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Editora Poisson

Gestão da produção em foco


Volume 4

1ª Edição

Belo Horizonte
Poisson
2018
Editor Chefe: Dr. Darly Fernando Andrade

Conselho Editorial

Dr. Antônio Artur de Souza – Universidade Federal de Minas Gerais


Dra. Cacilda Nacur Lorentz – Universidade do Estado de Minas Gerais
Dr. José Eduardo Ferreira Lopes – Universidade Federal de Uberlândia
Dr. Otaviano Francisco Neves – Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais
Dr. Luiz Cláudio de Lima – Universidade FUMEC
Dr. Nelson Ferreira Filho – Faculdades Kennedy

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)


G393
Gestão da Produção em Foco– Volume 4/
Organização Editora Poisson – Belo
Horizonte - MG : Poisson, 2018
235p

Formato: PDF
ISBN: 978-85-93729-42-3
DOI: 10.5935/978-85-93729-42-3.2018B001

Modo de acesso: World Wide Web


Inclui bibliografia

1. Gestão da Produção 2. Engenharia de


Produção. I. Título

CDD-658.8

O conteúdo dos artigos e seus dados em sua forma, correção e confiabilidade


são de responsabilidade exclusiva dos seus respectivos autores.

www.poisson.com.br

contato@poisson.com.br
Logística reversa: rede de recuperação de produtos eletroeletrônicos ..... 7
Capítulo 1:
Cláudia Scoton Antonio Marques, Fabiano Martin Tiossi, Alexandre Tadeu Simon, Carlos
Roberto Minussi

Determinação da faixa da taxa de ocupação dos berços de uma base de


Capítulo 2: dutos flexíveis que minimize os custos operacionais ................................ 17

Pedro Chaves Meurer Moreira, Hostilio Xavier Ratton Neto, Pedro Henrique Maciel Lopes

Métodos de custeio abc aplicado a soja transgênica, pelos sistemas


agrícolas convencional e de precisão, na cidade de dourados. ............... 28
Capítulo 3:
Karoline Arguelho da Silva, Anamari Viegas de Araujo Motomiya, Maiara Pusch, Antonio
Carlos Vaz Lopes, Fabiana Raupp

Relação entre crescimento econômico e gastos públicos dos municípios


Capítulo 4: da região sul do brasil ............................................................................ 39

Larissa Degenhart, Mara Vogt, Nelson Hein, Adriana Kroenke

Controle de Qualidade no Processo de Lixamento de uma Indústria


Moveleira ............................................................................................... 59
Capítulo 5:
Matheus de Lima Goedert, Larissa Sonda Rigon, Marina Moreira Cunha, Neusa Idick
Scherpinski

O gerenciamento da informação na cadeia de suprimentos de uma


empresa do setor alimentício: uso de jogos empresariais para a
Capítulo 6: otimização do sistema logístico .............................................................. 68

Kezia Sayoko Matsui Pereira, Bárbara Helen Rodrigues Ramires Seribeli, Eduardo Baches,
Rayssa de Andrade Pache, Renan Mitsuo Ueda

Mapeamento do fluxo de valor: Um estudo de caso em um laboratório de


Capítulo 7: análises clínicas ..................................................................................... 80

Daniel Ribeiro Gomes, Gustavo Henrique Vaz Camargo, Naiara Faiad Sebba Calife
Comportamento das empresas brasileiras frente ao processo de
certificação ISO 9001: Um levantamento teórico ...................................... 92
Capítulo 8:
Rayane Ester Felício Santiago, Luciano Wallace Gonçalves Barbosa, Amanda Daniele de
Carvalho, Farney Vinícius Pinto Souza

Padronização em projetos e processos de montagem de moldes de


injeção termoplástica ............................................................................. 101
Capítulo 9:
Alex Orben, Emerson José Corazza, Gilson João dos Santos, Renato Cristofolini, Rosalvo
Medeiros

Value Strean Mapping (VSM); como enxergar as perdas nos processos


produtivos para eficácia da melhoria continua ......................................... 112
Capítulo 10:
Alexandro Gilberto da Silva, Eduardo Gonçalves Magnani, Geraldo Magela Pereira da Silva,
Nelson Ferreira filho

Técnicas Quantitativas de Previsão de Demanda: um Estudo de Caso em


um Estabelecimento Comercial ............................................................... 123
Capítulo 11:
Vander Luiz Da Silva, Thamara Martim, Andressa Maria Corrêa, Camila Maria Uller, Rony
Peterson da Rocha

A importância da elaboração de inventários de gases de efeito estufa


para evitar o aquecimento global. Análise das iniciativas internacionais e
Capítulo 12: nacionais. .............................................................................................. 131

Cláudia Virgínia M. de Freitas

Comprar ou alugar computadores? Um modelo multicritério aplicado a


Instituições Públicas de Ensino ............................................................... 142
Capítulo 13:
Bruno Rabbi, Claudio José Fidelis de Azevedo, Fernando Cerutti Aguiar, Luciana Iglesias de
Castro Silva, Milton Erthal Junior
Avaliação da qualidade de colagem das lâminas de shapes de skates
Capítulo 14: utilizando ensaios de cisalhamento da lâmina interna .............................. 151

Rodrigo de Mata Marangon, Marilia da Silva Bertolini, César Augusto Galvão de Morais

Aplicação do masp para o desenvolvimento de um plano de ação para


resolução de problemas em uma empresa de premoldados .................... 159
Capítulo 15:
Rômulo de Arêa Leão Araújo Sobrinho, Belchior Rodrigues dos Santos Neto, Mariana Silva
Moura, Maria Clara Almendra Freitas Cortez, Francismilton Teles

Centro de distribuição: análise e melhoria de processos .......................... 170


Capítulo 16:
Julierme Italo Garcia do Nascimento, Érico Diego da Silva Dos Reis, Sandra de Souza Xavier,
Ana Flávia Rezende

Metaheurística lahc aplicada ao problema de localização de máxima


Capítulo 17: cobertura ............................................................................................... 179

Helton Cristiano Gomes, Cristiano Luís Turbino de França e Silva

Relações entre logística, estrutura e cultura organizacional: estudo de


Capítulo 18: caso em multinacional produtora de bebidas .......................................... 188

Lucas Gabriel Zanon, Fernando César Almada Santos

Painéis particulados de resíduos madeireiros e adesivo poliuretano a


base de biomassa: produção e caracterização ....................................... 199
Capítulo 19:
Fabiana Haddad Bistane, Letícia Lima Viana, Laura Gabriele Rodrigues da Costa Carvalho,
César Augusto Galvão de Morais, Marilia da Silva Bertolini

Aplicação da metodologia do pdca no gerenciamento do processo de


lubrificação operacional para melhoria e suporte de resultados em uma
Capítulo 20: refrigeranteira ........................................................................................ 207

Lucas Martins Franco, Márcio Dimas Ramos, Carlos Henrique Oliveira, Henrique Duarte
Carvalho, Sandra Miranda Neves, ,
Autores ...................................................................................................................... 221
CAPÍTULO 1
Cláudia Scoton Antonio Marques
Fabiano Martin Tiossi
Alexandre Tadeu Simon
Carlos Roberto Minussi

Resumo: Nas últimas décadas, o desenvolvimento de novas tecnologias e de novos


materiais, bem como a redução dos custos de embalagens, computadores,
eletrodomésticos, carros entre outros, contribuíram para a redução do ciclo de vida
dos produtos e uma tendência a descartabilidade, levando a um dos maiores
problemas ambientais: os resíduos sólidos. Os resíduos de equipamentos
eletroeletrônicos (REEE) também fazem parte deste contexto pois, após esgotadas
todas as possibilidades de reparo, atualização ou reuso, serão considerados “lixo
eletrônico” (e-lixo) e são atualmente um dos maiores problemas ambientais no
mundo e com elevado índice de crescimento. Visando demonstrar alternativas para
tal problema, esse estudo tem como objetivo geral apresentar como é desenvolvida
uma rede de logística reversa dos resíduos eletroeletrônicos e, metodologicamente,
terá como base a pesquisa bibliográfica. Pelos resultados, nota-se a dimensão dos
inúmeros problemas ambientais relacionados aos resíduos eletroeletrônicos no
mundo, e percebe-se que canais de distribuição reversos são alternativas viáveis
para que estes retornem ao seu ponto de origem minimizando os prejuizos ao meio
ambiente, dentre outros fatores. No decorrer do estudo, são apresentadas algumas
estruturas de rede de logística reversa, como forma de contribuir para um processo
de retorno dos produtos ao seu destino legal.

Palavras chave: Logística reversa, lixo-eletrônico, redes de logística reversa.

Gestão da Produção em Foco - Volume 4


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1. INTRODUÇÃO sólidos urbanos, pois é uma tarefa complexa,


uma vez que é preciso gerir a quantidade e
De acordo com Ballou (2009), a concepção
heterogeneidade dos materiais, bem como
logística do agrupamento de atividades
onde serão tratados e descartados. A
associada ao fluxo de produtos e serviços foi
escassez de locais e a elevação das
resultado da evolução natural do pensamento
distâncias percorridas para a destinação final
administrativo. Na economia mundial, os
dos resíduos são fatores também observados
sistemas logísticos são tidos como bases para
(WOLFER, SANDER E GOGOLL, 2011;
o comércio, em especial nos países
OLIVEIRA, 2011).
desenvolvidos como Estados Unidos e Japão
que trocam mercadorias livremente devido ao A partir desse cenário pode-se perceber a
alto nível de eficiência de seus sistemas dimensão dos inúmeros problemas
logísticos. ambientais relacionados aos resíduos
eletroeletrônicos no mundo. Mas existem
Nas últimas décadas, o desenvolvimento de
saídas para minimizar ou reduzir esses
novas tecnologias e materiais, bem como a
impactos. Entre elas encontra-se a logística
redução dos custos de embalagens,
reversa.
computadores, eletrodomésticos, carros entre
outros, contribuíram para a geração de A logística reversa permite que produtos pós-
produtos com ciclos de vida útil cada vez consumo ou parte de seus componentes
mais curto e com forte tendência à retornem ao ciclo produtivo por meio dos
descartabilidade, levando a um dos maiores canais reversos de distribuição, ou seja,
problemas ambientais do planeta: os resíduos desmanche, reciclagem e reuso, agregando-
sólidos. se valores a esses produtos ou, ainda, sejam
enviados a destinos finais adequados (aterro
Confirma-se isso ao se analisar a Pesquisa
sanitário ou incineração com recuperação
Nacional de Saneamento Básico (PNSB)
energia).
realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia
e Estatística – IBGE (2008), que revelou que a Este estudo tem como objetivo geral
produção diária de lixo era de 170.000 apresentar como é desenvolvida uma rede de
toneladas por dia. Em 2011 esse valor já havia logística reversa dos resíduos
crescido 7,6%, chegando a 183.000 eletroeletrônicos e, metodologicamente, terá
toneladas por dia. Desse montante o país como base a pesquisa bibliográfica que,
reaproveita apenas 13% - cinco vezes menos segundo Marconi e Lakatos (2006), abrange
do que os países desenvolvidos. (CEMPRE, toda a bibliografia já tornada pública em
2012) e o país perde cerca de R$ 8 bilhões relação ao tema em estudo, com o propósito
por ano por deixar de reciclar os resíduos de colocar o pesquisador em contato direto
urbanos (IPEA, 2011). com o que existe sobre determinado assunto.
Os resíduos de equipamentos
eletroeletrônicos (REEE) também fazem parte
2. DA LOGÍSTICA EMPRESARIAL À
deste contexto, ao fim de sua vida útil, ou
LOGÍSTICA REVERSA
seja, após esgotadas todas as possibilidades
de reparo, atualização ou reuso, serão As atividades da logística podem ser
considerados “lixo eletrônico” (e-lixo) e são compreendidas como uma das mais antigas
atualmente um dos maiores problemas atividades humanas. Utilizada inicialmente no
ambientais no mundo, com elevado nível de campo militar, a logística servia como
crescimento. estratégia para a vantagem competitiva
durante as guerras, visando colocar os
Segundo o relatório Reciclando - Do lixo
recursos certos no local certo e na hora certa,
eletrônico a recursos, divulgado pelo
com apenas uma finalidade: vencer batalhas
Programa das Nações Unidas para o Meio
(MARTINS E ALT, 2009).
Ambiente (PNUMA, 2010), o mundo gera 40
milhões de toneladas de lixo eletrônico por Caxito (2011) corrobora essa afirmação ao
ano e, até 2020, esse número deve crescer mencionar que o desenvolvimento da logística
entre 200% a 400%. E segundo Estrada deu-se nas forças armadas, sendo a parte da
(2005), apenas 11% desse lixo é reciclado no guerra que trata do planejamento,
mundo. desenvolvimento, obtenção, armazenamento,
transporte, distribuição, reparação,
A recuperação e eliminação de REEE é um
manutenção e evacuação de materiais
grande desafio para a gestão de resíduos

Gestão da Produção em Foco - Volume 4


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destinados a ajudar o desempenho de interligadas com as estruturas logísticas


qualquer função militar. existentes.
Entretanto, a evolução industrial – em especial
a partir da Segunda Guerra Mundial -
2.1 LOGÍSTICA REVERSA
introduziu gradativamente ao longo de sua
história a logística como atividade Ao longo dos anos, diversas definições sobre
empresarial, concebida para agrupar o assunto foram surgindo. Para o C.L.M.
conjuntamente as atividades relacionadas ao ( 1993, p.323): “Logística reversa é um amplo
fluxo de produtos e serviços (BALLOU, 1993; termo relacionado às habilidades e atividades
LEITE, 2009). Somente na década de 1990, o envolvidos no gerenciamento de redução,
conceito da logística despertou o interesse movimentação e disposição de resíduos de
dos gestores como diferencial estratégico e produtos e embalagens(...)”. Stock (1998,
base para a competitividade, somando com p.20) a define como: “ Logística Reversa: em
as operações dos departamentos de vendas, uma perspectiva de logística de negócios, o
marketing e finanças, contribuindo em grande termo refere-se ao papel da logística no
escala para uma gestão eficaz da cadeia de retorno de produtos, redução na fonte,
abastecimento de materiais e recursos reciclagem, substituição de materiais, reuso
essenciais a qualquer operação. de materiais, disposição de resíduos, reforma,
reparação e remanufatura (...). ” Para Rogers
O cenário econômico globalizado e
e Tibben-Lembke (1999, p.2) a Logística
competitivo fez com que as empresas
Reversa é definida como: “Processo de
aprimorassem suas práticas de gestão de
planejamento, implementação e controle da
forma estratégica, tendo como finalidade
eficiência, do custo efetivo do fluxo de
garantir sua perenidade e evolução no
matérias-primas, estoques de processo,
mercado, criando mecanismos para sua
produtos acabados e as respectivas
diferenciação entre as demais concorrentes,
informações, desde o ponto de consumo até o
agregando valores aos clientes e
ponto de origem, com o propósito de
consumidores ao satisfazer suas
recapturar valor ou adequar o seu destino”
necessidades.
De acordo com a Política Nacional de
Com o crescimento das operações e as
Resíduos Sólidos (Lei nº 12.305, 2010) a
constantes evoluções do cenário
logística reversa ainda é definida como:
organizacional, questões ambientais foram
Instrumento de desenvolvimento econômico e
inseridas na pauta administrativa em virtude
social caracterizado por um conjunto de
dos impactos que os processos produtivos e
ações, procedimentos e meios destinados a
a prestação de serviços causaram e ainda
viabilizar a coleta e a restituição dos resíduos
causam no meio ambiente, sendo as
sólidos ao setor empresarial, para
empresas apontadas como as principais vilãs
reaproveitamento, em seu ciclo ou em outros
desses impactos (LEMES JÚNIOR E PISA,
ciclos produtivos, ou outra destinação final
2010). Uma preocupação crescente foi a de
ambientalmente adequada.
atender às exigências governamentais que
por meio de leis disciplinaram o descarte Fleischmann (2001) define logística reversa
inadequado de resíduos decorrentes do como um processo de planejamento,
processo produtivo, bem como a implementação e controle eficiente e efetivo
sensibilidade dos consumidores em contribuir dos diferentes estágios de retorno de
com a diminuição desses impactos produtos ao seu ponto inicial. Ao final do seu
ambientais ao consumir e adquirir produtos ciclo de vida, diversas são as alternativas
de empresas engajados no trato ambiental. encontradas para um produto.
É neste cenário que surge a logística reversa O gerenciamento das operações que
como uma área da logística que planeja, compõem a logística reversa faz parte da
organiza, executa e controla os canais de Administração da Recuperação de Produtos –
retorno de bens pós-uso e pós-consumo a um Product Recovery Management (PRM). Para
ciclo produtivo. Thierry et al. (1995, p.117) PRM é definido
como: “o gerenciamento de todos os
Do ponto de vista logístico, a logística reversa
produtos, componentes e materiais usados e
tem suas próprias características, diferentes
descartados pelo qual uma empresa
das de um sistema logístico. Em muitos
fabricante é responsável legalmente,
casos, redes logísticas reversas não são
criadas de forma independente, mas estão

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contratualmente ou por qualquer outra após seu conserto. O processo de


maneira”. Refurbishing (Renovação) é quando o produto
é atualizado pelo fabricante original para que
Ainda para Thierry et al. (1995, p.117)
atinja padrões de qualidade e operação
algumas das atividades da PRM são, em
similares ao produto original. E no processo
parte, similares àquelas que ocorrem no caso
de remanufatura os produtos são
de devoluções internas de itens defeituosos
completamente desmontados e todos os
devido a processos de produção não
módulos e partes examinados em detalhe. A
confiáveis. Assim, o objetivo da PRM é a
Figura 1 mostra o diagrama de fluxo básico
recuperação de valor econômico e ecológico
de atividades de logística reversa.
dos produtos, componentes e materiais.
No processo de recuperação, reparo significa
que o produto é retornado ao estado funcional

Figura 1 - Diagrama do Fluxo Básico da Logística Reversa

Fonte: Adaptado de Wang, Yin, Ma, (2008)

No ambiente economicamente globalizado, o possível o retorno de bens ou de seus


desempenho ambiental, a competitividade componentes ao ciclo produtivo. Tem como
nos negócios e a busca por resultados finalidade também planejar redes reversas e
financeiros são preocupações crescentes no operar o fluxo reverso desde a coleta dos
dia-a-dia das empresas. bens até a sua disposição final, seja para a
reintegração do bem ao ciclo produtivo ou o
Dentre os impactos causados pelos
descarte.
processos da logística reversa no contexto
organizacional, destacam-se a proteção ao
meio ambiente; a diminuição dos custos; a
3. REDE LOGÍSTICA PARA RECUPERAÇÃO
melhora na imagem da empresa perante o
DE PRODUTOS
mercado; aumento da competitividade e
consequentemente o aumento dos lucros, A Logística Reversa é uma área nova e, em
retenção e fidelização de clientes; e o muitos casos, novas redes precisam ser
atendimento às questões legais impostas pelo definidas. A infraestrutura das redes reversas
governo e sociedade (LEITE, 2009). precisa coletar os produtos usados,
transportá-los para triagem e eventualmente
O objetivo principal da Logística Reversa é
encaminhá-los para outro uso. Algumas
agregar valores econômicos, ecológicos e
questões a respeito disto precisam ficar
legais ao produto retornado, ou seja, tornar
claras como: qual o número de camadas na

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rede; o número e a localização de depósitos  Redes para remanufatura de


ou pontos intermediários; pontos de coleta; produtos: a remanufatura geralmente
enfim a estrutura da rede reversa pode ser é aplicada a equipamentos
vista como o elo da integração entre a complexos ou maquinário com muitas
Logística Empresarial e Logística Reversa. partes;
Fleischmann (2001, p. 46) afirma que:  Redes para reciclagem de produtos:
o tipo de material a ser reciclado,
A etapa de retorno ou coleta caracteriza-se
resíduos, embalagem e produtos
pela participação dos canais de retorno e
usados definem o tipo de rede de
passou a chamar a Logística Reversa de
reciclagem.
“Rede de Recuperação de Produtos”. A partir
de então, o valor é adicionado ao produto e A necessidade de implantar uma rede de
este se move do produtor (que recuperou o recuperação de produtos pode surgir devido
produto) para o usuário como na cadeia à necessidade de se substituir, parcialmente
tradicional. ou integralmente, no processo de produção,
materiais que eram normalmente extraídos da
A necessidade de implantar uma rede de
natureza. Esses materiais ou recursos
recuperação de produtos pode surgir devido
secundários são resíduos, produtos usados
à necessidade de se substituir, parcialmente
ou componentes de produtos usados, que
ou integralmente, no processo de produção,
não são dispostos em aterros, mas são
materiais que eram normalmente extraídos da
retornados para o mesmo processo ou para
natureza. Esses materiais ou recursos
outro processo de produção.
secundários são resíduos, produtos usados
ou componentes de produtos usados, que Realizar planejamento de coleta e
não são dispostos em aterros, mas são recuperação de produtos pode ser uma tarefa
retornados para o mesmo processo ou para de grandes esforços, pois a forma de
outro processo de produção. recuperação e a seqüência do processo
geralmente dependem da quantidade e da
As operações de retorno bem geridas são
qualidade em que se encontra o produto no
capazes de reduzir a taxa de esgotamento de
momento da entrada para o processo de
recursos naturais assim como permite
recuperação.
recuperar materiais que podem ser usados
para produzir novas peças e produtos e Fleischmann (2001) afirma que a etapa de
reduzir a taxa de poluição terrestre. retorno ou coleta caracteriza-se pela
participação dos canais de retorno e passou a
chamar a Logística Reversa de “Rede de
3.1 TIPOS DE REDES DE RECUPERAÇÃO Recuperação de Produtos”. A partir de então,
DE PRODUTOS o valor é adicionado ao produto e este se
move do produtor (que recuperou o produto)
As redes de recuperação apresentam alguns
para o usuário como na cadeia tradicional. A
fatores discriminantes como a complexidade
Figura 2 descreve o processo. Para esse
da rede e a incerteza quanto à quantidade e
autor as redes de recuperação de produtos
qualidade do material para recuperação na
podem ser estruturadas do seguinte modo:
entrada do processo de recuperação.
fase de coleta e aquisição; fase de
Portanto, percebe-se que para uma
redistribuição; tipo de estrutura.
organização compor a sua rede de
recuperação é fundamental que ela conheça
o tipo de produto a ser recuperado, sem
esquecer de definir os envolvidos e
principalmente verificar se há mercado para o
produto recuperado (THIERRY,1995).
Fleischmann (2001, p.52), baseado na forma
de reprocessamento propôs os seguintes
tipos de redes de recuperação:
 Redes para itens reutilizáveis:
Embalagens, contêineres e PETs são
itens típicos para reuso, pois podem
ser reutilizados sem muito trabalho;

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Figura 1 - Diagrama do Fluxo Básico da Logística Reversa.

Fonte: Adaptado de Wang, Yin, Ma, (2008)

Para Thierry et al (1995) e Fleischmann (2001, produto e as opções de recuperação.


p. 51), “as redes de recuperação de produtos Produtos e materiais podem ser
envolvem centros de triagem, reusados pela própria empresa ou por
reprocessamento e empresas de outras empresas. Verifica-se o
gerenciamento de resíduos”. As informações comportamento dos fornecedores de
para o gerenciamento dessas redes podem serviços, política de mercado e
ser classificadas em 4 categorias: clientes. Essas responsabilidades
podem definir diferentes locais para a
 Informação sobre a característica do
rede reversa A incerteza aqui causa
produto: as características físicas e
pesados danos no sistema da
econômicas do produto são
Logística Reversa;
interessantes tanto para descarte
quanto para escolha da opção de  Informação sobre equipamentos de
recuperação; recuperação de produto e operações
de gerenciamento de resíduos:
 Informação sobre a magnitude e
envolvem equipamentos de
incerteza dos fluxos de retorno: o
recuperação e recursos humanos.
retorno de produtos usados pelo
Deve considerar quais as
fabricante pode ter várias motivações,
organizações envolvidas, os
como cumprimento de legislação
obstáculos, as quantidades de
ambiental, produtos com falha técnica
produtos processados (para cada
dentro da garantia etc. A disposição
recuperação de produto e opção de
de um produto geralmente apresenta
gerenciamento de resíduo), custos,
dúvidas, portanto, o fabricante deve
rendimentos e impactos ambientais de
avaliar as expectativas de quantidades
todo o processo. Os aspectos
esperadas, qualidade, localização e
relevantes são flexibilidade e custos.
tempo de retorno para cada rede de
recuperação;  De acordo com Fleischmann (2001) a
principal característica das redes de
 Informações sobre mercados para
recuperação é a incerteza. A questão
produtos, componentes, e materiais
era apenas se os modelos são flexíveis
recuperados: deve-se avaliar os
o bastante para incluir os aspectos de
mercados potenciais para cada

Gestão da Produção em Foco - Volume 4


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recuperação dos produtos. Por isso ao surge no fornecimento. Em um sistema


analisar a literatura sobre o assunto, o tradicional de produção-distribuição, o
autor (op.cit.) fez uma análise suprimento é uma variável controlada na qual
quantitativa das redes de recuperação o tempo, quantidade e qualidade da
e formulou um modelo genérico de distribuição podem ser controlados de acordo
acordo com características e modelos com a necessidade do sistema. Em contraste
encontrados na literatura. O autor cita com o sistema de recuperação onde os
que as redes de recuperação formam suprimentos apresentam incertezas quanto à
um elo entre dois mercados: um qualidade, quantidade e tempo de retorno do
mercado onde o recuperador recolhe produto e por isso podem ser difíceis de
produtos utilizados e um mercado de controlar. Desse modo, os suprimentos
reutilização onde se vendem produtos aparecem como sendo a maior distinção entre
recuperados. a rede para recuperação de produtos e a
tradicional.
 Na estrutura da rede desenvolvida
foram considerados três níveis Outro ponto importante é que fluxos reversos
intermediários de instalações: centros estão envoltos em um nível de incerteza
de separação, local em que as considerável. Ao se definir um sistema de
atividades de separação e inspeção Logística Reversa, a incerteza sobre
são executadas; fábricas para o quantidade e qualidade se torna bastante
reprocessamento de bens e armazéns relevante (THIERRY et al.,1995).
de distribuição. No entanto,
A diferença na distribuição entre a rede
Fleischmann (2001) distinguiu dois
tradicional e a reversa é pequena. A incerteza
tipos de disposição final – recuperação
na demanda para produtos recuperados
e disposição – pois a recuperação
produz essa situação. Possivelmente quando
pode não ser possível para todos os
o mercado para produtos recuperados se
produtos coletados, o que é relevado
estabelecerem e a rede para recuperação de
durante a inspeção nos centros de
produtos se tornarem padrão na cadeia de
triagem.
suprimentos esta diferença tenderá a
 O modelo da estrutura da rede de desaparecer.
recuperação é mostrado na Figura 3.
Todos estes fatores levam a concluir que um

Figura 3 – Estrutura de um modelo genérico de rede de recuperação.

Fonte: Fleischamnn (2001, p. 64)

Para Fleischmann (2001, p. 69), “as estruturas sistema de Logística Reversa, embora envolva
das redes de recuperação incluem a escolha os mesmos elementos básicos de um sistema
de métodos de coleta, localização e logístico tradicional, deve ser planejado e
capacidade de armazenamento, operações executado em separado e como atividade
de recuperação e distribuição”. Comparando independente.
estas tarefas com as redes convencionais de
produção-distribuição, a maior diferença

Gestão da Produção em Foco - Volume 4


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3.2 REDE REVERSA PARA REEE Segundo Miguez (2010), o relatório


apresentado pelo Grupo de Ação Basel (The
3.2.1 RESÍDUOS ELETROELETRÔNICOS
Basel Action Network – BAN) em 2005, 75%
(REEE)
dos equipamentos de informática exportados
O lixo eletrônico é considerado resíduo ou para os países africanos eram lixo, ou seja,
resto de produto eletroeletrônico. Pode ser não era economicamente viável seu
divididos em quatro categorias amplas reaproveitamento.
(FEAM, 2009):
Existem marcos regulatórios em relação ao e-
 Linha Branca: refrigeradores e lixo, entre eles a: WEEE (Waste Electrical and
congeladores, fogões, lavadoras de Electronic Equipament) desenvolvido pela
roupa e louça, secadoras, União Européia em 2003 com a finalidade de
condicionadores de ar; reduzir os níveis de lixo eletrônico descartado
nos aterros, e fornece diretrizes para a
 Linha Marrom: monitores e televisores
recuperação e a reciclagem de produtos
de tubo, plasma, LCD e LED,
eletroeletrônicos; e RoHS (Restriciton on the
aparelhos de DVD e VHS,
use of Hazardous Substances) promulgada
equipamentos de áudio, filmadoras;
em 2004 e aplicada a partir de 2006 para a
 Linha Azul: batedeiras, substituição de algumas substâncias nos
liquidificadores, ferros elétricos, produtos eletroeletrônicos visando reduzir o
furadeiras, secadores de cabelo, impacto ambiental durante a disposição e a
espremedores de frutas, aspiradores reciclagem (LEITE, 2009; MIGUEZ, 2010).
de pó, cafeteiras;
Já no Brasil a PNRS, sancionada em agosto
 Linha Verde: computadores desktop e de 2010, direciona as ações dos Municípios
laptops, acessórios de informática, quanto aos resíduos sólidos gerados em seu
tablets e telefones celulares. território. Introduz a responsabilidade
compartilhada (fabricantes, revendedores,
Ao fim de sua vida útil, esses produtos
governo, consumidores e recicladores) e dá
passam a ser considerados resíduos de
destaque a logística reversa, mas deixou uma
equipamentos eletroeletrônicos (REEE), ou
lacuna para o tratamento dos resíduos sólidos
simplesmente lixo eletrônico (e-lixo). Mas só
especialmente do lixo eletrônico. Todas as
chegam a esse ponto uma vez esgotadas
medidas previstas na PNRS visam à
todas as possibilidades de reparo,
prevenção ambiental e estão em consonância
atualização ou reuso.
com os objetivos do desenvolvimento
A indústria de eletrônicos é a que mais cresce sustentável.
no mundo. A busca por novas tecnologias
A recuperação do valor desses bens de
que atendam às necessidades dos clientes
consumo, após o uso, está se tornando uma
faz com que os produtos tenham um ciclo de
necessidade. A logística reversa apresenta-se
vida reduzido. Segundo o PNUMA (2010),
como uma estratégia para reduzir e reutilizar
entre 20 e 50 milhões de toneladas de “lixo
os resíduos, agregando valor aos bens pós-
eletrônico” são gerados por ano.
consumo. Não pode ser vista apenas como a
Sob o ponto de vista ambiental, o lixo ferramenta para auxiliar a coleta de produtos
eletrônico se configura em um grave pós-consumo, mas sim como uma estratégia
problema, desde a sua produção até o seu de gerenciamento de todo o caminho
descarte. Para serem produzidos, os percorrido pelo produto após o uso até o seu
computadores e outros aparelhos consomem descarte final (LEITE, 2009).
uma enorme quantidade de recursos naturais,
água e energia. Segundo Kuehr e Willians
(2003 apud Miguez, 2010) para fazer um 3.2.2 REDE REVERSA PARA REEE
computador pessoal (PC) usa-se: 240kg de
Devido à redução dos ciclos de vida dos
combustível fóssil (cerca de 9 vezes o peso
produtos eletrônicos e o crescente consumo,
do computador), 22 kg de produtos químicos
a recuperação do valor destes bens, após o
e 1.500kg de água, 80% do consumo de
uso, tornou-se essencial. A preocupação com
energia está na sua fabricação, enquanto
o meio ambiente e a busca por um
apenas 20% da energia são gastos durante o
desenvolvimento sustentável surgiu como um
uso.
paradigma importante na concepção de todas
as políticas sociais e econômicas, sejam

Gestão da Produção em Foco - Volume 4


15

públicas ou privadas. Logo, a logística É importante reconhecer que a logística


reversa se apresenta como uma estratégia reversa só começa quando um consumidor
para reduzir e reutilizar resíduos estando em de fato descarta o seu equipamento
consonância com os princípios de um eletroeletrônico.
desenvolvimento sustentável.

4. CONSIDERAÇÕES FINAIS dispostos e aos benefícios ao meio ambiente.


Desse modo a logística reversa torna possível
A redução da geração, o descarte correto de
tanto a redução dos impactos ambientais
resíduos eletroeletrônicos e o
causados por produtos elétricos e eletrônicos,
reaproveitamento dos principais elementos
quanto o ganho de eficiência e
recicláveis como insumo industrial presentes
sustentabilidade das operações nas
neste tipo de resíduos deve ser prioridade de
organizações (FLEISCHMAN, 2001).
qualquer sistema de gestão seja público ou
privado, para a preservação do meio Basicamente, os REEEs são recolhidos e
ambiente e da saúde pública. A partir da transferidos para unidades de reciclagem. A
coleta seletiva de materiais e dos primeiros distribuição espacial dos pontos de coleta,
processamentos, os materiais seguem etapas dos locais de processamento e o transporte
com objetivos semelhantes, todavia com desses resíduos devem ser igualmente
peculiaridades e tecnologias diferentes em considerados no modelo lógico adotado,
função de suas naturezas. Essas buscando minimizar os custos e permitindo a
diferenciações definirão as redes reversas viabilidade da rede.
que cada material deverá seguir (LEITE,
Verificou-se que as atividades da logística
2009).
reversa aumentam o fluxo de bens dos
Assim, é importante ressaltar que reusar consumidores para os produtores. No
partes de produtos e matérias-primas pode gerenciamento deste fluxo, oposto ao fluxo
ser economicamente viável devido à convencional está a importância do campo da
recuperação de valores dos materiais logística reversa.

Gestão da Produção em Foco - Volume 4


16

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Gestão da Produção em Foco - Volume 4


17

CAPÍTULO 2

Pedro Chaves Meurer Moreira


Hostilio Xavier Ratton Neto
Pedro Henrique Maciel Lopes

Resumo: Em cenários políticos e econômicos nos quais o preço do barril do


petróleo esteja em patamares baixos, as empresas do setor adotam estratégias
sustentáveis para manter os seus volumes de produção de petróleo reduzindo
investimentos e custos operacionais. Na indústria offshore, a interligação de poços
submarinos é crucial para a produção. Essa atividade pode ser realizada por meio
de dutos flexíveis, os quais são instalados por embarcações especializadas
conhecidas como Pipe Lay Support Vessels (PLSVs). Neste artigo, apresenta-se um
modelo de simulação de filas para uma base portuária de dutos flexíveis. O objetivo
foi determinar a faixa da taxa de ocupação dos berços que minimizasse os custos
operacionais. Os resultados mostram que os custos operacionais mínimos
correspondem a valores de taxa de ocupação contidos em uma faixa entre 40% e
60%.

Palavras chave: Taxa de ocupação, Pipe lay support vessels, Teoria de filas,
Simulação

Gestão da Produção em Foco - Volume 4


18

1.INTRODUÇÃO O acervo de estudos acadêmicos não é


abundante na área de serviços de E&P.
Interligação é a operação de conectar o poço
Conforme observado por Kaiser (2010), a
submarino até a plataforma de produção. Em
logística de apoio offshore pode ser citada
muitos casos, a distância entre ambos pode
como exemplo do setor que não é
ser de quilômetros. Portanto, utiliza-se um
extensamente abordado na literatura
duto para realizar a conexão.
acadêmica. Adicionalmente, Leite (2012)
Os dutos podem ser rígidos ou flexíveis. Por constata que muito do conhecimento logístico
serem mais versáteis do que os rígidos, os adquirido pelas empresas é de origem
dutos flexíveis vêm sendo amplamente empírica. Dessa forma, este artigo também
utilizados na indústria offshore no Brasil desde visa a contribuir para o desenvolvimento
a descoberta de óleo na Bacia de Campos científico e tecnológico na área de serviços de
(BICUDO, 2009). E&P com procedimento proposto e
empregado para a simulação da ocupação
As operações de movimentação, transporte
dos berços da base de dutos flexíveis pelos
marítimo e instalação dos equipamentos
PLSVs.
necessários ao desenvolvimento de um
sistema de produção submarino demandam
embarcações especializadas e de alto valor.
1.1 CONTEXTUALIZAÇÃO
No caso dos dutos flexíveis, a embarcação
utilizada é o Pipe Lay Support Vessel (PLSV).  VIAGEM PLSV
Os dutos flexíveis são armazenados nas Os PLSVs realizam diversas viagens ao longo
bases de apoio. Além de servir para do ano para realizar as interligações dos
armazenar os dutos em terra, as bases de dutos flexíveis. A viagem tem início no
apoio são terminais portuários utilizados para momento em que a embarcação, que se
carregá-los nos PLSVs, para que essas encontrava no fundeio, se dirige para atracar
embarcações possam realizar as operações no terminal portuário. A atracação se dá
de interligação. quando existem demanda por serviço e pelo
menos um berço livre.
Se por um lado as operações de interligação
de dutos custam caro, por outro, as empresas O tempo de navegação entre o fundeio e a
de petróleo enfrentam desafios em realizar a base pode variar de acordo com diversos
gestão de seus projetos reduzindo os fatores tais como proximidade física, limites
investimentos e custos operacionais. Essa de velocidades de navegação, existência e
dificuldade torna-se mais evidente em congestionamento do canal de acesso,
cenários nos quais o preço do barril de aguardo de práticos ou de maré favorável
petróleo esteja em queda no mercado. para a navegação, entre outros.
Nesse contexto de demanda por interligações Uma vez atracada, a embarcação está pronta
com restrição orçamentária, o objetivo deste para iniciar a operação na base. A operação
artigo foi determinar a faixa da taxa de principal dos PLSVs é o carregamento e
ocupação dos berços de uma base de dutos descarregamento de dutos flexíveis. Também
flexíveis que minimize os custos operacionais. podem ocorrer o abastecimento de água e
diesel, carregamento e descarregamento de
De acordo com Yusuf et al. (2013), dentre os
materiais, equipamentos e alimentos e até
conceitos de sustentabilidade, existe aquele
trocas de turma. No entanto, com exceção
que se refere a utilização de recursos de
das operações com os dutos, essas outras
forma eficiente com o intuito de produzir
atividades também ocorrem quando a
efeitos positivos a longo prazo. Os autores
embarcação está na bacia.
ainda afirmam que, sob a ótica das
organizações, essa maneira de atuar implica Quando a operação portuária é concluída, a
no uso consciente dos recursos visando embarcação começa o procedimento de
garantir a existência da empresa a longo desatracação. Assim como na atracação,
prazo e lucros no negócio. Assim, o artigo tem esse tempo pode variar de acordo com
o intuito de auxiliar as companhias do setor a alguns dos fatores já citados anteriormente. O
operarem de forma sustentável garantindo período entre a atracação e desatracação
processos eficientes a custos reduzidos na compõe o tempo de operação portuária.
área de serviços de Exploração e Produção
Finalizada a desatracação, a embarcação
(E&P).
parte em direção a bacia para fazer os

Gestão da Produção em Foco - Volume 4


19

serviços de interligação das linhas flexíveis. postergação de aproximadamente de 1,6


Uma vez concluída a sua operação, a milhões de dólares de receita para a
embarcação retorna ao fundeio da base, onde companhia.
aguarda para realizar a próxima viagem.
O sucesso na realização do projeto de
O período entre a saída da base e retorno de entrada em produção de um poço de petróleo
uma embarcação ao fundeio compõe o tempo envolve muitos fatores que variam de projeto
de viagem marítima. Esses tempos estão para projeto. No entanto, o atraso na
sujeitos a grandes variabilidades em função interligação de um poço pode impactar
de inúmeros fatores como condições negativamente a conclusão do projeto em
ambientais, mudanças de prioridades ao tempo previsto e levar a postergação de
longo da viagem, surgimento de dificuldades receita para a empresa de petróleo. Levando
operacionais não previstas, entre outros. em consideração que as companhias do ramo
enfrentam problemas de fluxo de caixa, o
custo do atraso da produção é de extrema
1.2.VALORES DOS RECURSOS ENVOLVIDOS importância e deve ser considerado nas
E ATRASO NA INTERLIGAÇÃO análises.
Os valores de diárias das embarcações estão
fortemente ligados ao preço do barril de
1.3.IMPORTÂNCIA DA DETERMINAÇÃO DA
petróleo no mercado internacional e
FAIXA DA TAXA DE OCUPAÇÃO
consequente nível de aquecimento da
indústria. No caso brasileiro, esses valores Segundo Basso (2015), variações da
também podem variar de acordo com a economia mundial afetam a oferta e a
legislação, que pode incentivar mais ou demanda de petróleo, que por sua vez
menos a contratação de embarcações de influenciam diretamente no dimensionamento
bandeira brasileira, interferindo na dos recursos envolvidos. Nesse contexto, a
concorrência entre as empresas. determinação de uma faixa da taxa de
ocupação portuária que minimize os custos
Os custos operacionais dos berços também
operacionais justifica-se pois dificilmente a
variam de acordo com o nível de aquecimento
empresa conseguirá dimensionar seus
da indústria. No entanto, outros fatores
recursos para operar com o custo mínimo a
também influenciam o nível dos preços tais
todo o momento.
como o número de berços contratados em
uma mesma base ou no caso de berços Além disso, a determinação de uma faixa
multipropósitos, quando há o também oferece maior liberdade às empresas
compartilhamento de um mesmo berço por de petróleo no que tange às suas decisões
embarcações de diferentes naturezas. estratégicas. Por um lado, a empresa pode
optar por trabalhar com maior folga
Outro fator que muito se discute na indústria
operacional quando opera em uma taxa de
offshore é o impacto do atraso das atividades
ocupação mais baixa. Por outro, quando não
das embarcações na produção do petróleo.
se tem uma oferta portuária abundante, a
Alguns trabalhos na literatura mostram a
única solução para a diminuição da taxa de
importância de não parar a produção devido
ocupação pode ser a construção de novos
aos seus altos valores envolvidos (LEITE,
berços. Em casos de picos de demanda de
2012). No caso dos PLSVs, o não
curta duração, o aumento da capacidade
cumprimento do cronograma previsto para a
portuária pode não se justificar, podendo-se
viagem pode causar um atraso na interligação
operar com uma taxa de ocupação mais alta.
dos poços e, consequentemente, postergar a
produção de óleo. Por fim, em alguns casos na indústria
offshore, os tempos envolvidos na contratação
Segundo o Relatório de Produção de Petróleo
e vigência dos contratos podem ser
e Gás Natural de Fevereiro de 2015 da ANP,
extremamente longos. Como a demanda pode
os 30 poços mais produtivos do Brasil
variar de forma mais rápida do que os tempos
produzem em média aproximadamente
envolvidos nos contratos, torna-se muito difícil
25.000 barris de petróleo equivalente por dia.
garantir sempre a operação na taxa de
Assumindo o valor do barril de petróleo tipo
ocupação em que o custo é mínimo.
brent no mesmo período na bolsa de Nasdaq,
que foi de aproximadamente 63 dólares, o
atraso de um dia na entrada em produção de
um poço dessa natureza poderia resultar na

Gestão da Produção em Foco - Volume 4


20

1.4.REFERENCIAL TEÓRICO últimas têm como objetivo entregar a carga


para as unidades marítimas e realizam um
INDÚSTRIA DO PETRÓLEO
serviço periódico respeitando um cronograma
As atividades de Exploração e Produção semanal. No entanto, destacam que a
offshore envolvem altos graus de incerteza execução do cronograma semanal é afetada
tanto no que diz respeito às operações das pela estocasticidade das condições
unidades marítimas, quanto nas atividades climáticas que, por sua vez, influenciam os
das embarcações de apoio. Aronofsky (1962) tempos de navegação e de serviços nas
já reconhecia a relevância do uso de unidades marítimas. A decisão do número de
abordagens de pesquisa operacional na embarcações a serem contratadas para as
indústria do petróleo. O autor destaca o uso operações futuras tem uma forte influência
da programação inteira para resolver os econômica das empresas.
problemas de gestão, em particular os de
Almeida (2009) utiliza um algoritmo genético
programação de sondas de perfuração,
para maximizar o nível de serviço e minimizar
visando operações de Exploração e Produção
os custos. O algoritmo realiza duas rodadas:
mais lucrativas.
Na primeira nenhuma carga pode ser
Com relação às operações das unidades entregue em atraso. Já na segunda, admite-
marítimas, Bassi et al. (2012) apresentam um se o atraso de alguma carga de acordo com o
método de simulação-otimização para lidar nível de serviço requerido por cada unidade
com o problema de planejamento, marítima. O modelo considera eventos
programação e dimensionamento da frota de estocásticos tais como direção da corrente
sondas offshore. Segundo os autores, essa é marítima, condições climáticas e restrições de
a primeira abordagem estocástica para janelas de tempo nas unidades e
estudar esse tipo de problema. Os resultados disponibilidade no porto.
apontam para aumento de eficiência logística
A pesquisa bibliográfica realizada indica a
no que tange às operações com sondas. Os
importância de se considerar eventos
ganhos não são apenas financeiros devido a
estocásticos no que diz respeito as atividades
diminuição do custo de transporte e aumento
de serviços de Exploração e Produção.
da produtividade, mas também na redução do
Verifica-se que muitas abordagens para a
tempo de planejamento, dos erros de
solução dos problemas de redução de custos,
programação, além do modelo poder ser
dimensionamento de recursos e aumento do
usado como ferramenta de apoio à decisão.
nível de serviço envolvem simulação e/ou
No que tange às atividades de serviços de otimização.
E&P, Shyshou et al. (2010) utilizam um modelo
de simulação de eventos discretos para
determinar o tamanho da frota de 1.5.OPERAÇÕES PORTUÁRIAS
embarcações Anchor-Handling Tug Supply
Terminais portuários envolvem alto grau de
(AHTS). Essas embarcações são utilizadas
complexidade no que tange aos seus
para movimentar sondas de uma locação
processos operacionais. Murty et al. (2005)
para outra, de acordo com o cronograma de
desenvolvem um estudo sobre sistemas de
atividades que devem ser realizados nos
apoio a decisão em terminais portuários.
poços. Como o cronograma de cada sonda é
Descrevem a variedade de decisões a serem
realizado de forma independente, existe a
tomadas de forma a reduzirem tempo de
possibilidade de que a demanda por
atracação, reduzirem necessidade de mão-
movimentações ocorra de forma simultânea.
de-obra, tempos de espera de carretas, e
Ademais, as operações dos AHTS estão
congestionamentos de veículos dentro do
sujeitas a condições ambientais estocásticas
porto. Devido à complexidade das decisões
aumentando o grau de complexidade na
em função das incertezas inerentes aos
programação e planejamento das atividades.
processos, destacam a necessidade do uso
Maisiuk e Gribkovskaia (2014) também de sistemas de apoio a decisão como auxílio
propõem um modelo de simulação de eventos a uma melhor gestão do porto.
discretos para determinar o tamanho da frota
Já van Hee e Wijbrands (1988) descrevem um
de embarcações de apoio offshore. Afirmam
sistema de suporte a decisão para o
que operações associadas a movimentos de
planejamento de terminais de containers. Para
sonda são de natureza completamente
cada elemento do sistema (berços,
diferente das atividades realizadas pelas
guindastes, carretas...) são desenvolvidos
embarcações de apoio offshore. Essas

Gestão da Produção em Foco - Volume 4


21

modelos para descrever suas performances. chegada, atracação e partida de


O sistema de suporte decisão desenvolvido embarcações num terminal portuário. Como
analisa a interação entre esses elementos um dos resultados, é mostrado que
através de um modelo global. ferramenta desenvolvida é efetiva para avaliar
os impactos no nível de serviço do aumento
Dentre as ferramentas de apoio a decisão, a
de recursos ou mudanças nas regras de
simulação se mostra eficiente no que diz
alocação dos mesmos
respeito a análises de sistemas complexos
conforme observado por (Legato e Mazza, Bielli, Boulmakoul e Rida (2006) criam um
2001; Bielli, Boulmakoul e Rida, 2006). Já modelo de simulação orientada a objetos com
Shabayek e Yeung (2002) destacam o objetivo de auxiliar as práticas gerenciais,
pertinência da ferramenta para analisar a pois, segundo os autores, é possível testar a
eficiência dos terminais portuários, em função eficiência e robustez das diferentes
da sua capacidade se representar estratégias de operação em ambientes não
particularidades complexas da realidade. determinísticos.
Segundo Uğurlu, Yüksekyıldız e Köse (2014), Yun e Choi (1999), também desenvolvem um
a simulação é muito utilizada em modelagem modelo de simulação orientada a objetos para
de portos para realizar análises de a análise de um terminal portuário,
capacidades, eficiência e filas. Em seu considerando o portão de entrada, a área de
estudo, um modelo de simulação para o armazenagem de containers e os berços.
terminal de BOTAŞ Ceyhan pipeline utilizando
Assim como no caso das atividades de
o programa AWESIM. São levados em
serviços de Exploração e Produção, verifica-
consideração parâmetros operacionais tais
se que a simulação também é uma ferramenta
como distintas taxas de chegada de
adequada para a representação de
embarcações, necessidade de praticagem e
operações portuárias, sendo amplamente
variações de condições climáticas. O objetivo
utilizada nesse contexto por diversos autores.
do estudo é investigar as taxas de chegada,
tempos de atracação e de manobra e
capacidade de transporte de carga do
1.6. DESENVOLVIMENTO DO MODELO DE
terminal.
SIMULAÇÃO PARA OPERAÇÃO DE PLSVS
NAS BASES DE DUTOS FLEXÍVEIS
Ramani (1996) desenvolve um modelo de
simulação computacional para planejamento Optou-se por utilizar um modelo de simulação
da logística e das operações de container que represente um modelo de filas com frota
num terminal portuário. O modelo é usado fixa de embarcações. Assim, qualquer
para estimar indicadores de performance tais variação no tamanho da frota ou tempos de
como ocupação dos berços, número de ciclo afetam diretamente a taxa de chegada
atracações e tempo de viagem dos navios das embarcações no porto, que por sua vez
para diferentes cenários. Destaca a influenciam as viagens futuras.
importância de operações mais eficientes e O modelo tem como inputs o número de
eficazes aumentando a competitividade dos embarcações, o número de berços e as
portos e reduzindo custos associados. distribuições históricas dos tempos de
Shabayek e Yeung (2002) constroem um operação portuária e viagem marítima. Os
modelo de simulação para representar o outputs do modelo são a fila média de
terminal de container de Kwai Chung, embarcações no fundeio e a taxas de
utilizando o software Witness. O modelo ocupação dos berços.
fornece parâmetros como tempo médio de Dentro do modelo são construídos três “locais
permanência no sistema e grau de utilização fixos” (porto, bacia e fundeio) e “recursos
do terminal, possibilitando estabelecer uma móveis” (embarcação) que, por sua vez,
relação entre custo e eficiência. Também visitam os locais sempre seguindo uma
pode ser utilizado para planejar a mesma ordem (porto, bacia, fundeio).
necessidade de novos berços ou estimar
ganhos globais com a diminuição dos tempos Cada local possui uma capacidade associada
de operação nos berços. para receber a visita de um recurso. Um local
com capacidade unitária pode receber
Legato e Mazza (2001) desenvolveram um apenas um recurso por vez. Se durante a
modelo de simulação de eventos discretos simulação, um segundo recurso quiser visitar
para atividades relacionadas a processos de aquele local, ele terá que esperar na fila de

Gestão da Produção em Foco - Volume 4


22

até que o primeiro termine a sua visita. todas as embarcações atracarem em todos os
Assume-se que o fundeio e a bacia possuem berços.
capacidade infinita, portanto não existem filas
O programa escolhido para a simulação foi o
de embarcações para visitar esses locais.
Promodel. Ele é um software de simulação de
Já a capacidade do porto é representada eventos discretos que pode ser utilizado para
pelo número de berços disponíveis. representar processos existentes da
Considera-se que todos os berços estão manufatura, logística e outros sistemas
sempre operacionais, ou seja, se o porto que operacionais.
possui um berço (capacidade unitária) oferta
24 horas de atracação por dia ao longo do
ano, um porto com n berços oferta n.24 horas 1.7. APLICAÇÃO DO MODELO DE
de atracação por dia ao longo do ano. Assim, SIMULAÇÃO
a taxa de ocupação de 50% de um porto que
 LEVANTAMENTO DE DADOS
possui apenas um berço representa 182,5
(365/2) dias de utilização por ano. Foram levantados os dados relativos a 2014
de uma base de dutos flexíveis localizada no
Para as embarcações que estão no fundeio, o
Brasil. Primeiramente, identificou-se o número
modelo sorteia um tempo de operação
de berços a ser considerado sendo
portuária e de viagem marítima assim que um
necessário compreender quais operações
berço fica livre. Uma vez escolhida, a
cada berço realizava e se estavam
embarcação irá ocupar um berço pelo
disponíveis a maior parte do tempo. Também
período de tempo sorteado. Quando esse
foi analisado se havia compartilhamento de
tempo se esgota, a embarcação parte para
operações de outras embarcações em um
realizar a viagem marítima que também terá a
mesmo berço, uma vez que o estudo
duração de acordo com o tempo sorteado. Ao
contempla apenas berços especializados e
final desse período, a embarcação volta para
disponíveis a todo o momento. Considerou-se
o fundeio estando disponível para realizar
a utilização plena de dois berços.
uma nova viagem.
Em seguida, levantou-se o tamanho da frota
O modelo considera que a demanda por
operando no porto durante o período
viagens é constante. Assim, sempre que
estudado. Ao longo do ano de 2014, a frota,
houver uma embarcação no fundeio e um
foi sendo alterada ao longo dos meses em
berço livre, o modelo vai sortear os tempos
função de inícios e términos de contratos de
operacionais e uma viagem terá início. Caso
embarcações. Para cada embarcação foi
contrário, o berço permanece sem operação
considerada a sua primeira e última
até que uma embarcação surja no fundeio, ou
atracações do ano, de forma a se estimar qual
a embarcação aguarda até que o berço fique
foi a fração do ano em que ela operou na
livre.
base. Somando-se todas as frações de
A premissa da demanda constante foi tempo, obteve-se uma frota de 12
considerada para simplificação da embarcações.
modelagem. Na prática a demanda por
Por fim, foram levantados os tempos históricos
atracações de PLSVs não é constante, sendo
de operação na base através da Tabela de
que a embarcação só atraca quando há
Operação Portuária. Essa tabela é utilizada
demanda. Caso contrário, é comum a
pela equipe da operação para controlar as
embarcação permanecer na bacia realizando
atividades das embarcações na base. Ela
outras operações, o que aumenta o tempo de
possui dados sobre qual embarcação
viagem marítima.
atracou, o berço utilizado, o término da
O modelo considera apenas uma base de atracação e desatracação, entre outras
apoio, ou seja, após uma viagem marítima a informações que não foram utilizadas no
embarcação volta para o fundeio da mesma estudo. Um exemplo ilustrativo de duas
base da viagem anterior. Também considera atracações genéricas pode ser verificado na
que não há restrições operacionais, podendo Tabela 1.

Gestão da Produção em Foco - Volume 4


23

Tabela 1 - Tabela de Operação Portuária

Término da
Navio Carregamento Berço Término da Atracação
Desatracação
Embarcação A EmbA-14/01 B1 05/01/2014 13:15 07/01/2014 07:30
Embarcação B EmbB-14/02 B2 27/02/2014 21:40 28/02/2014 20:20

A coluna “carregamento” informa qual é o navegação e operação na bacia, mas


número da viagem que a embarcação vai também os tempos de navegação no canal e
fazer tendo como origem a base. Na primeira aguardo no fundeio.
linha da Tabela 1, EmbA-14/01 indica que a
Embarcação A fará sua primeira viagem em
2014. A segunda linha mostra que a 1.8.VALIDAÇÃO DO MODELO
Embarcação B fará sua segunda viagem em
Para a validação do modelo, o número de
2014.
atracações na base e a taxa de ocupação
Através da Tabela de Operação Portuária, foi dos berços obtidos como resultado, foram
calculado o tempo de operação portuária comparados com os parâmetros históricos.
diminuindo o horário de Término da Assumiu-se que o modelo seria validado para
Desatracação do horário do Término da diferenças entre resultados teóricos e reais
Atracação. Nesse valor já se considera as menores ou iguais a 5%.
ineficiências, atrasos e interrupções na
Primeiramente foram obtidas distribuições
operação e o aguardo do prático e da maré
para os tempos de operação portuária e
favorável para a saída do canal.
viagem marítima através de testes de
Os tempos de viagem marítima também foram aderência de Kolmogorov-Smirnov para 5%
obtidos através da Tabela de Operação de nível de significância. Os testes foram
Portuária. Considerou-se que o tempo de realizados através software de análise
viagem marítima é o intervalo entre o Término estatística Statfit.
da Desatracação da viagem n e Término da
Optou-se por representar os tempos de
Atracação da viagem n+1 para uma mesma
entrada através de duas funções Gama de
embarcação. Assim, o tempo de viagem
parâmetros representados na Tabela 2.
marítima considera não só os tempos de
Tabela 2 - Distribuição dos tempos de entrada do modelo

Operação Portuária Viagem Marítima

G(3.6, 0.792) G(2.5, 10.6)

Os resultados obtidos através da simulação foram comparados com os dados históricos


considerando dois berços, 12 embarcações e conforme ilustrado na Tabela 3.
as distribuições dos tempos operacionais

Tabela 3 - Comparação entre dados reais e simulados

Parâmetro Real Simulado Variação percentual

Taxa de Ocupação 57,1% 56,7% 0,70%


Número de Atracações no Ano 143 146 -2,31%

Gestão da Produção em Foco - Volume 4


24

As diferenças entre os resultados obtidos valor da diária do berço e o valor da diária da


através de simulação e os dados históricos embarcação. Para o cenário base, assumiu-se
foram menores do que 5%. Assim, que o custo da diária de um berço (CB) é de
considerou-se o modelo validado. uma unidade monetária e o custo da diária da
embarcação (CE) é de 3,5 unidades
monetárias.
2. RESULTADOS E DISCUSSÕES
Para obter o custo operacional relativo à fila
Uma vez o modelo validado, foram simulados de embarcação no fundeio, multiplicou-se a
diferentes cenários variando o número de fila média de embarcações pela sua
berços. respectiva diária (CE) adotada como
premissa. Seguindo a mesma lógica, para
Para cada cenário, obteve-se como output do
cada cenário, também foram calculados os
modelo as respectivas taxas de ocupação e
custos de operação da base multiplicando
fila média de embarcações no fundeio
número de berços pela respectiva diária do
conforme pode ser verificado nas três
berço (CB) adotada como premissa. Os
primeiras colunas da Tabela 4.
resultados permitiram calcular o custo
Os custos relativos a diária de um berço e de operacional total somando o custo de
uma embarcação são valores que muitas operação na base com o custo das
vezes não são divulgados publicamente pelas embarcações na fila do fundeio. A Tabela 4
empresas. Assim, para a análise mostra os outputs e os custos em unidades
desenvolvida, foi considerada a razão entre o monetárias para cada cenário simulado.
Tabela 4 - Custos da fila, custo da base e custo total em unidades monetárias

Nº de Taxa de
Fila média Custo fila Custo base Custo total
berços ocupação

1 2,18 93% 5,7 1 6,72


2 0,21 57% 0,5 2 2,54
3 0,04 38% 0,1 3 3,09
4 0,00 29% 0,0 4 4,01
5 0,00 24% 0,0 5 5,00

Em posse dos dados obtidos, é possível curva encontrada descreve de forma


encontrar a fórmula analítica que descreve o satisfatória os pontos analisados. O cálculo foi
custo total de operação em função das taxas realizado utilizando como ferramenta o
de ocupação dos berços, através de uma software Excel e os resultados são
regressão polinomial de grau 2. Também foi apresentados pela Figura 1.
calculado o valor do R² para verificar se a

Gestão da Produção em Foco - Volume 4


25

Figura 1 - Curva do custo total em função da taxa de ocupação portuária


10
y = 32,693x2 - 32,886x + 10,869
(unidades monetárias)

8 R² = 0,9988
Custo total

-
20% 30% 40% 50% 60% 70% 80% 90% 100%
Taxa de ocupação
Custo embarcação na fila (CE) Custo berço (CB) Custo Total

O valor obtido para o R² = 0,9988 indica que a transita na faixa entre 40% e 60% de taxa de
fórmula analítica encontrada se aproxima dos ocupação, o custo mínimo tem um acréscimo
pontos analisados. de menos de 15%, conforme pode ser
verificado na Tabela 5.
A curva mostra que o custo mínimo de
operação é obtido a uma taxa de ocupação
do porto de 50%. No entanto, quando se

Tabela 5 - Custo total e acréscimo em relação ao cenário de menor custo para taxas de ocupação
distintas
Acréscimo em relação ao
Taxa de ocupação Custo total
cenário de menor custo

40% 2,945 13%


41% 2,881 11%
42% 2,824 9%
43% 2,773 7%
44% 2,729 5%
45% 2,691 4%
46% 2,659 2%
47% 2,634 1%
48% 2,616 1%
49% 2,604 0%
50% 2,599 -
51% 2,601 0%
52% 2,608 0%
53% 2,623 1%
54% 2,644 2%
55% 2,671 3%
56% 2,705 4%
57% 2,746 6%
58% 2,793 7%
59% 2,847 10%
60% 2,907 12%

Gestão da Produção em Foco - Volume 4


26

2.1.CONCLUSÕES E DIREÇÕES FUTURAS decisão das empresas de petróleo com


relação a investimentos portuários,
Neste artigo foi apresentado um procedimento
principalmente em cenários nos quais a
para determinar a faixa da taxa de ocupação
indústria offshore passa por um momento de
dos berços de uma base de dutos flexíveis
incertezas políticas e econômicas. Em
em que os custos operacionais sejam
situações dessa natureza a operação de
mínimos através de um modelo de simulação.
forma sustentável torna-se crucial para a
O modelo foi validado baseando-se na análise manutenção do lucro e sobrevivência da
do caso real de uma base de linhas flexíveis empresa.
brasileira. Os resultados obtidos apontam que
Através do procedimento apresentado,
o custo mínimo de operação é verificado com
também é possível auxiliar estudos em que se
uma taxa de ocupação do porto de 50%. No
considere mais de uma base de apoio ao
entanto, verifica-se que dentro da faixa que
longo da costa e restrições operacionais de
vai de 40% a 60% de taxa de ocupação, o
embarcações e berços. Espera-se ainda que
custo operacional tem um acréscimo de
o modelo possa ser aplicado em outros
menos de 15% em relação ao custo mínimo.
setores da indústria offshore ou até mesmo
Os resultados obtidos são de extrema em outras indústrias.
importância para o auxílio da tomada de

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Gestão da Produção em Foco - Volume 4


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Gestão da Produção em Foco - Volume 4


28

CAPÍTULO 3

Karoline Arguelho da Silva


Anamari Viegas de Araujo Motomiya
Maiara Pusch
Antonio Carlos Vaz Lopes
Fabiana Raupp

Resumo: A gestão de custos é de extrema importância para uma propriedade rural,


pois a partir do momento que o gestor detém informações dos custos por atividade
e/ou por produto do empreendimento, consegue diminuir seus custos e tomar
melhores decisões. E como uma poderosa ferramenta para a gestão de custos é o
método de custeio ABC. O objetivo mensurar o custo do plantio de soja transgênica
em uma propriedade rural utilizando-se do custeio de absorção e baseado em
atividades – ABC. Para tanto, realizou-se um estudo de caso em uma propriedade
de 76 hectares. No que tange a aplicação do método ABC, considerando a
complexidade da implantação do mesmo em indústrias, considera-se o método
aplicável em propriedade rural haja vista que as atividades podem ser definidas
com maior clareza devido ao número reduzido em relação a outros segmentos,
adotando a pesquisa do tipo exploratória, desenvolvida por meio de estudo de
caso e por informações coletadas através de entrevistas e visitas sistêmicas a
propriedade. Dessa forma, foi possível apurar os custos dos produtos agrícolas
soja. Analisando os valores obtidos tem se que o total de recursos que
consideramos como custeio de absorção pois envolve todos os recursos utilizados
desde o preparo até a colheita é igual ao total do custeio ABC, a diferença dos dois
métodos se dá pelo método abc, por ser um método mais exemplificado, onde
mostram o consumo por atividades, o que que facilita a compreensão do que está
acontecendo com a safra de uma maneira geral para o produtor áreas
consideradas técnicas como: preparo do solo, variedade de sementes, tipos
agrotóxicos, dentre outros, voltadas ao gerenciamento da propriedade. Por meio do
estudo, foi possível constatar a relevância da informação gerencial como suporte
para tomada de decisão, independente do tipo de produto ou serviço.

Palavras-chave: Propriedade rural; Custeio ABC; Cultura de soja.

