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Editora Poisson

Sustentabilidade e Responsabilidade Social


em Foco
Volume 2

1ª Edição

Belo Horizonte
Poisson
2018
3

Editor Chefe: Dr. Darly Fernando Andrade

Conselho Editorial
Dr. Antônio Artur de Souza – Universidade Federal de Minas Gerais
Dra. Cacilda Nacur Lorentz – Universidade do Estado de Minas Gerais
Dr. José Eduardo Ferreira Lopes – Universidade Federal de Uberlândia
Dr. Otaviano Francisco Neves – Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais
Dr. Luiz Cláudio de Lima – Universidade FUMEC
Dr. Nelson Ferreira Filho – Faculdades Kennedy

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)


S587s
Sustentabilidade e Responsabilidade Social
em foco – Volume 2/
Organização Editora Poisson – Belo
Horizonte - MG : Poisson, 2018
267p

Formato: PDF
ISBN: 978-85-93729-62-1
DOI: 10.5935/978-85-93729-62-1.2018B001

Modo de acesso: World Wide Web


Inclui bibliografia

1. Gestão 2. Sustentabilidade. 3.
Responsabilidade Social I. Título

CDD-658.8

O conteúdo dos artigos e seus dados em sua forma, correção e confiabilidade são
de responsabilidade exclusiva dos seus respectivos autores.

www.poisson.com.br

contato@poisson.com.br
3

Capítulo 1: Aplicação de diretrizes da agenda ambiental na administração pública:


estudo de caso na Universidade Federal Rural de Pernambuco - unidade acadêmica
de Serra Talhada............................................................................................................................
6
Maria Jaqueline da Silva Mandú, José de Lima Albuquerque, Manuel Monteiro Cunegundes Capano,
Agleilson Souto Batista

Capítulo 2: Apelo sustentável em eventos: uma análise do comportamento ambiental


dos participantes de corrida pelo verde ........................................................................................
19
Antônio Wagner Chagas Magalhães, Cláudia Buhamra Abreu Romero, José Welliton Silva do
Nascimento, Glailton Robson Costa Pinto

Capítulo 3: A compreensão dos estudantes sobre o conceito de economia circular e


custeio do ciclo de vida: um estudo nos cursos de Ciências Contábeis e Administração ...........o
31
Marilia Rosa Andrade, Paula Florencia Almeida de Amorim, Nayara Batista Moreira, Leonardo Souza de
Almeida

Capítulo 4: A educação ambiental na comunidade:o caso da Petmania .....................................


46
Renato de Oliveira Rosa, Luanna Lise Kimura Magalhães, Yasmin Gomes Casagranda, Ariane Elias Leite
de Moraes

Capítulo 5: Estratégia empresarial e desenvolvimento sustentável: a sustentabilidade é


um desafio inevitável para as empresas? ......................................................................................
59
Glauce Almeida Figueira

Capítulo 6: Gestão ambiental nas organizações rurais de produção orgânica do


entorno de Campo Grande-MS: o caso de uma cooperativa ........................................................
76
Ariane Elias Leite de Moraes, Denise Barros de Azevedo, Luanna Lise Kimura Magalhães, Renato de
Oliveira Rosa, Yasmin Gomes Casagranda

Capítulo 7: Gestão do uso de energia renovável para o agronegócio .........................................


89
Yasmin Gomes Casagranda, Denise Barros de Azevedo, Renato de Oliveira Rosa

Capítulo 8: Programas de qualidade na indústria gráfica com foco na iso 9001 e na


certificação florestal FSC: benefícios e desafios da adoção .........................................................
104
Silvia Helena Boarin Pinto, Gabriel Gaboardi de Souza, Isabela Gaiardo Carneiro, Larissa Henriques
Pascoal Martins, Thamires Amorim da Silva

Capítulo 9: Programa de gestão ambiental: uma proposta de implantação em uma


indústria de resíduos orgânicos em juína, Mato Grosso – Brasil. ..................................................
117
Andréia rezende da Costa Nascimento, Fernando de Souza Muniz, Josiane de Brito Gomes, Josi Bolson,
Anderson Cavalcanti de Almeida

Capítulo 10: Resíduos sólidos urbanos e o atendimento à legislação ambiental:


diagnóstico de municípios no sudeste do pará .............................................................................
126
Marcilene Feitosa Araújo, Laize Almeida de Oliveira, Norberto Ferreira Rocha
3

Capítulo 11: Rede de economia solidária para o desenvolvimento sustentável: estudo


de caso no centro de tecnologia alternativa .................................................................................
141
Nilda dos Santos, Gleimíria Batista da Costa

Capítulo 12: A sustentabilidade agrega valor às empresas? Uma análise das


empresas integrantes do Índice de Sustentabilidade Empresarial (ISE) ......................................
154
Anderson Rocha de Jesus Fernandes, Simone Evangelista Fonseca, Cristiana Lara Cunha, Sabrina
Espinele da Silva, Antônio Artur de Souza

Capítulo 13: Benefícios do tratamento de resíduos sólidos urbanos através de canais


reversos de reciclagem e de destinação final segura em Campina Grande – PB ........................
169
Manoela Costa Policarpo, Mara Ellen de Aguiar, Adriana Salete Dantas de Farias

Capítulo 14: Desenvolvimento científico sobre diálogos sustentáveis entre


stakeholders: indicadores bibliométricos de produção científica a partir da Web of
Science e Scopus (2000-2016) .....................................................................................................
181
Laís da Silva Gregório, Denise Barros de Azevedo

Capítulo 15: Gestão de resíduos sólidos domiciliares: uma investigação das


práticas na cidade de Palmeira das Missões/RS sob a perspectiva da
responsabilidade compartilhada ..............................................................................................
193
Nizia Queiroz da Conceição, Luis Carlos Zucatto, Frantielly Brusque, Diana Paula Heck, Renata Zanchi
Silveira

Capítulo 16: Logística reversa: uma análise bibliométrica da produção acadêmica


entre 2011 e 2015 ..........................................................................................................................
208
Carolina Calazans Lopes Leopoldino, Eliane Santos Vargas, Lívia Maria de Pádua Ribeiro, Uajará
Pessoa Araújo

Capítulo 17: Perfil socioeconômico e uso da biomassa florestal como insumo


energético pelos artesãos do barro do município de Tracunhaém – PE: análise da
percepção ambiental.....................................................................................................................
222
Mônica Joao Imbana, José de Lima Albuquerque, Rodolfo Araújo de Moraes Filho, Tiago Soares da
Silva, Gustavo de Castro Nery

Capítulo 18: Negócios sociais e a teoria dos campos .................................................................


234
Cristiana Lara Cunha, Anderson Rocha de Jesus Fernandes, Simone Evangelista Fonseca, Antônio
Artur de Souza

Capítulo 19: Sustentabilidade organizacional na perspectiva do triple bottom line: o


caso Itaipu binacional....................................................................................................................
240
Luiz André Amaral, Silvio Roberto Stefano, Cláudio Luiz Chiusoli

256
Autores: ..............................................................................................................................
3

Capítulo 1

Maria Jaqueline da Silva Mandú


José de Lima Albuquerque
Manuel Monteiro Cunegundes Capano
Agleilson Souto Batista

Resumo:A temática da gestão ambiental sustentável vem despertando o interesse


dos governos em tornar as organizações públicas mais conscientes de sua
responsabilidade ecológica. A Agenda Ambiental na Administração Pública (A3P)
surge como consequência dessa preocupação, vista a necessidade de pensar as
consequências do consumo descontrolado dos recursos naturais. Considerando a
administração pública como grande consumidora desses recursos, ela possui
papel estratégico em novos padrões de produção e consumo, devendo servir de
exemplo. O objetivo dessa pesquisa foi investigar a questão da sustentabilidade
voltada à A3P, focando nos eixos: Qualidade de Vida no Ambiente de Trabalho e
Sensibilização e Capacitação dos Servidores, através de um estudo de caso
realizado na Unidade Acadêmica de Serra Talhada da Universidade Federal Rural
de Pernambuco. A metodologia conteve uma pesquisa exploratória, com aplicação
de questionários e observação direta. Pôde-se concluir que o nível de maturidade
da instituição estudada acerca da A3P, nos eixos examinados, é baixo, entretanto,
há potencial de desenvolvimento devido ao interesse dos servidores e da direção
administrativa, que se mostrou disposta a trabalhar na implantação de ações
pertinentes ao tema.

Palavras-chave: agenda ambiental na administração pública; sustentabilidade;


administração pública; qualidade de vida no trabalho; capacitação.
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1. INTRODUÇÃO exemplo na redução de impactos


socioambientais negativos gerados em suas
Os problemas ambientais provocados pelos
atividades (BRASIL, 2008). As universidades
humanos decorrem do uso do meio ambiente
são exemplos dessas organizações
para obter os recursos necessários para
consumidoras. Em suas instalações circulam
produzir os bens e serviços de que
diariamente milhares de pessoas, sejam
necessitam e dos despejos de materiais e
servidores, alunos ou visitantes. E como está
energia não aproveitados. A maneira como a
a conscientização dessas pessoas em
produção e o consumo ocorrem desde a
relação ao meio ambiente? As pessoas têm
Revolução Industrial exige recursos e geram
qualidade de vida em seu ambiente de
resíduos em quantidades significativas, que já
trabalho? Este trabalho tem por objetivo
ameaçam a capacidade de suporte do
investigar a temática da sustentabilidade
planeta (BARBIERI, 2011). A perda de
voltada à Agenda Ambiental na Administração
biodiversidade, a diminuição da camada de
Pública (A3P) com enfoque nos eixos:
ozônio, a contaminação das águas, as
Qualidade de Vida no Ambiente Trabalho e
mudanças climáticas, entre outros, sinalizam
Sensibilização e Capacitação dos Servidores,
que o planeta Terra já está no seu limite para
tomando como objeto de estudo uma
suportar as espécies vivas. A questão é que o
autarquia pública: a Universidade Federal
crescimento econômico desordenado foi
Rural de Pernambuco (UFRPE), em sua
acompanhado de um processo jamais visto
Unidade Acadêmica de Serra Talhada
pela humanidade em que se utilizavam
(UAST), localizada no sertão do estado de
grandes quantidades de energia e de
Pernambuco, região Nordeste do Brasil.
recursos naturais, que acabaram por
configurar um quadro de degradação Na seção subsequente, são abordados os
contínua do meio ambiente (DIAS; ZAVAGLIA; pressupostos da fundamentação teórica
CASSAR, 2008). relacionada ao tema da sustentabilidade, A3P
e os dois eixos aqui estudados.
Não se pode negar que “atualmente as
Posteriormente, expõem-se os aspectos
relações de consumo são desenvolvidas de
metodológicos da pesquisa, para, na
forma desequilibrada e desigual,
sequência, apresentar a análise e a discussão
consequência do sistema econômico
dos resultados. Para finalizar, na última seção,
contemporâneo, que proporciona a má
apresentam-se as considerações finais, assim
distribuição de renda, descartabilidade,
como as sugestões para estudos futuros.
manipulação e oferta desenfreada (SILVEIRA
et al., 2016)”. Assim sendo, é preciso
reeducar as pessoas para a utilização
2. REVISÃO BIBLIOGRÁFICA
consciente dos recursos naturais.
2.1. SUSTENTABILIDADE AMBIENTAL
A temática da gestão ambiental sustentável
também vem despertando o interesse dos A sustentabilidade ambiental está relacionada
governos em tornar as organizações públicas a padrões de consumo e de produção
mais conscientes de sua "pegada ecológica" sustentáveis, além de uma maior eficiência no
e de serem promotoras do desenvolvimento uso de energia para reduzir, ao mínimo, as
sustentável. A agenda ambiental na pressões ambientais, o esgotamento dos
administração pública surge como recursos naturais e a poluição. Os governos,
consequência dessa preocupação, pois se em conjunto com o setor privado e a
faz necessário pensar as consequências do sociedade, devem atuar para reduzirem a
consumo descontrolado dos recursos geração de resíduos e de produtos
naturais. As instituições públicas pertencem descartados, por meio da reciclagem, nos
ao grupo de maiores consumidores do processos industriais e na introdução de
mercado, adquirindo diversos tipos de novos produtos ambientalmente saudáveis
materiais, desde aqueles de expediente até (SOUZA; RIBEIRO, 2013).
equipamentos sofisticados para pesquisa
Ser sustentável é saber utilizar o que a
científica de modo geral.
natureza coloca ao dispor do homem sem
Ponderando que a administração pública é comprometer a disponibilidade desses
grande consumidora e usuária de recursos recursos para as gerações futuras. As
naturais, ela tem um papel estratégico na atitudes que contribuem para o
promoção e na indicação de novos padrões desenvolvimento sustentável do planeta
de produção e de consumo, e deve ser devem partir de cada um e de todos.

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O desenvolvimento sustentável constitui-se na o envolvimento cada vez mais intenso dos


adoção de padrões de desenvolvimento Estados nacionais em questões ambientais e
requeridos para obter a satisfação duradoura a diversidade dessas questões fizeram surgir
das necessidades humanas, com qualidade uma variedade de instrumentos de políticas
de vida. Deve-se utilizar bem os recursos públicas ambientais de que o poder público
naturais, permitindo que as gerações futuras pode se valer para evitar novos problemas
também possam usufruir dos mesmos. Isto ambientais, bem como para eliminar ou
necessariamente implicará na eficácia do uso minimizar os existentes.
dos fatores de produção dos recursos
Nos últimos anos, o conceito de gestão
naturais e sociais. "O conceito de
pública vem sendo utilizado para incluir, além
desenvolvimento sustentável vem atraindo,
da gestão pública do meio ambiente, os
como poucos, a opinião pública e acadêmica,
programas de ação desenvolvidos por
já que se constitui em um objetivo político
empresas e instituições privadas não
para numerosas nações (SEIFFERT, p. 24,
governamentais, assim o conceito de gestão
2014)".
ambiental tem evoluído na direção de uma
perspectiva de gestão compartilhada entre os
diferentes agentes envolvidos e articulados
2.2. GESTÃO AMBIENTAL NA
em seus diferentes papéis (SEIFFERT, 2014).
ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA
A Constituição da República Federativa do
O conceito de Gestão Ambiental não é novo,
Brasil de 1988, vigente até a atualidade,
nem é uma necessidade nova, mas algo que
incluiu um capítulo específico sobre o meio
foi amadurecendo ao longo dos anos, a partir
ambiente, servindo de exemplo para as
das contribuições de várias áreas do
constituições estaduais e municipais. Assim
conhecimento. Evoluiu, historicamente, das
versa o artigo 225 da Constituição: "Todos têm
demandas associadas aos sistemas de
direito ao meio ambiente ecologicamente
saneamento básico, em virtude do
equilibrado, bem de uso comum do povo e
crescimento das metrópoles, para um
essencial à sadia qualidade de vida,
enfoque propriamente de gestão induzido
impondo-se ao poder público e à coletividade
pelas áreas do conhecimento de engenharia
o dever de defendê-lo e preservá-lo para as
de produção e administração (SEIFFERT,
presentes e futuras gerações(BRASIL, 1988)".
2014).
Considerando o aspecto orçamentário,
Gestão ambiental pode ser entendida como
estudos mostram que a utilização de
diretrizes e atividades administrativas e
produtos, serviços e obras de menor impacto
operacionais realizadas com o objetivo de
ambiental reduzem os gastos do governo com
obter efeitos positivos sobre o meio ambiente,
políticas de reparação de danos ambientais,
tanto reduzindo, eliminando ou compensando
além de reduzirem os custos gerais dos
os danos causados pelas ações humanas,
órgãos em razão da maior durabilidade
quanto evitando que eles surjam (BARBIERI,
desses produtos e do consequente menor
2011). Assim as organizações devem
consumo de energia. Entretanto, passar a
empenhar-se cotidianamente em ações
adotar uma postura sustentável nos setores
sustentáveis.
públicos não é tão simples quanto parece. A
A sustentabilidade organizacional, em suma, sustentabilidade, em sua concepção geral,
representa o conjunto de ações corporativas traz desafios aos gestores nos campos social,
que preconizam simultaneamente a econômico e ambiental e demanda uma
integração social, o equilíbrio econômico e a profunda educação de todos os atores
responsabilidade ambiental (MAZZA; ISIDRO- envolvidos nos processos relacionados com
FILHO; HOFFMANN, 2014). as mencionadas temáticas (VOGELMANN
JÚNIOR, 2014).
No que tange à gestão ambiental pública, ela
pode ser considerada como a ação do Poder A legalidade que os atos públicos exigem,
Público conduzida de acordo com uma embora seja tão necessária e de suma
política pública ambiental. Entende-se por importância para a consecução dos serviços
política pública ambiental o conjunto de prestados à sociedade com probidade e
objetivos, diretrizes e instrumentos de ação transparência, demanda muitas vezes a
que o Poder Público dispõe para produzir os morosidade nos processos, como as compras
efeitos desejados ao meio ambiente sustentáveis, por exemplo. Por outro lado, a
(BARBIERI, 2011). O mesmo autor afirma que legalidade governamental influencia mais
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positivamente ao constituir leis como a que III, está a Agenda Ambiental na Administração
trata da educação ambiental. Pública - A3P, coordenado pela Secretaria de
Articulação Institucional e Cidadania
A Lei nº 9795/1999, que trata da Política
Ambiental do Ministério do Meio Ambiente -
Nacional de Educação Ambiental, em seu
SAIC/MMA.
artigo 1º, define a educação ambiental como
“processos por meio dos quais o indivíduo e a
coletividade constroem valores sociais,
2.3. AGENDA AMBIENTAL NA
conhecimentos, habilidades, atitudes e
ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA (A3P)
competências voltadas para a conservação
do meio ambiente, bem de uso comum do A Agenda Ambiental na Administração
povo, essencial à sadia qualidade de vida e Pública (A3P) é um programa do Ministério do
sua sustentabilidade (BRASIL, 1999)”. Meio Ambiente criado como resposta da
administração pública à necessidade de
Com a finalidade de promover essa
enfrentamento das graves questões
educação, o Governo Federal vem
ambientais. Era preciso pensar em como
desenvolvendo ações, campanhas educativas
gastar menos energia para manter as
e implementando regulamentos nos seus
instalações, reduzir os gastos, gerar o mínimo
diversos níveis de atuação. A promulgação da
de rejeitos, adquirir produtos que causassem
Lei nº 6.938/1981, que instituiu a Política
menos danos ao meio ambiente e promover a
Nacional do Meio Ambiente, constitui o marco
qualidade de vida dos servidores, em suma,
inicial dessas ações, designa os principais
como implantar um programa de
conceitos do direito ambiental. Esses
sustentabilidade na administração pública
conceitos são utilizados até hoje como base
(BRASIL, 2017).
ampla e legal, para a atuação da
administração na adoção de critérios de As diretrizes da agenda ambiental na
sustentabilidade em suas compras e administração pública apontam que as
aquisições de modo geral. demandas geradas nas três esferas de
governo – federal, estadual e municipal,
Em junho de 2012, o Executivo instituiu o
apresentam excessivo consumo de recursos
Decreto nº 7.746, que instituiu em seu art. 16,
naturais, razão que estaria levando o governo
a necessidade de que todos os órgãos e
federal a assumir papel estratégico na
entidades da Administração Pública Federal,
indução de novos referenciais de produção e
direta, autárquica, fundacional e as empresas
consumo, orientados para a sustentabilidade
estatais dependentes, formulem e
(TEIXEIRA; AZEVEDO, 2013).
implementem os seus Planos de Gestão de
Logística Sustentável - PLS, contendo, entre Nesse sentido, a A3P surge com o objetivo de
outras ações: “práticas de sustentabilidade e estimular a adoção de critérios
de racionalização do uso de materiais e socioambientais na gestão dos órgãos
serviços; responsabilidades, metodologia de públicos, visando minimizar e ou eliminar os
implementação e avaliação do plano; e ações impactos de suas práticas administrativas e
de divulgação, conscientização e capacitação operacionais no meio ambiente, por meio da
(BRASIL, 2012)". adoção de ações que promovam o uso
racional dos recursos naturais e dos bens
Os Planos de Gestão de Logística Sustentável
públicos, além do manejo adequado dos
foram regulamentados pela Instrução
resíduos (RÊGO; PIMENTA; SARAIVA, 2011).
Normativa nº 010-SLTI de 14 de novembro de
2012. Eles são ferramentas de planejamento Embora a A3P tenha sido concebida em 1999,
que permitem aos órgãos ou entidades foi oficializada em 2001 e, passadas quase
criarem práticas de sustentabilidade e duas décadas, essa ferramenta ainda não é
racionalização de gastos e processos na tão expressivamente utilizada pelas esferas
Administração Pública (BRASIL, 2012). O governamentais, como pode ser observado
artigo 11 dessa IN apresenta que algumas na figura 1.
iniciativas poderão ser observadas na
elaboração dos PLS, entre elas, em seu inciso

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Figura 1 - Adesão à A3P nas três esferas de governo, nos últimos 10 anos (Os dados são cumulativos)

Fonte: A3P/SAIC/MMA

A Agenda Ambiental na Administração aperfeiçoamento das estratégias


Pública possui seis eixos temáticos: uso organizacionais e das práticas de gestão,
racional dos recursos naturais e bens agregando valor ao capital humano e seu
públicos; gestão adequada dos resíduos potencial transformador na sociedade. Esse
sólidos; qualidade de vida no ambiente de pressuposto torna necessária a promoção da
trabalho; sensibilização e capacitação dos conscientização e valorização das pessoas
servidores; compras públicas sustentáveis; e como atores fundamentais para a efetividade
construções sustentáveis. Esses eixos são da sustentabilidade (AMORIM et al., 2015).
fundamentados nos cinco R's: Repensar,
Reduzir, Reaproveitar, Reciclar e
Recusar o consumo de produtos que gerem 2.3.1. QUALIDADE DE VIDA NO AMBIENTE
impactos socioambientais significativos. DE TRABALHO
Neste estudo, decidiu-se dar enfoque aos Entende-se por Qualidade de Vida no
eixos que estão diretamente relacionados às Trabalho (QVT) todos os aspectos
pessoas: Qualidade de Vida no Ambiente de relacionados ao ambiente profissional, sejam
Trabalho e Sensibilização e Capacitação dos eles físicos e ambientais ou psicológicos e
Servidores, pois são as pessoas os principais sociais. Os programas de QVT têm como
agentes de transformação do meio em que finalidade proporcionar ambientes de trabalho
vivem. O capital humano é a grande âncora mais agradáveis, que proporcionem melhores
do desenvolvimento na sociedade de condições relacionadas a esses aspectos,
serviços, alimentada pelo conhecimento, a além de tornar as equipes mais
informação e a comunicação que se comunicativas, integração entre os diversos
configuram como peças-chave na economia e níveis hierárquicos, entre outras vantagens
na sociedade do século XXI (AGENDA 21 favoráveis à satisfação de todos aqueles
BRASILEIRA, 2004). inseridos na organização (RIBEIRO;
SANTANA, 2015).
Quando as pessoas sentem-se bem com o
que fazem, onde fazem e estão conscientes Existem dificuldades reais no gerenciamento
de seu papel na construção de um ambiente da qualidade de vida no ambiente de
mais sustentável, consequentemente trabalho, como a heterogeneidade de perfis
cooperam para o bem da coletividade. individuais e socioeconômicos das pessoas
que formam a força de trabalho de cada
O avanço da cultura sustentável das
empresa, a natureza dos impactos dos
organizações deve se direcionar para o
sistemas de qualidade no desempenho de
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bem-estar e saúde da empresa em todos os Donaire (1999, p.102) citado por Amato Neto
seus níveis, com impactos político- (2011, p. 22) assevera que “se a empresa
organizacionais (LIMONGI-FRANÇA, 1996). pretende implantar a gestão ambiental em sua
Contudo, é importante que as organizações estrutura organizacional, deve ter em mente
de modo geral invistam no gerenciamento da que seu pessoal pode transformar-se na
QVT, pois “o paradigma é que o ser humano maior ameaça ou no maior potencial para que
em condições favoráveis à expressão de sua os resultados esperados sejam alcançados”.
humanidade gera resultados visíveis na
É necessário encontrar maneiras de capacitar
organização como um todo (LIMONGI-
e conscientizar os servidores da importância
FRANÇA, p. 137, 1996)”.
de sua participação na construção de uma
É indispensável que o gestor de pessoas instituição amiga do meio ambiente; de que é
preocupe-se em garantir aos empregados um preciso utilizar com parcimônia os recursos
ambiente de trabalho atraente e capaz de naturais, uma vez que estes podem se
proporcionar-lhes a satisfação da maioria de esgotar rapidamente.
suas necessidades individuais. É preciso
As ações de treinamento e desenvolvimento
garantir também que o empregado possa
de pessoas, expressas através das suas
confiar na organização (GIL, 2008).
ações de capacitação, podem ser
A administração pública deve buscar estratégicas para a melhoria do desempenho
constantemente uma melhor qualidade de organizacional (OLIVEIRA et al., 2017).
vida no trabalho para os seus servidores,
A comunidade onde a organização está
promovendo ações de desenvolvimento
inserida também deve ser mobilizada para
pessoal e profissional. Para tanto, as
que o crescimento econômico não seja
instituições públicas devem desenvolver e
predatório, mas sustentável. Os defensores
implantar programas específicos que
de uma perspectiva moderna do investimento
envolvam o grau de satisfação das pessoas
social de empresas afirmam que atualmente a
com o ambiente de trabalho, melhoramento
relação com a comunidade pode ser
das condições ambientais gerais, promoção
extremamente frutífera, visto que formas
da saúde e segurança, integração social e
criativas e mais adequadas às realidades
desenvolvimento das capacidades humanas,
sociais com suas especificidades podem
entre outros fatores.Também se faz
surgir do contato entre gerentes e
necessário avaliar, de forma sistemática, a
funcionários com indivíduos empreendedores,
satisfação dos servidores com seu ambiente
pertencentes às comunidades atendidas
de trabalho, pois, nesse processo de
pelos projetos sociais (WILDHAGEN et al.,
autoconhecimento, as sondagens de opinião
2015).
interna são uma importante ferramenta para
detectar a percepção dos funcionários sobre As instituições educacionais, entre elas as
os fatores intervenientes na qualidade de vida universidades, estão aptas a cumprir o papel
e na organização do trabalho (BRASIL, 2017). de disseminadoras do conhecimento
ambiental, pois, além de terem como função a
Nesse intuito de avaliação, desenvolveu-se
educação profissional e acadêmica, têm
uma pesquisa quali-quantitativa para
como função a educação para a cidadania
investigar a satisfação dos servidores técnico-
das pessoas que ali buscam instrução, para a
administrativos da Unidade Acadêmica de
convivência em comunidade.
Serra Talhada com seu ambiente laboral. As
decorrências encontram-se explanadas no Portanto, a investigação da gestão do
capítulo referente à discussão dos resultados. conhecimento aliada à educação ambiental,
nas práticas das universidades, pode
proporcionar eficácia na produção e
2.3.2. SENSIBILIZAÇÃO E CAPACITAÇÃO disseminação de informação e conhecimento
DOS SERVIDORES aos cidadãos, possibilitando a formação de
cidadãos conscientes de seu papel através
Esse eixo da A3P também se refere ao
da mudança de hábitos de consumo,
gerenciamento de pessoas no sentido de
contribuindo para um desenvolvimento
envolvê-las na busca de meios para
ecologicamente sustentável (AMATO NETO,
preservação do meio ambiente e de ações
2011).
que promovam o desenvolvimento
institucional de modo sustentável. Quanto a esse eixo temático, encontra-se uma
exposição das ações existentes na UAST no
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capítulo referente aos resultados e discussão anteriormente, buscaram investigar sobre a


dos dados. integração social interna entre os pares e a
comunidade acadêmica como um todo e o
respeito à legislação no que tange à liberdade
3. METODOLOGIA de expressão, privacidade pessoal e
tratamento justo dentro da instituição.
O presente trabalho se configura como estudo
de caso realizado na Universidade Federal A quarta dimensão foi composta por questões
Rural de Pernambuco (UFRPE), mais de quatro ou cinco pontos, dependendo de
especificamente em sua Unidade Acadêmica sua finalidade. Os cinco pontos são os
de Serra Talhada (UAST), localizada no Sertão mesmos das dimensões anteriores e os
do Pajeú do estado de Pernambuco. O estudo quatro pontos foram: sim, parcialmente, não e
foi realizado através de uma pesquisa quali- não sei informar. Seu objetivo foi verificar a
quantitativa exploratória, que possibilitou o percepção dos respondentes sobre as
aumento da familiaridade da pesquisadora condições de segurança e saúde no trabalho.
com ambiente para a realização da pesquisa
A última dimensão objetivou conhecer o nível
mais precisa e a clarividência de conceitos
de satisfação dos servidores quanto ao seu
(MARCONI; LAKATOS, 2008), usando
ambiente de trabalho de modo geral, numa
procedimentos específicos para coleta de
escala de 1 a 10, onde 1 significaria que ele
dados. O levantamento de informações sobre
estava totalmente insatisfeito com seu
o eixo Qualidade de Vida no Ambiente de
ambiente e trabalho e 10 que estava
Trabalho foi realizado através de um
totalmente satisfeito.
questionário estruturado com questões
fechadas e uma questão aberta, aplicado O questionário conteve ainda uma questão
durante duas semanas aos servidores aberta, disposta ao seu final, a qual averiguou
técnico-administrativos da UAST, excluída a se o respondente tinha considerações a fazer
primeira autora deste trabalho e os servidores acerca de alguma questão relacionada
que se encontravam afastados durante a anteriormente ou sobre o tema Qualidade de
aplicação dos questionários, totalizando 56 Vida no Ambiente de Trabalho da UAST que
partícipes, que correspondem a 92% do total não tenha sido abordada nesse instrumento.
de servidores.
Posteriormente foram aplicados dois
Os objetivos da pesquisa foram explanados questionários à Direção Administrativa da
aos participantes pela primeira autora do Unidade Acadêmica, chefia imediata dos
estudo. As questões procuraram enfocar os servidores em estudo, com a finalidade de
aspectos mais importantes para a levantar dados referentes aos dois eixos aqui
caracterização do objeto, tendo sido tratados.
baseadas principalmente nas sugestões da
O primeiro questionário tratou sobre QVT,
Cartilha da Agenda Ambiental na
contendo duas questões abertas sobre quais
Administração Pública (A3P).
ações a gestão da UAST tem implantado para
Foram elaboradas vinte questões para auto- desenvolver melhor a qualidade de vida no
preenchimento pelo público alvo da pesquisa, ambiente de trabalho dos servidores técnico-
com um conjunto de afirmações divididas em administrativos e se existia algum projeto que
cinco dimensões que refletiram sobre a envolvesse essa temática.
satisfação dos indivíduos com seu ambiente
O segundo, sobre sensibilização e
de trabalho. As alternativas de resposta, para
capacitação dos servidores, conteve três
cada item, distribuíram-se em uma escala tipo
questões abertas, as quais perguntaram se a
Likert de quatro ou cinco graus.
direção tinha conhecimento sobre a A3P,
A primeira dimensão do questionário foi quais atividades a gestão da UAST têm
composta por cinco pontos: nunca, desenvolvido para atender à demanda de
raramente, às vezes, frequentemente e sensibilização e capacitação dos servidores
sempre. O objetivo foi avaliar a percepção em relação à preservação do meio ambiente e
dos servidores quanto ao uso e ao desenvolvimento sustentável e se existe
desenvolvimento de suas capacidades nas algum projeto atual ou futuro com essa
funções que desempenham. finalidade.
As segunda e terceira dimensões, também Fez-se uso também, para coleta de dados, da
compostas pelos cinco pontos citados observação in loco direta. Esse tipo de

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observação, ao mesmo tempo em que Vida no Ambiente de Trabalho (QVT) e,


permite a coleta de dados de situações, consequentemente, na satisfação dos
envolve a percepção sensorial do observador, servidores com a organização. Variável
distinguindo-se, enquanto prática científica, independente é aquela que influencia ou afeta
da observação da rotina cotidiana (MARTINS, outra variável (tratando-se nesse estudo da
2008). QVT); é fator determinante, condição ou
causa para determinado resultado
Por último realizou-se a análise dos dados,
(MARCONI; LAKATOS, 2008).
onde se analisou os dados relevantes, com
suas respectivas discussões e conclusões. A tabela 1 demonstra que, quanto ao uso e
desenvolvimento de capacidades, 31,5% dos
servidores acreditam que têm suas
4. APRESENTAÇÃO E ANÁLISE DOS habilidades aproveitadas frequentemente,
RESULTADOS enquanto apenas 8,7% sempre as aplicam. A
variável “autonomia” teve resultado similar.
4.1. QUALIDADE DE VIDA NO AMBIENTE DE
Sobre o significado do trabalho, a maioria dos
TRABALHO
sujeitos respondeu que é positivo. “O
A análise dos dados evidenciou que, para a significado do trabalho pode ser positivo
maioria das questões, os servidores quando se relaciona à possibilidade de
participantes da pesquisa apresentaram construção, de identidade e de
respostas com níveis diferenciados, embora autorrealização. E pode ser negativo ao ser
concentrados nas posições medianas, sobre considerado sofrimento, punição, castigo e
a percepção das variáveis independentes um peso para quem o realiza (SAMPAIO, p.
que, de acordo com a Cartilha A3P, podem 08, 2015)”.
influenciar positivamente na Qualidade de

Tabela 1 - Resumo das variáveis influentes sobre a Qualidade de Vida no Trabalho:

Variáveis N R A F S
Dimensões Frequência
Aproveitamento das
habilidades % 8,7 12,2 38,5 31,5 8,7
Uso e desenvolvimento
Autonomia nas atividades % 8,7 5,2 36,8 40,3 8,7
de capacidades
Variável Percepção Positiva Indiferente Negativa
Significado do trabalho % 78,1 16,3 5,4

Integração social e Variáveis Frequência N R A F S


interna Existência de preconceitos % 18,1 21,8 47,2 9 3,6
Senso comunitário % 7 15,7 57,8 17,5 1,7
Variáveis Frequência N R A F S
Liberdade de expressão % 5,2 7 24,5 38 24,5
Respeito à legislação
Privacidade pessoal % 0 12,9 33,3 27,7 25,9
Tratamento imparcial % 5,3 23,2 33,9 32,1 5,3

Não
Variáveis Existência Sim Parcial Não
Sabe
Condições de Controle adequado da
segurançae saúde jornada % 30,3 39,2 16 14,2
Ergonomia: equipamentos e
mobiliário % 14,5 45,4 32,7 7,2
Salubridade dos ambientes % 34,5 32,7 29 3,6
N = Nunca; R = Raramente; A = Às vezes; F = Frequentemente; S = Sempre.
Fonte: Dados da pesquisa

Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 2


14
3

Entre os fatores apresentados na dimensão outros; e os servidores não dispõem de


de integração social, destacamos um ponto orientação nutricional.
crítico: a percepção da existência esporádica
Na Unidade Acadêmica não há uma
de senso comunitário entre os colegas por
Comissão Interna de Saúde do Servidor
quase 58% dos entrevistados, pois, quando
Público –CISSP, no entanto, planeja-se
se tem o apoio dos pares, o trabalho torna-se
implantá-la como uma ação da Política de
mais agradável.
Atenção à Saúde e Segurança do Trabalho do
Dentro dessa dimensão, cabe ressaltar que a Servidor Público Federal, criada pelo Artigo
Unidade Acadêmica não dispõe de áreas 6º, inciso VI, da Portaria nº 3, de 7 de maio de
comuns para integração dos servidores na 2010, da Secretaria de Recursos Humanos
maioria dos seus prédios, como uma copa ou vinculada ao Ministério do Planejamento,
refeitório coletivo, por exemplo. Sobre esse Orçamento e Gestão. Essa informação foi
ponto seguem algumas observações obtida em um dos questionários aplicados
coletadas nos questionários: considerando aos técnicos administrativos.
que a UAST se localiza distante da cidade,
Quanto à existência de um setor específico
muitos servidores sentem a necessidade de
para tratamento de saúde ocupacional, a
espaços para alimentação adequada, o que
Unidade dispõe do Núcleo de Apoio e
promoveria integração entre os colegas ao
Promoção à Saúde (NAPS), entretanto, 28%
passo que traria mais qualidade de vida ao
dos participantes consideram que as
ambiente de trabalho; para promoção dos
atividades desenvolvidas no setor não
relacionamentos interpessoais foi sugerido
contemplam o tratamento de saúde
por alguns dos participantes da pesquisa a
ocupacional como um todo. Observou-se o
realização de eventos institucionais
anseio por políticas que incentivem a prática
promotores de integração, como
de atividades físicas e o acompanhamento da
comemorações de datas festivas,
saúde dos servidores pela instituição, bem
aniversários, entre outros; ações de recepção
como atividades de relaxamento e ginástica
para servidores recém-chegados com
laboral.
apresentação da Unidade, esclarecimentos
sobre suas funções, direitos e deveres para Também foi citado como fator a ser
com a instituição; e promoção de eventos que considerado, a sobrecarga de trabalho em
envolvam a sociedade de Serra Talhada como alguns setores onde apenas um servidor
um todo através do desenvolvimento de esteja lotado e a demanda de atividades é
projetos que aproveitem o conhecimento de alta.
seu quadro técnico-administrativo.
Corroborando com o estudo realizado por
Em se tratando da infraestrutura física da Hipólito et al.(2017) verificou-se um número
UAST, percebeu-se a necessidade de inexpressivo de programas voltados para a
espaços mais adequados (amplos) para saúde e bem-estar dos trabalhadores, sendo
alguns setores, a fim de melhorar a realização que a implantação de políticas eficientes -
das atividades administrativas. estruturadas, com objetivos definidos - na
Unidade Acadêmica poderia minimizar tal
Sobre a terceira dimensão do questionário, os
situação.
resultados se mostraram mais positivos que
negativos, no que tange à liberdade de Constatou-se junto à direção administrativa da
expressão, privacidade e tratamento UAST que realmente não existem projetos em
imparcial. funcionamento. Porém, a administração atual
declarou estar trabalhando na implantação de
Quanto às questões de saúde e segurança,
alguns projetos, tais como programas de
na quarta dimensão, a percepção da maioria
ginástica laboral, ergonomia mais adequada,
dos servidores é de que os fatores influentes
treinamento e desenvolvimento profissional e
existem parcialmente na Unidade Acadêmica.
ações que trabalhem a melhoria do clima
O acesso aos portadores de deficiência física
organizacional na instituição.
existe, mas não é adequado à diversidade de
deficiências e não contempla toda a sua Uma ação interessante que ocorre desde o
estrutura. final do ano de 2016 na organização em
estudo são reuniões mensais onde são
As ações de promoção de ginástica laboral e
escalados setores administrativos para
outras atividades relacionadas são raras,
apresentar quais as atividades
assim como a formação de grupos de apoio
desempenhadas por cada setor,
anti-tabagismo, alcoolismo, drogas, entre
Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 2
15
3

demonstrando aos pares como está a A última dimensão pesquisada, com dados
situação atual e qual é a situação almejada. expostos no gráfico 1, diz respeito ao nível de
Dessas reuniões devem participar todos os satisfação dos servidores no ambiente de
servidores do quadro administrativo da UAST, trabalho. O termo satisfação no trabalho
quando não for possível, deve comparecer refere-se a um conjunto de sentimentos que
um representante de cada setor. Observa-se um indivíduo nutre em relação ao seu
que essa é uma iniciativa simples, porém trabalho. Uma pessoa com alto nível de
proveitosa no sentido de que, ao mesmo satisfação com seu trabalho apresenta
tempo em que os servidores têm uma visão atitudes positivas em relação a ele, enquanto
do que ocorre na organização em que aquela insatisfeita apresenta atitudes
trabalham, podem ser promovidos momentos negativas (Robbins, 2009).
de integração entre os colegas nos intervalos
da reunião, como no coffeebreak, por
exemplo.

Gráfico 1 - Nível de satisfação dos servidores com ambiente de trabalho:

Percentuais de Satisfação com o Ambiente de Trabalho

30

25

20

15

10

0
1 2 3 4 5 6 7 8 9 10
Fonte: Dados da pesquisa

A partir dos percentuais apresentados acima, 4.2 SENSIBILIZAÇÃO E CAPACITAÇÃO DOS


percebe-se que 25% dos participantes SERVIDORES
atribuíram pontuação 9 ao seu nível de
A sensibilização busca criar e consolidar a
satisfação, enquanto os valores mais
consciência cidadã da responsabilidade
próximos se concentraram nos níveis 6, 7 e 8.
socioambiental entre os servidores. O
A média do nível de satisfação dos servidores
processo de capacitação contribui para o
foi de 6,9 pontos na escala de 1 a 10.
desenvolvimento de competências
Apesar da ausência de alguns fatores institucionais e individuais, fornecendo
importantes para a qualidade de vida no oportunidade para os servidores
ambiente trabalho, percebeu-se que os desenvolverem atitudes para melhorar o
servidores estão relativamente satisfeitos, desempenho de suas atividades dentro e fora
contudo almejam melhores condições em sua das organizações em que trabalham (BRASIL,
QVT. Alguns participantes destacaram a 2009).
importância da criação de programas de
Recentemente realizou-se na UAST um curso
desenvolvimento de potenciais
de capacitação em “Responsabilidade
(desenvolvimento pessoal e gestão de
Socioambiental nas Organizações”, tendo
pessoas) e da capacitação dos seus quadros
como público alvo os professores e técnicos
em suas áreas de atuação.
administrativos lotados na Unidade
Acadêmica. Através da observação e do
contato com o agente de capacitação do
Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 2
16
3

curso, constatou-se que houve poucas Vale salientar que as mudanças de


inscrições e frequência ínfima ao referido paradigmas para temas ambientais exigem
curso. transformação de velhos hábitos e formas de
estruturas burocráticas por organizações mais
Diante disso, sugere-se que se busquem
flexíveis e adaptáveis ao momento atual. Para
maneiras de atrair mais pessoas para esse
isso, alguns fatores precisam ser
tipo de evento, pois se nota a falta de
considerados: criatividade, fortalecimento
interesse ou disponibilidade para tratar dessa
institucional, motivação e formação de
tão importante temática. É necessário pensar
pessoal para a gestão ambiental (SEIFFERT,
o futuro, “pensar verde”.
2014).
Faz-se mister a conscientização e o
desenvolvimento de uma abordagem
integrada entre a função de recursos 5. CONSIDERAÇÕES FINAIS
humanos e a gestão ambiental, uma vez que
Este trabalho teve como objetivo verificar a
a introdução da variável ecológica na
aplicação das diretrizes da A3P no que
instituição gera mudança organizacional
compete aos eixos Qualidade de Vida no
(SEIFFERT; LOCH, 2005 apud AMATO NETO,
Trabalho (QVT) e Sensibilização e
2011).
Capacitação dos Servidores na Unidade
Questionada sobre o conhecimento da A3P, a Acadêmica de Serra Talhada (UAST). Através
gestão afirmou conhecer parcialmente. da observação direta e da análise dos dados,
Quanto a isso, procura implementar cláusulas pode-se afirmar que o nível de maturidade da
de sustentabilidade nas compras e instituição estudada quanto a essas temáticas
contratação de bens e serviços pela ainda é baixo, no entanto, há potencial de
instituição, orientar a gestão adequada de aplicabilidade no sentido de que seu corpo
reciclagem dos resíduos gerados na unidade técnico-administrativo tem consciência sobre
e promover a economia de recursos naturais e os pontos que precisam melhorar na sua QVT
a redução de gastos institucionais. e podem ser capacitados e sensibilizados
quanto à sustentabilidade no seu trabalho.
Em se tratando das ações de sensibilização e
capacitação dos servidores em relação à A direção administrativa se mostrou aberta a
preservação do meio ambiente e ao trabalhar na implantação de algumas ações
desenvolvimento sustentável, a direção nesse sentido. Atitudes que proporcionem
administrativa não estava desenvolvendo mais bem-estar aos servidores, recursos
qualquer ação no momento da pesquisa, essenciais ao funcionamento da instituição, só
entretanto, abordada sobre ações futuras de tendem a fazer a universidade prosperar. Os
sustentabilidade na Unidade Acadêmica, resultados aqui apresentados provam isso e
assegurou que, atualmente, há em execução podem contribuir para a concretização desse
um projeto de gestão na reciclagem dos objetivo, no sentido de que alguns entraves
resíduos gerados na unidade, com a criação foram expostos.
de uma comissão gestora, envolvendo todos
Sugere-se que sejam consideradas as
os seguimentos da comunidade acadêmica.
observações aqui expostas na elaboração de
Além disso, existem dois projetos de projetos futuros de intervenção na QVT dos
execução futura. O primeiro, de redução do servidores. Intervenções voltadas para a
consumo de energia elétrica, iniciando pela promoção da capacidade do trabalho,
troca de todas as lâmpadas fluorescentes por interação com os pares, prevenção de
lâmpadas de Light Emitting Diode (LED) de doenças, entre outros, têm efeitos benéficos
menor consumo. Como também, pretende-se para os trabalhadores desde que sejam
realizar campanhas educativas pela prática planejadas, implementadas e avaliadas
do consumo consciente pelos usuários. (HIPÓLITO et al.,2017).
Atualmente, o sistema de LED é muito comum
Quanto às ações que incentivem a
e mais econômico do que antigos modelos de
capacitação e sensibilização dos servidores
iluminação. O segundo projeto, diz respeito à
enquanto responsáveis pela sustentabilidade
instalação de um sistema de captação de
do ambiente em que vivem, constatou-se que
águas das chuvas vindas dos telhados dos
são isoladas e a UAST carece de práticas
prédios, para um grande reservatório que
mais efetivas. O fato de a gestão estar
será utilizado para irrigação de plantas e para
buscando implementar novas práticas é um
o consumo pelos animais dos projetos
realizados pela Unidade Acadêmica.
Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 2
17
3

passo importante para o alcance desse É necessário pensar global e agir local para
propósito. atuar de maneira proativa em defesa dos
bens naturais comuns a todos os seres dessa
Para pesquisas futuras, sugere-se que os
geração e das que virão.
demais eixos da Agenda Ambiental na
Administração Pública possam ser explorados
e analisados, considerando sua importância
para a construção de instituições
socioambientalmente responsáveis.

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Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 2


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Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 2


19
3

Capítulo 2

Antônio Wagner Chagas Magalhães


Cláudia Buhamra Abreu Romero
José Welliton Silva do Nascimento
Glailton Robson Costa Pinto

Resumo: Este trabalho objetiva investigar a atitude e o comportamento ambiental


de participantes de eventos que utilizam a sustentabilidade como tema. Para tanto,
realizou-se uma pesquisa do tipo survey, com uma amostra não probabilística e por
conveniência, mediante a aplicação de questionário semiestruturado a 248
participantes do evento esportivo “Um mundo mais verde começa com seu SIM –
Diga SIM”, promovido pelas Farmácias Pague Menos, na cidade de Fortaleza-CE.
Os resultados mostram que, apesar dos competidores praticarem alguns
comportamentos sustentáveis (a maioria sempre fecha a torneira ao escovar os
dentes, evitando o desperdício de água; alguns realizam a separação do lixo para
reciclagem), o significado da palavra sustentabilidade ainda não é muito claro para
os entrevistados, sendo relacionado apenas ao meio ambiente, e a grande maioria
não sabia que sustentabilidade era tema do evento do qual participavam.

Palavras-chave: Sustentabilidade; Sustentabilidade em Eventos; Comportamento


Ambiental.

Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 2


20
3

1 INTRODUÇÃO realização, o consumo de energia elétrica e a


neutralização das emissões de gás carbônico
O Brasil tem se destacado no setor de
(CO2), gerados durante o evento, por meio do
eventos, sediando não apenas shows
plantio de árvores nativas (MATIAS, 2011, p.
musicais nacionais e internacionais, como
200).
também feiras, seminários acadêmicos,
exposições, eventos corporativos e, um Os eventos, por serem considerados
destaque maior, para as competições manifestações com funções muito importantes
esportivas de proporção mundial sediadas na vida social das pessoas que participam,
nos últimos anos no país, tais como: Copa das além da oferta de lazer e entretenimento,
Confederações (2013), Copa Mundial de podem contribuir para a disseminação do
Futebol (2014), Jogos Olímpicos (2016) e conhecimento e conscientização dos
Jogos Paralímpicos (2016). participantes para um determinado assunto,
possibilitando o fortalecimento dos temas por
O II Dimensionamento Econômico da Indústria
eles propostos (MELO NETO, 1998). Canton
de Eventos no Brasil – 2013, pesquisa
(2002) considera que os eventos podem ser
realizada pelo Serviço Brasileiro de Apoio às
instrumentos de poder, que movimentam uma
Micro e Pequenas Empresas – SEBRAE,
sociedade, manipulam as pessoas e, por fim,
aponta que o mercado de eventos no Brasil
acabam criando alterações no campo social,
está em plena expansão e cresce por volta de
econômico e político dessa sociedade.
14% ao ano, aumentando a sua participação
no PIB de 3,1%, em 2001, para 4,32%, em Para fins deste trabalho, interessa refletir
2013, sendo responsável por 7,5 milhões de sobre a sustentabilidade no setor de eventos,
empregos diretos, indiretos e terceirizados. por se tratar de um espaço que amplia “a vida
Constatou-se também um aumento de 153% social e pública e a participação conduz as
no número de participantes (de 79,8 para pessoas para a experimentação conjunta de
202,2 milhões), 80% no número de eventos emoções, desenvolvendo seu senso crítico,
realizados, passando de 330 mil eventos para aprimorando suas visões, prezando a
mais de 590 mil no mesmo período de liberdade e adquirindo maior
comparação (SEBRAE, 2014). responsabilidade” (MELO NETO, 1998, p. 14).
Por prestar serviço a diversos segmentos e Segundo Melo Neto (1998), tem-se o início de
movimentar várias empresas e instituições, uma nova era de eventos temáticos com
públicas e privadas, sendo um ator maior envolvimento do público participante.
multiplicador de ações mitigatórias nas mais Assim sendo, e considerando a utilização do
diversas esferas da sociedade, a prática de tema sustentabilidade em eventos como
organização de eventos gera impactos nas forma de disseminação da consciência
três dimensões da sustentabilidade sugeridas ambiental dos participantes, emerge a
pelo Triple Bottom Line de Elkington (1994): seguinte pergunta de pesquisa: Participantes
ambiental, social e econômico (MATIAS, de eventos com apelo ecológico possuem
2011). atitudes e comportamentos sustentáveis?
Assim, o objetivo do presente estudo é
O desenvolvimento da consciência ambiental
investigar a atitude e o comportamento
na sociedade contemporânea e a
ambiental de participantes de eventos
consequente preocupação em tornar o
esportivos que utiliza a sustentabilidade como
planeta mais limpo e saudável, fez com que
tema. Para o alcance do objetivo a que se
os organizadores de eventos pensassem em
propõe, foram pesquisados os participantes
formas de conservação ambiental também na
da corrida “Um mundo mais verde começa
realização de eventos (MACDOWELL;
com seu SIM – DIGA SIM”, promovida pelas
SILBERBERG, 2010). Para MATIAS (2011) um
Farmácias Pague Menos, na cidade de
evento que seja ecologicamente correto,
Fortaleza-CE.
economicamente viável, socialmente justo e
culturalmente aceito, isto é, que busca O estudo está estruturado em cinco seções:
sustentabilidade, deve levar em após esta primeira, de caráter introdutório,
consideração, em seu processo de segue a seção 2 com o referencial teórico no
planejamento e realização, os impactos qual se baseia a investigação; a seção 3
ambientais, desde a mensuração até a apresenta a metodologia aplicada,
destinação dos resíduos gerados em sua discorrendo-se sobre os modelos, os dados e

Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 2


21
3

a formulação da questão; a seção 4 traz a sociólogo inglês John Elkington, que defende
apresentação dos resultados e discussões da um modelo de mudança social fundamentado
investigação; na seção 5, são feitas as nos Três Pilares da Sustentabilidade - Triple
considerações finais; e, por fim, apresentam- Bottom Line (ELKINGTON, 1994) ou tripé da
se as referências. sustentabilidade. O conceito do Triple Bottom
Line, analisa a sustentabilidade sob três
enfoques, considerados seus pilares:
2 REFERENCIAL TEÓRICO econômico, cujo propósito é a criação de
empreendimentos viáveis, atraentes para os
A adoção de princípios e ações de gestão
investidores; ambiental, cujo objetivo é
compatíveis com os ideais de
analisar a interação de processos com o meio
sustentabilidade e responsabilidade
ambiente sem lhe causar danos permanentes;
socioambiental tem se tornado o grande
e social, que se preocupa com o
desafio para um número crescente de
estabelecimento de ações justas para
empresas, tendo em vista que, com o passar
trabalhadores, parceiros e sociedade
dos anos, a sociedade vem desenvolvendo
(ELKINGTON, 1994).
novos valores que levam a mudanças de
pensamentos e atitudes dos indivíduos que a Elkington (2001) defende que os negócios
compõem. precisam ser gerenciados não apenas do
ponto de vista financeiro, mas também
considerando aspectos sociais e ambientais e
2.1 SUSTENTABILIDADE E O aponta que, por muito tempo, a agenda da
COMPORTAMENTO AMBIENTAL sustentabilidade foi apresentada como uma
tentativa de harmonizar o pilar econômico
O crescimento das preocupações ambientais
com o pensamento emergente do pilar
foi surgindo de forma gradativa na sociedade
ambiental, mas que vem se tornando ainda
e se deu muito lentamente entre seus agentes
mais complexa do que os executivos podiam
formadores, ou seja, indivíduos, governos,
imaginar, na medida em que se estabelece o
organizações internacionais, entidades da
pensamento em três pilares, ou seja,
sociedade civil, dentre outros (BARBIERI,
complementando com o elemento da justiça
2007).
social (ELKINGTON, 2001).
Em 1987, o Relatório Brundtland, intitulado
A preocupação com posturas socialmente
Nosso Futuro Comum, apresentado pela
corretas, ambientalmente sustentáveis e
Comissão Mundial sobre Meio Ambiente e
economicamente viáveis se faz cada vez mais
Desenvolvimento das Nações Unidas, marcou
presente e propagado entre os tópicos de
a definição do conceito da expressão
gestão (ALIGLERI; ALIGLERI;
“desenvolvimento sustentável”, definido como
KRUGLIANSKAS, 2009), inclusive na gestão
“o desenvolvimento que atende às
de eventos, visto o crescimento do setor de
necessidades das gerações presentes sem
eventos e da necessidade das empresas
comprometer a possibilidade das gerações
desenvolverem ações sustentáveis.
futuras de atenderam as suas próprias
necessidades” (COMISSÃO MUNDIAL A gestão sustentável tornou-se uma
SOBRE MEIO AMBIENTE E importante ferramenta de competitividade
DESENVOLVIMENTO, 1988, p. 46). para as empresas que estão adotando
Desenvolvimento sustentável é, portanto: estratégias variadas, buscando reduzir os
impactos ambientais, bem como melhorar a
“[...] um processo de transformação no
eficiência operacional, identificando
qual a exploração dos recursos, a direção
oportunidades de redução de custos e de
dos investimentos, a orientação do
riscos ambientais.
desenvolvimento tecnológico e a mudança
institucional se harmonizam e reforçam o Segundo Azevêdo et al. (2010), os primeiros
potencial presente e futuro, a fim de estudos a abordar a relação comportamento
atender as necessidades e aspirações do consumidor e meio ambiente datam do
humanas” (CMMAD, 1988, p. 49). final da década de 1960 e início da década
de 1970. Inicialmente, estes estudos tinham
Assim, emergem novas abordagens no
como foco o comportamento do consumidor
contexto das organizações empresariais
socialmente responsável sendo a análise do
alinhadas aos preceitos do Desenvolvimento
comportamento do consumidor em relação ao
Sustentável, entre elas está o conceito do
meio ambiente uma questão secundária
Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 2
22
3

destes estudos. Com o passar dos anos, a produtos que possuem resíduos químicos
questão ambiental passa a ser o centro de (CALZADA, 1998).
diversos estudos do comportamento do
De acordo com Garcia et al. (2003), o
consumidor.
conhecimento das pessoas quanto aos
Bodur e Sarigöllü (2005 apud AZEVEDO, problemas ambientais é fator determinante
2010) afirmam que os estudos do para a sensibilização e, consequentemente, o
comportamento do consumidor relacionados comportamento ambiental, fazendo com que
a temas ambientais mudaram de foco ao elas prefiram produtos verdes e tornando-se,
longo dos anos. De acordo com os autores, assim, verdes. Assim, o comportamento
até a década de 1970 o foco era em ecologia ambiental e as respostas ao meio ambiente
e conservação de energia. Do início dos anos são influenciados pelos conceitos nele
de 1980 até os anos de 1990 o tema principal adquiridos.
foi relacionado às questões ligadas à poluição
do ar e como esta afetava as grandes áreas
urbanas. Atualmente o tema central de 2.2 SUSTENTABILIDADE NA GESTÃO DE
pesquisa é o marketing verde que considera o EVENTOS
processo decisório de compra além do
O desenvolvimento da consciência ambiental
comportamento pós compra (Bratt, 1999 apud
na sociedade contemporânea e a
AZEVEDO, 2010).
consequente preocupação em tornar o
O conhecimento ambiental pode ser definido planeta mais limpo e saudável, faz com que
como a tendência de um indivíduo em se os organizadores de eventos também pensem
posicionar pró ou contra as questões em formas de conservação ambiental para a
ambientais. Assim, as pessoas com mais realização de eventos (MACDOWELL;
conhecimento ambiental tendem a tomar SILBERBERG, 2010).
decisões levando em consideração o impacto
Os eventos, por serem encontros planejados,
ambiental de suas posturas e ações
algumas vezes de grande visibilidade, onde
(BEDANTE, 2004).
uma experiência é criada e/ou uma
O conhecimento ambiental, segundo Butzke mensagem é transmitida, ampliam “os
et al. (2001), pode ser definido como a espaços para a vida social e pública e a
mudança de comportamento, tanto de participação conduz as pessoas para a
atividades quanto em aspectos da vida, dos experimentação conjunta de emoções,
indivíduos e da sociedade em relação ao desenvolvendo seu senso crítico,
meio ambiente. É essencialmente uma aprimorando suas visões, prezando a
questão de educação. O autor completa que liberdade e adquirindo maior
o conhecimento ambiental é um conjunto de responsabilidade” (MELO NETO, 1998, p. 14).
conceitos adquiridos pelas pessoas mediante Segundo a Norma ISO 20121 (2012), sistema
as informações percebidas no ambiente. de gestão que dita os processos para a
gestão de eventos sustentáveis, a realização
Byrney (2001) afirma que o nível individual de
de eventos gera impactos sociais,
conhecimento ambiental, bem como o nível
econômicos e ambientais positivos e
de orientação ambiental ou compromisso
negativos.
poderão afetar o comportamento do
consumidor, levando-o a realizar Para um evento alcançar a sustentabilidade,
comportamentos ambientais. Uma das primeiro deve-se refletir sobre o que pode
principais características do consumidor que ocorrer no local e no entorno de onde o
possui conhecimento ambiental é ao seu alto evento será realizado, e fazer uma análise do
grau de informações sobre as questões orçamento logo no início da organização, já
ambientais, ele sabe exatamente o que quer. que um evento sustentável pode sair de 30 a
Em suas compras presta atenção e cuidado 50% mais caro do que um evento
olhando o rótulo do produto, verificando se convencional (MACDOWELL; SILBERBERG,
possui algum selo de certificação, buscando 2010).
informações como as da origem do produto, a
O Instituto Oksigeno (2016), Organização da
forma como foi produzido e se possui
Sociedade Civil de Interesse Público, sem fins
garantias. Questiona a ausência de
lucrativos, que tem como objetivo desenvolver
embalagens degradáveis para produtos
programas de sustentabilidade
orgânicos, evita alimentação industrializada e
socioambiental e pioneiro no conceito de

Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 2


23
3

eventos sustentáveis, cita algumas ações que início de sua concepção, para que o
podem ser praticadas para tornar-se um planejamento tenha como objetivo a
evento sustentável: viabilidade econômica das ações e seja
ambientalmente correto e também
 Inventário das emissões de gases de
socialmente justo, já que para ser
efeito estufa com ações de compensação a
reconhecido como evento sustentável, além
ser realizado antes, durante e pós-evento;
do aspecto ecológico é preciso contemplar
 Gerenciamento de resíduos sólidos outros aspectos, tais como questões
gerados durante o evento, com ênfase em econômicas, sociais e culturais (MATIAS,
Programas de coleta seletiva, Programas de 2011). De acordo com o autor, tão
Educação e Orientação quanto a importantes quanto a adoção de ações
reaproveitamento dos resíduos e transferência sustentáveis por parte dos organizadores do
para Cooperativas de Catadores; evento é a percepção e a colaboração do
público participante para a sustentabilidade
 Divulgação das áreas reservadas
do evento, o que é investigado na presente
para portadores de necessidades especiais;
pesquisa.
 Promover e conscientização ambiental
do público, bem como de parceiros e todos
os envolvidos no evento, gerar ações sociais 3 PESQUISA DE CAMPO
que também promovam a inclusão social,
Este trabalho de pesquisa teve o intuito de
incentivar a preservação do meio ambiente e
investigar a atitude e o comportamento
realizar ações de sustentabilidade e
ambiental de participantes de eventos
cidadania.
esportivos que utilizam a sustentabilidade
Desse modo, o Instituto Oksigeno (2016) como tema.
orienta eventos que buscam a
sustentabilidade de suas ações, inclusive de
natureza temporária, que esteja 3.1 METODOLOGIA
comprometido com alguns parâmetros
A presente pesquisa classifica-se como
básicos da sustentabilidade: ser
exploratória e descritiva, por descrever
ecologicamente correto; ser economicamente
atitudes e comportamentos ambientais de
viável; ser socialmente justo; ser culturalmente
participantes de uma corrida na cidade de
aceito e; capaz de provocar a mudança de
Fortaleza, e quantitativa, uma vez que os
hábitos e cultura de um povo. Assim, eventos
resultados foram analisados por meio de
que adotam essas premissas são capazes de
estatística descritiva.
impactar positivamente seu público direto de
forma imediata e para o futuro.
Segundo Fontes et al (2008) pode-se afirmar 3.2 UNIVERSO E AMOSTRA
que não existe uma regra para alcançar a
A população do presente estudo, é composta
sustentabilidade em eventos, e sim pequenas
pelos corredores participantes do 8º Circuito
ações que juntas impactam em menor ou
de Corridas Farmácias Pague Menos – Etapa
maior intensidade o local e a comunidade
Fortaleza 2017. De acordo com a comissão
onde está sendo realizado:
organizadora, a corrida contou com 7.298
“A sustentabilidade pode ser alcançada em participantes. O evento foi dividido em 2, 5, 10
diferentes níveis: um evento que, além de e 21 km e a quantidade de inscritos foi,
tratar os resíduos gerados pelo serviço de respectivamente: 440, 3.378, 1.611 e 1.475.
alimentação, seleciona a origem do alimento e
A técnica de amostragem foi por
os responsáveis por seu beneficiamento,
conveniência, e os respondentes foram
preocupando-se com a qualidade ambiental e
abordados no momento em que estavam
os benefícios sociais, está abordando o
retirando os kits para participar da corrida. A
problema de forma mais ampla e,
amostra contou com 248 competidores
eventualmente, mais cuidadosa do que
respondentes.
aquele que se atém apenas aos resíduos da
atividade” (FONTES et al, 2008, p. 07).
Portanto, para um evento ser considerado 3.3 CIRCUITO DE CORRIDAS PAGUE
responsável, deve haver um MENOS
comprometimento dos idealizadores logo no
Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 2
24
3

O Circuito de Corridas Farmácias Pague largada da prova na distância de 21k foi às


Menos é um evento elaborado para acontecer 6h15; a largada de 5km e 10km será única, às
em diferentes capitais brasileiras, de acordo 6h30; a largada da prova de 2km acontecerá
com a Comissão Organizadora, o primeiro em seguida, todas no mesmo local. E por
Circuito aconteceu em 2010, em Fortaleza, questões de logística e segurança, a prova
Salvador, São Paulo, Recife e Rio de Janeiro. teve a duração máxima de 3 horas.
As ações da 8ª edição da Etapa Fortaleza,
realizada na Praia de Iracema, em 2017, com
o tema “Um mundo mais verde começa com Figura 1 – Panfleto divulgação da corrida
seu SIM – DIGA SIM”, foram realizadas
durante três dias. No dia 07 de maio a corrida
foi realizada e nos dias 05 e 06 de maio foram
entregues os kits de corrida aos participantes,
na ocasião, a organização do evento
promoveu a troca de frascos de vidro com
tampa plástica e/ou medicamentos vencidos
por brindes: a cada três frascos de vidro com
tampa plástica ou três medicamentos
vencidos o participante ganha um “lixo car”,
sacola para depósito de lixo utilizado em
veículos; e a cada oito frascos de vidro com
tampa plástica ou oito medicamentos
vencidos o participante ganha um estojo.
Estas ações sustentáveis promovidas no
evento têm como objetivo destinar os
medicamentos vencidos para um destino final
adequado e serem incinerados, evitando que
sejam jogados no lixo domiciliar, e os frascos
de vidro com tampa plástica são doados à
Maternidade Escola Assis Chateaubriand,
utilizados por esta instituição para o depósito
das doações de leite materno. Nesta edição, Fonte: 8º Circuito de Corridas Farmácias Pague
o evento arrecadou 58 kg de medicamentos Menos (2017)
vencidos, a organização não informou a
quantidade de frascos de vidro arrecadados.
O evento e as ações sustentáveis promovidas De acordo com a organização do 8º Circuito
durante sua realização foram divulgados por de Corridas Farmácias Pague Menos - Etapa
meio de panfletagem, conforme mostra a Fortaleza 2017, o evento contou com 12 mil
figura 1. inscritos, mas apenas de 7.298, participaram
da corrida. O evento foi dividido em 2, 5, 10 e
O evento tem como base três conceitos: a) 21 km e os inscritos foram 440, 3.378, 1.611 e
sempre bem social - onde parte da renda das 1.475, respectivamente. De acordo com a
inscrições é revertida em doação para classificação contida em Barbosa (2004),
instituições; b) sempre bem ecológico - com considera-se “pequeno evento, com até 200
ações paralelas de cunho ambiental (ex: participantes; médio, entre 201 e 500
recolhimento de medicamentos vencidos, participantes; grande, na faixa acima de 500 e
recolhimento de vidros para aleitamento até 5.000 participantes; e megaevento, com
materno, etc.); e c) sempre bem saúde e público superior a 5.000 participantes”,
beleza - onde os estandes dos portanto, quanto ao porte ou dimensão, a
patrocinadores trazem atrações voltadas para corrida é considerada um megaevento.
a saúde e beleza não só dos participantes da
corrida, mas também para todos os
transeuntes que se utilizam do local da prova 3.4 INSTRUMENTO DE COLETA
para atividades diversas.
Foi utilizado como instrumento de coleta de
Nesta edição, a largada da etapa Fortaleza dados um questionário com questões
realizou-se a partir das 6h15 do dia 07 de fechadas e abertas, aplicado pessoalmente,
maio de 2017. A prova foi realizada nas durante os dias 5 e 6 de maio de 2017, no
distâncias de 2km, 5km, 10km e 21km. A aterro da Praia de Iracema, em Fortaleza-CE.
Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 2
25
3

O questionário utilizado na pesquisa foi uma 4 APRESENTAÇÃO E ANÁLISE DOS


adaptação do Teste do Consumo Consciente RESULTADOS
(TCC), da “Pesquisa Akatu 2012: rumo à
Após coletados, os dados foram analisados
sociedade do bem-estar” (AKATU, 2013). O
utilizando-se os softwares Excel versão 2013 e
Instituto Akatu é uma organização não-
o SPSS versão 19.
governamental sem fins lucrativos que
trabalha pela conscientização e mobilização Em primeiro lugar, apresenta-se a
da sociedade para o consumo consciente e a caracterização do perfil sociodemográfico dos
transição para estilos sustentáveis de vida. respondentes. Em seguida, apresenta-se uma
Desde a sua criação, em 2001, o Akatu análise descritiva de todas as questões do
desenvolve pesquisas que ajudam a questionário. A discussão dos resultados é
identificar oportunidades que levem a novos desenvolvida ao longo da análise, apoiando-
modelos de produção e consumo, se na revisão da literatura.
respeitando o ambiente e o bem-estar, sem
deixar de lado a prosperidade. Em 2003, o
Akatu criou o Teste do Consumo Consciente – 4.1 PERFIL SOCIODEMOGRÁFICO DOS
TCC, utilizado como instrumento de avaliação PESQUISADOS
e orientação do perfil de consciência do
O perfil sociodemográfico dos 248
consumo de pessoas e comunidades,
respondentes, competidores que participaram
formado por uma escala Likert de 4 pontos,
do 8º Circuito de Corridas das Farmácias
cujas respostas variam entre: sempre, às
Pague Menos, em Fortaleza – CE, está
vezes, raramente e nunca.
descrito na Tabela 1:

Tabela 1 - Perfil sociodemográfico


N Porcentagem (%)
Sexo Masculino 141 56,85%
Feminino 107 43,15%
Total 248 100,00
Faixa etária Abaixo de 20 anos 5 2,02
Entre 20 e 29 anos 59 23,79
Entre 30 e 39 anos 123 49,60
Entre 40 e 49 anos 47 18,95
Entre 50 e 59 anos 10 4,03
Acima de 60 anos 4 1,61
Total 248 100,00
Escolaridade Ensino Fundamental
Incompleto 0 0,00
Ensino Fundamental 3 1,21
Ensino Médio 51 20,56
Ensino Superior 194 78,23
Total 248 100,00
Renda Abaixo de R$ 1.000,00 22 8,87
Entre R$ 1.001,00 e R$
2.000,00 64 25,81
Entre R$ 2.001,00 e R$
3.000,00 59 23,79
Acima de R$ 3.000,00 103 41,53
Total 248 100,00
Fonte: Dados da Pesquisa (2017)

Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 2


26
3

Conforme descrito na Tabela 1, pode-se 4.2 PRÁTICAS COTIDIANAS DE


observar que a maioria dos entrevistados é do SUSTENTABILIDADE
sexo masculino (56,85%), tem entre 20 e 50
A segunda parte da pesquisa consiste em
anos (92,34%), possui formação de nível
perguntar aos entrevistados, se eles tinham
superior (78,23%) e possui rendimento familiar
hábitos diários que impactavam na prática de
mensal acima de R$ 2.000,00 (65,32%).
sustentabilidade. Para efeito da presente
análise as respostas sempre e às vezes serão
avaliadas como positivas, enquanto raramente
e nunca serão consideradas negativas.
Conforme descrito na Tabela 2:
Tabela 2 - Práticas cotidianas de sustentabilidade
Sempre As Raramente Nunca Médi DP* N**
vezes a
Costumo fechar a torneira
84,68% 14,11% 0,00% 1,21% 2,82 0,468 248
enquanto escovo os dentes.
Evito deixar lâmpadas
acessas em ambientes 75,81% 18,55% 3,23% 2,42% 2,68 0,656 248
desocupados.
Espero os alimentos
esfriarem antes de guardar 41,94% 38,31% 13,71% 6,05% 2,16 0,879 248
na geladeira.
Desligo aparelhos
eletrônicos quando não 54,84% 34,68% 7,66% 2,82% 2,42 0,753 248
estou usando.
Costumo planejar as
50,81% 34,68% 10,89% 3,63% 2,33 0,811 248
compras de alimentos.
Quando possível, utilizo
também o verso das folhas 57,66% 32,66% 7,66% 2,02% 2,46 0,724 248
de papel.
Costumo planejar a compra
36,29% 35,08% 19,76% 8,87% 1,99 0,959 248
de roupas.
Costumo pedir nota fiscal
(cupom fiscal) quando vou
às compras, mesmo que o 46,37% 32,66% 13,71% 7,26% 2,18 0,927 248
fornecedor não a ofereça
espontaneamente.
Costumo ler atentamente os
rótulos antes de decidir uma 36,69% 37,50% 20,16% 5,65% 2,05 0,892 248
compra.
Em minha casa, separo o
20,16% 34,27% 24,19% 21,37% 1,53 1,041 248
lixo para reciclagem.
Procuro passar ao maior
número possível de pessoas
25,00% 44,76% 24,19% 6,05% 1,89 0,851 248
as informações que aprendo
sobre empresas e produtos.
Comprei produtos orgânicos
20,56% 36,29% 29,03% 14,11% 1,63 0,964 248
nos últimos 6 meses.
Comprei produtos feitos com
material reciclado nos 14,92% 35,89% 35,89% 13,31% 1,52 0,904 248
últimos 6 meses.
*Desvio Padrão; **Total de respondentes
Fonte: Dados da Pesquisa (2017)

Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 2


27
3

Considerando o Teste do Consumo de alguns entrevistados, por causa da


Consciente (AKATU, 2013), a prática dos dificuldade de encontrar esses produtos.
comportamentos relacionados na Tabela 2 Outra razão citada, foi o preço desses itens
somente poderão ser considerados que no geral, na opinião dos respondentes,
sustentáveis quando o entrevistado declara são muito caros, conforme comprovado na
“adotar sempre” ou “ter realizado nos últimos matéria do jornal Folha de São Paulo (2015) “a
seis meses”. Portanto, os comportamentos diferença de preço entre produtos orgânicos
considerados sustentáveis mais praticados e convencionais pode superar em até 270%.
pelos entrevistados são: fechar a torneira ao O preço é um limitador para consumo em
escovar os dentes (84,68%), evitar deixar massa, mas isso ocorre por falta de escala na
lâmpadas acesas em ambientes produção. Com mais vendas, seria possível
desocupados (75,81%), utilizar o verso das reduzir os valores cobrados” (FOLHA DE SÃO
folhas de papel (57,66%) e desligar aparelhos PAULO, 2015).
eletrônicos quando não estão em uso
A pesquisa revela que a renda dos
(54,84%).
entrevistados que responderam “sempre” ao
Surpreende, entretanto, que os item “comprei produtos orgânicos nos últimos
comportamentos adotados “sempre” menos 6 meses” é crescente, embora tenha sido
citados pelos entrevistados foram a compra citada por apenas 10,89% dos entrevistados
de produtos feitos com material reciclado que possuem renda acima de R$ 3.000,00,
(14,92%), a separação do lixo para conforme descrito na Tabela 3:
reciclagem (20,16%) e a compra de produtos
orgânicos (20,56%). Este ocorre, na opinião

Tabela 3 - Renda x “Comprei produtos orgânicos nos últimos 6 meses”


Comprei produtos orgânicos nos últimos 6 meses

Renda Sempre As vezes Raramente Nunca Total N*

Abaixo de R$ 1.000,00 1,61% 2,42 2,82% 2,02% 8,87% 248

Até R$ 2.000,00 4,03% 9,27% 8,47% 4,03% 25,80% 248

Até R$ 3.000,00 4,03% 8,87% 7,26% 3,63 23,79% 248

Acima de R$ 3.000,00 10,89% 15,73% 10,48% 4,44% 41,54% 248

Total 20,56% 36,29% 29.03% 14,12% 100,00% 248


* Total de respondentes
Fonte: Dados da Pesquisa (2017)

Segundo Paço e Raposo (2010) as condições 4.3 CORRIDA E SUSTENTABILIDADE


econômicas influenciam diretamente nos
A pesquisa também investigou se os
índices de consumo da população. A renda é
participantes da corrida tinham conhecimento
geralmente positivamente correlacionada com
do tema da corrida “Um mundo mais verde
a sensibilidade ambiental, e a justificativa
começa com seu SIM – Diga SIM”, se eles
mais comum para essa crença é que os
sabiam das ações voltadas para a
indivíduos podem, em níveis mais altos de
sustentabilidade realizadas pelo evento, a
renda, suportar o aumento marginal nos
troca de frascos de vidro com tampa plástica
custos associados ao apoio às causas
e/ou medicamentos vencidos por brindes, e
verdes, favorecendo assim a oferta de
qual a participação dos corredores nestas
produtos ambientalmente corretos (PAÇO;
ações, de acordo com a Tabela 4.
RAPOSO, 2010).

Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 2


28
3

Tabela 4 - Informações sobre a corrida


SIM NÃO

1. Você sabe qual é o tema do 8º Circuito de Corridas das Farmácias Pague


Menos? 11% 89%

3. Você sabia de alguma ação voltada para a Sustentabilidade promovida pelo


evento? 12% 88%

4. Você participou de alguma dessas ações? 10% 90%


Fonte: Dados da Pesquisa (2017)

Conforme demonstrado na Tabela 4, para a “Para você o que é sustentabilidade? ”.


pergunta: “você sabe qual é o tema do 8º Algumas dessas respostas são apresentadas
Circuito de Corridas das Farmácias Pague abaixo:
Menos? ”, 89% responderam que “não”
[...] “Tentar fazer alguma coisa para melhorar
conheciam o tema da corrida. Os
a natureza, reciclagem, lixo, materiais”
respondentes relataram que houve pouca
(Entrevistado 5).
divulgação por parte da comissão
organizadora e só ficaram sabendo no [...] “Você fazer coisa que preserve o meio
momento que foram entrevistados. Quando ambiente saúde bem-estar do planeta e das
questionados sobre a pergunta: “você sabia pessoas ” (Entrevistado 14)
de alguma ação voltada para a
[...] “Voltado para a natureza, evitar percas e
Sustentabilidade promovida pelo evento? ”, a
melhorar o meio ambiente” (Entrevistado 18).
grande maioria respondeu que não sabia
(89%). Muitos competidores relataram que [...] “A capacidade que uma atividade tem,
não houve divulgação das ações por parte da qualquer que seja ela, de ser feita sem
organização do evento, entretanto, no material influenciar o meio ambiente, sem promover
de divulgação do evento constavam poluição” (Entrevistado 26).
informações sobre as ações desenvolvidas,
Percebe-se dentre os comentários abordados
como constata-se na Figura 1; quando
que os participantes relacionam a
indagados “você participou de alguma
sustentabilidade somente ao meio ambiente,
dessas ações? ”, apenas 10% responderam
desconhecendo os outros dois pilares, isto é,
que participaram. Segundo a organização do
social e econômico. Alguns entrevistados
evento foram arrecadados 58 kg de
também não souberam informar o que é
medicamentos vencidos, a organização não
sustentabilidade, o que demonstra que muitos
informou a quantidade de frascos de vidro
além de não conhecer o tema do evento,
arrecadados.
desconhecem o significado de
Estas informações demonstram que apesar sustentabilidade. As respostam também
do apelo ambiental do evento essa proposta permitem concluir que o conceito de
não teve grande impacto e não atingiu a sustentabilidade ainda é pouco difundido
maioria dos participantes, ou por falta de mais entre os participantes do evento.
divulgação por parte da organização do
evento, ou por falta de interesse dos
competidores, que estão ali participando do 5 CONSIDERAÇÕES FINAIS
evento com o único objetivo de competir e
Este estudo propôs investigar as atitudes e o
acabam não atentando para o tema proposto
comportamento ambiental de participantes de
do evento.
eventos esportivos que utilizam a
Levando em consideração o estudo de sustentabilidade como tema, utilizou-se como
Byrney (2001) no qual afirma que o nível campo de pesquisa o 8º Circuito de Corridas
individual de conhecimento ambiental, bem Farmácias Pague Menos, realizado em
como o nível de orientação ambiental ou Fortaleza, evento que possui apelo ambiental
compromisso poderão afetar o com o tema “Um mundo mais verde começa
comportamento do consumidor, levando-o a com seu SIM – DIGA SIM”.
realizar comportamentos ambientais, realizou-
se uma pergunta aberta aos entrevistados:
Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 2
29
3

Diante das informações apresentadas nos ou não, sendo uma ótima oportunidade de
resultados, nota-se que os comportamentos compartilhar ideais de sustentabilidade com
ambientais mais praticados pelos um número grande de pessoas, podendo
entrevistados, levando em consideração os atingir diversos públicos-alvo.
que responderam “sempre”, são: fechar a
Contudo, para que sejam percebidos os
torneira ao escovar os dentes, evitar deixar
efeitos positivos do engajamento dos
lâmpadas acesas em ambientes
participantes de eventos para uma
desocupados, utilizar o verso das folhas de
conscientização sustentável, é essencial que
papel e desligar aparelhos eletrônicos quando
os mesmos entendam o que é
não estão em uso. Surpreende que o
sustentabilidade e como podem contribuir
comportamento de sempre separar o lixo para
para um mundo mais sustentável. Faz-se
reciclagem ainda é pouco praticado,
importante o investimento em comunicação na
comportamento ambiental considerado
realização de eventos que tem como tema a
básico.
sustentabilidade, visto que a pesquisa
Constatou-se também que apesar do apelo constatou que quase todos os participantes
ambiental do evento essa proposta não teve não tinham conhecimento sobre o tema da
grande impacto e não atingiu a maioria dos corrida e desconheciam as ações de
participantes, ou por falta de mais divulgação sustentabilidade promovidas pelo evento.
por parte da organização do evento, ou por
Como limitação da pesquisa, a investigação
falta de interesse dos competidores, que
da atitude e do comportamento de
estão ali participando do evento com o único
participantes de apenas um evento com apelo
objetivo de competir e acabam não atentando
ambiental, a corrida promovida pelas
para o tema proposto do evento.
Farmácias Pague Menos realizada em
O estudo é relevante porque a adoção de Fortaleza-CE. Diante dessa limitação,
princípios e ações com os ideais de apresenta-se como sugestão de estudos
sustentabilidade tem se tornado o grande futuros, a investigação em mais de um campo
desafio para um número crescente de de pesquisa em eventos, esportivos ou não,
empresas, estes mesmos princípios e ações que tenham como tema a sustentabilidade e
sustentáveis também podem ser adotados na que promovam ações sustentáveis.
realização de eventos, sejam eles esportivos

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Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 2


31
3

Capítulo 3

Marilia Rosa Andrade


Paula Florencia Almeida de Amorim
Nayara Batista Moreira
Leonardo Souza de Almeida

Resumo: O presente estudo verificou a compreensão dos estudantes dos cursos de


graduação em Ciências Contábeis e Administração sobre o conceito de Economia
Circular e sua interface com o Custeio do Ciclo de Vida dos Produtos.
Adicionalmente, investigou se existe relação entre o nível de discussão percebido e
o curso em que estão matriculados; e se há diferença significativa entre alunos
matriculados no penúltimo e no último semestres dos cursos. Para alcançar tal
objetivo, desenvolveu-se uma pesquisa descritiva cuja amostra é composta por 90
alunos. Os dados foram coletados através de pesquisa documental e questionários
analisados estatisticamente por meio do teste T. Os resultados indicam que os
estudantes têm pouco conhecimento sobre o tema e que no Projeto Pedagógico de
cada curso não é prevista a abordagem de conteúdos sobre Economia Circular e
nem do Custeio do Ciclo de Vida. Todavia, não há diferença entre a percepção
entre os alunos dos dois cursos avaliados e nem entre os períodos em que estão
matriculados. Conclui-se que é preocupante o baixo nível de compreensão dos
estudantes sobre esses temas. Este estudo contribui para ampliar e fortalecer o
debate acerca da importância de ferramentas de estratégia de custos na
implementação da Economia Circular.

Palavras-chave: Economia circular. Custos. Sustentabilidade. Custeio do ciclo de


vida.

Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 2


32

1. INTRODUÇÃO aplicação de técnicas com dois objetivos


simultâneos: reforçar o posicionamento
Nos últimos anos, o crescimento populacional,
estratégico da empresa e reduzir seus custos.
a ampliação dos níveis de consumo per
Desta forma, sugere-se que tais ferramentas
capta, custos marginais de extração
utilizadas conjuntamente com a Economia
crescentes para os recursos naturais, os
Circular poderão aumentar a eficácia e a
recentes aumentos significativos nos preços,
eficiência do processo produtivo.
a concentração das reservas de materiais em
países em conflito, a tendência de O sistema de custeio abordado neste estudo
incorporação das externalidades aos custos é o Custeio do Ciclo de Vida. Este tipo de
efetivos das matérias-primas, a pressão e custeio engloba o custo total que a empresa
exaustão sobre os recursos naturais não tem do início ao fim do ciclo de vida do
renováveis, volatilidade do mercado, vêm produto. E, conforme Leitão (2015) a
fazendo com que as questões ambientais Economia Circular inclui-se num quadro
ganhem atenção no cenário empresarial sustentável baseado em “fechar o ciclo de
(NGUYEN; STUCHTEY & ZILS, 2014). vida” dos produtos. Considerando o custo
total do ciclo de vida, identificando os custos
Nesse sentido, a sustentabilidade é um tema
diretos e indiretos, as empresas são capazes
recorrente que tem levantado debates
de projetar e tomar decisões que resultem em
acalorados entre especialistas, sendo
redução de custos de longo prazo. Minimizar
interessante o estudo relacionado à modelos
custos pode reduzir o desperdício além de
de produção que viabilizem o crescimento
outros impactos no meio ambiente.
econômico aliado à preservação ambiental.
Conclui-se que as circunstâncias têm forçado No contexto do ensino superior, os cursos de
uma mudança de postura emergindo a graduação em Ciências Contábeis e
necessidade de repensar o uso de materiais e Administração devem viabilizar a formação de
da energia. É o momento ideal, muitos profissionais que além do conhecimento,
asseguram, para aproveitar os inúmeros compreensão e sabedoria de aplicar o que foi
benefícios da Economia Circular em aprendido devem também, analisar, sintetizar
substituição ao modelo linear “extração – e avaliar o conhecimento num ambiente
fabricação – uso – descarte” vigente. econômico e social cada vez mais complexo
e demandante de informações, e sobretudo
Leitão (2015) corrobora esta ideia afirmando
atendendo aos anseios sociais. A discussão
que a Economia Circular constitui o
sobre Economia Circular, que ainda é
paradigma do sistema do futuro. A Economia
incipiente no Brasil mostra-se relevante e
Circular é "um sistema alimentado por energia
oportuna, no atual contexto do ensino superior
renovável em que os materiais fluem em
para identificar como estão sendo preparados
circuitos fechados seguros e regenerativos”
os futuros profissionais e possíveis lacunas
(MCDONOUGH et al., 2003). Este modelo de
desta formação.
produção possibilita a empresa atingir uma
rentabilidade sustentada garantindo a sua Levando em consideração que o os futuros
vantagem competitiva, realizando desta contadores e administradores atuarão neste
maneira, o desenvolvimento sustentável cenário demandante de políticas de
econômico, social e ambiental. sustentabilidade e que será indispensável o
conhecimento sobre a gestão estratégico de
Assim, diante da necessidade de implementar
custos, o problema de pesquisa deste estudo
novos produtos, modelos de produção são
versa em: Qual a percepção dos discentes
projetados com vistas a gerarem menos
dos cursos de graduação em Ciências
impactos socioambientais e, sendo
Contábeis e Administração de uma
indispensável a gestão de seus custos. Pois,
universidade pública do estado da Bahia em
com a globalização e a alta competitividade
relação aos conceitos da Economia Circular e
dos mercados, exige-se ferramentas que
do Custeio do Ciclo de Vida?
viabilizem uma gestão estratégica e os custos
apresentam-se como diferencial, O objetivo geral desse estudo é verificar o
influenciando na continuidade da nível de compreensão dos discentes dos
organização, e seus reflexos nas decisões, cursos de graduação em Ciências Contábeis
principalmente, em longo prazo (OLIVEIRA et e Administração de uma universidade pública
al., 2015). estadual da Bahia a cerca dos conceitos
inerentes a Economia Circular e o método de
De acordo com Cooper e Slagmuder (2003) a
Custeio do Ciclo de Vida e a interface entre
gestão estratégica de custos se ocupa da

Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 2


33
3

estes conceitos. Como objetivos específicos sustentabilidade para gerar crescimento


têm-se: Avaliar se existe diferença econômico que coadunem com o bem estar
significativa entre as percepções destes social e restauração ecológica dentro dos
graduandos considerando o semestre ou o limites dos ecossistemas (LEITÃO, 2015).
curso em que estão matriculados.
Nesse contexto, o conceito de
No Brasil, nenhum estudo foi realizado sustentabilidade se torna ultrapassado. É
buscando identificar a percepção dos necessária uma atitude audaz, ambiciosa e
estudantes sobre a Economia Circular e o arrojada. Não basta reduzir o consumo de
método de Custeio do Ciclo de Vida (CCV). recursos naturais. É necessário ir além,
Portanto, o assunto é de considerável encontrar meios técnicos para produzir
importância para a pesquisa em objetos que, ao se degradarem, sejam
sustentabilidade, tendo em vista que a absorvidos pela biosfera na forma de
decisão pelo modelo de produção adotado e nutrientes, ou que possam ser reincorporados
o método de custeio escolhido é relevante ao ciclo de produção. É indispensável um
para a empresa e o meio ambiente. Entende- modelo econômico em que os produtos, após
se, portanto, que essa é uma lacuna a ser chegarem ao fim de sua vida útil, não sejam
abordada pela literatura nacional que este lixo, e sim matéria-prima para criar novos
trabalho visa preencher. produtos.
Visando atingir o objetivo proposto, as O modelo de produção predominante na
próximas seções deste trabalho serão sociedade contemporânea é o modelo linear
organizadas da seguinte maneira: a segunda de produção que se baseia na extração de
seção apresentará o referencial teórico sobre matérias primas, produção de bens e
custos, Economia Circular, e alguns estudos descarte de resíduos. Neste modelo, o
anteriores sobre o tema; em seguida, na consumo de recursos se utiliza de uma fonte
terceira seção serão apresentados os finita, os produtos possuem curta durabilidade
procedimentos metodológicos a serem e contempla alta produção de lixo tóxico
adotados; a quarta apresentará os resultados (BRAUNGART; MCDONOUGH; ANASTAS &
da pesquisa com discussão dos mesmos; e ZIMMERMAN, 2003; EMC, 2012; LEITÃO,
na quinta e última seção serão feitas as 2015).
considerações finais.
Como um modelo alternativo, ao modus
2. FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA operandi vigente na atualidade, emerge o
conceito de Economia Circular (EC) que se
Nos tópicos a seguir, apresenta-se a base
trata de um modelo de produção restaurador
teórica que lastreia esta pesquisa, e,
ou regenerativo por intenção e design (ELLEN
complementarmente, uma revisão da literatura
MACARTHUR FOUNDATION, 2012). Este
acerca do tema explorado.
modelo busca primariamente evitar a geração
dos resíduos, e em seguida, elevar ao máximo
o reaproveitamento dos resíduos como
2.1 ECONOMIA CIRCULAR
recursos secundários para outra cadeia de
A dependência da indústria em seus variados produção (COM, 2014; RIBEIRO;
segmentos de recursos finitos se apresenta KRUGLIANSKAS, 2014).
como um grande desafio para a gestão nos
No processo da EC, os materiais percorrem
dias atuais. A escassez de recursos naturais
um “ciclo fechado”, onde os produtos e
não renováveis, o aumento da procura
materiais são desenvolvidos para que voltem
mundial por matérias-primas torna a indústria
à cadeia de produção, isto é, os produtos
refém de importações, aumentos vultosos de
devem ser projetados para que após o seu
preços e volatilidade do mercado (LEITÃO,
ciclo de vida, serem facilmente divisíveis de
2015). Adicionalmente, a quantidade e a
forma a facilitar a sua triagem e maximizar a
qualidade dos materiais utilizados ou de
sua reutilização e reciclagem como matéria-
resíduos são uma das principais razões para
prima (LEITÃO, 2015; RIBEIRO;
os problemas ambientais (BEUREN;
KRUGLIANSKAS, 2014). A Figura 01 ilustra
FERREIRA E MIGUEL, 2013).
esse conceito.
Diante deste cenário, um dos desafios para o
século XXI é a inovação de produtos e
serviços, sistemas produtivos e modelos de
negócio, a partir de um novo paradigma de
Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 2
34

Figura 01 – A Economia Circular

Fonte: Ribeiro e Kruglianskas (2014, p. 04)

As razões que levam a empresa a optar pela material dentro de um fluxo cíclico,
adoção da EC podem ser de ordem possibilitando a trajetória dele “de berço a
econômica, legislativa e ecológica. As razões berço” - de produto a produto, preservando e
econômicas dizem respeito à economia nas transmitindo seu valor (RIBEIRO e
operações industriais, via reciclagem de KRUGLIANSKAS, 2014).
matéria-prima, oriundas dos canais reversos
A EC apoia-se em três princípios de acordo
de reuso e de remanufatura. Quanto à ordem
com Ellen Macarthur Foundation (2012),
legislativa, as empresas devem obedecer à
conforme apresenta o quadro 1.
legislação vigente, como por exemplo, a Lei
Federal nº 12305/2010 que estabelece a A EC engloba os ciclos de nutrientes técnicos
Política Nacional dos Resíduos Sólidos e biológicos. O ciclo técnico compreende a
(PNRS). As razões ecológicas correspondem gestão dos estoques de materiais finitos, onde
à preservação do meio ambiente onde as o reaproveitamento substitui o consumo. Os
empresas precisam ponderar o impacto dos materiais técnicos são recuperados e, em sua
produtos sobre o meio ambiente durante todo maior parte, restaurados no ciclo técnico. O
o ciclo de vida. ciclo biológico abrange os fluxos de materiais
renováveis, o consumo só ocorre neste ciclo,
A mudança para uma EC conduz o foco para
onde os nutrientes renováveis (biológicos)
a reutilização, reparação, renovação e
são, em sua maior parte, regenerados (ELLEN
reciclagem dos materiais e produtos
MACARTHUR FOUNDATION, 2012).
existentes. O que era visto como resíduo, sob
a nova ótica pode ser transformado num
recurso, tornando os produtos residuais
praticamente inexistentes. A ideia é eliminar o
próprio conceito de lixo: considerar cada

Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 2


35
3

Quadro 1 – Princípios da Economia Circular

Princípios Definição Descrição

Desmaterialização de produtos /serviços, com


Preservar e aprimorar o
entrega virtual, se viável. Seleção sensata de
capital natural
recursos, tecnologias e processos que utilizem
controlando estoques
Princípio 1 recursos renováveis ou com melhor desempenho.
finitos e equilibrando os
Aprimora-se o capital natural estimulando fluxos de
fluxos de recursos
nutrientes dentro do sistema e viabilizando a
renováveis.
regeneração.

Projetar para a remanufatura, a renovação e a


reciclagem, de modo que componentes e materiais
Otimizar o rendimento técnicos continuem circulando. Preservação de
de recursos fazendo energia e outros tipos de valor incutidos nos
circular produtos, materiais e componentes. Maximizam o número de
componentes e ciclos consecutivos e/ou o tempo dedicado a cada
Princípio 2 materiais no mais alto ciclo, prolongando a vida útil dos produtos e
nível de utilidade o intensificando sua reutilização. Reinserção segura
tempo todo, tanto no de nutrientes biológicos na biosfera para
ciclo técnico quanto no decomposição. No ciclo biológico, os produtos são
biológico. projetados para ser consumidos ou metabolizados
pela economia e regenerar novos valores nos
recursos.

Estimular a efetividade Redução de danos a sistemas e áreas como


do sistema revelando e alimentos, mobilidade, habitação, educação, saúde
excluindo as e entretenimento, e a gestão de externalidades,
Princípio 3
externalidades como uso da terra, ar, água e poluição sonora e da
negativas desde o liberação de substâncias tóxicas.
princípio.
Fonte: Adaptado de Ellen Macarthur Foundation (2012)

Algumas empresas estão envidando recursos negócios que compram e vendem


e esforços para a implementação desse resíduos entre si num ciclo fechado de
modelo circular, e dentro desse se encontram produção industrial;
alguns preceitos como compartilhamento de
 Mud Jeans (2008), pioneira de um
conhecimentos, adoção de melhores práticas,
modelo de aluguel de calças jeans de
investimento em inovação e incentivos a
ganga cujas calças são fabricadas com
colaboração interindustrial e intraindustrial
30% de materiais reciclados e 70 % de
(PRESTON, 2012). A exemplo, algumas
algodão orgânico, nesse negócio os
empresas ou grupo de empresas europeias
clientes podem alugar mensalmente de
de diversos setores de atividades podem
calças de ganga e após a empresa reaver
estar representando o início de uma transição
as calças, estas são avaliadas para que
para a EC , segundo a Ellen MacArthur
seja dado destino a elas que pode ser a
Foundation (2015b), são elas:
reutilização, conserto ou reciclagem;
 Kalundborg Symbiosis, um parque de
simbiose industrial composto por nove
Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 2
36
3

 Re-Te K (1996) opera num modelo de por observação dos registros de patentes,
negócio da EC com reparação e considerando as empresas que aderem ao
remodelagem de produtos eletrônicos e de modelo circular de negócio. Identificaram as
TI, maximizando a vida útil do principais empresas e áreas tecnológicas
equipamento servível. envolvidas com inovações para o desmanche
de veículos, assim como os países com maior
destaque nos movimentos circulares de
Ao afastar-se do modelo atual da economia negócios que envolvem inovações.
linear, em direção a um no qual os produtos, e
os materiais que o compõe, são valorados de
forma diferenciada, “[...] a Economia Circular 2.2 CUSTEIO DO CICLO DE VIDA
cria uma economia mais robusta” (HOUSE OF
A interface entre Economia Circular e Gestão
COMMONS, 2014, p.5). Trata-se de
Estratégica de Custos deriva do fato de que a
mudanças expressivas no modus operandi
primeira se caracteriza como um processo de
das empresas e da economia, lastreados em
produção que é restaurador e regenerador
novos princípios competitivos, como
por design e que tem como objetivo manter os
transparência, compartilhamento, abertura e
produtos, componentes e materiais em sua
atuação global e conectada.
maior utilidade e valor em todos os momentos.
Embora os benefícios circulares estejam Enquanto a segunda pode viabilizar formas
explícitos, nem sempre a reciclagem oferece de reduzir custos em toda a cadeia de valor e,
vantagens econômicas. Vanderlei, Leão e ao mesmo tempo, reforçar posicionamento
Quoniam (2015) apontam três motivos pelos estratégico da organização.
quais muitos empresários e stakeholders têm
Sem uma análise de custos apropriada, será
demonstrado cautela nos investimentos para
impossível justificar a decisão por adotar o
a adesão à EC, são eles: (1) uma porção
modelo de produção da EC. Isso porque as
substancial de empresas não enxerga a
organizações não terão as informações
necessidade das práticas sustentáveis, e por
necessárias sobre os níveis de melhoria nas
não perceberem benefícios financeiros
estruturas de custos. Assim, a adoção do
resultantes dessas atividades; (2) é exigida
modelo circular aliado a uma ferramenta de
das empresas que desejam aderir a este novo
custos adequada poderá garantir
modelo de negócios, a execução um modus
competitividade e sobrevivência das
operandi que pressupõe o desenvolvimento
empresas num mercado cada vez mais
contínuo de recursos tangíveis e intangíveis;
exigente, complexo e competitivo. Um dos
(3) não há como promover a reciclagem
sistemas de custeio que pode ser abordado,
perpetuamente e os preços dos materiais e
considerando a EC, é o Custeio do Ciclo de
recursos naturais são muito baixos.
Vida.
No Brasil, a discussão sobre EC é incipiente,
O Custeio do Ciclo de Vida (CCV), ou Life
poucos estudos tem sido realizados
Cycle Costing (LCC), consiste em uma
abordando a Economia Circular, como os
técnica proposta para estudo dos custos ao
realizados por Ribeiro e Kruglianskas (2014),
longo do ciclo de vida de um produto que
Vanderlei, Leão e Quoniam (2015).
compreende desde a produção e/ou
Ribeiro e Kruglianskas (2014) apresentaram concepção da matéria-prima até seu descarte
em seu estudo os principais conceitos da EC, final (ALEXANDRA; CORINA E ALINA, 2014;
bem como discutiram as propostas europeias BERLINER E BRIMSON, 1992; DIAS FILHO;
de sua aplicação nas políticas de resíduos. NAKAGAWA E ROCHA, 2002; OLIVEIRA et
Os autores apontam a necessidade de al., 2015; SHERIF; KOLARIK, 1981;).
realizar uma reflexão acadêmica sobre o
Considerando o custo total do ciclo de vida,
alcance destas estratégias no país. Salientam
identificando os custos diretos e indiretos, as
que especificamente no caso dos resíduos
empresas são capazes de projetar e tomar
sólidos esta abordagem seria de fundamental
decisões que resultem em redução
importância, visto que nos encontramos em
substancial de custos de longo prazo.
pleno esforço de implementação da Lei nº
Ademais, minimizar custos pode reduzir o
12.305/2010 que estabelece a Política
desperdício e, consequentemente outros
Nacional de Resíduos Sólidos.
impactos ao meio ambiente. Colauto, Beuren
Vanderlei, Leão e Quoniam (2015) analisaram e Rocha (2004, p.34) argumentam que “[...] a
as inovações em desmontagem de veículos redução de desperdícios e a motivação
Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 2
37
3

constante dos gestores e empregados, para a custos associados ao ciclo de vida de um


diversificação do mix de produtos, devem ser produto e comparar os custos associados a
metas, de curto e longo prazo, estimuladas e produtos alternativos.
estipuladas pela organização”.
Desta forma, Dias filho, Nakagawa e Rocha
O objetivo do Custo do Ciclo de Vida (CCV), é (2002) apontam que o custeio do ciclo de vida
selecionar, entre alternativas possíveis, a pode ser segmentado em duas fases: o custo
abordagem mais eficiente do custo, a fim de do ciclo de vida para o produtor e o custo do
obter o menor custo de propriedade a longo ciclo de vida para o consumidor. Explicam
prazo. O CCV viabiliza a contabilização de que sob a ótica estratégica, os custos devem
elementos não habitualmente tratados pela ser analisados com base no conceito de custo
maioria dos métodos de custeio e tem sua total do consumidor, garantindo assim,
concepção baseada em ciclo de vida, como: vantagem competitiva sustentável. No mesmo
os impactos da inflação, o valor-tempo do estudo, os autores evidenciam que o ciclo de
dinheiro e custos de operação, tais como vida do produto pode ser analisado tanto sob
combustível, em adição ao preço de compra. a perspectiva do produtor (vida produtora de
Cavalett (2008) acrescenta que para uma receita) quanto sob a perspectiva do
análise seja completa e represente o consumidor (vida consumível).
verdadeiro custo da produção, os custos
O custo para o produtor compreende os
econômicos e ambientais devem ser
gastos com pesquisa e desenvolvimento,
contabilizados.
planejamento e desenho da produção e
A relevância deste método de custeio pós sua marketing. Enquanto que os custos do
utilização é que se pode escolher a alternativa consumidor envolvem a operação,
mais efetiva e eficiente para as decisões de manutenção e descarte do produto
orçamento de investimento ou decisões de (SAKURAI, 1997).
fabricação de produtos de qualidade a um
Brimson e Callie (1992) justificam a relevância
custo reduzido. Porém ao considerar a
de estudos de CCV argumentando que, em
redução de custos é necessária cautela, uma
função do ciclo de vida dos produtos ser
vez que, segundo Dias Filho, Nakagawa e
cada vez mais curto, é cada vez mais
Rocha (2002, p. 02) “[...] tal esforço pode ser
importante entender como o custo do ciclo de
frustrante e até redundar em perda de
vida se relaciona com a lucratividade, pois,
competitividade para a empresa.” Os autores
minimizar custos de produtos durante um
explicam que estrategicamente, é insuficiente
período em particular, nem sempre impacta a
reduzir custos de componentes e atividades
redução dos custos totais do ciclo de vida.
isoladas, deve-se, sobretudo, buscar a melhor
Desta forma, é necessária uma perspectiva
relação entre o custo total, na perspectiva do
de longo prazo para registrar acuradamente
consumidor e o nível do serviço que lhe é
os custos dos produtos.
prestado.
Hunkeler e Lichtenvort (2008) elencam três
Rebitzer e Hunkeler (2003) ressaltam que o
tipos de CCV que foram sendo modeladas de
CCV não é um método dirigido à
acordo as necessidades de informações,
contabilidade financeira. Entretanto, deve ser
conforme quadro 2:
considerado como uma avaliação de custos e
um método de gestão, visando estimar os

Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 2


38
3

Quadro 2 – Tipos de Custeio do Ciclo de Vida


Tipo de CCV Caracterização
CCV Convencional Baseado em uma evolução puramente econômica, considerando-se
vários estágios no ciclo de vida. É um método quase-dinâmico e
geralmente inclui custos convencionais associados ao produto.
Internaliza custos externos que não são imediatamente tangíveis, ou
não são suportados por um dos atores do ciclo de vida em questão,
frequentemente negligenciados. Adicionalmente, nem sempre
considera o ciclo de vida completo, por exemplo, as operações de fim
de vida não são calculadas em nenhum caso. Neste sentido, pode ser
menos abrangente em escopo de análises ambientais sistemáticas se
comparado a ACV. Usualmente envolve custos com desconto. A
menor taxa de desconto a ser aplicada seria a taxa de juros de
mercado corrigida pela inflação, ou o custo de capital próprio, sendo
que esta decisão deve ficar a cargo do gestor de custos
CCV Ambiental Utiliza limites do sistema e unidades funcionais equivalentes a
Avaliação do Ciclo de Vida (ACV) e é baseado no mesmo modelo de
sistema do produto, considerando o ciclo de vida completo. Neste
sentido, as duas análises são vistas como complementares, pois
todos os custos são incluídos ao longo do ciclo de vida, inclusive a
internalização dos efeitos externos e aqueles que se espera a
internalização, se forem relevantes. Custos que antes eram
externalidades, agora estão internalizados em unidades monetárias,
mas ainda não há nenhuma conversão de medidas ambientais a
medidas monetárias, e vice versa. Não deve haver dupla
contabilização de externalidades ou impactos ambientais.
CCV Social Desenvolvido para análise de custo-benefício, utiliza um sistema
macroeconômico e inclui um maior conjunto de custos (ambientais e
sociais), adicionando aqueles que serão, ou poderão vir a ser,
relevantes para todas as partes diretamente afetadas e interessadas,
e por todos os indiretamente afetados pelas externalidades. A
principal diferença é a natureza abrangente do grupo de partes
interessadas, que inclui governos e outras entidades não públicas
diretamente envolvidas.
Fonte: Adaptado de Hunkeler e Lichtenvort (2008, p. 109).

O desenvolvimento do método de CCV c) os custos ambientais indiretos são


perpassa pelo aperfeiçoamento da considerados em conjunto com despesas
contabilidade ambiental. (Barritt, apud gerais de negócios;
OLIVEIRA, 2014, p. 19). Oliveira (2014) elenca
d) as técnicas de avaliação de
as críticas apresentadas por Burrit (2004) ao
desempenho em geral adotadas, possuem
desenvolvimento da contabilidade ambiental,
um foco de curto prazo;
e, que para ele, enquanto tais dificuldades
estiverem presentes na contabilidade das e) as avaliações de investimento
empresas, o CCV também sofrerá limitações, excluem considerações ambientais;
são elas:
f) a falta de atenção para articulação de
a) a forma como as informações são estoques e fluxos de materiais;
coletadas e trabalhadas pela contabilidade
g) o foco estreito em fabricação;
e pelos gestores ambientais;
h) as normas de contabilidade financeira
b) os custos ambientais, em geral, são
ainda são dominantes;
considerados como não importantes;
i) os efeitos motivacionais para
utilização da contabilidade ambiental, no

Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 2


39
3

sentido do percentual de retorno que ela


pode trazer para o negócio; e
3. PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS
j) a ausência de contabilização de
O objetivo que norteou o presente estudo foi
externalidades e questões de custos
perceber o nível de compreensão dos
sociais.
estudantes dos cursos de graduação em
Ciências Contábeis e Administração de uma
universidade pública estadual da Bahia a
Oliveira (2014) propôs o Custeio do Ciclo de
cerca dos conceitos inerentes a Economia
Vida Adicionado (CCV Add), a autora sugere
circular e o método de Custeio do Ciclo de
este método de custeio com o objetivo de
Vida e a interface entre estes conceitos e se
sanar gaps identificados em versões
existe diferença significativa entre as
anteriores do CCV.
percepções destes considerando o semestre
De acordo com Oliveira (2014) a aplicação do ou o curso em que estão matriculados. Para o
CCV Add reúne em seu cálculo, os custos alcance de tal objetivo, foi realizada uma
iniciais, operacionais, ambientais e /ou pesquisa descritiva, pois busca “[...] observar,
sociais, valor residual e gastos com registrar, analisar e correlacionar fatos e
desativação. Neste método a palavra custos, fenômenos (variáveis) sem manipulá-los.”
apresenta-se como sinônimo de gastos, ou (CERVO & BERVIAN, 2002, p.66). Desta
seja, envolve os elementos classificados forma, realizou-se um levantamento de dados
como custos e despesas pela nomenclatura primários com o intuito descritivo dos
tradicional da contabilidade de custos. resultados.
No método CCV Add os custos iniciais do A população foi composta por discentes dos
ciclo de vida estão representados pelos últimos e penúltimos semestres dos cursos
gastos com pesquisas e desenvolvimento, presenciais de Ciências Contábeis e
projetos, protótipos, instalação, dentre outros Administração de uma universidade pública
que ocorrem antes da empresa começar a do estado da Bahia. A amostra de estudantes
operar (OLIVEIRA et al., 2015). compreendeu 50 estudantes de matriculados
no curso de Ciências Contábeis e 40
Oliveira et al. (2015) explicam que no CCV
estudantes do curso de Administração,
Add os gastos com desativação, designados
totalizando 90 estudantes. A universidade foi
pela letra (σ), englobam os valores que a
escolhida por conveniência e foram coletados
empresa terá que disponibilizar para
dados de estudantes do penúltimo e último
desmontar, retirar e restaurar itens do
semestre, pelo fato destes já terem tido
imobilizado e, ou recuperação ambiental. Os
contato com a maior parte das disciplinas
autores acrescentam que o CCV Add
ministradas durante o curso. A tabela 1
oportuniza a redução de riscos de subestimar
apresenta as características da amostra
o custo de produtos e contribui para uma
estudada.
melhor tomada de decisão.

Tabela 1:Características da amostra estudada.


