
contemporâneos inseridos em um contexto
de acordo com as diretrizes da RDC n°
real.
306/2004 da ANVISA. Em relação ao aspecto
Para a realização deste trabalho utilizou-se segregação, os RSS são separados de
diversas fontes de evidências, possibilitando acordo com a classificação apresentada na
o desenvolvimento de linhas convergentes de Resolução CONAMA nº 358/2005. Para a
investigação, por meio de um processo de identificação e reconhecimento visual dos
triangulação de informações de fontes de recipientes de acondicionamento e
dados (YIN, 2005). Os instrumentos de armazenamento temporário são utilizadas
coletas de dados utilizados foram: etiquetas, em consonância com a simbologia
documentos, registros em arquivos, prevista na RDC nº 306/2004 da ANVISA.
entrevistas, observação direta e participativa.
As principais características do
Um roteiro para as entrevistas foi elaborado gerenciamento dos RSS no Posto em estudo
por meio de informações obtidas na pesquisa corroboram os resultados de Garcia e Zanetti-
bibliográfica. As entrevistas foram compostas Ramos (2004), ao afirmarem que o PGRSS
por questões relacionadas ao PGRSS visando deve ser elaborado com base nas
permitir a caracterização das etapas do características e volume dos RSS gerados,
gerenciamento de RSS. Os conteúdos das estabelecendo as diretrizes de manejo desses
perguntas buscaram informações sobre o resíduos, incluindo as medidas de:
nível de gerenciamento dos RSS no Canteiro segregação, acondicionamento, identificação,
de Obras e não o entendimento dos transporte interno, armazenamento
entrevistados. Foram entrevistados os intermediário, armazenamento temporário,
gestores de resíduos do Canteiro de Obras e tratamento, armazenamento externo, coleta e
o gestor do Posto de Atendimento Médico transporte externo e destinação final.
localizado no mesmo Canteiro
De acordo com o relato dos entrevistados e
As duas maneiras de observação direta (a as visitas realizadas no Posto de Atendimento
formal e a informal) foram utilizadas para este Médico, são apresentadas as principais
estudo de caso. A observação formal características da gestão dos RSS:
contemplou a participação em reuniões
(a) Segregação - Os resíduos sólidos são
pertinentes aos assuntos do Sistema de
separados em recipiente específico para
Gestão Ambiental (SGA) e do Plano de
cada tipo de resíduo, identificando os
Gestão de Resíduos do Serviço de Saúde
resíduos conforme suas características e
(PGRSS). De maneira informal observou-se a
potencial infectante;
área de armazenamento de resíduos, o
manuseio dos resíduos e os setores (b) Acondicionamento e Armazenamento - Os
produtores de resíduos. A observação resíduos são armazenados em embalagens
participante também foi utilizada, pois o autor de plástico e papel seguindo uma
participou das atividades de auditoria padronização de cores, conforme o tipo de
ambiental de SGA, na qualidade de auditor. resíduo sólido, de acordo com a legislação
Assim, a triangulação foi realizada utilizando vigente; e o Posto possui lixeiras com tampas

Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 10


57

plásticas, para o armazenamento dos credenciada pelo Órgão Ambiental para


resíduos, identificadas conforme o tipo de posterior incineração.
resíduo;
Desta forma, o PGRSS do Posto Médico de
(c) Coleta e armazenagem externa - Os Atendimento visa minimizar a produção de
resíduos são recolhidos dos recipientes de resíduos, tratá-los e encaminhá-los de forma
armazenamento por profissionais qualificados segura ao destino final, com a finalidade de
e colocados em local de armazenamento prevenir e controlar riscos ocupacionais, à
temporário. Esses resíduos são armazenados saúde pública e ao meio ambiente.
em um depósito de armazenamento externo
para seu, posterior, destino final. Esse local
está localizado na área externa ao Posto e é 5.2. ANÁLISE DOS RESÍDUOS GERADOS
de fácil acesso aos funcionários da empresa
Todos os RSS gerados pelo Posto são
de coleta; e
quantificados e os dados consolidados em
(d) Tratamento e destino final - Os RSS são planilhas de controle mensal. Os dados
recolhidos por empresa especializada e referentes aos anos de 2011, 2012, 2013 e
2014, em litros, são apresentados na tabela 1.

Tabela 1: Quantidades mensais de RSS produzidos no período de 2011 até 2014.


Mês / Ano 2011 2012 2013 2014
JAN 240 480 0 480
FEV 240 720 0 0
MAR 0 960 1200 480
ABR 240 1200 0 0
MAI 240 1200 1200 720
JUN 0 960 0 0
JUL 480 680 0 480
AGO 0 720 480 0
SET 0 1680 0 720
OUT 0 0 480 480
NOV 480 0 0 0
DEZ 0 720 720 480
TOTAL 1920 9320 4080 3840

De acordo com os dados da tabela 1 não é


possível relacionar as quantidades
5.3. TRATAMENTO DOS RESÍDUOS
produzidas com os atendimentos de
procedimentos médicos realizados no Posto. O tratamento consiste na aplicação de
A ausência do registro dos atendimentos não método, técnica ou processo que modifique
possibilita interpretar o aumento na produção as características dos riscos inerentes aos
de RSS de 2011 para 2012 em resíduos, reduzindo ou eliminando o risco de
aproximadamente 485%. Também não foi contaminação, de acidentes ocupacionais ou
realizada uma pesquisa para relacionar o de danos ao meio ambiente. No Posto não é
possível aumento na produção de resíduos realizado o tratamento dos resíduos gerados,
com alguma epidemia ou surto. Já a apenas o armazenamento temporário para
produção de resíduos entre os anos de 2013 tratamento externo.
e 2014 estão em consonância com o
A coleta dos resíduos no Posto, devidamente
decréscimo de contratações e a consequente
acondicionados em bombonas, é executada
redução dos atendimentos realizados no
de forma mecanizada, atendendo à
Posto.

Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 10


58

programação pré-definida e às freqüências resíduo doméstico. Registra-se, ainda, que os


estabelecidas entre a empresa coletora e o resíduos líquidos são encaminhados para
gestor do Posto, garantindo formas Estação de Tratamento de Efluentes (ETE) do
adequadas e seguras para o seu manuseio. Canteiro de Obras do EBN e essa iniciativa
Depois de acondicionados em recipientes, de vai ao encontro da pesquisa realizada por
acordo com sua tipologia, os RSS são Abdulla et al. (2008).
transportados por veículos devidamente
preparados e identificados, seguindo roteiros
pré- determinados, com motoristas treinados 6. CONCLUSÃO
em transporte de cargas perigosas. O
O objetivo desta pesquisa foi analisar a
tratamento externo dos resíduos é feito por
gestão de RSS em um Posto de Atendimento
empresa de transporte devidamente
Médico localizado em canteiro de obras. Os
registrada no órgão ambiental. A destinação
resultados mostram que a gestão dos RSS
final dos resíduos é a incineração, de acordo
está sendo aplicada e o PGRSS implantado
com as informações dos entrevistados e
evita problemas ambientais e atende às
registros.
exigências legais, pois gera aumento no
O processo de incineração obedece à tempo de vida útil dos aterros sanitários, em
Resolução CONAMA nº 316/2002, sendo seus função da correta separação e destinação
equipamentos dotados de analisadores final dos resíduos gerados, bem como
contínuos de emissões gasosas e sistema de benefícios ambientais à sociedade.
intertratamento. O tempo de residência dos
Observa-se que os dados aqui registrados
gases na câmara secundária é de 2
não devem ser considerados definitivos, por
segundos. Depois da queima, os gases são
se tratar de um estudo exploratório. Outras
submetidos a um resfriamento brusco, através
limitações desta pesquisa são próprias do
de torres de lavagem. Os líquidos utilizados
estudo de caso, como a não possibilidade de
no processo de lavagem são destruídos no
generalizações. Apesar disso, a questão
próprio equipamento, num circuito fechado.
analisada é de grande importância, abrindo
O tratamento de resíduos realizado pelo Posto diversas opções de análises empíricas, que
não corrobora com os estudos realizados por poderão explorar outras indagações, a partir
Abd El-Salam (2010) e Uysal & Tinmaz (2004), desse início, uma vez que, segundo Joshi
pois se constatou que a segregação dos RSS (2013), a questão dos resíduos sólidos é
obedece procedimentos estabelecidos pelos preocupante e urgente.
requisitos legais e não são descartados como

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Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 10


61

Capítulo 6

Ana Cláudia Ribeiro Paiva


Vaneska Ribeiro Perfeito Santos
Sandra Mara dos Santos

Resumo: Este estudo se propõe a descrever o fenômeno da violência doméstica,


principalmente contra as mulheres que, atualmente, apresenta-se como um
problema de saúde pública. Após longo período de sofrimento na intimidade dos
lares, a violência contra a mulher começou a ganhar notoriedade e compreensão,
despertando a sociedade para tal acontecimento na intimidade das famílias. A Lei
Maria da Penha, sancionada em 2006, regulamenta as ações de saúde voltadas
para a assistência e o cuidado às vítimas, buscando também levar informações às
mesmas, com o intuito de diminuir a ocorrência de agressões e implicações em sua
saúde física e emocional. É importante ressaltar que a atuação de profissionais de
saúde configura-se como um importante objeto da Saúde Coletiva, com vistas ao
enfrentamento deste problema, particularmente, pela atuação do enfermeiro que
deve se pautar por ações planejadas, por capacitação pessoal e interação com a
equipe interdisciplinar, com a família e com o paciente. Trata-se de um estudo de
revisão bibliográfica, de caráter analítico-descritivo, sobre a temática em questão, o
que possibilitou uma reflexão acerca das perspectivas para a atuação da
enfermagem diante de situações de violência doméstica, afim de não permitir a
banalização de tais fatos.

Palavras-chave: Violência Doméstica; Violência contra a Mulher; Saúde Pública;


Cuidados de Enfermagem.

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62

1. INTRODUÇÃO É essencial o processo de acolhimento,


escuta e orientação profissional, livre de
A violência sexual e/ou doméstica é um
julgamentos ou valores morais, bem como
fenômeno de conceituação complexa e
utilização de instrumentos do processo de
multicausal, cuja compreensão atravessa uma
cuidar em enfermagem, como base para o
trama de aspectos religiosos, sociais,
encontro de possibilidades para o
culturais e econômicos. Mostra-se como uma
enfrentamento do problema, de forma
atitude persistente em nossa atualidade,
positiva.
promovendo danos que afetam de modo
significante a saúde da população, gerando Torna-se evidente a necessidade de uma
prejuízos e preocupação para com as integração de ações sobre violência de
políticas públicas e setores de apoio. gênero, fortalecimento de fontes formais e
informais de apoio e relacionamentos
Por apresentar significativa expressão
interdisciplinares, para a condução de uma
epidemiológica, segundo dados do Ministério
saúde pública que contemple seus princípios
da Saúde (BRASIL, 2011a, p.5), a violência
de igualdade, universalidade e integralidade.
sexual e/ou doméstica contra crianças,
adolescentes e mulheres adultas é Portanto, este estudo tem como escopo,
considerada um grave problema de saúde conceituar a violência doméstica,
pública. especificamente contra mulheres, suas
implicações físicas e emocionais na saúde
Em destaque, a violência doméstica e/ou
destas mulheres vitimadas. Do mesmo modo,
sexual elucida aspectos relacionados ao
fazer uma abordagem do papel do enfermeiro
gênero ou às suas vulnerabilidades,
diante de casos de violência doméstica,
apontando as mulheres como destinatárias
possibilitando o acréscimo de informações e
principais da ação. Este fato pode, também,
fornecimento de subsídios para novas
revelar desigualdades impressas na
pesquisas e questionamentos nesta área,
sociedade pelas relações patriarcais que
contribuindo para que tal violência não
multiplicam as sensações de medo e
continue sendo negligenciada e perpetuada
sofrimento.
no silêncio dos lares.
A violência sexual pode produzir
consequências traumáticas e indeléveis para
quem a sofre e, apesar de inquestionáveis 2. VIOLÊNCIA: BREVES CONSIDERAÇÕES
avanços neste assunto, ainda é um grande
Na sociedade atual, a violência apresenta-se
desafio reconhecer uma vida sem violência,
como um fenômeno que atinge homens,
com respeito aos direitos humanos (BRASIL,
mulheres, crianças, adolescentes e idosos.
2011b, p.11).
Segundo a Coleção Protocolos Hospital
A repercussão da violência sexual pode ser Municipal e Maternidade Escola (HMEC/SMS-
sentida na saúde física, quer por SP, 2012, p. 3), a violência sexual é um
contaminação por DST’s ou gravidez fenômeno universal que atinge,
indesejada, e na saúde mental da pessoa, indistintamente, mulheres de todas as classes
com quadros de depressão, síndrome do sociais, etnias, religiões e culturas.
pânico ou ansiedade. Desta forma, torna-se
Uma maior divulgação do assunto pela mídia
importante compreender o contexto familiar
tornou claro o que antes se apresentava de
e/ou social que a mulher vive para uma
forma muitas vezes velada, embora ainda se
intervenção dos serviços de saúde de
mostre como um tabu, principalmente, pelo
maneira satisfatória.
fato da maioria das vítimas serem mulheres.
Segundo Brasil (2011b, p.14), o impacto da
A violência pode acontecer na intimidade de
violência também sobrecarrega o sistema de
pessoas com laços afetivos, podendo ser
saúde tanto em termos de recursos
cometida pelos maridos, companheiros,
econômicos e humanos, quanto em custos
namorados, filhos ou alguém próximo à vítima.
sociais, como em decorrência de
produtividade perdida para a sociedade em Segundo Ferraz et al (2009, p.756) a violência
geral. é definida pela Organização Mundial da
Saúde (OMS) como:
Nesse sentido, a atuação dos profissionais de
saúde, em uma abordagem interdisciplinar se O uso da força física, do poder real ou
faz relevante nas estratégias e ações de ameaça, praticado contra si ou contra outra
enfrentamento à violência contra as mulheres. pessoa, ou ainda, contra um grupo ou uma

Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 10


63

comunidade, que resulte ou tenha pela sociedade como algo que faz parte da
possibilidade de resultar em lesão, morte, vida, tornando-se banal. Mesmo sendo um
dano psicológico, deficiência de fenômeno antigo, ficou velado ao longo da
desenvolvimento ou privação. É história, sendo que no Brasil apenas na
compreendida também como uma violação década de 1980, iniciaram-se as pesquisas
dos direitos do ser humano, uma vez que é sobre a ocorrência das agressões (FERRAZ et
um meio aplicado para coagir ou submeter al, 2009, p. 756).
outra pessoa ao domínio sem seu
Azevedo (1985) apud Araújo (2013, s.p.)
consentimento.
ainda completa que, no início dos anos 80 tais
Entendendo que a violência e a agressividade mobilizações se estenderam para a denúncia
impõem medo, frustrações e agravos, de maus tratos conjugais, formas também
inclusive socialmente, percebe-se que dentre muito comuns de violência contra a mulher.
os indivíduos vitimizados, as mulheres ainda Com isso, o termo passou a ser usado como
são as maiores vítimas, sendo relatado por sinônimo de violência doméstica em função
Araújo (2013, s.p.) que, a violência contra a da maior incidência deste tipo de violência
mulher continua sendo um grave problema ocorrer no espaço doméstico e/ou familiar.
social no Brasil e no mundo, apesar da luta
“Apesar de toda a complexidade e
feminista em torno da questão.
diversidade de estruturas e funções
Desde 1990, a Organização Mundial de estabelecidas e desempenhadas em cada
Saúde já reconhece a violência contra a grupo familiar, podemos identificar a
mulher como um problema de saúde pública existência ou não de uma família saudável”
que exige dos governantes políticas públicas (SALCEDO-BARRIENTOS et al, 2011, p. 357),
mais eficientes no combate e prevenção do cabendo aí, intervenções por parte da equipe
fenômeno. Além de causar sofrimento físico e de saúde.
psíquico à mulher – e conseqüentemente a
Diante do exposto é necessário compreender
seus filhos e família – esse tipo de violência é
a violência doméstica, suas características e
também uma violação dos direitos humanos.
nuances.
A violência, pelo número de vítimas e
importância de sequelas orgânicas e
emocionais que produz, também adquiriu 3. ENTENDENDO A VIOLÊNCIA DOMÉSTICA
caráter endêmico [...] e, ainda para a
Mesmo sendo um fenômeno antigo em nossas
Organização Pan-Americana de Saúde
sociedades, a violência não era percebida
(OPAS), o setor saúde pode ser visto como o
como algo lesivo ou deletério à saúde, mas
ponto de confluência de todos os problemas
como uma “punição merecida”, caso
da violência, pela pressão que exercem sobre
ocorresse um deslize por parte do indivíduo
os serviços de urgência, de atenção
subjugado, sendo que pela própria
especializada, reabilitação física, psicológica
compleição física e submissão tradicional nas
e de assistência social (OPAS, 1993 apud
sociedades patriarcais, a mulher sempre foi a
Mochnacz, 2009, p.37).
maior vítima dessa violência, sofrendo maus
Diante do exposto, podemos dizer que esta tratos que se estendiam, inclusive aos filhos,
agressão, em sua maioria, acontece na tal forma abusiva de poder praticado no seio
intimidade das relações, ou seja, nos lares, das famílias, sendo realizado sempre pelo
onde se espera ser um local de aconchego, “senhor”, ou seja, o cônjuge, considerado
segurança e também de qualidade de vida. como poder máximo dentro das famílias.
Sobre o termo violência doméstica Grossi De acordo com Mochnacz (2009, p. 10),
(1998) apud Araújo (2013, s.p.), esclarece muitos estudos tem se dedicado a apontar a
que, no Brasil, o termo começou a ser usado magnitude da violência doméstica e suas
no final dos anos 70 e difundiu-se consequências mensuráveis, como altos
rapidamente em função das mobilizações custos hospitalares e prejuízos econômicos
feministas contra o assassinato de mulheres e aos países, e as não mensuráveis, como a dor
impunidade dos agressores, freqüentemente e o sofrimento humanos.
os próprios maridos, comumente absolvidos
Araújo (2013, s.p.) reitera que a violência de
em nome da “defesa da honra”.
gênero produz-se e reproduz-se nas relações
No cotidiano das cidades, do país e do de poder onde se entrelaçam as categorias
mundo, o drama da violência é percebido de gênero, classe e raça/etnia. Expressa uma

Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 10


64

forma particular de violência global já foi espancada, coagida ao sexo ou sofreu


mediatizada pela ordem patriarcal, que alguma forma de abuso durante sua vida”. No
delega aos homens o direito de dominar e Brasil, a violência contra a mulher é tipificada
controlar suas mulheres, podendo para isso como um crime, tendo por objetivo punir os
usar a violência. agressores, mas, principalmente proteger as
vítimas, assim como diminuir a incidência
Após longo período de sofrimento na
destes agravos.
intimidade dos lares, a violência contra a
mulher começou a ganhar notoriedade e “Objetivando garantir os direitos da mulher na
compreensão, principalmente após os sociedade, foi sancionada, pelo Presidente da
movimentos feministas, que despertaram a República, a Lei nº 11.340, de 7 de agosto de
sociedade para tal acontecimento na 2006, conhecida como Lei Maria da Penha,
intimidade das famílias. que entrou em vigor em 22 de setembro do
mesmo ano” (FERRAZ et al, 2009, p. 756).
Debert e Gregori (2008, p.168), nos dizem
que a definição de violência contra a mulher A Lei 11.340 define que ações de saúde
no Brasil foi elaborada em meio a uma devem ser planejadas e implementadas com
experiência política inovadora na década de o objetivo de assistir e cuidar das vítimas,
1980, em que, ao lado de práticas de buscando também levar informações às
sensibilização e de conscientização, mesmas com o intuito de diminuir a
militantes feministas atendiam mulheres que ocorrência de agressões e implicações na
sofriam violências nos chamados SOS-Mulher. saúde física e emocional das vítimas.
O conjunto de ideias que deu suporte e
Salcedo-Barrientos et al (2011, p. 354),
substância a essa expressão foi elaborado a
ainda colaboram que, no contexto familiar,
partir de uma compreensão particular acerca
apresenta-se como negligência, abuso sexual
da opressão sofrida pelas mulheres no âmbito
ou violência física contra crianças e
do patriarcalismo – noção sintonizada com as
adolescentes, contra mulheres, idosos e
discussões feministas em cenário
pessoas com necessidades físicas e mentais,
internacional.
constituindo um importante impacto no bem-
Após o desenvolvimento de estudos de estar físico e emocional dessa população.
gênero, vários autores passaram a utilizar a
Todos os tipos de agressão imposta aos
partir de 1990, violência de gênero como um
indivíduos, principalmente aquela ocorrida
conceito ampliado de violência contra a
nos lares e denominada violência doméstica,
mulher (SAFFIOTI e ALMEIDA, 1995 apud
sem dúvida, causam danos à saúde dos
ARAÚJO, 2013, s.p.).
envolvidos direta ou indiretamente. Tais
O conceito de gênero abrange não apenas as prejuízos podem ser de ordem física ou
mulheres, mas crianças e adolescentes, que emocional, entre outras, sendo essas as
no Brasil são objetos da violência masculina, principais, exigindo dos profissionais de
constituindo assim as relações de gênero saúde um complexo entendimento acerca da
(ARAÚJO, 2013, s.p.). Tal conceito também temática, além de sensibilidade ao prestar
pode ser utilizado para definir a violência assistência, oferecendo acolhimento, respeito,
conjugal, pois engloba várias formas de segurança, além de um olhar humanizado e
violência que envolvem as relações de holístico.
gênero e poder. Entretanto, podemos dizer
que a violência contra a mulher é uma das
principais formas de violência de gênero. 4. IMPLICAÇÕES FÍSICAS E EMOCIONAIS
NA SAÚDE DE MULHERES VÍTIMAS DE
Devido ao impacto que causa na saúde física
VIOLÊNCIA DOMÉSTICA
e emocional das vítimas, a violência vem
interferindo significativamente na vida de Para entender o que se passa física e
indivíduos vitimizados, fazendo com que emocionalmente com as pessoas que sofrem
governantes voltem sua atenção para essa agressões, é necessário um olhar voltado ao
situação, com vistas à diminuição dos índices indivíduo, ao ser humano, aquele ser
de co-morbidades, bem como de pensante e com sentimentos que foram
mortalidade, principalmente em mulheres. atingidos por meio de uma agressão física ou
psicológica.
Fato este corroborado por Ferraz et al (2009,
p.756) ao expor que estima-se, mundialmente, As consequências biopsicossociais são
que pelo menos uma em cada três mulheres difíceis de mensurar, embora afetem a maioria

Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 10


65

das vítimas e suas famílias. A violência sexual Vier (2011, s.p.) esclarece que, dentre as
produz efeitos intensos e devastadores, modalidades de violência mais frequentes,
muitas vezes irreparáveis, na esfera 16% de mulheres já levaram tapas, empurrões
emocional. Para a saúde, os danos do abuso ou foram sacudidas, 16% foram xingadas e
sexual têm particular impacto sobre a saúde ofendidas devido a sua conduta sexual e 15%
sexual e reprodutiva, como a gravidez foram controladas a respeito do local aonde
indesejada, infecção por DST’s/ AIDS, iam e com quem saíam. Além disso, 13%
somadas a severas consequências físicas e sofreram ameaças de surra e 10%, de fato, foi
emocionais. (PROTOCOLOS HMEC/SMS-SP, espancada ao menos uma vez na vida.
2012).
A mesma autora ainda completa que 29 a
É notória a ocorrência de alta incidência de 43% das mulheres que sofreram violência
violência contra a mulher, em todo o mundo, psíquica, dão continuidade ao vínculo marital;
não sendo levadas em conta classes sociais, sendo que a manutenção do vínculo com o
culturas ou raças. A Organização Pan- agressor também permanece em 20% dos
Americana da Saúde (OPAS), nos fala de casos de espancamento e mais de 30%
números alarmantes, sendo que uma em cada diante de diferentes formas de controle e
três mulheres é vítima de violência em países cerceamento.
do continente americano (ARAÚJO, 2013,
Fica claro que a violência deixa de ser
s.p.).
percebida como forma de abuso e passa a
O mesmo autor (2013, s.p.) complementa ser encarada com naturalidade por todos os
que, contabilizar e aferir os números da membros da família. Cardoso (1997 apud
violência não é tarefa fácil, principalmente em MENEZES, 2000) citado por Fonseca e Lucas
relação à forma de registro de tais números e, (2006, p.6) relata que o fato de um indivíduo
às vezes achamos que um determinado local estar inserido em um ambiente familiar no
tem alto índice de violência, quando na qual, constantemente, os pais são agressivos
verdade, o registro é que se apresenta de entre si, ou mesmo com os filhos, favorece a
forma mais contínua e regular. uma concepção naturalizada da violência.
Desta forma, o apanhar passa a não
Já no Brasil, apesar de inúmeras pesquisas
simbolizar desamor, mas sim uma forma de se
realizadas, os números obtidos não são
estruturar como pessoa, em que o subjugar-
suficientes para delinear um perfil real e
se ao outro é um modelo de relação
global deste acontecimento. “A violência física
aprendido na infância, tornando as pessoas
é a mais freqüente ou pelo menos a mais
inseguras, com baixa autoestima, com
denunciada (58% no total, sendo 32% com
ausência de senso crítico e dificuldades de
lesão corporal). A violência psicológica
estabelecer relações positivas. Essas
aparece com 36% e a sexual com 6% entre
consequências repercutem na reação da
os boletins de ocorrência (BO’s) pesquisados”
mulher frente à violência, assim como na
(ARAÚJO, 2013, s.p.).
escolha de seu futuro marido.
Oliveira (2009) apud Reis, Carolina da Rosa
Conforme percebido, torna-se um ciclo natural
(2013, p.3) refere que “as mulheres vítimas de
e vicioso entre as famílias, estendendo-se
violência têm queixas, distúrbios e patologias,
inclusive às futuras gerações.
físicas e mentais, e utilizam os serviços de
saúde com maior frequência do que aquelas
sem esta experiência”.
5. VIOLÊNCIA CONTRA A MULHER:
Os motivos da agressão são os mais variados. CARACTERÍSTICAS E FORMAS
De acordo com Araújo (2013, s.p.), 69% dos
A violência contra a mulher pode ser
casos resultam de discussões motivadas por
entendida como uma relação de forças que
ciúme, ameaça de separação, problemas de
convertem as diferenças entre os sexos em
dinheiro, questões relacionadas aos filhos,
desigualdade.
etc. Alcoolismo, distúrbio mental e
desemprego também aparecem como Com o objetivo de manter e exercer controle
motivos, mas em menor incidência. O fator sobre a mulher, o agressor imprime
realmente preponderante é a relação de comportamentos sistemáticos, seguindo um
poder que o homem tem sobre a mulher e que padrão específico. Iniciando-se com as
lhe dá o “direito” de agredi-la por qualquer tensões normais dos relacionamentos, tais
motivo. como o desemprego, preocupações
financeiras, hábitos irritantes e diferentes

Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 10


66

opiniões que fazem surgir as agressões Tapas, Empurrões, Socos, Mordidas, Chutes,
psicológicas (MILLER, 1999 apud FONSECA Queimaduras, Cortes, Estrangulamento,
E LUCAS, 2006, p.7). Lesões por armas e objetos, Obrigar a tomar
remédios desnecessários ou inadequados,
As interações violentas em um relacionamento
álcool, drogas ou outras substâncias,
surgem a partir do momento em que a relação
inclusive alimentos, Tirar de casa à força,
de poder e subordinação precisam ser
Amarrar, Arrastar, Arrancar a roupa,
confirmadas (FONSECA e LUCAS, 2007, p. 7).
Abandonar em lugares desconhecidos, Danos
Observa-se que as diferentes formas de
à integridade corporal decorrentes de
violência sofridas por mulheres, manifestam-
negligência (omissão de cuidados e proteção
se de diferentes maneiras e com graus
contra agravos evitáveis como situações de
variados de intensidade. É evidente que tais
perigo, gravidez, doenças, alimentação,
atos de violência não acontecem
higiene, entre outros) (UFRJ, 2014).
isoladamente, mas em um movimento
crescente no número de episódios de A violência sexual compreende uma
ocorrência, sendo o ato mais extremado, o variedade de atos ou tentativas de relação
homicídio. sexual sob coação ou fisicamente focada, no
casamento ou em outros relacionamentos. [...]
Dentre os inúmeros casos referentes à
é cometida na maioria das vezes por autores
violência contra a mulher, podem-se destacar:
conhecidos das mulheres envolvendo vínculo
Violência de gênero, que consiste em uma conjugal (esposo e companheiro) no espaço
manifestação de relações de poder doméstico, contribuindo para sua
historicamente desiguais entre homens e invisibilidade. De acordo com UFRJ (2014,
mulheres, em que a subordinação não implica s.p.), dentre os atos sexualmente violentos
na ausência absoluta de poder. podemos citar:
Violência intrafamiliar, que pode ser cometida  Estupro dentro do casamento ou
dentro ou fora de casa por algum membro da namoro,
família, incluindo pessoas que passam a
assumir função parental, ainda que sem laços  Estupro cometido por estranhos,
de consangüinidade, e em relação ao poder à  Investidas sexuais indesejadas ou
outra, prejudicando o bem-estar, a assédio sexual, inclusive exigência de sexo
integridade física, psicológica ou a liberdade como pagamento de favores,
e o direito ao pleno desenvolvimento de outro
membro da família.  Abuso sexual de pessoas mental ou
fisicamente incapazes,
Violência doméstica, que se distingue da
intrafamiliar pelo fato de incluir outros  Abuso sexual de crianças,
membros do grupo que, mesmo sem função
parental, convivem no espaço doméstico, tais
 Casamento ou coabitação forçados,
inclusive casamento de crianças,
como empregados e agregados, podendo
acontecer dentro da casa e sendo geralmente  Negação do direito de usar
praticada por um membro da família que anticoncepcionais ou de adotar outras
conviva com a vítima. Tais agressões medidas de proteção contra doenças
domésticas incluem o abuso sexual, físico e sexualmente transmissíveis,
psicológico, além da negligência e do
abandono (UFRJ, 2014, s.p.).  Aborto forçado,

O mesmo autor ainda evidencia que a  Atos violentos contra integridade


ocorrência de violência física, muitas vezes sexual das mulheres, inclusive mutilação
recorrente, pode ser advinda de uma relação genital feminina e exames obrigatórios de
de poder entre indivíduos, causando de forma virgindade,
não acidental tentativas de agredir o outro,  Prostituição forçada e tráfico de
por intermédio de armas ou força física, pessoas com fins de exploração sexual,
podendo ou não causar lesões internas ou
externas. Podemos destacar também que o  Estupro sistemático durante conflito
castigo repetido, porém não severo, pode ser armado.
considerado como agressão física, podendo
De acordo com o Portal CNJ (2014, s.p.), a
manifestar-se de várias formas, a saber:
violência psicológica, pode ser entendida
como qualquer conduta que lhe cause dano

Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 10


67

emocional e diminuição da autoestima, ou que mesmos gerando, por conseguinte, um


lhe prejudique e perturbe o pleno impacto também nos serviços de saúde do
desenvolvimento, ou que vise degradar ou país.
controlar suas ações, comportamentos,
Ressalta-se a importância dos serviços de
crenças e decisões, mediante ameaça,
saúde como elementos fundamentais à
constrangimento, humilhação, manipulação,
composição da rede de atendimento às
isolamento, vigilância constante, perseguição
mulheres vítimas de violência doméstica.
contumaz, insulto, chantagem, ridicularização,
Deste modo, as Unidades de Saúde da
exploração e limitação do direito de ir e vir ou
Atenção Básica devem representar o contato
qualquer outro meio que lhe cause prejuízo à
preferencial dos usuários, “a principal porta
saúde psicológica e à autodeterminação.
de entrada e centro de comunicação da Rede
A violência patrimonial é entendida como de Atenção à Saúde” (BRASIL, 2012, s.p.).
qualquer conduta que configure retenção,
A assistência a esta forma de violência se
subtração, destruição parcial ou total de seus
reveste de especial importância por
objetos, instrumentos de trabalho,
transcender a área da saúde em vistas das
documentos pessoais, bens, valores e direitos
repercussões psicológica e sociais que
ou recursos econômicos, incluindo os
acarreta.
destinados a satisfazer suas necessidades. E
a violência moral, entendida como qualquer Salcedo-Barrientos et al (2011, p. 354)
conduta que configure calúnia, difamação ou apontam que no âmbito da saúde, deve ser
injúria (PORTAL CNJ, 2014, s.p.). considerado o impacto que a violência causa
na sociedade e nos seus serviços, tanto em
Atualmente, é possível observar três setores
termos de custo das ações de prevenção,
envolvidos no enfrentamento da violência
tratamento ou promoção de uma política de
doméstica contra a mulher: a Saúde, a Justiça
paz entre os sujeitos.
e a Sociedade Civil organizada. Em cada um
dos setores, os profissionais exercem suas Desta forma, a atuação de profissionais da
funções em serviços específicos ou Atenção Básica, configura-se como um
estabelecem fluxos de encaminhamentos importante objeto da Saúde Coletiva, com
entre os serviços para a busca de soluções vistas ao enfrentamento e superação deste
para o problema (MOCHNACZ, 2009, p.11). problema e, por ser esta, a principal porta de
entrada aos serviços de saúde do país. Diante
Diante de todas as características e formas de
de tal perspectiva, ações efetuadas pelos
violência acima relacionadas, percebemos
setores de saúde devem estar integradas a
que as equipes de saúde ainda não estão
outros setores da sociedade, sendo
preparadas para atender situações
necessário o desenvolvimento de tais
evidenciadas por tais atos e que dão entrada
parcerias a fim de promover o bem-estar, a
diariamente nos serviços de saúde. Fica claro,
saúde e a manutenção da qualidade de vida
que as equipes de saúde precisam melhor
da população (SALCEDO – BARRIENTOS et
capacitar-se, além de oferecer aos
al, 2011, p. 354).
vitimizados uma assistência pautada pela
qualidade, bem como ter uma visão holística Telles e Melo (2003) apud Ferraz et al (2009,
sobre o acontecimento sem, no entanto, p.756) nos dizem que: “O drama da violência
deixar de voltar seu “olhar” para as vítimas e o faz parte do cotidiano das cidades, do país e
contexto dos fatos. do mundo, é banalizado e percebido pela
sociedade como algo que naturalmente faz
O enfermeiro, especialmente por ser o
parte da vida”.
profissional que encontra-se mais tempo com
os pacientes, bem como a equipe de Diante de tal afirmação, mister se faz que o
enfermagem, devem estar preparados para enfermeiro perceba sua importância diante de
prestar assistência no momento em que ela se situações de violência, estando o mesmo
fizer necessária. capacitado para atuar de forma acertiva, não
permitindo que a banalização de tais atos,
seja fato comum em seu cotidiano
6. PAPEL DO ENFERMEIRO DIANTE DE profissional, fazendo com que o mesmo
VITIMIZADOS POR VIOLÊNCIA DOMÉSTICA mova-se em direção ao auxílio adequado a
quem necessite.
É importante ressaltar, que a violência
acarreta danos às famílias, assim como causa Reis (2013, p.12) relata em seu trabalho que
impacto na saúde física e emocional dos as usuárias dos serviços de saúde, vítimas da

Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 10


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violência, somente relatavam sua situação possuir limitações para responder às reais
após sucessivas aproximações com o necessidades das vítimas. O despreparo
profissional de saúde quando, então, se dava profissional para cuidar destas mulheres se
o início de um acompanhamento reflete em pré-conceitos como o de culpar a
sistematizado para o caso, de forma vítima, desestimulando-a a denunciar o
interdisciplinar e com perspectiva ampliada. agressor. Muitas vezes a perseguição ao
agressor está em primeiro plano e a atenção
O enfermeiro tem um importante papel no
às necessidades da vítima fica limitada ao
acolhimento das vítimas, pois são os primeiros
tratamento de eventuais traumas sofridos.
profissionais a atender e manter contato direto
com as mulheres, promovendo o início das Para que durante o processo de trabalho dos
atuações multiprofissionais na abordagem de enfermeiros, os mesmos sejam capazes de
tal ocorrência. identificar e intervir em casos de violência, e
pelo fato dos mesmos manifestarem-se em
Ainda conforme o autor supracitado (2013, p.
variados graus e não apenas em casos
12), as mulheres quando escutadas, no
extremos, como os homicídios, é importante
cotidiano de trabalho das unidades de saúde,
que o profissional esteja instrumentalizado
sentiam-se acolhidas e expressavam o que
para que possa ter a compreensão de suas
realmente lhes angustiavam.
múltiplas manifestações (SALCEDO-
Quanto à assistência e aos cuidados de BARRIENTOS et al, 2011, p. 358).
enfermagem Ferraz et al (2009, p. 756)
Os princípios gerais para a atenção à
asseveram que: “O cuidado de enfermagem
violência, segundo Coleção Protocolos
às vítimas de violência deve ser planejado
HMEC/SMS-SP (2012, p.5) são:
para promover segurança, acolhimento,
respeito e satisfação das suas necessidades  Adequado acolhimento, trato digno,
individuais”. Para a proteção das vítimas e não discriminatório,
prevenção de futuros agravos, o enfermeiro
deverá refletir sobre o planejamento da  Facilitar expressão de sentimentos,
assistência, baseado em instrumentos  Garantir a confiabilidade,
básicos de enfermagem, nas políticas
púbicas de saúde, além da legislação  Dar crença à vítima,
vigente.
 Comunicação empática.
De acordo com Schraiber et al (2002) apud
Andrade (2009) apud Salcedo-Barrientos et al
Ferraz et al (2009, p. 757), estima-se que o (2011, p. 358) afirma que: “A efetiva relação
problema da violência cause mais mortes de
entre os profissionais da saúde e as mulheres
mulheres do que o câncer, a malária, os
vítimas de violência só acontecerá no
acidentes de trânsito e as guerras. Por ser momento em que houver uma mudança
tratado como um problema de saúde pública,
organizativa no sistema e no atendimento”.
cada vez mais é abordado pelos profissionais
da área de saúde que podem se sentir pouco Salcedo-Barrientos et al (2011, p. 358)
preparados para oferecer atenção que cause asseguraram que: “Quando as relações forem
impacto efetivo na saúde das vítimas. estreitadas de modo a proporcionar uma
relação mais simétrica e de diálogo entre os
Percebe-se que a formação acadêmica pode
usuários e os profissionais [...]”, com práticas
estar relacionada com as dificuldades dos
voltadas a integração de vários setores da
profissionais enfermeiros em cuidar das sociedade, aí então o problema poderá ser
vítimas, pois durante a formação, raramente
minimizado.
temáticas sobre a violência são incluídas,
bem como ainda é pequena a produção de Entretanto, percebe-se que existe uma
conhecimento técnico e específico sobre o necessidade de se discutir com os
assunto (FAÚNDES et al, 2006 apud FERRAZ enfermeiros, em seu ambiente de trabalho e
et al, 2009, p. 757). em suas práticas cotidianas, sobre o receio
que os mesmos apresentam em lidar com o
Dias (2007) apud Ferraz et al (2009, p. 759)
tema da violência, o que pode ser justificado
aponta que, atualmente, o cuidado das pela falta de estrutura e organização dos
mulheres que sofreram violência sexual em
setores de saúde, no que tange aos serviços
sua maioria, ainda está sob a preventivos e curativos, levando o profissional
responsabilidade da polícia ou dos serviços a afastar-se ou apresentar um sentimento de
de emergência, os quais também podem
negação, o que fica evidenciado pela baixa

Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 10


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qualidade dos atendimentos nos serviços de existentes na comunidade, como grupos de


saúde (OLIVEIRA, 2005 apud SALCEDO- autoajuda, cuidado de enfermagem,
BARRIENTOS et al, 2011, p. 358). atendimento médico, psicológico, do serviço
social e de outros membros da equipe
É inegável que os enfermeiros caracterizam
multiprofissional, com vistas a prevenir novos
suas ações com uma impotência paralisante,
episódios (BRASIL, 2001 citado por FERRAZ
evidenciada pela falta de preparo para a
et al, 2009, p. 757).
atuação nos processos de trabalho, baseados
nos valores existentes na sociedade atual. Ainda de acordo com os autores supra
citados (2001 apud 2009, p.758), existem
De acordo com Protocolos HMEC/SMS-SP
alguns passos que podem integrar as ações
(2012, p. 21), a equipe multidisciplinar,
de cuidado de enfermagem e dos demais
composta por médicos, enfermeiros,
profissionais de saúde, os quais devem:
psicólogas e assistentes sociais, desde que
devidamente preparada, pode promover a [...] envolver o acolhimento e a possibilidade
recuperação e resgate da autoconfiança e de apoio por parte da equipe; auxiliar a vítima
autoestima. É possível que seja dado um a estabelecer vínculo de confiança individual
enfoque prioritário na saúde pública, sem, e institucional para poder avaliar o histórico
contudo, deixar de considerar que a violência da violência e as possibilidades de mobilizar
doméstica e/ou sexual seja uma violação dos recursos sociais e familiares; dialogar com a
direitos humanos e da cidadania. mulher sobre as opções de lidar com o
problema, permitindo lhe fazer escolhas e
A família faz parte de uma rede social e
fortalecer sua autoestima; apoiar a vítima que
precisa ser entendida neste contexto, diante
deseja fazer registro policial do fato; fazer
disso, a equipe de saúde deve agir de forma
encaminhamentos à outros órgãos
multidisciplinar, utilizando-se de todos os
competentes quando necessário, Delegacias
recursos disponíveis, bem como dos saberes
da Mulher, Instituto Médico- Legal; incentivar
dos profissionais, promovendo parcerias com
a construção de vínculo com as redes de
outros setores, como o Conselho Tutelar, para
assistência, acompanhamento, proteção e
os casos de quaisquer que sejam os tipos
redes de apoio; encaminhar para atendimento
violência sofrida pelos indivíduos.
clínico os casos de lesões graves, com
O trabalho do enfermeiro deve abranger a necessidade de reabilitação, que não
família e o indivíduo e seu contexto familiar, puderem ser atendidos na unidade; sugerir à
com encaminhamento aos profissionais da vítima atendimento para o casal ou família no
equipe multidisciplinar, caso haja caso de continuidade da relação; propor
necessidade. Quanto à violência doméstica, o acompanhamento psicológico; fazer visitas
trabalho intersetorial também se faz domiciliares constantes para cuidar e
importante, visto que parcerias com os acompanhar o caso.
Conselhos Tutelares mostraram-se
Tais passos citados, acima, são fortalecidos
importantes para o auxílio dos indivíduos e
pela Lei 11.340, onde fica estabelecido que
dos profissionais durante a conduta dos
Estados e Municípios têm o dever de
casos (SALCEDO-BARRIENTOS et al, 2011, p.
assegurar os direitos à saúde da mulher,
360).
planejando e implementando as redes que
Fica claro que cabe a cada setor distinguir e servem de apoio, bem como de programas de
assumir as responsabilidades e funções, saúde que tenham por objetivo proteger e
baseados nas interfaces e nos cuidar das vítimas, reduzindo os índices de
compartilhamentos, para que o sistema possa criminalidade (BRASIL, 2007 apud FERRAZ et
funcionar. Qualquer ação dos profissionais al, 2009, p. 758).
visa apoiar os indivíduos e as famílias
O cuidado às vitimas deve ser planejado com
vitimizadas pela violência, com vistas à
vistas ao respeito aos valores e às crenças
transformação desta realidade.
dos indivíduos em relação à vida, morte,
O Ministério da Saúde, através das Políticas saúde, doença e cura, exigindo do enfermeiro
de Saúde faz orientações para a prática a utilização de instrumentos importantes para
profissional e refere que a violência doméstica a realização do exercício profissional,
pode ser repetitiva e deve ser detectada significando meios para que os objetivos
precocemente com prevenção de agravos propostos sejam atingidos.
futuros. As vítimas devem ser orientadas
Para Ferraz et al (2009, p. 758) esses
sobre a violência, seu curso e os recursos
instrumentos envolvem a observação, o

Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 10


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cuidado emocional, o toque terapêutico, o consequências físicas e psicológicas à sua


corpo, o bom senso, a liderança, o caráter saúde. Frequentemente, este tipo de violência
humanitário, a solidariedade, a sensibilidade, está associado a outros tipos de violência,
a técnica, a relação educativa e as dimensões como sexual urbana, doméstica, intrafamiliar,
psicossocial e psicoespiritual. de gênero, dentre outros.
Assistir vítimas de violência implica em cuidar A violência psicológica pode ser considerada
do ser humano em sua totalidade, elaborando a mais frequente e causar profundo
e aplicando “[...] medidas de promoção e sofrimento, se revelando por xingamentos e
prevenção que podem ser potencializadas humilhações, corroborando para a
pela educação permanente, com caracterização do impacto da violência
esclarecimentos sobre os direitos e doméstica no panorama de saúde brasileiro.
prerrogativas das vítimas” (FERRAZ et al,
Os profissionais de saúde têm importância
2009, p. 758).
fundamental na assistência, apoio e
É importante que a vítima sinta-se assistida, orientações, não apenas à mulher vitimizada,
estabelecendo-se uma relação de cuidado, como também aos familiares envolvidos em
fazendo com que a vítima consiga se expor e, todo o processo. Percebeu-se que o
mesmo diante de tal situação, sinta-se enfermeiro tem papel de grande relevância
amparada. quando se trata de vítimas de violência,
especialmente aqueles enfermeiros que
Deslandes (1999) apud Mochnacz (2009,
atuam em programas dentro das
p.63) aponta para necessidade de
comunidades, bem como nos serviços
investimentos nas questões de violência,
públicos, que são considerados portas de
como: capacitação e sensibilização dos
entrada para as vítimas.
profissionais, criação de rotinas institucionais
de acordo com as responsabilidades dos Diante de tais afirmações, observa-se que o
membros da equipe, articulação de listas de profissional enfermeiro deve estar capacitado
referências de instituições e serviços para para deparar-se com tais situações, por
futuros encaminhamentos e melhoria dos muitas vezes chocantes e deletérias ao ser
registros de atenção à saúde para o subsídio humano e que, por vezes, o enfermeiro
de planejamento de ações futuras. também depara-se com a impossibilidade de
auxílio e a falta de recursos para prestar a
Ferraz et al (2009, p. 758) reafirmam que,
assistência, cabendo portanto ressaltar que,
utilizar instrumentos do processo de cuidar
mesmo diante de tantos obstáculos e
em enfermagem é a base para o encontro de
desafios, o enfermeiro deve colocar-se em
possibilidades para o enfrentamento do
posição de apoio aos vitimizados.
problema de forma positiva, com a criação de
um elo entre cuidador e o assistido, sendo Este artigo buscou trazer informações sobre a
necessário que a disponibilidade, a intenção, realidade da violência doméstica no Brasil,
a receptividade, a confiança e a aceitação especificamente contra a mulher, mostrando
entre as partes fiquem claras. Ressaltando-se que vários atores e setores, privados e/ou
que o saber técnico-científico, além das públicos, estão envolvidos no entendimento e
habilidades e competências profissionais, resolutividade do problema, sendo que as
favorece a percepção do ser humano nos ações de enfermagem podem possibilitar a
aspectos biológico, psicológico, social e aproximação das vítimas aos instrumentos de
espiritual. atendimento e superação dos problemas
físicos e psicológicos gerados por esta
violência.
7. CONSIDERAÇÕES FINAIS
E por fim, pode-se dizer que a violência é algo
Após análise e estudo do assunto em que permeia nossa sociedade, e cabe ao
questão, podemos observar a alta prevalência enfermeiro não somente inferir em tais
da violência contra a mulher e da situações, como também servir como agente
invisibilidade do problema na saúde pública. de mudanças, através de ações tanto
educativas, quanto assistenciais, buscando a
A violência sexual pode vitimizar, de forma
mudança de paradigma no que tange à
silenciosa as mulheres, trazendo graves
violência doméstica e suas vítimas.

Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 10


71

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Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 10


72

Capítulo 7

Luís Carlos de Andrade Silva


Antônio Lisboa da Silva
Elvia Florencio Torres Ximenes
Liliane Araújo Pinto
Tales Antão de Alencar Carvalho
Cléverson Vasconcelos da Nóbrega

Resumo: Mediante a ascensão dos conceitos da logística reversa que permeiam o


setor de pneus, essa pesquisa intencionou identificar os reais objetivos de
empresas revendedoras de pneus que adotam a prática da logística reversa:
lucratividade ou consciência socioambiental. Essa pesquisa foi aplicada no
contexto das maiores empresas do ramo de pneus em uma cidade brasileira de
médio porte, utilizando a entrevista semiestruturada como coleta de dados, e
mostrou que apenas cinco das principais revendas de pneus aplicam a logística
reversa. Por fim, a lucratividade está sempre presente nos interesses dos
empresários, já os fatores socioambientais nem sempre são contemplados.

Palavras-chave: Logística Reversa de Pneus. Consciência Socioambiental.


Estratégia Econômica.

Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 10


73

1 INTRODUÇÃO Somam-se a isso a poluição causada, a


moradia de animais, insetos como vetores de
Nas últimas décadas, a logística reversa vem
diversas doenças, além de outros impactos
ganhando grande relevância. Leite (2009)
ambientais. (GOTO E SOUZA, 2008). Por
expõe que os primeiros estudos sobre o tema
outro lado, os pneus inservíveis quando bem
foram registrados nas décadas de 1970 e
administrados podem servir de matérias-
1980, tendo como foco principal o retorno de
primas para diversos processos produtivos.
produtos a serem processados em
reciclagem de materiais, denominados e Nesse contexto, a presente pesquisa
analisados como canais de distribuição apresenta sua devida importância, buscando
reversos. expor os reais objetivos das empresas
revendedoras de pneus de uma cidade de
O tema “Logística Reversa” passou a ser
médio porte que trabalham com a logística
estudado de forma mais intensa tanto no
reversa. Assim, este trabalho analisa as
ambiente acadêmico quanto no empresarial a
práticas por estas empresas, procurando
partir da década de 1980, quando as
identificar a intenção dos empresários do
abordagens passaram a apresentar além das
setor de revenda de pneumáticos, se esses
questões ambientais ou ecológicas, as
estão preocupados com o desenvolvimento
questões legais, econômicas, entre outras
socioambiental, a lucratividade ou com
(TADEU ET AL, 2012).
ambos, relacionando as práticas adotadas
Assim, o estudo da logística reversa e da pelas empresas com os conceitos e práticas
sustentabilidade tem ganhado grande de logística reversa no ambiente empresarial.
notoriedade. Diversos autores, em seus
estudos, têm contribuído com o tema,
acarretando discussões e debates sobre 2 FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA
diferentes enfoques e modelos de cadeia de
O termo logística reversa não possui uma
suprimentos sustentáveis (DHOUIB, 2014;
definição universal. Diversos autores
GOVINDAN, ET AL 2012). A Logística Reversa
consideram apropriada a definição
tem sido, de forma frequente e crescente,
apresentada pelo Reverse Logistics Executive
citada em conferências e simpósios
Council, que apresenta a logística reversa
internacionais, em artigos, livros modernos e
como sendo o processo de planejar,
revistas especializadas em Logística
implementar e controlar a eficiência e os
Empresarial, demonstrando o crescente
custos do fluxo de matérias-primas, estoques,
interesse de estudo e sua utilidade e
produtos acabados e as informações
aplicabilidade tanto para a economia
correlacionadas do ponto de consumo ao
empresarial e como para a preservação
ponto de origem, com o objetivo de recapturar
ambiental.
valor ou para um descarte apropriado
A logística reversa possui atributos que (CAMPOS, 2006).
estimulam a produção de novos produtos com
A Lei 12.305, de 02 de agosto de 2010, que
a utilização de resíduos que chegaram ao fim
institui a Política Nacional de Resíduos
de sua vida útil, além do aprimoramento de
Sólidos, descreve a logística reversa como
produtos inservíveis. Esta temática está em
sendo um instrumento de desenvolvimento
ascensão devido às pressões vindas das
econômico e social, caracterizado por um
massas ambientalistas, das legislações
conjunto de ações, procedimentos e meios
vigentes voltadas para o cuidado com o
destinados a viabilizar a coleta e a restituição
planeta e das exigências dos consumidores
dos resíduos sólidos ao setor empresarial,
que estão mais preocupados com o meio
para reaproveitamento, em seu ciclo ou em
ambiente e com a forma que as organizações
outros ciclos produtivos, ou outra destinação
atuam. Nesse cenário cabe questionar o real
final que seja ambientalmente adequada.
objetivo dos empresários em investirem em
logística reversa: seria uma ação de Vale resaltar que ela se diferencia da gestão
consciência ambiental ou busca por de resíduos, pois enquanto esta se refere
interesses econômicos? principalmente à recolha e ao tratamento de
resíduos de forma eficiente e eficaz, aquela se
Para o desenvolvimento dessa problemática
concentra nas correntes onde há algum valor
escolheu-se o segmento de pneus, tendo em
a ser recuperado e os resultados são
vista que um pneu descartado de forma
introduzidos na nova cadeia de suprimentos
incorreta na natureza leva em torno de 600
(BRITO e DEKKER, 2002).
anos para se decompor. (SCAGLIUSI, 2011).

Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 10


74

Com isso, percebe-se que as variadas próprio uso ou para o uso em suas redes
definições de logística reversa mostram que o operacionais (LEITE, 2009).
seu conceito ainda está em evolução, em
Nesse contexto, a remanufatura é uma
virtude dos novos meios de negócios
emergente área de negócio, atraente tanto a
relacionados com o crescente interesse
nível econômico quanto a um ponto de vista
organizacional, pessoal (devido ao interesse
ambiental, pois é um dos campos mais
por melhorias no meio ambiente) e ainda do
importantes para a recuperação de produtos,
interesse acadêmico e governamental.
ou seja, os produtos usados (ou suas partes e
Entende-se assim, que a logística reversa é
componentes) são restaurados para um
um processo adicional à logística tradicional,
estado que podem ser comercializados tendo
pois essa tem o papel de levar produtos dos
novamente as mesmas características de um
fornecedores até os clientes intermediários ou
novo produto, em termos de qualidade
finais, e a logística reversa deve completar o
técnica e desempenho (SASIKUMAR,
ciclo, ou seja, revertê-lo, trazendo de volta os
KANNAN e HAQ, 2010).
produtos já utilizados dos diferentes pontos
de consumo a sua origem. Assim, a adoção das práticas da logística
reversa é uma realidade no mundo dos
De acordo com Leite (2009), a sociedade, em
negócios. É notória a importância que essa
todas as partes do globo, tem se preocupado
prática tem conquistado na sociedade, tanto
cada vez mais com o equilíbrio ecológico e
na perspectiva econômica como no âmbito
está gradualmente se tornando mais
social (CAMPOS, 2006). Soma-se a isso a
consciente. Essas preocupações têm se
obrigação dos empresários em adotarem
tornado uma importante forma de incentivo à
procedimentos de logística reversa para se
estruturação dos canais de logística reversa
adequarem a legislações ambientais que
de pós-consumo, ou seja, as empresas
frequentemente vão sendo adicionadas na
sentem a necessidade de adequar-se às
Constituição, influenciando diretamente nos
exigências de mercado.
modelos de negócio das empresas (BRAGA E
Nesse sentido, Menezes e Ferreira (2004) MEIRELLES, 2012).
afirmam que a missão de qualquer sistema de
logística, seja ela reversa ou tradicional, é
sempre para servir e personalizar o 2.1 PNEUMÁTICOS
cliente/consumidor, pois o papel do
O pneu tornou-se um elemento fundamental
consumidor e o desafio a sua personalização
para o desenvolvimento da sociedade
são particularmente importantes no sistema
moderna, seja no transporte de passageiros
de logística reversa por três razões:
ou de cargas (SOUZA e D’AGOSTO, 2013).
inicialmente porque o consumidor é o primeiro
Dada essa realidade, o consumo de pneus
e decisivo elo da cadeia logística global e
acontece em grandes proporções em todo
sem a sua participação o sistema não existe;
planeta.
segundo, em paralelo com os custos
logísticos da operação reversa, o serviço ao Freires e Guedes (2008) ressaltam que
consumidor é uma medida do desempenho quando os pneus usados são deixados em
do sistema; e finalmente, o serviço ao cliente locais inadequados, estes servem como lugar
é fundamental para agregar valor aos para a procriação de mosquitos e outros
produtos oferecidos. Assim, se a sociedade vetores de doenças, representando também
está ecologicamente mais consciente, o um constante risco de incêndio, quando são
sistema logístico precisa se adaptar a isso. deixados ao ar livre, além de contaminar o
solo.
Nos últimos anos, vem evoluindo um
crescente interesse do governo e das Os pneus inservíveis não devem ser
indústrias em processos de recuperação de destinados aos aterros sanitários, pois
produtos que chegam ao fim de sua vida útil, apresentam dificuldade em sua
sendo por meio de reparação, de decomposição e, por isso, passam muito
recondicionamento, remanufatura, tempo degradando o meio ambiente. Viana
canibalização e reciclagem (SASIKUMAR, (2009) expõe que os pneus não são
KANNAN e HAQ, 2010), pois atuando como adequados para serem descartados em
players de grande porte no cenário aterros sanitários, tendo em vista que os
econômico, os governos poderão catalisar pneumáticos são compostos por materiais
ações que incentivem a aquisição de resistentes, o que dificulta o processo de
produtos e materiais reaproveitados para seu compactação junto ao lixo como um todo,

Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 10


75

provocando espaços vazios no solo. Isso Ambiente (CONAMA). Conforme Aguiar


pode comprometer o aterro dado o risco de (2010), no dia 26 de agosto de 1999, o
explosões. Conselho publicou a primeira resolução
voltada aos pneumáticos, a 258, obrigando os
Uma solução parcial para o problema dos
fabricantes e importadores de pneus a darem
pneumáticos inservíveis seria o processo da
uma destinação correta aos pneus usados.
trituração antes de destiná-los aos aterros, no
Desde então, aconteceram alterações e
intuito de facilitar sua compactação, mas a
criação de novas resoluções: a 301, de 21 de
dissolução da borracha junto ao lixo gera
março de 2002 e a 416, de 30 de setembro de
óleos com potencial de poluir córregos ou
2009.
lençóis freáticos (VIANA, 2009).
A Resolução 416 considera pneu inservível
De modo geral, problemas ambientais
aquele pneu usado que apresente danos
relacionados aos resíduos de pneus e suas
irreparáveis em sua estrutura, não servindo
alternativas de reciclagem e destinação têm
mais para rodar ou para reformar (CONAMA,
sido um problema. Essa realidade se dá por
2009), ou seja, o pneu que está sem
causa de uma combinação complexa de
condições para ser utilizado em sua atividade
materiais de diferentes naturezas, tais como:
principal.
vários tipos de borrachas, cabo de aço,
elastômeros, produtos têxteis e outros Segundo a Resolução 416, os fabricantes e
componentes menores orgânicos e importadores de pneumáticos devem dar uma
inorgânicos. Dessa forma, os pneumáticos correta destinação aos pneus inservíveis. Seu
têm sido alvo de muitos estudos na área de artigo 3º expõe que para cada pneu novo
gestão de resíduos (DHOUIB, 2014). comercializado para o mercado de reposição,
as empresas fabricantes ou importadoras
Atualmente, os danos provocados ao meio
deverão dar destinação adequada a um pneu
ambiente por produtos descartados
inservível, sendo que para efeito de
incorretamente vêm fazendo com que a
fiscalização, a quantidade de que trata o
sociedade exija dos órgãos competentes
caput deverá ser convertida em peso de
formas de controle e redução dos impactos,
pneus inservíveis a serem destinados
bem como formas de reverter esses danos.
(CONAMA, 2009).
Com isso, surgem as legislações ambientais e
regulamentações voltadas para a adequada Ainda conforme a Resolução do CONAMA, n.°
destinação dos produtos usados. 416, de 30/09/2009, no seu artigo 1°, as
empresas que fabricam e/ou que importam
Algumas normas legais têm sido
pneus novos com peso unitário superior a
desenvolvidas em resposta aos impactos
2kg, ficam na obrigação de dar destinação
ambientais, com intuito de adequar o
adequada aos pneus inservíveis.
crescimento econômico às variáveis
ambientais. Tais legislações regulamentam O Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos
normas para a utilização de “selos verdes Recursos Naturais Renováveis (IBAMA, 2010)
para indicar os produtos de pós-consumo que complementa na Instrução Normativa n.º
podem ou não ser depositados em aterros 01/2010, no art. 2º, que a obrigatoriedade de
sanitários” (LEITE, 2009, p.23). coleta e destinação de pneus inservíveis
atribuída aos importadores e fabricantes de
As legislações ambientais são específicas
pneus refere-se àquelas empresas que
para cada produto, devendo considerar seus
importam ou produzem pneus novos com
diferentes aspectos, desde a sua vida útil até
peso unitário superior a 2kg, que se
a sua disposição final. Isso porque cada um
enquadram na posição 4011 da Nomenclatura
desses possui uma característica específica e
Comum do Mercosul (NCM).
também um grau do dano que pode causar
ao meio ambiente caso seja destinado de De acordo com a resolução do CONAMA n.º
forma incorreta após sua vida útil. 23, de 12 de dezembro de 1996, como consta
nos artigos 5º e 6º, as empresas fabricantes e
importadoras de pneus devem também
2.2 LEIS QUE REGULAM A declarar anualmente o que é feito com os
COMERCIALIZAÇÃO DE PNEUS NO BRASIL pneus inservíveis, prezando pelo destino
ambientalmente correto dos materiais
No Brasil, o órgão que regulamenta a
pneumáticos.
destinação dada aos pneus junto aos
fabricantes é o Conselho Nacional do Meio

Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 10


76

De acordo com a Instrução normativa do fabricantes de pneus novos, e pela


IBAMA n.º 1, de 18 de Março de 2010, no Associação Brasileira da Indústria de Pneus
artigo 6º, a comprovação da destinação de (ABIP), que reúne os fabricantes de pneus
pneumáticos inservíveis será efetuada pelos remoldados, e que utilizam como matéria-
fabricantes e importadores de pneus no ato prima pneus usados importados (VIANA,
do preenchimento do ‘Relatório de 2009).
Comprovação de Destinação de Pneus
De acordo com Viana (2009), a ABIP defende
Inservíveis’ disponível no Cadastro Técnico
a importação de pneus usados no Brasil, para
Federal (CTF), contendo as seguintes
que sejam restaurados e comercializados,
informações:
pois o pneu nacional usado é de baixa
a) quantidade destinada, em peso; qualidade, dada a qualidade dos pisos e
estradas no país.
b) tipo de destinação;
Já a ANIP, contrária a essa importação, alega
c) empresas responsáveis pela
que há pneus de meia-vida em demasia no
destinação;
país, o que dispensa a necessidade de sua
d) quantidade de pneus inservíveis, importação. A ANIP ressalta ainda a rapidez
armazenados temporariamente, em com que os pneus usados importados se
lascas ou picados, quando couber; transformam em passivo ambiental, além de
tornarem o Brasil um depósito de lixo mundial.
e) endereço da empresa responsável
Soma-se a isso o argumento de que se a
pelo armazenamento;
importação de pneus usados fosse um bom
f) pontos de coleta. negócio, os próprios países de origem fariam
as suas remoldagens (VIANA, 2009).
De acordo com a norma do CONAMA (2009)
e do IBAMA (2010), os fabricantes de pneus ABIP vê os pneus remoldados como
possuem a obrigação de darem uma competitivos diante dos pneus novos
destinação adequada à determinada nacionais, uma vez que possuem garantia
quantidade de pneus inservíveis de acordo compatível, por preço 40% inferior, e uma
com sua fabricação e/ou importação. Para opção ao mercado interno com economia de
isso, os importadores contam com a ajuda recursos ambientais.
dos seus representantes, isto é, com a ajuda
Consoante Viana (2009), o mais importante é
dos revendedores os fabricantes conseguem
que para a logística os pneus inservíveis,
cumprir as exigências das regulamentações e
sejam eles originados de fábricas nacionais
dar uma destinação correta aos pneus
ou estrangeiras, produzem o mesmo efeito ao
inservíveis. Feito isso, os fabricantes e
meio ambiente e merecem os mesmos
destinadores junto aos órgãos competentes
cuidados pós-consumo.
devem comprovar anualmente o destino dado
aos pneus. E o IBAMA encaminha à Por isso, não importa a procedência dos
Secretaria do Comércio Exterior do Ministério pneus, esses causam os mesmos danos ao
da Indústria do Comércio e do Turismo meio ambiente e à sociedade, e deve-se ter o
(SECEX/MICT) uma relação atualizada das maior cuidado possível para que não sejam
empresas cadastradas e aptas a realizar destinados de forma incorreta ao término de
importações de pneumáticos. sua vida útil.
Vale salientar que todas as normas citadas
são referentes à importação e
3 METODO DE PESQUISA
comercialização de pneus novos, pois
conforme a Resolução n.º 23 do CONAMA O presente trabalho tem como objetivo
(2010) é proibida a importação de pneus identificar os reais objetivos das empresas
usados em todo o território nacional, sob revendedoras de pneus que adotam a prática
qualquer forma e para qualquer fim. da logística reversa em uma cidade brasileira
de médio porte. A caracterização da pesquisa
Com isso, deve-se ressaltar que no Brasil
se deu mediante os aspectos relativos aos
existe um grande conflito entre as indústrias
fins objetivados e aos meios necessários,
do mercado de reposição de pneumáticos,
conforme recomenda Vergara (2007).
onde os principais protagonistas desse
conflito nos últimos anos são representados Quanto aos fins, a pesquisa foi exploratória e
pela Associação Nacional da Indústria de descritiva: exploratória por não se ter muita
Pneumáticos (ANIP), que conta com os informação sistematizada sobre o tema,

Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 10


77

buscando mostrar maiores informações sobre mostrar qual o destino dado aos pneus que
a logística reversa de pneus; e descritiva são recolhidos nas empresas que não
porque se pretende descrever as informações aplicam o processo de logística reversa, bem
e características do assunto estudado. E como nas empresas que destinam os pneus à
conforme Andrade (2010), a pesquisa prefeitura para que essa possa dar a
exploratória é o passo inicial para todo e destinação correta ao pneu inservível.
qualquer trabalho científico, tendo tal tipo de
Para a análise e interpretação dos dados foi
pesquisa a finalidade de proporcionar
utilizada a Análise de Conteúdo, que se
maiores informações sobre o assunto.
caracteriza como um conjunto de técnicas de
E quanto aos meios, o desenvolvimento da análise das comunicações, que visa obter,
referida pesquisa se deu em duas etapas por meio de procedimentos sistêmicos e
principais, a revisão da literatura e a pesquisa objetivos de descrição de conteúdo das
de campo. A revisão da literatura constituiu-se mensagens, indicadores que permitam as
na busca de informações referente aos inferências de conhecimentos relativos às
pressupostos teóricos fundamentais já condições de produção/recepção destas
elaborados sobre o tema. E o levantamento mensagens (BARDIN, 2004).
de campo, realizado na segunda etapa,
constituiu-se pela entrada em campo, feita a
partir de duas fontes diferenciadas: uma 4 RESULTADOS DA PESQUISA
entrevista semiestruturada e observação não
Em três das empresas selecionadas, o
participante. Conforme Gil (2011), as
próprio dono da empresa respondeu às
pesquisas em que se utilizam o levantamento
perguntas da entrevista, e as demais
de campo se caracterizam pela interrogação
colocaram à disposição o profissional
direta das pessoas cujo comportamento se
responsável pelo cargo de gerência.
deseja conhecer.
A pesquisa abrangeu também o responsável
O referido trabalho trata-se de uma pesquisa
pela Secretaria de Meio Ambiente e Recursos
de abordagem qualitativa com levantamento
Hídricos. Nessa repartição foi feita uma
de dados junto a gerentes e proprietários de
entrevista pré-estruturada com o membro
revendedoras de pneus em uma cidade
responsável pelo recolhimento dos pneus
brasileira de médio porte. Por essa razão, a
inservíveis na cidade, com intuito de saber
técnica escolhida para a coleta de dados foi o
qual a destinação dos pneus recolhidos das
roteiro de entrevista, aplicado em cinco
revendas.
revendas de pneus e na Secretaria de Meio
Ambiente e Recursos Hídricos da cidade, que Na entrevista, o Secretário informou que existe
é responsável pela coleta de pneus em uma parceria da Prefeitura do município com
alguns pontos da cidade. a ANIP, que por meio do programa Reciclanip
(um programa de reciclagem de pneus criado
O critério para a escolha das empresas
em março de 2007 pela ANIP, originado do
pesquisadas foi o porte e o fato de utilizarem
Programa Nacional de Coleta e Destinação de
a Logística Reversa. Em princípio, foram
Pneus Inservíveis de 1999) realiza a coleta, a
contatadas as sete maiores empresas do
destinação e o acompanhamento dos
ramo de pneus de uma cidade de médio
avanços da reciclagem de pneus no país,
porte. Essa amostra foi selecionada tendo
sendo a função da prefeitura coletar os pneus
como base o cadastro das empresas na junta
pela cidade.
comercial da cidade, porém somente cinco,
dos sete empreendimentos visitados, O Secretário esclareceu ainda que não é
confirmaram adotar a prática de Logística obrigação da prefeitura recolher os pneus
Reversa. Assim, a amostra se reduziu para inservíveis nas revendas, visto que estas
cinco empresas. empresas têm por obrigação, prevista em lei,
dar uma destinação adequada aos mesmos
As entrevistas foram realizadas no período de
conforme já citado nas resoluções do
01 a 19 de Julho de 2013, com o auxílio de
CONAMA (2009). Os pneus que são
gravadores que permitiram captar todos os
coletados pela prefeitura são deixados em um
detalhes da entrevista, visando saber o
local até que o caminhão da Reciclanip venha
funcionamento dos processos das empresas
recolher.
pesquisadas. Foi realizada também uma
entrevista à Secretária de Meio Ambiente e Ciente da existência desse programa para
Recursos Hídricos do município, buscando coleta de pneus prosseguiu-se com as

Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 10


78

análises dos dados coletados junto às 4.1 AS AÇÕES DE LOGÍSTICA REVERSA


empresas estabelecendo os seguintes PRATICADAS PARA A DESTINAÇÃO DE
pontos: análise das ações de logística reversa PNEUS USADOS
para destinação de pneus usados;
A logística reversa de pneus usados trata-se
identificação dos motivos que levaram as
de procedimentos técnicos em que estes são
empresas a adotarem a logística reversa; por
descaracterizados de sua forma inicial, e que
fim, a verificação do consentimento dos
seus elementos constituintes são
empresários com as leis que regulamentam a
reaproveitados, reciclados ou processados
comercialização de pneus no Brasil. Assim,
por outras técnicas admitidas pelos órgãos
será apresentada cada questão com as
ambientais competentes, observando a
devidas respostas obtidas, objetivando
legislação vigente e normas operacionais
corroborar o resultado obtido na pesquisa
específicas de modo a evitar danos ou riscos
com o referencial teórico adotado.
à saúde pública e à segurança, e a minimizar
os impactos ambientais adversos (CONAMA,
2009). Nesse contexto, perguntou-se aos
gestores acerca da aplicação do processo de
logística reversa em suas respectivas
empresas. Os seguintes discursos foram
coletados:

Figura 01: Ações de logística reversa praticadas pelas empresas pesquisadas.


Empresas Discursos
A gente tem um convênio com a ANIP, que por meio do programa reciclanip ela recolhe
Empresa 1 os pneus inservíveis para dar a destinação adequada, sendo que na maioria das vezes
os pneus são triturados para virar composto de asfalto.
Os pneus são enviados para a central em Brasília, e lá eles dão a destinação correta. A
Empresa 2 empresa possui parceria com fabricantes de objetos derivados da borracha, tais como
sandálias, borracha asfáltica.
Empresa 3 Encaminhamos para a prefeitura, onde a mesma dá a destinação correta ao pneu.
A recapagem, e quando não servem para recapagem as carcaças são trituradas aqui
Empresa 4 mesmo na empresa, e são entregues às academias para fazer aqueles ringues, ou são
entregues a criadores para fazer cocheiros, ou então a empresa queima os pneus.
Nós trabalhamos com a reforma, e quando o pneu é recusado para reforma, a orientação
Empresa 5 da autorizada é que a gente devolva para a prefeitura, onde ela dá a destinação ao
pneu.
Nota. Fonte: dados da pesquisa, setembro de 2013.
Com base nas respostas, percebe-se que os ramo de negócio, bem como de gestão
pneus inservíveis têm seguido os mais empresarial como um todo.
diversos destinos, tais como: asfalto,
O gestor da Empresa 4 declarou que adota a
sandálias, cocheiros e até queimados, sendo
logística reversa por meio do procedimento
que as empresas que não possuem coletores
de recapagem, bem como encaminha às
próprios acabam enviando os pneus para a
academias, porém afirmou ainda que em
prefeitura, para uma adequada destinação.
alguns casos esses pneus são queimados.
Os gestores das Empresas 4 e 5 possuem
Contudo, a legislação cita que a queima de
formas de reaproveitamento dos pneus
pneus não é um procedimento
inservíveis na própria empresa, fazendo
ambientalmente correto para a destinação
reciclagem por meio da recapagem e/ou
final desses produtos, pois uma destinação
reforma.
adequada deve evitar danos ou riscos à
O proprietário da Empresa 1 demonstrou saúde pública e à segurança, bem como
deter um maior conhecimento acerca das minimizar os impactos ambientais adversos
questões legais, demonstrando no ato da (CONAMA, 2009).
entrevista, ser conhecedor dos preceitos do
E para que haja uma maior efetividade na
prática de logística reversa de pneus

Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 10


79

inservíveis, a Resolução 416/2009 do desenvolvidos junto aos agentes envolvidos e,


CONAMA diz que as empresas fabricantes e principalmente, junto aos consumidores.
revendedoras deverão elaborar um plano de Sabendo disso, buscou identificar as políticas
gerenciamento de coleta, armazenamento e que a empresa adota no intuito de estimular
destinação de pneus inservíveis, contendo a os consumidores a devolver o pneu usado.
descrição dos programas educativos a serem

Figura 02: políticas adotadas pelas empresas que estimulem a devolução do pneu.
Empresas Discursos
Quando o cliente vem comprar ou trocar o pneu, a empresa o orienta a não levar para
casa e nem deixar no carro, pois como o pneu já teve contato com o solo, este leva para
Empresa 1
dentro de casa bactérias e vírus. A empresa o orienta a deixar o pneu na empresa, que
esta se encarregará de dar a destinação adequada.
Ainda não temos nenhum programa de incentivo para estimular o cliente a devolver os
Empresa 2
pneus inservíveis.
Adotamos uma política de reciclagem do pneu inservível, assim diminuindo o impacto ao
Empresa 3
meio ambiente.
Empresa 4 A gente fala que o pneu não serve mais e que o cliente corre riscos.
Não existe nenhuma política, até porque o pneu é dele, a orientação é que não pode ser
Empresa 5
jogado no lixo porque vai poluir.
Nota. Fonte: dados da pesquisa, setembro de 2013.

