Você está na página 1de 252

Editora Poisson

Gestão da produção em foco


Volume 12

1ª Edição

Belo Horizonte
Poisson
2018
Editor Chefe: Dr. Darly Fernando Andrade

Conselho Editorial

Dr. Antônio Artur de Souza – Universidade Federal de Minas Gerais


Dra. Cacilda Nacur Lorentz – Universidade do Estado de Minas Gerais
Dr. José Eduardo Ferreira Lopes – Universidade Federal de Uberlândia
Dr. Otaviano Francisco Neves – Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais
Dr. Luiz Cláudio de Lima – Universidade FUMEC
Dr. Nelson Ferreira Filho – Faculdades Kennedy

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)


G393
Gestão da Produção em Foco– Volume 12/
Organização Editora Poisson – Belo
Horizonte - MG : Poisson, 2018
252p

Formato: PDF
ISBN: 978-85-93729-53-9
DOI: 10.5935/978-85-93729-53-9.2018B001

Modo de acesso: World Wide Web


Inclui bibliografia

1. Gestão da Produção 2. Engenharia de


Produção. I. Título

CDD-658.8

O conteúdo dos artigos e seus dados em sua forma, correção e confiabilidade


são de responsabilidade exclusiva dos seus respectivos autores.

www.poisson.com.br

contato@poisson.com.br
Capítulo 1: Avaliação dos requisitos da norma regulamentadora 36 (NR-36) no
setor de desossa em um frigorífico de bovinos localizado em Mato Grosso....... 7
(Raquel Anizia Da Silva, Tatiane Da Cunha Villela, Carla Manoela Weber)

Capítulo 2: Análise ergonômica do trabalho (AET): uma avaliação do posto de


trabalho da máquina de extrusão em uma empresa de cerâmica vermelha....... 17
(Caroline Lima Fernandes, Kaik Ferreira de Souza, Karina Silva Gonçalves, Thamyres Rocha
Corrêa)

Capítulo 3: Inovação e competitividade em empresas moveleiras: Identificação


de elementos chave por meio da aplicação do método Fuzzy AHP ................... 26
(Alexandre Rodrigues Ferreira, Bruno Miranda dos Santos, Cyro Rei Prato Neto, Wagner
Pietrobielli Bueno, Marcela Soares)

Capítulo 4: Propostas de melhorias de condições de trabalho no setor de


usinagem de uma empresa metalúrgica na cidade de São Carlos/SP ............... 36
(Marcos Rodrigo Catóia, Rita de Cássia Arruda Fajardo)

Capítulo 5: Aplicação de um método de gerenciamento da rotina de trabalho


como forma de maximizar o desempenho de uma empresa varejista ................ 46
(Marina Arruda Araújo, Maxweel Veras Rodrigues, Geraldo Almiro De Araujo Neto, Lara Barreira
Ferreira)

Capítulo 6: Quando o conhecimento beneficia o gerenciamento de projetos? .. 58


(Irene Dobarrio Machado Ciccarino, Ana Beatriz Gomes de Mello Moraes)

Capítulo 7: A sustentabilidade no transporte rodoviário de cargas no brasil ..... 67


(Rodrigo Duarte Soliani, Ana Rita Tiradentes Terra Argoud, Lineia Jollembeck Lopes)

Capítulo 8: Análise de falhas em um equipamento gargalo: estudo de caso em


uma linha de envase de bebidas.. ....................................................................... 76
(Francisco Krieger Abrunhoza, Jairo José de Oliveira Andrade)

Capítulo 9: Atributos de produtos 'verdes' que mais influenciam na intenção de


compra do consumidor: utilização do método ahp para análise multicritério com
estudantes na Universidade Estadual do Maranhão ........................................... 88
(Francynara Matos Da Cruz De Almeida, Tássia Nayellen Costa Santos, Weslley Saullo Pereira
Rodrigues, Bruno De Castro Silva)
Capítulo 10: Avaliação Qualitativa das Ferramentas Leansigma: Estudo de caso
em uma empresa automobilística. ....................................................................... 98
(Débora Paula Borges de Oliveira Cechin, Adriano Cechin)

Capítulo 11: Avaliação da qualidade em serviços: percepção da qualidade na


matriz de uma rede varejista de artigos de óptica ............................................... 107
(Letícia Joana Ferreira Gualberto, Sandra Miranda Neves, Henrique Duarte Carvalho, Carlos
Henrique de Oliveira, Márcio Dimas Ramos)

Capítulo 12: Previsão de demanda para varejo utilizando regressão linear


múltipla ................................................................................................................. 118
(Vinícius Martins Garcia, Letícia de Souza Siqueira, Raquel Cymrot)

Capítulo 13: Critérios Sustentáveis Para Produtos Consumidos Pelo GDF


Presentes nos Eco rótulos: Eco Mark; Green Council, EU Flower e Good
Environment Choice Australia .............................................................................. 134
(Marcito Ribeiro Madeira Campos, Ronaldo Rodrigues Pacheco, Gustavo Silveira, Isabel
Gosaves, Mateus Melchior)

Capítulo 14: Estudo comparativo de aplicação dos princípios da construção


enxuta em empresas da construção civil no brasil, através de revisão
bibliográfica. ........................................................................................................ 143
(Marcilon Fonseca De Lima, Joao Felipe Bicalho Prado, Priscilla Borges De Freitas Rodrigues,
Clarimar J Coelho)

Capítulo 15: Balanceamento de processos de montagem por meio da


metodologia MTM: estudo de caso de uma indústria automotiva ....................... 153
(Renato Dos Santos, Hugo Martinelli Watanuki, Renato De Oliveira Moraes)

Capítulo 16: Mensuração da qualidade por intermédio de índices de satisfação


obtidos com auxílio da análise fatorial confirmatória. um estudo com os clientes
de uma academia em Belém do Pará .................................................................. 163
(Gleyce Aline Veras Pantoja, Carlos Benedito Pereira Da Paixão)

Capítulo 17: Mapeamento de Fluxo de Valor: Estudo de caso em um restaurante ..... 182
(Henrique Santos, André Philippi Gonzaga De Albuquerque, Fagner José Coutinho De Melo,
Larissa De Arruda Xavier, Denise Dumke De Medeiros)

Capítulo 18: Tecnologia de Produção mais Limpa aplicada a uma empresa de


pequeno porte: Um estudo de Caso .................................................................... 192
(Haroldo Lhou Hasegawa, Luiz Antônio Lorieri, Paulo Roberto Oliveira, Orlando Roque da Silva,
Délvio Venanzi)
Capítulo 19: Proposta de implantação de clp em uma indústria fabricante de
embreagens unidirecionais .................................................................................. 200
(Ygor Geann dos Santos Leite, Adriana Carvalho da Silva)

Capítulo 20: Capacidade em projetos: uma perspectiva para construção naval


brasileira............................................................................................................... 209
(Maria de Lara Moutta Calado , Daniela Didier Nunes Moser , Elidiane Suane Dias De Melo
Amaro, Sergio Iaccarino, Eduardo De Moraes Xavier De Abreu)

Capítulo 21: Análise dos impactos sociais da nova lei do motorista


Nº13.103/2015...................................................................................................... 218
(Camila Costa Negri, Samuel da Silva Neto, Rodrigo de Moraes Santos, José Vicente Caixeta
Filho)

Capítulo 22: Gestão e usos potenciais do resíduo do processamento de


folhelhos (xisto retortado) ..................................................................................... 227
(Fernanda Aparecida Alves Rezende, Renan Silva Dutra, Georgiene Ferreira de Almeida, Thais
Alves Ferreira, Josiane Roberta Dos Santos Silva)

Autores ................................................................................................................. 237


Capítulo 1

Raquel Anizia Da Silva


Tatiane Da Cunha Villela
Carla Manoela Weber

Resumo: As condições precárias do ambiente de trabalho são os principais


responsáveis pelos acidentes de trabalho e doenças ocupacionais, logo o estudo
do ambiente em que o trabalhador está inserido permite identificar as condições
que afetam a sua segurança e saúde. Esse estudo pretende fazer um diagnóstico
das condições de trabalho, identificar as deficiências do setor de desossa de um
frigorífico de bovinos e analisar se a empresa segue as exigências impostas pela
norma regulamentadora NR-36. O estudo trata-se de uma pesquisa descritiva com
uma abordagem qualitativa, classificando-se em um estudo de caso realizado a
partir da observação direta. Por meio da análise da NR-36, foi possível encontrar as
principais conformidades e desconformidades do setor. Quanto às conformidades,
destacam-se: estrados, sistema de escoamento de água, limpeza e higienização,
recuo na base do plano de trabalho, local para pausas permitidas de trabalho,
fornecimento de equipamento de proteção individual e vestimentas. Os principais
itens apontados para melhoria envolvem treinamentos sobre variações posturais,
manuseio correto de mobiliários e equipamentos manuais, bem como intervenções
nos mobiliários e layout dos postos de trabalho, sistematização de rodízios de
funções, sinalização das vias de transporte e sistema de afiação de facas.

Palavras-chave: Saúde e segurança no trabalho. Frigorífico de bovinos. Setor de


desossa. Norma regulamentadora NR-36.
8

1. INTRODUÇÃO Desse modo, a ocorrência de acidentes do


trabalho e doenças ocupacionais é um fator
Os acidentes e as doenças relacionadas ao
limitante para o desenvolvimento econômico e
trabalho são os grandes responsáveis por
social do estado. Portanto, é necessário
mortes em todo o mundo. Segundo dados da
identificar as características da atividade
Organização Internacional do Trabalho (OIT)
cotidiana do trabalhador, de forma que,
2013, por ano são registrados cerca de 2,34
possibilite implantar melhorias para reduzir a
milhões de acidentes de trabalho mortais em
quantidade de acidentes e doenças em
todos os setores da economia, isso significa
frigoríficos, custos relativos aos acidentados e
que a cada 15 segundos, um trabalhador
evitar o afastamento do trabalhador
morre de acidente ou doença relacionada ao
impedindo a sua produtividade. Portanto, a
trabalho. No Brasil, estatísticas sobre
elaboração de normas e leis que visam
acidentes de trabalho vêm sendo divulgados
regulamentar as atividades econômicas,
pelo Ministério do Trabalho e Previdência
desde que, dentro de uma visão
Social (MTPS), cujos dados limitam-se aos
contemporânea, são essenciais na proteção
trabalhadores segurados. Segundo o último
da segurança e saúde do trabalhador.
levantamento, em 2014 foram registrados
722.474 acidentes e doenças relacionadas ao Um dos grandes avanços no que se refere à
trabalho, sendo 2.783 casos com óbitos, o proteção do trabalhador foi o decreto da
equivalente a 0,38% do total de acidentes e portaria do Ministério do Trabalho nº 555, de
doenças relacionadas ao trabalho (BRASIL, 18 de abril de 2013 que instituiu a norma
2016). regulamentadora NR-36 - Segurança e Saúde
no Trabalho em Empresas de Abate e
Neste contexto, segundo o Anuário Estatístico
Processamento de Carnes e Derivados. A NR-
de Acidentes do Trabalho (AEAT), no ano de
36 estabelece vários requisitos, no qual
2014, o estado de Mato Grosso registrou
devem ser adotados pelas empresas
14.135 acidentes e 127 casos com mortes, o
frigoríficas visando o controle, avaliação e
que consiste em 0,90% do total de acidentes.
monitoramentos dos riscos na atividade.
Para tal, a atividade econômica do estado que
Nesse sentido, o objetivo do presente trabalho
mais registrou acidentes, foi a atividade de
é avaliar a situação atual de um setor de
abate de reses (bovinos, equinos, asininos,
desossa de carne bovina de um frigorífico
muares, ovinos, caprinos e bubalinos), exceto
localizado no interior do estado de Mato
suínos, com um total de 1.286 acidentes, o
Grosso, em relação a aplicação dos requisitos
que representa 9,10% do total de acidentes
da norma regulamentadora NR 36, com o
do estado. Em seguida, as atividades
intuito de identificar as conformidades e as
econômicas que mais registraram acidentes
desconformidades encontradas no setor do
foram as atividades de cultivo de soja com
frigorífico em estudo.
5,63%; atendimento hospitalar com 5,47% e
atividade de abate de suínos, aves e outros
pequenos animais com 4,39% do total de
2. REVISÃO BIBLIOGRÁFICA
acidentes do estado (BRASIL, 2016).
2.1 Acidentes e doenças relacionadas ao
Os acidentes de trabalho e doenças
trabalho
ocupacionais geram efeitos negativos em uma
economia promissora como a existente no Embora exista diversas definições e
estado. Segundo Nóbrega (2013) as interpretações no que concerne ao conceito
consequências de um acidente são de acidente de trabalho, é importante
catastróficas, as lesões ocasionadas afetam a mencionar que para efeitos legais as
vida social do trabalhador e de seus empresas consideram a previsão do artigo 19
familiares, no caso da empresa, ocorre a da Lei nº 8.213/91, denominada de conceito
perda de material, mão- de obra, desgaste da legal. Nessa perspectiva, o acidente de
imagem, elevação do custo operacional e trabalho é tudo aquilo que pode ser
acabam sobrecarregando os sistemas de identificado no instante em que ocorreu e
seguridade social. Conforme Quelhas, Alves e também em episódios ou exposições
Filardo (2003) o aperfeiçoamento das contínuas ou intermitentes, que só são
condições do ambiente e do exercício do identificados em um certo período de tempo
trabalho diminui o custo social com acidentes (ABNT, 2001)
de trabalho, valoriza a dignidade e
Portanto, a lei nº 8.213/91 é responsável pela
proporciona a melhoria contínua da qualidade
apresentação das diretrizes sobre a
de vida dos trabalhadores.

Gestão da Produção em Foco - Volume 12


9

prevenção de acidentes, bem como visa ocorra uma lesão, ou morte para que
proteger o trabalhador no que concerne aos identifique o problema, é necessário que
seus direitos relacionados ao de receber os adote medidas estratégicas para que o
primeiros socorros e as indenizações quando acidente seja evitado. Portanto, a diferença
o mesmo sofrer lesões ou outras perturbações entre o conceito legal e o prevencionista
funcionais. Assim, é importante que os reside no fato de que no primeiro conceito só
responsáveis pela prevenção de acidentes é considerado a lesão física, enquanto que no
não fiquem restritos somente ao conceito segundo é considerado, além das lesões
legal, mas também devem investigar o físicas, as perdas de tempo e material.
acidente do trabalho em todos os seus Perante as definições apresentadas sobre
ângulos possíveis (ZÓCCHIO, 1971). Nessa acidente de trabalho, é importante ressaltar
perspectiva, é importante ressaltar que além que o acidente de trabalho é classificado de
do conceito de acidente do trabalho conforme diversas formas. A previdência social
a Lei nº 8.213/91, existe, também, a classifica o acidente do trabalho nos
abordagem prevencionista. No conceito seguintes termos: acidente de trajeto
prevencionista, o acidente do trabalho é dado (percurso), acidentes- tipo ou típico, doença
como “qualquer ocorrência não programada, profissional e doença do trabalho (BRASIL,
inesperada, que interfere ou interrompe o 2015b).
processo normal de uma atividade, trazendo
Por sua vez, a Associação Brasileira de
como consequência isolada ou
Normas Técnicas, na Norma Brasileira (NBR)
simultaneamente perda de tempo, dano
14280:2001 inclui também o acidente
material ou lesões ao homem” (NÓBREGA,
impessoal e o acidente pessoal. O Quadro 1,
2013, p. 7).
apresenta as principais características de
Benite (2004) salienta que na visão cada tipo de acidente de trabalho.
prevencionista não convém esperar que

Quadro 1 - Tipos de acidentes de trabalho.