Gênero Feminino Masculino Soma
Fi 47 43 90
Fi% 52,22 44,73 100,00
Idade (anos) 20 a 25 26 a 30 31 a 35 Acima de 35
Fi 45 36 9 0 90
Fi% 50 40 10 0 100,00
Curso Contábeis Administração
Fi 50 40 90
Fi% 55,55 44,45 100,00
Último Penúltimo Último Penúltimo
Semestre
Contábeis Contábeis Administração Administração
Fi 26 24 19 21 90
Fi% 28,88 26,66 21,11 23,35 100,00
Fonte: Dados da pesquisa, 2016

Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 2


40
3

A Tabela 1 destaca que 47% da amostra são Para atingir o objetivo principal da pesquisa
do gênero feminino, o que não reflete a foram utilizados adicionalmente dois
composição atual da população analisada. instrumentos de coleta de dados:
Atualmente, os cursos de Ciências Contábeis
a. Documentação: foram obtidos junto aos
e Administração contam nesta instituição com
Colegiados de Ciências Contábeis e de
uma maior participação de mulheres, uma
Administração da Universidade, o Projeto
inversão do quadro nos últimos anos, onde a
Pedagógico onde consta o ementário das
significativa maioria era do sexo masculino.
disciplinas de cada curso que contém os
Analisando a faixa etária dos estudantes
conteúdos programáticos ministrados.
pesquisados, metade está na faixa dos 20 a
25 anos, enquanto que 40% possui mais de b. Questionário: que após ser elaborado foi
26 anos. Uma parcela da amostra (10%) submetido a um pré-teste para constatar
possui acima de 31 anos. A amostra pode ser a adequação e entendimento
entendida como jovem, um confiável reflexo (MALHOTRA, 2004). Buscou-se investigar
do que se constata em salas de aula de o domínio sobre a Economia Circular
cursos de graduação de instituições públicas. relacionado com a o método de Custeio
Em relação aos cursos, 55,55% da amostra do Ciclo de Vida. Elaborou-se cinco
pertencem ao curso de Ciências Contábeis, opções para cada uma das questões,
enquanto que o restante pertence ao curso de podendo o discente escolher uma
Administração. resposta entre 1 (Discordo fortemente) e 5
(Concordo fortemente), sendo que o
Para a análise dos resultados, em função do
respondente deveria assinalar aquela que
objetivo de como a percepção poderia ser
julgasse mais adequada. A aplicação dos
explicada a partir do curso ou do estágio
questionários aconteceu na segunda
(semestre) do estudante no curso, foi
quinzena de junho/2016 em quatro etapas
alcançado com o uso de teste paramétrico de
distintas, visto que participaram da
comparação de médias (testes t). As
pesquisa alunos do sétimo e oitavo
hipóteses que nortearam o alcance do
semestres dos cursos de Ciências
terceiro objetivo estão apresentadas no
Contábeis e Administração, sendo
quadro 3.
necessários momentos distintos para
cada turma.
Quadro 3. Hipóteses associadas ao objetivo O questionário foi formado por quatro blocos.
O primeiro bloco foi formado por quatro
Hipóteses do estudo perguntas que possibilitaram coletar o
H1: institui que existem diferenças nas semestre em curso, o gênero, a idade e o
percepções significativas entre estudantes curso do respondente. O segundo bloco
de Ciências Contábeis e Administração. trouxe assertivas a cerca do conceito da
economia Circular e Gestão de Custos. As
H2: institui que existem diferenças afirmações presentes no terceiro bloco tratam
significativas das percepções entre do conceito de Economia Circular e as
estudantes matriculados no penúltimo e no constantes do quarto bloco se referem ao
último semestre dos cursos de Ciências método de Custeio do Ciclo de Vida (CCV) e
Contábeis e Administração. todas podem ser vistas no quadro 4.
Fonte: Elaborado pelo autor, (2016)

Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 2


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3

Quadro 4. Questionário
Bloco I – Perfil
Qual a sua idade em anos completos? ______
Qual seu gênero? [ ] masculino [ ] feminino
Qual semestre está matriculado? ____________________
Qual o curso que está matriculado? a) Administração b) Ciências Contábeis
Bloco II
B2E1 - O modelo de produção baseado na Economia Circular está em harmonia com o conceito de
sustentabilidade.
B2E2- A Gestão Estratégica de Custos utilizada conjuntamente com o modelo de produção
circular, poderá aumentar a eficácia e a eficiência do processo produtivo.
B2E3-Concordo que os métodos de custeio são procedimentos sistematizados que conduzem a
um resultado na apuração dos custos.
Bloco III
B3E1 - A Economia circular caracteriza-se por ser um modus operandi que visa um sistema
alimentado por energia renovável em que os materiais fluem em circuitos fechados seguros e
regenerativos no mais alto nível de utilidade.
B3E2 - Utilização de recursos secundários, o investimento em tecnologias de reciclagem e o
aumento da utilização de material reciclado, mantém-se o valor e poupa-se energia, enquanto
reduz-se o desperdício, ou seja, cria-se um modelo circular.
B3E4 - Foco para a reutilização, reparação, renovação e reciclagem dos materiais e produtos
existentes. O que era visto como «resíduo» pode ser transformado num recurso.
B3E5 - Os produtos são concebidos intencionalmente para se ajustarem aos ciclos dos materiais
e,os materiais circulam mantendo o valor acrescentado pelo máximo de tempo possível, tornando
os resíduos praticamente inexistentes.
Bloco IV
B4E1 - Os sistemas verdadeiramente sustentáveis necessitam de uma análise completa que
represente o real custo da produção, portanto, é necessário incorporar mecanismos que
contabilizem os custos econômicos e ambientais.
B4E2 - A redução de custos e a eliminação de todas as formas de desperdícios requer atenção
para a gestão do custo total do ciclo de vida (CCV) do produto.
B4E3 - Recomenda-se identificar e analisar o custo total do ciclo de vida (CCV) para orientar
decisões sobre produtos , sobretudo quando as organizações são afetadas por forças
concorrentes mais agressivas.
B4E4 - O Custeio do Ciclo de Vida (CCV) é uma metodologia proposta para estudo dos custos do
ciclo de vida de um produto que compreende desde a produção e/ou aquisição da matéria-prima
a partir de recursos naturais até seu descarte.
B4E5 - O CCV incorpora custos socioambientais, previsão para possíveis gastos com desativação
e para valor residual, elementos não comumente contabilizados pelos métodos tradicionais de
custeio.
Fonte: Elaborado pelo autor (2016)

Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 2


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3

4. ANÁLISE DOS RESULTADOS ciclo de vida dos produtos. Os resultados


estão apresentados na Tabela 2. As duas
Para análise dos resultados, foram
últimas colunas apresentam uma totalização
consideradas questões do questionário. O
das frequências, para respostas menores que
primeiro objetivo buscou identificar a
três e maiores que três (ponto médio entre 1 e
compreensão dos estudantes de
5).
Contabilidade e de Administração de uma
universidade pública baiana a cerca dos
conceitos de Economia circular e o Custo do

Tabela 2 – Frequência de respostas


Respostas
1 2 3 4 5 TOTAL MENOR MAIOR
B2E1 Fi 19 10 34 25 2 90 29 27
Fi% 21,1 11,1 37,8 27,8 2,2 100 32,2 30
B2E2 Fi 9 6 30 42 3 90 15 45
Fi% 10 6,7 33,3 46,7 3,3 100 6,6 50
B2E3 Fi 9 8 17 48 8 90 17 56
Fi% 10 8,9 18,9 53,3 8,9 100 18,9 62,2
B3E1 Fi 13 5 42 26 4 90 18 30
Fi% 14,4 5,6 46,7 28,9 4,4 100 20 33,3
B3E2 Fi 3 3 38 34 12 90 6 46
Fi% 3,3 3,3 42,2 37,8 13,3 100 6,6 51,1
B3E4 Fi 3 2 29 43 13 90 5 56
Fi% 3,3 2,2 32,2 47,8 14,4 100 5,5 62,2
B3E5 Fi 5 5 48 27 5 90 10 32
Fi% 5,6 5,6 53,3 30 5,6 100 11,2 35,6
B4E1 Fi 4 4 35 38 9 90 8 47
Fi% 4,4 4,4 38,9 42,2 10 100 8,8 52,2
B4E2 Fi 6 2 56 19 7 90 8 26
Fi% 6,7 2,2 62,2 21,1 7,8 100 8,9 28,9
B4E3 Fi 3 6 64 12 5 90 9 17
Fi% 3,3 6,7 71,1 13,3 5,6 100 10 18,9
B4E4 Fi 5 2 50 27 6 90 7 33
Fi% 5,6 2,2 55,6 30 6,7 100 7,8 36,7
B4E5 Fi 4 1 75 8 2 90 5 10
Fi% 4,4 1,1 83,3 8,9 2,2 100 5,5 11,1
Fonte: Dados da Pesquisa (2016)

O ponto médio da escala apresentada no domínio ou desconhecimento sobre o


instrumento de coleta de dados correspondeu assunto. As demais respostas apresentam
ao número três, e nesta pesquisa entende-se soma de frequências superior a 50% para as
que o nível de conhecimento desejado está respostas menores ou iguais a três.
acima deste ponto.
Com relação ao conceito do Custeio do Ciclo
Dos conceitos analisados, destaca-se que de Vida abordado nas questões B4E2, B4E3,
46% dos estudantes concordam que a Gestão B4E4 e B4E5, os respondentes manifestaram
Estratégica de Custos utilizada conjuntamente baixo conhecimento os percentuais de
com o modelo de produção circular, poderá respondentes que assinalaram pontos
aumentar a eficácia e a eficiência do superiores a três na escala de respostas
processo produtivo. foram 28,9%, 18,9%, 36,7% e 11,1% para
cada questão respectivamente.
Apenas 33,3% dos respondentes assinalaram
pontos superiores a 3 quanto ao conceito de As questões B4E1, B4E2 e B4E4 apresentam
Economia Circular na questão B3E1 e destes conceitos do Custeio do Ciclo de Vida e
apenas 4,4% concordam fortemente com este estabelece interface deste com o modelo de
conceito, depreende-se deste fato um baixo Economia Circular, ao detectar os seguintes
Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 2
43
3

percentuais 38,9%, 62,2% e 55,6% para o desconhecimento relacionado aos temas


ponto três da escala, os estudantes abordados.
concordam com a aplicabilidade deste
O segundo objetivo de analisar se a
método de custeio como ferramenta na
compreensão poderia ser explicada a partir
tomada de decisões no âmbito da Economia
do período (semestre) que os alunos estão
circular.
matriculados ou o curso ao qual pertencem,
Ao analisar todas as respostas referentes aos foi alcançado mediante o uso de um teste t
conceitos apresentados no questionário, para amostras independentes, considerando
observa-se que o percentual dos o grau de compreensão. Para a realização de
respondentes que assinalaram o ponto 3 da cada um dos testes a amostra foi segregada
escala (Nem concordo e nem discordo) em em dois grupos, conforme o semestre
todas as situações superaram o percentual de (penúltimo e último), e o curso (Ciências
30% demonstrando um alto grau de Contábeis e Administração). Os resultados
podem ser vistos na Tabela 3.

Tabela 3:Resultados dos testes de igualdade de médias


Desvio Teste de Levene T Test
Padrão da
F Sig. T Sig (bi)
N Média Média
Curso
Contábeis 50 3,18 0,62437
Administração 40 3,3604 0,68598 0,026 0,872 -1,304 0,196
Penúltimo

Estágio no 45 3,2093 0,68756


Curso Último
45 3,3111 0,62422 0,035 0,853 -0,736 0,464
Fonte: Elaborada pelo autor (2016)

Nesta análise, utiliza-se o teste t (que é promovida nos cursos examinados, uma vez
utilizado para basear a análise num tipo de que o aluno do penúltimo semestre e o aluno
distribuição de dados semelhante à formando não apresentam diferenças
distribuição normal, conhecida como significativas em relação ao seu nível de
“distribuição t”) e o teste de Levene (que é conhecimento.
adotado para testar se k amostras tem a
Em contrapartida, os resultados dos testes de
mesma variância, é um teste t do valor
igualdade de média evidenciaram a
absoluto da distância que cada observação
inexistência de diferenças significativas com
está da média). Os resultados significativos
relação ao nível de conhecimento percebido
destes testes indicam que a hipótese nula
pelos discentes e o curso em que estão
deve ser rejeitada, caso, as diferenças
matriculados. A média dos alunos abaixo de
significativas sejam confirmadas.
24 anos do Curso de Ciências Contábeis
A tabela 3 evidencia a inexistência de (3,18) está bem próxima da média dos alunos
diferenças significativas na relação nível de do curso de Administração (3,36), esta
conhecimento e o semestre em curso do relação possui um grau de significância em
aluno analisado, o que indica que não é 0,196%, o que permite refutar a primeira
possível perceber aumento ou redução do hipótese desta pesquisa.
grau de conhecimento a cerca dos temas
A fim de minimizar vieses na avaliação dos
abordados entre respondentes do último ou
dados coletados através do questionário, foi
do penúltimo semestres dos cursos (Sig.
realizada uma pesquisa documental através
acima de 5%). Este resultado evidencia que a
da análise dos Projetos Pedagógicos, em
abordagem destes conteúdos não é
Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 2
44
3

vigor, dos cursos de Ciências Contábeis e Embora os procedimentos metodológicos


Administração e foi constatado que não são tenham atendido ao objetivo desta pesquisa,
abordados os conteúdos relacionados a há limitações que devem ser salientadas, tais
Economia Circular e Custeio do Ciclo de Vida como a impossibilidade de generalização de
durante o decorrer dos dois cursos. A resultados, devido ao fato de se restringir a
expectativa antes desta análise girava em um único tipo de IES, a pública e, assim como
torno de que estes conteúdos fossem da área de atuação dos cursos. Tais
abordados ainda que de maneira transversal limitações não minimizam a força dos
durante as aulas de diversas disciplinas, resultados deste estudo, mas representam
porém este fato não foi constatado. hipóteses para novas e futuras pesquisas
pelas áreas delimitadas pelo presente estudo
e as demais áreas. Diante desse fato é
5 CONSIDERAÇÕES FINAIS sugerida a reaplicação da pesquisa em outros
contextos e posterior comparação para
A pretensão deste artigo foi verificar a
confirmação dos resultados encontrados.
compreensão dos estudantes dos cursos
Ciências Contábeis e Administração de uma Consolidar uma universidade relevante
universidade pública estadual da Bahia sobre socialmente exige que esforços na melhoria
o conceito de Economia Circular e sua da transmissão de temas contábeis relevantes
interface com o método de custeio Custo do sejam envidados na IES no sentido de garantir
Ciclo de Vida (CCV). Investiga ainda se existe aos futuros profissionais capacidade para a
diferença entre o nível de discussão análise, o senso crítico e a criatividade,
percebido entre os discentes do curso de contribuindo para uma formação voltada à
Administração e os discentes do curso de gestão e tomada de decisões.
Ciências Contábeis.
A expectativa, é que a partir dos resultados
Da análise dos dados, ficou explícito um baixo evidenciados, o presente estudo contribua
grau de compreensão sobre a Economia para o desenvolvimento dessa agenda de
Circular, bem como, em relação ao método de pesquisa, visto que objetivos propostos para
Custeio do Ciclo de Vida (CCV). O teste t esta pesquisa são inéditos no contexto da
permitiu concluir que tanto a variável “curso”, produção acadêmica no Brasil.
quanto “período” não influenciou na Principalmente ao segmento que se destine a
ocorrência de respostas com nível de investigar a relação entre o ensino e temas
discussão mais elevado acerca dos tópicos relevantes para a formação dos profissionais,
abordados. Conclui-se, assim, que é como a Economia Circular.
preocupante o baixo nível de compreensão
dos estudantes sobre esses temas.

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Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 2


46
3

Capítulo 4

Renato de Oliveira Rosa


Luanna Lise Kimura Magalhães
Yasmin Gomes Casagranda
Ariane Elias Leite de Moraes

Resumo: O objetivo desta pesquisa foi analisar a importância de ferramentas e


modelos de gestão para ao prolongamento dos objetivos de uma Associação sem
fins lucrativos. Este negócio classifica-se como Tecnologia Social atuando em área
social, econômica e ambiental, melhorando a qualidade de vida das comunidades.
O projeto influencia a comunidade local a se preocupar com o meio ambiente.
Utilizou-se a metodologia de análise de modelo de negócio Canvas, que permite o
estudo de diversas áreas na organização e à sua interligação: Segmentos de
Clientes, Propostas de Valor, Canais, Relacionamento com Cliente, Fontes de
Receita, Recursos Principais, Atividades Chave, Parcerias Principais e Estrutura de
Custos. Procedeu-se ainda à análise do componente estratégia, que permite a
interligação entre os já referidos parâmetros e o cumprimento da Missão e da Visão.
Conclui-se que os modelos de gestão e planejamento são essenciais ao sucesso
de qualquer organização, e neste estudo de caso promove o desenvolvimento
social no contexto atual de crise e gera consciência ambiental na comunidade
buscando opções na geração de renda e diminuição da pobreza.

Palavras-chave: Conscientização Ambiental. Modelo de Negócio Canvas.


Tecnologia Social.

Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 2


47
3

1. INTRODUÇÃO movimentar a economia local através de uma


tecnologia em que se troca moeda social por
Com a globalização, os mercados se
garrafas pet.
tornaram cada vez mais acirrados em
competitividade e com essa realidade, nasce
à necessidade de inovação para aqueles que
2. REVISÃO BIBLIOGRÁFICA
querem se sobressair, seja em qualquer tipo
de segmento. Atualmente para se mergulhar 2.1. ECONOMIA SOLIDÁRIA E
nesses mercados já saturados, existe a EMPREENDEDORISMO SOCIAL
indispensabilidade da criação de negócios
O empreendedorismo social tem destacado
inovadores por parte dos empreendedores,
nos últimos anos, tanto no interesse
que tem sido a forma de modificar os modelos
econômico como acadêmico, pela sua
de administração existentes.
capacidade de criação de valor, benéfica não
Nesse contexto, os modelos de gestão se só para as organizações em que se aplica
apresentam como método imprescindível para como também para o meio em que esta
uma organização eficaz de recursos, tempo, inserida, contribuindo para uma melhoria
capital, entre outros, onde conceitos base social. Desta forma “a finalidade do
podem ser aplicados em varias situações do empreendedor social é a procura de soluções
cotidiano. Para tanto, há outra preocupação sustentáveis para problemas negligenciados”
em crescimento e que vem sendo fomentado, (SANTOS, 2009, p. 54), isto é, o dever do
o olhar sustentável por parte das empresas. empreendedor social é o cuidado pelos
interesses dos outros, pelo bem comum e não
Essa responsabilidade com a
interesses próprios ou meramente
sustentabilidade é vista como um fator de
corporativos.
agregação de valor social para a empresa.
Pois os consumidores possuem essa Dentro das novas ideias de Sociologia
preocupação com seus produtos, de que Econômica, encontra-se a discussão de
maneira eles são produzidos e sob que aspectos da economia solidária no que se
condições para o prejuízo do meio ambiente. refere a:
Dessa forma, o cuidado em tornar o produto
“mobilizar um esforço maior do que
cada vez mais sustentável, é uma tendência
aquele realizado na economia capitalista,
que cresce para geração de valor.
pois, devido a sua tripla natureza (teoria,
Negócios Sociais são empresas que têm a movimento social e objeto), ainda não há
única missão de solucionar um problema consensos para uma última definição de
social, que neste caso através da educação economia solidária capaz de explicar todo
ambiental, Empresas sociais são o fenômeno, teoria e movimento
autossustentáveis financeiramente e não analisado”. (VIEIRA, 2005, p.14)
distribuem dividendos. Como uma ONG, tem
Assim, o movimento da economia solidaria
uma missão social, mas como um negócio
propõe a cooperativa popular como modelo
tradicional, geram receitas suficientes para
de organização capaz de emancipar o
cobrir seus custos. É uma empresa na qual o
trabalhador defendendo o potencial de
investidor recupera seu investimento inicial,
inclusão social e desalienar o trabalho, ainda
mas o lucro gerado é reinvestido na própria
que operando em contexto capitalista
empresa para ampliação do impacto social. O
(GONÇALVES, 2009).
sucesso do negócio não é medido pelo total
de lucro gerado em um determinado período, No campo de estudo da Economia Solidária,
mas sim pelo impacto criado para as pessoas Singer (2002, p. 69), mostra-a como um modo
ou para o meio ambiente. de produção alternativo ao capitalismo,
fundamentada na “propriedade coletiva ou
Neste artigo, buscou-se analisar o Modelo de
associada do capital, e no direito à liberdade
Negócio Canvas em uma empresa social. A
individual”. Aplicados estes princípios na
empresa selecionada foi a Petmania, uma
reprodução desta outra economia,
associação que busca romper efetivamente
solidariedade e igualdade é o “resultado
um ciclo de pobreza e desconhecimento
natural”. (SINGER, 2002 apud GONÇALVES,
ambiental no bairro Portal Caiobá, na cidade
2009, p. 96).
de Campo Grande, Mato Grosso do Sul.
O termo empreendedor é um termo muito
Busca-se compreender como se constrói o
usado no âmbito empresarial e muita vez está
valor social da “Petmania”, cuja função é
Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 2
48
3

relacionada com a inovação, na aceitação do necessidades e aspirações” (HERRERA,


risco de projetos arrojados. “Onde outros 1970, p. 36).
veem obstáculos, eles têm prazer em
Segundo Herrera, A única solução para os
encontrar soluções e transformá-las em novos
países em desenvolvimento é inventar uma
e concretos padrões da sociedade”.
metodologia de pesquisa que, embora gere
(DRAYTON, 2006, p. 81).
as tecnologias demandadas, contribua ao
David Bornstein partilha da mesma opinião mesmo tempo para construir os sistemas de
quando afirma que: premissas a que nos referimos anteriormente.
“os empreendedores sociais apontam
recursos onde às pessoas apenas veem
2.3. MODELO DE NEGÓCIO CANVAS
problemas. Veem os moradores como
meio, não como beneficiário passivo. Qualquer empresa necessita saber qual o seu
Começam com a suposição de modelo de negócio, isto é, tendo em vista a
competência e libertam fundos nas sua missão, visão, E ter em sua estratégia a
comunidades que estão a servir”. forma que vai estruturar os seus recursos, os
(BORNSTEIN, 2007). seus processos, a sua balança financeira e
econômica, a proposta de valor e a forma
como vai chegar aos clientes, de modo a que
Existem formas de empreendedoris mo consiga cumprir com os seus objetivos de
social aplicadas inclusive a organizações de forma sustentável. (GUEDES, 2011)
alguma forma lucrativas, sendo que a
São vários os instrumentos que permitem a
integração dos princípios deste conceito
avaliação e melhoria de modelos de negócio.
parece ser uma prática cada vez mais
Algumas ferramentas, como os mapas
comum. Apesar de o Empreendedorismo
estratégicos (KAPLAN; NORTON, 2004),
Social este se distingue do
permitem uma visão já algo sustentada
Empreendedorismo Tradicional quanto às
daquilo que é o modelo de negócio, podendo
oportunidades, de recursos, na importância
ser combinadas com ferramentas que
dos stakeholders e no tipo de indicadores de
permitam medir o desempenho como, por
desempenho.
exemplo, o Balanced Scorecard (KAPLAN;
NORTON, 1996), e ligação a outras
metodologias mais de âmbito operacional.
2.2. TECNOLOGIA SOCIAL
No entanto, dado o conceito e
O termo “tecnologia social” é pensado de
desenvolvimento histórico do
forma ampla para as diferentes camadas da
empreendedorismo social, fará todo o sentido
sociedade. O adjetivo “social” não tem a
utilizar um modelo de análise capaz de avaliar
pretensão de afirmar somente a necessidade
de forma composta as áreas do modelo de
de tecnologia para os pobres ou países
negócio. A escolha incide sobre um modelo,
subdesenvolvidos. Também faz a crítica ao
desenvolvido por Alexander Osterwalder e
modelo convencional de desenvolvimento
Yves Pigneur: o Modelo de Negócio Canvas,
tecnológico e propõe uma lógica mais
utilizado por empreendedores em todo o
sustentável e solidária de tecnologia para
mundo e que prima por colocar em evidência
todas as camadas da sociedade. (COSTA,
a interação de todos os elementos do
2013)
negócio. (OSTERWALDER E PIGNEUR, 2010,
Amílcar Herrera (1970), foi um dos pioneiros p. 34).
ao chamar atenção para o fato de que a
Em termos de caracterização, pode afirmar-se
resolução da desigualdade em países
que esta metodologia de análise se divide em
periféricos reside no desenvolvimento de
cinco seções distintas. 1) Tela – fase que
tecnologias alinhadas às realidades locais.
permite o entendimento através da
Para tal, em sua visão, seria necessário
visualização gráfica de todo o modelo; 2)
formular um método próprio de pesquisa e
Padrões – classificação de alguns conceitos-
desenvolvimento de ciência e tecnologia, de
chave que podem ser aplicados à análise; 3)
modo a possibilitar a emergência de um
Projeto – é a seção de design, essencial para
“conjunto de pressupostos ou paradigmas
o desenho de uma tela inicial, envolvendo o
gerados endogenamente que possam servir
cenário protótipo e o desenho visual; 4)
como marco básico para desenvolver
Estratégia – a estratégia permite a avaliação
tecnologias destinadas às suas próprias
Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 2
49
3

do meio envolvido e a identificação de pontos d)os fluxos rendimentos de cada grupo de


fortes e fracos através da concorrência no clientes são substancialmente diferentes; e)os
mercado. Esta seção analisa ainda a gestão clientes estão dispostos a pagar por
de múltiplos modelos de negócio; 5) Processo diferentes características de oferta.
- implementação prática do modelo de
Além do mercado de massas e dos
negócio canvas, com as cinco fases de
segmentos, existem também os nichos de
implementação: mobilizar, compreender,
mercado, sendo estes grupos mais restritos e
projetar, implementar e gerir.
altamente específicos. Segundo os autores,
Para a análise do estudo de caso em questão, “este tipo de modelos de negócio encontra-se
o foco central incidirá no primeiro ponto, frequentemente nas relações entre
fornecedor-comprador” (OSTERWALDER E
A Tela, ou seja, o desenho do modelo de
PIGNEUR, 2010, p. 95).
negócio. Para avaliação e implementação de
melhorias. É interessante aprofundar um A Proposta de Valor é à oferta e seu
pouco mais cada um dos elementos que propósito, ou seja, a forma como a
compõem esta estrutura. organização satisfaz as necessidades dos
seus clientes e obtém a sua preferência em
Existem determinados pontos essenciais, que
relação à concorrência. Como dizem os
se relacionam e influenciam a lógica estrutural
autores “cada proposta de valor consiste em
do negócio, com consequências óbvias para
um conjunto de produtos ou serviços que
a percepção de valor. Esta relação abrange
satisfaz as exigências de um determinado
nove áreas distintas: segmentos de clientes,
segmento de clientes” (OSTERWALDER E
propostas de valor, canais, relacionamento
PIGNEUR, 2010, p. XX). A proposta de valor
com cliente, fontes de receita, recursos
pode caracterizar-se como sendo inovadora
principais, atividades chave, parcerias
capaz de apresentar a solução a
principais e estrutura de custos. Através do
necessidades totalmente novas ou ser
tipo de negócio, o mercado em que a
equivalente a outras existentes no mercado,
organização está inserida e quais os seus
aumentando, a capacidade de desempenho.
processos importantes, alguns destes
A qualidade, o preço, o design, a marca ou a
elementos podem adquirir maior importância
personalização, são os aspectos que estão na
estrategicamente.
base da proposta de valor e que compões
Tendo em vista o caso analisado, será assim todos os processos da relação com o
necessário um aprofundamento na análise do cliente.
relacionamento com os clientes, pois é onde
se concentra todos os esforços e o a
motivação da organização do projeto social 2.3.2. CANAIS
do caso.(OSTERWALDER E PIGNEUR, 2010,
Em toda oferta da proposta de valor, deve se
p. 87).
perceber os canais de distribuição, que são
por onde os produtos ou serviços irão chegar
aos principais segmentos de clientes
2.3.1 SEGMENTOS DE CLIENTES
identificados e definidos para o negócio. No
Qualquer negócio existe para satisfazer o entanto, a área de canais deve também atingir
conjunto de necessidades identificadas num a comunicação com o cliente e também os
determinado grupo de clientes. O público-alvo canais de vendas, de forma a que se possa:
poderá ser genérico, ou ser focado em a)marcar presença junto do mercado e dos
grupos de clientes mais restritos, com clientes; b)apresentar ao cliente a Proposta
características específicas. Desta forma, um de Valor; c)permitir que o cliente possa
dos principais pontos para se conhecer um usufruir da oferta; d)proporcionar um apoio
negócio, passa por conhecer os clientes, pós-venda.
sejam eles atuais ou potenciais.
Algumas ferramentas, como é o caso da
Considera-se segmentação quando existem Internet, permitem que o contato com o cliente
grupos variados dentro da totalidade do através dos canais seja rápido. Facilmente se
público-alvo da organização, ou seja: a)as encontram lojas virtuais que cumprem os
necessidades dos clientes exigem que haja vários requisitos para com o cliente, incluindo
oferta diferenciada; b)os canais de o apoio na fase pós-venda. Os autores do
distribuição utilizados serão diferentes; c)as modelo consideram que os canais se
relações com os clientes serão diferentes; repartem em cinco fases diferentes, havendo
Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 2
50
3

também uma diferenciação quando aos tipos empreendedor busca isolar-se dos
de canais (Figura 1).(GUEDES, 2011) concorrentes, estabelecendo como alvo
segmentos especiais de mercados
(Longenecker, 1998). Para além dos pontos já
Figura 1 - Tipos de Canais mencionados, as Relações com os Clientes
podem também incluir a assistência pessoal,
entre outros serviços personalizados.
(GUEDES, 2011)

2.3.4 FONTES DE RECEITA


As Fontes de Receita dá sentido financeiro ao
Fonte: OSTERWALDER, Alexander; PIGNEUR, Yves modelo de negócios. Se o seu segmento de
et. al. (2010). clientes é o coração do seu modelo de
Cada canal pode cobrir uma ou várias fases negócios, as componentes Fontes de
da evolução do processo referente aos tipos Receitas é a rede de artérias, diz respeito, à
de canais. Como referem os autores, podem obtenção de receita, resultado da atividade
ser identificadas cinco fases distintas: 1. de negócio.
Consciência – diz respeito à forma que se Esta parcela do modelo de negócio pode vir
leva proposta de valor até ao cliente; 2. junto de tipologias diferentes: por um lado, a
Avaliação – retrata a fase de apoio ao cliente obtenção direta de rendimentos através da
na avaliação da proposta de valor em relação atividade, quer dizer, do negócio e que,
às outras no mercado; 3. Aquisição – define a portanto, são concretizados numa única
forma como o cliente pode adquirir o transação; rendimentos que se prolongam
produto/serviço relativo à proposta de valor; 4. durante um determinado período de tempo,
Entrega – estabelece a forma como a resultantes de pagamentos continuados ou
Proposta de Valor é entregue ao cliente; 5. relacionados com a fase pós-venda.
Pós-Venda – O apoio ao cliente na fase que (GUEDES, 2011)
se sucede à aquisição do produto/serviço.
Existem, no entanto, outras formas de gerar
A conjugação destas fases e dos diferentes fluxos de rendimento que podem ajudar à
canais deve ter em conta a eficiência e sustentabilidade do negócio quando a
eficácia, desta forma, garantir que o cliente estrutura de custos já não pode ser reduzida,
fique satisfeito. Sempre que ele esteja ciente como é o caso da alienação de ativos, criação
de toda a estrutura de custos vinculada ao de taxas de utilização ou até mesmo o
produto. empréstimo o arrendamento, cedendo
temporariamente um determinado, mediante o
pagamento de uma determinada quantia ao
2.3.3. RELACIONAMENTOS COM OS longo de um período de tempo definido entre
CLIENTES as partes.
O ponto de relações com os clientes
determina as relações que a empresa
2.3.5 RECURSOS PRINCIPAIS
estabelece com os seus segmentos.
Enquanto algumas relações estão Entende-se por recursos principais os ativos
determinadas, como no processo de canais que são estritamente necessários para o
na fase de pós-venda, muitas outras exigem funcionamento do negócio. Podem pertencer
esforços em cima da proposta de valor, em exclusivo à organização em questão ou
visando à retenção ou fidelização de atuais ser instrumento de partilha entre os parceiros
clientes e captação de novos clientes. Este do negócio. Normalmente, estão repartidos
critério permite ainda conhecer os clientes e em quatro diferentes tipologias: recursos
melhorar a resposta às suas necessidades. físicos, que são as instalações da empresa;
Atualmente, é comum adicionar descontos recursos intelectuais, parte dos recursos
exclusivos em produtos ou serviços, com o imateriais, como por exemplo, as patentes;
objetivo de reter ou fidelizar os clientes já recursos humanos, onde esta incluído o
existentes. Quanto à relação com os clientes investimento em capital humano; recursos
existe a estratégia de nicho que apresenta financeiros, que são de onde provém o capital
uma opção estratégica na qual o
Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 2
51
3

necessário para a organização de componentes. Dentro das motivações para


funcionar.(GUEDES, 2011) o desenvolvimento de parcerias ou a intenção
de entrar ativamente em economias de
escala, onde a produção eficiente é um ponto
2.3.6 ATIVIDADES CHAVE mais do que fundamental, a redução do risco
e da incerteza e mais uma vez, a aquisição de
As atividades chave correspondem aos
recursos ou atividades que podem melhorar a
processos de core business, ou seja, as
criação de valor. (GUEDES, 2011)
atividades e processos que estão na base da
criação da oferta que cumprem a criação da
proposta de valor. São estas atividades que
2.3.8 ESTRUTURA DE CUSTOS
fazem a conexão entre os recursos e as
relações com os clientes e variam por tipo de A estrutura de custos reflete os custos
negócio. Ao contrário do que acontece numa associados ao negócio, tendo a sua base nos
abordagem de processos em que estes são recursos principais, atividades chave e, nos
separados entre processos chave e casos em que isso se aplica nas parcerias
processos de suporte, os autores categorizam principais. No caso das organizações de
três parcelas naquilo que são as atividades alguma forma ligadas ao conceito de
chave. empreendedorismo social, a redução dos
custos é, em muitas vezes, ponto essencial à
Produção, que envolve a concepção, design,
sobrevivência da organização, dado que a
e está ligada à indústria transformadora;
obtenção de rendimentos não garante a
Resolução de problemas, em que a gestão de
sustentabilidade financeira. (GUEDES, 2011)
conhecimento seja um dos pontos essenciais
para o sucesso do negócio; Plataforma, visto Dentro dos custos propriamente ditos, podem
que gere toda uma plataforma de serviços ser encontrados: custos fixos, custos
integrados externos à empresa propriamente variáveis, que são normalmente associados à
dita, ou seja, trabalha numa rede específica variação dos volumes de produção;
de atividades que influenciam as suas economias de escala; economias de âmbito,
atividades chave. que genericamente se caracterizam através
da utilização de recursos principais ou
É a conjugação entre atividades chave e
atividades chave dentro da mesma
recursos chave que permite, a organização
organização para diferentes ofertas.
estar ciente das relações com os clientes, a
criação de valor na Proposta apresentada.
(GUEDES, 2011)
3. PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS
3.1 ESTRATÉGIA ORIENTADORA DA
2.3.7 PARCERIAS PRINCIPAIS PESQUISA E MÉTODO
A maioria das parcerias não exige um Toda pesquisa científica necessita definir seu
investimento considerável para obtenção de objeto de estudo e, a partir daí, construir um
recursos ou gestão de atividades que processo de investigação, delimitando o
poderão enriquecer a proposta de valor, ou universo que será estudado. Portanto,
melhor, a criação de parcerias permite uma pesquisa trata-se de uma pesquisa
concretização de um modelo de negócio já qualitativa, que segundo Collins (2005)
instituído, a aquisição de recursos ou até a possibilita um melhor entendimento e
redução de risco. O modelo de negócio compreensão do fenômeno analisado,
canvas quatro tipos distintos de parcerias: principalmente pelo caráter da temática
1)Alianças estratégicas entre organizações abordada, onde o assunto sobre a geração
não concorrentes; 2)Estratégias de de valor social de uma empresa social é um
cooperação entre empresas concorrentes; campo pouco explorado no meio científico,
3)Empreendimentos conjuntos para criação especialmente no que se que refere à
de novos modelos de negócio; 4)Relações realização de trabalhos empíricos.
fornecedor-comprador que garantam
A pesquisa qualitativa é basicamente aquela
abastecimentos.
que busca entender um fenômeno específico
Estas últimas acontecem frequentemente, por em profundidade. Em vez de estatísticas,
exemplo, na indústria automóvel em que há regras e outras generalizações, a qualitativa
uma grande dependência do abastecimento trabalha com descrições, comparações e

Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 2


52
3

interpretações. A pesquisa qualitativa é mais entre fenômeno e o contexto não são


participativa e, portanto, menos controlável. claramente definidas e no qual são utilizadas
Os participantes da pesquisa podem várias fontes de evidencia. O estudo de caso
direcionar o rumo da pesquisa em suas vem sendo utilizado cada vez mais pelos
interações com o pesquisador (MALHOTRA, pesquisadores sociais com diferentes
2001). propósitos, tais como: a) explorar situações
da vida real cujos limites não estão
As principais características dos métodos
claramente definidos; b) descrever a situação
qualitativos são: a imersão do pesquisador no
do contexto em que está sendo feita
contexto e a perspectiva interpretativa de
determinada investigação; c) explicar as
condução da pesquisa; o pesquisador é um
variáveis causais de determinado fenômeno
interpretador da realidade; os dados são
em situações muito complexas que não
qualitativos; existem descrições detalhadas
possibilitam a utilização de levantamentos e
de fenômenos, comportamentos; citações
experimentos.
diretas de pessoas sobre suas experiências;
trechos de documentos, registros, O motivo de escolha da Petmania foi devido
correspondências; gravações ou transcrições ao bom desempenho que a empresa obteve
de entrevistas e discursos; dados com maior no concurso Sebrae Negócios Sociais 2015,
riqueza de detalhes e profundidade; após o conhecimento da empresa, foram
interações entre indivíduos, grupos e realizadas visitas e devido ao bom
organizações; são apropriados quando o relacionamento estabelecido, a empresa nos
fenômeno em estudo é complexo, de natureza permitiu a realização deste artigo. O
social ou não; tende à quantificação. Para entrevistado principal foi o diretor de projetos
aprender métodos qualitativos é preciso da Petmania.
aprender a observar, registrar e analisar
interações reais entre pessoas, e entre
pessoas e sistemas (MALHOTRA, 2001; 3.3 ELEMENTOS DE ANÁLISE
TRIVIÑOS, 1987).
O objetivo desta pesquisa foi analisar a
importância de ferramentas e modelos de
gestão para ao prolongamento dos objetivos
3.2 SELEÇÃO DO ESTUDO DE CASO
de uma associação sem fins lucrativos, no
Dentre os tipos de pesquisa qualitativa, caso do petmania. Para isso, utilizou-se a
destaque para o estudo de caso, o qual é metodologia de análise de modelo de negócio
caracterizado por um tipo de pesquisa cujo canvas, que permite o estudo de diversas
objeto é uma unidade que é analisada áreas na organização e à sua interligação:
profundamente. A presente pesquisa utilizará segmentos de clientes, propostas de valor,
o estudo de caso múltiplo, haja vista existirem canais, relacionamento com cliente, fontes de
casos diferenciados a serem estudados, receita, recursos principais, atividades chave,
procedimento justificável pelo caráter parcerias principais e estrutura de custos.
exploratório da pesquisa (BARDIN, 2002). De Procedeu-se ainda à análise da componente
acordo com Yin (1994), a opção de estudo de estratégia, que permite a interligação entre os
caso como estratégia de pesquisa se justifica já referidos parâmetros e o cumprimento da
quando o estudo focaliza o âmbito das missão e da visão.
decisões, isto é, tentam esclarecer o motivo
O quadro de modelo de negócios (Business
pelo qual as decisões foram tomadas, como
Model Canvas) se propõe a planejar e
foram implementadas e quais os resultados
visualizar as principais funções de um
encontrados.
negócio e suas relações. Com o objetivo
Segundo Gil (1999), o estudo de caso é organizar todos os processos da empresa,
caracterizado pelo estudo profundo e demonstrando de maneira dinâmica e
exaustivo de um ou de poucos objetos, de sistêmica por setores quais são os processos
maneira a permitir o seu conhecimento amplo dentro da empresa. Essa proposta de modelo
e detalhado, tarefa praticamente impossível torna visível com mais clareza quais são seus
mediante os outros tipos de delineamentos objetivos da, uma vez que o modelo canvas
considerados. De acordo com Yin (1981), o auxilia os empreendedores nos processos de
estudo de caso é um estudo empírico que criação, diferenciação e inovação,
investiga um fenômeno atual dentro do seu aprimorando seu modelo de negócios para
contexto de realidade, quando as fronteiras

Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 2


53
3

conquistar mais clientes e lucros quatro são divididas entre nove blocos (ou
(OSTERWALDER, 2010). funções) que devem ser preenchidos com
adesivos autocolantes para facilitar o
As quatro etapas básicas compõem o Quadro
acréscimo, remoção e realocação das ideias.
1, define: o que, quem, como e quanto. As

Quadro 1: Principais questões que norteiam a pesquisa


Principais questões que norteiam a pesquisa
A Petmania cumpre os
Como se estabelece o seu Como esse modelo se reflete
requisitos de uma “empresa
Modelo de Negócio? em indicadores quantificáveis?
social”?
Fonte: Dados da Pesquisa

3.4 COLETA DE DADOS é fruto do IDE que é uma organização não


governamental – ONG que surgiu em 2000
A coleta de dados foi realizada em três
através da iniciativa voluntária dos irmãos
etapas: a) Levantamento da bibliográfica a
Manoel Antônio de Andrade Barbosa e Enéias
respeito de Empreendedorismo Social para
de Andrade Barbosa. Atualmente a instituição
nos dar o arcabouço necessário para a
desenvolve seus projetos em parceria com
análise; b) Coleta documentada sobre a
organizações comunitárias, igrejas, CEINF e
petmania, do modelo de negócios; c)
escolas da rede pública de ensino, atendendo
Preparação do roteiro de entrevista e a
cerca de 1200 crianças, adolescentes e
realização da mesma. A fim de contextualizar
jovens de 0 a 29 anos, sendo patrocinada por
formalmente foi realizado um levantamento
parceiros locais, por exemplo, a farmácia
teórico de economia solidária e o
popular e a padaria do senhor Felipe.
empreendedorismo social e sua evolução,
permitindo levantar os pontos necessários O projeto petmania baseia-se em um princípio
para responder à primeira questão muito simples, que é o de atribuir valor a
apresentada anteriormente. Será também matéria prima selecionada, que neste caso é
apresentado o modelo de negócio canvas e a garrafa pet.
os parâmetros segmentos de clientes,
Isso é feito em 3 passos: a)As pessoas
propostas de valor, canais, relacionamento
guardam as garrafas pet e trazem até a sede
com cliente, fontes de receita, recursos
do IDE; b)Na sede é feito a troca da pet por
principais, atividades chave, parcerias
uma moeda local chamada $IDEAL; c)Com
principais e estrutura de custos.
essa moeda local as pessoas podem comprar
A segunda parte foi realizado o estudo de produtos nos parceiros locais.
caso no projeto petmania. Foi feito num
primeiro momento, uma apresentação da
instituição, com dados fundamentais à CONCEITO
posterior compreensão da análise efetuada.
A petmania é um negócio social que viabiliza
No segundo momento a análise do projeto
as comunidades gerarem benefícios para
petmania segundo o modelo de negócio
suas famílias trocando garrafas pet por uma
canvas, já o terceiro momento uma análise
moeda local chamada $IDEAL, e com ela
estratégica: indicadores de desempenho que
comprando pães, frutas, verduras e outros
podem ser aplicados a este mesmo modelo,
produtos no comércio local.
fazendo uma interligação com as
perspectivas do Balanced Scorecard. Por Esse negócio social tem o objetivo de
último fará o contraponto de discussão entre contribuir com a sustentabilidade das
os vários pontos de análise. Associações (ONG’s) que desenvolvem
projetos socioambientais nas comunidades
em risco social. Tem a missão de “Promover
4. APRESENTAÇÃO E ANÁLISE DOS desenvolvimento social no contexto atual de
RESULTADOS crise e gerar consciência ambiental na
comunidade”,
O projeto petmania foi idealizado por Glauber
e a visão de “Criar a cultura socioambiental
Miranda, diretor de projetos do instituto de
em nossa comunidade através da educação e
desenvolvimento evangélico – IDE. O projeto
apoio aos jovens”. Além dos objetivos
Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 2
54
3

a)transformar lixo em benefício para a família; comerciantes locais, pois quando alguém
b)colaborar com a sustentabilidade de compra com $IDEAIS em seu comércio ele
projetos socioambientais; c)valorizar o tem 5% de desconto a mais que em Reais,
pequeno negócio local; d)combater a dengue; fortalecendo ainda mais a moeda local e
e)gerar emprego de acordo com a escala de incentivando os projetos socioambientais.
crescimento (prioritariamente familiares dos
Quando se estabelece uma parceria com as
participantes dos projetos socioambientais da
empresas que compram os resíduos sólidos
ONG).
selecionados, não temos que
O diferencial é a diminuição dos casos de necessariamente levar até eles os bag’s com
“dengue” e doenças similares, que desperta o as pet, pois eles vêm até a sede do IDE
interesse não só da população em geral, mas buscar.
também dos gestores das ações de políticas
Ainda é realizada a venda dos resíduos
públicas voltadas a área da saúde do
sólidos de forma selecionada para as
município. Proporcionando o maior
pequenas empresas intermediárias, mas
envolvimento dos colaboradores das
queremos vender para as grandes empresas
unidades de saúde na divulgação e
que pagam melhor pelo quilo da PET e da
sensibilização das comunidades na
Latinha. Para isso estamos buscando
participação do projeto Petmania, gerando um
estratégias.
processo de mídia gratuita e espontânea para
o Negócio Social. O projeto petmania acontece na sede do IDE
que está localizada na região da lagoa, mais
A participação dos pequenos negócios locais
especificamente no entorno de alguns dos
têm sido fundamental. O projeto e
bairros mais empobrecidos e violentos de
oportunizando e engajando os comerciantes
Campo Grande/MS, que são os bairros Portal
nas causas socioambientais e ainda aumenta
Caiobá 1 e 2, Rancho Alegre, Vila Fernanda,
seu fluxo de clientes, receita e imagem,
Riviera Parque, conjuntos Celina Jallad e
devido à divulgação que a ONG faz da
outros novos que tem surgido a cada ano
responsabilidade socioambiental desses
devido a construção das casas populares do
pequenos comerciantes em seus eventos com
programa minha casa minha vida. São
as famílias e comunidades beneficiárias dos
famílias que já moravam nesta região em
projetos. O diferencial de destaque nesse
barracos e favelas, e/ou de outras regiões
negócio social vem de uma iniciativa dos
pobres de Campo Grande/MS.

4.2 ANÁLISES DO MODELO DE NEGÓCIO


Figura 2 – Modelo de Negócio Canvas Petmania

Fonte: Dados da Pesquisa

Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 2


55
3

Tendo por base os métodos do modelo de A instituição disponibiliza ainda um blog e


negócio canvas, serão analisadas, nos uma página no facebook, marcando presença
próximos pontos, as várias áreas constituintes nas redes sociais, uma forma de divulgar
do modelo de negócio do projeto petmania. ainda mais o trabalho efetuado. Além de
utilizar seu próprio jornal mensal, por onde
divulga as parcerias com empresas locais.
4.2.1 SEGMENTOS DE CLIENTES
Para a identificação dos segmentos de
4.2.4 RELAÇÕES COM OS CLIENTES
clientes, há um aspecto essencial que se
prende exatamente com o cumprimento da Projeto Petmania é considerado pela
missão da organização em causa, de forma a comunidade um centro de apoio aos jovens, é
percepcionar as atividades principais que são visto pelos empreendedores locais como uma
aquelas que suprirão as necessidades dos oportunidade parceria e de marketing
clientes. agregado, o feedback é fornecido por parte
dos clientes o qual oferece uma dinâmica na
Desta forma, no que diz respeito ao projeto
comunidade, permitindo identificar novas
petmania, entende-se que os potenciais
necessidades que possam ter resposta por
clientes devem visar a educação
parte desta instituição.
socioambiental e socioeconômica da
comunidade através dos jovens. Durante a
análise do modelo de negócio segundo a
4.2.5 FONTES DE RECEITA
perspectiva do modelo de negócio canvas,
foram identificados diferentes de segmentos O capital gerado no âmbito das organizações
de clientes. de empreendedorismo social, ao contrário
das empresas, não tem, nem em parte, a
Esta divisão baseia-se nas diferentes
finalidade de ser repartido por acionistas.
necessidades encontradas, sobretudo ao
Neste tipo de organizações, todo o capital
nível do enquadramento do objetivo que as
gerado no âmbito da sua atividade é
várias tipologias de clientes têm, como
reinvestido em prol do seu crescimento. O
finalidade da interação com o projeto
projeto petmania enquadra-se exatamente
petmania.
neste parâmetro: toda a receita gerada é
utilizada para expandir e melhorar a oferta já
existente.
4.2.2 PROPOSTAS DE VALOR
Em termos de fontes de receita no caso
A troca dos materiais (garrafas pet) pelo
advêm da venda dos resíduos (material
$Ideal é, sem dúvida, a oferta principal desta
garrafa pet), e das parcerias locais. Desta
empresa, a proposta de valor esta
forma, é também aquela que gera mais
relacionada a outra troca entre a organização
capital. Os subsídios são os recursos que
e a sociedade, pois a partir do momento que
afetam a sustentabilidade da organização, no
esta organização promove o desenvolvimento
sentido de cumprir com os pontos
local, e melhora a qualidade de vida da
estabelecidos nos objetivos. Estes subsídios,
comunidade que esta inserida, ela estabelece
oferecidos por instituições como a primeira
uma conexão emocional e provoca o
igreja batista, são considerados para a
sentimento de família entre os envolvidos.
concretização de projetos especializados.

4.2.3 CANAIS
4.2.6 RECURSOS PRINCIPAIS
No que diz respeito aos canais, o meio de
Os recursos chave são utilizados no
comunicação mais usado é o “boca a boca”,
cumprimento das atividades chave da
através da comunicação direta, pois por se
organização. Ao nível dos recursos humanos
tratar de uma ONG e pela proposta de valor.
e para a coleta de materiais, todas as
Os canais estão baseados na criação de
pessoas envolvidas nas atividades diárias do
envolvimento pessoal, pois existe uma
projeto Petmania.
expertise por parte dos gestores e dos
voluntários responsáveis pela comunicação No entanto, dado o carácter especializado
com a comunidade. necessário à educação pedagógica aos
Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 2
56
3

jovens, foi estipulado que todos os remunerados e toda manutenção da


formadores são remunerados através de instalação física da organização que são
bolsas de estágio. Pensando nos recursos água, luz, telefone e materiais de escritório,
para a coleta de materiais a petmania dispõe sendo os custos que mais oneram na
de um galpão e de 4 bags para a seleção dos empresa.
materiais.
No entanto, o recurso com maior significância
5. CONSIDERAÇÕES FINAIS
para esta organização é imaterial: o know
how, não existindo mais nenhuma instituição Tal como referido na metodologia, esta
com uma missão e atividades minimamente análise pretende responder a três perguntas
similares, a verdade é que a experiência chave: a)a petmania cumpre os requisitos de
adquirida ao longo dos anos pelas pessoas uma “empresa social”?; b)como se estabelece
envolvidas adiciona ao projeto petmania de o seu modelo de negócio?; c)como é que
um conhecimento muito rico, próprio, único esse modelo se reflete em indicadores
que torna a organização de referência na sua quantificáveis?
área de negócio.
Em resposta à primeira questão levantada,
após a análise, a Petmania enquadra-se,, no
conceito de “empresa social”, cumprindo
4.2.7 ATIVIDADES-CHAVE
todos os pontos que o caracterizam.
As atividades-chave de uma organização são
Em relação à capacitação, foi possível
as que decorrem do cumprimento dos seus
observar que o projeto petmania. O cerne da
objetivos e, consequentemente, da sua
sua atividade está em ensinar a utilizar as
missão. Empregam dos recursos chaves
ferramentas necessárias para a transformação
disponíveis para que se transformem em valor
do meio social envolvente, através da
a oferecer ao cliente final. Desta maneira,
implementação da cultura socioambiental nas
tendo em conta tudo aquilo que foi
pessoas. A oferta diferenciadora e o modelo
anteriormente referido, facilmente entende-se
de gestão aplicado, não utilizado em outras
que a principal atividade do projeto petmania
organizações equiparadas, fazem como que
é a troca de garrafas Pet por $Ideal.
esta associação seja um exemplo de
dinâmica de inovação no mercado local.
4.2.8 PARCEIROS PRINCIPAIS Este projeto social tem caráter inovador, por
se inserir em universos diferentes, onde um
Os principais parceiros são os
deles é meio socioambiental fomentando a
empreendedores locais que realizam a troca
cultura de coleta seletiva, e de comunidade
de ideais por seus produtos, estes
com responsabilidade ambiental. O outro
empreendedores contribuem com o projeto
universo é o desenvolvimento econômico
que retorna para a comunidade local os
local, onde o projeto faz com que a
serviços de ONG para os jovens, utilizando
comunidade faça suas compras na
essa parceria como marketing a fim de atingir
comunidade gerando a economia do
um publica maior agregando oferta de valor.
comércio local.
Esta análise permitiu analisar que os grandes
4.2.9 ESTRUTURA DE CUSTOS fatores de sucesso deste modelo de negócio
resumem a quatro pontos essenciais, quais
É a estrutura de custos, quando alinhada
sejam: uma missão clara, com objetivos bem
perante as fontes de receita, que permite
claros e definidos e cumpridos; o
verificar a sustentabilidade de uma
posicionamento perante os parceiros e
organização. No caso da petmania no âmbito
clientes, criando propostas de valor
do empreendedorismo social, o fator da
inovadoras; a experiência e conhecimento de
sustentabilidade assume extrema importância,
campo dos envolvidos, sobretudo do líder,
dado que o capital gerado é reinvestido de
quais conferem à Petmania um know how
forma a cumprir a missão estabelecida.
muito próprio; e, por último, modelo de
Em termos de estrutura os custos fixos estão negócio e a forma como é gerido, colocam
alinhados aos serviços prestados a esta organização em vantagem competitiva
comunidade, onde há os custos dos em relação as outras ONGs.
profissionais pedagógicos que são

Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 2


57
3

É importante enfatizar que a evolução necessitam dos serviços do Projeto Petmania,


orgânica de qualquer organização promove a como a realização de parcerias com
todos os modelos de gestão adotados que empresas oferecem estagio, a fim de se ter
sejam sempre alvo de uma visão crítica, com maior acesso ao capital humano.
o intuito de se readaptarem a novas
Percebeu-se que não somente as empresas
necessidades de mercado que exijam
convencionais necessitam ter controlo sobre
respostas eficazes. Nenhum modelo de
os seus recursos, mas as empresas sociais,
negócio deve ser vedado, assim como
também precisam investir para que seus
nenhum plano estratégico deve estar excluído
objetivos sejam realmente alcançados. O
ainda mais a negócios que primam pela
planejamento é essencial pra que haja a
inovação e carácter diferenciador.
sustentabilidade econômica, fator tão
A Petmania cumpre todos os requisitos de importante ao nível do empreendedorismo
“empresa social”, e o seu modelo de negócio social. Além de observar que este modelo de
pode servir de base para outras ONGs e empresa social oferece soluções inovadoras,
projetos equiparados, o tipo de estratégia as quais podem desafiar os paradigmas
adota caraterísticas inovadoras, pois segundo tradicionais no meio dos negócios, e podem
(Drucker, 1989), as empresas ser vencedores com novos atributos.
empreendedoras sempre buscam as formas
Resume-se que este modelo de negócio seja
que fazem melhor e de forma diferente.
fomentador da consciência do planejamento
Em relação as melhorias, entende-se que um pra os empreendedores de negócios sociais,
maior investimento num projeto de marketing, a fim de garantir sustentabilidade econômica
ira proporcionar uma maior divulgação para e fomentar a cultura socioambiental.
que possa abranger mais jovens que

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Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 2


59
3

Capítulo 5

Glauce Almeida Figueira

Resumo: O artigo discute como vem evoluindo a relação entre a estratégia


empresarial e o enfrentamento dos desafios socioambientais, com ênfase nas
empresas que atuam no Brasil. Com o propósito de propiciar uma visão
panorâmica da relação entre a estratégia empresarial e sustentabilidade, este
trabalho está dividido em três seções. A primeira trata das contribuições de Porter e
de coautores ao enfrentamento pelas empresas dos problemas socioambientais,
através de artigos publicados ao longo das últimas décadas sobre o tema. A
segunda apresenta a proposta de que é necessário direcionar esforços e fazer
escolhas para definir uma melhor estratégia socioambiental pelas empresas, que
contribua para as questões sociais e ambientais e, ao mesmo tempo, mantenha a
competitividade empresarial. Para atingir este direcionamento, é formulada uma
matriz que apresenta tipos genéricos de estratégia ambiental corporativa. A terceira
faz algumas considerações, a partir das duas abordagens, e as relaciona com a
realidade atual do setor empresarial brasileiro, através da análise de pesquisas
desenvolvidas na iniciativa privada que buscam descobrir como as empresas
brasileiras estão lidando com os temas ligados à sustentabilidade.