Gestão da Produção em Foco - Volume 4


29

1. INTRODUÇÃO gestão empresarial e são estas considerações


que têm direcionado muitas empresas a
Atualmente com o avanço tecnológico e a
adoção do sistema de custeio baseado em
crescente complexidade dos sistemas de
atividades (ABC).
produção, percebe-se na maioria das
entidades um crescimento contínuo dos Neste trabalho realizaremos um estudo de
custos indiretos. E então surge a necessidade caso baseado nos métodos de custeio, onde
de um tratamento adequado na alocação dos levantamos dados da teoria que aplicamos na
custos indiretos de fabricação aos produtos, prática, afim de fazer uma análise do custeio
uma vez que os graus de arbitrariedade e de de absorção e ABC, na fazenda Berté II,
subjetividade desta alocação podem provocar localizada no distrito de Itahum no Mato
enormes distorções. Grosso do Sul.
A determinação dos custos é indispensável
nas organizações, sejam agrícolas ou
Industriais, pois, mais do que medir, é preciso 2. REFERENCIAL TEÓRICO
saber com que intuito se quer conhecer os 2.1 MÉTODOS DE CUSTEIO
custos e se os custos medidos atendem a tais
objetivos. Há a necessidade de utilização de Empregadas às terminologias referentes à
instrumentos gerenciais eficazes que mostrem contabilidade de custos, para tentar atingir a
claramente os processos e seus custos para seus objetivos é necessária à correta
servir de base para a tomada de decisão por alocação dos custos, o que segundo Hofer,
permitir a avaliação e o acompanhamento da Souza e Robles Jr (2007), não é uma tarefa
gestão do agronegócio. fácil, já que, alguns custos incidem
diretamente ao produto/serviço que se produz
Neste contexto, surgiu o Custeio Baseado em ou realiza, entretanto, existem outros que não
Atividades (ABC), como metodologia capaz podem ser atribuídos diretamente ao
de melhorar a qualidade das informações de produto/serviço, estes são os custos indiretos
custos, tanto de processos quanto de e que, da mesma forma que os custos diretos,
produtos, bem como prover informações mais também devem ser alocados a fim de
acuradas sobre atividades de produção e de estabelecer o custo total do produto/serviço.
suporte. Este método de custeio relata que, “a
quantidade, a relação de causa e efeito e a Portanto, no sentido de atingir o objetivo
eficiência e eficácia com que os recursos são proposto neste trabalho, faz-se necessário a
consumidos nas atividades mais relevantes abordagem de dois métodos de custeio, um
de uma empresa constituem o objetivo da considerado como um método tradicional de
análise estratégica de custos do ABC” custos e o outro mais contemporâneo e que
NAKAGAWA (2001). tem sido foco de discussões em congressos e
encontros da área de contabilidade de
Todavia CHING (1997), o ABC (Activity- custos, sendo estes respectivamente o
bassed-Costing) descreve a forma como a Custeio por Absorção e o Custeio Baseado
empresa emprega tempo e recursos para em Atividades (ABC)
atingir determinados objetivos. Já para
MARTINS (2000) o Custeio Baseado em
Atividades, é um método de custeio que 2.2 GESTÃO DE CUSTOS NA ATIVIDADE
procura reduzir sensivelmente as distorções RURAL
provocadas pelo rateio arbitrário dos custos
indiretos. A Gestão de Custos apresenta hoje grande
relevância nas organizações. No que se refere
Custeio Baseado em Atividades (ABC), visa à indústria, percebe-se sua importante
também o aperfeiçoamento dos processos, atuação para a sobrevivência destas no
com a visão horizontalizada, captando custos contexto econômico brasileiro em que este
das atividades que poderão ser realizadas em setor se encontra. Conforme salienta Hansen
vários setores da empresa ou propriedade e Mowen (2001), o sistema de informações de
rural. gestão de custos é um subsistema de
Atualmente, as empresas buscam identificar informações contábeis que está preocupado
como e onde os custos estão ocorrendo, ou primariamente com a produção de
seja, suas causas e seus efeitos. O controle informações para usuários internos. O
efetivo dos custos e a coerente medição do pensamento de Eldenburg e Wolcott (2007)
desempenho se tornaram essenciais na complementa a visão de Hansen e Mowen

Gestão da Produção em Foco - Volume 4


30

(2001), no que tange um sistema de gestão os custos reais incorridos, obtidos pela
de custos, pois se refere ao foco de redução contabilidade geral e pelo sistema por
de custos e fortalecimento da posição absorção, que significa a inclusão de todos os
estratégica da empresa, ocorrendo gastos relativos a produção, quer diretos,
simultaneamente. quer indiretos com relação a cada produto.
Portanto, a gestão de custos não deve ser O custeio por absorção consiste em um
vista apenas como a utilização de técnicas método da aplicação dos princípios da
para a apuração de custos de produtos e contabilidade. Para Martins (2006) consiste na
serviços em termos monetários e sim a apropriação de todos os custos de produção
oportunidade de desenvolver uma análise aos bens elaborados, e só os de produção;
mais ampla, de cunho gerencial, onde é todos os gastos relativos ao esforço de
constante a busca pela melhoria dos produção são distribuídos para todos os
processos organizacionais. Em um processo produtos ou serviços feitos.
de melhoria contínua, a eliminação do
No Custeio por Absorção, a depreciação dos
desperdício e a busca da minimização das
equipamentos e outros imobilizados
atividades que não agregam valor são peças
amortizáveis utilizados na produção deve ser
de fundamental importância.
redistribuída aos produtos elaborados;
O agronegócio representa toda a atividade de portanto vai para o ativo na forma de
exploração da terra, seja por meio do cultivo produtos, e só vira despesa quando da venda
de lavouras, florestas ou a criação de animais, dos produtos.
cujo objetivo seja a obtenção de produtos que
venham satisfazer às necessidades humanas
(CREPALDI, 2012). 2.4 CUSTEIO BASEADO EM ATIVIDADES
(ABC)
Na atividade rural, a contabilidade de custos
pode ser caracterizada como um centro Um dos maiores problemas enfrentados pela
processador de informações que permite ao gestão de custos refere-se a como distribuir
gestor rural o planejamento, a avaliação e o custos indiretos aos produtos e serviços
controle das atividades desenvolvidas na elaborados. Como formas de diluição destes
propriedade, proporcionando-lhe uma melhor problemas, diversas tentativas são feitas,
tomada de decisão (SEGALA; SILVA, 2007). A como o controle de custos por departamentos
partir da análise dos custos de produção, ou centro de custos.
torna-se possível a avaliação da viabilidade
Se uma empresa apresenta níveis
da realização de investimentos, da análise da
significativos de gastos indiretos, porem uma
rentabilidade de culturas ou criações
produção homogênea, com um único produto,
existentes na propriedade, além da análise
a alocação de todos os gastos, fixos ou
das estruturas produtivas que podem
variáveis, diretos ou indiretos, é extremamente
proporcionar melhores resultados,
simples. Basta colocar todos os gastos em um
considerando as características de cada
grande funil, associando-se gradualmente a
propriedade.
produtos ou serviços. ABC é um método de
Desta forma, o gerenciamento de custos para rastrear os custos de um negócio ou
a tomada de decisões na atividade rural departamento para as atividades realizadas e
oportuniza a avaliação de informações que de verificar como estas atividades estão
apresentam relevância estratégica para o relacionadas para a geração de receitas e
gestor rural (SANTOS; MARION; SEGATTI, consumo dos recursos. O ABC avalia o valor
2002). Sob esta perspectiva, Segala e Silva que cada atividade agrega para a
(2007) explicam que a utilização da performance do negócio ou departamento.
contabilidade de custos no meio rural pode
O Custeio ABC é segundo Leone e Leone
qualificar o processo decisório do gestor,
(2010) bastante burocrático por ser muito
fornecendo informações capazes de atender
detalhado, por isso não é unânime sua
a estas necessidades informacionais que
aceitação ou utilização, mas de qualquer
surgem nas empresas e propriedades rurais.
forma, tem sido o método de custeio mais
focado em congressos, encontros, livros,
entre outros meios que discutem o tema
2.3 CUSTEIO POR ABSORÇÃO
“custos” apropriados a várias unidades
O custeio por absorção significa dizer que através de algumas bases que não são
devem ser adicionados ao custo da produção relacionadas aos volumes dos fatores de

Gestão da Produção em Foco - Volume 4


31

produção. Portanto, o cálculo do custeio se um processo de rastreamento destes


baseado em atividades apura o custo custos. A diferença está em sua alocação,
acumulado pelas atividades desenvolvidas, que não é inserida diretamente ao
oferecendo uma visão do andamento do produto/serviço, mas nas atividades
processo como um todo, tendo como envolvidas na execução do processo, e só
finalidade apropriar os custos baseados em depois, alocadas aos produtos/serviços.
atividade executados pela empresa, de forma Dessa forma, pode-se perceber que o ABC
adequada aos produtos. surge como uma solução para o problema da
alocação dos custos indiretos, que são
Considerando estes conceitos, o método
considerados a parte mais delicada do
ABC, tem seu foco inicial não no produto,
processo de apuração dos custos dos
mas, nas atividades que são necessárias para
produtos/serviços.
a produção desse produto ou prestação dos
serviços. O custo deste, será a soma dos A figura 1 demonstra a lógica de
custos das atividades que foram envolvidas funcionamento do método de custeio baseado
em sua produção ou realização, tendo ao final em atividades, que direcionam os custos não
o seu custo total. Assim, diferentemente do ao produto/serviço, mas, para as atividades
método de custeio por absorção que, se que, posteriormente transferem os seus
utiliza de critérios de rateio para alocação dos gastos aos produtos.
custos indiretos, no método ABC, desenvolve-

Figura 1. Direcionadores de Recursos de Atividade – Metodologia ABC

Fonte: (HOFER; SOUZA; ROBLES JR, 2007)

3. METODOLOGIA Quanto à forma de abordagem este estudo


classifica-se como uma pesquisa quantitativa
A ciência tem como objetivo fundamental a
porque a apuração dos resultados pode ser
proximidade à veracidade dos fatos e, para
quantificável, o que significa traduzir em
que um conhecimento seja considerado
números, opiniões e informações para
científico torna-se necessário determinar o
classificá-las e analisá-las. A pesquisa
método que possibilitou chegar a esse
também pode ser considerada qualitativa
conhecimento. Em última análise, o método
levando-se em conta a interpretação que será
científico é um conjunto de procedimentos
feita após a coleta de dados. Triviños (1987)
intelectuais e técnicos adotados para se
sustenta que “a análise qualitativa pode ter
atingir o conhecimento (GIL, 1996).
apoio quantitativo”.

Gestão da Produção em Foco - Volume 4


32

Segundo Marconi e Lakatos (2000), a  Quantidade total e parcial que foi


pesquisa é exploratória, porque tem entre gasto com despesas administrativas.
outras finalidades “aumentar a familiaridade
O Questionário foi desenvolvido levando em
do pesquisador com um ambiente, fato ou
considerações fatores que ocasionam
fenômeno, para a realização de uma pesquisa
diferentes resultados no custeio baseado em
futura mais precisa ou modificar e clarificar
atividades ABC, coletou-se o valor absoluto e
conceitos”. Gil (1996) diz ainda que “estas
o valor unitário de cada questão levantada no
pesquisas têm como objetivo principal o
questionário. Após o recolhimento dos dados
aprimoramento de ideias ou a descoberta de
necessários, analisou-se os resultados
intuições”, sendo seu planejamento bastante
obtidos, levando em consideração todas as
flexível e, na maioria dos casos, envolvem
informações a fim de se efetuar a análise
levantamento bibliográfico, documental,
correta.
entrevistas não padronizadas e análise de
exemplos que estimulem a compreensão do A partir da metodologia determinada para o
tema. estudo, foi possível desenvolver o
questionário do custeio baseado em
Foi realizada uma entrevista com um dos
atividades ABC, cujo objetivo é que seja
colaboradores da fazenda afim de tornar o
otimizado todo e qualquer custo de um
estudo baseado em fatos verídicos, visando a
negócio, bens, serviços, e verificar se todas
análise da parte total dos custos e a parte
as atividades estão relacionadas com o
parcial utilizada por cada hectare, foi aplicado
consumo dos recursos, agregando ou não
um questionário com as seguintes perguntas:
valor ao procedimento adotado.
 Quantidade total e quantidade parcial
que foi gasto com sementes;
4. RESULTADOS E DISCUSSÕES
 Quantidade total e parcial que foi
4.1 CARACTERIZAÇÃO DA UNIDADE DE
gasto com fertilizantes;
ESTUDO
 Quantidade total e parcial que foi
O estudo realiza-se em uma fazenda
gasto com defensivos agrícolas;
localizada no distrito de Itahum em Mato
 Quantidade total e parcial que foi Grosso do Sul. Trata-se de uma propriedade
gasto com mão de obra variável; rural de pessoa física, que já está há mais de
25 anos no ramo da agricultura, e este ano
 Quantidade total e parcial que foi
começou a produzir grãos de soja
gasto com transporte, beneficiamento
transgênico. A mesma conta com uma área
e armazenagem;
própria de 76 hectares de área produtiva.
 Quantidade total e parcial que foi
gasto com depreciação; 4.2 IMPLEMENTANDO O MÉTODO ABC
 Quantidade total e parcial que foi Este item dedica-se na apresentação dos
gasto com amortização; dados coletados no estudo de caso. Os
dados aqui foram obtidos através de
 Quantidade total e parcial que foi
entrevista com o próprio produtor rural.
gasto com arrendamentos;
Assim, a ordem da apresentação dos
 Quantidade total e parcial que foi resultados reflete as fases de implantação do
gasto com pulverização aérea; modelo. Identificação dos recursos utilizados,
mapeamento das atividades, escolha dos
 Quantidade total e parcial que foi
direcionadores de recursos e apuração do
gasto com combustíveis e lubrificante;
custo de cada atividade.
 Quantidade total e parcial que foi
gasto com conserto de maquinas, 4.3 RECURSOS UTILIZADOS
veículos e implementos agrícolas;
A tabela 1 apresenta os gastos totais na
 Quantidade total e parcial que foi produção da lavoura de soja, sendo listados
gasto com custos gerais variáveis; todos os recursos utilizados desde o plantio
até a colheita.
 Quantidade total e parcial que foi
gasto com mão de obra fixa;
 Quantidade total e parcial que foi
gasto com custos gerais fixos;

Gestão da Produção em Foco - Volume 4


33

Tabela 1. Recursos totais diretos

Fertilizante 57.798
Corretivos 27.740
Inseticida 7.342
Fungicida 15.011
Herbicida 4.422
Adubo Foliar 593
Insumos Mão-de-obra variável 1.200
Amostragem de solo 2.888
Mao de obra fixa 2.400
Serviços terceirizados 42.488
Diesel 12.312
Dessecação para colheita 2.584
Semente 21.600
Total 198.377
ITR 539,6
Outros custos
CCIR 167,2
Total 706,8
Fonte: Dados do autor

Os gastos diretos podem ser apropriados no prazo de vida útil de 15 anos para cada
cultivo, com maior facilidade, visto que as máquina, o valor residual considerado aqui foi
compras são realizadas para aquele fim e a de 10% do valor do bem, e por fim a
utilização de cada insumo é controlada pelo depreciação que se deu pela diminuição do
produtor. Já os gastos indiretos, como é o valor do bem e valor residual dividido pela
caso da depreciação exige um conhecimento vida útil, segue a expectativa de venda do
técnico para o cálculo e direcionamento do bem após a utilização do mesmo.
recurso. Dessa forma, considerou-se um
Tabela 2 - Máquinas e equipamentos

Valor Vida
Valor do Valor a Depreciação
Bens/Máquina Residual útil
Bem (R$) depreciar (R$) anual (R$)
(R$) (anos)
Trator 105.000,00 105.000,00 94.500,00 15 6.300,00
Tratador de
5.000,00 500,00 4.500,00 15 300,00
semente
Calcariadeira 35.000,00 3.500,00 31.500,00 15 2.100,00
Fonte: Dados do autor

Gestão da Produção em Foco - Volume 4


34

Embora a Tabela 1, apresente dados acerca  Dessecação Para Colheita - É


do custo de cada recurso utilizado não traz realizado a aplicação de dessecantes
informações capazes de contribuir com a para realização da colheita.
gestão de custos. É justamente nesse aspecto
que o ABC deve contribuir com a gestão de  Colheita - Nesta atividade é realizado
custos, apresentando informações sobre o a contratação de terceiros e feito a
custo de cada atividade. Para tanto, fez-se o colheita dos grãos.
mapeamento das atividades com auxílio do  Transporte - Nesta atividade é
conhecimento do produtor. realizado o transporte dos grãos da
lavoura até uma unidade de
recebimento de grãos, ou seja, uma
MAPEAMENTO DAS ATIVIDADES unidade armazenadora.
As atividades das culturas foram separadas  Pós-colheita - É realizado o
em 8 atividades: Análise do solo; Preparar o recebimento dos grãos na unidade
solo; Plantio; Aplicação de defensivos e para fins de limpeza e secagem
adubação foliar; Dessecação para a colheita; destes grãos.
Colheita; Transporte; Pós Colheita.
 Venda - Após o processamento
As atividades de análise e preparo do solo destes grãos o produto se encontra
são realizadas em várias etapas, conforme a em condições de venda, cabe ao
necessidade do solo e/ou controles de produtor decidir se vai vender
pragas, portanto optou-se por segregar tais diretamente ou esperar um melhor
atividades para melhor detalhamento das preço.
informações. As etapas a seguir estão
representadas na figura 2.
Figura 2 - Direcionamento e detalhamento das
 Análise De Solo - Retirada de uma atividades
amostragem da área para análise
química, a fim de conhecer as Análise do solo
deficiências do solo para possíveis
correções.
 Preparo Do Solo - Preparar o solo Preparo do solo
para a realização do plantio,
aplicação de herbicidas e aplicação
dos corretivos, que são gesso e
calcário. Para realização destas Plantio
atividades foi preciso contratar
serviços de terceiros no caso a
pulverização, para aplicação dos Aplicação de defensivos e
corretivos foi aplicado com os adubação foliar
próprios maquinários da fazenda
entrando em consideração o consumo
de combustível. Dessecação

 Plantio - Para realização do plantio foi


necessário contratar serviços de
terceiros, sendo um conjunto trator- Colheita
semeadora e mão de obra
terceirizada levando em conta o
consumo de combustível. Frete
 Aplicação De Defensivos E Adubação
Foliar - Nesta atividade são realizados
a aplicação de inseticidas, fungicidas Pós colheita:
recebimento/secagem/limpeza
e adubação foliar, sendo necessário
contratar serviços de terceiros. Fonte: Dados do autor

Gestão da Produção em Foco - Volume 4


35

O mapeamento das atividades, possibilita de recursos às atividades. Nessa etapa


maior reflexão sobre as atividades na considera-se que as atividades consomem os
propriedade. Assim como o ABC contribuiu recursos, para tanto atribui-se o custo para
com melhor gerenciamento das atividades no cada atividade por meio dos direcionadores.
setor industrial, essa contribuição pode ser
importante na propriedade rural já que a 4.5 DIRECIONADORES DE RECURSOS
mensuração das mesmas possibilitaria ao
A escolha dos direcionadores dos recursos às
produtor maior clareza na decisão de realizar
atividades deram-se conforme apontamentos
tal atividade, uma vez que teria a informação
do produtor afim de possibilitar e facilitar o
de quanto custa e quais os benefícios trazidos
controle. A tabela 3 apresenta os
pela mesma.
direcionadores de recursos utilizados,
Para a mensuração do custo de cada
conforme a característica do insumo.
atividade fez-se a escolha dos direcionadores

Tabela 3 - Direcionadores de Recurso

Insumo Direcionador de Recurso Controle


Média de consumo em função
Óleo Diesel Quantidade de litros/hora
do rendimento da máquina
Adubo Quantidade de ton/ha Controle de aplicação
Herbicida Quantidade de litros/hora Controle de aplicação
Semente Quantidade de kg/ha Controle de aplicação
Fungicida Quantidade de litros/ha Controle de aplicação
Inseticida Quantidade de litros e kg/ ha Controle de aplicação
Randap Quantidade de litros/ha Controle de aplicação
Adubo foliar Quantidade de litros/ha Controle de aplicação
Fonte: Dados do autor.

Os direcionadores dos custos indiretos, mão custa a mão de obra para cada hectare
de obra e Depreciação, assim como os custos trabalhado na cultura da soja transgênica.
diretos, foram calculados por hectares, para Na depreciação foram utilizados somente os
cada atividade considerando-se um período maquinários envolvidos no estudo, conforme
de 8 horas por dia de trabalho, num valor de Tabela 2, a propriedade possui outros bens
R$ 12,50 a hora trabalhada (com encargos) que se optou por não mencioná-los no estudo
no período do plantio, quando não está na uma vez que não afetam os custos das
época do plantio a hora trabalhada é de atividades analisadas. Para cálculo da
R$5,00 que é o valor pago sem época de depreciação considerou-se a taxa de 10% ao
plantio, assim obteve-se um valor de quanto ano do valor dos maquinários.

Gestão da Produção em Foco - Volume 4


36

Tabela 4 - Custeio Por Atividades ABC

Atividades Unitário (R$) Total (R$)


Atividade 1 - Amostragem de Solo
Realização da análise das amostragens 38,00 2.888,00
Atividade 2 - Preparo do solo
Serviço de terceiros (Pulverizador) 17,00 1.292,00
Aplicação de herbicida 58,19 4.422,44
Aplicação de corretivos- Gesso 150,00 11.400,00
Mão de obra fixa 5,00 2.400,00
Aplicação de corretivos- Calcário 215,00 16.340,00
Diesel 108,00 8.208,00
Atividade 3 - Plantio
Fertilizante 760,50 57.798,00
Semente 284,21 21.600,00
Serviço terceiros (Conj. Trator-semeadora) 150,00 11.400,00
Mão de obra variável 12,50 1.200,00
Diesel 54,00 4.104,00
Atividade 4 - Aplicação de Defensivos e adubação foliar
Adubação foliar 7,80 592,80
Inseticida e fungicida 294,11 22.352,36
Serviços Terceiro (Pulverizador) 17,00 1.292,00
Atividade 5 - Dessecação para colheita
Aplicação de dessecante 34,00 2.584,00
Serviço de terceiros (Pulverizador) 17,00 1.292,00
Atividade 6 - Colheita
Serviço terceiros 2,75 sacas/ha* 12.540,00
Atividade 7 - Transporte
Frete 1,00 R$/saco** 4.180,00
Atividade 8 - Pós-Colheita
Recebimento/secagem/limpeza 2,51 R$/saco*** 10.491,80
Total 198.377,40
Fonte: Dados do autor. * e o preço da saca foi considerado de R$60,00 sacas/há, e esse valor é cobrado
levando em conta uma produção de 55 sacas/ha. ** é considerado a mão-de-obra de duas pessoas.

O custeio por atividades permite o realizadas cujo objetivo seja preparar o solo.
conhecimento do custo de cada atividade, O mesmo procedimento foi adotado para as
nesse estudo o objeto de custeio é cada demais atividades (análise do solo, preparo
atividade por hectare cultivado, ou seja, tem- do solo, plantio, aplicação de defensivo e
se a informação do custo de cada atividade. adubação foliar, dessecação para a colheita,
Dessa forma, o custo total da preparação do colheita, transporte, pós colheita e mão de
solo se dá pela soma das atividades obra).

Gestão da Produção em Foco - Volume 4


37

Tabela 5-Custos dos Cultivos do hectare (soja)

Atividades R$/ha % R$/Total %


Preparo do solo 398,19 18,2 30.262,44 18,2
Plantio 1.248,71 57,1 94.902,00 57,1
Colheita 165,00 7,5 12.540,00 7,5
Aplicação de defensivos e adubação
318,91 14,6 24.237,16 14,6
foliar
Transporte 55,00 2,5 4.180,00 2,5
Total 2.185,81 100,0 166.121,60 100
Fonte: Dados da autora.

A Tabela 5 evidencia o custo das atividades É um auxílio para o produtor por possuir a
em cada cultivo, por hectares e total. Essa informação do custo de cada atividade, e
informação pode auxiliar na gestão das verificar-se que a atividade contribuiu ou não
atividades uma vez que se tem o com o custo elevado da plantação, uma vez
conhecimento do custo que esse terá para feita essa identificação possibilita-se uma
colher. análise mais detalhada, como por exemplo, o
Nesse estudo, identifica-se que o cultivo da preço da semente e fertilizantes, dentre
soja possui o maior custo por hectare, no outros.
plantio e possui maior custo total no preparo
do solo e no plantio.
Tabela 6-Demonstrativo de Resultado do Exercício 2016

Descrição Valores
Receita Operacional R$ 250.800,00
(-) Deduções R$ 194.777,40
(=) Receita liquida R$ 56.022,60
(-) Custo Variável R$ 1.200,00
(-) Custo Fixo R$ 2.400,00
(=) Receita Bruta R$ 52.422,60
(-) impostos R$ 706,80
(=) Resultado liquido R$ 51.715,80
Fonte: Dados da autora.

Acima foi realizado o Demonstrativo de como imposto o proprietário descreveu pagar


Resultado do Exercício da safra de soja no itr R$7,10 por hectare e por ccir 2,20 por
levando em consideração os valores hectare.
apontados pelo proprietário, como receita
operacional estimamos um valor de R$60,00
por saca, e uma quantidade de 55 sacas e

Gestão da Produção em Foco - Volume 4


38

5. CONCLUSÃO atividades pode-se reduzir a complexibilidade


do modelo.
O estudo apresentou como objetivo mensurar
o custo do plantio de soja transgênica em Apesar das limitações do estudo, por se tratar
uma propriedade rural utilizando-se do de um estudo de caso único, pode-se inferir
custeio de absorção e baseado em atividades que na propriedade rural estudada, a
– ABC. Para tanto, realizou-se um estudo de aplicação do método de custeio ABC
caso em uma propriedade de 76 hectares. No proporcionou informações relevantes acerca
que tange a aplicação do método ABC, de custos. Identificaram-se as atividades que
considerando a complexidade da implantação mais consomem recursos preparo do solo e o
do mesmo em indústrias, considera-se o plantio.
método aplicável em propriedade rural haja
Analisando os valores obtidos tem se que o
vista que as atividades podem ser definidas
total de recursos que consideramos como
com maior clareza devido ao número reduzido
custeio de absorção pois envolve todos os
em relação a outros segmentos.
recursos utilizados desde o preparo até a
Este estudo possibilitou ao agricultor a colheita é igual ao total do custeio ABC, a
identificação das atividades realizadas na diferença dos dois métodos se dá pôr no
produção de Soja transgênica, de modo método abc, ser um método mais
geral, pode-se identificar os custos por exemplificado, onde mostram o consumo por
atividades e o custo total de cada cultivo. Os atividades, o que que facilita a compreensão
resultados, em termos de aplicação do do que está acontecendo com a safra de uma
método ABC são considerados satisfatórios maneira geral para o produtor
uma vez que com a redução do número de
.

REFERÊNCIA [8] LEONE, George Sebastião Guerra.


LEONE, Rodrigo José Guerra. Curso de
[1] ANDRADE, M.G.F.; MORAIS, M. I.;
contabilidade de custos. 4. ed. São Paulo: Atlas,
MUNHÃO, E.E.; PIMENTA, P.R. Controle de custos.
2010.
[2] CHING, Hong Y. Gestão Baseada em
[9] MARTINS, Eliseu. Contabilidade de
Custeio por Atividade – ABM – Activity Based
Custos. 6ª Edição. São Paulo. Editora Atlas, 2000.
Management. São Paulo: Editora Atlas 1997.
[10] MARTINS, Eliseu. Contabilidade de
[3] COOPER, R.; KAPLAN, R.S. Measure
custos. 9. ed. 7. reimpr. São Paulo: Atlas, 2006. 370
costs right: make the right decisions. Harvard
p.
Business Review, v. 66, n. 5, p. 96-103, 1988.
[11] NAKAGAWA, Masayuki. ABC: custeio
[4] CREPALDI, S. A. Curso básico de
baseado em atividades. 2. ed. São Paulo: Atlas,
contabilidade de custos. São Paulo: Atlas, 2012.
2001. 96 p. na agricultura: um estudo sobre a
[5] ELDENBURG, L.G.; WOLCOTT, S.K., rentabilidade na cultura da soja. Custos
Gestão de custos: como medir, monitorar e motivar Agronegócio on line v. 8, n. 3, 2012.
o desempenho. Tradução de Luís Antônio Fajardo
[12] SANTOS, José; MARION, José Carlos;
Pontes; ver. tec. George S.Guerra Leone. Rio de
SEGATTI, Sônia. Administração de custos na
Janeiro: LTC, 2007.
agropecuária. 3.ed. São Paulo: Atlas, 2002. 165 p.
[6] HANSEN, Don R.; MOWEN, Maryanne M.
[13] SEGALA, C. Z. S.; SILVA, I. T. Apuração
Gestão de custos: contabilidade e controle. São
dos Custos na produção de leite em uma
Paulo: Pioneira: Thomson Learning, 2001
propriedade rural do município de Irani - SC.
[7] HOFER, Elza. SOUZA, José Antonio de. Custos e @gronegócio on line, v. 3, n. 1, p. 61-86,
ROBLES JR, Antonio. Gestão estratégica de custos 2007.
na cadeia de valor do leite e derivados. Custos e
@gronegócio on line - v. 3 – Edição Especial – Maio
– 2007.

Gestão da Produção em Foco - Volume 4


39

CAPÍTULO 4

Larissa Degenhart
Mara Vogt
Nelson Hein
Adriana Kroenke

Resumo: Este estudo objetiva investigar a relação existente entre o crescimento


econômico e gastos públicos dos municípios da região Sul do Brasil. Realizou-se
uma pesquisa descritiva com abordagem quantitativa, mediante corte seccional. O
período de análise compreendeu o ano de 2010. A população do estudo foi
composta por todos os municípios do Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul.
Já a amostra constitui-se dos dez maiores e dez menores municípios de cada
Estado analisado. Os resultados revelam um erro de estimação de 22,12% em
média e, o poder de explicação do modelo foi de 96,5%, ou seja, apresenta alta
confiabilidade. Conclui-se que há uma relação entre o crescimento econômico e os
gastos públicos dos municípios analisados. Assim nota-se que esses gastos
apresentam um papel importante no crescimento econômico da região Sul do
Brasil.

Palavras-chave: Crescimento econômico; Gastos Públicos; Região Sul do Brasil.

Gestão da Produção em Foco - Volume 4


40

1 INTRODUÇÃO evidenciando a partir da análise dos dados,


A relação entre o crescimento econômico e as um crescimento no capital público, o que
despesas do governo têm atraído o interesse implica um aumento considerável no PIB.
de diversos economistas, pesquisadores e
formuladores de políticas públicas (Abu- No âmbito nacional, Ferreira (1994) e Ferreira
Bader & Abu-Qarn, 2003). Nesse sentido, e Malliagros (1998), encontraram relação
Baldacci et al. (2008) salientam que o papel entre os investimentos realizados em
do capital humano para a promoção do infraestrutura e o crescimento econômico.
desenvolvimento econômico é um tema Dessa forma, Ferreira (1994) evidenciou a
considerado relevante na literatura referente o partir de seu estudo, que um crescimento
crescimento econômico. econômico no capital investido em
infraestrutura, gerava a longo prazo, aumento
Nesse sentido, Oliveira (2004) destaca que no PIB. Contudo, há poucas evidências de
desde a metade da década de oitenta, o estudos empíricos que utilizaram bases de
interesse em analisar os determinantes do dados locais para efetuarem uma avaliação
crescimento econômico foi sendo renovado. do crescimento econômico, entre estes,
Os estudos realizados por Romer (1986) e destaca-se Mello Jr. (1996), Lledó (1996),
Lucas Jr. (1988) consagraram-se importantes, Ferreira e Malliagros (1998), Cândido Júnior
pois possibilitaram um novo impulso aos (2001), Oliveira (2004); Resende e Figueiredo
esforços da pesquisa relacionada à análise (2005), Marques Junior, Oliveira e Jacinto
do crescimento econômico. (2006), Mata et al. (2006), Rocha e Giuberti
(2007).
Para tanto, conforme Gregoriou e Ghosh
(2009) a literatura que abrange a política fiscal Contudo, a política fiscal segundo Bogoni,
e o crescimento econômico têm normalmente Hein e Beuren (2011) é composta por um
dentre os estudos realizados, o objetivo de conjunto de políticas, planos e ações que o
investigar os efeitos da despesa pública governo aproveita para injetar e diminuir os
global em relação ao crescimento econômico, recursos na economia, conforme suas
ou os aspectos que diferenciam os prioridades, bem como, disponibilidades de
componentes da despesa pública para com o recursos. Assim, a política fiscal é utilizada
crescimento. como instrumento de estabilização
econômica, sendo que não se pode deixar de
Desse modo, autores como Romer (1986), considerar que o governo frente esta questão
Aschauer (1989), Barro (1989: 1990), Chu et exerce um papel fundamental, até mesmo no
al. (1995), Mello Jr. (1996), Cândido Júnior âmbito local, uma vez que a provisão de bens
(2001), entre outros, estabelecem a partir de públicos poderá influenciar na produtividade
seus estudos que os gastos públicos podem e na qualidade de vida das pessoas na
elevar o crescimento econômico, a partir do sociedade como um todo.
aumento da produtividade do setor privado.
Desde então, vários estudos foram realizados, Frente ao exposto, destaca-se a seguinte
na busca de explicar as diferenças do questão que norteia esta pesquisa: Qual é a
crescimento econômico com os gastos relação existente entre o crescimento
públicos (Oliveira, 2004). Cândido econômico e gastos públicos dos municípios
Júnior (2001) ressalta que a preocupação dos da região Sul do Brasil? Com o intuito de
efeitos dos gastos públicos na economia é responder a questão apresentada, dentre um
recorrente, sobretudo, quando relacionado conjunto de fatores, o objetivo deste estudo é
com os impactos destes sobre o crescimento. investigar a relação existente entre o
crescimento econômico e gastos públicos dos
Nesse contexto vários estudos foram municípios da região Sul do Brasil.
realizados com o intuito de analisar a
influência do capital público sobre a Esta pesquisa justifica-se em função da
produtividade e o Produto Interno Bruto (PIB), relevância dos gastos públicos em relação ao
ou seja, crescimento econômico, crescimento econômico, bem como, no
apresentando-se com resultados processo de estabilização econômica, pois no
significativos, sendo que Aschauer (1989) foi contexto atual, a política macroeconômica tem
um dos autores a abordar esse tema, a partir como elemento essencial o ajuste fiscal, com
de dados da economia norte americana, o intuito de reforçar o aumento da

Gestão da Produção em Foco - Volume 4


41

produtividade dos gastos públicos e a busca positivas até determinado nível, no qual o
de alocação de recursos mais eficiente com aumento destes gastos repercute
objetivo de alavancar o setor produtivo. negativamente sobre as taxas de
crescimento, tanto do produto quanto da
A relevância do estudo baseia-se nos poupança.
argumentos de Rocha e Giuberti (2007), pois
ainda sabe-se pouco sobre como a De acordo com Ferreira (1994), os
composição do gasto público pode afetar a investimentos públicos possuem um impacto
taxa de crescimento econômico de um país. produtivo significativo e afetam os retornos
Para tanto, a solução passará a depender, privados. Além disso, é importante a relação
entre outras questões, da contribuição que entre a produtividade, o crescimento
cada um dos componentes do gasto público econômico e o capital público. Os
exerce sobre o crescimento econômico. investimentos públicos têm caído rapidamente
e há possibilidade de que o declínio nos
2 REFERENCIAL TEÓRICO gastos em infraestrutura causarem impactos
sobre o crescimento da produtividade.
Na revisão de literatura são abordados
aspectos que visam explorar fatores A recente discussão do papel dos gastos
relacionados ao crescimento econômico e públicos no crescimento econômico vem por
gastos públicos, baseado nos modelos meio das teorias de crescimento endógeno.
exógenos e endógenos determinantes do Já nos modelos de crescimento neoclássico
crescimento, que norteiam o desenvolvimento tradicional, as mudanças tecnológicas, a
e as premissas para consecução do estudo. política fiscal e o crescimento populacional
Na sequência destacam-se os gastos são tratados de forma exógena, enquanto nas
produtivos e improdutivos e, posteriormente, teorias mais recentes, essas variáveis são
com o objetivo de contextualizar o tema, são incertas e podem apresentar um diferencial
apresentados os estudos anteriores de crescimento que prolongue o período de
encontrados na literatura nacional e convergência entre as rendas per capitas dos
internacional, estes que estabelecem países (Cândido Júnior, 2001).
comparações com os resultados que serão
obtidos neste estudo. Além disso, de acordo com o autor, nas
teorias mais recentes do crescimento
 GASTOS PÚBLICOS E econômico, a política fiscal ocupa uma
CRESCIMENTO ECONÔMICO posição destaque como um dos fatores que
pode explicar diferenças de renda per capita
Diversas são as pesquisas que analisam a e taxas de crescimento entre os países. A
relação entre as despesas públicas e o estrutura tributária e a provisão eficiente de
crescimento econômico. Na década de 1990, bens públicos influenciam a produtividade do
a pesquisa sobre o crescimento endógeno setor privado e a taxa de acumulação do
havia produzido diversos modelos de ligação capital.
entre os gastos públicos e a taxa de
crescimento econômico a longo prazo. Dessa
forma, Aschauer (1989), Barro (1989; 1990),
Easterly e Rebelo (1993), Mello Jr. (1996),
Devarajan, Swaroop e Zou (1996), Cândido 2.1 MODELOS EXÓGENOS E ENDÓGENOS
Júnior (2001), Rocha e Giuberti (2007), DETERMINANTES DO CRESCIMENTO
Gregoriou e Ghosh (2009), Bogoni, Hein e Os efeitos do crescimento de longo prazo dos
Beuren (2011), entre outros autores impostos apresentam-se como a
estudaram a relação entre os gastos públicos preocupação de muitos estudos na literatura
e o crescimento econômico. do crescimento econômico, em relação às
consequências das políticas fiscais
A partir do modelo desenvolvido por Barro (Ortigueira, 1998). Nesse sentido, a partir dos
(1990), a importância dos gastos públicos trabalhos de Romer (1986) e Lucas Jr. (1988)
pode ser avaliada e, por meio desse modelo, é de que surgem os modelos de crescimento
o tamanho do governo apresenta um impacto endógeno. A partir de então, a discussão
sobre o crescimento econômico, ou seja, os sobre o papel da política fiscal no
gastos públicos geram externalidades

Gestão da Produção em Foco - Volume 4


42

crescimento econômico tornou-se relevante economia, a fertilidade e longevidade das


dentre os estudos. pessoas como componentes endógenos.

De acordo com Romer (1986), uma vertente Nesse sentido, Lledó (1996) menciona que os
da literatura relacionada ao crescimento Estados com renda per capita reduzida,
endógeno refere-se a modelos em que os apresentam uma menor distribuição de renda.
retornos privados e sociais para o Para tanto, as relações de longo prazo entre a
investimento se divergem, de modo que as política fiscal, distribuição de renda e
escolhas levam a deduções de taxas de crescimento econômico, são consideradas
poupança e crescimento econômico. Para fatores analisados na literatura sobre o
tanto, a tributação é um dos principais crescimento endógeno, sendo que o governo
determinantes do crescimento econômico de desempenha importante papel, tanto no
longo prazo. modelo de crescimento endógeno, quanto
exógeno e a principal diferença entre os
Segundo Lucas Jr. (1988) nos países modelos, diz respeito às variáveis fiscais.
desenvolvidos, o crescimento econômico
tende a ser estável durante longos períodos, O autor destaca ainda, que o Brasil apresenta
sendo o suficiente para eliminar os efeitos do grandes disparidades econômicas e sociais
ciclo dos negócios. Já nos países entre seus Estados, como é o caso das
subdesenvolvidos, acontecem mudanças diferentes performances de crescimento que
repentinas nas taxas de crescimento são observadas ao longo das últimas
econômico e pode ser considerado como décadas. Contudo, nos modelos estimados
uma medida resumo de todas as atividades como endógenos e exógenos, o PIB per
de uma sociedade, pois estas enfrentam capita, apresentou-se negativamente
diversas peculiaridades econômicas e relacionado com o crescimento econômico,
culturais, que são a chave para o confirmando a convergência nos Estados
desempenho e crescimento econômico. brasileiros desses modelos. Entretanto,
Estados com maior grau de urbanização,
Rebelo (1991) em sua análise realizada sobre possuem uma distribuição de renda
as políticas de crescimento de longo prazo, concentrada, já os Estados com graus de
salienta que a grande disparidade entre os urbanização similares, apresentam níveis
países nas taxas de crescimento econômico é elevados de renda per capita e
a característica mais preocupante no consequentemente menor concentração de
processo de desenvolvimento. Nesse sentido, renda.
os retornos crescentes e externalidades não
são considerados fundamentais para gerar o Resende e Figueiredo (2005) salientam que
crescimento endógeno, pois, este os modelos exógenos correspondem aos
crescimento é compatível com tecnologias de efeitos da política fiscal, infraestrutura e
produção que apresentam retornos desigualdade de renda, em relação ao
constantes. crescimento econômico. Para tanto, Alesina e
Rodrick (1994) desenvolveram um modelo de
Conforme Alesina e Rodrick (1994) a distinção crescimento econômico e de política fiscal
entre economia e política, é de que a endógenas, cuja carga tributária é escolhida
economia preocupa-se com a expansão por meio do voto direto efetuado pelos
econômica, já a política atenta-se a questão indivíduos.
de como distribuir os recursos, sendo que o
crescimento é impulsionado pela expansão Contudo, Lau (2008) destaca que os modelos
do capital social. Romer (1994) destaca as de crescimento endógenos e exógenos
origens do crescimento endógeno, implicam em diferentes efeitos de longo prazo
ressaltando que o crescimento econômico é das mudanças relacionadas aos fundamentos
um resultado endógeno de um sistema econômicos. Para Hum e Kim (2013), uma das
econômico e o foco deste crescimento, principais diferenças entre esses modelos de
concentra-se no comportamento da economia crescimento, esta o choque transitório para a
como um todo. Em relação a população, parcela de investimentos que apresentam
Ehrlich e Lui (1997) destacam que o diferentes efeitos de longo prazo sobre a
crescimento endógeno requer para a produção per capita.

Gestão da Produção em Foco - Volume 4


43

Nesse sentido, o papel da política fiscal Segundo Cândido Júnior (2001), existem
perante o crescimento econômico é uma dificuldades na mensuração adequada dos
discussão que divide os economistas gastos produtivos, sendo necessário avaliar
Keynesianos e Neoclássicos, pois o debate os custos de oportunidade e os benefícios
limitava-se a países no curto prazo, porém em dos programas. Para tanto, tem-se a análise
meados da década de cinquenta, os estudos do custo-benefício, instrumento de avaliação
sobre o crescimento econômico passaram a dos projetos públicos que buscam capturar
ser de longo prazo, utilizando um modelo todos os prós e contras. Algumas medidas
neoclássico de crescimento como ponto de afetam a produtividade dos diversos gastos
partida. Os primeiros modelos partiram do públicos, como é o caso da dos gastos com
crescimento exógeno (Marques Junior, educação, saúde e saneamento básico.
Oliveira e Jacinto, 2006). Dessa forma, Castro
(2006) salienta que o crescimento endógeno e A literatura apresenta duas maneiras de
a política fiscal, podem afetar a taxa de avaliar a qualidade do gasto público em
crescimento econômico no longo prazo. relação ao crescimento e são classificados
como produtivos e improdutivos, de acordo
com seu efeito sobre o nível de atividade. Os
gastos produtivos apresentam impactos
2.2 GASTOS PÚBLICOS PRODUTIVOS E positivos sobre o crescimento e o inverso
IMPRODUTIVOS ocorre para os gastos improdutivos (Rocha &
Giuberti, 2007).
O governo é uma questão pública, pois
Devarajan, Swaroop e Zou (1996) afirmam
De acordo com Rajkumar e Swaroop (2008), é
que a sua composição é aberta para
possível que os estudos não abordem a real
discussão política. Pesquisadores diferenciam
situação entre os gastos públicos e os
os gastos públicos produtivos e improdutivos
resultados do desenvolvimento. Ainda, a
e, demonstram como um país pode melhorar
relação entre as despesas públicas e os
o seu desempenho econômico. Dessa forma,
resultados desejáveis pode ser cortada,
a teoria econômica e as evidências empíricas
devido ao fato de não haver mecanismos de
não fornecem respostas claras para entender
incentivo no setor público.
como a despesa pública afeta o crescimento
econômico.
As despesas públicas geralmente são
tratadas como improdutivas, quando afetam o
Conforme Chu et al. (1995), os gastos
bem-estar do consumidor. Já as despesas de
produtivos são utilizados de maneira a
investimento, educação e saúde são
atender os objetivos com o menor custo
consideradas produtivas, pois afetam a
possível, ou seja, o governo atender
acumulação de capital humano. Para tanto, os
diretamente à população na chamada
efeitos das despesas públicas foram alvo de
produção pública. Porém, se o governo for
discussões sobre os impactos no crescimento
terceirizar os seus serviços, o conceito
econômico (Castro, 2006).
produtivo incide nas compras ou nos
processos de licitação. Além disso, os gastos
produtivos são iguais nos benefícios e custos Nesse sentido, Mata et al. (2006) ao investigar
marginais dos bens ou produtos públicos. os padrões de crescimento no Brasil,
analisaram as mudanças no tamanho da
população e na produtividade econômica.
No que refere-se aos gastos improdutivos, os
Desse modo, municípios bem sucedidos,
autores ressaltam que estes derivam da
providenciam infraestrutura e suporte
diferença entre o gasto efetivo e o gasto que
administrativo para os empreendimentos que
minimiza o custo no momento da obtenção
possibilitam aumentar a produtividade e
desse mesmo objetivo e, diante disso, esse
consequentemente os salários. Além disso,
valor é considerado um desperdício para a
serviços públicos com alta qualidade irão
sociedade, pois esse recurso poderia ser
atrair novos residentes, estes que adicionam
aplicado para outros fins. Os motivos da
ganhos de produtividade. Dessa forma, a
existência destes gastos improdutivos são a
partir da conceituação geral dos gastos
falta do preparo técnico das pessoas, as
públicos produtivos e improdutivos, é preciso
deficiências do processo orçamentário, as
analisar os impactos desses gastos com o
incertezas, a corrupção, a paralisação de
crescimento econômico.
obras, entre outros motivos.

Gestão da Produção em Foco - Volume 4


44

2.3 ESTUDOS RELACIONADOS período de 1986 a 2002 em todos os Estados


brasileiros. Os gastos públicos analisados
A relação entre os gastos públicos e
foram os gastos correntes, gastos com
crescimento econômico já foi objeto de
defesa, educação, saúde, transporte e
estudo em diferentes ambientes e abordado
comunicação. Os resultados indicam que a
por diversos autores em todo o mundo. Mello
relação entre os gastos correntes do governo
Jr. (1996) teve como objetivo verificar o
e o crescimento econômico é negativa, a
impacto dos gastos públicos sobre o
relação entre os gastos com capital e a taxa
crescimento econômico e os seus
de crescimento é positiva e ainda, a relação
determinantes, utilizando dados dos
entre gastos com defesa, educação,
municípios brasileiros durante o período de
transporte e comunicação com o crescimento
1985 a 1994. O estudo baseou-se nos gastos
econômico é positiva. A única exceção é a
com habitação e urbanização, saúde e
saúde que está negativamente relacionada
saneamento e, serviços de transporte. Os
com o crescimento.
resultados apresentaram que os gastos
públicos tiveram efeitos positivos sobre o
crescimento econômico. Já Bogoni, Hein e Beuren (2011) objetivaram
investigar a relação existente entre o
crescimento econômico, considerando o
Devarajan, Swaroop e Zou (1996) analisaram
Produto Interno Bruto (PIB), e os gastos
a relação entre a composição da despesa
públicos com saúde e saneamento, educação
pública e do crescimento econômico,
e cultura, investimento, habitação e ainda,
utilizando dados de 43 países, no período de
assistência e previdência das maiores
1970 a 1990. Além disso, utilizaram as
cidades da região Sul do Brasil, referentes ao
despesas correntes e de capital, gastos com
período de 2000, comparando o PIB real com
defesa, educação e saúde, transporte e
o estimado nestas cidades. Os resultados
comunicação. Os resultados indicam que as
demonstram um erro de estimação de 22,45%
variáveis de despesa com capital, transportes
e uma confiabilidade de 85,16% dos dados.
e comunicações, saúde e educação,
Além disso, concluíram que os gastos
apresentaram relação negativa com o
públicos têm um importante papel no
crescimento econômico. Já as despesas
crescimento econômico.
correntes apresentaram relação positiva com
o crescimento econômico.
3. PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS
Cândido Júnior (2001) analisou a relação
entre os gastos públicos e o crescimento Diante do objetivo de investigar a relação
econômico no Brasil, no período 1947 a 1995. existente entre o crescimento econômico,
Os resultados demonstram que a proporção considerando o Produto Interno Bruto, em
de gastos públicos no Brasil encontrava-se relação aos gastos públicos dos dez maiores
acima do seu nível ótimo e, existiam indícios e menores municípios da região Sul do Brasil,
de baixa produtividade. realizou-se uma pesquisa descritiva, de corte
seccional e quantitativa. Dessa forma, a
pesquisa descritiva é definida como “um tipo
No estudo de Oliveira (2004), o autor
de estudo que permite ao pesquisador a
investigou as causas do crescimento
obtenção de uma melhor compreensão do
econômico das cidades nordestinas do Brasil
comportamento de diversos fatores e
no período de 1991 a 2000. Os resultados
elementos que influenciam determinado
sugerem que a presença de externalidades,
fenômeno” (Oliveira, 1997:114).
atuando por meio da educação e
urbanização, afeta positivamente o
crescimento econômico, e, por outro lado, a Além disso, a pesquisa caracteriza-se como
maior distância dos mercados atua de corte seccional (cross-sectional), pois
negativamente no crescimento econômico. investiga algum fenômeno que realiza um
Para explicar o crescimento econômico corte transversal no tempo, efetuando
destacou-se o papel da educação e da análises detalhadas para fundamentar
urbanização. observações alcançadas uma única vez
(Babbie, 1999).
Rocha e Giuberti (2007) objetivaram avaliar
quais componentes dos gastos públicos No que tange a abordagem quantitativa,
contribuem para o crescimento econômico, no Richardson (1999:70) descreve que as

Gestão da Produção em Foco - Volume 4


45

pesquisas quantitativas são definidas dessa da pesquisa compreende os 1.188 municípios


forma, pois empregam a “quantificação tanto da região Sul do Brasil, sendo 496 do Estado
nas modalidades de coleta de informações, do Rio Grande do Sul, 399 do Paraná e 293
quanto no tratamento dessas por meio de de Santa Catarina. Para seleção da amostra,
técnicas estatísticas, desde as mais simples, foram selecionadas com base no último
como percentual, média, desvio padrão, às Censo, os 10 (dez) maiores e 10 (dez)
mais complexas, como coeficientes de menores municípios de cada Estado da
correlação, análises de regressão etc.”. região Sul do Brasil, utilizando como base o
valor do PIB. A seguir apresenta-se o PIB dos
O período do estudo compreende o ano de dez maiores municípios de cada Estado da
2010, ano do último Censo Demográfico região Sul do Brasil em ordem decrescente
divulgado no sítio do Instituto Brasileiro de por meio da Tabela 1.
Geografia e Estatística - IBGE. A população

Tabela 1 - PIB dos dez maiores municípios de cada Estado da região Sul

Rio Grande Santa


Paraná PIB PIB PIB
do Sul Catarina

Curitiba 53.106.496 Porto Alegre 43.038.100 Joinville 18.473.989

São José dos


13.690.888 Canoas 16.547.965 Itajaí 15.235.108
Pinhais

Araucária 12.371.028 Caxias do Sul 15.692.358 Florianópolis 9.806.533

Londrina 9.936.563 Rio Grande 7.737.854 Blumenau 8.950.141

Jaraguá do
Maringá 8.263.627 Gravataí 7.081.795 5.259.384
Sul

Paranaguá 7.200.842 Triunfo 5.777.746 São José 4.784.757

Novo
Foz do Iguaçu 6.760.174 5.395.052 Chapecó 4.149.294
Hamburgo

Santa Cruz do São Francisco


Ponta Grossa 5.925.946 4.810.913 3.984.152
Sul do Sul

Cascavel 5.190.170 Pelotas 4.564.464 Criciúma 3.566.410

Pinhais 4.493.030 Passo Fundo 4.551.198 Brusque 2.944.597

Total 126.939.469 Total 115.197.449 Total 77.154.369

Total PR 217.289.676 Total RS 252.482.596 Total SC 152.482.338

Participação Participação Participação


no PIB do 58,42% no PIB do 45,63% no PIB do 50,60%
Estado Estado Estado

Fonte: IBGE (2014).

Gestão da Produção em Foco - Volume 4


46

De acordo com os dados da Tabela 1, os 10 Estado do Rio Grande do Sul teve o menor
maiores municípios de cada Estado da região percentual de participação no PIB em relação
Sul possuem participação elevada em relação aos demais Estados analisados. Dessa forma,
Produto Interno Bruto, sendo que de todas os pode-se observar por meio da Tabela 1 que
municípios do Estado do Paraná, os 10 os três Estados apresentam um percentual
maiores municípios somam o total do PIB de bem próximo em relação à participação no
R$ 126.939.469,00 reais, o que representa PIB do Estado.
58,42%. Já no Estado do Rio Grande do Sul, a
participação no PIB do Estado corresponde a Na Tabela 2 evidencia-se a relação dos dez
45,63% e no Estado de Santa Catarina a menores municípios da região Sul do Brasil e
50,6% do PIB. Além disso, nota-se que o seu respectivo PIB, em ordem decrescente.

Tabela 2 - PIB dos dez menores municípios de cada Estado da região Sul
Rio Grande Santa
Paraná PIB PIB PIB
do Sul Catarina
Coqueiro Lajeado
Flórida 29.528 26.955 26.317
Baixo Grande
Novo
27.375 Ponte Preta 26.909 Entre Rios 24.424
Itacolomi
Godoy Barra do
26.615 26.475 Ibiam 23.270
Moreira Guarita
São Pedro São Miguel da
Uniflor 25.967 26.011 22.050
das Missões Boa Vista
Presidente
Nova Aliança Canudos do
25.706 24.999 Castello 21.486
do Ivaí Vale
Branco
Esperança
25.254 Novo Xingú 24.527 Tigrinhos 21.459
Nova
Santiago do
Santa Inês 24.752 Carlos Gomes 22.617 21.083
Sul
Jardim Olinda 22.101 Linha Nova 22.218 Paial 20.418
Benjamin
São Manuel
20.917 Constant do 21.870 Jardinópolis 18.659
do Paraná
Sul
Miraselva 19.954 Itati 20.933 Flor do Sertão 18.006
Total 248.173 Total 243.519 Total 217.175
Total PR 217.289.676 Total RS 252.482.596 Total SC 152.482.338
Participação Participação Participação
no PIB do 11,42% no PIB do 9,64% no PIB do 14,24%
Estado Estado Estado
Fonte: IBGE (2014).

Por meio da Tabela 2 pode-se visualizar que Catarina, o percentual da participação no PIB
dentre os 10 menores municípios da região foi em 2010, de 14,24%.
Sul do Brasil, há uma participação baixa no
total do PIB de cada Estado, sendo que o No que concerne à coleta de dados, para os
Estado do Rio Grande do Sul novamente gastos públicos dos maiores e menores
apresentou o menor percentual de municípios da região Sul do Brasil consultou-
participação no PIB em relação aos demais se em abril de 2014, a página da Secretaria
Estados, com um percentual de 9,64%. do Tesouro Nacional - STN. Foram
Quanto ao Estado do Paraná, os dados considerados os gastos públicos referentes
revelam que dentre os menores municípios, o ao ano de 2010. Os dados referentes ao PIB
PIB corresponde a 11,42%. Já em Santa respectivos a esses municípios foram

Gestão da Produção em Foco - Volume 4


47

coletados no mesmo mês e ano, no sítio do gastos governamentais na determinação do


IBGE. Diante disso, utilizou-se como variável PIB, na sequência a análise dos dados com
dependente o PIB e as variáveis aplicação da regressão, para a estimação do
independentes foram Assistência, Saúde, PIB municipal e por último, porém não menos
Educação e Cultura. importante, uma comparação entre os
resultados obtidos (PIBs estimados) dos
O estudo apresenta um modelo matemático maiores e menores municípios da região Sul
de regressão não linear multivariável que é do Brasil.
avaliado empiricamente, pois pretende-se
analisar como as variáveis independentes 4. MODELO MATEMÁTICO NÃO LINEAR
impactam na formação do PIB (crescimento MULTIVARIÁVEL PARA AVALIAÇÃO DOS
econômico). Os dados primeiramente foram GASTOS GOVERNAMENTAIS NA
normalizados e na sequência, utilizou-se o DETERMINAÇÃO DO PIB
método estatístico SPSS®
Os valores dos gastos públicos referentes à
Assistência, Saúde, Educação e Cultura dos
3.1 ANÁLISE E DESCRIÇÃO DOS DADOS dez maiores municípios da região Sul do
Nesta seção, apresenta-se a análise e Brasil, são apresentados por meio da Tabela
descrição dos dados. Será usada uma 3.
regressão não-linear para avaliação dos

Tabela 3 – Gastos Públicos dos maiores municípios da região Sul do Brasil


Estados/Municípios Assistência Saúde Educação Cultura
Paraná
Curitiba 187.517.989,84 1.272.421.774,34 1.145.194.150,08 71.425.921,16
São José dos Pinhais 36.459.599,10 265.936.368,12 244.043.112,98 7.656.827,24
Araucária 34.902.189,74 114.769.521,72 231.470.590,52 8.821.801,84
Londrina 53.312.694,36 494.711.308,15 277.447.167,96 16.963.140,94
Maringá 33.463.355,42 314.379.832,55 194.461.796,64 7.085.913,04
Paranaguá 7.704.854,56 34.641.080,97 12.632.880,64 1.363.762,26
Foz do Iguaçu 11.185.397,90 201.969.796,26 195.312.325,06 5.678.967,24
Ponta Grossa 42.073.246,42 147.097.526,06 172.006.604,84 9.824.211,12
Cascavel 35.390.444,38 75.358.009,71 160.162.966,78 5.067.779,34
Pinhais 8.842.927,56 42.316.297,39 84.246.786,38 1.122.894,16
Rio Grande do Sul
Porto Alegre 183.782.353,36 1.540.608.486,30 1.055.376.536,46 81.268.767,76
Canoas 24.075.132,62 240.317.171,80 229.458.307,50 8.475.451,04
Caxias do Sul 48.274.235,82 401.513.947,85 303.476.942,90 31.619.151,36
Rio Grande 5.461.700,20 50.065.438,57 134.755.669,26 6.352.896,58
Gravataí 16.814.822,22 109.863.184,54 192.835.167,60 4.025.991,16
Triunfo 861.077,32 1.947.873,93 6.838.509,82 16.966.725,62
Novo Hamburgo 16.461.723,86 123.324.148,63 180.569.842,14 6.631.974,80
Santa Cruz do Sul 15.896.651,18 108.162.706,25 90.120.074,36 1.237.807,58
Pelotas 20.681.228,48 209.898.941,70 172.073.740,88 10.927.672,74
Passo Fundo 19.834.992,62 60.357.736,34 116.715.537,78 2.160.817,58
Santa Catarina
Joinville 41.661.897,56 584.462.951,74 447.427.649,08 22.210.844,74
Itajaí 28.070.205,84 132.046.898,84 243.705.823,98 11.692.601,86
Florianópolis 43.842.724,82 191.993.885,08 380.766.223,28 12.395.920,52
Blumenau 45.554.055,66 260.209.616,07 257.873.390,26 6.249.615,86
Jaraguá do Sul 41.890.586,58 126.314.351,02 135.061.933,22 11.028.589,76
São José 17.899.526,78 39.903.184,86 161.998.662,08 7.383.130,06
Chapecó 19.385.151,18 152.512.086,17 131.637.154,16 3.722.221,14
São Francisco do Sul 8.413.189,18 28.294.254,64 53.464.464,26 2.402.758,12
Criciúma 22.566.499,18 103.501.182,76 158.905.821,66 12.099.692,72
Brusque 5.661.493,98 53.460.192,53 72.746.211,24 2.364.974,50
Fonte: Secretaria do Tesouro Nacional (2014).

Gestão da Produção em Foco - Volume 4


48

A partir dos dados da Tabela 3, dos maiores Na Tabela 4 apresentam-se os valores dos
municípios da região Sul do Brasil, pode-se gastos públicos referentes à Assistência,
verificar que o Estado do Paraná é o que Saúde, Educação e Cultura dos dez menores
apresenta o maior valor somado dos gastos municípios da região Sul do Brasil.
públicos, seguido pelo Rio Grande do Sul e
Santa Catarina.

Tabela 4 – Gastos Públicos dos menores municípios da região Sul do Brasil


Estados/Municípios Assistência Saúde Educação Cultura
Paraná
Flórida 1.194.067,70 1.567.324,40 2.477.639,94 46.202,00
Novo Itacolomi 1.017.374,02 1.467.350,60 2.667.032,60 107.592,44
Godoy Moreira 479.530,92 1.677.790,29 3.282.521,56 59.647,18
Uniflor 610.880,30 1.346.539,53 2.464.178,48 49.135,82
Nova Aliança do Ivaí 918.587,04 2.751.634,39 2.474.319,30 580,00
Esperança Nova 687.423,00 1.296.221,84 2.272.002,80 42.732,36
Santa Inês 582.155,70 1.958.361,40 2.020.891,98 73.983,08
Jardim Olinda 642.529,52 1.529.447,81 2.722.145,66 19.940,00
São Manuel do Paraná 583.728,02 2.008.140,87 3.264.993,18 217.441,22
Miraselva 540.539,94 2.630.475,80 2.817.114,10 206.732,16
Rio Grande do Sul
Coqueiro Baixo 435.268,48 1.276.024,02 1.958.293,56 137.774,52
Ponte Preta 316.916,00 1.276.771,00 1.553.462,00 142.176,00
Barra do Guarita 460.094,32 3.428.139,24 3.127.500,88 43.301,96
São Pedro das
455.598,82 1.231.996,52 3.169.229,60 96.401,09
Missões
Canudos do Vale 195.989,58 1.245.825,02 2.457.745,34 132.342,46
Novo Xingú 265.188,82 1.412.448,02 2.061.719,18 103.604,78
Carlos Gomes 305.060,26 1.370.085,98 2.039.775,26 89.433,46
Linha Nova 73.084,50 943.781,78 1.594.325,04 250.004,86
Benjamin Constant do
243.076,12 2.631.310,68 3.123.257,92 64.369,08
Sul
Itati 1.011.012,44 1.814.113,59 2.634.660,40 1.003,82
Santa Catarina
Lajeado Grande 524.467,82 1.584.857,51 1.907.916,90 40.000,00
Entre Rios 932.562,20 2.112.865,21 4.468.386,12 864,00
Ibiam 413.532,02 1.496.622,40 2.718.795,80 160.076,16
São Miguel da Boa
275.968,94 1.404.910,26 2.595.098,52 21.931,50
Vista
Presidente Castello
307.879,58 1.513.357,38 2.581.308,28 42.439,44
Branco
Tigrinhos 331.975,48 1.588.498,48 3.989.643,00 15.807,40
Santiago do Sul 492.841,94 1.946.197,74 1.682.284,12 109.946,40
Paial 548.087,12 1.865.199,05 2.489.187,64 123.367,42
Jardinópolis 451.111,04 1.483.106,99 2.610.600,14 116.103,48
Flor do Sertão 677.787,48 1.469.361,35 2.633.755,54 36.902,28
Fonte: Secretaria do Tesouro Nacional (2014)

Gestão da Produção em Foco - Volume 4


49

De acordo com os dados apresentados na Conforme os dados apresentados na Tabela 3


Tabela 4, dos menores municípios da região e Tabela 4 procedeu-se o ajustamento não
Sul do Brasil, pode-se observar que o Estado linear para as variáveis dependentes e
do Paraná é o que apresenta o maior valor independente que foram analisadas no
somado dos gastos públicos, seguido por estudo. Para tanto, com o modelo matemático,
Santa Catarina e dessa vez, por último, o pretende-se ajustar de forma não-linear e
Estado do Rio Grande do Sul. multivariável o formato que segue:

̂ = 𝛽0 𝐴𝑆𝑆𝛽1 𝑆𝐴𝑈𝛽2 𝐸𝐷𝑈𝛽3 𝐶𝑈𝐿𝛽4


𝑃𝐼𝐵

Neste modelo matemático, a variável demais valores (𝛽0, 𝛽1 , 𝛽2 , 𝛽3 , 𝛽4 ) são as


dependente é o PIB, pois analisou-se o constantes que foram buscadas no modelo.
Produto Interno Bruto de cada município. Já o
conjunto de variáveis independentes que O modelo que se deseja obter passa
foram analisadas neste estudo são as inicialmente por uma linearização efetivada,
seguintes: Assistência (ASS), Saúde (SAU), por meio da utilização de logaritmos naturais
Educação (EDU), Cultura (CUL). Assim, os e posteriormente a aplicação da técnica dos
mínimos quadrados, conforme segue:

̂ = 𝐿𝑛𝛽0 + 𝛽1 𝐿𝑛𝐴𝑆𝑆 + 𝛽2 𝐿𝑁𝑆𝐴𝑈 + 𝛽3 𝐿𝑛𝐸𝐷𝑈 + 𝛽4 𝐿𝑛𝐶𝑈𝐿


𝐿𝑛𝑃𝐼𝐵

Na sequência, para facilitar o optou-se por parametrizar as variáveis do


desenvolvimento do modelo matemático estudo, de acordo com o que segue:

̂ = 𝑌̂; 𝐿𝑛𝛽0 = 𝛼0 ; 𝐿𝑛𝐴𝑆𝑆 = 𝑋1 ; 𝐿𝑁𝑆𝐴𝑈 = 𝑋2 ; 𝐿𝑛𝐸𝐷𝑈 = 𝑋3 ; 𝐿𝑛𝐶𝑈𝐿 = 𝑋4


𝐿𝑛𝑃𝐼𝐵

Formando assim um modelo de regressão


linear múltiplo:

𝑌̂ = 𝛼0 + 𝛽1 𝑋1 + 𝛽2 𝑋2 +𝛽3 𝑋3 +𝛽4 𝑋4

Nesse contexto, a aplicação da técnica dos Quando apresentada esta solução em sua
mínimos quadrados procura a minimização forma final, as equações para os três Estados,
entre os valores estimados para o PIB do analisados os seus 10 municípios com maior
município (𝑌̂𝑖 ) e o valor real do Produto PIB, resultou no que segue:
Interno Bruto (𝑌𝑖 ). Deste modo, tem-se seis
modelos de regressão, ou seja: dois modelos,
um para cada Estado (RS, SC e PR).