TIPOS DE
CARACTERÍSTICAS
ACIDENTES
Acidente de Acidente ocorrido no trajeto entre residência e local de trabalho do segurado e vice-versa,
trajeto inclui qualquer meio de locomoção, desde que não haja o desvio do percurso.
São acidentes decorrentes das características da atividade profissional desempenhada pelo
acidentado, causando perturbação funcional (doença física e mental) ou lesão corporal e
Acidente-
tendo como consequência a morte ou incapacidade (temporária ou permanente, total ou
tipo ou típico
parcial). No acidente típico é possível saber o momento da lesão, sendo possível estabelecer
a cronologia entre lesões sucessivas.
Doença do trabalho que foi produzida ou desencadeada pelo exercício de atividade
específica, constante da respectiva relação elaborada pelo ministério do trabalho e da
Doença
previdência social de relação oficial. Exemplo, Tendinite, Bursite, Sindrome do Túnel do
profissional
carpal, Lesões por Esforços Repetitivos e Distúrbio Osteomusculares Relacionadas ao
Trabalho (LER/DORT), dentre outras.
Doença do Doença resultante do exercício continuado ou intermitente de atividade laborativa capaz de
trabalho causar lesão por ação mediata. O estresse e a fadiga são considerados doenças do trabalho.
Esse tipo de acidente independe de existir acidentado, ele não é considerado como causador
Acidente
direto da lesão pessoal. Exemplo, queda de objeto, explosão de caldeira, incêndio ou
impessoal
explosão, entre outros.
A caracterização depende de existir acidentado, esse acidente é caracterizado da maneira
Acidente
pela qual a fonte da lesão causou a lesão, como por exemplo, queda de pessoa com mesmo
pessoal
nível, queda de pessoa diferença de nível, atrito, abrasão, perfuração, corte, etc
Fonte: Adaptado, ABNT (2001); BRASIL, (1991); NÓBREGA (2013)

Gestão da Produção em Foco - Volume 12


10

2.2 EVOLUÇÃO DA SEGURANÇA DO Um fato marcante, foi a criação da


TRABALHO Organização Internacional do Trabalho (OIT)
em 1919, sendo composta de representantes
As primeiras leis que buscavam proteger os
dos governos e de organizações de
trabalhadores no que se refere a acidentes de
empregadores e trabalhadores. A OIT tem
trabalho, nasceram e desenvolveram-se com
como responsabilidade a formulação e
a primeira revolução industrial na Inglaterra
aplicação de normas internacionais do
em 1760. Para os trabalhadores (mulheres,
trabalho, atualmente conta com 187 países
homens e crianças) esse foi um período que
membros (OIT, 2016). No Brasil, no decorrer
repercutiu de forma negativa no que diz
dos anos, diversos órgãos, leis, fundações e
respeito ao bem estar físico e psicológico, no
normas regulamentadoras, foram criados
qual eram obrigados a executar longas
visando dar assistência aos trabalhadores na
jornadas de trabalho, manusear máquinas
prevenção e na ocorrência de acidentes do
inseguras, iluminação e ventilação precárias
trabalho. A Consolidação das leis do trabalho
nas fábricas. Todos esses fatores
(CLT); a comissão interna de prevenção de
contribuíram para gerar graves acidentes de
Acidentes (CIPA); a Fundação Jorge
trabalho, como: mutilação, intoxicação e
Figueiredo, de Segurança e Medicina do
morte (PEREIRA, 2001).
Trabalho (FUNDACENTRO) são alguns dos
Com a necessidade de mudar essa triste exemplos mais relevantes (SILVA et al., 2007).
realidade, foram constituídas mobilizações
Mesmo após a abolição da escravidão, no
políticas visando criar medidas legais que
Brasil as condições de trabalho eram
proporcionassem ao trabalhador melhores
precárias, diante disso, começaram a surgir
condições de trabalho. Sendo assim, em 1802
os primeiros movimentos sociais. As primeiras
foi criada a Lei de Saúde e Moral dos
normas trabalhistas surgiram no fim do século
Aprendizes, que estabelecia a jornada de
XIX, o decreto nº 1.313, de 1891
trabalho em doze horas diárias, proibia o
regulamentou o trabalho dos menores de 12 a
trabalho noturno e estabelecia a
18 anos. Em 1912 foi fundada a Confederação
obrigatoriedade do uso da ventilação no
Brasileira do Trabalho (CBT) com o objetivo
ambiente de trabalho (YAMAKAMI, 2013).
de atender as reivindicações dos
Segundo Yamakami (2013), em 1833 foi trabalhadores.
criada a Lei de Fábrica, sendo aplicada à
A primeira lei prevencionista adotada no Brasil
todas as empresas têxteis movidas à vapor ou
foi a lei 3.724 de 15/10/1919, que regulava a
energia hidráulica. A lei proibia o trabalho
segurança no setor ferroviário, posteriormente
noturno aos menores de 18 anos, estipulava
o decreto 24.637 de 10/07/1934 generalizou
jornada de trabalho de 12 horas por dia, a
para todas empresas a regulamentação de
idade mínima para o trabalho era de 9 anos,
prevenção de acidentes até então restrito as
as fábricas precisavam ter escolas que
ferrovias (VÉRAS, 2004). Nesse período, os
deveriam ser frequentadas por todos os
direitos dos trabalhadores em relação à
trabalhadores menores que 13 anos e um
segurança do trabalho, estavam em lei
médico devia atestar se o desenvolvimento
espessas e só começaram a tomar forma com
físico da criança correspondia a sua idade
a política trabalhista que foi sistematizada e
cronológica.
implantada no governo Vargas, no qual a CLT
A contratação do primeiro inspetor médico entrou em vigor, sendo aprovada pelo
ocorreu na Inglaterra em 1834, com isso os decreto- Lei Nº 5.452, em 01/05/1943. A CLT
funcionários deveriam ser submetidos a foi instrumento jurídico que transformou-se em
exames médicos admissionais e periódicos. uma prática efetiva estabelecendo normas
Em 1908 foi estabelecida a jornada diária de 8 que regulam as relações individuais e
horas, em 1910 era criado a folga de meio dia coletivas de trabalho, tornando-se leitura
por semana aos comerciários (PEREIRA, obrigatório em relação às questões
2001). Por sua vez, a carta constitucional trabalhistas (BRASIL, 2014).
mexicana, promulgada em 1917, foi a primeira
O artigo 2º da CLT “Considera-se empregador
na américa, a prever a limitação da jornada
a empresa, individual ou coletiva, que,
de trabalho para oito horas, a regulamentação
assumindo os riscos da atividade econômica,
do trabalho da mulher e do menor de idade,
admite, assalaria e dirige a prestação pessoal
férias remuneradas e proteção do direito da
de serviço”. Nesse sentido, empregadores
maternidade (PORTAL BRASIL, 2014).
podem ser profissionais liberais instituições
de beneficência, associações recreativas ou

Gestão da Produção em Foco - Volume 12


11

outras instituições sem fins lucrativos Um marco histórico na prevenção de


(BRASIL, 2014b). Em seu artigo 3º, a CLT acidentes foi a aprovação da portaria nº 3214,
“Considera-se empregado toda pessoa física de 08 de junho de 1978 que estabeleceu a
que prestar serviços de natureza não eventual criação das Normas Regulamentadoras.
a empregador, sob a dependência deste e Atualmente, 36 Normas (NR-1 à NR- 36)
mediante salário”. regulamentam vários setores da economia
brasileira. Porém, com todas as
Sendo assim, a Comissão Interna de
modernizações tecnológicas ocorridas nas
Prevenção de Acidentes (CIPA), foi criada no
últimas décadas, a prevenção de acidentes
ano 1944, sendo constituída por um grupo de
ainda é carente de avanços significativos
trabalhadores pertencente à empresa e
(BENITE, 2004).
regulamentada pela NR-5. De acordo com
essa norma, a CIPA tem como objetivo a Desse modo, o decreto publicado pela
“prevenção de acidentes e doenças portaria do Ministério do Trabalho e Emprego
decorrentes do trabalho, de modo a tornar (MTE) nº 555, de 18 de abril de 2013, instituiu
compatível permanentemente o trabalho com a Norma regulamentadora nº 36 (NR-36)
a preservação da vida e a promoção da denominada Segurança e Saúde no Trabalho
saúde do trabalhador” (BRASIL 2015, p. 01). em Empresas de Abate e Processamento de
Carnes. Essa portaria do MTE entrou em vigor
Em 1966 durante o congresso nacional de
6 meses após a sua publicação, com
Prevenção de acidentes realizado em São
execeção de que demandaram mais tempo,
Paulo foi oficializada a criação da
tais como: itens que precisavam de
FUNDACENTRO, no qual passou a realizar
intervenções estruturais de mobiliário e
pesquisas quantitativas relacionadas aos
equipamentos (12 meses); itens que
efeitos de inseticidas organoclorados na
demandavam alterações nas instalações
saúde, bissinose (afeta trabalhadores que
físicas da empresa (24 meses); assentos para
estão envolvidos diretamente com o algodão),
trabalhadores (24 meses); bancos para
consequências das vibrações e ruídos em
pausas, uma vez que deve atender 100% do
trabalhadores que operam marteletes, riscos
efetivo de trabalhadores que usufruirá das
da exposição ao chumbo e pesquisas sobre
pausas (18 meses) e por fim as pausas
as Doenças Osteomusculares Relacionadas
psicofisológicas (18 meses).
ao Trabalho (DORT). A instituição é vinculada
ao Ministério do trabalho, tem parceria com a A NR-36 visa estabelecer requisitos mínimos
Organização Mundial da Saúde (OMS) e com para a avaliar, controlar e monitorar os riscos
a Organização Internacional do Trabalho que existe nas atividades de processamento
(OIT). Atualmente a FUNDACENTRO é líder na de carnes e derivados destinados ao
América Latina no campo da pesquisa na consumo humano, como meio de garantir a
área de segurança e saúde no trabalho saúde, segurança e a qualidade de vida no
(FUNDACENTRO, 2016). trabalho (BRASIL, 2016).
Em 27 de julho de 1972 o governo federal
publicou a portaria no 3.237, criando os
3. PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS
Serviços Especializados de Segurança e
Medicina do Trabalho (SESMT), este fato deu- O presente trabalho é classificado como uma
se em função de inciativas do Banco Mundial pesquisa aplicada, que na visão de Andrade
em cortar financiamentos para o Brasil, caso o (2010, p. 111), “dispensa a originalidade, mas
quadro de acidentes de trabalho não fosse não o rigor científico. Trata-se de pesquisa
revertido, outro fator foi a pressão da OIT, a fundamentada em trabalhos mais avançados,
qual o Brasil é signatário e que fez gestões publicados por autoridades no assunto”. Do
junto ao governo brasileiro para que a ponto de vista da abordagem, o estudo é
situação fosse modificada. Em função dessas qualitativo, que para Miguel (2012, p. 52) na
gestões foi instaurado, a partir do ano de abordagem qualitativa a “realidade subjetiva
1972 até 1976, o estado de emergência, onde dos indivíduos é relevante e contribui para o
se iniciou a formação, por todo o território desenvolvimento da pesquisa”.
nacional, dos cursos de Engenheiro de
Portanto, a estratégia de pesquisa que será
Segurança do Trabalho, Médicos do Trabalho,
adotada neste trabalho é o estudo de caso,
Técnico de Segurança do Trabalho, Técnico
que conforme Gil (2010) é um método
de Enfermagem do Trabalho Auxiliares de
empírico para investigar um fenômeno
Enfermagem do Trabalho (ABPA, 2016).
contemporâneo e através da realidade

Gestão da Produção em Foco - Volume 12


12

vivenciada poder explorar situações da vida são do setor de desossa o que representa um
real. O estudo procedeu-se através de visitas percentual de 20% de todo efetivo da
no setor de desossa da empresa em estudo empresa. Portanto, optou-se em analisar
com o intuito de averiguar o cumprimento dos somente o setor de desossa, uma vez que, é
requisitos do item 36.2 da norma o setor com maior número de funcionários da
regulamentadora NR 36. Para dar suporte ao empresa.
estudo, utilizou-se um checklist, que foi
Tendo como base a quantidade de
elaborado a partir das informações contidas
funcionários e o grau de risco 3 em que se
na norma NR-36, que sistematiza os aspectos
classifica, atualmente, a equipe do SESMT da
de segurança, com os objetivos de avaliar os
empresa é composta por um engenheiro de
riscos de doença ocupacional e acidentes de
segurança, um médico do trabalho, três
trabalho.
técnicos de segurança e uma técnica de
O critério para preencher o checklist utilizado enfermagem. Além dessa equipe de
no desenvolvimento do estudo, foi “conforme” funcionários, a empresa considera a
para os itens que estavam dentro dos fisioterapeuta e a fonoaudióloga como
padrões da legislação e “desconforme” para elementos essenciais do Serviço
aqueles que estavam em desacordo com o Especializado em Segurança e Medicina do
item 36.2 da NR-36. Para itens que Trabalho.
apresentavam situações que obedeciam o
item 36.2 da NR-36, no entanto, como haviam
questões a ser melhoradas, foi colocado 4.2 ANÁLISE DA NORMA
“desconforme”, uma vez que não estavam REGULAMENTADORA 36 (NR 36)
completamente dentro dos requisitos da
Tendo como base os resultados obtidos com
norma.
a aplicação do checklist da norma
regulamentadora NR-36, foi possível
identificar em quais seções da norma o setor
4. APRESENTAÇÃO DOS RESULTADOS
de desossa possui itens que atendem as
4.1 CARACTERIZAÇÃO DA EMPRESA EM exigências legais, bem como ficou evidente
ESTUDO em quais seções da norma o setor possui
questões a serem melhoradas. A Figura 1
A empresa em estudo é um matadouro
mostra a análise quantitativa do setor de
frigorífico de bovinos sob contrato e possui
desossa. Em números, o estudo mostra um
quatro unidades industriais distribuídas entre
total de 220 observações, uma vez que as
os estados de Mato Grosso do Sul, Mato
desconformidades do setor representaram um
Grosso e São Paulo. Por sua vez, a unidade
total de 106 itens, refletindo-se em 48%.
objeto de estudo situa-se no estado de Mato
Quanto ao atendimento das exigências da
Grosso. Atualmente, trabalha no mercado
NR-36, totalizaram 114 itens, o que equivale a
interno, atendendo atacado e varejo, além de
52%.
exportar para mais de trinta países. A planta
industrial de Mato Grosso conta com 592
colaboradores, no qual 120 colaboradores

FIGURA 1 - Análise quantitativa da norma regulamentadora NR-36

Gestão da Produção em Foco - Volume 12


13

Esses dados indicam que o setor necessita analisados, bem como, apresenta-se também
imediatamente se adequar as exigências da as respectivas porcentagens de
norma, visando a melhora das condições de conformidades e desconformidades de cada
trabalho. Para tal, foi elaborado a Tabela 1 seção.
que expressa o total de itens de cada seção

TABELA 1 - Descrição e quantificação estatística dos itens conformes e desconformes do setor de


desossa
Total de itens Porcentagem de itens Porcentagem de itens
Seção da NR-36
analisados conformes (%) desconformes (%)
36.2- Mobiliário e postos de trabalho 27,0 51,9 48,1
36.3- Estrados, passarelas e plataformas 2,0 100,0 0,0
36.4-Manuseio de produtos 18,0 38,9 61,1
36.5- Levantamento e transporte de
16,0 12,5 87,5
produtos e cargas
36.7- Máquinas 9,0 88,9 11,1
36.8- Equipamentos e ferramentas 16,0 12,5 87,5
36.9- Condições ambientais de trabalho 36,0 69,4 30,6
36.10- EPI e Vestimentas de Trabalho 9,0 88,9 11,1
36.11- Gerenciamento dos riscos 12,0 66,7 33,3
36.12- PPRA e PCMSO 19,0 68,4 31,6
36.13- Organização temporal do
12,0 100,0 0,0
trabalho
36.14-Organizações das atividades 27,0 22,2 77,8
36.15-Análise ergonômica do trabalho 5,0 0,0 100,0
36.16-Informações e Treinamentos em
12,0 58,3 41,7
SST