Palavras-chave: Estratégia Empresarial, Sustentabilidade, Valores Compartilhados,


Vantagem Competitiva.

Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 2


60

1. INTRODUÇÃO: Para se atingir este novo paradigma técnico-


econômico mais sustentável, diversos agentes
As empresas têm um papel importante a
econômicos precisam agir de forma diferente
desempenhar na busca do desenvolvimento
em relação aos desafios socioambientais que
sustentável. Elas são atualmente os motores
se apresentam na atualidade. O setor
das economias que consomem uma parcela
empresarial tem importante papel nessa
desproporcional dos recursos do mundo,
evolução e a questão da sustentabilidade vem
causam diversos impactos sociais e
sendo discutida nas últimas décadas, pois
produzem uma parcela também
cada vez mais esses desafios se colocam de
desproporcional de seus poluentes. Mas é
forma inevitável para uma continuidade
também o setor empresarial um dos principais
sustentável dos negócios na iniciativa privada.
geradores de inovações que reduzem o uso
Dentro deste contexto, o artigo apresenta
dos recursos, diminuem a poluição e podem
duas abordagens principais que relacionam
contribuir para o desenvolvimento social.
estratégia empresarial e sustentabilidade.
Portanto, por serem tanto causa, como fonte
de soluções para a degradação ambiental e A primeira abordagem discute a ideia de que
social, elas estão inevitavelmente no centro da o enfrentamento dos desafios socioambientais
discussão sobre a sustentabilidade (MARTIN pelas empresas abre um enorme leque de
e KEMPER, 2012). oportunidades de negócios, com avanços
tanto nos produtos, como nos processos
Assim, embora as iniciativas educacionais e
desenvolvidos em todos os setores da
governamentais sejam necessárias e muito
iniciativa privada: primário, secundário e
importantes para a consciência dos
terciário. Para contribuir com essa visão, este
problemas ambientais e sociais, esses
trabalho apresenta a evolução da visão
agentes podem não ser capazes de resolver
empresarial em relação às vantagens da
os desafios ligados à sustentabilidade de
adoção das práticas sustentáveis na
forma rápida e completa o suficiente. A ideia
estratégia empresarial, através de artigos
da sustentabilidade deve se tornar o foco
escritos por Michael Porter e coautores que
também dos negócios empresariais e
discutem, desde os anos 90, a visão de que
contribuir com estes, para que esse impulso
as companhias devem reconhecer o meio-
fomente uma verdadeira mudança em direção
ambiente e a sociedade como fontes de
ao desenvolvimento sustentável.
oportunidades competitivas e não como um
Numa visão abrangente e macroeconômica, custo adicional ou como uma ameaça futura.
essa mudança se daria através da evolução Esta visão vem evoluindo nas últimas
do atual paradigma técnico-econômico para décadas, alcançando o princípio dos Valores
um novo paradigma ligado ao Compartilhados (Creating Shared Values –
desenvolvimento sustentável. Freeman (1992) CSV), proposto por Porter e Kramer em 2011,
retoma o conceito de mudanças técnico- que envolve criar valor econômico de uma
econômicas, desenvolvido por Carlota Peres maneira que também se crie valor para a
em 19831, e propõe que as mudanças em sociedade, enfrentando suas necessidades e
direção à sustentabilidade transcendem desafios. Assim, esses novos negócios
tecnologias de produto e processo, atingindo reconectariam o sucesso empresarial com o
também a estrutura de custos dos insumos e progresso socioambiental.
as condições mais gerais de produção.
A segunda abordagem discute a visão de que
Assim, o autor avalia que o paradigma atual,
as empresas não devem mais se perguntar se
denominado pelo mesmo como ICT
vale a pena ou não ser verde, mas quando
(Information and Communication Technology
vale a pena? De acordo com Reinhardt (1998)
ou Paradigma Tecnológico da Informação e
e Orsato (2006), o debate empresarial precisa
Comunicação), tem condições de impulsionar
evoluir do tópico: as empresas devem ou não
tecnologias socioambientalmente amigáveis
investir no enfrentamento dos desafios da
de forma generalizada pelo sistema
sustentabilidade? Para: quando e como elas
econômico, evoluindo para um novo
devem investir? Assim, existe potencial de
paradigma baseado na sustentabilidade
todas as empresas ganharem com a
(FREEMAN, 1992).
sustentabilidade, mas as formas de atingir
este retorno positivo variam de acordo com
1
1983: “Structural Change and Assimilation of New uma série de fatores como: a estrutura setorial
Technologies in The Economic and Social Systems” onde a companhia opera, seu posicionamento
in Futures, Vol. 15, Nº 4, October, pp. 357-375. dentro deste setor, os tipos de mercados

Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 2


61
3

atendidos pela empresa e suas competências 2. DA HIPÓTESE DE PORTER AOS VALORES


organizacionais. Estes fatores sugerem COMPARTILHADOS:
determinados focos competitivos que têm de
Porter e Van der Linde (1995) defendem que a
ser escolhidos para gerar vantagens
visão prevalecente de que existe um conflito
competitivas, de acordo com a realidade de
inerente e fixo entre ecologia e economia, na
cada empresa.
verdade é falsa. Na realidade, numa visão não
Orsato (2012) propõe dois modelos para estática da economia, existem grandes
facilitar a identificação das estratégias oportunidades para as empresas se tornarem
ambientais que otimizam o retorno econômico verdes e competitivas. Dessa forma, para
geral dos investimentos socioambientais e parar de incorrer nos mesmos erros, os
que têm maior potencial para transformar gestores devem começar a reconhecer a
estes investimentos em fontes de vantagem melhoria ambiental e social como uma
competitiva, denominando-as de Estratégias oportunidade econômica e competitiva e não
Ambientais Competitivas e Estratégia de como um custo inoportuno ou uma ameaça.
Inovação de Valor Sustentável. Esses modelos Na opinião dos autores, a poluição e o
formam uma matriz de opções estratégicas desperdício de recursos, dentre outros
que podem ser escolhidas pelas empresas problemas socioambientais, causam, na
para tornar mais rápida, eficiente e produtiva verdade, impactos negativos para as
a evolução da internalização das questões empresas. Eles ressaltam que o conceito de
socioambientais pela estratégia empresarial. “produtividade dos recursos” abre uma nova
maneira de olhar para todo o sistema de
É necessário enfatizar que este trabalho é
custos e para todo o valor associado aos
apenas uma aproximação do tema “estratégia
produtos e serviços e que, ao se analisar o
empresarial e desenvolvimento sustentável” e
ciclo de vida destes, outros custos que estão
por isso, as ideias aqui desenvolvidas não
“escondidos” são identificados. A inovação,
têm a pretensão de proporcionar uma visão
na visão dos autores, proporciona os avanços
acabada sobre o assunto.
necessários para eliminar o que a companhia
Assim, com o propósito de propiciar uma considera como trade-offs fixos e esse
visão panorâmica da relação entre a processo se concretiza muito mais pela
estratégia empresarial e sustentabilidade, prevenção e pela mudança dos processos do
este trabalho está dividido em três seções. A que somente pelo tratamento da poluição
primeira trata das contribuições de Porter e gerada. Essa nova visão ficou conhecida na
coautores ao enfrentamento pelas empresas literatura como “Hipótese de Porter”2 que
dos problemas socioambientais, através de apresenta uma perspectiva “ganha-ganha” da
alguns artigos publicados ao longo das interação entre o meio ambiente e a
últimas décadas sobre o tema. A segunda economia. Com essa nova perspectiva, os
apresenta a proposta de que é necessário gestores começariam a encarar os desafios
direcionar esforços e fazer escolhas para socioambientais como fontes de
definir uma melhor estratégia socioambiental oportunidades de negócios e a repensar a
pelas empresas, que contribua para as luta contra as regulamentações ambientais,
questões sociais e ambientais e, ao mesmo focando mais em atitudes pró-ativas, que
tempo, mantenha a competitividade gastando tempo e dinheiro para se defender
empresarial, sendo que, para atingir este ou fugir do endurecimento da legislação
direcionamento, é formulada uma matriz que ambiental (PORTER e VAN DER LINDE, 1995).
apresenta tipos genéricos de estratégia
O debate em torno da “Hipótese de Porter”
ambiental corporativa. A terceira, por fim, faz
avançou durante a década e, em 1999 e
algumas considerações, a partir das duas
2002, Porter e Kramer divulgam novos artigos
abordagens, e as relaciona com a realidade
com foco na atuação da chamada: Filantropia
atual do setor empresarial brasileiro, através
Corporativa. Os autores questionam a forma
da análise de algumas pesquisas
como as ações filantrópicas são
desenvolvidas na iniciativa privada que
desenvolvidas pelas empresas, ressaltando
buscam descobrir como as empresas
brasileiras estão lidando com os temas
ligados à sustentabilidade. 2
Nos círculos acadêmicos a “Hipótese de Porter” surgiu
a partir do debate que foi despertado pela publicação do
artigo: America´s Green Strategy, na revista Scientific
American (POTER, 1991).
Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 2
62
3

que elas são pouco efetivas tanto para os contribuições. Assim, os autores ampliando as
públicos atendidos como em justificar seus ideias defendidas no artigo de 1995, afirmam
gastos como benefícios aos negócios das que também não há uma contradição inerente
companhias. Além disso, crescentemente, as entre desenvolver o contexto competitivo de
ações filantrópicas vêm sendo usadas como uma empresa e realizar um sincero
instrumento de relações públicas e comprometimento para melhorar a sociedade.
propaganda, com o objetivo de aumentar a Na verdade, em sua visão, quanto mais
visibilidade da empresa e de melhorar a moral próxima é a ligação entre a filantropia
de seus funcionários, sem criar o impacto corporativa e o contexto competitivo da
social positivo necessário. Os autores empresa, maior será a contribuição da
retomam a ideia de que a dicotomia entre atividade empresarial para a sociedade. Eles
benefícios sociais e econômicos é falsa, já concluem afirmando que essa mudança de
que no longo prazo os objetivos sociais e foco da filantropia pode oferecer às
econômicos não seriam inerentemente companhias novos instrumentos competitivos
conflituosos, mas integralmente conectados, que justificam mais diretamente os
pois o desenvolvimento da sociedade investimentos sociais de seus recursos
contribui positivamente para o (PORTER e KRAMER, 2002).
desenvolvimento das empresas e vice e
A perspectiva “ganha ganha” evolui para
versa.
abordar também a questão da
Essa conexão entre avanços sociais e Responsabilidade Social Corporativa (RSE),
empresariais ocorre nos países desenvolvidos em mais um artigo de Porter e Kramer,
e, principalmente, nos subdesenvolvidos, publicado em 2006. Os autores defendem,
onde as necessidades são em geral neste artigo, que muitas empresas vinham
diferentes, mas apresentam um enorme fazendo cada vez mais nos últimos anos para
potencial de ganhos para as comunidades e melhorar seus impactos sociais e ambientais,
as empresas que atuam nestas regiões. Os mas que, na verdade, esses esforços não
autores retomam os conceitos desenvolvidos seriam tão produtivos como eles poderiam
no livro The Competitive Advantage of Nations ser. Para os autores, as abordagens
(Porter, 1990) para defender a importância do tradicionais de RSE são tão fragmentadas e
chamado “Contexto Competitivo” que se tão desconectadas dos negócios e da
desenvolve a partir da sociedade e é crucial estratégia empresarial que elas obscurecem
para a própria competitividade das empresas, muitas das grandes oportunidades das
colocando como exemplo clássico o empresas em beneficiar a sociedade. Dessa
desenvolvimento de clusters. A Filantropia forma, as ações desenvolvidas muitas vezes
Corporativa seria mais eficiente quando a não são nem estratégicas, nem operacionais,
companhia conseguisse, através dela, gerar mas “cosméticas” e novamente utilizadas
valor social e, ao mesmo tempo, desenvolver como propaganda ou relações públicas para
seu contexto competitivo, assim criando valor melhorar a imagem da empresa. Porter e
social e econômico (PORTER e KRAMER, Kramer criticam também os inúmeros
2002). relatórios de sustentabilidade ou de RSC
produzidos pelas companhias que, segundo
No artigo de 1999, os autores também
eles, raramente oferecem uma estrutura
discutem a própria atuação das fundações,
coerente das atividades de RSE ou as
instituições e ONGs, apresentando algumas
relacionam com a estratégia corporativa. Em
formas de tornar estas organizações mais
vez disso, eles agregam uma série de
eficazes em criar valor social, como:
anedotas sobre iniciativas descoordenadas,
selecionar os melhores donatários, sinalizar
para somente demonstrar uma “sensibilidade
outros financiadores, melhorar o desempenho
social” da companhia.
dos beneficiários das doações e avançar no
conhecimento e na prática de campo Na visão dos autores, as práticas tradicionais
(PORTER e KRAMER, 1999). Para Porter e de RSE são defendidas por quatro
Kramer, entender a ligação entre filantropia e argumentos principais: obrigação moral,
contexto competitivo ajuda as companhias e sustentabilidade dos negócios, licença para
identificar “onde” elas devem focar as ações operar e reputação, sendo que para eles,
corporativas. E entender as maneiras que a essas justificativas compartilham da mesma
filantropia cria valor, demonstra “como” as fraqueza: elas focam na tensão entre
empresas podem atingir o melhor impacto sociedade e os negócios e não em sua
social e econômico, através de suas interdependência. Além disso, Porter e
Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 2
63
3

Kramer apontam que normalmente as práticas própria empresa, uma dependendo


de RSE são isoladas das unidades efetivamente da outra para prosperar. Mas
operacionais da empresa e, até mesmo da essa nova forma de atuar seria também mais
área de filantropia corporativa, estando seletiva, pois dentre todos os temas sociais
completamente desconectadas da estratégia pelos os quais a empresa é chamada a
empresarial. Assim, essas práticas acabam investir, somente alguns apresentariam
não gerando um impacto social significativo e oportunidades de fazer uma real diferença
também não reforçam a competitividade das para a sociedade e, ao mesmo tempo,
companhias. proporcionariam uma importante vantagem
competitiva (PORTER e KRAMER, 2006).
Já na argumentação desse artigo, surge a
ideia dos valores compartilhados, quando os A discussão sobre os ganhos que poderiam
autores afirmam que a dependência mútua ser obtidos através da união dos negócios
entre as corporações e a sociedade implica com as dimensões social e ambiental se
na tomada de decisões empresariais e de ampliaram nas empresas e, em 2011, Porter e
condutas sociais que devem seguir o Kramer divulgam novo artigo, dessa vez,
princípio do compartilhamento de valor. As focando no tema dos Valores Compartilhados.
escolhas estratégicas, portanto, devem Esse artigo foi inclusive seguido de um
beneficiar os dois lados, pois qualquer estudo, também lançado em 2011 por Porter
conduta que beneficie um lado em detrimento et al., que entrevistou várias empresas e
do outro, leva a empresa à um caminho buscou demonstrar formas de medir
perigoso, onde os ganhos temporários irão monetariamente os chamados Valores
prejudicar a prosperidade no longo prazo, Compartilhados.
tanto social, como empresarial.
No artigo de 2011, os autores retomam a
Apesar deste artigo já falar sobre os valores visão de que os temas sociais não podem
compartilhados, o maior foco foi dado na estar na periferia dos negócios, mas junto ao
chamada Responsabilidade Corporativa seu “core business”. A solução para esta
“Estratégica”. Na opinião dos autores, o integração está, portanto, no princípio dos
conceito de Estratégia significa saber “Valores Compartilhados”, que envolve criar
escolher uma posição destacada e fazer valor econômico de uma maneira que também
coisas de forma diferente de seus se crie valor para a sociedade, abordando
competidores, de maneira a diminuir os suas necessidades e seus desafios. Os
custos ou a servir melhor um grupo particular autores buscam definir este novo princípio,
de necessidades dos consumidores. Essa afirmando que ele não é responsabilidade
estratégia, associada à responsabilidade social, filantropia ou até mesmo
corporativa, faz com que a empresa vá além sustentabilidade, mas uma nova maneira de
da atuação da cidadania corporativa ou da atingir sucesso econômico que criará uma
mitigação de impactos danosos na cadeia de importante transformação no pensamento
valor, chegando a poder desenvolver uma empresarial.
série de iniciativas proativas que trarão
O artigo inicia afirmando que o sistema
grandes e diferenciados benefícios sociais e
capitalista está “sitiado”, pois os negócios
empresariais. A RSC Estratégica envolve,
vêm crescentemente sendo vistos como a
portanto, as dimensões internas e externas da
causa maior dos problemas sociais,
empresa, num trabalho em conjunto. Segundo
ambientais e inclusive econômicos. Portanto,
os autores, muitas oportunidades de
esta percepção de que as empresas crescem
pioneirismo em inovação em produtos,
a custa da sociedade teria de ser modificada,
processos e na cadeia de valor da própria
tanto na forma como a opinião pública e os
companhia podem surgir para beneficiar a
governos veem as empresas, como na própria
sociedade e sua competitividade. As
forma de atuação interna das companhias
companhias que fizerem as escolhas certas e
que, na opinião dos autores, continuam
construírem iniciativas focadas, proativas,
criando valor de forma estreita. Para eles, as
integradas socialmente e em acordo com
empresas estão otimizando performances
suas estratégias essenciais, obterão maior
financeiras de curto prazo que criam inúmeras
sucesso e crescentemente se distanciarão do
bolhas especulativas, enquanto se esquecem
bolo que pratica o “business as usual”.
das verdadeiras necessidades dos clientes e
Assim, a RSC Estratégica, proposta pelos ignoram as amplas influências que
autores, poderia criar uma relação simbiótica determinam seu sucesso no longo prazo.
entre o desenvolvimento da sociedade e da
Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 2
64
3

De acordo com Porter e Kramer, o conceito necessariamente atendem a essas


de Valor Compartilhado reformula o conceito necessidades. O atendimento real das
de “externalidades” na economia. Na visão necessidades da sociedade, buscando
tradicional, as externalidades ocorrem quando efetivamente enfrentar seus desafios e
os negócios criam custos sociais e ambientais resolver seus problemas, abriria novas
com os quais eles não têm que arcar, como a trajetórias potenciais de inovação que podem
poluição, por exemplo. A sociedade deve impulsionar exponencialmente os negócios
então impor impostos, taxas, empresariais, criando os valores
regulamentações e penalidades para que as compartilhados. A sociedade também sairia
empresas “internalizem” essas ganhando, pois a empresas são geralmente
externalidades. Geralmente, essas mais efetivas que os governos e as ONGs em
delimitações coíbem a lucratividade das divulgar e motivar, através das estratégias de
empresas e colocam a sociedade e os marketing, os consumidores a adotar
negócios em campos opostos de batalha. As produtos e serviços que criam benefícios
companhias deixam para os governos e socioambientais. As companhias,
ONGs a responsabilidade de solucionar os principalmente as grandes corporações
problemas sociais e ambientais ou transnacionais, possuem um diferencial
desenvolvem programas de responsabilidade importante chamado “escala” que dificilmente
corporativa em reação às pressões externas, é atingido pelas iniciativas governamentais ou
mas com ações focadas somente em sua de organizações do terceiro setor.
reputação corporativa e, quase sempre,
A segunda maneira seria redefinir a
dissociadas dos negócios. De acordo com
produtividade na cadeia de valor das
Porter e Kramer, o princípio de Valor
companhias. Segundo os autores, existem
Compartilhado questiona esse pensamento e
muitas oportunidades de gerar valor
reconhece que as necessidades da
compartilhado nas cadeias produtivas, já que
sociedade e não somente as necessidades
os problemas sociais e ambientais criam
econômicas convencionais definem os
inúmeros custos para os negócios e para a
mercados a serem atendidos. Este conceito
sociedade que, na verdade, não deveriam ser
também provoca o reconhecimento de que os
considerados externalidades. Para Porter e
males sociais e ambientais podem causar
Kramer, as empresas podem adotar a
custos “internos” para os negócios, como:
abordagem da eficiência ecológica para
gastos de energia, desperdício de matérias
impulsionar a inovação e a geração de
primas, acidentes de trabalho e até a
vantagens competitivas nas cadeias de valor,
necessidade de treinamentos para remediar
em áreas como: a eficiência energética e
as deficiências na educação dos funcionários.
logística, o uso de recursos, o
Assim, as chamadas “externalidades” teriam
desenvolvimento da cadeia de suprimentos e
sim impactos econômicos internos para as
fornecedores, a distribuição, a produtividade
empresas e deveriam ser tratadas com mais
dos empregados e a localização produtiva.
atenção. Além disso, elas podem ser tratadas
Todas essas áreas deveriam ser repensadas
como fonte de oportunidades para a criação
do ponto de vista dos valores compartilhados,
de novas tecnologias, novos métodos
assim muitas das práticas usuais de negócios
operacionais e novos métodos de gestão,
que contribuem para a degradação social e
tendo a possibilidade de ampliar a
ambiental seriam modificadas e as
produtividade das companhias e expandir
companhias conseguiriam ter também
seus mercados. Por isso, uma ressalva
sucesso financeiro, através de estratégias de
apontada pelos autores, define que a ideia
redução de custos ou de diferenciação,
não é compartilhar valores já criados e sim
associadas à mudança das práticas
expandir o volume total de valor econômico e
desenvolvidas dentro da empresa e em sua
social da empresa através do
cadeia de valor.
desenvolvimento de novos negócios,
tecnologias e processos, entre outros. A terceira maneira seria permitir o
desenvolvimento de clusters locais. De
Para orientar melhor os gestores, Porter e
acordo com os autores, o sucesso das
Kramer apontam, no artigo, três maneiras
companhias é afetado pelas empresas de
principais de criar Valor Compartilhado. A
suporte e pela infraestrutura ao redor delas.
primeira seria reconciliar os produtos/serviços
Eles apontam um conceito amplo de cluster
com os mercados consumidores, pois as
que abrange a concentração geográfica de
necessidades sociais e ambientais ainda são
empresas, os negócios relacionados, os
enormes e os produtos e serviços atuais não
Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 2
65
3

fornecedores, os provedores de serviços, a os Valores Compartilhados são partes


infraestrutura logística, as instituições integrantes do posicionamento competitivo e
acadêmicas, as associações de comércio, as lucrativo das companhias que alavancam
organizações de normalização, além de bens recursos e competências únicas para o
públicos como: escolas e universidades, água negócio criar valor econômico, através da
limpa, leis justas de competição, normas de criação de valor social. Os autores citam,
qualidade e transparência de mercado, entre inclusive, a necessidade de se reformular os
outros. Na opinião dos autores, as conteúdos acadêmicos das universidades e
companhias vêm continuamente se das escolas de negócios, pois
distanciando de seus clusters e a criação dos tradicionalmente o conhecimento sobre os
valores compartilhados direcionaria para esta temas sociais e os temas de negócios é
reconexão que pode aumentar a ensinado de forma separada. Em sua opinião,
produtividade e lucratividade dos negócios, as carreiras públicas e privadas também
enquanto aborda as falhas e lacunas das seguem caminhos muito distantes na
condições de suporte que cercam esses atualidade e a ideia de gerar valor
aglomerados locais. Além disso, a formação compartilhado requererá pessoas que tenham
de clusters auxilia nas iniciativas de um conhecimento transdisciplinar, para poder
desenvolvimento econômico dos mais efetivamente reconectar os desafios
diversos países, com maior força nos socioambientais com a busca de lucratividade
subdesenvolvidos, além de retomar ou dos negócios.
ampliar a conexão entre o sucesso
Por fim, numa perspectiva mais abrangente
empresarial e o sucesso das comunidades.
que poderia levar a ideia de mudança de
Porter e Kramer afirmam também que, a partir paradigma técnico-econômico, como
do princípio de Valor Compartilhado, a noção discutido por Freeman (1992) na introdução
do lucro também é repensada, já que nem deste trabalho. Porter e Kramer afirmam que
todos os lucros são iguais, pois aqueles que os Valores Compartilhados têm a chave para
envolvem uma função socioambiental liberar uma nova onda de crescimento e
representam uma forma superior de inovação nos negócios e na sociedade, pois
capitalismo. Além disso, esse tipo de lucro nós precisamos de uma forma mais
pró-sustentabilidade cria um círculo virtuoso sofisticada de capitalismo, uma forma imbuída
de prosperidade para as comunidades e os de um propósito social. Esse propósito não
negócios. deveria surgir da caridade, mas de um
entendimento mais profundo da concorrência
Como importante contribuição, os autores
e da criação de valor econômico, sendo que
fazem ainda a ligação entre os valores
essa próxima evolução do modelo capitalista
compartilhados e a estratégia empresarial.
reconheceria novas e melhores maneiras de
Eles afirmam que seu objetivo central é fazer
desenvolver produtos, atender aos mercados
com que esses novos valores se tornem parte
e erguer empreendimentos produtivos
integral das estratégias de crescimento e de
(PORTER e KRAMER, 2011).
competição das empresas, pois os CSV
(Creating Shared Value) abrem um grande A partir da leitura dos artigos citados, que
leque de oportunidades caracterizadas como: relacionam a estratégia empresarial com a
necessidades a serem atendidas, sustentabilidade, percebe-se uma evolução
produtos/serviços a serem oferecidos, novos nas possibilidades de vantagens advindas
clientes e novas maneiras de configurar a dessa relação. Se, em 1995, o foco era na
cadeia de valor. Além de proporcionar o produtividade de recursos, as contribuições
surgimento de vantagens competitivas que evoluíram passando por outras áreas de
serão bem mais sustentáveis que as atuação das empresas e chegando ao
vantagens convencionais de custos e/ou de conceito de Valores Compartilhados, que é
melhorias da qualidade, dificultando o ciclo certamente mais abrangente. Essa evolução
de imitação e de jogo competitivo de soma demonstra que as oportunidades que surgem
zero que frequentemente ocorre nos do alinhamento entre a sustentabilidade e a
mercados atuais. estratégia de negócios são inúmeras e que,
realmente, o enfrentamento dos desafios
Para Porter e Kramer, o conceito de CSV
socioambientais pode ser benéfico para as
também deveria superar a RSC, pois,
empresas, contribuindo para o seu
enquanto a Responsabilidade Social
desenvolvimento e competitividade, mesmo
Corporativa foca principalmente em reputação
e tem uma conexão limitada com os negócios,
Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 2
66
3

porque, esses desafios se tornam a cada dia, a empresa compete e sua posição relativa
mais inevitáveis. nesse setor. Porter destaca, a partir desses
princípios, dois tipos genéricos de vantagens
Porém, mesmo que este entendimento venha
competitivas que as empresas podem buscar:
sendo assimilado pela iniciativa privada,
custos baixos e diferenciação.
surgem ainda muitas dúvidas sobre como
fazer esse alinhamento acontecer. No meio Já na Visão Baseada em Recursos (RBV), a
empresarial surgem muitos questionamentos vantagem competitiva não é uma função da
sobre o tema: quais estratégias podem ser estrutura setorial, mas é resultado da
melhores desenvolvidas e por quais habilidade das empresas em utilizar os
empresas? Quais iniciativas podem realmente recursos que são distribuídos de forma
ser fontes de vantagens competitivas? Quais heterogênea pelas companhias e tendem a se
estratégias conduzem à criação de novos estabilizar com o passar do tempo. Ela
espaços de mercado? considera a vantagem competitiva como
resultante das competências das empresas
Essas perguntas e muitas outras revelam que,
em adquirir e/ou administrar recursos e
como em qualquer outro aspecto nos
destaca a influência que os processos
negócios, o gerenciamento socioambiental é
organizacionais internos exercem sobre a
contingente às competências internas e ao
competitividade (WERNEFELT, 1984;
contexto no qual a empresa opera. Para
RUMELT, 1984; BARNEY, 1986).
auxiliar nessa reflexão, portanto, Orsato
(2012) em seu livro: Estratégias de Para Orsato, a RBV e a escola do
Sustentabilidade: Quando vale a pena ser posicionamento de Porter devem ser vistas
verde? E em alguns artigos (ORSATO, 2006; com perspectivas complementares ao invés
ORSATO, 2002 e ORSATO; CLEGG, 2005) de rivais por uma simples razão, a forma pela
propõe formas de alinhar a sustentabilidade qual os negócios administram suas atividades
com as diferentes estratégias que podem ser tem o potencial de criar ou destruir valor.
desenvolvidas pelas empresas. Essa reflexão Assim, existe uma forte ligação entre o que as
tem o intuito de facilitar escolhas e planos de empresas produzem (produtos e serviços) e
ação que realmente contribuam para o como elas os produzem (processos
enfrentamento dos desafios socioambientais, organizacionais) e, segundo o autor, somente
enquanto auxiliam no desenvolvimento unindo as duas escolas é possível identificar e
empresarial. explicar as diferentes fontes de vantagens
competitivas.
A partir dessa reflexão, o autor propõe um
3. ESTRATÉGIAS DE SUSTENTABILIDADE
modelo denominado “Estratégias Ambientais
Em seu livro, Orsato (2012) parte de duas Competitivas”, onde são cruzados os desafios
abordagens teóricas líderes em administração socioambientais com as diferentes
estratégica: a escola do posicionamento possibilidades de gerar vantagens
Michael Porter e a Visão Baseada em competitivas. Este modelo de escolhas
Recursos (Resource-based View - RBV)3 da apresenta diferentes estratégias que podem
empresa. De acordo com Porter (1980), para ser conduzidas pelas empresas, favorecendo
obter vantagem competitiva, as companhias a transformação dos investimentos sociais e
necessitam ter uma estratégia clara através ambientais em oportunidades lucrativas de
da criação de uma posição singular e de valor negócios, como expresso no Quadro 1:
que envolve um diferente conjunto de
Este quadro mostra que, de acordo com o
atividades (PORTER, 1980). Segundo Orsato,
foco competitivo e as vantagens competitivas
essa visão de melhor posicionamento
já desenvolvidas pela empresa, determinadas
seguindo os princípios de Porter busca as
ações de sustentabilidade têm maior
vantagens competitivas a partir do mercado,
probabilidade de serem exitosas ao se
ou seja, são vantagens de mercado. Assim, o
tornarem foco, pois são mais condizentes com
sucesso estratégico é alcançado em função
o posicionamento estratégico já adotado pela
de dois fatores, a atratividade do setor no qual
companhia.

3
Uma visão ampla das diversas escolas de
Administração Estratégica é apresentada no livro:
MINTZBERG, H; AHLSTRAND, B e LAMPEL, J; Safári de
Estratégia: um roteiro pela selva do planejamento
estratégico; Porto Alegre: Bookman, 2010.
Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 2
67

Quadro 1: Estratégias

Fonte: Orsato (2012)

A estratégia 01: Ecoeficiência de Processos produtos e serviços para outras companhias


será bem utilizada pelas empresas que (Mercado Industrial ou B2B - Business to
necessitam concomitantemente reduzir seus Business). Essas companhias buscam fazer
custos e o impacto ambiental de seus com que as ações de sustentabilidade sejam
processos organizacionais para alcançar ou divulgadas para contribuir para a imagem
manter a competitividade em seus mercados. corporativa, reduzir seu risco reputacional ou
Elas podem inclusive estimular a influenciar a opinião positiva sobre as práticas
ecoeficiência4 em suas cadeias de valor adotadas pela empresa. Elas têm o interesse
(fornecedores, intermediários, consumidores, em obter certificações reconhecidas em seus
etc). As companhias podem também aplicar a mercados e/ou mundialmente, ou ainda
chamada Ecologia Industrial5 ou a Simbiose alcançar padrões mais arrojados que os
Industrial6: quando os rejeitos e subprodutos demandados pelas certificações e
das empresas se tornam matéria prima de regulamentações existentes na área social e
outras. Elas podem desenvolver a chamada ambiental. Para Orsato, essa estratégia é
desmaterialização7 que envolve a redução ou desenvolvida para demonstrar no mercado
substituição da quantidade de material que essas companhias são pioneiras em
utilizado em um produto ou até mesmo relação aos requisitos da sustentabilidade,
trabalhar para a redução de emissões de utilizando esse recurso como diferenciação
GEE8 em todos os seus processos produtivos. competitiva ou mesmo como uma “licença
para operar”.
Já a estratégia 02: Ecodiferenciação de
Processos é direcionada às companhias que Dentro dessa estratégia, são desenvolvidas
necessitam se destacar através das ações de iniciativas como a participação em clubes
sustentabilidade junto aos seus clientes e verdes, tendo como exemplo: o Pacto Global
público geral e são normalmente (ONU), os princípios da CERES (Coalisão
desenvolvidas por empresas que fornecem para uma Economia Ambientalmente
Responsável), os relatórios GRI (Iniciativa de
Relatório Global), a participação no WBCSD
4 Ecoeficiência consultar: RYAN. C, 2004;
5 Ecologia Industrial consultar os trabalhos dos seguintes (Conselho Empresarial Mundial para o
autores: DEN HOND. F, 2000; HARDY. C e GRAEDEL. T, Desenvolvimento Sustentável)9, dentre outros
2002; AYRES. R, 1996 e artigos encontrados no Journal of exemplos. Além da participação em clubes de
Industrial Ecology. certificação de processos, como os SGA
6 Simbiose Industrial consultar: CHERTOW. M, 2007.
7 Desmaterialização consultar: CORBETT. C e KLASSEN,
R, 2006.
8 GEE: Gases de Efeito Estufa 9 Uma revisão útil dos principais Clubes Verdes é
apresentada por WADDOCK. S, 2008.

Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 2


68
3

(Sistemas de Gestão Ambiental), a série de selos socioambientais13, as análises de Ciclo


certificação ISO 1400010 e a série de de Vida dos Produtos e Serviços (ACV)14, a
certificação ISO 2600011. Além da indicação certificação por rótulos de carbono15 e a
para o DJSI (Índice de Sustentabilidade Dow criação de marcas ecológicas16. Segundo
Jones) desenvolvido pela Bolsa de Nova York, Orsato, nessa estratégia, os aspectos
que é direcionado ao mercado de intangíveis como simbolismo e confiança são
investimentos. Segundo o autor, essas centrais na criação de um relacionamento
iniciativas voluntárias, na forma de códigos de duradouro entre produtos de marcas
conduta, padrões ambientais, participação socioambientais e seus consumidores, pois o
em clubes, licenças, certificações e consumo eco-orientado é apenas uma parte
programas compartilham objetivos comuns de das complexidades econômicas, sociais e
auxiliar os negócios na implantação e políticas que constituem os sujeitos de
comunicação de programas socioambientais consumo. Assim, não podemos negar o
aos clientes das empresas e ao público em potencial que um grupo específico de clientes
geral. A estratégia é interessante para representa para o sucesso da estratégia de
empresas que necessitam melhorar a marcas socioambientais, mas este potencial
eficiência de suas operações, mas também deve ser mantido dentro de uma perspectiva
por que elas necessitam ampliar o diálogo e realista do mercado, que comporta uma
engajamento com seus stakeholders12, grande massa de consumidores e empresas
investindo em sua reputação. É importante que não está disposta ou que não pode pagar
lembrar também que nem todas as empresas mais pela diferenciação ecológica.
têm condições de investir em determinados
Finalmente, a estratégia 04 de Liderança de
programas e certificações, pois essas
Custo Ambiental é a mais difícil de ser
iniciativas podem ser demasiadamente
seguida pelas empresas, pois esta busca
onerosas e com retornos financeiros não
oferecer produtos e serviços a preços baixos
imediatos, para essas companhias é melhor
e com as características da sustentabilidade.
adotar a estratégia 01 de Ecoeficiência de
Apesar de existirem nichos de mercado que
Processos.
estão dispostos a pagar preços Premium,
A estratégia 03, chamada de Marcas uma vasta parcela do mercado em geral não
Socioambientais, é proposta para as paga pela diferenciação. Mas os produtos e
empresas que buscam se diferenciar serviços que competem prioritariamente por
prioritariamente através de seus produtos e preços podem também rentabilizar seus
serviços. Atualmente, os produtos e serviços investimentos sociais e ambientais. Nesses
orientados para a sustentabilidade casos, as empresas devem desenvolver
representam um nicho mundial explorado por inovações radicais que possibilitem que,
diversas empresas. As companhias que através da sustentabilidade, suas ofertas se
buscam essa estratégia atuam em mercados tornem mais acessíveis. Estas práticas podem
nos quais os clientes estão dispostos a pagar ocorrer através da reformulação (total ou
os custos da diferenciação ecológica (social e parcial) de diversos recursos como: produtos,
ambiental), pois consideram que as empresas matérias primas, serviços, transporte e cadeia
fornecem algo único que é valoroso para eles. de valor, entre outros, que pode ser
Nesse contexto, é importante fornecer sempre alcançada através de iniciativas de eco-
informações confiáveis e possibilitar que os design 17, de análises de Ciclo de Vida dos
clientes possam avaliar o desempenho Produtos e Serviços e do desenvolvimento de:
ambiental e social dos produtos e serviços, Sistemas de Produto Serviço (PSS – Product
além disso, a diferenciação deve ser difícil de
ser imitada pelos concorrentes.
13 “As empresas utilizam selos socioambientais como
Dentro dessa estratégia, são desenvolvidas uma maneira de simplificar a informação contida em seus
iniciativas como: a certificação ou criação de produtos, legitimando seus esforços e usando-os como
componentes centrais da estratégia de marca
socioambiental” (ORSATO, 2012, p. 120);
10 ISO 14000 é uma série de normas desenvolvidas 14 Análise de Ciclo de Vida: um método para quantificar
pela International Organization for Standardization (ISO) o impacto ambiental de um processo industrial, atividade
que estabelece diretrizes sobre a área de gestão ou produto (JOHNSTON. R, 1997).
ambiental dentro das empresas. 15 Rótulos de Carbono consultar: PAULAVERTS. K, 2008
11 ISO 26000 é uma série de normas desenvolvidas e site do: The Global Ecolabelling Network (GEN).
pela International Organization for Standardization (ISO) 16 Marcas Ecológicas consultar: REINHARDT. F, 1998.
que estabelece diretrizes sobre a responsabilidade social 17 Eco-design consultar: RYAN. C, 2003 e 2005;
pelas empresas. TISCHNER. U et al., 2002; GERTSAKIS. J, LEWIS. H,
12 Grupos de Interesse RYAN. C, 1996.
Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 2
69
3

Service System)18, que possibilita às reduz custos, aumenta o valor para o


empresas vender as funções que os produtos consumidor e gera benefícios sociais e
se propõem a realizar, através de serviços, ao ambientais. Essa transposição forma o
invés da venda do produto material conceito de Inovação de Valor Sustentável
propriamente dito. Na opinião do autor, essa (IVS) expresso no Quadro 02.
estratégia traz a vantagem competitiva mais
De acordo com Orsato para desenvolver a
durável para a empresa frente aos seus
Inovação de Valor Sustentável, as empresas
concorrentes tradicionais, pela oferta de itens
devem apresentar uma proposta de valor que
pioneiros em inovação socioambiental e, ao
é única (normalmente através de um novo
mesmo tempo, acessíveis em valor (ORSATO,
modelo de negócios) e que reduza tanto os
2012).
custos econômicos, como os impactos sociais
Naturalmente as companhias podem optar e ambientais, criando valor não somente para
por desenvolver mais de uma estratégia ao os clientes, mas também para a sociedade
mesmo tempo, e os grandes grupos como um todo. A IVS fornece a base para a
internacionais em geral conseguem criação de novos mercados, alinhados com
desenvolver um ou dois direcionamentos as demandas de responsabilidade ambiental
estratégicos concomitantemente, mas esta e social. Portanto, esta é uma estratégia de
opção demanda recursos financeiros, sistema, pois ela exige mudanças não
organizacionais e administrativos que podem somente na natureza e na tecnologia dos
dificultar a obtenção de resultados por todas produtos e serviços, como também, na lógica
as empresas. O importante também é utilizar pela qual os sistemas de produção e
este raciocínio para entender como cada consumo são organizados. Assim, as
direcionamento vai afetar a competitividade estratégias de IVS transpõem os limites do
da empresa e direcionar melhor seus sistema de valor de um setor econômico já
esforços. existente, avaliando se o novo modelo de
negócio cria valor, tanto para acionistas e
Além dessas estratégias, Orsato (2012)
consumidores, como para a sociedade em
ressalta que as organizações altamente
geral.
inovadoras podem superar a concorrência
como um todo através das estratégias do Seguindo esta estratégia, o autor, a partir do
Oceano Azul (EOA)19. Segundo esse livro, ao estudo do mercado automobilístico mundial,
redefinir a proposição de valor para indica algumas iniciativas que configurariam
consumidores (atuais e potenciais), as alternativas ao modelo de negócios de carros
empresas podem criar uma inovação radical atual e que, portanto, se configurariam como
de valor com produtos e serviços a preços Inovações de Valor Sustentável, pois propõem
baixos que eliminam a opção entre custo e uma ruptura com as práticas tradicionais
diferenciação presente nas estratégias dessa indústria. Ele sugere algumas
competitivas tradicionais. Como o alternativas como: as Station Cars20, as
desenvolvimento da EOA é baseado nas Stations Bikes21, as Operadoras de
necessidades dos clientes, pode ser Mobilidade22 e os Sistemas de Serviço de
considerada uma estratégia orientada a Mobilidade ou Car-Sharing 23, sendo que
demanda, isto é, ela é criada para satisfazer todas essas iniciativas já são desenvolvidas,
demandas inexploradas pelas empresas, com em pequena escala, em diversas partes do
novas propostas de valor que criam novos mundo e tem grande potencial de
espaços de mercado. Esses espaços novos crescimento, pois atendem demandas
não competem com as ofertas já existentes do inexploradas da sociedade de uma maneira
oceano vermelho da concorrência atual dos diferente e única.
negócios, assim, não há comparações de
preço, dificultando as distinções tradicionais
entre preço baixo e diferenciação.
O autor propõe uma transposição da EOA
20 Exemplo de Station Car consultar: <www.agglo-
para o domínio da sustentabilidade resultando
larochelle.fr>, agosto, 2008.
em uma estratégia que, simultaneamente, 21 Exemplo de Station Bike consultar:
<www.velib.paris.fr>, outubro, 2008.
22 Operadoras de Mobilidade consultar: ORSATO. R e
18 Product Service System consultar: MONT. O, 2004; HEMME. S, 2009.
RYAN. C, 2004; ROY. R, 2000; 23Exemplos de Sistemas de Serviço de Mobilidade
19 Blue Ocean Strategy consultar: KIM. W e consultar: <www.mobility.ch>, julho, 2008 e
MAUBORGNE. R, 2005. <www.zipcar.com>, setembro, 2008.
Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 2
70

Fonte: Orsato, 2012


.
Para Orsato, o surgimento dessas inovações 4. ESTRATÉGIA EMPRESARIAL E
radicais vem comprovar uma busca por novos DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL:
modelos de negócios dentro do setor ATUAÇÃO DAS EMPRESAS NO BRASIL
automobilístico, que poderia ser considerado
As contribuições de Porter, Orsato e
um “oceano vermelho” de concorrência
coautores traçam perspectivas para e
acirrada atualmente. O desenvolvimento
evolução da internalização da
dessa estratégia é menos limitado pelo
sustentabilidade nas estratégias empresariais.
contexto externo do que pelas competências
São propostos caminhos para que as
internas que as empresas precisam ter para
empresas possam enfrentar os desafios
inovar e criar novos espaços de mercado. Na
sociais e ambientais, contribuindo para o
visão do autor, a implantação desse tipo de
desenvolvimento sustentável da sociedade,
estratégia é mais um caso de audácia
de forma a inserir esses desafios na lógica
administrativa do que do posicionamento da
dos negócios. Mas como as empresas que
empresa dentro de um espaço competitivo já
atuam no Brasil estão agindo em relação aos
existente (ORSATO, 2012).
desafios socioambientais? É necessário se
Assim, as Estratégias Competitivas avaliar o presente, ou seja, avaliar o
Ambientais e a Inovação de Valor Sustentável comportamento atual das empresas frente a
compreendem um matriz com as possíveis estas mesmas perspectivas.
escolhas para as estratégias de
Assim, para complementar a discussão
sustentabilidade para ampliar o
proposta neste trabalho, algumas pesquisas
posicionamento competitivo da empresa
são apresentadas para contribuir para uma
dentro de seus mercados existentes (ECAs)
avaliação da atuação do ambiente corporativo
e/ou para a criação de novos espaços de
brasileiro na atualidade em relação à
mercado (IVS). Esta é uma matriz de escolhas
sustentabilidade.
e essas escolhas acarretam, efetivamente, o
alinhamento dos ecoinvestimentos com o A primeira pesquisa apresentada foi realizada
contexto competitivo, com as competências pela CNI (Confederação Nacional da
da empresa e com sua estratégia corporativa. Indústria) em 2010 e é uma sondagem
É essencial, portanto, utilizar critérios claros especial que foca na adoção de
para identificar uma estratégia de procedimentos gerenciais associados à
sustentabilidade específica a ser seguida. gestão ambiental por 1.227 empresas que
Com isso, os gestores estarão em uma melhor contribuíram para a pesquisa.
posição para justificar seus investimentos
Segundo este estudo, 71% das empresas
socioambientais para os acionistas ou
declaram adotar procedimentos gerenciais
proprietários, enquanto atendem as
associados à gestão ambiental e 62,4% das
demandas dos outros grupos de interesse da
indústrias brasileiras já possuem
companhia.
procedimentos sistemáticos de gestão
ambiental, os chamados SGA (Sistema de
Gestão Ambiental), sendo que este percentual

Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 2


71
3

é diferente por tamanho de empresa, entre as Verificando as respostas da pesquisa, pode-


grandes 90,3% tem algum tipo de SGA, entre se averiguar que a estratégia de Ecoeficiência
as médias 70% e entre as pequenas 50%. é a mais desenvolvida pelas empresas, pois o
maior foco dos programas de gestão
Os principais fatores alegados pelas
ambiental está na redução no uso de
empresas para a adoção de procedimentos
matérias-primas e insumos e no combate aos
de gestão ambiental foram: imagem e
desperdícios, principalmente dentre as
reputação (78,6%), exigências de
pequenas e médias companhias. Esses
licenciamento ambiental (77,7%),
dados, segundo a contribuição de Orsato
regulamentos ambientais (66,6%), política
(2012), comprovam que as empresas que têm
interna da empresa (65,8%) e reduzir
um maior foco estratégico na redução de
desperdício de insumos e matéria-prima
custos operacionais acabam optando por
(55,3%). A melhoria da qualidade dos
estratégias de ecoeficiência, quando
produtos e a demanda de
abordam as questões ambientais. Mas a
clientes/consumidores apresentaram somente
estratégia de Ecodiferenciação de Processos
as percentagens de 37,7% e 27,9%
também é identificada, pois 90,3% das
respectivamente.
grandes empresas adotam algum tipo de
Ainda de acordo com a pesquisa, os sistema de SGA, essa adoção pró-ativa de
programas de racionalização no uso de certificações faz parte de uma série de
matérias-primas e insumos e combate aos iniciativas para diferenciar e mostrar aos
desperdícios foram os mais adotados no stakeholders da companhia que os processos
sistema de gestão ambiental (SGA) das adotados têm contribuído para a questão
empresas. Assim, dentre as companhias que ambiental e social. Esse tipo de estratégia,
possuem SGA: 80,1% focaram na redução da segundo Orsato (2012), acaba sendo
geração de resíduos, 69,5% no uso eficiente escolhida pelas empresas que precisam
de energia, 58,3% na redução do uso da comprovar seu desempenho socioambiental
água e 45,9% passaram a utilizar resíduos para os clientes. São normalmente empresas
como matéria prima ou insumo. Esses B2B que buscam comunicar os programas
resultados demonstram, portanto, que as socioambientais aos seus clientes e ao
empresas estão preocupadas em melhorar a público em geral. A estratégia é interessante,
eficiência de seus processo industriais, por portanto, para empresas que necessitam
meio da racionalização do uso de matérias melhorar a eficiência de suas operações, mas
primas e de insumos. também ampliar o diálogo e engajamento com
seus stakeholders, investindo em sua
No cenário apresentado por esta pesquisa,
reputação.
verifica-se que o tema da gestão ambiental já
faz parte do dia a dia das empresas Porém na pesquisa não está claro se essas
entrevistadas pela CNI no setor industrial opções estratégicas contribuem na busca de
brasileiro. Porém é difícil definir se essa vantagens competitivas ou se elas são mais
preocupação está ou não integrada às uma forma de manter a competitividade das
estratégias dessas empresas e se, realmente, empresas, num contexto de maior
o enfrentamento desses desafios é tratado regulamentação e pressão social,
como fonte de oportunidades competitivas configurando mais uma “licença para operar”
para as companhias. que uma oportunidade de negócio. Os
principais fatores alegados para a adoção da
Pela análise da pesquisa, a partir do quadro
gestão ambiental foram: imagem e reputação,
proposto por Orsato (2012) sobre as
exigências de licenciamento ambiental e
Estratégias Ambientais Competitivas (EACs),
regulamentos ambientais. Essas respostas
pode-se inferir que, primeiramente esta
levam ao questionamento quanto à
pesquisa teve maior direcionamento aos
proatividade das empresas na busca de
Processos Organizacionais como foco
oportunidades de negócios em relação ao
competitivo e não em Produtos e Serviços.
enfrentamento dos desafios da
Assim, as estratégias 01 (Ecoeficiência de
sustentabilidade, mesmo porque, razões
Processos) e 02 (Ecodiferenciação de
como a melhoria da qualidade dos produtos e
Processos) podem ser identificadas nesta
a demanda de clientes e consumidores
pesquisa, já que as estratégias 03 (Marcas
fizeram parte de menos de um terço das
Socioambientais) e 04 (Liderança de Custo
respostas. Além disso, a visão, questionada
Ambiental) são voltadas para o mercado.
por Porter e coautores desde os anos 90, de
que as questões ambientais seriam ameaças
Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 2
72
3

ou custos inoportunos, pode ainda não ter partir dos anos 2000, a ideia de aproximação
sido completamente modificada entre o entre atuação socioambiental e os negócios
empresariado brasileiro. Apesar disso, houve foi se ampliando e provocando novas
uma clara evolução dentre os gestores sobre reflexões e mudanças na atuação das
as vantagens da adoção da sustentabilidade empresas, fundações e instituições
na estratégia empresarial, mas ela está muito associadas ao GIFE. Segundo Oliva (2016),
relacionada à redução de custos e a que coordenou as pesquisas qualitativas do
reputação corporativa, tendo possibilidade de GIFE, o alinhamento entre investimento
alcançar ainda outras áreas de atuação das socioambiental e o negócio vem sendo
empresas, principalmente aquelas voltadas percebido pelo setor com uma tendência
aos negócios e a busca de novos mercados e desde pelo menos 2009, aproximando o
vantagens competitivas. diálogo entre os movimentos de
responsabilidade social empresarial e
De qualquer maneira, mesmo com um caráter
sustentabilidade da atuação dos institutos e
mais reativo, identifica-se uma maior
fundações. Inclusive, o princípio dos Valores
mobilização do setor industrial brasileiro em
Compartilhados de Porter é citado no estudo
relação à sustentabilidade, havendo
como fonte de novas ideias que vem
esperança de que essa visão evolua para
provocando reflexões sobre o alinhamento
estratégias mais proativas e inovadoras, que
entre atuação socioambiental e negócios
auxiliem o desenvolvimento sustentável e o
entre os associados.
desenvolvimento empresarial brasileiro
concomitantemente. Segundo as respostas das empresas no
Censo 2014 e o Estudo de 2016, o
Outros trabalhos importantes sobre o tema de
alinhamento não configura ainda um processo
negócios e sustentabilidade foram dois
homogêneo ou consolidado, pois muitas
estudos promovidos pelo GIFE (Grupo de
iniciativas permanecem sob a influência
Institutos, Fundações e Empresas), que conta
exclusiva de institutos e fundações, sem que
atualmente como 133 associados. O GIFE
tenham sido absorvidas pelo processo de
realizou um estudo quantitativo, o Censo GIFE
alinhamento. Assim, há um grupo de institutos
2014, e em um estudo qualitativo lançado em
e fundações para os quais a aproximação já
2016, denominado: Alinhamento entre o
avançou e outros casos mostram o ISP mais
Investimento Social Privado e o Negócio.
distanciado da operação da empresa,
Estes estudos contribuem para analisar como
refletindo o caráter ainda incipiente e desigual
o princípio da geração dos valores
do processo de alinhamento e a possível
compartilhados (CSV) de Porter (2011) tem
persistência da visão tradicional de ISP.
sido assimilado pelas empresas que atuam no
Brasil, principalmente aquelas que já Pela análise dos estudos, se constata que, em
desenvolvem ações socioambientais, seja média, as atividades das empresas
diretamente, seja por meio de instituições e mantenedoras não são fator determinante
fundações. Os Censos GIFE são realizados para os processos de decisão dos institutos e
desde 2001, a cada 02 anos, e em 2014 fundações. Ao serem perguntadas de que
foram levantadas pela primeira vez questões maneira as atividades da mantenedora
relacionadas ao alinhamento entre influenciam as ações das instituições e
investimento social privado (ISP) e os fundações, em 06 dos 08 itens propostos,
negócios. mais de 60% das respondentes não
consideram as atividades da empresa
No próprio Censo 2014, se discute que a nova
mantenedora em nenhum momento ou o
visão de alinhamento é um contraponto à
fazem eventualmente, refletindo ainda este
visão proposta pelo GIFE nos anos 90, este
distanciamento entre negócios e atuação
direcionamento tradicional originou um
socioambiental.
padrão de relacionamento entre
institutos/fundações e áreas de negócio As instituições e fundações também foram
marcado por pouca proximidade e baixo nível perguntadas sobre como elas avaliariam a
de compartilhamento de decisões e ações. influência que suas práticas e sua expertise
Num primeiro momento, o conceito de ISP foi teria nos procedimentos da empresa
pensado como algo não vinculado à operação mantenedora, abordando 10 aspectos
empresarial, pretendendo qualificar uma ação distintos. Em geral, os respondentes fizeram
voluntária e “desinteressada” das empresas uma autoavaliação positiva de sua
para a repactuação da responsabilidade capacidade de incidência, para 08 dos 10
pública com governos e sociedade. Porém, a itens, mais de 60% afirmaram ocorrer
Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 2
73
3

influência. Esta influência é, porém, mais expertise do ISP; e mais benefícios para a
focada em aspectos simbólicos e de empresa com um maior engajamento de seus
relacionamento como: princípios e valores funcionários, além de melhorias na
(80%), aspectos de comunicação (77% das produtividade e competitividade. O estudo
organizações dizem contribuir para a melhoria também indicou os principais riscos e dúvidas
do diálogo com a comunidade do entorno e que afligem os participantes da pesquisa
63% dizem influenciar a forma pela qual a como: a possibilidade de redução da
companhia se comunica com o público geral) abrangência temática e territorial dos projetos,
e programas voltados aos funcionários (63% pois o foco estaria somente nas ações que
influenciam a implementação de programas contribuiriam para os negócios; uma
voltados para os colaboradores da “instrumentalização” e perda de legitimidade
mantenedora). Já os aspectos mais das atividades socioambientais
operacionais e, portanto, mais ligados ao desenvolvidas; a preocupação com a redução
negócio da empresa, apresentaram níveis de de recursos e escala, com o remanejamento
influência menores, com 28% de influência destes para outras áreas da empresa sob a
nos processos produtivos e 45% nos lógica da integração com o negócio; e até
procedimentos adotados com fornecedores e uma descontinuidade dos próprios institutos e
clientes. fundações. Porém, como comentamos acima,
a proporção de entrevistados que apontaram
Foi revelado também nas pesquisas um alto
benefícios foi muito superior aos que
grau de incerteza quanto ao alinhamento
apontaram riscos, revelando uma expectativa
entre ISP e os negócios, mas com um
positiva em relação ao alinhamento dos
importante viés otimista, pois a identificação
investimentos socioambientais e os negócios
de benefícios se sobressaiu em comparação
empresariais.
com as perdas e os riscos percebidos. O
Censo 2014 elencou 25 possíveis hipóteses A partir dos dados relatados, podemos inferir
sobre os riscos e benefícios do alinhamento que o princípio de geração de valores
com os quais as organizações podiam compartilhados tem ganhado força dentro do
concordar totalmente, concordar parcialmente setor de atuação social das empresas. Apesar
ou discordar. O elevado grau de incerteza dessa visão ser quase uma “revolução” no
verificou-se no importante percentual de pensamento tradicional ligado à atuação
respostas de concordância parcial, em média socioambiental corporativa. As organizações
38% dos respondentes indicaram não haver estão passando a utilizá-la como
inteira segurança quanto ao sentido geral do fundamentação para o alinhamento e ela está
processo. O viés positivo foi apurado pelo contribuindo para o fortalecimento do viés
nível de concordância total com os possíveis otimista que vem se conformando na visão
benefícios percebidos com o alinhamento, das organizações entrevistadas.
apresentando o percentual médio de 44%,
muito superior à média da concordância total
com os riscos percebidos de 13%. O nível de 5. CONSIDERAÇÕES FINAIS:
discordância com os riscos foi também quase
O que se pode concluir dos dados relatados
cinco vezes maior que o observado com os
pelas pesquisas realizadas pela CNI e pelo
benefícios. Assim, o estudo demonstrou fortes
GIFE é que as questões sociais e ambientais
indícios de que entre os entrevistados se
já fazem parte da rotina de várias empresas
configurou um caminho favorável a uma maior
que atuam no Brasil: grandes, médias e
integração entre ISP e o negócio.
pequenas. A sondagem da CNI é um
O estudo qualitativo apresentado pelo GIFE importante indicativo do comportamento da
em 2016 levantou uma série de oportunidades indústria nacional que aponta já significativos
e benefícios colocados pelos entrevistados, percentuais de empresas que adotam
como: a maior adesão dos dirigentes e procedimentos ligados à gestão ambiental. O
continuidade dos programas sociais; o GIFE, apesar de representar um número
surgimento de novas funções e a ampliação menor de organizações, tem uma importante
da capacidade de influência em impacto da contribuição, pois congrega as mais
atuação das fundações e instituições na importantes instituições, fundações e
empresa mantenedora; a ampliação do empresas que já desenvolvem uma atuação
volume de recursos e escala de ISP; um maior social de impacto no país. As pesquisas
reconhecimento das ações socioambientais realizadas pelo GIFE, portanto, traçam um
pela empresa e ganhos de eficiência e retrato dos rumos para os quais o
Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 2
74
3

investimento social privado caminha no país e empresarial de atuação socioambiental está


demonstra que a ideia de unir negócios e direcionado para os processos internos das
sustentabilidade vem sendo assimilada pelas empresas ou para sua cadeia de valor. A
empresas e tem grande potencial de atuação empresarial na criação de novos
crescimento. negócios, produtos e serviços pelas
empresas no Brasil ainda é muito pontual,
Contudo, o caminho para alinhar a estratégia
pois as companhias não vêm trabalhando de
empresarial ao desenvolvimento sustentável
forma sistemática o grande potencial que
ainda é longo, pois a maioria das ações é
oferecem os mercados socioambientais.
ainda dissociada dos negócios, realizada em
Assim, muitas oportunidades de ganhos
pró da cidadania corporativa e da reputação
econômicos, sociais e ambientais ainda estão
das empresas. Esta postura, apesar de
à espera de serem exploradas.
relevante, acaba por dificultar a ampliação da
atuação socioambiental empresarial, pois Por fim, não existe ainda uma mudança de
existe um grande potencial de crescimento paradigma técnico-econômico, como
em escala das iniciativas, quando as proposto por Freeman, mas os resultados das
empresas passam a internalizar a pesquisas vêm crescentemente confirmando
sustentabilidade no seu “core business”. que esta é uma expectativa das empresas
Nesse contexto, a “Hipótese de Porter” bem para o futuro, já que os limites e as questões
que poderia ser considerada a “Certeza de da sustentabilidade se tornam cada vez mais
Porter” para fomentar essa transição com inevitáveis.
maior velocidade.
Além disso, a partir das considerações de
Orsato, pode-se concluir que o maior foco