𝐴𝑆𝑆 0,185 𝐸𝐷𝑈0,269 𝐶𝑈𝐿0,375


̂ 𝑀𝑎𝑖𝑜𝑟𝑒𝑠
𝑃𝐼𝐵 𝑅𝑆
= 109,95
𝑆𝐴𝑈0,154

𝑆𝐴𝑈0,09 𝐸𝐷𝑈0,739 𝐶𝑈𝐿0,023


̂ 𝑀𝑎𝑖𝑜𝑟𝑒𝑠
𝑃𝐼𝐵 𝑆𝐶
= 2,435
𝐴𝑆𝑆 0,075

𝐴𝑆𝑆 0,148 𝑆𝐴𝑈0,007 𝐸𝐷𝑈1,695


̂ 𝑀𝑎𝑖𝑜𝑟𝑒𝑠
𝑃𝐼𝐵 𝑃𝑅
= 0,000043
𝐶𝑈𝐿0,575

Gestão da Produção em Foco - Volume 4


50

De similar modo, os três modelos para os menores PIBs são como segue:

𝐴𝑆𝑆 0,148 𝑆𝐴𝑈 0,024 𝐶𝑈𝐿0,078


̂ 𝑀𝑒𝑛𝑜𝑟𝑒𝑠
𝑃𝐼𝐵 𝑅𝑆
= 2282,44
𝐸𝐷𝑈 0,048

𝑆𝐴𝑈0,205
̂ 𝑀𝑒𝑛𝑜𝑟𝑒𝑠
𝑃𝐼𝐵 𝑆𝐶
= 107366,1
𝐴𝑆𝑆 0,101 𝐸𝐷𝑈 0,179 𝐶𝑈𝐿0,055

𝐴𝑆𝑆 0,148
̂ 𝑀𝑒𝑛𝑜𝑟𝑒𝑠
𝑃𝐼𝐵 𝑃𝑅
= 131137,28
𝑆𝐴𝑈 0,225𝐸𝐷𝑈0,049 𝐶𝑈𝐿0,018

Tomando os 60 municípios analisados e determinação r²=96,5%, representando assim,


fazendo uma única regressão, chega-se a alta correlação do modelo:
seguinte formulação, com coeficiente de

𝐴𝑆𝑆 0,111 𝐸𝐷𝑈1,332𝐶𝑈𝐿0,234


̂ 𝑇𝑜𝑑𝑜𝑠 = 0,00033
𝑃𝐼𝐵
𝑆𝐴𝑈 0,378

Este modelo não servirá de estimador, 4.2 Análise dos dados com aplicação do
contudo é possível inferir que de modo geral: Modelo
Assistência, Educação e Cultura impulsionam
o PIB municipal, enquanto gastos na Saúde o Com a utilização dos modelos para projetar o
reduzem. Este tipo de formulação não é uma PIB de 2010 de cada município, obtêm-se os
regra geral, comparado aos seis modelos valores da Tabela 5, no qual compara-se o
anteriores, porém serve de indicador regional, PIB Real de 2010 com o PIB Projetado para
destacando-se a Educação com o maior este mesmo ano dos dez maiores municípios
expoente (1,332), o que faz dele o maior vetor da região Sul do Brasil de acordo com o sítio
de crescimento do PIB municipal. do IBGE.

Gestão da Produção em Foco - Volume 4


51

Tabela 5 – PIB Real de 2010 versus PIB Projetado dos maiores municípios da região Sul do Brasil
pelo modelo não linear multivariado

Estados/Municípios PIB Real PIB Projetado Variação (%)


Paraná
Curitiba 53.106.496 57.563.177 8,39
São José dos Pinhais 13.690.888 11.741.358 14,24
Araucária 12.371.028 9.773.608 21,00
Londrina 9.936.563 9.813.521 1,24
Maringá 8.263.627 8.258.173 0,07
Paranaguá 7.200.842 6.687.827 7,12
Foz do Iguaçu 6.760.174 8.009.184 18,48
Ponta Grossa 5.925.946 5.719.696 3,48
Cascavel 5.190.170 7.194.599 38,60
Pinhais 4.493.030 4.672.172 3,99
Rio Grande do Sul
Porto Alegre 43.038.100 35.374.771 17,81
Canoas 16.547.965 9.188.059 44,48
Caxias do Sul 15.692.358 17.055.901 8,69
Rio Grande 7.737.854 6.915.498 10,63
Gravataí 7.081.795 7.001.455 1,13
Triunfo 5.777.746 5.251.440 9,11
Novo Hamburgo 5.395.052 8.116.415 50,44
Santa Cruz do Sul 4.810.913 3.637.220 24,40
Pelotas 4.564.464 9.286.054 103,44
Passo Fundo 4.551.198 5.476.657 20,33
Santa Catarina
Joinville 18.473.989 14.651.491 20,69
Itajaí 15.235.108 8.302.367 45,51
Florianópolis 9.806.533 11.563.905 17,92
Blumenau 8.950.141 8.746.264 2,28
Jaraguá do Sul 5.259.384 5.180.990 1,49
São José 4.784.757 5.641.895 17,91
Chapecó 4.149.294 5.343.002 28,77
São Francisco do Sul 3.984.152 2.486.430 37,59
Criciúma 3.566.410 6.023.936 68,91
Brusque 2.944.597 3.404.300 15,61
Fonte: Secretaria do Tesouro Nacional (2014)

A partir dos dados apresentados na Tabela 5, O erro máximo encontrado entre os


pode-se perceber que o erro relativo médio municípios analisados é de 103,44% para o
do conjunto dos Estados do Paraná, Rio PIB e concentrou-se no município de Pelotas
Grande do Sul e Santa Catarina foi de (RS). Dessa forma, observa-se que neste
22,12%. Em relação a cada Estado, os erros município o PIB real ficou abaixo do PIB
relativos médios dos maiores municípios da projetado. Já o erro mínimo foi do município
região Sul foram de 11,66% para o Estado do de Maringá (PR), este que apresentou um
Paraná, 29,05% para o Rio Grande do Sul e percentual de 0,07 para o PIB do município,
de 25,67% Santa Catarina, ou seja, o Estado ou seja, este resultado revela que o PIB real
do Rio Grande do Sul apresentou um ficou muito próximo do PIB projetado para o
percentual maior, seguido de Santa Catarina ano analisado.
e, o Estado do Paraná teve o menor
percentual de erro entre o PIB real e
projetado.

Gestão da Produção em Foco - Volume 4


52

Este achado difere-se do encontrado por As variáveis, Assistência, Saúde, Educação e


Bogoni, Hein e Beuren (2011), pois Cultura, estabeleceram a relação entre o PIB
verificaram que o Estado do Paraná real e o PIB projetado e são consideradas
apresentava um percentual de erro na insumos produtivos, pois são serviços
estimação do PIB maior que os demais públicos que participam da formação do PIB
Estados analisados. destes municípios e ainda, apresentam uma
relação positiva entre o crescimento
Nota-se a partir desse resultado, que os econômico e a participação do governo. Os
maiores municípios de cada Estado, por resultados revelam que essas variáveis
apresentarem características diferentes entre apresentaram-se significativas perante o
si evidenciaram uma margem de erro distante. crescimento econômico dos maiores
Nota-se que o modelo matemático utilizado municípios da região Sul do Brasil e ainda,
não foi muito adequado ao analisar os demonstram que os investimentos públicos e
maiores municípios. privados se complementam.

Destaca-se ainda, que apenas três dos Obteve-se o valor do coeficiente de


maiores municípios da região Sul do Brasil, determinação de R²=96,5%, o que lhe confere
obtiveram um erro de estimativa entre o PIB alta margem de confiabilidade. A partir do
real e o PIB projetado acima de 50%, sendo modelo para projetar o PIB de 2010 de cada
que dois municípios são do Rio Grande do Sul município, obtêm-se os valores da Tabela 6,
e um é de Santa Catarina. Além disso, no qual compara-se o PIB Real de 2010 com
verificou-se que 10 municípios apresentaram o PIB Projetado para este mesmo ano dos dez
uma margem de erro de estimação abaixo de menores municípios da região Sul do Brasil.
10%, o que demonstra que o erro entre o PIB
real e o PIB estimado, foi mínimo nestes
municípios.

Gestão da Produção em Foco - Volume 4


53

Tabela 6 – PIB Real de 2010 versus PIB Projetado dos menores municípios da região Sul do Brasil
pelo modelo não linear multivariado

Estados/Municípios PIB Real PIB Projetado Variação (%)


Paraná
Flórida 29.528 27.843 5,71
Novo Itacolomi 27.375 26.927 1,64
Godoy Moreira 26.615 22.760 14,49
Uniflor 25.967 25.447 2,01
Nova Aliança do Ivaí 25.706 25.294 1,61
Esperança Nova 25.254 26.400 4,54
Santa Inês 24.752 23.238 6,12
Jardim Olinda 22.101 25.244 14,22
São Manuel do Paraná 20.917 22.148 5,88
Miraselva 19.954 20.718 3,82
Rio Grande do Sul
Coqueiro Baixo 26.955 27.436 1,78
Ponte Preta 26.909 26.535 1,39
Barra do Guarita 26.475 25.306 4,42
São Pedro das
26.011 26.227 0,83
Missões
Canudos do Vale 24.999 24.026 3,89
Novo Xingú 24.527 24.935 1,67
Carlos Gomes 22.617 25.161 11,24
Linha Nova 22.218 22.129 0,41
Benjamin Constant do
21.870 23.600 7,91
Sul
Itati 20.933 21.050 0,55
Santa Catarina
Lajeado Grande 26.317 22.225 15,55
Entre Rios 24.424 23.585 3,43
Ibiam 23.270 19.566 15,92
São Miguel da Boa
22.050 22.632 2,64
Vista
Presidente Castello
21.486 21.937 2,10
Branco
Tigrinhos 21.459 21.475 0,07
Santiago do Sul 21.083 22.566 7,04
Paial 20.418 20.504 0,42
Jardinópolis 18.659 19.848 6,37
Flor do Sertão 18.006 20.217 12,28
Fonte: Secretaria do Tesouro Nacional (2014).

Na Tabela 6 observa-se que o erro relativo Para tanto, o erro máximo encontrado entre os
médio é de 5,33% para o conjunto dos Estados foi do município de Ibiam (SC), o qual
municípios dos Estados do Paraná, Rio apresenta um percentual de 15,92% e o erro
Grande do Sul e Santa Catarina. Quando mínimo também foi desse Estado, do
verificada a média de erro por Estado, dos município de Tigrinhos, com um percentual de
menores municípios da região Sul do Brasil, 0,07%, pois o valor do PIB real e projetado no
constatou-se que Santa Catarina apresentou ano de 2010 ficou próximo e, o contrário
um erro médio de 6,58%, Paraná de 6% e o aconteceu no município de Ibiam.
Rio Grande do Sul de 3,41%.
Destaca-se que nenhum município dentre os
menores da região Sul do Brasil,

Gestão da Produção em Foco - Volume 4


54

apresentaram um erro de estimativa entre o Chu et al., 1995; Mello Jr., 1996). Além disso,
PIB real e o PIB projetado acima de 50% Cândido Júnior (2001) ressalta que a
como aconteceu nos maiores municípios, pois discussão do papel dos gastos públicos
todos apresentaram um erro entre 0,07% a perante o crescimento econômico decorre
15,92%. Dessa forma, pode-se verificar que das teorias de crescimento endógeno. Já
nos menores municípios analisados o erro de para Romer (1986) e Castro (2006), o
estimativa obtido é menor, ou seja, o erro crescimento endógeno e a tributação são
entre o PIB real e o PIB projetado pode ser considerados os fatores determinantes que
considerado mínimo para os municípios afetam a taxa de crescimento econômico no
analisados. Quanto ao modelo matemático longo prazo.
analisado, ressalta-se que este foi mais
eficiente para estimar o PIB dos menores Dessa forma, esse resultado vai ao encontro
municípios, visto que os valores do PIB real dos achados de Bogoni, Hein e Beuren (2011)
são parecidos entre estes municípios. no qual encontraram um erro de 22,45% e a
confiabilidade foi de 85,16%, o que revela que
A partir da análise realizada com as variáveis os gastos do governo apresentam um papel
utilizadas neste modelo matemático, sendo importante perante o crescimento econômico.
estas a Assistência, Saúde, Educação e Além disso, corrobora com os achados de
Cultura, para estabelecer a relação entre o Mello Jr. (1996) e Oliveira (2004), no qual, no
PIB real e o PIB projetado, percebe-se que primeiro estudo, verificaram que a saúde
estas variáveis são consideradas insumos apresentava uma relação positiva com o
produtivos, ou seja, são serviços públicos que crescimento econômico e no último, a
colaboram para que seja possível formar o educação afetou positivamente o
PIB dos menores municípios da região Sul do crescimento.
Brasil, e ainda, que estabelecem uma relação
positiva entre a participação do governo, para Já os resultados encontrados por Rocha e
a promoção do crescimento econômico dos Gilberti (2007) corroboram parcialmente, pois
municípios. a educação apresentou relação positiva em
relação ao crescimento econômico e a saúde
negativa, sendo que nesta pesquisa ambos
os gastos públicos apresentaram uma relação
4.3 RESULTADOS OBTIDOS NOS MAIORES E positiva com o crescimento. Ainda, difere-se
MENORES MUNICÍPIOS DA REGIÃO SUL DO do resultado obtido por Devarajan, Swaroop e
BRASIL Zou (1996), pois neste estudo os gastos com
educação e saúde apresentaram relação
Em relação aos componentes dos gastos negativa com o crescimento.
públicos analisados neste estudo, dos
maiores e menores municípios da região Sul
Quando efetuada a comparação da variação
do Brasil que são: Assistência (ASS), Saúde
entre o PIB real e projetado obtido dos
(SAU), Educação (EDU) e Cultura (CUL),
maiores e menores municípios da região Sul
percebe-se que ambos apresentaram uma
do Brasil, pode-se destacar que a principal
relação significativa com o crescimento
diferença encontrada entre estes municípios,
econômico, pois os resultados revelam que,
é em relação ao erro relativo médio, pois os
os investimentos públicos e privados em
maiores municípios apresentaram um erro
relação à participação do governo se
maior em comparação com os menores,
complementam.
revelando assim, que nos menores
municípios, o PIB real e o PIB projetado
Os efeitos dos gastos públicos impactam no apresentaram-se bem próximos do esperado.
crescimento econômico, visto que em
diversos estudos essa relação apresentou-se
Por meio da Figura 1 apresenta-se o mapa da
positiva (Cândido Júnior, 2001; Romer, 1986;
região Sul do Brasil, com os dez maiores e
Aschauer, 1989; Barro, 1989; Barro, 1990;
dez menores municípios de cada Estado.
.

Gestão da Produção em Foco - Volume 4


55

Fonte: Elaborado pelos autores

Observa-se a partir da Figura 1 que a maioria Destaca-se ainda, que este modelo utilizado
dos municípios maiores, estes que no estudo, para calcular a estimativa de
apresentam um PIB real aproximado, crescimento econômico, a partir de variáveis
concentram-se próximos às capitais dos três que compõem os gastos públicos,
Estados, diferente dos menores municípios, apresentaram um erro relativo médio de
os quais apresentam um PIB parecido e 22,12% para os maiores municípios da região
encontram-se mais distribuídos no Estado. No Sul do Brasil entre o PIB real e o PIB projetado
caso de Santa Catarina, os menores estão e 5,33% para os menores municípios. Se os
localizados na Região Oeste do Estado, Estados implementassem um modelo de
diferente do Rio Grande do Sul e do Paraná, política pública que instituísse regras quanto
pois nestes Estados os menores municípios, aos gastos públicos, o PIB seria mais
encontram-se em sua maioria, na Região desenvolvido, ou seja, maior em todos os
Norte. Rebelo (1991) destaca que a grande municípios.
disparidade entre as regiões nas taxas de
crescimento econômico, é uma característica Na comparação entre os maiores e menores
preocupante para o desenvolvimento destes municípios da região Sul do Brasil, pode-se
Estados. perceber que no Paraná, o município de
Maringá, que está entre os maiores,
Dessa forma, pode-se concluir que devido ao apresentou como menor erro 0,07% e, em
fato dos municípios maiores apresentarem relação aos menores municípios, Tigrinhos do
características diferentes entre si, sua Estado de Santa Catarina obteve o mesmo
margem de erro é consequentemente maior. percentual de erro, o que revela que o PIB
Já em relação aos menores municípios real apresentou-se próximo do PIB projetado,
analisados, que são parecidos entre si, o erro tanto para os menores municípios, quanto
foi menor, em função destes municípios para os maiores.
estarem bem distribuídos dentro de cada
Estado. Além disso, este resultado revela que Já em relação ao erro máximo entre os
o modelo analisado apresenta-se mais menores e maiores, este apresentou
adequado aos menores municípios dos três significativa diferença, sendo que nos maiores
Estados da Região Sul. municípios, Pelotas do Rio Grande do Sul
obteve um erro entre o PIB real e o projetado

Gestão da Produção em Foco - Volume 4


56

de 103,44% e, dentre os menores municípios, gastos foram com a educação, seguidos


o maior erro foi do município de Ibiam de pelos gastos com saúde.
Santa Catarina com um percentual de
15,92%. Isso demonstra que nos menores A partir dos resultados encontrados nesta
municípios da região Sul do Brasil o valor do pesquisa, conclui-se que é relevante o papel
PIB real ficou muito próximo do projetado. O do governo em relação ao fornecimento dos
contrário aconteceu para os maiores serviços públicos, que possivelmente irão
municípios da região Sul do Brasil, que afetar a produtividade, bem como, a
apresentaram uma variação bem significativa qualidade de vida da população e,
entre o PIB real e o projetado. consequentemente isso irá afetar o
crescimento econômico. Em relação aos
Portanto, de acordo com Lucas Jr. (1988), o gastos efetuados pelo governo quanto à
crescimento econômico é considerado uma Assistência, Saúde, Educação e Cultura,
medida que permite resumir todas as estes gastos podem impactar na
atividades dos municípios, pois estes produtividade do setor privado, assim como,
enfrentam particularidades tanto econômicas, na economia local, em função de serem
quanto culturais, que são a chave para o gastos considerados produtivos e capazes de
desempenho e crescimento econômico. gerar externalidades positivas.

Pode-se afirmar isso com base na


constatação de Castro (2006), o qual destaca
5 CONSIDERAÇÕES FINAIS que as despesas com educação e saúde são
consideradas como produtivas. Além disso,
Este estudo teve como objetivo, investigar a Rocha e Giuberti (2007) salientam que os
relação existente entre o crescimento gastos produtivos são aqueles que
econômico, considerando o Produto Interno apresentam impacto positivo sobre o
Bruto e as variáveis que constituem os gastos crescimento e impulsionar o desenvolvimento
públicos dos municípios da região Sul do econômico da sociedade (Bogoni, Hein e
Beuren, 2011).
Brasil. Para tanto, procedeu-se uma pesquisa
descritiva com abordagem quantitativa e por
meio do corte seccional, com a utilização de Por fim, quanto ao objetivo proposto no
um modelo matemático de regressão não estudo, pode-se afirmar que há uma relação
linear multivariável. positiva entre o crescimento econômico e os
gastos públicos com Assistência, Saúde,
Os resultados revelaram que em relação aos Educação e Cultura dos municípios da região
maiores municípios da região Sul do Brasil, o Sul do Brasil, pois foi obtido um erro de
total de gastos públicos foi maior no Estado estimação de 22,12% em média e, uma
confiabilidade de 96,5%.
do Paraná, na sequência no Estado do Rio
Grande do Sul e por último em Santa Catarina.
Verificou-se ainda que os gastos com Nos menores municípios a margem de erro
educação e saúde foram os que mais se apresentou-se bem menor em relação aos
destacaram, visto que no Estado de Santa maiores. Isso ocorre devido ao fato dos
Catarina os maiores gastos foram com a maiores municípios, na sua maioria,
educação, seguido da saúde. Já no Rio localizarem-se próximos às capitais dos
Grande do Sul e Paraná, os gastos com Estados analisados e os menores
saúde foram maiores, seguidos dos gastos encontrarem-se distribuídos pelos Estados.
com a educação. Diante disso, esse resultado vai ao encontro
dos achados de Bogoni, Hein e Beuren
Quanto aos menores municípios, os gastos (2011), Mello Jr. (1996) e Oliveira (2004). Além
públicos somente inverteram no caso dos disso, o estudo de Rocha e Gilberti (2007)
Estados de Santa Catarina e Rio Grande do corrobora parcialmente e o resultado obtido
Sul, pois desta vez, o primeiro teve mais por Devarajan, Swaroop e Zou (1996) difere-
se do encontrado nesta pesquisa.
gastos públicos que o segundo, porém o
Estado do Paraná permaneceu com maiores
gastos. Além disso, os dados revelam que O estudo contribui para analisar como está o
nos três Estados analisados os maiores PIB real em determinado período, em relação
ao que se esperava para um município. Além

Gestão da Produção em Foco - Volume 4


57

disso, apresenta contribuições no que se caso da Assistência, Saúde, Educação e


refere ao erro encontrado, no qual verificou-se Cultura, não contemplando todas as variáveis
que nos maiores municípios este foi maior em que constituem um orçamento público.
função de serem diferentes entre si e, o Recomenda-se para pesquisas futuras que
contrário ocorreu para os menores municípios seja ampliada e até mesmo alterada a
analisados. amostra da pesquisa, contemplando outras
regiões do Brasil, incluindo outros gastos
Como limitação do estudo, tem-se que o públicos, visto que uma nova amostra
modelo baseia-se em algumas variáveis possibilitará a utilização deste estudo para
relacionadas aos gastos públicos, como é o fins de comparabilidade dos resultados.

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Gestão da Produção em Foco - Volume 4


58

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[25] Mello JR. L. R. de. (1996). Public finance, [32] Richardson, R. J. (1999). Pesquisa social:
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[33] Rocha, F., & Giuberti, A. C. (2007).
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matter?. Journal of Development Economics, 86(1):
96-111.

Gestão da Produção em Foco - Volume 4


59

CAPÍTULO 5
Matheus de Lima Goedert
Larissa Sonda Rigon
Marina Moreira Cunha
Neusa Idick Scherpinski

Resumo: O presente trabalho apresenta uma pesquisa realizada em uma indústria


de móveis localizada no município de Medianeira, no oeste do Paraná, com o intuito
de analisar o controle de qualidade no processo de pintura de cadeiras de madeira
produzidas por esta. Para isso, utilizou-se dados fornecidos pelo setor de
engenharia da própria empresa, a partir dos quais foi realizada uma análise
estatística completa e, com isso, pode-se comparar a ocorrência de cada tipo de
defeito durante o período de tempo analisado, sendo que o Mal Lixado foi o que
apresentou maior ocorrência, com uma média diária de 19,24 cadeiras. Como
todos os tipos de defeitos apresentaram pontos discrepantes, essas variáveis não
tendem à normalidade, portanto, atendem aos padrões de qualidade da empresa.
Contudo, o Controle Estatístico do Processo (CEP) proposto mostrou que existem
pontos acima do limite estabelecido, que devem ser corrigidos. As análises de
variância, bem como as comparações de média (Tukey e Fisher), comprovaram
que o Mal Lixado é o maior defeito na etapa de Lixamento. Pôde-se concluir, ainda,
que esta ocorrência se dá de forma aleatória e independente de fatores externos ao
processo.

Gestão da Produção em Foco - Volume 4


60

1. INTRODUÇÃO: de outro”; com base no usuário, que, de


acordo com Juran (1974 apud CARVALHO,
A indústria moveleira, considerada uma
2012), enfoca na satisfação das necessidades
atividade tradicional, apresenta grande
do consumidor; e com base na produção,
importância para a economia brasileira,
relacionada às práticas de engenharia e da
principalmente pela sua capacidade de
produção, em que a qualidade é considerada
geração de empregos. No Brasil existem
uma variável precisa e mensurável. Esta
aproximadamente 19.753 empresas, lotadas
última é muito importante do ponto de vista do
principalmente nas regiões sul e sudeste, que
controle dos processos, principalmente pela
geraram em 2014 aproximadamente 327,5 mil
utilização de métodos estatísticos.
empregos (MOVERGS, 2015).
O Controle Estatístico de Processos (CEP),
Considerada uma das atividades mais antigas
segundo Paladini (1998), é “qualquer conjunto
do mundo, a produção de móveis era
de condições ou causas que, agindo juntas,
inicialmente realizada por carpinteiros e
geram um dado resultado”. O objetivo básico
artesãos, que, a partir da revolução industrial,
deste é conhecer o processo em estudo.
passaram a utilizar máquinas e ferramentas
Além do mais, os mecanismos do CEP
com o intuito de facilitar o trabalho e acelerar
envolvem técnicas que analisam as alterações
o ritmo de produção. O avanço tecnológico
no processo produtivo, visando determinar
proporcionou a padronização dos produtos e
sua natureza e a frequência com que
favoreceu a produção em escala, sendo que,
ocorrem. Por fim, as análises dessas
atualmente, o setor conta com uma tecnologia
alterações são feitas por mensuração de
de produção consolidada e amplamente
variáveis do processo.
difundida. Além das inovações tecnológicas,
destacam-se ainda as inovações Sendo assim, a presente pesquisa propôs
organizacionais do setor moveleiro, em busca analisar, com base no CEP, o controle de
da melhoria contínua de seu processo qualidade realizado na etapa de Lixamento da
produtivo (FERREIRA et al., 2008). produção de cadeiras em madeira,
produzidas em uma fábrica de móveis de alto
Neste contexto, insere-se o conceito de
padrão, lotada na região oeste do Paraná.
Gestão da Qualidade, que, de acordo com
Paladini (1998), refere-se ao conjunto de
estratégias adotadas visando produzir
qualidade em processos, produtos e serviços. 2. METODOLOGIA
Algumas destas estratégias já eram
praticadas de forma empírica pelos artesãos, Do ponto de vista da abordagem do
que mantinham seu foco no produto. Contudo, problema, este estudo pode ser considerado
foi com o advento da industrialização, e por uma Pesquisa Quantitativa, pois busca
conseguintes ganhos de escala, que este analisar os dados numéricos por meio de
conceito se expandiu, passando a ser tratado recursos e técnicas estatísticas. Portanto, a
como prioridade nos parques fabris, primeira etapa realizada foi o levantamento
principalmente pela necessidade de documental dos dados, os quais foram
padronização. fornecidos pela fábrica em questão. Através
do setor de Engenharia, a empresa mantém
No mundo moderno, em um cenário de um banco de dados com informações
concorrência acirrada proveniente da referentes a produtividade e inconformidades
economia globalizada, pode-se afirmar que os identificadas em produtos ao longo de todo o
conhecimentos relacionados à qualidade processo produtivo.
ampliaram seus horizontes pensando além do
produto. Neste sentido, Garvin (1987 apud Contudo, sob orientação da empresa, optou-
CARVALHO, 2012) classificou cinco se por estudar a etapa de Lixamento das
abordagens distintas da qualidade: cadeiras, pelo fato de ainda não apresentar
transcendental, baseada no produto, baseada nenhum tipo de análise dos dados obtidos por
no usuário, baseada na produção e baseada meio de um ponto de inspeção de qualidade
no valor. antes da etapa de Acabamento (pintura).
Além disso, de acordo com o Engenheiro
Diante disso, vale salientar que, neste estudo, responsável, esta é uma etapa de extrema
a qualidade será abordada com base no importância para a qualidade, tanto do
produto, em que, segundo Teboul (1991), faz- produto, quanto do processo, haja vista que o
se “necessário que exista algo mais ao Lixamento prepara a superfície da madeira
produto, que nos fará escolher este ao invés para receber o acabamento, que representa

Gestão da Produção em Foco - Volume 4


61

uma expressiva parcela do custo de empresa. Nestas análises e demais gráficos,


produção. foram utilizados ainda os programas
computacionais Action, e Minitab.
De posse dos dados, estes foram
organizados em uma planilha no software
Microsoft Excel, sendo que, posteriormente, 3. RESULTADOS E DISCUSSÃO
foram criadas tabelas para correlacionar as
3.1 ANÁLISES EXPLORATÓRIAS
variáveis desejadas e, a partir destas, os
gráficos necessários para a análise estatística A seguir, encontra-se uma análise estatística
do caso. descritiva dos tipos de defeitos em estudo
(Batido, Mal Lixado e Rachado), conforme
Os testes de homocedasticidade foram
Tabela 1, onde pode-se perceber que, nas
realizados tanto para os dados originais,
comparações entre as medidas de posição, o
como para as transformações de dados ln
tipo de defeito Mal Lixado foi o que
|x+1|, raiz quadrada de (x), 1/(x+1); e,
apresentou maior variação (maior amplitude).
também, pelo valor de Fmáximo, obtido pelo
Além disso, este defeito foi o que apresentou
quociente entre a maior e a menor variância.
maior média, mediana, bem como moda
Por fim, foram realizados os testes de Tukey e dentre todos.
Fisher, bem como análise de variância
(ANOVA), os quais permitiram extrair
conclusões sobre o controle de qualidade da

Tabela 1 – Estatística descritiva para os defeitos


Defeito
Análise Quantidade Rachado
Percentual
Média 0,328 19,240 1,977
Desvio Padrão 3,325 122,325 12,148
Variância 555,68 57,48 176,32
Mínimo 0,000 3,000 0,000
Primeiro Quartil 0,000 10,500 0,000
Mediana 0,000 17,000 0,000
Terceiro Quartil 0,000 25,000 3,000
Máximo 19,000 53,000 21,000
Moda 0 8 0
Assimetria 8,93 0,86 2,73
Curtose 88,67 0,36 9,09

O coeficiente de variação é dado pela Por fim, realizando uma análise da curtose,
fórmula: CV = [(desvio padrão)/média]x100. tem-se que os defeitos batido e rachado
Sendo assim, é possível calcular o mesmo apresentam distribuição leptocúrtica, o que,
para cada tipo de defeito, obtendo-se: batido: provavelmente, deve-se ao fato de que se
CV = 1013,71%; mal lixado: CV = 635,78%; trata de uma amostragem grande. Por outro
rachado: CV = 614,46%. Com base nesses lado, a distribuição do defeito Mal Lixado
dados, conclui-se que todos os tipos de pode ser considerada mesocúrtica, ou seja,
defeito apresentam variabilidade muito alta, normal.
sendo que o batido é o que possui a maior
Além disso, foi realizada uma análise gráfica
variabilidade dentre todos.
acerca dos dados quantitativos referentes ao
Com relação à assimetria, tem-se que os tipos controle de qualidade do processo de
de defeitos batido e rachado apresentam Lixamento de cadeiras fabricadas em
simetria positiva, enquanto que o mal lixado madeira, sendo que os resultados estão
apresenta simetria normal tendendo à dispostos nos Gráficos 1 ao 6, abaixo.
positiva.

Gestão da Produção em Foco - Volume 4


62

Gráfico 1 – Boxplot de cada tipo de defeito.

Observando o Gráfico 1, pode-se perceber O Gráfico 2, referentes a quantidade de


que o tipo de defeito que apresentou maior defeito pela data, explicita que o defeito mal
variação foi o mal lixado. Por outro lado, o lixado é o que mais ocorre durante o período
defeito rachado apresentou menor variação, de tempo considerado, seguido pelo rachado
maior quantidade de pontos discrepantes e e, então, pelo batido, sendo que este último
uma certa regularidade na distribuição dos praticamente não ocorre em vários dias nos
mesmos, enquanto que o defeito batido quais foi realizado o controle de qualidade.
apresentou apenas pontos discrepantes sem Os dados do gráfico estão dispostos na forma
devida regularidade. de “nuvem de pontos”, ou seja, de maneira
distribuída, indicando que, provavelmente,
Assim, é possível concluir que, como todos os
não há fatores externos atuando sobre o
tipos de defeitos apresentaram pontos
processo de Lixamento das cadeiras. Logo, é
discrepantes, essas variáveis não tendem à
possível concluir que o controle estatístico de
normalidade e, portanto, atendem aos
processo se encontra nos conformes dos
padrões de qualidade do Controle Estatístico
padrões da empresa.
de Processos (CEP) da empresa.

Gestão da Produção em Foco - Volume 4


63

Gráfico 2 – Gráfico de dispersão da quantidade de defeito pela data.

Conforme análise dos Gráficos 3, 4 e 5, pode- poucos defeitos em um único dia ocorreram
se notar que, para todos os tipos de defeitos, com maior frequência do que muitos defeitos.
a maior frequência de ocorrência dos mesmos
se deu em quantidades baixas, ou seja,
Gráfico 3 – Gráfico de pareto para o defeito mal lixado.

Gestão da Produção em Foco - Volume 4


64

Gráfico 4 – Gráfico de pareto para o defeito rachado.

Gráfico 5 – Gráfico de pareto para o defeito batido.

3.2. CONTROLE ESTATÍSTICO DO utilizada outra ferramenta estatística, o


PROCESSO Controle Estatístico de Processo (CEP), o qual
foi feito para cada tipo de defeito
Ainda com o intuito de realizar uma análise
separadamente, conforme segue abaixo.
acerca do controle de qualidade do processo
Com base no Gráfico 6, pode-se notar que há
de Lixamento das cadeiras em madeira, foi
três pontos acima do limite superior, ou seja,

Gestão da Produção em Foco - Volume 4


65

fora do intervalo de controle. Além disso, limite superior.


existem dois pontos que se encontram sob o

Gráfico 6 – Gráfico de controle para o tipo de defeito mal lixado.

O Gráfico 7, por sua vez, indica que o defeito limite superior (fora do intervalo de controle) e
rachado apresentou cinco pontos acima do dois pontos próximos a este limite.

Gráfico 7 – Gráfico de controle para o tipo de defeito rachado.

A análise do Gráfico 8 permite concluir que o pontos se encontram próximos ao limite


defeito batido apresenta apenas dois pontos central.
acima do limite superior de controle, bem
como apenas um ponto sob este limite. Além
do mais, nota-se que a maioria dos outros

Gestão da Produção em Foco - Volume 4


66

Gráfico 8 – Gráfico de controle para o defeito batido

Desta maneira, pode-se concluir que, para


todos os tipos de defeitos, apesar de haver 3.3 Análises de Variância
baixos índices de inconformidades, o Com o objetivo de comparar os tratamentos e
processo não está totalmente controlado, uma avaliar a significância do modelo, foi realizada
vez que há pontos fora dos limites superiores a análise de variância (ANOVA), como
de controle. Esse fato indica que é necessário mostram as Tabelas 2 e 3.
realizar medidas corretivas para regularizar o
processo de Lixamento das cadeiras.

Tabela 2 – Análise de Variância


Fonte Grau de Soma dos Quadrado
Frequência
deVariação Liberdade Quadrados Médio
Tratamentos 2 28265 14132,5 306,94
Resíduos 383 17635 46 -
Total 385 45900 - -

A análise de variância, representada pela defeitos rachado e batido, se comparadas à


Tabela 2, apresentou diferenças significativas média do mal lixado, foram significativas.
entre as médias ao relacionar as quantidades
de ocorrência de cada tipo de defeito A Tabela 3 (abaixo) apresenta a comparação
apresentado no controle de qualidade do das médias pelos métodos de Tukey e Fisher,
Lixamento das cadeiras. Considerando que o os quais ressaltam as diferenças entre as
valor de F é maior que Fcrítico (Fcrítico=3), médias de cada tipo de defeito apresentado
rejeita-se Ho, portanto, pode-se concluir e nas cadeiras quando do controle de
afirmar que as diferenças entre as médias dos qualidade.

Tabela 3 – Comparação de média entre os tipos de defeitos.


Tipo de defeito Média Tukey Fisher
Mal lixado 19,24 A A
Rachado 1,977 B B
Batido 0,328 B B

Gestão da Produção em Foco - Volume 4


67

Conforme a Tabela 3 pode-se notar que não


houve diferença significativa entre os tipos de
4.CONCLUSÃO
defeito rachado e batido (ou seja, suas
médias não se diferem significantemente), Pode-se concluir, através do presente
apenas entre o mal lixado com relação aos trabalho, que o controle de qualidade do
demais, sendo que o mesmo apresentou processo de Lixamento das cadeiras
média muito superior ao batido e ao rachado. fabricadas pela empresa em questão pode
Portanto, pode-se concluir que o tipo de ser considerado eficaz, pois é possível notar
defeito Mal Lixado é o maior problema da que os defeitos não ocorrem com
empresa quanto à ocorrência de defeitos, e, dependência de fatores externos, não há
por isso, necessita uma atenção especial, vícios nem tendências neste processo.
bem como medidas para resolver o problema.
Com base na Análise de Variância, notou-se
A análise de resíduos apresentou que um defeito não interfere na ocorrência
independência, no entanto não apresentou dos demais. Além disso, foram obtidos os
normalidade, o que já era de se esperar, uma resultados desejados quanto à normalidade e
vez que o processo de Lixamento independe homocedasticidade dos dados, uma vez que
de fatores externos e, caso houvesse os mesmos não atenderam estes requisitos, o
normalidade, o mesmo provavelmente que era esperado justamente pelo fato de que
possuiria erros e vícios. os defeitos não ocorrem com dependência de
algum fator.
Os testes de homocedasticidade indicaram
que os resíduos não são homocedásticos. Por fim, notou-se que o maior problema da
Assim sendo, propõe-se uma coleta de dados empresa quanto ao processo de Lixamento
mais detalhada e melhor controlada por parte das cadeiras é o defeito mal lixado, que
dos responsáveis. No entanto, outro fator que ocorreu com maior frequência durante o
pode ter contribuído para a não período de tempo analisado, indicando que
homocedasticidade dos dados é o fato de são necessárias atitudes para o corrigir e
que há diferenças significativas entre a controlar. No entanto, a ocorrência de defeitos
ocorrência de determinados tipos de defeito; encontra-se controlada se comparada ao
por exemplo, o mal lixado ocorre com volume de produção da empresa.
bastante frequência, enquanto o batido e o
rachado ocorrem com frequências menores.

REFERÊNCIAS <http://www.movergs.com.br/img/arquivos/movergs
/dados-movergs_147.pdf >. Acesso em: 25 ago.
[1] CARPINETTI, Luiz C. R. Gestão da
2016.
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[2] CARVALHO, Marly M. de; PALADINI,
Administração e seu impacto na moderna Gestão
Edson P. Gestão da Qualidade: Teoria e Casos. 2.
da Qualidade. Gestão e Produção. Vol. 5, n.3,
ed. Rio de Janeiro: Elsevier: ABEPRO, 2012.
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Daniela S.; ARAÚJO, Rogério D.; MELLO, Carlos
Dinâmica de Qualidade. 1 ed. Rio de Janeiro:
H.; BOEIRA, Jorge L. F. Relatório de
Qualitymark, 1991.
acompanhamento setorial: Industria Moveleira. Vol.
1, Campinas: ABDI/Unicamp, 2008.
[4] MOVERGS. Relatório setorial 2015 polo
moveleiro do Rio Grande do Sul. Disponível em:

Gestão da Produção em Foco - Volume 4


68

CAPÍTULO 6

Kezia Sayoko Matsui Pereira


Bárbara Helen Rodrigues Ramires Seribeli
Eduardo Baches
Rayssa de Andrade Pache
Renan Mitsuo Ueda

Resumo: O presente artigo visa avaliar o impacto dos custos de distribuição física
de produtos com a integração da cadeia de suprimento, em uma empresa
especializada no ramo do setor alimentício. A metodologia se deu com o uso do
Software UFV Beer Game, sendo realizados testes em dois cenários de distribuição,
na inexistência de informações entre os componentes da cadeia e do
conhecimento dos dados da demanda de produtos dos clientes. O método de
Monte Carlo foi utilizado para calcular a previsão de demanda do produto, e a partir
do mesmo, possibilitou prover a informação que fluiu nos elos da cadeia. Assim,
realizou-se o tratamento dos custos logísticos e elaborou-se um gráfico comparativo
dos cenários em estudo, a fim de observar o comportamento da rede em relação
aos seus custos com e sem o conhecimento da demanda dos clientes diretos. O
uso da informação logística causa um impacto positivo na redução dos custos de
todos os integrantes da cadeia, e consequentemente permite o fortalecimento da
rede.

Palavras chave: Cadeia de Suprimentos, Beer Game, Logística


.

Gestão da Produção em Foco - Volume 4


69

1. INTRODUÇÃO dificulta a sua implementação. Para fins de


estudos, esses módulos podem ser
A competitividade nos mercados varejistas
substituídos por jogos empresariais. Um dos
vem crescendo nos últimos anos devido ao
jogos mais utilizados para resolução de
aumento do número de estabelecimentos,
problemas logísticos é o Beer Game,
bem como a quantidade de empresas
integrando e fortalecendo a troca de
fornecedoras dos produtos distribuídos,
informações através da administração de
principalmente nos países emergentes, que é
estoques em todos os estágios da cadeia
o caso do Brasil. Segundo Deloitte (2013), em
produtiva da cerveja (SIMCHI-LEVI,
2011, as empresas com crescimento mais
KAMINSKY, SIMCHI-LEVI, 2010).
rápido estavam situadas em países de
mercado emergente. Logo, estes têm se Sendo assim, este trabalho apresenta o uso
tornado atrativo para a entrada de redes de um sistema de informação na observação
estrangeiras no mercado nacional, o que vem da dinâmica da supply chain em uma
contribuindo significativamente para o empresa no setor alimentício, através da
aumento da competitividade, sendo essas as comparação quantitativa das variáveis
detentoras da maior fatia de lucro do setor. geradas pela simulação no Beer Game,
Dessa forma, as empresas procuram táticas evidenciando os resultados da integração das
de diferenciação que garantam a informações como base para formação de
disponibilidade de seus produtos ao cliente estratégias de negócio, culminando em
final. Assim, o desempenho de vendas de um maiores ganhos de produtividade e mercado.
comércio varejista é resultado da performance
de todas as empresas antecessoras, ou seja,
da cadeia de suprimentos com um todo. 2. REFERENCIAL TEÓRICO
Além das ações locais, as globais se tornam
estratégicas para que uma empresa seja mais 2.1 GESTÃO DA CADEIA DE SUPRIMENTO
competitiva no setor em que atua. Em um mercado competidor, as estratégias
Para isso, a logística tem se tornado essencial empresariais conduzem as organizações a
na operacionalidade de serviços entre fazerem melhorias por toda sua cadeia
fornecedores, indústria e os diversos produtiva, diminuindo custos e aumentando
intermediários existentes até a chegada do os investimentos na cadeia de suprimentos. A
produto junto ao consumidor final. A configuração da rede logística consiste
configuração da rede de distribuição dos basicamente em fornecedores, centros de
produtos é peça-chave para otimizar o produção, depósitos, centros de distribuição,
fornecimento do bem na quantidade e no varejistas, além de matérias primas, estoque
período que minimizem os custos totais de em processos e de produtos acabados que
produção, estoque e transporte, sem interferir se deslocam entre as instalações (SIMCHI-
na disponibilidade do item nas prateleiras. A LEVI; KAMINSKY; SIMICHI-LEVI, 2010).
complexidade dessa questão envolve outras Gerenciar a cadeia de suprimentos trata-se
decisões como mix de produtos, de utilizar um conjunto de métodos para fazer
armazenagem, distribuição e transporte, além a integração entre às áreas da logística,
dos requisitos do marketing, que não devem transporte, armazenamento, custos e etc.
ser pensadas separadamente. Desse modo, Além disso, para uma melhor análise de toda
além de conhecer a supply chain, as cadeia é preciso considerar fornecedores de
empresas devem estar inseridas na mesma, a fornecedores e clientes de clientes, pois estes
fim de interagir, buscando a otimização de também geram impactos no desempenho da
toda a cadeia, pois somente dessa forma, as rede.
vantagens competitivas poderão ser
evidenciadas (SIMCHI-LEVI, KAMINSKY, O grande objetivo a ser alcançado pelo
SIMCHI-LEVI, 2010; PIRES, 2009). estudo da gestão da cadeia de suprimentos
seria conferir que o produto seja entregue no
Como forma de integrar os vários níveis da prazo, com preço acessível e qualidade,
cadeia de suprimentos, existem os módulos conforme a necessidade dos clientes.
ERP (Enterprise Resource Planning), que
reúnem informações dos vários elos, a fim de 2.2 VALOR DA INFORMAÇÃO
estabelecer uma sincronia entre as partes, Para ter uma cadeia de suprimentos integrada
auxiliando no planejamento e resultando na é preciso que a informação entre os diversos
redução do efeito chicote. No entanto, os setores esteja fluindo de maneira eficiente.
softwares ainda são de custo elevado, o que Com o desenvolvimento cada vez mais

Gestão da Produção em Foco - Volume 4


70

acelerado da tecnologia, um setor que tem produtos disponíveis no local e momento


auxiliado bastante às empresas é área de desejados para o consumo.
tecnologia da informação, com a criação de
softwares e hardwares que auxiliam no fluxo
contínuo das informações ao longo da cadeia. 2.5 ERP
(CHOPRA E MEINDL, 2003).
De acordo com Russomano (2000), o ERP
Desse modo, o fluir de informações contribui pode ser definido como um sistema de
para a redução da variabilidade dos estoques informação integrado por meio de um
na cadeia de suprimentos, conferindo em software comercial, tendo como objetivo dar
melhores previsões de demanda dos suporte para as operações de uma
fornecedores e agilidade de distribuição aos organização. Geralmente, são divididos em
varejistas, aumentar a disponibilidade dos módulos que se comunicam em uma mesma
produtos e redução do lead time, a fim de base de dados central, de forma que as
atender os clientes. informações alimentadas em um módulo são
disponibilizadas instantaneamente para os
demais que necessitam dessas informações.
2.3 PEDIDO PERFEITO
Segundo Souza (2000) o ERP surgiu por volta
De acordo com Wanderley et.al (2011), um da década de 90 onde grandes corporações
pedido perfeito deve abranger alguns industriais adotaram este tipo de ferramenta,
requisitos, como ser entregue nas surgindo como uma evolução dos sistemas
quantidades solicitadas; no periodo MRP II, pois permitem controlar os demais
determinado, cumprindo o prazo acordado. recursos da empresa (recursos financeiros,
Além disso, a documentação deve estar humanos, de vendas, distribuição, entre
completa e exata (incluindo guias de outros.). Para Corrêa e Gianesi (1996), o
remessa, faturas de embarque); entregues em princípio básico do MRP II configura-se como
perfeito estado e com a configuração correta um método de cálculo de necessidades,
para ser utilizado pelo cliente. viabilizado pela utilização de sistemas
computacionais que permitem identificar o
Portanto, a qualidade e eficácia durante a
volume e o tempo dos recursos de manufatura
elaboração de todo o pedido é crucial para o
(materiais, pessoas, equipamentos, entre
pedido perfeito, onde os pré-requisitos podem
outros), para que se cumpram os programas
ser atendidos com o auxílio de ERP’s
de entrega de produtos com estoques
eficientes.
reduzidos. Sendo assim, o ERP utiliza a
infraestrutura tecnológica para o suporte às
operações da empresa, pela integração dos
2.4 LOGÍSTICA
departamentos que permite uma redução
Por sua definição, a logística faz a gestão do significativa de todos os custos envolvidos.
fluxo de produtos, desde os pontos de
2.6 JOGOS EMPRESARIAIS
fornecimento até os de consumo, tendo como
objetivo principal satisfazer a demanda dos Conforme Lima (2004), os jogos empresariais
clientes ao menor custo possível. De forma são utilizados para muitos fins, como:
geral, a logística engloba todas as atividades treinamento e desenvolvimento de pessoas,
ligadas à posse e movimentação dos avaliação de potencial, na área educacional,
produtos nas organizações: previsão da suporte em planejamento e tomada de
demanda, gestão de estoques, transportes, decisões, bem como, na formação de
armazenagem, design de redes de profissionais de diversas áreas. Além disso,
distribuição, entre outros. os jogos quando bem utilizados permitem o
desenvolvimento de conhecimento técnico,
Segundo Coelho (2015), a logística tem um
habilidades estratégicas e competências
papel importante na composição dos custos
individuais dos jogadores.
de uma organização, como: transporte,
armazenagem e estoques, juntos representam Em tese, o jogo empresarial simula a
geralmente mais de 10% do custo de um realidade na visão do mundo dos negócios,
produto e esta proporção pode chegar onde um desafio é lançado, o mesmo contém
facilmente a 30% em alguns setores, como o regras claras e objetivas a serem cumpridas;
alimentício. Já para os clientes, a logística age ou seja, o resultado do jogo é o reflexo do
como parte da criação de valor ao tornar os comportamento individual de cada jogador,

Gestão da Produção em Foco - Volume 4


71

uma vez que as decisões são tomadas por (pedidos atrasados ou por falta de
cada um dos componentes. mercadoria).

2.7 UFV BEER GAME 3.METODOLOGIA


De acordo com Ambrósio, Braga e Pereira 3.1 A EMPRESA E O RAMO
(2006), o UFV Beer Game estende o Beer
O presente estudo visa simular através do
Game Original permitindo simular uma cadeia
programa Beer Game, a dinâmica da cadeia
de produção e distribuição de cerveja com
de suprimentos de uma empresa
vários varejistas, atacadistas, distribuidores e
especializada no ramo alimentício. Nesse
fábricas, possibilitando uma simulação mais
grupo ela compreende o segundo mercado
próxima de uma cadeia real de produção e
em faturamento e volume de vendas no Brasil.
distribuição. Cada papel na cadeia tem
A empresa possui 30 fábricas espalhadas
associadas quatro variáveis de controle ou de
pelo país, sendo responsável pela produção
decisão, cujos valores são apresentados por
de cerca de 1,4 milhões de toneladas por
meio de gráficos apenas ao jogador que
ano.
representa o papel de gerente do jogo. Essas
variáveis são: O estudo será focado na produção de
biscoito recheado e sua distribuição na região
 Pedidos: corresponde à quantidade
da Grande Dourados – MS. Assim, os
semanal de cerveja pedida ao seu
produtos são fabricados e embalados no
fornecedor imediato;
interior de São Paulo, a partir desse local os
 Atrasados: é o total de pedidos itens acabados são transportados para o
atrasados de cada papel, ou seja, centro de distribuição na cidade de Três
pedidos ainda não atendidos devido à Lagoas – MS. De acordo com a demanda dos
insuficiência de estoque nos demais itens, são deslocados para os grandes
elos da cadeia; centros atacadistas (Atacadão, Fort,
representantes) e enfim aos clientes varejistas
 Estoque: corresponde a quantidade
(supermercados e pequenas redes).
de caixas de cerveja registradas no
estoque local ou no estoque em
trânsito;
3.2 ÁRVORE DO PRODUTO
 Custos: segmentam-se em três
A árvore do produto integra os componentes
partes: estoque local (corresponde ao
básicos envolvidos na fabricação de um
valor do estoque de manutenção
produto acabado, conforme ilustra na Figura
disponível para atender a demanda),
1.
estoque em trânsito (transporte do
produto até os clientes) e backorders

Gestão da Produção em Foco - Volume 4


72

Figura 1 – Árvore do Produto. Fonte: Acervo dos autores

Biscoito de
leite recheado
de chocolate

Biscoito Embalagem

Parte superior Parte inferior Recheio de Plástico


do Biscoito do Biscoito Chocolate estampado

Fonte: Acervo dos autores

A estrutura apresenta a explosão da cadeia, sem qualquer tipo de


necessidade de itens para compor o produto informação entre as partes.
final, a partir dessas informações a fábrica
 Jogo 2: rodadas com componentes
cria uma sistemática para suprir a demanda
de cada setor da cadeia, com uso de
de seus clientes.
fluxo de informações de demanda
baseado no modelo de Monte Carlo.
3.3 FLUXO DE INFORMAÇÃO Para o jogo 2 utilizou-se as informações de
demanda como auxílio a tomada de decisão.
A árvore do produto integra os componentes
A metodologia para o cálculo da demanda
de fabricação, que são a base para
(caixas) do biscoito recheado se dá pelo uso
identificação das necessidades de materiais
do método de Monte Carlo, esse
junto aos fornecedores, para emissão de
procedimento consiste da simulação de
ordem de produção e distribuíção aos demais
diferentes cenários, por meio da geração de
integrantes da rede logística até chegar ao
números aleatórios como forma de conceber
cliente final. A principal dificuldade dessa
valores as variáveis do sistema em estudo
dinâmica está na troca de informações de
(LUSTOSA, PONTE e DOMINAS, 2004).
abastecimento da cadeia logística, em
benefício à coordenação dos processos e O procedimento tem como valor base a
atividades, que abrangem as áreas de variação do consumo do produto em uma
produção, estoque, localização e transporte; semana, para a partir desses, obter valores
bem como, os conhecimentos para prever as mais concretos da previsão de demanda e
demandas e gerenciá-las (CHOPRA E seus desvios. Consideram-se no primeiro mês
MEINDL, 2003). uma variação entre 69 e 125 caixas, e no
segundo, uma faixa de pedido do cliente de
Nesse sentido, o estudo está relacionado à
125 e 150 caixas.
compreensão de como o uso da informação
traz benefícios à empresa. A ferramenta de Assim, com base nos dados da variação
simulação logística Beer Game, será o meio média da demanda semanal do produto da
utilizado para a análise de distribuição dos empresa, foram gerados mil cenários
itens no decorrer da rede logística, tendo o referentes aos pedidos de dois meses do
foco na comparação dos custos. produto, conferindo uma visão mais realística
da oscilação da demanda e por meio desses
Serão realizados dois jogos, compondo 5
dados obtiveram-se estatísticas de
integrantes: 2 varejistas, 1 atacadista, 1
distribuição para o período. Essas
distribuidor e 1 fábrica.
informações foram repassadas previamente
 Jogo 1: rodadas com todos os para todos os integrantes da cadeia,
componentes de cada setor da fornecedores e clientes.

Gestão da Produção em Foco - Volume 4


73

Após a realização do jogo 1 e jogo 2, de gerenciamento de tecnologia de


trataram-se os dados de custos obtidos por informação no decorrer da cadeia.
cada integrante da cadeia e elaborou-se um
gráfico comparativo dos gastos de
distribuição física. Por fim, analisaram-se os 3.4 DISTRIBUIÇÃO FÍSICA DA EMPRESA
resultados alcançados com o uso de práticas

Figura 2 – Cadeia logística da empresa

Fonte: Acervo dos autores


semelhantemente este distribuidor emite uma
ordem de pedido à fábrica e aguarda seu
3.5 FUNCIONAMENTO DO BEER GAME fornecimento; por fim, a fábrica produz os
Essa seção compreende as diretrizes do itens e encaminha ao distribuidor,
manual do UFV Beer Game, quanto os desenvolvendo o ciclo da cadeia de
procedimentos do software e distribuição suprimentos.
física dos produtos direcionada para a As variáveis que monitoram os componentes
empresa em estudo. O jogo é formado por do jogo são os pedidos, pedidos em atrasos,
cinco componentes: Os varejistas iniciam a estoque e custo. A meta do jogo é minimizar
jogada a partir da demanda do consumidor e os custos gerais envolvendo esses estoques,
recebem os pedidos do atacadista de sua que engloba a lógica de sistemática de
região; esse atacadista esta sujeito ao pedidos e ordenação da capacidade por
suprimento de produtos do seu distribuidor cada agente do jogo.
direto para cumprir esses pedidos;

Gestão da Produção em Foco - Volume 4


74

Para o andamento do mesmo o gerente do (varejistas). O consumidor final (cliente do


jogo determina o lead time, correspondente cliente) adquire o produto no
ao tempo entre a realização do pedido (uma estabelecimento, no caso desse estudo, o
semana) e a entrega (duas semanas); e a biscoito recheado.
ordem delay, que se refere ao período
Deste modo, os participantes do jogo são
decorrido na comunicação do pedido entre os
convidados a gerenciar a demanda do
componentes da cadeia, sendo que cada
produto de cada um dos segmentos em
rodada do jogo corresponde a uma semana.
análise que compõe a cadeia, decidindo
Quanto aos gastos, todos os componentes da
quais serão os pedidos feitos junto ao
cadeia iniciam zerados, a contabilidade dos
fornecedor. O foco desta análise da cadeia de
custos se dá a partir da quantidade de caixas
suprimentos é a integração de cada
em atraso ($1,00), com adicionais ($0,60)
componente, com maximização da eficiência
para caixas em estoque e em estado de
deixando o cliente mais satisfeito e
transporte para cliente direto ($0,50).
aumentando o market share, através do fluxo
de informação em tempo real, a cada pedido
semanal do consumidor, contribuindo para a
4. ANÁLISE E DISCUSSÃO DOS DADOS
minimização dos custos globais logísticos e o
4.1 CONFIGURANDO A REDE LOGÍSTICA efeito chicote.
Em termos de jogos empresariais da rede Para o modelo dos jogos 1 e 2 no Beer Game
logística o Beer Game nos permite simular foi utilizada a mesma árvore do jogo ( Figura
uma cadeia de suprimentos composta por 3), contendo 1 fabricante, 1 distribuidor, 1
quatro segmentos sendo estes: varejo, atacadista e 2 varejistas. Os jogos tiveram
revenda, distribuidor e fábrica. como base a necessidade dos clientes
varejistas. No cenário os biscoitos são
O cenário logístico da Empresa X começa no
fabricados no interior de São Paulo, a partir
projeto do produto. Dessa forma, é feito
desse local os produtos acabados são
contato com os clientes para obter a
transportados para o centro de distribuição na
demanda para então realizar as compras de
cidade de Três lagoas – MS. De acordo com a
matérias-primas e materiais de embalagem
demanda os itens são deslocados para os
(fornecedores). Ao mesmo tempo se dão as
grandes centros atacadistas (Atacadão, Fort,
estratégias de marketing e publicidade. Com
representantes) e aos clientes varejistas na
os materiais recebidos dos fornecedores, o
região da Grande Dourados (supermercados
produto é fabricado e em seguida
e pequenas redes).
transportado até o depósito (centro de
distribuição), e então distribuído aos clientes

Figura 3 – Árvore do Jogo baseada na estratégia logística da empresa em análise

Gestão da Produção em Foco - Volume 4


75

4.2 MAPEAMENTO DO FLUXO DE Em questão da avaliação do pedido, para a


INFORMAÇÃO mesma foi calculada a taxa de pedidos em
atraso em cada estágio do pedido do cliente,
4.2.1 SINAIS DAS DISFUNÇÕES DE CADA
considerando assim cada etapa do ciclo de
SEGMENTO
vida do pedido. O Gráfico 1 nos mostra a
Para melhor evidenciar os impactos negativos relação entre pedido do consumidor final e
gerados à cadeia pela falta de informação e pedidos atrasados por toda a cadeia.
parceria entre os segmentos, será utilizada
uma análise de desempenho das entregas do
produto por toda a cadeia, através da
mensuração de pedidos em atraso.

Gráfico 1 – Pedidos atrasados por cada segmento da cadeia de suprimentos de biscoito recheado
(caixas)

Diante deste cenário pode-se afirmar que 254 caixas, 25.400 unidades para um atraso
mesmo que a cadeia esteja integrada no que médio de entrega pelo varejo no mesmo
se refere a processos logísticos, o Gráfico 1 período aproximado de 775 caixas, sendo
indica que não há um trabalho com base na destes atrasos 307,2% representado pelo
colaboração, em especial em questões de Varejista 1 ao consumidor 1 e 303,1%
estratégias de estreitamento de relações representado pelo varejista 2 ao consumidor
baseadas em tecnologia da informação, como 2, a medida em que as rodadas do jogo
estratégias VMI (Estoque Administrado pelo avança maior é o impacto em atrasos,
Fornecedor), EDI (Intercâmbio Eletrônico de evidenciando quaisquer conhecimento do
Dados), ou até mesmo um sistema de código varejo a demanda de seus consumidores, a
de barras. Sendo assim, a falta de uma criticidade do segmento chega a 335,48% na
política de compartilhamento de informações última rodada pelo Atacadista 1 afetado pelos
estratégicas, nos impede fomentar melhores pedidos desordenados do varejo e atrasos de
práticas que beneficiam a cadeia de seu fornecedor, sendo assim fica claro ao
suprimentos como um todo. observar no Gráfico 1 o efeito chicote
ocasionado pela incerteza da demanda de
Tal afirmação se concretiza ao analisarmos o
consumidores e fornecedores.
pedido de cada segmento, tendo como base
a demanda média semanal dos consumidores
1 e 2, para período 5, temos respectivamente
uma demanda de 125 caixas e 129 caixas,
totalizando uma demanda média semanal de

Gestão da Produção em Foco - Volume 4


76

4.2.2. PREVISÃO DE DEMANDA - MÉTODO de números aleatórios e estatísticas para a


DE MONTE CARLO resolução de problemas.
A fim de reduzir o custo total de toda a Os dados utilizados para a previsão de
cadeia, bem como minimizar o efeito chicote, demanda foram os disponibilizados pelo
realizou-se uma previsão de demanda através management (gerenciador) do jogo durante a
do Método de Monte Carlo. Esse método sua criação conforme a Figura 4.
corresponde a uma técnica baseada no uso

Para o método Monte Carlo considerou-se a na semana 5 a 8, esta variação ficou na faixa
variação da demanda para cada semana, isto entre 125 a 150 caixas. Sendo assim, a
é, o máximo e o mínimo. Na semana 2 e a Tabela 1 apresenta um resumo da Figura 4.
semana 4 a variação foi de 69 a 125 caixas, e
Tabela 1 – Dados de demanda máxima e mínima.
Semana Mínimo Máximo
2a4 69 125
5a8 125 150
Fonte: Acervo dos Autores

Foram gerados 1.000 números aleatórios 137, com desvio padrão de 8.


entre o máximo e o mínimo de cada semana,
a fim de determinar uma demanda média para
cada semana em questão. Os números 4.3 ESTRATÉGIA ERP
aleatórios foram gerados, pois o jogo não
Para a segunda rodada do jogo, a previsão
disponibiliza um histórico de demanda, dessa
de demanda através do método Monte Carlo
forma o Método Monte de Carlo permite a
foi repassada para toda a cadeia, desde o
realização de inferências quando a
varejista até o fabricante. Dessa forma, todos
distribuição estatística é desconhecida.
os jogadores trabalharam com base nessa
Além disso, com os dados aleatórios também demanda prevista, objetivando a redução dos
foi possível determinar o desvio padrão para custos com produtos em transporte, estoque
cada período. Para a simulação, utilizaram-se e atrasados.
planilhas de Excel. A demanda média obtida
No novo método, as quantidades a comprar
para a semana 2 a 4 foi de 98 caixas com um
foram calculadas pelo método de Monte
desvio padrão de 17, já durante a semana 5 a
Carlo, sendo o principal parâmetro de
8, a média de caixas a serem vendidas foi de

Gestão da Produção em Foco - Volume 4


77

projeção de vendas para cada rodada. Os


pedidos iniciais do jogo foram centralizados
4.4 IMPLANTAÇÃO DO ERP - ANÁLISE DO
no varejo, fornecedor direto do consumidor
CUSTO TOTAL DA CADEIA DE BISCOITOS
final, sob a responsabilidade do segmento de
RECHEADOS
revenda.
A implantação do sistema ERP proporcionou a
A introdução do sistema EDI proporcionou o
integração de todos os componentes da
alcance dos objetivos da mudança da cadeia,
cadeia através do fluxo de informação,
visando um maior desempenho no fluxo de
garantindo com que fossem capazes de
informação em processo de operações,
realizarem seus pedidos de modo mais
compra e venda, bem como a minimização
preciso, uma vez que os mesmos tinham
dos pedidos em atraso ao centro de
ciência da previsão de caixas demandadas
distribuição, acelerando a produção e
por semana. Essa precisão na realização dos
nivelando os estoques.
pedidos fez com que o custo de toda a
Esta ação tornou-se visível a quantidade de cadeia reduzisse: estoque, transporte e
produtos requerida de cada segmento em produtos em atrasos.
tempo real, durante as rodadas do jogo,
Sendo assim, a Tabela 2 e a Tabela 3
sendo possível mensurar a entrega semanal e
mostram o custo individual dos integrantes da
demanda futura. As decisões de compras dos
cadeia para cada rodada (8 semanas). A
jogadores foram rastreadas durante a
Tabela 2 corresponde ao jogo 1, onde não
execução do mesmo, bem como seus níveis
houve informação sobre a previsão de
de estoques e demanda atendida, a decisão
demanda nem qualquer forma de
do jogador subsequente, fornecedor, era
comunicação entre a cadeia, já a Tabela 3
dependente de seu cliente. Logo, houve uma
corresponde ao jogo 2, na qual todos os
padronização do processo de tomada de
integrantes da rede tinham conhecimento da
decisão em conjunto com a integração da
previsão de demanda, bem como o fluxo de
cadeia de suprimentos, estimulando uma
maior comunicação e estreitamento dos informação.
fornecedores.