A análise da situação da seção 36.2 - do esforço muscular, é nítido que essas


Mobiliários e Postos de Trabalho levaram aos medidas precisam ser reavaliadas. As
seguintes resultados: aproximadamente 52% esteiras e prateleiras devem ser adequados
das conformidades encontradas referem-se às medidas dos trabalhadores. Em relação
às características das cadeiras encontradas, aos suportes de bandejas, caixas de depósito
sistema de escoamento de água, limpeza e de produto e carrinhos de mão, precisam
higienização constantes, alarmes dentro das possuir dimensões que favoreçam a adoção
câmaras frias, recuo na base do plano de de posturas confortáveis de forma que evite a
trabalho e local para pausas permitidas de flexão e extensão de braços e ombros e a
trabalho. As desconformidades representam torção e inclinação do tronco.
48%, no qual pode se destacar que o pouco
Para o levantamento e transporte de produtos
espaço dentro do setor interfere na realização
e cargas, seção 36.5, pode-se observar que a
do trabalho na postura sentada, falta de
maioria dos itens se apresentam em
sinalização nas vias de transporte e do tempo
desconformidade. Diante das observações,
de permanência nas câmaras frias e
foi possível constatar que o levantamento,
quantidade insuficiente de barras de apoio
transporte, manipulação e estocagem de
nas bancadas.
produtos não é dimensionado de forma que o
No manuseio de produtos 61% das situações esforço físico realizado pelo trabalhador seja
estão em desacordo a norma. Apesar do compatível com sua capacidade de força. A
empregador adotar medidas para a redução altura e alças dos vagonetes fornecidos não

Gestão da Produção em Foco - Volume 12


14

possuem formato anatômico, o espaço adoção de ações de saúde e segurança do


destinado para depósito de caixas não tem trabalho que envolva os riscos ergonômicos.
um dimensionamento adequado. Além disso, Quanto ao PPRA e o PCMSO, item 36.12, a
pisos e passagens onde são efetuados as empresa necessita de um estudo das
operações de levantamento, carregamento e situações de nexo causal para melhor avaliar
transporte manual de cargas estão as situações de riscos existentes no setor de
obstruídos. desossa, também fica evidente a necessidade
da adoção de mecanismos para avaliar a
Em relação as Máquinas (item 36.7), nota-se
eficácia das medidas preventivas
que aproximadamente 89% dos itens
implantadas.
analisados estão de acordo com a norma.
Entre as regularidades das máquinas pode se A Organização Temporal do Trabalho, item
destacar os dispositivos de parada de 36.13, obteve resultados satisfatórios. A
emergência e proteção das partes rodantes. empresa fornece pausas de 20 minutos a
Entretanto, o que prejudicou o resultado do cada 1:40 minutos trabalhadas, sendo
setor nessa seção da norma foi a contadas como trabalho efetivo. Além disso,
necessidade da substituição do atual afiador permite que o trabalhador tenha acesso a
de facas por um que seja adequado as qualquer momento à área externa do setor
normas vigentes. para satisfazer as necessidades fisiológicas.
As informações analisadas sobre o item 36.8 - Em relação ao item 36.14 referente à
Equipamentos e Ferramentas levaram a Organização das Atividades, a empresa
concluir que 87,5% do setor possui questões precisa se adequar, uma vez que
a serem melhoradas. Esse resultado está aproximadamente 78% das situações
atrelado ao fato da necessidade de observadas estão em desconformidade. O
implementar um sistema de afiação que setor necessita da implementação de rodízio
envolva as facas de todos trabalhadores, bem de função nas atividades de manuseio,
como as características das facas não se levantamento e transporte de produtos e
adequam ao formato das mãos dos cargas, atividades onde as mãos do
trabalhadores. Para tal, o setor necessita de trabalhadores ficam constantemente
um estudo da dimensão das mãos dos molhadas e nas atividades repetitivas. Quanto
trabalhadores para melhor adaptar as à Análise Ergonômica do Trabalho (item
ferramentas conforme o tipo de cada 36.15), o setor se mostra desconformidade
atividade. com todos os itens analisados, interferindo
nos resultados de outras seções que
Na seção 36.9 sobre as Condições
dependem dessa análise para implementar
Ambientais de Trabalho, o setor se apresenta
medidas eficazes de proteção à segurança e
em conformidade com maior parte das
saúde do trabalhador.
exigências da norma. No entanto, é
importante ressaltar que o sistema de No que diz respeito à Informações e
detecção de amônia não é adequado Treinamentos, item 36.16, apesar de ter
necessitando de implantação imediata de um obtido maiores situações em conformidade, o
sensor eletroquímico que detecta somente o setor demanda treinamento sobre as
gás amônia, o que evitaria que por alguma variações posturais e operações manuais e
eventualidade a linha de produção seja informações sobre como utilizar de forma
parada por causa de um alarme falso ou até correta os mecanismos de ajuste dos
mesmo que ocorra um vazamento de amônia assentos, apoio para pés e equipamentos de
e esse sensor não dispare, fazendo com que trabalho. Além disso, precisa de orientação
ocasione um acidente de grandes sobre como realizar a alternância de posturas.
proporções.
Ainda em relação às condições ambientais de
5. CONSIDERAÇÕES FINAIS
trabalho, nota-se que o setor não possui
aquecedor para mãos limitando, assim, a A revisão da literatura acerca à segurança do
recuperação do conforto térmico do trabalho, permitiu identificar que no setor de
trabalhador. Além disso, é importante que o desossa do frigorífico em estudo, o
setor passe a fazer o monitoramento da trabalhador fica exposto à riscos provenientes
concentração de dióxido de carbono (CO2). das máquinas, equipamentos e ferramentas
No Gerenciamento de Riscos, item 36.11, as utilizados para o manuseio e processamento
principais carências do setor referem a da matéria-prima. Além disso, o

Gestão da Produção em Foco - Volume 12


15

desenvolvimento de doenças ocupacionais é vigência, a norma regulamentadora provocou


uma característica inerente à esse setor um grande impacto no frigorífico em estudo.
devido as condições de trabalho fornecidas, Pois, não se admite mais que trabalhadores
que influenciam diretamente na adoção de tenham condições precárias em seu ambiente
movimentos repetitivos e posturas de trabalho.
inadequadas
Nesse sentido, sugere-se intervenções, tão
Através do estudo de caso da análise da breve quanto possível, como: (1) realizar
norma regulamentadora NR- 36, conclui-se rodízios de funções entre tarefas pesadas e
que o setor precisa implementar uma análise atividades mais leves, (2) sinalização das vias
ergonômica do trabalho e realizar o de transporte e indicar o tempo máximo de
dimensionamento das atividades de exposição de permanência nas câmaras frias,
manuseio, levantamento e transporte de (3) realizar treinamentos sobre variações
produtos e cargas. Além disso, deve posturais, manuseio de assentos e correta
estabelecer a prática rodízios de funções nas utilização dos mobiliários, (4) adquirir uma
atividades repetitivas. Os trabalhadores estão transportador automático (nória),
expostos a um ambiente que apresenta aquecedores para as mãos e barra de apoio
questões importantes que afetam o para as bancadas, (5) substituição das caixas
desempenho nas atividades, como vias de para depósito de produtos por outras que
transporte obstruídas, baixas temperaturas e tenham formato de pega confortável, (6)
vibração de equipamentos. A alta implantar sensores de detecção de amônia e
repetitividade dos movimentos das mãos e a monitorar a concentração de gás carbônico,
exigência física imposta pela atividade de (7) colocar suporte de bandejas e vagonetes
coleta, transporte e manuseio da matéria- que tenham rodas e altura de 70 cm, (8)
prima, exige elevação de ombros, inclinação construir um túnel para descarregar os ossos
e torção do tronco, flexão e extensão de diretamente na graxaria, (9) dimensionar o
braços e ombros, gerando a sobrecarga dos depósito de caixas de forma que os
membros superiores. trabalhadores não façam elevação de ombros
e 10) implementar no PCMSO medidas de
Dessa forma, o estudo de caso permitiu
avaliação.
diagnosticar que mesmo em pouco tempo de

REFERÊNCIAS
[1]. ANDRADE, M. M. Introdução à Prevenção de riscos ambientais, 2015. Disponível
Metodologia do Trabalho Científico. 10.ed. São em <
Paulo, Atlas S.A., 2010. http://www.mtps.gov.br/images/Documentos/SST/N
R/NR-09atualizada2014III.pdf>. Acesso em 11 de
[2]. ABNT (Associação Brasileira de Normas
Abril de 2016.
Técnicas), 2001. Cadastro de acidente do trabalho:
Procedimento e classificação, NBR 14280. Rio de [7]. BENITE, A. G. Sistema de gestão da
Janeiro. segurança e saúde no trabalho para empresas
construtoras. 2004. 221f. Dissertação (Mestrado
[3]. ABPA – Associação Brasileira para
em Engenharia) - Escola Politécnica da
Prevenção de Acidentes. O que é ABPA?
Universidade de São Paulo. São Paulo.
Disponível em <http://www.abpa.org.br/o-que-e-a-
abpa>. Acesso em 16 de março de 2016. [8]. FUNDACENTRO - Fundação Jorge Duprat
Figueiredo de Segurança e Medicina do Trabalho.
[4]. BRASIL, Ministério do trabalho e
Disponível em <
Previdência Social – MTPS. NR-5, Comissão Interna
http://www.fundacentro.gov.br/institucional/historia
de prevenção de acidentes, 2016. Disponível em <
> Acesso em 16 de março de 2016.
http://www.mtps.gov.br/images/Documentos/SST/N
R/NR5.pdf >. Acesso em 16 de março de 2016. [9]. GIL, A. C. Como Elaborar Projetos de
Pesquisa. 5.ed. São Paulo, Atlas, 2010.
[5]. . Consolidação das leis
do trabalho - CLT. Decreto- lei nº 5.452, de 1º de [10]. MIGUEL, P. A. C (Coord). Metodologia de
maio de 1943, 2014. Disponível em: pesquisa em engenharia de Produção e gestão de
<http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/decreto- operações. 2º edição. 2012.
lei/Del5452.htm> Acesso em 30 de Setembro de
[11]. NÓBREGA, D. G. Um panorama sobre os
2016.
acidentes do trabalho de uma empresa no setor
[6]. . Ministério do trabalho elétrico. 2013. 112 f. Dissertação (Mestrado em
Previdência Social – MTPS. NR-9, Programa de Engenharia de Produção) - Programa de Pós-

Gestão da Produção em Foco - Volume 12


16

Graduação em Engenharia de Produção. [15]. QUELHAS, O. L. G.; ALVES, M. S.;


Universidade Federal de Pernambuco. Recife. FILARDO, P. S. As práticas da gestão de
segurança em obras de pequeno porte: integração
[12]. OIT – Organização Internacional do
com os conceitos de sustentabilidade. Revista
Trabalho. Doenças profissionais são principais
Produção Online, Florianópolis, SC, v. 4, n. 2, 2003.
causas de mortes no Trabalho. Distrito Federal,
2013. Disponível em: < [16]. SILVA, V. E. et al. Riscos ambientais em
http://www.oit.org.br/content/doencas-profissionais- uma lavanderia de indústria de abate e
sao-principais-causas-de-mortes-no-trabalho >. processamento de carne. Revista Gestão da
Acesso em 28 de março de 2016. Produção, Operação e Sistemas – GEPROS. v.3, p.
11-23, mai/jun. 2007.
[13]. PEREIRA, T. V. A Relevância Da
Prevenção Do Acidente De Trabalho Para O [17]. ZÓCCHIO. A. Prática da prevenção de
Crescimento Organizacional. 2001. 23 f. Trabalho acidentes: ABC da segurança do trabalho. Editora
de Conclusão de Curso. Universidade Da Atlas. 2º edição. São Paulo, 1971.
Amazônia – Unama Centro De Ciências Humanas E
[18]. YAMAKAMI, W. J. Introdução A
Educação – Cche Curso De Serviço Social. Belém,
Engenharia De Segurança No Trabalho. Ilha
Pará.
Solteira, Universidade Estadual Paulista, 2013.
[14]. PORTAL BRASIL. Evolução das relações Disponível em:
trabalhistas, 2014. Disponível em <http://www.feis.unesp.br/Home/departamentos/en
<http://www.brasil.gov.br/economia-e- genhariamecanica/maprotec/apostila_fengseg.pdf
emprego/2011/04/evolucao-das-relacoes- >Acesso em 21 de Setembro de 2016.
trabalhistas> Acesso em 31 de Outubro de 2016

Gestão da Produção em Foco - Volume 12


17

Capítulo 2

Caroline Lima Fernandes


Kaik Ferreira de Souza
Karina Silva Gonçalves
Thamyres Rocha Corrêa

Resumo: O presente artigo foi realizado em uma empresa de cerâmica vermelha,


localizada na cidade de Marabá-PA. O objetivo do trabalho foi o de realizar uma
avaliação do posto de trabalho da máquina extrusora (maromba), por meio da
Análise Ergonômica do Trabalho (AET) e propor adequações ergonômicas ao
referido ambiente. Para tanto, foram analisados os riscos ambientais físicos,
químicos e ergonômicos a que os trabalhadores do posto da máquina estão
expostos, assim como as percepções dos mesmo em relação ao ambiente e as
suas atividades, onde foi possível obter conhecimento do ambiente em questão e
assim propor sugestões de melhorias. Como principais resultados, obteve-se que a
cerâmica apresentou problemas relacionados a ergonomia física, além dos atos
inseguros referentes as ações dos trabalhadores, como a inutilização de EPIs.

Gestão da Produção em Foco - Volume 12


18

1. INTRODUÇÃO problemas existentes nas empresas de


cerâmica vermelha anteriormente citados.
A cerâmica vermelha possui uma gama
diversificada de materiais que são utilizados Diante do exposto, o presente artigo objetivou
frequentemente na construção civil, como por meio da Análise Ergonômica do Trabalho
blocos, telhas, tijolos maciços e tubos para (AET) realizar uma avaliação do posto de
saneamento. Segundo dados do SEBRAE, no trabalho da máquina extrusora em uma
Brasil, a maior parte da cerâmica vermelha é empresa de cerâmica vermelha situada na
produzida por empresas de pequeno e médio cidade de Marabá-PA. Para tanto, foram
portes, e a produção nacional se divide em analisados os riscos físicos, químicos e
três vertentes: cerâmica branca e louças, ergonômicos inerentes aos trabalhadores do
cerâmica vermelha e revestimentos, e posto da máquina extrusora assim como as
materiais refratários, destes, a cerâmica percepções dos mesmos em relação às suas
vermelha e revestimentos é a vertente de atividades e ao final da análise foram
maior representatividade na produção propostas adequações ergonômicas à este
nacional. ambiente de trabalho.
De acordo com dados da Associação
Nacional da Indústria Cerâmica (ANICER)
2. REFERENCIAL TEÓRICO
publicados no relatório anual de 2014, no
Brasil, a indústria de cerâmica vermelha é Este tópico do trabalho apresentará o
composta por 6.903 empresas, que referencial teórico que serviu de
anualmente geram faturamento de R$ 18 embasamento para o desenvolvimento da
bilhões. Sendo que, o principal fornecedor de pesquisa.
materiais para edificações, coberturas e
saneamentos em todas as partes do Brasil é o
setor de blocos, telhas e tubos cerâmicos. O 2.1 ERGONOMIA
setor de cerâmica vermelha representa 4,8%
A Associação Brasileira de Ergonomia
da indústria da Construção Civil e gera mais
(ABERGO), define Ergonomia como “uma
de 400 mil postos de trabalho diretos e 1,25
disciplina científica relacionada ao
milhão indiretos. As fábricas de blocos
entendimento das interações entre os seres
produzem mensalmente mais de 4 bilhões de
humanos e outros elementos ou sistemas, e à
unidades e a produção de telhas ultrapassa 1
aplicação de teorias, princípios, dados e
bilhão de itens por mês.
métodos a projetos a fim de otimizar o bem
Os números acima mencionados são estar humano e o desempenho global do
consideravelmente promissores, entretanto, sistema”.
muitas empresas de cerâmica vermelha não
De acordo com Iida (2005), a ergonomia atua
gerem da maneira adequada as questões
em três campos principais: ergonomia física,
relacionadas à saúde e segurança do
ergonomia cognitiva e ergonomia
trabalhador, expondo estes a variados riscos
organizacional.
ocupacionais. Em algumas empresas desse
setor as condições ambientais são precárias, Segundo o autor, a ergonomia física trata
assim, os trabalhadores ficam expostos à basicamente das características da anatomia
temperatura elevada, poeira e ruído humana, antropometria, fisiologia e
excessivos, e ainda há a falta de proteção do biomecânica, fazendo a relação dessas
maquinário e do trabalhador em relação à características com a atividade física. O autor
este, situações essas que comprometem a ainda destaca os tópicos relevantes desse
saúde e segurança dos trabalhadores. campo de estudo que incluem a postura no
trabalho, manuseio de materiais, movimentos
Conforme SESI (2009), esses trabalhadores
repetitivos, projeto de posto de trabalho e
são expostos aos riscos do ambiente, das
segurança.
intempéries, de suas tarefas e das atividades
de outros trabalhadores. Desse modo, a A ergonomia cognitiva ocupa-se dos
ergonomia que segundo Iida (2005), é o processos mentais, como a percepção,
estudo da adaptação do trabalho ao homem, memória, raciocínio e resposta motora,
da interação entre o homem e o trabalho, no fazendo a relação da interação entre o
sistema homem-máquina-ambiente pode homem e outros elementos que compõem um
representar o mediador para as soluções dos sistema. Os pontos estudados nessa área
segundo Iida (2005), incluem a carga mental,