Analisando as respostas, percebe-se que em pneu inservível na revenda, bem como não se
nenhuma das empresas entrevistadas há preocupar com o que o consumidor fará com
políticas efetivas que objetivem estimular o o pneu velho, como mostra a frase: “até
consumidor a devolver o pneu inservível. porque o pneu é dele!”
Nota-se que a forma utilizada pelas empresas
Os pneus que são deixados nas empresas
para estimular os clientes a devolverem os
devem ser analisados por profissionais
pneus na revenda é uma mera argumentação
competentes para verificar se são produtos
com palavras, procurando explicar
inservíveis ou servíveis, no caso de produtos
informalmente aos consumidores que a má
com meia-vida, que podem ser
destinação dos pneus pode causar danos a
recauchutados (LAGARINHOS e TENÓRIO,
todas as pessoas, visto que isso aumenta
2013). A esse respeito Goto e Souza (2008)
cada vez mais os impactos ao meio ambiente.
afirmam que o Brasil é o segundo maior
O proprietário da Empresa 2 informou que reformador de pneus do mundo, mesmo
ainda não possui nenhuma forma de perante a dificuldade que esse produto tem
incentivar o consumidor a devolver o pneu em entrar no mercado pela rejeição dos
inservível, nem mesmo de maneira informal, compradores que julgam esses pneus como
demonstrando que a preocupação da mesma tendo uma qualidade duvidosa, apesar de
para com a sociedade e o meio ambiente é que algumas reformadoras possuem
pequena. certificação pelo INMETRO.
O gestor da Empresa 5 demonstrou um Frente a esse cenário buscou-se verificar
completo desinteresse em relação a estimular quais os procedimentos realizados após a
a conscientização do consumidor a deixar o chegada dos pneus à empresa.

Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 10


80

Figura 03: procedimentos realizados após a chegada dos pneus.


Empresas Discursos
A gente guarda em um galpão próprio da empresa, separado dos pneus novos e espera
Empresa 1
o caminhão da reciclanip vir buscar.
Empresa 2 A empresa acumula e espera o caminhão para levá-los para a central.
É feito a identificação do pneu que em seguida é lançado ao relatório de carcaças
Empresa 3
inservíveis e assim mandado para a reciclagem.
Empresa 4 Eles são examinados por um profissional especializado.
Empresa 5 Os pneus são examinados para ver se há condição de reforma.
Nota. Fonte: dados da pesquisa, setembro de 2013.

As empresas um, dois e três não possuem da Empresa 1 adiciona que o pneu é
formas de recuperação dos pneus no próprio inservível quando está estourado ou rasgado.
estabelecimento, por conta disso, elas apenas Já os demais gestores responderam que para
separam os pneus dos novos e considerar um pneu como inservível, verifica-
posteriormente encaminham para o local, se apenas se há ou não condições de reforma
onde são feitos os procedimentos adequados. ou quando estavam muito gastos.
As demais revendas possuem profissionais
De acordo com a ANIP (2013), o TWI (Tread
especializados na própria empresa que
Wear Indicator) refere-se a um indicador que
examinam para saber se estes podem ser
mostra o limite de segurança para rodagem,
reutilizados e/ou recuperados e novamente
estando na hora de trocá-lo, e que abaixo
lançados no mercado.
dessa medida o pneu é considerado “careca”
O programa Reciclanip citado pelo e o veículo pode ser apreendido.
Empresário 1, foi explicado pelo Secretário de
Meio Ambiente e Recursos Hídricos da cidade
estudada como um destino correto e seguro 4.2 MOTIVOS QUE LEVARAM A EMPRESA A
para os pneus inservíveis. A Reciclanip conta ADOTAR A LOGÍSTICA REVERSA
hoje com 815 pontos de coleta em todo
No intuito de minimizar os impactos de
território nacional, além de parcerias com
processos ou produtos danosos à sociedade
prefeituras municipais e outros órgãos
ou ao meio ambiente, as empresas têm
governamentais (RECICLANIP, 2014).
buscado responder às reações da sociedade,
Vale salientar que o CONAMA, em sua onde estas se manifestam principalmente pelo
Resolução n.416 de 2009, considera pneu comportamento do consumidor ou por
inservível, aquele pneu usado que apresente legislações restritivas.
danos irreparáveis em sua estrutura, não se
O novo cliente e consumidor está
prestando mais para rodar ou reformar. Ou
gradativamente passando a exigir uma maior
seja, quando o pneu que está sem condições
responsabilidade empresarial, um maior rigor
para ser utilizado em sua atividade principal.
em legislações ambientais e estratégias que
Por conta disso, buscou-se saber quais os
privilegiem o favorecimento do retorno de
critérios que as empresas utilizam para
produtos e o equacionamento desse retorno
classificar um pneu como inservível.
de maneira organizada (LEITE, 2009). A partir
Os empresários das Empresas 1 e 2 deste contexto, procurou-se saber quais os
consideram um pneu inservível quando ele motivos que levaram as empresas a
atinge uma marca conhecida como TWI, que praticarem a logística reversa.
é a marca limite para rodagem, sendo que a

Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 10


81

Figura 04: motivos que levaram à adoção da logística reversa


Empresas Discursos
Quando a empresa assina o contrato de revendedor, há uma cláusula específica no
Empresa 1 contrato dizendo que a empresa deve guardar o pneu inservível para quando a
Reciclanip passar recolher o pneu.
Devido à grande quantidade de pneus inservíveis existentes e ao fato de não poder
Empresa 2
jogá-los em qualquer lugar.
Empresa 3 Em respeito ao meio ambiente e às normas da empresa.
Empresa 4 As leis ambientais.
É determinação da concessionária autorizada da nossa bandeira, porque o pneu não
Empresa 5 pode ser jogado no lixo e nem guardado, ele tem de ser encaminhado para um lugar
adequado.
Nota. Fonte: dados da pesquisa, setembro de 2013.
A partir das respostas obtidas, percebeu-se Percebe-se, então, que na maioria das
que são vários os motivos pelos quais as empresas a prática da logística reversa é
empresas praticam a logística reversa. Os adotada basicamente porque as empresas
gestores das Empresas 1 e 5 praticam tal são “obrigadas” a dar uma destinação
processo por conta das normas e adequada aos pneus inservíveis, seja por
especificações da concessionária autorizada, conta das legislações vigentes ou pelo fato de
ou seja, a empresa distribuidora central, e o as concessionárias distribuidoras exigirem
gestor da Empresa 3 especifica que é em das revendas uma destinação
respeito ao meio ambiente e também que é ambientalmente correta para tais produtos.
norma da própria empresa. Já o gestor da
Porém, são inúmeros os benefícios que a
Empresa 4 afirma que o motivo que levou a
logística reversa proporciona às empresas
adotar a logística reversa foi as leis
que a adota, pois agrega-lhes valores de
ambientais, embora não saiba quais são
diversas naturezas, tais como: valor
essas leis e nem o porquê existem essas leis.
econômico, de prestação de serviços,
Já a proprietário da Empresa 2 informou que
ecológico, legal, logístico, de imagem
pratica a logística reversa simplesmente
corporativa entre outros (LEITE, 2009). Por
porque já existem pneus inservíveis em
conta disso, procurou-se saber como as
demasia e eles não podem ser jogados em
empresas visualizavam os benefícios oriundos
qualquer lugar.
da adoção da prática da logística reversa. E
foram obtidas as seguintes argumentações:

Figura 05: benefícios da logística reversa


Empresas Discursos
Principalmente diminuir o impacto ambiental, ser uma empresa sociorresponsável
Empresa 1 devido a isso, e não ficar acumulando lixo, doenças e problemas no ambiente de
trabalho.
Empresa 2 A questão de tá atualizada com o meio ambiente, fazendo as coisas corretas.
Respeito ao cliente, meio ambiente, manter a empresa sempre limpa de pneus e,
Empresa 3
assim, todos se beneficiam com isso.
Empresa 4 Através da recapagem traz benefícios tanto para a empresa como para o consumidor.
Não temos nenhum benefício, porque não temos nenhum incentivo e nenhuma
Empresa 5 bonificação, nem nada. Eu acho que talvez isso aqui seja mais direcionado ao
distribuidor autorizado de pneus novos, distribuidor mesmo.
Nota. Fonte: dados da pesquisa, setembro de 2013.
Percebe-se que a maioria dos empresários vê diminuição da poluição causada por esses
a logística reversa não somente como forma pneus. Porém, tem-se o caso do empresário
de ganhos financeiros, mas como forma de da Empresa 5 que analisa como benefícios
redução do impacto ambiental e de advindos da logística reversa apenas os

Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 10


82

ganhos financeiros da empresa, chegando a Atualmente, a preocupação com a imagem


comentar que a empresa não tem nenhum corporativa está aumentando em comparação
benefício, pois não recebe nenhum incentivo aos anos anteriores. Pesquisas realizadas
ou bonificação. recentemente no Brasil mostram que
empresas de diferentes setores empresariais
Nota-se ainda, que a maioria dos empresários
apontam a imagem corporativa como uma
enfatizou a questão dos impactos ambientais
das mais fortes motivações dos programas de
principalmente por conta da ascensão do
logística reversa (LEITE, 2009). Diante deste
tema e das constantes notícias e comentários
contexto, perguntou-se como os gestores
sobre o que é ser uma empresa
visualizavam suas respectivas empresas na
‘ambientalmente responsável’, não analisando
sociedade.
os inúmeros outros benefícios que a adoção
de tal prática traz para a sociedade como um
todo.

Figura 06: visão dos gestores quanto à imagem corporativa de sua empresa perante a sociedade.
Empresas Discursos
Como ela está cumprindo tanto seu dever de obrigações sociais, obrigações de
Empresa 1 impostos, como também obrigações com o meio ambiente, possui uma imagem de
empresa sociorresponsável.
Como uma empresa que se preocupa com o meio ambiente, a organização faz
Empresa 2
bastantes trabalhos na área de meio ambiente e é bastante conceituada na sociedade.
Uma empresa que faz a destinação ambientalmente correta de todas as carcaças
Empresa 3
inservíveis dentro da empresa.
Empresa 4 Como uma empresa responsável e de credibilidade.
Empresa 5 Como uma empresa de credibilidade e confiança no mercado.
Nota. Fonte: dados da pesquisa, setembro de 2013.

Percebe-se que a maioria das empresas 4.3 LEIS QUE REGULAMENTAM A


visualiza a imagem corporativa apenas como COMERCIALIZAÇÃO DE PNEUS NO BRASIL
meio de seguir as normas impostas pelas leis
No Brasil, o órgão que regulamenta a
e pelo fato de ser uma empresa que se
destinação dada aos pneus junto aos
preocupa com o meio ambiente. As revendas
fabricantes é o Conselho Nacional do Meio
1, 2 e 3 mencionaram em preocupação com o
Ambiente (CONAMA), que em sua Resolução
meio ambiente e, no caso da Empresa 1, em
nº 416 de 2009, e por meio da Instrução
obrigações de cunho social.
Normativa nº 01 de 2010 do IBAMA, os
Os gestores das Empresas 4 e 5 se referiram fabricantes de pneus possuem a obrigação
principalmente quanto a ter credibilidade no de darem uma destinação adequada à
mercado. Isso mostra que os interesses determinada quantidade de pneus inservíveis
financeiros e de imagem corporativa das de acordo com sua fabricação e/ou
empresas estão sempre evidentes, porém os importação. Com isso, procurou saber se as
fatores socioambientais nem sempre são empresas tinham conhecimento das
contemplados. regulamentações que atuam sobre a empresa
em relação à disposição final dos pneus
inservíveis.

Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 10


83

Figura 07: regulamentações que atuam sobre as revendas de pneus.


Empresas Discursos
Tem uma lei ambiental do IBAMA que diz que dos pneus que a empresa coloca no
Empresa 1 mercado ela tem que recolher determinada quantidade. Sendo assim, a fábrica orienta
os revendedores a recolherem os pneus inservíveis.
A ANIP possui umas normas sobre a regulamentação, mas eu não sei detalhar sobre
Empresa 2
isso.
Empresa 3 Resolução CONAMA 416/2009.
Empresa 4 Tem uma lei do CONAMA, se não me engano.
Apenas a legislação municipal de meio ambiente, que não pode ser jogado fora o
Empresa 5
pneu, pois como é um lixo tóxico, não é permitido jogar na rua.
Nota. Fonte: dados da pesquisa, setembro de 2013.

Nota-se que nenhuma das empresas tem total Assim, fica claro que a maioria das empresas
conhecimento das legislações que regem o pratica a logística reversa por conta das
segmento de mercado no qual a sua empresa pressões da mídia e das leis existentes,
atua. As empresas um e três mostraram ser mesmo que, na maioria dos casos, estas
mais entendidas a respeito das leis que as empresas nem mesmo sabem para que
regulamentam, no entanto, o proprietário da realmente essas leis servem.
Empresa 1 não soube especificar qual a lei
A Resolução 416/2009 do CONAMA
que determina o recolhimento dos pneus
estabelece que os fabricantes e importadores
inservíveis.
de pneus novos deverão declarar ao IBAMA,
Os gestores das Empresas 2, 4 e 5 mostraram numa periodicidade máxima de 01 (um) ano,
desconhecer essas leis. A Empresa 2 por meio do CTF, a destinação adequada dos
respondeu que a ANIP é quem possui normas pneus inservíveis.
de regulamentação, enquanto o gestor da
No que se refere à comprovação dada pelas
Empresa 4 disse, sem certeza, que o
empresas com relação à coleta e à
CONAMA tem uma lei. Já o gestor da
destinação de pneus inservíveis, foram
Empresa 5 disse haver uma legislação
coletados os seguintes discursos:
municipal que proíbe jogar os pneus fora e na
rua.

Figura 08: comprovação da coleta de pneus inservíveis


Empresas Discursos
Quando a Reciclanip vem recolher os pneus ela deixa um recibo de coleta, e esse
Empresa 1
recibo de coleta a gente envia para a fábrica.
A cada tantos pneus novos a serem comprados a empresa deve dar destinação
Empresa 2 adequada a tantos pneus usados, mas eu não sei lhe informar em termos de
quantidade. A empresa que recolhe os pneus aqui possui licença do meio ambiente.
Empresa 3 É o RCI – Relatório de Carcaças Inservíveis.
Empresa 4 Através de um documento anexo.
Para minha empresa, que é uma revenda, comprar os pneus novos independe de
Empresa 5 comprovar a destinação de coisa nenhuma. Em nosso caso, a concessionária
autorizada é quem manda os pneus novos para a empresa.
Nota. Fonte: dados da pesquisa, setembro de 2013.

Os gestores das Empresas 1, 3 e 4 informaram que comprovam a destinação dos pneus inservíveis
por meio de documentos, e o gestor da Empresa 4 até especificou o nome desse documento, que é
o RCI – Relatório de Carcaças Inservíveis. O proprietário da Empresa 2 informou que deve

Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 10


84

comprovar a destinação dos pneus empresas e evidenciando as leis ambientais


inservíveis, porém não sabia informar a voltadas para a comercialização de pneus. De
quantidade. E por fim, o gestor da Empresa 5 acordo com o que foi mostrado na pesquisa,
declarou que, como trata-se de uma revenda, todas as empresas trabalham com a logística
não é de responsabilidade do mesmo reversa, porém nem todas encaram tal prática
comprovar tal destinação, ficando por como processo essencial ao bom
responsabilidade da concessionária desempenho da empresa bem como cuidar
autorizada, e que esta é quem manda os do meio ambiente. A pesquisa mostra
pneus novos para a empresa. também que a logística reversa ainda é vista
pela maioria das empresas como uma forma
Com isso, fica claro o despreparo dos
de custos adicionais. Embora elas sejam
gestores e proprietários das revendas de
obrigadas a darem uma correta destinação
pneus da cidade em estudo, visto o
aos pneus usados, ainda há algumas que
desconhecimento das leis que atuam sobre a
ignoram as normas regulamentadoras.
empresa, bem como os impactos que a
incorreta destinação destes produtos podem Com isso, optou-se por fazer uma análise
causar à sociedade e ao meio ambiente. paralela dos interesses dessas empresas,
considerando separadamente o grau de
importância referente aos ganhos social,
5 CONSIDERAÇÕES FINAIS ambiental e econômico demonstrados pelas
revendas, buscando assim identificar o real e
Este artigo buscou identificar os reais
central objetivo dos empresários, como
objetivos dos empresários do ramo de
mostra o Figura 09.
revenda de pneus em uma cidade brasileira
de médio porte, investigando as ações de
logística reversa desenvolvidas por essas
Figura 09: análise dos reais interesses das empresas pesquisadas.
Interesse Interesse Interesse
Empresas Interesse central
social ambiental econômico
A empresa demonstra um alto interesse quanto aos
ganhos sociais e ambientais, podendo dizer então
Empresa 1 Alto Alto Moderado
que a prática da logística reversa deve-se
principalmente aos ganhos recebidos pela sociedade.
A empresa adota a logística reversa principalmente
porque deve adequar-se às legislações restritivas e
também no intuito de ser uma empresa
Empresa 2 Moderado Moderado Moderado
ambientalmente responsável. Porém não tem
conhecimento das legislações ambientais que regem
o seu negócio.
O interesse da empresa está voltado principalmente à
imagem corporativa que a adoção da logística reversa
Empresa 3 Moderado Alto Moderado proporciona perante a sociedade e as leis ambientais,
visto que a empresa menciona o meio ambiente em
várias respostas no decorrer da entrevista.
O interesse demonstrado pela empresa é em relação
principalmente aos ganhos financeiros, que são
obtidos por meio da recapagem. A mesma ainda diz
Empresa 4 Baixo Baixo Alto preocupar-se com o meio ambiente, porém afirma que
em alguns casos queima os pneus, deixando evidente
que essa preocupação com o meio ambiente e a
sociedade é mínima.
A empresa demonstra um completo interesse
financeiro com a prática da logística reversa, pois
afirma que a mesma não tem nenhum incentivo ou
Empresa 5 Baixo Baixo Alto
bonificação para realizar tal prática. Informando ainda
que fazem a logística reversa porque é determinação
da concessionária central.
Nota. Fonte: dados da pesquisa, setembro de 2013.

Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 10


85

A pesquisa mostrou que as empresas adotam fazendo com que essas adotem
a logística reversa principalmente por conta procedimentos os quais minimizem os
da ascensão do conceito de ser uma empresa impactos causados à sociedade. Dessa
ambientalmente responsável, e também forma, a logística reversa é um dos principais
devido ao fato das legislações restritivas procedimentos adotados pelas empresas na
estarem cada vez mais presentes e buscarem atualidade.
fazer com que as empresas degradem menos
Acredita-se que esta pesquisa possa
o meio ambiente. Com isso, notou-se que em
contribuir para discussões posteriores sobre a
três das empresas estudadas há o equilíbrio
necessidade de práticas de logística reversa
entre a consciência socioambiental e o
no setor de revenda de pneus e outros
retorno financeiro, porém as outras duas
segmentos de mercado, bem como ações
empresas restantes são movidas basicamente
que contribuam sustentavelmente para o
pelos fatores econômicos. O que demonstra
desenvolvimento da sociedade. E que tal
que a lucratividade está sempre presente nos
debate possa leva a novas pesquisas e
interesses dos empresários, já os fatores
reflexão acerca da criação de políticas de
socioambientais nem sempre são
incentivo por parte de empresas e outras
contemplados.
autoridades, para investimentos em logística
Percebe-se também o fato de os reversa como parte da solução para vários
consumidores estarem buscando cada vez problemas ambientais.
mais empresas ambientalmente responsáveis,

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Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 10


87

Capítulo 8

Ana Valéria Vargas Pontes


Daiane Souza do Vale Carneiro
Ingrid de Oliveira
Marcelle Rosso Ferreira
Tatiane Dias da Cunha Vieira

Resumo: A Responsabilidade Social Empresarial (RSE) tem se tornado foco de


muitas discussões no meio acadêmico, este trabalho procura relacionar essa
temática com as políticas de gestão de pessoas. Esta pesquisa se propõe a
descrever o conceito e a importância da RSE, abordar sobre a gestão de pessoas e
sua interface com a responsabilidade social com foco no público interno e
pesquisar quais são as ações de responsabilidade social desenvolvida por uma
empresa multinacional localizada no interior do estado do Rio de Janeiro voltada
para seus colaboradores. A metodologia utilizada quanto ao objetivo foi pesquisa
exploratória, e em relação aos procedimentos bibliográficas e uma pesquisa de
campo, para tanto foi desenvolvido um questionário semiestruturado para dar
suporte a entrevista. Ao longo do estudo verifica-se que a empresa tem aplicado
várias ações e que seus resultados podem ser facilmente percebidos.

Palavras-chave: Colaborador. Treinamento. Responsabilidade Social. Gestão de


pessoas.

Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 10


88

1 INTRODUÇÃO [...] forma de gestão que se define pela


relação ética e transparente da empresa com
As empresas têm passado por grandes
todos os públicos com os quais ela se
transformações tanto, no seu ambiente interno
relaciona e pelo estabelecimento de metas
como no ambiente externo, uma das
empresariais compatíveis com o
mudanças a ser considerada é a questão da
desenvolvimento sustentável da sociedade,
Responsabilidade Social Empresarial.
preservando recursos ambientais e culturais
Neste cenário as organizações participam para as gerações futuras, preservando a
como atores no âmbito sociocultural, diversidade e promovendo a redução das
econômico e ambiental, relacionando-se com desigualdades sociais (PATENTE; GELMAN
outras instituições, com seus colaboradores, 2006, p.21).
em fim com os seus stakeholders de forma
É necessário que as organizações e os
geral. Nesta perspectiva, observa-se que as
colaboradores nela inserido, tenham a
empresas têm investido cada vez mais em
consciência sobre os resultados de suas
responsabilidade social, que abarca sete
atividades na sociedade e no meio ambiente
vetores, dentre eles, destaca-se a
e também dos impactos positivos do seu
responsabilidade relacionada a investimento
trabalho na sociedade.
da organização no bem estar dos
colaboradores e seus dependentes, bem Para Ashley et al.(2002, p. 6), a
como num ambiente de trabalho agradável. responsabilidade social é “a obrigação do
homem de negócios de adotar orientações,
Dai surge, então, a questão de investigação:
tomar decisões e seguir linhas de ação que
como a gestão de pessoas pode contribuir
sejam compatíveis com os fins e valores da
para a responsabilidade social interna? E para
sociedade”. Assim, percebe-se que as
tanto, este trabalho tem como objetivos
organizações sentem a necessidade de criar
descrever o conceito e a importância da
ações que venham ao encontro dos seus
responsabilidade social empresarial, abordar
objetivos valorizando o meio em que está
sobre gestão de pessoas e sua interface com
inserida.
a responsabilidade social com foco no
público interno e pesquisar quais são as No que tange ao conceito de
ações de responsabilidade social voltadas responsabilidade social é fundamental que se
aos colaboradores desenvolvidas por uma tenha a preocupação com todos, não
empresa multinacional no interior do estado somente, pensar nos interesses dos
do Rio de Janeiro. acionistas, passando a se envolver e a se
comprometer com todos os seus
A metodologia utilizada para a elaboração
stakeholders. Orchis et al. (2002) corrobora ao
deste artigo foi exploratória de cunho
afirmar que responsabilidade social está
bibliográfico utilizando autores como Melo
relacionado com o comportamento ético da
Neto; Brennand (2004) Melo Neto; Froes
empresa com todos os grupos de interesse
(2001); Limongi-França (2009), Marras (2000),
que influenciam ou são compactados pela
Dutra (2006), dentre outros. Também realizou-
sua atuação (stakeholders) assim como o
se uma pesquisa de campo cujo instrumento
respeito ao meio ambiente e investimentos em
foi uma entrevista semiestruturada com a
ações sociais. Stakeholders são os grupos
gerente de recursos humanos, a fim de
que se relacionam, afetam ou são afetados
verificar quais são as ações de
pela organização e suas atividades. Os
responsabilidade social desenvolvidas pela
stakeholders são compostos por acionistas,
empresa com foco em seus colaboradores.
empregados, fornecedores, concorrentes,
governo, comunidade, sociedade, grupos e
movimentos (ORCHIS et al,2002, p.56).
2. RESPONSABILIDADE SOCIAL
Nessa perspectiva que responsabilidade
Responsabilidade social pode ser entendida
social é um comportamento ético e é preciso
de várias maneiras, como obrigação legal,
entender como são as partes que compõem
comportamento ético ou intenção de ser
essa estrutura.
consciente.
Melo Neto e Froes (2001) destacam que são
Uma das definições de responsabilidade
sete os vetores da responsabilidade social de
social é
uma empresa:

Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 10


89

V1 apoio ao desenvolvimento da sociedade 3. GESTÃO DE PESSOAS NAS EMPRESAS


onde atua; V2 preservação do meio ambiente;
A gestão de pessoas é um assunto bastante
V3 investimento no bem-estar dos
em evidência nos últimos tempos e tem
funcionários e seus dependentes e num
passado por constantes evoluções. Portanto,
ambiente de trabalho agradável; V4
a necessidade de pesquisar sobre a gestão
comunicações transparentes; V5 retorno aos
de pessoas nas organizações.
acionistas; V6 sinergia com os parceiros; V7
satisfação dos clientes e/ou consumidores Entende-se por modelo de gestão de pessoas
(MELO NETO e FROES, 2001, p. 78). a maneira pela qual uma empresa se organiza
para gerenciar e orientar o comportamento
Pode-se perceber no vetor três a importância
humano no trabalho. Para isso, a empresa se
da empresa investir no bem estar dos
estrutura definindo princípios, estratégias,
colaboradores e seus dependentes, bem
políticas e práticas ou processos de gestão.
como num ambiente de trabalho agradável.
Por meio desses mecanismos, implementa
Visto que os colaboradores são fundamentais diretrizes e orienta os estilos de atuação dos
para o desenvolvimento da organização, gestores em sua relação com aqueles que
observa-se que a cultura da responsabilidade nela trabalham (FISCHER, 2012).
social deve estar inserida no ambiente
Ainda de acordo com o autor, o que distingue
corporativo, de forma a incentivar e
um modelo de outro são as características
comprometer seus colaboradores.
dos elementos que os compõem e sua
Somente podem chamar de colaboradores, capacidade de interferir na vida
em vez de funcionários, as organizações que organizacional dando-lhe identidade própria.
buscam entender os anseios, as O modelo deve sim, por definição, diferenciar
necessidades e as motivações dos seus a empresa em seu mercado, contribuindo
funcionários, para que estes venham a para a fixação de sua imagem e de sua
desempenhar um novo papel, observado competividade.
através do prisma de colaboradores ou
O conceito de gestão pessoas ou
parceiros de negócios (ZARPELON, 2006,
administração de recursos humanos, é uma
p.50).
associação de habilidades e métodos,
Acreditar no potencial de cada colaborador, políticas, técnicas e práticas definidas, com o
reconhecê-los e motivá-los são fatores objetivo de administrar os comportamentos
essenciais. De acordo com Hanashiro; internos e potencializar o capital humano nas
Teixeira; Zaccarelli (2008) é preciso que haja organizações. Robbins (2004) confirma este
“mudanças intencionais responsáveis posicionamento ao afirmar que:
promovidas no ambiente físico e social, no
Se a empresa contratar pessoas cujas
ambiente interno e externo”.
habilidades são inadequadas, o desempenho
As autoras salientam que: não será bom, independentemente dos
esforços da administração em proporcionar
Uma empresa com preocupações em
motivação e liderança, criar grupos eficazes
responsabilidade social com relação a seus
ou projetar atividades desafiadoras.
funcionários deve, portanto, cumprir com a
(ROBBINS, 2004, p. 225).
legislação referente à saúde e segurança e,
indo mais longe, deve englobar temas ligados Percebe-se então, que a gestão de pessoas
a Qualidade de Vida no Trabalho (QVT) começa no planejamento, inclusive no
(HANASHIRO; TEIXEIRA; ZACCARELLI, 2008 recrutamento e seleção, para que sejam
p. 99). selecionados profissionais com perfil e
habilidades necessárias para o cargo,
Nota-se que a responsabilidade social vai
oferecendo-lhes frequentes treinamentos, de
bem além do que pode-se pensar, pois deve-
forma que a organização consiga atingir o
se preocupar com a vida do colaborador
desenvolvimento pessoal de cada
dentro e fora de seu ambiente de trabalho.
colaborador, valorizando o mesmo e obtendo
Nesta perspectiva, fez-se necessário abordar
o resultado desejado da organização.
sobre a gestão de pessoas na empresa, bem
como o papel das pessoas, o papel da A gestão de pessoas pode ser analisada
empresa neste contexto de abordagem sobre também pelos aspectos comportamental e
a responsabilidade social e as políticas de administrativo. Limongi-França (2009, p, 5)
relacionamento com os colaboradores. traz uma discussão nesse sentido ao afirmar
que “comportamento humano é baseado no

Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 10


90

que se percebe; as pessoas são diferentes de suas atividades, são elas que promovem
entre si; as pessoas não se comportam por transformações e potencializam a empresa a
acaso; existem diferentes formas de tomar decisões necessárias em direção ao
influenciar o ser humano”. Nota-se que cada sucesso, portanto deve-se valorizar o trabalho
um é realmente único. A autora ainda continua das mesmas nas diversas áreas
ao afirmar: apresentadas. As pessoas sentem
necessidade de participar, de se sentir parte
A gestão de pessoas deve ocorrer a partir da
do processo, de saber que sua opinião é
visão integrada das pessoas e de questões
importante e que pode ser usada para
como: as expectativas sobre as relações de
melhorias e implementação de novos
trabalho, o contrato psicológico entre o que a
processos, essa participação pode favorecer
pessoa quer da empresa e o que esta quer de
nos resultados da organização.
seu pessoal, perfis e tipos de personalidade,
grupos, equipes, lideranças, processos de De acordo com Bordenave (2008, p. 16):
cooperação, apatia, cultura organizacional,
A participação é o caminho natural para o
valores, questões éticas, entre outros
homem exprimir sua tendência inata de
aspectos ligados à vida social. (LIMONGI-
realizar, fazer coisas, afirmar-se a si mesmo e
FRANÇA, 2009, p, 4 e 6).
dominar a natureza e o mundo. Além disso,
Observa-se, portanto, a importância deste sua prática envolve a satisfação de outras
estudo, pois a diversidade de pessoas torna o necessidades não menos básicas, tais como
planejamento uma ferramenta essencial para a interação com os demais homens,
atingir as expectativas nas relações de autoexpressão, o desenvolvimento do
trabalho e a vida social. pensamento reflexivo, o prazer de criar e
recriar coisas, e, ainda, a valorização de si
mesmo pelos outros.
3.1 PAPEL DAS PESSOAS
Nota- se que a participação das pessoas é
Segundo Ulrich (2003) o papel relativo á essencial para o crescimento e a execução
contribuição das pessoas passou por uma das atividades dentro de uma organização e a
grande mudança no passado recente. mesma está cada vez mais reconhecendo
Começaram a perceber que o capital que o fator humano é fundamental para o bom
intelectual e a valorização do indivíduo como funcionamento dos processos.
parte integrante e atuante do processo geram
No ambiente empresarial mutável, global e
maior lucratividade e bons negócios para a
tecnologicamente exigente, a obtenção e
organização, desde então, a moderna gestão
retenção de talentos são as armas no campo
procura tratar as pessoas como pessoas e
de batalha competitivo. “As empresas bem
não apenas como recursos, além de
sucedidas serão aquelas mais experientes em
perceberem que as mesmas não funcionam
atrair, desenvolver e reter indivíduos com
sozinhas, os cargos não tem vida própria,
habilidades, perspectiva e experiência
equipes, empresas, corporações são
suficientes para conduzir um negócio global”
resultado de um trabalho de um grupo de
(ULRICH, 2003, p.29).
pessoas e que as pessoas e suas atitudes
irão contribuir para o sucesso ou fracasso da
empresa.
3.2 PAPEL DAS EMPRESAS
As pessoas contribuem para o funcionamento
Ao refletir sobre o papel das empresas neste
de uma organização, pois são elas que
contexto cabe ressaltar o posicionamento de
gerenciam, controlam e executam os
Dutra (2008, p. 17) “à empresa cabe o papel
processos e atividades, além de consumir os
de estimular e dar suporte necessário para
seus produtos. Prado Filho (2007, p. 32)
que as pessoas possam entregar o que têm
afirma que “a mão de obra deixou de ser
de melhor, ao mesmo tempo em que recebem
considerada como um simples recurso ou
o que a organização tem de melhor a
insumo dos processos produtivos e passou a
oferecer-lhes”. Nesta perspectiva é
ser valorizada, pois é ela que tem a
necessário ter mútua interação com seu
responsabilidade de gerenciar ações
pessoal, juntamente da aplicação correta de
empresariais”.
diversas ferramentas para a alavancagem de
Observa-se que a organização é um aprendizado e competitividade.
organismo vivo, pois depende totalmente das A empresa pode assumir uma
pessoas para o desenvolvimento e execução responsabilidade de suporte na busca de

Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 10


91

“conhecimentos”, gerando nas pessoas execução do treinamento, avaliação do


satisfação de suas necessidades. treinamento.
As organizações contam com uma série de
É importante ressaltar a importância do
ferramentas que as auxiliam na gestão de
processo de treinamento, mas também do
pessoas.
planejamento para arcar com seus custos, em
Dentre elas destaca-se a seleção de pessoal
busca de um melhor desenvolvimento para
que:
seus colaboradores.
é uma atividade de responsabilidade do
sistema de Administração de Recursos
Humanos, que tem por finalidade escolher 3.3 POLÍTICA DE VALORIZAÇÃO NA
sob metodologia específica, candidatos a EMPRESA
emprego recebidos pelo setor de
Há anos atrás as empresas eram menos
recrutamento, para atendimento das
suscetíveis às mudanças e as tomadas de
necessidades internas da empresa.
decisões eram centralizadas e para alguns
(MARRAS, 2000, p. 79).
gestores o funcionário era visto apenas como
Ainda, de acordo com o autor nesse um recurso dentro do processo produtivo.
processo, faz-se uma análise de exigências
De acordo com Limongi-França (2009, p.65)
do cargo, e das características dos
essa visão tem mudado e pode ser observada
candidatos, a partir da coleta de dados
uma nova postura sobre o colaborador na
individuais. Para possibilitar a coleta de dados
qual, “[...], atualmente ele é tratado como
são utilizados instrumentos como: entrevista
fonte de vantagem competitiva. Já não há
de Seleção estruturada e não estruturada,
mais dúvidas de que o empregado é o
testes diversos de aferição, análise
principal agente no desempenho
comportamental e dinâmicas de grupo.
organizacional, de que é ele quem faz o
Outra ferramenta utilizada na gestão de
diferencial”.
pessoas, trata-seda avaliação de
desempenho em que Marras (2000), mostra Devido a essas mudanças e a grande
que o desempenho humano está diretamente competitividade despertou nas organizações
ligado a duas condições: querer fazer e saber a necessidade de investir e valorizar cada vez
fazer. Para medir esse desempenho foi criada mais o capital humano, para o crescimento
a Avaliação de Desempenho. Este organizacional, desta forma as empresas
instrumento tem como objetivo principal precisam de mecanismos para manter seus
mensurar o resultado dos colaboradores na colaboradores motivados e produtivos para
organização para então, direcioná-los ao ajudar no crescimento da empresa.
treinamento necessário. Chiavenato (2010, p. 274) afirma que “os
processos de oferecer recompensas ocupam
Após analisar as características da
lugar de destaque entre os principais
organização, é possível obter um método para
processos de gerir as pessoas dentro das
a aplicação da avaliação de desempenho, ao
organizações, [...] a recompensa é
aplicá-la a empresa obtém a possibilidade de
fundamental”, e poderá acontecer de várias
trabalhar habilidades e competências para a
formas: cargo ocupado, tempo de trabalho,
obtenção de resultados relacionados ao
nível de escolaridade, desempenho, entre
conhecimento e comportamento seus
outros itens que variam de acordo com a
colaboradores.
realidade de cada organização.
Daí surge a necessidade de treinamento que
de acordo com Marras (2000, p. 145), “o Para Limongi-França (2009, p.65) é
treinamento é um processo de assimilação importante diferenciar recompensas,
cultural a curto prazo, que objetiva repassar remuneração e salário, onde estes muitas
ou reciclar conhecimentos, habilidades e vezes se confundem:
atitudes relacionadas diretamente à execução
Salário é basicamente a parte fixa da
de tarefas ou à otimização do trabalho”.
remuneração, paga em dinheiro e de forma
Os treinamentos têm por objetivo alcançar e
regular (geralmente mensal). A remuneração
suprir a necessidade de conhecimento para a
envolve, além de salário, a remuneração
execução das tarefas elencadas em cada
variável (participações nos lucros e
cargo. Ainda segundo o autor, podem ser
resultados, participação acionária) e os
específicos ou genéricos, e são divididos por
benefícios (assistência médica, vale-
etapas em sua aplicação como: diagnóstico
transporte, seguro de vida em grupo etc.). E a
do treinamento, planejamento e programação,

Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 10


92

remuneração, como foi visto é uma das inserindo-o em uma cultura participativa e
formas de recompensa. criativa. De acordo com o autor Melo Neto;
Brennand (2004, p.109):
Cabe salientar que todo benefício tem um
custo para a empresa e para implementá-los Como agentes sociais, empregados e seus
é necessário planejamento, a fim de se dependentes desempenham papéis dentro e
alcançar a eficácia. fora da empresa. São promotores da
responsabilidade social corporativa ao
Melo Neto; Brennand (2004) destacam que as
trabalharem como voluntários em programas
empresas socialmente responsáveis são
sociais, ao difundirem valores éticos em suas
bastante focadas nas ações de recursos
relações com os diversos públicos da
humanos, e para tanto, algumas práticas são
empresa, ao assumirem comportamentos
observadas como eticamente necessárias
sociais responsáveis em seu cotidiano de vida
como: seleção, contratação, remuneração
e de trabalho.
direta e indireta, capacitação, treinamento e
desenvolvimento de pessoal, pesquisas de Nota-se que os colaboradores, e seus
clima organizacional, ações para a melhoria dependentes são vistos como agentes
da qualidade de vida no trabalho, bem como sociais, cujo comportamento gera um impacto
as questões sobre ergonomia, alimentação, relevante, tanto na empresa, quanto na
segurança e higiene, atividades de lazer, comunidade e na sociedade em que está
avaliação de desempenho. inserida. E que os mesmos divulgam suas
ações sociais e sentem seus benefícios junto
Nesta perspectiva, surge também, o desafio
a seus familiares e vizinhos.
de empresas trabalharem a gestão da
diversidade que para Hays-Thomas (2006 Ainda segundo o autor, o aumento da
apud Marinez; Limongi-França 2009) se refere produtividade é o maior retorno obtido pela
aos processos e estratégias que fazem as empresa em todo o processo de gestão dos
diferenças entre as pessoas um ativo valioso, investimentos sociais no seu público interno.
mais que um ônus para as organizações. E, Além deste retorno, Melo Neto; Brennand
portanto, cabe a empresa planejar e (2004) ressaltam que a empresa que tem
incrementar programas no sentido de como prioridade a Responsabilidade Social
aumentar a interação entre essas pessoas, interna obtém outros tipos de retorno, como
para fazer essa diversidade um recurso de por exemplo:
criatividade, complementaridade e aumento
a) Retenção de talentos.
de efetividade organizacional, progresso e
b) Melhoria na qualidade de vida dos seus
satisfação dos colaboradores, mais que uma
empregados.
força de tensão, conflito, desentendimentos,
c) Maior integração de vida no trabalho e de
ou restrição de eficácia.
sua família e de ambos na comunidade.
d) Aumento da autoestima dos empregados.
e) Melhoria no clima organizacional.
4. A RELAÇÃO ENTRE RESPONSABILIDADE
f) Retorno sob a forma de cidadania
SOCIAL E GESTÃO DE PESSOAS
profissional (transformação dos empregados
A responsabilidade social numa perspectiva em empregados-cidadãos), entre outros.
do colaborador precisa de efetiva gestão de Na medida em que se investe nas pessoas, a
pessoas para que possa cumprir de forma empresa transforma-as em seu principal ativo,
eficaz seu compromisso com seu público não apenas humano e intelectual, mas
interno. também social. Suas atitudes e seus
comportamentos agregam valores à empresa
Para Melo Neto; Brennand (2004) a Gestão de
e conseqüentemente retornos favoráveis para
Pessoas realiza um papel fundamental para a
a sociedade em que está inserida.
empresa, colaborando constantemente para o
desenvolvimento do seu potencial e nos O foco interno é uma das facetas mais
processos que garantem a realização de suas importantes da prática de responsabilidade
propostas no campo da Responsabilidade social por parte das empresas, pois
Social. Sendo assim, funciona como setor representam políticas e ações focadas em
estratégico, não somente, formando equipes seu próprio corpo de trabalhadores, que
sintonizadas com a Responsabilidade Social, devem permear a concepção da gestão de
mas oferecendo capacitação adequada ao pessoas nas organizações, abrangendo o
público interno, promovendo políticas de comportamento humano, o sentido do
reconhecimento individual e coletivo, trabalhado e os desafios que a gestão de

Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 10


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recursos humanos enfrenta para propiciar a em que há pouco conhecimento acumulado e


inclusão social no ambiente interno das sistematizado (VERGARA, 2007), e também
empresas.(CHANLAT, 2005, p.49) descritiva que de acordo com Gil (2008, p.
44):
Nota-se que a Gestão de Pessoas de uma
empresa pode oferecer uma contribuição As pesquisas deste tipo têm como objetivo
importante ao gerenciar a Responsabilidade primordial a descrição das características de
Social interna, como por exemplo, melhorias determinada população ou fenômeno. [...] As
no ambiente organizacional junto a missão pesquisas descritivas são juntamente com as
social da organização, melhoria na exploratórias, as que habitualmente realizam
integração, no relacionamento e participação os pesquisadores sociais preocupados com a
de todos os membros da organização. atuação prática.
A Responsabilidade Social interna caracteriza Quanto aos meios uma pesquisa bibliográfica
o estágio inicial da cidadania empresarial. que envolveu os trabalhos Melo Neto;
Para Melo Neto (2004, p.80) o primeiro Brennand (2004), Melo Neto; Froes (2001)
estágio do processo de gestão empresarial Limongi-França (2009), Marras (2000), Dutra
tem como foco “as atividades regulares da (2006), dentre outros, com o intuito de
empresa, saúde e segurança dos funcionários compreender o conceito da responsabilidade
e qualidade do ambiente de trabalho”. social empresarial, entender a importância da
gestão de pessoas e sua interface com a
Muitas empresas cometem o erro de investir
responsabilidade social com foco no público
somente no gerenciamento externo, gerando
interno.
descontentamento entre os colaboradores, e
um quadro conflituoso, por falta de motivação. Foi utilizada como metodologia uma análise
qualitativa das informações levantadas por
Com isso pode-se dizer que a
meio de um questionário semiestruturado, a
Responsabilidade Social tem como foco
fim de nortear a entrevista que buscou trazer
trabalhar o público interno, desenvolvendo um
esclarecimentos sobre responsabilidade
modelo de gestão baseada no
social como estratégia de relacionamento
reconhecimento de seus colaboradores, por
com o colaborador. Este método possibilita
meio de uma comunicação transparente e os
identificar as características de determinado
motivando a alcançar desempenhos
público.
favoráveis que possam refletir positivamente
na sociedade em que estão inseridos. Essa pesquisa foi realizada em uma unidade
que faz parte de um grupo de empresas, ou
Sendo assim, pode-se entender que a ideia
seja, é uma Joint Venture, líder do mercado
principal da Responsabilidade Social para a
norte americano no seu ramo de atuação. A
área de Gestão de Pessoas é baseada na
entrevista foi realizada com a gerente de
ética e no respeito pelo colaborador.
Recursos Humanos da unidade localizada no
Uma empresa que cria um ambiente interior do estado do Rio de Janeiro, esta
agradável de trabalho e valoriza seus planta conta com aproximadamente 220
stakeholders é capaz de desenvolver um colaboradores. A missão desta empresa é
modelo de gestão integrado, onde as pessoas fornecer produtos de alta qualidade; o melhor
têm um papel decisivo no seu compromisso suporte técnico para as operações de seus
com relação à sociedade de uma maneira clientes; inovações tecnológicas com criação
geral. de vantagens competitivas; serviços que
beneficiem e superem as expectativas de
seus clientes, e por isso possui equipamentos
5.APRESENTAÇÃO E ANÁLISE DOS de alta precisão e tecnologia de ponta;
RESULTADOS aplicam as diretrizes estabelecidas pela
organização, possui equipe treinada e
5.1 METODOLOGIA
qualificada, além de ser moderna e eficiente
A metodologia da pesquisa é, de acordo com nos serviços prestados.
Gil (2008), um conjunto de ações propostas
para encontrar a solução de um problema,
que tem por base métodos científicos, 5.2 ANÁLISES DA PESQUISA
racionais e sistemáticos. Este trabalho foi
A pesquisa qualitativa teve o intuito de
realizado a partir de uma pesquisa de caráter
explorar as ações de Responsabilidade Social
exploratória realizada em determinado campo
como estratégia de relacionamento com o

Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 10


94

colaborador à luz da percepção da gerência critérios no sentido de não fazer nenhum tipo
de Recursos Humanos. Para tanto, foi de discriminação seja por raça, cor, religião,
realizada uma entrevista com a gestora de situação econômica entre outras diferenças
Recursos Humanos da empresa em foco. sociais, sendo esta, uma estratégica da
Como instrumento de pesquisa foi construído diretoria de recursos humanos juntamente
um questionário semiestruturado baseado nos com outras diretorias da organização, mesmo
indicadores do Instituto Ethos (2013), que são que um ou outro diretor não concorde, ele tem
ferramentas de avaliação e aprendizado da que se adequar, pois esta é uma política da
empresa no que tange à inclusão de práticas empresa. Foi colocado que os colaboradores
de Responsabilidade Social. A internalização estão acostumados com a diversidade sendo
desses conceitos por parte dos gestores, de esta atitude comum na prática da empresa.
acordo com o Instituto Ethos pode fomentar O que pode ser confirmado por Hays-Thomas
mudanças na forma de gerenciar os (2006 apud Marinez; Limongi-França 2009) ao
negócios, como também, na tomada de se referirem a diversidade aos processos e
decisão colaborando, assim, para o estratégias que fazem as diferenças entre as
nascimento de novos valores sociais e pessoas um ativo valioso, mais que um ônus
também para a redução das desigualdades. para as organizações. E, portanto, cabe a
empresa aumentar a interação entre essas
Este instrumento de avaliação é composto de
pessoas, para fazer essa diversidade um
oito indicadores de Responsabilidade Social
recurso de criatividade, complementaridade e
Empresarial com foco no público interno.
aumento de efetividade organizacional.
Passa-se então, a análise da pesquisa.
Nesse sentido pode-se observar que a
diversidade é bem trabalhada, pois se trata
de uma das políticas da empresa, e, portanto,
INDICADOR 1: GESTÃO PARTICIPATIVA
não é uma novidade a questão da diversidade
Na entrevista quando questionada sobre as de raça, cor, religião e situação econômica.
ideias de melhorias para a empresa, foi dito
que existe um programa de sugestões onde
INDICADOR 3: CRITÉRIOS DE
os colaboradores podem sugerir melhorias
CONTRATAÇÃO
nos quatro pilares aplicados pela empresa,
sendo estes: processo, qualidade, segurança A empresa realiza seleção interna, com o
e produção. Estas sugestões são avaliadas objetivo de valorizar seu colaborador, e
mensalmente e no final do ano as quatro externa, quando há outras demandas de
melhores sugestões dadas no decorrer do contratação que não foram possíveis
ano são implementadas, o colaborador é preencher com a seleção interna.
reconhecido, sendo homenageado na festa
Na questão que abrange a contratação pode
de final de ano com troféu e certificado.
se perceber que são selecionados
Percebe-se ainda na fala que, a organização
profissionais que atendam as exigências de
trabalha com um programa inteligente para
cada cargo, e caso seja necessário são
que estas sugestões deem resultados
redirecionados para outras vagas que sejam
positivos ao negócio. O que é confirmado na
mais compatíveis com os respectivos perfis
fala de Bordenave (2008, p.16) ao afirmar que
dos candidatos.
A participação é o caminho natural para o
De acordo com Fleury, “as competências
homem exprimir sua tendência inata de
devem agregar valor econômico para a
realizar, fazer coisas, afirmar-se a si mesmo
organização e valor social para o indivíduo”.
[...] tais como a interação com os demais
(FLEURY; FLEURY, 2001, p. 21).
homens, autoexpressão, o desenvolvimento
do pensamento reflexivo, o prazer de criar e São utilizadas algumas ferramentas para que
recriar coisas, e, ainda, a valorização de si seja possível identificar as habilidades do
mesmo pelos outros. candidato. As ferramentas utilizadas
dependem da vaga que se pretende
preencher. Em caso do perfil do candidato ser
INDICADOR 2: VALORIZAÇÃO DA diferente do perfil que é exigido, existe a
DIVERSIDADE possibilidade de aplicar treinamentos ou
orientações para auxiliar na adaptação à
Quando indagada sobre a prática da
vaga.
diversidade na empresa, pôde-se notar na
fala da entrevistada que a organização utiliza

Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 10


95

De acordo com o cargo a ser preenchido desenvolvimento e desempenho na


aplica- se provas escritas ou práticas. Após a organização.
contratação são realizadas algumas ações de
integração de RH, Segurança e Qualidade,
conhecimentos teóricos e práticos de acordo INDICADOR 6: COMPROMISSO COM
com a função. DESENVOLVIMENTO PROFISSIONAL E A
EMPREGABILIDADE
Nota-se na fala da entrevista que a empresa
INDICADOR 4: COMPROMISSO COM A NÃO
tem preocupação com aperfeiçoamento e
DISCRIMINAÇÃO DA EQUIDADE RACIAL, DE
capacitação de seus colaboradores quando
GÊNERO E OUTROS.
investem em treinamentos específicos para
Questionada sobre a contratação cada área e atividade, disponibilidades de
responsável, ou seja, de deficientes, negros, estudos como graduação, língua estrangeira,
menor aprendiz, aposentados entre outros foi cursos técnicos para aqueles que obtiverem
dito que não é uma cultura institucionalizada melhores notas na Avaliação, buscando
da empresa, portanto, não há obrigação da proporcionar ao colaborador desenvolvimento
contratação dessas pessoas, porém a profissional e consequentemente obter uma
empresa é responsável socialmente e o RH equipe mais capacitada, possuem avaliações
como guardião das políticas da empresa, de desempenho 360º, pesquisa
mesmo que essas não estejam inscritas ou organizacional com o intuito de proporcionar a
institucionalizadas, é preciso defender essa análise do ambiente, a fim de subsidiar a
questão, portanto contratam aprendizes, tomada de decisão com informações
deficientes e aposentados, hoje a empresa necessárias.
possui dois aposentados em seu quadro de
De acordo com Chiavenato (2010), a
funcionários . Além, das contratações
empregabilidade surgiu em resposta a
mencionadas anteriormente os colaboradores
diferença entre a velocidade das mudanças
que apresentam problemas com dependência
tecnológicas, as quais exigem do indivíduo
química recebem ajuda de clínicas junto à
novos conhecimentos e habilidades e a
empresa.
velocidade da reaprendizagem, ou seja, a
Embora caiba ressaltar que não se trata de busca constante do desenvolvimento de
diretrizes optativas, pois segundo (BRASIL, habilidades e competências agregadas por
1991) na lei 8.213/91, em seu artigo 93, regula meio do conhecimento específico e pela
a obrigatoriedade das empresas com 10 ou multifuncionalidade, as quais tornam o
mais empregados a contratar pessoas profissional apto à obtenção de trabalho
portadoras de deficiência física. dentro ou fora da empresa. .

INDICADOR 5: POLÍTICA DE INDICADOR 7: ENVOLVIMENTO COM AÇÃO


REMUNERAÇÃO, BENEFÍCIOS E CARREIRAS SOCIAL
Nota-se na fala da entrevistada que na A responsabilidade social vem sendo assunto
empresa remuneração direta é o salário, de interesse de muitas empresas. Percebe- se
considerado um dos melhores na região, o que uma sociedade empobrecida, com renda
plano de benefícios envolve plano de saúde, mal distribuída, violenta, não é uma sociedade
plano odontológico, seguro de vida, propícia para os negócios. (GRAJEW, 2001,
previdência privada, participação nos p. 56).
resultados, transporte e alimentação e com as
A responsável pelo RH, a respondente,
políticas da empresa as pessoas são
salienta o envolvimento dos colaboradores na
beneficiadas com salários indiretos. Marras
ação social conhecida como Praça Ativa, a
(2000) enfatiza que um planejamento
qual é um projeto de sustentabilidade, meio
adequado de remuneração e benefícios pode
ambiente e cidadania que acontece em praça
contribuir para a satisfação do colaborador.
pública levando para as comunidades
Na perspectiva de investimento na carreira é
recreação, arte, serviços de utilidade pública
ressaltado que o funcionário tem a
e projetos socioambientais desenvolvidos
oportunidade de construir uma carreira sólida,
localmente. A Praça Ativa expressa o conjunto
pois o mesmo conta com bolsa de graduação,
de valores da empresa, por meio das ações
bolsa de idiomas, treinamentos externos
desenvolvidas por ocasião desse evento,
específicos de acordo com o seu

Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 10


96

como: educação, respeito ao meio ambiente, pode contribuir para a responsabilidade


segurança e qualidade de vida são caminhos social interna? Pode-se perceber nas várias
pelos quais a empresa conduz seus negócios falas da entrevistada, responsável pela gestão
e se relaciona com as comunidades do de pessoas, que a empresa tem realizado
entorno de suas unidades fabris. Esse várias ações de responsabilidade social
projeto valoriza a arte, a cultura e o empresarial com foco no público interno.
conhecimento produzidos nas cidades onde é Como descrito na análise da pesquisa o
realizado e, por isso, apresentam projetos de questionário foi embasado nos indicadores do
expositores e artistas locais através de shows Instituto Ethos (2013) que avalia as ações da
musicais, apresentações de danças, oficinas empresa no que tange às práticas de
de reciclagem, brinquedos e atividades Responsabilidade Social voltadas para o
voltadas à saúde e cidadania. público interno. O que permitiu observar com
os dados coletados que a gestão de pessoas
Observa-se então a preocupação da empresa
da empresa, foco desse estudo, tem
segundo Zarpelon (2006), em assumir diante
implementado uma série de ações de
da sociedade, a preocupação com melhor
Responsabilidade Social propostas e
qualidade de vida, crescimento e
avaliadas nos oito indicadores.
desenvolvimento da comunidade, e Ashley
(2002), continua ao afirmar que a Cabe salientar que apenas no indicador dois
Responsabilidade Social pode ser vista como que trata da valorização da diversidade,
toda e qualquer ação que venha a contribuir percebe-se que a organização não
com a melhoria da qualidade de vida da descrimina, mas também não utiliza essa
população, representado através de ações e diversidade a favor de uma equipe que
atitudes que tragam algo de positivo para poderia ser mais criativa por ter na sua
qualquer comunidade, demonstrando uma essência pessoas com habilidades e
postura coerente da organização. competência diferenciadas. No entanto,
dentre os outros sete indicadores nota-se que
a gestão de pessoas tem efetivamente
INDICADOR 8: ACESSO A INFORMAÇÃO trabalhado na perspectiva de incentivar e
comprometer seus colaboradores, e também
Quanto à questão de circulação de
tem se interessado pela vida do funcionário
informação pode-se perceber que a empresa
dentro e fora do seu ambiente de trabalho,
se preocupa e prioriza a disseminação da
dessa forma proporcionando crescimento,
informação. Utiliza-se de quadros de avisos,
aprendizado, e respeito ao seu público
e-mail, TV corporativa, e reuniões antes do
interno, seus colaboradores.
início dos turnos para comunicar aos
colaboradores as prioridades do dia. E por fim, entende-se que a gestão de
pessoas tem o objetivo de gerenciar e
O sigilo ás informações é um aspecto que
organizar o comportamento humano dentro da
preocupa as organizações. Cumprir com o
empresa, ou seja, administrar e potencializar
sigilo é reconhecer o código de ética, além de
o capital humano, promovendo e garantindo a
se comportar de acordo com o voto de
realização das propostas e políticas de
confiança que a empresa concedeu ao
Responsabilidade Social Empresarial interna,
colaborador.
e possibilitando como resultado obter a
Ficou evidente que existe uma relação de satisfação do colaborador, bem como o
comunicação entre a empresa e o diferencial de competitividade organizacional.
colaborador, conhecido também, como Espera-se que este trabalho possibilite uma
Endomarketing. Esta busca adaptar melhor compreensão a respeito do tema
estratégias e elementos do marketing Responsabilidade Social Empresarial e sua
tradicional, para uso no ambiente interno das relação com as práticas de Gestão de
corporações. Pessoas. Vale registrar que não se teve a
intenção de esgotar o tema, e sim de
contribuir e instigar para que outras pesquisas
6. CONSIDERAÇÕES FINAIS sejam desenvolvidas a partir desta
perspectiva.
Após a revisão da literatura e a pesquisa de
campo que teve como questão de
investigação: como a gestão de pessoas

Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 10


97

REFERÊNCIAS
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empresarial: Saberes, Práticas e Referências. Rio Recursos Humanos: do operacional ao estratégico.
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[16] Melo Neto, Francisco de Paula; Brennand,
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Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 10


98

Capítulo 9

Moyses Jaime Zeitune


Lincoln de Lima Faria
Guilherme Faria Souza Mussi de Andrade
Joás Lessa Martins

Resumo: Este artigo apresenta o histórico de tentativas de remoções dos


moradores da Vila Autódromo desde a criação da comunidade, as garantias dadas
por diferentes prefeitos no decorrer de seus mandatos e, sobretudo, mostrar o
direito desses moradores segundo as leis específicas. Além dos próprios conflitos
urbanos e de moradia dessa comunidade, principalmente após a notícia de que o
Rio de Janeiro sediaria as Olimpíadas 2016.

Palavras-chave: Remoção, Direito de Moradia; Remoção; Olimpíadas.

Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 10


99

1. INTRODUÇÃO de desenvolvimento urbano e formas de


controle que prevalecerão sobre os controles
A Vila Autódromo é uma comunidade
definidos para as Zonas e Subzonas que as
consolidada na Baixada de Jacarepaguá há
contêm.
mais de 40 anos. Originalmente uma vila de
pescadores, Vila Autódromo torna-se, nos As Áreas de Especial Interesse, conforme
anos 1970, uma oportunidade para a moradia disposto no art. 70 do Plano Diretor de
de centenas de migrantes operários e Desenvolvimento Urbano Sustentável se
trabalhadores informais que chegaram à dividem em:
região para a construção do autódromo de
Jacarepaguá, do metrô e dos novos  Área de Especial Interesse
empreendimentos imobiliários que Urbanístico – AEIU;
despontavam no local. Outras famílias foram  Área de Especial Interesse Social –
ali assentadas em razão da remoção de outra AEIS;
comunidade, chamada Cardoso Fontes.  Área de Especial Interesse Ambiental
Pescadores, operários, desempregados, – AEIA;
trabalhadores informais, famílias removidas e  Área de Especial Interesse Turístico –
migrantes formam a rede social que irá AEIT;
paulatinamente urbanizar e garantir as  Área de Especial Interesse Funcional
condições de vida na comunidade. O sistema – AEIF;
utilizado é o denominado “mutirão”, pelo qual  Área de Especial Interesse Agrícola –
os moradores constroem não só suas casas, AEIG;
mas todo o espaço urbano, incluindo ruas,  Área de Especial Interesse Cultural –
calçadas, rede de distribuição de água, AEIC.
sistema sanitário, creches, escolas e espaços
de convívio, como o campo de futebol, a A declaração das áreas sujeitas à intervenção
igreja e a sede da associação de moradores. numa das categorias previstas neste artigo se
dará através de instrumento legal específico
Além de ser um espaço construído pelo ou da legislação de uso e ocupação do solo
trabalho contínuo dos moradores, Vila local, que definirão sua abrangência. A
Autódromo aparece também como uma rede legislação de uso e ocupação do solo local
diversificada de trabalhadores da cidade: poderá indicar as áreas sujeitas à intervenção
eletricistas, bombeiros, mecânicos, porteiros, através da declaração de Áreas de Especial
pedreiros, costureiras, pequenos Interesse.
comerciantes, entre outros, realizam uma
dinâmica prestação de serviços fundamentais
para a vida urbana. O trabalho de construção 2.2. ÁREA DE ESPECIAL INTERESSE SOCIAL
da cidade se confunde, aqui, com as
atividades prestadas para a cidade. Área de Especial Interesse Social (AEIS), é
aquela ocupada por favelas, loteamentos
Para clarificar as questões que cercam a luta irregulares e conjuntos habitacionais,
dos moradores da Vila Autódromo ao destinada a programas específicos de
reivindicar o direto de moradia, na contramão urbanização e regularização fundiária, ou
dos interesses específicos de um ainda aquela que apresenta terrenos não
planejamento urbano para sediar as utilizados ou subutilizados e considerados
Olímpiadas 2016, é fundamental mostrar os necessários à implantação de programas
instrumentos de política pública urbana que habitacionais de baixa renda, e são previstas
conferem certa legalidade à remoção, no Plano Diretor e demarcadas na Lei de
conforme será apresentado a seguir. Zoneamento.
As edificações e ocupações situadas em
2. INSTRUMENTOS DE POLÍTICA URBANA áreas de risco, faixas marginais de proteção
de águas superficiais, faixas de domínio de
2.1. ÁREAS DE ESPECIAL INTERESSE estradas municipais, estaduais e federais,
faixas de domínio da linha férrea e em áreas
As Áreas de Especial Interesse, permanentes
ou transitórias, são espaços da Cidade de recuo deverão ser objeto de programas
perfeitamente delimitados sobrepostos em que promovam sua relocação para áreas em
uma ou mais Zonas ou Subzonas, que serão condições de habitabilidade adequadas de
submetidos a regime urbanístico específico, acordo com as premissas e diretrizes
relativo à implementação de políticas públicas estabelecidas pelo Plano Diretor de

Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 10


100

Desenvolvimento Urbano Sustentável e pelo Vale ressaltar que, na Constituição Brasileira


Plano Municipal de Habitação, no que de 1988, o direito à moradia está previsto
concerne ao reassentamento de moradias. como um direito social, a exigir a ação
positiva do Estado por meio da execução de
A declaração de Área de Especial Interesse
políticas públicas habitacionais. É obrigação
Social, através de lei de iniciativa do poder
do Estado impedir a regressividade do direito
executivo, definirá os limites da área e poderá
à moradia e também tomar medidas de
estabelecer parâmetros de uso e ocupação
promoção e proteção deste direito.
do solo específicos para a AEIS.
Além disso, os compromissos que constam
Em suma, os parâmetros de uso e ocupação
nos Tratados e Convenções internacionais
do solo definidos para as Áreas de Especial
têm natureza vinculante aos países
Interesse Social deverão ser considerados
signatários, acarretando obrigações e
quando da elaboração da legislação de uso e
responsabilidades aos Estados pela falta de
ocupação do solo local.
cumprimento das obrigações assumidas.
Mais adiante, será observado que tal
Com base no exposto, é possível afirmar que
instrumento é utilizado para viabilizar a
o Estado brasileiro tem a obrigação de adotar
remoção dos moradores da Vila Autódromo
políticas públicas de habitação que
em prol dos projetos urbanos
assegurem a efetividade do direito à moradia.
complementares à Olimpíada 2016. Como
Tem também responsabilidade de impedir a
contraponto, a seguir, será apresentado os
continuidade de programas e ações que
instrumentos que de certa forma deveriam
excluem a população de menor renda do
assegurar o direito de moradia dessa
acesso a uma moradia adequada.
comunidade.
Portanto, verifica-se que a dimensão dos
problemas urbanos brasileiros contém a
3. INSTRUMENTOS DE POLÍTICAS questão habitacional como um componente
PÚBLICAS: PRERROGATIVAS PARA EVITAR essencial da atuação do Estado Brasileiro
AS REMOÇÕES DOS MORADORES DA VILA como promotor de políticas voltadas para a
AUTÓDROMO. erradicação da pobreza, a redução das
desigualdades e a justiça social. A cidade
3.1 O DIREITO À MORADIA
informal evidencia a necessidade de
O direito à moradia é um direito humano construção de uma política urbana que vise a
protegido pela Constituição Brasileira de 1988 inclusão social e territorial da população,
e pelos Instrumentos Internacionais. Os tendo como meta a regularização fundiária e
cidadãos brasileiros são sujeitos de direito a urbanização dos assentamentos de baixa
internacional aptos a exigir processualmente renda.
a promoção e o cumprimento de seus direitos
humanos junto aos organismos internacionais
de proteção. Essa relação entre indivíduos, 3.2 INSTRUMENTOS DE CUMPRIMENTO DA
Estados Nacionais e Organismos FUNÇÃO SOCIAL DA PROPRIEDADE
Internacionais decorre da adoção pelas URBANA
Nações Unidas dos Pactos Internacionais de
O Estatuto da Cidade estabelece princípios e
Direitos Civis e Políticos e de Direitos Sociais,
diretrizes que expressam uma nova
Econômicos e Culturais (1966), cujo
concepção dos processos de uso,
fundamento é a Declaração Universal dos
desenvolvimento e ocupação do território
Direitos Humanos.
urbano que deve orientar a ação dos agentes
Desse modo, os direitos humanos públicos e privados na reconstrução das
econômicos, sociais e culturais constituem-se cidades sob a ótica da justiça, democracia e
pretensão dos indivíduos ou da coletividade sustentabilidade. Cidade e propriedade
perante o Estado, os quais são reconhecidos adquirem novo significado e alcance no
pelas Constituições democráticas modernas e contexto da ordem jurídico urbanística
integram a legislação positiva de grande brasileira frente à exigibilidade constitucional
parte dos Estados contemporâneos. de que ambas têm de atender a funções
Entretanto, a positivação destes direitos não sociais quanto ao acesso, utilização e
tem significado sua efetivação e distribuição de suas riquezas e
concretização para as pessoas que habitam possibilidades.
os países em desenvolvimento.

Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 10


101

A nova lei apresenta quatro inovações Quanto à proteção aos despejos forçados, o
fundamentais: a consolidação de um novo Estatuto da Cidade prevê a utilização de dois
marco jurídico-político relativo à propriedade instrumentos:
urbana, que deve orientar a formulação de
normas de Direito Urbanístico; a instituição e
 Usucapião urbano, que pode ser
invocado como matéria de defesa em ações
regulamentação de instrumentos que vão
garantir a sustentação de uma ordem urbana que visem a remoção da população moradora
em áreas irregulares. A sentença judicial que
socialmente justa e includente pelos
municípios; a garantia da gestão democrática reconhecer o usucapião urbano valerá como
das cidades pelos agentes que a produzem, título para registro da propriedade em nome
do ocupante no Registro de Imóveis;
constroem e utilizam; e a regulamentação de
instrumentos de regularização fundiária dos  Zonas especiais de interesse social -
assentamentos informais em áreas urbanas uma vez instituídas sobre áreas com
municipais. ocupação irregular de baixa renda, garantem
a permanência legal das pessoas que vivem
O Estatuto define os instrumentos que o poder nestes locais.
público, especialmente o Município, deve
utilizar para enfrentar os problemas de Distante dessa perspectiva, os referidos
desigualdade social e territorial nas cidades: instrumentos de políticas públicas não
asseguraram o direito de moradia dos
- Instrumentos de garantia do cumprimento da moradores da Vila Autódromo que vem
função social da propriedade - plano diretor, traçando a sua história de luta e resistência
parcelamento e edificação compulsórios, desde 1990 até o presente como será visto a
imposto sobre a propriedade imobiliária seguir.
urbana progressivo no tempo,
desapropriação com títulos da dívida pública,
direito de preempção, outorga onerosa do 4. A RESISTÊNCIA DA VILA AUTÓDROMO
direito de construir (solo criado); FRENTE ÀS REMOÇÕES
- Instrumentos de regularização fundiária -
usucapião urbano, concessão especial para A partir dos anos 90, com o prefeito César
fins de moradia, concessão do direito real de Maia, a comunidade passou a conviver com a
uso, zonas especiais de interesse social; ameaça constante de ser removida devido a
- Instrumentos de gestão democrática da sua privilegiada posição geográfica, alvo
cidade - conselhos de política urbana, constante do expansivo setor imobiliário.
conferências da cidade, orçamento Ainda nos anos 90, o Governo do Estado
participativo, audiências públicas, iniciativa finalmente concedeu aos moradores o uso da
popular de projetos de lei, estudo de impacto área por 99 anos. Anos mais tarde, em 2005,
de vizinhança. a Câmara de Vereadores aprovou a lei
A Lei Federal 6.766/79, alterada pela Lei complementar 74/2005, que transformou a
Federal nº 9.788/99, prevê a possibilidade do comunidade em Área Especial de Interesse
poder público assumir a regularização Social.
fundiária de loteamentos clandestinos Quando o Rio de Janeiro foi eleito para sediar
implantados sem a observância das normas as Olimpíadas de 2016, o fantasma da
urbanísticas e sem a autorização da Prefeitura remoção apareceu novamente. O plano da
e Registro de Imóveis, em benefício das Prefeitura previa demolir o antigo autódromo
pessoas que adquiriram terrenos de boa-fé. de Jacarepaguá para construir o Parque
Essa legislação protege o direito à moradia e Olímpico, uma série de obras públicas em
a segurança da posse da população que seu entorno e a remoção completa da Vila
reside em conjuntos habitacionais ou terrenos Autódromo. No primeiro semestre de 2013,
localizados em loteamentos irregulares. em conjunto com uma equipe técnica da
Também estabelece medidas penais que Universidade Federal Fluminense (UFF) e da
devem ser aplicadas contra os proprietários Universidade Federal do Rio de Janeiro
que praticam crimes urbanísticos, vendendo (UFRJ), os moradores da Vila Autódromo
terrenos em áreas não parceladas ou apresentaram o Plano Popular de
urbanizadas, além de considerar esta prática Urbanização, uma alternativa ao plano do
como crime contra a Administração Pública. governo municipal para que a comunidade
não precisasse ser removida. O projeto, cuja
implantação não chegava a 14 milhões de
reais.

Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 10


102

Diante das evidências, é possível constatar Um dos motivos alegados para a remoção da
também que a Vila Autódromo, com seu vila é a ocupação de uma parte da faixa
terreno plano, ruas abertas, casas bem marginal de proteção de 15 metros de largura
estruturadas, além de uma população unida, ao longo da Lagoa de Jacarepaguá. O plano
é perfeitamente urbanizável, sendo importante alternativo prevê o reassentamento, dentro da
a conscientização do poder público frente as própria comunidade, dos moradores que
necessidades da comunidade. estão nesta área, resguardando uma faixa de
proteção da lagoa de Jacarepaguá, uma área
Para o geógrafo britânico David Harvey, autor
de proteção ambiental, recuperando o
do livro “Cidades rebeldes“, o capitalismo em
mangue e a vegetação nativa. Além disso, um
crise tenta resolver seus problemas através
parque com vegetação nativa seria criado no
do avanço sobre as cidades para transformá-
local.
las em ativos financeiros. É a lógica de que a
cidade não deve servir para as pessoas, mas O projeto foi enviado para o governo
para os negócios. municipal ainda em 2013, então a Prefeitura
apresentou uma proposta onde sobrava muito
Harvey (2016) nos ajuda a entender as
pouco da Vila, muitos teriam que sair. Isso
transformações por que passa o Rio. A
porque, entre as intervenções previstas, estão
cidade, que recebeu diversos megaeventos
as vias de acesso ao Parque Olímpico, que
nos últimos anos, o mais importante será
deveriam passar por dentro da favela.
as Olimpíadas, despertou o interesse de
grandes grupos empresariais que, em Os moradores apresentaram então uma
associação com o poder público e grupos de segunda versão do plano que resguardava
comunicação, fizeram do espaço público tudo aquilo que o governo municipal
fonte de lucro, e ainda explica: anunciava como imprescindível, como o
acesso independente ao Parque Olímpico dos
“A preocupação é construir uma cidade em
atletas, de jornalistas e do público, entre
que se possa especular, em vez de construir
outras coisas, mas sem atingir tanto a Vila
cidades decentes para as pessoas viverem.
Autódromo. Mas na solução da Prefeitura,
O capital global depende pesadamente da
ficava claro a intenção de retirar um grande
urbanização para se estabilizar. A resposta à
número de famílias.
crise de 2008 foi criar dinheiro e pressão pela
valorização do dinheiro. O capital está com Depois que apresentaram esta última versão
dificuldade de encontrar lugares lucrativos do plano ainda em 2013, as negociações
para sua valorização, e a urbanização é um foram rompidas e o governo municipal passou
desses lugares.” (HARVEY, 2016) a negociar individualmente com os
moradores. Começou, a partir de então, um
assédio cotidiano dos funcionários da
4.1 O PLANO POPULAR VILA AUTÓDROMO Prefeitura, segundo relatam os moradores.
O Plano Popular Vila Autódromo, uma Segundo moradores, eles eram coagidos a
alternativa à tentativa de remoção da aceitar a indenização e esses funcionários
comunidade da Zona Oeste do Rio de diziam que a família deveria sair senão iriam
Janeiro, foi idealizado pelos moradores da perder tudo, faziam pressão, dentro da
comunidade e contou com a participação comunidade e dentro das famílias.
decisiva do Núcleo Experimental de
Essa pressão é a mesma estratégia aplicada
Planejamento Conflitual (NEPC), que faz parte
em outras desocupações: as pessoas
do Instituto de Planejamento Urbano e
acabam cedendo e abandonam o lugar, as
Regional (Ippur) da UFRJ, além da
casas são demolidas e vários pertences são
contribuição da Universidade Federal
deixados na rua. Os que ficam passam a viver
Fluminense (UFF).
em um insuportável cenário de guerra, ao
Desenvolvido a partir de 2011, o Plano mesmo tempo que são pressionados a fazer o
Popular consolida uma alternativa de mesmo. Os moradores vão ficando uns contra
planejamento urbano da Vila Autódromo. A os outros e a favela acaba dividida. E assim,
ideia é que a população, assessorada por pouco a pouco, vai sendo removida.
pesquisadores e professores especializados,
Os moradores da Vila Autódromo se
possa elaborar soluções para a sua própria
surpreenderam com a decisão de Eduardo
comunidade.
Paes. O prefeito, que antes prometera que
não tiraria nenhum morador da localidade, a

Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 10


103

não ser que os próprios moradores margens da área urbana, longe de suas
quisessem, utilizou o decreto-lei nº.3.365, de relações sociais, familiares e de trabalho. No
21 de junho de 1941, para expulsar os caso da Vila Autódromo, a resistência de seus
moradores da vila autódromo, no artigo 5º, vizinhos fez com que as compensações
do decreto, constam as possibilidades da fossem mais justas. Mas para os que ainda
administração pública desapropria em caso mantêm a esperança de continuar na
de utilidade pública. comunidade, a questão não é conseguir uma
boa indenização, mas sim de respeitar o
As remoções na Vila Autódromo começaram
direito de permanecer onde desejam.
em fevereiro de 2014 e, desde então, cerca
de dois terços de sua população deixou a Caso os últimos moradores da Vila Autódromo
comunidade, os moradores calculam 390 resistam até as Olimpíadas, os escombros
famílias, enquanto que a Prefeitura fala em deixados pelas remoções serão todo um
590. O governo municipal ainda mantém o espetáculo para os meios de comunicação
discurso oficial de que não tem a intenção de internacionais, que estarão instalados em um
desapropriar a área por completo. Os edifício construído ao lado da comunidade.
moradores têm certeza que o objetivo é a
remoção completa das famílias para que,
finalmente, algum tipo de empreendimento 5. CONSIDERAÇÕES FINAIS
imobiliário seja realizado.
Observou-se que apesar das inúmeras
A maioria dos que deixaram a vila foi promessas dadas por diferentes governantes,
reassentada no Parque Carioca, um conjunto de acordo com os interesses específicos
habitacional a um quilômetro de distância vigentes das épocas, os moradores da Vila
com área verde, piscina, espaço gourmet, Autódromo sempre estiveram sob constante
creche e espaço comercial. Outros optaram tensão, com a possibilidade de perderem
por receber a indenização em dinheiro. suas casas e sem saberem o que realmente
aconteceria com a comunidade, e mesmo
O valor total das compensações é de 96
que embasados pelas leis apresentadas, o
milhões de reais, muito superior, portanto, ao
poder público se distância do cumprimento
plano de urbanização apresentado. Essas
do dever de assegurar o direito de moradia,
compensações, no entanto, são uma
utilizando para tanto outros instrumentos de
exceção: a maioria dos cidadãos que são
forma tendenciosa para priorizar os interesses
obrigados a deixar suas casas nas favelas do
específicos, mas contraditórios à justiça social
Rio de Janeiro são reassentados em áreas
e bem comum.
distantes da cidade, onde são construídos os
edifícios do programa Minha Casa, Minha Por outro lado, constata-se o fortalecimento
Vida (Governo Federal) ou Morar Carioca da comunidade e maior mobilização da
(Prefeitura do Rio), e sem poder de escolha. sociedade, buscando alternativas legais que
possam fazer cumprir tal direito, com
Esses programas habitacionais são um
destaque para o Plano Popular Vila
instrumento de segregação espacial, uma vez
Autódromo.
que libera as áreas mais valorizadas da
cidade para a especulação imobiliária e
remove a população mais humilde para as

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de-especial-interesse.html autodromo
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oDiretor.pdf

Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 10


104

Capítulo 10

Agostinho Augusto Figueira


Beatriz Monica Schuchmann
Marcos Roberto Buri
Ranulfo Soares da Fonseca Junior
Rosa Maria Maia de Oliveira

Resumo: Este artigo discorre sobre a importância de ações sustentáveis na área de


logística, tomando como exemplo o reaproveitamento de gorduras para
transformação em Biodiesel em uma rede de restaurantes. Destaca-se o papel do
Prestador de Serviços Logísticos (PSL) na cadeia de suprimentos (CS), por meio da
gestão colaborativa. Para tanto, utiliza-se o exemplo da rede de alimentação
McDonalds, que realiza o projeto Biodiesel por meio do Operador Logístico Martin-
Brower. Aborda-se, de maneira sintética, a execução do projeto Biodiesel da rede
McDonald’s, idealizada pelo seu PSL Martin-Brower, a fim de identificar os
requisitos necessários para que a implementação de ações sustentáveis seja
efetivada. Ressalta-se o importante papel de um agente terceirizado que seja ativo
na execução dos projetos logísticos visando a sustentabilidade. Desse modo,
pretende-se abordar a forma como cada um dos atores envolvidos no projeto
Biodiesel atua para alcançar as metas em relação à preservação ambiental e
sustentabilidade, favorecendo resultados satisfatórios para todos os envolvidos no
processo. Conclui-se que o PSL pode contribuir para as metas de sustentabilidade
da empresa contratante, demonstrando ser um diferencial para empresas que
buscam maior eficiência e agilidade na implementação e execução das ações
relativas à Cadeia de Suprimentos.

Palavras-chave: Sustentabilidade; Cadeia de suprimentos; Logística.

Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 10


105

1 INTRODUÇÃO diversas formas de atuação, porém, neste


momento, a ideia é trazer a lume algumas
Este artigo discorre sobre a atuação e
possibilidades, a fim de ampliar a visão do
importância do Prestador de Serviços
leitor a respeito do tema.
Logísticos (PSL) na execução das diversas
atividades logísticas da Cadeia de Atualmente, além da sustentabilidade e
Suprimentos (CS), favorecendo a otimização preservação ambiental, as empresas
de recursos, propiciando que a empresa precisam ser inovadoras, buscando todos os
contratante possa se dedicar exclusivamente meios e estratégias possíveis para conquistar
ao seu negócio. Mesmo que indiretamente, o cliente, assegurando a competitividade no
isto traz resultados positivos para a empresa mercado, sem perder de vista a lucratividade.
em relação a sustentabilidade, que,
A preocupação com a sustentabilidade
atualmente, tornou-se um diferencial
demonstra ao público uma faceta positiva,
competitivo e inovador para as organizações.
agregando valor à marca. As refeições
As ações sustentáveis trazem mais negócios
rápidas (fastfoods) que costumam ser
para a empresa que as adota.
oferecidas são compostas por alimentos
Para tanto, apresenta-se um caso de sucesso, muito gordurosos e de alto valor calórico,
em que o PSL identificou uma possibilidade muitas vezes, trazem consigo uma conotação
de ampliação de sua carteira de serviços a negativa, por não atenderem aos requisitos
um cliente – a rede de restaurantes fast food de uma dieta equilibrada. Neste quesito, a
McDonalds, oferecendo um serviço voltado rede McDonalds, como uma das pioneiras no
para a sustentabilidade, o que se tornou um nicho de negócio, já passou por diversos
diferencial competitivo para ambas as partes. questionamentos da opinião pública, trazendo
alguns prejuízos à marca, muitas vezes
No caso das redes de restaurantes fastfood,
atrelada aos ideais do capitalismo
esse tipo de ação é muito importante, por
inescrupuloso, que vêm sendo enfrentados
atingirem a grande massa populacional, o
com ações vinculadas a sustentabilidade
que faz com que suas ações (positivas ou
visando a manutenção de uma imagem
negativas) se repercutam rapidamente.
positiva. (COHEN, 2004).
Deste modo, sendo realizado um estudo
Diante das diversas questões ou
teórico sobre a CS, sustentabilidade e PSL,
especulações que possam surgir, o
apresentando um caso prático de um ciclo
investimento em práticas que aumentem a
fechado (closed-loop) em cadeia de
credibilidade e confiança neste tipo de
suprimentos, norteado pelos princípios da
empresa torna-se fundamental.
preservação ambiental. Trata-se do projeto
Biodiesel da Rede de Alimentação As medidas voltadas para a sustentabilidade
McDonald’s e seu Operador Logístico – são bem-vindas em um cenário altamente
Martin-Brower, visando abordar a atuação do competitivo, com um mercado e
cliente, do PSL e agentes da CS, destacando consumidores cada vez mais exigentes e
os requisitos que permitam ao PSL prover conscientes da necessidade de práticas que
ações sustentáveis junto aos seus clientes. demonstrem o respeito à saúde das pessoas,
o que também envolve o meio ambiente.
A importância do estudo deve-se à
necessidade atual das empresas em incluir as Nesse cenário, o Prestador de Serviços
práticas de preservação ambiental e a Logísticos (PSL) tem à sua frente uma
sustentabilidade, sem perder o foco do infinidade de possibilidades de negócio, que
próprio negócio. o permitem atender às necessidades dos
mais diversos tipos de clientes que
A contratação de um agente terceirizado de
necessitam implementar a sustentabilidade,
serviços logísticos na realização dos projetos
por meio de sua Cadeia de Suprimentos (CS).
de sustentabilidade clientes torna-se muito
interessante, pois contribuem, mesmo que O gerenciamento da frota de veículos de
indiretamente, para a competitividade da transporte, com a utilização do Biodiesel,
organização. realizado pelo PSL pode ser muito importante
para a efetivação de projetos com esse tipo
Pretende-se, então, procurar conhecer a
de combustível.
maneira como os diversos atores (cliente, PSL
e agentes da CS) se alinham a fim de atender Trata-se de um tema bastante novo e
as metas organizacionais. Certamente, há específico, por isso há dificuldades em

Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 10


106

encontrar estudos que atendam a todas as 2.1 CADEIA DE SUPRIMENTOS E GESTÃO


necessidades dos diversos tipos de COLABORATIVA
organizações (WOLF; SEURING, 2010).
Atualmente, a confiança e o compromisso
vêm se tornando pontos centrais da gestão
colaborativa na CS. A cooperação entre
2 SUSTENTABILIDADE NO CONTEXTO
empresas envolve a troca de informações
ATUAL EM CADEIA DE SUPRIMENTOS
básicas entre fornecedores e clientes, que é
A globalização tem favorecido a inserção das facilitado pela tecnologia da informação e
empresas brasileiras nos mercados mundiais, comunicação (TIC). Este relacionamento entre
de forma competitiva, o que vem exigindo das empresas permite a elaboração de
mesmas recursos e estratégias que estratégias conjuntas, gerando confiança e
possibilitem o atendimento das demandas, compromisso, que se traduz na colaboração,
inclusive em relação ao quesito como algo que ultrapassa a ideia de
sustentabilidade, que envolve a cooperação. (SINGH; POWER, 2009).
responsabilidade social, cultural, ambiental e
A importância da colaboração é observada
econômica.
por Muniz e Cruz (2016), como um fator de
Neste contexto, muitas vezes, torna-se impacto na competitividade, representando
necessário fazer escolhas, que podem uma importante ferramenta no ambiente de
representar o abandono de práticas e negócios. (MUNIZ; CRUZ, 2016).
posturas há muito arraigadas. Quando se
A confiança e o compromisso, juntamente
trata de competitividade e sustentabilidade, a
com a estratégia adequada promovem a
questão dos trade-offs surge, com valores
interdependência, compatibilidade
antagônicos, exigindo a tomada de posição,
operacional e a comunicação. Esta
quando o ideal seria manter a competitividade
proximidade operacional auxilia no aumento
de maneira sustentável, porém, isso nem
da confiança, mas não interfere no
sempre é possível. (LIEB e LIEB, 2010).
compromisso, que se consolida na confiança
Nas operações logísticas, a redução dos mútua. (RUY et al., 2009)
ciclos de atendimento/entrega, aumento da
O desenvolvimento da confiança e do
precisão/confiabilidade dos prazos e a
compromisso entre duas empresas promove
administração dos fluxos reversos, de modo a
a colaboração e ajuda a sustentar o
favorecer a geração de valor para ações de
relacionamento colaborativo. (VIVALDINI;
sustentabilidade são fatores desafiadores.
PIRES, 2012).
Neste âmbito, vem aumentando a importância
dos processos logísticos na gestão das A integração, nos âmbitos internos e externos,
cadeias de suprimento. (PIRES, 2009). baseada nas relações de confiança e
compromisso permite a disponibilização de
E, segundo, Schier (2012, p. 2):
dados e informações mais detalhados, que
O processo logístico inicia-se na escolha possibilitam a melhoria do desempenho da
correta e no estabelecimento de parcerias de CS. Na integração interna, os departamentos
longo prazo com os componentes de uma e funções devem atuam de forma alinhada ao
cadeia produtiva, exigindo-se que o canal de negócio da empresa, visando o desempenho
distribuição esteja apto a atender as operacional e dos negócios, promovendo a
necessidades e expectativas do cliente final. conexão da cadeia, por meio da estratégia de
colaboração, bem como pela gestão dos
As ações de sustentabilidade necessitam
processos internos e externos das
considerar a visão atual sobre o CS e gestão
organizações. Desse modo, enfatiza-se a
colaborativa para a construção de práticas
importância da interação e proximidade com
operacionais que agreguem projetos que
clientes e fornecedores, o que se vincula ao
valorizam o uso responsável dos recursos
desempenho da cadeia, abrangendo três
naturais, demonstrando a responsabilidade
importantes aspectos: cliente, supridores e a
das empresas, inclusive na logística reversa.
integração interna (VIVALDINI, 2015).
O compromisso dos fornecedores é muito
importante para o comprador, mesmo que
não resulte em aumento dos negócios, trata-
se de um quesito fundamental para se

Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 10


107

promover a satisfação e a melhoria do adaptarem às condições ambientais de


desempenho. mudanças.
As múltiplas interações aumentam a Dentre as iniciativas ambientais muitas
confiança e a reciprocidade, mesmo quando empresas têm realizado modificações em
não há transparência nessas relações, como suas CS para operar em um ciclo fechado
quesito importante para a construção dos (closed loop), o que exige a integração
negócios e alianças e joint-ventures, que estratégica com os diversos agentes,
ligam empresas diferentes e independentes. planejamento, atuando em ambos os sentidos
A confiança se refere a uma expectativa da cadeia. (ELTANTAWY et al., 2009).
positiva, acreditando que o outro não agirá de
Neste sentido, vêm sendo criadas medidas
maneira oportunista. Trata-se, ainda, de uma
de gestão da CS diferentes das tradicionais,
variável que se altera mediante novas
como a inclusão de processos de
situações, podendo ser construída com base
remanufatura ou recuperação de produtos,
em experiências em longo prazo. (VIVALDINI,
contemplando o foco dos negócios e sua
2015).
contribuição para a sociedade, por meio de
Os diferentes tipos de relacionamentos entre ações conjuntas que favorecem a
empresas decorrem de diferentes situações, sustentabilidade (DEFEE; ESPER;
pois exigem tipos e graus de investimentos MOLLENKOFF, 2009).
também diversos, originando resultados
Entretanto, o desafio quanto se encontra na
distintos (GOLIC; MENTZER, 2006).
implementação de ações sociais e
Numa rede de empresas ocorrem diferentes ambientais, apesar do esforço das
tipos de colaboração, que surgem de cada organizações em colocar em prática as
ponto da CS, que pode desencadear teorias existentes, o que parece ser
diferentes comportamentos e tipos de consolidado apenas em algumas
colaboração (POLER et al., 2008). organizações (ANDERSEN; SKJOETT-
LARSEN, 2009).
Um processo colaborativo requer
fornecedores, produtores, distribuidores e A sustentabilidade ambiental se refere a
clientes alinhados aos mesmos objetivos, que preservação de bens ambientais importantes
levem a resultados positivos para todos os para esta e as futuras gerações, sendo que a
integrantes da CS. Por isso, todas as gestão ambiental envolve os âmbitos internos
estratégias adotadas precisam considerar, e externos na CS (upstream e downstream).
não apenas o resultado individual, mas (VIVALDINI, 2015).
contemplar toda a cadeia. (SAHAY, 2003).
Por sua vez, a legislação e a sociedade
pressionam as empresas a adotarem práticas
baseadas na sustentabilidade, o que pode
2.2 SUSTENTABILIDADE E LOGÍSTICA
favorecer a elas uma imagem positiva
REVERSA NA CADEIA DE SUPRIMENTOS
relacionada à responsabilidade social. Aos
Segundo Vivaldini (2015), as práticas poucos vêm surgindo projetos para novos
sustentáveis e as movimentações na CS que produtos produzidos de forma sustentável,
caracterizam a logística reversa trazem inclusive em relação ao descarte, por meio da
algumas questões, como a responsabilidade logística reversa. (HOLT; GHOBADIAN, 2009).
das empresas, o relacionamento entre os
O conceito de sustentabilidade ainda não é
profissionais da área, a ética na contratação
muito compreendido em muitas empresas,
dos fornecedores, bem como os aspectos
devido à falta de atenção às políticas de
sociais.
reciclagem, bem como à ausência de
Conforme Halberstadt et al. (2015, p.300): padrões nos processos e tecnologias, de
recursos, pessoas e monetários, além da
A sustentabilidade requer um repensar da
preocupação com as questões legais. Neste
noção de sucesso empresarial, desempenho
sentido, o PSL pode favorecer a organização
organizacional e um esclarecimento sobre o
desse processo dentro de uma empresa,
seu significado para o negócio e para a
apesar da dificuldade na seleção deste tipo
sociedade em geral. (...) ela é vista ainda
de prestador de serviço. A associação ou
como a capacidade dos diversos sistemas da
aliança estratégica com um grupo de
terra, incluindo as economias e sistemas
empresas permite o gerenciamento das
culturais humanos de sobreviverem e se
questões relacionadas à logística reversa,
Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 10
108

reduzindo os investimentos das empresas na trabalho, com o envolvimento dos


operação e centralização dos negócios. (LAU; fornecedores. (HSU et al., 2008).
WANG, 2009).
A colaboração entre os parceiros da cadeia
Um sistema de coleta próximo dos abrange a logística reversa, cuja gestão deve
consumidores auxilia com o processo de incluir toda a operação, contando com o
reciclagem, uma vez que o processo de apoio da empresa. (LAU; WANG, 2009; LI;
reciclagem passa por diferentes etapas, que OLORUNNIWO, 2008).
geram custos, que, depois, são incluídos no
A responsabilidade social nas CS deve ser
valor do produto final, tais como: transporte
internalizada por toda organização, não se
para uma unidade recicladora, classificação,
limitando a uma atividade corporativa ou do
estocagem, desmontagem, remoção de
staff das empresas, ou seja, abrangendo as
partes desnecessárias e consolidação das
esferas internas e externas, como filiais e
partes separadas. (BRODIN; ANDERSON,
fornecedores. (ANDERSEN; SKJOETT-
2008).
LARSEN, 2009).
A logística reversa exige mão-de-obra
Para a realização de ações sustentáveis, as
especializada ao tipo de produto e ao motivo
CS fechadas exigem a atuação das
de seu retorno. Quanto ao conceito de
organizações parceiras, sob a liderança da
logística reversa, esta se refere a:
empresa foco, inclusive porque cada tipo de
(...) área da logística empresarial que planeja, ação ou retorno de produto requer um
opera e controla o fluxo e as informações processo diferente. Este tipo de CS necessita
logísticas correspondentes, do retorno dos manter uma filosofia e processos que
bens de pós-venda e de pós-consumo ao incentivem o comprometimento, o que ajudará
ciclo de negócios ou ao ciclo produtivo, por na gestão dos riscos, nos relacionamentos e
meio dos canais de distribuição reversos, maior flexibilidade nas negociações. (DEFEE
agregando-lhes valores de diversas et al., 2009).
naturezas: econômico, de prestação de
A cadeia deve focalizar os vários fluxos,
serviços, ecológicos, legal, logístico, de
primeiramente em relação aos fornecedores
imagem corporativa, dentre outros. (LEITE,
e, depois, aos clientes. Trata-se de uma tarefa
2009 apud HARBERSTADT, 2015, p.302).
árdua, especialmente nos fluxos reversos,
O valor logístico decorre da redução de considerando a responsabilidade ambiental e
custos ou aumento de vendas, sendo a integração de ambos os sentidos da cadeia.
necessárias melhorias no serviço de entrega, Por isso, uma liderança influente na cadeia de
sem demandar ou exigir compensação suprimentos é muito importante, para
financeira do consumidor para a realização conseguir a adesão das demais às propostas
da logística reversa, que é o ponto em que se apresentadas. (DEFEE et al., 2009).
concentram diversas questões ambientais,
exigindo que as empresas maior efetividade
nas ações. (BRODIN; ANDERSON, 2008). 3 OS OPERADORES LOGÍSTICOS
Nos processos de logística reversa torna-se A aquisição de serviços logísticos é uma
muito importante o uso tecnologia da atividade bastante complexa, por abranger a
informação, como internet, EDI (Electronic compra de um processo, que envolve muitas
Data Interchange) e RFID (Radio-Frequency variáveis, o que é muito diferente, por
IDentification) pois permitem a troca de exemplo, da compra de componentes.
informações em tempo real com clientes e (VIVALDINI; PIRES, 2010).
fornecedores. Nesse passo, a colaboração e
Quando uma empresa busca a terceirização
confiança entre os agentes, especialmente as
das atividades da cadeia de suprimentos por
relações de longo prazo, são muito
operadores logísticos, ela busca excelência
importantes, pois favorecem a efetivação das
no nível dos serviços de armazenagem,
ações. (LI; OLORUNNIWO, 2008).
transporte e comunicação, como explicam
O relacionamento entre vendedor e varejista Oliveira Neto et al. (2012, p. 3):
favorece o processo, de forma a considerar
A utilização de sistema de informação eficaz é
as variáveis, inclusive no tocante a logística
fundamental para que a empresa possa
reversa. Os centros de reciclagem em centros
mensurar o desempenho dos operadores
de distribuição (varejo) realizam este tipo de
logísticos. À medida que as empresas

Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 10


109

tentaram adotar as técnicas do just in time, A terceirização de serviços logísticos é uma


descobriram que as reorganizações internas forma de facilitar os processos e reduzir os
à planta eram apenas parte do programa. custos das empresas, favorecendo que a
Essas técnicas demandavam mudanças na mesma utilize seu capital humano para o
cadeia de suprimentos, que dependem de desenvolvimento do próprio negócio e na
relacionamentos compartilhados com os conquista de novos mercados. Este tipo de
fornecedores, trazendo vantagem competitiva terceirização também diminui os
para a organização. investimentos em ativos não diretamente
relacionados ao nicho da empresa.
Quanto aos operadores logísticos - ou
(OLIVEIRA NETO et al., 2012; VIVALDINI,
Prestador de Serviços Logísticos - PSL,
2015).
explicam os mesmos autores:
Além disso, a própria Cadeia de Suprimentos
Operador logístico é o fornecedor de serviços
é otimizada, ao delegar parte das atividades a
especializado em gerenciar e executar todas
uma empresa contratada, agregando valor às
as atividades logísticas nas várias fases na
operações existentes, dentre outros
cadeia de abastecimento de seus clientes, e
benefícios, tais como: flexibilização e
deve ter competência para, no mínimo,
consolidação do processo de expedição e
prestar simultaneamente serviços nas três
atividades logísticas; operações de retorno de
atividades básicas: controle de estoque,
produtos; coordenação das atividades
armazenagem e gestão de transporte. Os
logísticas no âmbito global; melhoria e
demais serviços que porventura sejam
controle dos serviços e atividades logísticas;
oferecidos funcionam como diferenciais de
melhoria no acesso a novas tecnologias de
cada operador; pode-se citar como exemplo,
informação e comunicação (TIC) e
gerenciamento, análise e projeto de
conhecimento logístico. Para tanto, sendo
administração de estoques e de informação e
importante a comunicação eficaz e o bom
rastreamento de pedidos, que podem se
relacionamento com o agente logístico.
estender até ao gerenciamento da cadeia
(JAAFAR; RAFIQ, 2005; VIJAYVARGIYA; DEY,
logística (FLEURY; WANKE; FIGUEIREDO,
2010; VIVALDINI, 2015).
2006 apud OLIVEIRA NETO et al., 2012, p. 3).
A organização não precisa manter uma
Um Prestador de Serviços Logísticos - PSL
grande estrutura logística, podendo contratar
pode fornecer um conjunto de transações,
um (ou mais) Prestador de Serviços Logísticos
que requer do contratante a utilização de
- PSL, especializado para realizar os serviços,
interfaces e monitoramentos sofisticados.
que se tornará parceiro do negócio.
Para que a terceirização obtenha sucesso, as
(BALLOU, 2001).
partes envolvidas devem ter clareza quanto
aos objetivos, finalidade, expectativas, além O PSL se refere a uma organização externa
das capacitações necessárias (VIVALDINI; que realiza todas ou parte das atividades e
PIRES, 2010). funções logísticas da empresa que a
contratou (LANGLEY et al., 2001).
A seleção dos prestadores de serviços
depende da complexidade do processo, dos A otimização do processo operacional e dos
serviços necessários e do tipo de serviços logísticos, por meio dos PSL,
relacionamento que se busca desenvolver. favorece o aumento da confiabilidade no
Para a contratação dos fornecedores não- processo operacional, permitindo, também, a
estratégicos ou “executores de tarefas”, ampliação dos serviços prestados. Desde
geralmente se emprega a análise de cotação meados da década de 1990 os PSL têm
de tarifas como única ferramenta de escolha. aumentado os serviços para atender às
(FIGUEIREDO, 2005). necessidades do cliente e, atualmente, as
empresas industriais têm disponibilizado
Dentre os fatores que influenciam a decisão,
outros serviços, no final da sua cadeia de
se encontra o custo mais baixo, e aspectos
suprimentos, como instalação de
de curto prazo, para simplificar os serviços
equipamentos, reparos, montagem de kits
contratados e facilitar a substituição do
etc. (VIVALDINI, 2015).
fornecedor, se necessário. A seleção de
fornecedores estratégicos pode envolver Deste modo, os PSL têm se especializado em
investimentos mais significativos, bem como algumas áreas, o que vem se tornando um
um processo de seleção mais complexo. diferencial competitivo, também, para estas
(FIGUEIREDO, 2005). empresas, como ocorre em relação aos

Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 10


110

operadores que executam ações mediante acrescentado ao diesel na proporção de 5%


aos princípios de sustentabilidade e (WOLF; SEURING, 2010).
preservação ambiental. (LIEB, 2008;
Entretanto, ainda há necessidade de uma
VIVALDINI, 2015).
legislação mais efetiva e específica para as
empresas de transporte, muito embora muitas
empresas que contratam o PSL, por iniciativa
3.1 OPERADORES LOGÍSTICOS E
própria, colocam em seus contratos uma
SUSTENTABILIDADE
cláusula referente a redução de carbono. Mas
Muitos Prestadores de Serviços Logísticos, esta é uma medida que precisa ser
especialmente de grande porte, passaram a regulamentada, obrigando a todos os PSL a
assumir maiores compromissos com cumprirem tal requisito. (WOLF; SEURING,
programas de sustentabilidade, por diversos 2010).
motivos, mas, principalmente, porque a
Muitas organizações atuam de maneira
sociedade (e os clientes) tem valorizado as
conjunta com os PSL, mantendo programas
ações em favor da coletividade, como é o
de sustentabilidade que atendam a objetivos
caso da preservação ambiental. Além disso,
comuns, tais como: Apoio aos esforços dos
trata-se de uma questão ética, que contribui
clientes para redução de emissão de
para a melhoria e consolidação da marca no
carbono; Diminuir o consumo de combustível,
mercado, servindo, ainda, como estratégia
água e eletricidade; Ajudar os clientes a
competitiva. (LIEB e LIEB, 2010).
cumprir os programas e certificação;
O desenvolvimento dos processos de Cuidados com produtos perigosos; Melhorar
produção, dos sistemas de comunicação e o desempenho dos veículos; Buscar fontes
controle, a liberação do comércio e o renováveis de energia e outras facilidades. O
aumento da competitividade impulsionaram PSL precisa se capacitar para atender aos
mudanças na forma de gerenciamento dos anseios dos clientes, ao mesmo tempo que
negócios, com a realização de parcerias com oferece preços competitivos, com clareza
fornecedores e terceirização de negócios, de quando aos desafios e prioridades
modo que “as operações logísticas deixaram ambientais, além de divulgar as práticas de
de ser consideradas assessórias e passaram sustentabilidade. (LIEB; LIEB, 2010).
a ser consideradas estratégicas” (OLIVEIRA
NETO, 2008 apud OLIVEIRA NETO et al.,
2012, p.3). 4 METODOLOGIA
Dentre as ações que envolvem a Para a realização deste artigo, optou-se pela
sustentabilidade, se encontram: a avaliação pesquisa exploratória de revisão bibliográfica,
de softwares, check-list ambiental e de caráter qualitativo.
benchmarketing com empresas para crédito
Foram pesquisados artigos científicos,
de carbono. Outras ações envolvem o uso de
nacionais e internacionais, sobre os conceitos
combustíveis alternativos e veículos
e aspectos que envolvem a sustentabilidade
eficientes, redução da kilometragem através
na área de logística e cadeia de suprimentos,
da melhoria dos processos, compartilhamento
destacando-se artigos com pesquisas de
de carga, modais eficientes, segurança
campo em uma rede de fast food, que utiliza
profissional e da sociedade (limite de
o PSL.
velocidade e qualidade da frota), reciclagem
e produtos de consumo e demais ações que Dentre as fontes de pesquisa utilizadas,
atendam aos quesitos da preservação destaca-se o estudo de caso realizado por
ambiental e sustentabilidade. (LIEB; LIEB, Mauro Vivaldini (2015), na rede de
2010). restaurantes McDonald’s e seu operador
logístico Martin-Brower, que apresenta dados
Destaca-se a importância da legislação para
sobre a cadeia de suprimentos desta rede,
regular a atuação dos PSL, para que a
para demonstrar a importância da gestão
sustentabilidade seja privilegiada, como, por
colaborativa como facilitadora da integração e
exemplo: restrições no tráfego das grandes
o compromisso das empresas parceiras.
cidades, com restrição ao tráfego de
caminhões e automóveis em dias e horários
pré-estabelecidos, limites para a emissão de
poluentes e uso de combustíveis alternativos,
como o biodiesel, que, no Brasil, já é
Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 10
111

5 A UTILIZAÇÃO DO BIODIESEL NA A utilização do biodiesel também contribui


OPERAÇÃO DA EMPRESA MCDONALD’S para reduzir a poluição do ar, e também
favorece o homem do campo, ao gerar
No modelo adotado pela empresa
emprego e renda, além da geração de
McDonald’s, os PSL compõem uma rede
vantagens econômicas para o país.
formada por oito empresas, que são lideradas
pela empresa Martin-Brower, que é O biodiesel utiliza matérias-primas que
responsável pelas operações logísticas no derivam de óleos vegetais, gordura animal e
Brasil. Estas empresas elaboraram um projeto resíduos de gorduras provenientes de frituras
de sustentabilidade para toda a rede de (lanchonetes, restaurantes etc.), que são
restaurantes do grupo, visando a geração do compostos por triglicérides, ésteres de
biodiesel a ser utilizado na frota de veículos glicerol e ácidos graxos. (TAVARES; SILVA,
da Cadeia de Suprimentos da empresa 2008).
contratante. (VIVALDINI, 2015).
Quanto às fontes de matérias-primas para a
Neste projeto de sustentabilidade, as produção de biodiesel, observa Vivaldini
empresas são co-participantes de todo o (2015, p. 142):
processo, assumindo compromissos que
Algumas possíveis fontes dos óleos e
estão alinhados aos objetivos da McDonald’s,
gorduras residuais são: lanchonetes e
no atendimento às necessidades dos clientes
cozinhas industriais, indústrias onde ocorre a
e, por fim, na melhoria dos resultados, tanto
fritura de produtos alimentícios, os esgotos
para a empresa contratante quanto para o
municipais onde a nata sobrenadante é rica
grupo dos PSL.
em matéria graxa, e águas residuais de
processos de indústrias alimentícias.
5.1 BIODIESEL A produção do biodiesel segue normas de
padrão internacional, como a ASTM
Biodiesel é um combustível alternativo, que
(American Society for Testing and Materials),
não é derivado do petróleo, mas pode ser
sendo uma alternativa de combustível “limpo”,
misturado ao mesmo, para utilização em
por não contaminar o meio ambiente, além de
motores a diesel.
impedir que os óleos residuais de frituras
Na definição de Tavares e Silva: contaminem o meio ambiente. (VIVALDINI,
2015).
O biodiesel é um combustível natural usado
em motores diesel, produzido através de No Brasil, a redução de emissões decorrentes
fontes renováveis, que atende as do uso de biodiesel deve contribuir para a
especificações da Associação Nacional do diminuição das emissões entre 36,1% a
Petróleo (ANP). 38,9% até 2020, de acordo com o
compromisso voluntário firmado em 2009, na
(...) é um combustível renovável derivado de
Conferência do Clima. (EMBRAPA, 2015).
óleos vegetais, gordura animal ou residual,
usado em motores a diesel em qualquer
concentração de mistura com o diesel,
5.2 CADEIA DE SUPRIMENTOS
produzido através de um processo químico
MCDONALD’S
que remove a glicerina do óleo. (TAVARES;
SILVA, 2008, p.33) Conforme Vivaldini (2015), nos restaurantes
da rede McDonalds, o sistema de
Além dos benefícios ao meio ambiente, o
abastecimento é realizado pelo PSL
biodiesel por ser um recurso renovável,
(Prestador de Serviços Logísticos), atendendo
biodegradável e com reduzida emissão de
o restaurante e a corporação, inclusive
gás carbônico, como se observa a seguir:
atuando junto aos fornecedores. O PSL
Ao abastecer sua frota urbana de ônibus com controla a demanda dos pontos de venda e
a mistura de 20% de biodiesel no diesel fóssil suas variações sazonais. A matriz da rede
(B20), as 40 cidades brasileiras com mais de McDonalds envia as informações sobre as
500 mil habitantes podem diminuir em até demandas, para que o PSL realize as
70% as emissões de CO2 causadas pela compras junto aos fornecedores que, por sua
produção do combustível e ainda cerca de vez, os entrega nos seus centros de
15% na queima dessa mistura de biodiesel e distribuição. Em seguida, o PSL faz a
diesel. (EMBRAPA, 2015, p.1) distribuição dos pedidos aos pontos de venda
do McDonald's.
Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 10
112

Além disto, o PSL analisa os pedidos e operação precisam ser definidas, assim como
solicitações dos restaurantes, recebe e a gestão dos processos e parceiros do grupo.
processa as ordens e o faturamento, carrega (VIVALDINI, 2015)
o caminhão e entrega no ponto de venda nos
O conceito de ciclo fechado (closed loop)
horários pré-estabelecidos, que são fielmente
adotado tem como diferencial o fato de que a
cumpridos, para assegurar o suprimento ideal
gordura da fritura não volta para o fabricante
dos estoques.
da gordura, mas seria utilizada para a
A governança da cadeia é realizada pela fabricação do Biodiesel, que abastece nos
corporação McDonald’s, que estipula as caminhões que realizam a logística da rede
responsabilidades dos seus agentes, assim McDonald’s. Assim, os próprios caminhões
como a gestão de preços, margens de lucro, que realizam as entregas, também retiram a
qualidade e conflitos. gordura descartada, que volta ao Centro de
Distribuição e é armazenada em tanques
Nesta operação, o compromisso e o nível de
específicos. Depois, o fabricante do Biodiesel
relacionamento entre fornecedores e a PSL
retira a gordura a produz o Biodiesel, sem
requer cooperação e confiabilidade, sendo
misturas com gorduras de outros locais, ou
necessário que cada agente participante da
seja, é utilizada apenas a gordura descartada
cadeia de suprimentos atenda aos
de frituras da rede McDonald's. O Biodiesel
pressupostos exigidos pela Corporação
produzido é estocado e é utilizado pelos
McDonald’s, relativos aos seguintes aspectos:
caminhões sempre que estiverem a serviço
 Rede de fast food: operação dos da rede McDonald's. (VIVALDINI, 2015).
restaurantes, promoções e propagandas,
Além de manter este ciclo de
escolha de fornecedores, preços e produtos, reaproveitamento, o projeto também busca
desenvolvimento de novos produtos, planos
resultados indiretos, com a redução do
estratégicos, avaliação e padronização dos impacto ambiental decorrente do descarte da
processos, bem como resolução de conflitos gordura de fritura, transformando-o em um
na cadeia. recurso renovável; criação de um padrão para
 PSL: Gestão de compras e estoques, descarte desta gordura nos restaurantes;
atendimento aos restaurantes, armazenagem, promoção da marca McDonald’s e das
distribuição e transporte, transferências a empresas envolvidas na CS perante o
outros centros de distribuição no País, gestão mercado e seus acionistas, bem como a
financeira da cadeia, planejamento logístico, aquisição de créditos de carbono gerados
planejamento fiscal, serviço de campo e pela operação. (VIVALDINI, 2015)
coordenação das operações de Ressalta-se, entretanto, que este projeto foi
abastecimento na cadeia. idealizado após a percepção da PSL sobre a
 Fornecedores: Manufatura com oportunidade existente. Assim, com o aval e
qualidade assegurada, desenvolvimento de liderança da rede McDonald's no Brasil, foi
novos produtos e gestão da cadeia de contratada uma empresa de consultoria
suprimentos a montante. (VIVALDINI, 2015) técnica especializada, que auxiliou nos
aspectos tecnológicos, sendo delegada a
Deste modo, a contribuição do PSL na PSL a coordenação para a execução do
prestação de serviços na Cadeia de projeto. (VIVALDINI, 2015)
Suprimentos favorece o relacionamento do
cliente com seus consumidores, bem como
ajuda na melhoria dos resultados da empresa. 6 CONSIDERAÇÕES FINAIS
Este artigo demonstrou a efetiva participação
5.3 O PROJETO BIODIESEL do PSL na intermediação das operações de
logística reversa, o que também representa
A finalidade do projeto é transformar o óleo de um importante diferencial competitivo para o
fritura coletado nos restaurantes da rede mesmo.
McDonald’s em Biodiesel, para
abastecimento dos veículos que realizam a As ações visando a sustentabilidade se
logística da rede, mantendo um ciclo fechado tornaram fundamentais para as organizações
(closed loop) na cadeia de suprimentos, que pretendem se estabelecer em um
sendo esta uma iniciativa pioneira de mercado altamente competitivo. Apesar de
operação. Para tanto, todas as fases da haver uma legislação ambiental vigente, ainda

Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 10


113

há muitas lacunas que precisam ser agente vinculado à cadeia de suprimentos de


preenchidas e as empresas que têm uma organização, mesmo que externo, mas
percebido onde podem melhorar seus que tenha identificado uma necessidade e a
processos estão dando um passo à frente, o oportunidade, como ocorreu neste caso.
que pode fazer toda a diferença perante os Assim, o PSL Martin-Brower passou de mero
clientes e consumidores finais. prestador de serviço a parceiro, o que fez
toda a diferença, inclusive, para que a rede
O projeto Biodiesel realizado pela rede
McDonald's o mantenha como responsável
McDonald's por meio de seu PSL Martin-
pela movimentação e logística de seus
Brower traz a lume a necessidade de uma
produtos em todos os seus pontos de venda.
parceria baseada na confiança, compromisso
e colaboração, cujos resultados beneficiam a O modelo close-up também favoreceu o PSL,
todos os participantes da Cadeia de ao estabelecer que seus caminhões
Suprimentos. coletariam a gordura descartada e a
disponibilizariam para a transformação em
Por outro prisma, o Projeto Biodiesel também
Biodiesel. E, então, criando mais uma
agrega valor à marca McDonald's, bem como
prestação de serviços à rede de restaurantes,
aos seus parceiros, que demonstram, na
o que se tornou um importante diferencial
prática, que é possível atuar mediante
competitivo para o PSL.
padrões éticos e que beneficiam não só as
empresas envolvidas, mas toda a Portanto, este case de sucesso deve servir de
coletividade. exemplo para que outras ações visando a
sustentabilidade sejam criadas por outros
A iniciativa para a realização de ações
agentes da cadeia de suprimentos.
sustentáveis pode se originar de qualquer

REFERÊNCIAS 2015. Disponível em:


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Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 10


115

Capítulo 11

Aline Cristina de Oliveira Souza


Ana Valeria Vargas Pontes
Juliana Maioli Laval Bernardo
Luciana Novaes Vieira Ferreira

Resumo: As instituições sem fins lucrativos que formam o terceiro setor, vem
sofrendo constantes desafios para se manterem sustentáveis. É preciso fazer mais
com menos. A fim de entender essas questões o objetivo deste estudo consiste em
investigar os principais desafios enfrentados pelo Educandário Carlos Chagas,
instituição do terceiro setor localizada na cidade de Juiz de Fora, MG, que atende
pessoas adultas com deficiência mental e/ou física. Para tanto, foi realizada uma
pesquisa bibliográfica e um estudo de caso de cunho qualitativo com a instituição a
partir de uma entrevista. Após pesquisa, pode-se observar que o maior desafio
enfrentado é a captação de recursos, assim, constatou-se que uma gestão proativa
e dinâmica, o apoio dos setores privado e governamental e o reconhecimento da
sociedade possibilitam a continuação e a sustentabilidade da instituição.