Tabela 2 – Custo da cadeia sem informação sobre a demanda


Jogada Jogada Jogada Jogada Jogada Jogada Jogada Jogada
Integrantes
1 2 3 4 5 6 7 8
Atacadista 0 234 823 1799 3195 5213 7865,5 11380
Fábrica 1 0 326,5 972 1838,5 3035,5 4096 5038 5733,6
Distribuidor 1 0 226 811 1692 2931,5 4759 6454 8006
Varejista 1 0 62 237 504 888 1385 2000 2740
Varejista 2 0 116 306 568 959 1496 2169 2989
Total 0 964,5 3149 6401,5 11009 16949 23526,5 30848,6
Fonte: Acervo dos Autores

Tabela 3 – Custo da cadeia com informação sobre a demanda


Jogada Jogada Jogada Jogada Jogada Jogada Jogada Jogada
Integrantes
1 2 3 4 5 6 7 8
Atacadista 0 155 535 1364 2493 4106 6157 8924
Fábrica 1 0 240 624 1363,3 2230 2892,5 3620,5 4903,5
Distribuidor 1 0 186 594 1116 1680 2570 4103,5 5666
Varejista 1 0 63 237 500 913 1467 2157 2992
Varejista 2 0 87 277 547 937 1437 2063 2814
Total 0 731 2267 4890,3 8253 12472,5 18101 25299,5
Fonte: Acervo dos Autores

Gestão da Produção em Foco - Volume 4


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Como pode ser visualizado nas tabelas sobre a demanda) $25.299,50 para o mesmo
anteriores, o custo total da cadeia ao final dos período. A fim de facilitar a análise,
8 períodos para o jogo 1 (sem informação comparação e a visualização dos custos do
sobre a demanda) foi de $30.848,60, jogo 1 e 2, elaborou-se o Gráfico 2 utilizando
enquanto que no jogo 2 (com informação o custo total de cada período.

Gráfico 2 – Gráfico de comparação entre o custo total dos jogos 1 e 2

60000

50000

40000
Custo (R$)

30000

20000

10000

0
Jogada Jogada Jogada Jogada Jogada Jogada Jogada Jogada
1 2 3 4 5 6 7 8
Custo Jogo 1 0 964,5 3149 6401,5 11009 16949 23526,5 30848,6
Custo Jogo 2 0 731 2267 4890,3 8253 12472,5 18101 25299,5

Pode-se notar que houve uma redução do produto para o cliente final. Além disso,
considerável do custo total após a utilizando-se de uma técnica de previsão de
implantação de estratégias de gerenciamento demanda, bem como uma estratégia baseada
da informação, todos os integrantes da cadeia na colaboração e estreitamento da relação
conseguiram reduzir os seus custos, uma vez com o fornecedor é possível reduzir
que, tinham o conhecimento da demanda de significativamente os erros de quantidades de
cada período. Se comparado o custo total do produção devido às falhas na comunicação e
período 8 dos dois jogos, a redução do jogo 1 o efeito chicote.
para o jogo 2 foi de aproximadamente 18%,
Dessa forma, pode-se concluir que o uso de
isto é, $5.549,10.
ferramentas de gestão para o planejamento e
acompanhamento das informações internas e
externas à cadeia de suprimentos levam não
5. CONSIDERAÇÕES FINAIS
só à redução de custos, como também ao
Este estudo evidenciou que a integração dos aumento da competitividade, já que se torna
elos de uma cadeia de suprimentos é um fator possível tomada de decisões em tempo real
importantíssimo para que se obtenha redução aos acontecimentos e com maior
de custos de estoques e de indisponibilidade embasamento.

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Gestão da Produção em Foco - Volume 4


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Gestão da Produção em Foco - Volume 4


80

CAPÍTULO 7
Daniel Ribeiro Gomes
Gustavo Henrique Vaz Camargo
Naiara Faiad Sebba Calife

Resumo: Visando a melhoria do seu nível de serviço, eliminação de desperdícios,


maximização de valor para seus usuários, bem como a redução de despesas,
algumas organizações de saúde têm implementado conceitos advindos da
Produção Enxuta (Lean Manufacturing). Esta abordagem recebe uma outra
nomenclatura especifica para o setor, o Lean Healthcare. O artigo proposto tem por
objetivo estudar um laboratório de análises clínicas, mais precisamente o setor de
hematologia, de forma a se observar que melhorias podem ser implementadas
utilizando os princípios do Lean aplicados em serviços de saúde. O procedimento
de pesquisa estudo de caso foi utilizado. Foi feito o mapeamento do fluxo de valor
com o objetivo de se conhecer melhor o processo e dar sustentação à identificação
dos desperdícios. Os desperdícios e problemas encontrados foram relacionados à
movimentação, espera excessiva, sobrecarga de trabalho, falta de padronização,
falta de manutenção dos equipamentos e falta de gestão visual e organização no
laboratório. As ferramentas sugeridas para reduzir os efeitos destes desperdícios
sobre o processo de análises clínicas foram o 5S, padronização e gestão visual.
Além destas ferramentas, também foram sugeridas mudanças na forma de
realização das atividades, seguindo os princípios do lean.

Palavras chave: Mapeamento do fluxo de valor, Laboratório de análises clínicas,


Lean Healthcare

Gestão da Produção em Foco - Volume 4


81

1. INTRODUÇÃO: 2. REVISÃO BIBLIOGRÁFICA


Com o crescimento da população e seu 2.1 FILOSOFIA LEAN
envelhecimento, as despesas das
Com a necessidade de se produzir uma
organizações de saúde estão aumentando.
grande variedade de veículos e com o
Erros nesse setor são caros e prejudiciais aos
mercado reduzido, Ohno (1988) diz que, as
pacientes e contradizem o mais básico
empresas foram incentivadas a procurar
princípio da saúde: “Primeiro, não fazer mal”
melhorias nos processos de produção,
(GROUT; TOUSSAINT, 2010). Confrontados
buscando flexibilidade e baixos custos para
com essa situação, as organizações de
suprir a necessidade dos seus clientes. Com
saúdes têm tentado operar seus serviços em
isso, o Sistema Toyota de Produção (STP)
níveis melhores, sendo pressionados a
ganhou destaque pela sua alta produtividade,
melhorar suas práticas e fazer mais com
flexibilidade, confiança dos clientes e
menos.
velocidade de produção.
Abordagens de gestão de negócios são
Em 1991 a abordagem de produção criada
tradicionalmente vistas como uma disciplina
por Ohno, foi nomeada no ocidente por
distinta da gestão em serviços de saúde. Isso
Womack e Jones (1992), como Lean
tem mudado ao longo dos últimos anos, com
Manufacturing com a publicação do livro “A
o valor da integração de técnicas de gestão
máquina que mudou o mundo”. A filosofia
de negócios em gestão em serviços de saúde
Lean pode ser descrita como um sistema
ganhando reconhecimento, como um meio de
integrado de princípios, práticas, ferramentas
proporcionar maior qualidade e atendimento
e técnicas com foco na redução de
mais eficiente (TRISOLINI, 2002). Conceitos e
desperdícios, sincronizando fluxos de
metodologias advindas do setor de
trabalho e gerenciando a variabilidade dos
manufaturas, tais como a Produção Enxuta
fluxos de produção (KONING et al., 2006).
(Lean Manufacturing), têm sido adotadas
nessa área. Com foco na eliminação de De acordo com Womack e Jones (1996),
desperdícios e maximização de valor para os existem cinco princípios do Lean que devem
clientes, as organizações de saúde têm ser aplicados: (1) Valor para o cliente - qual o
implementado essa filosofia e obtido benefício obtido que o cliente realmente está
resultados significativos. disposto a pagar; (2) Fluxo de valor -
identificar todos os processos envolvidos na
O objetivo desse trabalho é estudar um
entrega de valor para o cliente; (3) Fluxo
laboratório de análises clínicas, mais
contínuo - produção de lotes unitários, com
precisamente o setor de hematologia, de
cada item passado imediatamente para a
forma a observar que melhorias podem ser
próxima etapa do processo, sem paradas ou
implementadas utilizando os princípios do
estoques; (4) Produção puxada - sistema que
Lean aplicados em serviços de saúde. O
responde à demanda dos clientes de modo a
seguinte trabalho está divido em cinco partes:
não acumular estoques; e (5) Perfeição -
introdução, revisão bibliográfica, metodologia,
eliminação de desperdícios, busca constante
estudo de caso e considerações finais. Na
pela melhoria contínua dos processos.
revisão bibliográfica é feito um levantamento
da literatura sobre os princípios e práticas do A base do Lean é a busca constante da
Lean, desde a sua origem na indústria eliminação de desperdícios dentro das
japonesa até sua aplicação nos serviços de operações de uma organização. Aherne e
saúde e na seção da metodologia é feita uma Whelton (2010) destacam três tipos de
classificação da pesquisa quanto sua atividades: atividades que agregam valor,
abordagem, procedimentos, natureza, atividades que não agregam valor e
objetivos e local. No estudo de caso, é atividades que não agregam valor, porém são
mostrado a situação atual do laboratório e a necessárias. Segundo Hines e Taylor (2000)
partir disso é sugerido a aplicação de 95% das atividades realizadas, em média, nas
algumas ferramentas do Lean e por fim, nas empresas não agregam valor para o cliente
considerações finais são apresentados (60% são desperdícios totais e 35% são
comentários sobre as observações feitas atividades necessárias) e apenas 5% das
durante o estudo. atividades realmente agregam valor,
operações de transformação.
Para que o Lean consiga alcançar seus
objetivos, é necessária a aplicação de

Gestão da Produção em Foco - Volume 4


82

ferramentas que auxiliarão na obtenção dos gerentes e executivos não estão bem cientes
resultados. Algumas das ferramentas dos objetivos do 5S. Portanto, é muito difícil
utilizadas pelo Lean são: definir um ambiente apropriado para
implementação de 5S, a menos que os seus
princípios sejam bem compreendidos. Estes
2.1.2 MAPEAMENTO DO FLUXO DE VALOR: princípios são conhecidos na forma de cinco
palavras japonesas que começam com a letra
É uma ferramenta que utiliza símbolos S, que mais tarde formaram o termo 5S.
gráficos para documentar e apresentar de Werkema (2011) define esta ferramenta como
forma visual a sequência e o movimento de um método cujo objetivo é promover e manter
informações, materiais e ações que a limpeza e a organização das áreas de
constituem o fluxo de valor de uma empresa. trabalho, tanto administrativas quanto de
Tal fluxo consiste em todas as atividades manufatura. As definições dos termos
realizadas pela empresa, tanto as que utilizados no 5S são:
agregam valor, bem como as que não
agregam, de forma que a organização possa a) Seiri – Senso de Utilização: Separar o
projetar, produzir e entregar seus produtos necessário do desnecessário, descantando o
para seus clientes. (WERKEMA, 2011). De último;
acordo com Nazareno et al. (2009) e Rother e
b) Seiton – Senso de Organização: Organizar
Shook (1998) o mapeamento do fluxo de valor
o necessário, definindo um lugar para cada
é uma ferramenta que possibilita visualizar
item;
todo o valor agregado dos processos,
mostrando as atividades e conexões que c) Seiso – Senso de Limpeza: Limpar e
criam um fluxo de valor desde os identificar cada item;
fornecedores até os consumidores finais.
d) Seiketsu – Senso de Padronização: Criar e
O mapeamento do fluxo de valor segue quatro seguir um padrão resultante do desempenho
fases, segundo Rother e Shook (1998): adqueado nos três primeiros S;
a) Seleção de uma família de produtos, uma e) Shitsuke – Senso de Autodisciplina:
vez que se gastaria muito tempo mapeando o Estabelecer a disciplina para manter os
fluxo de todos os produtos; quatro primeros S ao longo do tempo.
b) Mapeamento do fluxo de valor do estado Werkema (2011) enfatiza que ao se adotar o
atual, ou seja, o estado atual do processo de 5S a empresa obtém benefícios como
produção da família escolhida, considerando aumento da produtividade, melhor
todos os detalhes de produção, incluindo a atendimento aos prazos, redução de defeitos,
visão do cliente, os processos de produção, aumento da segurança no trabalho, redução
os fornecedores e os materiais envolvidos; de material perdido e melhor capacidade
para distinção entre condições normais e
c) Definição de um plano de trabalho,
anormais de trabalho. Ainda sobre os
projetando como a empresa provavelmente
benefícios do 5S, Godoy et al. (2001), afirmam
estará após a eliminação dos desperdícios
que o 5S pode influenciar, positivamente, a
(Mapa do fluxo de valor do estado futuro);
organização, as pessoas e o ambiente,
d) Plano de execução com todas as fases potencializando a melhoria da qualidade.
devidamente divididas. Este plano deve ter
objetivos bem definidos, com metas e datas
para chegar o mais próximo possível das 2.1.3 PADRONIZAÇÃO:
melhorias identificadas na fase anterior.
Quando se executa as tarefas de forma
5S: É um princípio institucionalizado no Japão padronizada pode-se evitar boa parte da
que mostrou consideráveis resultados nos variabilidade de processos produtivos. A
setores industriais e de serviços. Alguns padronização é definida por Werkema (2011)
destes resultados foram a prevenção de como um método utilizado para indicar quais
incidentes, redução de atrasos e melhoria da os procedimentos são necessários na
produtividade no ambiente de trabalho. realização das tarefas, de forma que sejam
Segundo Tsuchiya (1998) o objetivo final do alcançados e mantidos os resultados
5S é evitar perdas, e apesar de parecer desejados. Pode-se obter vantagem
simples de se executar, as organizações têm competitiva por meio da padronização, visto
grande dificuldade na sua execução, pois, que é mais provável que se faça certo da

Gestão da Produção em Foco - Volume 4


83

primeira vez e não seja necessário o 2.2 LEAN HEALTHCARE


retrabalho.
O pensamento enxuto, como também é
Werkema (2011) ainda destaca que podem conhecido o Lean, não é apenas aplicado na
ser usados documentos como a Tabela de manufatura, segundo Womack et al. (2005),
Combinação do Trabalho Padronizado e essa filosofia se trata de uma estratégia de
Diagrama do Trabalho Padronizado, e, o uso gestão que pode ser aplicada em qualquer
da padronização resulta em melhoria da tipo de organização, pois tem a finalidade na
capacidade de realização de tarefas, melhoria de processos. Nesse contexto, os
facilitação do treinamento de novos princípios do Lean podem ser utilizados,
operadores, redução do tempo de setup das inclusive nos serviços de saúde, recebendo
máquinas, entre outros. uma outra nomenclatura especifica para o
setor, o Lean Healthcare.
Aherne e Whelton (2010) citam que o
2.1.4 GESTÃO VISUAL:
pensamento enxuto pode ser usado em
Segundo Shook e Marchwinski (2013, p. 39), a serviços de saúde para: reduzir custos
gestão visual é definida como a “colocação enquanto a satisfação dos pacientes
fácil de ver todas as ferramentas, peças, aumenta; prover uma qualidade no
atividades de produção e indicadores de atendimento do paciente utilizando os
desempenho do sistema de produção e mesmos funcionários; aumentar a motivação
indicadores de desempenho do sistema de dos empregados e satisfação com o
produção, de modo que a situação do trabalhado; e melhorar continuamente a alta
sistema possa ser entendida rapidamente por qualidade nos serviços. Os autores também
todos os envolvidos”. E Werkema (2011) afirmam que o Lean não é a solução para
destaca que tanto o 5S como a padronização todos os problemas enfrentados nos serviços
são as bases para a implementação da de saúde hoje, mas podem promover
gestão visual. positivas melhorias em uma ou várias áreas
do setor, como por exemplo, serviços de
Além destas ferramentas, existem outras
laboratório e procedimentos em operações
utilizadas na filosofia Lean tais como: Métricas
cirúrgicas.
Lean, Kaizen (Melhoria Contínua), Kanban
(Sistema de controle de produção), Redução Assim como na manufatura, a implentação do
de Setup, TPM (Total Productive Maintenance) Lean Healthcare também procura a
e Poka-Yoke (Sistema à prova de erros). eliminação dos desperdícios. Os autores
Aherne e Whelton (2010) trazem exemplos
dos setes desperdícios destacados por Ohno
(1988) e Liker (2004) no contexto de serviços
de saúde (Quadro 1)

Gestão da Produção em Foco - Volume 4


84

Quadro 1 – Sete formas de desperdícios nos serviços de saúde


Tipos de
Exemplos
desperdícios

Superprodução Amostras de sangue coletadas antes do pedido de exame ser emitido.

Detenção ou aquisição de matéria-prima, de estoque em processo ou


Estoques
produtos acabados.

Transporte de amostras de laboratório transporte de pacientes,


Transporte
transporte de medicamentos.

Esperas de exames de diagnósticos, espera pelos médicos, espera


Espera
pelos enfermeiros, esperas para serem executados os tratamentos.

Enfermeiros tratarem pacientes em diferentes alas, procura de


Movimentação
informações de pacientes perdidas.

Excesso de burocracia, processos redundantes, realização de testes


Superprocessamento desnecessários, uso de medicação intravenosa quando a medicação
oral seria suficiente.

Fonte: Adaptado de Aherne e Whelton (2010)

Embora o Lean Healthcare seja muito novo implementação da filosofia. Kim (2006)
para a maioria instituições de saúde, alguns descreve algumas experiências (Quadro 2) de
hospitais, principalmente americanos, hospitais que adotaram o conceito.
conseguiram melhorias significativas após a

Quadro 2: Hospitais que adotaram o conceito


Instituição Localização Resultados significativos

Casos de pneumonia associada à ventilação mecânica


de 34 casos com 5 mortes em 2002 para 4 casos com
uma morte em 2004 – Uma redução nos custos de quase
meio milhão de dólares; Melhor utilização do espaço do
Virginia Mason Seattle,
Centro de Câncer – 57% mais pacientes podem
Medical Center Washington
alocados com a otimização do layout; Redução do
número de erros de medicação com a utilização da
padronização.

Redução do tempo de espera dos pacientes de 122 para


52 minutos no centro de urgências; Padronização da
instrumentação cirúrgica utilizada pelo grupo de
cirurgias gerais, resultando no processamento de mais
Park Nicollet Minneapolis,
de 40 mil menos instrumentos por mês; Margem de lucro
Health Services Minnesota
recorde, alcançando uma margem operacional de 3,9%,
o equivalente à um lucro de 7,5 milhões de dólares em
2004.

Redução do tempo de resposta para relatórios dos


Community Missoula, laboratórios de 5 para 2 dias; Redução do número de
Medical Center Montana etapas e, por consequência, redução do tempo para
realização da medicação de 4 horas para 12 minutos.
Fonte: Adaptado Kim (2006)

Gestão da Produção em Foco - Volume 4


85

3. METODOLOGIA 4. RESULTADOS
A metodologia de pesquisa utilizada foi o 4.1 MAPA DE FLUXO DE VALOR – ESTADO
estudo de caso, que segundo Yin (2013) se ATUAL:
caracteriza pela utilização de variados
A partir do objetivo proposto nesse trabalho,
métodos e ferramentas durante a coleta de
foi necessário entender todas demandas que
dados. Além disso, um estudo de caso pode
chegam ao laboratório de análises clinicas.
ser limitado ou conter evidências
Foi possível identificar três clientes principais:
quantitativas, não devendo ser taxada sempre
o posto de coleta externo, pacientes do
com uma pesquisa qualitativa.
pronto atendimento e os pacientes já
O estudo realizado neste trabalho foi feito em internados (UTI e quartos).
um laboratório de análises clínicas de um
No posto de coleta há uma remessa externa,
hospital localizado no interior do estado de
que provêm de pedidos de exames feitos por
Goiás. Dentro dos setores que funcionam
médicos à pacientes de fora do hospital.
dentro do laboratório (hematologia,
Dentro desse sistema, os pacientes chegam
bioquímica, uroanálise, parasitologia,
ao posto de coleta e aguardam a sua vez de
microbiologia, gasometria), foi escolhido o
serem atendidos. Quando se inicia o
setor de hematologia para ser o caso
atendimento no balcão é verificado por meio
estudado. Este setor foi escolhido devido ao
das atendentes o pedido de exame do
seu maior fluxo de informações e materiais, se
paciente, se o mesmo possuir cadastro no
comparado aos outros. O setor de
sistema do hospital é preenchida a ficha de
hematologia recebe demandas vindas do
exames que será repassada para a técnica
posto de coleta externo, do pronto socorro e
responsável pela coleta. Caso não possua o
dos leitos da Unidade Intensiva de Tratamento
cadastro, este é realizado e segue-se o
(UTI) e internação do hospital.
mesmo procedimento. Com a ficha de exame
A coleta de dados para elaboração do em mãos, a técnica responsável anuncia os
mapeamento do fluxo de valor (Anexo A) foi pacientes, que aguardam na fila de espera,
realizada durante 30 dias por meio de para a coleta da amostra de sangue.
observações do fluxo produtivo enquanto os
No sistema do pronto atendimento, os
funcionários do local realizam suas tarefas, e
pacientes chegam ao hospital onde é aberto
também por meio de entrevistas não
seu prontuário e estes aguardam na fila,
estruturadas com os responsáveis em cada
seguindo uma disciplina de prioridade, ou
um dos locais envolvidos no fluxo. O
seja, os que possuem um grau de urgência
mapeamento foi feito com o objetivo de se
maior são atendidos primeiro. Enquanto
conhecer melhor o processo e dar
aguardam na fila, o médico liga na recepção
sustentação à identificação dos desperdícios,
para chamar o próximo paciente e a
que podem ser diminuídos ou eliminados por
recepcionista anuncia o mesmo para a
meio dos princípios e ferramentas do lean.
consulta. Após a realização, caso seja
O mapeamento do fluxo de valor foi baseado constatado que o paciente necessita de
no modelo proposto por Werkema (2011), que exames, a ficha de exames é preenchida e
se apoia na técnica de mapeamento de fluxo repassada para a responsável pela coleta,
de valor apresentada por Roother e Shook que faz a conferência da ficha e executa a
(1998). O desafio deste modelo é apresentar coleta.
em um único mapa o fluxo de materiais,
Já o outro sistema, são os pacientes
pacientes e informações. A validação deste
internados tanto na UTI quanto nos quartos.
mapa foi feita com o auxílio dos funcionários
Estes pacientes são verificados
que possuem conhecimento sobre o
periodicamente pelo médico e os pacientes
funcionamento do processo foco deste
da UTI, por exemplo, realizam exames diários
estudo, com o objetivo de aceitar ou não o
para acompanhar seu estado de saúde afim
mapeamento como representação do sistema
checar alguma anormalidade. A ficha de
real.
exame é preenchida pelo médico, que
repassa para a técnica responsável pela
coleta, que fará a conferência da ficha de
exame e logo após, a coleta. O tempo que a
técnica leva para ir até o paciente realizar a

Gestão da Produção em Foco - Volume 4


86

coleta depende da disponibilidade da 4.2. DESPERDÍCIOS IDENTIFICADOS E


mesma. Porém, considerando uma situação PROPOSTAS DE MELHORIA
padrão, observou-se que depois de solicitada
Com base no mapeamento do estado atual
a coleta, ela atende o chamado entre 5 e 10
(Anexo A) e nas observações feitas no
minutos.
laboratório, foram identificadas oportunidade
As remessas de amostras dos três sistemas de aplicação de algumas ferramentas lean,
convergem para o laboratório onde serão tais como a gestão visual, padronização e 5S.
realizadas as análises clínicas. Geralmente, Os desperdícios e problemas encontrados
as amostras vindas do pronto atendimento e foram:
dos pacientes internados, chegam logo no
início do expediente da responsável pelos
exames e também ao logo do dia. As 4.2.1 MOVIMENTAÇÃO:
amostras do posto de coleta chegam após o
Ao fim do período de coleta no posto, um
término do período de coleta externa (das 6h
funcionário leva as amostras para o
às 9h). Dentro do laboratório, as amostras são
laboratório. A distância percorrida pelo
identificadas e conferidas junto com suas
funcionário é de aproximadamente 120 metros
respectivas fichas de exames. Iniciando o
e ele leva cerca de 2 minutos para percorrer
processo de análise, as amostras são
tal distância. Outro desperdício de
colocadas no homogeneizador, que serve
movimentação observado é que após feita as
para misturar o sangue contido dentro do tubo
análises necessárias, o resultado é enviado
dando uma homogeneização mais uniforme,
do laboratório para o posto de coletas com o
deixando assim a amostra conforme para as
objetivo de se digitar o laudo. Após a
próximas etapas do processo. Após essa
digitação do laudo, um funcionário volta
atividade, é retirada uma porção da amostra
novamente para o laboratório para colher a
para o contador de células e outra porção
assinatura e depois retorna para o posto de
para uma lâmina do esfregaço sanguíneo.
coletas com o laudo pronto para entrega.
Enquanto a amostra é processada no Como o posto de coletas se trata de um local
contador de células, é realizada a coloração externo ao laboratório, não é possível
da lâmina por meio de três reagentes: o rearranjar a distância que é percorrida pelo
primeiro é uma solução de Ciclohexadienos funcionário para levar as amostras. Porém é
com imersão da lâmina por 10 segundos; o possível a otimização do processo como um
segundo é uma solução de todo, reduzindo o número de viagens
Azobenzenosulfônicos com imersão de 10 desnecessárias. Os laudos que pertencem ao
segundos; e o terceiro é uma solução posto de coletas poderiam ser digitados,
Fenotiazinas com imersão de 20 segundos. É conferidos e assinados dentro do próprio
necessário escorrer a lâmina por 5 segundos laboratório. Quando a técnica retornasse ao
entre as imersões nas soluções. No final posto de coletas no outro dia, ela levaria
dessa atividade, a lâmina é levada para o consigo os laudos digitados no dia anterior,
microscópio onde é realizada a leitura manual reduzindo pela metade o número de viagens,
e conferida com o resultado apresentado pelo ou seja, de quatro para duas.
contador de células. Com base nessa leitura,
o laudo é enviado para digitação, que é feita
por um técnico do laboratório ou em caso de 4.2.2 ESPERA EXCESSIVA:
ser um exame solicitado pelo posto de coleta,
o laudo é enviado para a recepcionista do Mesmo após o laudo pronto estar disponível
posto para digitação. Após digitado, o laudo é no posto de coleta, o paciente só tem acesso
levado para ser conferido e assinado pela ao resultado após 3 dias da realização da
responsável pelo exame. coleta, podendo ser estendido para até 5 dias
dependendo do tipo de exame. Este último
Com o laudo pronto, este é enviado para seus tipo de exame não foi abordado neste
respectivos sistemas, consultório médico ou trabalho por se tratar de exames de maior
posto de coleta. O laudo que é enviado para o complexidade e muitas das vezes realizado
posto de coleta cumpre um prazo de entrega em outras cidades.
previamente combinado. Já o que é enviado
para o consultório médico é disponibilizado Conforme explicado por um dos funcionários
imediatamente para o médico. do posto de coleta, os exames que têm um
prazo de entrega de três dias ficam prontos
geralmente em um ou no máximo dois dias.

Gestão da Produção em Foco - Volume 4


87

Os exames que têm prazo de entrega de algum tipo de dúvida possam realizar as
cinco dias (exames externos ao laboratório), atividades.
ficam prontos em três ou quatro dias. Em
Com a criação de uma cartilha ou manual de
ambos os casos, o posto de coleta trabalha
procedimentos, pode-se indicar quais os
com uma margem de folga de pelo menos um
procedimentos são necessários e qual a
dia para poder entregar o resultado para seus
ordem correta para realização destes. Isso
clientes, a fim de se evitar que o exame não
aumentaria a chance de fazer certo da
esteja pronto na data marcada.
primeira vez, reduziria a variabilidade do
Sugere-se para redução deste tempo de processo, facilitaria o treinamento de novos
espera, entrar em contato com o cliente logo operadores, além de diminuir o retrabalho.
após a disponibilização do laudo no posto de
coletas. Desta forma, o tempo que o cliente
aguarda para receber os resultados dos 4.2.5 FALTA DE MANUTENÇÃO DOS
exames, seria reduzido em pelo menos um EQUIPAMENTOS:
dia.
Notou-se que algumas vezes as demandas do
setor de hematologia tiveram que aguardar
para serem processadas no microscópio pois,
4.2.3 SOBRECARGA DE TRABALHO:
haviam amostras de outros setores para
Durante o período observado, a biomédica serem analisadas antes, devido ao
responsável pelas análises dentro do setor de equipamento do respectivo setor não estar
hematologia, além de exercer sua função funcionando.
principal, executava a função de intermediária
Atualmente o laboratório realiza manutenções
entre o setor de pacientes internos e o
preventivas e periódicas em alguns dos seus
laboratório, atendendo as solicitações de
equipamentos. O contador de células, por
coleta de amostras que chegavam por meio
exemplo, é verificado por uma empresa
do telefone localizado dentro do laboratório.
especializada, semestralmente. Porém,
Para atender ao telefone era necessário que
conforme informado por uma das
ela parasse suas atividades, resultando em
responsáveis do laboratório, o microscópio
um tempo maior para finalização dos exames.
não passa pelo mesmo procedimento, e não
A realocação do telefone para a recepção do há nenhum tipo de manutenção periódica ou
laboratório conseguiria diminuir a sobrecarga previamente agendada. Sugere-se a partir
de trabalho da biomédica do laboratório. disso, que também sejam realizadas as
Porém, ao realocar o telefone para outro local, manutenções neste equipamento, a fim de
ainda seria necessário um funcionário para garantir que este esteja calibrado e
atendê-lo. Assim, uma solução mais eficiente funcionando de maneira adequada sempre
para este problema, seria a implementação que for necessário a utilização do mesmo.
de um sistema eletrônico que permitiria a
solicitação da coleta por meio de um painel
que indicaria qual quarto solicitou a coleta,
4.2.6 FALTA DE GESTÃO VISUAL E
por meio de um sinal luminoso ou algum outro
ORGANIZAÇÃO NO LABORATÓRIO:
tipo de indicativo.
Conforme observado na Figura 3 não há
identificação do conteúdo das gavetas que se
4.2.4 FALTA DE PADRONIZAÇÃO: encontram embaixo da bancada de trabalho.
No laboratório não há nenhum tipo de manual Nestas gavetas são guardados materiais
ou roteiro de atividades necessárias para se hospitalares tais como seringas e luvas, além
fizer os procedimentos de análises, ou de de documentos, formulários, fichas de exame,
interpretação dos resultados encontrados no entre outros. Notou-se também que muitos
contador de células e no microscópio. Este documentos ficam espalhados sobre a
fato impossibilita que pessoas que não tem bancada de trabalho, quando deveriam estar
total conhecimento do processo ou tenham nas gavetas.

Gestão da Produção em Foco - Volume 4


88

Figura 3 – Falta de identificação das gavetas e documentação sobre a bancada

Com a colocação de etiquetas de para entender como funcionava o processo, e


identificação nestas gavetas, pode-se saber por meio deste mapeamento e observações
qual o conteúdo de cada uma destas, feitas no setor de hematologia de um
evitando a abertura desnecessária das laboratório de análises clínicas, se observou
mesmas. Além disso, pode-se colocar uma quais os desperdícios presentes e sugeriu-se
tabela fixada na parede, informando também ferramentas lean para diminuição de tais
qual o conteúdo de cada uma dessas desperdícios. Os desperdícios e problemas
gavetas, de forma a informar os funcionários encontrados foram relacionados à
do local, e fazer com que estes guardem os movimentação, espera excessiva, sobrecarga
devidos objetos dentro de suas respectivas de trabalho, falta de padronização, falta de
gavetas. Quanto ao problema de manutenção dos equipamentos e falta de
desorganização, é sugerido a implementação gestão visual e organização no laboratório.
do 5S, o que resultaria em um ambiente mais
As ferramentas sugeridas para reduzir os
organizado, deixando apenas o necessário
efeitos destes desperdícios sobre o processo
disposto nas bancadas, além de um local
de análises clínicas foram o 5S, padronização
mais limpo. É indicado que se aplique
e gestão visual. Além destas ferramentas,
primeiro a ferramenta 5S e a padronização
também foram sugeridas mudanças na forma
dos processos, pois estas são as bases para
de realização das atividades, seguindo os
implementação da gestão visual.
princípios do lean, como por exemplo a
Devido às restrições de tempo e abordagem redução do número de viagens
do trabalho, as melhorias propostas não forem desnecessárias do posto de coleta para o
implementadas. Porém, o levantamento laboratório. Desta forma, o objetivo proposto
destes problemas e desperdícios observados, no trabalho foi alcançado.
consiste em uma importante etapa para uma
Sugere-se para futuros trabalhos, o
futura implementação das ferramentas lean
mapeamento de todos os processos
visto que o hospital tem interesse nas práticas
realizados pelo laboratório, considerando
do lean healthcare.
também os setores de bioquímica, uroanálise,
parasitologia, microbiologia e gasometria. O
acompanhamento da implementação das
5. CONCLUSÃO:
ferramentas e comparação dos resultados
Por meio do presente trabalho, utilizou-se da obtidos também seria um ponto interessante
ferramenta de Mapeamento de Fluxo de Valor para se observar futuramente.

Gestão da Produção em Foco - Volume 4


89

ANEXO A – Mapeamento do fluxo valor: Estado Atual


Responsável pela
Clientes Externos/ Paciente coleta
Posto de Coleta Recepcionista

Preencher ficha de
exame Coleta de Sangue

Espera

TP: 2 –5 min TP: 2 –4 min


Espera
6 min
Espera: 2 –5 min Espera: 2 –4 min

18 min

Recepcionista
Responsável pela
Clientes Internos/ coleta
Entrada pelo PS

Abrir Prontuário Realizar Consulta Coleta de Sangue


PRP

TP: 2 - 5 min TP: 10 –20 min TP: 2 –4 min


Espera
Espera: 2 –4 min
14 min

44 min

Responsável pela
Clientes Externos/UTI Médico Solicitação de exame
coleta
e Leitos

Verificação do Paciente Coleta de Sangue

TP: 30 –40 min TP: 2 –4 min


Espera
37 min
Espera: 5 –10 min

54 min

Gestão da Produção em Foco - Volume 4


Gestão Consultório
Visual Médico
Técnico do
Recepcionis
5S Laboratório
ta –Posto
de Coleta
Contador de Posto de
células Coleta

TP: 0,83 –1,5 min

Conferência de Homegenizador Esfregaço Corar lâmina Leitura Laudo


Espera para
90

tubos sanguineo Microscópio entrega


ao cliente
3 à 5 dias

7,83 min
TP: 0,5 –0,66 min TP: 3 –5 min TP: 0,5 –0,83 min TP: 1 min TP: 2 –4 min TP: 0,5 –0,83 min

12,99 min

Gestão da Produção em Foco - Volume 4


Padronização
91

REFERÊNCIAS: [11] ROTHER, M.; SHOOK, J. Learning to See:


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Gestão da Produção em Foco - Volume 4


92

CAPÍTULO 8

Rayane Ester Felício Santiago


Luciano Wallace Gonçalves Barbosa
Amanda Daniele de Carvalho
Farney Vinícius Pinto Souza

Resumo: O artigo apresenta a recente preocupação de empresas brasileiras nos


mais diversificados ramos em se enquadrar nos padrões exigidos pela norma
regulamentadora da qualidade, a ISO 9001, visto que a obtenção dessa
certificação não é mais um diferencial, porém, uma obrigação das empresas que
visam se mantiver competitivas no mercado. Portanto, o trabalho objetiva conhecer
em quais setores empresariais encontra-se o maior número de certificações e como
as empresas que ainda não possuem estão trabalhando na implementação de
sistemas de gestão da qualidade eficientes para alcançar a certificação. A
metodologia utilizada para alcançar os objetivos propostos é quantitativa e os
resultados foram obtidos através de um levantamento teórico e bibliométrico. Os
resultados mostram os setores que possuem mais estudos acerca da NBR ISO
9001 e de Sistema de Gestão da Qualidade (SGQ), aferem sobre as principais
metodologias adotadas pelas empresas para obtenção da certificação e os autores
mais utilizados como base teórica dos estudos.

Palavras chave: ISO 9001, SGQ, Certificação

Gestão da Produção em Foco - Volume 4


93

1.INTRODUÇÃO sobrevivência da mesma. Dito isto, o presente


estudo tem por objetivo realizar um
As diversas organizações nos mais diferentes
levantamento literário para identificar em
ramos de atuação e setores têm buscado de
quais tipos de empresas estão sendo
forma crescente garantir sua permanência no
realizados mais estudos sobre a certificação
mercado frente aos desafios econômicos
ISO 9001, quais já são certificadas e quais
atuais. Estudos comprovam que os clientes
tem interesse de obtenção da certificação.
estão cada vez mais exigentes quanto aos
produtos e serviços recebidos, portanto, é de
extrema importância que as empresas fiquem
1.2 METODOLOGIA
atentas no que se refere à qualidade dos seus
produtos. Deve se buscar a implementação A metodologia utilizada para se alcançar o
de um Sistema de Gestão da Qualidade para objetivo proposto é quantitativa e realizada a
realizar de forma eficiente o gerenciamento partir da formulação de um referencial teórico
dos processos para garantir que o produto ou para explanação e melhor entendimento
serviço esteja dentro dos padrões de sobre os temas acerca da Gestão da
qualidade exigidos pelos clientes e garantidos Qualidade e sobre a norma NBR ISO 9001.
na norma regulamentadora da qualidade: a Para obtenção dos resultados requeridos do
NBR ISO 9001. objetivo foi realizada uma pesquisa
bibliométrica sobre os temas abordados no
De acordo com Gonzales et al (2007), a
referencial.
recente revisão ISO 9001:2000 amplia
consideravelmente o escopo da norma, A pesquisa foi realizada utilizando-se das
incluindo questões sobre a gestão do negócio bases de pesquisa de artigos acadêmicos
que é o desempenho da organização. “Periódicos Capes” e “Google acadêmico”. A
Portanto as organizações devem estar atentas pesquisa foi realizada seguindo as seguintes
em integrar o Sistema de Gestão da palavras-chave: ISO 9001, ISO 9001 and
Qualidade em todo o processo produtivo não Sidrurgia, ISO 9001 and Indústria. Foi
apenas na etapa de finalização do produto. realizado um filtro para ser encontrados
Temos como exemplo a explanação de apenas artigos publicados entre os anos de
Walter, M. T. (2005) que afirma que a 2005 e 2016, foram excluídas teses e
qualidade total, a inteligência competitiva e o dissertações e foram aceitos artigos nos
planejamento estratégico são ferramentas de idiomas inglês e espanhol. Também foram
planejamento. Isso nos permite afirmar que os incluídos na pesquisa artigos tanto de revistas
conceitos de qualidade devem ser aplicados como congressos.
nas etapas produtivas desde o planejamento
O levantamento bibliométrico foi realizado
do produto.
pela análise de 20 artigos que passaram
Conforme Abicht et al (2008), as empresas pelos filtros citados acima e buscou-se a
optam por buscar a certificação ISO 9001 por obtenção dos seguintes resultados: Quais os
entenderem que através desse título problemas de pesquisa mais comuns entre os
conseguirá consolidar sua vantagem estudos e quantos artigos utilizaram de cada
competitiva no mercado, a satisfação do um? Quantos artigos utilizaram cada
cliente além de realizaram um marketing metodologia de pesquisa? Quais os tipos de
positivo. Arroteia et al (2014) confirma esse organização mais estudados, e o quanto
pensamento, afirmando que a ISO 9001 foram estudadas nos artigos analisados?
garantem às empresas brasileiras Quais os principais objetivos dos artigos
competitividade frente às organizações estudados? Quais os autores tradicionais mais
internacionais, auxilia a empresa à melhorar citados nos estudos atuais?
seus processos e sua produtividade e traz
melhoria com os stakeholders.
2. REFERENCIAL TEÓRICO
Mediante essas afirmações, mostra-se de
grande necessidade que as organizações 2.1. GESTÃO DA QUALIDADE
brasileiras nos tempos atuais busquem
Por ser um conceito abstrato, onde as
implementar um Sistema de Gestão da
variáveis importantes para a sua definição
Qualidade (SGQ) e se esforçarem para
estão ligadas ao ambiente e às pessoas
conseguir a certificação ISO 9001 que se
envolvidas, definir qualidade não é uma tarefa
mostra não mais como um diferencial da
fácil. Surgida desde os tempos de
organização, mas como garantia de
manufatura, a Gestão da Qualidade (GQ) vem

Gestão da Produção em Foco - Volume 4


94

ganhando espaço cada vez mais relevante questão sendo, em grande parte, diferentes
nas organizações, principalmente como meio de uma empresa para outra (TRINDADE et al.,
de competitividade. Quando que bem gerida, 2011).
a GQ pode agregar valor aos produtos e
Corroborando a importância da gestão da
processos, principalmente no que se diz
informação, Torres et al. (2014) afirma que a
respeito à redução de retrabalho e
adoção de softwares ou quaisquer outros
insatisfação do usuário final do produto
sistemas bem sucedidos, feitos corretamente,
fabricado, porém, se mal definida, acarreta
aumentam a capacidade de gerir a qualidade
em sérias consequências para a empresa
da organização e também podem interferir na
(MARTINELLI, 2009; BALLESTERO-ALVAREZ
sustentabilidade do planeta, ao passo que
et al., 2012; PALADINI, 2012).
otimizará a utilização de recursos e materiais.
Destacando os clientes como foco da
organização, uma vez que esta depende
deles, Mello et al. (2009) recomenda que as 2.2. SISTEMAS DE GESTÃO DA QUALIDADE
necessidades atuais e futuras dos clientes – ISO 9001
devem ser atendidas e estes devem ter suas
expectativas excedidas, tornando maior a Criada em 1947, com sede em Genebra,
competitividade da empresa. Miranda et. al Suíça, a International Organization for
(2010) completam a ideia afirmando que Standardization (Organização Internacional
realmente o foco no cliente externo aumenta a para Padronização – ISO) é uma organização
competitividade da empresa, porém, o cliente internacional que objetiva padronizar a
interno, por sua vez, tem se encontrado normalização e atividades do mundo todo,
insatisfeito, uma vez que a busca da tendendo facilitar o intercambio internacional
qualidade é gerida por normas, de bens e serviços, facilitando a cooperação
procedimentos, resultados e outros controles, intelectual, científica, tecnológica e
os quais não são tão fáceis de serem econômica, fornecendo diretrizes gerais para
praticados. a condução o operacionalização de uma
organização, a fim de melhorar continuamente
Tratando-se ainda de competitividade seu desempenho (MELLO et. al, 2009;
empresarial, a inovação tem sido cada vez BALLESTERO-ALVAREZ, 2012).
mais a palavra-chave das organizações, que Recentemente, foi apresentada uma nova
buscam inovar seus produtos e processos em versão da norma, atualizada de ISO
busca de atração do mercado. Fernandes et 9001:2008 para ISO 9001:2015, onde as
al. (2014) descreve a gestão da qualidade principais mudanças foram sua estrutura e o
como sendo papel fundamental nas foco dado ao pensamento baseado no risco
atividades de inovação, desde que haja (ABNT, 2015).
prudência na identificação dos outputs
gerados pela inovação, ao passo que Hopfer A figura 1 apresenta a abordagem do
et al. (2006) corrobora a ideia, afirmando que processo da ISO 9001 e suas normas nos
o controle direto nos trabalhos se dará com o processos. Nota-se na figura que o processo
aumento de inovações, principalmente começa e termina de acordo com as
tecnológica, nos processos. A informação necessidades dos clientes e outras partes
entra como uma das peças chaves na gestão interessadas, além de fatores como o
da qualidade, onde a identificação dos seus gerenciamento de recursos e a
atributos será primordial para utilização na responsabilidade gerencial serem importantes
gestão de sistemas, serviços e produtos para satisfação do usuário, que está
(FERREIRA, 2015). Porém, assim como o diretamente relacionada à medição e análise
próprio conceito de qualidade, esses atributos das melhorias do processo.
também dependem da organização em

Gestão da Produção em Foco - Volume 4


95

Figura 1: Processo de melhoria contínua do sistema de gestão da qualidade

Fonte: Adaptado de ISO 9001- Selection and use.

Entre as principais vantagens da certificação, respeito desses ambientes, Vianna et al.


como é de se esperar, estão as melhorias na (2010) identificaram que eles estão implícitos
definição e padronização de procedimentos, ou localizados no nível operacional e que eles
melhoria da confiança na qualidade da podem potencializar a postura da
empresa e notório aumento da satisfação do organização frente ao mercado consumidor.
cliente que, como já visto, é uma questão
crítica e estratégica primordial (SANTOS et al.,
2014). 3. RESULTADOS
Para a ambiência da qualidade, é importante Quanto aos problemas de pesquisa, os
considerar os modelos propostos por Paladini artigos estudados mostram uma preocupação
(2012): o ambiente in-line, onde a percepção em entender quais as reais motivações que
da qualidade é percebida no processo levam uma organização a requerer a
produtivo e enfatiza, principalmente, a certificação ISO 9001 ou a implementação de
ausência de defeitos; o ambiente off-line, que um SGQ. Como visto, essas características
são fora do processo produtivo, mas dão trazem vários benefícios à organização, mas
suporte a este, relevantes para adequar o os pesquisadores querem entender mais
produto ao uso que dele se espera afundo esses benefícios, conforme mostra o
desenvolver; e o ambiente on-line, que trata gráfico 1:
da reação do mercado e as preocupações
externas, incluindo a área comercial – vendas
e marketing. Em um estudo aplicado a

Gestão da Produção em Foco - Volume 4


96

Gráfico 1: Problemas de pesquisa abordados pelos estudos analisados

Problemas de pesquisa
Quais motivações levam as empresas a
tentarem obter a ISO 9001?

Quais os processos para certificação,


principais dificuldades e benefícios?

1 1 Implementação de um SGQ em
1 empresas que ainda não possuem
7 certificação
Como as empresas tem agrupado
3 técnicas do SGQ e o FMEA?

Quais os SGQ mais utilizadas nas


1 empresas brasileiras?
2 1 3 Falta de alguns tipos de estudos sobre
Gestão da qualidade

Falta de formulário para identificação de


satisfação do cliente

Fonte: Autores
se igualar os objetivos dos diferentes estudos.
Outro ponto importante da análise Há autores que se preocuparam em propor
bibliométrica foi verificar quais as principais métodos de melhoria para se alcançar a
metodologias utilizadas, para demonstrar se certificação, outros tiveram por objetivo
as contribuições dos pesquisadores são comparar o SGQ com o método FMEA
práticas ou levantamentos teóricos. Conforme (Método da análise de Falhas), porém, há um
o gráfico 2, os estudos tiveram um foco mais importante grupo de autores que
prático, utilizando em sua maioria da fundamentou sua pesquisa no objetivo de
metodologia do estudo de caso, estando identificar as motivações e dificuldades na
também como destaque as pesquisas do tipo implementação da norma ISO 9001, entre
Survey. outros, conforme mostra a tabela 1:
A análise dos objetivos utilizados segue a
linha qualitativa, pois há uma dificuldade em

Gestão da Produção em Foco - Volume 4


97

Tabela 1: Objetivos das pesquisas em estudo


Principais objetivos

Propor um método de gestão da satisfação dos clientes que integre as necessidades de


diferentes setores industriais atendidos pela indústria nacional

Propor uma ferramenta, denominada auditoria contínua, cujo objetivo é melhorar o processo de
auditoria interna através do registro das não conformidades de um sistema de gestão da
qualidade (SGQ) voltado para a norma ISO 9001.
Identificar elementos da GQT como fatores determinantes do desempenho inovador das
organizações. Propor um modelo conceitual considerando 8 princípios da GQT.

Reunir elementos do SGI, abrangendo as normas ISO 9001 e ISO 14001, e relacioná-las com a
produção e processamento pós-colheita de frutas como garantia de alimento seguro e de
qualidade.
Analisar como duas empresas fornecedoras do setor automobilístico praticam atividades de
melhoria contínua frente aos requisitos exigidos pela ISO 9001.

Identificar os principais aspectos da implementação dos programas de qualidade em empresas


brasileiras, a partir Da certificação de sistemas de qualidade nas normas ISO 9000, o Seis
Sigma e o TQM.
Identificar as principais motivações, benefícios e dificuldades na certificação de Sistemas de
Gestão da Qualidade ISO 9001 em empresas brasileiras.

Apresentar uma aplicação do FMEA baseada nos conceitos de abordagem por processo
definidos norma NBR ISO 9001:2000, comparado a uma aplicação convencional utilizada por
boa parte das organizações que utilizam o FMEA de Processo sem a devida implementação.
Apresentar resultados de uma pesquisa bibliográfica sobre a Gestão de Riscos considerando
sua inserção no Sistema de Gestão da Qualidade.
Compreender quais aspectos da GQT foram capazes de sobreviver ao longo de mais de vinte
anos do início de sua implantação.

Levantar os problemas enfrentados pela associação, para desta forma, propor uma nova
metodologia que atinja a qualidade necessária para adquirir uma Certificação da Qualidade.
Verificar o processo de certificação ISO 9001 em uma cooperativa agroindustrial da região
Oeste do Paraná
Analisar tecnicamente a gestão da qualidade do produto no processo de produção industrial no
SQCCE3 (Sistema de Qualidade Coca-Cola - Evolução 3)
Comprovar se a implantação de práticas de gestão da qualidade total pode caracterizar que as
empresas que às utilizam são merecedoras da certificação ISO 9001.
Fonte: Autores

Gestão da Produção em Foco - Volume 4


98

Quanto aos principais autores e referencias autor possuir uma importante obra sobre a
utilizada nos trabalhos, foi possível observar ISO 9001 nas operações de produção
que alguns denominados “Gurus da publicada recentemente (2008). Uma citação
qualidade” como Ishikawa e Paladini foram de extrema relevância e muito utilizada foi
pouco citados, enquanto alguns autores sobre os requisitos da NBR ISO 9001, como
pouco falados como Mello tiveram um número demonstrado na tabela 2:
considerável de citações. No exemplo desse
último, suas citações devem-se ao fato do

Tabela 2: Principais citações dos artigos estudados


Principais Referências Quantidade de Citações
ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TÉCNICAS. NBR ISO
10
9001:2000 – Sistema de Gestão da Qualidade: Requisitos.
JURAN, JOSEPH M 6
Deming, W. E. 4
GARVIN, David 4
Mello, C.H.P. 4
ISO, INTERNATIONAL ORGANIZATION FOR STANDARDIZATION 4
Crosby, P. B 3
PORTER, Michael E 3
SAMPAIO, P., SARAIVA, P., RODRIGUES, A.G 3
ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TÉCNICAS – ABNT.
2
Coletâneas de normas de sistemas da qualidade.
Feigenbaum, A, V 2
SLACK, N.; CHAMBERS, S.; JOHNSTON, R 2
PALADINI, EDSON P 1
ISHIKAWA, K 1
Fonte: Autores

A análise dos setores mais estudados pelos campeões nos estudos é o setor industrial
pesquisadores que se utilizaram da seguido pelo agroindustrial, conforme o
metodologia do estudo de caso ou do método gráfico 3:
Survey de pesquisa demonstrou que os

Gestão da Produção em Foco - Volume 4


99

Gráfico 3: Segmentos mais estudados pelos pesquisadores

Moveleiro; 1

Industrial em
geral; 4
Agroindustrial; 3

Prestação de
Peças serviços; 2
Alimentício; 1 Automotivas;
2

Fonte: Autores

4. CONCLUSÃO não conseguir enfrentar esses desafios. Há


aquelas que possuem um sistema de
Após a análise do referencial teórico e do
produção e Gestão da Qualidade muito mal
levantamento bibliométrico, pode-se concluir
gerenciada e, portanto necessitam
que o SGQ é uma realidade para as
implementar um SGQ seja através da ISO
organizações, tanto para as que possuem a
9001 ou qualquer outra para se obter dos
certificação ISO 9001, quanto para as que
benefícios já citados.
almejam alcança-la. Pode ser observado
também que os autores que realizaram
O presente trabalho atingiu seu objetivo
estudos acerca do tema pesquisado mostram
demonstrando os resultados obtidos pelos
uma preocupação em entender quais os
artigos estudados e conseguiu perceber,
benefícios mais esperados e alcançados
sobretudo a deficiência de pesquisas sobre a
pelas organizações que já possuem a
certificação ISO 9001 em indústrias
certificação.
siderúrgicas e mineradoras, ramo principal do
ambiente em que os autores do artigo estão
É importante também observar que alguns
inseridos que é a região do Alto Paraopeba –
autores querem demonstrar os principais
MG, ficando o tema então, como sugestão de
desafios enfrentados pelas empresas no
estudos futuros.
processo de implementação da norma, pois
há muitas que desistem de consegui-la por

REFERÊNCIAS: estudo de caso múltiplo de duas empresas do


centro oeste paulista. SIMPEP, Bauru – SP, 2014
[1] ABICHT, Alexandre Melo; CEOLIN,
Alessandra Carla; CORRÊA, Augusto Faria; [3] ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS
PEREIRA, Paulo Rodrigo. Diferenciação ou TÉCNICAS. ABNT NBR ISO 9001 - Sistema de
necessidade na certificação iso 9001: uma análise Gestão da Qualidade – Requisitos, 2008.
em duas empresas agroindustriais. Congresso da
[4] BALLESTERO-ALVAREZ, María
Sociedade Brasileira de Economia, Administração
Esmeralda. Gestão de qualidade, produção e
e Sociologia Rural. Rio Branco, 2008.
operações. 2. ed. São Paulo: Atlas, 2012.
[2] ARROTEIA, Michele Cristina de Souza;
[5] FERNANDES, António Augusto Cabral
ZUCARRI, Patrícia; TOMAZ, Washington Luiz.
Marques; LOURENÇO, Luís António Nunes; SILVA,
Características que envolvem a decisão da
Maria José Aguilar Madeira. Influência da Gestão
empresa para a implantação da iso 9001:2008:
da Qualidade no Desempenho Inovador. Revista

Gestão da Produção em Foco - Volume 4


100

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2012.
[6] FERREIRA, Osmar Carmo Arouck.
Atributos de qualidade da informação. Revista [14] SANTOS, Gilberto; COSTA, José Batista;
Ibero-Americana de Ciência da Informação, LEAL, A. Motivation and Benefits of Implementation
Brasília, v. 8, n. 2, p. 276-277, 2015. and Certification according ISO 9001 – the
Portuguese Experience. International Journal of
[7] GONZALES, Rodrigo Valez Domingues;
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MARTINS, Manoel Fernando. Melhoria contínua no
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[8] HOPFER, Kátia Regina; FARIA, José
Maria Velazquez; BARRAZA; Elisa Urquizo;
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CARRILLO; Maria Cristina Garcia. Environmental
trabalho: dissonâncias entre o prescrito e o real.
management software administered with ISO
RAE eletrônica, São Paulo, v. 5, n. 1, 2006 .
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informação nos ambientes de intranet para apoio à
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Carlos Eduardo Sanches da; TURRIONI, João
de Administração, v. 17, n. 3, p. 776-801, 2011.
Batista; SOUZA, Luiz Gonzaga Mariano de. ISO
9001:2008: sistema de gestão da qualidade para [17] VIANNA, William Barbosa; GIFFHORN,
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estratégico e indicadores de desempenho: um
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Pierangeli; OLIVEIRA, Maria Clara Koenigkam de.
Catarina, v.10, n.1, p. 26-48, 2010.
Controle Ideológico: uma Reflexão Teórica sobre
os Princípios que Orientam as Práticas da Gestão [18] WALTER, Tereza Maria. Implantação da
da Qualidade. Revista Eletrônica de Gestão Norma ISO 9001:2000 na Biblioteca Ministro Victor
Organizacional, Lavras, v8, n.1, p. 30-48, 2010. Nunes Leal do Supremo Tribunal Federal. Revista
Ciência da Informação, v.34 n.1 pp. 104-113, 2005

Gestão da Produção em Foco - Volume 4


101

CAPÍTULO 9
Alex Orben
Emerson José Corazza
Gilson João dos Santos
Renato Cristofolini
Rosalvo Medeiros

Resumo: O mercado atual exige cada vez mais que as empresas sejam
competitivas, visto que, implementar soluções, métodos para redução dos custos e
padronização de processos, ajuda no aumento da qualidade e produtividade de
processos e produtos, fazendo com que a organização esteja um passo à frente
dos concorrentes. Analisando todo o contexto que envolve a fabricação de um
molde de injeção termoplástica, nota-se a complexidade nos processos e a falta de
padrões nos mesmos, abrindo um grande potencial para realização de um trabalho
de melhorias em alguns processos que envolvem a fabricação do molde. Desta
forma foi possível iniciar um trabalho utilizando algumas ferramentas da qualidade e
da filosofia lean, técnicas do 5S e kaizen, e o principal, a implementação de
padrões no projeto e na bancada.

Palavras-chave: Moldes de injeção termoplástica, projeto, bancada, ferramentas da


qualidade e da filosofia lean, padronização

Gestão da Produção em Foco - Volume 4


102

1. INTRODUÇÃO: Este trabalho consiste na análise de todos os


problemas envolvidos nos processos citados,
Este trabalho demonstra as oportunidades
criação de procedimentos de operação
que uma organização pode explorar, em meio
padrão e aplicação das melhores práticas
a um cenário econômico desfavorável,
desenvolvidas por toda a equipe.
exigindo novos pensamentos e mudanças em
conceitos, fazendo com que as empresas Assim, o objetivo geral e implantar um modelo
busquem alternativas para melhorar a sua de padronização nos projetos e processos
situação no mercado. dos moldes, utilizando algumas ferramentas
da qualidade e do Lean Manufacturing,
Por tudo isto, analisando o estado atual do
através da realização de reuniões de
CDM - Centro de Desenvolvimento de Moldes
Brainstorming com o projeto e a bancada
de uma empresa de tubos e conexões, notou-
para levantamento de informações
se a falta de padrões em determinadas
pertinentes, propor um modelo de
etapas no processo de criação e fabricação
padronização nos projetos aderente ao
dos moldes de injeção termoplástica. Desta
processo de produção de moldes,
forma, foram utilizadas algumas ferramentas
implementar o 5S no projeto e a bancada,
da qualidade e filosofia do lean manufacturing
implementar o kaizen no processo de
e com isso foi possível elaborar um projeto no
montagem de molde e avaliar e apresentar os
qual envolveu toda a área de bancada e de
resultados obtidos.
projeto de moldes do setor, com o objetivo de
obter o levantamento de dados e criar ações
com foco no trabalho padronizado.
1.1 FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA
O setor do CDM é responsável por projetar e
As fundamentações teóricas utilizadas para o
fabricar moldes de injeção termoplástica para
desenvolvimento do trabalho, com base em
todas as unidades da empresa. Isto exige que
artigos científicos e livros de autores
a área tenha projetos que atendam à todas
relacionados aos temas abordados.
necessidades não apenas das plantas do
Brasil, mas também das unidades Molde de Injeção termoplástica: Segundo
internacionais. Harada (2004), molde de injeção
termoplástica é uma ferramenta que possui
Analisando a situação atual de organização
vários componentes, cada um com uma
da área e a demanda de moldes, notou-se a
função definida e em conjunto forma um
necessidade de se criar métodos de trabalhos
sistema de alta complexidade, permitindo que
padronizados, para todos os ferramenteiros
esses componentes reproduzam através de
da área de montagem, através de um POP-
suas cavidades, exatamente o formato do
Procedimento de Operação Padrão, um
produto desejado.
documento impresso que contém todos os
procedimentos necessários para a realização O molde de injeção termoplástica após ser
das tarefas. Desta forma os funcionários serão fabricado, vai para uma máquina injetora
treinados para executarem seus trabalhos em onde através de pressão o material passa por
um fluxo mais suave e constante, de forma resistências que o aquece, sendo fundido nas
mais organizada, evitando movimentos cavidades do molde que ao resfriamento
desnecessários, reduzindo irregularidades na reproduz as dimensões e formato do produto.
montagem dos moldes e promovendo
A figura 1 representa um esquema básico da
segurança aos envolvidos.
injeção do material no molde, formando o
produto desejado.

Gestão da Produção em Foco - Volume 4


103

Figura 1 – Representação da injeção do material na cavidade do molde

que utiliza o termo melhoria contínua para


buscar a excelência operacional. Segundo
Procedimento Operacional Padrão: Segundo Liker e Meier (2007), o grande sucesso vem
Duarte (2005), o POP - O Procedimento de um procedimento de melhoria para
Operacional Padrão é o alicerce para garantia identificação dos desperdícios, entender o
da padronização das atividades em uma foco do problema e saber tomar as decisões
organização, de forma eliminar mudanças mais cabíveis para se eliminar as perdas dos
indesejáveis no produto ou serviço final. É um processos.
documento cujo objetivo é o alcance da meta
padrão, através do trabalho repetitivo. Dennis (2008), afirma que o STP foi
desenvolvido por Eiji Toyoda e Tiichi Ohno em
O procedimento operacional padrão, é um um período que o Japão e a Toyota passavam
documento muito importante dentro da por momentos difíceis, esse princípio passou
organização, pois ele traduz o planejamento por desafios, visto que o mercado japonês
do trabalho que será executado, sendo uma estava arrasado pela guerra, sem capital para
descrição detalhada de todas as etapas reação e com grande necessidade de
necessárias para realização de uma tarefa. variedades de veículos.
Desta forma Shingo (2006), relata que a
Lean Manufacturing: A filosofia do lean, essência do STP está na abolição dos
segundo Tapping e Shuker (2010), está desperdícios que são os preceitos oriundos
baseada na meta fundamental do Sistema da problemática apresentada por essa
Toyota de Produção, onde prega que os metodologia. O autor comprova ainda a
desperdícios devem ser minimizados existência de 7 desperdícios na produção,
continuamente, para que ocorra a conforme quadro 1.
maximização do fluxo.
O Lean Manufacturing, também conhecido
como manufatura enxuta, é uma metodologia

Gestão da Produção em Foco - Volume 4


104

Quadro 1 – Os 7 desperdícios da produção


Desperdício Descrição
Produzir demais ou muito cedo, resultando em um
Superprodução fluxo de informações ou de materiais ruins e excesso
de estoque
Erros frequentes na folha de trabalho, problemas
Defeitos com a qualidade do produto, ou entrega e
desempenho ruim
Estoques excessivos e atraso de informações ou
Estoques produtos, resultando em um custo excessivo ou um
serviço ruim
Realizar os processos usando ferramenta,
Processamento Desnecessário procedimentos ou sistema errado, geralmente um
abordagem mais simples seria mais eficaz
Movimentos excessivos de pessoas, informações ou
Transporte produtos resultando em perda de tempo, de esforço
e de custo
Longos períodos de inatividade das pessoas,
Espera informações ou produtos, resultanto em um fluxo
ruim ou longos tempos de entrega
Má organização do local de trabalho, resultando em
Movimentação uma ergonomia ruim, frequentes perdas de itens,
deslocamento para buscar ferramentas

Dennis (2008), apresenta na figura 2 as produto ou serviço, alinhando baixo custo e a


atividades da filosofia lean, simbolizada e qualidade, já a base da casa simboliza a
conhecida como a casa do STP. Onde o 5 padronização e a estabilidade, onde se
Sensos faz parte de um dos pilares, o telhado encontra o trabalho padronizado e entre
é o foco no cliente, sabendo atender as outras ferramentas que são utilizadas em
expectativas que o mesmo espera de um grandes organizações em todo o mundo.

Figura 2 – Casa do Sistema Toyota de Produção

Gestão da Produção em Foco - Volume 4


105

O lean implica um esforço contínuo em se ter CAM e os processos de trabalho do PCP para
um contexto caracterizado por desperdício realização da fabricação dos componentes
mínimo e fluxo máximo, para que isso que serão utilizadas no setor de bancada. A
aconteça se requer que ocorra mudança na bancada após receber os componentes
mentalidade das pessoas, deve-se aprender acabados inicia os ajustes e montagem do
a encarar os desperdícios com um novo olhar, molde. Após concretizar os ajustes
intendendo tudo que envolve o desperdício e necessários o molde é enviado para testes de
saber trabalhar para o eliminar. desempenho no try out. São encontrados
muitos problemas em um ambiente de
Essa mentalidade tem que partir
produção de moldes, devido à diversidade,
primeiramente da alta gestão, onde os
desorganização nas áreas, a falta de padrão
mesmos serão os incentivadores para as
e controle nos processos de fabricação.
demais áreas, mostrando que os
colaboradores envolvidos na busca por A problemática do trabalho se dá sobre a
eliminar os desperdícios, estão sendo bem questão organizacional das áreas de projeto e
visto e apoiados pela participação e bancada na fabricação dos moldes de
concretização das melhorias. injeção, onde existem poucos. Foi realizada
uma reunião junto com os projetistas com o
objetivo de fazer um levantamento da situação
2. METODOLOGIA atual do projeto, abordando os principais
problemas e dificuldades dos profissionais
As atividades se iniciam no setor de projetos,
desta área. O setor de projeto é o início do
que recebe o desenho do produto em 3D
processo de fabricação do molde, onde todas
enviado pela engenharia de produto, bem
as decisões tomadas irão gerar algum
como informações técnicas necessárias para
impacto nas etapas seguintes. O projetista é
o início do projeto. Esta área é responsável
responsável por projetar os moldes, realizar a
por gerenciar os projetos dos moldes das
liberação dos desenhos e a lista dos
unidades da empresa, projetar e terceirizar
componentes para fabricação.
projetos quando necessário.
Desta forma analisando o contexto do setor
Após a concretização do projeto, o PCP é
mediante as informações relatadas pelos
responsável por liberar e lançar a nota fiscal,
projetistas, notou-se a ineficiência ou
referente a componentes que necessitem de
ausência de padrões e a desorganização no
tratamento térmico e distribuir a carga de
ambiente de trabalho. Outro problema
trabalho para as máquinas. O PCP gerencia
relatado é falta de feedback entre as áreas de
todos os apontamentos do setor, verifica a
fabricação com o projeto, devido a problemas
disponibilidade da capacidade planejada
encontrados sem haver o retorno das
versos a realizada nas máquinas. A
informações, onde futuramente poderá
programação CAM é responsável pela
ocorrer a reprodução dos mesmos problemas
geração dos programas e pelo gerenciamento
e um novo projeto de molde. A figura 3
destes programas nas máquinas CNCs.
representa a desorganização na área projeto.
Na fabricação os setores das eletros, tornos e
fresadoras CNCs recebem os programas do

Gestão da Produção em Foco - Volume 4


106

Figura 3 – Desorganização na área de projet

O setor de bancada é o último processo na falhos, como a falta de padrões, falta de


fabricação do molde, é nele que ocorre o controles das atividades causadoras de
ajuste e montagem dos componentes que aumento do tempo de montagem que
totalizarão o molde pronto. É um processo ocasionam atrasos nas entregas dos moldes.
extremamente complexo, visto que o molde é A falta de organização na bancada é outro
um ferramental caro e qualquer descuido agravante, pois as ferramentas não estão em
pode causar grandes prejuízos financeiros. lugar correto, não possuem identificação,
levando com o que o ferramenteiro perca
Desta forma analisando o contexto em uma
tempo ao procurar tal ferramenta. Conforme
reunião com os ferramenteiros, pode-se
mostra a figura 4.
evidenciar que a bancada possui pontos

Figura 4 – Desorganização na área de bancada

Gestão da Produção em Foco - Volume 4


107

Após o levantamento das informações através em movimentações desnecessárias, maior


das reuniões com o projeto e a bancada, custo de fabricação do molde, retrabalhos em
problemas comuns foram identificados nas todas as etapas do processo de fabricação e
duas áreas, como a falta de padronização, entre outros. Com a identificação dos
desorganização do ambiente e falta de principais problemas nas duas áreas, foi
feedback. utilizado a ferramenta do diagrama de
Ishikawa para melhor compreensão situação.
Esses problemas são geradores de atrasos na
A figura 5 representa o diagrama de Ishikawa
entrega do molde, qualidade comprometida
no projeto.
nas etapas de fabricação, perdas de tempo

Figura 5 – Diagrama de Ishikawa no projeto

Analisando o diagrama de Ishikawa da área A figura 6 representa o diagrama de Ishikawa


de projeto, pode-se observar através das na bancada, identificação as principais
causas levantadas, sérios problemas que causas geradoras dos problemas nesse
comprometem as demais etapas do processo processo.
de fabricação, causando retrabalhos,
aumento do custo e tempo na fabricação dos
moldes de injeção termoplástica.