Gestão da Produção em Foco - Volume 12


19

tomada de decisões, a interação homem- Guerin et al (1991) analisam a tarefa como o


computador, estresse e treinamento. aglomerado de objetivos e determinações
fixados pela empresa para atender aos seus
A ergonomia organizacional se dedica a
propósitos e que devem ser acolhidos e
otimização dos sistemas sócio - técnicos,
seguidos pelos trabalhadores. A tarefa pode
incluindo as estruturas organizacionais,
ser definida como os modos operatórios, as
políticas e processos. Os pontos relevantes
instruções, as leis de segurança e explicita as
incluem comunicações, projeto de trabalho,
características do dispositivo técnico, do
projeto participativo, trabalho cooperativo e
produto a transformar, ou do serviço a
cultura organizacional.
realizar, e o conjunto dos elementos
disponíveis para atender aos objetivos que
devem ser atendidos.
2.2 ANÁLISE ERGONÔMICA DO TRABALHO
A Análise Ergonômica do Trabalho (AET)
procura revelar as diferenças entre trabalho 2.2.3 ANÁLISE DA ATIVIDADE
real e trabalho prescrito. Além de apresentar
A análise da atividade possibilita conhecer em
os modos de operação, os agravantes, as
detalhes o que permite (e o que dificulta) ao
formas de comunicação, o trabalho em
trabalhador desenvolver seu trabalho (Fialho,
equipe, as competências necessárias para a
1995).
função e as competências que os
trabalhadores já possuem. A observação dos horários de trabalho,
movimentações, gestos, posturas, aspectos
Segundo Fialho (1995) a análise ergonômica
psicossociais e organização do trabalho,
pode ser dividida em três fases: a análise de
viabiliza o diagnóstico do custo que o trabalho
demanda, análise de tarefa e análise da
traz para o indivíduo. O fato de conhecer
atividade. Os dados levantados nessas três
todos estes fatores torna possível a realização
fases permitirão a elaboração de um
de melhorias na concepção e organização do
diagnóstico da atual situação de trabalho e
trabalho e na criação de programas de
assim, propor soluções de melhorias.
treinamento.

2.2.1 ANÁLISE DA DEMANDA


2.2.4 DIAGNÓSTICO
De acordo com Fialho (1995) esta fase é
O diagnóstico busca encontrar as causas que
extremamente importante, pois em certos
ocasionaram os problemas descritos na
casos, os problemas estabelecidos são de
demanda. Sendo, portanto vários fatores,
pouca importância e acabam por mascarar
como: faltas ou atrasos, alta rotatividade de
outros de maior relevância do ponto de vista
funcionários (podendo ser devido ao
ergonômico.
treinamento insuficiente ou elevada carga de
Ao fazer uso da análise de demanda pode-se estresse no ambiente), acidentes (que pode
definir quais são os problemas e assim ocorrer por falta de manutenção nas
elaborar um plano de estudo. Para Soares máquinas, sinalização interpretada de forma
(1999) a análise de demanda é a primeira errada, pisos molhados, entre outros) e baixa
fase do processo de AET que busca definir de qualidade que pode ser ocasionada por erros
forma clara o problema a ser estudado por de dimensionamento do posto de trabalho, ou
meio de uma negociação com os diversos pela sequência inadequada de tarefas.
trabalhadores envolvidos.

2.2.5 CADERNO DE ENCARGOS DE


2.2.2 ANÁLISE DA TAREFA RECOMENDAÇÕES ERGONÔMICAS
A análise de tarefa tem por objetivo procurar As recomendações ergonômicas são medidas
informações sobre o que o trabalhador tem que devem ser adotadas para que haja a
que fazer (trabalho prescrito) e o que ele resolução do problema diagnosticado. Sendo
realmente faz (trabalho real), buscando saber assim, é necessário indicar quais as etapas
em quais condições o trabalhador realiza o necessárias para que se possa resolver o
seu trabalho. problema. Estas etapas podem vir
acompanhadas de imagens detalhadas sobre
as modificações necessárias a serem feitas

Gestão da Produção em Foco - Volume 12


20

em máquinas ou postos de trabalho, e indicar bactérias, parasitas, protozoários, fungos e


as pessoas com as respectivas bacilos.
responsabilidades de se fazer essas
Riscos ergonômicos: são considerados todos
modificações (pessoa e seção do
os fatores que podem interferir nas
departamento encarregado, com indicação
características psicológicas e fisiológicos do
do respectivo prazo).
trabalhador e provocar danos a sua saúde,
tais como esforços físicos, postura
inadequada, levantamento de peso, jornada
2.3 RISCOS NO AMBIENTE DE TRABALHO
de trabalho prolongada, monotonia,
É crescente o interesse em pesquisas sobre repetitividade, entre outros.
os efeitos das exposições aos agentes físicos,
Riscos mecânicos ou acidentais: são
químicos e biológicos presentes no ambiente
considerados todos os fatores que expõem o
de trabalho. Oliveira (2009), afirma que a
trabalhador ao perigo ou que afetam sua
exposição aos riscos ocupacionais pode
integridade física ou moral, como máquinas e
ocasionar acidentes de trabalho que,
equipamentos sem proteção, ferramentas
consequentemente, resultam em prejuízos
inadequadas ou defeituosas, incêndios ou
tanto para a empresa quanto para os
explosões.
funcionários, como prejuízos financeiros,
perdas relacionadas ao tempo, danos ao
patrimônio, ao meio ambiente ou até mesmo a
3. METODOLOGIA
perda ou incapacitação do funcionário.
A presente pesquisa foi realizada em uma
Segundo Zocchio (1992), os acidentes de
empresa de cerâmica vermelha, localizada na
trabalho ocorrem devido às condições
cidade de Marabá, sudeste do estado do
inseguras ou atos inseguros ou a combinação
Pará. Trata-se de uma pesquisa qualitativa,
de ambos. Os atos inseguros são as formas
onde por meio do método AET (Análise
como os indivíduos se expõem a risco de
Ergonômica do Trabalho), foi possível realizar
acidentar-se, que podem ser conscientes,
análises das condições ambientais, técnicas e
inconscientes ou circunstanciais. As
organizacionais da referida empresa,
condições inseguranças por sua vez,
possibilitando observar as disparidades entre
representam a existência de riscos fora de
o trabalho prescrito e o real. A seguir são
controle a que o indivíduo pode estar exposto.
listadas cada uma das etapas da AET e a
De acordo com Oliveira (2009), os riscos à descrição das análises realizadas pelos
saúde, normalmente, encontrados nos autores em cada uma delas.
ambientes de trabalho podem ser
Análise da demanda: realizou-se o
classificados pela sua natureza e efeitos no
levantamento de informações sobre os postos
organismo humano. São eles:
de trabalho da cerâmica, por meio de
Riscos físicos: são consideradas as diversas entrevistas informais com o gerente
formas de energia, tais como ruído, responsável e trabalhadores. O posto
iluminação, vibrações, temperaturas escolhido foi o da máquina extrusora, assim,
excessivas, pressões anormais e umidade. iniciou-se as observações em relação as
condições do ambiente;
Riscos químicos: são os perigos a que os
indivíduos estão expostos ao manipular Análise da tarefa: observou-se as condições
produtos químicos e que podem causar para execução da tarefa, tais como o número
danos físicos ou prejudicar a saúde. São de funcionários e suas respectivas funções
considerados agentes de riscos químicos as durante o processo, ou seja, a descrição do
substâncias, compostos ou produtos que trabalho prescrito;
possam penetrar no organismo do trabalhador
Análise da atividade: analisou-se a interação
nas formas de poeiras, fumos gases, névoas,
entre os trabalhadores, que participam dos
vapores, ou mesmo pela natureza da
processos executados pela máquina
atividade.
extrusora e o ambiente onde são realizados,
Riscos biológicos: ocorrem por meio de de acordo com a concepção dos
microrganismos que quando em contato com funcionários;
o homem provocam inúmeras doenças. São
Diagnósticos e recomendações ergonômicas:
considerados riscos biológicos os vírus,
a partir das análises anteriores, determinou-se

Gestão da Produção em Foco - Volume 12


21

os problemas no posto da máquina extrusora 4.2.1 ANÁLISE DA DEMANDA


e elaborou-se as propostas de adequações
A máquina extrusora ou maromba é
ergonômicas.
responsável pela realização do transporte,
compactação e extrusão da massa cerâmica.
É nesse posto que ocorre a transformação da
4. ESTUDO DE CASO
argila no tijolo de oito furos, que é o formato
4.1 CARACTERIZAÇÃO DA EMPRESA padrão estabelecido pela cerâmica. A
máquina fica em um galpão, ocupando uma
A empresa analisada foi uma cerâmica
área de 7m2.
situada na cidade de Marabá - PA, a qual
atua no mercado há 31 anos. A mesma é A primeira fase da AET é caracterizada pela
considerada de médio porte e conta com um elaboração de um problema que necessite de
quadro de 24 funcionários distribuídos em uma adequação ergonômica. O posto em
diferentes funções. Seu funcionamento ocorre questão, apresentou condições inseguras,
de segunda-feira à sábado, nos horários de como a presença constante de pó no local,
08:00hrs às 12:00hrs no período da manhã e além dos atos inseguros dos trabalhadores
de 14:00hrs às 18:00hrs no período da tarde. em relação à inutilização dos Equipamentos
de Proteção Individual (EPIs).
O galpão (figura 1) encontra-se em um local
4.2 ANÁLISES E RESULTADOS
aberto, sem nenhum tipo de iluminação
Este tópico apresentará as três fases da AET artificial, fazendo uso apenas da luz natural. O
realizada no posto da máquina de extrusão da ambiente apresenta temperatura elevada, e
cerâmica, o diagnóstico elaborado das por estarem expostos ao sol diariamente e a
observações da situação de trabalho e por altura da cobertura ser muito baixa, causa
fim, as propostas de soluções e melhorias. desconforto e fadiga nos trabalhadores.

FIGURA 1 - Espaço interno do galpão.

Fonte: autores (2016).

A máquina extrusora (figura 2) é antiga e pelo equipamento causam desconforto não só


emite ruídos contínuos durante seu a quem está trabalhando no setor, mas
funcionamento. Segundo informações dos também aos demais funcionários dos outros
trabalhadores, a máquina não passa por postos de trabalho, afetando a saúde auditiva
manutenções constantes e os ruídos emitidos dos mesmos.

Gestão da Produção em Foco - Volume 12


22

FIGURA 2 - Máquina extrusora (maromba).

Fonte: autores (2016).

Observou-se a falta de organização dos encontram perto da máquina extrusora e a


dispositivos de informação, como novas validade dos extintores de incêndio (figura 3),
placas indicando as saídas de emergência, que poderiam vir a serem utilizados caso
placas informando sobre os setores que se ocorresse alguma eventualidade.

FIGURA 3 – Extintores.

Fonte: autores (2016).

Embora a empresa apresente uma estrutura permanece constantemente no local, onde a


hierárquica regular, falta certo esclarecimento tarefa prescrita é somente controlar os
em relação a função de cada funcionário processos utilizando os EPIs necessários
abaixo da gerência, pois, todos podem (máscara, botas, luva e protetores auriculares)
desempenhar qualquer uma das funções, e em caso de anormalidades, como medida
sem qualquer tipo de treinamento, apenas de segurança a máquina deve ser desligada
com o conhecimento prévio da tarefa. imediatamente. As tarefas do setor se
resumem em:
Coleta da matéria-prima (argila);
4.2.2 ANÁLISE DA TAREFA
Transformação da argila em tijolo, por meio da
O posto de trabalho onde se encontra a
máquina extrusora;
máquina extrusora é composto por 1
marombeiro, 2 funcionários responsáveis por Transporte dos moldes finais para secagem.
manusear as retroescavadeiras na coleta da
argila no início do processo e 4 carregadores
ao final. Ambos os funcionários usufruem de 4.2.3 ANÁLISE DA ATIVIDADE
10 minutos de descanso a cada hora, com
Esta etapa do método, busca observar o
uma jornada de trabalho de 8 horas diárias.
comportamento do homem, na interface
Embora, apresente todos esses funcionários
homem-máquina-ambiente e segundo Iida
durante o processo, somente o marombeiro

Gestão da Produção em Foco - Volume 12


23

(2005), promover adaptações necessárias qual encontra-se em intenso funcionamento


diante das variáveis apresentadas durante a pela parte da manhã. Observou- se que
execução da atividade. alguns dos trabalhadores desse posto utilizam
vestimentas inadequadas, como bermudas e
Inicialmente o marombeiro encarrega-se de
chinelos (figura 4).
preparar toda a máquina para o processo, a

FIGURA 4 - Vestimenta durante o processo.

Fonte: autores (2016).

Durante o processo, tanto o marombeiro A cada hora os trabalhadores de todos os


quanto os outros trabalhadores do setor setores tem direito a 10 minutos de descanso,
adquirem uma postura de alternância entretanto não saem do local de trabalho,
(sentado e em pé). No entanto, a maioria não apenas deixam de executar a atividade. Caso
utiliza nenhum tipo de EPI, ficando expostos necessitem hidratar-se, o bebedouro
aos ruídos emitidos pela máquina extrusora e encontra-se no galpão, próximo a máquina
a poeira presente no ambiente, que extrusora, o mesmo fica em um local
consequentemente pode vir a causar parcialmente isolado (como pode ser visto na
problemas de saúde. figura 4), no entanto inadequado, pois entra
em contato com todo o pó do ambiente.

FIGURA 5 – Bebedouro.

Fonte: autores (2016).

Gestão da Produção em Foco - Volume 12


24

4.2.4 DIAGNÓSTICOS E RECOMENDAÇÕES problemas do posto de trabalho da máquina


extrusora e propostas as devidas
De acordo com as análises realizadas
recomendações ergonômicas, ambos estão
anteriormente, foram diagnosticados os
expostos no quadro 1.

QUADRO 1 – Diagnósticos e recomendações.

Diagnósticos Recomendações

Temperatura elevada Instalação de exaustores.

Imposição de uso do uniforme (camisa, calça e


Vestimenta inadequada bota), caso contrário o funcionário irá receber uma
advertência/aviso.

A criação da CIPA, priorizando as políticas de


Inutilização de EPIs conscientização e fiscalização, em relação ao uso
dos EPIs.

Organizar a sinalização, indicando saídas de


Falta de organização dos dispositivos de
emergência, extintores e placas identificando cada
informação
um dos setores.

Utilização constante de protetores auriculares e


Exposição a ruídos constantes realização de manutenções preditivas na máquina
extrusora afim de minimizarem o ruído

Propor a criação de uma área fora dos postos de


trabalho, com um ambiente arejado e adequado
Localização inadequada do bebedouro
tanto para o bebedouro quanto para descanso dos
trabalhadores.

Exaustão da poeira e utilização de máscaras


Ambiente com muito poeira
protetoras.

Fonte: Autores (2016).

5. CONCLUSÕES Foi possível observar na prática que, a


preocupação com a mão de obra é
Os benefícios adquiridos pelas organizações
necessária para o melhor desempenho e
ao adequarem os postos de trabalho às
produtividade da empresa, principalmente em
limitações dos seus funcionários, são
uma cerâmica, onde os riscos à saúde são
inúmeros. No caso da cerâmica, foram
elevados. Portanto, problemas como a fadiga,
perceptíveis problemas voltados a ergonomia
cansaço e dores constantes podem ser
física do ambiente, além dos atos inseguros
facilmente resolvidos com o auxílio de
relacionados as ações dos trabalhadores
métodos ergonômicos apropriados, pois, o
diante do mesmo, e por meio da AET foi
intuito da ergonomia é adequar as condições
possível chegar as proposições de melhorias,
do ambiente de trabalho ao homem e não o
as quais poderiam vir a otimizar o posto da
contrário.
máquina extrusora, e se aplicada
corretamente até mesmo os outros setores.