Palavras-chave: Desafios. Terceiro Setor. Captação de recursos.

Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 10


116

1 INTRODUÇÃO É possível verificar alguns conceitos que


foram emergindo de muitas pesquisas,
O cenário do terceiro setor no Brasil sofreu
como Albuquerque (2006) ao definir o
diversas transformações ao longo do
terceiro setor como organizações sem fins
tempo, para que fosse possível
lucrativos e não governamentais, que tem
permanecer em um ambiente hostil e
como objetivo gerar serviços de caráter
competitivo, garantir a continuidade da
público. O termo terceiro setor é de origem
missão institucional das organizações
americana, Third Sector, seu conceito é
sociais, captar recursos, e manter sua
um assunto atual e vem ganhando
autossustentabilidade. A fim de manter
identidade no campo acadêmico. Este
uma gestão organizacional efetiva, o
setor contribui com ações para as
comportamento deste segmento teve que
comunidades menos favorecidas onde o
implantar melhorias, capacitando seus
Estado não conseguiu alcançar, por meio
dirigentes, bem como toda equipe.
de ações solidárias, portanto, possui um
A escolha do tema justifica-se pela papel fundamental na sociedade.
necessidade de reconhecimento das
Esse pensamento é partilhado por Tenório
organizações do terceiro setor, em relação
(2006) ao afirmar que as instituições do
à importância das práticas de gestão que
terceiro setor não fazem parte do Estado e
podem auxiliá-las na administração de
nem a ele estão atreladas, mas se
seus recursos.
mostram de caráter público, porque
Diante desse cenário que apresenta objetivam a satisfação do bem coletivo.
diversas dificuldades para o alcance de Trabalham com causas e problemas
uma gestão eficiente e eficaz, busca-se sociais, que apesar de serem sociedades
responder a seguinte questão de privadas não tem como objetivo fins
investigação: O terceiro setor possui econômicos, e sim o acolhimento das
práticas de gestão para enfrentar as necessidades da população carente.
dificuldades e os desafios do seu cotidiano
Albuquerque (2006) destaca que foi
institucional?
elaborado pela Divisão de Estatísticas da
Este trabalho tem como objetivo investigar Organização das Nações Unidas o Manual
os principais desafios enfrentados pela sobre as instituições sem fins lucrativos no
gestão do Educandário Carlos Chagas, sistema de contas nacionais, que
instituição do terceiro setor localizada na caracteriza as instituições do terceiro setor
cidade de Juiz de Fora, MG que atende com os seguintes critérios e
pessoas adultas com deficiência mental características: deve ser organizado
e/ou física. formalmente, com uma estrutura interna,
nível de formalização de regras e
O artigo está estruturado em cinco seções.
procedimentos, para assegurar a sua
Na seção um é apresentada a introdução.
permanência por um período mínimo de
A seção dois estabelece os conceitos do
tempo.
terceiro setor e a situação do setor no
Brasil. Já a seção três apresenta os Para Tachizawa (2014) a organização
desafios da gestão do terceiro setor. A também deve apresentar uma estrutura
seção quatro aponta os procedimentos básica não governamental, ser privada,
metodológicos e o estudo de caso da realizando sua própria gestão, não sendo
instituição Educandário Carlos Chagas. E controlada externamente. Assim, a
por fim, a seção cinco traz as geração de lucros ou excedentes
considerações finais. financeiros precisa ser reinvestida
integralmente na organização, dessa
forma, as entidades não podem distribuir
2 TERCEIRO SETOR dividendos de lucros aos seus dirigentes e
devem ter um alto grau de participação
De acordo com Costa Júnior (1998), é de
cidadã ou voluntariado.
visível notoriedade que não existe um
consenso quanto ao abarcamento do Diante disso, Melo Neto; Froes (1999)
conceito e às terminologias adotadas para apontam os principais elementos
se mencionar às instituições que formam o definidores do conceito e das
terceiro setor. características do terceiro setor, que tem
seu foco em bem estar público buscando

Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 10


117

um interesse comum. Suas questões 2.1 A SITUAÇÃO DO TERCEIRO SETOR


centrais são a pobreza, exclusão e NO BRASIL
desigualdade social. Seu nível de atuação
Durante as últimas décadas, houve no
é o comunitário e de bases, nas quais suas
Brasil, diversas transformações nas
ações praticadas são de caráter público e
políticas econômicas e sociais. Diante
privado, associativas e voluntaristas e as
disso, Albuquerque (2006) afirma que
entidades que participam são empresas
juntamente com essas alterações políticas,
privadas, Estado, ONGs e sociedade civil.
ocorreram também mudanças no papel
Os autores destacam, também, algumas das ONGs. A partir destas mudanças o
das diversas causas que tem gerado o autor afirma que foram iniciados debates
crescimento do Terceiro Setor no Brasil, sobre assuntos que antes não eram
como o crescimento das necessidades discutidos, e hoje tem uma visibilidade
socioeconômicas, decorrente do maior na mídia, na sociedade e no
crescimento populacional e das governo, como o meio ambiente, gênero e
consequências do capitalismo de raça, sendo fortalecidos pela construção
mercado; tais como do agravamento dos de fóruns globais das Nações Unidas.
problemas sociais e econômicos. Observa-
Segundo Falconer (1999), as organizações
se, então que o Estado não vem sendo
do terceiro setor no Brasil podem ser
capaz de suprir a população com os
descritas como Igrejas e instituições
serviços sociais básicos e ainda, o
religiosas, organizações não-
fracasso de políticas econômicas e sociais
governamentais e movimentos sociais,
responsáveis pelo combate a inflação e o
empreendimentos sem fim lucrativos e
crescimento do emprego, que não vêm
fundações empresariais.
cumprindo o seu papel de assistir, criar
estratégias sociais e planos de ação para Assim, o autor afirma que instituições
a população. ligadas ao protestantismo, espíritas afro-
brasileiras e demais religiões têm tido um
De acordo com Salamon (1998), essas
papel importante para o terceiro setor,
realidades desanimadoras incitaram o
embora sejam em número menor. Costa e
repensar de estratégias para o progresso
Visconti (2001) corroboram ao afirmar que
econômico. E como resultado, tem-se
as Santas Casas são modelos de uma
renovado o interesse no desenvolvimento
praxe clássica, em parcerias com as
participativo, uma forma de auxílio que
irmandades estabeleceram o início dos
destaca o engajamento de energia e a
serviços de assistência social.
criação de organizações não-
governamentais. Podendo ser percebido Os autores citam que no Brasil, o Estado
um crescente consenso a respeito das dava apoio para que a igreja pudesse
limitações do Estado como agente de abarcar a maior parte das instituições que
desenvolvimento e da necessidade da proporcionavam algum tipo de serviço
inclusão das instituições do Terceiro Setor para as comunidades carentes. O Estado
para superar essa deficiência. e a Igreja Católica tiveram um predomínio
no atendimento e assistência social a
Melo Neto; Froes (1999) ainda apontam
população carente no período que
que o aumento da degradação ambiental,
perpassou o Brasil colonial até o início do
seguido do crescente aumento da
século XIX.
violência no país, que ameaça a
segurança da população, diante destes Paralelamente a isso, Falconer (1999)
fatores há uma crescente adesão das aborda que a Igreja Católica teve um
classes alta e média a iniciativas sociais, papel decisivo para a formação não só das
formando assim um interesse solidário. A instituições religiosas, mas também, do
mídia tem noticiado muitas iniciativas deste terceiro setor que a partir do pioneirismo
setor, divulgando ações e pesquisas das Santas Casas criaram-se as primeiras
sociais, com uma maior participação de organizações sem fins lucrativos no Brasil.
empresas que buscam a cidadania
Ivamoto (1998) destaca que a primeira
empresarial. A partir dessas colocações,
Santa Casa de Misericórdia surgiu em
tem-se a necessidade de se conhecer a
Santos, SP, em 1543, que eram mantidas
situação do terceiro setor no Brasil.
por meio de doações de pessoas
abastadas da sociedade.

Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 10


118

De acordo com Del Porto (2006), a partir 3 OS DESAFIOS DA GESTÃO DO


de 1964, com o regime militar no poder, e TERCEIRO SETOR
mais tarde, com a crise no
Diversos autores descrevem os desafios
desenvolvimento econômico nos anos de
da gestão do terceiro setor através das
1980, conhecida como a década perdida,
décadas, dentre eles Sandoval (1988 apud
o aumento da inflação gerando uma má
TENORIO, 2006) aponta que na década de
distribuição de renda, juntamente com os
70 na América Latina as ações eram
problemas daí decorrentes, como a
direcionadas tanto para o desenvolvimento
pobreza e as desigualdades sociais no
comunitário quanto para as atividades no
Brasil foram maximizados e seus
âmbito do consumo, educação e saúde.
resultados tiveram consequências de
longo prazo. Diante disso, Souza (1991) descreve que a
partir da década de 80 surgem novas
Costa e Visconti (2001) apontam que
características no setor como déficit do
nesse cenário, em 1980 a política é
crédito do Banco Mundial no que diz
redemocratizada e surgem movimentos da
respeito aos recursos empregados no
Sociedade Civil, promovida pelo sociólogo
desenvolvimento social, inserção de uma
Hebert de Souza, o Betinho, como o
política neoliberal, aumento da inflação e
Movimento da Ação da Cidadania contra a
decorrente disso, aumento do setor
Fome e a Miséria e pela Vida, com a
informal e intensificação da pobreza.
finalidade de enfrentar as questões
Assim o autor acrescenta que o Banco
resultantes desse contexto. Após a
Mundial descobriu que as ONGs poderiam
redemocratização do Brasil, as
ser um “remédio” para as dificuldades do
organizações da sociedade civil brasileiras
desenvolvimento social, portanto as
iniciaram um processo de articulação, e
instituições do terceiro setor se viram
como resultado aparecem com ações
forçadas a reconsiderar sua missão, ações
voltadas para o Terceiro Setor.
e funcionamento. Pois com o afastamento
Para Falconer (1999), o terceiro setor é do estado na economia e com problemas
composto por ações não-governamentais econômicos e políticos existentes, o
e movimentos sociais, têm sua origem no terceiro setor passa a ser um agente
âmbito popular e social, atuando na defesa fundamental de desenvolvimento
de direitos, mobilização popular e econômico, por isso é necessário se
articulação política disseminados em reinventar.
centros de educação popular e de
Para Armani (2001) as organizações não
promoção social.
governamentais têm sido desafiadas a se
Os empreendimentos sem fins lucrativos manterem sustentáveis num contexto de
também são descritos pelo autor, como crise política, econômica e social. Para o
tendo foco na prestação de serviço que desenvolvimento da missão, visão e
pode ser observada em casos como valores, as entidades precisam contar com
instituições culturais, entidades pessoas, parcerias com empresas,
recreativas, entre outras, levantando a governo, apoio de instituições religiosas e
ideia de uma organização de caráter também, gerar renda própria.
comercial.
Souza (1991) atesta dizendo que na
Por fim, o autor aborda a atuação das década de 90 o terceiro setor teve que
chamadas “cidadania empresarial” ou desempenhar de forma clara suas
“filantropia empresarial”, ou seja, as atividades e seus ideais, demonstrando,
fundações empresariais, que estão ligadas portanto sua participação no âmbito social,
ao terceiro setor, sendo controladas pela dessa forma não determinando suas ações
própria empresa do setor privado, mas não apenas no micro, mas também
que trabalham em ações para benefício da colaborando para uma nova vivência em
população. busca de um macro desenvolvimento.
Na seção seguinte serão abordados os Para Tenório (2006), firmar os ideais das
desafios na sustentabilidade do terceiro instituições sem fins lucrativos se torna um
setor que perpassa por estratégias de desafio, pois nem sempre é visualizada
gestão. com clareza a melhor forma de
estabelecer seus objetivos e metas para

Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 10


119

que sejam analisados os resultados Albuquerque (2006) relata que a captação


obtidos. de recurso do terceiro setor no Brasil nos
anos de 1990 se dava pelo apoio de
O autor aponta que uma das fragilidades
voluntários, dos fundadores, o que tornava
do setor está na equipe, que é formada
muito precário e não conseguia suprir as
por funcionários e voluntários. Pelo fato de
necessidades apresentadas pelas
boa parte das ações serem realizada por
entidades. E como consequência muitas
voluntários, nem todos possuem
instituições foram obrigadas a restringir
competências e habilidades adequadas ao
suas ações por falta de infraestrutura, de
desempenho das funções requeridas.
recursos econômicos financeiros e de
Outra questão apontada por Tenório pessoas para desenvolver as atividades
(2006), é que com a preocupação de planejadas. O autor aponta que mais do
ajudar a comunidade, surge um desgaste, que captar recursos é preciso aperfeiçoar
por causa da disponibilidade de cada os recursos já mobilizados.
voluntário, que acaba por vezes
De acordo com o Grupo de Estudos do
trabalhando em excesso, não podendo
Terceiro Setor
identificar seu retorno. A organização
muitas vezes trabalha sem um Nos últimos anos, vem ganhando força a
planejamento de gestão de pessoas, expressão ‘’mobilização de recursos’’, que
dessa forma não são estabelecidas as tem um sentido mais amplo do que
funções de cada funcionário o que dificulta ‘’captação de recursos’’. ‘’Mobilizar
avaliar o trabalho em longo prazo. recursos não diz respeito apenas
assegurar recursos novos [...], mas
Barbosa (2010) confirma ao narrar sobre
também a otimização [...] dos recursos
as dificuldades na legislação que muitas
existentes [...]; à conquista de novas
vezes não contribui em relação aos
parcerias e à obtenção de fontes
critérios de concessões de recursos no
alternativas de recursos financeiros. É
que tange ao gozo de benefícios fiscais.
importante lembrar que o termo ‘’recursos’’
Camargo (2001) dá prosseguimento ao refere-se a recursos financeiros ou
mostrar por meio de suas pesquisas que ‘’fundos’’ mas também a pessoas (recursos
em uma grande parte das entidades humanos), materiais e serviços (GETS,
pesquisadas (71%), a escassez de 2002, p. 14).
recursos é a principal dificuldade
Pode-se observar com os relatos de
encontrada e logo depois vem seguida do
Falconer (1999), que o contexto do terceiro
baixo investimento do governo (37%).
setor tem passado por transformações.
Diante disso, Tachizawa (2014) contribui Atualmente outro desafio do terceiro setor
afirmando que as organizações do terceiro é garantir uma gestão que tenha eficiência
setor enfrentam na atualidade como um de e eficácia. Num passado recente as
seus maiores desafios a captação e doações eram feitas sem o atrelamento
mobilização de recursos. Assim, as com o resultado alcançado com o
organizações se vêem obrigadas a inovar emprego destes recursos.
as formas de captação de recursos, por
Nanus; Dobbs (2000) apontam que é
conta do aumento do número de entidades
responsabilidade do gestor manter a
no setor e a escassez destes. Para tanto, o
organização eficiente, prestar serviços
autor corrobora apontando que o sucesso
úteis para a comunidade com menor custo
das ações do terceiro setor depende do
e com qualidade possível, sendo essa a
relacionamento com seus doadores e que
principal responsabilidade do gestor para
se o país não está bem economicamente
manter uma organização eficiente. Para
as doações tendem a cair.
isso, os autores afirmam que para alcançar
O autor acredita que deve-se elaborar um o êxito, as organizações do terceiro setor
plano de comunicação adequado no qual precisam de uma boa liderança
seja apresentado aos potenciais doadores juntamente com uma boa administração.
os problemas que a entidade procura Diante disso, os autores confirmam:
solucionar, bem como suas ações para o
Olhe para qualquer organização bem-
enfrentamento dos desafios. É preciso
sucedida e a resposta, na maioria das
compartilhar os objetivos, missão e valores
vezes, será a mesma: a organização não
da instituição com seus parceiros.

Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 10


120

teria atingido o êxito sem uma liderança alcançar o progresso, desenvolvendo o


efetiva, sem o grande viabilizador para aprendizado e o crescimento.
estimulá-la, permitindo-a atingir seu pleno
potencial para fazer uma diferença real em
sua comunidade. (NANUS; DOBBS, 2000, 4 PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS
p.19)
A metodologia segundo as autoras
Contudo os autores argumentam que uma Marconi; Lakatos (2006) é base da
organização do terceiro setor deve avaliar formação do discente atuando não só na
seu sucesso em termos do bem social, e prática, mas também no mundo das ideias,
não somente no cumprimento de suas sendo uma disciplina que introduz
obrigações e lucros. E “cada caso procedimentos sistemáticos e racionais,
apresenta um desafio único e requer afigurando-se como o mais lógico,
tratamento especial” (NANUS; DOBBS, racional, eficiente e eficaz para qualquer
2000, p.26), por se distinguir das outras tomada de decisão. Neste sentido, pode-
organizações e possuírem uma clientela se afirmar que, a metodologia visa
variada com limites imprecisos e responder a questão de investigação e
interesses variados. atingir os objetivos formulados.
Para os autores, as expectativas e Gil (2008) corrobora ao afirmar que o
necessidades da organização do terceiro método científico é formado por uma série
setor ultrapassam muito seu orçamento de procedimentos do intelecto e de
limitado, e as organizações beneficentes técnicas usados para alcançar o
operam naturalmente sob restrições conhecimento. No campo do
financeiras. Por isto, os líderes desse setor conhecimento científico é preciso
devem ser ousados, engenhosos e determinar o método adotado para se
cooperadores, pois as organizações alcançar os objetivos propostos.
beneficentes possuem muitos desafios.
Este estudo contou com uma pesquisa
Assim pode-se observar que: descritiva que segundo Vergara (2007),
expõe os atributos de determinada
Se os problemas de gestão são muitos é
população, amostra ou fenômeno. "Não
porque as dificuldades são grandes. Mas
têm o compromisso de explicar os
não há nada que uma gestão eficiente e
fenômenos que descreve, embora sirva de
eficaz não possa resolver. O que falta às
base para tal explicação". Cita como
empresas é uma pratica gerencial bem
exemplo a pesquisa de opinião
estruturada, inovadora e condizente com
(VERGARA, 2008, p.47). Que ao ver da
as demandas sociais de hoje. (MELO
autora ela se caracteriza também como
NETO; FROES, 2001, p.79)
exploratória concretizada em campo no
Nesta perspectiva, Williams (1990) cita o qual há pouco conhecimento organizado.
Banco Mundial como avaliador do
Este estudo contou com uma pesquisa
desempenho das ONGs. No que tange a
bibliográfica que de acordo com
eficiência destaca elementos relacionados
(SEVERINO, 2000, p.39) “constitui em um
ao processo operacional que podem sofrer
acervo de informações sobre livros, artigos
algumas restrições administrativas como
e demais trabalhos que existem sobre
capacitação de pessoal, desempenho
determinados assuntos”. Essa revisão
gerencial e redução de custos indiretos.
descritiva no segmento do terceiro setor
Tenório (2006) considera que para superar envolveu trabalhos de Albuquerque (2006);
os desafios que ameaçam a existência e Falconer (1999); Nanus; Dobbs (1999);
eficiência da organização devem-se criar Melo Neto; Froes (2001); Tachizawa (2014)
mecanismos que possibilitem melhorar entre outros; com o intuito de compreender
suas ações, objetivos, avaliar sua atuação, o conceito e a importância da gestão do
aumentar sua visibilidade e promover seu terceiro setor e discutir os desafios
produto e serviço. enfrentados pelas organizações sem fins
lucrativos.
Por fim, Nanus; Dobbs (2000) abordam
que uma organização para melhorar o Outro procedimento metodológico adotado
desempenho deve ser estimulada, foi um estudo de caso que segundo
superando os obstáculos a fim de se (PARRA FILHO; SANTOS; 1998; p.102) tem

Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 10


121

por finalidade “observar os fatos tal como nasceram com algum tipo de deficiência
ocorrem”, este realizado em campo, por física ou mental, e as dificuldades para
meio de uma análise qualitativa que de inseri-los na sociedade eram muitas. Já os
acordo com Marconi; Lakatos (2006) tem o sadios, tinham o suporte do Abrigo
intuito de agregar qualidade ao estudo somente até completarem 18 anos, depois
transformando quantidade em qualidade, disso, tinham que deixar a Instituição.
na instituição Eunice Weaver (Educandário
Com a erradicação da doença, a partir de
Carlos Chagas), situada na cidade de Juiz
1970, a instituição passou a receber
de Fora, Minas Gerais. O instrumento de
crianças e/ou adolescentes em situação
pesquisa utilizado foi uma entrevista
de risco social, a maioria vinda de famílias
realizada na entidade no dia 23 de março
sem condições financeiras e psicológicas.
de 2015. Segundo os autores, o uso da
Em 2009 houve uma reestruturação dos
entrevista permite dar mais segurança ao
abrigos, e em Juiz de Fora, optou-se por
entrevistado para expor sua vivência em
atender um perfil determinado, somente
relação ao assunto explorado. Perguntas
pessoas adultas com deficiência mental
foram feitas diretamente à gestora da
e/ou física.
instituição: Elisângela Leite de Souza
Costa, na qual foi relatada suas
experiências e vivências sobre os desafios
4.1.1 MISSÃO, VISÃO E VALORES DA
enfrentados pela gestão do terceiro setor.
INSTITUIÇÃO
Alguns autores citados anteriormente neste
4.1 ESTUDO DE CASO artigo destacam a importância da missão,
visão, valores, a transparência com a
Segundo Elisângela Leite de Souza Costa
prestação de contas e manutenção de
gestora da instituição, a Sociedade de
uma boa estrutura para que seus
Assistência aos Lázaros e Defesa Contra a
funcionários trabalharem de forma correta
Lepra foi constituída em 03 de abril de
para que a organização do terceiro setor
1932, sendo inaugurada oficialmente em
possa assim, estabelecer seus ideais e
04 de abril de 1943, pelo Ministro da
firmar parcerias. A entrevistada comprova
Educação e Saúde Dr. Gustavo
essa ideia e afirma que o uso dessas
Capanema, e neste ano de 2017
práticas é de suma relevância para a
completou 85 anos. O Educandário Carlos
sobrevivência da Instituição tornando
Chagas teve início com o programa de
possível manter o certificado de filantropia
assistência e defesa contra a lepra criado
que é fundamental para o alcance de
pela senhora Eunice Weaver de Juiz de
benefícios. Para tanto o Educandário
Fora. Hoje o grupo Eunice Weaver é
possui como:
composto por vinte e sete sociedades em
todo o país, das quais vinte e três mantém a) Missão - Cuidar e atender pessoas com
educandários e são afiliados à Federação deficiência físicas, mentais e auditivas, na
das Sociedades “Eunice Weaver”, com sua maioria carente e abandonada,
sede na cidade do Rio de Janeiro, que é gerando qualidade de vida, dignidade,
presidida pela senhora Marietta Cavalcanti amor e respeito. Nosso objetivo é reinseri-
de Albuquerque Coutinho. los na vida social e promover seu bem
estar.
A Instituição foi fundada com o intuito de
acolher os filhos de mulheres com b) Visão - Nossa visão reflete a própria
hanseníase (lepra) que não possuíam a Declaração dos Direitos Humanos, em seu
doença. Na época, a lepra era uma artigo 1º “Todos os seres humanos nascem
doença muito grave e contagiosa, e as livres e iguais em dignidade e direitos. São
mães que engravidavam, eram separadas dotados de razão e consciência, devem
de seus bebês quando estes nasciam, agir em relação uns aos outros com
uma vez que, eles não podiam ter contato espírito de fraternidade” O Educandário
com os pais para não contrair a doença. Carlos Chagas não é uma empresa,
Estima-se que nessa época o Educandário portanto não visa lucro, mas visa melhorar
chegou a atender cerca de 600 crianças, a cada dia a qualidade do atendimento
mas, com o tempo e erradicação da dos seus assistidos.
doença, o Abrigo passou a cuidar dessas
pessoas, uma vez que muitos deles

Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 10


122

c) Valores - Valorização e respeito, pois, geriátricas, material de higiene pessoal,


somente através disto estas pessoas material de limpeza e alimentos, insumos
poderão se sentir importantes em todos os indispensáveis para a manutenção da
aspectos. Trabalhamos com a verdade e instituição.
integridade, justiça e igualdade, seriedade
De acordo com a entrevistada, o
e transparência, alegria e amor ao
benchmarking é realizado pela
próximo.
superintendente que participa do Conselho
A fim de fazer um atendimento de de Assistência Social e cuida das relações
qualidade, o Educandário conta com: externas. Nas reuniões do conselho é
cuidadoras, cozinheiras, lavadeiras, propiciado o compartilhar de experiências
profissionais de serviços gerais, pelas associadas, e dessa forma, pode-se
enfermeiras, assistente social, pedagogo, buscar formas de melhorias para os
fonoaudiólogo, professores (cedidos pela processos que são desenvolvidos pelo
Secretaria Municipal de Educação da Educandário.
Prefeitura de Juiz de Fora), bem como
alguns voluntários que são responsáveis
por atividades recreativas e religiosas. 4.1.2 DIFICULDADES E DESAFIOS
ENFRENTADOS PELA INSTITUIÇÃO
A gestora destaca que todos os
funcionários, exceto os voluntários e os Elisângela destaca primeiramente, que um
cedidos pela Secretaria de Educação, são dos maiores desafios do Educandário está
remunerados pelos serviços prestados e na captação e mobilização de recursos
têm todos os direitos trabalhistas financeiros para a manutenção da
garantidos pela a instituição. instituição, o que pode ser observado na
A parte contábil do Educandário Carlos seção 3 “Os desafios da gestão do terceiro
Chagas é realizada pela Tecol, que é uma setor” onde Tachizawa (2014) afirma este
empresa de contabilidade tradicional na fato.
cidade de Juiz de Fora. É esta empresa
A mesma narra que em 2004, a Belgo
que realiza os balancetes, balanços e
Siderurgia S/A, hoje Arcelor Mittal,
envia para a conferência da instituição.
implantou na instituição o programa
Este trabalho de conferência é realizado
“Construindo o Futuro” que consiste em
por um superintendente da instituição. A
proporcionar o primeiro emprego para
instituição tem que prestar contas, através
adolescentes carentes da região e
de relatórios, demonstrativos e
portadores de deficiências que residem no
documentações, aos órgãos competentes.
Educandário.
Em relação ao formato jurídico, apresenta-
Este programa possibilita não só o
se como Associação, possui registros no
desenvolvimento profissionalizante dos
Conselho Nacional e Municipal de
adolescentes, como gera renda para as
Assistência Social, além do Ministério da
suas famílias. Atualmente, esse projeto,
Justiça. Esse registro resultou em
Construindo o Futuro, assiste a 15
certificação, no qual permite que a
adolescentes.
instituição mantenha convênios com outras
entidades. Em 2006 foi firmada também uma parceria
com a Guarda Mirim, e em 2007 com as
Segundo Elisângela, as ações de
Creches Assistenciais de Juiz de Fora. A
marketing desenvolvidas pelo Educandário
instituição atua como administradora
têm como objetivo otimizar as doações. A
indireta, cuidando somente da parte
instituição possui uma central de
trabalhista dos dois projetos, sendo essa
Telemarketing que foi implantada em 2008
mais uma fonte de recurso para o
para ajudar na captação de recursos para
Educandário, recursos estes que são
a entidade. Outro meio de divulgação são
repassados mensalmente pela prestação
as redes sociais, cabe destacar o
de serviços.
facebook, que possibilita uma
aproximação com possíveis doadores. A Em 2009, foi criado o programa “Crescer
panfletagem se caracteriza como um meio com Cidadania” em parceria com Onduline
de divulgar a instituição. Além disso, são do Brasil objetivando o primeiro emprego
realizadas campanhas diversificadas, para adolescentes com idade igual ou
como para arrecadação de fraldas superior a 16 anos. Hoje o projeto conta

Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 10


123

com 10 adolescentes, este funcionava na conseguem suprir os custos, o que pode


sede da Onduline, e a partir de 20 de vir a comprometer a qualidade no
agosto de 2012 passou a funcionar nas atendimento dos assistidos.
dependências da Instituição.
O segundo desafio destacado na
Para participar dos projetos da Arcelor entrevista é o do preconceito histórico
Mittal e Onduline os adolescentes devem vivido pelo abrigo, pelo fato de no passado
estar obrigatoriamente estudando ou ter ter recebido os filhos da lepra, e por hoje
concluído o ensino médio. Os receber pessoas com algum tipo de
adolescentes também se alimentam na deficiência. Isto muitas vezes dificulta a
Instituição que fornece a eles, lanche da aproximação de parte da população, que
manhã/ tarde e almoço. por falta de informações, acaba por fazer
uma imagem do abrigo diferente da
De acordo com visitas domiciliares
realidade.
realizadas pela Assistente Social da
Instituição às famílias, os adolescentes Em terceiro, é pontuado ainda, a falta de
demonstram grande satisfação com os urbanização ao redor da instituição, que
projetos, pois, com o salário recebido acaba isolada, e por isso, sendo de difícil
ajudam na renda familiar. acesso, uma vez que nem mesmo os
ônibus urbanos chegam até o abrigo. Esse
Dos projetos com os adolescentes da
fato também dificulta a aproximação das
Arcelor Mittal e da Onduline, é repassado
pessoas, que poderiam ser simpatizantes
um valor para o Educandário, do qual uma
pela causa e se tornarem doadores.
parte é retirada para atender os direitos
trabalhistas dos adolescentes, e outra Os internos atendidos pelo Educandário
parte fica na Instituição para a manutenção necessitam de tratamentos com um alto
dos gastos, e também, realização de custo de medicamentos e muitos deles
obras, melhorias para melhor usam fraldas geriátricas. Estes insumos
funcionamento da mesma, que preza pela são repassados pelo SUS (Sistema Único
qualidade dos assistidos. de Saúde), no entanto, nem sempre
consegue fornecer o necessário, sendo
Além do repasse financeiro feito pelos
observado como um quarto desafio.
projetos atendidos pela instituição que
funcionam como renda fixa mensal, o E por último, é percebido o quinto desafio
abrigo recebe um repasse municipal que relatado pela entrevistada, a evasão dos
complementa a renda. A captação de voluntários. Ela destaca que ao firmar
recurso também vem de doações de compromissos com a organização, muitas
pessoas físicas. vezes não são capacitados para tal
atividade, não se identificam com a causa,
Elisângela, a respondente, destaca que a
ou encontram dificuldades de lidar com
falta de quaisquer desses recursos abala a
pessoas portadoras de necessidades
situação financeira da Instituição, pois é
especiais. Estes colaboradores nem
por meio deles que os compromissos
sempre dispõem de tempo regular para
assumidos são honrados, e que mesmo
dar continuidade à ação de voluntariado e
com esses repasses financeiros a
acabam por interromper as atividades.
organização enfrenta dificuldades.
Este viés é abordado na revisão da
A entrevistada acredita que o papel de literatura por Tenório (2006) ao afirmar a
uma gestão eficiente é necessário no dificuldade de um planejamento de gestão
enfrentamento da captação e manutenção de pessoas, tendo em vista o que aqui foi
de recursos, que requer procedimentos de pontuado.
transparência e de um bom
A partir das vivências e experiências sobre
relacionamento com parceiros, o que é
os desafios e dificuldades relatados pela a
citado também na seção três desse artigo
entrevistada no decorrer do estudo de
por diversos autores, dentre eles, destaca-
caso, mostra-se, também, as práticas de
se Nanus; Dobbs (2000).
gestão que a entidade utilizou para o
Hoje o Educandário Carlos Chagas abriga enfrentamento das mesmas. Ficando claro,
30 pessoas com variados tipos de que essas ferramentas administrativas
deficiência, sendo que os recursos auxiliaram a entidade a se manter no
financeiros arrecadados, nem sempre, mercado ao longo do tempo, a despeito de

Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 10


124

todas as dificuldades e desafios passados impactar positivamente no terceiro setor.


pela instituição. Como pode ser observado no estudo de
caso, sobre as ações das empresas
Arcelor Mittal e Onduline, nas quais
5 CONSIDERAÇÕES FINAIS trouxeram benefícios para o Educandário.
Este estudo teve como objetivo investigar Portanto, as parcerias sejam elas com o
os principais desafios enfrentados pelo governo, empresas ou sociedade são
Educandário Carlos Chagas, instituição do fundamentais para a continuidade e
terceiro setor localizada na cidade de Juiz sustentabilidade do terceiro setor.
de Fora, MG que atende pessoas adultas Parcerias que sejam consolidadas na
com deficiência mental e/ou física. missão, visão e valores dessas entidades
do terceiro setor.
Diante de todas as informações
pesquisadas pode-se observar que a Cabe ressaltar que a pesquisa identificou
maior dificuldade enfrentada pela que para uma gestão capacitada, proativa
instituição é a captação de recursos, ponto e dinâmica deve-se gerenciar a
que é discutido por diversos autores ao organização de maneira a adaptar-se às
decorrer do estudo. A arrecadação diversas mudanças e desafios no contexto
financeira é necessária para a manutenção social. A direção do Educandário Carlos
da organização sem fins lucrativos e se Chagas, que tem importância histórica e
torna muitas vezes um impedimento para social para a comunidade juizforana, tem
dar continuidade a um trabalho de realizado uma gestão eficaz e que tem
qualidade. demonstrado a preocupação com o bem
estar da sociedade. A mesma busca
Observou-se que em muitas instituições do
cumprir seus deveres com
terceiro setor o produto, ou serviço
responsabilidade priorizando sempre o
oferecido não é comercializado, e sua
bem estar de seus internos. Mesmo com
fonte de recursos depende de doações e
todas as dificuldades cotidianas, o
parceiras.
Educandário segue contornando os
Pode-se notar, também, que o atraso das desafios, demonstrando ser uma
instituições muitas vezes impacta organização sólida. Desafios estes, que
fortemente nas questões financeiras seriam mais facilmente resolvidos, se a
dessas entidades, quando as mesmas não instituição fosse melhor atendida pelos
cumprem com seus deveres. órgãos públicos e privados e maior
reconhecimento da sociedade.
Já quando se fala do setor privado,
segundo setor, as ações de
responsabilidade social praticadas podem

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Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 10


126

Capítulo 12

Lucas Pereira de Almeida


Lunara de Andrade Silva
Ana Paula da Silva Souza Costa
Juliana Gonçalves Fernandes

Resumo: Atualmente há uma grande preocupação em relação à água e sua


utilização. Com isso, órgãos públicos de cunho municipal, muitas vezes com o
auxílio de empresas privadas, passaram a controlar melhor a coleta,
distribuição, uso e devolução da água ao seu ciclo natural, visando sempre a
sustentabilidade do sistema hídrico e a saúde da população. Contudo,
infelizmente nem todas as cidades tratam do assunto com a mesma
seriedade, realizando atividades que prejudicam fortemente o ciclo da água e
consequentemente a população, elevando despesas com a área da saúde.
Os municípios, titulares dos serviços de saneamento, ou as concessionárias
dos serviços, anualmente enviam informações do sistema ao SNIS (Sistema
Nacional de Informações sobre Saneamento), sendo este o banco de dados
oficial sobre os serviços de saneamento no Brasil. Dessa forma, com o
interesse de levar a população às informações da situação do saneamento na
região do Médio Paraíba do Sul, este trabalho aplica a metodologia do
Instituto Trata Brasil (Trata Brasil, 2016) para levantar dados sobre
saneamento em um Ranking.