Gestão da Produção em Foco - Volume 4


108

Figura 6 – Diagrama de Ishikawa na bancada

Após o levantamento dos problemas, foi Foram criadas ações para o setor de projeto e
realizada uma nova reunião para definição bancada a fim de melhorar a qualidade e
das ações a serem consolidados, nessa reduzir os desperdícios.
reunião foi utilizada a ferramenta de
Após o levantamento dos problemas com o
brainstorming, onde a mesma é aplicada com
auxílio da ferramenta de brainstorming,
um grupo de pessoas a fim de levantar ideias
algumas ações foram levantadas pelos
para resolução de problemas. Essa
membros participantes, seguem no quadro 2
metodologia estimula as pessoas, pois não
abaixo.
descrimina as opiniões levantadas.
Quadro 2. Melhorias no Projeto

Gestão da Produção em Foco - Volume 4


109

Desta forma, em razão de não se ter um recebe essa especificação devido a normas
processo adequado no projeto e bancada, internas que não permite nome e dados dos
ocorre problemas como desperdício de tempo moldes e seus respectivos produtos.
nas atividades, perdas na procura dos
Os dados apresentados são provenientes dos
ferramentais, processos iguais sendo
apontamentos realizados pelos responsáveis
executados de formas diferentes, sem haver
em preparar, ajustar e montar o molde “A” na
um padrão determinado e eficaz.
bancada, esses dados foram obtidos com o
auxílio do PCP. A tabela 1 representa os
dados do molde “A” antes das melhorias,
3. RESULTADOS
demonstrando as horas de mão-de-obra
Os resultados obtidos com o estudo, serão utilizada pela bancada até o envio do molde
apresentados através de gráficos para o primeiro try out, total de horas e a
comparativos referente a um molde porcentagem dos apontamentos em
denominado “A” de um produto “X”, antes e retrabalhos.
depois das melhorias aplicadas. O molde “A”

Tabela 1 – Dados do molde “A” antes das melhorias

A tabela 2 representa os dados do molde “A” de horas e a porcentagem dos apontamentos


depois das melhorias, demonstrando as horas em retrabalhos.
de mão-de-obra utilizada pela bancada até o
envio do molde para o primeiro try out, total

Tabela 2 – Dados do molde “A” depois das melhorias

Após a apresentação das tabelas que Todos os dados apresentados foram


demostram os dados antes e depois das coletados do molde “A” fabricado no ano de
melhorias, criou-se a tabela 3 como forma de 2015 e 2016, um molde “A” antes e o outro
representação e comparação desses dados molde “A” depois das melhorias
do molde “A” e a diferença em porcentagem respectivamente.
dos mesmos.
Os dados apresentados na tabela 3 estão
apresentados mediante as horas e dias
utilizados pela bancada até o T0.

Gestão da Produção em Foco - Volume 4


110

Tabela 3 – Comparativo antes e depois das melhorias

Através dos dados mensurados nas três possível melhorar a organização do local de
tabelas, pode-se verificar que os níveis de trabalho, elaborar padronização das
retrabalho depois das melhorias foram atividades do processo, promover melhoria no
menores consequentemente as horas espaço físico das áreas, garantindo maior
utilizadas para montagem do respectivo segurança do operador e consequentemente
molde também diminuíram. trazendo maior produtividade para a
organização.
Não houve a mensuração dos ganhos na
Conclui-se que a utilização das ferramentas
concepção do molde aprovado, pois os
da qualidade e do lean manufacturing, trouxe
ganhos apresentados são decorrentes do
boas informações para o acadêmico
primeiro molde com a aplicação das
envolvido, como forma de oportunidade para
melhorias, onde esse molde atualmente se
a aplicação dos métodos aprendidos em
encontra em fase de aprovação.
trabalhos futuros.

4. CONCLUSÃO
SUGESTÃO PARA TRABALHOS FUTUROS
Neste capítulo são apresentadas as
Recomenda-se em trabalhos futuros que seja
conclusões finais do estudo realizado, visto
feito o levantamento em outros moldes,
que a concretização deste trabalho gerou
comparando-os com moldes que não foram
bons resultados para a empresa, mediante a
aplicadas as melhorias, para maior precisão
implementação de métodos padronizados,
nos ganhos.
com o auxílio de algumas ferramentas da
Adotar os mesmos métodos no processo de
qualidade e do lean manufacturing.
fabricação nas máquinas CNCs, aprimorando
Com um mercado cada vez mais hostil, as
esse processo para que se tenha um menor
organizações, necessitam constantemente de
índice de retrabalho e maior índice de
atualização em seu sistema de trabalho,
qualidade das peças fabricadas.
melhorando e otimizando todo o processo
Cria um método de controle dos componentes
produtivo, visto que a organização em uma
do molde fornecido por terceiros, devido a
empresa reflete na agregação de valor nos
diversidade de fornecedores e o elevado
processos produtivos, reduzindo desperdícios
índice de retrabalho dos mesmos.
em torno da fabricação do produto.
Com base no estudo realizado, chegou-se à
conclusão que possuir um processo ordenado
e utilizar ferramentas certas, é capaz de
eliminar desperdícios de movimentação,
tempo de espera e retrabalhos. Além disso, é

Gestão da Produção em Foco - Volume 4


111

REFERÊNCIAS [6] SHINGO, O. O Sistema Toyota de


Produção do Ponto de Vista da Engenharia de
[1] DENNIS, P. Produção Lean Simplificada. Produção. 2.ed. Porto Alegre: Artes Médicas, 1996.
Porto Alegre: Bookman, 2008.
[7] TAPPING, D; SHUKER, T. Gerenciamento
[2] DUARTE, R. L. Procedimento Operacional do fluxo de valor para áreas administrativas. São
Padrão - A Importância de se padronizar tarefas Paulo: Leopardo, 2010.
nas BPLC. Curso de BPLC – Belém-PA/ 2005 8p.
[3] HARADA, J. Moldes para injeção de
termoplásticos: projetos e princípios básicos.
[4] São Paulo: Artliber Editora, 2004.
[5] LIKER, J.K; MEIER, D. O Modelo Toyota:
manual de aplicação – Porto Alegre: Bookman,
2007.

Gestão da Produção em Foco - Volume 4


112

CAPÍTULO 10

Alexandro Gilberto da Silva


Eduardo Gonçalves Magnani
Geraldo Magela Pereira da Silva
Dr. Nelson Ferreira filho

Resumo: Este estudo procura mostrar com base no conceito do VSM (Value Strean
Mapping), como um processo identifica e trata os “desperdícios” manufatureiros
aplicando este também conhecido Mapa de Fluxo de Valor fazendo uma análise da
diferença entre sistemas tradicionais de manufatura e sistemas de produção enxuta
em células de manufatura e utilizando soluções de produção enxuta. O projeto foi
realizado em campo na empresa denominada Alfa, situada em Minas Gerais do
seguimento de fundição, usinagem e pintura de peças de grande tonelagem em
aço nodular e cinsento. E os processos estudados foram usinagem e pintura de
hubs eólicos. O foco é a redução do lead time e eliminação de perdas, visto que o
balanceamento de linha produtiva é denominado a essencia basica da excelência
operacional em toda cadeia de fluxo de informações, materiais e pessoas.
Inicialmente foram medidos os tempos de ciclo e movimentação dos funcionários e
da peça fundida a ser processada ao longo do fluxo de valor, para uma demanda
semanal de quatro peças. Os inventários ao longo do processo também foram
medidos e identificados juntamente com o lead time pelo mapa do estado atual das
celulas de usinagem e pintura. Através da implementação do sistema enxuto de
produção, foi proposto um novo mapa do estado futuro das células produtivas,
onde foram instalados três supermercados para balanceamento de linha e a
eliminação das inspeções dimensionais com alta capabilidade ao longo do
processo produtivo.

Palavras chave: Mapeamento, Fluxo, Valor, Lead time, Perdas

Gestão da Produção em Foco - Volume 4


113

1. INTRODUÇÃO: 2. EMBASAMENTO TEÓRICO


O VSM, mais conhecidamente Mapa de Fluxo Rother; Shook (1999) definiram o Value
de Valor de acordo com o conceito de Stream Mapping - VSM ou mapeamento do
Produção Enxuta é eliminar o desperdício fluxo de valor como uma ferramenta gráfica,
com o objetivo de criar valor Murman; Allen baseada num mapa, que permite visualizar o
(2002), em termos de tempo, trabalho em percurso de um produto ou serviço ao longo
processo e rejeitos. Em todas as áreas ao do fluxo de valor. Trabalhar a partir do fluxo
longo da cadeia que cria valor, de valor permite ter uma visão global dos
independentemente se é sobre um conceito processos e não estar apenas focado nos
de logística para toda a produção ou a processos individuais. Este método é muito
otimização de uma área de trabalho definida, simples e eficaz, uma vez que ajuda a
porque o desperdício ocorre em todas as identificar o desperdício ao longo do processo
etapas do processo. Através de uma e as suas causas (ROTHER; SHOOK, 1999).
implementação consistente do sistema Lean
No sistema Lean de produção, o fluxo de
em células de usinagem e pintura de eólicos,
informação deve ser tratado com tanta
esse potencial pode ser identificado e
importância quanto o fluxo de material.
desenvolvido para a melhoria da eficiência
Emprega-se a palavra Lean a (magreza,
das operações de acabamento. Como citam
ausência de gordura) porque esta filosofia
Chiaverini; Vicente (1914), os processos de
concentra-se na eficiência, com o objetivo de
usinagem possibilitam o acabamento de
produzir produtos e serviços com o menor
superfícies de peças fundidas ou
custo e o mais rápido possível. E como afirma
conformadas mecanicamente, de modo a
Antony (2010), o compromisso com o Lean
obter-se melhor aspecto superficial e
Thinking deve começar ao nível da gestão de
dimensões mais precisas. Obter fontes de
topo e deve desenvolver-se em cascata para
eficacia sobre este processo é inrraizar a
todos os níveis da organização com o objetivo
cultura Lean. O resultado é a redução de
de melhorar o fluxo de materiais e informação
custos e um simultâneo melhoramento da
e a eficiência dos processos.
eficiência da produção, conjuntamente com
A abordagem científica da filosofia Lean foi
aumento da qualidade. E como definem
inicialmente divulgada nos trabalhos de
Womack; Jones (1996), o mapeamento de
Womack; Jones; Roos (1992) e Shingo (1981),
fluxo de valor é mais que uma técnica na
sendo posteriormente transposta para o
gestão de empresas líderes. Ela traduz
processo de desenvolvimento de produtos.
respeito aos clientes e acionistas que não
Pesquisas de Sohal; Egglestone (1994),
aceitam pagar pelos custos dos desperdícios.
Bauch (2004) e Machado (2006) que tiveram
Atualmente o setor de energia eólica esta em como foco a avaliação das potencialidades
uma crescente notória, trazer recursos de da aplicação da filosofia Lean na área de
melhoria para produção destes equipamentos pesquisa e de desenvolvimento, verificação
é o mesmo que buscar eficiencia para ordem das dificuldades de implementação do lean
conjunta das necessidades de se produzir development, proposição de desperdícios
energia sustentável. para o lean development e uma sistemática
para a implementação da filosofia lean,
A empresa estudada neste artigo é do
seguindo a estrutura de projetos,
seguimento de fundição de aço nodular e
respectivamente. As pesquisas citadas
cinsento, sendo denominada empresa alfa, a
mencionam o uso do mapeamento do fluxo de
aplicação de seus processos de fabricação é
valor como meio para identificação dos
extremamente complexa por ser uma planta
desperdícios do desenvolvimento de
que cobre uma demanda de produtos desde
produtos.
a formação dos moldes até o acabamento
final. Os hubs fundidos, conformados e Liker (2005) obteve a resposta de Fujio Cho,
acabados vão diretamente para serem então presidente da Toyota Motor Company,
montados nas torres dos parques eólicos. que aprendeu o Modelo Toyota com um dos
Apartir de estudos aplicados no chão de seus criadores, Taiichi Ohno para o notável
fabrica, esta pesquisa visa detectar fontes de sucesso da Toyota. “A chave para o modelo
melhoria no processamento de usinagem e Toyota, e o que a faz sobressair, não é
pintura através do mapeamento de fluxo de nenhum dos elementos individuais… Mas o
valor. importante é ter todos os elementos unidos
como um sistema. Eles devem ser postos em

Gestão da Produção em Foco - Volume 4


114

prática em todos os dias de uma maneira Essa metodologia estimula a participação,


muito sistemática e não isoladamente." permitindo que pessoas tímidas não se
omitam do grupo (EMERIM; SIMÕES, 2015).
Conforme Womack; Jones (1992) a produção
enxuta é como um processo de cinco passos: Com ele, se estabelece uma linguagem
criar valor na óptica do cliente; identificar a comum entre os colaboradores, conforme
cadeia de valor; fazer o valor fluir para a figura 1 a seguir.
cadeia; o cliente puxa a produção e Assim fica explicito o processo produtivo de
gerenciamento rumo à perfeição. No trabalho uma forma simples de interpretar por qualquer
diário de uma empresa, rotinas que consigam mebro da equipe, mas para que este
manter a organização e a ordem são mapeamento ocorra é preciso que haja um
essenciais para um fluxo regular e eficiente trabalho ao qual se predomina sob uma
das atividades (BAYO; BELLO; CERIO, 2010). investigação continuada no chão de fábrica, é
Então um gestor enxuto não se limita a utilizar a detecção destes nuneros através das
apenas analises de demanda e capacidade cronoanalises ou cronometragem de todas as
produtiva para determinação de operações nestas celulas. Porque conforme
sequenciamento, ele procura sempre a afirmam Rother; Shook (1999) o “Fluxo de
incansável melhoria continua através do Valor” deve ser um novo termo em seu
sistema Lean Manufacturing porque é vocabulario. Um fluxo de valor é toda ação,
utilizado atualmente pelas grandes indústrias agregando valor ou não, necessaria para
e é o sistema mais eficaz de toda a historia do fazer passar um produto por todos os fluxos
Japão, hoje é utilizado em todo o mundo. essenciais de cada produto: 1° O fluxo de
produção desde a matéria prima até os
braços do consumidor e 2° o fluxo do projeto
2.1 MAPAS DE FLUXO DE VALOR: do produto, da concepção até o lançamento.

Com o decorrer dos anos as empresas veem


trabalhando com fluxo de material em 2.2 SISTEMAS PULL:
processos discretos de produção e
implementação do sistema enxuto ao invés de Pull é um processo de reabastecimento de
processos isolados de melhoria, significando material controlado pelo consumo. O sistema
que as pessoas em todas as funções do pull de reabastecimento procura eliminar a
negócio podem ter que mudar os seus Super produção, alinha os processos com os
hábitos. Onde quer que haja um produto para requisitos do cliente reduzindo a super
um cliente, há um fluxo de valor (SHINGO, produção, uma das maiores perdas no fluxo
1981). de valor, porque cliente não é somente aquele
externo, cliente é qualquer processo seguinte
Segundo Emerim; Simões (2015), a analize (ANTONY, 2010).
inicia se pela identificação da função de uso
que representa o processo. Devendo ela, ser O pull regula a produção com o trabalho para
composta por um verbo (ação realizada) e um reabastecer somente o que o cliente
substantivo mensurável que sofrera a ação. consome. Em contraste, uma estratégia push
As atividades desenvolvidas deverão estar promove a super produção otimizada,
atreladas à função principal e poderão ser fabricando de acordo com uma programação
classificadas como necessárias ou prevista ou maximizando a relação base-hora,
desnecessárias. mesmo se corrente abaixo as operações ou
os clientes não necessitam dos produtos
O mapa do fluxo de valor é uma poderosa conforme figura 2 a seguir, pode se verificar a
ferramenta de comunicação e planejamento, diferença da produção em rítimo de
além de servir para que as pessoas empurráda (push) para o sistema de
conheçam detalhadamente seus processos produção puxada ou sistema pull.
de fabricação. Aborda a forma simples do
fluxo de materiais e informações desde
fornecedor até o cliente final (FERREIRA;
ROCHA; LOPES; SANTOS; SANTOS, 2015).

Gestão da Produção em Foco - Volume 4


115

Figura 2- Demonstrativo de sistemas Push x Pull

Conforme Rother; Shook (1999) afirmam, o estoque -ideia de emissão de cartão kanban
objetivo de colocar um sistema puxado entre (WOMACK; JONES, 1996)
dois processos, é ter uma maneira de dar a
E conforme mencionam Rother; Shook (1999),
ordem exata de produção ao processo
sua especial obtenção de otimização de
anterior, sem tentar prever a demanda
carga de trabalho esta na racionalização da
posterior e programar o processo anterior.
produção. Utilizara-se de semelhanças Just in
Puxar é um método para controlar a produção
time para a origem no sistema de prateleira
entre dois fluxos. do supermercado Kanban, ou seja, produção
por demanda enxuta, que permite se dizer
que nada deve ser produzido, transportado
2.2.1 KANBAN ou comprado antes da hora exata. Ex: compra
O sistema Kanban assegura que toda a do carro – encomenda à montadora –
produção seja reabastecida com método de produção (apenas peças necessárias).
gestão de pessoal pelos estoques, procura Colocando o fluxo da ordem de fabricação
revelar e reduzir pessoal e equipamentos em conforme figura 3 a seguir.
excesso, com isso promove a eliminação de

Figura 3- Reabastecimento de supermercado kanban

São estas:
2.3 AS SETE PERDAS DO SISTEMA LEAN  Falhas; Produção ou retrabalho ou
MANUFACTURING: retrabalho de produtos fora de
especificação.
Segundo Sohal; Egglestone (1994), perda é  Isto é percebido quando se tem uma
qualquer atividade que consome recursos célula com colaboradores que não
mas não cria nenhum valor para o produto e conseguem identificar as não
para o cliente. Elas têm grande impacto no conformidades do produto em
mapa de fluxo de valor por se tratar de processo, e aplica somente sua função
desperdícios, o que torna as operações (trabalho) neste, consequentemente
ineficazes. quando descobrem o defeito, este, já

Gestão da Produção em Foco - Volume 4


116

se devia ser refugado ou ate mesmo visualização desta, como natural,


retrabalhado no caso de um produto quando que para o sitema Lean,
com alto valor agregado. grande quantidade do tempo não
agregado esta relacionado
 Inventário; Excesso de produdo em
diretamente com a espera.
processo, matéria prima e bens
acabados.  Excesso de movimento; Movimentos
 Esta perda é muitas vezes mal perdidos feitos durante o trabalho.
interpretada pelos agentes de  Os movimentos de operários teem
mudança, motivo pelo qual, deve-se grande influência no que toca o
ter um treinamento eficiente para tal processamento das transformações de
entendimento, visto que podem ter materiais. Com isto, não simplesmente
razões positivas dependendo do se deve eliminar estes movimentos,
seguimento da empresa. mas sim, aperfeiçoar as operações de
forma que estes movimentos se tornem
 *Razões positivas de um inventário:
os mínimos possíveis.
Oportunidade de flexibilidade de
atendimento ao cliente, cobrir  Excesso de transporte; Excesso de
possíveis falhas dos equipamentos, movimento de trabalho em processo.
poder de barganha e economia nos  Tem grande influência no que toca o
transportes, atender a demanda em processamento dos transportes
determinada época, contribuir para internos de materiais.
redução do Lead time, cobrir
 Super processamento; Trabalho que
imprevistos como greve de operários e
não agrega valor para o cliente ou ao
desastres naturais.
negócio.
 *Razões negativas de um inventário:  Esta perda é conhecidamente a mais
Valor agregado do estoque, dinheiro difícíl de ser enxergada, muitas vezes
parado, espaço físico ocupado, filas a própria cultura operacional permite
no processo, retrabalho gerado pelo que esta aconteça. Desta forma, o
controle de estoque, custos de sistema Lean aplica o trabalho padrão.
manutenção ou a própria perda do
 De acordo com o Caterpillar
produto se tratando de perecíveis.
production sistem, uma oitava perda é
 *Tipos de inventários: Estoques no adotada como a principal.
canal (WIP), produto acabado ou semi-
 Criatividade e capacidade não
acabado, estoques para
utilizadas; Oportunidades perdidas
especulação,(manter o produto em
devido a pouca segurança e a uma
estoque ate que esteja em falta no
força de trabalho sibutilizada.
mercado), estoques de natureza
 Identificar esta perda é chamar
regular ou cíclica (usual) e estoques
esforços no que tange o treinamento
de segurança, além do usual.
dos operários, sendo assim, uma
 Super produção; Fornecimento oportunidade excelente de melhorar o
exessivo, além dos requisitos do PQVC ( produtividade, qualidade,
processo siguinte. velocidade e custo). Um operador
 Esta perda se relaciona com o trabalho necessita ter tempo de pensar as
não balanceado, ou seja, uma célula melhores formas de se fazer suas
não controlada começa a produzir funções, do contrário tabalha como
quantidades além das quantidades máquina.
ideais de produção, ou seja, além dos
requesitos seguintes.
 Espera; Tempo perdido devido ao
fraco fluxo de produto (faltas),
estrangulamentos e ou máquinas
paradas.
 Esta perda é um dos desperdícios
mais comuns nas pequenas, médias e
grandes indústrias, o grande problema
é que muitas empresas adotam a

Gestão da Produção em Foco - Volume 4


117

2.4 CALCULO TAKT TIME 1° Fornecer resposta rápida (dentro


do takt) para problemas.
De acordo com Womack; Jones (1996) o takt
time é o tempo em que se deve produzir uma 2° Eliminar as causas de paradas de
peça ou produto, baseado no ritmo das máquinas não planejadas.
vendas para atender a demanda dos clientes.
3° Eliminar tempos de troca em
É calculado dividindo se o volume da
processos posteriores, setups e
demanda do cliente (em unidades) por turno,
processos de montagem.
pelo tempo disponível de trabalho (em
segundos) por turno. O que se tenta realmente fazer na produção
enxuta, é obter um processo para fabricar
Resumidamente, pode se concluir que o takt
somente o que o próximo processo necessita
time sincroniza o ritmo da produção para
e quando necessita. As tentativas estão
acompanhar a velocidade das vendas
concentradas em ligar todos os processos
(ROTHER; SHOOK, 1999). É um número de
desde o consumidor final até a matéria prima
referência que dá uma noção do ritmo em que
em um fluxo regulador sem retornos que gera
cada processo precisa estar produzindo e
o menor lead time, mais alta qualidade e o
ajuda a enxergar como está o andamento
menor custo WOMACK; JONES, 1996). O takt
manufatureiro e o que precisa se melhorar.
time é uma ferramenta que regula e dá ao
Para Rother; Shook (1999), produzir de fluxo de valor sua definição conforme figura 4.
acordo com o takt parece simples, mas
requer um esforço concentrado para:

Figura 4- Calculo takt time

Fonte: Elaborado pelo autor

Em algumas indústrias, tais como as de


distribuição, produtos por encomenda e de
2.5 HUB EÓLICO
processo contínuo, pode ser necessária
alguma criatividade para definir as unidades Um hub eólico é a peça que conecta as três
de demanda dos clientes. Uma solução “hélices” ou “pás” que giram por força do
conforme afirmam Rothr; Shook (1999), é vento e movimentam geradores elétricos que
definir uma unidade como sendo quanto produzem energia. Na linha de produção ele
trabalho pode ser feito no seu processo é apelidado de “nariz da turbina”. Conforme
gargalo em um takt de, por exemplo 10 fotografias 1 e 2 a seguir:
minutos. Então divide se seus pedidos neste
intervalo takt.

Gestão da Produção em Foco - Volume 4


118

Fotografia 1- Naris da turbina

Foto 2- Hub eólico

As peças produzidas pela empresa Alfa neste 4. METODOLOGIA


estudo, são exatamente semelhantes aos Esta pesquisa é resultado de uma ação em
hubs apresentados pela foto 2. Ele é campo obtida através de um estagio
responsável por automatizar o movimento das supervisionado na àrea de melhoria contínua
pás eólicas para a melhor captação possível e aplicação da metodologia lean
de energia, advinda do vento. manufacturing. O estudo metodologico teve
como foco o mapeamento de fluxo de valor,
para alcançar resultados de eficiência
3. OBJETIVO operacional em processos produtivos de
Apresentar de uma forma ampla e sistêmica, usinagem e pintura de eólicos em uma
os princípios de gestão da produção enxuta empresa denominada Alfa neste artigo.
em um setor de usinagem e pintura de hubs
eólicos como base de sustenção para as
5. ESTUDO DE CASO
técnicas e ferramentas para acelerar os
processos, reduzir perdas e melhorar a Aplicando as ferramentas de produção enxuta
qualidade. e implementando soluções de produção
enxuta, inicialmente foram medidos os tempos
de ciclo e movimentação dos funcionários e

Gestão da Produção em Foco - Volume 4


119

da peça fundida a ser processada ao longo 5.1 ANÁLISE E INTERPRETAÇÃO DE DADOS


do fluxo de valor, para uma demanda semanal
Quanto menor o lead time de produção,
de quatro peças. Os inventários ao longo do
menor o tempo entre pagar pela matéria
processo também foram medidos e
prima e receber pelo acabado feito com estas
identificados juntamente com o lead time pelo
matérias. Mas para que se tenha um lead time
mapa do estado atual do processo, isto é,
enxuto é preciso que se faça a cronoanalise
uma peça tem um tempo total de produção de
do processo e suas operações ao longo da
3254 minutos. Através da implementação do
cadeia produtiva, um dos primeiros passos
sistema enxuto de produção, foi proposto um
para formatação do estado atual do mapa de
novo mapa do estado futuro onde foram
fluxo de valor. São destas analises e
instalados três supermercados para
investigações em campo que se formam os
balanceamento de linha e a eliminação das
primeiros takts da linha, inclusive onde se
inspeções dimensionais ao longo do processo
pode empenhar mais esforços de melhoria
produtivo resultando em uma redução do lead
devido a clareza em que se manifesta os
time para 2949 minutos com quatro dias de
valores não agregados dentro do processo
inventário.
conforme planilha 1 a seguir.

Planilha 1- Demonstrativo de ciclo time

O mapa completo do estado atual com as Neste caso, para o mapeamento do fluxo de
barras do lead time e dados sugere identificar valor, desiguina se duas etapas: O desenho
as áreas de superprodução, o esforço do estado atual. E posteriormente o desenho
necessário para criá-lo é um extremo do estado futuro, construindo uma cadeia de
“desperdício”, a menos que se use o mapa produção por meio de fluxo ou puxada. As
para rapidamente criar e implementar um - figuras 5 e 6 demonstram o estado atual e o
mapa do estado futuro- que elimine as fontes estado futuro em um processo de usinagem e
de desperdício e agregue valor ao produto e pintura de Hubs eólicos.
principalmente ao cliente, porque ele não
quer pagar por “fluxos gordurosos” cheios de
perdas por processos ineficazes.

Gestão da Produção em Foco - Volume 4


120

Figura 5- Mapa de fluxo de valor estado atual

Observa-se que esta fabrica não utiliza diariamente obedecendo é claro o FIFO, onde
nenhuma das ferramentas do sistema de a obtenção de um Milk Run é de extrema
produção enxuta, as informações de importância para o sustento da linha que foi
produção são soltas pelo PCP em todos os balanceada polo calculo Takt Time. Os três
setores de empresa, o que não permite um supermercados de hubs eólicos foram
controle eficiente das operações não montados antes da linha de produção, o que
balanceadas. Sua programação é semanal, e garante o reabastecimento da linha.
mesmo assim não permite um bom fluxo de Operações de valor não agregado como
materiais e informações. Enxerga se também, inspeção com alta capabilidade foram
células com gargalos e um Lead time de eliminadas, modificando as células de
3.254 minutos para cada remeça de produto processamento e eliminando o excesso de
pronto, com um inventário de seis dias. movimentação e transporte, tornado o PQVC
mais aplicável. Conseguindo portanto reduzir
Com a aplicação das ferramentas do sistema
o Lead time de 3.254 minutos para
de produção enxuta, nota-se a importância de
2.949minutos.
um processo de produção eficaz que permite
o avanço da “puxada” ( sistema pull). As
informações são buscadas no fim da linha,
sempre obedecendo aos cartões Kanban,
mesmo tendo uma previsão semanal as
informações para os processos ocorrem

Gestão da Produção em Foco - Volume 4


121

Figura 6- Mapa de fluxo de valor estado futuro

6. 1 APLICAÇÃO DE VALOR FINANCEIRO


6. RESULTADOS Os clientes estão comprando este produto na
razão de um a cada 62.100 segundos, isto é,
Analisando o mapa do estado futuro, foram um produto a cada 17 horas e 25 minutos.
eliminadas todas as inspeções visuais ao Mostrando este ganho em valor capital
longo do processo para melhor fluxo de podemos considerar que o custo operacional
produtos e serão realizadas nos para a transformação deste produto é
supermercados antes da operação de R$ 9.600,00 reais de usinagem e R$ 860,00
lavagem por um operador enquanto o produto reais de pintura por unidade de cada HUB.
estiver aguardando para entrar na próxima “Todos os custos relacionados a hora/homen,
operação, eliminando perdas ao longo do depreciação e manutenção foram levantados
fluxo de valor. Com a eliminação da operação apartir de dados da controladoria da empresa
de visual e traçagem podemos reduzir em Alfa neste artigo apresentada”.
10% do tempo total de ciclo, passando de um
ciclo de 3254 minutos para 2949 minutos. Tem se um custo operacional atual de
R$ 10.460,00 reais/peça.
Outra melhoria implementada foi à redução de
um turno de trabalho, o 3º turno aproveitando O tempo operacional atual é de 814 min/peça,
o tempo de disponibilidade do equipamento para uma redução de um tempo operacional
que não era utilizado totalmente de acordo futuro de 564 min/peça.
com o mapa do estado atual. O tempo takt A planta registra um custo operacional/minuto
time que sincroniza o ritmo da produção para neste setor de R$12,85 reais, chegando a um
acompanhar a velocidade das vendas foi custo operacional atual de R$10.460,00/peça.
dado:
Diminuindo para um custo operacional futuro
Tempo takt time = 248.400 seg./4 peças = de R$ 7.247,40 reais/peça. A redução de
62.100 segundos / peça. custo mensal foi de R$ 51.401,60 reais/mês,
representando no final de 12 meses um ganho
anual de R$ 616.819,20 reais conforme
planilha 2 a seguir.

Gestão da Produção em Foco - Volume 4


122

Planilha 2- Ganho financeiro na aplicação de VSM

7. CONSIDERAÇÕES FINAIS E CONCLUSÃO Desenvolver um fluxo enxuto de valor expõe


as fontes do desperdício em um processo de
Este trabalho procurou mostrar que a
usinagem e pintura de hubs eólicos. Acredita-
implementação dos conceitos do pensamento
se que todos engenheiros e colaboradores
enxuto e das ferramentas que nele se aplicam
têm um papel importante na implementação
pode ser realizada no processo de
do sistema de produção enxuta. Os principais
desenvolvimento de produtos. A pesquisa
benefícios após as mudanças no estado
permitiu verificar que a ferramenta de
futuro é um aumento de competitividade da
mapeamento do fluxo de valor é útil para ser
companhia e um melhor ambiente de
aplicada ao processo de fabricação e auxiliar
trabalho.
na identificação dos desperdícios.

REFERÊNCIAS [7]. MAKRIDAKIS, S.; WHEELWRIGHT, S.;


HYNDMAN, R.J. Forecasting Methods and
[1]. BAUCH, C. Lean Product Applications.. 3. ed. New York: John Wiley & Sons,
Development: Making waste transparent. Munich, 1998.
2004. 140 p. Tese (Doutorado) - Technical
University of Munich. [8]. MURMAN, E. M.; ALLEN, T.J, Et al. Lean
Enterprise Value: Insights from MIT’s Lean
[2]. EMERIM, T.; SIMÕES, W. A Combinação Aerospace Initiative, London: Palgrave, 2002.
de Esforços Entre Mapeamento de Fluxo de Valor e
A nálise de Valor: Um Caso na Indústria de [9]. PELLEGRINI, F.R.; FOGLIATTO, F. Estudo
Artefatos de Borracha Automotiva. XXXV Encontro comparativo entre modelos de Winters e de Box-
Nacional de Engenharia de Produção, Fortaleza, Jenkins para a previsão de demanda sazonal.
CE. ENEGEP, 2015. Revista Produto & Produção. Vol. 4, número
especial, p.72-85, 2000.
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Valor: Uma Abordagem de Melhoria Contínua em Enxergar. Lean Enterprise Institute do Brasil, 1998.
Uma Indústria Montadora de Computadores. XXXV
[11]. SHINGO, S. A Study of the Toyota
Encontro Nacional de Engenharia de Produção, Production System from an Industrial Engineering
Fortaleza, CE. ENEGEP, 2015.
Viewpoint. [S.l.]: Productivity Press, 1981.
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[12]. SOHAL, A. S.; EGGLESTONE, A. Lean
to envolve. A review of contemporany lean production: experience among australian
thinking. International Journal of Operations &
organizations. International Journal of Operations &
Production Management, v. 24, n. 10, p. 994-1011,
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1994.
[5]. LIKER K.J., O Modelo Toyota. Porto
[13]. WOMACK, J.P.; JONES, D. T. Lean
Alegre: Ed. Bookman, 2005.
Thinking: Banish Waste and Create Wealth in Your
[6]. MACHADO, M. C. Princípios enxutos no Corporation. Nova York: Simon & Schuster, 1996.
processo de desenvolvimento de produtos:
[14]. WOMACK, J.P.; JONES, D. T.; ROOS, D. A
proposta de uma metodologia para
máquina que mudou o mundo. Ed. Campus: Rio de
implementação. São Paulo, 2006. Tese (Doutorado) Janeiro, Brasil, 2004.
- Escola Politécnica da Universidade de São Paulo,
Departamento de Engenharia de Produção,
Universidade de São Paulo.

Gestão da Produção em Foco - Volume 4


123

CAPÍTULO 11

Vander Luiz Da Silva


Thamara Martim
Andressa Maria Corrêa
Camila Maria Uller
Rony Peterson da Rocha

Resumo: A previsão de demanda desempenha um importante papel nas


organizações, principalmente nas áreas de finanças, produção, recursos humanos
e vendas. No processo de previsão são utilizadas diversas técnicas, classificadas
em quantitativas (envolvem a análise numérica de dados históricos) e qualitativas
(privilegiam dados subjetivos e difíceis de serem representados numericamente). O
presente estudo teve como objetivos apresentar as principais técnicas quantitativas
de previsão de demanda, e analisar a aplicação de algumas dessas técnicas, em
um estabelecimento comercial localizado no município de Araruna/PR. Foram
analisados os dados históricos de faturamento, oriundos de registros trimestrais de
faturamento, correspondentes ao período de janeiro de 2011 a dezembro de 2013.
Em seguida, a partir da análise do comportamento desses dados, por meio da
plotagem de gráficos, pode-se identificar as técnicas que melhor se aplicam ao
estudo. Por fim, realizou-se um comparativo entre as técnicas utilizadas por meio da
análise do Desvio Médio Absoluto (MAD). Entre as técnicas de previsão, constatou-
se que a equação linear para tendência e o ajustamento exponencial para
tendência assumem melhor aplicabilidade no estudo, tendo em vista que os dados
reais de faturamento se caracterizam pelo crescimento gradual, com o decorrer dos
trimestres. Realizando um comparativo entre as duas técnicas aplicadas, por meio
da determinação do MAD, observou-se que o ajustamento exponencial para
tendência é a técnica mais indicada na previsão, pois assumiu menor índice de
erro.

Palavras chave: Planejamento da produção, Técnicas quantitativas, Ajustamento


exponencial para tendência.

Gestão da Produção em Foco - Volume 4


124

1. INTRODUÇÃO contribuindo com o planejamento adequado


de funções deste sistema.
Entre as áreas da Engenharia de Produção
(EP), estabelecidas pela Associação Brasileira O presente estudo teve como objetivos
de Engenharia de Produção (ABEPRO, 2008), apresentar as principais técnicas quantitativas
uma importante área é a Engenharia de de previsão de demanda, e analisar a
Operações e Processos da Produção. Essa aplicação de algumas dessas técnicas em um
área visa tratar de projetos, operações e estabelecimento comercial, localizado no
melhorias dos sistemas de produção, e município de Araruna/PR.
engloba diferentes subáreas, como o
O artigo está estruturado em cinco seções.
Planejamento e Controle da Produção (PCP).
Primeiramente a pesquisa é contextualizada e
O PCP é um departamento de apoio o seu objetivo é apresentado. Em seguida, a
responsável pela coordenação e aplicação previsão de demanda é conceituada e, as
dos recursos produtivos de forma a atender, etapas que compõem um modelo de previsão
da melhor maneira, os planos estabelecidos e as técnicas quantitativas de previsão de
em níveis estratégico, tático e operacional demanda são detalhadas. Na terceira e
(SANTOS; VICTOR; SILVA, 2010). quarta seção, respectivamente, apresentam-
se a metodologia e os resultados obtidos. Por
No nível estratégico são definidas as políticas
fim, encontram-se as considerações finais.
estratégicas da empresa, a longo prazo. Esse
planejamento consiste em estabelecer um
plano de produção, a partir das estimativas
2. PREVISÃO DE DEMANDA
de vendas e disponibilidade de recursos
produtivos (MELO; VILLAR; SEVERIANO, Uma previsão refere-se a um prognóstico de
2006). Por outro lado, no nível tático são eventos futuros, destinada principalmente aos
estabelecidos os planos de médio prazo para fins de planejamento (KRAJEWSKI; RITZMAN;
a produção, cujo PCP elabora o Plano Mestre MALHOTRA, 2009). Martins e Laugeni (2005)
de Produção (PMP). Já no nível operacional definem previsão de demanda como um
são preparados os programas produtivos a processo metodológico para determinação de
curto prazo, envolvendo a programação da dados futuros, envolvendo o emprego de
produção, gestão de estoques, modelos matemáticos, estatísticos ou
sequenciamento do processo e, emissão e subjetivos. Conforme esses autores, as
liberação de ordens de compras, fabricação e previsões podem ser de curto prazo (até 3
montagem (TUBINO, 2009). meses), médio prazo (até 2 anos) ou longo
prazo (acima de 2 anos).
No PCP, a previsão de demanda é utilizada
Vieira, Elias e Nunes (2010) relatam que o
em dois momentos distintos, no planejamento
conhecimento da demanda evita
de um sistema produtivo (as previsões são
consequências indesejáveis às empresas.
empregadas na elaboração do plano de
Para Lustosa et al. (2008), a complexidade da
produção, definindo que bens ou serviços
previsão pode ser significativamente notória,
oferecer ao mercado, de que instalações e
pois incertezas no mercado consumidor
equipamentos dispor e em que nível da
propaga-se a montante das cadeias de
atividade atuar), e no planejamento do uso de
suprimentos, ou seja, a partir do momento que
um sistema (as previsões são utilizadas no
um distribuidor observa mudanças nos
planejamento mestre e na programação da
pedidos de clientes, ocorre também
produção, definindo os planos de produção, a
modificações nos pedidos do fabricante
armazenagem e o sequenciamento das
(produtos acabados) e fornecedores (matéria-
atividades produtivas) (TUBINO, 2009).
prima e componentes).
Segundo Pellegrini e Fogliatto, (2001), a
previsão de demanda desempenha um
importante papel nas organizações, 2.1 ETAPAS DE UM MODELO DE PREVISÃO
principalmente em áreas de finanças,
A escolha de um modelo de previsão está
produção, recursos humanos e vendas, e
relacionada à disponibilidade de dados
auxilia no gerenciamento de processos
históricos, à disponibilidade de recursos
produtivos. Tubino (2009) considera a
computacionais, à experiência na aplicação
previsão de demanda uma variável
da técnica, à disponibilidade de tempo para
indispensável na definição de um sistema de
obtenção dos resultados e ao planejamento
produção, uma vez que possibilita aos
na previsão (FUSCO; SACOMANO, 2007). De
administradores uma melhor visão do futuro,

Gestão da Produção em Foco - Volume 4


125

acordo com Tubino (2009), um modelo de média móvel ponderada e a média


previsão é composto pelas seguintes etapas: exponencial móvel.
 Objetivo do modelo: é definido o
motivo pelo qual será realizada a
2.2.1.1.1 MÉDIA MÓVEL SIMPLES
previsão;
A técnica da média móvel simples considera
 Coleta e análise de dados:
o somatório de dados da demanda real de n
identificam-se as técnicas que melhor
períodos anteriores, como descreve a
se aplicam à previsão;
equação (1) (SLACK; CHAMBERS;
 Seleção da técnica da previsão: JOHNSTON, 2009). De acordo com Tubino
decide-se a técnica mais apropriada (2009), cada novo período de previsão
para o caso; substitui um dado mais antigo pelo mais
recente.
 Obtenção das previsões: obtêm-se as
projeções futuras;
∑𝑛𝑖=1 𝐷𝑖
 Monitoramento do modelo: monitora- 𝑀𝑚𝑠𝑛 = (1)
se a extensão do erro, a partir da 𝑛
relação entre demanda real e a
prevista
Onde: Mms.n: média móvel simples de n
. períodos; Di: demanda ocorrida no período i;
2.2 TÉCNICAS QUANTITATIVAS DE n: número de períodos; i: índice do período.
PREVISÃO
As técnicas quantitativas de previsão de 2.2.1.1.2 MÉDIA MÓVEL PONDERADA
demanda envolvem a análise numérica de
dados históricos, isentas de opiniões pessoais Diferentemente da média móvel simples que
(FUSCO; SACOMANO, 2007). Essas técnicas atribui um fator igual para cada componente
podem ser classificadas em dois grupos, da série de dados, a média móvel ponderada
previsões baseadas em séries temporais e permite que cada componente seja
previsões baseadas em correlações (TUBINO, multiplicado por um fator específico, tendo o
2009). somatório de todos os fatores igual a um
(MARK; NICHOLAS; RICHARD, 2001). A
previsão da média móvel ponderada é
2.2.1 PREVISÕES BASEADAS EM SÉRIES determinada por meio da equação (2).
TEMPORAIS
∑𝑛𝑖=1 𝐷𝑖 . 𝑊𝑖
Nessas previsões, a demanda futura será uma 𝑀𝑚𝑝𝑛 = (2)
𝑛
projeção dos valores passados, não sofrendo
influência de outras variáveis. Por meio de Onde: Mmp.n: média móvel ponderada de n
gráficos da demanda, a curva temporal pode períodos; Di: demanda ocorrida no período i;
conter tendência (movimento gradual de n: número de períodos; i: índice do período; e
longo prazo), sazonalidade (variações cíclicas Wi: fator atribuído ao período i.
de curto prazo, relacionadas ao fator tempo),
variações irregulares (são alterações na
demanda, oriundas de fatores externos) ou 2.2.1.1.3 MÉDIA EXPONENCIAL MÓVEL
variações randômicas (consistem nas
Nesta técnica, a última previsão é
oscilações aleatórias da demanda) (TUBINO,
determinada com base na previsão anterior,
2009). Tais previsões envolvem técnicas para
incluindo o acréscimo do erro acometido e
previsão da média, tendência ou
sazonalidade. devidamente corrigido por um coeficiente de
ponderação ( ) (TUBINO, 2009). De acordo
com Mark, Nicholas e Richard (2001) este
método é amplamente utilizado para pedidos
2.2.1.1 TÉCNICAS PARA PREVISÃO DA
de inventário nas empresas de varejo, nas
MÉDIA
companhias atacadistas e outras operações
Entre as técnicas para previsão da média, de serviços. O mesmo é expresso pela
apresentam-se a média móvel simples, a equação (3).

Gestão da Produção em Foco - Volume 4


126

2.2.1.2.2 AJUSTAMENTO EXPONENCIAL


PARA TENDÊNCIA
𝑀𝑡 = 𝑀𝑡−1 + 𝛼(𝐷𝑡−1 − 𝑀𝑡−1 ) (3)
O ajustamento exponencial para tendência ou
duplo ajustamento é utilizado quando os
Onde: Mt: previsão para o período t; Mt-1: dados apresentam uma tendência (MARTINS;
previsão para o período t-1; α: coeficiente de LAUGENI, 2005), e consiste em realizar a
ponderação; Dt-1: demanda do período t-1. previsão com base em dois fatores, a
previsão da média exponencial móvel da
Segundo Tubino (2009), o coeficiente de demanda e a estimativa exponencial da
ponderação (𝛼) pode variar de 0 a 1, em que, tendência, como apresenta a equação (7)
quanto maior for o seu valor, mais (TUBINO, 2009).
rapidamente o modelo de previsão reagirá a
uma oscilação real da demanda.
𝑃𝑡+1 = 𝑀𝑡 + 𝑇𝑡 (7)

2.2.1.2 TÉCNICAS PARA PREVISÃO DA Sendo que 𝑀𝑡 e 𝑇𝑡 são obtidos pelas


TENDÊNCIA equações (8) e (9), respectivamente.
A tendência refere-se ao movimento gradual
de longo prazo da demanda (TUBINO, 2009). 𝑀𝑡 = 𝑃𝑡 + 𝛼1 (𝐷𝑡 − 𝑃𝑡 ) (8)
Entre as técnicas para previsão da tendência,
apresentam-se a equação linear para 𝑇𝑡 = 𝑇𝑡−1 + 𝛼2 ((𝑃𝑡 − 𝑃𝑡−1 ) − 𝑇𝑡−1 ) (9)
tendência e o ajustamento exponencial para
tendência.
Onde: Pt+1: previsão da demanda para o
período t+1; Pt: previsão da demanda para o
2.2.1.2.1 EQUAÇÃO LINEAR PARA período t; Pt-1: previsão da demanda para o
TENDÊNCIA período t-1; Mt: previsão média exponencial
“A análise de regressão linear é utilizada para móvel da demanda para o período t; Tt:
definir um relacionamento funcional entre previsão da tendência para o período t; Tt-1:
duas ou mais variáveis correlacionadas” previsão da tendência para o período t-1; α1:
(MARK; NICHOLAS; RICHARD, 2001, p. 228). coeficiente de ponderação da média; α2:
A equação linear para tendência é expressa coeficiente de ponderação da tendência; Dt:
pela equação (4). demanda do período t.

𝑌 = 𝑎 + 𝑏𝑋 (4) 2.2.1.3 TÉCNICAS PARA PREVISÃO DA


SAZONALIDADE
Empregando os dados históricos da “A sazonalidade caracteriza-se pela
demanda, os coeficientes 𝑎 e 𝑏 podem ser ocorrência de variações, para cima e para
obtidos por meio das equações (5) e (6), baixo em intervalos regulares nas séries
respectivamente. temporais da demanda” (TUBINO, 2009, p.
26). Entre as técnicas para previsão da
sazonalidade, apresenta-se a sazonalidade
simples.
(∑ 𝑌) − 𝑏(∑ 𝑋)
𝑎= (5)
𝑛
2.2.1.3.1 SAZONALIDADE SIMPLES
𝑛(∑ 𝑋𝑌) − (∑ 𝑋). (∑ 𝑌)
𝑏= (6) Segundo Tubino (2009), a sazonalidade
𝑛(∑ 𝑋 2 ) − (∑ 𝑋)^2
simples consiste na obtenção de um índice de
sazonalidade para cada um dos períodos da
série, a partir da divisão do valor da demanda
Onde: Y: previsão de demanda para o no período pela média centralizada. Em
período X; a: ordenada à origem; b: seguida, aplica-se o índice obtido sobre a
coeficiente angular; X: período para previsão da média em cada período.
previsão; n: número de períodos.

Gestão da Produção em Foco - Volume 4


127

2.2.2 PREVISÕES BASEADAS EM 3. METODOLOGIA


CORRELAÇÃO
O método de abordagem utilizado no
Essas previsões se propõem a prever a levantamento de técnicas de previsão foi o
demanda de um determinado produto com qualitativo, enquanto que na aplicação das
base na previsão de outra variável que esteja técnicas, o quantitativo. A pesquisa classifica-
de certa forma relacionada ao mesmo produto se, quanto aos fins, como descritiva e
(TUBINO, 2009). O estudo da correlação explicativa, e quanto aos meios, como
permite que seja analisada a relação existente bibliográfica, documental e estudo de caso.
entre uma variável dependente e uma ou mais
Para realização do estudo foram analisados
variáveis independentes (LUSTOSA et al.,
os dados de faturamento, oriundos de
2008), isto, por meio do coeficiente de
registros trimestrais de um estabelecimento
correlação (r) que é determinado pela
comercial, correspondentes ao período de
equação 10.
janeiro de 2011 a dezembro de 2013.
Em seguida identificaram-se as técnicas de
𝑟
previsão de demanda que melhor se aplicam
𝑛(∑ 𝑋𝑌) − (∑ 𝑋) ∗ (∑ 𝑌)
= (10) ao estudo, a partir da análise do
√𝑛(∑ 𝑋 2 ) − (∑ 𝑋)^2 − √𝑛(∑ 𝑌 2 ) − (∑ 𝑌)^2 comportamento dos dados reais de
faturamento. Por meio das equações (5) e (6),
aplicadas na equação (4) foram determinados
Onde: r: coeficiente de correlação. os valores de faturamento previsto pela
técnica da equação linear para tendência. Já
Segundo Martins e Laugeni (2006) um
por meio das equações (8) e (9), aplicadas na
coeficiente de correlação pode ser positivo
equação (7), obteve-se os valores de previsão
(indica uma reta ascedente) ou negativo
pela técnica de ajustamento exponencial para
(indica uma reta descendente), variando no
tendência.
intervalo de +1 a -1. Para Tubino (2009), se o
coeficiente encontrado estiver próximo de Por fim, realizou-se um comparativo entre as
zero, conclui-se que não existe correlação técnicas utilizadas, a partir da relação entre o
entre as variáveis analisadas. faturamento real e o previsto, e a análise do
MAD. Os resultados obtidos são discutidos na
2.3 ANÁLISE DO ERRO DA PREVISÃO
próxima seção do artigo.
O Desvio Médio Absoluto (MAD) é utilizado
para descrever o grau de erro admitido na
previsão de demanda (MARK; NICHOLAS; 4. RESULTADOS E DISCUSSÃO
RICHARD, 2001). O MAD é determinado pela
O estudo foi realizado em um estabelecimento
diferença entre a demanda real e a prevista,
comercial (mercado) localizado no estado do
em um dado período, como apresenta a
Paraná. O mesmo possui cerca de 10
equação (11) (TUBINO, 2009).
funcionários, distribuídos entre as atividades
de atendimento aos clientes, manutenção e
∑ | Dreal − Dprevista | gerenciamento de estoques, e processos
𝑀𝐴𝐷 = (11)
𝑛 administrativos. A Tabela 1 apresenta o
faturamento do estabelecimento, em cada
trimestre, ao longo de três anos.

Tabela 1 – Faturamento real do estabelecimento, por trimestre, de janeiro de 2011 a dezembro de


2013
Faturamento (R$)
1º 2º 3º
Ano 4º Trimestre
Trimestre Trimestre Trimestre
2011 59.660,00 75.900,00 62.800,00 64.800,00
2012 66.000,00 69.000,00 71.000,00 75.000,00
2013 78.650,00 81.660,00 90.900,00 93.000,00
Fonte: Dados cedidos pelo estabelecimento (2014)

Gestão da Produção em Foco - Volume 4


128

Com o intuito de identificar as técnicas técnicas para previsão da sazonalidade),


quantitativas de previsão mais apropriadas à esboçou-se um gráfico de linhas, utilizando os
situação (técnicas para previsão da média, dados descritos na Tabela 1, como apresenta
técnicas para previsão da tendência ou a Figura 1.

Figura 1 – Faturamento real do estabelecimento, por trimestre

R$
Faturamento real (2011 - 2013)
100.000,00
y = 2559,5x + 57394
80.000,00

60.000,00
Faturamento
40.000,00

20.000,00

0,00
1 2 3 4 1 2 3 4 1 2 3 4 Trimestre

Fonte: Elaborado pelos autores (2014), a partir de dados cedidos pelo estabelecimento

Nota-se que apesar dos dados serem produtos, ou ao aumento de clientes e


distintos, a linha de tendência assume consequentemente de quantidades vendidas,
crescimento gradual no decorrer de cada portanto, para se identificar o motivo do
trimestre. Sendo assim, as técnicas para aumento no faturamento pode ser realizado
previsão de tendência são as mais indicadas um estudo posterior.
para a análise, sendo elas a equação linear
Na previsão do faturamento, por trimestre,
para tendência e o ajustamento exponencial
considerando as técnicas de equação linear
para tendência.
para tendência e ajustamento exponecial para
Este aumento no faturamento pode ter tendência foram obtidas diferentes projeções,
ocorrido devido aos aumentos nos custos dos como apresenta a Tabela 2.

Tabela 2 – Previsão de faturamento para os próximos trimestre, utilizando as técnicas equação linear
para tendência e ajustamento exponencial para tendência
Faturamento previsto
Faturamento Ajustamento
Trimestre/Ano Equação linear para
real exponencial para
tendência
tendência
1/2011 59.660,00 - -
2/2011 75.900,00 - -
3/2011 62.800,00 64.370,00 65.072,67
4/2011 64.800,00 66.327,00 67.632,14
1/2012 66.000,00 67.598,40 70.191,62
2/2012 69.000,00 70.428,81 72.751,10
3/2012 71.000,00 72.497,84 75.310,57
4/2012 75.000,00 76.299,03 77.870,05
1/2013 78.650,00 79.939,12 80.429,52
2/2013 81.660,00 82.988,62 82.989,00
3/2013 90.900,00 91.592,36 85.548,47
4/2013 93.000,00 94.263,62 88.107,95

Gestão da Produção em Foco - Volume 4


129

Visando facilitar a análise dos resultados, de equação linear para tendência e


associaram-se os dados de faturamento real ajustamento exponencial para tendência
com os dados de faturamento previsto, em (Figura 2).
cada trimestre, obtidos por meio das técnicas

Figura 2 – Comparativo entre o faturamento real e o previsto pelas técnicas de equação linear para
tendência e ajustamento exponencial para tendência, por trimestre, ao longo de três anos

R$ Faturamento real e previsto


100.000,00
95.000,00
90.000,00
85.000,00
80.000,00
75.000,00 Faturamento real
70.000,00
65.000,00 Previsão pelo ajustamento
exponencial para tendência
60.000,00
Previsão pela equação linear
55.000,00 para tendência
50.000,00
1 2 3 4 1 2 3 4 1 2 3 4 Trimestre/ano
2011 2012 2013

É notório que o faturamento previsto pela resultados e a identificação da técnica mais


técnica de ajustamento exponencial para adequada ao estudo, foram determinados os
tendência apresenta melhor precisão, se erros acometidos na previsão e analisado o
comparado com a equação linear para Desvio Médio Absoluto (MAD) (Tabela 3).
tendência, contudo, visando a validação dos

Tabela 3 – Desvio absoluto médio (MAD) acometido em cada técnica de previsão

Técnica quantitativa MAD

Ajustamento exponencial para tendência 1.349,48

Equação linear para tendência 1.309,31

Por meio dos valores do MAD expostos na 5. CONSIDERAÇÕES FINAIS


Tabela 3, podemos observar que a equação
Muitas são as técnicas destinadas à previsão
linear para tendência aponta um erro menor
de demanda, no estudo, as aplicadas
do que a técnica de ajustamento exponencial
correspondem a equação linear para
para tendência. Portanto a técnica que mais
tendência e o ajustamento exponencial para
se adequa aos dados e que deve ser
tendência, pois, apresentaram melhor
considerada como melhor previsão deve ser a
aplicabilidade.
técnica de equação linear para tendência.
Tendo em vista que as técnicas utilizadas
demonstram valores aceitáveis de erro, se
comparado aos dados reais de faturamento,
as mesmas podem ser empregadas para

Gestão da Produção em Foco - Volume 4


130

previsões, permitindo que o proprietário do Os resultados obtidos foram satisfatórios e a


estabelecimento comercial adote medidas analise da aplicação de técnicas de previsão
preventivas, caso haja queda no faturamento, demonstrou que a técnica de ajustamento
ou, medidas estratégicas, a fim de manter o exponencial para tendência, e equação linear
faturamento em constante crescimento, isto para tendência são ideais às situações cujos
por meio da melhor gestão de estoques, por dados históricos se caracterizam pelo
exemplo, uma vez que o elevado nível de crescimento gradual, em um período de
estoques implica em maiores custos de tempo.
manutenção e, consequentemente, exerce
Ressalta-se que outros estudos podem ser
influencia sobre o faturamento.
realizados no estabelecimento comercial,
Com a análise comparativa entre as duas utilizando tais técnicas, como a previsão de
técnicas empregadas em previsões, merece demanda de certo produto que exige maiores
destaque a de ajustamento exponencial para investimentos, por parte do proprietário.
tendência, pois proporcionou resultados mais
próximos do faturamento real, admitindo-se
menores índices de erro.

REFERÊNCIAS PRODUÇÃO, 13., 2006, Bauru. Anais ... Bauru:


2006.
[1]. ABEPRO - Associação Brasileira de
Engenharia de Produção. Áreas e subáreas de [8]. PELLEGRINI, F. R.; FOGLIATTO, F. S.
Engenharia de Produção, 2008. Disponível em: Passos para implantação de sistemas de previsão
<http://www.abepro.org.br/>. Acesso em: 15 ago. de demanda: Técnicas e estudo de caso. Revista
2015. Produção, Rio de janeiro, v. 11, n. 1, p. 43-64,
2001.
[2]. FUSCO, J. P. A.; SACOMANO, J. B.
Operações e gestão estratégica da produção.São [9]. SANTOS, J. G.; VICTOR, D. L.; SILVA, S.
Paulo: Arte e Ciência, 2007. S. F. Planejamento e controle da produção: um
estudo de caso em uma indústria de calçados de
[3]. KRAJEWSKI, L. J. RITZMAN, L. P.; Campina Grande. In: ENCONTRO NACIONAL DE
MALHOTRA, M. K. Administração de operação e ENGENHARIA DE PRODUÇÃO (ENEGEP), 20.,
produção. 8., ed. São Paulo: Pearson Prentice Hall, 2010. São Paulo. Anais... São Paulo: ABEPRO,
2009. 2010.
[4]. LUSTOSA, L.;MESQUITA, M. [10]. SLACK, N.; CHAMBERS, S.; JOHNSTON,
A.;QUELHAS, O.;OLIVEIRA, R. Planejamento e R. Administração da produção. 3., ed. São Paulo:
controle da produção. Rio de Janeiro: Elsevier, Atlas, 2009.
2008.
[11]. TUBINO, D. F. Planejamento e controle da
[5]. MARK, M. D.; NICHOLAS, J. A.; RICHARD, produção: teoria e prática. 2., ed. São Paulo: Atlas,
B. C. Fundamentos da administração da produção. 2009.
3., ed. Porto Alegre: Bookman Editora, 2001.
[12]. VIEIRA, B. M.; ELIAS, S. J. B.; NUNES, F.
[6]. MARTINS, P. G.; LAUGENI, F. P. R. M. Previsão de demandas em uma confecção
Administração da produção. 2., ed. São Paulo: de roupa íntima feminina: estudo de caso. In:
Saraiva, 2005. SIMPÓSIO DE ADMINISTRAÇÃO DA PRODUÇÃO,
[7]. MELO. J. F. M.; VILLAR. A. M.; SEVERINO LOGISTICA E OPERAÇÕES INTERNACIONAIS
FILHO. C. O posicionamento do Planejamento e (SIMPOI), 13., 2010, São Paulo. Anais... São Paulo:
Controle da Produção – PCP em uma indústria 2010.
alimentícia. In: SIMPÓSIO DE ENGENHARIA DE

Gestão da Produção em Foco - Volume 4


131

CAPÍTULO 12

Cláudia Virgínia M. de Freitas

Resumo: Este trabalho teve como objetivo apresentar as iniciativas existentes


referentes à elaboração de inventários de gases de efeito estufa (GEE), em nível
internacional e nacional (Brasil). Tais inventários são fundamentais para que as
organizações conheçam suas emissões, busquem alternativas para sua redução e,
desta forma, contribuam para que o país atinja suas metas de redução de gás de
efeito estufa. Os inventários estão previstos na Convenção do Clima da ONU, a
UNFCCC, sendo que seu relato é obrigatório aos países desenvolvidos signatários
da referida Convenção. Foram consideradas as iniciativas internacionais tanto no
âmbito da UNFCCC como outros programas reconhecidos e utilizados pelas
corporações. Para o nível nacional foi analisada a regulamentação que menciona o
assunto, a política nacional sobre mudança do clima (PNMC), bem como iniciativas
voluntárias, como o Programa Brasileiro GHG Protocol. A metodologia utilizada foi
avaliação dos principais documentos disponíveis nos sites da Convenção do Clima
e dos programas analisados, além da legislação brasileira sobre o tema.

Palavra chave: gases de efeito estufa, inventário, mudanças do clima.