Gestão da Produção em Foco - Volume 12


25

REFERÊNCIAS
[1]. ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE [7]. SERVIÇO DE APOIO ÀS MICRO E
ERGONOMIA – ABERGO. O que é ergonomia. PEQUENAS EMPRESAS - SEBRAE. Cerâmica
Disponível em: Vermelha. Disponível
<http://www.abergo.org.br/internas.php?pg=o_que em:<http://www.bibliotecas.sebrae.com.br/chronus/
_e_ergonomia>. Acessado em: 13 Ago de 2016. ARQUIVOS_CHRONUS/bds/bds.nsf/b877f9b38e78
7b32594c8b6e5c39b244/$File/5846.pdf>. Acesso
[2]. ASSOCIAÇÃO NACIONAL DA INDÚSTRIA
em: 13 ago. 2016.
CERÂMICA – ANICER. Relatório Anual 2014.
Disponível em: < http://portal.anicer.com.br/wp- [8]. SERVIÇO SOCIAL DA INDÚSTRIA - SESI.
content/uploads/2015/09/relatorio_2014.pdf>. Manual de Segurança e Saúde no trabalho:
Acesso em: 13 ago. 2016. Indústria de Cerâmica Estrutural e Revestimento /
Gerência de Segurança e Saúde no Trabalho. São
[3]. FIALHO, F. A. P.; SANTOS, N. Manual de
Paulo: SESI, 2009.
análise ergonômica do trabalho. Curitiba: Gênesis,
1995 [9]. SOARES, F. C. Otimização do ensino da
matemática atraves da aplicação no conceitos de
[4]. GUERIN, F. et al. Comprendre le travail
ergonomia no ambiente físico, um estudo de caso:
pour le transformer. Paris: Anact, 1991.
curso técnico do CEFET/SC. Dissertação (Mestrado
[5]. IIDA, Itiro. Ergonomia: Projeto e Produção em Engenharia de Produção). Florianopolis:
- 2º edição revista e ampliada. São Paulo: Edgard Universidade de Santa Catarina, 1991.
Blucher, 2005.
[10]. ZOCCHIO, Álvaro. Prática da prevenção
[6]. OLIVEIRA, Cláudio Antonio Dias de; de acidentes: ABC da segurança do trabalho. 5.
MILANELI, Eduardo. Manual prático de saúde e ed. rev. e ampl. São Paulo: Altas, 1992. 220 p.
segurança do trabalho. São Caetano do Sul: Yedis,
2009. 420 p.

Gestão da Produção em Foco - Volume 12


26

Capítulo 3

Alexandre Rodrigues Ferreira


Bruno Miranda dos Santos
Cyro Rei Prato Neto
Wagner Pietrobielli Bueno
Marcela Soares

Resumo: Empresas de pequeno porte do setor moveleiro são importantes para o


desenvolvimento econômico de uma região. Em especial, aquelas que
acompanham as constantes mudanças de mercado por meio de ações de
inovação incorporadas na sua gestão. O objetivo deste estudo é identificar os
elementos chave que possuem maior representatividade acerca da inovação em
um grupo de empresas situadas na Região Central do Rio Grande do Sul. Para tal,
foi utilizada uma metodologia com o auxílio da ferramenta matemática denominada
Fuzzy Analytic Hierarchy Process (FAHP). O método foi aplicado para calcular os
pesos relativos e a descrição dos critérios que são considerados mais
representativos na competitividade pelas empresas nos processos de inovação. Os
dados apontam que atividades voltadas à inovação estão em processo de
maturidade.
Palavras Chave: Inovação; Competitividade; Setor Moveleiro; FAHP

Gestão da Produção em Foco - Volume 12


27

1 INTRODUÇÃO 2. CONTEXTUALIZAÇÃO E
PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS
O setor moveleiro é caracterizado pela
heterogeneidade de seus produtos e a No que tange ao segmento moveleiro, sua
predominância de empresas de menor porte característica é marcada pela predominância
(SILVA; SOUSA; FREITAS, 2012). Em seus de micro e pequenas empresas familiares. As
diferentes segmentos e classificações, micro, empresas investigadas desta pesquisa estão
pequenas ou medias empresas, há situadas na Região Central do Estado do Rio
emergência da exploração de fatores afetos Grande do Sul e, a pesquisa, foi conduzida
ao conceito de inovação (KLAAS et al., 2010; durante o segundo semestre de 2016. Estas
OŠENIEKS; BABAUSKA , 2014; RADAS et al., empresas são importantes para o crescimento
2014). econômico da região pela geração de
empregos diretos e estágios acadêmicos. Os
A inovação tem efeito positivo sobre o
gestores participantes desta pesquisa (sete
crescimento econômico de longo prazo,
gestores) foram selecionados de acordo com
portanto, a importância de sua investigação. A
seu conhecimento sobre o setor e pelo tempo
mesma pode ser definida como uma medida
de vida das empresas (todas com mais de
de grau em que as empresas possam
dez anos de experiência). Quanto o método
competir uma com as outras (CAMISÓN;
de pesquisa é do tipo estudo de casos com
MONFORT-MIR, 2012; NIJSSEN et al., 2006).
caráter exploratório e descritivo (Yin, 2010).
O Manual de Oslo, fonte internacional de
diretrizes para coleta e uso de dados sobre Foi elaborado um questionário com base no
atividades inovadoras da indústria, considera Manual de Oslo que aufere importância aos
os constructos produto, processos, marketing constructos referente a produto (C1),
e organização como fundamentais para processo (C2), marketing (C3) e organização
elaboração de pesquisas em torno do (C4). Como subcritérios (elementos de
conceito de inovação (OECD 2005). inovação desdobrados dos critérios) foram
Observou-se que a literatura voltada ao setor auferidos com base em Cheng, Chang e Li
moveleiro ainda não está estruturada e, a (2013), Sawhney et al. (2006) e Bachmann e
maioria dos trabalhos são conduzidos Destefani (2008) são eles: Modificação
qualitativamente. Portanto, não se teve a considerável na organização de
pretensão de explorar conceitos e a evolução trabalho(C11); Manter uma relação de
histórica acerca do tema inovação nas proximidade com ambientes que propiciem a
empresas. Nessa perspectiva, este estudo inovação (C12); Absorver algum tipo de
teve como objetivo responder a seguinte conhecimento ou tecnologia de fornecedores
questão de pesquisa: Quais elementos de (C13); Parcerias ou projeto cooperativos
inovação são considerados mais (C14); Repensar continuamente seus
representativos em empresas de pequeno processos (C21); Investimento em máquinas e
porte do segmento moveleiro? equipamentos (C23); Profissionais com as
competências necessárias (C22); grupo
Para responder a questão, buscou-se auferir
multifuncional responsável por todo o projeto
resultados e apresentar uma síntese dos
(C24); Entender e rever constantemente os
mesmos por meio de um método matemático
conceitos e tendências do mercado (C31);
robusto denominado Fuzzy Analytic Hierarchy
Emprego do design (C32); Importância da
Process (FAHP). O método caracteriza-se
tecnologia (C33); Cliente como coparticipante
pela abordagem de valores linguísticos
dos projetos (C34); Variação no acabamento
voltados a redução da imprecisão nos
dos produtos (C41); Rever constantemente os
resultados e como suporte no processo de
mercados de distribuição (C42); Publicidade
tomada de decisão (HUANG; CHU; CHIANG,
e propaganda (C43) ; pesquisa sistemática
2008; DURÁN; AGUILO, 2008). O trabalho
para identificar as necessidades do
está delineado em: (I) contextualização e
mercado(C44); Constantes lançamentos de
procedimentos metodológicos, (II) breve
novos produtos (C45) e, Facilidade ou recurso
referencial do método e aplicação, (III)
(Showroom, cafezinho, vitrine, etc.) (C46). O
resultados e discussões e, (IV) conclusões.
questionário foi elaborado e ajustado
conforme um teste piloto aplicado em um dos
gestores. Chegou-se a seguinte estrutura
hierárquica conforme Figura 1.

Gestão da Produção em Foco - Volume 12


28

Figura 1 – Estrutura hierárquica.

Fonte: Elaborado pelos Autores

O primeiro nível da estrutura refere-se ao problemas mais complexos. Zadeh (1965)


objetivo da pesquisa (quais elementos de introduziu a teoria dos conjuntos fuzzy, para
inovação), no segundo nível, na linguagem do racionalizar a incerteza associada com a
AHP, os critérios de primeira ordem imprecisão, de forma análoga ao pensamento
(constructos) conforme Manual de Oslo e, no humano. Assim, o AHP passou a ter uma
terceiro nível, como descrito anteriormente, o extensão fuzzy, sendo desenvolvido para
desdobramento dos subcritérios/elementos resolver problemas de imprecisão hierárquica
auferidos das pesquisas de Cheng, Chang e e permitir uma descrição mais precisa dos
Li (2013), Sawhney et al. (2006) e Bachmann resultados (WANG; CHEN, 2008; FERREIRA et
e Destefani (2008). Também se considerou al, 2016). Cabe salientar que o presente
duas questões qualitativas referentes ao trabalho não se detém no detalhamento da
processo de inovação para maior ferramenta AHP original, no entanto, na
aprofundamento do tema. A primeira sobre o extensão fuzzy e resultados.
nível de conhecimento e a compreensão dos
Utilizou-se o método de extensão proposta
gestores acerca do conceito inovação e, a
por Chang (1996) para determinar o peso dos
segunda, sobre a importância do seu
critérios/subcritérios (elementos de inovação)
emprego no contexto estudado.
que mais possuem representatividade no
processo de inovação nas empresas
estudadas. Os passos para a aplicação do
2.1 O MÉTODO FAHP
método proposto seguem sintetizados e
O método de processo de análise hierárquica podem ser conferidos no trabalho de Chang
(Analytic Hierarchy Process- AHP) pode (1996) e outros autores como Somsuk e
auxiliar os gestores na identificação de Laosirihongthong (2013). Passo 1:
critérios ou dimensões mais representativos Transformação dos valores originais (crisp) do
considerando-se um conjunto de alternativas modelo AHP original em números fuzzy e a
(BENTES et al., 2012; SAATY, 1990). comparação pareada de cada critério e
Entretanto, este método não é tão eficiente subcritério em uma matriz; Passo 2: O valor
quando o problema envolve um grau maior de da medida sintética fuzzy em relação ao 𝑖 𝑡ℎ
incerteza. Frente a essa dificuldade, foi objeto é expressada pela Equação 1 e seu
desenvolvido o conjunto dos números fuzzy desdobramento pelas equações 2,3 e 4:
para auxiliar no processo de decisão em

𝑚 𝑛 𝑚
−1
(1)
𝑗 𝑗
𝑆𝑖 = ∑ 𝑀𝑔𝑖 ⊗ [∑ ∑ 𝑀𝑔𝑖 ]
𝑗=1 𝑖=1 𝑗=1

𝑛 𝑛 𝑛 𝑛

∑ 𝑀𝑖𝑗 = (∑ 𝑙𝑖𝑗 , ∑ 𝑚𝑖𝑗 , ∑ 𝑢𝑖𝑗 ) , 𝑖


(2)
𝑗=1 𝑗=1 =𝑗=11, 2, 3, …,
𝑗=1

Gestão da Produção em Foco - Volume 12


29

𝑚 𝑛
𝑗
∑ ∑ 𝑀𝑔𝑖
𝑖=1 𝑗=1
𝑚 𝑛 𝑚 𝑛 𝑚 𝑛 (3)
= (∑ ∑ 𝑙𝑖𝑗 , ∑ ∑ 𝑚𝑖𝑗 , ∑ ∑ 𝑢𝑖𝑗 )
𝑖=1 𝑗=1 𝑖=1 𝑗=1 𝑖=1 𝑗=1

−1
𝑚 𝑛

[∑ ∑ 𝑀𝑖𝑗 ]
𝑖=1 𝑗=1 (4)
1 1 1
=( 𝑚 𝑛 , , 𝑚 𝑛 )
∑𝑖=1 ∑𝑗=1 𝑢𝑖𝑗 ∑𝑚 ∑𝑛
𝑚
𝑖=1 𝑗=1 𝑖𝑗 ∑ ∑
𝑖=1 𝑗=1 𝑙𝑖𝑗

Passo 3: Neste trabalho o grau de possibilidade foi definido pela primeira e a terceira condição da
Equação 5:

1, 𝑠𝑒 𝑚2 ≥ 𝑚1
𝑉(𝑀2 ≥ 𝑀1 ) = ℎ𝑔𝑡(𝑀1 ∩ 𝑀2 ) = 𝜇𝑀2 (𝑑) = { 0, 𝑠𝑒 𝑙1 ≥ 𝑙2 (5)
𝑙1 −𝑢2
(𝑚 )−(𝑚 )
, 𝑐𝑐
2 −𝑢2 1 −𝑙1

Passo 4: A Equação 6 determina o resultado pelo mínimo valor das possibilidades:


𝑑 ′(𝐴𝑖 ) = min 𝑉(𝑆𝑗 ≥ 𝑆𝑖 )
(6)

Passo 5: Por meio da normalização, os vetores de peso são obtidos pela Equação 7 onde 𝑊 é um
número não fuzzy.
𝑤𝑖′
𝑊𝑖 = ∑𝑛 ′ (7)
𝑖=1 𝑤𝑖

2.2 APLICAÇÃO DO MÉTODO de consistência forma satisfatórias com RC ≤


0,10 (SAATY, 1990). Os valores resultantes do
Foram feitas as comparações pareadas dos
AHP foram convertidos em números
critérios e subcritérios desdobrados
triangulares fuzzy conforme a escala de
anteriormente e calculadas as consistências
Somsuk e Laosirihongthong (2013) dispostos
das matrizes aplicadas aos sete gestores
na Tabela 1:
segundo método de Saaty (1990). As razões

Tabela 1- Escala linguística fuzzy.


Escala fuzzy triangular Recíproca Inversa Definição

(1, 1, 3) (1/3, 1, 1) Igual importância.

(1, 3, 5) (1/5, 1/3, 1) Fraca importância.

(3, 5, 7) (1/7, 1/5, 1/3) Leve importância.

(5, 7, 9) (1/9, 1/7, 1/5) Moderada importância.

(7, 9, 9) (1/9, 1/9, 1/7) Forte importância.