Palavras-chave: Ranking. Esgotamento sanitário. Abastecimento de água.

Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 10


127

1. INTRODUÇÃO anualmente e dispostas ao público de


forma gratuita, foram utilizadas para as
O SNIS é a base de dados sobre
análises.
saneamento mais completa do Brasil, por
isso, suas informações, que são coletadas O resumo dos indicadores divulgados pelo
diretamente com cada prestador de SNIS, bem como sua breve explicação,
serviço estadual, regional e municipal pode ser visto no Quadro 1.

Quadro 1 – Resumo dos Indicadores

Fonte: Instituto Trata Brasil. São Paulo, 2016

Os indicadores retirados do SNIS, Estas são fases vitais para a manutenção


apresentados no Quadro 1, são os do ciclo das águas e que por muitas vezes
utilizados como base de cálculos para que são deixadas de lado pelo poder público,
um município seja ranqueado em relação afetando diretamente no bem-estar da
aos outros. Portanto, cada indicador população. Portanto, quando este
possui um peso específico e de acordo parâmetro é superado, é merecido o
com a capacidade do município em reconhecimento frente a nota dada ao
executá-lo, sua nota no Ranking é alterada. município.
Por exemplo, os indicadores de Coleta e
Tratamento de Esgoto, juntos somam 50%
da nota de um município. Caso um 2. METODOLOGIA
município possua eficientes coleta e
A metodologia aplicada para obtenção dos
tratamento, sua nota será
dados e realização do Ranking do
consideravelmente elevada, do contrário
Saneamento da região do Médio Paraíba
sua nota cairá.
do Sul é a mesma aplicada pelo Instituto
A título de curiosidade, os índices de Trata Brasil, que ranqueia todo ano as
Coleta e Tratamento possuem um valor tão mudanças no cenário do saneamento nos
elevado para a base de cálculo devido ao 100 maiores municípios do Brasil.
desafio da universalização do serviço de
esgoto presente no Brasil atualmente.

Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 10


128

2.1 MUNICÍPIOS CONSIDERADOS PARA Pinheiral, Valença, Rio das Flores e


O ESTUDO Comendador Levy Gasparian, e ainda, os
municípios de Rio Claro, Piraí, Barra do
Para este Ranking, foram considerados os
Piraí, Vassouras, Miguel Pereira, Paty do
municípios que estão inseridos na Região
Alferes, Paraíba do Sul, Três Rios e
Hidrográfica III, chamada de Médio
Mendes, inseridos parcialmente
Paraíba do Sul, localizada ao sul do estado
(Resolução nº 107/2013 do Conselho
do Rio de Janeiro.
Estadual de Recursos Hídricos do Estado
Nela estão contidos integralmente os do Rio de Janeiro – CERHI/RJ), como pode
municípios de Itatiaia, Resende, Porto ser visualizado na Figura 1.
Real, Quatis, Barra Mansa, Volta Redonda,

Figura 1 – Região Hidrográfica III – Médio Paraíba do Sul

Fonte: AGEVAP – Agência da Bacia do Rio Paraíba do Sul


A Região possui em sua hidrografia, além Paraíba do Sul, apenas dois não
do próprio rio Paraíba do Sul, outros rios continham informações na base de dados
de domínio federal, como o Preto e o do SNIS, estes são Piraí e Rio Claro,
Bananal, e de domínio estadual, como o ambos com menos de 20.000 habitantes.
Pirapetinga, o Turvo, o das Flores e o Ubá. Além disso, também é importante reforçar
que os dados presentes na base de dados
são auto declaratórios, ou seja, ficam a
3. RESULTADOS: O RANKING DO cargo da própria instituição de
SANEAMENTO saneamento declarar seus dados e zelar
por sua legitimidade.
Esta seção apresenta os resultados
obtidos com o Ranking do Saneamento da
região do Médio Paraíba do Sul. Serão
3.1 RANKING DO SANEAMENTO 2016
também apresentadas análises dos três
melhores e piores municípios, uma síntese O Quadro 2 apresenta o Ranking do
dos resultados obtidos e por fim, alguns Saneamento 2016 da Região Hidrográfica
dados que merecem destaque. III.
É importante ressaltar que dos 19
municípios contidos na região do Médio

Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 10


129

Quadro 2 – Ranking do Saneamento do Médio Paraíba do Sul

Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 10


130

3.2 OS 3 MELHORES E OS 3 PIORES da nota total do Ranking e são os mais


utilizados pelo setor para avaliar a qualidade
Para avaliação dos 3 melhores e dos 3 piores
do saneamento em determinado município.
colocados no Ranking do Saneamento 2016,
serão analisados mais detalhadamente os O Quadro 3 mostra os três melhores e os três
indicadores de água, coleta, tratamento e piores colocados no Ranking do Saneamento
perdas. Estes indicadores representam 70% RH III – Médio Paraíba do Sul 2016.

Quadro 3 – Melhores e Piores Colocados no Ranking do Saneamento 2016

Atendimento urbano de

Investimento/arrecadaç
atendimento urbano de

faturamento - 2015 (%)

distribuição - 2015 (%)


Atendimento de água

atendimento total de

Indicador perdas no

Indicador perdas na
Indicador de esgoto

Nota total (máx. 10)


tratado por água
consumida (%)
Ranking 2016

Indicador de

Indicador de

Indicador de

Indicador de

Indicador de
esgoto (%)

esgoto (%)
Município

água (%)

ão (%)
(%)
UF

Três Rios RJ 1 99,98 97,69 99,04 97,69 10 0,19 0,3 0,28 8


Resende RJ 2 95,55 100 95,34 100 9,55 1,56 0,48 0,51 6,9
Volta
RJ 3 99,95 100 98,96 99 9,69 0,39 0,28 0,36 6,8
Redonda
Indicador
98,5 99,23 97,78 98,9 9,74 0,71 0,35 0,38
Médio
Paty do
RJ 15 0 0 65,11 25,38 0 0,2 0,81 0,81 2,7
Alferes
Paraíba
RJ 16 86,06 96,15 0 0 0 0 0 0 2,4
do Sul
Mendes RJ 17 21,45 21,73 0 0 0 0 0 0 2,4
Indicador
35,84 39,3 21,7 8,46 0 0,06 0,27 0,27
Médio

3.2.1 ANÁLISE DOS MELHORES Para comparação, de acordo com o SNIS


COLOCADOS 2015, a média nacional para o indicador de
atendimento de água é de 83,3%. Portanto,
Quando se trata do indicador total de água,
percebe-se que os municípios estão acima do
constata-se que os três melhores municípios,
padrão nacional para este quesito.
que são Três Rios, Resende e Volta Redonda,
possuem porcentagens maiores que 95% de Já para o indicador urbano de água, os
atendimento de água. mesmos três municípios aparecem acima de
95% de atendimento. Contudo, Resende e
Isto significa que mais de 95% da população
Volta Redonda apresentam o serviço já
total dos municípios, que somam 455.004
universalizado, ou seja, com atendimento
habitantes aproximadamente (IBGE, 2010),
urbano total de 100%.
quase 50% da população total da região, são
atendidos por abastecimento de água Quanto ao indicador de atendimento de
potável, seguindo regulamentação da Portaria esgoto total, os três melhores municípios
do Ministério da Saúde nº 2914. reportaram indicadores de coleta superiores a
95%. Dentre os três, destacam-se os
Pode-se observar também que o indicador
municípios de Três Rios e Volta Redonda, que
médio de atendimento de água é 98,50%, de
sob gestão pública de saneamento e diante
modo que tais municípios se mostram na
de tantos problemas e entraves políticos
dianteira da universalização deste serviço na
mostram-se engajados com a causa.
região RH III – Médio Paraíba do Sul.
Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 10
131

De modo comparativo, as cidades em Já para o atendimento urbano de água,


destaque estão superiores à média nacional apenas um município apresenta um
neste quesito, que segundo o SNIS 2015, é atendimento satisfatório, atendendo mais que
de 50,3%. 95% da população (Paraíba do Sul – 96,15%).
Por sua vez, para o indicador de atendimento Quando se trata da coleta total de esgoto e
urbano de esgoto, os municípios do indicador de tratamento, dados alarmantes
apresentaram índices também acima de 95%. surgem quando se tratam das cidades menos
O indicador médio foi de 98,9%, bem acima pontuadas no Ranking. Dois dos municípios
da média nacional que segundo o SNIS 2015 (Paraíba do Sul e Mendes) não declararam
é de 58%. possuir algum tipo de tratamento de efluentes
ou até mesmo algum tipo de coleta.
Com relação ao indicador de tratamento, a
situação dos municípios não é tão boa De maneira semelhante, os indicadores de
quando comparada as dos indicadores de atendimento urbano de esgotos também são
abastecimento de água e coleta de esgoto. O baixos. O indicador médio é de 8,46%, bem
indicador médio é de 9,74%, bem abaixo da inferior à média nacional divulgada pelo SNIS
média nacional reportada pelo SNIS 2015 de 2015 de 58%.
42,7%.
No que diz respeito ao indicador de perdas
No que diz respeito ao indicador de perdas de faturamento e de distribuição, todos os
de faturamento e de distribuição, todos os municípios possuem perdas menores que
municípios possuem perdas menores que 15%, o que é considerado adequado.
15%, o que é considerado adequado.

3.2.3 ANÁLISES COMPLEMENTARES


3.2.2 ANÁLISE DOS PIORES COLOCADOS
Alguns pontos da pesquisa merecem ser
Com relação ao atendimento total de água tratados com maior abrangência,
dos três piores municípios, apenas Paraíba do considerando toda a amostragem de
Sul está acima dos 80% de atendimento, os municípios para uma melhor visualização da
outros possuem menos que 25% para o situação atual do saneamento. Por isso, a
indicador, sendo que um deles (Paty do seguir serão apresentados gráficos e suas
Alferes) não apresenta nenhum sistema de respectivas análises.
abastecimento de água.
O indicador médio é de 35,84%, valor bem
a) Atendimento total de água:
abaixo da média nacional, que segundo o
SNIS 2015, é de 83,3%. Este valor mostra No Quadro 4, está representado o histograma
uma deficiência nesses municípios quanto ao para o índice de atendimento total de água.
quesito abastecimento de água total.

Quadro 4 – Histograma de Atendimento Total de Água

Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 10


132

Apresentado dessa forma, é possível


visualizar o contexto geral da situação do
b) Atendimento total de esgoto:
abastecimento total de água nos municípios
da região. Abaixo, no Quadro 5, está representado o
histograma para o índice de total de coleta de
A maioria (10) dos municípios possuem acima
esgoto.
de 80% de atendimento para o serviço,
mostrando uma boa tendência para a sua
universalização.

Quadro 5 – Histograma de Coleta Total de Esgoto

Tratando-se de esgoto, a região também se contaminação do solo, atingindo diretamente


encontra, no geral, em situação satisfatória. a população, provocando doenças como a
A grande maioria dos municípios (10) diarreia infecciosa, elevando custos para a
apresentam mais de 80% de atendimento manutenção da saúde no município e
para este serviço, o que é considerado bom, diminuindo a qualidade de vida da
pois se o esgoto está sendo coletado, a população.
possibilidade de ele estar sendo tratado e
retornado em boas condições para o sistema
hídrico é grande. Apesar disso, ainda existem c) Tratamento de esgoto:
municípios que estão bem longe da
Abaixo, no Quadro 6, está representado o
universalização do serviço.
histograma para o índice de tratamento de
Este tipo de descaso gera a poluição dos esgoto.
corpos hídricos, eutrofização da água e

Quadro 6 – Histograma do Tratamento de Esgoto

O tratamento dos efluentes ainda é uma para atingir níveis aceitáveis. Todos os
situação que precisa ser muito trabalhada municípios da região apresentaram índices de
Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 10
133

tratamento menores que 20%, esse valor d) Investimentos e arrecadação:


pode ser dado pela real falta de preocupação
Abaixo, no Quadro 7, está representado o
com o esgotamento sanitário, ou ainda com
histograma para o índice de investimentos no
uma provável coleta sem correta destinação.
sistema de saneamento sobre a arrecadação
do município.

Quadro 7 – Histograma do Investimento/Arrecadação

Este quesito mede a quantidade de preenchimento dos formulários do SNIS por


investimento realizado no sistema de parte das prestadoras de serviços.
esgotamento sanitário e abastecimento de
água quando comparado a arrecadação do
município. 4. CONCLUSÃO
No histograma podemos visualizar que todos A partir de dados como estes, diversos
os municípios estão investindo menos de 20% estudos realizados pelo Instituto Trata Brasil,
de suas arrecadações em seus sistemas de em associação com outras fundações de
saneamento. fomento à pesquisa, comprovam que no País
a universalização do saneamento básico é
uma meta que será dificilmente alcançada,
e) Novas ligações de água e esgoto/ ligações graças a falta de priorização dos gestores no
faltantes: cumprimento das metas estabelecidas.
Este indicador mede a variação no número de Para atingir a universalização do saneamento,
novas ligações de esgoto e de água, ou seja, prover água potável encanada e
divididos pelos totais de ligações que ligação a rede de esgoto em todos os
deveriam ser feitas para universalizar o domicílios brasileiros, o País precisaria mais
serviço. do que dobrar os investimentos na área,
necessitando de comprometimento total do
O ideal seria que os municípios aumentassem
governo por um longo período de tempo.
certa porcentagem de sua quantidade de
ligações de água e esgoto, demonstrando Como reflexo, a situação na Região do Médio
bom uso das arrecadações municipais na Paraíba do Sul, que tem passado por
área de saneamento e comprometimento com melhoras significativas ao longo dos anos,
a universalização dos serviços. ainda é precária. O resultado, como mostrado
nas pesquisas, não atende ainda a um
Contudo, todos os municípios apresentaram
padrão nem próximo ao da universalização
uma redução em seu número de ligações,
dos serviços, principalmente quando se trata
tanto de água quanto de esgotamento
do esgotamento sanitário.
sanitário.
Como dito, os problemas persistem por que
As possíveis explicações para esse fato são
os investimentos continuam baixos, e o
possíveis problemas de correção de
comprometimento das políticas nacionais em
cadastro, corte de ligações inadimplentes, ou
os aumentar ainda não é, de fato, uma
eventualmente até um problema no
Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 10
134

prioridade. Cabendo então a sociedade civil cobrando e acompanhando de perto os


exercer a sua cidadania, informando-se, investimentos em saneamento.

REFERÊNCIAS ng/2016/relatorio-completo.pdf>. Acesso em:


março 2017.
[1] Ministério das Cidades. Diagnóstico dos [3] Comitê Médio Paraíba do Sul. Disponível
serviços de água e esgotos – 2015. Sistema em: < http://www.cbhmedioparaiba.org.br >.
Nacional de Informações sobre Saneamento 2014. Acesso em: março 2017.
Disponível em: <http:/www.snis.gov.br>. Acesso [4] Instituto Brasileiro de Geografia e
em: março 2017. Estatística. Disponível em: < http://www.ibge.gov.br
[2] Instituto Trata Brasil. Relatório Completo >. Acesso em: março 2017.
do Ranking do Saneamento nas 100 Maiores [5] Agevap. Disponível em: <
Cidades do Brasil. Disponível em: < http://www.agevap.org.br >. Acesso em: março
http://www.tratabrasil.org.br/datafiles/estudos/ranki 2017.

Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 10


135

Capítulo 13

Henrique Martins Galvão


Camila de Paula Conrado Rosa
Juliana Vieira Braz
Thais Eugênio de Moraes
Paládia de Oliveira Romeiro da Silva

Resumo: O presente estudo aborda questões referentes à logística reversa de


lâmpadas fluorescentes e seus principais desafios e dificuldade. A motivação do
estudo foi diagnosticar a eficácia da logística reversa na cadeia de lâmpadas
fluorescentes com base na Política Nacional de Resíduos Sólidos - PNRS e
legislações pertinentes ao tema. A metodologia aplicada foi a pesquisa de campo,
de caráter exploratório quantitativo, tendo como população de estudo os agentes
de cada fase da cadeia de lâmpadas fluorescentes, a saber: fornecedores;
revendedores; consumidores e recicladoras. Para a coleta de dados foram
utilizados questionários com perguntas fechadas de múltipla escolha direcionadas
a cada agente da referida cadeia. Com os resultados obtidos concluiu-se que a
legislação referente ao pós-consumo das lâmpadas fluorescentes encontra-se
distanciada da efetividade do seu cumprimento por parte dos integrantes que
compõem a cadeia da logística reversa. Sendo constatado que o seu processo de
gerenciamento tem sido ineficaz do início ao fim, principalmente devido à falta de
informações compartilhadas entre os elos da cadeia e da insuficiência da
fiscalização.

Palavras-chave: Resíduos; Lâmpadas fluorescentes; PNRS; Logística reversa.

Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 10


136

1 INTRODUÇÃO que necessitam passar por processo de


descontaminação e por isso precisam dispor
Ao longo dos anos a sociedade reconhece
de infraestrutura adequada de coleta seletiva
que os grandes avanços científicos e
e de reciclagem, que incluem também
tecnológicos impulsionaram o progresso
tecnologias apropriadas e serviços
econômico e elevaram padrões de bem-estar
especializados para manuseio, transporte,
social, tornam a vida melhor e mais
separação e descontaminação. No caso das
confortável. Também se reconhece a
lâmpadas fluorescentes, o Brasil adotou
insuficiência do progresso econômico para
iniciativas de intenso estímulo em substituição
gerar bem-estar social para grande parte da
às lâmpadas incandescentes, pois são mais
população mundial. Visto de outro modo, os
econômicas, duráveis e oferecem
benefícios desse progresso geram novos
luminosidade superior, inclusive levando à
comportamentos com mudanças de hábitos
proibição do comércio das lâmpadas
da sociedade; desperta desejos e cria novas
incandescentes no ano de 2016 (INMETRO,
necessidades (CAPRA, 2002; MARCOVITCH,
2016). O uso das lâmpadas fluorescentes
2011).
(compactas, tubulares ou circulares) está em
Mas essa perspectiva é acompanhada pelo ascensão e estima-se que anualmente seu
excesso da extração de recursos naturais consumo cresce de 12 a 14%. Em 2013
para suprir a fabricação em larga escala e estimou-se o consumo de cerca de 350
consumo de produtos em massa. Esses milhões de unidades e em 2014 foram
fatores criam externalidades ambientais consumidas mais de 250 milhões somente
negativas com efeitos sociais e econômicos das lâmpadas fluorescentes compactas.
significativos, principalmente quando se trata (GRANT THORNTON, 2011; ABILUX, 2015).
dos elevados níveis de descarte de resíduos Mas, as lâmpadas fluorescentes possuem
pós-consumo. Em face à grande quantidade mercúrio na sua composição com teor
de resíduos urbanos, também os industriais, a elevado, sendo altamente tóxico e
destinação adequada tem sido uma das bioacumulativo nos seres vivos. Exigem
maiores preocupações da sociedade cuidados especiais no seu manuseio,
contemporânea. Com isso, nos últimos anos transporte e armazenagem, evitando quebrá-
os governos, em especial na esfera federal, las ou danificá-las e por isso precisam ser
têm se empenhado na elaboração de políticas adequadamente segregadas e a coleta deve
para regulamentação das atividades de ser feita com segurança para ser tratada e
diversos setores, visando o controle da descontaminada por empresa credenciada.
poluição e o estímulo a ações mais
Neste contexto, insere-se a Política Nacional
sustentáveis. Atenta-se ao fato que o descarte
de Resíduos Sólidos – PNRS, Lei n°
dos produtos pós-consumo requer cuidados
12.305/2010, fixando diretrizes e interações
especiais em razão de elementos nocivos nos
entre os diversos atores, públicos e privados,
produtos e quando descartados
acerca dos resíduos pós-consumo. A PNRS
inadequadamente se tornam potencialmente
coloca a logística reversa como a principal
danosos ao meio ambiente e à saúde
ferramenta prevista em lei para que empresas
humana.
contribuam com a responsabilidade
À vista disto, a coleta do lixo comum tem sido compartilhada do retorno dos produtos após
a maneira adotada pelos governos municipais o uso pelo consumidor e independente do
para destinação final dos resíduos. O grande serviço público de coleta. Também é
volume de resíduos e sua destinação eficaz necessário que as empresas estendam
se transformaram num dilema para a gestão iniciativas para além das suas fronteiras
pública, uma vez que são frequentemente organizacionais.
descartados e acumulados em aterros
Diante do exposto, esse estudo trata
controlados ou em lixões a céu aberto, na
especificamente das lâmpadas fluorescentes,
maioria dos municípios brasileiros. Nesse
que devido ao elevado risco inerente aos
caso, as atividades de reciclagem do lixo e
resíduos perigosos há necessidade da coleta
reaproveitamento de materiais pós-consumo
e reciclagem diferenciada de outros produtos
surgem como alternativas econômicas
mencionados na PNRS. Torna-se relevante
vantajosas e vistas como maneira de
difundir o conhecimento e a consciência da
mitigação ou eliminação dos riscos de
segurança ambiental e de saúde, uma vez
contaminação. Entretanto, existem produtos,
que as lâmpadas fluorescentes representam
como no caso das lâmpadas fluorescentes,
sérios riscos quando manuseadas e
Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 10
137

descartadas de maneira incorreta. A principal Normas Técnicas – ABNT (2004), os resíduos


questão de estudo consiste em diagnosticar sólidos, podem ser classificados como
como a logística reversa de lâmpadas perigosos e não perigosos. Os resíduos
fluorescentes está organizada de maneira perigosos são aqueles que possuem
eficaz. Nesse sentido, a pesquisa busca propriedades físicas, químicas e
evidenciar as lacunas existentes para a infectocontagiosas que representam riscos à
eficácia da logística reversa. Além disso, o saúde pública e ao meio ambiente, por meio
objetivo central de estudo visa verificar os de caraterísticas como inflamabilidade,
principais desafios e dificuldades acerca do corrosividade, reatividade, toxicidade e
processo logístico reverso dos envolvidos na patogenicidade (ABNT, 2004). Já os resíduos
cadeia de lâmpadas fluorescentes. não perigosos são os que não possuem
nenhum de seus componentes solubilizados a
concentrações superiores aos padrões de
2. REVISÃO DA LITERATURA potabilidade de água, ou que apresentam
características como biodegradabilidade,
2.1 GERAÇÃO DE RESÍDUOS E REGULAÇÃO
combustibilidade ou solubilidade em água
AMBIENTAL
(ABNT, 2004).
O aumento do consumo, a menor
Nesse sentido, a Associação Brasileira de
durabilidade dos produtos e a rápida
Empresas de Limpeza Pública e Resíduos
obsolescência tornaram-se frequentes, fatores
Especiais – ABRELPE (2015) aponta que em
estes que geram intenso descarte de
2014 foram gerados no Brasil cerca de 78,6
produtos pós-consumo e acúmulo de
milhões de toneladas de resíduos sólidos,
resíduos no meio ambiente (TROMBETA e
representando um aumento de 2,9% em
LEAL, 2014). Reconhece-se que os impactos
relação ao ano anterior. A destinação final dos
ambientais tem se agravado pelo consumo
resíduos se revela preocupante. Com base
exacerbado e intensa geração de resíduos,
nos dados da Pesquisa Nacional de
causando sérios problemas à biodiversidade
Saneamento Básico – PNSB (IBGE, 2015), no
e à saúde humana. Com base no Conselho
ano de 2008 a destinação final dos resíduos
Nacional do Meio Ambiente – Conama (1986)
era feita de forma inadequada em 50,8% dos
em seu Art. 1º., Resolução no. 1, os impactos
municípios brasileiros. No ano de 2014, a
ambientais são definidos como qualquer
ABRELPE (2015) verificou melhora da
forma de modificação das propriedades
situação, mas o percentual se manteve
físicas, químicas e biológicas do meio
elevado com 41,6% dos resíduos sólidos
ambiente oriundas das atividades humanas
urbanos nos municípios destinados para
que de alguma maneira afetam e colocam em
lixões ou aterros controlados.
risco seres humanos, atividades sociais e
econômicas, assim como possam prejudicar Para enfrentar os problemas dos resíduos
de qualquer modo o ambiente natural. Os pós-consumo, os governos têm atuando na
impactos ambientais causados pelo descarte formulação de políticas públicas. No caso
das toneladas de resíduos sólidos estão brasileiro, tem-se a aprovação da Política
presentes em maior escala nas proximidades Nacional de Resíduos Sólidos – PNRS,
de áreas urbanas, acentuando as sancionada e regulamentada em 2010. Trata-
dificuldades ambientais já existentes e se de um marco regulatório que reúne o
contribuindo para o surgimento de outras conjunto de diretrizes e ações com vistas a
(LEITE, 2011; TROMBETA e LEAL, 2014). induzir práticas de gestão visando à
adequação da destinação dos resíduos
Existe grande diversidade de resíduos que se
sólidos, bem como prevenir e controlar a
encontram nos estados sólido e semissólido,
poluição, proteger e recuperar a qualidade
que resultam de atividades de origem
ambiental e mitigar ou eliminar os riscos à
industrial, doméstica, hospitalar, comercial,
saúde pública (MANSOR, 2010; IPEA, 2012).
agrícola, de serviços de limpeza pública e de
Observa-se que as legislações e
rua (ABNT, 2004). Os resíduos sólidos são
regulamentações ambientais são instrumentos
materiais indesejáveis, que podem ser
adotados que encorajam as empresas
gerados por diferentes tipos de atividades e
adequarem as suas práticas de gestão de
locais, e que se descartados de maneira
modo a assegurar a internalização dos
inadequada, podem causar uma série de
impactos ambientais em longo prazo.
riscos à saúde pública e ao meio ambiente.
De acordo com Associação Brasileira de

Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 10


138

Diante disso, a PNRS estabelece a coleta, objetivos propostos pela PNRS (SINIR, 2015).
reciclagem, reutilização e destinação A logística reversa, no que se refere aos
adequadas e viabilizadas por meio da produtos de pós-consumo, é um dos
logística reversa, incluindo os resíduos de principais instrumentos viabilizadores da
lâmpadas fluorescentes. PNRS, uma vez que visa a destinação
adequada desses resíduos (BRASIL, 2010).
Conforme Leite (2011), a logística reversa é
2.2 LOGÍSTICA REVERSA E
uma subárea da logística empresarial,
RESPONSABILIDADES COMPARTILHADAS
constituída pelo processo de planejamento,
A PNRS institui a responsabilidade implementação e controle de procedimentos,
compartilhada pelo ciclo de vida do produto, serviços e informações relacionados à
isto é, obrigam os fabricantes, importadores, movimentação de materiais, mas com ênfase
distribuidores e vendedores a tomarem ações no fluxo reverso, ou seja, refere aos esforços
que minimizem o volume de resíduos sólidos desenvolvidos para que materiais voltem à
e, assim, igualmente seus impactos à saúde e sua origem. Em um sistema de logística
ao meio ambiente (BRASIL, 2010). O reversa, os bens de pós-vendas são aqueles
descumprimento das obrigações previstas na que retornam à sua origem com pouca ou
PNRS pode acarretar aos infratores, reclusão nenhuma utilização, devido a defeitos, não
de até cinco anos e multa (BRASIL, 2010). Os conformidades, erros de emissão de pedido,
resíduos compreendidos pela PNRS são os entre outros (PEREIRA, 2012). Já os bens de
agrotóxicos, seus resíduos e embalagens, pós-consumo, são aqueles que retornam à
lâmpadas fluorescentes de vapor de sódio e sua origem após a utilização do consumidor,
mercúrio de luz mista, pilhas e baterias, ou seja, tendo expirado seu período de vida
pneus, óleos lubrificantes, seus resíduos e útil (FONTANA e AGUIAR, 2013). Os bens de
embalagens, produtos eletrônicos e seus pós-consumo, de acordo com Leite (2011),
componentes (BRASIL, 2010). A PNRS seguem um dos seguintes fluxos: a) Reuso - o
também prevê os intitulados acordos setoriais produto usado ainda apresenta condições de
que caracterizam atos de natureza contratual utilização, ou seja, não atingiu o fim de seu
firmados entre o poder público e fabricantes, ciclo de vida útil e destinado, dessa forma, ao
importadores, distribuidores e vendedores de comércio de segunda mão; b) Remanufatura -
produtos, com o objetivo de implantar a o produto pode ser reaproveitado mediante
responsabilidade compartilhada sobre o ciclo substituição de alguns de seus componentes,
de vida do produto, responsabilidade firmada e; c) Reciclagem – materiais extraídos a partir
por meio de um sistema de logística reversa dos produtos e transformados em matérias
(BRASIL, 2010). prima secundária ou recicladas, destinadas à
fabricação de novos produtos.
De acordo com o Sistema Nacional de
Informações Sobre a Gestão dos Resíduos Se o produto não se enquadrar em nenhum
Sólidos - SINIR, atualmente todos os setores desses grupos, o mesmo segue para a
de produtos compreendidos pela PNRS disposição final, que é o último estágio para o
possuem regulamentos específicos que qual vão os produtos, materiais ou resíduos
regem seu processo de logística reversa e em que não possuem condições de revalorização
alguns casos, estes processos já estão em (LEITE, 2011). No caso da disposição final de
plena execução, como por exemplo, nos resíduos, Fontana e Aguiar (2013) explicam
setores de pneus, agrotóxicos, óleos que a diminuição do tempo de vida útil dos
lubrificantes contaminados, pilhas e baterias e produtos, decorrentes das constantes
lâmpadas fluorescentes (SINIR, 2015). No inovações no mercado, aumenta-se o nível de
entanto, em alguns outros setores os resíduos gerados e com isso a capacidade
regulamentos se encontram ainda em fase de dos sistemas tradicionais de disposição final
estruturação como no caso das embalagens fica altamente comprometida, sendo
plásticas de óleos lubrificantes, embalagens necessário buscar novas alternativas para os
em geral, produtos eletroeletrônicos e seus problemas de ordem ambiental.
componentes (SINIR, 2015). O acordo
Conforme exposto, Leite (2011) e Fontana e
setorial, por permitir grande participação
Aguiar (2013) afirmam que a preocupação
social, tem sido o instrumento preferencial
quanto à poluição tem se tornado um
para a implantação da logística reversa,
incentivo à logística reversa, pois a logística
sendo esta, por sua vez, uma das etapas
combinada com recursos como a reciclagem
essenciais para o alcance eficaz dos
Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 10
139

pode reduzir significativamente parte da elétrica e tem maior vida útil, durando em
poluição gerada por certos resíduos. Como média de 8 a 10 vezes mais e proporcionando
no caso dos resíduos sólidos provenientes do uma economia de 85% de energia. As
pós-consumo das lâmpadas fluorescentes e lâmpadas fluorescentes foram inseridas no
compreendidos pela PNRS vinculam-se aos mercado brasileiro em 2001 como uma
acordos setoriais acompanhados pelo alternativa para conter riscos de apagão e
Sistema Nacional de Informações Sobre a devido aos problemas relacionados com o
Gestão dos Resíduos Sólidos – SINIR. consumo excessivo de energia elétrica
(FERREIRA, 2012). As lâmpadas
fluorescentes se caracterizam pelas
2.3 LÂMPADAS FLUORESCENTES E descargas de baixa intensidade e compostas
LEGISLAÇÃO AMBIENTAL ESPECÍFICA por um tubo de vidro revestido internamente
com pó de fosforo e com eletrodos de fio de
De acordo com Ferreira (2014) a lâmpada
tungstênio, constituindo-se, basicamente, por
fluorescente foi inventada pelo sérvio Nikola
quatro elementos: vidro (solda e sílica), pó de
Tesla em 1856 e introduzida no mercado por
fósforo, o metal pesado (mercúrio) e a base
volta de 1938. Segundo Magueijo (2010), as
(latão ou alumínio).
lâmpadas fluorescentes têm uma eficiência
elevada com relação a outros tipos de
lâmpadas, pois consomem menos energia

Figura 1: Composição de uma lâmpada fluorescente

Fonte: Adaptado de Osram, 2015


.