Gestão da Produção em Foco - Volume 4


132

iniciativas para diminuir o aquecimento global


foram consideradas aquém do esperado pela
1. INTRODUÇÃO
Convenção do Clima.
A partir da revolução industrial tem ocorrido
As negociações foram evoluindo visando,
diversas ações antrópicas na Terra. Algumas
principalmente, atender ao estabelecido na
destas ações levaram às alterações
CoP15, no Acordo de Copenhague: todos os
climáticas, que podem acarretar o
países, inclusive os em desenvolvimento,
aquecimento global. Desde o final do século
devem atender ao objetivo de se limitar o
passado tem ocorrido debates sobre esta
aumento de temperatura da superfície da
preocupação já que esta está diretamente
terra em 2°C até o ano de 2100. Para tanto as
relacionada à deterioração do meio ambiente,
partes iriam apresentar, até a CoP21, em
principalmente devido aos incêndios
2015, suas metas de redução de emissões de
florestais, queima de combustíveis fósseis e
gases de efeito estufa, também conhecidas
atividades industriais. Estes eventos geram
como contribuições nacionalmente
emissão de gases de efeito estufa (GEE).
determinadas (NDC, sigla em inglês para
Estes gases têm a propriedade de dificultar a nationally determined contributions). Esta
saída da radiação solar para a atmosfera. decisão foi oficializada no Acordo de Paris.
Para tratar deste tema tão importante e Para atender suas metas é necessário que os
estudar formas de reduzir o potencial de países conheçam e contabilizem suas
aquecimento global foi estabelecida a emissões. Daí a importância dos inventários
Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre de emissões dos gases de efeito estufa. Este
Mudança do Clima, também conhecida pela artigo apresenta um breve histórico sobre o
sigla em inglês UNFCCC para United Nations tema e como o Brasil está tratando deste
Framework Convention on Climate Change ou assunto.
Convenção do Clima. Esta convenção foi
aberta para assinaturas em 1992 durante a
Conferência das Nações Unidas sobre Meio 2. REFERENCIAL TEÓRICO
Ambiente e Desenvolvimento, a Rio-92.
A Convenção do Clima, define aquecimento
Por ser uma convenção internacional, os global como o aumento gradual e progressivo
diversos países têm um tempo para aderir, da temperatura da superfície da terra, devido
assim a referida convenção entrou em vigor principalmente ao efeito estufa, o grande
em 21/03/1994. Atualmente a adesão é responsável por mudanças nos padrões
considerada “universal”, pois 197 países a climáticos globais. De acordo com o Painel
ratificaram. Os países membros também são Internacional de Mudanças Climáticas (IPCC,
chamados de Partes. Anualmente a da sigla em inglês para Intergovernmental
convenção realiza reuniões de negociações, Panel on Climate Change), as alterações no
as Conferências das Partes (CoP, da sigla em clima ocorrem por diversos motivos. A
inglês para Conference of the Parties). O intensidade de variação de temperatura
Brasil é uma das Partes, tendo assinado sua verificada nos últimos anos é decorrência da
adesão durante a Rio-92. atividade humana, principalmente pelo
lançamento dos gases de efeito estufa na
Até o ano de 2016 foram realizadas 22
atmosfera.
conferências. Em cada encontro são
decididos e publicados acordos Os principais responsáveis pelo aquecimento
internacionais e compromissos acordados global e, portanto, pelas alterações no clima,
entre as partes. são as emissões dos gases de efeito estufa.
O Protocolo de Quioto, firmado na CoP3 Efeito estufa (UNFCCC) é a captura e
ocorrida em 1997 no Japão é considerado um acúmulo de calor na atmosfera (troposfera)
dos acordos mais relevantes sobre o tema. próximo da superfície da terra. Parte do calor
Seu enfoque abrange os compromissos para volta para o espaço e é absorvido pelo vapor
a redução dos gases de efeito estufa e a de água, dióxido de carbono, ozônio e outros
forma de relatar esta redução. Na ocasião gases na atmosfera e é lançado de volta para
somente os países desenvolvidos tinham a superfície terrestre. O aumento das
responsabilidades de reduzir e relatar suas concentrações atmosféricas desses gases de
reduções. A partir daí foram realizadas efeito estufa eleva a temperatura média da
diversas iniciativas de redução, porém, como atmosfera de forma gradual.
alguns países desenvolvidos não aderiram, as

Gestão da Produção em Foco - Volume 4


133

Gases de efeito estufa (GEE) são definidos especial, os referentes a inventários de


como os constituintes gasosos da atmosfera, emissão de gases de efeito estufa, além da
naturais e antrópicos, que absorvem e legislação nacional sobre este mesmo tema.
reemitem radiação infravermelha.
A partir do material analisado é apresentado
Para se contabilizar o quanto estão lançando um breve histórico sobre as decisões das
à atmosfera, os países desenvolveram conferências das partes que trataram do
inventários de emissões de gases de efeito relato de emissões de GEE e como o Brasil
estufa. vem atuando para organizar os dados sobre
este assunto.
Além de ser um debate recorrente nas
negociações nas conferências anuais sobre
mudanças do clima, os inventários de
4. DISCUSSÃO E RESULTADOS
emissão de GEE estão previstos em diversas
iniciativas, tanto regulatórias como voluntárias. Com o Acordo de Paris, os países signatários
o da Convenção do Clima se comprometeram a
O Brasil promulgou a Lei n 12.187 em
estabelecer metas de redução de emissões
29/12/2009, que institui a política nacional
de GEE, também conhecidas pela sigla NDC,
sobre mudança do clima (PNMC). Seu artigo
contribuições nacionalmente determinadas
6º estabelece os instrumentos da PNMC e,
(do inglês nationally determined contribution).
entre estes, estão os inventários de emissões
Assim, todos os países, desenvolvidos e em
de GEE (alínea XIII).
desenvolvimento, devem implementar e
O Decreto no 7.390, de 09/12/2010 propor medidas e ações para atingir suas
regulamenta artigos da lei que instituiu a metas.
PNMC e prevê a publicação das “Estimativas
Foi considerado o princípio das
anuais de emissões de gases de efeito estufa
responsabilidades comuns porém
no Brasil”. Estas são organizadas pelo
diferenciadas, já previsto no Protocolo de
Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e
Quioto, que é a distinção entre países mais e
Comunicações – MCTIC.
menos desenvolvidos. Segundo Granziera e
Quanto às iniciativas voluntárias, tem-se o Rei (2015) este princípio é um dos pilares
Programa Brasileiro GHG Protocol, no qual as centrais do regime climático internacional,
instituições informam anualmente suas pois confere três importantes critérios, a
emissões baseadas em um modelo de saber: (1) a responsabilidade, requer que os
inventário. países mais emissores assumam a liderança
no combate ao aquecimento global; (2) a
Em setembro de 2015 o governo brasileiro
capacidade, os esforços devem ser
anunciou sua contribuição para o acordo
proporcionais às condições internas de cada
global do clima (REPÚBLICA FEDERATIVA
país, como riqueza e estabilidades econômica
DO BRASIL... 2015). O Brasil se comprometeu
e política; e (3) a necessidade, na qual deve
a assumir uma meta absoluta de redução de
ser respeitado o direito ao desenvolvimento.
37% das emissões de gases causadores do
efeito estufa até 2025, com base no ano de As partes devem submeter periodicamente
2005. Para atingir esta meta é fundamental ter relatórios sobre o cumprimento das metas. O
o conhecimento e registro das emissões de objetivo de longo prazo é aumentar a
gases de efeito estufa produzidas no país. capacidade de adaptação à economia de
baixo carbono e manter o estabelecido na
Conferência de Copenhague (CoP15), ou
3. METODOLOGIA seja, estabilizar a temperatura da terra abaixo
de 2oC até o final deste século.
Trata-se de pesquisa básica, qualitativa e de
caráter exploratório. Este trabalho baseia-se Para tanto, será necessário implementar
na análise crítica de documentação referente procedimentos de monitoramento, relato e
às convenções do clima cujos resultados são verificação (MRV), planos de adaptação,
publicados em seu site (www.unfccc.int) e às mecanismos de mercado de emissões e
iniciativas de elaboração e publicação de apoio financeiro. Os inventários de emissão
inventários de emissões de gases de efeito de gases de efeito estufa são a base para o
estufa. relato e monitoramento. A partir dos
inventários e de sua verificação por uma
Também foram consultados artigos científicos
terceira parte, para validar os dados, será
referentes às mudanças do clima e, em

Gestão da Produção em Foco - Volume 4


134

possível conhecer e atuar para a redução de calculadas em conformidade com seus


emissões de GEE. compromissos quantificados de limitação e
redução (Protocolo de Quioto artigo 3). No
Segundo Santos (2016)
artigo 7 está previsto o inventário anual de
o passo inicial para adoção de uma estratégia emissões de GEE e no artigo 10 (a) a
de redução de emissões de GEE deve ser necessidade de programas nacionais e
dado na direção de investir em métodos pelos regionais, quando for o caso, para melhorar a
quais se conheça o nível de emissões. Devem contabilização e utilização de metodologias
ser identificadas oportunidades de redução e comparáveis.
as instituições devem se preparar para o
Na CoP7, realizada no ano de 2001 em
cumprimento de regulamentações que
Marraquexe, foram definidas regras para
determinam a restrição de emissões. Esses
elaboração de inventário nacional de
regulamentos, acordos, como o assinado na
emissões. Já na CoP14, que ocorreu na
COP-21, podem fazer as expectativas se
cidade de Poznan, na Polônia, em 2008, os
tornarem realidade.
países em desenvolvimento Brasil, África do
Ainda segundo Santos (2016), as Sul, Índia e China formalizaram seu interesse
organizações estão se estruturando e se em assumir compromissos de redução das
mobilizando para atender a nova economia de emissões. Neste sentido o Brasil, em 2009
baixo carbono, estando mais preocupadas promulgou sua política nacional sobre
com a medição, monitoramento, relato e mudança do clima, que será comentada no
avaliação das suas emissões de GEE. Por próximo item deste artigo.
este motivo a decisão de mensurar as
Na CoP15, em Copenhague no ano de 2009,
emissões de GEE configura-se uma tendência
foi ratificado o compromisso de se limitar o
mundial. Em âmbito internacional, percebe-se
aumento de temperatura média global da
que cresce o número de organizações que
superfície terrestre em 2°C em relação aos
adotam ações de redução de emissões de
níveis pré-industriais. Também nesta
GEE e empreendem esforços para evidenciar
conferência deu-se a motivação para que
essas ações aos seus stakeholders, pela
cada país definisse e adotasse metas de
quantificação dos dados e relato por meio dos
redução de emissão de gases de efeito estufa
inventários de GEE.
(NDC).
O Brasil já conta com algumas iniciativas
Os inventários de emissão de gases de efeito
voluntárias de contabilização. Este artigo
estufa têm um papel fundamental na medição
apresenta um breve histórico sobre os
e estudos comparação das NDCS.
inventários e como o Brasil está tratando do
assunto. De acordo com os artigos 4 e 12 da
convenção do clima, os países signatários
devem submeter seus inventários nacionais
4.1 BREVE HISTÓRICO DOS INVENTÁRIOS de emissões de gases de efeito estufa. estes
DE GASES DE EFEITO ESTUFA são feitos de acordo com as diretrizes da
unfccc para relato de inventários.
A forma de monitorar, verificar e relatar,
também conhecida pela sigla MRV, é tema Os países desenvolvidos (anexo I) devem
recorrente nas Conferências das Partes. A enviar seus dados anualmente e os países em
seguir apresenta-se um sumário das CoPs desenvolvimento (não anexo I) encaminhar as
que trataram mais detalhadamente deste comunicações nacionais. as comunicações
assunto. nacionais são instrumentos requeridos pela
convenção que incluem a divulgação de
Na CoP3 foi firmado o protocolo de Quioto,
diversas iniciativas no combate ao
que prevê que os países desenvolvidos
aquecimento global.
(relacionados no Anexo I da Convenção do
Clima) devem assegurar que suas emissões As informações relatadas e submetidas à
gases de efeito estufa, expressas em dióxido unfccc contêm estimativas das emissões dos
de carbono equivalente (vide Apêndice A) gases de efeito estufa.
não excedam suas quantidades atribuídas,

Gestão da Produção em Foco - Volume 4


135

Quadro 1: Gases de efeito estufa e suas principais fontes de emissão.


GEE
Principais fontes de emissão
Nome Fórmula
Uso de combustíveis fósseis, deflorestamento e
Dióxido de carbono CO2
alteração dos usos do solo.
Produção e consumo de energia, incluindo
Metano CH4 biomassa, atividades agrícolas, aterros sanitários e
águas residuais.
Uso de fertilizantes, produção de ácidos e queima
Óxido nitroso N2O
de biomassa e de combustíveis fósseis.
Indústria, refrigeração, aerossóis, propulsores,
Hexafluoreto de enxofre SF6
espumas expandidas e solventes.
Indústria, refrigeração, aerossóis, propulsores,
Hidrofluorcarbonos HFCs
espumas expandidas e solventes.
Indústria, refrigeração, aerossóis, propulsores,
Perfluorcarbonos PFCs
espumas expandidas e solventes.
Trifluoreto de nitrogênio NF3 Indústria de semicondutores e fotovoltaica.
Fonte: Adaptado de Albuquerque (2012)

A UNFCCC publica periodicamente relatórios A tabela 1 apresenta um resumo das


com as emissões de GEE separadas por emissões no período para os países
países Anexo I e não Anexo I. O ano-base é desenvolvidos (Anexo I).
1990 e a versão mais recente disponível no
site da Convenção apresenta os dados até o
ano de 2015.

Tabela 1- Quantidade de emissões de GEE para países desenvolvidos (em ktCO2e)

Emissões de GEE 1990 2000 2015

Sem considerar o setor de mudança do uso da


18.161.341,9 17.166.702,3 16.170.987,4
terra e floresta

Considerando o setor mudança do uso da terra


17.089.145,1 15.561.251,0 14.414.479,7
e floresta
Fonte: Adaptado de UNFCCC – National greenhouse gas inventory data for the period 1990–2015

Percebe-se que já está havendo uma de 153 países, entre estes os que mais
tendência de redução de emissões no emitem, China, Índia e Brasil.
decorrer dos anos. A partir da década de
Estes são considerados grandes emissores
1990 começaram a ser estudadas e
devido à quantidade emitida e também
implantadas ações para o combate ao
devido à participação no mecanismo de
aquecimento global e os números da tabela
desenvolvimento limpo (MDL) do Protocolo de
acima apontam para uma continuidade na
Quioto. Trata-se de um mecanismo de
diminuição de geração de gases de efeito
negociação de emissões de GEE, no qual os
estufa.
países Anexo I, podem comercializar suas
Como os países em desenvolvimento ainda emissões, ou seja, utilizar as reduções
não têm o caráter obrigatório de enviar seus certificadas de emissões resultantes de
relatórios de emissão de gases de efeito, a projetos com países em desenvolvimento
UNFCCC não consolida os dados com a registrados na UNFCCC, para contribuir com
mesma periodicidade que para os países o cumprimento de seus compromissos
desenvolvidos. Estão disponíveis os valores quantificados de redução de emissões.

Gestão da Produção em Foco - Volume 4


136

Figura 1 – MDL, percentual de participação por país.

Fonte: Adaptado de UNFCCC: Relatório anual do Conselho Executivo do MDL, 2016

A partir do compromisso dos países programas de relato com base nas diretrizes
desenvolvidos em relatar suas emissões à e desta organização.
Convenção do Clima, algumas instituições
A ISO, organização internacional de
passaram a estruturar e padronizar inventários
normalização, que tem o objetivo principal de
de emissão e forma de relato e verificação.
criar normas nos mais diversos setores
A mais conhecida é a Greenhouse Gas também aprovou normas referentes aos
Protocol, criado originalmente pelo World inventários de GEE.
Resources Institute (WRI) em 1998, que
O quadro 2 apresenta as normas ISO
desenvolveu padrões, guias e ferramentas
relacionadas aos gases de efeito estufa e
para o gerenciamento e quantificação das
seus inventários.
emissões de gases de efeito estufa. Diversos
países, inclusive o Brasil, criaram seus

Quadro 2 – Normas ISO sobre gases de efeito estufa e seus inventários


Norma NO Título
Gases de efeito estufa – parte 1: especificação e orientação a
14.064 -1 organizações para quantificação e elaboração de relatórios de emissões e
remoções de gases de efeito estufa.
Gases de efeito estufa – parte 2: especificação e orientação a projetos
para quantificação, monitoramento e elaboração de relatórios das
14.064-2
reduções de emissões ou da melhoria das remoções de gases de efeito
estufa.
Gases de efeito estufa – Parte 3: Especificação e orientação para a
14.064-3
validação e verificação de declarações relativas a gases de efeito estufa.
Gases de efeito estufa – Requisitos para organismos de validação e
14.065 verificação de gases de efeito estufa para uso em acreditação e outras
formas de reconhecimento.
Gases de efeito estufa - Requisitos de competência para equipes de
14.066
validação e equipes de verificação de gases de efeito estufa
Gases de efeito estufa – Pegada de carbono de produtos – Requisitos e
14.067
orientações sobre quantificação e comunicação.
Fonte: Da própria autora

Gestão da Produção em Foco - Volume 4


137

4.2 AS INICIATIVAS NACIONAIS DE e execução da contribuição nacionalmente


INVENTÁRIOS DE GASES DE EFEITO determinada.
ESTUFA
AS COMUNICAÇÕES NACIONAIS A LEGISLAÇÃO DO BRASIL SOBRE
MUDANÇA DO CLIMA
Os inventários de emissões de gases de
efeito estufa foram estabelecidos pelas A lei no 12.187, de 29 de dezembro de 2009
comunicações nacionais (UNFCCC,12.1). promulgou Política Nacional sobre Mudança
Estas comunicações são aplicáveis a todos os do Clima (PNMC). Nesta estão previstos
países signatários, considerando-se o registros de redução e os inventários de
princípio das responsabilidades comuns mas gases de efeito estufa. O artigo 4º, sobre os
diferenciadas. Nestas são mencionados os objetivos, prevê no inciso II a redução das
avanços das partes no atendimento aos emissões antrópicas de gases de efeito estufa
compromissos assumidos junto às em relação às suas diferentes fontes; já o
Conferências das Partes na elaboração e inciso XII do artigo 6º estabelece entre os
atualização dos inventários nacionais de instrumentos da PNMC, que registros,
emissões antrópicas por fontes e remoções inventários, estimativas, avaliações e
por sumidouros de todos os gases de efeito quaisquer outros estudos de emissões de
estufa. gases de efeito estufa e de suas fontes, sejam
elaborados com base em informações e
O Brasil publicou em 2016 a Terceira dados fornecidos por entidades públicas e
Comunicação Nacional do Brasil à privadas.
Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre
Mudança do Clima (TCN). Cabe ressaltar a Artigos da PNMC foram regulamentados pelo
importância de metodologias comparáveis, Decreto no 7.390, de 9 de dezembro de 2010.
para que os dados possam ser utilizados em O artigo 11 estabelece a publicação de
estatísticas nos próprios países e com os estimativas anuais de emissões de gases de
demais membros da convenção. efeito estufa no Brasil sob a coordenação do
Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e
Pelo Acordo de Paris as comunicações Comunicações (MCTIC). As emissões são
nacionais foram estabelecidas visando contabilizadas por setores (artigo 5º do
promover a confiança mútua entre as Partes e decreto): mudança de uso da terra, energia,
fortalecer a transparência e a flexibilidade aos agropecuária, processos industriais e
países em desenvolvimento. São feitas sob a tratamento de resíduos.
forma de relatórios de atualização e avaliação
que são passíveis de consulta e análise A 1ª edição destas estimativas abrangeu o
internacionais. período de 1990 a 2010. A 2ª edição foi de
1990 até 2012. A edição mais recente, a 3ª,
As comunicações nacionais são atualizadas apresenta os dados de 1990 a 2014. A tabela
periodicamente e apresentam o relatório do 2 apresenta a evolução das emissões por
inventário nacional de emissões de gases de setores de GEE no período.
efeito estufa e o progresso na implementação

Tabela 2 – Emissões de gee por setor (EM KTCO2E)


SETORES 1990 1995 2000 2005 2010 2014
ENERGIA 185.808 223.727 284.273 312.747 371.086 469.832
PROCESSOS 52.059 65.625 75.581 80.517 89.947 94.263
INDUSTRIAIS
AGROPECUÁRIA 286.998 316.671 328.367 392.491 407.067 424.473
USO DA TERRA 792.038 1.931.478 1.265.606 1.904.666 349.173 233.140
E FLORESTAS
TRATAMENTO 26.006 31.370 38.693 45.476 54.127 62.787
DE RESÍDUOS
TOTAL 1.342.909 2.568.872 1.992.520 2.735.898 1.271.399 1.284.496
Fonte: Adaptado de Estimativas Anuais de Emissões de Gases de Efeito Estufa no Brasil, MCTIC, 3ª edição
(2016).

Gestão da Produção em Foco - Volume 4


138

O PROGRAMA BRASILEIRO GHG autarquia federal vinculada ao Ministério da


PROTOCOL Indústria e Comércio Exterior e Serviços
(MDIC). Esta verificação tem o objetivo de
Além das estimativas publicadas pelo MCTIC,
conferir os dados apresentados e os critérios
o Centro de Estudos em Sustentabilidade da
de elaboração dos inventários.
Escola de Administração de Empresas da
Fundação Getúlio Vargas (GVces) Segundo o GVces, o objetivo do Programa
desenvolveu e coordena o Programa Brasileiro GHG Protocol é estimular a cultura
Brasileiro do GHG Protocol. Trata-se de uma corporativa para a elaboração e publicação
versão adaptada à realidade nacional do de inventários de emissões de gases do efeito
protocolo desenvolvido pela organização estufa (GEE).
Greenhouse Gas Protocol e também leva em
O programa prevê o relato anual do inventário
consideração a norma ISO 14.064 (vide
de GEE. Os dados disponíveis mais recentes
quadro 2).
são os do ano de 2016
As organizações aderem ao programa de
Os dados disponíveis mais recentes são os
forma voluntária porém, ao formalizar sua
do ano de 2016, ano que contou com a
adesão, as empresas se comprometem a
participação de 140 instituições, conforme
atender às especificações do programa bem
apresentado na tabela 3.
como realizar uma verificação externa por
empresa acreditada pelo Instituto Nacional de
Metrologia, Qualidade e Tecnologia (Inmetro),

Tabela 3 – Organizações, por setores, participantes do Programa Brasileiro GHG Protocol no ano de
2016
Setor Quantidade
Administração pública, defesa e seguridade social 1
Agricultura, pecuária, produção florestal, pesca e aquicultura 5
Água, esgoto, atividades de gestão de resíduos e descontaminação 1
Atividades administrativas e serviços complementares 1
Atividades de serviço 4
Atividades financeiras, de seguros e serviços relacionados 15
Atividades profissionais, científicas e técnicas 7
Comércio e reparação de veículos automotores e motocicletas 7
Construção, alojamento e alimentação 5
Educação, artes, cultura, esporte e recreação 5
Eletricidade e gás 14
Indústrias de transformação 47
Indústrias extrativas 8
Informação e comunicação 6
Organismos internacionais e outras instituições extraterritoriais 1
Saúde humana e serviços sociais 7
Transporte, armazenagem e correio 6
Total 140
Fonte: Adaptado de Registro Público de Emissões (2017)

Ao concluir a verificação, é emitida uma 3. CONSIDERAÇÕES FINAIS


declaração demonstrando que a empresa
Este trabalho teve o objetivo de apresentar as
está em conformidade com o Programa. A
iniciativas referentes ao inventário de
partir daí as instituições participantes farão
emissões de gases de efeito estufa e como
parte do Registro Público de Emissões, uma
este pode auxiliar os países a conhecer suas
plataforma para consulta dos inventários de
emissões e buscar alternativas para atender
emissões de GEE, aumentando a
às metas de redução de GEE ou
transparência na divulgação dos dados e na
contribuições nacionalmente determinadas,
promoção da sensibilização sobre a
que foram aprovadas pela Convenção do
preocupação com as alterações climáticas.
Clima.

Gestão da Produção em Foco - Volume 4


139

O Brasil é considerado um dos países ativos reduzir suas emissões e, assim, auxiliar o
nas conferências anuais do clima, e desde o Brasil a atingir suas contribuições
ano de 2009 tem sua política nacional sobre nacionalmente determinadas (NDC).
clima.
Ainda, os fundamentos de um Programa
Pode-se dizer que esta política foi Nacional de Relatórios de GEE podem servir
implementada com sucesso e já gerou como base de articulação e negociação de
diversos desdobramentos. Estre estes instrumentos econômicos para a precificação
desdobramentos está o Plano Nacional sobre de carbono.
Mudança do Clima que integra (a) os planos
É fundamental a participação dos diversos
de ação para a prevenção e controle do
ministérios envolvidos com a implantação da
desmatamento nos biomas; e (b) os planos
política climática, como o Ministério da
setoriais de mitigação e de adaptação às
Ciência, Tecnologia, Inovações e
mudanças climáticas.
Comunicações, Ministério do
Porém ainda há muita ação a ser executada. Desenvolvimento e Ministério da Indústria,
Entre estas está a construção de um Comércio Exterior e Serviços, Ministério do
Programa Nacional de Relatórios de Gases de Meio Ambiente, Ministério da Fazenda, para o
Efeito Estufa e o consequente registro alinhamento das informações e criação de
nacional de emissões/ remoções de GEE, estrutura única com critérios comparáveis.
regulado pelo governo federal. Este programa
A partir de uma boa plataforma de
poderá ser dividido em diversas áreas,
contabilização de inventários, o Brasil poderá
considerando obter a contribuição dos
conhecer melhor suas emissões e tendências
estados e federações e associações setoriais
e desenvolver políticas públicas para atingir
no levantamento dos dados, definir
suas metas de redução de gases de efeito
indicadores para estimular os envolvidos a
estufa.

REFERÊNCIAS nacional_de_Mudancas_Climaticas/links/56682403
08ae34c89a04dc12.pdf#page=17.Acesso em 16
[1] ALBUQUERQUE, L. ANÁLISE CRÍTICA maio 2016.
DAS POLÍTICAS PÚBLICAS EM MUDANÇAS
CLIMÁTICAS E DOS COMPROMISSOS [6] MINISTÉRIO DA CIÊNCIA, TECNOLOGIA
NACIONAIS DE REDUÇÃO DE EMISSÃO DE E INOVAÇÃO, ESTIMATIVAS ANUAIS DE
GASES DE EFEITO ESTUFA NO BRASIL.2012. EMISSÕES DE GASES DE EFEITO ESTUFA NO
DISPONÍVEL EM BRASIL. 2ª EDIÇÃO. 2014. DISPONÍVEL EM:
HTTP://OBJDIG.UFRJ.BR/60/TESES/COPPE_M/LAU HTTP://WWW.MCT.GOV.BR/UPD_BLOB/0237/2376
RAALBUQUERQUE.PDF. ACESSO EM 12 JUN 19.PDF. ACESSO EM 16 JUL 2017.
2017.
[7] MINISTÉRIO DA INDÚSTRIA, COMÉRCIO
[2] CONVENÇÃO – QUADRO DAS NAÇÕES EXTERIOR E SERVIÇOS, PLANO INDÚSTRIA.
UNIDAS SOBRE MUDANÇA DO CLIMA (UNFCCC). DISPONÍVEL EM:
DISPONÍVEL EM HTTP://UNFCCC.INT/2860.PHP. HTTP://WWW.MDIC.GOV.BR/INDEX.PHP/COMPETI
ACESSO EM 12 JUN 2017. TIVIDADE-INDUSTRIAL/ACOES-E-PROGRAMAS-
3/MUDANCA-DO-CLIMA/PLANO-
[3] ESPECIFICAÇÕES DO PROGRAMA INDUSTRIA/INTRODUCAO. ACESSO EM 15 JUL
BRASILEIRO GHG PROTOCOL. Disponível em: 2017.
https://s3-sa-east-
1.amazonaws.com/arquivos.gvces.com.br/arquivos [8] PAINEL INTERGOVERNAMENTAL SOBRE
_ghg/152/especificacoes_pb_ghgprotocol.pdf. MUDANÇAS CLIMÁTICAS (IPCC), DISPONÍVEL EM
2011 Acesso em 23 out 2017. HTTP://WWW.IPCC.CH/NEWS_AND_EVENTS/DOC
S/FACTSHEETS/FS_WHAT_IPCC.PDF.ACESSO EM
[4] GHG Protocol Corporate Accounting and 11 JUN 2016.
Reporting Standard. 2015 Disponível em
http://www.ghgprotocol.org/corporate-standard. [9] REGISTRO PÚBLICO DE EMISSÕES.
Acesso em 22 out 2017. Disponível em
http://www.registropublicodeemissoes.com.br/estat
[5] GRANZIERA, M. L.M.; e REI, F. O futuro do isticas/inventarios-por-setor. Acesso em 24 out
regime internacional das mudanças climáticas: 2017.
aspectos jurídicos e institucionais.2015. Disponível
em [10] REPÚBLICA FEDERATIVA DO BRASIL,
https://www.researchgate.net/profile/Fernando_Rei/ Pretendida Contribuição Nacionalmente
publication/286371324_O_Futuro_do_Regime_Inter Determinada. 2015. Disponível em

Gestão da Produção em Foco - Volume 4


140

http://www.mma.gov.br/images/arquivo/80108/BRA %20Santos%20com%20ap.pdf. Acesso em


SIL%20iNDC%20portugues%20FINAL.pdf. Acesso 30/06/2017.
em 11 jun 2017.
[12] UNFCCC - EXECUTIVE BOARD ANNUAL
[11] SANTOS, R. O. O impacto do inventário de REPORT 2014 – CLEAN DEVELOPMENT
emissões de gases de efeito estufa (GEE) nos MECHANISM. DISPONÍVEL EM
desempenhos operacional e financeiro das HTTP://UNFCCC.INT/RESOURCE/DOCS/PUBLICAT
empresas participantes do Programa Brasileiro IONS/UNFCCC_CDM-
GHG Protocol. 2016. Disponível em EB_ANNUAL_REPORT2014.PDF. ACESSO EM 08
https://repositorio.ufba.br/ri/bitstream/ri/21411/3/DIS OUT 2017.
SERTA%C3%87%C3%83O%20Roberto%20Oliveira

Gestão da Produção em Foco - Volume 4


141

APÊNDICE A
TERMOS E CONCEITOSUTILIZADOS NESTE DOCUMENTO

AQUECIMENTO GLOBAL: o aumento gradual progressivo da temperatura da superfície da Terra


que se pensa ser causado pelo efeito estufa e responsável por mudanças nos padrões climáticos
globais (Convenção do Clima).

CRÉDITO DE CARBONO: a medida de redução de emissões de GEE foi padronizada em toneladas


de carbono equivalente, sigla tCO2e. Cada tonelada de CO2e equivale a um crédito de carbono.

CONTRIBUIÇÃO NACIONALMENTE DETERMINADA: meta de redução de emissões de GEE. Cada


Parte da UNFCCC estabeleceu suas metas para combater o aquecimento global que foram
validadas durante a CoP 21 em 2015 e vão valer a partir de 2020. Também conhecida pela sigla
NDC, em inglês Nationally Determined Contribution.
Nota: Até as NDCs serem validadas havia a palavra ‘pretendida’ na sua sigla. Após validação as
metas são reais, não mias pretendidas, e esta palavra saiu da sigla.

EFEITO ESTUFA: é a captura e acúmulo de calor na atmosfera (troposfera) perto da superfície da


terra. Parte do calor flui de volta para o espaço a partir da superfície da Terra e é absorvido pelo
vapor de água, dióxido de carbono, ozônio, e vários outros gases na atmosfera e, em seguida, é
novamente irradiado de volta para a superfície terrestre. Se as concentrações atmosféricas desses
gases de efeito estufa aumentar, a temperatura média da atmosfera irá aumentar gradualmente
(UNFCCC).

FONTE: qualquer processo ou atividade que libere um gás de efeito estufa, um aerossol ou um
precursor de gás de efeito estufa na atmosfera (UNFCCC).

GASES DE EFEITO ESTUFA (GEE): constituintes gasosos da atmosfera, naturais e antrópicos, que
absorvem e reemitem radiação infravermelha (UNFCCC).
Os gases de efeito estufa são: dióxido de carbono (CO2), metano (CH4), óxido nitroso (N2O),
hexafluoreto de enxofre (SF6), hidrofluorcarbonos (HFCs), perfluorcarbonos (PFCs) e trifluoreto de
nitrogênio (NF3). Este último foi incluído no quinto relatório de avaliação sobre as mudanças
climáticas globais do IPCC, de 2013. Os demais são citados no Anexo A do Protocolo de Quioto.

MUDANÇA CLIMÁTICA: qualquer alteração no clima que possa ser atribuída direta ou
indiretamente à atividade antrópica que altere a composição atmosférica global e seja adicional à
variabilidade climática natural, ambas observadas em um período de tempo comparável
(UNFCCC).

SUMIDOURO: unidade física ou processo que remove um GEE da atmosfera.

Gestão da Produção em Foco - Volume 4


142

CAPÍTULO 13

Bruno Rabbi
Claudio José Fidelis de Azevedo
Fernando Cerutti Aguiar
Luciana Iglesias de Castro Silva
Milton Erthal Junior

Resumo: A aquisição de computadores é para o setor público uma decisão


complexa, pois envolve a análise de variáveis como: preço, espaço físico de
armazenamento, atualização tecnológica, tempo de reposição das peças
danificadas, desfazimento do bem patrimonial, renovação dos equipamentos,
garantia e custo de manutenção. A complexidade deste cenário conduz à seguinte
questão de pesquisa: qual é a melhor solução para o fornecimento de
computadores em órgãos públicos, comprar ou alugar? Com base neste problema,
o objetivo deste trabalho é propor um modelo, baseado em métodos de Apoio
Multicritério à Decisão, que possa auxiliar os gestores quando são exigidos a
decidir sobre a aquisição de computadores. Os métodos Analytic Hierarchy
Process (AHP) e Borda foram empregados para obter as soluções parciais e
globais do problema e para a ponderação de pesos dos critérios, respectivamente.
Comprar ou alugar os computadores foram as possíveis soluções, as quais foram
julgadas com base nos critérios: custo, atualização tecnológica, impacto ao
negócio e desfazimento. Os dados coletados foram inseridos no software IPÊ 1.0
resultando em 68,56% de prioridade para a alternativa aluguel de computadores,
demonstrando, com base nos critérios analisados, que alugar é a melhor opção de
fornecimento de computadores para uma Instituição Pública de Ensino.

Palavras-chave: Apoio Multicritério à Decisão; AHP; Aluguel de computadores;


Compra de Computadores; Terceirização.

Gestão da Produção em Foco - Volume 4


143

1 INTRODUÇÃO Segundo Costa (2006, p.27), os métodos de


AMD são caracterizados por abordar a
O cenário mundial caracteriza-se pelas
solução de problemas a luz de vários critérios.
mudanças constantes e a necessidade de
Outra característica interessante do AMD é a
adequação da empresa ao mercado de forma
sua capacidade de organizar o problema de
ágil e precisa. A concorrência em todas as
decisão, moldando a matriz de critérios a ser
áreas faz com que os decisores tenham, cada
adotada pelo gestor ou grupo gerencial e o
vez mais, que tomar decisões importantes
estabelecimento de objetivos claros que
para problemas complexos, num tempo
conduzam a uma pré seleção de um grupo de
geralmente curto, com informações
alternativas viáveis (GOMES et al., 2014).
incompletas, e impactos importantes ao
Considerando as características do problema
negócio (LEAL JUNIOR, 2008).
de aquisição de equipamentos de informática,
O setor público apresenta características que atenda com eficiência, agilidade e
específicas que influenciam o processo segurança o setor de TI de um órgão público,
decisório, conduzindo a soluções que não o emprego de técnicas de AMD pode ser útil
necessariamente seriam interessantes para as para apoiar gestores, que usam sentimentos
empresas privadas. A complexidade do humanos (subjetividade) na tomada de
processo de compras, a manutenção de decisão (ENSSLIN et al., 2010).
equipamentos, o processo de desfazimento
Diante da necessidade de aprimoramento da
de bens permanentes, entre outros, são
gestão de compras de equipamentos de TI de
elementos que influenciam o processo
uma instituição federal de ensino,
decisório (WISINTAINER, 1999). As decisões
considerando a eficiência na obtenção de
acerca da aquisição de bens patrimoniais
suprimentos, redução de estoques, custos de
para atender o setor de Tecnologia da
manutenção, entre outros, algumas
Informação (TI) de órgãos públicos
indagações foram elencadas. É mais custoso
apresentam algumas lacunas em função dos
locar ou adquirir os equipamentos? Quando
objetivos conflitantes. Problemas originados
houver necessidade de manutenção, em
por complexidade de elaboração de termos
quanto tempo as peças de reposição estarão
de referência (requisitos), sem mencionar
disponíveis? Qual é o investimento (recursos
marcas, pois não pode haver direcionamento
financeiros e humanos) operacional para
na aquisição de equipamentos, e posterior
cumprir as diretrizes de descarte de
desfazimento dos equipamentos de TI, que
eletroeletrônicos, considerando os aspectos
deve atender a burocrática legislação
legais e ambientais? Qual é o investimento
brasileira, são típicos deste setor.
financeiro necessário para renovar o parque
As decisões sobre aquisição de tecnológico?
equipamentos de TI em órgãos públicos
A presente pesquisa tem como objetivo o
devem atender a alguns requisitos legais. O
desenvolvimento de um modelo de decisão
decreto no 7.174 de 2010 (Brasil, 2010)
aplicado a aquisição de computadores para
regulamenta a contratação de bens e serviços
os setores administrativos de uma instituição
de informática na administração pública
pública de ensino. O método AHP foi
federal. Este documento estabelece que a
empregado para obter a solução final do
aquisição dos bens deve atender a uma
problema. Técnicas de obtenção de dados
diversidade de critérios, como: consumo de
por questionário, bibliometria e estatística
energia elétrica, menor preço, desempenho,
descritiva foram empregadas para subsidiar o
qualidade, compatibilidade com os processos
modelo.
organizacionais, garantia técnica, entre
outros. Tendo em vista estas exigências, o A elaboração deste Artigo fundamenta-se na
cenário para a aquisição de bens para o setor necessidade de agilizar a substituição de
de TI apresenta características de um computadores danificados, com mínimo
problema complexo, onde as técnicas de impacto no desenvolvimento das atividades
Pesquisa Operacional podem ser aplicadas dos servidores técnico-administrativos da
para a obtenção de soluções otimizadas. instituição estudada, em função da lentidão
da formulação e execução de um processo
A metodologia de Apoio Multicritério à
de compras, faz-se necessário a busca de
Decisão (AMD) é um instrumento capaz de
uma técnica de tomada de decisão que apoie
agregar variáveis quantitativas e qualitativas
uma solução eficiente para o fornecimento de
em um modelo que aponte uma solução
computadores. As situações de decisão deste
otimizada com praticidade e eficiência.
trabalho consistem em duas alternativas:

Gestão da Produção em Foco - Volume 4


144

aluguel ou compra de computadores. A caros, ou na forma de alocação de mão de


instituição já dispõe de uma política obra, ainda pouco disponível na época.
consolidada de terceirização dos serviços de
impressão, sendo este um estudo necessário
à tomada de decisão quanto a compra ou 2.2 MÉTODO AHP
aluguel de microcomputadores e suprimentos
De forma a auxiliar a tomada de decisão
de reposição destes para os setores
utilizou-se o método AHP Analytic Hierarchy
administrativos. O trabalho está delimitado
Process em função de sua flexibilidade ao
aos setores administrativos da instituição e
tratar problemas de tomada de decisão
não contempla os computadores utilizados
complexa. O método AHP baseia-se em
nos laboratórios por estudantes e professores.
dividir o problema AMD em vários elementos
constituintes em forma de estrutura
hierárquica. O primeiro nível da hierarquia
2. REVISÃO DA LITERATURA
representa o objetivo principal do problema
2.1 ESTUDO BIBLIOMÉTRICO de decisão, os níveis intermediários
representam os critérios e subcritérios que
O ponto de partida para desenvolver este
afetam a decisão e o nível inferior representa
trabalho foi uma pesquisa na literatura para
as possíveis alternativas. Os decisores então
identificar e selecionar documentos
determinam a importância relativa dos
acadêmicos que tratem dos temas:
elementos em cada nível. (SRICHETTA &
multicritério e seleção de modelos de compra
THURACHON, 2012)
ou aluguel de computadores. Esta pesquisa
foi realizada nas bases Scopus, Web of Muitos estudos discutem a análise de decisão
Science, Google Acadêmico e Science Direct, multi-critério com várias aplicações, por
acessadas por meio do portal de periódicos exemplo, pesquisa operacional, modelos
da CAPES. As palavras-chave inicialmente matemáticos e teoria da decisão, mas foi
utilizadas para o desenvolvimento da dada menos atenção à pesquisa para
pesquisa foram: “multi-criteria decision desenvolver as teorias de decisão e os
making or/and outsourcing computer”, “multi- programas de computador em conjunto para
criteria decision making or/and buying integrar a teoria da decisão e o sistema de
computer”, “auxílio multicritério à decisão informação. (HWANG & HWANG, 2006)
or/and aluguel de computador”, “auxílio
Segundo Perez-Rodriguez & Rojo Alboreca
multicritério à decisão or/and compra de
(2012), o uso de técnicas computadorizadas é
computador”. Os registros encontrados foram
muito importante para facilitar a aplicação
02 artigos na Scopus, 05 artigos na Web Of
prática do método AHP automatizando os
Science, 03 artigos na Google Acadêmico e
cálculos matemáticos envolvidos.
01 artigo na Science Direct, tendo sido
selecionados alguns destes trabalhos que
fizeram parte na composição da revisão
3 METODOLOGIA
bibliométrica.
Em uma Instituição de Ensino, como a que
Em busca de direcionar seus esforços aos
está sendo analisada, os tomadores de
processos relacionados às atividades-fim,
decisão para aquisição de equipamentos de
empresas e órgãos governamentais buscam
TI são os próprios analistas de Tecnologia da
nos dias atuais a terceirização de serviços
Informação, com a função de determinar as
como forma de desafogar as áreas de apoio.
melhores opções de aquisição e do outro lado
A terceirização de serviços e equipamentos
a Pró-Reitoria de Administração, com sua
da área de Tecnologia da Informação já vem
equipe de Diretores, viabilizando os recursos
sendo discutida no mercado global a bastante
e procedimentos necessários para obtenção
tempo. Segundo o Gartner Group, uma das
dos equipamentos. Para avaliar qual a melhor
maiores empresas de consultoria no setor, a
solução de fornecimento de computadores,
terceirização dos serviços de TI, já representa
utilizando-se do método de análise
em torno de 58% do mercado na área.
hierárquica AHP, de modo a propor um
De acordo com BERGAMASCHI (2008), a modelo condizente com as necessidades da
terceirização de computadores ocorre desde Instituição, realizou-se uma pesquisa de
o início da sua comercialização nas décadas opinião através de um formulário eletrônico
de 60 e 70, na forma de compartilhamento de (google formulários), com 24 servidores das
recursos computacionais, que eram muito áreas de Tecnologia de Informação e Direção

Gestão da Produção em Foco - Volume 4


145

de Administração de diversos campi da para realização dos cálculos, onde foram


Instituição. A partir dos dados levantados atribuídos os pesos dos critérios baseando-se
utilizou-se o método de borda para nas informações apuradas.
mensuração da pontuação dos critérios e por
fim, realizou-se uma média para obtenção de
4 ESTRUTURA HIERÁRQUICA
um resultado uniforme entre os gestores de
administração e os analistas de TI. Na Figura 1, observa-se na árvore de
estrutura hierárquica as alternativas de
Estas informações, serviram de base para
fornecimento de computadores (Aluguel ou
elaboração da matriz de pesos de critérios
Compra), considerando para a tomada de
(Tabela 3). Além disso, realizou-se pesquisas
decisão, os critérios a seguir: Atualização
com fornecedores especializados e em
Tecnológica, o Custo, o Desfazimento e o
licitações realizadas por outros órgãos para
Impacto ao Negócio.
obtenção dos valores de custo da tabela de
pagamentos (Tabela 2). Após a obtenção de
todos os dados, utilizou-se o software IPÊ 1.0

FIGURA 1: - Estrutura Hierárquica do problema proposto, mostrando o objetivo central, os critérios


estabelecidos e as alternativas

Fonte: Autoria própria

4.1 ALTERNATIVAS computadores dura, aproximadamente 6


(seis) meses. Além disso, o descarte deve
A compra ou o aluguel, são as alternativas
seguir rigorosos procedimentos de acordo
que farão parte deste estudo. Diversas são as
com a legislação vigente.
diferenças entre os dois modelos analisados.
Em uma solução de aluguel de
computadores, o fornecimento de todo o
4.2 CRITÉRIOS
parque de computadores fica sob a
responsabilidade da empresa terceirizada, Os critérios selecionados para compor este
que tem um prazo determinado em contrato artigo foram: A Atualização Tecnológica, O
para disponibilização dos equipamentos, Custo, O Desfazimento do Bem e o Impacto
sendo normalmente de 1 (um) mês. Da ao Negócio. Para eliminar qualquer vício no
mesma forma o desfazimento é simplificado e estabelecimento de pesos para o
também determinado em contrato com ranqueamento em ordem de importância
aproximadamente o mesmo prazo de destes critérios foi realizada uma pesquisa
execução. Já na alternativa compra de através de um formulário enviado por uma
computadores, o setor de TIC junto com o lista de e-mails institucionais que compõem
setor de Compras e Licitações são os todos os analistas/técnicos em informática da
responsáveis pela aquisição, estocagem e instituição. A mesma pesquisa foi enviada
descarte dos computadores. O processo de para os gestores com o objetivo de confrontar
compra, desde o levantamento das ambos os resultados no ranqueamento da
demandas até o recebimento dos importância dos critérios. Na pesquisa busca-

Gestão da Produção em Foco - Volume 4


146

se obter o grau de relevância de cada critério.  0 - Pouca relevância


Como resposta estabeleceu-se o valor
 1 - Entre pouca e média relevância
máximo como sendo o número de critérios
menos um, e ficou da seguinte forma:  2 - Média relevância
 3 - Muita relevância

Tabela 1- Resultado da pesquisa com Servidores do setor de Tecnologia de Informação e Gestores


da Instituição de Ensino.
Critérios TI Resp. Gestão Resp. Média TI Média Total
(C) Gestão (D)
(A) (B) (C+D)
Atualização
46 19 11 5 2,42 2,20 4,62
Tecnológica
Custo 27 19 13 5 1,42 2,60 4,02
Desfazimento 25 19 11 5 1,32 2,20 3,52
Impacto ao Negócio 32 19 9 5 1,68 1,80 3,48
Fonte: Autoria própria.

Para normalizar os resultados de cada grupo instituição pública, onde o tempo do processo
(Gestão e T.I.) foi realizada uma média entre a licitatório, desde o levantamento da demanda
soma das respostas e a quantidade de até a entrega dos itens licitados, varia em
respostas de cada grupo, conforme colunas C torno de seis meses.
e D da tabela acima. A coluna Total,
demonstra a soma entre a média dos dois
grupos, resultando na classificação de 4.2.2 CUSTO
relevância dos critérios entre os dois grupos.
Para este critério levantou-se os preços de
O critério Atualização tecnológica ficou em
aquisição e locação de um determinado
primeiro lugar, em segundo lugar ficou o
modelo de computador que atendesse as
critério Custo, em terceiro lugar o
necessidades básicas dos servidores técnico
Desfazimento e em quarto lugar ficou o
administrativos.
Impacto no Negócio.
Para ambas as modalidades, foram feitas
pesquisas diretas com fornecedores. Ao custo
4.2.1 ATUALIZAÇÃO TECNOLÓGICA de compra, foi adicionado 15% do valor da
aquisição para obtenção de peças de
Atualmente não se consegue sobreviver sem
reposição que eventualmente precisem ser
tecnologia suficiente para inovar os seus
substituídas durante os 5 anos de vida útil das
serviços prestados e produtos oferecidos. A
máquinas. Para elaboração do custo de
tecnologia faz parte da evolução, desde a
locação, além da pesquisa com fornecedores,
revolução Industrial em meados do século
foi também realizada uma pesquisa em
XVIII, na qual resultou em um profundo
licitações passadas com o poder público.
impacto no processo produtivo, atingindo
Calculou-se então uma média geral dos
tanto os níveis econômicos e sociais, como o
preços obtidos. O custo de aluguel anual foi
contínuo processo de evolução e inovação
multiplicado por cinco, considerando-se
tecnológica do século que vivemos.
assim, o período máximo de renovação
Nesse critério será avaliada a atualização contratual com a União e também de vida útil
tecnológica, a modalidade aluguel se mostra média das máquinas.
mais eficiente, pois a substituição dos
equipamentos é muito mais ágil do que o
processo de compras realizado pela

Gestão da Produção em Foco - Volume 4


147

4.2.3 DESFAZIMENTO DO BEM operacional pode ocasionar um retardamento


nos processos impactando em prejuízos ao
Nesse critério será avaliado o processo de
negócio da organização e insatisfação dos
desfazimento do bem inservível mais rápido e
usuários.
eficiente entre as alternativas de compra e
aluguel. Na instituição pesquisada, uma Nesse critério, será avaliado o tempo de
comissão permanente de avaliação e substituição do equipamento de modo a evitar
desfazimento, designada por portaria a paralisação do serviço por falta do
conforme determina a legislação, é equipamento de informática (computador).
responsável por classificar e avaliar os bens Será avaliado o tempo de reposição de
patrimoniais considerados como inservíveis. peças, mensurando-se de forma objetiva o
No entanto, os membros desta comissão não impacto ao negócio de uma Instituição de
têm unicamente essas atribuições, tornando o Ensino visando a produtividade e segurança
processo de desfazimento muito demorado na dos processos operacionais da Instituição
fase inicial e por este motivo, o desfazimento
na alternativa aluguel é mais rápido, visto que
o fornecedor é responsável por este 5 RESULTADO
processo.
5.1 TABELA DE PAGAMENTOS
Na tabela 2, os valores de custo e prazos de
4.2.4 IMPACTO AO NEGÓCIO (TEMPO DE execução são relacionados de acordo com as
SUBSTITUIÇÃO DO ITEM) alternativas e critérios apresentados. Destaca-
se que o custo apresentado se refere ao
A utilização dos serviços de informática de
fornecimento de 100 computadores para os
forma eficaz e automatizada, proporciona a
servidores administrativos. Este quantitativo
administração pública de ensino uma
foi proposto com base em licitações
capacidade de acesso com rapidez para
anteriores do Instituto que normalmente tem
transmissão de dados e informações
como objeto a aquisição de no mínimo 100
armazenadas para usuários e servidores de
aparelhos.
maneira a potencializar a prestação de
serviços. Uma paralisação no setor

Tabela 2 - Tabela de pagamentos com valores e prazos obtidos a partir de pesquisas e estimativas.
Critérios

Alternativas C1 - A.T. C2 - Custo C3 - Desf. C4 - I.N.


(Meses) (Reais) (Meses) (Semanas)
A1 - Compra 6 R$ 460.000,00 24 24

A2 - Aluguel 1 R$ 1.460.000,00 1 1
C1 = Atualização tecnológica C2 = Custo C3 = Desfazimento C4 = Impacto ao Negócio
Fonte: Autoria própria.

Para o critério Atualização Tecnológica (C1), média entre cotações com fornecedores e
identificou-se que na alternativa compra, licitações anteriores. Para o aluguel (A2), é
desde o surgimento da demanda, montagem considerado o custo de fornecimento de 100
de processo de compras, pregão e máquinas durante 05 anos com fornecimento
recebimento dos itens, possui uma janela de de peças de reposição, já para aquisição o
aproximadamente 6 (seis) meses e este valor é para compra (A1) dos mesmos 100
tempo, para a renovação do parque equipamentos com acréscimo de 15 % para
tecnológico, torna o bem mais defasado em aquisição de peças de reposição. Para o
relação a uma substituição mais rápida e critério Desfazimento (C3), foi considerado o
menos burocrática, como ocorre na alternativa tempo médio que o uma Instituição de Federal
do aluguel, pois nesta, pode haver em de Ensino precisa para concluir todo o
contrato um prazo máximo de 1 (um) mês processo burocrático de desfazimento e
para a renovação do parque. No critério Custo retirada dos bens para a alternativa compra
(C2), o valor foi elaborado a partir de uma (A1) e o tempo que uma empresa terceirizada

Gestão da Produção em Foco - Volume 4


148

levaria para retirar os equipamentos constitui-se a matriz de pesos com base na


instalados na mesma Instituição no caso da avaliação de especialistas da área
alternativa aluguel (A2). Por fim, o critério pesquisada.
Impacto ao Negócio (C4) foi estimado o
Saaty (2000) apresenta uma escala com
tempo médio que a terceirizada levaria para
valores de 1 a 9 visando a padronização de
reposição de peças de um determinado
julgamentos dos avaliadores. Os valores
equipamento (A2) em relação ao que leva
obtidos na tabela 1, com os dados gerados a
uma Instituição pública para obtenção da
partir da pesquisa dos especialistas, foram
peça por meio licitatório (A1).
associados a essa escala, atribuindo uma
ordem de preferência aos critérios avaliados,
sendo 1 quando existe igual preferência entre
5.2 MATRIZ DE PESOS
os critérios e 9 quando existe preferência
Como etapa inicial para definição de melhor absoluta de um em relação ao outro.
alternativa utilizando-se o método AHP,

Tabela 3 - Matriz de pesos elaborada a partir de pesquisa com os especialistas.


Critérios C1 C2 C3 C4
C1 1 3 4 5
C2 1/3 1 2 3
C3 1/4 ½ 1 2
C4 1/5 1/3 1/2 1
Fonte: Autoria própria

De forma a mensurar a coerência dos valores 5.3 MATRIZES DE JULGAMENTO DE


de julgamento atribuídos pelos avaliadores, CRITÉRIOS
Saaty 2000 propôs a razão de consistência
Tomando como referência os dados
que é definida pela fórmula: RC= IC/IR. Para
apresentados na Tabela 2 (tabela de
Costa 2006, caso o valor obtido com a razão
pagamentos), elaborou-se as matrizes de
de consistência seja superior a 0,10,
julgamento de critério utilizando-se da mesma
recomenda-se a revisão do modelo ou dos
metodologia da Tabela 3, no entanto, agora o
julgamentos.
método foi utilizado para atribuição de valores
Para obtenção da razão de consistência da aos critérios em relação às alternativas de
matriz de pesos em questão, utilizou-se o compra ou locação.
software IPÊ 1.0, que retornou com uma razão
de consistência de 0,019, confirmando a
coerência dos julgamentos apresentados.

Gestão da Produção em Foco - Volume 4


149

Tabela 4 - Matrizes de julgamento de critérios elaborada a partir da tabela de pagamentos.

C1- Atualização tecnológica C2 - Custo

Compra Aluguel Compra Aluguel

Compra 1 1/6 Compra 1 8

Aluguel 6 1 Aluguel 1/8 1

C3 - Desfazimento C4 - Impacto ao negócio

Compra Aluguel Compra Aluguel

Compra 1 1/7 Compra 1 1/6

Aluguel 7 1 Aluguel 6 1
Fonte: Autoria própria

Percebe-se que somente no critério custo a As alternativas propostas nesta pesquisa


Compra obteve preferência em relação ao foram comprar ou alugar computadores para
Aluguel, em que foi atribuído o peso 8 (entre uma instituição pública de ensino e o método
muito forte e absoluto), nos demais critérios o AHP demonstrou que a alternativa aluguel de
Aluguel foi o vencedor com os pesos 6 (entre computadores é a vencedora com um
forte e muito forte) e 7 (muito forte). percentual de 68,56% como resultado da
pesquisa. Faz-se importante considerar o
Por fim, como última etapa do processo de
momento econômico do País, haja vista, que o
tomada de decisão, foram inseridos os dados
resultado pode variar conforme a situação
coletados das matrizes de peso e de
financeira do governo e dos preços de
julgamento de critérios no software IPÊ 1.0,
mercado para os equipamentos em análise.
obtendo-se como resultado de melhor
Além disso, embora a pesquisa, baseada em
alternativa, a luz dos critérios avaliados, o
quatro critérios, tenha apontado como melhor
aluguel de computadores, com um percentual
alternativa o aluguel, o custo para locação é
de 68,56% de prioridade.
consideravelmente mais alto, o que tende a
inviabilizar a adoção da medida em períodos
de restrição orçamentária.
6 CONCLUSÃO
Entretanto, o método AHP tem como grande
A estrutura hierárquica, neste estudo,
vantagem justamente a análise complexa da
contemplou os critérios: atualização
tomada de decisão baseada em vários
tecnológica, o custo, o tempo para o
critérios de forma a propor um resultado
desfazimento e o impacto ao negócio. Estes
abrangente, que tenha como objetivo a
foram classificados por relevância
melhor alternativa para uma organização
empregando-se o método de borda em uma
levando-se em consideração a opinião de
pesquisa destinada a dois grupos: Os
gestores e técnicos em função de diferentes
técnicos em tecnologia da informação e
critérios. Conclui-se então, no cenário
gestão administrativa. Após a pesquisa, os
apresentado que, mediante disponibilização
resultados foram confrontados e chegou-se,
orçamentária, a Instituição de Ensino Público
por ordem de maior relevância, a seguinte
deverá adotar o modelo de locação de
classificação: o critério atualização
computadores para os servidores técnico
tecnológica seguido pelo custo, desfazimento
administrativos de forma a propiciar um ganho
e por último, o impacto ao negócio.
de eficiência e produtividade no âmbito da
organização.

Gestão da Produção em Foco - Volume 4


150

REFERÊNCIAS: [5] Leal Junior, Miguel da Rocha. Análise


multiatributo com tratamento da incerteza:
[1] Bergamaschi, S. - Modelos de gestão de
aplicação do método interval smart / swing
terceirização de tecnologia da informação: um
weighting à escolha de fornecedores de serviços
estudo exploratório – tese – Faculdade de
de ti. 2008. 81 f. dissertação (mestre) - curso de
economia, administração e contabilidade –
mestrado profissionalizante em administração,
Departamento de administração, universidade de
faculdades ibmec – ibmec/rj, rio de janeiro, 2008.
São Paulo – USP, p. 179, 2004, são paulo, sp –
disponível em: [6] Perez-Rodriguez, f., a. Rojo-Alboreca
<http://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/12/1213 (2012).Forestry application of the ahp by use of
9/tde-17062005-075636/> acessado em: mpc© software." 2012 21(3).
01/06/2017.
[7] Srichetta, P.; Thurachon, W. Applying
[2] Costa, Helder Gomes. auxílio multicritério Fuzzy analytic hierarchy process to evaluate and
à decisão: método ahp. abrepro. rio de janeiro, p. select product of notebook computers. International
27, 2006. Journal of Modeling and Optimization, v. 2, n. 2, p.
168, 2012.
[3] Ensslin, l.; Giffhorn, E.; Ensslin, S.R.; Petri,
S.M.; Vianna, W.B. (2010). Avaliação do [8] Saaty, T. L. Decision making for leaders.
desempenho de empresas tercerizadas com o uso Pittsburg, USA: RWS Publications, 2000.
da metodologia multicritério de apoio à decisão
[9] Wisintainer, l.c. (1999). Vantagem do uso
construtivista. pesquisa operacional, 30 (1), 125-
da metodologia de multicritério de apoio à decisão
152.
em um órgão público estadual. dissertação de
[4] H. J. Hwang and h. s. Hwang, Computer- mestrado, universidade federal de santa catarina,
aided fuzzy-ahp decision model and its application curso de pós graduação em engenharia de
to school food service problem, international journal produção.
of innovative computing, information and control,
vol.2, no.1, pp.125-137, 2006.

Gestão da Produção em Foco - Volume 4


151

Capítulo 14

Rodrigo de Mata Marangon


Marilia da Silva Bertolini
César Augusto Galvão de Morais

Resumo: A prática de skate no Brasil se destaca no cenário esportivo e pode ser


evidenciada por dados apresentados pela CBSK (Confederação Brasileira de Skate).
Produtos esportivos como shapes de skates são geralmente fabricados a partir de
painéis compensados de madeira e eventualmente com diferentes composições,
utilizando fibra de vidro ou fibra de carbono. A qualidade de colagem dos shapes de
skates é um fator importante a ser analisado e pode determinar a qualidade de um
shape fabricado. Neste contexto, este trabalho busca avaliar a qualidade de colagem
das lâminas de shapes por meio da resistência ao cisalhamento da lâmina interna. O
ensaio de cisalhamento foi realizado em uma máquina de ensaio mecânico universal
com carregamento constante até ruptura dos corpos de prova. Os corpos de prova
foram retirados de um shape produzido em ambiente industrial sobre as direções
paralela e perpendicular às fibras. Foram obtidos resultados de resistência ao
cisalhamento superiores a 1 MPa em toda a extensão do shape, desta forma, é
possível concluir que o shape analisado possui valores superiores para a qualidade de
colagem perante aos requisitos mínimos exigidos para aos compensados comerciais.

Palavras chave: Shapes de skate, Teste de cisalhamento, Propriedades mecânicas,


Qualidade de colagem

Gestão da Produção em Foco - Volume 4


152

1. INTRODUÇÃO podem ainda ser fabricados com materiais


alternativos, como por exemplo, reforço de fibra
A indústria de produtos esportivos relacionados
de vidro nos compensados ou até mesmo de
à prática de skate possui destaque pela
fibras de carbono. Segundo Berglund e Rowell
movimentação da economia com a venda de
(2005) e ABIMCI (2009), dentre os tipos de
produtos em feiras e eventos e, sobretudo em
painéis de madeira encontra-se o painel de
mercados varejistas. Segundo a Confederação
madeira compensada, ou apenas compensado,
Brasileira de Skate (2016), conhecida como
composto por um número ímpar de lâminas de
CBSK, o mercado envolvido no cenário mundial
madeira que são sobrepostas e cruzadas entre
para a prática de skate movimenta cerca de 3
si. Para a fabricação deste tipo de painel as
bilhões de dólares, com uma participação
lâminas são unidas por adesivos/resinas com
brasileira de 300 milhões de dólares. Na
aplicação de pressão e calor (ABIMCI, 2009).
segunda edição da URB TRADE SHOW, feira
relacionada ao segmento e realizada em abril Em muitas aplicações da madeira são
de 2014 na cidade de São Paulo, estima-se ter desejadas relações entre menor densidade da
sido movimentado cerca de 100 milhões de espécie utilizada e maior resistência mecânica,
dólares em vendas (CBSK, 2016). porém, aplicações com esta relação nem
sempre são fáceis de serem obtidas e até
A prática deste esporte por jovens é crescente
mesmo podem não ser possíveis, uma vez que
nas últimas décadas, o que define um grande
madeiras com maior densidade possuem de
potencial de investimento para esta área,
forma geral, maior resistência mecânica. Além
apresenta a oportunidade de desenvolvimento
disto, outras propriedades também são
de novas tecnologias e por consequência a
importantes e podem ser prejudicadas com a
possibilidade de elaboração de estudos
escolha conduzida apenas pela relação entre
científicos que podem contribuir com o setor.
estas duas variáveis. A madeira é um material
Segundo Roth (2010), o esporte é muito
anisotrópico que possui diferentes valores das
praticado no país e a sua prática teve uma
propriedades físicas e mecânicas entre os
adesão significativa nas últimas décadas a
planos de corte, já que em cada plano, as fibras
ponto de se tornar o segundo esporte mais
possuem diferentes orientações (CALIL
praticado no estado de São Paulo. De acordo
JÚNIOR; LAHR; DIAS, 2003; IWAKIRI; KEINERT
com CBSK (2015), em uma análise do cenário
JÚNIOR; MENDES, 2005).
nacional para uma população com idade
superior a 16 anos, cerca de 6% praticavam A relação entre baixa densidade e alta
skate em 2006, já em 2015, o número de resistência mecânica para madeiras é muito
praticantes evoluiu para 10%. A prática do estudada e comumente explorada em diversas
esporte evoluiu em todas as regiões do país, aplicações, dentre as quais, podem ser
porém, com menor destaque para a região destacadas as madeiras com aplicação em
nordeste. produtos como embalagens, em alguns
produtos utilizados na construção civil e
Devido o peso excessivo para a prática de
madeiras utilizadas para fabricação de produtos
skateboard, as madeiras maciças utilizadas
esportivos. A necessidade de aplicações de
para confecção de shapes, geralmente de
madeira com baixa densidade e alta resistência
Carvalho, foram substituídas a partir da década
permitiu que fossem desenvolvidas técnicas
de 70 por painéis de lâminas de madeira, que
para a fragmentação da madeira e utilização da
são utilizados até os tempos atuais. O processo
madeira fragmentada em forma de painéis,
de fabricação de um shape de compensado se
deste modo, é possível utilizar diferentes
divide basicamente em: preparação das
composições para melhoria de diversas
laminas de madeira, aplicação do adesivo,
propriedades, tornando o produto com
prensagem, recorte, acabamento e pintura,
propriedades mais homogêneas e
podendo levar um tempo de 3 a 5 dias para a
possibilitando a aplicação em produtos
conclusão do produto (MARTINES e SILVA,
diversos. Diferente da madeira maciça, os
2012).
painéis de madeira, com variadas composições
Produtos esportivos como shapes de skates são e formas construtivas de fabricação, podem ter
produzidos com painéis compensados, que reduzidas estas diferenças nos valores destas
devido às características construtivas do propriedades entre os planos de cortes
compensado, permite ao shape uma maior (IWAKIRI; KEINERT JÚNIOR; MENDES, 2005).
uniformidade nas propriedades físicas e
Painéis fabricados a partir da madeira
mecânicas entre as direções longitudinal e
fragmentada podem ser constituídos de fibras,
transversal do produto. Shapes de skates
partículas e lâminas além de adesivos para que

Gestão da Produção em Foco - Volume 4


153

haja adesão entre os materiais constituintes e se indiretamente em toda a cadeia produtiva,


forme o painel. Alguns painéis de madeira desde a definição da espécie de madeira a ser
reconstituída mais conhecidos no mercado utilizada e plantada até o produto final
nacional se diferenciam pelo grau de comercializado.
fragmentação da madeira utilizada, dentre
A elaboração deste trabalho visa contribuir com
vários podem ser citados o MDF (Painel de
apresentação de resultados sobre a qualidade
fibras de média densidade), o MDP (Painel de
de colagem nos shapes de skates, que pode
partículas de madeira de média densidade), o
desta forma trazer conhecimento para
OSB (Painel de partículas longas de madeira) e
empresários do setor e direcionar a eles
o compensado, que é utilizado para fabricação
questionamentos sobre a qualidade do produto,
de shapes de skates. Vale ressaltar que esta
e assim permitir a aplicação de novas
classificação de painéis de madeira aqui citada
tecnologias para produção de shapes de
não limita os tipos de painéis existentes, já que
skates.
o grau de compactação que relacionada à
densidade do painel, a composição de
camadas internas e a orientação das lâminas,
2. DESENVOLVIMENTO E MÉTODOS
por exemplo, podem indicar ainda outras
UTILIZADOS
classificações (IWAKIRI; KEINERT JÚNIOR;
MENDES, 2005). Os testes para verificação da qualidade de
colagem das lâminas do compensado foram
A avaliação da qualidade de colagem para
realizados com base na norma NBR
shapes de skates é importante para garantir a
12466/2012, para isto foi utilizada uma máquina
qualidade de produtos e assegurar a qualidade
universal de ensaios mecânicos EMIC, situada
da prática do esporte, no entanto,
no Laboratório de Propriedades dos Materiais –
procedimentos adequados devem ser seguidos
Campus de Itapeva - Unesp. A análise da
para que se possa fazer um comparativo com
qualidade colagem foi realizada com os corpos
resultados científicos e dados comerciais. A
de prova secos, sem tratamento prévio.
norma NBR 12466/2012 da Associação
Brasileira de Normas Técnicas (ABNT) atesta a Neste trabalho foi utilizado um shape com
qualidade de colagem das lâminas de lâminas de madeira de Pau-marfim
compensados, porém os ensaios são (Balfourodendron riedelianum (Engl.) Engl) e
normalizados para painéis planos, sem formatos adesivo epóxi. Os corpos de prova foram
curvos, diferente dos shapes análisados neste obtidos com o corte do shape em uma máquina
trabalho (ABNT, 2012). esquadrejadeira com serra circular. A figura 1
ilustra a posição e orientação dos corpos de
Diante do exposto é justificada a elaboração
prova retirados do shape.
deste trabalho, com a contribuição de
conhecimentos envolvidos de forma direta ou

Figura 2: Posição e orientação da retirada dos corpos de prova para ensaio de cisalhamento.