Fonte: adaptado de Somsuk e Laosirihongthong (2013)

Gestão da Produção em Foco - Volume 12


30

Na matriz abaixo, a média dos valores matrizes AHP nos critérios de primeira ordem.
fuzzificados obtidos da aplicação das

Tabela 2 – Matriz FAHP com as médias dos critérios de primeira ordem


C1 C2 C3 C4

C1 (1,00, 1,00, 3,00) (0,68, 1,53, 3,00) (0,17, 0,26, 0,70) (0,31, 0,35, 0,84)

C2 (1,00, 1,00, 3,00) (0,35, 0,44, 1,27) (0,18, 0,28, 0,73)

C3 (1,00, 1,00, 3,00) (0,68, 1,53, 3,00)

C4 (1,00, 1,00, 3,00)

Fonte: Elaborado pelos Autores

Com as médias, aplicou-se a análise de matriz dos critérios de primeira ordem


extensão proposta por Chang (1996): referente a Equação 1:
Calculando inicialmente a soma das linhas da

Conforme Equação 2 a soma das colunas:

E a soma das linhas da matriz resultante conforme Equação 3:

Gestão da Produção em Foco - Volume 12


31

De acordo com a Equação 4 a expressão


completa para o valor de extensão sintético:
𝟏 𝟏 𝟏
𝐒𝟏 = (𝟐. 𝟏𝟔, 𝟑. 𝟏𝟒, 𝟕) ⊕ ( , , ) = (𝟎. 𝟎𝟒, 𝟎. 𝟏, 𝟎. 𝟒𝟔)
𝟓𝟑. 𝟏𝟒 𝟐𝟗. 𝟒𝟔 𝟏𝟔. 𝟓𝟐

𝟏 𝟏 𝟏
𝐒𝟐 = (𝟐. 𝟐, 𝟒, 𝟖. 𝟖) ⊕ ( , , ) = (𝟎. 𝟎𝟒, 𝟎. 𝟏𝟒, 𝟎. 𝟓𝟑)
𝟓𝟑. 𝟏𝟒 𝟐𝟗. 𝟒𝟔 𝟏𝟔. 𝟓𝟐

𝟏 𝟏 𝟏
𝐒𝟑 = (𝟓. 𝟔𝟖, 𝟏𝟏. 𝟑𝟑, 𝟏𝟖. 𝟒) ⊕ ( , , ) = (𝟎. 𝟏, 𝟎. 𝟑𝟖, 𝟏. 𝟏𝟏)
𝟓𝟑. 𝟏𝟒 𝟐𝟗. 𝟒𝟔 𝟏𝟔. 𝟓𝟐

𝟏 𝟏 𝟏
𝐒𝟏 = (𝟔. 𝟒𝟖, 𝟏𝟎. 𝟗𝟑, 𝟏𝟖. 𝟒) ⊕ ( , , ) = (𝟎. 𝟏𝟐, 𝟎. 𝟑𝟕, 𝟏. 𝟏𝟏)
𝟓𝟑. 𝟏𝟒 𝟐𝟗. 𝟒𝟔 𝟏𝟔. 𝟓𝟐

O julgamento par a par conforme a primeira e condição usa-se a terceira, como exemplo
a terceira condição conforme a Equação 5 segue o valor do primeiro julgamento.
onde 𝟏, 𝐬𝐞 𝐦𝟐 ≥ 𝐦𝟏 Não satisfeita a primeira

𝟎. 𝟎𝟒 − 𝟎. 𝟒𝟔
𝐕(𝐒𝟏 ≥ 𝐒𝟐 ) = = 𝟎. 𝟗𝟑
(𝟎. 𝟏 − 𝟎. 𝟒𝟔) − (𝟎. 𝟏𝟒 − 𝟎. 𝟎𝟒)

Segue os valores dos julgamentos obtidos na Tabela 3:

Tabela 3 – Grau de possibilidade de 𝑽(𝑺𝟏 ≥ 𝑺𝒊 ) para os critérios


V(S≥Si) Valor V(S≥Si) Valor V(S≥Si) Valor V(S≥Si) Valor
S1 ≥ S2 0.93 S2 ≥ S1 1 S3 ≥ S1 1 S4 ≥ S1 1

S1 ≥ S3 0.56 S2 ≥ S3 0.63 S3 ≥ S2 1 S4 ≥ S2 1

S1 ≥ S4 0.56 S2 ≥ S4 0.64 S3 ≥ S4 0,76 S4 ≥ S3 1

Fonte: Elaborado pelos Autores

Avaliando o mínimo das comparações


conforme a Equação 6: V 3. RESULTADOS E DISCUSSÃO
(S1≥S2,S3,S4)=min(0.93,0.56,0.56)= 0.56, V
Após a aplicação das matrizes e a análise de
(S2≥S1,S3,S4) =min(1,0.63,0,64)=0.63, V
extensão completa realizou-se uma
(S3≥S1,S2,S4)=min (1,1,0.76)=0.76 e
verificação dos pesos junto a um dos gestores
V(S4≥S1,S2,S3)=min(1,1,1) =1. Finalmente, por
para validação dos resultados. A Tabela 4
meio da normalização expressas pela
exibe a estrutura hierárquica e a ordem final
Equação 7 são encontrados os valores dos
de prioridade obtida da multiplicação dos
vetores finais W= 0.19, 0.22, 0.26 e 0.34 onde
critérios de segunda ordem pelo critério de
W é um número não fuzzy. O mesmo
primeira ordem.
procedimento foi repetido para todos os
subcritérios em relação ao seu critério.

Gestão da Produção em Foco - Volume 12


32

Tabela 4 – Pesos relativos dos critérios e subcritérios resultantes.


Priorida
Critério Peso relativo Subcritério Peso relativo Peso global
de

C11 0,27 0,051 10

C12 0,27 0,051 10


CI 0,19
C13 0,21 0,040 16

C14 0,26 0,049 12

C21 0,26 0,057 8

C22 0,27 0,059 7


C2 0,22
C23 0,22 0,048 13

C24 0,25 0,055 9

C31 0,30 0,078 4

C32 0,32 0,083 3


C3 0,26
C33 0,23 0,060 6

C34 0,15 0,039 17

C41 0,12 0,041 14

C42 0,22 0,075 5

C4 0,34 C43 0,26 0,088 1

C44 0,20 0,007 18

C45 0,12 0,041 14

C46 0,25 0,085 2

Fonte: Elaborado pelos Autores

Nota-se que o critério “Marketing (C4)” dispor de um produto com qualidade não é
apresentou maior relevância para os gestores mais considerado suficiente para a satisfação
das empresas investigadas, seguido dos do consumidor. Os gestores apontam a
critérios “Produto (C3)”, “Processo (C2)” e existência de empresas com produtos de
“Organização (C3)”. Quanto aos pesos dos qualidade, porém com baixo fluxo de capital
subcritérios em uma ordem global devido à pouca importância empregada em
decrescente os que mais se destacaram um “bom marketing”. Colocam ainda que,
foram “(C43) publicidade e propaganda”, empresas com produtos com uma qualidade
“(C46) facilidade ou recurso” e o “(C32) relativamente menor em comparação com
emprego de design nos produtos”. O outras, alcançam vendas consideráveis em
subcritério “(C31) entender e rever virtude de um bom emprego de marketing. As
constantemente os conceitos e tendências do principais formas de marketing apontadas
mercado” seguido de “(C42) rever pelos gestores estão afetas ao
constantemente os mercados de distribuição” desenvolvimento de sites e a divulgação da
também obtiveram pesos significantes. sua marca nas redes sociais, em especial
“face book” como ferramenta poderosa de
Em uma visão global, os dados vêm a
publicidade e propaganda.
corroborar com as colocações dos gestores
em suas entrevistas. Todos apontaram que no Alinhado ao elemento anterior os dados
contexto atual o critério marketing e suas contemplam a colocação dos gestores, de
variáveis vêm tomando dimensões de que “cada vez mais” o cliente deseja “sentir o
prioridade devido ao “comportamento do serviço” e ser considerado importante no
consumidor atual”. Os mesmos afirmam que processo de negociação. Esta perspectiva

Gestão da Produção em Foco - Volume 12


33

está fortemente alinhada a “facilidade de principais elementos em sua ordem de


recursos” apurada como segunda mais representatividade. Porém em uma visão
importante dentro da perspectiva de local, ou seja, análise dos pesos dos
marketing. Segundo os gestores as elementos dentro do seu critério, é pertinente.
facilidades (showroom, cafezinho, vitrine, etc.)
Dentro do critério organizacional, a
dão suporte para melhorar o relacionamento
importância da relação das empresas com
com os clientes. As vendas tradicionais
ambientes inovadores está emergindo. O
(apenas a compra) não são mais suficientes,
papel de instituições como o SEBRAE está
o cliente atual deseja fazer parte de todo o
vinculado à melhoria constante dos processos
processo, desde a concepção do produto e, a
das empresas, pois esta perspectiva não era
percepção do pós-venda. Os elementos
comum em um contexto anterior. O papel da
publicidade e propaganda e facilidade em
universidade parece não estar presente na
recursos devem ser revistos constantemente
maioria das empresas, apenas dois dos sete
de acordo com as tendências de
gestores entrevistados participaram de
comportamento dos consumidores. Estas
projetos vinculados a alguma instituição de
características estão alinhadas com a
ensino superior. A proximidade das
perspectiva de Baines et al. (2007) que
empresas com ambientes inovadores é um
trazem um comparativo de como os produtos
fator relevante de pesquisa. As barreiras
e serviços são considerados pelos usuários.
encontradas para que essa proximidade
O terceiro subcritério (elemento) mais aconteça é um tema complexo. No entanto,
importante está fortemente ligado aos dois quando tal proximidade acontece, pode trazer
primeiros, ou seja, dentro do critério produto, grandes benefícios para as partes
o elemento design possui fator decisivo de interessadas, gerando inovação,
compra alinhado aos elementos de marketing. competitividade e crescimento tecnológico
Em totalidade, os gestores apontaram o poder (BRUNEEL; D’ESTE; SALTER, 2010).
do emprego do design nos processos de
Dentro do critério organizacional o elemento
desenvolvimento de produtos. Segundo os
referente à “modificação considerável na
mesmos, sua utilização não está estritamente
organização de trabalho” obteve pesos
vinculada à venda final do produto, mas em
semelhantes ao anterior. Foi salientado que a
todo o processo, pois ajuda na racionalização
integração/criação de departamentos ou
de gastos e desperdícios dentro das firmas.
atividades está se tornando necessário. A
A lógica dos elementos supracitados é criação de um departamento exclusivo de
sustentada pelas perspectivas de Dell`era e “desenvolvimentos de produtos” está cada
Verganti (2009), HSU (2011) e Battistella, vez mais presente, pois anteriormente era
Biotto e Toni (2012) que os fatores gestão de contemplada dentro do próprio chão de
marca, design, desenvolvimento de produtos fábrica.
e marketing oportunizam uma agregação de
Os subcritérios que mais se destacaram
maior valor agregado por se tratarem de
dentro do critério “processo”, foram os
inovações tecnológicas. Ademais, o emprego
elementos “repensar continuamente seus
do design está alinhado com a perspectiva do
processos” e “ter profissionais com as
elemento “entender constantemente as
competências necessárias para um ambiente
tendências do mercado”, o qual um bom
de projeto”. Dois dos gestores entrevistados
profissional é capaz de traduzir as
elucidaram a importância da qualificação
necessidades do cliente em requisitos de
profissional em harmonia com a melhoria dos
projeto. Portanto, as empresas que desfrutam
processos. Um profissional qualificado possui
do emprego do design em seus projetos têm
a competência de detectar gargalos ao longo
maior potencialidade de fidelização dos
dos processos e propor melhorias contínuas
clientes (LEAVY, 2010; HSU, 2011).
na rotina de uma empresa (MÜLLER;
A apuração identifica ainda o elemento “rever TURNER, 2010).
constantemente os mercados de distribuição”.
Dentro do critério “produto” o emprego da
Os gestores apontaram a importância da
tecnologia é considerado como um dos
participação de feiras comerciais em nível
elementos mais representativos juntamente
local, regional e estadual como importante
com o emprego de design, ambos tiveram
fonte de expansão da comercialização dos
pesos semelhantes. Os dados vêm a
seus produtos para outras regiões. Em uma
corroborar com as ações dos gestores, a
visão macro, percebeu-se a importância dos
aquisição de máquinas CNC’s e ferramentas

Gestão da Produção em Foco - Volume 12


34

com maior performance, estão presentes em anteriormente obteve os pesos mais


todas as empresas participantes desta significativos, tanto em uma visão global como
pesquisa. local. Na visão de Leavy (2010) e Hsu (2011)
o marketing alinhado ao produto são os
A seguinte colocação “as mudanças nos
fatores fundamentais para a sobrevivência e
produtos se caracterizam como incrementais”.
competitividade de uma empresa.
Em unanimidade, os gestores elucidaram que
o consumidor na região em foco ainda possui
um comportamento “tradicional” em relação
4. CONSIDERAÇÕES FINAIS
aos estilos, ou seja, ainda existe resistência
com produtos fora do padrão convencional. O artigo mostra a síntese de um estudo de
Mudanças drásticas na forma e o uso de casos conduzido em sete empresas de
matérias primas reaproveitáveis não possuem pequeno porte localizadas na Região Central
uma demanda satisfatória no contexto do Rio Grande do Sul. O objetivo foi mensurar
estudado. Assim, estas empresas podem ser a prioridade pelas empresas aos critérios que
configuradas como “tradicionais” do setor possuem maior representatividade no
moveleiro, introduzem inovações incrementais processo de inovação e competitividade para
de processo e produto, das quais derivam a região.
suas vantagens competitivas, e, a
Consolidar características das empresas do
proximidade com os clientes. Serra et al.
setor moveleiro por meio de uma pequena
(2008) definem inovação incremental como a
quantidade de firmas é o fator limitador desta
criação de um novo produto ou serviço
pesquisa. Como ensejo, na condução de
mantendo características iniciais e agregação
pesquisas futuras, recomenda-se a replicação
de novos conceitos para atender
e refinamento do método utilizado em uma
determinados clientes ou objetivos. Nas
quantidade maior de empresas. Entretanto,
empresas estudadas, essas mudanças
para o contexto local, a possibilidade de
ocorrem geralmente no tipo de acabamento
generalizar algumas conclusões é pertinente,
dos produtos (texturas, cores e formas),
pois selecionaram-se empresas consideradas
porém, mantendo suas características inicias.
tradicionais do mercado.
Processos como learning by doing e learning
Encoraja-se também um maior entendimento
by using, além de capacitações em design,
de cada variável, ou seja, a investigação em
explicam a capacidade de introduzir
profundidade de cada construto desta
inovações neste setor (MAIA; BOTELHO,
pesquisa. Ademais, o método empregado
2013; PAVITT, 2003; RIZZONI, 1994). Os
não considera a relação de dependência das
mesmos autores definem que as
variáveis e, as avaliações qualitativas, que, ao
organizações deste segmento são operantes
integrarem múltiplos fatores no processo de
em setores maduros e não intensivos em
julgamento, podem carregar alguma
capital, principalmente em mercados em que
subjetividade. Outros métodos que
a demanda é descontínua e diferenciada. Por
consideram tais fatores podem ser
último, o critério marketing como descrito
empregados.

REFERÊNCIAS
[1]. BATTISTELLA, C.; BIOTTO, G.; TONI, A. F. [4]. BENTES, A. V.; CARNEIRO, J.; DA SILVA,
DE. From design driven innovation to meaning J. F.; KIMURA, H. Multidimensional assessment of
strategy. Management Decision, v. 50, n. 4, p. 718– organizational performance: Integrating BSC and
743, 2012. AHP. Journal of Business Research, v. 65, p. 1790–
1799, 2012.
[2]. BACHMANN, D. L.; DESTEFANI, J. H.
Metodologia para estimar o grau das inovações [5]. BRUNEEL, J.; D’ESTE, P.; SALTER, A.
nas MPE. Curitiba, 2008. Investigating the factors that diminish the barriers to
university–industry collaboration. Research Policy,
[3]. BAINES, T. S.; LIGHTFOOT, H. W.;
n.39, p. 858-868, May.2010.
EVANS, S.; NEELY, A. State-of-the-art in product-
service systems. Proceedings of the Institution of [6]. CAMISÓN, C.; MONFORT-MIR, V. M.
Mechanical Engineers, Part B: Journal of Measuring innovation in tourism from the
Engineering Manufacture, v. 221, p. 1543–1552, Schumpeterian and the dynamic-capabilities
2007.

Gestão da Produção em Foco - Volume 12


35

perspectives. Tourism Management, v. 33, n. 4, p. and service innovation similarities and differences.
776–789, ago. 2012. International Journal of Research in Marketing, v.
23, n. 3, p. 241–251, set. 2006.
[7]. CHANG, D.-Y. Applications of the extent
analysis method on fuzzy AHP. European Journal of [19]. OCDE, Manual de Oslo. diretrizes para
Operational Research, v. 95, n. 3, p. 649-655, 1996. coleta e interpretação de dados sobre inovação.
Terceira Edição, 2005
[8]. CHENG, C.-F.; CHANG, M.-L.; LI, C.-S.
Configural paths to successful product innovation. [20]. OŠENIEKS, J.; BABAUSKA, S. The
Journal of Business Research, v. 66, n. 12, p. Relevance of Innovation Management as
2561–2573, dez. 2013. Prerequisite for Durable Existence of Small and
Medium Enterprises. Procedia - Social and
[9]. DELL’ERA, C.; VERGANTI, R. The impact
Behavioral Sciences, v. 110, p. 82–92, jan. 2014.
of international designers on firm innovation
capability and consumer interest. International [21]. PAVITT, K. The process of innovation. In:
Journal of Operations & Production Management, v. Handbook on innovation. SPRU Eletronic Working
29, n. 9, p. 870–893, 2009. Paper Series. Paper n° 89. Brighton, 2003.
[10]. DURÁN, O.; AGUILO, J. Computer-aided [22]. RADAS, S.; ANIĆ, I. D.; TAFRO, A.;
machine-tool selection based on a Fuzzy-AHP WAGNER, V. The effects of public support
approach. Expert Systems with Applications, v. 34, schemes on small and medium enterprises.
p. 1787–1794, 2008. Technovation, set. 2014.
[11]. FERREIRA, A, R; BORCHARDT, M; [23]. RIZZONI, A. Technology and organisation
GODOY, L, P; NETO, C,R,P; BUENO, W,P; in small firms: an interpretative framework. Revue
HERRMANN, F, F; JUNIOR, A, E. Priorização dos D’Économie Industriell, n. 67, p. 135-155, 1994.
requisitos de sustentabilidade em incubadoras
tecnológicas: Um estudo de caso na Região [24]. SAATY, T. L. How to make a decision: The
Central do Rio Grande Do Sul, Brasil, Interciência, Analytic Hierarchy Process. European Journal of
v. 42, n.2, p. 108-114, 2016 Operational Research, v. 48, p. 9–26, 1990.