As lâmpadas fluorescentes são classificadas lâmpada. Durão Junior e Windmöller (2008)


como um resíduo sólido perigoso Classe I observam que o chumbo está presente no
(NBR 10.004/04), pois contém mercúrio em vidro e excede os limites fixados pela ABNT e
sua composição (ABNT, 2004). O mercúrio é o pó de fósforo contém mercúrio e cádmio.
um elemento extremamente tóxico e traz Destaca-se que dependendo do fabricante,
sérios riscos à saúde humana, pois tem efeito os níveis de incidência do mercúrio podem
acumulativo e a exposição prolongada ao variar de lâmpada para lâmpada. Logo, as
mesmo causa danos pulmonares, renais e lâmpadas fluorescentes nunca devem ser
neurológicos. Com relação ao meio ambiente, quebradas, uma vez que ocorre a liberação
o mercúrio contido nas lâmpadas tem do vapor de mercúrio. A PNRS atribui
potencial para contaminar o solo, o lençol responsabilidades dos fabricantes,
freático, as plantas, os animais e a água. As importadores, distribuidores, lojistas e
lâmpadas fluorescentes, tanto as compactas, consumidores, exigindo cuidados desde o
quanto as tubulares e circulares, as de vapor manuseio, armazenamento, transporte,
de sódio e mercúrio e as de luz mista reciclagem até o destino final (APLIQUIM,
apresentam mercúrio, bem como ocorre 2015).
absorção por outros componentes da

Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 10


140

Figura 2 - Coleta e etapas do processo de reciclagem

Fonte: Grant Thornton (2011)

Diante de destes fatos, de acordo com o Os consumidores devem encaminhar suas


SINIR (2015), foi assinado em 27/11/2014 o lâmpadas inservíveis aos pontos de coleta, de
acordo setorial para regulamentar a forma adequada, ou seja, separadamente de
implantação de um sistema de logística outros resíduos e em embalagem apropriada,
reversa de lâmpadas fluorescentes de nível preferencialmente a original do produto
nacional e publicado no Diário Oficial da (SINIR, 2015). Quando os pontos de coleta
União em 12/03/2015. O documento tem atingem sua capacidade máxima, os
como objetivo garantir que a destinação final responsáveis pelo mesmo, isto é, os
dos resíduos dessas lâmpadas seja feita de revendedores, comunicam a entidade
forma ambientalmente correta. O acordo gestora, que por sua vez aciona uma
setorial referente às lâmpadas fluorescentes empresa terceira para efetuar a coleta e
estabelece que as empresas fabricantes e posterior reciclagem das lâmpadas (SINIR,
revendedores de lâmpadas fluorescentes 2015). A empresa terceira (recicladora de
(importadoras, comerciantes e distribuidoras) lâmpadas) deve executar a reciclagem e
devem em comum acordo escolher ou criar descontaminação dos produtos em unidades
uma entidade gestora, com personalidade licenciadas e devidamente autorizadas pelos
jurídica própria e sem fins lucrativos que órgãos ambientais, apresentando a
funcione como intermediadora entre documentação exigida por lei para exercer a
consumidores, fornecedores e empresas atividade. Além disso, essas empresas devem
recicladoras. Os envolvidos devem atuar de respeitar os princípios firmados pela PNRS,
modo a administrar a implantação do sistema por meio da adoção, desenvolvimento e
de logística reversa, cuidando para que este aprimoramento de tecnologias limpas que
cumpra com as responsabilidades, condições minimizem os impactos ambientais e reduza o
e prazos que o acordo setorial determina. E a volume de resíduos perigosos (SINIR, 2015).
descrição das ações, procedimentos e As empresas recicladoras devem
atividades são detalhadas no Manual de disponibilizar, quando requisitado pela
Diretrizes Operacional para Implantação e entidade gestora, informações relacionadas
Operação do Sistema de Logística Reversa ao processo de reciclagem das lâmpadas e
(SINIR, 2015). disposição final de seus rejeitos (SINIR,
2015).
O sistema de logística reversa para lâmpadas
fluorescente define a criação de fundos De modo a comprovar a efetivação de todo o
necessários para execução do processo, os processo, os associados ao acordo setorial
quais são de responsabilidade dos devem anualmente publicar entre si e também
fabricantes e com estes fundos, os junto ao Ministério do Meio Ambiente um
fabricantes, em conjunto com a entidade relatório contendo os resultados da avaliação
gestora, devem implantar pontos de coleta de do cumprimento das metas estabelecidas
lâmpadas fluorescentes nos estabelecimentos pelo acordo, bem como prestar informações
de seus revendedores, sendo de específicas ao IBAMA e ao SINIR (SINIR,
responsabilidade destes a manutenção e 2015). O não cumprimento das obrigações
controle dos pontos, com funcionários previstas no sistema de logística reversa
devidamente treinados para essa função acarreta multa de até 50 mil reais aos
(SINIR, 2015). Os fabricantes e revendedores infratores (BRASIL, 2008). Estima-se que ao
devem promover campanhas de divulgação e final de 2016, estejam implantados em todo o
sensibilização da população consumidora, país cerca de 3.804 pontos de coleta de
informando quanto ao recolhimento das lâmpadas vinculados ao acordo setorial, dos
lâmpadas, os riscos e danos que as mesmas quais 101 sejam localizados na Região
podem causar e os procedimentos corretos Metropolitana do Vale do Paraíba e, em
para o manuseio, armazenamento e especial, na cidade de Lorena estão previstos
devolução aos pontos de coleta. 2 pontos de coletas (SINIR, 2015).
Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 10
141

3. METODOLOGIA DA PESQUISA revendedores; etapa 3: coleta de dados com


consumidores finais; e etapa 4: coleta de
O tipo de pesquisa empregado neste trabalho
dados com empresas recicladoras. Na
é de caráter exploratório com abordagem
primeira etapa, considerou-se uma população
quantitativa, uma vez que possibilita aos
de 24 empresas de grande porte, fabricantes
pesquisadores conhecer com maior
de lâmpadas fluorescentes e que são
profundidade o assunto, assim como clarificar
aderentes ao acordo setorial, localizadas em
suas inter-relações ou estabelecer novas
seis Estados de três regiões diferentes do
questões para o desenvolvimento da
Brasil, sendo eles: Bahia (1), Pernambuco (1),
pesquisa (MARCONI e LAKATOS, 2010). De
Paraná (2), Rio de Janeiro (1), Santa Catarina
acordo com Rampazzo (2002), um estudo
(1) e São Paulo (18). Nesta etapa, os sujeitos
exploratório consiste em registrar fatos reais
responderam a 09 questões relacionadas ao
sem que o pesquisador utilize meios técnicos
fornecimento de produtos para a região do
especiais ou precise fazer perguntas diretas.
Vale do Paraíba; posse de certificações ou
Ainda segundo o autor, o estudo exploratório
títulos semelhantes; práticas de gestão
proporciona um maior conhecimento do tema
ambiental sugeridas pela lei referente às
abordado. Como parte do estudo, a pesquisa
lâmpadas fluorescentes tais como: promoção
se caracteriza como pesquisa bibliográfica,
de capacitação/treinamento junto aos
constituída principalmente de livros e artigos,
revendedores, promoção da logística reversa
que permitiu subsidiar a revisão da literatura
das lâmpadas e promoção de projetos de
(GIL, 1999).
conscientização ambiental. Além disso, foram
Para o alcance dos objetivos, adotou-se a questionados quanto à existência de
estratégia de pesquisa de campo, cuja coleta fiscalização ambiental periódica, destinação
de dados ocorre em uma situação não das lâmpadas utilizadas nas dependências
controlada, na qual os sujeitos se encontram da empresa e o fator de maior influência na
em seu ambiente natural e não podem ser conduta da empresa.
observados pelo pesquisador
Na segunda etapa, considerou-se como
(APPOLINÁRIO, 2012). Assim, fez-se uso de
população 29 empresas revendedoras de
questionários com perguntas fechadas de
lâmpadas fluorescentes, todas situadas no
múltipla escolha, direcionadas aos agentes
município de Lorena–SP. Nesta etapa, os
atuantes na cadeia de lâmpadas
sujeitos responderam a 10 questões, nas
fluorescentes, isto é, fabricantes,
quais foram indagados quanto à posse de
revendedores, consumidores e recicladoras.
certificações ou títulos semelhantes; volume
Para cada um dos agentes, foi utilizado
lâmpadas revendidas anualmente;
questionário específico para levantamento
capacitação/treinamento dos funcionários do
dos dados pertinentes à pesquisa.
estabelecimento; coleta de lâmpadas
Para Appolinário (2012), um questionário é um fluorescentes pós-consumo; promoção de
documento com perguntas ordenadas a projetos de conscientização ambiental;
serem respondidas por escrito pelos existência de fiscalização ambiental
entrevistados. Ainda segundo o autor, periódica; e destinação das lâmpadas
perguntas fechadas são as que oferecem utilizadas nas dependências da empresa.
opções de resposta pré-definidas. Neste
Na terceira etapa, considerou-se uma
trabalho foi utilizado uma amostra não-
população de 94 pessoas residentes das
probabilística e definida pelo critério de
cidades de Aparecida, Cachoeira Paulista,
intencionalidade dos pesquisados. Em
Guaratinguetá e Lorena. Os sujeitos foram
relação aos fabricantes e às recicladoras,
questionados quanto à utilização de
levou-se em conta o porte das empresas e se
lâmpadas fluorescentes em suas próprias
as mesmas forneciam produtos/serviços para
residências; conhecimento dos componentes
a região do Vale do Paraíba. Quanto aos
das lâmpadas fluorescentes e seus riscos à
revendedores, adotou-se o critério da
saúde; conhecimento de procedimentos de
localização das empresas na cidade de
manuseio/armazenamento das lâmpadas
Lorena-SP. Quanto aos consumidores, o
fluorescentes; conhecimento de alguma
questionário foi direcionado aos residentes
legislação a cerca das lâmpadas
das cidades circunvizinhas à Lorena-SP.
fluorescentes; conhecimento de campanhas
A coleta de dados foi executada em quatro de conscientização ambiental a cerca de
etapas, sendo: etapa 1: coleta de dados com lâmpadas fluorescentes; destinação das
fabricantes; etapa 2: coleta de dados com lâmpadas pós-consumo utilizadas na
Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 10
142

residência e a frequência com que tal lâmpadas fluorescentes quando estas se


procedimento é realizado. tornam inutilizáveis, além de tornar visíveis os
procedimentos adotados por cada agente da
Na quarta etapa, considerou-se uma
cadeia analisada.
população de 13 empresas prestadoras de
serviço de reciclagem e/ou disposição final
de lâmpadas fluorescentes pós-consumo,
Etapa 1 - Fabricantes
localizadas nos Estados de Minas Gerais (2),
Paraná (3), Rio de Janeiro (1), Rio Grande do Na etapa 1, no que diz respeito aos
Sul (2) e São Paulo (5). Nesta etapa, os fabricantes, das 24 empresas inicialmente
sujeitos responderam a 08 questões selecionadas para a pesquisa, apenas 5
relacionadas à posse de certificação ou títulos (21%) manifestaram interesse em colaborar
semelhantes; prestação de serviços para a com o estudo. Dentre as demais, 2 (8%) se
região do Vale do Paraíba; origem das recusaram a participar e 17 (71%) não
lâmpadas recebidas para tratamento; vínculo manifestaram nenhum posicionamento. Das 5
com outras organizações; conceitos empresas que participaram efetivamente da
ambientais adotados pela empresa; pesquisa, todas afirmaram fornecer lâmpadas
comprovação do descarte ambientalmente fluorescentes para a região do Vale do
correto; existência de fiscalização ambiental Paraíba, o que justifica a preocupação dos
periódica; e fator de maior influência na órgãos ambientais em estabelecer um número
conduta da empresa. considerável de pontos de coletas de
lâmpadas fluorescentes na região (SINIR,
Nas etapas 1 e 4, os questionários foram
2015). Quando questionadas a respeito da
aplicados através de e-mails e contato
posse de certificações ou títulos semelhantes,
eletrônico por meio dos sites das empresas
as 5 empresas (100%) afirmaram possuir
envolvidas na pesquisa. Já nas etapas 2 e 3,
licença ambiental para funcionamento.
a aplicação foi realizada de modo tradicional,
Destas, 4 (80%) alegaram que além da
ou seja, in loco. Os questionários tinham
licença ambiental possuem também plano de
como principal objetivo, coletar dados que
gerenciamento de resíduos sólidos e 1 (20%)
permitissem comparar a realidade praticada
declarou ter todos os itens anteriores e ser
por cada agente da cadeia logística
certificada ISO 14001. Houve ainda uma
(consumidores, fabricantes, revendedores e
parcela de 40% que relatou possuir outros
recicladoras) com as exigências impostas
tipos de certificações. Estes percentuais
pela legislação referente às lâmpadas
comprovam que as empresas adotam
fluorescentes pós-consumo, visando analisar
práticas de gestão ambiental como tentativas
se de fato a logística reversa proposta pela lei
de melhorar sua imagem corporativa no que
é funcional para este setor.
tange à sustentabilidade, conforme afirmam
Leite (2011) e Fontana e Aguiar (2014).
3.1 RESULTADOS E DISCUSSÃO Com relação às práticas de gestão ambiental
que são sugeridas pela Lei que trata das
Com o levantamento realizado pode-se
lâmpadas fluorescentes, a Tabela 1 apresenta
perceber o que realmente acontece com as
a realidade vivenciada pelos fabricantes:

Tabela 1: Realidade praticada por fabricantes de lâmpadas fluorescentes


Variáveis N %
Sim 1 (20,0)
Capacitação/Treinamento dos revendedores Não 4 (80,0)
Total 5 (100,0)
Sim 4 (80,0)
Logística Reversa dos produtos Não 1 (20,0)
Total 5 (100,0)
Sim 3 (60,0)
Parceria com recicladora Não 2 (40,0)
Total 5 (100,0)
Sim 3 (60,0)
Projetos de conscientização ambiental Não 2 (40,0)
Total 5 (100,0)
Fonte: Dados da pesquisa.

Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 10


143

Conforme exposto na Tabela 1, 80% das utilizadas nas dependências da empresa,


empresas participantes efetivas alegaram todas as participantes (100%) afirmaram
promover projetos de logística reversa de encaminhar as lâmpadas pós-consumo para
seus produtos e 60% possui parceria com a reciclagem, prática considerada relevante
empresas recicladoras de lâmpadas segundo Leite (2011) e Fontana e Aguiar
fluorescentes. Estes dados evidenciam o (2013), como alternativa para reduzir parte da
cumprimento parcial das exigências impostas poluição gerada por resíduos sólidos. Ao final,
pelo acordo setorial de lâmpadas quando questionadas quanto aos fatores que
fluorescentes, pois conforme estabelece o mais influenciam a conduta adotada pela
SINIR (2015), todas as empresas que empresa, 40% referiu considerar a legislação,
fabricam lâmpadas deste tipo, devem a ética e o diferencial estratégico, fatores
promover a logística reversa de seus produtos fundamentais para a responsabilidade social
com o intuito de encaminhá-los à reciclagem empresarial. Do restante, também 40%
e posteriormente à disposição final. No afirmou considerar a legislação e a ética os
requisito capacitação/treinamento, apenas 1 fatores primordiais e 20% declarou considerar
empresa (20%) declarou promover esta ação apenas a ética o fator que mais influencia sua
junto aos seus revendedores a respeito dos conduta.
riscos das lâmpadas fluorescentes. Além
disso, 3 empresas (60%) afirmaram promover Etapa 2 - Revendedores
projetos de conscientização ambiental na Na etapa 2, referente aos revendedores, dos
região em que estão localizadas. O Acordo 29 estabelecimentos selecionados, 25 (86%)
Setorial determina que todas as empresas participaram efetivamente da pesquisa e 4
associadas devem promover tais ações e não (14%) não souberam responder. Conforme o
apenas parte delas (SINIR, 2015). Gráfico 1, dentre os 25 estabelecimentos que
Quanto à fiscalização ambiental, 3 (60%) das participaram efetivamente da pesquisa, uma
5 empresas afirmaram receber visitas parcela de 56% afirmou revender mais de 100
periodicamente e 2 (40%) afirmaram não unidades de lâmpadas fluorescentes
receber visitas com frequência. Isto evidencia anualmente, 20% afirmou revender de 51 a
falha por parte dos órgãos fiscalizadores, os 100 unidades anualmente e 24% declarou
quais de acordo com a PNRS deveriam multar revender até 50 unidades anualmente.
as empresas que não se enquadram nas
exigências da lei. Quanto às lâmpadas

Gráfico 1 - % de revendedores pela quantidade de lâmpadas fluorescentes revendidas

Fonte: dados da pesquisa

Quando questionados a respeito da posse de ISO 14001. A quantidade expressiva de


certificações ou títulos semelhantes, dos 25 empresas que não possuem nenhum tipo de
estabelecimentos, 16 (64%) declararam não certificação é corroborada pela ausência das
possuir nenhum tipo de certificação/título, 7 práticas de gestão ambientais sugeridas pela
(28%) referiram possuir licença ambiental Lei que trata das lâmpadas fluorescentes. A
para funcionamento, 1 (4%) afirmou possuir Tabela 2 apresenta a realidade vivenciada
plano de gerenciamento de resíduos sólidos e pelos revendedores:
também 1 (4%) afirmou possuir certificação
Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 10
144

Tabela 2: Realidade praticada por revendedores de lâmpadas fluorescentes


Variáveis N %
Sim 11 (44,0)
Capacitação/Treinamento de funcionários Não 14 (56,0)
Total 25 (100,0)
Sim 5 (20,0)
Membro de associação/projeto de logística reversa Não 20 (80,0)
Total 25 (100,0)
Sim 7 (28,0)
Ponto de coleta próprio Não 18 (72,0)
Total 25 (100,0)
Sim 1 (4,0)
Projetos de conscientização ambiental Não 24 (96,0)
Total 25 (100,0)
Fonte: Dados da pesquisa.
de lixo e 5 (20%) declaram descartar as
De acordo com a Tabela 2, 44% dos lâmpadas fluorescentes em lixo comum. Com
estabelecimentos afirmaram promover isto, verificou-se que nem todas as empresas
capacitação/treinamento para seus destinam as lâmpadas de maneira correta,
funcionários a respeito dos riscos das isto é, encaminhando-as à reciclagem ou à
lâmpadas fluorescentes e 56% afirmaram não disposição final ambientalmente adequada
promover treinamentos. Estes percentuais (LEITE, 2011).
demonstram que mais da metade dos
estabelecimentos não estão procedendo em Etapa 3 - Consumidores
conformidade com o acordo setorial, pois Na etapa 3, referente aos consumidores
assim como os fabricantes, os revendedores finais, todos os 94 entrevistados (100%)
também devem promover treinamento para responderam ao questionário e desses, 82
seus colaboradores (SINIR, 2015). Com (87%) afirmaram utilizar lâmpadas
relação à logística reversa das lâmpadas fluorescentes em suas residências e 12 (13%)
fluorescentes pós-consumo, 80% dos afirmaram não utilizar este tipo de lâmpada.
estabelecimentos afirmaram não participar de No entanto, 83 (88%) admitem não ter
associações ou projetos que promovem tal conhecimento sobre a existência de projetos
atividade e 72% afirmou não possuir ponto de de reciclagem de lâmpadas fluorescentes e
coleta próprio para recolhimento das apenas 11 (12%) alegaram ter conhecimento
lâmpadas fluorescentes no estabelecimento. de projetos deste caráter.
Verifica-se que os estabelecimentos não se Referente aos materiais que compõe as
encontram em conformidade com a Lei para lâmpadas fluorescentes, das 94 pessoas, 15
instaurar a logística reversa dos produtos pós- (16%) declararam ter conhecimento dos
consumo até o fabricante. A parcela materiais em questão e 79 (84%) afirmaram
considerável de 96% diz não promover não possuir conhecimento algum quanto a
projetos de conscientização ambiental na estes materiais. Apesar disso, 66 (70%)
região e somente 4% afirmou realizar eventos alegaram estar cientes da periculosidade das
deste tipo, o que caracteriza o lâmpadas fluorescentes e 28 (30%) afirmaram
descumprimento do acordo setorial, pois o não conhecer tal risco.
mesmo determina que todas as empresas Com relação a campanhas e instruções
revendedoras devem promover a acerca do descarte de lâmpadas
conscientização da população local (SINIR, fluorescentes, 88 (94%) afirmaram que não
2015). receberam projetos deste tipo em sua cidade
Quanto à fiscalização ambiental, apenas 4 e apenas uma minoria de 6 pessoas (6%)
(16%) dos 25 estabelecimentos afirmaram alegaram ter recebido orientações deste tipo
receber vistas periodicamente e 21 (84%) e, quando questionadas sobre a maneira de
afirmaram não receber visitas com frequência. manusear e armazenar as lâmpadas
No que diz respeito às lâmpadas utilizadas fluorescentes, 45 (48%) afirmaram não
nas dependências do estabelecimento, 13 conhecer a maneira correta de realizar estes
(52%) revendedores afirmaram encaminhar as procedimentos e 49 (52%) alegaram
lâmpadas pós-consumo para a reciclagem, 6 conhecer a maneira correta de realizar os
(24%) referiram armazená-las em depósito, 1 procedimentos. No que diz respeito à coleta e
(4%) alegou doar à associações de catadores reciclagem das lâmpadas fluorescentes, 54
Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 10
145

(57%) pessoas declararam não saber da mostra os procedimentos de descarte


existência de legislação específica que trata praticados pelos consumidores finais,
do assunto e 40 (43%) declararam saber da
existência dessa legislação. O Gráfico 2

Gráfico 2 - Procedimentos de descarte praticados por consumidores finais

Fonte: Dados da pesquisa.

Observa-se no gráfico acima, quanto ao lixo consumidores encaminhem as lâmpadas


comum, a maioria dos consumidores (42%) fluorescentes aos pontos de coleta. No
referiu utilizar com frequência este entanto como não há pontos de coleta
procedimento para descartar as lâmpadas disponíveis nos estabelecimentos de revenda
fluorescentes. Quanto à coleta seletiva, e a maioria dos consumidores não possuem
metade dos consumidores, ou seja, 50%, conhecimento da legislação pertinente, as
afirmou nunca fazer uso deste procedimento, lâmpadas são frequentemente encaminhadas
assim como 87% declararam nunca ao lixo comum.
encaminhar as lâmpadas fluorescentes a
pontos de coleta em estabelecimentos. Estes Etapa 4 - Recicladoras
dados demonstram que o retorno das Na etapa 4, dos 13 questionários enviados às
lâmpadas à cadeia é ineficaz e são baixos os recicladoras, não obteve-se nenhum
percentuais de resíduos dispostos de forma resultado, pois nenhuma das empresas
ambientalmente correta (ABRELPE, 2014). Ao selecionadas retornou o questionário
final, 67 (71%) consumidores afirmaram que respondido. Sendo que, 2 se recusaram
não possuíam conhecimento prévio quanto às formalmente a responder, outras 2
lâmpadas fluorescentes antes de participarem manifestaram interesse em analisá-lo e
da pesquisa e 27 (29%) afirmaram que já posteriormente não se pronunciaram mais e o
possuíam algum conhecimento sobre o tema restante não se manifestou em momento
em questão. algum. Silva (2010) ao realizar uma pesquisa
Com base nos dados acima, verifica-se que similar a esta, verificou o mesmo
os consumidores não estão agindo de acordo posicionamento omisso por parte de
com o estabelecido pelo Sistema Nacional de empresas recicladoras do Estado de
Informações sobre a Gestão dos Resíduos Pernambuco. O Gráfico 3 abaixo ilustra a
Sólidos (SINIR), o qual impõe que os situação verificada.

Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 10


146

Gráfico 3 - Retorno de questionários enviados às recicladoras de lâmpadas fluorescentes

Fonte: Dados da pesquisa

4 CONSIDERAÇÕES FINAIS Outro ponto a salientar é a indisponibilidade


de pontos de coleta de lâmpadas nos
O presente artigo fundamentou-se numa
municípios, o que configura novamente o
pesquisa de campo onde foram analisadas as
descumprimento da legislação. Em tese,
realidades vivenciadas pelos agentes da
estes pontos deveriam ser de
cadeia de lâmpadas fluorescentes
responsabilidade dos revendedores, no
(fabricantes, revendedores, recicladoras e
entanto como a maior parte destes não
consumidores) no que diz respeito às práticas
promove tal ação, os consumidores ficam
de gestão ambiental sugeridas pela lei
impossibilitados de retornar suas lâmpadas
referente às lâmpadas fluorescentes, tendo
inservíveis à cadeia. A coleta seletiva também
como principal referência a Política Nacional
se mostrou uma opção inválida para retornar
de Resíduos Sólidos – PNRS. Conforme o
as lâmpadas à cadeia, pois apesar dos
objetivo da pesquisa que consistia em
municípios onde os consumidores residem
verificar os principais desafios e dificuldades
possuir tal ação, a falta de informação,
acerca do processo logístico reverso de
divulgação, e até mesmo a falta de
lâmpadas fluorescentes, constatou-se que de
planejamento tornam-se obstáculos que
fato há muitos obstáculos a serem superados
impedem o sucesso efetivo destes
neste setor devido às inúmeras falhas em
programas.
todas as fases do processo.
Sendo assim, conclui-se que o diagnóstico
Estes fatos foram evidenciados pela pesquisa
quanto à eficácia da logística reversa na
de campo, onde um percentual considerável
cadeia de lâmpadas fluorescentes nos
de entrevistados em toda cadeia admitiu não
municípios estudados caracteriza um
atender a todas as exigências específicas
processo imaturo e falho que deve
impostas pela Política Nacional de Resíduos
transpassar barreiras não só de processos,
Sólidos e pelo Acordo Setorial no que diz
atividades ou regulamentos, mas também as
respeito às lâmpadas fluorescentes, o que de
barreiras culturais já adquiridas por cada
fato comprova a ineficiência da fiscalização
indivíduo.
ambiental e a impunidade para aqueles que
estão em desacordo com a lei. Além disso, a As empresas e a sociedade de modo geral
ausência de informações referentes ao precisam despertar sua consciência
manuseio, descarte e disposição final das ambiental e atentarem-se ao assunto, de
lâmpadas fluorescentes caracteriza uma das modo que ações de conservação ambiental
principais dificuldades do processo. Uma vez sejam adotadas e que a lei seja cumprida,
que haja falha por parte dos fabricantes e pois vale ressaltar que as ações adotadas
revendedores em não promover projetos de hoje, impactarão no longo prazo, no futuro
conscientização ambiental e divulgação de das empresas, na sociedade e principalmente
informações a cerca do assunto junto à no o meio ambiente. Sendo assim a Logística
população, os consumidores, por sua vez Reversa deve ser desenvolvida
permanecem sem o conhecimento das permanentemente e não compreendida como
responsabilidades que lhe cabem perante a um modismo.
lei e assim, acabam de mesma forma não
cumprindo com as obrigações exigidas.

Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 10


147

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Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 10


149

Capítulo 14

Dilciléria da Rosa de Oliveira


Joyce Gonçalves Altaf

Resumo: O objetivo deste estudo é identificar os fatores determinantes para


divulgação voluntária do balanço social no Brasil. Foram verificadas as variáveis:
preocupação com a imagem, tamanho, setor, porte da empresa de auditoria,
lucratividade e Internacionalização. Para esse estudo realizou-se um referencial
teórico baseado na teoria do julgamento (VERRECCHIA, 2001), assim, a divulgação
do balanço social é tida como endógeno e os incentivos que os gerentes e ou a
empresa têm para divulgar a informação. A metodologia consiste em uma pesquisa
quantitativa que foi realizada por meio da coleta de dados de empresas listadas na
BM&FBOVESPA pertencentes a setores de atividades potencialmente poluidoras e
utilizadoras de recursos ambientais no período de 2008 a 2010, representadas por
145 empresas em cada ano. A metodologia econométrica baseou-se na estimação
de um modelo probit aplicado aos dados em painel. Conclui-se assim que,
estatisticamente, a preocupação com a imagem e empresas auditadas por Big Four
tem relação positiva com a divulgação do balanço social.

Palavras-Chave: Balanço social; teoria do julgamento e BM&FBOVESPA.

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1 INTRODUÇÃO governança corporativa dentre outros. A


pesquisa dos referidos autores analisou os
O presente estudo identificou os fatores
motivos da divulgação voluntária do balanço
determinantes para a divulgação voluntária do
social nas empresas brasileiras no período de
balanço social no Brasil. Atualmente não há
2003 a 2006, listadas na BMF&BOVESPA. Os
obrigatoriedade legal para que as empresas
resultados apontaram que a divulgação
divulguem relatórios de natureza social e
voluntária do balanço social está associada
ambiental em suas demonstrações contábeis.
positivamente ao nível de governança
Contudo, percebe-se uma continuidade em
corporativa, ao desempenho, e à divulgação
algumas companhias em permanecer com a
em período anterior.
divulgação do referido balanço.
Murcia et al (2009) pesquisaram os fatores
Nesse contexto, a presente pesquisa irá
determinantes do nível de disclosure
versar sobre quais variáveis podem estar
voluntário das companhias abertas no Brasil
influenciando tal prática por parte das
no findo de 2007 e constataram que a
empresas listadas na Bolsa de Valores,
regulação setorial influencia positivamente o
Mercadorias e Futuros BM&FBOVESPA
nível da divulgação. O autor relata, no
pertencentes a setores de atividades
entanto, que os resultados da pesquisa não
potencialmente poluidoras e que utilizam de
devem ser generalizados para outras
recursos ambientais conforme o anexo VIII da
empresas e outros períodos de tempo e
Lei 10.165/2000.
assim, mais pesquisas devem ser realizadas.
O balanço social é definido como um relatório
Suliani Rover, Murcia et al (2012) em sua
que disponibiliza informações sociais e
pesquisa identificou os fatores que
ambientais sobre as empresas. Ribeiro e
determinam a divulgação voluntária ambiental
Lisboa (1999, p.1) explicam que:
pelas empresas brasileiras potencialmente
O balanço social é um instrumento de poluidoras no período de 2003 a 2007 e
informação da empresa para a sociedade, por concluiu que o tamanho da empresa,
meio do qual a justificativa para sua existência empresa de auditoria são significantes para
deve ser explicitada. Em síntese, esta explicar o disclosure voluntário de
justificativa deve provar que o seu custo- informações ambientais.
benefício é positivo, porque agrega valor à
Liu e Anbumozhi (2009) investigaram os
economia e à sociedade, porque respeita os
fatores determinantes da divulgação
direitos humanos de seus colaboradores e,
voluntária dos relatórios sociais e
ainda, porque desenvolve todo o seu
identificaram que as variáveis determinantes
processo operacional sem agredir o meio
foram o tamanho da empresa e a
ambiente.
sensibilidade da indústria ao meio ambiente,
Segundo Dye (2001), espera-se que os dentre outras variáveis como a alavancagem
benefícios gerados pela divulgação de financeira, localização da empresa,
informação não obrigatória sejam superiores concentração dos acionistas dentre outras
aos seus custos, visto que na teoria da que não foram significantes.
divulgação voluntária, a entidade tende a
Em um estudo realizado em Nova Zelândia,
divulgar voluntariamente apenas informações
Hackston (1996) verificou as variáveis
positivas. Nossa (2002, p. 86), em sua
determinantes do nível de divulgação social e
pesquisa, destaca que, geralmente, no
ambiental em algumas empresas, e o
disclosure voluntário é exposto apenas o que
resultado indicou que tanto o tamanho quanto
a companhia apresenta de positivo. Há
a natureza da atividade estão associados com
pesquisas, entretanto, que avaliam de outra
o nível de divulgação social e ambiental,
forma tais causas.
enquanto o desempenho não apresenta
Segundo Salotti e Yamamoto (2005), quando significativa relevância.
o processo de divulgação passa a ser tratado
Segundo Michelon (2007), o tamanho das
como endógeno questiona-se a veracidade
empresas é uma variável encontrada em
da informação contida nos demonstrativos.
muitas pesquisas, e apresenta uma
Cunha e Ribeiro (2008) demonstraram em correlação positiva com as divulgações
seus estudos que a evidenciação de socioambientais. Nesse sentido, infere-se,
informações voluntárias pode ser explicada portanto, uma relação tênue entre o grau de
por características da própria empresa, tais divulgação e o tamanho apresentado pela
como porte, desempenho, práticas de companhia.

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O disclosure de algumas empresas excede o em consideração os custos e benefícios da


requerido por lei, e a tendência é que divulgação do balanço social, este trabalho
empresas maiores apresentem maior grau de responderá a seguinte questão de pesquisa:
divulgação, levando em consideração que o Quais são os determinantes da divulgação
custo de preparação e transmissão da voluntária do balanço social no Brasil por
informação é menor relativamente a seu empresas listadas na BM&FBOVESPA?
tamanho do que empresa de menor porte
O objetivo desta pesquisa é identificar os
(LANG, LUNDHOLM, 1993).
determinantes da divulgação voluntária do
Uma série de estudos tem indicado que as balanço social no Brasil por empresas listadas
grandes empresas estão mais sujeitas ao na BM&FBOVESPA, pertencentes a setores
social e a pressão política do que as de atividades potencialmente poluidoras e
empresas de pequeno porte. Trotman e utilizadoras de recursos ambientais conforme
Bradley (1981) e Cowen et al (1987) acham o anexo VIII da Lei 10.165/2000.
que o tamanho da empresa tem sido uma
No Brasil as empresas não têm obrigação
variável explicativa e significativa em seus
legal de divulgar o balanço social. No entanto,
estudos de divulgação de responsabilidade
embora não haja essa obrigação, existem
social. O último autor, por sua vez, também
focos de divulgação voluntária, conforme
diz que "as grandes empresas tendem a
verificado pelas pesquisas de Salotti e
receber mais atenção do público em geral e,
Yamamoto (2005); Cunha e Ribeiro (2008) e
portanto, a estar sob maior pressão pública
Murcia (2009).
para expor a responsabilidade social”. Além
disso, em uma meta-análise de 29 estudos de Ao considerar o fato da existência de
divulgação, Ahmed e Courtis (1999) dizem evidências empíricas da divulgação do
que o tamanho é um dos indicadores mais balanço social pelas empresas brasileiras,
importantes de divulgação em nível questionam-se os incentivos que as empresas
corporativo do relatório anual. Como as no país recebem para divulgarem
grandes empresas são preparadas para voluntariamente informações sociais e
enfrentar pressões maiores do que as ambientais. A nível nacional, percebe-se
empresas menores, consequentemente, poucas pesquisas fundamentadas na Teoria
aumentarão suas divulgações para da Divulgação Voluntária, o que nos instiga
estabelecer um bem social de forma mais verificar quais são os determinantes
incisiva, vis-a-vis empresas de menor porte. O influenciadores para divulgação voluntária do
objetivo por trás de tal prática se resume em balanço social no Brasil.
considerar a imagem como parte de sua
Conforme um estudo realizado pela KPMG
estratégia de negócios.
(2005) foi realizado um levantamento com
Percebe-se que a discussão acerca do tema empresas de diversos países e observou-se
é extensa, com as mais diversas opiniões, que os setores de alto impacto ambiental
tanto sobre as variáveis que determinam a lideram a divulgação de informações sociais e
divulgação voluntária quanto sobre a ambientais.
concepção dos balanços sociais. Nesse
Contribuindo com a pesquisa de Cunha e
sentindo, o referido estudo contribuirá para
Ribeiro (2008) que analisaram a divulgação
aprofundar um assunto propondo uma
do balanço social e disseram que outras
metodologia econométrica, a partir dos dados
relações devem ser pesquisadas, como porte
disponíveis, com o objetivo de refinar a atual
da empresa de auditoria, preocupação com a
discussão e verificar o que de fato estimula
imagem, lucratividade e setor, a proposta
uma empresa a submeter tal demonstrativo
desta pesquisa baseia-se em encontrar os
para o mercado.
fatores determinantes da divulgação
Como destacado, existem divulgações voluntária do balanço social no Brasil
voluntárias dos relatórios sociais em vários considerando empresas listadas na
países. Embora muitas divulgações sejam BM&FBOVESPA pertencentes a setores de
obrigatórias, é importante entender os atividades potencialmente poluidoras e
determinantes para fornecer a informação na utilizadoras de recursos ambientais.
ausência de regulamentação, e assim explicar
Como já salientado, o tema escolhido é pouco
os motivos de disclosure das companhias.
explorado em âmbito nacional, portanto,
Independentemente do modelo de balanço entender os motivos para divulgação
social divulgado pelas empresas, levando-se voluntária do balanço social é um assunto de

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interesse para a evolução da pesquisa Divulgação Voluntária, apresentando uma


contábil no Brasil. percepção analítica observando os modelos
matemáticos desenvolvidos pela teoria para
explicar e prever fenômenos relacionados ao
2 REVISÃO BIBLIOGRÁFICA disclosure.
As empresas européias têm a preocupação Verrecchia (2001) classifica os trabalhos
em prestar esclarecimentos à sociedade e ao anteriores sobre o assunto em três classes:
Estado com o mesmo nível de exigência que pesquisa sobre divulgação baseada em
servem aos seus acionistas. Hendriksen e associação, tendo como objetivo principal
Breda (1999, p. 515) apresentam algumas estabelecer uma relação entre a divulgação e
considerações a respeito da divulgação a as alterações na conduta dos investidores,
grupos de interesses sobres os países do principalmente através da performance dos
referido continente: preços dos ativos em equilíbrio e do volume
de negociação.
Outras partes do mundo, particularmente a
Europa, tendem a dar uma resposta mais A pesquisa sobre divulgação baseada em
ampla à pergunta “Para quem”? em particular, julgamento, que abrange estudos que
tendem a colocar os interesses dos apresentaram os motivos da divulgação, ou
funcionários e do estado no mesmo nível dos seja, procuram examinar com detalhes os
acionistas. A importância da participação dos gestores e/ou empresas que decidem
acionistas na propriedade da empresa é divulgar determinadas informações.
diminuída em favor da noção mais ampla de
A pesquisa sobre divulgação baseada em
preocupações de vários grupos de interesse.
eficiência, que compreende que as pesquisas
O efeito dessa posição é a alteração da
a respeito das configurações de divulgação
natureza do processo de divulgação. As
são as preferidas, na ausência de
empresas francesas, por exemplo, são
conhecimento passado sobre a informação,
obrigadas a apresentar um balanço social a
ou seja, como a divulgação não foi realizada
um conselho de funcionários da empresa a
pode ser caracterizada, portanto como sendo
cada ano. Esses conselhos são compostos
ex ante, essa categoria discute quais os tipos
por trabalhadores e executivos.
de divulgação mais eficientes.
O trabalho de Verrecchia (2001) destaca-se
quando nos referimos a respeito da Teoria da

Figura 1: Características da Divulgação das Categorias de Pesquisa


Características da Divulgação
Categorias de
Pesquisa Momento de Ocorrência da divulgação (ex ante Processo de Divulgação
ou ex post) (endógeno ou exógeno)
Associação ex post Exógeno
Julgamento ex post Endógeno
Eficiência ex ante não aplicável
Fonte: Salotti e Yamamoto (2005, p.56).
A pesquisa sobre a divulgação voluntária do capacidade, desempenho, dentre outros
balanço social enquadra na classe proposta atributos.
por Verrecchia (2001), divulgação baseada
Dye (2001, p. 184) discorda parcialmente de
em julgamento. Assim, a divulgação do
Verrecchia (2001) ao ressaltar que a teoria
balanço social é tida como endógena e quais,
das divulgações voluntárias é um caso
incentivos que os gerentes e ou a empresa
especial da teoria dos jogos com a premissa
têm para divulgar a informação.
central de que qualquer entidade
O autor ainda afirma que as pesquisas sobre contemplando fazer uma divu