Os corpos de prova foram retirados do longitudinal do shape, onde se objetiva


shape de maneira aleatória, distribuídos com investigar se há influencia desta região de
orientações paralela e perpendicular às retirada do corpo de prova sobre a
fibras. Foram retirados também os corpos de qualidade de colagem. A tabela 1 apresenta
prova nas extremidades da direção

Gestão da Produção em Foco - Volume 4


154

a nomenclatura adotada para os corpos de


prova.
Tabela 1: Nomenclatura adotda para os corpos de prova.

Código Significado Comentário

Esquerdo Corpo de prova situado no lado


E.
esquerdo
Localização C. Centro Corpo de prova situado no centro
Direito Corpo de prova situado no lado
D.
direito
Perpendicular Corpo de prova tem orientação
PP
perpendicular às fibras da madeira
Sentido das Fibras
Paralelo Corpo de prova tem orientação
PR
paralela às fibras da madeira

A nomenclatura adotada que define necessários 25 mm de distâncias entre os


orientação dos corpos de prova, rasgos, a distância mínima entre a área
perpendicular e paralela às fibras, está destinada às garras de fixação do corpo de
relacionada a orientação da direção prova na máquina de ensaio é de 50 mm. A
longitudinal dos corpos de prova em relação espessura dos rasgos é definida pela
à direção das fibras das lâminas externas do espessura da ferramenta de corte e segundo
shape. a norma, a profundidade do rasgo deve
atingir a lâmina interna do corpo de prova. A
As dimensões dos corpos de prova foram
figura 2 ilustra as dimensões dos corpos de
estabelecidas de acordo com a norma
NBR12466/2012 . Segundo esta norma são prova para a direção paralela às fibras.
Figura 3: Dimensões dos corpos de prova para ensaio de cisalhamento

Os corpos de prova nas direções corpos de prova, que devido aos entalhes
perpendiculares às fibras seguem as executados, permitem o cisalhamento da
mesmas dimensões especificadas para os lâmina interna. A figura 3a e 3b apresentam
corpos de prova retirados na direção a execução do ensaio de cisalhamento.
paralela às fibras.
Durante os ensaios, foram aplicadas cargas
constantes sobre a direção longitudinal dos

Gestão da Produção em Foco - Volume 4


155

Figura 4: Ensaio de cisalhamento dos corpos de prova retirados do shape.

a b

Para determinação da resistência ao l é o comprimento dá área


cisalhamento foi determinado a área de cisalhante, em milímetros (mm)
cisalhamento de cada corpo de prova
utilizando um paquímetro digital com b é a largura da área cisalhante em
resolução de 0,01 mm. A resistência ao milímetros (mm)
cisalhamento depende também da força
aplicada sobre o corpo de prova, que é
determinada pela máquina universal de
ensaio. Por meio da equação 1 é possível
calcular a resistência ao cisalhamento que A qualidade de colagem expressa em cada
permite atestar a qualidade de colagem das corpo de prova é atestada com a comparação
lâminas do shape de skate. dos resultados obtidos com os valores
encontrados na norma NBR12466/2012. A
tabela 2 apresenta os requisítos mínimos
F para colagem de compensados, nesta tabela
fv  são relacionados os valores de resitência ao
l b cisalhamento com a porcentagem de ruptura
aparente que ocorre sobre a madeira da
lâmina interna. Para um corpo de prova em
Onde: que a média da resistência obtida ocorreu
F é a força de ruptura do corpo de entre 0,4 N/mm² e a 0,6 N/mm² a ruptura na
prova em Newtons (N) madeira tem que ser maior que 60% da
região que sofre cisalhamento.

Tabela 2: Requisítos mínimos para atestar a qualidade de colagem dos shapes.


Média da resistência ao corte fv Média da ruptura aparente na
(N/mm²) madeira (%)

0,2 ≤ fv < 0,4 ≥ 80


0,4 ≤ fv < 0,6 ≥ 60
0,6 ≤ fv < 1,0 ≥ 40
1,0 ≤ fv Sem exigência
Fonte: BR12466/2012.

Gestão da Produção em Foco - Volume 4


156

Os resultados foram analisados tabelas 3 e 4. A figura 4 ilustra os valores


estatísticamente com auxilio de testes de médios e a dispersão dos resultados de
hipóeteses. Uma ANOVA foi aplicada para resistência ao cisalhamento para cada
avaliar se há diferença estatística sobre a tratamento experimental.
resistência do cisalhamento entre os corpos
Na figura 4, o tamanho das barras indica a
de prova retirados do centro do shape e os
dispersão dos valores enquanto os valores ao
corpos de prova retirados nas extremidas
lado da barra correspondem aos valores
curvas dos shapes. Um teste de Tukey 95%
médios, estes também estão indicados pelas
foi realizado para comparação de médias,
marcações internas nas barras. Desta forma é
este teste permite verificar se há igualdade
evidênciada uma proximidade entre os
estatística entre a orientação dos corpos de
valores médios sobre os tratamentos
prova em relação à orientação das fibras das
análisados o que sugere não haver influência
lâminas externas. A igualdade estatística
entre posição dos corpos de prova e direção
também avaliada entre as posições de
das fibras das lâminas externas. No entanto, a
retirada dos corpos de prova. Para análise
presença de influência significativa sobre
estatística foi utilizado o software Minitab 17.
estas variações somente é confirmada com os
resultlados da realização de ANOVA, sendo
3. RESULTADOS estes apresentados na tabela 3.

Os resultados obtidos a partir da etapa


experimental estão expressos na figura 4 e
Figura 5: Resistência ao cisalhamento para as combinações avalidas na etapa experimental.

25
Resistência ao Cisalhamento (MPa)

20

15

10 9,3125 9,85833
8,534
7,995
7,10444
5,71
5

0
E. PR C. PR. D. PR. E. PP. C. PP. D. PP.

A qualidade da colagem é avaliada a partir Ferreira et al. (2012). Goulart et al. (2012)
dos valores médios para a resistência ao obteviveram valores de 4,40 MPa para os
cisalhamento, sendo que para todos os compensados produzidos com adesivos a
valores obtidos, os resultados foram base de Fenlo-formoldeído, enquanto
superiores a 1 N/mm² ou em unidade Ferreira et al. (2012) obtiveram resultados
equivalente, 1 MPa. Assim, de acordo com a de 3,58 MPa para compensados produzidos
norma NBR 12466/2012 é possível atestar a com adesivo à de base acetato de
qualidade de colagem das lâminas do shape polivinila (PVA), lâminas de madeira de
perante a compensados comerciais. Eucalipytus sp. e prensagem de 15 minutos
a uma temperatura de 90°.
Os resultados de resistência ao cisalhamento
foram superiores aos trabalhos científicos
elaborados por Goulart et al. (2012) e

Gestão da Produção em Foco - Volume 4


157

Tabela 3: Análise de variância para os valores de resistência ao cisalhamento.


Source DF SS MS F-value p-valor
Factor 5 67,49 13,50 0,15 0,426
Error 26 344,03 13,23
Total 31 411,51

Por meio da análise de variância verificou-se localização sobre os resultados. A hipótese


que o p-valor é maior que 0,05, ou seja, não nula foi aceita e está relacionada à igualdade
existe influência significativa dos fatores e entre os resultados.
suas combinações relacionadas a orientação
de retirada dos corpos de prova e

Tabela 4: Comparação de Médias sobre os tratamentos.


Fatores Teste de Tukey 95%
Média (Mpa)
C. PR. 9,86 a
E. PR. 9,31 a
E. PP. 8,53 a
D. PP. 8,00 a
C.PP. 7,10 a
D. PR. 5,71 a
* Valores médios acompanhados de mesma letra não possuem diferença estatística

Na tabela 4 é evidênciado que os valores equivalente ou superior aos compensados


médios são estatisticamente equivalentes por comerciais.
meio da realização do teste de tukey, desta
A combinação do adesivo e da espécie de
forma é possível inferir sobre o processo de
madeira utilizada para as lâminas do
fabricação do shape de skate e permite
compensado para fabricação do shape
afirmar que durante a prensagem para
possibilitaram resultados de resistência ao
fabricação do painel é praticamente uniforme
cisalhamento, superiores aos valores
e não torna uma região com maior
recomendados pela norma NBR 12466. Esta
resistencia em relação à outras.
combinação também permitiu que os
resultados fossem superiores a alguns
trabalhos científicos, com isto, é possível
4. CONCLUSÕES
concluir que esta combinação utilizada é
Com a análise dos resultados obtidos é adequada possui qualidade de colagem das
possível obter as seguintes conclusões lâminas superior aos compensados
acerca deste estudo. comerciais.
Os resultados de resistência ao cisalhamento A análise estatística permitiu verificar que não
foram superiores a 1 MPa, o que atinge os há influência da orientação dos corpos de
requisitos mínimos de resistência ao prova sobre o shape, assim é possível
cisalhamento sem a necessidade da concluir que a resistência ao cisalhamento
avaliação sobre a porcentagem de ruptura na sobre as direções paralelas e perpendiculares
lâmina interna de madeira. Assim, é possível às fibras são equivalentes e não apresentam
atestar que o shape de skate produzido uma tendência de maior resistência sobre
possui qualidade da colagem das lâminas uma determinada direção. Diante disto é
possível afirmar que o processo produtivo do

Gestão da Produção em Foco - Volume 4


158

shape não prejudica em nenhuma das duas cisalhamento é estatisticamente equivalente


direções de alinhamento das fibras e é em todo o shape.
possível concluir também que a resistência ao

REFERÊNCIAS ADOS-DO-SKATE-NO-BRASIL-E-NO-MUNDO>.
ACESSO EM: 12 JUL. 2017.
[1] ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS
TÉCNICAS. NBR 12466: MADEIRA COMPENSADA [7] FERREIRA, B. S.; CAMPOS, C. I.; SILVA,
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2012. LINHA DE COLA DE COMPENSADOS DE
EUCALYPTUS SP. E ADESIVO PVA. FLORESTA E
[2] ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DA AMBIENTE, N.19(2), P. 141-146, 2012.
INDÚSTRIA DE MADEIRA PROCESSADA
MECANICAMENTE. ESTUDO SETORIAL 2009. [8] GOULART, S. L.; MORI, F. A.; ALMEIDA,
CURITIBA, N.15, 2009. N. A.; MENDES, R. F.; MENDES, L. M.
RESISTÊNCIA AO CISALHAMENTO DE PAINÉIS
[3] BERGLUND, L.; ROWELL, M. R. WOOD COMPENSADOS PRODUZIDOS COM ADESIVO À
COMPOSITES. IN: ROWELL, M. R. HANDBOOK OF BASE DE TANINOS DE STRYPHNODENDRON
WOOD CHEMISTRY AND WOOD COMPOSITES. ADSTRINGENS (BARBATIMÃO). . FLORESTA E
BOCA RATON, FL: CRC PRESS, 2005. P. 281-301. AMBIENTE, N. 19(3), P. 308-315, 2012.
CAP.10.
[9] IWAKIRI, S; KEINERT JÚNIOR, S;
[4] CALIL JUNIOR, C.; LAHR, F. A. R.; DIAS, MENDES, M. L. PAINÉIS DE MADEIRAS
A. A. DIMENSIONAMENTO DE ELEMENTOS COMPENSADA. IWAKIRI, S. PAINÉIS DE MADEIRA
ESTRUTURAIS DE MADEIRA. BARUERI: MANOLE, RECONSTITUÍDA. CURITIBA, PR: ED. FUPEF,
2003. 157P. 254P. 2005. CAP. 3.
[5] CONFEDERAÇÃO BRASILEIRA DE [10] MARTINES, E.; SILVA, E. F. FABRICAÇÃO
SKATE. PESQUISA DATAFOLHA 2015. [S. L.]: DE SHAPES DE SKATE. INSTITUTO DE
CONFEDERAÇÃO BRASILEIRA DE SKATE, 2015. TECNOLOGIA DO PARANÁ, 2012. 23P.
[6] CONFERERAÇÃO BRASILEIRA DE [11] ROTH, C. A. VISTA SKATEBOARD.
SKATE. MERCADOS DO SKATE NO BRASIL E NO CENTRAL DE CASES ESPM, [S.L], P.1-5, MAR.
MUNDO. 2016. DISPONÍVEL EM: < 2010.
HTTP://UMTI.DYNDNS.INFO:8040/PAGINAS/MERC

Gestão da Produção em Foco - Volume 4


159

CAPÍTULO 15

Rômulo de Arêa Leão Araújo Sobrinho


Belchior Rodrigues dos Santos Neto
Mariana Silva Moura
Maria Clara Almendra Freitas Cortez
Francismilton Teles

Resumo: Este trabalho relata em um estudo de caso, uma abordagem da


implementação do MASP como ferramenta para a identificação, observação e
resolução de problemas de desperdício de material na produção de artigos de
concreto pré-moldado em uma empresa de Teresina, Piauí, tendo como objetivo a
proposição de um plano de ação que pudesse bloquear as causas do problema e
incentivar a melhoria contínua. A coleta dos dados foi realizada em uma visita para
realização de entrevista com o proprietário da empresa e uma visita para
observação do processo produtivo e reunião com os responsáveis pela produção,
a fim de identificar e avaliar as possíveis causas do problema, para que uma
solução assertiva e amplamente defendida fosse desenvolvida. Por fim, os
resultados finais deste trabalho revelam as principais causas do problema da
empresa e propõe um plano de ação voltado para resolução da complicação.

Palavras-chave: Gestãoda Qualidade MASP Pré moldados

Gestão da Produção em Foco - Volume 4


160

1 INTRODUÇÃO Devido à importância do setor de pré-


moldados, enfatizada pelos dados acima
A construção civil no Brasil é de importante mencionados, o objetivo geral deste trabalho
participação no cenário das atividades é estudar o processo produtivo da Mr. Pré-
econômicas realizadas no país. Nos últimos moldados e aplicar o MASP – Metodologia de
anos, o setor vem ganhando produtividade e Análise e Solução de Problemas – para
uma ampla participação no PIB Brasileiro, o identificar e explorar o problema e, por fim,
que acarreta várias mudanças e tendências propor uma solução para a empresa.
de crescimento para o setor industrial.
(OLIVEIRA, 2012).
2 REFERENCIAL TEÓRICO
Entretanto, seu desenvolvimento tecnológico,
não reproduz a importância econômica 2.1 GESTÃO DA QUALIDADE
representada na economia nacional. O
A busca pela qualidade de produtos e
desperdício de recursos e a má qualidade da
serviços é cada vez mais presente na
mão de obra, são recorrentes nos mais
sociedade, por meio do aumento da exigência
diversos fóruns de discussão do setor
dos clientes, pelo ambiente organizacional,
(SENDEN, 2015).
onde a concorrência está cada vez mais
A construção civil é comumente vista como acirrada. Nesse contexto, a qualidade
atrasada, quando comparada a outros ramos estabelece um diferencial competitivo para as
industriais. A razão disso é o fato de organizações, por meio de melhorias nos
apresentar, de maneira geral, baixa processos e na qualificação das pessoas e
produtividade, desperdício de materiais e minimização dos defeitos (CARVALHO;
baixo controle de qualidade (BRUMATI, PALADINI, 2012).
2008).
A organização das empresas na gestão da
Neste sentido, a nova realidade imposta à qualidade consiste em produtos e serviços
construção civil brasileira, coloca a pré- com qualidade, envolvendo alta conformação
moldagem das estruturas como alvo de às especificações, aparência atrativa do
interesse crescente na busca por produto, baixos defeitos, tempo curto de
modernização do setor. O potencial desta manufatura além da tecnologia envolvida no
técnica, principalmente na construção de processo. O crescente uso de tecnologias na
estruturas de edifícios de pequena altura, é produção associadas ao processo da gestão
notável no Brasil (MARCOS NETO, 1998). da qualidade possibilita um aumento da
produtividade e competitividade (MARINO,
Para Senden (2015), os pré-moldados
2006).
oferecem, ainda, diversas vantagens técnicas
e logísticas quando falta espaço no canteiro De acordo com a NBR ISO 9000:2005 é
de obra. Neste caso, usa-se elementos necessário dirigir e controlar a organização
protendidos (pré-tensão e pós-tensão) que com transparência e sistemática a fim de
previnem deformações e fissuras nas peças alcançar o sucesso. Para tanto, pode-se
de concreto. Além disso, o método atende utilizar um sistema de gestão, como por
uma gestão voltada ao just in time, em que os exemplo, a gestão da qualidade, concebido
componentes chegam apenas na hora da para melhorar continuamente o desempenho
montagem, sem necessidade de estoque e da organização. Deste modo, “o sistema de
mão de obra ociosa. gestão da qualidade representa a parte do
sistema de gestão da organização cujo
Apesar da busca incessante por materiais de
enfoque é alcançar resultados em relação aos
concreto pré-moldado, a empresa foco deste
objetivos da qualidade, para satisfazer às
estudo, Mr. N Pré-moldados, empresa
necessidades, expectativas e requisitos das
localizada entre os municípios de Teresina e
partes interessadas” (NBR ISO 9000, 2005,
Demerval Lobão, apresenta dificuldades no
p.7)
fornecimento de seus produtos,
principalmente ocasionados pelo desperdício
de matéria prima durante o seu processo
2.1.1 MASP
produtivo, o que é refletido nos altos custos
de produção e, consequentemente, no preço Segundo Sampara, Mattioda e Cardoso
de venda, minando a competitividade da (2009), o método para análise de solução de
empresa frente aos seus concorrentes. problemas permite a geração de melhorias e
tomada de decisões, onde a solução de

Gestão da Produção em Foco - Volume 4


161

problemas é possível através das análises do execução do plano elaborado; na etapa de


relacionamento entre características e causas verificação busca-se saber se a causa do
de um problema, com a tomada de ações problema foi bloqueada e a etapa de ação
corretivas apropriadas. divide-se em padronização, para a prevenção
do reaparecimento do problema e conclusão,
Além disso, o MASP é realizado com base no
buscando melhorias futuras (MARIANI, 2005).
ciclo PDCA (Planejar, Executar, Verificar e
Na figura 1 ilustra-se graficamente a
Agir). A etapa de planejamento engloba a
Metodologia de Análise e Resolução de
identificação do problema, observação,
Problemas:
análise das causas e elaboração do plano de
ação; a etapa de execução refere-se à

Figura 1 – Representação gráfica do MASP.

Fonte: Adaptado de Campos (2004)

2.2 FERRAMENTAS DA QUALIDADE Assim, segundo Costa (2010) Kaoru Ishikawa


foi o responsável pela criação de um método
Para melhor entendimento acerca das
que mudou a maneira de como as pessoas
ferramentas da qualidade, é importante
pensam sobre o controle de qualidade,
observar que o conceito de qualidade vem
técnicas conhecidas como: As Sete
evoluindo com o tempo, inicialmente apenas
Ferramentas de Controle de Qualidade.
relacionado à conformidade e com as
Segundo o autor esse conjunto de
especificações, posteriormente ligada a visão
procedimentos possibilita para a organização
de satisfação e atualmente, a um conceito
melhorar etapas de produção, além de
mais global como ferramenta estratégica na
identificar problemas e priorizá-los facilitando
sustentabilidade das organizações (JURAN,
a tomada de decisão.
1992). Nesse contexto, conforme Nadae et al
(2009) as ferramentas da qualidade foram Nesse sentido, dentre as ferramentas
estruturadas, especialmente, após a segunda existentes cabe a organização selecionar as
metade do século XX e continuam sendo ferramentas mais adequadas para
incorporadas aos sistemas de gestão determinada problemática, segundo
empresarial nos dias atuais. Montgomery (2004) as ferramentas da
qualidade são: Fluxograma, diagrama de

Gestão da Produção em Foco - Volume 4


162

ishikawa, folhas de verificação, diagrama de os níveis de detalhe adequados à solução do


pareto, histograma, diagrama de dispersão e problema. Entre as vantagens dessa
as cartas de controle. O Diagrama de Causa e ferramenta, estão a hierarquização das
efeito, por exemplo, é uma importante causas identificadas, foco no problema,
ferramenta usada na gestão, controle e no condução a uma efetiva pesquisa das causas,
sistema de gerenciamento da qualidade, aplicável a problemas de diferentes naturezas
assunto abordado no próximo tópico. e identificação do nível de compreensão que
a equipe tem do problema (LINS, 1993).
A Figura 2 representa o Diagrama de Causa e
2.2.1 DIAGRAMA DE CAUSA E EFEITO
Efeito, onde à esquerda são enumeradas as
O Diagrama de Causa e Efeito (ou Diagrama possíveis causas do problema e à direita o
de Ishikawa), é utilizado para identificar as problema é descrito.
causas de um problema. A partir de possíveis
causas, o diagrama permite desdobrá-las até

Figura 2 – Representação do diagrama de causa e efeito.

Fonte: Adaptada de Lins (1993).

De acordo com Fornari Junior (2010), o objetivo e com uma alta facilidade de uso,
Diagrama de Causa e Efeito é elaborado de que ganhou popularidade com a propagação
acordo com os seguintes passos: das práticas de gestão de qualidade e
determinação do problema a ser estudado projetos.
(identificação do efeito); relato das possíveis
Polacinski (2012, apud SILVA, 2013) descreve
causas, com o registro no diagrama;
que a esse plano de ação utiliza-se atividades
construção do diagrama e classificação das
pré-estabelecidas e que necessitam de um
causas em “6M” (mão-de-obra, método,
desenvolvimento mais esclarecedor, além de
matéria-prima, medida e meio-ambiente);
servir para mapear tais atividades. Segundo
análise do diagrama, identificando as
Lisbôa & Godoy (2012), o método do 5W2H
verdadeiras causas e correção do problema.
proporciona ao tomador de decisão um auxílio
na identificação de problemas, analisa seus
aspectos, tornando mais simples encontrar a
2.2.2 5W2H
solução. A ferramenta possui tal nome porque
Essa ferramenta é conhecida como um plano seu objetivo principal é responder sete
de ação, segundo Werkema (1995), o 5w2h é questões descritas a seguir:
resultado final do desenvolvimento da etapa
Plan do ciclo PDCA de maneira simples,

Gestão da Produção em Foco - Volume 4


163

 What (o quê?): qual item de controle  Preparação dos materiais: nesta fase
está sendo avaliado? ocorre a dosagem do concreto e a
preparação das armaduras, corte e
 Who (quem?): quem é o responsável dobramento das barras de aço;
pela atividade que está sendo avaliada?  Transporte dos materiais ao local de
 Where (onde?): onde a atividade em trabalho;
questão é executada?  Preparação da forma e da armadura
(limpeza, aplicação do óleo desmoldante,
 Why (por quê?): qual o motivo da colocação da armadura e aplicação das
realização de tal atividade? cargas de protensão;
 Moldagem: lançamento do concreto
 When (quando?): em que período a nas fôrmas e adensamento mecânico;
atividade é realizada?  Cura do concreto: período que o
 How (como?): de que modo a concreto permanece na forma para adquirir
atividade é executada? resistência;
 Desmoldagem: etapa que envolve a
 How much (quanto?): quanto se gasta retirada do elemento de sua fôrma;
ou se perde na operação estudada?  Transporte interno: transporte do
elemento do local de moldagem até o local de
armazenamento;
2.3 PROCESSOS DE PRODUÇÃO DE PRÉ-  Acabamentos finais: investigação e
MOLDADOS reparo de alguns detalhes, como bolhas que
ficam expostas após a concretagem e;
A produção de elementos estruturais de
 Armazenamento: período que o
concreto pré-moldado, vai desde a etapa de
elemento permanece na fábrica até seu envio
execução dos elementos, até sua disposição
à obra.
final na obra. A execução dos elementos pré-
moldados - parte que cabe ao Mr. Pré-
Nesse contexto, as fases processo produtivo
Moldados - pode ser subdividida em nove
do pré-moldado, pode ser representado de
fases (SENDEN, 2015):
acordo com a figura 3, abaixo:

Figura 3 - Resumo do processo produtivo do pré-moldado.

Fonte: elaboração dos autores.

Segundo Richardson (1991, apud MARCOS armadura, permitem alterar a realidade da


NETO, 1998), a garantia de qualidade é um construção civil.
possível diferencial da técnica de pré-
Ainda segundo o autor, dispostos os
moldagem. A utilização de parâmetros
indicadores de qualidade desejáveis, outro
(indicadores) desejáveis, referentes à
fator determinante, e de interesse capital, no
durabilidade do produto, como fator água-
quesito da qualidade, é estabelecer índices
cimento, nível de adensamento, possibilidade
de controle ao longo do processo, que
de cura e garantia do cobrimento da
englobem:

Gestão da Produção em Foco - Volume 4


164

 Erro de confecção e leitura de projeto; eficácia do bloqueio, padronização e


 Erro de corte e preparo da armadura; conclusão, cabe à gerência da empresa,
 Erro de dosagens do concreto; sendo apenas realizada uma proposta de
 Erro do nível de adensamento seguimento da metodologia.
desejado;
 Erro de armazenamento;
 Erro no transporte dos elementos; 4 RESULTADOS E DISCUSSÃO
 Erro de posicionamento de elementos
4.1 A EMPRESA
na montagem.
Marcos Neto (1998) ressalta que, se A empresa Mr. N. Premoldados é uma
ponderados adequadamente, estes empresa de materiais de concreto pré-
indicadores podem tornar-se poderosos moldado para construção civil, localizada no
parâmetros para o estabelecimento de ações trecho entre Teresina e Demerval Lobão. O
corretivas e preventivas, a fim da busca presente trabalho focou no sistema produtivo
incessante pela melhoria contínua do de maneira sistêmica, visto que os processos
processo. dos diferentes produtos funcionam da mesma
forma, tendo como alteração apenas o tipo de
molde a ser utilizado. Todas as etapas
3 METODOLOGIA subsequentes seguem da mesma forma.
A pesquisa científica pode ser classificada de Não existe um organograma bem definido na
acordo com sua finalidade (básica ou empresa. Atualmente, são 20 funcionários
específica), de acordo com seus objetivos divididos entre os cargos de motoristas,
(exploratória, descritiva ou explicativa) e soldadores dos moldes e operários. A função
quanto aos métodos (GIL, 2010). de supervisão cabe ao filho do proprietário,
que acumula também a função de gerência
Este trabalho tem como finalidade uma
da fábrica. Já o proprietário é responsável
pesquisa básica, visto que pretende-se
pelo setor comercial e financeiro.
agregar conhecimento sobre um tema geral.
Quanto aos objetivos, a pesquisa tem caráter
descritivo, pois identifica relações entre
4.2 IDENTIFICAÇÃO DO PROBLEMA
variáveis, proporcionando uma visão
diferenciada sobre o problema de pesquisa. No dia 2 de Abril de 2017 realizou-se uma
Por fim, em relação aos métodos, esta primeira visita, a fim de conhecer a fábrica,
pesquisa é classificada como um estudo de conversar com o proprietário sobre um
caso, caracterizado por ser um estudo panorama geral e conhecer suas dores.
profundo, de poucos objetivos, permitindo Mesmo com a planta parada por 15 dias e
amplo e detalhado conhecimento (GIL, 2010). todos os funcionários em férias coletivas, foi
informado à equipe de pesquisadores de que
Quanto à abordagem do problema, Prodanov
o principal problema que a fábrica enfrentava,
e De Freitas (2013) defendem que a pesquisa
era o alto custo de produção, ocasionado
pode ser quantitativa, onde dados e
pelo desperdício de material durante o
informações são transformados em números
processo produtivo.
e, desta forma, analisados, qualitativa,
quando há a interpretação dos dados obtidos, Este alto custo minava a produtividade da
ou mista, quando há características das duas empresa que, segundo o proprietário, já fora
categorias anteriormente mencionadas. líder do segmento, fornecendo inclusive para
prefeituras e governos de gestões anteriores.
Desta forma, classifica-se esta pesquisa como
Entretanto, a adoção de tecnologias de
qualitativa, devido à interpretação e análise
fabricação mais econômicas por parte dos
do problema, com a utilização da ferramenta
concorrentes, tornou o preço da Mr. N
MASP - Metodologia de Análise e Solução de
Premoldados defasado, cerceando as
Problemas - para identificação da causa raiz e
chances da empresa de ganhar licitações e,
proposição de um plano de ação.
desta forma, perdendo sua fatia de mercado.
Esta pesquisa visou auxiliar a gerência da
empresa na parte de Planejamento do MASP,
representada pela: identificação do problema;
observação; análise; e desenvolvimento do
plano de ação. As demais etapas como
execução do plano de ação, verificação da

Gestão da Produção em Foco - Volume 4


165

4.3 OBSERVAÇÃO DO PROBLEMA A reunião teve duração de 2 horas e teve


como objetivo identificar possíveis causas que
Em uma segunda visita realizada no dia 5 de
pudessem ocasionar o desperdício de
Maio de 2017, após o retorno das atividades
material durante o processo produtivo. Todas
por parte dos operários, buscou-se,
as sugestões foram anotadas e ao final da
inicialmente, observar o processo produtivo e
sessão, houve votação para identificar as
o método empregado pelos operários em
causas mais relevantes. Tais causas são
cada etapa do processo. Em seguida,
listadas no Diagrama de Causa e Efeito da
realizou-se um brainstorming com o gerente, o
Figura 4:
proprietário e o operário mais antigo da
fábrica, identificado como líder da produção.

Figura 4 - Diagrama de Causa e Efeito.

Fonte: Elaboração dos autores.

Após o desenvolvimento do diagrama, houve causas, pois as três estavam intimamente


nova reunião com a mesma equipe, na tarde relacionadas.
do mesmo dia, para que fossem debatidas
Não havia de fato um erro de cálculo de
cada uma das possíveis causas.
quantidades, mas uma defasagem. Os
Nesta reunião, eliminou-se a possibilidade de cálculos nas quantidades de matéria prima a
a causa raiz ser o uso de concreto de baixa ser curada foram realizados há cerca de 15
qualidade, pois o concreto utilizado é de anos atrás, quando os materiais possuíam
origem certificada e é o mesmo utilizado pelos propriedades físico-mecânicas pouco
concorrentes. Quanto a antiguidade dos avançados, necessitando de quantidades
moldes, eliminou-se a possibilidade por diferentes das atuais.Seria então necessário
existirem soldadores responsáveis por realizar um novo cálculo das quantidades
manutenção constante, mantendo sempre nos necessárias. Desta forma, sugeriu-se à
padrões exigidos. Realizou-se testes de gerência que houvesse a contratação de uma
aferição na balança, constatando sua consultoria técnica com equipamentos e
regulagem normal. Por fim, eliminou-se a conhecimentos adequados à realização da
possibilidade de indisciplina do operário tarefa.
quanto ao padrão, pois constatou-se que não
Seguinte a isso, realiza-se a padronização do
havia padrão formalizado, apenas empírico.
processo produtivo, contendo os passos a
serem seguidos por todos os operários,
sempre, e com a indicação de quantidades
4.4 ANÁLISE DOS FATOS
em cada passo, quando necessário. Para
Após as duas reuniões, restaram então 3 isso, propôs-se à empresa o desenvolvimento
possíveis causas. Entretanto, houve um de um POP - Procedimento Operacional
consenso de que não se poderia combater o Padrão - para cada um dos produtos
problema, combatendo apenas uma das oferecidos, a fim de mitigar os efeitos da

Gestão da Produção em Foco - Volume 4


166

variabilidade dos diferentes métodos e editável de POP, inclusive com sugestão de


quantidades empregados pelos funcionários. revisão periódica do procedimento, conforme
Junto com a sugestão, disponibilizou-se uma a Figura 5:
planilha em Excel contendo um modelo

Figura 5 – Modelo editável de POP

Fonte: Elaboração dos autores

Por fim, propôs-se o treinamento dos 4.5 PROPOSIÇÃO DO PLANO DE AÇÃO


operários com base nos novos procedimentos
Com base nas sugestões realizadas no tópico
formalizados, enfatizando a necessidade e a
anterior, desenvolveu-se, em conjunto com a
importância de seguir o POP e os benefícios
gerência da fábrica, um plano de ação que
de seu uso.
representasse a formalização das decisões
tomadas nas reuniões anteriores. O Quadro 1
apresenta o Plano de Ação acordado com a
gerência:

Gestão da Produção em Foco - Volume 4


167

TABELA 1 – Plano de ação


O Quê Quem Quando Onde Porquê Como
Pesquisa de preços
e orçamentos de Para buscar
Por meio de
consultorias o menor
Gerente de Setor telefonemas,
técnicas 15/5/2017 preço com a
Fábrica Administrativo e-mails e
especializadas em melhor
visitas
soluções de técnica
concreto
Para Escolha da
desenvolver consultoria
o novo que
Contratação da Setor
Proprietário 30/5/2017 método de apresentar o
consultoria técnica administrativo
produção melhor preço e
dos pré- a melhor
moldados técnica
Para atualizar
as Por meio da
Desenvolvimento do
Equipe de Chão de quantidades técnica que a
novo processo de 30/6/2017
consultores Fábrica de material e equipe possuir
produção
os métodos experiência
empregados
Para Preenchimento
formalizar os do modelo
Desenvolvimento Gerente de Setor novos disponibilizado
15/6/2017
dos POPs Fábrica administrativo padrões a pelos
serem
seguidos pesquisadores

Para
comunicar a
Realização dos existência de Treinamento
Gerente de Sala de
treinamentos 30/6/2017 novos teórico e
Fábrica Treinamentos
referente aos POPs padrões e prático
treinar os
operadores
Para Coleta de
Coleta de resultados
confirmar se dados e
e análise dos Setor
Proprietário 30/7/2017 houve análise dos
ganhos em relação administrativo
melhoria e de relatórios
ao método antigo
quanto houve gerenciais
Fonte: Elaboração dos autores

Incluiu-se no Plano de Ação, a análise dos produção, bem como índices de eficiência,
ganhos do novo método desenvolvido em eficácia e qualidade, por exemplo.
relação ao anterior para que haja, desta
forma, uma mensuração financeira dos
ganhos. Sugere-se ainda, que a análise de 5 CONSIDERAÇÕES FINAIS
dados da produção torne-se uma rotina. Para
Com base nas entrevistas realizadas com os
isso, o ideal seria o desenvolvimento de
gestores e líderes de produção da empresa e
indicadores de produtividade que sejam
nas observações realizadas in loco, observou-
alimentados e analisados periodicamente, já
se a real falta de padronização do processo
que constatou-se nesta pesquisa que não há
produtivo, onde cada funcionário seguia sua
o hábito de mensurar as perdas e ganhos da
própria sequência lógica e seus cálculos de

Gestão da Produção em Foco - Volume 4


168

quantidade de matéria a ser utilizada, com O presente trabalho alcançou seu objetivo
base em sua experiência empírica. geral, visto que o estudo do processo
produtivo encontrou as possíveis causas-raiz
Desta forma, sugeriu-se à empresa a
do problema abordado pelo proprietário e que
contratação de uma consultoria técnica que
o Plano de Ações proposto foi amplamente
pudesse analisar novas tecnologias de
aceito pela gerência da empresa e que, até o
produção, bem como balanceamento das
final da redação deste trabalho, já estava
quantidades de material utilizado no
sendo colocado em prática.
processo. A partir dos resultados
apresentados pela consultoria, os próximos Desta forma, sugere-se que trabalhos futuros
passos sugeridos são a formalização dos nesta mesma organização, confiram o
novos processos de produção por meio de cumprimento do plano de ação, bem como se
POPs - Procedimentos Operacionais Padrões houve ganho real após as melhorias e se o
- e, em seguida, o treinamento dos padrão foi mantido e obedecido pelos
funcionários. operários e se este padrão é constantemente
revisado, como indicado.
Ressalta-se que apenas com esforço e
dedicação é que os resultados desejados Esta pesquisa permitiu que profissionais da
podem ser alcançados e que apenas com área e estudantes interessados na área de
comprometimento e disciplina é que os gestão da produção, principalmente,
resultados podem ser mantidos e pudessem visualizar uma aplicação prática do
padronizados. MASP - Metodologia de Análise e Solução de
Problemas - e seus desdobramentos.

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DA QUALIDADE. INSTITUTO BRASILEIRO DE ORGANIZAÇÃO DO ESPAÇO E DO
INFORMAÇÃO EM CIÊNCIA E TECNOLOGIA DESENVOLVIMENTO REGIONAL. CONGRESSO

Gestão da Produção em Foco - Volume 4


169

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TRABALHO ACADÊMICO. 2ª EDIÇÃO. RIO DE TECNOLOGIA. IN: ENCONTRO NACIONAL DE
GRANDE DO SUL: FEEVALE, 2013. ENGENHARIA DE PRODUÇÃO, 34, 2014,
CURITIBA. ANAIS DO XXXIV ENEGEP.
[16] RICHARDSON, J. G. (1991). QUALITY IN
PRECAST CONCRETE. NEW YORK, JOHN WILEY [20] SILVA, A.; RORATTOO, L.; SERVAT, M.;
& SONS INC EM: MARCOS NETO, NOÉ. DORNELES, L.; POLACINSK, E. GESTÃO DA
ESTRUTURAS PRÉ-MOLDADAS DE CONCRETO QUALIDADE: APLICAÇÃO DA FERRAMENTA
PARA EDIFÍCIOS DE MÚLTIPLOS PAVIMENTOS 5W2H COMO PLANO DE AÇÃO PARA PROJETO
DE PEQUENA ALTURA: UMA ANÁLISE CRÍTICA. DE ABERTURA DE UMA EMPRESA. SIEF.
MONOGRAFIA. SÃO CARLOS: UNIVERSIDADE DE HORIZONTINA-RS. OUTUBRO 2013.
SÃO PAULO, 1998.
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CONSTRUTIVOS EM CONCRETO PRÉ-MOLDADO. PROCESSOS. VOL. 1. BELO HORIZONTE, MG:
MONOGRAFIA. RIO DE JANEIRO: UNIVERSIDADE FUNDAÇÃO CHRISTIANO OTTONI, ESCOLA DE
FEDERAL DO RIO DE JANEIRO, 2015. ENGENHARIA DA UFMG, 1995
[18] SAMPARA, E. J. MATTIODA, R. A.
CARDOSO, R. R. ANÁLISE DE INSUMOS E

Gestão da Produção em Foco - Volume 4


170

CAPÍTULO 16

Julierme Italo Garcia do Nascimento


Érico Diego da Silva Dos Reis
Sandra de Souza Xavier
Ana Flávia Rezende

Resumo: Este artigo visa analisar e sugerir melhorias o processo de transferência


de mercadorias de um Centro de Distribuição (CD), pertencente a uma rede de
supermercados situada em uma cidade do interior de Minas Gerais. Com esse
propósito, foram revisados conceitos de gestão por processos e operações em
Centros de Distribuição. A metodologia utilizada para embasar o estudo foi
descritiva e qualitativa, através da abordagem de estudo de caso, contando com
revisão bibliográfica e levantamento de informações relevantes. As melhorias
propostas têm como objetivo tornar os processos mais fluídos, buscando
padronizar e formalizar os procedimentos adotados. Os resultados apresentados
evidenciam a importância da gestão por processos, visando à eficiência da
transferência de produtos de forma a atender as expectativas dos clientes.

Gestão da Produção em Foco - Volume 4


171

1. INTRODUÇÃO 2 REVISÃO BIBLIOGRÁFICA


O atual cenário econômico e competitivo 2.1 FUNDAMENTOS DA GESTÃO POR
exige das organizações maior compromisso PROCESSOS
com a minimização de desperdícios e atrasos
Processo é um conjunto de atividades
durante o processo logístico. A distribuição e
composto por entradas, processamento e
o armazenamento de produtos influenciam
saídas, com intuito final de oferecer um
diretamente a estratégia organizacional,
produto ou serviço ao cliente (HARRINGTON,
composta por um conjunto de decisões, que
1993; HAMME e CHAMPY, 1994; SALERNO,
englobam desde políticas de serviço ao
1999; GONÇALVES, 2000; PAIM, 2002;
cliente, estoques e logística, até decisões de
FITZSIMMONS e FITZSIMMONS, 2005).
produção (LACERDA, 2000).
Segundo Capote (2011), o gerenciamento de
As organizações vêm buscando diferentes
processos pode ser considerado um
estratégias de armazenamento de produtos.
questionamento disciplinar para poder
Ao passo dessas mudanças, a centralização
identificar, desenhar, executar, controlar e
dos estoques tem se tornado uma opção
melhorar os processos de um negócio,
atrativa devido ao seu potencial de facilitar as
visando alcançar resultados sólidos,
entregas nas empresas. Desta forma, o
alinhados com os objetivos da empresa.
Centro de Distribuição (CD) adquire destaque
Durante a sua implementação, necessita-se
na cadeia logística atual.
inicialmente compreender os processos
Ulmer et al. (2011) afirmam que o CD é a atuais. Existem várias ferramentas que
estrutura principal na distribuição de auxiliam o gestor a compreender, medir e
produtos, pois, além de estocar e distribuir os controlar as características do seu modelo de
mesmos, ele funciona como o centro da trabalho, como o mapeamento, o fluxograma
operação, e como tal, interferindo na gestão e a análise de desempenho (FITZSIMMONS e
de processos. Compreender a importância FITZSIMMONS, 2005).
dos Centros de Distribuição, e atender as
O mapeamento visa modificar positivamente
inúmeras exigências tem sido um grande
os processos já praticados, ou implantar uma
desafio.
nova estrutura processual. Araújo (2006),
É sabido que uma má administração de afirma que a eficácia da gestão por processos
estoques pode acarretar em sérios prejuízos será maximizada através do uso do
para a organização, por isso, os gestores mapeamento, dado que o mesmo identifica os
estão optando por alternativas inovadoras e pontos críticos dentro da organização.
satisfatórias para os clientes, como o CD, que
Já o fluxograma demonstra de forma simples
possuem como objetivo a resposta rápida
e eficaz, como as atividades são realizadas.
diante das necessidades e expectativas dos
De acordo com Slack et. al. (2009), os níveis
clientes através da minimização do custo do
dos processos são demonstrados em um
transporte, do tempo de entrega e também do
diagrama visual de forma a obter uma
preço dos produtos (LACERDA, 2000).
compreensão global da organização. A sua
A transferência de mercadorias pode ser relevância está relacionada ao seu baixo
considerada o princípio do funcionamento de custo, além de evidenciar, de modo
um CD, sendo a base para uma boa aprofundado, o fluxo de tarefas que envolvem
administração de estoque. Todo processo uma atividade. Diante disto, é possível obter
deve ser preciso, de modo a manter o maior compreensão de todo processo e assim
controle total de suas mercadorias, diminuir planejar evoluções (BIAZZO, 2000).
ao máximo as possíveis falhas e lacunas
De acordo com Kaydos (1991), a análise de
processuais, padronizar as ações, para que o
desempenho é um dos elementos mais
sistema funcione de forma ordenada, evitando
importantes da gestão empresarial. Os
possíveis gargalos ao longo do processo.
indicadores permitem que o gestor
O presente artigo visa analisar e sugerir compreenda o funcionamento organizacional,
melhorias ao processo de transferência de gerando informações relevantes para a
mercadorias em um Centro de Distribuição tomada de decisão.
pertencente a uma rede de supermercados
situada em uma cidade do interior de Minas
Gerais.

Gestão da Produção em Foco - Volume 4


172

2.2 ANÁLISE DE DESEMPENHO geradores de carga, localizados em área de


fácil acesso e com infraestrutura apropriada
Uma empresa pode ser vista como uma série
para cada produto armazenado (LIMA, 2002).
ordenada de atividades que visam atender as
necessidades de seus clientes. Na realização
dessas atividades, há o consumo de recursos,
2.4 FUNÇÕES DO CENTRO DE
que se bem feito e organizado, pode
DISTRIBUIÇÃO
proporcionar um diferencial para a
organização, através da redução de custos, As atividades primárias (recebimento,
maior controle de estoque e maior movimentação, armazenagem,
conhecimento dos processos. processamento de pedidos, transporte)
podem ser consideradas como as que mais
Diante de um contexto empresarial dinâmico,
contribuem para os custos dentro da
é primordial que as organizações possuam
empresa, sendo, portanto, de grande
um sistema que contenha informações sobre
importância no âmbito logístico.
o seu desempenho, dado que estas visam
auxiliar o alcance dos objetivos empresariais. A operação do CD começa com a etapa do
recebimento. Nela, ocorre a descarga dos
Os indicadores de desempenho permitem
itens enviados pelo fornecedor e
acompanhar, avaliar, decidir, interferir ou
a conferência de quantidade e
modificar a execução e o planejamento de um
qualidade. Após a conferência, são emitidas
processo, visando a melhoria dos resultados
as notas fiscais. É importante lançar esses
em determinada atividade. O sistema de
novos dados no sistema o mais breve
indicadores deve auxiliar na medição e no
possível, a fim de atualizar o estoque. Esta
controle do desempenho dos processos,
função é a base para todas as outras,
apontando a direção mais adequada a ser
portanto, deve ser realizada de forma atenta e
seguida, visando melhorias nas operações
correta (RODRIGUES, 2003).
(BOWERSOX, CLOSS e COOPER, 2007).
Segundo Vieira (2011), a movimentação pode
Os indicadores têm uma meta específica a ser
ser considerada uma das funções mais
alcançada em um determinado período de
complexas no CD, pois consiste no transporte
tempo. Segundo Johnston e Clark (2002), a
das mercadorias, podendo ser da área de
medição do desempenho tem a função de
recebimento até a área de armazenagem ou a
comunicar o que é importante e relevante
realocação de um produto já armazenado.
para a empresa, influenciando os
funcionários. Logo, a armazenagem pode ser definida
como a manutenção de um estoque
Ñauri (1998) afirma que, com a implantação
temporário dos produtos, até que sejam
de um sistema de medição de desempenho,
vendidos; enquanto o transporte consiste na
cria-se a expectativa de obtenção de alguns
retirada e na separação dos produtos
benefícios, principalmente no que diz respeito
corretos.
as melhorias de desempenho, sejam elas
relacionadas aos processos ou ao O processamento de pedidos é a última fase,
atendimento dos clientes, permitindo, dessa onde ocorre a verificação das mercadorias
forma, que as decisões sejam tomadas com anteriormente separadas. Após essa etapa, é
base em fatos, conferindo se as melhorias feita a pesagem das cargas, a validação dos
implementadas estão sendo efetivas. pedidos e a emissão dos documentos
necessários (RODRIGUES, 2003).

2.3 FUNDAMENTOS DE OPERAÇÕES EM


CENTROS DE DISTRIBUIÇÃO 3. METODOLOGIA
Conforme a Associação Brasileira de Esta pesquisa possui natureza descritiva-
Logística (2016), Centro de Distribuição (CD) qualitativa, utiliza abordagem de estudo de
pode ser definido como um armazém que tem caso, pesquisa bibliográfica e levantamento
por objetivo realizar a gestão dos estoques de de informações. A natureza descritiva, ocorre
mercadorias na distribuição fixa. quando se transcreve, analisa e estabelece
uma relação de fatos sem forjá-los (CERVO,
Os armazéns de produtos acabados,
BERVIAN e SILVA, 2007). Logo, a pesquisa
gerenciados tempos atrás pelas próprias
qualitativa analisa e realiza a interpretação de
fabricantes, foram substituídos pelos CDs,
que transformam-se em grandes polos

Gestão da Produção em Foco - Volume 4


173

aspectos mais detalhados do objeto avaliado O cadastro conta com mais de 30.000 itens
(MARCONI e LAKATOS, 2010). ativos de giro constante, sendo imprescindível
o seu controle através do sistema de
O estudo de caso é uma análise sobre uma
informação. Contudo, diante do exposto
um objeto de pesquisa que possua dados
anteriormente, a inconsistência gerada
minuciosos a serem ou não utilizados no
originava a necessidade de contagem de
campo (VERGARA, 2007). A técnica utilizada
todo estoque de três em três meses. Um
para a construção do estudo de caso foi
procedimento dispendioso, demorado e
baseada em uma pesquisa bibliográfica e
cansativo que só deve ser feito, no máximo,
levantamento de informações. A pesquisa
duas vezes ao ano, segundo as melhores
bibliográfica busca explicar um determinado
práticas.
assunto através de referências teóricas
publicadas por autores da área de Ademais, os produtos atendidos de cada
conhecimento em estudo (Cervo et al., 2007). pedido eram distribuídos às lojas sem
Já o levantamento de informações foi conferência prévia, e na presença de falhas, o
realizado através da participação direta no responsável da loja acionava o departamento
processo, observação sistemática e de logística o mais breve possível para
entrevistas informais. correções. Contudo, tais correções geravam
ineficiências e discussões entre os membros
da equipe. Assim, observa-se que o processo
4. RESULTADOS de transferência bem realizado é de absoluta
importância para a execução eficaz do
4.1 CENÁRIO ANTERIOR
controle de estoque.
Durante o período de observação, constatou-
se que a empresa tem à sua disposição um
sistema de informação capaz de gerenciar 4.2 MAPEAMENTO DO PROCESSO DE
todos os departamentos e filiais existentes. TRANSFERÊNCIA DE MERCADORIAS
Entretanto, o mesmo era subutilizado, frente
Conhecido o cenário anterior, a primeira
aos seus benefícios. A maioria das funções
proposta de melhoria foi o mapeamento do
usadas era reproduzida manualmente em
processo de transferência no respectivo
cadernos e papéis.
Centro de Distribuição, identificando os seus
O cadastro de produtos era único, mas os pontos críticos.
estoques das lojas eram independentes,
O processo de transferência inicia-se com a
gerando a necessidade de um processo de
listagem de pedidos de produtos, sendo
transferência de mercadorias através do
elaborada pelos repositores de cada unidade,
sistema. Tal processo apresentava limitações,
que após elencar os itens faltantes nas
como execução manual do processo de CD
prateleiras, encaminham a relação para o
foram identificadas inúmeras vezes em que os
colaborador responsável transformá-la em
colaboradores, desprezando as regras
uma lista padrão de pedidos e enviar ao CD.
estabelecidas, buscavam fraudar ou tão
somente facilitar seu trabalho, fazendo A etapa seguinte contempla a separação dos
pedidos via telefone e/ou pedaços de papel. produtos, sendo controlada através 3 (três)
Os pedidos informais eram inseridos no vias impressas de cada pedido. Cada via se
sistema sem fidedignidade com a solicitação destina a uma seção específica do armazém.
original, conduzindo diferenças no estoque. A primeira é encaminhada para a seção de
produtos pesados (caixas e fardos de
Quando o pedido não era especificado de
produtos alimentícios em geral). A segunda é
forma apropriada, criava-se precedente para
destinada para a seção de materiais de
que os envolvidos na separação e
limpeza, higiene pessoal e utilidades. A
carregamento fizessem a troca dos produtos
terceira é enviada para a seção de varejo. Ao
faltantes por similares. Entretanto, produtos
término da separação, essas três vias são
similares nem sempre eram informados
confrontadas e é realizada a marcação de
adequadamente, criando-se inconsistências
todas as faltas e alterações de produtos em
no sistema, na comunicação com os
cada uma delas no sistema. Logo, durante o
vendedores e consequentemente impactando
carregamento, os produtos são acomodados
negativamente todo o departamento de
em paletes, sem a atividade de conferência, e
logística.
posicionados no caminhão.

Gestão da Produção em Foco - Volume 4


174

Finalmente, é impressa uma via adicional, que 4.3 FLUXOGRAMA DO PROCESSO DE


acompanhará o produto, sendo conferida pelo TRANSFERÊNCIA DE MERCADORIAS
responsável da loja no momento do
A segunda proposta de melhoria é a utilização
descarregamento. Caso ocorra algum erro,
do fluxograma do processo de transferência
estes são encaminhados de volta para
das mercadorias desenvolvido durante a
realização de conferência.
presente pesquisa. Assim sendo, as Figuras 1
e 2 apresentam o fluxograma desenvolvido.

Figura 1: Fluxograma do processo de identificação e liberação de pedidos.

Fonte: Elaborado pelo autor (2017)

.
De forma complementar, durante a qualquer divergência, os pedidos devem
conferência, sugere-se que os pedidos sejam retornar ao CD para que sejam corrigidos.
separados e enviados para o setor de
expedição, onde será realizada uma
conferência no carregamento, e ao chegar no
destino, outra conferência. Em caso de

Gestão da Produção em Foco - Volume 4


175

Figura 2: Fluxograma do processo de separação e saída de pedidos

Fonte: Elaborado pelo autor (2017).

Visando a eficiência e eficácia da Como já existe um sistema integrado entre as


transferência dos pedidos, se faz necessário lojas e o CD, é extremamente necessário para
a implantação do sistema de localização dos um bom funcionamento do processo,
produtos no depósito, com o intuito de facilitar minimização de erros e maximização da
a separação por parte dos colaboradores eficiência, que todos os pedidos sejam
responsáveis por cada área. Tal proposta realizados via sistema, sem exceção.
justifica-se devido à dificuldade encontrada
pelo colaborador substituto localizar
determinados produtos dentro do corredor. 4.4 INDICADORES DE DESEMPENHO
Atualmente, o tempo de busca dos produtos PROPOSTOS
no depósito é demasiado longo, pois os A terceira e última sugestão de melhoria
produtos não ficam em lugares específicos, refere-se a utilização de um conjunto de
sendo a pessoa que guardou a única que indicadores de desempenho. Esses exercem
sabe onde o produto está num primeiro uma importante função na criação de uma
momento. vantagem competitiva, pois tem como

Gestão da Produção em Foco - Volume 4


176

finalidade agregar valor através da tempo de aquisição, transporte, recebimento,


disponibilidade imediata dos produtos, com a registro e saída do item para a venda.
demanda solicitada e no tempo hábil, de
Já a acuracidade dos estoque, mede a
acordo com a necessidade do cliente (ÑAURI,
diferença entre o estoque físico e a
1998).
informação que está registrada no sistema
No que diz respeito à quantidade de (DEHORATIUS & RAMAN, 2004). Para medir
indicadores que podem ser utilizados, o ideal acuracidade do estoque de forma correta,
é que sejam de 4 a 6 indicadores somente, recomenda-se atenção quanto ao percentual
pois um número maior de indicadores pode de veracidade, uma vez que, se estiver
tornar a medição difícil, acarretando em abaixo de 99%, é necessário uma nova
tomadas de decisão ineficientes. conferência, e quanto mais próximo de 100%,
mais eficiente é o indicador.
Quanto a frequência das medições, alguns
indicadores podem ser apurados diariamente,
outros mensalmente. A frequência tem que
4.4.2 INDICADORES DE LOGÍSTICA
ser definida de forma que o responsável
INTERNA
disponha de tempo adequado para a tomada
de decisão mais eficiente, em cada situação Segundo Coelho (2011), esses indicadores
específica. avaliam o desempenho de diferentes áreas da
logística interna da empresa. A produtividade
no recebimento avalia a quantidade de
4.4.1 INDICADORES DE GESTÃO DO material recebida em um intervalo de tempo.
ESTOQUE A medida é feita pelo tempo (hora, dia ou
O número de produtos pode ser um indicador semana) com relação a quantidade (pallets,
bem simples, mas indispensável para uma itens, fardos, quilos), e quanto menor o
gestão de estoque adequada. É um dado resultado, pode-se considerar que mais
fundamental para manter o controle eficiente eficiente é processo.
sobre o quanto de um produto está disponível Na produtividade por separação, a medição é
no estoque, se está em falta ou em excesso parecida com a anterior, mas essa avalia a
(VIANA, 2002). A quantidade de produtos atividade de separação, triagem e estocagem
pode ser feita através da contagem do dos produtos recebidos.
inventário de estoque, facilitando o controle
sobre a compra e venda de determinados De forma semelhante, o indicador de
produtos. produtividade no carregamento mede qual a
agilidade da empresa em liberar os
A cobertura de estoque serve para indicar por transportes, já devidamente carregados, para
quanto tempo o estoque consegue manter um seus respectivos destinos. Quanto mais
negócio abastecido, sendo observado o rápido for realizado o carregamento, mais
número de produtos em estoque e a antecipada será a entrega, liberando espaço
quantidade de vendas realizadas. para o próximo carregamento, aumentando o
O giro de estoque pode ser considerado um indicador de produtos carregados e
indicador de suma importância para a gestão, despachados.
pois ajuda a identificar se um determinado
produto ou lote está parado no estoque. Esse
indicador aponta os itens que foram vendidos 4.4.3 INDICADOR DE TURN-OVER DA MÃO-
e renovados, ou se eles estão há muito tempo DE-OBRA
estocados, levando em conta um determinado O termo Turn-over, também chamado de
período de tempo. rotatividade, demonstra o percentual de
O tempo de reposição aplica-se no que diz substituição de mão-de-obra que uma
respeito a abastecer o estoque, conforme as empresa possui, ou seja, serve para medir a
necessidades da organização, dentro de um frequência de entrada e saída dos
determinado período de tempo. Ele mostra funcionários de uma organização
quanto tempo é necessário para que um item (CHIAVENATO, 2010). As taxas mais comuns
específico chegue ao estoque e seja desses indicadores são cerca de 5%, o que
direcionado para a venda. No cálculo desse pode variar de acordo com a localização e
indicador, também são levados em conta o com a concorrência do Centro de
Distribuição.

Gestão da Produção em Foco - Volume 4


177

O Turn-over é um importante parâmetro 5. CONSIDERAÇÕES FINAIS


dentro da empresa, pois além de avaliar como
A pesquisa teve como objetivo analisar e
está o clima organizacional, leva em conta
propor melhorias ao processo de
importantes questões com relação a
transferência de mercadorias de um Centro
comunicação entre as equipes, liderança,
de Distribuição pertencente a uma rede de
transparência e contato com os superiores.
supermercados, localizada em uma cidade no
Quando realizado de forma adequada, o turn-
interior de Minas Gerais.
over pode indicar pontos importantes para as
empresas, tais como: (a) qualidade do Após a revisão bibliográfica, percebeu-se que
processo de recrutamento e seleção;(b) a forma apresentada nos fluxogramas se
qualidade do processo de admissão de um encontra correta para o tipo de transferência,
funcionário e (c) capacidade de retenção porém, existem pedidos que são realizados
de talentos na empresa. fora do sistema e ocasionando erros na
transferência dos mesmos.
Para efetuar o cálculo da taxa de rotação,
utiliza-se como base de dados a Foram propostas algumas mudanças, como a
movimentação (entradas e saídas) e o número implantação das atividades descritas nos
total de funcionários. No caso de pequenas e fluxogramas, o uso da dupla conferência (no
médias empresas, podem ocorrer alguns ato do carregamento e descarregamento) e a
problemas no cálculo mensal, pois a taxa adoção de indicadores de desempenho.
pode sofrer a interferência de uma
A resistência à mudança, a falta de
sazonalidade específica. Nesses casos seria
burocracia e a excessiva centralização
melhor utilizar o cálculo anual, efetuando as
encontrada em empresas familiares, foram as
devidas conversões dos dados.
maiores dificuldades enfrentadas durante a
realização do estudo. Portanto, sugere-se
como trabalhos futuros, com base nas
limitações enfrentadas, um estudo
comportamental dos funcionários e diretores
de empresas familiares.

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Gestão da Produção em Foco - Volume 4


179

CAPÍTULO 17

Helton Cristiano Gomes


Cristiano Luís Turbino de França e Silva

Resumo: A definição da melhor localização para uma instalação é uma decisão


estratégica desafiante para os gestores de organizações públicas e privadas, vistos
os inúmeros benefícios que uma decisão acertada pode gerar. Porém, a decisão de
localização requer inúmeros estudos específicos e necessita da utilização de algum
tipo de ferramenta para auxiliar na análise das alternativas. Visando auxiliar os
gestores das organizações na determinação da localização de instalações,
tornando a tomada de decisão mais acertada, foi implementado, nesse trabalho,
um algoritmo late acceptance hill climbing (LAHC) para a resolução do problema
de localização de máxima cobertura (PLMC). A resolução do PLMC consiste na
obtenção da melhor configuração para a instalação de uma ou mais facilidades,
visando a maximização da demanda total atendida. Para avaliar a eficiência da
metodologia, foram utilizadas instâncias geradas conforme descrito na literatura. Os
resultados obtidos pelo LAHC foram comparados com as soluções ótimas das
instâncias, comprovando a eficiência do método. O LAHC obteve soluções muito
próximas das ótimas, iguais em alguns casos, em um tempo computacional
aceitável.

Gestão da Produção em Foco - Volume 4


180

1. INTRODUÇÃO instalações, tornando a tomada de decisão


mais acertada, é proposto nesse trabalho um
A definição da localização de uma ou mais
método, baseado na metaheurística late
instalações é uma decisão estratégica
acceptance hill climbing (LAHC), para a
desafiante para os gestores, vistos os
resolução do PLMC.
inúmeros benefícios que uma decisão
acertada pode gerar. A localização de Para avaliar a eficiência do método
instalações é um aspecto crítico do desenvolvido, os resultados obtidos através
planejamento estratégico de organizações da utilização de instâncias, geradas conforme
públicas e privadas. A correta localização de a literatura, foram comparados com as
instalações pode proporcionar vantagens soluções ótimas das mesmas.
competitivas para as organizações através da
O restante desse trabalho está organizado
proximidade com clientes/fornecedores e de
como segue. Na seção 2 é descrito o PLCM e
fontes de recursos, bem como com a redução
na seção 3 é apresentado o método proposto
de alguns custos operacionais e logísticos.
para sua resolução. Na seção 4 são
Ela pode implicar, também, no melhor
apresentados e analisados os resultados dos
atendimento da demanda dos clientes.
testes realizados. A seção 5 conclui o
Ao se determinar a localização de uma trabalho.
instalação, diversos fatores devem ser
analisados, dentre os quais pode-se destacar:
disponibilidade de matéria prima e mão de 2. O PROBLEMA DE LOCALIZAÇÃO DE
obra, proximidade de clientes e fornecedores, FACILIDADES
infraestrutura de transporte, impostos e leis,
O problema de localização de facilidades
custos operacionais, etc. Todas as
(PLF) consiste em definir a localização de
informações sobre os locais candidatos
uma ou mais instalações, buscando minimizar
devem ser coletadas e estudadas de forma a
os custos de transporte da empresa e
serem apresentadas ao tomador de decisão.
procurando atender o maior número possível
De posse das informações, ele consegue
de clientes. Existem vários fatores que
diminuir o grau de incertezas da sua escolha.
influenciam nesse tipo de decisão, tais como:
Porém, a decisão de localização requer
condições de estradas, incentivos fiscais,
inúmeros estudos específicos com base
dentre outros.
nessas informações, onde a utilização de
algum tipo de ferramenta pode auxiliar muito. De acordo com Daskin (1995), problemas de
Dentre as ferramentas disponíveis, ressalta-se localização tratam de decisões sobre a
aqui a otimização, o qual apresenta um obtenção da melhor configuração para a
problema clássico de programação linear instalação de uma ou mais facilidades,
referente à localização de facilidades. visando atender a demanda de uma
população. No setor privado, o termo
Os problemas de localização tratam de
facilidade refere-se a fábricas, depósitos,
decisões sobre a obtenção da melhor
antenas de telecomunicações, etc. No setor
configuração para a instalação de uma ou
público, as facilidades podem ser
mais facilidades, visando atender a demanda
classificadas em duas categorias: localização
de uma população. Dentre os principais
de serviços não-emergenciais e localização
problemas apresentados na literatura, o
de serviços de emergência. Na primeira
problema de localização de máxima cobertura
categoria estão incluídos a localização de
(PLMC) tem recebido especial atenção. O
escolas, bibliotecas, agências de correio,
PLMC consiste em definir a localização de
alguns serviços de saúde pública, pontos de
facilidades, de modo a maximizar o número
ônibus e mesmo de serviços relacionados ao
de clientes atendidos.
meio-ambiente, como suprimento de água e
O PLMC é de natureza combinatória, por isso instalações para o depósito de lixo. A
sua resolução, geralmente, exige grande categoria de serviços de emergência inclui,
esforço computacional. Problemas com essa por exemplo, a localização de hospitais, de
característica pertencem à classe NP-difícil e, serviços de atendimento de emergência por
tem as metaheurísticas como os principais ambulâncias e de estações do corpo de
métodos de resolução. bombeiros.
Visando auxiliar os gestores das A resolução de um PLF não é trivial. O número
organizações, tanto públicas como privadas, de possíveis soluções para o problema é
na determinação da localização de elevado, sendo calculado pela Equação (1),

Gestão da Produção em Foco - Volume 4


181

no qual n é o número de localidades e p o Dentre os principais PLF’s encontrados na


número de facilidades a serem instaladas. literatura, destaca-se aqui o problema de
localização de máxima cobertura (PLMC),
proposto por Church e ReVelle (1974).
n!
C pn 
p !( n  p ) !
2.1 O PROBLEMA DE LOCALIZAÇÃO DE
MÁXIMA COBERTURA
Segundo Arakaki e Lorena (2006), os PLF’s O PLMC introduzido por Church e ReVelle
podem ser classificados em problemas de (1974) tem como objetivo determinar a
cobertura e de localização de medianas. Em localização de facilidades de modo a
ambos o objetivo é determinar a localização maximizar o número de clientes atendidos. O
para facilidades, considerando os clientes a atendimento dos clientes depende de uma
serem atendidos, otimizando certo critério. distância (raio de cobertura) ou tempo do
serviço. Um cliente é considerado coberto
Podem ser encontradas na literatura inúmeras
caso encontre-se dentro do raio de cobertura
abordagens para o PLF, dentre as quais
de pelo menos uma facilidade.
pode-se citar: Toregas et al. (1971), Lorena
(2001), Correa e Lorena (2006), Siliprande e Para a aplicação do PLMC, foi utilizado nesse
Cortes (2008), dentre outros. As aplicações trabalho o modelo matemático proposto por
são as mais variadas, como localização de Church e ReVelle (1974) e descrito a seguir.
serviços de emergência, modelos
probabilísticos para localização-alocação,
localização de antenas para internet a rádio e
telecomunicações, etc.
PARÂMETROS DO MODELO
N = {1, 2, ..., n}: conjunto de clientes a serem atendidos;
M = {1, 2, ..., m}: conjunto de locais candidatos à instalação de uma facilidade.
DADOS RELACIONADOS AOS CLIENTES
Di: demanda do cliente i  N ;
dij: distância entre o cliente i e a facilidade instalada em j.
DADOS RELACIONADOS ÀS FACILIDADES
p: número de facilidades a serem instaladas;
R: raio de cobertura;
Si = { j  M | d ij  R }: conjunto de facilidades que podem atender o cliente i.