[12]. HUANG, C. C.; CHU, P. Y.; CHIANG, Y. H. [25]. SAWHNEY, M.; WOLCOTT, R. C.;
A fuzzy AHP application in government-sponsored ARRONIZ, I. The 12 Different Ways for Companies
R&D project selection. Omega, v. 36, p. 1038– to Innovate. MIT Sloan Management Review. p.
1052, 2008. 7581, Spring 2006.

[13]. HSU, Y. Design innovation and marketing [26]. SERRA, F. A.; PORTUGAL FERREIRA, M.;
strategy in successful product competition. Journal MORAES, M. D.; FIATES, G. “A Inovação numa
of Business & Industrial Marketing, v. 26, n. 4, p. empresa de base tecnológica: O Caso da
223–236, 2011. Nexxera.” Journal off Technology Management &
Innovation. v. 3, n. 3, p. 129–141, 2008.
[14]. KLAAS, B. S.; KLIMCHAK, M.; SEMADENI,
M.; HOLMES, J. J. The adoption of human capital [27]. SILVA, E.; SOUSA, G.; FREITAS, S.
services by small and medium enterprises: A Processo de Inovação: Um Estudo do Setor
diffusion of innovation perspective. Journal of Moveleiro de Campina Grande -PB. RAI - Revista
Business Venturing, v. 25, n. 4, p. 349–360, jul. de Administração e Inovação. vol. 9, n. 1, p. 257-
2010. 279, 2012.

[15]. LEAVY, B. Design thinking – a new mental [28]. SOMSUK, N.; LAOSIRIHONGTHONG, T. A
model of value innovation. Strategy & Leadership, fuzzy AHP to prioritize enabling factors for strategic
v. 38, n. 3, p. 5–14, 2010. management of university business incubators:
Resource-based view. Technological Forecasting
[16]. MAIA, A. F. S.; BOTELHO, M. R. and Social Change, v. 85, p. 198–210, jun. 2014.
ADiferenças setoriais da atividade inovativa das
pequenas empresas industriais brasileiras . Revista [29]. WANG, T.C.; CHEN, Y. H. Applying fuzzy
Brasileira de Inovação v. 13, n. 2, p. 371–404, linguistic preference relations to the improvement of
2013. consistency of fuzzy AHP. Information Sciences, v.
178, n. 19, p. 3755-3765, 2008.
[17]. MÜLLER, R.; TURNER, J. R. Attitudes and
leadership competences for project success. Baltic [30]. YIN, Robert K. Estudo de caso:
Journal of Management, v. 5, n. 3, p. 2010 p. 307- planejamento e métodos. 4. ed.Porto Alegre:
329, June. 2010 Bookman, 2010.

[18]. NIJSSEN, E. J.; HILLEBRAND, B.; [31]. ZADEH, L. A. Fuzzy Sets. Information and
VERMEULEN, P. A.; KEMP, R. G Exploring product Control, v. 8, n. 3, p. 338-353, 1965.

Gestão da Produção em Foco - Volume 12


36

Capítulo 4

Marcos Rodrigo Catóia


Rita de Cássia Arruda Fajardo

Resumo: Este estudo teve como objetivo propor melhorias nas condições de
trabalho no setor de usinagem de uma empresa metalúrgica, na cidade de São
Carlos/SP. A pesquisa caracteriza-se como exploratória e foi realizado um estudo
de caso para sua consecução. A coleta de dados foi feita por meio de um
questionário aplicado aos funcionários além de observação direta para um
diagnóstico das condições de trabalho. Como embasamento teórico, foram
utilizadas as Normas Regulamentadoras de saúde e segurança do trabalho
vigentes no Brasil. Como resultado foram propostas melhorias no setor
considerando a coleta de dados e as normas sobre saúde e segurança do
trabalho. Entre as melhorias propostas estão: treinamento sobre saúde e segurança
do trabalho, melhorias nas condições térmicas do setor de usinagem e melhoria na
armazenagem de matéria-prima, no que diz respeito a condições ergonômicas.

Palavras-chave: Condições de trabalho. Conforto térmico. Equipamento de


Proteção Individual. Segurança do Trabalho. Usinagem.

Gestão da Produção em Foco - Volume 12


37

1 INTRODUÇÃO A pesquisa configura-se como um estudo de


caso e foi realizada no local de origem em
As necessidades do homem são supridas
que ocorrem os fenômenos.
pelo trabalho. Trabalhar é preciso, neste
sentido, o quanto devemos deixar o trabalho Como um dos pesquisadores é funcionário do
fazer parte da vida pessoal nossas vidas? As setor pesquisado a pesquisa também tem
influências que o trabalho traz para a vida do caráter participante e de natureza
ser humano e da sociedade são benéficas? experimental.
O trabalho tira o homem de seu ambiente Para conseguir propor os objetivos desta
confortável, para expor a responsabilidade pesquisa, foi utilizada uma investigação
quanto a horários, assiduidade, pontualidade, empírica, a qual envolveu observação direta e
compromissos, tarefas a executar, busca de dados relevantes obtidos por
produtividade individual e coletiva. Obriga-o vivência dos pesquisadores e por meio de
ao uso de vestimentas distintas como, por pessoas que também vivenciam os
exemplo, uniforme, o uso de equipamentos de acontecimentos do tema.
proteção coletiva ou individual e, às vezes,
um local de trabalho já pronto, com pouco ou
nenhum conforto, e até mesmo equipamentos 2.1 COLETA DE DADOS: INSTRUMENTOS
e ferramentas não condizentes com as PARA A COLETA
medidas antropométricas e destrezas
Para a consecução da investigação,
manuais quer seja ele canhoto ou destro
incialmente, foi realizado um levantamento por
(PINTO 2011).
meio de pesquisa bibliográfica sobre o
Quem trabalha em um ambiente que não assunto. Logo após foi elaborado um
possui condições adequadas pode sofrer questionário para coleta de dados junto aos
fadiga, o seu rendimento pode diminuir, funcionários do setor de usinagem e dos
chegando a consequências danosas, como envolvidos com a segurança do trabalho,
doenças ocupacionais e acidentes no além da realização da observação no setor.
ambiente de trabalho.
Foi utilizado como método de coleta de dados
A metalúrgica na qual foi realizado o estudo um questionário elaborado, em parte, na
de caso está localizada no distrito industrial escala Likert, que baseia-se em escala de
na cidade de São Carlos/SP. resposta psicométrica, usada para que os
entrevistados especifiquem um nível de
Em relação à questão da segurança do
concordância com uma afirmação. Gil (2008)
trabalho, tem um profissional que trabalha na
observa que a escala Likert é de elaboração
área, sendo ele o técnico de segurança do
simples e ordinal, e expressa a concordância,
trabalho.
ou não, sobre determinadas situações.
A empresa possui uma Comissão Interna de
Além disso, uma parte do questionário foi
Prevenção de Acidentes (CIPA) instituída,
composta por perguntas abertas, para cada
com oito membros. Esta formação é trocada
entrevistado expressar suas opiniões sobre as
todos os anos por eleição feita pelos próprios
condições de trabalho do setor. O
funcionários e o candidato só pode ser
questionário foi aplicado em 63,6% do total de
membro por dois mandatos consecutivos,
funcionários do setor estudado (21
sendo quatro titulares e quatro suplentes,
funcionários) e a escolha se deu por método
existe também um grupo de brigadistas
aleatório.
formado por oito membros.
Após a aplicação do questionário a análise
O objetivo geral desta pesquisa é propor
teve abordagem de uma pesquisa
melhorias nas condições de trabalho no setor
quantitativa, pois as informações colhidas
de usinagem de uma empresa metalúrgica,
pelo questionário foram transformadas em
na cidade de São Carlos/SP.
dados numéricos para gerar uma análise mais
conclusiva.
2 METODOLOGIA O questionário permitiu também uma análise
qualitativa da visão dos trabalhadores sobre
Quanto aos objetivos a pesquisa é descritiva,
as condições de trabalhos no setor de
pois visa identificar e descrever as
usinagem da empresa estudada. As
características do local, das máquinas,
respostas em aberto foram utilizadas para
empresa e dos funcionários.

Gestão da Produção em Foco - Volume 12


38

analisar e formular melhor as propostas de frequentam. Além disso, é necessário que o


melhorias. ambiente seja seguro, e que a exposição a
riscos seja mínima, evitando que aconteçam
Foi utilizada também a observação, já que um
acidentes no trabalho.
dos pesquisadores trabalha no local, e tem a
vivência prática das atividades, da cultura Segundo Brito (1997), os acidentes de
organizacional e das condições físicas de trabalho geram altos custos para a empresa,
trabalho no setor. para a sociedade e para o próprio
trabalhador. Observa-se que o investimento
em boas condições de trabalho e na
2.2 JUSTIFICATIVA segurança dos trabalhadores é condição
necessária para um ambiente produtivo com
As empresas já perceberam que a sua
qualidade tanto dos produtos, quanto de vida
produtividade está diretamente relacionada
para as pessoas no local de trabalho.
com o bem-estar de seus funcionários
(PINTO, 2011). Feitas estas considerações, este trabalho teve
como base, para identificação de falhas e
Uma empresa cumpridora de seus deveres, e
necessidades de melhoria dentro do objeto
que pensa no bem-estar de seus
do estudo de caso, as Normas
trabalhadores, tem a possibilidade de
Regulamentadoras de Segurança e Medina
estabelecer uma imagem positiva junto aos
do Trabalho (NR).
clientes e sociedade.
As Normas Regulamentadoras surgiram no
Neste sentido, justifica-se o presente estudo
final da década de 70 do século XX, com o
considerando-se que do ponto de vista social
intuito de estabelecer uma série de
as propostas que o estudo pode trazer de
procedimentos e requisitos que se relacionam
melhores condições de trabalho para o ser
com a segurança e medicina do trabalho.
humano podem ser relevantes para a
Estes procedimentos e requisitos são de
qualidade de vida no trabalho do setor
natureza obrigatória para todas as empresas
estudos. Do ponto de vista econômico,
privadas, públicas ou órgãos do governo que
melhorando as condições de trabalho é
possuem funcionários conduzidos pela
possível conseguir uma melhoria do
Consolidação das Leis do Trabalho (CLT).
rendimento dos trabalhadores e trazer
maiores ganhos econômicos para a empresa. Com base nestes requisitos, foram
Além disso, do ponto de vista acadêmico, consideradas neste estudo as seguintes
justifica-se a contribuição para agregar Normas Regulamentadoras:
conhecimento sobre o tema abordado.
NR 5 – Comissão Interna de Prevenção de
Acidentes;
2.3 REVISÃO DE LITERATURA NR 6 – Equipamentos de proteção individual
(EPI);
Grott (2008) ressalta que o homem passa a
maior parte de seu tempo no ambiente de NR 12 – Segurança no trabalho em máquinas
trabalho e que neste deve ter uma vida digna. e equipamentos;
Para Pinto (2011), a Constituição Federal de NR 17 – Ergonomia;
1988, especificamente nos seus artigos 7º e
NR 26 – Sinalização de Segurança.
200, permite inferir que o ambiente laboral é
constituído por fatores físicos e climáticos que Uma ferramenta importante na análise do
envolvem o local de trabalho e, ambiente do trabalho é o Mapa de Risco.
consequentemente, a qualidade de vida das Trata-se de uma representação gráfica de um
pessoas que fazem parte deste ambiente conjunto de fatores presentes nos locais de
(BRASIL, 1988). trabalho, capazes de acarretar danos à saúde
dos trabalhadores, doenças de trabalho e
O ambiente de trabalho tem importância
acidentes.
fundamental para a qualidade de vida do
trabalhador. Um ambiente que cause O item 5.16 da NR 5 (1999) especifica que a
desconforto, que tenha agentes nocivos à elaboração do Mapa de Risco é de
saúde dos trabalhadores, pode acarretar responsabilidade da CIPA em parceria com
doenças ocupacionais (ou doenças do Serviço Especializado em Engenharia de
trabalho), prejudicando todos que o Segurança e em Medicina do Trabalho

Gestão da Produção em Foco - Volume 12


39

(SESMT), onde houver. Sendo assim, 3 O SETOR DE USINAGEM


qualquer um desses organismos pode
O setor de usinagem ocupa cerca de 25% da
elaborar e assinar o documento. A empresa
área construída da empresa e contém 44
possui um Mapa de Risco, que permite
postos de trabalho, operados por 33
verificar que no setor de usinagem há um alto
funcionários.
grau de risco de acidente e de riscos físicos,
há um médio grau de risco químico e baixo As máquinas utilizadas na fabricação das
grau de risco biológico e ergonômico. peças são de comando numérico
computadorizado (CNC). No momento de
No setor estudado há uso de vários EPIs
realização da pesquisa observou-se que o
sendo, portanto, um importante requisito para
setor possuía um layout funcional ou de
a segurança do trabalho. A NR 6 (2001),
processo, ou seja, todas as operações
explicita que Equipamento de Proteção
semelhantes ou máquinas do mesmo tipo
Individual é todo dispositivo ou produto
estão agrupadas próximas, no mesmo local.
utilizado pelo trabalhador, de emprego
Este arranjo produtivo é recomendado para o
individual, para protegê-lo de possíveis
caso de manufatura de produtos não
ameaças e riscos à sua segurança e saúde,
padronizados, ou seja, fabricação de
sendo distribuídos de acordo com cada
produtos variados.
peculiaridade da atividade profissional.
Há em cada posto de trabalho paletes ou
Outro requisito estudado foram as
prateleiras para o recebimento e saídas das
regulamentações referentes a máquinas e
peças. Esses ficam no chão o que dificulta
equipamentos e a sinalização pertinente,
para o carregador ao colocar e pegar as
dispostas nas NR 12 e NR 26.
peças e levá-las ao carrinho de transporte,
Como disposto na NR 26 (2011), as cores especialmente porque algumas dessas peças
utilizadas nos locais de trabalho para são pesadas. As prateleiras estão longe de
identificar os equipamentos de segurança, alguns postos de usinagem e outras atrás de
delimitar áreas, identificar tubulações algumas máquinas, o que dificulta o acesso à
empregadas para a condução de líquidos e manutenção de painéis de comando elétrico.
gases e advertir contra riscos, devem atender Em alguns locais a circulação é prejudicada
ao disposto nas normas técnicas oficiais. por falta de espaço físico para os
carregadores.
Em relação à NR12 (2011), o empregador
deve adotar medidas de proteção para o As faixas de segurança muitas vezes não são
trabalho em máquinas e equipamentos, respeitadas, os paletes e até mesmo a
capazes de garantir a saúde e a integridade matéria-prima, ficam nos corredores
física dos trabalhadores, e medidas dificultando a passagem das pessoas e a
apropriadas sempre que houver pessoas com circulação para o transporte de outros
deficiência envolvidas direta ou indiretamente produtos.
no trabalho.
Os dispositivos de usinagem ficam separados
Embora o risco ergonômico seja considerado das matérias-primas e não são organizados.
de baixa relevância no setor, alguns aspetos Ficam no chão atrapalhando a limpeza e até
da NR 17 (1990), são considerados os próprios operadores, quando há a
importantes. No item 17.1.2, observa-se que o necessidade de utilizar um dispositivo que
empregador deve providenciar a análise esta mais ao fundo do corredor.
ergonômica do trabalho, na busca de avaliar
Por existir poucas entradas de ventilação, em
a adaptação das condições de trabalho às
dias de temperatura mais elevada, o setor fica
características psicofisiológicas dos
muito quente e abafado. Existem ventiladores
trabalhadores.
instalados em vários pontos, porém, o ar
Utilizando-se destas normativas e quente fica circulando o que não refresca o
considerando a análise dos questionários ambiente.
aplicados na investigação, foram propostas
Os carregadores não utilizam cintos
melhorias nas condições de trabalho no setor
ergométricos. E todos os meios de transporte
especificadas mais adiante.
são manuais.
Quanto à iluminação, existem entradas de luz
natural, porém, algumas estão velhas e
precisam ser trocadas e a iluminação artificial