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Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 2


76
3

Capítulo 6

Ariane Elias Leite de Moraes


Denise Barros de Azevedo
Luanna Lise Kimura Magalhães
Renato de Oliveira Rosa
Yasmin Gomes Casagranda

Resumo:Objetivo desse trabalho foi a caracterização das cooperativas de produtos


orgânicos no entorno de Campo Grande, Mato Grosso do Sul. Além da
identificação das cadeias produtivas de produtos orgânicos das organizações
rurais que participam da cooperativa e descrever os processos de gestão
ambiental dos produtos orgânicos inseridos em suas respectivas cadeias
produtivas. Os métodos para o desenvolvimento da pesquisa foram através de uma
fundamentação teórica nos temas de gestão ambiental, produção orgânica no
Brasil, cadeia produtiva e Cooperativa, além de coleta de dados através de uma
entrevista realizada com o presidente da Cooperativa estudada, a Organocoop. Foi
evidenciado que houve um aumento significativo de demanda dos produtos
orgânicos, contudo não existe produção suficiente para atender as necessidades,
as barreiras que antecedem a produção orgânica impactam a entrada de novos
cooperados. As atividades econômicas da Cooperativa são privilegiadas devido ao
maior número de elos na cadeia produtiva, evidenciando a importância entre os
agentes nas diferentes etapas de produção, em conjuntura aos diferentes elos para
o escoamento da produção dos cooperados.

Palavra Chave: Gestão ambiental, cadeia produtiva, produção orgânia.


Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 2
77

1. INTRODUÇÃO A agricultura convencional caracterizada pela


monocultura, a mecanização, e forte
É importante rever o conceito de
dependência de agroquímicos e tem
Desenvolvimento Sustentável ao buscar o
contribuido globalmente para a erosão do
entendimento de gestão ambiental, o qual
solo, contaminação da água e perda da
desenvolveu-se a partir do reconhecimento do
biodiversidade. A abertura de recursos de
aumento dos problemas ambientais e de sua
acesso, tais como sistemas de água, são
relação com as questões socioeconômicas,
propensos a ser sobreexploradas ou sobre-
pobreza e a desigualdade, diante da
poluído causam grande erosão do solo
necessidade de garantir um futuro saudável
mesmo na agricultura de terra privada. Isso
para a humanidade. O marco dessa
ocorrer porque as práticas agrícolas
conscientização é o Relatório Brundtland de
sustentáveis são caras e os fertilizantes
1980, que relatou a necessidade de se
químicos são uma opção mais barata para
desenvolver no presente sem comprometer o
nutrientes perdidos (TIETENBERG, 2012).
recurso disponível para atender as
necessidades das gerações futuras (conceito Impactos da globalização, a mudança social,
antropocêntrico). Os problemas ecológicos política e ambiental estão combinados para
não são locais, mas globais, de forma que as gerar novos níveis de risco sócio ecológicos
ações e os impactos devem ser considerados na zona rural. (BARDSLEY E BARDSLEY,
internacionalmente. Muitos autores 2014).
consideram extremamente ambígua a
Devido à combinação de produção altamente
discussão de conservação ambiental e
incerta, condições de comercialização e
crescimento econômico (OPWOOD, MELLOR
recursos relativamente limitados para se
e O´BRIEN,2005).
adaptar às mudanças, há uma necessidade
Essa vertente ambiental possibilitou a particular para as comunidades rurais
assimilação e a integração do meio ambiente marginais aumentar suas adaptacoes a
e da estrutura socioeconômica do mudancas de maneira sistêmica (AGGARWAL
desenvolvimento do planeta, tornando-se, ET AL, 2010; BARDSLEY, 2003; KOOHAFKAN
assim, possível e desejável, conciliar ET AL., 2012).
crescimento econômico e conservação
Folke et al. (2005, 446) relatam: "Muitas
ambiental, algo até então irrealizável.
comunidades locais reconheceram há muito
No entanto, nota-se que ainda existem poucas tempo a necessidade de coexistir com a
iniciativas para ações, atividades e projetos mudança gradual e rápida. Lá são grupos
voltadas para a responsabilidade social com instituições associadas que acumulam
menciona Polo, F. C.; Vázquez, D. G. (2014) um conhecimento de base de como se
relacionar e responder ao feedback do
O termo gestão ambiental, segundo Barbieri
ambiente permitindo com haja danos em
(2004:26), Donaire (1999:108), Backer
escalas menores, em vez de ocorrer em
(2002:03) compreendem as diretrizes e as
escalas maiores, o que impede o colapso em
atividades administrativas e operacionais,
grande proporção.
como planejamento, direção, controle,
alocação de recursos e outras realizadas com Alguns países ricos e desenvolvidos estão
o objetivo de obter efeitos positivos sobre o sendo criticados por oferecer uma
meio ambiente, quer reduzindo, quer oportunidade aos produtores na agricultura.
eliminando os danos ou problemas causados Entretanto, interessados em obter índices de
pelas ações humanas. Diante dessa aumento de produtividade. (FIELKE E
conceituação, percebe-se que a expressão BARDSLEY, 2013; MILESTAD E DARNHOFER,
gestão ambiental aplica-se a uma grande 2003; O'HARA E STAGL, 2001). A exemplo
variedade de iniciativas, relacionadas a cita-se a Austrália e a Nova Zelândia que
qualquer tipo de problema ambiental. geraram uma significativa desregulamentação
na reforma político rural (Cloke, 1996; Dibden
O setor agrícola é uma das atividades que
et al, 2009;. Lawrence, 1987). A reforma
polui rios e lagos e a segunda principal causa
agrária também gerou criticas na Europa, pois
de deterioração e contaminação de zonas
reduções nas despesas públicas excluíram os
úmidas (Environmental Protection Agency
apoios para a produção agrícola (Aerni, 2009;
(EPA) (2005). A exposição dos seres humanos
Finger, 2010; Lanz et al., 2010; Marsden e
aos pesticidas se da por resíduos dos
Sonnino, 2008; Potter e Burney, 2002;
pesticidas em alimentos, água contaminada e
Arrendamento et al., 2009).
pelo ar afirmam Horrigan et al., (2002) .

Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 2


78
3

Em razão disso, algumas pesquisas se 2. REVISÃO BIBLIOGRÁFICA


direcionam para o papel da sustentabilidade
2.1 PANORAMAS DA PRODUÇÃO
no sistema agrícola industrial. Além disso,
ORGÂNICA NO BRASIL
mediante a era sustentavel atual, a sociedade
esta priorizando o conhecimento da A principal forma de comercialização de
procedencia dos alimentos, bem como um orgânicos no Brasil é por meio de feiras
consumo eco-consciente. (YOUNG, 2014) especializadas. O Instituto Brasileiro de
Poucos discordariam de que é Defesa do Consumidor (IDEC) realizou em
necessario desenvolver e promover um 2014 um levantamento que mostra que a
sistema ambientalmente e ecologicamente diferença de preço de um mesmo produto em
sustentavel na agricultura para enfrentar a relação aos supermercados pode chegar a
crise ambiental global causado pela 463%. O mesmo estudo identificou e mapeou
agricultura convencional. (SUH,2015). as feiras nas 27 capitais do país. Foram
identificadas 140 feiras em 22 das 27 capitais
Neste sentido, a gestão ambiental avança
avaliadas. Em Boa Vista (RR), Cuiabá (MT),
para o âmbito interno das empresas,
Macapá (AP), Palmas (TO) e São Luís (MA)
ultrapassando as fronteiras organizacionais
nenhuma feira foi identificada. O Rio de
tradicionais. Tais ampliações das fronteiras da
Janeiro é a cidade que possui o maior número
organização ocorrem devido a questões
de feiras, tendo 25 espalhadas pela cidade
ambientais, parcerias e alianças estratégicas
seguida por Brasília com 20 feiras. Já São
entre organizações e tecnologias de
Paulo, a maior cidade do país, conta apenas
informação. Nos textos de (GERUSA
com nove feiras.
GIMENEZ et al., 2003), o sistema de gestão
ambiental aumenta a competitividade das Segundo o banco de dados do Planeta
empresas perante o mercado e ainda Orgânico (2012), em relação ao mercado
questiona os efeitos da certificação como externo, no Brasil de 50% a 70% dos produtos
instrumento motivador para continuarem o uso orgânicos foram exportados para outros
do Sistema de Gestão Ambiental. países, entre eles: Japão, Alemanha, Estados
Unidos, etc. Os principais produtos
As cooperativas por sua vez, possuem uma
exportados foram: soja, café, açúcar,
vantagem no campo de Responsabilidade
castanha de caju, suco concentrado de
Social, em relação aos outros
laranja, óleo de palma e em volumes menores,
empreendimentos, principalmente pelos
manga, melão, uva, derivados de banana,
princípios e valores denotados e as
fécula de mandioca, feijão adzuki, gergelim,
peculiaridades do desempenho social dessas
especiarias (cravo da índia, canela, pimenta
organizações, garantindo uma atitude
do reino e guaraná) e óleos essenciais. De
responsável. (POLO e VÁZQUEZ, 2014)
cada 100 produtos agroindústrias existentes
O objetivo do artigo buscar-se-á descrever os no país, 1,8 são voltadas para a produção
processos de gestão ambiental dos produtos orgânica, enquanto em outros países como:
orgânicos inseridos em suas respectivas Holanda, Reino Unido e França, esse índice é
cadeias produtivas. consideravelmente maior.
A pesquisa se justifica por integrar os O Brasil apresenta-se como o maior potencial
princípios da gestão ambiental como objeto de produção orgânica do mundo, possuindo
de estudo a produção orgânica, de forma a 90 milhões de hectares agriculturáveis, sem
melhorar a competitividade da organização contar com a quantidade de áreas que
rural que se encontra no ambiente micro migram da agricultura convencional para a
encontra meios de ganhar benefícios orgânica (PLANETA ORGÂNICO, 2012).
econômicos.
A Lei 10.831 significou um marco legal na
No entorno de Campo Grande está localizado história da agricultura orgânica, essa
o Polo de Orgânicos do bairro Núcleo regulamentação atua como apoio ao
Industrial em uma área de Compensação desenvolvimento desse segmento. A
Ambiental próximo à mata ciliar do Imbirussu, disposição conta com diferentes segmentos
na saída para Aquidauana. Os produtores da sociedade civil e órgãos públicos
deste Polo estão vinculados à Cooperativa - disponíveis, entre eles, o Ministério da
Organocoop (Cooperativa dos Produtores de Agricultura, Pecuária e Abastecimento
Orgânicos da Agricultura Familiar de Campo (MAPA), Ministério do Desenvolvimento
Grande). Agrário (MDA), Ministério do Meio Ambiente

Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 2


79
3

(MMA), Ministério do Desenvolvimento À medida que se encontram novos riscos a


Indústria e Comércio (MDIC), INMETRO, sociedade, a capacidade de governar
Ministério da Saúde (MS) e ANVISA efetivamente os ecossistemas sociais vitais se
(PLANETA ORGÂNICO, 2012). torna fundamental. (BARDSLEY E BARDSLEY,
2014)
Desde 2007, a agricultura orgânica passou a
ter regras em todo o seu funcionamento,
desde a produção até o ponto de venda, o
2.2 GESTÃO AMBIENTAL
que, atesta o Ministério da Agricultura,
Pecuária e Abastecimento (MAPA, 2016)), O termo gestão ambiental, segundo Barbieri
dará grande impulso ao setor uma vez que as (2004), Donaire (1999), Backer (2002:03)
regras são transparentes em relação aos compreendem as diretrizes e as atividades
processos e produtos aprovados e pela administrativas e operacionais, como
criação do Sistema Brasileiro de Avaliação da planejamento, direção, controle, alocação de
Conformidade Orgânica que propiciará aos recursos e outras realizadas com o objetivo
consumidores mais garantia e facilidade na de obter efeitos positivos sobre o meio
identificação desses produtos. ambiente, quer reduzindo, quer eliminando os
danos ou problemas causados pelas ações
O Decreto nº 6.323/07 criou o Sistema
humanas. Diante dessa conceituação,
Brasileiro de Avaliação da Conformidade
percebe-se que a expressão gestão
Orgânica, composto pelo Ministério da
ambiental aplica-se a uma grande variedade
Agricultura Pecuária e Abastecimento
de iniciativas, relacionadas a qualquer tipo de
(MAPA), órgãos de fiscalização dos Estados,
problema ambiental. O mesmo raciocínio
e organismos responsáveis pela avaliação da
encontra-se em Geordano (2000), com ênfase
conformidade orgânica. O Ministério
em agronegócio.
credencia, avalia e fiscaliza os organismos,
sendo eles responsáveis por fazer a A partir dessa realidade, Tachizawa (2002)
certificação da produção orgânica e atualizar afirma que o novo modelo de gestão está
as informações dos produtores no Cadastro surgindo, o que gera, reflexo no processo de
Nacional de Produtores Orgânicos. Os gestão ambiental e de responsabilidade
órgãos, antes de receber a habilitação do social, demandando novas necessidades em
Ministério da Agricultura Pecuária e termos de higiene e segurança no trabalho,
Abastecimento (MAPA), farão um processo de treinamento e desenvolvimento pessoal,
aceitação do Instituto Nacional de Metrologia planejamento de carreira, estratégias, clima
Qualidade e Tecnologia (INMETRO). (FILHEM, organizacional e qualidade de vida. Portanto,
2010). a preocupação ambiental e a
responsabilidade social fazem com que a
A aplicação efetiva dos princípios do
organização do novo tempo escolha
desenvolvimento sustentável, encontra sua
fornecedores que atendam às suas
grande dificuldade, na maioria das vezes,
necessidades éticas e que atestem que os
justamente no ambiente das organizações,
insumos produtivos contratados atendam aos
por serem antagônicos aos princípios do
seus requesitos ambientais, predefinidos em
modelo econômico neoclássico que as
sua política corporativa.
criaram. Contudo, a busca de resultados
financeiros e a competitividade como único A gestão ambiental avança para o âmbito
fim tem começado a se transformar frente a interno das empresas, ultrapassando as
uma emergente conscientização combinada fronteiras organizacionais tradicionais. Tais
às exigências efetivas de responsabilidades, ampliações das fronteiras da organização
tanto no aspecto social, quanto no aspecto ocorrem devido a questões ambientais,
ambiental, por parte da sociedade sobre parcerias e alianças estratégicas entre
estas organizações. Além de permitir uma organizações e tecnologias de informação.
maior relação de ensino-aprendizagem entre Nos textos de (JAIME, 2001; GERUSA ET AL.,
teoria e pratica dentro da visão da pesquisa, 2003), o sistema de gestão ambiental
buscando compreender a empresa rural aumenta a competitividade das empresas
como uma empresa instalada no meio rural, perante o mercado e ainda questiona os
identificar os gargalos da empresa rural nas efeitos da certificação como instrumento
condições de mercado e proporcionando a motivador para continuarem o uso do SGA.
sustentabilidade.
Conforme Phillipi Jr., Roméro e Bruna (2004) o
campo da gestão ambiental é por demais
Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 2
80
3

extenso, isto porque há uma complexidade alguns exemplos de cooperativas que têm
inerente à própria temática do meio ambiente, demonstrado bom desenvolvimento
esta que permeia um conjunto de fatores que econômico. No contexto geral, estas
são constituintes de um todo. Para tanto, o cooperativas atuam como prestadoras de
conceito de Gestão ambiental vem sendo serviços nas áreas de saúde, comércio e
cada vez mais exercido pelo setor privado e, crédito.
na maioria das vezes, está associado às
As cooperativas possuem incentivos legais
normatizações e aos selos verdes. Contudo, a
que, por exemplo, lhes dispensa o pagamento
abrangência da gestão ambiental está além
do imposto sobre a renda, o que gera um
da atuação da iniciativa privada, permeando
diferencial financeiro importante frente às
também pelas atividades desenvolvidas pelos
outras empresas que prestam o mesmo
órgãos públicos acrescenta IBAMA (2016).
serviço e que não dispõem desse apoio.
O desenvolvimento de produtos sustentáveis
Observa-se a grande influência do valor
pode ser definido como a prática em que
semântico agregado à palavra cooperação ou
questões ambientais são integradas no
atividade cooperativa, tendo em vista a
processo de desenvolvimento de produto
educação por meio da família, da religião e
(PUJARI, WRIGHT e PEATTIE, 2003).
dos professores ao suscitar o valor do
Entretanto, os atuais pressupostos de
trabalho conjunto e coletivo. Além disso, no
desenvolvimento de produto em empresas
momento em que houve o surgimento das
manufatureiras estão predominantemente
cooperativas, comprova-se que se ocorreu no
pautados nos modelos de lucratividade
sentido de servir como um bem social, como
existentes, objetivando-se a geração de
uma alternativa em prol dos trabalhadores,
mercadorias com alta qualidade, baixo custo
artesões e pequenos produtores, face às
e elevada lucratividade. No desenrolar dessa
incertezas e crueldades do mercado.
lógica, a dimensão ambiental tende a ser
(ALBUQUERQUE, 1994, 1997, 1999;
considerada um custo adicional e sua
ALBUQUERQUE E CIRINO, 2001).
inserção necessária somente quando
imprescindível, como a produção orgânica. Contribuindo com uma visão ampla, Carneiro
(1981) analisa a as principais diferenças entre
Embora muitas organizações vejam os
estes tipos de organizações: A cooperação,
requisitos para tornar-se verde por parte do
sob forma ideal, que deve ir além de
governo como uma restrição, organizações
promoções de interesses individuais, mas,
que pensam mais à frente veem isto como
sobretudo, de uma promoção para o
uma oportunidade para manter uma vantagem
progresso e o bem-estar da humanidade.
competitiva sustentável (PORTER e VAN DER
Essa finalidade diferencia uma sociedade
LINDE, 1995).
cooperativa de uma empresa econômica
A agricultura orgânica inserida nas ordinária, que justifica sua ação para ótica de
coopeerativas de produtores é altamente sua eficácia comercial, e para a ótica de sua
operacional, e, muitas vezes é questionada se contribuição aos valores sociais e morais.
a agricultura sustentável pode eliminar
A diferenciação das cooperativas para os
progressivamente a agricultura convencional.
demais tipos de sociedade, segundo Padilha
(SUH, 2015). É de extrema relevância as
(1975), é o personalismo que constitui a base,
maneiras com que se obtém alimentos e os
obtendo um tratamento bastante diferenciado
métodos utilizados nesta produção para
das sociedades do tipo capitalista quanto ao
tornar a sociedade sustentável. Um método
voto nas deliberações sociais e quanto à
reconhecido como respeitador do ambiente
distribuição de ocasionais sobras líquidas
advém de cooperativas de alimentos.
advindas das operações sociais.
(YOUNG,2014).
Em contrapartida Barton (1989) afirma que os
pontos que deferenciam as cooperativas de
2.2 COOPERATIVAS outros negócios siginifica, incialmente, que as
pessoas que podem possuir e financiar as
O senso comum caracteriza as cooperativas
cooperativas são as que utilizam, em segundo
como muito distintas das demais
lugar o controle é feito por aqueles que a usa,
organizações, transmitindo uma imagem
e em terceiro os beneficios são distribuidos
positiva a uma vasta parcela da população e
com base na utilização.
aos agentes governamentais de
desenvolvimento. É possível mencionar
Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 2
81
3

O estudo de Katz e Boland (2002) explica o 4. APRESENTAÇÃO E ANÁLISE DOS


surgimento de um novo tipo de cooperativa RESULTADOS
que revisa eficientemente as regras de
4.1 COOPERATIVAS ORGÂNICAS NO
propriedade tendo em vista um mercado mais
MUNDO E NO BRASIL
orientado e as implicações na gestão e no
tipo de empreendimento, operando de A agricultura orgânica é uma opção para a
maneira restritiva dentre as adesões. inserção dos pequenos agricultores no
Observa-se um modelo de uma empresa através das redes nacionais ou transnacionais
regida por um gerente que é responsavel pela de comercialização de produtos orgânicos,
realização de atividades para alcançar as contudo os produtores devem estar
meta e objetivos da empresa, obtendo um organizados em associações ou cooperativas
planejamento estratégico eficaz a fim de para que se disponibilize, com maior
tornar a cooperativa competitiva no mercado. facilidade, as ações de marketing e
implantação de selos de qualidade, de
negociação nas operações de venda e de
3. METODOLOGIA gestão das atividades produtivas.
Trata-se de uma pesquisa exploratória e de A Comunidade em Suporte á agricultura
natureza qualitativa. Richardson et al. (1989), (CSA) foi criada e desenvolvida na Alemanha
justificam-se, principalmente, quando se e na Suíça e introduzida aos EUA em meados
procura entender a natureza de determinado da década de 1980 (COOLEY E LASS, 1998)
fenômeno social. Neste caso, como ocorrem e, em seguida, para alguns países asiático,
processo de produção organica nas cadeias incluindo China, Japão e Coreia. CSA é uma
produtivas de uma cooperativa. instituição de exploração agrícola na qual
consumidores e agricultores partilham os
Ademais, eles afirmam que geralmente as
riscos e benefícios da produção agrícola.
investigações que utilizam a abordagem
qualitativa são as que tratam de situações Os autores descrevem que na fazenda
complexas ou estritamente particulares; que pesquisada (little Donkey) são empregados
buscam desenvolver e descrever a métodos de agricultura biológica incluindo a
complexidade de um determinado problema; compostagem e a utilização de fertilizantes
analisar a interação de certas variáveis; orgânicos, tais como animais e adubos
compreender e classificar processos verdes. A fazenda também ofere aos
dinâmicos. membros o aluguel de um lote de terra
contendo ferramentas agrícolas e insumos
Para Collis e Hussey (2005), a pesquisa de
para a produção. (SUH, 2015). O fundador da
caráter exploratório é usada quando um
escola Poolmoo (South Korea) acredita que a
fenômeno não é suficientemente conhecido.
organização das cooperativas agrícolas de
Segundo Tripodi et al.(1975), o estudo
base foi uma opção economicamente viável
exploratório tem por objetivo “fornecer uma
para os agricultores de pequenas
quadro de referência que possa facilitar o
propriedades, com o intuito de sobreviver
processo de dedução de questões
frente a industrialização agrícola e a economia
pertinentes na investigação de um fenômeno”.
de mercado (SUH, 2015).
O estudo de caso é utilizado como uma das
Um exemplo de eficiência baseado em
formas de se fazer pesquisa. Sua
comunidades de agricultura orgânica pode
característica de investigação se deve à
ser extraído de Cuba que desde o início da
aplicação em um acontecimento
década de 1990, produziu alimentos
contemporâneo e no âmbito da vida real.
orgânicos suficiente para atender a demanda
Sendo assim, é uma estratégia escolhida em
das pessoas na sequência do embargo
vista de apresentar capacidades peculiares
comercial dos EUA e o colapso do que era
na realização do trabalho com uma grande
anteriormente a União Soviética de
diversidade de evidências (YIN, 2001).
Repúblicas Socialistas (URSS). Para piorar a
situação, Cuba teve de enfrentar a escassez
de energia de combustível fóssil e de
agroquímicos, que costumavam ser
importados da URSS. Cuba introduziu a
agricultura orgânica como um programa
nacional de sobrevivência: Dezenas de

Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 2


82
3

milhares de hectares de terras estatais foram os equipamentos de produção, obtendo


arrendados para os agricultores locais, sendo melhores margens de lucros. (MUNTEANU,
concedido um direito de utilização, ou direito 2014).
de usufruto. (COMMUNITY SOLUTION, 2006)
Segundo a National Cooperative Grocer
Segundo Spers (2003), o consumidor exerce Association (2013) 82% da produção das
um papel importante no sistema cooperativas de alimentos dos Estados
agroalimentar, transmitindo, por meio de sua Unidos são de produtos orgânicos. Ainda,
escolha de compra, as informações sobre os observa-se um aumento na popularidades
atributos de qualidade que deseja e sobre dessas cooperativas, por integrantes que tem
quanto está disposto a pagar por estes por objetivo diminuir o impacto ambiental e
atributos. Este consumidor vem atuando de aumentar o valor nutricional dos alimentos.
forma decisiva no atual cenário de mudanças,
Dados da (CDFA, 2016), na California EUA
exigindo não só alimentos com atributos
indicam que 20% dos negócios anuais dos
gastronômicos e nutricionais, mas também
EUA são da produção orgânica. Observa-se
com qualidade e segurança a eles
um aumento na produção orgânica e as
associados. A qualidade, por si só, diz
expectativas são promissoras. Os preços na
respeito à adequação de determinado
comercialização são mais elevados, porém os
produto ou serviço, apresentando
agricultores nem sempre se beneficiam disto.
reconhecidos valor e utilidade para o
indivíduo que dele faz uso os agricultores que Entre os anos de 2000 e 2010, o total de
se organizam em cooperativas possuem terras agrícolas orgânicas no mundo mais do
varias vantagens, tais como melhor poder de que duplicou, passando de 14,9 milhões de
negociação e de compra, devido ao aumento hectares a para 37,0 milhões de hectares, o
do volume de demanda. (MUNTEANU, 2014.) que representou cerca de 0,9% da área total
do mundo de terras agrícolas em 2010, o
A Confederação empresarial espanhola da
contextualiza Willer e Lernoud (2012), os
economia social CEPES (2007) descreve que
quais explicam que iniciativas do governo, a
a cooperativa é capaz de criar oportunidades
área total da agricultura biológica na Córeia
de emprego em áreas que não são atraentes
aumentou em cerca de 16 vezes. Sendo que
para o investimento tradicional, a cooperativa
eram 900 hectares em 2000, passando para
responde a novas necessidades sociais para
15.500 hectares em 2010.
a inclusão e inserção social e laboral de
pessoas que possui uma difícil Através das iniciativas do governo coreano, a
empregabilidade fornecendo serviços de área total da agricultura biológica aumentou
interesse geral e promove o capital social. em cerca de 16 vezes. Sendo que eram 900
hectares em 2000, passando para 15.500
No Nepal, observa-se uma facilidade na
hectares em 2010. (SUH, 2015).
formação destes grupos de cooperados e
uma comunicação maior e, ao organizar os De acordo com Willer e Lemoud (2012), ver
agricultores em cooperativas, aumenta as figura 1 e figura 2, na Europa 10,6 milhões de
chances de sucesso devido a ascensão do hetares eram utilizados para a agricultura
volume de negócios, dos locais de organica. O mercado alemão movimentou
armazenamentos, dos locais de mais de 6000 milhões de euros, seguido pela
processamento e o poder de negociação com França com um pouco mais da metade deste
o comprador, resultando em preços mais valor com a produção orgânica. Ainda, a
baixos. Além disso, recursos financeiros Dinamarca possui uma quota de mercado de
obtidos pelas contribuições dos membros das 7,2% enquanto a Suiça atingiu 5,7%.
cooperativas e os negócios podem melhorar

Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 2


83
3

Figura 1. Maiores mercados orgânicos na Europa em 2010.

Fonte: Willer e Kilcher (2012).

Figura 2. Quota de mercado dos produtos orgânicos em 2010.

Fonte: Willer e Kilcher (2012)

É importante entender as dificuldades maiores problemas entre os produtores que


relatadas por ex-cooperados como relata deixaram seu registro (Bront et al,
Brodt et al (2014) os quais analisam que na 2014).Entretanto, nos Estados Unidos novas
escrevem a california 35% de ex-cooperados tecnologias permitem que os agricultores
finalizaram as atividades com agricultura, 38% reduzam os custos, o que significa maiores
se corverteram para a produção convencional lucros com menor uso de terra e capital. O
e apenas 25% continuaram com o método atual sistema agrícola premia fazendas com
orgânico. Assim, é possivel diferenciar as maior extensão de terra utilizada para a
possíveis dificuldades encontradas por agricultura orgânica que possuem custos
produtores registrados e ex-cooperados, mais baixos, o que resulta em maior lucro e
neste país. Os resultados encontrados no mais incentivo para aumentar a produção
estudo comparam que, para os produtores orgânica. (NATIONAL ASSOCIATION OF
registrados as questões de produção como a LOCAL BOARDS OF HEALTH, 2010).
área, preços, regulamentação, acesso ao
No Ministério da Agricultura e do
mercado e gestão agrícola sãoas cinco
Desenvolvimento Rural da Romênia
maiores dificuldades respectivamente.
(MARD,2014) consta 32 ongs, na Roménia,
Os ex-cooperados consideraram com objetivos relacionados a agricultura
regulamentação, preço, produção, acesso ao orgânica, a proteção do meio ambiente e o
mercado e gestão agrícola como os maiores desenvolvimento sustentável. Grandes partes
desafios, esclarecendo que os custos iniciais dessas organizações são pequenas,
e a regulamentação, que servem como porta significando um maior impacto por região.
de entrada para a produção orgânica, sao os
Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 2
84
3

A Suíça possui uma responsabilidade com os são açúcar, mel, oleaginosas, frutas e
agricultores oferecendo cursos com castanhas.
abordagens da agricultura orgânica. Esses
A normatização através da legislação
incentivos são altamente valorizae apoiados
brasileira estabelece três instrumentos para
por toda sociedade. (AERNI, 2009; KLÖTI et
garantir a qualidade dos alimentos: a
al, 2007). Os mecanismos de apoio à
certificação por auditoria, os sistemas
agricultura orgânica gera mais de três bilhões
participativos de garantia e o controle social
de Francos Suíços (CHF) por ano que
para a venda direta sem certificação.
significa aproximadamente três bilhões de
dolares, contribuindo para um sistema Informações do Ministério da Agricultura,
economico de produção mais sustentável, Pecuária e Abastecimento (MAPA, 2015)
incluindo suporte para a conservação da descrevem que as fiscalizações acontecem,
biodiversidade e gestão da paisagem (Engel além do trabalho de rotina, operações a partir
et al., 2008; Flury e Huber , 2008) . A de denúncias e suspeitas apresentadas à
economia altamente desenvolvida da Suíça Ouvidoria do Mapa ou constatadas por meio
permite um numero alto de investimentos de auditorias. Desde 2013, cerca de 2,4 mil
privados em produção agrícola regional, produtores foram excluídos do Cadastro
orgânica e biodinâmica e sistemas de Nacional de Produtores Orgânicos e no ano
marketing (AEBERHARD E RIST, 2009). de 2016 até a apreensão de produtos,
cassação de certificado ou multa.
A adesão à produção brasileira ao mercado
orgânico cresceu significativamente, não só O Ministério da Agricultura, Pecuária e
produzindo alimentos mais saudáveis, como Abastecimento (MAPA, 2015), através da
promovendo a conservação e a recomposição Coordenação de Agro ecologia da Secretaria
dos ecossistemas. Houve um aumento de de Desenvolvimento Agropecuário e
cerca de 51,7% na quantidade de agricultores Cooperativismo (SDC), promove campanhas
que optaram pela produção orgânica entre anuais com o objetivo de reforçar para a
janeiro de 2014 e janeiro de 2016 passando população, principalmente a urbana, que os
de 6.719 para 11.478 e um acréscimo sistemas de produção orgânica se baseiam
também, nas unidades de produção que eram em princípios da agro ecologia, como a
de 10.064 em janeiro de 2014 e passaram semana dos Orgânicos.
para 13.323 até janeiro de 2016,
correspondendo a um aumento de 32%. Os
dados fornecidos pelo MAPA (2016) revelam 4.2 CARACTERIZAÇÃO DA COOPERATIVA
que as regiões onde há mais produtores ORGANOCOOP
orgânicos e unidades de produção são o
A Cooperativa Organocoop (Cooperativa de
Nordeste, com pouco mais de 4 mil
produtores de Orgânicos da Agricultura
produtores e 5.228 unidades de produção,
Familiar de Campo Grande) é formada por
seguido do Sul 2.865 e 3.378 e Sudeste 2.333
produtores e assentados de algumas regiões
e 2.228. Ainda, no Norte foram contabilizadas
de Campo Grande – MS oriundos da zona
1.337 unidades de produção e no Centro-
urbana e rural, e é a primeira Cooperativa de
Oeste 592. É importante ressaltar que cada
Orgânicos de agricultura familiar no Brasil. A
produtor orgânico pode ter mais de uma
cooperativa consolida as atividades que
unidade de produção.
permeia a produção orgânica de um grupo de
Segundo o MAPA (2016), a área total de produtores de Campo Grande-MS, e é a
produção orgânica no Brasil já chega a quase principal e única produção de alimentos
750 mil hectares, sendo o Sudeste a região orgânicos delineada em uma cooperativa na
com maior área produtiva, com 333 mil capital. Os cooperados da cooperativa estão
hectares. Em seguida, estão as regiões Norte distribuídos em alguns pontos da cidade,
(158 mil hectares), Nordeste (118,4 mil tanto em área urbana como em área rural,
hectares), Centro-Oeste (101,8 mil hectares) e com proveniência da agricultura familiar.
Sul, com 37,6 mil hectares.
A extensão do polo da Organocoop ocupa
O Ministério do desenvolvimento agrário uma área de aproximadamente 14 hectares,
(MDA, 2014) divulgou que a agricultura dividida em lotes de 1 hectare cada um,
orgânica movimentou cerca de R$ 2 bilhões e ocupados por 14 famílias, que produzem
a expectativa é que, em 2016, esse número apenas os produtos orgânicos. A cooperativa
alcance R$ 2,5 bilhões. O Brasil exporta para conta com uma estrutura e assistência
76 países. Os principais produtos exportados
Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 2
85
3

técnica, está passando por um crescimento Projeto PAIS como meio de cuidado com o
quanto ao número dos cooperados e às meio ambiente, o projeto fornece doação de
instituições que a apoiam. kits, mudas, sementes, estruturas, entre
outros, e a construção da estrutura onde
A constituição da Organocoop permitiu
acontecem as feiras semanais da cooperativa.
formalizar o apoio de parceiros como a
Fundação do Banco do Brasil, do SEBRAE, da Esses órgãos (SEBRAE e Prefeitura
Prefeitura de Campo Grande e, da OCB, municipal), realizam a divulgação do trabalho
instituições importantes que contribuíram e dos agricultores através de banners, anúncios
continuam contribuindo no desenvolvimento em radio, TV e jornais. No que se refere a
do Polo de Orgânicos. Essa parceria exige fiscalizações periódicas junto aos métodos de
uma gestão aprimorada da cooperativa para o produção, em conformidade ao MAPA (2016),
melhor aproveitamento do seu potencial. o Entrevistado relatou que elas são feitas pelo
MAPA e a Ecocert. A Ecocert é fiscalizada
Por meio de algumas entidades como o
pelo MAPA, pois possui um prazo para a
Sebrae e Prefeitura Municipal, a produção de
realização das inspeções. A fiscalização do
alimentos orgânicos na Cooperativa
MAPA é feita principalmente quando existe
Organocoop está sendo estimulada através
denuncias, e é o órgão principal para que a
de cursos de capacitação e de suporte à
fiscalização seja efetiva.
produção. Todavia, os cooperados aprimoram
seus conhecimentos nas diversas etapas de Os produtores demonstram em relatórios,
produção e comercialização dos produtos dados para ser demonstrados ao MAPA.
orgânicos, a saber: plantio, colheita, Quanto aos produtores inseridos na
embalagem, beneficiamento, manipulação de Organocoop, atravéz da correspondência a
alimentos, produção de insumos orgânicos, EMBRAPA (2005), foi possível salientar que
vendas, formação de preços e higiene, além buscavam sua inserção com objetivo de obter
da conscientização, técnicas e aprendizados a certificação devido à obrigatoriedade de
quanto ao modo de produção específico do funcionamento da produção ou para
ramo de orgânicos. comprovar a qualidade do produto, soube-se
que esse interesse é para possuir a
A certificação dos produtores vinculados à
certificação, e assim estarem regulares para a
Organocoop se dá pelo Ministério da
comercialização de seus produtos
Agricultura, Pecuária e Abastecimento que
(ENTREVISTADO).
credenciou 23 agricultores em dezembro de
2014.O evento foi promovido pelo Sebrae/MS No tocante a métodos para aproveitar melhor
em Campo Grande. Na ocasião, os os insumos, com referência a Young (2014), o
produtores receberam certificação na Entrevistado esclareceu que existe economia
modalidade de Organismo de Controle Social no uso de sementes e na compostagem que é
(OCS) voltada para a venda direta, isto é, enriquecida com outros insumos, melhorando
para a comercialização em feiras livres, no a qualidade, os quais são reutilizáveis e
Programa de Aquisição de Alimentos (PAA) e ainda, se existem métodos adequados para o
no Programa Nacional de Alimentação Escolar descarte dos dejetos da produção na
(PNAE). A referida certificação tem validade agricultura orgânica, sob respaldo do EPA
anual. (2005), afirmando que os restos da produção
que podem ser utilizados são adicionados a
compostagem, o restante vai para a lixeira,
4.3 O PROCESSO DE GESTÃO AMBIENTAL pois possui uma coleta convencional regular
DA COOPERATIVA no local de produção visitado.
Foi analisada a Cooperativa Organocoop Sobre o esclarecimento da população de
com intuito de verificar como a gestão como é realizado os procedimentos e
ambiental está presente. Em relação aos procedências dos produtos orgânicos,
métodos de incentivo para promover a corroborando com Young (2014), o
sustentabilidade nas produções dos Entrevistado mencionou que existem conflitos
cooperados para reduzir os impactos no entendimento entre a diferença dos
ambientais, corroborando om Opwood, Mellor produtos orgânicos e hidropônicos. Essa
e Brien (2005) o Entrevistado afirmou que esta divergência de informações é percebida
ação ocorre através de programas e projetos principalmente no ato de comercialização na
realizados pela prefeitura de Campo Grande e feira.
do SEBRAE. Um exemplo, que foi citado, é o
Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 2
86
3

Em referencia a responsabilidade social Em relação a novas tecnologias para a


dentre os princípios e valores da empresa, produção orgânica, avigorando com a
consolidando a teoria e Polo e Vásquez National Association Of Local Boards Of
(2014), foi assegurado pelo Entrevistado que Health (2010), foi citado pelo Entrevistado que
existe, não através de projetos sociais, mas é utilizado, por exemplo, as plasticulturas,
pelo próprio trabalho com orgânicos. Há uma cultivos protegidos que são tecnologias que
preocupação com a saúde do consumidor, auxiliam muito. As estufas chegam a reduzir
então é um trabalho social. Os cooperados sol, mas também chuva, pois controla a
fazem cursos para se instruírem sobre estes produção, no caso de estufas fechadas. Na
impactos ambientais e valores da agricultura estufa, o produto orgânico consegue ter
orgânica. Algumas vezes há arrecadações de produtividade, assim como sem estufa, a
roupas e distribuição de receitas a fim de única diferença é que está coberto e tem um
contribuir para a sociedade. controle maior pelo produtor.
No que se concerne a diferença de preços No que diz respeito a programa de
em relação à comercialização da produção desenvolvimento rural para melhorar as
convencional, o Entrevistado expõe que existe praticas na agricultura, em reforço a
sim, para a valorização do produto orgânico, Munteanu (2014), o Entrevistado descreve
que varia entre 30%, sob referência a que acontecem cursos ministrados pelo
Munteanu (2014). SEBRAE e uma assistência da Prefeitura
municipal de Campo Grande para auxiliar nos
Com relação a barreiras de entrada para ser
processos de produção.
um cooperado, em consentimento a Brodt,
Klonsky, Strochlic e Sierra (2014), é Quanto os benefícios que a cooperativa
observado, inicialmente, se o interessado esta proporciona para os funcionários, a
inteirado no objetivo da produção orgânica, comunidade e meio ambiente, segundo o
se é da agricultura familiar. Contudo, existe Entrevistado, são os trabalhos, ações e
uma taxa única denominada cota capital para processos de venda e compra em grupo.
a entrada na Organocoop no valor de Pessoas que se identificam realmente com a
R$ 500,00. cooperativa sabem que no inicio de um
projeto as coisas não são fáceis, por exemplo,
Tendo em consideração as maiores
situações onde precisa comprar um caminhão
dificuldades /desafios que uma Cooperativa
de esterco para uma pessoa, e esta arcará
enfrenta, em conformidade a Brodt, Klonsky,
com o frete sozinha, torna-se oneroso o
Strochlic e Sierra (2014), o Entrevistado
processo, entretanto, ao diluir esta compra
evidencia que isso ocorre quando o sócio não
para cooperados, por exemplo, o preço torna-
contribui com a Cooperativa, não entende o
se acessível. A ajuda mutua mobiliza e
processo de Cooperativa. Os maiores
fortifica a Cooperativa. Sempre é nessa linha
desafios são: manter a produção, o trabalho
de pensamento que trabalhamos, a união faz
diário e mesmo com intempéries, estar
a força. Dessa forma eles podem conhecer
crescendo. O produtor rural procura a
melhor um ao outro e se ajudarem
Cooperativa, e a Cooperativa está contando
mutuamente, corroborando com ACI -
com ele, mas a partir do momento que ele não
Américas (2010).
vende pela Cooperativa ou não trabalha com
a Cooperativa, ele deixa de gerar a renda e
pagar os custos da Cooperativa, o que
5. CONCLUSÕES
provoca dificuldades para sua manutenção.
Ao estudar e analisar a cadeia produtiva do
O Entrevistado relatou que “resistir ao CNPJ”,
Polo de Orgânicos da Organocoop foi
é um problema muito sério nas Cooperativas.
possível identificar os processos de gestão
O Presidente, possui condições de orientar os
ambiental dos produtos orgânicos inseridos
sócios, mas não há como obrigar, pois é um
na respectiva cadeia orgânica. Assim,
processo democrático. Para os sócios
evidenciado que houve um aumento
(cooperados) que fazem feira, será instituída
significativo de demanda dos produtos
uma taxa, mesmo para quem não vende
orgânicos, contudo não existe produção
usando a estrutura da Cooperativa, por conta
suficiente para atender as necessidades, as
dos custos da mesma. A união e o diálogo, as
barreiras que antecedem a produção
relações entre os cooperados e também entre
orgânica impactam a entrada de novos
a Cooperativa e as outras instituições, tem
cooperados. A diversidade e o número de
que estar bem fortalecidos.
Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 2
87
3

elos da cadeia produtiva são imprescindíveis orgânica, como também um meio de


para o escoamento da produção dos formalizar apoios e parcerias com a intenção
cooperados correspondendo a benefícios de ajudar nas praticas de produção mais
para a produção. sustentáveis, como o manejo, uso de
tecnologias e produtos, a divulgação dos
É possível diagnosticar um aumento na
trabalhos, os incentivos a pratica da produção
demanda dos produtos orgânicos devido aos
orgânica através de terras cedidas e estrutura
diversos benefícios que este proporciona.
para comercialização e outros.
Contudo, ainda não existe produção suficiente
para atender a todas essas necessidades. O Ademais, observa-se uma interação intensa
Estado através de órgãos específicos, como da cooperativa com a sociedade através de
observado na Organocoop, vem apoiando e, conhecimentos sobre práticas e
além disso, contribuindo de maneira eficaz aprimoramentos voltados a saúde do
para esse crescimento, que proporciona consumidor e projetos sociais, a exemplo
benefícios tanto para população, quanto para disso, a ajuda mutua observada dentro da
o crescimento econômico. cooperativa, pelos cooperados. A fiscalização
se torna uma ferramenta necessária e
As atividades econômicas da Cooperativa são
eficiente para contribuir com os esforços da
privilegiadas devido ao maior número de elos
produção certificada, que além de garantir a
na cadeia produtiva, evidenciando a
qualidade do produto, influencia a agregação
importância entre os agentes nas diferentes
de valor que se atribui aos produtos
etapas de produção, em conjuntura aos
orgânicos, garantindo uma solidificação às
diferentes elos para o escoamento da
praticas da cooperativa.
produção dos cooperados. Os elos mais
significativos são as feiras e os projetos do Como sugestões de pesquisa, sugere-se se
governo, nesta pesquisa. Igualmente os investigue nas relações com os cooperados
fornecedores de insumos, específicos aos em torno da comercialização para que se
orgânicos, são imprescindíveis para a possa compreender e conhecer a realidade
produção. em que estão inseridos afim de aprofundar os
conhecimentos sobre para se ter um
A união dos produtores em cooperativas
panorama.
oportuniza não só a certificação da produção

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Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 2


89
3

Capítulo 7

Yasmin Gomes Casagranda


Denise Barros de Azevedo
Renato de Oliveira Rosa

Resumo: Os empreendimentos do agronegócio estão cada vez mais competitivos e


em busca de redução dos custos como forma de aumentar a margem de lucro. Os
custos com a energia tem forte impacto em empresas rurais. Destarte é importante
conhecer a matriz energética do país, estudar outras fontes de energia viáveis,
renováveis e limpas, tais como a energia solar fotovoltaica que realiza
quimicamente a conversão de raios solares em energia elétrica ou o biogás obtido
na decomposição de matéria orgânica. Realizou-se esse trabalho com objetivo de
avaliar a viabilidade econômica em médio prazo fontes de energia renováveis em
empreendimentos rurais como meio de reduzir custos. A metodologia foi dividida
em três etapas. i)coleta de dados; ii)tratamento; iii)análise de resultados. Na
primeira realizou se pesquisa quantitativa com coleta de dados, por meio de
pesquisa bibliográfica em revistas especializadas, e pesquisa documental na coleta
de dados secundários junto a órgãos que atuam no cenário energético. As
variáveis estudadas foram à energia solar fotovoltaica e a bioenergia gerada por
meio de dejetos de suínos. As variáveis estudadas: energia fotovoltaica e
bioenergia viam dejetos de suínos, se apresentaram como valorosas alternativas,
em matéria de investimento e sustentabilidade.

Palavras-chave: Energia Renovável, Energia Fotovoltaica, Bioenergia.

Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 2


90

1. INTRODUÇÃO econômica por meio do custo de implantação,


tempo médio de retorno do capital investido,
Os empreendimentos do agronegócio estão
valor presente líquido e a taxa interna de
cada vez mais competitivos e em busca de
retorno do investimento. Neste sentido a
redução dos custos como forma de aumentar
investigação pretende apontar dentre as
a margem de lucro. Com empreendimentos
variáveis estudadas, qual a fonte de energia
rurais não é diferente. Por meio do
oferece melhor retorno sobre o capital
aprimoramento das técnicas de produção
investido para o agronegócio na atualidade e
aliadas ao livre acesso às informações e
que agreguem em responsabilidade sócio
tecnologias, o produtor rural pode alcançar a
ambiental.
eficiência produtiva.
A energia elétrica exerce forte impacto no
custo de produção e, possui alternativas 2. REFERENCIAL TEÓRICO
viáveis a serem estudadas, pois é um bem de
2.1 FONTES DE ENERGIA RENOVÁVEIS DE
natureza estratégica que além de caro, no
SEGUNDA GERAÇÃO.
ambiente rural concorre com interrupções e
ineficiências que podem culminar com perda Em 1987, na 42º reunião da ONU, foi
da produção. introduzido pela primeira vez o termo
desenvolvimento sustentável, preconizando
Neste sentido, torna-se importante conhecer a
que o desenvolvimento deve responder às
matriz energética do pais, estudar outras
necessidades do presente sem comprometer
fontes de energia viáveis, renováveis e limpas,
a capacidade das gerações futuras de
tais como a eólica, geradas a partir da força
satisfazer suas necessidades (BRUNDTLAND,
dos ventos, a solar fotovoltaica que realiza
1987).
quimicamente a conversão de raios solares
em energia elétrica ou o biogás obtido na Sustentabilidade energética é utilização da
decomposição de matéria orgânica. Deste energia necessária para prover o
modo, conhecer as fontes de energia e desenvolvimento sem comprometer o
possivelmente encontrar uma capaz de potencial das gerações futuras de realizar o
substituir a energia mesmo, diante disso, é crescente a
valorização e o desenvolvimento de novas
obtida das linhas de distribuição, por uma
tecnologias utilizadas na produção de
energia gerada no próprio empreendimento,
energias proveniente de fontes renováveis.
garantindo segurança energética, reduzindo
custos e o impacto sócio ambiental negativo
causado com a construção de novas usinas
2.1.1 ENERGIA SOLAR
hidrelétricas.
A radiação solar é uma fonte de energia
Segundo a IEA, Agência Internacional de
renovável, inesgotável e limpa, pois seu
energia, atualmente há três gerações de
processo de transformação não emite
energias renováveis, sendo, as tecnologias de
poluentes tal como o dióxido de enxofre SO2,
primeira geração, emergidas a partir da
óxidos de nitrogênio NOx e dióxido de
revolução industrial, que compreendem a
carbono CO2, gases poluentes e que
energia hídrica, à combustão e a energia
contribuem com o aquecimento global,
geotérmica; as de segunda geração que
tampouco poluição sonora, além de sua
compreendem a energia solar fotovoltaica,
utilização não causar impacto ambiental
eólica e bioenergia, iniciadas nos anos de
algum.
1980 por conta da crise energética; e as de
terceira geração que compreendem a energia Segundo Simioni, (2006), há três formas de
solar por concentração, sistemas maremotriz, aproveitamento da energia proveniente da
sistema geotérmico avançado e sistema radiação solar. A primeira é a arquitetura
integrado de bioenergias, todas encontram se solar, que é uma forma de energia solar
em fase de estudos e desenvolvimento (IEA, passiva, vinculada ao aproveitamento
2007). domestico, com o aquecimento de piscinas,
caixas d’água e iluminação natural. A
Realizou-se esse trabalho com objetivo de
segunda conhecida como heliotérmica onde a
estudar fontes de energias renováveis de
radiação solar é aproveitada em aquecer a
segunda geração, que melhor atendam as
água, gerando o vapor que movimenta o
necessidades e possibilidades do
gerador.
empreendimento rural, expondo a viabilidade

Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 2


91
3

A terceira forma de aproveitamento é 2.1.4 ENERGIA SOLAR FOTOVOLTAICA


conhecida como fotovoltaica onde os raios
Para o desenvolvedor da primeira célula solar
solares incidem sobre as placas coletoras,
"fotovoltaico" é o conjunto de tecnologias que
gerando uma reação química que é
viabilizam a conversão direta dos raios
convertida em energia que pode ser utilizada
solares em eletricidade através do dispositivo
diretamente, armazenada em baterias ou
chamado "célula solar" (LORENZO, 1994).
depositada na rede de distribuição, assim
como a héliotérmica esta também é uma Portando sistema fotovoltaico é a conexão das
forma de energia solar ativa. placas coletoras, onde ficam alocadas as
células solares, inversor de potencia, capaz
de converter a corrente continua em corrente
2.1.2 ENERGIA SOLAR TÉRMICA alternada e baterias, quando houver interesse
em armazenar a energia. A célula solar é o
O uso dessa forma de energia se dá por meio
coração de um painel de energia fotovoltaica,
de coletores, que são constituídos por uma
responsável pela conversão da radiação solar
superfície absorvedora, e tubulação de cobre
em energia elétrica, processo que se realiza
que capta o calor, superaquece a água a uma
quimicamente. Após a conversão a energia
faixa de temperatura que varia de 30ºC a 80ºC
gerada passa pelo conversor e é
e a direciona para um reservatório onde fica
encaminhada para a rede de distribuição ou
armazenada de modo a preservar a
para as baterias caso haja.
temperatura, para posterior utilização.
Esta forma de energia requerer,
Apesar de ser uma forma de energia solar
proporcionalmente, uma área muito menor a
passiva por não gerar energia elétrica, o
da exigida na produção hidráulica de energia,
sistema de aquecimento solar tem um
segundo Salés, (2008), para cada metro
importante impacto sobre o sistema elétrico
quadrado de coletor instalado evita-se a
nacional,
inundação de 56 metros quadrados de terras
Segundo dados do Laboratório de Eficiência férteis utilizadas na construção de novas
Energética em Edificações da Universidade usinas hidrelétricas. Em relação à incidência
Federal de Santa Catarina, a utilização do de raios solares, o sistema se apresenta
chuveiro elétrico representa em média 24% conveniente. O Brasil é um dos países mais
do consumo de energia elétrica residencial de propícios no mundo para o uso de sistemas
todo Brasil, já em habitações de interesse fotovoltaicos para eletrificação rural (RIBEIRO
social, o percentual de impacto é de 32%, et al., 1999).
(PRADO, GONÇALVES, 1992).

2.1.5 BIOGÁS
2.1.3 ENERGIA SOLAR HELIOTÉRMICA OU
O biogás é o produto do processamento dos
TERMOSOLAR
dejetos suínos no biodigestor, este que nada
A fonte heliotérmica, também conhecida como mais é que uma câmara que realiza a
Concentrated Solar Power (SCP), utiliza fermentação de matéria orgânica, produzindo
superfícies refletoras que concentram os raios além de biogás, o biofertilizante (DIESEL;
solares em um receptor geralmente instalado MIRANDA; PERDOMO, 2002).
em uma torre, aquecendo seu fluido e
O metano (gás incolor e combustível) é o
convertendo a energia solar em energia
principal componente energético, altamente
térmica, esses fluidos podem ser óleos
inflamável, que após ser purificado pode ser
sintéticos ou sal fundido atingem
utilizado para combustão, geração de energia
temperaturas de até 2000ºC e passam por um
elétrica, aquecimento e resfriamento (CERVI
trocador de calor (FILHO, 2013).
et al., 2010, SUNADA et al., 2012).
Assim gerando vapor e movendo as turbinas
A energia gerada a partir de biodigestores é
que giram o gerador, transformando a energia
uma das soluções mais promissoras para o
térmica em energia elétrica. Tem sido
produtor rural, pois promovem o tratamento
observado impacto ambiental na ocorrência
do resíduo e retornam parte da energia que
de pássaros que eventualmente morrem
seria perdida, de volta ao sistema produtivo,
queimados ao atravessarem a zona de
por meio da queima do gás (ORRICO et al.,
reflexão dos raios (ALMEIDA, 2013).
2007; SANTOS et al., 2007).

Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 2


92
3

análise de viabilidade serão o Payback, a taxa


interna de retorno (TIR) e o Valor presente
2.2 ANÁLISES DE INVESTIMENTO
liquido (VPL).
A análise econômica requer a realização de
estimativas dos valores que serão aplicados
na implantação, operação e manutenção dos 2.3 MÉTODO DO PAYBACK
materiais e equipamentos, bem como as
Payback quer dizer retorno do investimento,
receitas produzidas em determinado período
nada mais é que o resultado do cálculo
de tempo para assim montar o fluxo de caixa
utilizado para se saber em quanto tempo o
em anos e após determinar resultados
investidor recuperará o capital aplicado. É um
alcançados pelo empreendimento, comparar
ótimo método para se verificar o tempo
com as demais alternativas de investimento,
mínimo de retorno, no entanto, não leva em
que necessariamente deverão ser as de maior
conta o valor do dinheiro no tempo em sua
segurança e liquidez, como os fundos de
desvalorização, como também não considera
renda fixa, para finalmente se concluir sobre a
as entradas de fluxo de caixa após a
viabilidade do projeto. As ferramentas de
recuperação do investimento, ou seja, não
apoio às tomadas decisões utilizadas nesta
auxilia na estimativa do lucro (GITMAN, 2002).

Figura 1 – Fórmula do Payback.

Fonte: Gitman (2002).

Por ser uma ferramenta simples é comumente 2.4 MÉTODO DO VALOR PRESENTE
utilizada em isolado para calcular o retorno de LÍQUIDO (VPL)
pequenos projetos, no entanto por apontar
Baseado em Gitman (2002), o Método VPL
simplesmente a recuperação do investimento
consiste em trazer para o tempo presente os
e não apurar o lucro, o Payback deverá ser
valores estimados no fluxo de caixa do
utilizado em conjunto com o VPL e o TIR, que
projeto, após a definição da taxa mínima de
se complementam no apoio à tomada de
atratividade (TMA), que nada mais é que o
decisão, reduzindo os riscos.
retorno esperado pelo investidor, em outras
palavras, o percentual mínimo de retorno para
que o ele opte pelo projeto.

Figura 2 – Fórmula do Valor Presente Liquido.

Fonte:Gitman (2002).

A taxa mínima de atratividade que é rentabilidade obtida em aplicações de melhor


representada em percentual deve ser no risco de investimento, aqui, utilizada a taxa
mínimo equivalente ou superior à SELIC, cujo valor anualizado em Fevereiro de
Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 2
93
3

2017 era de 12,83% ao ano, por tanto maiores que as saídas.


aplicamos a (TMA) como 12,83% ao ano.
Utilizou se aqui a taxa SELIC como referencia,
2.5 MÉTODO DA TAXA INTERNA DE
pois ela é o parâmetro para remuneração de
RETORNO
títulos públicos, como o Titulo do Tesouro
Direto, um titulo de renda fixa, considerado A TIR, proposta por Keynes (1936), é uma
investimento seguro. Atingida a taxa média de taxa de desconto que aplicada ao fluxo de
atratividade o investidor deverá observar que caixa, tornam iguais, o valor presente das
quanto maior o VPL mais interessante é o despesas e o valor presente do retorno do
projeto, pois significa que as entradas são investimento de um projeto.

Figura 3 – Fórmula da Taxa Interna de Retorno.

Fonte: Keynes (1936).

O melhor dentre os investimentos é aquele A escolha pelas realidades desses países no


que apresenta maior TIR, no entanto para uma tocante ao cenário energético se deu, para
análise mais eficaz a taxa interna de retorno identificar situação e tendências na
deve ser comparada com a taxa mínima de exploração de energia em países
atratividade. Para Gitman, (2002), os desenvolvidos ou em desenvolvimento, de
investimentos com TIR maior que o TMA são proporções continentais e situados em quatro
considerados rentáveis e passiveis de análise, continentes diferentes.
na mesma linha Hummel e Taschner (1995),
No tocante a avaliação de viabilidade
apontam que se a TIR for menor que a TMA, a
econômica, realizou se também pesquisa
alternativa deverá ser rejeitada.
bibliográfica para identificar na literatura as
ferramentas de apoio à avaliação e tomada de
decisões, de onde selecionados os métodos
METODOLOGIA
payback, valor presente liquido VPL e taxa
A metodologia foi dividida em três etapas. interna de retorno TIR, bem como documental
i)coleta de dados; ii)tratamento; iii)análise de para conhecer condições de financiamento,
resultados. Na primeira realizou se pesquisa taxas de juros, legislação pertinente e custos
quantitativa com coleta de dados, por meio de de instalação (SAMANEZ, 2002).
pesquisa bibliográfica em revistas
Na segunda etapa, realizou se o tratamento
especializadas, e pesquisa documental na
de dados no intuito de definir duas variáveis
coleta de dados secundários junto a órgãos
com maior aplicabilidade no empreendimento
que atuam no cenário energético (BAUER &
rural médio, bem como conhecer as
GASKEL, 2002).
vantagens, desvantagens, as barreiras e
A coleta de dados por meio de pesquisa custo de implantação, respeitando a
bibliográfica foi realizada para conhecer as igualdade na capacidade produtiva entre as
fontes de energia renováveis aplicáveis aos duas variáveis.
objetivos propostos. A coleta de dados por
Na terceira etapa, realizou se a análise de
meio de pesquisa documental para identificar
resultado para a escolha da variável ideal
o panorama das matrizes elétricas em quatro
baseada na melhor razão entre quatro
realidades distintas e os resultados do
parâmetros. São elas: i)Econômica:
conjunto, e em dois momentos no tempo: a
Caracterizada pela escolha da opção mais
Alemanha, Estados Unidos, China, Brasil e
viável de implantação, calculada a partir do
Mundo (BARDIN, 2004).
Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 2
94
3

custo de implantação, retorno de investimento 12,83%.


e custo de oportunidade; ii)Social:
Caracterizada pelo menor índice ou maior
contenção do impacto social causados à 4.1. O BIODIGESTOR
população; iii)Ambiental: Caracterizada a pela
Para realizar a análise de viabilidade
nulidade ou contenção do impacto causado
econômica, será necessário de conhecer o
ao meio ambiente; iv)Tecnológica: Verificou se
custo de implantação e também o fluxo de
a variável em que a tecnologia não
caixa, que está diretamente relacionado com
apresentasse uma barreira de entrada quanto
capacidade produtiva de biogás, que por sua
à instalação ou operação.
vez está relacionada à quantidade de suínos
Após definidas a variável com maior envolvidos na produção, por tanto para obter
aplicabilidade realizou se a comparação para as estimativas consideraremos uma
verificar se esta alternativa se mostra população de 500 suínos.
economicamente competitiva frente à energia
elétrica já distribuída pela concessionária
local. Destaca-se que qualquer esforço de 4.2 PRODUÇÃO DO BIOGÁS
comparação estrita entre as alternativas,
De acordo com OLIVER et al. (2008), a
apresentará imprecisão por menor que seja.
produção diária de dejetos suínos é de 4 kg
Cada região e cada tipo de empreendimento
de por animal. A diluição é realizada a uma
rural possuem características que privilegiam
proporção de uma parte de esterco para uma,
determinadas fontes de energias, o que
mais um terço de água, que resulta em 9,2
impossibilita a construção de parâmetros de
litros, o autor aponta também que após a
seleção.
transformação este volume pode ser
transformado em 0,356m³ de biogás, e que o
período de retenção dos dejetos suínos no
4. RESULTADOS
biodigestor é de 35 dias.
Apresentadas as variáveis, eletricidade a
O autor Oliveira (1994) apresenta valores
partir do biogás de dejetos suínos e a partir
aproximados, com média de 8,6 litros de
de sistema fotovoltaico, será realizada a
dejetos líquidos dia equivalente a 0,27m³/mês
estimativa de custo de implantação, receita
ou 0,312m³ de biogás no período de
gerada a partir da economia na aquisição de
processamento do biodigestor, no entanto,
energia da distribuidora, custos de operação
como esta literatura é a mais antiga e as
e depreciação, e então, de posse dessas
tecnologias de produção tendem a
informações e de ferramentas como valor
amadurecer, consideraremos os valores
presente liquido, taxa interna de retorno e
apresentados por (OLIVER, 2008).
payback, será possível verificar a viabilidade
econômico-financeira de cada um dos Segundo Fonseca (2009), esse tipo de
investimentos e mais a frente realizar a produção deve apresentar um calculo para o
comparação de qual o mais atrativo entre adequado dimensionamento da capacidade
eles. A taxa mínima de atratividade para o do biodigestor, utilizando a volumetria diária
período da realização do estudo foi de de chorume e o tempo de retenção:
Figura 4 – Calculo da Volumetria diária de chorume.

Fonte: Fonseca (2009).

Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 2


95

Temos por tanto que na construção de um requisitado para um tanque em uma


tanque biodigestor o volume necessário para propriedade de 500 suínos é de 161m³ e a
atender os 9,2 litros diários de dejetos, produção diária de biogás será de 178m³,
acumulados por 35 dias é de 322 litros ou conforme (Tabela 1).
0,322 m³/animal, portanto o volume

Tabela 1 – Volume necessário para o tanque no ciclo de 35 dias.


Animais Necessidade em m³/tanque Biogás (m³/dia)
1 0,322 0,356
100 32,2 35,6
300 96,6 106,8
500 161 178
Fonte: Dados da Pesquisa.

4.3 GERAÇÃO DE ENERGIA 17Nm³/h, o equivalente a 20m³ em condições


razoáveis de altitude, temperatura e umidade,
Para auferir a energia produzida, foi utilizado
observada a disponibilidade de 178m³ de
como referencia o gerador fabricado para
biogás por dia a uma taxa de geração de
operar a biogás da marca ER-BR, modelo
1.8kWh/m³ teremos uma produção diária de
GMWM50 de 50KVA, potencia efetiva média
320,4kW/h operando 9 horas por dia.
de 45kVA. A energia gerada em kWh será
obtida através da conversão das unidades de
medida kVA para kWh que atuam na razão de
4.4 RECEITAS
1kVA para 0,8kW/h, portanto o conjunto moto
gerador operando a 45kVA tem capacidade A receita do projeto é medida através da
de geração de 36kWh. quantidade de kWh produzida anualmente
com a queima do biogás no conjunto moto
Segundo dados da fabricante (ER-BR) o
gerador (Tabela 2), multiplicado pelo valor do
consumo de biogás no sistema escolhido é de
kWh ofertado pela distribuidora (Tabela 3).

Tabela 2 – Produção anual de energia elétrica e seus insumos.


Descrição Quantidade Unidade de medida
Produção diária de biogás 178 m³
Consumo de biogás no gerador por hora 20 m³
Geração de energia elétrica por hora 36 kWh
Horas de utilização por dia 8,9 h
Geração diária de energia elétrica 320,4 kWh
Horas de utilização por ano 3.249 h
Geração anual de energia elétrica 115.344 kWh

Tabela 3 – Valor da tarifa de energia em Mwh por região, na modalidade RURAL em 2016.
Brasil Centro Oeste Nordeste Norte Sudeste Sul
R$ 325,40 R$ 355,09 R$ 311,67 R$ 344,52 R$ 337,22 R$ 304,71
Fonte: ANEEL, 2017.

No Brasil, o custo de energia elétrica é dados da ANEEL – Agencia Nacional de


subsidiado para os consumidores que se Energia Elétrica, o valor do Mwh nacional para
enquadrem na modalidade rural, tendo seu esta modalidade foi cotado em R$325,40,
preço bastante reduzido. Em 2016 segundo multiplicado este valor pela produção anual

Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 2


96
3

estimada do biodigestor, de 115.334 Kwh, realizada levando em consideração os preços


obtemos um valor anual economizado de alcançados através de pesquisa em meios
R$ 37.532,94, o que será considerado receita especializados informais, que contemplaram o
para fins de realização de fluxo de caixa. projeto, execução e equipamentos, não
levando em consideração o emprego de mão
4.5 CUSTO DE IMPLANTAÇÃO
de obra de funcionários da granja. O valor se
Conhecida a dimensão necessária para o aproximou bastante com os apresentados na
biodigestor processar o volume diário de literatura para os sistemas de mesmo porte,
dejetos produzidos, podemos apurar o custo como no estudo de caso realizado por
de implantação (Tabela 4). (DALPONTE, 2004).
A estimativa do custo de implantação foi

Tabela 4 – Custo de implantação


Investimento Valor (R$)

Aquisição do grupo gerador 35.000,00

Construção do biodigestor 18.500,00

Casa de máquinas e instalações em alvenaria 4.300,00

Adaptação da instalação elétrica 3.750,00

Projeto 1.450,00
Total 63.000,00
Fonte: Dados da Pesquisa.

4.6. ORIGEM DO CAPITAL com taxas de 5,5% e 7,5% ao ano para este
tipo de investimento (Ministério da Agricultura
A fonte de recursos utilizada na confecção
e BNDES). Já o Banco do Brasil oferta uma
desta estimativa foi a de capital próprio, não
linha de crédito chamada (ABC) Agricultura
muito comum em investimentos deste porte,
de Baixo Carbono para investimento em
mas dada a variação das taxas de juros e
práticas que contribuam com a redução na
modalidades de créditos de produtor para
emissão de gases, a taxas de 8,5% ao ano,
produto. A opção também evita que os juros
todas em Março de 2017.
do financiamento causem distorções sobre
taxa mínima de atratividade, comprometendo
a tomada de decisões.
4.7 DEPRECIAÇÃO
Atualmente linhas de créditos subsidiadas
A depreciação foi realizada linearmente,
como o PRONAF - Programa de
realizando a divisão do valor do bem pelo
Fortalecimento da Agricultura Familiar e o
tempo de vida útil em anos, chegando a uma
PRONAMP - Programa Nacional de Apoio ao
taxa de 5% ao ano para bens com 20 anos de
Médio Produtor Rural para propriedades com
vida útil e de 6,67% para bens com vida útil
faturamento anual bruto de até R$360 mil e
de 15 anos.
R$500 mil respectivamente ofertam créditos

Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 2


97
3

Tabela 5 – Depreciação Linear

Vida Útil Depreciação


Equipamento/Material Valor (R$)
(ano) (R$/ano)

Construção do biodigestor e instalações 18.500,00 20 925,00

Casa de máquinas e instalações em


4.300,00 25 172,00
alvenaria

Adaptação da instalação elétrica 3.750,00 15 249,98

Grupo gerador 35.000,00 15 2.333,10


Total 61.550,00 3.680,08
Fonte: Dados da Pesquisa.

4.8 CUSTOS DE OPERAÇÃO operação.


Os custos foram divididos em fixos e
variáveis, o custo variável é por conta do
4.10. CUSTO FIXO
custo de operação do gerador, quanto mais
operar, mais manutenções serão necessárias, O custo fixo refere se exclusivamente à mão
já o custo fixo foi atribuído ao funcionário de obra do operador do sistema, foi realizado
encarregado de operar o gerador e realizar a o rateio do custo de um funcionário já
limpeza dos tanques. existente no empreendimento. Com salário de
R$1 mil adicionado dos encargos de
R$528,89 obtemos um custo de R$ 9,55 a
4.9 CUSTO VARIÁVEL hora.
O gerador deverá operar 8,9 horas diárias por Dedicadas 1 hora diária ao acionamento e
365 dias ao ano, totalizando 3.249 horas de limpeza do sistema, temos um custo de
trabalho ao ano será apontada aqui uma R$ 286,50 mensais ou R$ 3.438,00 anuais
estimativa de custo de manutenção. Como com mão de obra voltada para o biodigestor.
qualquer motor a combustão estacionário a
manutenção preventiva dos componentes é
exigida em horas, como por exemplo, a troca 4.11 TEMPO DE RETORNO DO
de óleo lubrificante deve ocorrer a cada 100 INVESTIMENTO
horas de operação, o que exigirá 32,49 trocas
De posse dos dados apresentados torna se
ao ano, a troca de filtro de óleo a cada 400
possível realizar a projeção financeira, aqui
horas, entre outras. Também há a
aplicada aos cinco primeiros anos do
manutenção corretiva, como troca de
investimento (Tabela 6), no total para começar
rolamentos entre outras imprevisíveis.
operando foi necessário o investimento de
Estimada a manutenção preventiva acrescida
R$63 mil entre projeto, construção e
de uma margem para a manutenção corretiva
equipamentos. A taxa mínima de atratividade
é estimado um valor médio de R$6.189,35
definida foi de 12,83% ao ano.
para este conjunto gerador e tempo de

Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 2


98
3

Tabela 6 – Fluxo de caixa do projeto do Ano 0 ao Ano 05


Lançamentos Ano 0 Ano 1 Ano 2 Ano 3 Ano 4 Ano 5

Receita Operacional

(+) receita com energia 37.532,94 39.972,58 42.570,80 45.337,90 48.284,86

Custo Operacional 13.307,43 13.933,20 14.599,66 15.309,43 16.065,34


(-) custo fixo 3.438,00 3.661,47 3.899,47 4.152,93 4.422,87

(-) custo variável 6.189,35 6.591,65 7.020,11 7.476,42 7.962,38

(-) depreciação 3.680,08 3.680,08 3.680,08 3.680,08 3.680,08


Lucro Bruto 24.225,52 26.039,38 27.971,14 30.028,47 32.219,53

(-) imposto de renda 1.938,04 2.083,15 2.237,69 2.402,28 2.577,56

Lucro Liquido 22.287,47 23.956,23 25.733,45 27.626,20 29.641,97


(+) depreciação 3.319,74 3.319,74 3.319,74 3.319,74 3.319,74
Disponíveis 25.607,21 27.275,97 29.053,19 30.945,94 32.961,71

(=) Fluxo de Caixa -63.000,00 25.607,21 27.275,97 29.053,19 30.945,94 32.961,71

(=) Recursos acumulados -63.000,00 25.607,21 52.883,18 81.936,37 112.882,31 145.844,02

Fonte: Dados primários

Foi aplicada uma taxa anual de 6,5% aos


custos, buscando simular o efeito da inflação
4.12 O SISTEMA FOTOVOLTAICO
sobre as despesas, já em relação à receita
com energia, que não acompanha o processo Para realizar uma justa comparação de
inflacionário, foi realizada a média de reajuste viabilidade entre o sistema biodigestor e o
anual dos últimos dez anos para o grupo sistema fotovoltaico será fixada como
tarifário RURAL, que também alcançou média parâmetro a mesma quantidade de energia
de 6,5%. produzida pelo biodigestor, conforme relatado
acima, que foi de 9.600kWh/mês,
O valor presente líquido, (VPL), ferramenta
consequentemente obtendo a mesma receita
que calcula o valor do investimento no tempo
anual. Importante citar que o custo de
(Figura 2), levando em consideração o
implantação para todo território brasileiro
incremento da taxa mínima de atratividade
deverá ser aproximado, no entanto, é evidente
(TMA), neste caso 12,83%, foi de
que a produção está diretamente relacionada
R$ 38.467,21 (Trinta e oito mil, quatrocentos e
às condições do tempo e incidência de raios
sessenta e sete reais e vinte e um centavos),
solares, variando por tanto a cada local a
valor em que o retorno supera o esperado.
dimensão necessária para o sistema produzir
A Taxa interna de retorno, (TIR), após a média de energia esperada.
elaboração dos cálculos apontou percentual
Será aqui tomada como referencia a cidade
de 32,08%. Sabendo que quanto maior a TIR
de Rio Verde, no estado de Goiás, pois além
maior a lucratividade do projeto, este caso
de obter boa incidência de raios solares
apresenta ótimo potencial, ficando acima da
durante o ano, possui localização geográfica
taxa mínima de atratividade. O Payback
centralizada, topografia plana, e é a cidade
calculado a partir do fluxo de caixa do projeto
com o quarto maior PIB do estado, tendo sua
ficou em 29 meses ou 2 anos e 5 meses.
economia voltada para o agronegócio. A
Importante salientar que o payback não
cidade possui uma ótima estrutura
considera o valor do dinheiro no tempo como
agroindustrial, sendo a maior produtor de soja
o VPL, portanto é uma estimativa que não
do estado e também de importância
deve ser vislumbrada isoladamente.
Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 2
99
3

reconhecida na bovinocultura, suinocultura e O método mais viável para a acomodação de


avicultura (IBGE, 2013). um sistema dessa proporção em um
empreendimento rural deverá ser ao solo,
elevado por estrutura metálica, podendo ser
4.13 CUSTO DE IMPLANTAÇÃO necessária a realização de terraplanagem ou
adaptação da vegetação, no entanto por
A potencia necessária para que um sistema
variáveis como utilização de mão de obra
fotovoltaico possa produzir media de
própria ou a não necessidade de alteração do
9.600kWh/mês naquela cidade é calculada
local, este custo não será incrementado na
em 75,19kWp (quilo watt pico), com
análise.
necessidade de 289 placas fotovoltaicas com
potencia nominal de 260wp cada. O valor Segundo orçado, com esta especificação, o
apresentado corresponde a aquisição, sistema instalado e conectado à rede elétrica,
instalação e ligação à rede elétrica, (sistema deverá custar de R$ 315.798,00 à
funcionando), porem pode se fazer R$ 375.950,00 dependendo do fornecedor e
necessária a preparação da área que irá condições de negociação. Para realizar por
recebê-lo. A área mínima ocupada pelo tanto, os cálculos de viabilidade de
sistema pelo sistema com 289 placas é de investimento, será utilizada a média desses
aproximadamente 600m². dois valores, ou seja, R$ 345.874,00, (tabela
7).

Tabela 7 – Custo de implantação


Investimento Valor (R$)
Placas solares (298un x 260kw) R$ 269.010,00
Inversor de potencia (3 un. x 25kw) R$ 63.000,00
Adaptação da rede elétrica R$ 4.500,00
Projeto e instalação R$ 6.500,00
Outras despesas de implantação R$ 2.864,00
Total R$ 345.874,00
Fonte: Dados da Pesquisa.
4.14 DEPRECIAÇÃO
A depreciação contábil ocorre com a necessidade de reinvestimento em equipamentos por conta do
desgaste constante ou obsolescência que pode ocorrer ao final de sua vida útil, no sistema
fotovoltaico este tempo é de 25 anos, já no caso dos inversores esse tempo é de 10 anos.

Tabela 8 – Depreciação de bens


Equipamento/Material Valor (R$) Vida útil (ano) Depreciação (R$/ano)
Placas solares (298un x 260kw) R$ 279.300,00 25 R$ 11.172,00
Inversor de potencia (3 um x 25kw) R$ 63.000,00 10 R$ 6.300,00
Total R$ 342.300,00 R$ 17.472,00
Fonte: Dados da Pesquisa.

4.15 CUSTOS DE OPERAÇÃO haverá consumo de insumo que produziria


custo de natureza variável, por tanto serão
Em razão de o sistema fotovoltaico ser um
estimados, apenas o custo fixo, em razão da
sistema estacionário de conversão química,
necessidade de manutenção preventiva que
não ocorrerá desgaste excessivo e nem
Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 2
100
3

corresponde à inspeção visual e limpeza dos


painéis.
4.16 TEMPO DE RETORNO DO
O custo fixo refere se exclusivamente à mão INVESTIMENTO
de obra de um encarregado, foi realizado o
A fim de verificar o tempo de retorno para este
rateio do custo de um funcionário já existente
investimento foi realizada a projeção
no empreendimento. Com salário de R$1 mil
financeira a partir do fluxo de caixa, aplicada
adicionado dos encargos de R$528,89
aos vinte primeiros anos do investimento
obtemos um custo de R$ 9,55 à hora.
(Tabela 9), no total para obter um sistema
Dedicada 1 hora diária exclusivamente à
com esta especificação operando será
inspeção visual e limpeza do sistema, temos
necessário investimento de R$345.874,00
um custo de R$ 286,50 mensais ou
entre projeto, aquisição e instalação do
R$ 3.438,00 anuais com mão de obra voltada
sistema. Foi utilizada aqui também a taxa
para o sistema fotovoltaico.
mínima de atratividade de 12,83% ao ano.
Tabela 9 – Fluxo de caixa do projeto do Ano 0 ao Ano 05
DRE Ano 0 Ano 1 Ano 2 Ano 3 Ano 4 Ano 5

Receita Operacional

(+) receita com energia 37.532,94 39.972,58 42.570,80 45.337,90 48.284,86

Custo Operacional 20.910,00 21.133,47 21.371,47 21.624,93 21.894,87

(-) custo fixo 3.438,00 3.661,47 3.899,47 4.152,93 4.422,87

(-) custo variável 0 0 0 0 0

(-) depreciação 17.472,00 17.472,00 17.472,00 17.472,00 17.472,00


Lucro Bruto 16.622,94 18.839,11 21.199,33 23.712,97 26.389,99

(-) imposto de renda 1.329,84 1.507,13 1.695,95 1.897,04 2.111,20

Lucro Liquido 15.293,10 17.331,98 19.503,39 21.815,93 24.278,79

(+) depreciação 0 17.472,00 17.472,00 17.472,00 17.472,00 17.472,00

Disponíveis 0 32.765,10 34.803,98 36.975,39 39.287,93 41.750,79


-
(=) Fluxo de Caixa 32.765,10 34.803,98 36.975,39 39.287,93 41.750,79
345.874
(=) Recursos -
32.765,10 67.569,09 104.544,47 143.832,41 185.583,20
acumulados 345.874
Fonte: Dados primários.

Foi aplicada uma taxa anual de 6,5% aos (Figura 2), levando em consideração o
custos com mão de obra, buscando simular o incremento da taxa mínima de atratividade
reajuste inflacionário sobre salários, já em
(TMA), neste caso 12,83%, foi de R$ 3.419,11
relação à receita com energia, continuamos
(Três mil, quatrocentos e dezenove reais e
com a média de reajuste anual dos últimos
onze centavos), valor em que o retorno supera
dez anos para o grupo tarifário RURAL, que
o esperado, ocorreu apenas no vigésimo ano
foi de 6,5%, da mesma forma utilizada no
de operação.
investimento do biodigestor.
A Taxa interna de retorno, (TIR), após
O valor presente líquido, (VPL), ferramenta
elaboração dos cálculos apontou percentual
que calcula o valor do investimento no tempo
Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 2
101
3

de 32,08%. Sabendo que quanto maior a TIR apresenta ótimo potencial, ficando acima da
maior a lucratividade do projeto, este caso taxa mínima de atratividade.

Tabela 10 – Fluxo de caixa do projeto do Ano 16 ao Ano 20


DRE Ano 16 Ano 17 Ano 18 Ano 19 Ano 20

Receita Operacional

(+) receita com energia 96.528,75 102.803,12 109.485,33 116.601,87 124.180,99

Custo Operacional 26.313,99 26.888,72 27.500,81 28.152,68 28.846,92

(-) custo fixo 8.841,99 9.416,72 10.028,81 10.680,68 11.374,92


(-) custo variável 0 0 0 0 0
(-) depreciação 17.472,00 17.472,00 17.472,00 17.472,00 17.472,00
Lucro Bruto 70.214,76 75.914,40 81.984,52 88.449,19 95.334,07

(-) imposto de renda 5.617,18 6.073,15 6.558,76 7.075,94 7.626,73

Lucro Liquido 64.597,58 69.841,25 75.425,76 81.373,26 87.707,35


(+) depreciação 17.472,00 17.472,00 17.472,00 17.472,00 17.472,00

Disponíveis 82.069,58 87.313,25 92.897,76 98.845,26 105.179,35

(=) Fluxo de Caixa 82.069,58 87.313,25 92.897,76 98.845,26 105.179,35

(=) Recursos acumulados 861.566,43 948.879,68 1.041.777,44 1.140.622,70 1.245.802,04

Fonte: Dados primários.

O Payback calculado a partir do fluxo de 5.CONSIDERAÇÕES FINAIS


caixa do projeto ficou em 29 meses ou 2 anos
Objetivou se com este trabalho, apresentar a
e 5 meses. Importante salientar que o
análise de viabilidade econômica com
payback não considera o valor do dinheiro no
comparação na implantação de duas fontes
tempo como o VPL, portanto é uma estimativa
de energia renováveis no agronegócio
que não deve ser vislumbrada isoladamente.
brasileiro, para tal, levou se em consideração
A Taxa interna de retorno, (TIR), após que os investimentos deveriam apresentar
elaboração dos cálculos apontou percentual rentabilidade igual ou superior a investimentos
de 12,95%. Sabendo que quanto maior a TIR considerados seguros, neste caso, 12,83% ao
maior a lucratividade do projeto, este caso ano.
apresenta bom potencial, se analisado o
Verificou se que, com custo inicial de apenas
tempo de depreciação ficando acima da taxa
R$63.000,00 o biodigestor pôde produzir a
mínima de atratividade. O Payback calculado
mesma quantidade de energia e oferecer um
a partir do fluxo de caixa do projeto ficou em
tempo de retorno do investimento de 29
101 meses ou 8 anos e 5 meses. Importante
meses enquanto que no sistema fotovoltaico o
salientar que o payback não considera o valor
custo de implantação foi quase cinco vezes e
do dinheiro no tempo como o VPL, portanto é
meia superior, R$345.874,00 apresentando
uma estimativa que não deve ser vislumbrada
payback de 101 meses.
isoladamente.
Em relação ao valor presente líquido dos
investimentos, no sistema fotovoltaico o valor
Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 2
102
3

só ficou positivo no vigésimo ano do projeto, valores reais, alcançados com base em
levando se em conta que o sistema tem vida cálculos realizados a partir de fórmulas e
útil de vinte cinco anos e que o VPL inclui a dados disponíveis na literatura. Quanto a
taxa mínima de atratividade requerida pelo questão de viabilidade existe a limitação de
investidor o resultado se torna razoável, em que a produtividade do biodigestor foi
contrapartida, o sistema biodigestor baseada na criação de 500 suínos que não
apresenta valor presente líquido positivo já ao foram apreçados no projeto, portanto a
final do terceiro ano. Outro indicador é a taxa viabilidade de implantação deve ser analisada
interna de retorno, em que o biodigestor caso a caso de acordo com a disponibilidade
atingiu 32,08% no quinto ano, resultado que de recursos em cada empreendimento.
impressiona mais que os 12,95% alcançados
As demais cabem ressaltar que as fontes de
pelo sistema fotovoltaico no vigésimo ano.
energias renováveis não devem ser
Constatou se que os dois casos apresentam analisadas apenas como alternativas de
viabilidade econômica, porém nota se que interesse econômico, mas também como uma
todos os indicadores econômicos apontam necessidade socioambiental imediata.
para o sistema biodigestor como investimento Sabendo que um sistema fotovoltaico desta
de rentabilidade muito superior, tornando a dimensão evitaria a inundação de
implantação do sistema fotovoltaico aproximadamente 33km² de terras férteis na
economicamente viável, porém impraticável. construção de novas usinas hidrelétricas ou
que o biodigestor evitaria anualmente a
No entanto, cabe ressaltar que os dados
liberação de aproximadamente 35 toneladas
utilizados foram baseados apenas em
de metano na atmosfera, se faz necessário
pesquisa bibliográfica, documental e coleta
reavaliar o significado para a palavra
de dados, portanto quanto a produtividade, os
viabilidade.
valores apresentados foram estimativas para

REFERÊNCIAS biogás e na geração de energia. Florianópolis : [s.


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Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 2


104
3

Capítulo 8

Silvia Helena Boarin Pinto


Gabriel Gaboardi de Souza
Isabela Gaiardo Carneiro
Larissa Henriques Pascoal Martins
Thamires Amorim da Silva

Resumo: O objetivo deste artigo é estudar os programas de certificações “ISO


9001-Gestão da Qualidade” e “FSC-Forest Stewardship Council” (certificação
florestal), implantados na indústria gráfica, por meio de um estudo de caso em uma
gráfica brasileira, partindo-se do pressuposto de que a implantação das
certificações acarretou benefícios financeiros para a empresa pesquisada.
Avaliando-se as principais dificuldades na adoção das certificações, as mais
significativas referem-se a confecção e atualização de documentos para a
metodologia; disponibilidade de colaboradores internos na implantação das
certificações e na realização de atividades dos programas e de gerenciamento de
projetos. As principais ferramentas da qualidade adotadas foram o FMEA (Análise
do Modo e Efeito da Falha), o CEP (Controle Estatístico do Processo), o Box Plot, o
Ciclo PDCA (Planejamento, Execução, Controle e Análise) e o DMAIC (Definir,
Medir, Analisar, Melhorar e Controlar).

Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 2


105
3

1. INTRODUÇÃO satisfação dos clientes. É utilizada por


empresas que desejam fornecer serviços e
Atualmente, o conceito de gestão de
produtos que atendam às necessidades e
qualidade tem sido muito aplicado nas
expectativas dos consumidores
empresas e com ele crescem as certificações
implementadas, bem como a padronização e A NBR ISO 9001 é a versão brasileira da
a excelência dos serviços oferecidos pelas norma ISO 9001, caracterizada por requisitos
organizações. em todas as etapas desde o projeto até a
assistência técnica para a implantação do
Considerando-se essa tendência, o tema
sistema. A alta direção deve providenciar os
deste trabalho é o estudo da implantação das
recursos necessários para a adoção da
normas “ISO 9001 (Gestão da Qualidade)” e
norma, assim como controlar procedimentos
“FSC - Forest Stewardship Council”
relacionados à medição, análise e melhoria de
(Certificação Florestal) em uma gráfica
modo a alcançar melhoria continua do
brasileira. São analisadas as adequações e os
sistema.
benefícios obtidos com a implantação,
observando-se, principalmente, a certificação As organizações contam com oito princípios
florestal FSC, por ser ainda pouco abordada da qualidade para conduzir a melhoria de seu
na literatura científica e por ser um fator de desempenho, os quais são explicitados a
sustentabilidade para as nações. Cabe seguir (ABNT NBR ISO 9001, 2015):
ressaltar que na gráfica analisada existem
 Foco no cliente – As organizações
outras certificações, específicas do setor
dependem de seus clientes e, portanto, é
gráfico, como a ISO 3664, ISO 12647 e a ISO
recomendável que atendam às suas
5426 que não são o foco principal da atual
necessidades atuais e futuras, procurando
pesquisa.
ultrapassar suas expectativas.
O trabalho organiza-se em cinco seções,
 Liderança – Líderes estabelecem a
sendo a primeira esta introdução. Na seção 2,
unidade de propósito e o rumo da
expõe-se a revisão teórica sobre o tema
organização. Convém que eles criem e
estudado. Na seção 3, apresenta-se a
mantenham um ambiente interno, no qual as
metodologia utilizada. Na seção 4, revelam-se
pessoas possam estar totalmente envolvidas
os resultados obtidos com as análises
no propósito de atingir os objetivos
realizadas. Na seção 5, por fim, explicitam-se
institucionais.
as principais conclusões, limitações do
estudo e recomendações para futuras  Envolvimento de pessoas – Pessoas
investigações. de todos os níveis são a essência de uma
organização, e seu total envolvimento
possibilita que as suas habilidades sejam
2. REVISÃO BIBLIOGRÁFICA usadas para o benefício da empresa.
2.1 SISTEMA DE GESTÃO DA QUALIDADE –  Abordagem de processo – Um
NORMA ISO 9001 resultado desejado é alcançado de forma
mais eficiente quando as atividades e os
A família ISO 9000 foi criada em 1947, com o
recursos são gerenciados como um processo.
objetivo de guiar, simplificar e estimar os
avanços dos sistemas de Gestão da  Abordagem sistêmica para a gestão –
Qualidade e atividades a eles relacionadas, Identificar, entender e gerenciar os processos
tendo em vista facilitar o intercâmbio inter-relacionados como um sistema contribui
internacional de bens e serviços e para a eficácia e eficiência da organização no
desenvolver a cooperação na realização de alcance de seus objetivos.
atividades econômicas nas esferas intelectual,
científica e tecnológica (MAEKAWA, 2013). As  Melhoria contínua – Convém que a
normas que a compõem podem ser aplicadas melhoria contínua do desempenho global da
com outras normas de funcionamento, tais organização seja seu objetivo permanente.
como as de saúde, de segurança e de meio  Abordagem factual para tomada de
ambiente. Qualquer organização, pública ou decisão – Decisões eficazes são baseadas na
privada, independentemente do setor, pode análise de dados e informações.
ser certificada.
 Benefícios mútuos nas relações com
A norma ISO 9001faz parte dessa família e os fornecedores – Uma organização e seus
seu objetivo é aumentar a confiança e a fornecedores são interdependentes, e uma
Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 2
106
3

relação de benefícios mútuos aumenta a compatibilidade entre todos os procedimentos


capacidade de agregar valor. da Indústria Gráfica. A percepção das cores é
decorrente da adaptação do olho humano em
Como a norma ISO 9001 pode ser adotada
relação à luz ambiente e da influência de
por qualquer tipo de organização,
reflexos de objetos próximos ao que está
independentemente de tamanho ou de setor,
sendo observado (MORTARA, 2009).
ela é adotada em todo o mundo e a
quantidade de certificados emitidos e válidos
é grande. De acordo com a pesquisa ISO
2.3 NORMA ISO 5426 - PLANOS DE
Survey 2016, realizada pela International
AMOSTRAGEM E PROCEDIMENTOS NA
Organization for Standardization (ano base de
INSPEÇÃO POR ATRIBUTOS
2015), a quantidade total de certificados
emitidos em 186 países é de 1.106.356, o que Esta norma tem como objetivo determinar
significa um aumento de aproximadamente planos de amostragem e métodos para a
7% em relação ao ano de 2015 (ano base de revisão por atributo. Os planos de
2014). Cabe resaltar que a versão atual da amostragem podem ser usados para a
norma ISO 9001 foi elaborada em 2015, revisão de produtos terminados, componentes
recebendo a denominação de ISO 9001:2015 e matéria-prima, operações, materiais em
Entretanto, os números ainda mostram a processamento, materiais estocados,
versão de 2008. No Brasil, há operações de manutenção, procedimentos
aproximadamente 20.323 certificados administrativos e relatórios de dados. Podem
emitidos (ISO-INTERNATIONAL ser utilizados ainda para o controle de lotes
ORGANIZATION FOR STANDARDIZATION- de séries constantes ou lotes isolados (ABNT
ISO SURVEY 2016). NBR ISO 5426, 2009).
Na compreensão de seus efeitos, são
admitidas algumas definições (ABNT NBR ISO
2.2 NORMA ISO 3664 -TECNOLOGIA
5426, 2009):
GRÁFICA E FOTOGRAFIA- CONDIÇÕES DE
VISUALIZAÇÃO  Inspeção - Processo de medir, ensaiar
e examinar a unidade de produto ou
A norma ISO 3664 especifica os requisitos
comparar suas características com as
mínimos para visualização de imagens em
especificações.
meios reflexivos e transmissivos, como, por
exemplo, cópias impressas, transparências e  Inspeção por atributos - Inspeção
imagens visualizadas em monitores coloridos segundo a qual a unidade de produto é
de diversas categorias. Os padrões que ela classificada simplesmente como defeituosa
expressa fornecem as regras básicas para ou não (ou o número de defeitos é contado)
bancos de teste, mesas de luz e pontos de em relação a um dado requisito ou conjunto
trabalho utilizados para avaliar cor, brilho e de requisitos.
qualidade geral das imagens em artes
 Unidade de produto - Elemento de
gráficas. Destina-se, principalmente, aos
referência na inspeção. Pode ser um artigo
fabricantes de pontos de teste de prova e
simples, um par, um conjunto, uma área, um
materiais fotográficos, em vez de usuários
comprimento, uma operação, um volume, um
individuais (ABNT NBR ISO 3664, 2011).
componente de um produto terminado ou o
Os principais parâmetros especificados nesse próprio produto terminado. A unidade de
padrão são cinco: qualidade de cor; produto pode ou não ser igual à unidade de
intensidade da iluminação; uniformidade da compra, de fornecimento, de produção ou de
iluminação; ambiente de trabalho e expedição.
observação.
 Classificação de defeitos - Relação
A norma foi publicada pela primeira vez em dos possíveis defeitos da unidade de produto,
1975, sendo revisada em 2000, 2009 e 2011. classificados segundo sua gravidade. Um
Atualmente, recebe a denominação de ISO defeito da unidade de produto é a falta de
3664:2011 e leva em consideração a conformidade a qualquer dos requisitos
presença de branqueadores ópticos no papel especificados. Os defeitos serão normalmente
e o efeito da luz ultravioleta em combinação agrupados nas subclasses de defeito: crítico,
com eles. As condições de visualização grave e tolerável.
padronizadas permitem maior precisão na
interpretação das cores e maior
Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 2
107
3

 Classificação de unidades definem padrões e tolerâncias para o


defeituosas - Unidades que contêm um ou processo de produção gráfica em diversas
mais defeitos. Classificam-se normalmente áreas e divide-se em sete partes: parâmetros
como defeituosa crítica, defeituosa grave e de processo e métodos de ensaio; ISO 12647-
defeituosa tolerável. 2 Impressão em offset; ISO 12647-3
Impressão coldset offset jornal; ISO 12647-4
 Não-conformidade - É expressa em
Rotogravura editorial; ISO 12647-5 Impressão
termos de “porcentagem defeituosa” ou em
em serigrafia; ISO 12647-6 Impressão em
termos de “defeitos por cem unidades”.
flexografia; ISO 12647-7 Processo de prova
 Nível de qualidade aceitável – NQA - trabalhando diretamente com dados digitais.
Máxima porcentagem defeituosa (ou o
Essa norma pode ser usada para uma
máximo número de defeitos por cem
melhoria constante na produção gráfica,
unidades) que, para fins de inspeção por
definindo parâmetros e tolerâncias, possuindo
amostragem, pode ser considerada
valores colorimétricos, ganho de ponto,
satisfatória como média de um processo. O
equilíbrio de neutros sobre impressão e
NQA, juntamente com o código literal do
grupos de papel. Um de seus objetivos
tamanho da amostra, é usado para classificar
principais é padronizar parâmetros e
os planos de amostragem;
assegurar a similaridade da cor entre os
 Lote de inspeção - Conjunto de moldes usados e, ainda, padronizar o produto
unidades de produto a ser amostrado para final impresso. A norma ISO 12647 é vista
verificar conformidade com as exigências de como um selo de qualidade para a indústria
aceitação; gráfica e, quando corretamente, permite
afirmar que o produto final terá a cor
 Tamanho do lote - Número de adequada nas impressões, bem como
unidades de produto contido no lote. verificar se as especificações da norma foram
seguidas conforme as regras.
2.4 NORMA ISO 12647-TECNOLOGIA
GRÁFICA: CONTROLE DE PROCESSOS 2.5 CERTIFICAÇÃO FLORESTAL FSC-
PARA A SEPARAÇÃO DE CORES EM MEIO- FLOREST STEWARDSHIP COUNCIL
TOM, PROVA E IMPRESSÃO
O FSC-Forest Stewardship Council (Conselho
A norma ISO 12647 é específica para a de Manejo Florestal) é uma instituição não
indústria gráfica e contém parâmetros e governamental, internacional e independente.
tolerâncias utilizados para estabelecer pontos Foi fundada em 1994, com o objetivo de
de controle, desde a matéria-prima utilizada, incentivar o manejo adequado das florestas e
como papel e tinta, até processos gráficos, de acreditar certificadoras. Trata-se de uma
como pré-impressão e impressão. Representa organização formada por entidades florestais,
o reconhecimento dos papéis revestidos para associações da população indígena,
impressão offset plana e rotativa. Na corporações comunitárias, fabricantes e
certificação de processos da indústria gráfica, varejistas, organizações de certificação
a adoção de insumos em conformidade com florestal, representantes de instituições não
essa normal é extremamente importante para governamentais ambientais e sociais,
a aquisição dos resultados colorimétricos nas proprietários florestais, comerciantes de
áreas impressas (WIDMER, 2006). madeira, pequenos produtores (DA LUZ,
Essa norma auxilia as empresas gráficas nos 2010).
seus processos de produção a ter um Empresas que possuem uma certificação
controle desde a matéria-prima utilizada até a florestal apresentam um diferencial no
pré-impressão e impressão. Apresenta mercado, por estabelecerem uma ligação
eficiência no seu processo devido às suas com a produtividade e a diminuição dos
especificações técnicas e regras utilizadas no impactos ambientais negativos. Nessa
desenvolvimento do produto, possibilitando perspectiva, um novo conceito surgiu através
que o cliente receba um produto muito da com a introdução do aspecto ambiental
próximo do desejado e que apresente uma nos negócios: uma gestão que reflete as
padronização normalizada (COPETTI, 2010). exigências de setores que passaram a
A norma ISO 12647 é formada por um requisitar produtos ambientalmente
conjunto de especificações técnicas que sustentáveis.

Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 2


108
3

Pode-se afirmar que a imagem de uma Segundo eles, algumas das principais
organização certificada é bem vista por vantagens da certificação florestal foram:
consumidores, fornecedores e acionistas, que comprometimento social, melhor imagem da
preferem investir em empresas com o selo empresa, aumento de clientes e melhorias na
florestal. As certificações como a FSC-Forest satisfação dos colaboradores. O estudo
Stewardship Council tornaram-se, então, uma também indicou que a certificação florestal
tática no ramo do comércio, uma exigência reforçou a discussão de assuntos
para o estabelecimento de negócios. Apesar relacionados com a gestão dos planos de
de ser uma atividade recente, apresenta manejo florestal, a implementação de
vantagem não apenas com a imagem, mas programas de inventário florestal, o
também com o uso racional de recursos estabelecimento de sistemas de informação
naturais, de modo ambiental, social e geográfica, o monitoramento e o uso
economicamente viável. Portanto a adequado de produtos químico. Além disso,
certificação voluntária é sinônimo de indicou que os principais desafios para a
estratégia de negócios, principalmente certificaçao FSC foram: os custos com as
quando o mercado alvo exige uma auditorias, o tempo destinado à preparação
consciência sustentável por parte da empresa da documentação e a manutenção de
(PAIVA et al., 2015). registros e os custos adicionais para o manejo
florestal.
A certificação florestal é, de fato, um processo
que tem por objetivo colaborar para o uso Cabe ressaltar que, no Brasil, existem dois
sustentável dos recursos naturais por meio da tipos de certificação florestal: o FSC, citado
promoção do bom manejo florestal, anteriormente, e o CerFlor, criado pela SBS-
representado como ambientalmente Sociedade Brasileira de Silvicultura, cujo
consciente, voltado para o bem-estar da órgão acreditador é o Inmetro- Instituto
sociedade e economicamente exequível, ou Nacional de Metrologia, Normalização e
seja, não é um processo utópico ou com Qualidade Industrial. Internacionalmente, o
benefícios apenas para um dos parceiros do CerFlor é conhecido como PEFC-Programme
negócio (MOORE, 2012). for the Endorsement of Forest Certification
Schemes, sendo que muitas vezes é
De acordo com Baharuddin e Simula (1994), a
encontrado sob a sigla CerFlor/PEFC.
certificação florestal é um processo que
resulta em um documento escrito, emitido por De acordo com o IPEF-Instituto de Pesquisas
uma organização independente, atestando e Estudos Florestais, o processo de
que o manejo florestal de uma unidade está certificação florestal pode ser dividido em 10
em conformidade com padrões etapas, a saber: seleção e contato com uma
predeterminados. organização certificadora (empresa ou
organismo credenciado pelo sistema de
Para os autores Pereira e Vlosky (2006), a
certificação florestal); efetuação de uma pré-
certificação florestal atesta aos consumidores
avaliação do negócio (é uma ação
que o produto proveniente da floresta (por
recomendada, porém é opcional); execução
exemplo, a madeira) atende a requisitos como
de consulta pública; realização de auditoria
responsabilidade ambiental, respeito à
para avaliação de certificação florestal que a
legislação local, benefícios sociais e
empresa pretende se candidatar;
viabilidade econômica, sustentando, assim, o
cumprimento de pré-condições para
manejo florestal.
certificação florestal (quando aplicável);
Moore, Cubbage e Eicheldinger (2012) elaboração e revisão externa do relatório de
realizaram uma pesquisa na América do Norte auditoria de avaliação; assinatura do contrato
com 98 organizações no ano de 2007, na qual de certificação florestal pelos envolvidos;
foi mostrado que em média são realizadas de disponibilização e divulgação do resumo
12 a 14 mudanças nas práticas florestal, público da auditoria de avaliação; produção
ambiental, social e econômica para obter ou da auditoria de monitoramento anual da
manter a floresta certificação. Os autores certificação, quando é verificada a
destacam que as empresas foram positivas manutenção ou não do certificado;
em relação aos méritos da certificação disponibilização e divulgação anual dos
florestal e que a implantação resultou em resumos públicos com os dados das
muitas mudanças positivas nas práticas auditorias de monitoramento da certificação
florestais das organizações. (IPEF, 2017).

Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 2


109
3

Segundo o FSC-BRASIL (2017b), há duas tratados internacionais e os tratados firmados


modalidades de certificações que são por esta Nação e respeitar a todos os
implementadas pelos órgãos credenciados Princípios e Critérios do FSC.
pelo FSC:
 Responsabilidades e Direitos de
 Certificação do Manejo Florestal: posse e Uso da Terra: as permissões de
quando são certificadas as operações de domínio e utilização de longo prazo referentes
manejo florestal que atendem a Princípios e à terra e aos meios florestais necessitam de
Critérios do FSC. Conforme explicitado pelas uma determinação transparente,
normas brasileiras NBR 14789-Manejo documentadas e legalmente assinadas.
Florestal e NBR 15789-Manejo Florestal-
 Direitos dos Povos Indígenas: os
Princípios, Critérios e Indicadores para
direitos legais e formados pelo costume dos
Florestas Nativas, o manejo florestal pode ser
variados grupos indígenas de dispor, explorar
definido com um processo de administração
e manusear seus territórios e diversos
da floresta para conseguir produtos e
recursos naturais necessitam de
serviços, levando-se em consideração os
reconhecimentos e devem ser integralmente
aspectos ambientais e sociais que promovam
respeitados.
e asseguram o mecanismo de sustentação do
ecossistema em questão. Exemplos de  Relações com a Comunidade e
manejo florestal são o plantio, a adubação, o Direitos dos Trabalhadores: as práticas de
combate a pragas e doenças, a colheita. manejo florestal têm a necessidade de
preservar ou aprimorar o bem-estar financeiro
 Certificação de Cadeia de Custódia:
e comunitário de longo prazo dos
quando são certificados os produtos florestais
trabalhadores florestais e das comunidades
pelo uso do “selo verde”, com a inspeção de
locais do entorno.
toda a cadeia produtiva, tendo-se a garantia
de que toda a matéria-prima utilizada teve sua  Benefícios da Floresta: os
origem em florestas certificadas (NARDELLI; procedimentos de planejamento florestal
TOMÉ, 2002). Cabe salientar que, muitas devem estimular o uso eficiente dos variados
vezes, o produto florestal originado numa produtos e serviços da floresta para certificar
unidade de manejo certificada é transportado a viabilidade econômica e um amplo conjunto
e processado por diferentes organizações até de benefícios ambientais e sociais.
chegar ao consumidor final. O esquema de
 Impactos Ambientais: o manejo
certificação de Cadeia de Custódia FSC não
é, assim, um esquema que garanta a gestão florestal deve preservar a diversidade
ecológica e seus valores associados, os
sustentável dos produtos. A proposta do FSC
é garantir que os produtos produzidos pelo recursos hídricos, os solos e os ecossistemas
e paisagens frágeis e singulares e, dessa
manejo florestal certificado mantenham os três
pilares: devem ser ambientalmente maneira, atuar nas funções ecológicas e na
integridade da floresta.
adequados, socialmente benéficos e
economicamente viáveis. Segundo a norma  Plano de Manejo: o plano de manejo
brasileira NBR 14791, cadeias de custódia deve ser adequado à escala e à intensidade
consistem em todas as alterações na custódia dos procedimentos a serem realizados, assim
de produtos que possuem como base como deve ser rigorosamente firmado,
matéria prima de origem florestal e derivados implementado e continuamente atualizado. Os
durante a colheita, transporte, manufatura e objetivos posteriores do manejo florestal e os
cadeia de distribuição, desde a floresta até a recursos para atingi-los devem ser claramente
utilização final. definidos.
O principal propósito do FSC Brasil (Conselho  Estimativa e Avaliação: o
Brasileiro de Manejo Florestal) é a monitoramento deve ser acompanhado para
disseminação e a simplificação do devido que aconteçam as avaliações referentes à
manejo florestal brasileiro, empregando situação da floresta, o desempenho dos
princípios e critérios previamente definidos. A produtos florestais, a cadeia de custódia, as
certificação FSC segue 10 princípios, práticas de manejo e seus impactos
descritos a seguir (FSC-BRASIL, 2017b). ambientais e sociais.
 Respeito às Leis e aos Princípios do  Manutenção de Florestas de Alto
FSC: o planejamento florestal deve exercer a Valor de Conservação: as atividades diversas
legislação relevante completa do País, os em manejo de florestas de grande valor de
Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 2
110
3

conservação devem manter ou ampliar os certificações), seguido da Rússia (44,79


atributos que definem essas florestas. milhões de hectares e com 146 certificações),
Decisões relacionadas a florestas de alto valor Suécia (12,12 milhões de hectares e com 24
de preservação devem sempre ser certificações) e da Bielorrússia (8,10 milhões
consideradas no contexto de uma abordagem de hectares e com 58 certificações). Os
predatória. dados estão disponíveis no relatório FSC
Facts & Figures, publicados mensalmente
 Plantações na Floresta: devem ser
pela FSC (FSC-BRASIL, 2017a).
planejadas e manejadas de acordo com os
Princípios e Critérios de 1 a 9 e o Princípio 10 Existem três tipos de selo FSC que os
e seus Critérios. produtos podem ter: produto FSC puro
(confeccionado única e exclusivamente com
Considerando-se que as plantações podem
madeira comprovadamente certificada);
proporcionar um leque de benefícios sociais e
produto FSC reciclado (fabricado somente
econômicos e contribuir para satisfazer as
com matéria-prima reciclada ou recuperada
necessidades globais por produtos florestais,
após o consumo) e produto FSC misto
recomenda-se que elas complementem o
(manufaturado parcialmente com madeira
manejo, diminuam as pressões e promovam a
certificada e com madeira não certificada, de
restauração e a conservação das florestas
origem controlada). Cabe ressaltar que a
naturais (FSC-BRASIL, 2017b).
madeira de origem controlada, de acordo
A instituição FSC não emite certificados, mas com o FSC, é a madeira derivada de área
garante que aqueles emitidos pelas onde não houve desrespeito dos direitos civis
certificadoras obedeçam a padrões de dos envolvidos; não provem de floresta de
qualidade. O certificado FSC tem validade de alto valor para conservação ou de exploração
cinco anos, de acordo com seus contratos, ilegal e que não sejam provenientes de
porém anualmente são realizadas auditorias árvores geneticamente modificadas (IPEF,
de monitoramento para acompanhamento do 2017).
manejo e das não conformidades em
andamento e as suas correções. Assim, são
gerados relatórios das auditorias principais (a 2.6 FERRAMENTAS DA QUALIDADE
cada cinco anos) e de monitoramento
Conforme Lucinda (2010) as organizações
(anualmente). Segundo o FSC (2017), o Brasil
utilizam as ferramentas da qualidade para
possui atualmente 7.107.919 milhões de
auxiliar o entendimento de uma situação
hectares certificados na modalidade de
problemática, para proporcionar um método
manejo florestal e envolve 116 operações de
eficaz de abordagem, para disciplinar o
manejo, entre áreas de florestas nativas e
trabalho e também para aumentar a
plantadas. O País ocupa o 7º lugar no ranking
produtividade dos processos. Inúmeras
total do sistema FSC. Na modalidade de
ferramentas da qualidade utilizam diversos
cadeia de custódia, o Brasil conta com
tipos de gráficos com o propósito de mostrar
aproximadamente 1029 certificados.
claramente o que se pretende analisar e ou
Analisando-se a América Latina e o Caribe,
solucionar.
registram-se 148 no Chile, 116 na Argentina,
39 no Peru e 30 na Colômbia. Nos demais Segundo Mezomo (1995) as ferramentas da
países, a quantidade é menor que 21. O total qualidade podem ser divididas em
é de 1.477. estratégicas e estatísticas. As ferramentas
estratégicas são compostas por instrumentos
Na Europa, há 2.343 certificados no Reino
para criar ideias, classificar fenômenos ou
Unido, 2.219 na Alemanha e 2.169 na Itália,
dados, determinar prioridades, avaliar causas
totalizando 17.341 em todo o continente. Na
e entender os diferentes processos envolvidos
América do Norte, o total é de 3.559; na
na produção de bens ou serviços. Já as
Oceania, 422; na África, 198 e na Ásia, 9.805.
ferramentas estatísticas medem o
Avaliando-se a quantidade da certificação do
desempenho exibindo dados de distintas
manejo florestal, existem mais de 7,11 milhões
formas com o propósito de identificar
de hectares certificados e cerca de 116
evidências para a tomada de decisão. Cabe
certificações combinadas de manejo florestal
salientar que o foco é a melhoria contínua da
com cadeia de custódia no Brasil, que ocupa
qualidade. As ferramentas básicas da
a quinta colocação mundial entre os países
qualidade estão representadas pelo
certificados. A primeira posição é do Canadá
Fluxograma, Lista de Verificação, Histograma,
(54,81 milhões de hectares e com 66
Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 2
111
3

Diagrama de Pareto, Diagrama de Causa e (CRESWELL, 1994), em que se empregou o


Efeito, Carta de Controle e Gráfico de método do estudo de caso como
Dispersão. procedimento de coleta de dados (BRYMAN,
1989).
Conforme Carvalho e Paladini (2012) as
ferramentas da qualidade que podem ser Yin (2013) argumenta que o estudo de caso e
adotadas nos programas de qualidade são: os experimentos podem ser generalizáveis em
CEP-Controle Estatístico do Processo, o Ciclo termos de proposições teóricas e não para
PDCA (Planejar, Executar, Checar e Agir) o populações ou universos. Afirma também que
Diagrama de Causa e Efeito, o DMAIC a pesquisa de estudo de caso deve atender à
(Definir, Medir, Analisar, Melhorar e Controlar), lógica da replicação e não da simples
dentre outras. amostragem.
Uma ferramenta que pode ser utilizada para Nesse prisma, o foco desta pesquisa é a
analisar as falhas dos processos é o FMEA análise de programas de qualidade em uma
(Análise de Modos e Efeito de Falhas), cujo empresa de médio porte, situada na cidade
objetivo é identificar, delimitar e descrever as de São Paulo,/SP, que atua no setor gráfico. A
possíveis não-conformidades (defeitos) de um organização possui cerca de 70 funcionários
processo, seus efeitos e causas, e elaborar e todos os colaboradores são treinados para
um plano para diminuir ou mesmo eliminar os suas funções.
defeitos, utilizando ações de prevenção
Segundo o Relatório de Maio de 2017, da
estruturadas (RODRIGUES, 2010).
Associação Brasileira da Indústria Gráfica
(ABIGRAF NACIONAL, 2017), os principais
números da indústria gráfica brasileira são os
3. METODOLOGIA
indicados na Tabela 1:
O suporte empírico do presente trabalho foi
obtido por meio da pesquisa qualitativa

Tabela 1 - Principais números da indústria gráfica brasileira


Indústria gráfica brasileira em 2016 Quantidade % versus ano
de 2015
Exportação US$293,3 milhões (FOB) 8%
Importação US$257 milhões (FOB) -32%
Saldo comercial US$36,3 milhões (FOB) 134%
Importação de máquinas e equipamentos US$514 milhões (FOB) -26%
Número de empregados diretos 188.892 aproximadamente -5%
Quantidade de empresas gráficas 19.999 -2%
Participação do valor adicionado da indústria gráfica sobre o PIB 0,3%
Participação do valor adicionado da indústria gráfica sobre o PIB da 2,8%
indústria de transformação
Fonte: ABIGRAF NACIONAL-Números da indústria gráfica brasileira (2017).

Analisando-se a Tabela 1, verifica-se que o com o transporte da mercadoria, assim que


setor é representativo para o Brasil, apesar da ela é colocada a bordo do navio.
diminuição no número de empregos e de
Um aspecto importante da Tabela 2 é o valor
empresas. Cabe salientar que os valores
das exportações do setor no ano base de
indicados em dólares FOB (Free on board)
2016. Nela, verificam-se os principais destinos
representam um tipo de frete em que o
de exportação da indústria gráfica brasileira:
comprador assume todos os riscos e custos

Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 2


112
3

Tabela 2 - Principais destinos da exportação da indústria gráfica brasileira


País US$ Milhões Peso-Tonelada Preço Médio Participação (%)
Estados Unidos 40,8 20,1 2,0 14
Uruguai 27,4 14,8 1,8 9
Peru 26,5 10,2 2,6 9
México 21,3 9,9 2,1 7
Argentina 19,5 6,6 3,0 7
Bolívia 17,9 6,2 2,9 6
Chile 17,5 2,1 8,3 6
Colômbia 15,4 2,3 6,6 5
Paraguai 13,0 7,8 1,7 4
Venezuela 10,8 2,2 5,0 4
Outros 83,3 31,3 2,7 28
Total 293,3 113,6 2,6 100%
Fonte: ABIGRAF NACIONAL-Números da indústria gráfica brasileira (2017).

Constata-se que o setor gráfico brasileiro teve Na Tabela 3, apresenta-se a participação dos
como seus maiores compradores os países segmentos da indústria:
da América Latina (Uruguai, Peru, Argentina,
Bolívia e outros em menor escala), totalizando
(58%) e os Estados Unidos (14%).

Tabela 3 - Participação dos segmentos da indústria


Segmentos da indústria gráfica brasileira em 2016 Participação (%)
Embalagens 42,7
Publicações (livros revistas, manuais e guias) 26,1
Impressos promocionais 9,7
Impressos de segurança / fiscais / formulários 6,7
Etiquetas 4,9
Cadernos 3,2
Pré-impressão 3,2
Cartões 2,9
Envelopes 0,5
Fonte: ABIGRAF NACIONAL-Números da indústria gráfica brasileira (2017).

Avaliando-se a Tabela 3, observa-se que os Na Tabela 4, revela-se a abrangência da


segmentos de embalagens e publicações indústria gráfica no território brasileiro:
somados representam 68,8%, ou seja,
representam a maioria dos segmentos da
indústria gráfica.
Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 2
113

Tabela 4 - abrangência da indústria gráfica no território brasileiro


Região Número de empresas Número de empregos
Sudeste 9.464 118.434
Sul 4.642 41.773
Nordeste 3.350 22.929
Norte 782 5.285
Fonte: ABIGRAF NACIONAL-Números da indústria gráfica brasileira (2017).

Verifica-se que as regiões Sudeste e Sul (grande quantidade de treinamentos técnicos,


somadas representam, aproximadamente, entre outros investimentos) e as dificuldades
85% dos empregos no setor gráfico no Brasil relativas a fatores humanos, como o pouco
e também possuem mais de 77% da conhecimento em métodos quantitativos dos
quantidade de companhias do mesmo setor. colaboradores quando da aplicação das
Portanto, a maior concentração de empresas ferramentas e técnicas estatísticas nos
do setor gráfico está nas regiões sudeste e projetos.
sul.
P3) A implantação das certificações ISO 9001
Para a realização deste estudo, elaborou-se e FSC acarretaram benefícios financeiros para
um instrumento de pesquisa composto de 10 a empresa gráfica do estudo de caso.
perguntas específicas sobre os programas de
qualidade, o qual foi aplicado na instituição
pesquisada, por meio de entrevista com o 4. RESULTADOS
responsável do setor de Qualidade e
Em relação ao envolvimento da alta direção
Segurança no Trabalho no primeiro semestre
da empresa na implantação dos programas
do ano de 2017.
de certificação, todas as respostas foram de
A seleção do caso foi realizada em pesquisas “alto grau” de engajamento.
na Internet, que propiciou o levantamento de
Analisando-se as empresas durante a
potenciais organizações para a análise.
implantação dos programas de qualidade ISO
Posteriormente, a empresa selecionada foi
9001, as principais dificuldades encontradas
contatada para a verificação de dois pontos
foram: confecção e atualização de
principais: se possuía pelo menos duas
documentos para a metodologia; utilização de
certificações de qualidade e se gostaria de
consultoria para auxiliar o processo de
participar da pesquisa.
implantação dos programas de qualidade;
Na análise dos dados, enfoca-se, disponibilidade de colaboradores na empresa
principalmente, os motivos que levaram a para auxiliar a implantação e para as
organização a implantar as certificações, as atividades dos programas e gerenciamento
dificuldades que enfrentou no processo e os de projetos.
resultados obtidos, investigando-se as
A implantação da FSC deu início à reciclagem
convergências ou divergências existentes na
de produtos e tratamento de efluentes, além
adoção de práticas empresariais à luz da
da conscientização dos funcionários sobre o
literatura sobre o tema.
princípio dos 3Rs (Reduzir, Reutilizar e
As proposições centrais desta pesquisa são: Reciclar). Os outros programas de qualidade
reduziram os custos operacionais e as
P1) O conjunto de ferramentas básicas da
sucatas, além de economizarem luz e água. A
qualidade utilizado na empresa pesquisada
empresa também criou um projeto de
para as certificações ISO 9001 e FSC é
captação e reutilização da água da chuva.
composto de Diagrama de Causa-Efeito,
Histograma, Diagrama de Pareto e Ciclo Os motivos para obter todas as certificações
PDCA. foram utilizá-las como ferramenta de
marketing e para alinhar as estratégias de
P2) As principais dificuldades na implantação
negócio. Outra motivação para a implantação
das certificações são o alto custo financeiro

Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 2


114
3

da ISO 9001 e da FSC foi a exigência dos Execução, Controle e Análise) e DMAIC
clientes. (Definir, Medir, Analisar, Melhorar e Controlar).
Isso indica que a gráfica analisada adota
Foram utilizadas várias ferramentas de
ferramentas da qualidade consideradas de
qualidade, desde simples, como histograma,
nível médio de complexidade.
PDCA (Planejamento, Execução, Controle e
Análise), Box Plot (também denominado de Analisando-se o pressuposto P2 (“As
gráfico de caixa é um gráfico utilizado para principais dificuldades na implantação das
avaliar a distribuição empírica dos dados) e certificações são o alto custo financeiro
5S (senso de utilização, organização, limpeza, (grande quantidade de treinamentos técnicos,
padronização e disciplina), como também as entre outros investimentos) e as dificuldades
complexas, como, por exemplo, Teste de relativas a fatores humanos, como o pouco
Hipóteses e Diagrama de Causa-Efeito. conhecimento em métodos quantitativos dos
colaboradores quando da aplicação das
A empresa investiu na implantação das
ferramentas e técnicas estatísticas nos
certificações de 10 a 50 mil reais. Conclui-se
projetos”), conclui-se que este é falso, pois as
que os ganhos financeiros foram maiores que
principais dificuldades encontradas na
o investimento, conforme indicado pela
implantação das certificações foram
organização, então houve lucro na
confecção e atualização de documentos para
implantação das certificações.
a metodologia; disponibilidade de
A FSC alcançou boa satisfação dos clientes colaboradores na empresa para auxiliar a
internos e externos, e maior produtividade, implantação e para as atividades dos
mas não alcançou os ganhos financeiros e a programas e gerenciamento de projetos.
participação no mercado planejada.
Em relação ao pressuposto P3 (“A
Para o futuro, em virtude dos benefícios implantação das certificações ISO 9001 e FSC
trazidos à empresa, as perspectivas são de acarretaram benefícios financeiros para a
ampliação e estabilização para as normas empresa gráfica do estudo de caso”), conclui-
implantadas. Além disso, acredita-se que até se que também é falso, pois a implantação
2018 a ISO 14001 (gestão ambiental) também das certificações acarretou benefícios
esteja implantada. financeiros, porém para a FSC os ganhos
foram semelhantes aos valores investidos.
O presente estudo apresenta as limitações
5. CONCLUSÃO
inerentes ao método de pesquisa adotado,
Nesta pesquisa, analisou-se o caso de uma isto é, os resultados obtidos não devem ser
empresa gráfica que possui um sistema de generalizados, porém acredita-se que eles
gestão da qualidade baseado nas possam contribuir para um melhor
certificações ISO 9001 (gestão da qualidade), entendimento dos fatores que exercem
FSC (certificação florestal) e outras influências nos programas de certificações
específicas do setor gráfico. como a norma ISO 9001 e a certificação
florestal FSC adotadas nas empresas.
Considerando-se o pressuposto P1 (“O
conjunto de ferramentas básicas da qualidade No trabalho, apenas uma empresa foi
utilizado na empresa pesquisada para as considerada. Pesquisas futuras podem
certificações ISO 9001 e FSC é composto de replicar a análise em outras organizações,
Diagrama de Causa-Efeito, Histograma, para comparar resultados. Outro futuro projeto
Diagrama de Pareto e Ciclo PDCA”), conclui- pode ser a aplicação da atual metodologia em
se que este é considerado como verdadeiro, empresas de outros países, como Argentina e
pois a empresa utilizou todas as ferramentas Chile, objetivando-se a comparação entre
citadas, embora também tenha usado outras organizações sul-americanas, ou, ainda, em
como FMEA (Análise do Modo e Efeito da empresas portuguesas e brasileiras, que
Falha), CEP (Controle Estatístico do adotam a língua portuguesa.
Processo), Box Plot, PDCA (Planejamento,

Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 2


115
3

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[26] RODRIGUES, M. V. Ações para a
qualidade: gestão estratégica e integrada

Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 2


117
3

Capítulo 9

Andréia Rezende da Costa Nascimento


Fernando de Souza Muniz
Josiane de Brito Gomes
Josi Bolson
Anderson Cavalcanti de Almeida
embro 2017
Resumo: O objetivo da pesquisa foi levantar os aspectos e impactos ambientais,
em uma empresa de reciclagem, e propor um plano de gestão ambiental. A coleta
de dados procedeu-se por meio de observação in loco e entrevista ao gestor da
empresa. Os resultados denotaram que, as atividades desenvolvidas pela indústria
possuem potencial de contaminação das águas superficiais e subterrâneas, da
atmosfera e do solo, no entanto, por meio da execução do plano de gestão
ambiental é possível mitigá-los sem haver redução da produção e ainda, contribuir
com à minimização dos desperdícios de matéria-prima e insumos e a eliminação de
risco de passivo ambiental e despesas dele decorrentes.

Palavras – chave: gestão, meio ambiente, competitividade.

Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 2


118
3

1. INTRODUÇÃO do empreendimento, à melhoria de sua


imagem e da competitividade de mercado.
Motivadas pelas profundas mudanças na
conjuntura sócia econômica, as empresas
procuram cada vez mais fortalecer a imagem,
2. REVISÃO BIBLIOGRÁFICA
obter a confiança de novos e antigos clientes,
adequando-se diariamente às demandas 2.1 NORMA ISO 14001 E O PLANO DE
sociais e econômicas, pois são pressionadas GESTÃO AMBIENTAL
a alterar seus sistemas internos de gestão e,
A ISO – Organização Internacional para
consequentemente, seus processos de
Padronização é uma organização não
produção, no sentido de reduzir custos e
governamental formada por entidades de
adequar seus produtos às condições e
normalização de aproximadamente 164
necessidades do mercado. Neste aspecto o
países. no Brasil, o órgão que representa a
Sistema de Gestão Ambiental (SGA) vem
ISO é a Associação Brasileira de Normas
atraindo a atenção dos gestores, que o adota
Técnicas (ABNT). A ISO 14001 trata de
como forma de diferencial perante a
Sistemas de gestão ambiental — Requisitos
concorrência (GRAEL, OLIVEIRA, 2009).
com orientações para uso. O objetivo desta
Observa-se que, nos últimos tempos, a norma é fornecer às organizações uma
preocupação ambiental é constante, as estrutura para a proteção do meio ambiente.
empresas esbarram em uma sociedade Esta norma especifica os requisitos que
midiática, que cobra delas uma postura mais permitem que uma organização alcance os
responsável e humana com relação ao uso resultados pretendidos e definidos para seu
dos recursos naturais. Essa cobrança sistema de gestão ambiental (NBR ISO
aumenta gradativamente à medida que os 14001:2015).
recursos diminuem. Se antes a gestão
A respeito do Sistema de Gestão Ambiental
ambiental era para as grandes empresas,
(SGA) este pode ser mais simples ou mais
agora essa exigência se estende para
complexo, dependendo do objetivo da
grandes e pequenas empresas que visam o
empresa e da possibilidade de alocação de
crescimento (SERVIÇO NACIONAL DE
recursos – humanos financeiros e de tempo.
APRENDIZAGEM INDUSTRIAL-SENAI, 2014).
Sendo que, o modelo de SGA mais utilizado
Nesse contexto a implantação de um Sistema
mundialmente é aquele que atende à norma
de Gestão Ambiental (SGA) pode auferir bons
ISO 14.001, é um instrumento importante que
resultados para as empresas.
pode auxiliar na implantação e na
O SGA é um conjunto de requisitos, políticas, manutenção da gestão ambiental na empresa,
práticas, envolvendo setor administrativo e mesmo que o empreendedor não tenha a
operacional, interno e externo, para melhorar intenção de certificá-lo (SENAI, 2014).
o desempenho ambiental, possibilitando a
Por outro lado, o Programa de Gestão
realização de processos sustentáveis e a
ambiental deve estabelecer os objetivos,
redução dos custos de produção a partir da
ações, atividades implementadas, metas a
melhor utilização dos recursos naturais e da
alcançar em determinado período, as
aplicação dos conceitos de produção mais
responsabilidades institucionais, e as
limpa (TERA, 2014). A implantação desse
medidas de monitoramento e avaliação, e
sistema se baseia em normas Internacionais
assim incluir os indicadores do Ministério de
regulamentadoras, no caso do SGA, tem-se a
Meio Ambiente, uma vez que os efeitos da
Norma ISO 14001.
atividade sobre o meio ambiente tornam-se
Diante do exposto a pesquisa objetivou perceptíveis porque há uma definição clara
propor um Programa de Gestão Ambiental à sobre: O que fazer? Como fazer? Para que
uma Indústria e Comércio de Resíduos fazer? Quando fazer? Onde fazer? Quem deve
Orgânicos, localizada no município de Juína - fazer? (SENAI, 2013; MMA, 2017).
MT. Uma vez que, a empresa está propensa a
causar impactos ambientais e problemas de
improdutividade. Neste aspecto o PGA pode 2.1.1 REQUISITOS LEGAIS E OUTROS
ser visto como um aliado indispensável na
As empresas com atividades industriais,
busca por melhores resultados. Além do que,
comerciais, alimentícios envolvem setores que
a implantação do plano de gestão ambiental
impactam diretamente, e indiretamente. Neste
poderá cooperar com a conformidade legal
aspecto são apresentados requisitos legais e

Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 2


119
3

algumas resoluções do Conselho Nacional de 30/12/2013 - Publicação DOU, de


Meio Ambiente (CONAMA), que segundo 30/12/2013, pág. 153 - Altera a Resolução
Ministério de Meio Ambiente se conceitua da CONAMA nº 420/2009 (altera o prazo do
seguinte maneira: art. 8º, e acrescenta novo parágrafo)
O Conselho Nacional do Meio Ambiente - Essas resoluções são minoria de muitas que
CONAMA, é o órgão consultivo e existem, mas quando a empresa efetua
deliberativo do Sistema Nacional do Meio planejamento e tem como base a Lei, ela se
Ambiente-SISNAMA, foi instituído pela Lei encontra mais disposta, e tem uma confiança
6.938/81, que dispõe sobre a Política para realizar suas atividades.
Nacional do Meio Ambiente,
regulamentada pelo Decreto 99.274/90
(BRASIL, 1981). 3 . METODOLOGIA
A seguir serão apresentadas alguns 3.1 ÁREA DE ESTUDO, CARACTERIZAÇÃO
instrumentos legais, que informam sobre DO TIPO DE PESQUISA E INSTRUMENTOS
alguns aspectos da empresa, que quando DE COLETA
realizados corretamente, minimiza o grau de
A pesquisa foi desenvolvida na cidade de
severidade dos impactos, como aspectos de
Juína, região Noroeste do Estado de Mato
geração de efluentes líquidos, gasosos,
Grosso, localizada à aproximadamente 744
geração de resíduos sólidos, desmatamento,
km da Capital Cuiabá. Com população
e substâncias que acabam contaminando o
estimada para 2017 de 39.779 habitantes,
solo.:
Índice de desenvolvimento Humano Municipal
 Resolução CONAMA Nº 016/1984 - (IDHM) em 2010 de 0,716, o Produto Interno
"Dispõe sobre estudos das prováveis Bruto (PIB) em 2014 foi de R$ 19.9967,04. O
consequências dos desmatamentos na salário médio mensal em 2015, era de 2.0
Amazônia Legal" - Data da legislação: salários mínimos (INSTITUTO BRASILEIRO DE
18/12/1984 - Publicação Boletim de GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA - IBGE, 2017).
Serviço/MI, de 25/01/1985- A efetivação da pesquisa se deu no
 Resolução CONAMA Nº 313/2002 - empreendimento Santa Edwiges Indústria e
"Dispõe sobre o Inventário Nacional de Comércio de Resíduos Orgânicos de Juína
Resíduos Sólidos Industriais" - Data da Ltda., que iniciou suas atividades no ano de
legislação: 29/10/2002 - Publicação DOU 2013, com o nome fantasia de Reciclagem
nº 226, de 22/11/2002, pag. 85-91. Juína. Em 2017 contava com a ajuda de 23
colaboradores. A empresa tem como principal
 Resolução CONAMA Nº 430/2011 - setor, o industrial, e processa subprodutos de
"Dispõe sobre condições e padrões de origem animal, possui atividades voltadas
lançamento de efluentes, complementa e para a fabricação de farinha de carne e osso,
altera a Resolução no 357, de 17 de março farinha de sangue e sebo bovino. Sua
de 2005, do Conselho Nacional do Meio matéria-prima é fornecida por abatedouros e
Ambiente - CONAMA." - Data da frigoríficos do município e região. A
legislação: 13/05/2011 - Publicação DOU comercialização dos produtos destina-se à
nº 92, de 16/05/2011, pág. 89 indústria de rações, e o sebo para a indústria
de processamento de biodiesel e detergente.
 Resolução CONAMA Nº 436/2011 - " A partir disso observa-se que a empresa pode
Estabelece os limites máximos de emissão gerar impactos, e problemas de
de poluentes atmosféricos para fontes improdutividade.
fixas instaladas ou com pedido de licença
de instalação anteriores a 02 de janeiro de A pesquisa se caracteriza quanto ao tipo
2007." - Data da legislação: 22/12/2011 - como descritiva, com abordagem qualitativa,
Publicação de 26/12/2011, pág. 304-311 tendo como método o estudo de caso. As
pesquisas descritivas buscam investigar,
 Resolução CONAMA Nº 460/2013 - analisar, registrar e classificar os fatos ou
"Altera a Resolução CONAMA n. 420, de fenômenos sem a interferência do
28 de dezembro de 2009, que dispõe pesquisador (RICHARDSON et al., 2012). As
sobre critérios e valores orientadores de pesquisas qualitativas visam coletar
qualidade do solo quanto à presença de informações das opiniões, costumes, hábitos
substâncias químicas e dá outras e anseios dos entrevistados (MALHOTRA,
providências. " - Data da legislação:
Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 2
120
3

2010). Já o estudo de caso é uma unidade de forma a deixar claro, o responsável pela
análise, que pode ser um indivíduo ou uma execução, o local onde deverá sem
organização (STAKE, In DENZIN, LINCOLN, implementada a ação, como deverá ser
2001, p. 436). realizada a ação, a justificativa para a sua
implementação e o prazo de execução.
A fim de entender o material qualitativo,
utilizou-se a análise de conteúdo, que,
conforme Caregnato e Mutti (2006) objetiva a
4. APRESENTAÇÃO E ANÁLISE DOS
compreensão, descrição e análise,
RESULTADOS
construindo o conhecimento acerca do objeto
de estudo. A partir da observação in loco, 4.1 ATIVIDADES, ASPECTOS AMBIENTAIS E
bem como da entrevista com um dos SEUS RESPECTIVOS IMPACTOS
gestores, foram elaborados quadros, nos
O Quadro 1 apresenta as subatividades e os
moldes da norma brasileira ISO 14001, os
aspectos e impactos decorrentes das
quais evidenciam os objetivos, metas e
mesmas. A descrição detalhada de cada uma
indicadores para atenuar os impactos
será apresentada nos itens seguintes.
ambientais sendo que, para a efetivação de
cada meta foi designado um programa, de

Quadro 1 – Relação das subatividades e seus respectivos aspectos e impactos ambientais gerados
na Indústria Santa Edwiges.

Fonte: Dados da pesquisa

Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 2


121
3

4.1.1 COZIMENTO DE CARNES E OSSOS A higienização da indústria abrange vários


NOS DIGESTORES setores, principalmente no setor produtivo.
Neste procedimento ocorre a utilização de
Os aspectos das subatividades de processo
água quente, fria e produtos químicos para
de cozimento de despojos (carnes) e ossos
processo de higienização dos veículos
geram líquidos gordurosos e efluentes
(caminhões) que transportam a matéria prima
líquidos provenientes do aquecimento da
para remoção do sebo. O processo de
matéria-prima. Tal aquecimento acarreta a
higienização da indústria e caminhões gera
quebra das moléculas dos ácidos graxos, que
efluente líquido que pode causar impacto
se transformam em líquido gorduroso (sebo).
ambiental no corpo hídrico, devido a alta
A geração desses efluentes nas graxarias é carga orgânica, que eleva a Demanda
decorrente do processo cocção, a qual os Bioquímica de oxigênio (DBO) nos efluentes
fragmentos de tecidos animal e líquido líquidos. O lançamento destes efluentes no
aquoso caem no piso da indústria e corpo receptor resulta na contaminação
posteriormente, passam por processo de hídrica e desequilíbrio ecológico e ambiental.
higienização da área. Esses resíduos são
canalizados a uma caixa receptora. As
partículas, por serem tecido orgânico com 4.1.4 ENTREGA DE MATÉRIA PRIMA PELOS
sangue entre outros compostos, decorrentes FORNECEDORES
do processo de higienização dos caminhões
O fornecimento da matéria prima para
e veículos, geram grandes volumes de água
empresa é constante e no fluxo de transporte
consumida para limpeza do setor de
é comum uma demora a entrega, o que
produção.
aumenta a “idade da matéria prima”. Desde a
Essa água diluída na matéria orgânica e com geração até o processamento, por serem
temperaturas mais elevadas, em poucas altamente putrescíveis, os despojos de abate
horas da sua geração entram em com temperatura de ambiente entram em
decomposição tornando o local altamente decomposição, acidificação e cadaverina e
volátil. De acordo com Pacheco (2006), os emitem odores desagradáveis. Os impactos
compostos orgânicos são voláteis e ambientais decorrentes dessas ações são a
responsáveis pelas fortes concentrações de contaminação do ar local e das comunidades
odores desagradáveis, que geram impactos mais próximas, trazendo transtornos à
ambientais em largas proporções, comunidade.
dependendo da quantidade ocorrida.
4.1.2 PROCESSAMENTO DE SANGUE
4.1.5 PROCESSO DE COZIMENTO DE
No processamento de sangue ocorre a SANGUE, CARNES, OSSOS E SEBO
coagulação e cozimento do mesmo, emitindo
As emissões de substâncias na atmosfera
substâncias na atmosfera, e gerando resíduos
ocorrem devido ao armazenamento e
sólidos e efluentes líquidos no processo de
relativamente à “idade da matéria prima”, ou
coagulação. A geração de resíduos sólidos e
seja, à morosidade no processamento. No
até mesmo efluente líquido é proveniente do
processo de cozimento dos despojos de
cozimento da matéria prima que geram
abate, ossos e vísceras são emitidos odores
impactos ambientais de grandes proporções,
devido à intensidade e concentração de
se for descartado inadequadamente ao meio
substâncias odoríferas decorrente do
ambiente.
aquecimento da matéria prima, o que causa a
Os impactos decorrentes dessas ações quebras de diversas moléculas transformando
ocorrem devido a demora na condução do em substâncias gasosas.
produto que causa acidificação, iniciando sua
Esses processos geram grandes quantidades
decomposição, emitindo substâncias
de material particulado, odores, elementos
odoríferas e geração de efluentes líquidos
químicos e materiais corrosivos (nitrato, nitrito
juntos aos resíduos sólidos, podendo causar
e sais) entre outros que provocam danos ao
impactos ambientais.
meio ambiente. Essas emissões de gases e
efluentes corrosivos são provenientes do
cozimento em temperatura de 110 a 150 ºC
4.1.3 HIGIENIZAÇÃO INDUSTRIAL
num período de uma a três horas.

Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 2


122
3

Os efluentes corrosivos, por serem elementos O refeitório é utilizado para preparo de


potencialmente poluidores, causam grandes alimentos que são servidos no almoço e café
impactos ambientais. O seu descarte da manhã. Há uma preocupação com
contamina o solo e a vegetação existente no resíduos orgânicos compostos pelas sobras
local, devido às substâncias químicas nos de alimentos e também óleo de cozinha
materiais corrosivos que levam à perda das utilizado no processo de preparo de
características do solo e salinização. Além alimentos. Os impactos condizentes a esses
disso, há a emissão de gases provenientes fatores são a contaminação do solo e da
destes resíduos, o que contamina o ar das água. O óleo de cozinha, se descartado
comunidades próximas ao empreendimento inadequadamente pode atingir os recursos
trazendo transtornos à comunidade com hídricos, ocasionando a morte dos seres
fortes odores indesejáveis. vivos.
Os sanitários também geram aspectos
ambientais decorrentes da geração de
4.1.6 CALDEIRA
efluentes líquidos, com características de
A caldeira gera resíduos sólidos na esgoto doméstico. Tais resíduos podem
combustão da lenha e também a emissão de causar danos ao meio ambiente, devido o
material particulado na atmosfera. Os potencial poluidor que os efluentes líquidos
impactos ambientais causados pela ação da possuem. O seu descarte inadequado pode
queima da lenha são o aumento dos índices representar riscos biológicos e químicos ao
de desmatamento da floresta nativa e solo, água subterrânea, rios e também à
diminuição da flora e fauna. saúde humana.
A geração de vapor traz consequências ao
solo devido o processo de descarga de vapor
4.2 PROGRAMA DE GESTÃO AMBIENTAL
de alta temperatura alterando as
COMO FERRAMENTA DE MINIMIZAÇÃO
características do mesmo.
DOS IMPACTOS
Ao identificar quais as atividades e seus
4.1.7 ADMINISTRATIVOS respectivos aspectos e impactos, foram
propostas melhorias, através de objetivos,
No setor administrativo utiliza-se papel para o
metas e indicadores de desempenho
desenvolvimento das atividades de
ambiental. O Quadro 2 apresenta uma
transporte, controle administrativo, entre
proposta de Gestão Ambiental, apresentando
outros. A utilização desenfreada de papel
de forma sucinta, alguns passos a serem
causa impactos ambientais como
seguidos na sua implantação. As metas foram
desmatamento das florestas nativas, que
amplamente discutidas com o gestor, que
impacta no aumento do efeito estufa e no
acredita ser possível realizá-las, desde que
desequilíbrio da biodiversidade. Há ainda a
haja uma sensibilização dos colaboradores,
poluição terrestre resultando do descarte
sobre a importância de reduzir contaminações
inadequado dos resíduos sólidos.
e desperdícios.

Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 2


123
3

Quadro 2 – Objetivo, metas, e indicadores propostos para diminuir os impactos na Indústria Santa
Edwiges.

Fonte: Dados da pesquisa

Para a mensuração de geração dos impactos fornecedores utilizarem transporte refrigerado,


negativos adotou-se de forma sucinta, um a matéria prima chegará em bom estado, e
modelo de programa de gestão ambiental, sem ocasionar maiores inconvenientes
que tem o intuito de atingir os recursos ambientais e sociais.
necessários, que incluem pessoas,
Para minimizar o desperdício de papel,
habilidades, tecnologia, recursos financeiros e
aconselha-se adotar meios tecnológicos. E
assim por diante (SENAI, 2003). Neste
quando ocorrer de não serem mais
contexto o Quadro 3 apresenta, de forma
necessários esses documentos arquivados,
explicativa, quais as metas, por que, como,
os mesmos devem ser destinados
onde, e em quanto tempo serão realizadas. A
corretamente, reutilizando, reciclando ou até
partir dessas perguntas serão apresentadas
vendendo para indústrias de reciclagem
algumas sugestões adicionais para o alcance
obtendo ganho ambiental e econômico.
das metas. Quadro 3- Sugestão de Programa
de Gestão Ambiental para a Indústria Santa No caso dos banheiros, pode se utilizar a
Edwiges. água da chuva ou da estação de tratamento
para descarga, reduzindo o consumo de água
Para minimizar o tempo de entrega, pelo
na empresa.
fornecedor da matéria prima, a empresa
poderá adotar fornecedores que estejam num Quanto ao desperdício de alimentos no
raio de distância menor em relação a refeitório, é sugerido que se faça a
empresa, e tentar conscientizar que, se os
Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 2
124
3

compostagem dos mesmos, a qual poderá ser comercializada como adubo.


Quadro 3 – Plano de Ação

Fonte: Dados da pesquisa

5. CONSIDERAÇÕES FINAIS podem ser vistas como medidas a serem


adotadas pela empresa, na tentativa de
Ao analisar as atividades desempenhadas
otimizar um Sistema de Gestão Ambiental
nos setores produtivo e administrativo da
(SGA).
empresa, percebe-se que, mesmo sendo uma
empresa pequena, os impactos ambientais Dessa forma a pesquisa possibilitou o
gerados são grandes, pois o setor industrial levantamento de informações para a
lida com produtos que causam poluição no ar, elaboração de uma proposta de SGA, a qual
água e solo, e o administrativo com o versa sobre os impactos ambientais e as
desperdício de papel, entre outros. medidas para amenizá-los. Igualmente, a
pesquisa propiciou a disseminação de
Contudo, observa-se que, para melhorar as
informação gerencial, tanto para a indústria
questões ambientais, reduzir custos e
quanto para a ciência. Os resultados obtidos
maximizar os resultados a empresa poderá
evidenciam que é possível sim, manter a
implementar um Programa de Gestão
produtividade sem perder a responsabilidade
Ambiental, observando os pontos críticos,
ambiental.
fazendo diagnóstico e levantando possíveis
resultados de melhorias. Dessa foram, as
informações trazidas nos Quadros 02 e 03

Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 2


125
3

REFERÊNCIAS [08] Diagnóstico. Disponível em:


<https://www.significados.com.br/diagnostico/>
[01] ABNT. Normas da Série ISO 14000. NBR Acessado em 13 abr. 2017.
ISO 14001. 3ª ed. Rio de Janeiro: ABNT, 2015.
[09] CAREGNATO, R. C. A; MUTTI, R. Pesquisa
[02] BRASIL. Presidente da Republica. Casa qualitativa: análise de discurso versus análise de
Civil. Lei Nº 6981/1981 – “Dispõe sobre a Política conteúdo. Texto & Contexto Enfermagem,
do Meio Ambiente, seus fins e mecanismos de Florianópolis, v. 15, n. 4, p. 679-84, out./dez. 2006.
formulação e aplicação, e dá outras providencias”. Disponível em:
Data da legislação 31 outubro de 1981. Publicação <http://www.scielo.br/pdf/tce/v15n4/v15n4a17>.
do Diário Oficial [da] União de 2 de set. 1981. Acesso em 20 de Outubro de 2016.
Disponível em
<http://www.mma.gov.br/port/conama/legipesq.cfm [10] IBGE- Instituto Brasileiro de Geografia e
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abr. de 2017. https://cidades.ibge.gov.br/brasil/mt/juina/panoram
a. Acesso em 04/10/2017
[03] BRASIL. Resolução Nº 016 /1984.
Conselho Nacional do Meio Ambiente. (CONAMA) [11] MALHOTRA, N. K. Introdução a pesquisa
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sobre a implantação de Áreas de Relevante 2010.
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[12] MMA - Ministério de Meio Ambiente. Plano
18/12/1984 - Publicação Boletim de Serviço/MI, de
de Gestão Socioambiental 2017. Disponível em:
25 jan. 1985.
<http://www.mma.gov.br/informma/item/9170-
[04] BRASIL. Resolução Nº 313/2002. Conselho plano-de-gest%C3%A3o-socioambiental> Acesso
Nacional do Meio Ambiente. (CONAMA). "Dispõe em 12 abr. 2017.
sobre o Inventário Nacional de Resíduos Sólidos
[13] PACHECO, J. W. Guia técnico ambiental
Industriais" - Data da legislação: 29/10/2002 –
de graxarias, São Paulo: CETESB, 2006.
Publicação do Diário Oficial [da] União nº 226, de
22 nov. 2002, p. 85-91. [14] RICHARDSON, R. J.; Peres, J. A. de S.;
Vieira Wanderley, J.C.; Correia, L. M.; Peres, M. de
[05] BRASIL. Resolução Nº 430/2011. Conselho
H.de M. Pesquisa Social Métodos e Técnicas. 3ª
Nacional do Meio Ambiente (CONAMA). Dispõe
ed. Rev. Ampliada. São Paulo, 2012.
sobre condições e padrões de lançamento de
efluentes, complementa e altera a Resolução no [15] SENAI. Sistema de gestão ambiental e
357, de 17 de março de 2005, do Conselho produção mais limpa. UNIDO, UNEP, Centro
Nacional do Meio Ambiente - CONAMA." - Data da Nacional de Tecnologias Limpas. Porto Alegre –
legislação: 13/05/2011 – Publicação do Diário RS, p.43, 2003.
Oficial [da] União, nº 92, de 16 de mai. 2011, p. 89.
[16] ______. Gestão Ambiental: para Micro e
[06] BRASIL. Resolução Nº 436/2011.Conselho Pequenas Empresas: Cartilha empresarial do
Nacional do Meio Ambiente (CONAMA) SENAI / sistema FIRJAN. - 2. Ed. - Rio de Janeiro:
.Estabelece os limites máximos de emissão de 2014.
poluentes atmosféricos para fontes fixas instaladas
[17] STAKE, Robert E. The case study method
ou com pedido de licença de instalação anteriores
in social inquiry. In DENZIN, Norman K.;
a 02 de janeiro de 2007." - Data da legislação:
22/12/2011 - Publicação de 26 de dez. 2011, p. [18] LINCOLN, Yvonna S. The American
304 -311. tradition in qualitative research. Vol. II. Thousand
Oaks, California: Sage Publications. 2001.
[07] BRASIL. Resolução Nº 460/2013. Conselho
Nacional do Meio Ambiente (CONAMA) - "Altera a
Resolução CONAMA n. 420, de 28 de dezembro
de 2009, que dispõe sobre critérios e valores [19] TERA. Sistema de Gestão Ambiental
orientadores de qualidade do solo quanto à (SGA): o que é e qual sua importância? 08 out.
presença de substâncias químicas e dá outras 2014. Disponível em:
providências. " - Data da legislação: 30/12/2013 - <http://www.teraambiental.com.br/blog-da-tera-
Publicação Diário Oficial [da] União, de 30 de Dez. ambiental/sistema-de-gestao-ambiental-sga-o-que-
2013, p. 153. e-e-qual-e-a-sua-importancia> Acesso em 12 abr.
2017.

Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 2


126
3

Capítulo 10

Marcilene Feitosa Araújo


Laize Almeida de Oliveira
Norberto Ferreira Rocha

Resumo: O estudo teve como objetivo analisar quatro municípios do sudeste


paraense no que concerne ao cumprimento das exigências legais para a gestão de
resíduos sólidos urbanos e verificar os desafios enfrentados para adequação aos
princípios elencados na lei (PNRS/12.305/2010). Assim, as questões de pesquisa
que se buscou responder com este estudo foram: Q1: Os municípios do sudeste
paraense estão cumprindo as exigências legais no que concerne à gestão de
resíduos sólidos urbanos? Q2: Quais os desafios esses municípios têm enfrentado
para se adequar aos princípios elencados na PNRS (12.305/2010)? Estabeleceu-se
como proposições que: P1: Os municípios estudados não apresentam estrutura
para a adequação aos princípios elencados na Lei Federal 12.305/2010. P2: O
principal desafio para adequação dos municípios estudados é a falta de recursos
financeiros. P3: A implantação dos aterros sanitários e a manutenção do local são
consideradas um desafio para o gestor público. O estudo se caracteriza como de
abordagem qualitativa, sendo desenvolvido por meio de entrevista e observação in
loco. Como antecipação dos resultados destaca-se que o cumprimento às
exigências legais para a gestão de resíduos sólidos urbanos está longe de serem
alcançadas. Constatou-se ainda que, os municípios pesquisados não apresentam
estrutura financeira para manter um aterro sanitário.

Palavras – Chave: Gestão municipal. Resíduos Sólidos. Meio Ambiente. Lixões.

Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 2


127
3

1. INTRODUÇÃO Assim, o presente estudo teve como objetivo


analisar quatro municípios do sudeste
Segundo o relatório da Associação Brasileira
paraense no que concerne ao cumprimento
de Empresas de Limpeza Pública e Resíduos
das exigências legais para a gestão de
Especiais Abralpe (2015, p.18), no ano de
resíduos sólidos urbanos e verificar os
2015, o Brasil gerou 79,9 milhões de
desafios enfrentados para adequação aos
toneladas de resíduos sólidos urbanos (RSU),
princípios elencados na lei
já para o ano de 2016 houve uma queda no
(PNRS/12.305/2010).
montante gerado de 2%. No entanto, mesmo
com essa redução no montante gerado, 7 Sob esta ótica, o presente estudo se justifica
milhões de toneladas de resíduos não foram pela relevância da temática. Um dos
coletadas e, consequentemente, tiveram principais objetivos da Política Nacional de
destino impróprio em todo o país (ABRALPE, Resíduos Sólidos (PNRS) está a proteção à
2016, p.18). saúde pública e a qualidade do meio
ambiente. Sendo assim, considerando que o
O fator associado é o crescimento
problema com a gestão de resíduos sólidos e
desordenado das cidades e a falta de
seus impactos sobre o meio ambiente não é
políticas públicas eficiente. Isso pode
somente responsabilidade do poder público,
contribuir significativamente para o cenário
mas sim de todos da sociedade e tem o dever
atual de degradação do meio ambiente
de conhecer a realidade em que vive e
(MELLO; SEHNEM, 2016), em que os
assumir o compromisso de preservação da
municípios, em especial os de pequeno porte
vida no planeta.
não tem condições de se adequar e culmina
por destinar o lixo gerado em lixões a céu
aberto, realidade da maioria dos municípios
2. REVISÃO BIBLIOGRÁFICA
do país (BARBOSA et al, 2016; SILVA, SILVA
e DUARTE 2016). 2.1 GESTÃO PÚBLICA MUNICIPAL
Os lixões e aterros controlados são Com o advento da Constituição de 1988, os
caracterizados pela forma inadequada de municípios passaram a ter maior autonomia
descarte do lixo, estes não estão adequados na formulação de suas leis próprias, além da
(estrutura) para prevenir o meio ambiente prerrogativa de formular sua lei orgânica,
contra as consequências dessa prática, isso antes inexistente. Além disso, teve aumentada
porque não possuem o conjunto de sistemas a sua competência tributária e maior
e medidas necessários para proteção do meio participação na receita da União e do Estado.
ambiente e da saúde da população. Destarte, foram atribuídos aos municípios
encargos outrora de competência da União e
A destinação incorreta de resíduos sólidos
dos Estados, incompatíveis com o aumento
urbanos é uma realidade no país, somente no
da receita atribuída pelas reformas.
ano de 2016, 3.331 municípios brasileiros
enviaram para os lixões e os chamados A Administração Pública, de acordo com
aterros controlados mais de 29,7 milhões de Meirelles (2001, p.66), é definida:
toneladas de resíduos sem nenhum critério.
Em sentido lato, administrar é gerir
Diante do exposto, surgiu a motivação para a interesses, segundo a lei, a moral e a
presente pesquisa, norteada pelas seguintes finalidade dos bens entregues à guarda e
perguntas: conservação alheias. Se os bens e
interesses geridos são individuais, realiza-
Q1: Os municípios do sudeste paraense estão
se a administração particular; se são da
cumprindo as exigências legais no que
coletividade, realiza-se a administração
concerne à gestão de resíduos sólidos
pública. Administração pública, portanto, é
urbanos?
a gestão de bens e interesses qualificados
Q2: Quais os desafios esses municípios têm da comunidade, no âmbito federal,
enfrentado para se adequar aos princípios estadual ou municipal, segundo os
elencados na PNRS (12.305/2010)? Para preceitos do direito e da moral, visando o
responder as questões propostas, foi bem comum.
realizada uma pesquisa de abordagem
Entende-se que administrar é gerir interesses
qualitativa com prefeitos e secretários
estabelecidos não só de acordo com a lei,
municipais, além da técnica de observação in
mas também de acordo com a moral e a
loco.
finalidade dos bens a serem administrados,
Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 2
128
3

classificando estes bens em particulares ou serviços essenciais à população, como


públicos. Em relação à administração dos saúde, educação, segurança, transporte,
bens públicos, recomendam-se que ela vise o limpeza pública, recreação, dentre outras.
bem comum, respeitados os preceitos do
O art. 182 da Constituição Federal estabelece
direito e da moral.
que "a política de desenvolvimento urbano,
Para Duez (apud KOHAMA, 2008), executada pelo poder público municipal,
“administração é a atividade funcional conforme diretrizes gerais fixadas em lei têm
concreta do Estado que satisfaz as por objetivo ordenar o plano de
necessidades coletivas em forma direta, desenvolvimento das funções sociais da
contínua e permanente, e com sujeição ao cidade e garantir o bem-estar de seus
ordenamento jurídico vigente”. habitantes".
A administração de um município, entretanto, Em síntese, garantido pela Constituição
torna-se mais complexa, pois exige que, além Federal como entidade estatal, o município
de prestador de serviços públicos, por integra o sistema federativo nacional no seu
natureza concentrados predominantemente respectivo nível de governo, com autonomia
na zona urbana, o município seja também própria para gerir os assuntos de seu
agente promotor de desenvolvimento, para interesse. Além disso, é considerada pessoa
melhoria da qualidade de vida da população. jurídica de direito público interno pelo art. 41
do Código Civil Brasileiro.
Conforme o disposto no art. 30 da
Constituição Federal do Brasil, embora com No pacto federativo, o município é coparticipe
sua autonomia municipal vinculada aos do planejamento governamental brasileiro em
preceitos da Constituição, o Município possui consonância com outros entes
poderes, para: governamentais (União, Estados e Distrito
Federal) na implementação das políticas
a) legislar sobre assuntos de interesse
públicas individuais e/ou integradas,
local, como Código Tributário
indispensáveis ao bem-estar da sociedade.
Municipal, instituindo os tributos e
Nesse sentido, observando o regime de
estabelecendo suas próprias alíquotas;
cooperação, destaca-se a Política Nacional
b) legislar sobre assuntos relativos à sua de Resíduos Sólidos – PNRS (Lei nº
estrutura organizacional, territorial e 12.305/2010), em seu artigo 4º, que diz:
administrativa, além de regular os
A Política Nacional de Resíduos Sólidos
serviços básicos sob concessão ou
reúne o conjunto de princípios, objetivos,
permissão, como transporte coletivo,
instrumentos, diretrizes, metas e ações
coleta de lixo, fornecimento de água
adotadas pelo Governo Federal,
potável e,
isoladamente ou em regime de
c) manter os serviços essenciais de cooperação com Estados, Distrito Federal,
educação, nos níveis pré-escolar e Municípios ou particulares, com vistas à
ensino fundamental; saúde pública e gestão integrada e ao gerenciamento
cultura, obedecidas as diretrizes e ambientalmente adequado dos resíduos
parâmetros estabelecidos pela União e sólidos.
Estado.
Na gestão integrada/cooperativa desta
Portanto, a legislação confere ao município, política nacional, como competência
autonomia administrativa para organizar os constitucional de legislar atribuída aos
serviços públicos de seu interesse; autonomia municípios, destaca-se a obrigatoriedade da
financeira para instituir e arrecadar seus elaboração do plano municipal de gestão
tributos, bem como aplicar sua receita; integrada de resíduos sólidos, sendo
autonomia legislativa para legislar sobre condição sine qua non à existência do plano
assuntos de interesse local, com a faculdade concluído e aprovado em observância aos
de suplementar a legislação federal e requisitos mínimos estabelecidos na
estadual no que for possível; e autonomia legislação competente, isso, para
organizativa para elaborar sua lei orgânica. participação inclusive no acesso aos recursos
públicos da união para o custeio dos
A Constituição Federal de 1988 traça normas
investimentos, serviços de limpeza urbana e
e diretrizes de desenvolvimento urbano, com
disposição final dos resíduos sólidos (art. 18
ênfase para a função social das cidades, pois
da Lei nº 12.305/2010 – PNRS).
são nelas que se concentram a prestação dos
Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 2
129
3

No contraponto dessa ideia, Onofre et al municípios ficaria limitada ao cumprimento


(2014, p 4) destacam que os pequenos por parte destes entes do plano de gestão de
municípios experimentam a desconcentração resíduos sólidos, assim como a implantação
das políticas que a União definiu como sendo da coleta seletiva; da logística reversa;
de alcance nacional e para as quais criou compostagem dos resíduos e a eliminação
fundos que viabilizam a sua execução. dos lixões até o ano 2014, e criar por meio de
Segundo o que sugerem os autores, os consórcios ou não aterro sanitário. No entanto,
pequenos municípios não possuem estrutura apenas 30% dos municípios conseguiram
para gerenciar a contento tais ações. Assim, implantar a PNRS, o que obrigou ao governo
considerando o marco teórico revisado até federal por meio do decreto nº 8.211/2014 a
este ponto, apresentam-se a seguinte prorrogar o prazo para implementação destas
proposição de pesquisa: medidas (AWATOKO 2015).
P1: Os municípios estudados não apresentam Dentre os principais objetivos da Política
estrutura para a adequação aos princípios Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS) está à
elencados na Lei Federal 12.305/2010. proteção à saúde pública e a qualidade do
meio ambiente. A sociedade civil, empresas e
o poder público possuem um importante
2.2 POLÍTICA NACIONAL DE RESÍDUOS papel no cumprimento da não geração,
SÓLIDOS redução e reutilização dos resíduos sólidos,
direcionando seus esforços para aplicação de
A criação da Lei nº 12.305 que trata dos
gestão dos resíduos. Como papel de
Resíduos Sólidos (PNRS, 2010) estabelece o
destaque está o poder público municipal,
comitê Interministerial da Política Nacional de
cabendo a ele direcionar adequadamente o
Resíduos Sólidos (PNRS) e tem como objetivo
destino dos resíduos do município (BESEN,
direcionar as políticas de resíduos sólidos no
2011).
âmbito nacional, estadual, distrital,
intermunicipal, municipal e do plano de Diante da realidade vivenciada no que tange
gerenciamento de resíduos sólidos industriais. a degradação ambiental, tem aumentado a
preocupação com a saúde pública e o meio
A lei de Resíduos Sólidos traz parâmetros,
ambiente, correlacionados com os resíduos
objetivos e estabelece responsabilidades de
sólidos. Diante do cenário apresentado, nota-
forma concisa a gestão dos resíduos sólidos,
se uma urgência na mudança de
direcionando estas responsabilidades sendo
comportamento por parte da sociedade, que
atribuídas e compartilhadas com os
vem demonstrando o interesse de um
responsáveis pelo ciclo de vida dos produtos,
ambiente mais sustentável, elevando a um
percorrendo um caminho desde a extração da
padrão de sofisticação a gestão dos resíduos
matéria prima até o consumidor final e
sólidos e sua destinação final (SEADON,
envolvendo agentes de limpeza urbana
2010). Para tanto, pressupõe-se que:
(JULIATTO; CALVO; CARDOSO, 2011).
P2: O principal desafio para adequação dos
A PNRS se faz necessário, pois estabelece
municípios estudados é a falta de recursos
importantes mecanismos de gestão dos
financeiros.
resíduos sólidos que auxiliam o Brasil a
avançar na luta contra os problemas
ambientais, sociais e econômicos
2.3 RESÍDUOS SÓLIDOS URBANOS
provenientes dá má gestão destes resíduos.
Esta política se concretiza ao estabelecer os A incorreta disposição dos resíduos sólidos e
3R’s da sustentabilidade que visa políticas os impactos ambientais decorrentes dessa
ambientais de aprimoramento da utilização prática têm elevado à preocupação da
dos resíduos sólidos; Reduzir, Reciclar e sociedade quanto a preservação do meio
Reutilizar. Esta medida tem como principal ambiente. Até pouco tempo, a principal
objetivo a prevenção e diminuição da geração preocupação de gestores públicos era com a
de resíduos sólidos e incentivo à reciclagem e limpeza urbana, atualmente, a produção de
destinação correta dos resíduos (BRASIL, lixo em escala considerável, os problemas de
2013b). saúde da população e aumento da poluição,
tem exigido a gestão e o manejo adequado
Após o ano de 2012 a União definiu que a
desse material (CAVÉ, 2011).
assinatura de convênios e contratos de
repasse de recursos federais a estados e

Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 2


130
3

Segundo Barbosa et al (2016), a geração de registrou um índice de cobertura de coleta de


resíduos sólidos tem consumido os recursos 91%. Nota-se, portanto, um pequeno avanço
naturais, contaminando a água, o solo e o ar. comparado ao ano anterior.
Neste sentido, a correta disposição final
No ano de 2015 foram 7,3 milhões de
desse material pode minimizar graves
toneladas de resíduos sem coleta, já em 2016,
problemas ambientais decorrente,
esse número foi reduzido para 7 milhões de
principalmente do aumento nos padrões de
toneladas de resíduos que não foram objeto
consumo da população (BROLLO, 2001;
de coleta e, consequentemente, tiveram
BARBOSA et al, 2016).
destino impróprio em todo o país (ABRALPE,
O crescimento desordenado das cidades e a 2016, p.18).
falta de políticas públicas eficiente têm
No que tange a região norte, no ano de 2016,
contribuído significativamente para o cenário
esta gerou 15.444 toneladas/dia de RSU, no
atual de degradação do meio ambiente
entanto, apenas 6,4% desse montante
(MELLO; SEHNEM, 2016), isso porque, a
(resíduo) foram coletados, sendo, conforme
principal destinação dos resíduos sólidos
pode se observar na Figura 1, o menor índice
urbanos são os lixões, realidade da maioria
de coleta registrado em comparação com as
dos municípios do país (BARBOSA, 2016;
demais regiões do país (Figura 1).
SILVA, SILVA e DUARTE 2016). Os lixões e
aterros controlados são caracterizados pela A problemática “resíduo sólido e meio
forma inadequada da disposição do lixo, uma ambiente” tem aumentado significativamente
vez que não possuem o conjunto de sistemas nos últimos anos, o crescente índice de
e medidas necessários para proteção do meio consumo, o curto ciclo de vida dos produtos e
ambiente. Costumeiramente a disposição de o volume de resíduos gerados têm elevado a
lixo sobre o solo sem nenhum critério técnico preocupação do impacto dessas ações sobre
tem impactado o meio ambiente e a saúde o meio ambiente em diversas regiões do país
pública. e do mundo (MELLO e SEHNEM, 2016;
BARBOSA, 2016). Sob esta ótica, a
A fim de minimizar os impactos ambientais
disposição correta dos resíduos tornou-se um
provocados pela gestão incorreta na
problema social, apresentando-se como uma
implantação de aterros sanitários, no Brasil, a
realidade desafiadora para ambientalista,
NBR 13896, da Associação Brasileira de
gestores públicos e sociedade.
Normas Técnicas é responsável por essa
sistematização. A norma evidencia critérios no Pinto (1999, p.1) afirma que no Brasil, a
que tange a distâncias de rios, estradas, questão dos resíduos gerados em ambientes
perímetro urbano, unidades de conservação e urbanos atinge contornos gravíssimos. Neste
aeroportos, pouca ou nenhuma declividade sentido, a minimização da produção de
do terreno, tamanho da área e vias de acesso resíduos por meio da reutilização e
em perfeitas condições, dentre outros. reciclagem é uma estratégia que busca evitar
a máxima disposição desse material no solo
Sinteticamente, o que se observava por parte
(BERNADO; RAMOS, 2016).
dos gestores públicos municipais é uma
preocupação em não comprometer a estética Assim, a responsabilidade dos municípios
das cidades e, em razão desse fato apenas aumenta, pois cabe ao gestor público
removem o lixo para um local distante incentivar a educação ambiental como forma
(AMAECING e FERREIRA, 2008). de orientar a população, além de buscar
soluções práticas por meio da implantação de
Segundo o relatório da Associação Brasileira
sistema de coleta seletiva (DAL PIAZ;
de Empresas de Limpeza Pública e Resíduos
FERREIRA, 2011; BERNADO; RAMOS, 2016).
Especiais Abralpe (2015, p.18), no ano de
2015, o Brasil gerou 79,9 milhões de Neste sentido, a Política Nacional de Resíduos
toneladas de resíduos sólidos urbanos (RSU). Sólidos (PNRS) busca apontar soluções para
Ainda conforme o relatório, “a comparação sanar os problemas da gestão dos resíduos
entre a quantidade de RSU gerada e o sólidos no âmbito nacional, principalmente
montante coletado no ano foi de 72,5 milhões por meio da obrigatoriedade do aterramento
de toneladas, resultando em um índice de sanitário dos rejeitos, além indicar que a
cobertura de coleta de 90,8%”. gestão pública deve criar alternativas para a
promoção do reaproveitamento dos resíduos
Já no ano de 2016, houve uma queda no
sólidos até o esgotamento viável das
montante gerado de 2%, sendo o montante
coletado de 71,3 milhões de toneladas, o que
Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 2
131
3

possibilidades (BRASIL, 2010; CAVÉ, 2011;


SILVA, SILVA; DUARTE, 2016).

Figura 1: Participação das regiões do país no total de RSU coletado

Fonte: ABRALPE (2016, p. 16).

Por outro lado, Peralta e Antonello (2015, p. 2016, 3.331 municípios brasileiros enviaram
4019) destacam que as despesas com a para os lixões e os chamados aterros
implantação e operação de um aterro controlados mais de 29,7 milhões de
sanitário são incompatíveis com a realidade toneladas de resíduos sem nenhum critério,
financeira da maior parte dos municípios de onde se destaca a região norte que enviou
menor porte que, pela carência de recursos, para esses locais, 8.071 toneladas dia, isto é,
ainda destinam seus resíduos domiciliares 64,6% a mais do que os resíduos destinados
para lixões e aterros controlados, para os aterros sanitários (Figura 2).
encontrando-se em desacordo com o que
determina a Lei nº 12.305/2010.
A destinação correta é a única alternativa
viável, no entanto vale salientar que no ano de

Figura 2: Disposição final de RSU na região Norte (t/dia)


Fonte: ABRALPE (2016, p. 16)

Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 2


132
3

Observe na Figura 2, que a diferença na (2009, 124) indicam que a tentativa de


quantidade de lixo destinada a aterros “garantir aos municípios a disposição final
sanitários e as destinadas aos lixões na região adequada dos Resíduos Sólidos Urbanos
norte é de 0.7%, o que indica a necessidade (RSU), seja na definição de diretrizes, na
urgente de ações para a adequação desses relação dos aspectos legais, na fomentação
municípios. Nota-se que o modelo tradicional de recursos, seja na articulação para que
de disposição dos resíduos vem ao longo dos suas instituições educacionais e de pesquisa
anos apresentando visíveis sinais de possam garantir a capacitação dos agentes
esgotamento, evidenciando que chegou ao públicos municipais” é de responsabilidade
seu limite e que algo precisa ser feito das esferas superiores. Assim, pressupõe-se
(AMAECING e FERREIRA, 2008; MELLO e que:
SEHNEM, 2016).
O estado do Pará é composto por 144
P3: A implantação dos aterros e a
municípios, sendo Belém o mais populoso
manutenção do local são consideradas um
com aproximadamente um milhão
desafio para o gestor público.
quatrocentos mil habitantes e Bannach o
menos populoso, com apenas três mil e
trezentos habitantes (3.300). Segundo o plano
3. METODOLOGIA
estadual de gestão de resíduo sólido do
estado, 89% dos RSU tem destinação final O tipo de pesquisa utilizado foi multicasos.
inadequada (lixões). Outra constatação é que Para este estudo, utilizou-se uma pesquisa de
não há sistemas de informações integradas abordagem qualitativa. A pesquisa qualitativa
no âmbito dos Municípios. foi desenvolvida por meio de entrevista e
observação in loco. As entrevistas foram
Ainda segundo o plano, o estado conta com
realizadas com prefeitos, secretários de obras
seis (6) aterros sanitários em operação, sendo
e secretários de meio ambiente de quatro
eles localizados nos municípios de Altamira,
municípios no sudeste Paraense (Bom Jesus
Vitória do Xingu, Marabá, Parauapebas,
do Tocantins, Abel Figueiredo, Rondon do
Marituba (Revita) e Canãa dos Carajás. Do
Pará e Dom Eliseu). Vale ressaltar que por
total de 144 municípios apenas 44 possui o
questões de agenda não foi possível
Plano Municipal de Gestão Integrada de
entrevistar o prefeito de Dom Eliseu, sendo o
Resíduos Sólidos (PMGIRS) elaborados. No
secretário de obras e de meio ambiente,
que tange a coleta seletiva esse número
entrevistados. Já o secretário de obras do
reduz para cinco (5), sendo eles: Belém,
município de Bom Jesus do Tocantins
Bragança, Tucuruí, Óbidos e São Miguel do
informou que não atuava diretamente com a
Guamá (PLANO ESTADUAL DE GESTÃO DE
coleta do lixo no município, uma vez que essa
RESÍDUO SÓLIDO, 2015).
atividade era de responsabilidade da
Diante da realidade, o governo federal e secretaria de meio ambiente e por essa razão
governos estaduais apresentam-se como os pesquisadores optaram por não entrevistá-
importantes parceiros para solução do lo.
problema. Martins, Esguicero e Manfrinato
Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 2
133
3

Para a coleta, os pesquisadores gestão de resíduos sólidos, adequação do


desenvolveram um roteiro semiestruturado município a lei PNRS/12.305/2010, os desafios
composto por 15 questões aplicadas a 10 enfrentados por esses municípios quanto à
agentes públicos (Prefeito e Secretário de exigência legal.
meio Ambiente de Bom Jesus do Tocantins;
Outra técnica de coleta usada foi à
Prefeitos, Secretários de Obras e Secretários
observação in loco realizada nos municípios,
de Meio Ambiente de Abel Figueiredo e
assim foram observados: a limpeza urbana
Rondon do Pará; Secretário de Meio Ambiente
(visitas nos bairros), as lixeiras públicas
e Secretário de Obras de Dom Eliseu).
disponíveis em ruas e praças e os lixões de
As entrevistas tiveram duração de cada município pesquisado (disposição do
aproximadamente uma hora (1h) e ocorrem lixo). A pesquisa concentrou-se em analisar
entre os meses de janeiro a Agosto de 2017. quatro municípios localizados na BR222, no
As perguntas envolveram questões como a sudeste paraense (Figura 3).

Figura 3: Municípios as margens da BR222.

Fonte: Os autores (2017)

O município de Bom Jesus do Tocantins, com aterros sanitários já implantados como é


segundo o IBGE (2017) tem uma população o caso de Altamira, Vitória do Xingu, Marabá,
de 16.517 habitantes. Abel Figueiredo 7.231 Parauapebas, Marituba (Revita) e Canãa dos
habitantes, em Rondon do Pará a população é Carajás.
de 50.915 habitantes e Dom Eliseu 58.071
habitantes.
4. ANÁLISE E DISCUSSÃO DOS
Na Figura 3 é possível observar o município
RESULTADOS
de Marabá, este, apesar de fazer parte da
BR222, não foi objeto de pesquisa. O estado do Pará, em especial os quatro (4)
Considerando os extremos, o município de municípios localizados as margens da BR222,
Marabá fica distante 239 km de Dom Eliseu. no sudeste paraense, apresentam
semelhanças quanto às dificuldades para a
O município de Marabá tem uma população
adequação a PNRS.
de 271.594 habitantes, segundo o IBGE
(2017), um número quatro vezes maior que a
população dos municípios estudados com
A) MUNICÍPIO DE BOM JESUS DO
maior número de habitantes. Conforme o
TOCANTINS
plano estadual de gestão de resíduo sólido do
estado, Marabá já possui aterro sanitário, por No município de Bom Jesus do Tocantins
essa razão, optou-se por preservá-lo, foram entrevistados o prefeito da Cidade e o
considerando que estão sendo desenvolvidas Secretário de meio ambiente, pessoa
pesquisas voltadas para municípios da região responsável pela limpeza da cidade. O fato
Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 2
134
3

de um órgão fiscalizador ser responsável pela Nota-se no diálogo que o município enfrenta
execução da atividade de coleta e disposição um problema, em que a água distribuída a
do lixo chamou a atenção dos pesquisadores, população pode prejudicar a saúde dos
isso porque, fica a dúvida, quem irá fiscalizar? moradores, isso em razão do descarte
inadequado do lixo gerado pelos munícipes.
Bom Jesus do Tocantins, segundo o IBGE
Neste sentido, Tarcísio (1999, p.1) revela que
(2007) conta com uma população de 16.517
no Brasil, a questão dos resíduos gerados em
habitantes. Assim, para atender as demandas
ambientes urbanos atinge contornos
da população o Prefeito da cidade informou
gravíssimos, sendo o descarte inadequado do
que o município dispõe de dois (2)
lixo, um deles. Conforme o que sugere
caminhões, sendo um coletor de lixo e uma
Barbosa et al (2016), que destaca que a
(1) caçamba, o mesmo salienta que a coleta
geração de resíduos sólidos tem consumido
em caçambas não é a forma legal, no entanto,
os recursos naturais, contaminado a água, o
o uso desta, possibilita o atendimento de
solo e o ar.
todos os bairros, não ficando nenhum bairro
sem ser atendido. Por meio da observação in loco foi possível
perceber que parte do lixo ali depositado se
Ainda a esse respeito, o secretário de meio
encontrava dentro de um córrego no lado
ambiente informou que a coleta é realizada
baixo do local (lixão). NBR 13896/97, da
seguindo uma escala, isto é, três dias da
Associação Brasileira de Normas Técnicas
semana (segunda quarta e quinta) se atende
destaca que deve ser avaliada a possível
os bairros A, B e C e nos outros três dias
influência do aterro na qualidade e no uso das
(terça, sexta e sábado) os bairros X, Y e Z.
águas superficiais e subterrâneas próximas e
Vale salientar que a BR222 divide a cidade ao
ainda, que o aterro deve ser localizado a uma
meio.
distância mínima de 200 m de qualquer
Quando questionado sobre local de deposito coleção hídrica ou curso de água. Observa-
do lixo gerado na cidade e se esse atendia a se, portanto, que o município está em
lei, o prefeito destacou que não, que o lixão desacordo com o que diz a legislação.
da cidade estava totalmente inadequado ao
Outra constatação é o fato do lixo ser
que dizia a lei. Assim, ele enfatiza:
depositado na parte alta do morro (lixão fica
Nós temos que nos adequar [...] a lei de situado em morro) ficando evidente que no
resíduos sólidos, porque o lixão não pode período de chuva um volume grande de
estar em céu aberto, hoje é a céu aberto o material é arrastado para o córrego. Tal fato
nosso lixão, hoje está totalmente também é previsto pela NBR 13896/97, uma
inadequado ao que diz a lei. A lei já teve vez que regulamenta quando declividade do
prazos né, começou em 2014, ela foi terreno.
estendida para 2015 e 2016, e vai até
Diante de tal realidade, acredita-se que o
agora, 31 de dezembro de 2017. Mas eu
chorume pode atingir o lençol freático que
reconheço que sem recurso financeiro fica
abastece a cidade e prejudicar a saúde da
difícil. Encaminhamos o projeto ao governo
população do município e de moradores de
federal, mas sem a entrada desse recurso
propriedades rurais nas proximidades.
nós não conseguiremos fazer, colocar o
lixo como ele deve ser [...]. Se não tiver No município não foram identificadas
recursos não tem condições da gente empresas cadastradas para coleta seletiva do
fazer o que é o correto, que é o aterro lixo, no entanto, a própria secretaria realiza
sanitário. um trabalho de reaproveitamento de pneus
para a confecção de lixeiras públicas que são
O Secretário do município afirma que o lixão
dispostas nas ruas e praças da cidade.
precisa ser retirado do local em que se
encontra hoje, isso porque o chorume pode
atingir o lençol freático, assim ele destaca: A) MUNICÍPIO DE ABEL FIGUEIREDO
[...] já conversamos com o prefeito pra gente No município de Abel Figueiredo, segundo
mudar aquele local (lixão), tirar de lá, é uma dados do IBGE (2017), a população é de
área que, por exemplo, o chorume pode 7.231 habitantes. No município a coleta de
atingir o lençol freático devido à topografia, o resíduos é realizada pela secretaria de obras,
terreno é próximo da cidade, pequeno, hoje é neste sentido, foram entrevistados, o prefeito,
a nossa realidade. secretário de obras e secretário de meio
ambiente do município.
Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 2
135
3

Segundo o prefeito, o município de Abel em processo judicial, aguardando


Figueiredo é composto por sete (7) bairros. inclusive parecer da justiça, neste sentido,
Para atender a população quanto à coleta do para desapropriação, para dar início aos
lixo urbano, o município conta com dois trabalhos.
caminhões coletores, sendo uma caçamba e
Nessa ceara, o secretário de obra, destaca
um coletor recém-chegado no município. Em
que já existe um local, assim ele afirma:
relação ao funcionamento desses caminhões,
o secretário de obras destaca: [...] até hoje A prefeitura já adequou um local suficiente
está funcionando um, mas a partir de hoje, que vai ficar distante da rodovia, me
conversando com o prefeito, agora vai parece que, eu vi na placa, escrito 800
funcionar o coletor que é o novo que metros, vai ser um local suficiente, já foi
recebemos mais uma basculante. E vai ficar feito vistoria pelo meio ambiente, já foi
os dois. fiscalizado, portanto, existe uma placa
indicando este local [...] que vai funcionar.
Ainda a esse respeito, o prefeito informa que
quanto à coleta o município está bem O prefeito destaca que desde janeiro de
atendido, sendo o problema central é o 2017, o município vem tentando se adequar a
destino. Assim, ele destaca: “Neste sentido política nacional em relação aos resíduos
Abel Figueiredo está muito bem atendida em sólidos e a preservação do meio ambiente
relação à coleta e tal, o que a gente tem como como um todo. Neste sentido, o secretário de
gargalo é o destino”. meio ambiente destaca que, o município
ainda está em fase de implantação do aterro
Conforme o disposto no art. 30 alínea “b” da
sanitário e por essa razão, algumas ações
Constituição Federal do Brasil, embora com
como coleta seletiva e reciclagem de lixo
sua autonomia municipal vinculada aos
orgânico ainda não funcionam. Ainda de
preceitos da Constituição, o Município possui
acordo com o secretário, em breve, caso a
poderes, para legislar sobre assuntos
associação de reciclagem da cidade que
relativos à sua estrutura organizacional,
atualmente encontra-se parada, não der
territorial e administrativa, além de regular os
continuidade aos trabalhos, a secretaria irá
serviços básicos, sob concessão ou
fazer assembleias, audiências públicas, na
permissão, como transporte coletivo, coleta
tentativa de criar uma associação que venha
de lixo, fornecimento de água potável.
atender as demandas da cidade.
Segundo o prefeito do município, o grande
Nota-se, portanto, que o grande desafio do
problema é a destinação do lixo, no entanto o
município é a implantação do aterro, muito já
mesmo tem buscado alternativas para
se tem feito, conforme informa o prefeito, mas
solucionar o problema, assim ele destaca:
muito ainda há por fazer: Assim ele destaca:
Agora em janeiro de 2017, quando estive
Já fizemos os estudos preliminares, já está
com o ministério público foi também um
bem adiantada [...] tem até as placas, já
assunto abordado junto do ministério
estamos adiantando, aguardando
público da nossa comarca e partimos
simplesmente a decisão judicial para partir
para cima [...] Neste momento está sendo
para reta final e trabalhar isso e, é claro,
colocado no lixão, por mais que este lixão
correr atrás dos recursos, porque quando
a gente tem dado tratamento especial,
eu disse como primeiro momento a gente
vamos lá com equipamentos,
aguentou, agora não temos condições
acobertando o lixo que está a céu aberto,
financeiras de implantar sem ajuda.
fizemos todo um trabalho neste lixão, que
apesar de ser lixão tem um Conforme observação in loco, percebeu-se
tratamento digamos especial, e estamos que o lixão fica aproximadamente três
em fase embrionária ainda, mas assim já quilômetros de distância da cidade. A
bastante avançado em relação à questão localização do lixão atual é impropria, uma
do aterro sanitário, já contratamos uma vez que fica localizado as margens da BR222,
empresa especializada para fazer os saída para o município de Rondon do Pará.
estudos preliminares, já localizamos três Por meio da observação, pôde se constatar
áreas, foi feito um estudo, foi aprovada ainda, a existência das placas indicando o
uma área, esta área está em processo de local em que o aterro sanitário será
desapropriação uma vez que se esgotou construído, segundo a observação, esse
as possibilidades amigável, vamos dizer ficará distante aproximadamente 1km do lixão
assim, de estar utilizando ela, estamos
Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 2
136
3

já existente, totalizando uma distância visão do secretario o local é considerado um


aproximada de 4km da cidade. aterro, assim ele destaca:
Em relação ao lixão o prefeito destaca: “eu [...] Quando nós pegamos mês passado
vejo ele (lixão), como local inadequado, (assumiram a prefeitura), foi uma das
porém, não está agredindo cem por cento a coisas que nós fizemos, mandamos um
natureza, porque ele não está próximo de trator lá pra juntar aquele lixo todo, colocar
lençol freático, mas ele está praticamente em dentro dos buracos, jogamos aterro
cima de uma rodovia federal que não é encima do material, fizemos fossa pra
permitido por lei”. separar o material que era hospitalar.
Neste sentido, constata-se que o Município Ainda a esse respeito, o secretário informou
estudado encontra-se em desacordo com o que o município dispõe apenas um caminhão
previsto no caput do Art. 17 da Lei Federal para atender três turnos e uma caçamba que
12.305/2010 que dispõe que, "Compete ao ajuda. O mesmo relata que está tentando
gerador de resíduos sólidos a conseguir outro caminhão para trabalhar dois
responsabilidade pelos resíduos sólidos turnos e minimizar o problema, segundo ele, o
gerados, compreendendo as etapas de lixo ás vezes passa de quinze dias na rua.
acondicionamento, disponibilização para
Quando questionado sobre a forma de
coleta, coleta, tratamento e disposição final
descarte do lixo no local o prefeito do
ambientalmente adequada de rejeitos." Face
município destacou que o município não tem
ao exposto, o descumprimento das
capacidade para investimento e que está
responsabilidades inerentes ao poder público,
buscando junto ao governo do estado e
provoca um efeito cascata no município foco
governo federal ajuda. Assim ele destaca:
deste estudo.
“tudo indica que no sistema do projeto Pará
sustentável 2030, a gente deva conseguir a
implantação do aterro sanitário”. [...] a
B) MUNICÍPIO DE RONDON DO PARÁ
dificuldade vai ser manter isso dentro da
O município de Rondon do Pará tem uma estrutura, que vai demandar muito recurso
população de 50.915 habitantes, segundo para fazer a manutenção e continuidade do
dados do IBGE (2017). Foram entrevistados o serviço. O prefeito destaca ainda que,
prefeito, o secretário de obras e a secretária quando o aterro sanitário estiver implantado,
de meio ambiente do município. O município dentro dos moldes da legalidade vai buscar
conta com treze bairros (13), no entanto, parcerias e aproveitar melhor o sistema dos
apenas o centro comercial (centro) da cidade resíduos sólidos, tanto na reciclagem quanto
é atendido regulamente (todos os dias) pela na geração de energia.
coleta do lixo. Dos treze (13) bairros, seis,
A esse respeito, a secretária de meio
com exceção do centro comercial (bairro
ambiente informou que entre os anos de 2013
centro), são contemplados pela coleta duas
e 2014 por meio do departamento de
vezes na semana. Por outro lado, sete (07)
educação ambiental, houve uma tentativa de
bairros não contam com a coleta de lixo
regularizar a atividade de catadores, por meio
realizada pela prefeitura do município.
de um cadastro para a criação de uma
Em razão da falta do fornecimento do serviço associação de catadores. Segundo ela, essa
(coleta) em alguns bairros, foi verificado o associação por algum tempo funcionou, no
acumulo de lixo na rua e em locais escolhidos entanto, hoje, não se tem conhecimento se
pela população para esse deposito irregular, esta ainda existe e se desenvolve alguma
como terrenos baldios. O lixo coletado pela atividade voltada para essa prática.
prefeitura é depositado em um lixão. O local
Em relação a essa questão, o prefeito
fica distante 10 km da cidade e tem
informou que no seu plano de governo fez um
aproximadamente três hectares de extensão.
traçado para organizar a coleta seletiva de
O lixão é considerado por um dos gestores do forma a aproveitar melhor a sobra do lixo. O
município como aterro controlado, no entanto, mesmo relatou estar em contato com alguns
os resíduos são descartados a “céu aberto”, setores para formalizar a atividade por meio
com existência de roedores, animais e o da criação de cooperativas.
homem. Segundo o secretário de obras, a
A Lei 12.305/2010-Política Nacional de
gestão dos resíduos do município está sob a
Resíduos Sólidos (PNRS), interpretada pela
responsabilidade da secretaria de obras. Na
Cartilha de Gerenciamento de Resíduos
Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 2
137
3

Sólidos, a responsabilidade pelos Resíduos à saúde pública e a qualidade do meio


Sólidos é compartilhada, sendo assim, todos ambiente. ” (BESEN, 2011).
devem atuar como responsáveis pela gestão
Mas segundo os secretários o município tem
dos resíduos. Neste sentido, destaca-se o
buscado através de estudos e cursos
papel do poder público municipal, pois cabe
conhecer experiências que deram certo em
a ele destinar adequadamente seus resíduos
outros municípios [...] a ideia de conhecer é
(BESEN, 2011).
que trabalharia uma amenização [...] assim o
secretário de obras destaca [...] o que está
encaminhando para o nosso município e para
C) MUNICÍPIO DE DOM ELISEU
os outros municípios é o consórcio e destinar
O Município de Dom Eliseu tem uma o lixo para um lugar só, porque a prefeitura
população de 58.071 habitantes, foram não consegue manter o aterro sanitário,
entrevistados a secretária de meio ambiente e sozinha [...].
o secretário de obras. Foram feitas várias
Assim a secretária de meio ambiente enfatiza:
tentativas pra a entrevista com o prefeito do
município, no entanto, o mesmo não atendeu [...]participei de um evento em março em
nossa solicitação. Brasília, que este foi um dos temas, a
questão dos resíduos sólidos e lá foi dado
O município hoje dispõe de 03 caminhões
uma estatística bem triste no Brasil. O
compactadores e 04 caçambas para coleta
Brasil já teve em torno de 400 aterros
de lixo, com um total de 16 bairros, sendo
controlados e, estes aterros controlados
atendidos por estes maquinários. Destes, 13
caiu para mais ou menos para 80, em
bairros são atendidos regularmente e 03
torno de 300 se transformaram novamente
apenas semanalmente.
em lixão, por causa disso que o secretário
Segundo o Secretário Municipal de Obras o falou, o custo de manutenção[...].
Município tem enfrentado uma grande
Neste sentido, Awatoko (2015) destaca que,
dificuldade na coleta do lixo, pois o mesmo
apenas 30% dos municípios conseguiram
não possui sequer uma lixeira nas ruas para
implantar a PNRS, o que obrigou o governo
auxiliar na seleção e coleta do lixo [...]não tem
federal por meio do decreto nº 8.211/2014 a
de forma alguma, até os projetos das praças
prorrogar o prazo para implementação destas
foram feitos no ano anterior, nenhum contava
medidas.
com essa sugestão de limpeza [...]. A fala do
secretário é confirmada pela Secretária de
Meio Ambiente que destaca: [...] está zerado,
4.1 ANÁLISE E DISCUSSÃO DAS QUESTÕES
isso é uma falha bem grande a ser corrigida
E PROPOSIÇÕES
[...].
Considerando-se as questões e proposições
Quanto a destinação do lixo coletado os
de pesquisa elaboradas, decorrentes do
entrevistados destacam a vulnerabilidade do
marco teórico, passa-se a analisar cada uma
espaço em que depositam o lixo final [...]
em relação ao caso em estudo.
aqui, por exemplo, o nosso lixão é uma
tragédia [...], Diante desta problemática a Para a questão Q1: Os municípios do sudeste
PNRS destaca que o principal objetivo desta paraense estão cumprindo as exigências
medida é a prevenção e diminuição da legais no que concerne à gestão de resíduos
geração de resíduos sólidos e incentivo a sólidos urbanos? Foi estabelecida a seguinte
reciclagem e destinação correta dos resíduos Proposição:
(BRASIL, 2013b). Onde foi observado no lixão
P1: Os municípios estudados não apresentam
atual o descarte irregular de carcaças de
estrutura para a adequação aos princípios
animais, um local com bastante fumaça e
elencados na Lei Federal 12.305/2010.
presença de pessoas, inclusive crianças sem
nenhum tipo de proteção. A Política Nacional de Resíduos Sólidos
(PNRS) prevê a prevenção e a redução na
A presença de crianças detectadas no lixão
geração de resíduos, tendo como proposta a
está em desacordo com um dos principais
prática de hábitos de consumo sustentável e
objetivos da Política Nacional de Resíduos
um conjunto de instrumentos para propiciar o
Sólidos-PNRS que como destaca o texto
aumento da reciclagem e da reutilização dos
“dentre os principais objetivos está a proteção
resíduos sólidos (MMA, 2017). Assim, com
base na pesquisa realizada notou-se que os
Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 2
138
3

municípios estudados não apresentam local P3: A implantação dos aterros sanitários e a
adequado para o descarte do lixo, sendo este manutenção do local são consideradas um
depositado em lixões a “céu aberto”. Segundo desafio para o gestor público.
relatos, apenas o município de Dom Eliseu
Segundo Peralta e Antonello (2015, p. 4019)
conta com uma cooperativa de catadores
as despesas com a implantação e operação
oficializada, os demais municípios informaram
de um aterro sanitário são incompatíveis com
que as cooperativas que existiam não estão
a realidade financeira da maior parte dos
atuando no momento.
municípios de menor porte, sendo esta, a
Notou-se também, que alguns municípios não realidade dos quatro municípios pesquisados
atendem satisfatoriamente a população na região sudeste do estado do Pará. Dessa
quanto a coleta de lixo. A coleta seletiva, por forma, a proposição P3 se confirma. Os
exemplo, não existe em nenhum dos gestores pesquisados afirmam que não
municípios pesquisados, alguns dispõe de possuem recursos financeiros para a
lixeiras para este tipo de coleta, na prática o implantação e manutenção desses aterros,
lixo é destinado para um único local, o lixão. enfatizando, “não temos condições
Outra realidade é o fato da localização dos financeiras”, “não tem recursos financeiros”.
lixões, um as margens de rodovias federais,
Nota-se, portanto, que dois dos municípios
outros próximos a fontes d’agua, portanto, a
pesquisados, já iniciaram os trabalhos, um já
proposição P1é confirmada.
fez a escolha da área e aguarda a
Para a questão Q2: Quais os desafios esses desapropriação e outro estuda a
municípios têm enfrentado para se adequar possibilidade de um consórcio, no entanto,
aos princípios elencados na PNRS informam que necessitarão de recursos para
(12.305/2010)? Estabeleceu-se como a manutenção da estrutura.
proposições que:
P2: O principal desafio para adequação dos
5. CONSIDERAÇÕES FINAIS
municípios estudados é a falta de recursos
financeiros. O presente estudo teve como objetivo analisar
quatro municípios do sudeste paraense no
Onofre et al (2014, p 4) destacam que os
que concerne ao cumprimento das exigências
pequenos municípios experimentam a
legais para a gestão de resíduos sólidos
desconcentração das políticas que a União
urbanos e verificar os desafios enfrentados
definiu como sendo de alcance nacional e
para adequação aos princípios elencados na
para as quais criou fundos que viabilizam a
lei (PNRS/12.305/2010). Ficou evidenciado na
sua execução, como são os casos da
investigação empírica que os municípios
educação e da saúde. Os autores salientam
pesquisados estão em descordo com o que
ainda que esses municípios se ressentem
prevê a PNRS (12.305/2010).
porque até a capacidade técnica para
executar bem as políticas é comprometida, Notou-se que não há coleta seletiva. Em dois
sem falar que os orçamentos destes estão dos quatro municípios estudados o serviço de
praticamente todos empenhados com os coleta não atende todos os bairros em que se
investimentos nas áreas da saúde, educação percebeu o acumulo de lixo nas ruas. Outro
e pagamento de pessoal. Por essa razão, fator importante é o descarte do lixo. Todos os
grande parte dos municípios brasileiros, municípios pesquisados destinam o lixo da
pouco realiza nas áreas urbanística e cidade para lixões, um, inclusive as margens
ambiental. de um córrego, desrespeitando o que diz a
lei.
Assim, a proposição P2 se confirma. Ficou
evidente segundo relatos dos gestores Diante da realidade, todas as proposições de
públicos a dependência de recursos dos pesquisa foram confirmadas. Assim, as
governos estaduais e federais, em vários questões propostas Q1 e Q2 foram
trechos os gestores mencionaram a frase respondidas.
“buscar recursos”, “correr atrás dos
Q1: Os municípios do sudeste paraense estão
recursos”, o que indica que para esses
cumprindo as exigências legais no que
municípios se adequarem a lei, precisam de
concerne à gestão de resíduos sólidos
uma estrutura que atualmente não possuem.
urbanos? Não, os municípios, até o momento,
não estão cumprindo as exigências legais. A

Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 2


139
3

alegação para o não cumprimento é a falta de bem como, a falta de estruturas dos órgãos
recursos. competentes são alguns dos fatores
contributivos para a má gestão e não
Q2: Quais os desafios esses municípios têm
adequação a lei quanto o gerenciamento
enfrentado para se adequar aos princípios
desse material nos municípios estudados.
elencados na PNRS (12.305/2010)? O maior
desafio é a falta de recurso, os municípios não A não disponibilidade do serviço à população,
possuem estrutura para se adequar aos fortalece uma cultura antiga que é a de
princípios elencados na PNRS. Diante da queimar, enterrar ou descartar o lixo em locais
realidade, alternativas devem ser criadas e inadequados como terrenos baldios, muitas
ações implementadas. Neste sentindo, vezes próximos ao leito dos rios e com as
ressalta-se que, o poder público e a fortes chuvas são levados, provocando a
população necessitam mudar suas práticas, poluição das águas, obstrução do curso
pois somente por meio da mudança de normal do rio e muitos outros problemas de
comportamento será possível preservar o cunho ambiental.
meio ambiente, a saúde e a vida da
Observou que o fato de os municípios terem
população.
sido elevados à condição de entes federados,
Segundo o que sugere a Lei 12.305/2010 que com autonomia administrativa, política e
trata da Política Nacional de Resíduos Sólidos financeira, elevou a responsabilidade destes
(PNRS), a responsabilidade pelo para com a população local. No entanto, nota-
gerenciamento dos Resíduos Sólidos é se que estes não apresentam condições de
compartilhada, sendo assim, todos devem gerar recursos próprios, ficando dependentes
atuar como responsáveis pela gestão desse total ou parcial das transferências de receitas
material. constitucionais (ONOFRE, 2014).
Ainda segundo a Lei, é dever das Prefeituras As limitações deste estudo são referentes a
Municipais a realização da gestão de pesquisa de apenas quatro município do
resíduos sólidos gerados em seu território, sudeste do Pará. Assim, no intuito de tratar as
porém, com a precariedade de máquinas nas limitações do estudo e ampliar seu escopo,
Secretarias de Obras (caminhões) de sugere-se como futuras linhas de pesquisas o
estrutura para fiscalização das secretarias de desenvolvimento de estudos mais abrangente
meio ambiente (caso de Bom Jesus do envolvendo todos os municípios do sudeste
Tocantins) o serviço prestado acaba por não paraense, bem como, a realização de
atender o que diz a lei e por consequência pesquisas comparativa com municípios de
não contempla toda a população. outras regiões do estado e ainda, com outras
regiões do país.
O surgimento de bairros sem planejamento
urbano e a dificuldade de acesso e logística,

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Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 2


141
3

Capítulo 11

Nilda dos Santos


Gleimíria Batista da Costa

Resumo:O desenvolvimento das redes solidárias tem se destacado na sua


capacidade de construir conexões no âmbito local e tal fenômeno tem sido
destaque no aumento do número de pesquisas relacionadas com o tema. O Centro
de Tecnologia Alternativa- CTA é uma organização sem fins lucrativos que atua no
desenvolvimento da agricultura familiar a partir do relacionamento em rede. Com
base numa abordagem qualitativa por meio de pesquisa documental, este trabalho
busca responder o seguinte questionamento: Quais as ações realizadas pelo CTA
são voltadas para o desenvolvimento sustentável considerando as dimensões
sociais, ambientais e econômicas? E como essas ações contribuem para o
desenvolvimento dos agricultores. Neste sentido, o objetivo principal é apresentar
as ações realizadas pelo Centro de Tecnologia Alternativa na promoção do
desenvolvimento sustentável e expor como estas ações afetam no desenvolvimento
dos agricultores pertencentes a rede. Os resultados demonstraram que as
interações sociais possibilitaram o desenvolvimento de diversos projetos com
escopo de desenvolvimento econômico para os agricultores, além de projetos de
gestão ambiental e social. As parcerias firmadas com as organizações locais,
agências de financiamento e poder público propiciou o fomento econômico na
associação e o fortalecimento do associativismo e desenvolvimento local.

Palavra Chave: redes, rede solidária, desenvolvimento sustentável, agricultura


familiar.

Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 2


142
3

1. INTRODUÇÃO desenvolvidas pelo Centro de Tecnologia


Alternativa – CTA nos anos de 2015 e 2016 a
As mudanças ocorridas no contexto
partir da sua atuação enquanto rede solidária.
organizacional nos últimos anos têm
O Centro de Tecnologia Alternativa - CTA é
propiciado o surgimento de novas formas de
uma associação constituída no ano de 1992
organização, no qual destaca-se ações de
como ferramenta de promoção da agricultura
cooperação, interação, integração e ações
familiar na região do Vale do Guaporé.
conjuntas de modo geral. Autores como
Quando da sua criação, o termo Agricultura
Castells (1999), Dupas (2000), Granovetter
Familiar-AF não era usual e para tanto, foi
(1985) e na área da administração Balestrin &
criado um movimento de união dos lavradores
Vargas (2004), tem destacado a atuação em
da região. A motivação inicial era uma
rede como uma forma organizacional
alternativa ao modelo econômico excludente
adequada para os dias atuais dado a alta
em prol de um compromisso em defesa de
competitividade do ambiente, as evoluções
uma produção diversificada e
tecnológicas e a necessidade de
economicamente inclusiva.
organizações mais flexíveis. Os estudos de
Balestrin & Vargas (2004) ressaltam o Atualmente o Centro de Tecnologia
aumento no número de pesquisas realizadas Alternativa-CTA atua na região sudoeste do
nos últimos anos com o tema “redes”. estado de Mato Grosso e atende cerca 1200
famílias com prestação de serviços de
A necessidade de alcançar os objetivos e
assistência técnica, fomento a produção
desenvolver as atividades propostas faz com
agroecológica e fomento a economia
que as organizações interajam com seu
solidária. Em outras palavras, o Centro de
ambiente. Num cenário de movimentos e
Tecnologia Alternativo é caracterizado como
reivindicações sociais, as redes solidárias
rede social com princípios de econômica
surgem como novo campo organizacional
solidária cujo as ações visam promover o
com o objetivo de desenvolver modelos
desenvolvimento regional por meio da
alternativos ao modelo capitalista. Tal visão
participação e cooperação dos membros
baseia-se na prevalência do trabalho
envolvidos num processo considerado como
igualitário sobre o capital, nas ações
endogeinização (BARQUERO, 2001).
associativistas, na propriedade comum, na
autogestão e na preservação do meio Com base neste contexto, a pesquisa parte
ambiente (KESSLER, 2008). do seguinte questionamento: Quais as ações
realizadas pelo Centro de Tecnologia
As redes de economia solidária se relacionam
Alternativa – CTA são voltadas para a
diretamente com a promoção do
promoção do desenvolvimento sustentável
desenvolvimento sustentável a medida que
considerando as dimensões sociais,
suas atividades visam o respeito ao meio
ambientais e econômicas e como estas ações
ambiente, respeito ao ser humano e a busca
colaboram para o desenvolvimento dos
por novos modos de produção que sejam
agricultores? A partir destas indagações,
economicamente viável a todos os
parte-se do pressuposto de que a
participantes (SINGER, 2004).
aglomeração de agricultores e sua interação
Diante do contexto de reivindicações e sob a forma organizacional de rede é um
movimentos sociais, as organizações de componente importante na geração de renda
agricultores surgem como uma alternativa pelas famílias de agricultores, entendendo a
viável para suprir as necessidades ou lacunas economia como constituinte das relações
deixadas pela ausência de políticas públicas sociais (GRANOVETTER, 1985) e os laços de
ou mesmo como alternativa de política pública proximidade e solidariedade como
para o desenvolvimento local. Tal organização mediadores das relações econômicas (DE
se apoia na base produtiva e através da FREITAS e DE FREITAS, 2015). Contudo,
interação em rede, busca promover práticas entende-se que a simples interação não cria a
sustentáveis a partir das perspectivas oportunidade produtiva, é preciso que
ambientais, sociais e econômicas diversas ações sejam realizadas. Nesta
(NASCIMENTO, 2012; SCHERER-WARREN, direção, este trabalho tem como objetivo
1996) principal apresentar as ações realizadas pelo
Centro de Tecnologia Alternativa na promoção
Nesse sentido, este trabalho busca analisar
do desenvolvimento sustentável e expor como
os relatórios de gestão das atividades
Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 2
143
3

estas ações afetam no desenvolvimento dos geografia econômica (KRUGMAN, 1998). As


agricultores pertencentes a rede. ações econômicas encontram-se embutidas
nas relações interpessoais (GRANOVETTER,
Dividido em cinco partes, introdução,
1985) sendo indissociável sua análise nos
referencial teórico, aportes metodológicos,
estudos acerca de redes sociais.
apresentação e discussão dos resultados e
por fins as considerações finais, o estudo Scherer-Warren (1996), ressalta que a criação
encontra motivação nas lacunas da literatura de redes vem sendo idealizadas como um
sobre o assunto, assim como, na busca por formato organizacional democrático e
contribuir para melhor compreensão sobre o participativo, onde predominam relações que
tema. se caracterizam pela não-centralidade e não-
hierarquização do poder, abertas ao
pluralismo de ideias e à diversidade cultural.
2. FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA Ainda segundo Scherer-Warren (2001) as
diversas formas de associativismo e
As redes de economia solidária compõe-se
cooperação se caracterizam por modelos de
de grupos de atores representados por
ação coletiva, criadas pelos sujeitos sociais
consumidores, produtores, prestadores de
em torno de identificações e propostas
serviços, todos unidos em uma organização.
comuns.
Para compreender como acontece o
relacionamento em rede e como essas Tais fundamentos são necessários para
relações contribui para o desenvolvimento embasar a análise sobre as ações das
local, com a finalidade de analisar a atuação relações sociais de associações solidárias
do Centro de Tecnologia Alternativa, este com seus agentes e parceiros locais. As
trabalho inicia inferindo sobre os conceitos de relações sociais podem ser compreendidas
redes sociais de economia solidária e sua como um “comportamento reciprocamente
interação com o desenvolvimento local e em referido quanto a seu conteúdo de sentido por
seguida apresenta-se a inter-relação entre o uma pluralidade de agentes e que se orienta
desenvolvimento sustentável e as redes por essa referência” (Weber, 1991. p. 228). A
solidárias. forma de atuação e interação da rede entre os
seus agentes são guiados e condicionados
pelas relações estabelecidas, no qual
2.1 REDES DE RELACIONAMENTO PARA O projetam suas finalidades e meios para a
DESENVOLVIMENTO obtenção dos objetivos.
Para inferir sobre a atuação das associações As estruturas em redes são configurações de
de redes de economia solidária e as relações relacionamentos interorganizacionais e se
que estas mantem com outras organizações é configuram em diversos setores e todas as
necessária uma reflexão teórica a partir de escalas de produção (AMATO, 2000;
uma abordagem que nos possibilite visualizar BALESTRIN & VARGAS, 2004). Para Fombrun
a vida econômica dos indivíduos (neste caso, (1997) o conceito de rede tem sido
os agricultores familiares) enquanto peça empregado para caracterizar um conjunto de
constituinte primordial no enredo das relações fluxos seja de recursos, informações, pessoas
sociais que permeia a sociedade, ou seja, a ou firmas. Nesse sentido, o termo rede pode
economia não deve ser visualizada como ser definido como conjunto de nós
parte independente da vida social (POLANYI, interconectados, ou numa perspectiva das
2000). ciências sociais como um conjunto de
pessoas ou organizações interligadas
Essa inserção social das ações econômicas e
diretamente ou indiretamente (CASTELLS,
a influência destas relações sociais nos
1997; FOMBRUN, 1997; MARCON e MOINET,
resultados econômicos é observado a partir
2000).
de um viés sociológico sob o cenário de
formação de redes (GRANOVETTER, 1994). A A amplitude do conceito de rede dá abertura
discussão encontra-se base na nova para que o mesmo possa ser aplicado em
sociologia econômica com importância diversas áreas do conhecimento. O conceito
considerável as relações sociais para o de rede social pode ser analisado como “um
desenvolvimento de territórios conjunto de participantes autônomos, unindo
(GRANOVETTER, 2003) e na análise de forças ideias e recursos em torno de valores e
centrífugas e centrípetas dos espaços interesses compartilhados” (MARTELETO,
territoriais com base na teoria da nova 2001, p. 72). Ernst (1994) sintetiza várias
Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 2
144
3

informações sobre a formação de redes na base que na sua maioria são formados por
economia global e entre suas classificações famílias de poder econômico mais baixo. Esse
ele define a “rede de produtores” como esforço visa a valorização do potencial
aquele grupo que abrange todos os criativo e mobilizados das comunidades que
produtores concorrentes unidos por meio de são atendidas, como forma de superar os
seus recursos disponíveis para ampliar sua limites existentes.
capacidade produtiva. Tal fato nos dá a visão
As redes de economia solidária têm sido
de que a rede se estabelece caracterizada
consolidadas como espaço para o
pela sua horizontalidade e cooperação
fortalecimento dos processos produtivos e de
(COSTA et al, 2003).
comercialização integrando consumidores,
No caso da associação em redes de produtores e prestadores de serviço numa
economia solidária, os pressupostos teóricos mesma organização. Logo, as redes podem
são essenciais para compreender a formação ser analisadas de diversas maneiras. Mance
e atuação dessas instituições que precisam (2001) as classifica de acordo com as
definir estratégias de conservação das seguintes configurações, conforme Figura 1:
relações sociais e econômicas que sejam
sustentáveis para subsidiar os agentes da

Figura 1: Configuração de Redes Solidárias

Fonte: Mance (2001)

Para MANCE (2001), as redes de economias desenvolvimento local. Sob a ótica de redes
solidárias podem ser classificadas como associativistas ou redes de cooperação,
centralizadas, quando a informação segue em Scherer-Warren (2001) as conceitua como
direção a um ponto central e depois é modelos organizados de ação conjunta,
distribuída; descentralizada formando elaboradas por sujeitos sociais em torno de
múltiplas ligações onde há diferentes grupos objetivos comuns. A diversas formas de
interagindo ou mesmo rede distribuída onde a associativismo surgidos principalmente a
informação corre de um ponto a outro, partir da década de 1980, com base em
fazendo uma interligação mais complexa. movimentos sociais, tem-se transformado em
Quanto maior a intensidade e extensão das estratégias alternativas as políticas públicas
redes, melhor será a integração do grupo e para o desenvolvimento regional e a
maior será seu crescimento. permanência das pessoas no meio rural
(KUNZLER, 2017).
As organizações de economia solidária
possuem características funcionais na sua A intensa interação das relações sociais
gestão e se propõe a articulação de sustenta os processos de mediação com os
estratégia de inovação das redes no agentes na busca pela mudança de sua
Sustentabilidade e Responsabilidade Social em Foco - Volume 2
145
3

própria realidade. No caso das associações, vida digna. No entanto, apesar destas
as interações se constituem mergulhadas em dimensões serem a mais recorrentes há
redes sociais, as quais se mantem pela discordâncias quanto a estas conceituações,
articulação, pelos laços de confiança já que alguns autores consideram dimensões
existente e pela proximidade entre os políticas, éticas, culturais entre outras
agricultores e as organizações. Dessa forma, (NASCIMENTO, 2012).
as propostas e os processos de
Apesar de não haver uma única definição,
desenvolvimento local são dinamizados e
Klink (2001) reitera que o termo
compartilhados no centro das relações
sustentabilidade engloba o crescimento e
estabelecidas (DE FREITAS e DE FREITAS,
desenvolvimento econômico com a
2015).
conservação ambiental. Logo, as três
A interação das redes sociais não são, no dimensões podem ser analisadas a partir de
entanto, garantias de eficiência no três grandes objetivos: a eficiência
desenvolvimento ou mesmo a solução para o econômica, igualdade social e a integridade
desenvolvimento econômico, é necessário ambiental. Tais objetivos corroboram para as
que ela apresenta algumas características premissas do desenvolvimento sustentável e
que lhe proporcione uma vantagem estratégico das organizações (Sachs, 1993,
competitiva diante do cenário econômico. 2002).
A propagação do conceito de
desenvolvimento sustentável trouxe para as
2.2 REDE SOLIDÁRIA E O
organizações a reflexão sobre os impactos
DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL
sociais e ambientais oriundos de sua
O conceito de desenvolvimento sustentável atividade, retornando para uma visão mais
tem sido o centro de muitas discussões individual e microeconômico (Hall et al, 2010).
principalmente a partir dos anos 1980 com a O novo paradigma para o desenvolvimento
Conferência da Organização das Nações sustentável requer construir consensos e
Unidas (ONU) e a edição do relatório de superar impasses ambientais. A ideia do
Brundtland que conceituou o desenvolvimento desenvolvimento sustentável elucida novos
sustentável como “aquele que atende às valores e princípios e propicia a construção
necessidades do presente sem comprometer de novos paradigmas que norteiam ações e
a possibilidade das gerações futuras práticas coletivas.
atenderem a suas próprias necessidades”
Em outras palavras, Andion (2003) relata que
(WCED, 1987).
o conceito de desenvolvimento vem sendo
A definição de desenvolvimento sustentável redefinido e a reestruturação de suas bases
aponta para uma ponderação entre as vem acompanhado da crescente atuação das
gerações, presente e futura, e preconiza a redes locais como agentes promotoras do
necessidade de adequações econômicas e desenvolvimento sustentável. Tais relações
uso adequado dos recursos naturais, são apontadas como a própria substancia do
propondo uma harmonização dos objetivos de espaço local, podendo ser determinantes
desenvolvimento a curto e longo prazo. O para a dinâmica do desenvolvimento de
foco do desenvolvimento sustentável é que região. A compreensão do funcionamento das
tipo de desenvolvimento se pretende, em redes, enquanto estratégia de ação coletiva
contraposição a simples expansão econômica pode ser vista como agente de transformação
(WCED, 1987). social de um determinado local (ANDION,
2003).
A concepção de desenvolvimento sustentável
alia desenvolvimento econômico, social e Nessa acepção,