VARIÁVEIS DE DECISÃO
xi  {0, 1},  i  N tal que:

1, 𝑠𝑒 𝑎 𝑑𝑒𝑚𝑎𝑛𝑑𝑎 𝑑𝑜 𝑐𝑙𝑖𝑒𝑛𝑡𝑒 𝑖 𝑓𝑜𝑟 𝑎𝑡𝑒𝑛𝑑𝑖𝑑𝑎


𝑋𝑖 = {
0, 𝑐𝑎𝑠𝑜 𝑐𝑜𝑛𝑡𝑟á𝑟𝑖𝑜

yj  {0, 1},  j  M tal que:

1, 𝑠𝑒 𝑢𝑚𝑎 𝑓𝑎𝑐𝑖𝑙𝑖𝑑𝑎𝑑𝑒 𝑓𝑜𝑟 𝑖𝑛𝑠𝑡𝑎𝑙𝑎𝑑𝑎 𝑛𝑎 𝑙𝑜𝑐𝑎𝑙𝑖𝑑𝑎𝑑𝑒 𝑗


𝑦𝑖 = {
0, 𝑐𝑎𝑠𝑜 𝑐𝑜𝑛𝑡𝑟á𝑟𝑖𝑜

Gestão da Produção em Foco - Volume 4


182

MODELO

Max Demanda =
D x
i N
i i
(2)

sujeito a

y
j Si
j  xi  i N (3)

y
j M
j  p (4)

xi {0, 1}  i N (5)

y j {0, 1}  j M (6)

A função objetivo (2) busca maximizar a durante as iterações anteriores; empregar um


demanda total atendida. Quanto maior a simples mecanismo de aceitação (Burke e
demanda de um cliente, maior será o Bykov (2016)). O pseudocódigo do LAHC
interesse em atendê-lo. As restrições (3) pode ser visto na Figura 1.
estabelecem que um cliente i só será
atendido se existir uma facilidade em j tal que
d ij  R . A restrição (4) fixa o número de Figura 1 – Pseudocódigo LAHC
facilidades instaladas em p unidades. Os Algoritmo: LAHC
conjuntos de restrições (5) e (6) definem o
Entrada: l, f(.), N(.), iter_max, s
domínio das variáveis.
Saída: s*
Na resolução do PLMC são determinadas as
localizações de p facilidades, sendo os fk  f(s)  k 1, ..., l 1 ;
clientes alocados às mesmas, normalmente
as mais próximas. Por essa razão, trata-se de s*  s;
um problema de localização-alocação. De
i  0;
acordo com Garey e Johnson (1979), grande
parte desses problemas é de natureza enquanto (i  iter_max) faça
combinatória, o que torna difícil sua
resolução, exigindo grande esforço Gerar aleatoriamente um vizinho
computacional. Problemas com essa s´ N ( s );
característica pertencem à classe NP-difícil.
v  i mod l;
Visto isso, foi proposta nesse trabalho a
utilização da metaheurística late acceptance se (f(s´)  fv) então
hill climbing (LAHC), desenvolvida por Burke s  s´;
e Bykov (2008).
se (f(s) > f(s*)) então

3. METAHEURÍSTICA LATE ACCEPTANCE s*  s;


HILL CLIMBING
fim_se;
A metaheurística LAHC, proposta
fim_se;
originalmente por Burke e Bykov (2008), é
uma adaptação do método de subida fv  f(s´);
clássico. O método foi criado com três
objetivos: ser um procedimento de busca que i  i + 1;
não emprega um processo de resfriamento
fim_enquanto;
artificial, como faz o simulated annealing; usar
efetivamente as informações coletadas retorna s*;

Gestão da Produção em Foco - Volume 4


183

Como pode ser visto na Figura 1, no LAHC é melhores resultados, quando comparados aos
utilizada uma lista de tamanho l para obtidos por outros métodos, para instâncias
armazenar os valores da função de avaliação de pequenas e médias dimensões.
(f(.)) de algumas soluções (f = {f0(.), ..., fl-1(.)}).
Na seção a seguir são descritos e discutidos
Na inicialização do algoritmo é armazenado o
os resultados obtidos pelo LAHC para o
valor da solução inicial s (f(s)) em todas as
PLMC.
posições da lista. O método baseia-se na
comparação de uma nova solução vizinha s´
com uma das l soluções armazenadas na
4. APRESENTAÇÃO E ANÁLISE DOS
lista, antes de aceitar ou rejeitar tal solução.
RESULTADOS
Em cada iteração, uma solução vizinha s´ é
gerada, sendo ela aceita se f(s´) for maior ou O algoritmo LAHC utilizado nesse trabalho foi
igual ao valor de f(.) armazenado na posição v implementado computacionalmente na
(v  i mod l) da lista. É importante ressaltar linguagem C e executado em um computador
que a solução s´ pode ser aceita mesmo que Intel Core i7 3.60GHz e 16GB de RAM, sob
seja pior do que a solução corrente s, uma sistema operacional Linux Ubuntu 16.04. Para
vez que não é comparada com ela. Se a a obtenção das soluções ótimas das
solução s´ for aceita (s  s´) e, esta for instâncias utilizadas, o PLMC foi modelado e
resolvido através do software CPLEX 12.6.3.
melhor do que a melhor solução encontrada
(f(s) > f(s*)), s* é atualizada (s*  s). Por Devido ao fato de a eficiência dos métodos
fim, a lista é atualizada sendo f(s´) metaheurísticos ser depende dos valores
armazenada na posição v da lista (fv  escolhidos para seus parâmetros, a response
f(s´)). O processo de percorrer a lista é surface methodology (Myers et al. (2009)) foi
utilizada para calibrar o único parâmetro do
repetido até que o critério de parada seja
LAHC, ou seja, o tamanho da lista (l). O valor
atingido, ou seja, quando um número máximo
determinado para o mesmo foi 20. Foi
de soluções (iter_max) for gerado.
considerado como critério de parada o valor
A estrutura de vizinhança N(.) utilizada de 2000 para o número máximo de soluções
consiste em trocar a localização de uma geradas (iter_max).
facilidade. Isto é, uma solução s´  N(s) é
Como o algoritmo apresenta uma escolha
obtida substituindo uma localidade no qual
aleatória, o mesmo foi executado dez vezes,
seria instalada uma facilidade por outra que
com dez sementes diferentes para cada
não havia sido selecionada. O número de
instância. A partir das soluções obtidas nas
possíveis soluções vizinhas é calculado pela
dez execuções, determinou-se a solução para
Equação (1).
cada instância.
Silva (2014), que utilizou o LAHC para a
Para a realização dos testes computacionais,
resolução do problema de sequenciamento
visando avaliar a qualidade das soluções
em máquinas paralelas, o considerou de fácil
obtidas pelo LAHC, as instâncias utilizadas
implementação, além de apresentar um único
foram geradas conforme descrito em ReVelle
parâmetro a ser ajustado, ou seja, o tamanho l
da lista. De acordo com os resultados obtidos
et al. (2008). Primeiramente, foram
determinadas aleatoriamente, seguindo a
pelo autor, o LAHC se mostrou competitivo em
distribuição uniforme, as localizações dos
comparação com outras metaheurísticas. Já
clientes, por meio de coordenadas
Burke e Bykov (2016) testaram o LAHC em
cartesianas com duas dimensões. Cada
uma gama de problemas de referência,
localidade foi representada por um ponto (x,
comparando os resultados obtidos com os
y) tal que x, y  [0, 100]. As distâncias entre
obtidos por outros métodos de busca
as localidades foram calculadas como
conhecidos. Com base nos experimentos, os
Euclidianas e a demanda de cada cliente foi
autores concluíram que o LAHC, além de
escolhida aleatoriamente no intervalo [0, 100].
simples e de fácil implementação, é efetivo
Foram criadas instâncias com 30, 60 e 90
em suas buscas por soluções de melhora.
localidades, conforme descrito na Tabela 1.
Entretanto, no trabalho de Santos et al. (2016),
foi possível observar que o LAHC obteve

Gestão da Produção em Foco - Volume 4


184

Tabela 1 – Parâmetros das instâncias geradas.


n R p
30 10, 15, 20 5
60 10, 15, 20 7
90 10, 15, 20 10

Para cada tamanho de n foram geradas 5 4.1 ANÁLISE DOS RESULTADOS


instâncias com cada um dos valores de R,
A Tabela 2 apresenta os resultados obtidos
totalizando 45 instâncias. Os resultados
pelo software CPLEX e pela metaheurística
obtidos, comparados com as soluções ótimas
LAHC, bem como o tempo computacional
das instâncias são apresentados na seção a
gasto (em segundos) para a obtenção das
seguir.
soluções. Na tabela são apresentados,
também, os gaps entre as soluções ótimas e
as soluções do LAHC para cada instância.

Tabela 2 – Resultados Computacionais


Instância R p CPLEX Tempo LAHC Tempo gap (%)
LOC_30_1 10 5 887 15,6 874 0,3 1,5
LOC_30_2 10 5 943 16,7 943 0,1 0,0
LOC_30_3 10 5 630 14,2 622 0,5 1,3
LOC_30_4 10 5 797 16,5 780 1 2,1
LOC_30_5 10 5 702 12,3 702 1,2 0,0
LOC_30_6 15 5 1144 18,3 1126 1,2 1,6
LOC_30_7 15 5 1123 20,4 1074 0,9 4,4
LOC_30_8 15 5 907 16,5 907 1,2 0,0
LOC_30_9 15 5 868 17 862 1,3 0,7
LOC_30_10 15 5 1068 19,1 1068 0,8 0,0
LOC_30_11 20 5 1139 22,4 1132 1,5 0,6
LOC_30_12 20 5 1224 20,4 1224 2,1 0,0
LOC_30_13 20 5 1466 19,7 1454 2,2 0,8
LOC_30_14 20 5 1529 23,5 1525 1,6 0,3
LOC_30_15 20 5 1290 18,4 1290 2,2 0,0
Média 18,3 1,2 0,6

Gestão da Produção em Foco - Volume 4


185

Tabela 2 – Resultados Computacionais (continuação)


Instância R p CPLEX Tempo LAHC Tempo gap (%)
LOC_60_1 10 7 1653 32,1 1545 1,5 6,5
LOC_60_2 10 7 1876 30,2 1733 1,9 7,6
LOC_60_3 10 7 1997 28,7 1886 2,5 5,6
LOC_60_4 10 7 1658 32,1 1569 2,7 5,4
LOC_60_5 10 7 1555 29,5 1438 3 7,5
LOC_60_6 15 7 2440 35,6 2324 3,5 4,8
LOC_60_7 15 7 2327 37,9 2309 3,7 0,8
LOC_60_8 15 7 2225 33,2 2119 4,2 4,8
LOC_60_9 15 7 2407 38,1 2348 2,9 2,5
LOC_60_10 15 7 2169 37 2006 4,5 7,5
LOC_60_11 20 7 2732 42,1 2575 4,2 5,7
LOC_60_12 20 7 2906 40,5 2823 4,6 2,9
LOC_60_13 20 7 2928 39,7 2751 3,9 6,0
LOC_60_14 20 7 2867 42,9 2739 5,1 4,5
LOC_60_15 20 7 2904 41,2 2805 4,2 3,4
Média 37 3,7 5,4
LOC_90_1 10 10 2700 52 2470 7,9 8,5
LOC_90_2 10 10 2990 57,3 2741 8,3 8,3
LOC_90_3 10 10 3002 50,2 2743 7,6 8,6
LOC_90_4 10 10 3337 60,5 3074 6,9 7,9
LOC_90_5 10 10 3125 53,8 2829 7,1 9,5
LOC_90_6 15 10 4304 61,2 4030 8,5 6,4
LOC_90_7 15 10 4373 60,8 4010 9,1 8,3
LOC_90_8 15 10 4040 58,3 3715 7,9 8,0
LOC_90_9 15 10 3809 62,1 3522 8,4 7,5
LOC_90_10 15 10 3903 59,9 3682 8,7 5,7
LOC_90_11 20 10 4692 65,2 4536 9,7 3,3
LOC_90_12 20 10 4847 66,7 4706 8,6 2,9
LOC_90_13 20 10 4820 61,4 4492 9,5 6,8
LOC_90_14 20 10 4620 63,5 4341 10,4 6,0
LOC_90_15 20 10 4435 59,8 4275 9 3,6
Média 60,5 8,5 7,5
Média Geral 38,6 4,5 4,5

Gestão da Produção em Foco - Volume 4


186

O gap foi calculado através da Equação (7). desafiante para os gestores, vistos os
inúmeros benefícios que uma decisão
Solótima  Sol LAHC acertada pode gerar. A correta localização de
gap  100
Sol LAHC instalações pode proporcionar vantagens
competitivas para as organizações.
Como pode ser observado na Tabela 2, o
LAHC gerou boas soluções para todas as Para isso, foi proposto um métdo, baseado na
instâncias, obtendo um gap médio geral igual metaheurística late acceptance hill climbing
a 4,5%. Todas as soluções foram geradas em (LAHC), para a resolução do PLCM. Para
um tempo computacional aceitável, sendo o avaliar a eficiência do método, foram
tempo médio geral igual a 4,5 segundos. Para realizados testes computacionais utilizando
as 15 instâncias com 30 localidades, as instâncias geradas conforme a literatura. Os
soluções obtidas pelo LAHC geraram um gap resultados obtidos foram comparados com as
médio de 0,6% em um tempo computacional soluções ótimas das instâncias.
médio igual a 1,2 segundos. Em relação às 15 Com base na comparação das soluções,
instâncias com 60 localidades, foi obtido um pode-se verificar que o LAHC gerou boas
gap médio de 5,4% em um tempo médio igual soluções para todas as instâncias, em um
a 3,7 segundos. Já para as 15 instâncias com tempo computacional aceitável. O gap médio
90 localidades, foi obtido um gap médio de geral entre as soluções geradas pelo LAHC e
7,5% em um tempo médio igual a 8,5 as soluções ótimas das instâncias foi igual a
segundos. 4,5% e o tempo médio geral igual a 4,5
O LAHC obteve a solução ótima para as segundos. O LAHC obteve a solução ótima
instâncias 2, 5, 8, 10, 12 e 15 com 30 para 6 instâncias e necessitou de menor
localidades. O método necessitou de menor esforço computacional para a resolução de
esforço computacional para a resolução de todas as instâncias, comparado com o
todas as instâncias, comparado com o CPLEX. Porém, o LAHC perde um pouco da
CPLEX, que obteve as soluções em um tempo sua eficiência na resolução de instâncias
médio geral igual a 38,6 segundos. maiores.
Entretanto, como pode ser constatado nos Os resultados obtidos podem não ser a
resultados, o LAHC obteve melhores decisão final, porém o tomador de decisão
resultados para instâncias menores, conforme pode pautar-se nas soluções geradas para
descrito por Santos (2016). que seus atos sejam pautados em dados
concretos, e não apenas em intuições.

5. CONCLUSÕES E CONSIDERAÇÕES Como proposta de trabalhos futuros, os


FINAIS resultados obtidos pelo LAHC para o PLCM
podem ser comparados com as soluções
O presente trabalho teve como objetivo obtidas por outras metaheurísticas. Em
propor um método eficiente para a resolução relação a testes, podem ser utilizadas
do problema de localização de cobertura instâncias maiores que as utilizadas nesse
máxima (PLCM). A definição da localização trabalho, visando verificar até onde o LAHC é
de instalações é uma decisão estratégica eficiente.

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Gestão da Produção em Foco - Volume 4


188

CAPÍTULO 18
̧ ̃ ́

Lucas Gabriel Zanon


Fernando César Almada Santos

Resumo: Este artigo objetiva analisar a interface entre os estágios evolutivos da


cadeia de suprimentos de Stevens, as dimensões culturais de hofstede e as
configurações organizacionais de mintzberg em uma multinacional produtora de
bebidas para, assim, ampliar a compreensão do modo pelo qual logística, cultura e
estrutura se relacionam nas organizações. O estudo de caso foi realizado por meio
da aplicação de um questionário, responsável por formalizar e sintetizar o
constructo teórico, associado a uma escala graduada de respostas, encarregada
de facilitar a medição da percepçao ̃ dos entrevistados sobre a realidade da
organização da qual fazem parte. Como resultado deste trabalho observou-se que,
culturalmente, a companhia caracteriza-se pela alta distância ao poder,
individualismo, alta aversão à incerteza e masculinidade. Como reflexo disso, no
que tange a estrutura organizacional, a burocracia mecanizada mostrou-se
dominante. Logisticamente, encontra-se em estágio de integração funcional, mas
está em busca da passagem para o estágio subsequente. Conclui-se, portanto,
que o estudo de caso executado foi de grande importância para expandir a
compreensão de como cultura, estrutura e logística se relacionam e fomenta a
realização de novos estudos em empresas distintas de forma a possibilitar mais
abrangentes interpretações dessa interface ainda pouco explorada.

Palavras-chave: Cultura organizacional; estrutura organizacional; configurações


organizacionais; logística; cadeia de suprimentos.

Gestão da Produção em Foco - Volume 4


189

1. INTRODUÇÃO criar valor ao cliente e satisfazê-lo. A


contribuição da logística para a vantagem
1.1 JUSTIFICATIVA
competitiva é significativa tanto em eficiência
Tradicionalmente, a análise da dinâmica (liderança em custos) quanto em eficácia
organizacional aborda os conceitos de (serviço ao cliente). As capacidades logísticas
gerenciamento logístico, cultura para a vantagem competitiva incluem
organizacional e estrutura organizacional capacidades de gerenciamento da demanda
separadamente. Os diferentes estágios (serviço ao cliente e qualidade logística),
evolutivos pelos quais determina-se o grau de capacidades de gerenciamento da oferta
maturidade da cadeia de suprimentos (suprimento a baixo custo e distribuição) e
costumam ser estudados de modo alheio capacidades de gerenciamento da
daquele que se refere à forma pela qual a informação (compartilhamento de informações
organização pensa, interpreta e reage a seu via tecnologia de informação e
ambiente interno e externo, bem como de seu conectividade).
modo de estruturar-se. Sem essa visão
Observa-se, dessa forma, que a gestão
holística, muitas empresas ainda têm
logística é uma reflexão prática do modo
dificuldades em atingir seus objetivos devido
como a organização vê o mercado, a
à incoerência entre os aspectos culturais e
concorrência, sua estratégia, seus objetivos,
estruturais que as definem em detrimento às
seus valores e também consequência da
formas pela quais se organizam
forma como escolhe interagir com seus
logisticamente.
stakeholders e com o meio. Nesse sentido, De
Neste contexto, a administração logística Souza e Fenili (2016) afirmam que o modo
deve integrar eficientemente todas as pelo qual a organização pratica a gestão é
atividades da cadeia de valor – da geração sua principal manifestação cultural. Pode-se
da matéria prima até o serviço ao cliente final afirmar, portanto, que tanto Logística e Cultura
– adquirindo caráter estratégico. Juntamente como Cultura e Estrutura, encontram-se
à gestão logística, surgem questões de como intimamente conectadas.
as organizações devem se estruturar,
Entretanto, não é raro constatar organizações
comunicar e coordenar seu trabalho e de
que se apresentam como horizontalmente
como estas mudanças afetam a cultura
organizadas e de gestão logística integrada
organizacional (WOOD JR; ZUFFO, 1998).
assumirem aspectos culturais mais
O design de uma estrutura organizacional característicos de organizações rígidas e
eficaz parece envolver a consideração de altamente hierarquizadas. A compreensão e
apenas algumas configurações identificação desse tipo de incongruência,
organizacionais básicas (MINTZBERG, 2012). portanto, pode ser crucial para uma melhor
A relação entre logística, cultura e compreensão do contexto organizacional,
configurações prioriza as estruturas mais facilitando assim a solução de problemas e o
recorrentes em empresas de médio e grande processo de melhoria contínua.
porte, as quais representam grandes desafios
em termos de gestão e cumprimento de
metas de competitividade e desempenho. 1.2 OBJETIVO E QUESTÃO ORIENTADORA
DA PESQUISA
A cultura organizacional, por sua vez, impacta
profundamente o comportamento dos Considerando o contexto anteriormente
indivíduos e dos grupos, estando intimamente apresentado, o objetivo deste estudo consiste
ligada à liderança. Aqueles que não em analisar a interface entre os Estágios
compreendem a essência da cultura Evolutivos da Cadeia de Suprimentos de
organizacional na qual estão inseridos (ou Stevens (1989), as Dimensões Culturais de
com a qual se relacionam) e sua influência Hofstede (2001) e as Configurações
palpável no dia-a-dia estão fadados a ser Organizacionais de Mintzberg (2012) em uma
controlados e mesmo tornarem-se vítimas das multinacional produtora de bebidas para,
forças que dela derivam (SCHEIN, 2009). assim, ampliar a compreensão do modo pelo
qual Logística, Cultura e Estrutura se
Mentzer, Min e Bobbitt (2004) propõem que o
relacionam nessa organização. Portanto, a
papel da logística é o de proporcionar as
questão orientadora desta pesquisa foi assim
capacidades de coordenação entre oferta e
estabelecida: Como se dá a dinâmica entre
demanda que atravessam as fronteiras da
Logística, Cultura e Estrutura Organizacionais
organização, as quais são necessárias para
na organização investigada?

Gestão da Produção em Foco - Volume 4


190

2. DIMENSÕES CULTURAIS DE HOFSTEDE que promovam segurança e minimizem


risco (HOFSTEDE, 2001).
O estudo inicial de Hofstede sobre cultura
nacional foi realizado com a IBM staff em mais  Masculinidade versus feminilidade
de 50 países, tem grande utilização e representa a extensão em que a
reconhecimento mundial e é a abordagem agressividade e o sucesso são
mais usada para orientar comparações valorizados, versus a preocupação pelos
interculturais (KIRKMAN, LOWE e GIBSON, relacionamentos. O estudo de Hofstede
2006). (2001) destaca que, nas sociedades em
geral, os valores das mulheres diferem
Quatro dimensões de culturas nacionais foram
menos do que os valores dos homens.
escolhidas para análise de sua interface com
Independentemente do país, as mulheres
Logística e Estrutura: Distância do Poder,
sempre apresentam valores relacionados à
Individualismo versus Coletivismo, Aversão à
modéstia, compaixão e preocupação com
Incerteza e Masculinidade versus
o próximo. Os homens, por outro lado,
Feminilidade (HOFSTEDE, 2001).
apresentam duas formas contrastantes de
valores. Em um extremo, apresentam
valores que se aproximam bastante dos
 Distância do poder é a medida do
valores apresentados pelas mulheres. Em
poder e da influência interpessoal entre
outro extremo, apresentam uma dimensão
chefe e subordinado, do ponto de vista do
bastante assertiva e competitiva e dessa
menos poderoso deles, isto é, está
maneira bastante diferente dos valores
relacionada à extensão que os membros
femininos. O polo assertivo é chamado
menos poderosos das organizações e
masculino e o modesto e cuidadoso polo
instituições aceitam e esperam que o
feminino (HOFSTEDE, 2001).
poder seja distribuído de forma desigual.
 O individualismo versus coletivismo
está relacionado ao grau em que pessoas 3. CONFIGURAÇÕES ORGANIZACIONAIS DE
são orientadas para agir como indivíduo MINTZBERG
versus agir como parte de um grupo. Uma
As configurações organizacionais utilizadas
alta taxa de Individualismo indica que
no estudo de sua interface com Cultura e
indivíduos tendem a agir de acordo com
Logística são: Burocracia Mecanizada, Forma
seus próprios interesses, buscando
Divisionalizada e Adhocracia.
sucesso e resultados individuais. Uma
baixa taxa de Individualismo indica que Segundo Santos et al. (2010), Burocracia
indivíduos preferem trabalhar como Mecanizada corresponde à organização
integrantes de um grupo e que o tradicional de grandes empresas do setor de
desempenho na execução de suas manufatura que usou princípios e técnicas da
atividades é maior através do trabalho em administração científica e do Taylorismo.
equipe do que do trabalho individual Caracteriza-se por apresentar tarefas
(HOFSTEDE, 2001). operacionais rotineiras e altamente
especializadas, procedimentos muito
 Aversão à incerteza está relacionada
formalizados no núcleo operacional,
ao grau com o que as pessoas dentro de
proliferação de normas, regulamentos e
uma cultura sentem-se inconfortáveis com
comunicação formalizada em toda a
situações que elas percebem ser
organização, grandes unidades no nível
desestruturadas, obscuras ou
operacional, confiança na base funcional para
imprevisíveis, fazendo com que elas
agrupamento das tarefas, poder de tomada
adotem rigorosos códigos de
de decisão relativamente centralizado e
comportamento e uma crença em
estrutura administrativa elaborada com nítida
verdades absolutas. Indivíduos de culturas
distinção entre linha e assessoria
com baixa Aversão à Incerteza tendem a
(MINTZBERG, 2012).
ser relativamente tolerantes com incertezas
e ambiguidades e exigem considerável O trabalho operacional da Burocracia
autonomia e menor estrutura de verdades. Mecanizada é rotina. A maior parte dele é
Culturas com alta taxa de Aversão à muito simples e repetitivo; como resultado
Incerteza possuem uma necessidade seus processos de trabalho são altamente
emocional de regras e de criar instituições padronizados. Essa configuração
organizacional é bem ajustada para funcionar

Gestão da Produção em Foco - Volume 4


191

como máquinas reguladas. Regras e se originam da alta administração, onde a


regulações permeiam toda essa estrutura. perspectiva é ampla e o poder é focado. O
Comunicação formal é favorecida em todos os processo de elaboração de estratégia possui
níveis e a tomada de decisão tende a seguir a claramente uma abordagem top-down, com
cadeia de autoridade formal (SANTOS et al., forte ênfase no planejamento de ações
2010). Estratégia nessas estruturas, como no (MINTZBERG, 1993).
exemplo apresentado na Figura 1, claramente

Figura 1 – Exemplo de organograma de uma Burocracia Mecanizada

Fonte: Mintzberg (1993, adaptada por Santos et al., 2010)

A Figura 1 ilustra claramente a “obsessão”, Assim, na Figura 2, apresenta-se um


como refere-se Mintzberg (1993), desse tipo organograma típico de uma empresa
de configuração organizacional pelo controle, divisionalizada, em que cada divisão contém
podendo-se observar a hierarquização e a suas próprias atividades de compras,
disposição de funções de acordo com o fluxo produção e marketing. A distribuição e a
cima-baixo de poder. duplicação das funções operacionais
minimizam as interdependências entre as
A Forma Divisionalizada, por sua vez,
divisões a fim de que cada uma possa operar
representa a criação de divisões que são
como uma entidade praticamente autônoma,
responsáveis pela diversificação de produtos
livre da necessidade de se coordenar com as
de uma empresa. Essa configuração foi
outras divisões. De outro lado, as divisões são
introduzida por Alfred Sloan na General
agrupadas sob o escritório de administração
Motors na década de 1920. Baseia-se no
corporativa. Assim, a amplitude de controle
mercado para agrupar unidades no topo da
da alta gerência da Forma Divisionalizada
média gerência. Divisões são criadas de
aumenta significativamente (MINTZBERG,
acordo com o mercado que servem e, então,
1993).
é atribuído a elas o controle das funções
operacionais necessárias para servir esses
mercados.

Gestão da Produção em Foco - Volume 4


192

Figura 2 – Organograma típico para uma empresa manufatureira divisionalizada.

Fonte: Mintzberg (1993, adaptada por Santos et al., 2010).

Esse arranjo estrutural, naturalmente, leva a demandas de mercado, divididos em


uma declarada descentralização da pequenas equipes de projeto, que visam à
administração corporativa: cada divisão execução de um trabalho específico; confia
recebe poderes para tomar decisões nos instrumentos de interligação para
relacionadas às suas operações. A encorajar o ajustamento mútuo, mecanismo-
configuração organizacional, entretanto, chave de coordenação interna e entre as
funciona melhor com estruturas de Burocracia equipes; adota a descentralização seletiva
Mecanizada nas suas divisões. A das equipes localizadas em vários pontos da
descentralização de decisões não ocorre organização, envolvendo vários grupos
amplamente no âmbito interno das divisões. formados por gerentes de linha, especialistas
Assim, essas estruturas tendem a manter a operacionais e assessores (MINTZBERG,
configuração de Burocracia Mecanizada. A 2012).
padronização do processo de trabalho
O conhecimento existente é considerado
anterior é reforçada com a padronização de
como uma base para construir novos
resultados (SANTOS et al., 2010).
conhecimentos. Essa configuração integra
Na Adhocracia, temos uma configuração especialistas de diferentes áreas de
distinta: uma estrutura altamente orgânica, conhecimento em equipes de projeto ad hoc
com pouca formalização do comportamento; que operam suave e agilmente (MINTZBERG,
sua especialização do trabalho é altamente 1993).
horizontalizada, baseada em treinamento
formal; tendência a agrupar especialistas das
unidades funcionais para propósitos de
organização interna com o objetivo de atender

Gestão da Produção em Foco - Volume 4


193

Figura 3 – Organização horizontal com equipes ad hoc.

Fonte: Ostroff e Smith (1992, adaptada por Santos et al., 2010).

Esta configuração é tanto orgânica quanto produtividade, a confiabilidade das entregas


descentralizada como é possível observar na a fim de conquistar novos mercados e obter
Figura 3. Assim, encontra grande espaço de uma posição mais forte; agregar valor aos
trabalho. Essencialmente, a Adhocracia é a produtos/serviços, possibilitar maior
única configuração para os que acreditam em flexibilidade, agilidade e controle no fluxo de
mais democracia com menos burocracia materiais e informações desde o ponto de
(MINTZBERG, 2012). aquisição da matéria-prima até o ponto de
consumo final, gerando maior satisfação ao
cliente (BALLOU, 2001).
4. LOGÍSTICA
A necessidade de as organizações se
4.1 ESTÁGIOS EVOLUTIVOS DA CADEIA DE
reestruturarem e se adaptarem
SUPRIMENTOS
constantemente frente às mudanças do
mercado tem dado destaque a gestão Stevens (1989) sistematizou em quatro
integrada da logística com foco estratégico. estágios básicos a evolução da maturidade
Esse destaque é em virtude da da gestão logística nas organizações. Esses
representatividade da atividade logística para estágios, utilizados no estudo de sua interface
a competitividade e por ser executada em com Cultura e Estrutura, encontram-se
algum grau por qualquer tipo de organização. representados na Figura 4, a seguir.
Além disso, colaborar de forma efetiva para
reduzir os custos totais, otimizar as atividades
e os processos, aumentar a qualidade, a

Gestão da Produção em Foco - Volume 4


194

Figura 4 – Estágios Evolutivos da Cadeia de Suprimentos

No Estágio 1, a empresa realiza um O Estágio 3 corresponde à integração dos


planejamento da cadeia de suprimentos no aspectos da cadeia de suprimentos sob o
curto prazo, a um ponto em que ele é quase controle da empresa e inclui a gestão externa
sempre reativo, muito mais baseado em dos bens, abrangendo o suprimento e a
ajustes rápidos, fazendo acertos de uma crise demanda ao longo da cadeia da própria
para outra. Essa situação permite não só́ que empresa. Integração Interna é caracterizada
as ineficiências “aumentem dentro das por um amplo e integrado sistema de
operações da cadeia de suprimentos, mas planejamento e controle. Usualmente,
coloca-se em risco a efetividade global da empresas do Estágio 3 usarão “sistemas DRP,
cadeia de suprimentos, como se aumenta a integrados por meio de programações mestre
vulnerabilidade dos efeitos das mudanças bem gerenciadas com MRP-II e sistemas de
sobre os padrões de gestão do fornecimento gestão de materiais, usando, quando for
e da demanda” (FOGAÇA, 2011, p.24). prático, técnicas de manufatura JIT para
apoiar a execução do plano de materiais”
No Estágio 2, técnicas de MRP ou MRP-II são
(FOGAÇA, 2011, p.25).
tipicamente utilizadas. Dentro da rede de
distribuição, a demanda continua a ser Somente no Estágio 4 a completa integração
agregada. “De fato, pedidos ainda é atingida por meio do aumento do escopo de
representam um problema encaminhado para integração fora da empresa de modo a incluir
a produção, de tal forma que, para propósitos fornecedores e clientes. O valor desse estágio
de planejamento, a infraestrutura da de desenvolvimento vai além somente da
distribuição é efetivamente dissociada da escala. “Ele incorpora uma mudança de foco,
produção” (STEVENS, 1989, p.7). passando de ser orientado ao produto para
ser orientado ao cliente. Isso busca assegurar
que a empresa está sintonizada com as

Gestão da Produção em Foco - Volume 4


195

necessidades e demandas do consumidor” porquê da investigação. A autora afirma que o


(FOGAÇA, 2011, p.26). método de estudo de caso é o mais
apropriado para pesquisadores individuais,
uma vez que se cria a oportunidade de
5. METODOLOGIA estudar um problema em profundidade
mesmo com limitação de recursos.
No que se refere à tipologia de pesquisa, seu
caráter é exploratório e qualitativo. Esta Sendo assim, a fim de maximizar seu
escolha se deve pelo fato de que existem potencial exploratório, a empresa escolhida
poucos trabalhos que abordam holisticamente para execução do estudo de caso é uma das
a interface entre gestão logística, cultura e maiores produtoras e distribuidoras de
estrutura organizacionais. Sua abordagem é bebidas do mundo, líder de mercado no Brasil
qualitativa, segundo Richardson (1999), pois e com operações sólidas e bem
trata-se de uma tentativa de compreensão estabelecidas há anos no país. Foi escolhida,
detalhada dos significados e características além disso, devido ao fato de que possui uma
situacionais apresentadas pela empresa em logística forte, sofisticada e também devido à
análise, com vistas a interpretar os fenômenos facilidade de acesso aos funcionários como
e a atribuir seus resultados em relação ao potencial fonte de dados. A aplicação das
constructo teórico considerado. Caracteriza- questões de pesquisa se deu num dos
se como exploratória por ter como objetivo maiores centros de distribuição da companhia
proporcionar maior familiaridade com estes no interior paulista com o objetivo de se obter
temas, visando torná-los mais explícitos ou base de respostas completa e, assim, garantir
construir hipóteses, já que há carência de uma maior compreensão do tema deste
literatura científica para esse contexto trabalho.
organizacional.
A metodologia deste pesquisa encontra-se
O procedimento técnico de pesquisa utilizado esquematizada na Figura 5.
foi o de estudo de caso. Segundo Ventura
(2007), o estudo de caso geralmente é
estruturado em torno de um pequeno número
de questões que se referem ao como e ao

Figura 5 – Esquema representativo da metodologia de pesquisa

Fonte: elaborada pelos autores

Gestão da Produção em Foco - Volume 4


196

A Fase 1 consistiu na seleção das ideias Dessa forma, correlacionando com o trabalho
centrais relativas aos constructos de Cultura, de Santos et al. (2010) sobre a interface entre
Estrutura e Logística e na organização das as Dimensões Culturais de Hofstede (2001) e
mesmas em elementos-chave, buscando Configurações Organizacionais de Mintzberg
possíveis pontos de conexão. (2012) com a teoria desenvolvida por Stevens
(1989), relativa aos estágios de evolutivos da
Esse processo foi essencial para Fase 2, que
cadeia de suprimentos, foi elaborado o
consistiu em, a partir dos resultados obtidos
instrumento de pesquisa, apresentado na
na Fase 1, elaborar questões de pesquisa que
Figura 6, que consiste na associação de um
pudessem ser interlocutoras eficazes,
questionário, responsável por formalizar e
juntamente ao desenvolvimento de uma
sintetizar o constructo teórico, a uma escala
escala que traduzisse visualmente as
graduada de respostas, encarregada de
respostas.
facilitar a medição da percepção dos
Por fim, a Fase 3 consistiu na aplicação do entrevistados sobre a realidade da
instrumento de pesquisa e na análise dos organização da qual fazem parte.
dados para, então, possibilitar a obtenção de
conclusões satisfatórias sobre o tema
estudado.
Figura 6 – Representação do Instrumento de Pesquisa

Para a análise dos resultados provenientes da estudo de caso, bem como a análise de como
aplicação do questionário, transformou-se a se manifestam três elementos chave de uma
escala de 1 a 5 em uma escala de (-50%) a grande organização: Cultura, Estrutura e
(+50%), sendo a correspondência dos Logística. A desvantagem é que, por tratar-se
valores: 1 – (-50%), 2 – (-25%), 3 – (0%), 4 – de uma empresa, não podem ser feitas
(+25%) e 5 – (+50%). Para cada pergunta generalizações. Essa limitação pode ser
obteve-se um valor final, calculado pela média contornada com a continuidade deste
ponderada das respostas, de modo a torná- trabalho e expansão do mesmo em futuros
los mais visuais para, assim, facilitar a novos estudos.
compreensão de quais Dimensões Culturais,
Configurações Organizacionais e Estágios
Evolutivos da Cadeia de Suprimentos são
preponderantes na companhia em questão.
A metodologia apresentada possui como
principais vantagens a profundidade com que
se permite estudar o tema, decorrente do

Gestão da Produção em Foco - Volume 4


197

6. RESULTADOS: apresentados na Figura 7 a seguir. FIGURA 7


– Resultados
A aplicação do instrumento de pesquisa junto
à liderança da organização resultou na
obtenção dos resultados que são

Figura 7 – Resultados

Fonte: Elaborada pelos autores

7. CONCLUSÕES Organizacionais se dá de maneira intrínseca.


Alta Distância ao Poder, por exemplo, é
As teorias relativas à Cultura, Estrutura e
extremamente correlata à Burocracia
Logística são possuidoras de rica bibliografia.
Mecanizada, também presente na
Entretanto, a interface entre elas ainda é
organização estudada. Isso também se aplica
pouco explorada. Nesse sentido, o estudo de
às outras dimensões culturais preponderantes
caso executado foi de grande importância
e têm como consequência o Estágio Evolutivo
para expandir a compreensão de como se
manifestado ter sido o de Integração
relacionam. Além disso, o instrumento de
Funcional, apesar de a empresa, pelo seu
pesquisa desenvolvido mostrou-se
grande porte, estar buscando a evolução.
extremamente versátil em elucidar de que
modo se manifestam. Essas conclusões se valem de uma
originalidade intrínseca e, assim, devem ser
No que se refere à Cultura Organizacional,
utilizadas como objeto de estudo de futuras
conclui-se que a empresa estudada
pesquisas relacionadas a outros casos,
caracteriza-se pela Alta Distância ao Poder,
também voltados à compreensão, ainda
Individualismo, Alta Aversão à Incerteza e
jovem, do todo organizacional, gerando cada
Masculinidade. No que tange a Estrutura
vez mais valor e vantagens competitivas aos
Organizacional, conclui-se sem ressalvas que
que se engajarem na busca pela coesão entre
a Burocracia Mecanizada é dominante. Por
sua cultura, sua gestão e seu modo de
fim, sobre Logística, conclui-se de modo claro
estruturar-se.
que a companhia encontra-se em estágio de
Integração Funcional, mas está em busca da
passagem para o estágio subsequente.
Sendo assim, pode-se afirmar que a dinâmica
entre Logística, Cultura e Estrutura

Gestão da Produção em Foco - Volume 4


198

REFERÊNCIAS DISTRIBUTION AND LOGISTICS MANAGEMENT,


V.34, N.8, P.606-627, 2004.
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ED. PORTO ALEGRE: BOOKMAN, 2001. ENGLEWOOD CLIFFS: PRENTICE-HALL, 1993.
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CULTURE. SAGE OPEN, V. 2, N. 1, 2012. CINCO CONFIGURAÇÕES. SÃO PAULO: ATLAS,
2A ED, 2012.
[3] DE SOUZA, E. C. L.; FENILI, R. R. O
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práticas: uma proposta à luz do legado de métodos e técnicas. 3. Ed. São Paulo: Editora
Bourdieu. Cadernos EBAPE. BR, v. 14, n. 4, p. 872, Atlas, 1999.
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de Engenharia de São Carlos, Universidade de São MINTZBERG. IN: SIMPÓSIO DE ENGENHARIA DE
Paulo – USP, São Carlos, 2011. PRODUÇÃO - SIMPEP, 17, 2010, BAURU. ANAIS...
BAURU, UNESP, 2010. P.1-15.
[5] HOFSTEDE, G. CULTURE’S
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ORGANIZATIONS ACROSS NATIONS. 2. ED. ATLAS, 2009.
THOUSAND OAKS, CA: SAGE PUBLICATIONS,
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2001.
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[6] KIRKMAN, B. L.; LOWE, K. B.; GIBSON, C. DISTRIBUTION AND MATERIALS MANAGEMENT,
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CONSEQUENCES: A REVIEW OF EMPIRICAL
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RESEARCH INCORPORATING HOFSTEDE'S
COMO MODALIDADE DE PESQUISA. REV.
CULTURAL VALUES FRAMEWORK. JOURNAL OF
SOCERJ. V. 20, N. 5, P. 383-386, 2007.
INTERNATIONAL BUSINESS STUDIES, V. 37, N. 3,
2006. [15] WOOD JR, T.; ZUFFO, P. K. SUPPLY
CHAIN MANAGEMENT. REVISTA DE
[7] MENTZER, J.T.; MIN, S.; BOBBITT, L. M. ADMINISTRAÇÃO DE EMPRESAS, SÃO PAULO, V.
TOWARD A UNIFIED THEORY OF LOGISTICS.
38, N. 3, P. 55-63, 1998.
INTERNATIONAL JOURNAL OF PHYSICAL

Gestão da Produção em Foco - Volume 4


199

CAPÍTULO 19

Fabiana Haddad Bistane


Letícia Lima Viana
Laura Gabriele Rodrigues da Costa Carvalho
César Augusto Galvão de Morais
Marilia da Silva Bertolini

Resumo: Reciclagem e reuso de produtos e materiais contribuem para uma


economia de baixo carbono, com a diminuição da extração de recursos naturais. A
indústria madeireira, independente de seu segmento, gera resíduos no
processamento deste material. Os painéis de partículas são potenciais produtos a
serem obtidos por meio do reaproveitamento destes resíduos. Este estudo teve
como objetivo a produção e caracterização de painéis de partículas, provenientes
de resíduos industriais e resina poliuretana a base de mamona. Foram produzidos
painéis com variação nos tempos de prensagem, em 7 e 10 minutos. A
caracterização foi realizada conforme NBR 14810 (2013), avaliando-se: Densidade;
Teor de Umidade; Inchamento em espessura e Absorção de água, em 2 e 24
horas. Os painéis produzidos foram classificados como de média densidade (0,6 e
0,78 g/cm³) e apresentaram teor de umidade e inchamento em 24 horas em
conformidade com os requisitos normativos. As demais propriedades não se
diferiram estatisticamente entre os tratamentos, o que demonstra a possibilidade de
adoção do menor tempo de prensagem na fabricação. Observou-se por meio deste
estudo a viabilidade do uso de resíduos industriais e adesivo proveniente de
biomassa, além de melhores condições de fabricação, os quais podem contribuir
para produtos de maior apelo ambiental.

Palavras chave: Resíduos Industriais, Painéis de Madeira, Adesivo de Biomassa,


Propriedades Físicas.

Gestão da Produção em Foco - Volume 4


200

1. INTRODUÇÃO Particleboard) ou painéis de partículas de


média densidade, buscando dissociar o novo
O estímulo a processos de reciclagem e
produto da imagem do aglomerado tradicional
reutilização de produtos é uma das
(MATTOS; GONÇALVES, 2008). Em 2015,
alternativas que podem inserir um país na
estes produtos representaram uma fatia
economia de baixo carbono. O reuso diminui
expressiva dentre os painéis de madeira
a necessidade de produção de novos bens e
produzidos no mundo, com aproximadamente
a extração de recursos naturais e,
83 milhões de m³, conforme a Food and
conseqüentemente, a emissão de gases do
Agriculture Organization - FAO (2017).
efeito estufa durante estes processos é
reduzida (FRAGMAQ, 2014). Os painéis comerciais são produzidos em três
camadas, partículas menores nas camadas
A Lei 12.305, de 02 de agosto de 2010, que
externas, para melhorar a adesão e
estabelece a política Nacional de Resíduos
acabamento com revestimentos, e partículas
Sólidos, conceitua resíduos sólidos e define
de maior granulometria no núcleo,
sua destinação adequada, como reutilização,
contribuindo assim com a resistência
incineração, compostagem, entre outros. Esta
mecânica. No entanto, a produção de painéis
lei descreve a importância do
de partículas homogêneas (PPH) é uma
reaproveitamento e o papel da reciclagem
alternativa que pode reforçar o apelo
dos resíduos sólidos, a qual objetiva a
ambiental, por serem produtos que não
alteração de suas propriedades visando à
necessitam de várias etapas de classificação
transformação em insumos ou novos produtos
das partículas e de disposição das mesmas
(NASCIMENTO et al., 2016).
em camadas na formação do colchão que
Independentemente do segmento de indústria gera o painel, contribuindo para menor
madeireira, a geração de resíduos é consumo de energia durante sua fabricação.
decorrência do processamento primário ou
Outra questão associada aos painéis
secundário da madeira, sendo sua quantidade
comerciais é o emprego de adesivo uréia-
caracterizada pelo tipo de processo e
formaldeído (UF) em sua composição. A
máquinas utilizadas, além da forma e anatomia
emissão de formaldeído livre é um dos fatores
das toras (CERQUEIRA et al., 2012). Apesar de
que mais contribuem nos impactos ambientais
o Brasil possuir uma quantidade considerável
durante a produção destes painéis, além do
de madeira reflorestada, as espécies mais
consumo de energia elétrica (FREIRE et al.,
empregadas neste fim provenientes de plantios
2016). A emissão de formaldeído destes
homogêneos, como os gêneros Pinus e
painéis e o enfraquecimento da ligação da
Eucalipto, podem alcançar apenas cerca de
cola causado pela degradação hidrolítica do
63% de aproveitamento da matéria prima em
polímero UF estimularam as pesquisas para
seu beneficiamento (HILLIG et al. 2006).
desenvolvimento de adesivos melhorados
Os rejeitos desta indústria podem ser (SALEM et al., 2011). A resina poliuretana
reutilizados, tratando-se de uma alternativa bicomponente à base de mamona é uma
econômica para as empresas, bem como alternativa às resinas sintéticas. Parcialmente
contribuindo com a racionalização dos derivada de biomassa, tem apresentado
recursos florestais e gerenciamento dos excelentes resultados em trabalhos
resíduos sólidos industriais (CERQUEIRA et al., envolvendo madeira e seus produtos
2012). derivados. Apesar do custo ligeiramente
superior comparado aos adesivos
Os painéis de partículas, também conhecidos
convencionais neste mercado, o custo pode
por aglomerados, são potenciais produtos a
ser reduzido ao longo do tempo, à medida
serem obtidos com o reaproveitamento destes
que a demanda por produtos de fontes
resíduos. Os painéis aglomerados são
renováveis aumenta (BERTOLINI, et al. 2013).
produtos obtidos com partículas de madeira,
Composta de poliol, extraído da mamona, e
incorporando-se resinas sintéticas ou outros
do pré-polímero (isocianato), resulta em uma
adesivos, consolidados por prensagem
resina poliuretana com cura a temperatura
aplicando-se temperatura e pressão (IWAKIRI,
ambiente, a qual pode ser acelerada em
2005; MOSLEMI, 1974; MALONEY, 1977).
temperaturas próximas a 90 ºC (DIAS, 2008).
Devido à modernização tecnológica no
processo de fabricação, o que trouxe ao Diante deste contexto, este estudo teve como
produto desempenho superior em resistência, objetivo a produção e caracterização de
na década de 1990 foi implementada a painéis de partículas de madeira,
nomenclatura MDP (Medium Density provenientes de resíduos industriais e resina

Gestão da Produção em Foco - Volume 4


201

poliuretana bicomponente a base de óleo de 3. METODOLOGIA


mamona.
3.1 MATERIAIS
Para a fabricação dos painéis foram utilizados
2. OBJETIVOS resíduos de madeira da espécie Pinus sp.,
proveniente do processamento de madeira no
Este trabalho teve como objetivo a produção e
Laboratório de Serraria e Beneficiamento, do
caracterização física, de painéis de partículas
Câmpus de Itapeva - UNESP. O resíduo foi
de madeira, provenientes de resíduos
reduzido em moinho de facas modelo Marconi
industriais, e resina poliuretana bicomponente
MA 680 para obtenção das partículas (Figura
a base de óleo de mamona. Buscou-se deste
1). Posteriormente, as partículas foram
modo obter produtos com considerável apelo
classificadas em um agitador de peneiras
ambiental, devido às características inerentes
para análises granulométricas marca Bertel,
aos insumos empregados e ao processo.
utilizando-se as peneiras de 4 mm de abertura
(5mesh), 2mm de abertura (9mesh) e 1 mm
de abertura (16mesh). Para a produção dos
painéis foram utilizadas as partículas retidas
na peneira de 2 mm (Figura 1).

Figura 1 – Moinho de facas e agitador de peneiras para processamento e classificação das


partículas

Secagem, Câmpus de Itapeva - UNESP. As


O adesivo utilizado foi a resina poliuretana a partículas e os componentes A e B do adesivo
base de óleo de mamona, do tipo foram pesados, com base nas quantidades
bicomponente, sendo o componente A o obtidas para densidade nominal de 0,70
poliol derivado do óleo de mamona g/cm³. Em seguida, estes insumos foram
(densidade 1,2 g/cm³) e o componente B o homogeneizados em encoladeira Marconi. A
isocianato polifuncional (densidade 1,24 mistura obtida foi colocada em molde de 450
g/cm³). mm × 450 mm× 10 mm sobre uma chapa
metálica e realizada a pré-prensagem da
mistura em prensa Ribeiro capacidade 15 t,
3.2 PRODUÇÃO DOS PAINÉIS formando o colchão de partículas para facilitar
a prensagem final, conforme a Figura 2.
Os painéis de partículas homogêneas foram
fabricados no Laboratório de Painéis e

Gestão da Produção em Foco - Volume 4


202

Figura 2 – Pré-prensagem para formação do colchão de partículas.

A prensagem final dos painéis foi realizada em totalizando 6 painéis. Os painéis foram
prensa hidraúlica Hidral-Mac PHH capacidade armazenados por 72 horas em temperatura
80 t, conforme a Figura 3. Os parâmetros de ambiente, para completa cura e estabilização e
prensagem utilizados foram temperatura de posteriormente esquadrejados nas dimensões
100 °C e pressão de 40 kgf/cm2. Foram finais de 400 mm x 400 mm.
adotadas duas variações em termos de tempo
de prensagem, de 7 e 10 minutos, sendo
produzidos 3 painéis para cada variação,

Figura 3 – Prensagem a quente e painéis produzidos.

3.3 CARACTERIZAÇÃO DOS PAINÉIS de: Densidade; Teor de Umidade; Inchamento


em espessura, em 2 e 24 horas e Absorção
A caracterização dos painéis foi realizada
de água, após 2 e 24 horas. Para realização
conforme a norma brasileira ABNT NBR 14810
destes ensaios, foram obtidos corpos de
(2013), avaliando-se as propriedades físicas
prova a partir do corte dos painéis, sendo

Gestão da Produção em Foco - Volume 4


203

retirados 6 corpos de prova de 50 mm x 50


mm para cada propriedade.
4. RESULTADOS E DISCUSSÕES
A partir dos resultados obtidos realizou-se
As tabelas 1 e 2 apresentam os valores
tratamento estatístico por meio de análise de
encontrados para as propriedades físicas de
variância (ANOVA) e Teste de Tukey a 5% de
densidade e teor de umidade dos painéis.
significância, comparando-se os tratamentos
obtidos, utilizando-se o software Minitab 17.
Os resultados foram comparados às
principais normas de painéis, NBR 14810
(2013) e ANSI A208.1 (1999).

Tabela 1 – Densidade dos painéis de partículas.


Densidade (g/cm3)
Painel /Corpo de Prova
Painéis – 7 minutos* Painéis – 10 minutos*
1/1 0,58 0,84
1/2 0,72 0,84
2/1 0,46 0,77
2/2 0,48 0,74
3/1 0,68 0,7
3/2 0,66 0,77
Média* 0,60 b 0,78 a
Coeficiente de Variação (%) 18,16 7,13
*Médias seguidas de letra iguais não se diferem estatisticamente pelo teste de Tukey (p < 0,05).

Tabela 2 – Densidade dos painéis de partículas.


Teor de umidade (%)
Painel /Corpo de Prova
Painéis – 7 minutos* Painéis – 10 minutos*
1/1 12,33 9,95
1/2 11,82 9,91
2/1 12,40 10,31
2/2 11,91 10,32
3/1 11,52 10,53
3/2 11,41 14,33
Média* 11,90 a 10,89 a
Coeficiente de Variação (%) 3,42 15,62
*Médias seguidas de letra iguais não se diferem estatisticamente pelo teste de Tukey (p < 0,05).

Gestão da Produção em Foco - Volume 4


204

Conforme a tabela 1, observou-se que as 13%, de acordo a tabela 2. Comparando-se


amostras de painéis (7 e 10 minutos) as amostras entre si, as mesmas
resultaram em diferença estatística entre si, apresentaram equivalência estatística ao nível
sendo os painéis de 10 minutos de de 5% de significância, ou seja, o tempo de
prensagem de maior densidade. Entretanto, prensagem não afetou a propriedade de teor
ambas as amostras se enquadram como de umidade.
painéis de média densidade (0,64 a 0,8
As tabelas 3 e 4 a seguir apresentam os
g/cm³), conforme classificação da norma
valores encontrados para as propriedades
ANSI A208.1 (1999).
físicas de inchamento em espessura e
Ambos os tratamentos apresentaram teor de absorção de água.
umidade em conformidade com o requisito
estabelecido pela norma NBR 14810 -2
(2013), a qual especifica valores entre 5 a

Tabela 3 – Inchamento em espessura (2 e 24 horas) dos painéis de partículas.


Inchamento em Inchamento em espessura
espessura - 2h (%) - 24h (%)
Painel/Corpo de Prova
Painéis 7 Painéis 10 Painéis 7 Painéis 10
minutos minutos minutos minutos
1/1 8,2 2,51 11,4 9,6
1/2 8,64 5,79 12,91 13,11
2/1 6,91 6,22 7,7 13,09
2/2 7,42 8,21 9,01 11,6
3/1 6,08 10,46 12,66 14,3
3/2 6,41 8,46 13,36 12,47
Média* 7,28 a 6,94 a 11,17 a 12,36 a
Coeficiente de variação (%) 13,81 39,60 20,72 13,08
*Médias seguidas de letra iguais, para a mesma propriedade e período de análise, não se diferem
estatisticamente pelo teste de Tukey (p < 0,05).

A NBR 14810-2 (2013) estabelece requisitos Sartori et al. (2012) produziram painéis de
apenas para o inchamento em espessura partículas de bagaço de cana, utilizando resina
durante 24 horas que, para painéis de poliuretana à base de mamona, produzidos
espessura entre 6 a 13 mm, deve estar abaixo com pressão de prensagem 5 MPa, por 10
de 18%. Sendo assim, observou-se que os minutos, à 100 °C. Os autores verificaram para
painéis de 7 minutos e 10 minutos deste os painéis inchamento em espessura em 24
estudo estiveram em conformidade com o horas de 20%. Isto demonstra a superioridade
valor especificado pela norma. dos valores encontrados no estudo em questão,
por volta de 11 a 12% para os painéis de 7 a 10
Para a propriedade de inchamento em
minutos de prensagem, o que pode estar
espessura, nos períodos de 2 e 24 horas, o
relacionado à madeira de Pinus sp., já que
tempo de prensagem não afetou o
utilizou-se o mesmo adesivo que o trabalho da
comportamento dos painéis em relação à esta
literatura.
propriedade, fato observado pela
equivalência estatística entre os resultados, o
que demonstra a possibilidade de adoção de
menor tempo de prensagem na fabricação
dos painéis.

Gestão da Produção em Foco - Volume 4


205

Tabela 4 – Absorção de água (2 e 24 horas) dos painéis de partículas.


Absorção de água 2h (%) Absorção de água - 24h
(%)
Painel/Corpo de Prova
Painéis 7 Painéis 10 Painéis 7 Painéis 10
minutos minutos minutos minutos
1/1 39,07 7,36 53,00 22,12
1/2 32,22 13,16 47,54 31,71
2/1 88,73 19,44 105,86 44,27
2/2 78,17 15,39 106,42 37,36
3/1 28,90 38,92 51,95 59,38
3/2 23,55 33,46 50,21 57,57
Média* 48,44 a 21,29 a 69,16 a 42,07 a
Coeficiente de Variação (%) 57,35 57,81 41,50 34,81
*Médias seguidas de letra iguais, para a mesma propriedade e período de análise, não se diferem
estatisticamente pelo teste de Tukey (p < 0,05).

Conforme a tabela 4, a equivalência Diante do exposto por meio de valores


estatística entre os resultados dos painéis de encontrados em trabalhos análogos da
7 e 10 minutos, nos dois períodos de literatura, observou-se que, independente da
absorção de água nos quais as amostras composição dos painéis de partículas, nota-
foram submetidas (2 e 24 horas), demonstra se uma tendência de valores elevados para
que o tempo de prensagem também não absorção de água. Cabe ressaltar que não há
afetou esta propriedade, embora tenha sido requisitos para esta propriedade nas normas
notado considerável coeficiente de variação NBR 14810-2 (2013) e ANSI A208-1 (1999).
entre os valores obtidos para os corpos de
prova.
5. CONCLUSÕES
Fiorelli et al. (2015) encontraram para painéis
produzidos com resíduos de Pinus spp. Observou-se por meio deste estudo a
oriundos de uma indústria moveleira e resina viabilidade do uso de resíduos industriais de
poliuretana à base de mamona, valor desta madeira e adesivo proveniente de biomassa
propriedade por um período de 2 horas de na produção de painéis de partículas, o que
53,59%. pode contribuir para fabricação de produtos
de menor impacto ambiental.
Soratto et al. (2013) produziram painéis de
madeira aglomerada de Eucalyptus sp. com Por meio dos resultados obtidos para as
associação de cavaco com casca e ureia- propriedades de inchamento em espessura e
formaldeído como adesivo. Os resultados absorção de água, características muito
para absorção de água para o painel com importantes destes produtos quanto a
100% de madeira e 0% de partículas de resistência à água, observou-se que um
cavaco com casca foram de 23,23% e menor tempo de prensagem dos painéis pode
44,50%, para 2 e 24 horas, respetivamente. ser utilizado em sua fabricação, comparando-
Para painéis contendo 76% de partículas de se os períodos de 7 e 10 minutos. A redução
madeira e 24% de partículas de cavaco com do tempo empregado nesta etapa de
casca, os valores foram de 35,61% em 2 fabricação pode colaborar com economia de
horas e de 47,93% em 24 horas. energia, o que se torna interessante também
em termos ambientais.

Gestão da Produção em Foco - Volume 4


206

REFERÊNCIAS Universidade Federal do Recôncavo da Bahia -


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ROCCO LAHR, F. A.; NASCIMENTO, M, F.; BERÁNKOVÁ, J. Formaldehyde Emission from
CURTOLO, D. D.; SARTORI, D. L.; BELINI, U. L. Wood-Based Panels Bonded with Different
Painéis de partículas monocamadas fabricados Formaldehyde-Based Resins. Drvna Industrija, v.
com resíduo de madeira e fibra de coco verde. 62, n. 3, p.177-183, 2011.
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ambientais de painéis de madeira: uma revisão de Ciência da Madeira, v. 04, n. 01, p. 46-59, 2013.
literatura. In: Anais do IV Congresso Baiano de
Engenharia Sanitária e Ambiental, COBESA,

Gestão da Produção em Foco - Volume 4


207

CAPÍTULO 20

Lucas Martins Franco


Márcio Dimas Ramos
Carlos Henrique Oliveira
Henrique Duarte Carvalho
Sandra Miranda Neves

Resumo: Toda empresa competitiva tem uma variedade de processos para lidar.
Estas mesmas empresas, eventualmente lidam com anomalias nesses processos.
Algumas dessas anomalias têm origem desconhecida e, por isso, é de suma
importância contar com ferramentas que permitem investigar e solucionar esses
problemas. O presente artigo busca sintetizar uma metodologia eficaz conceituada
entre as organizações, o pdca. O estudo contempla a aplicação do ciclo pdca em
quatro linhas de produção de uma refrigeranteira de Jundiaí-SP, a fábrica trabalha
com um índice denominado de taxa de falhas, uma extensão do processo de
lubrificação e reflexo da manutenção preditiva por análise de óleo na companhia.
Este indicador é um reflexo da qualidade na rotina de lubrificação das máquinas
destas linhas e durante muito tempo, não atingia a meta estabelecida
estrategicamente. Para a implementação e melhorias no processo, realizou-se uma
pesquisa-ação com foco nas etapas do pdca. O trabalho mostra a aplicação desta
metodologia, seguindo todas suas etapas de modo consciente e com apoio da
liderança e operação da fábrica. Com isto, obteve-se uma redução significativa de
mais de 20% no índice de taxa de falhas a padronização dos aprendizados que
trazem resultado.

Gestão da Produção em Foco - Volume 4


208

1. INTRODUÇÃO análise de óleo; (II) utilizar o ciclo PDCA para


investigar a razão dos resultados ruins, atuar
No que tange à competitividade empresarial,
segundo a metodologia e garantir um novo
as companhias que melhor desenvolvem a
processo sustentável ao longo do tempo; (III)
gestão do seu tempo e recursos, geralmente
difundir o conhecimento de taxa de falhas por
são as que mais se destacam garantindo sua
lubrificação para a liderança e operação da
sobrevivência. As organizações mais
fábrica; (IV) otimizar a comunicação entre a
capacitadas desenvolvem um planejamento
fábrica e a empresa terceira que realiza a
estratégico de suas operações visualizando
coleta de óleo.
suas metas ao longo prazo, onde querem
chegar e quais recursos são necessários para
tal feito. Quando se trata de linhas produtivas
2 REFERENCIAL TEÓRICO
essa lógica também é aplicada; as metas de
produção geralmente envolvem a eficiência 2.1 PROCESSOS
da linha, a disponibilidade de máquinas, o
Toda organização contém um conjunto de
tempo de setup e manutenção, índices de
processos, onde estes são utilizados como
perda de insumo, entre outros.
um método de estudar, visualizar e avaliar as
Com isso, tem-se buscado redução da atividades exercidas. Davenport (1994), um
indisponibilidade não programada na dos pioneiros sobre o tema, sintetiza processo
produção, minimizando o tempo que não de uma maneira simples; sua definição
estava programado e que não agrega valor envolve a ordenação de atividades do
para atividade. Essa situação é justificada, trabalho, com a expressão do tempo, espaço,
principalmente, pela parada de maquinário. começo, fim, inputs e outputs bem
Desde o desenvolvimento da indústria, as identificados. Reforçando essa ideia, tem-se a
máquinas têm sido tratadas como recursos definição da Fundação Nacional da
valiosos, tendo em vista o papel que exercem Qualidade (2010, p.103): “Os processos são
dentro da linha de produção e, para a constituídos pelo conjunto de atividades inter-
garantia da sua disponibilidade física na relacionadas ou interativas que transformam
operação, a manutenção passou a obter uma insumos (entradas) em produtos (saídas)”.
função de suma importância.
Slack (2009) complementa, citando processo
Os tipos de manutenção realizados na como uma tecnologia que envolve máquinas,
indústria se dividem em corretiva, preventiva e equipamentos e dispositivos como agentes
preditiva. Em geral, as manutenções mais transformadores de materiais, informação e
desenvolvidas são análise de óleo, vibração, consumidores, agregando valor ao produto
termografia e emissão acústica. Quando se desse processo e, consequentemente, sendo
trata de análise de óleo, a manutenção um diferencial para atingir os objetivos
preditiva se encarrega de medir e verificar se estratégicos de uma organização. Trazendo
o lubrificante está nas especificações esse conceito para o dia a dia, os processos
corretas. são geridos diariamente e são incorporados
às rotinas da empresa, assim, sendo um
Com isso, essa pesquisa se propõe a
método que envolve todos os colaboradores
responder à seguinte questão: Como a
de uma organização (GONÇALVES, 2000b).
metodologia do ciclo PDCA pode melhorar o
processo de lubrificação, em uma fábrica que Siha (2008) aponta o domínio dos processos
têm resultados negativos em sua manutenção como um dos agentes críticos de gestão e
preditiva por análise de óleo? melhoria de resultados. Além disso, ressalta