Gestão da Produção em Foco - Volume 12


40

é feita por lâmpadas alógenas o que faz com


que o consumo de energia elétrica seja muito
4 A ANÁLISE GERAL DOS RESULTADOS
alto.
Considera-se que os resultados podem se
Existe um alto nível de ruído devido a
mostrar eficazes no que diz respeito ao
usinagem das peças e utilização de ar
conhecimento do setor, pois a maioria dos
comprimido nos processos de fabricação,
entrevistados está há cinco anos ou mais na
tanto para fazer as fixações em algumas
empresa (61,9%), o que também indica uma
placas dos tornos CNC, quanto na troca de
baixa rotatividade de trabalhadores neste
ferramentas dos centros de usinagem e, até
setor.
mesmo, na limpeza de peças e lugares de
fixação das mesmas. Sobre treinamento, 76,2% dos respondentes
nunca receberam treinamentos relacionados à
Todos os funcionários recebem seus
segurança do trabalho na empresa, e 14,3%
equipamentos de proteção individual (EPI),
fizeram apenas um curso, conforme o Gráfico
porém, observou-se que a falta de uso e
1.
mesmo o uso inadequado acontece, pois há
pouco controle da empresa em relação a isso. Em outra questão, observa-se que 76,2% dos
Não há esclarecimentos constantes, por meio funcionários acham importante a realização
de capacitação e treinamento dos de treinamento voltado para correta utilização
funcionários, das condições de segurança e dos EPIs. Observa-se também que 95,3%
saúde ocupacional. Essa ausência de acham importante as recomendações da
treinamento faz com que alguns funcionários, empresa para a utilização de EPIs e ainda,
por estarem acostumados com as funções que a contribuição da segurança de trabalho
desempenhadas, nem sempre achem para mudar os problemas do setor é baixa ou
importante o uso de EPI. nem sabem responder (66,7%).
Gráfico 1 – Quantidade de cursos sobre segurança do trabalho realizados na empresa

Fonte: elaborado pelos autores.

Sobre esforços exercidos pelos ações para melhorias das condições de


trabalhadores, foi considerado entre os trabalho. Mais da metade dos respondentes
participantes da pesquisa que há um nível acham que a CIPA não se importa com a
médio de esforço (33,3% dos respondentes), segurança nas linhas de produção.
porque os deslocamentos das matérias
Os trabalhadores utilizam EPIs específicos
primas dependem muito do local em que se
para a questão de ruído (protetores
encontram as entradas e saídas dos
auriculares), assim, a maioria dos
materiais, e o peso desta matéria-prima. A
participantes da pesquisa acha que o ruído
matéria-prima fica disposta em caixas ou solta
não prejudica a concentração no local de
nas prateleiras. Após a transformação dessas
trabalho, embora tenha aparecido também
matérias, elas precisam ser devolvidas para a
como um problema o ruído alto nas questões
próxima execução, o que gera novo esforço.
abertas do questionário. Alguns respondentes
Sendo a CIPA responsável pela busca de apontaram a necessidade de maior conforto
segurança e conforto no local de trabalho, com o calçado de segurança. Observou-se
57,1% acham que não estão sendo feitas também um desconhecimento sobre

Gestão da Produção em Foco - Volume 12


41

segurança no trabalho por parte dos Observa-se quanto à iluminação do ambiente,


trabalhadores, na medida em que são nos vários intervalos do dia, que esta não é
sugeridas propostas como trabalhar de considerada totalmente prejudicial à
bermuda, já que pela segurança isso não execução das tarefas. Observou-se que há
seria possível. necessidade de melhorias de iluminação em
algumas máquinas específicas.
Os resultados sobre risco de acidentes no
setor são inconclusivos porque dependem As faixas de segurança servem para limitar o
muito do local de trabalho. Algumas máquinas acesso às áreas de risco de acidente, além
são completamente fechadas e possuem de, em casos de emergência que necessitem
sensores que buscam evitar acidentes, por de rota de saída, as pessoas possam seguir
outro lado, em outras máquinas, há riscos por caminhos seguros sem que ocorram
maiores, já que não possuem proteção como problemas. O resultado das respostas dos
fresadoras, mandrilhadoras, tornos participantes mostra que 42,9% acham que
convencionais e, em especial o trabalho de essas faixas não estão sendo respeitadas e
acabamento, que utiliza furadeiras de 38,1% consideram que o respeito é parcial.
bancada e serviços manuais. Na observação feita no setor constatou-se um
ambiente desorganizado e, é provável que
Muitos participantes declararam que a
partes dos funcionários não tenham
autoconfiança, a falta de atenção, a
conhecimento do significado das faixas de
iluminação no interior das máquinas, as peças
segurança.
pesadas e cavacos são agravantes para
gerar acidentes. O índice de acidentes O maior fator apontado pelos funcionários
sofridos entre os entrevistados é cerca de sobre desconforto no trabalho diz respeito ao
19%, e os acidentes ocorridos não foram calor dentro da empresa. Em dias de
graves, como por exemplo, cortes nos dedos, temperatura mais quente no ambiente, todos
não apresentando sequelas permanentes. (100%) afirmam que fisicamente são afetados,
conforme o Gráfico 2.

Gráfico 2: Nível de incômodo em dias de calor – Fisicamente

Fonte: elaborado pelos autores.

Em relação ao desconforto mental, 90,5% potencializador de acidentes, já que esse


considera alto e médio o incômodo do calor, desconforto pode gerar falta de atenção e
conforme o Gráfico 3. Os funcionários fadiga, causando desgaste psicológico,
participantes da investigação trabalham em queda de rendimento na produção,
várias partes do setor de usinagem, o que aumentando a insatisfação e podendo,
indica que o desconforto térmico no ambiente inclusive, ir contra os interesses da própria
é geral, sendo este um fator de risco empresa.

Gestão da Produção em Foco - Volume 12


42

Gráfico 3: Nível de incômodo em dias de calor – Mentalmente

Fonte: elaborado pelos autores.

Em contrapartida, os índices a respeito dos dias quentes, ficando os índices dos


dias mais frios indicam que fisicamente o respondentes entre médio e regular como
desgaste é mais ameno se comparado aos desgaste físico, conforme o Gráfico 4.

Gráfico 4: Nível de incômodo em dias mais frios – Fisicamente

Fonte: elaborado pelos autores.

Em relação ao desconforto mental, também o potencial de prejudicar o andamento do


desgaste indicado é mais ameno em relação trabalho, representando um menor risco de
aos dias quentes, o que tem um menor acidentes no trabalho.

Gestão da Produção em Foco - Volume 12


43

Gráfico 5: Nível de incômodo em dias mais frios – Mentalmente

Fonte: elaborado pelos autores.

5 PROPOSTAS DE MELHORIAS NO SETOR o técnico de segurança do trabalho da


DE USINAGEM empresa, pois ele tem uma visão mais geral
das necessidades nesta área.
Considerando A NR 12 (2011), mais
especificamente o item 12.8.1, uma melhoria A NR 17 (1990), deixa clara a preocupação
proposta seria a colocação de uma proteção com a ergonomia. Então, sugere-se que os
coletiva em uma das máquinas em que a carregadores utilizem cintos ergonômicos,
ferramenta fica exposta. A máquina intitulada pois exercem grande esforço para transportar
com o nome MFC, faz furos utilizando várias as peças, que em muitas ocasiões estão em
bitolas de brocas e trabalha em alta rotação, paletes colocados no chão. Outra sugestão é
além de usar um sistema de refrigeração e levantar esses paletes, cerca de 80
expulsão de cavacos que pode chegar a 75 centímetros do chão, e/ou colocar prateleiras
bar de pressão. A proposta de melhoria versa para melhorar a disponibilidade dessas
sobre a colocação de uma proteção ao redor peças, diminuindo o esforço físico dos
da broca e de seus suportes de retentores, carregadores. E ainda, buscar formas de
além de carenagem nas partes de motor e layouts alternativas para melhorar a
entradas das mangueiras de alta pressão, disposição das máquinas e os locais onde
para diminuir o risco de acidentes. estão as matérias-primas. No setor em que
ficam as retificas, colocar uma talha ou ponte
No que diz respeito à NR 26 (2011), quando
rolante para melhorar o transporte e evitar
especifica que existe uma necessidade de
acidentes com peças pesadas.
pintura nas faixas de segurança, observa-se
que o requisito não é respeitado de forma Devido ao ambiente ser muito quente e com
satisfatória. As peças e dispositivos ficam pouca ventilação uma proposta seria buscar
sobre as faixas de segurança. Esta proposta um profissional da área para elaboração de
de melhoria diz respeito a uma mudança na um projeto para melhorar o conforto térmico,
postura organizacional, estabelecendo uma considerando os requisitos técnicos. É
prática de deixar as faixas livres. Observando importante ressaltar a questão do
que 61% dos respondentes apontam que profissionalismo, de forma a não prejudicar a
existe uma necessidade de treinamento sobre estrutura da empresa, para que as mudanças
segurança no trabalho uma proposta de não ocasionem risco de acidentes devido às
melhoria seria realizar um treinamento a alterações propostas, o que pode ocorrer
respeito de linhas de segurança. caso o projeto seja feito por pessoas não
habilitadas. Neste sentido, sugere-se o estudo
Outra proposta de treinamento é sobre
de abertura de janelas para ter maior
conteúdos mais gerais sobre a segurança do
circulação de ar, e assim diminuir a sensação
trabalho. Para a sua eficácia, deve-se fazendo
térmica de calor.
uma pesquisa com os funcionários para
entender o que eles acham que é deficiente Se for possível a abertura de janelas, esta
na preparação sobre segurança de trabalho e medida prevê o aumento da entrada de luz
quais seriam os maiores riscos para o setor, natural no ambiente. Sugere-se ainda a troca
além daqueles que já foram apontados no das telhas que já estão velhas e amareladas
resultado deste estudo. Deve ser considerado

Gestão da Produção em Foco - Volume 12


44

por telhas novas, permitindo o aumento de luz reclamação e pedidos de melhoria nos
natural no ambiente. calçados de segurança, que foram
caracterizados como sendo muito duros,
Em relação à iluminação do interior das
machucando o pé e ainda, foi apontada a
máquinas, item apontado pelos participantes
dificuldade de troca junto ao setor de
como problemático, a proposta seria um
segurança do trabalho, demorando na
estudo para a colocação desta iluminação
reposição quando já está velho e difícil de
nas máquinas que não possuem esse recurso
usar. Outro fato importante é que os
e a troca de lâmpadas comuns, do tipo
funcionários passam o dia todo na mesma
incandescentes ou com o nível de lumens
posição o que pode causar dores nos
baixo, por lâmpadas de LED, pois chegam a
membros inferiores e fadiga. Este fato pode
80% de economia e sua luminosidade
causar stress e ainda acarretar a diminuição
alcança 100% instantaneamente, além de ter
de rendimento dos trabalhadores. Uma
uma durabilidade maior. Estas medidas visam
sugestão seria a colocação de alguns bancos
a evitar desconforto visual dos funcionários.
individuais e estabelecimento de tempos de
Existe uma necessidade de estudo sobre os folga, para que os funcionários possam
calçados de segurança que os funcionários descansar e não ter seu rendimento afetado.
usam. O resultado da investigação apontou

6 CONSIDERAÇÕES FINAIS sobre segurança e conforto no trabalho, seus


riscos e prevenções.
Considera-se que o objetivo de propor
melhorias nas condições de trabalho no setor Espera-se que com essas contribuições de
de usinagem de uma empresa metalúrgica foi propostas de melhoria a empresa possa
alcançado. analisar os dados e buscar a melhor forma
para transformar o ambiente de trabalho em
Após a escolha e observação do local, o
um lugar mais seguro e agradável para os
levantamento bibliográfico apontou quais os
funcionários.
procedimentos a serem organizados para a
conclusão deste estudo. O questionário trouxe Este estudo mostra-se valido por analisar a
as dificuldades do dia-a-dia na empresa na realidade dentro de um ambiente laboral
visão dos trabalhadores, dando subsídio para industrial e espera-se contribuir para estudos
proposição de medidas para poder solucionar acadêmicos e melhorias em condições
seus problemas. ambientais e de segurança para
trabalhadores.
Este estudo permitiu que os pesquisadores
pudessem adquirir novos conhecimentos

REFERÊNCIAS
[1]. BRASIL. Constituição Federativa do Brasil, [4]. ___________. Ministério do Trabalho.
de 5 de outubro de 1988. Brasília: DF, 1988. Norma Regulamentadora 12 - NR 12: Segurança no
Disponível em: Trabalho em Máquinas e Equipamentos. 2011.
http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/co Disponível em:
nstituicaocompilado.htm. Acesso em 09.jun.2016.
[5]. <http://trabalho.gov.br/images/Documento
[2]. ___________. Ministério do Trabalho. s/SST/NR/NR12/NR-12-atualizada-out-2016.pdf>.
Norma Regulamentadora 5 - NR 5. Comissão Acesso em 20.out.2016.
Interna de Prevenção de Acidentes. 1999.
[6]. ___________. Ministério do Trabalho.
Disponível em:
Norma Regulamentadora 17 - NR 17: Ergonomia.
<http://trabalho.gov.br/images/Documentos/SST/N
1999. Disponível em:
R/NR5.pdf>. Acesso em 06. nov. 2016.
<http://trabalho.gov.br/images/Documentos/SST/N
[3]. __________. Ministério do Trabalho. Norma R/NR17.pdf>. Acesso em 20. out. 2016.
Regulamentadora 6 - NR 6. Equipamentos de
[7]. ___________. Ministério do Trabalho.
Proteção Individual. 2011. Disponível em:
Normas Regulamentadora 26 - NR 26: Sinalização
<http://trabalho.gov.br/images/Documentos/SST/N
de Segurança. 2011.Disponível em:
R/NR6.pdf>. Acesso em 20.out. 2016.

Gestão da Produção em Foco - Volume 12


45

[8]. <http://trabalho.gov.br/images/Documento [12]. PINTO, N.M. Condições e parâmetros para


s/SST/NR/NR26.pdf>. Acesso em 20. out. 2016. a determinação de conforto térmico em ambientes
industriais do ramo metal mecânico. 107 f..
[9]. BRITO, J. Uma proposta de vigilância em
Dissertação (Mestrado em Engenharia de
saúde do trabalhador com a ótica de gênero. Rio
Produção) – Programa de Pós-Graduação em
de Janeiro: Cadernos de saúde pública, 1997.
Engenharia de Produção, Universidade
[10]. GIL. A. C. Métodos e Técnicas de Tecnológica Federal do Paraná, Ponta Grossa,
pesquisa social. São Paulo, SP: Atlas, 2008. p.200. 2011.

[11]. GROTT, J. M. Meio ambiente do trabalho:


prevenção – a salvaguarda do trabalhador.
Curitiba: Juruá, 2008.

Gestão da Produção em Foco - Volume 12


46

Capítulo 5

Marina Arruda Araújo


Maxweel Veras Rodrigues
Geraldo Almiro De Araujo Neto
Lara Barreira Ferreira

Resumo: Em um mercado competitivo no qual a satisfação do cliente é cada vez


mais objetivada, é primordial que as empresas se diferenciem estrategicamente em
relação ao nível de serviço prestado. Nesse contexto, é essencial que os gestores
entendamm a importância dos processos operacionais no dia a dia das
organizações, além do envolvimento com o pessoal, para alcançar resultados
significativos e manter a competitividade. Desse modo, o presente estudo pretende
analisar a aplicação do gerenciamento da rotina do trabalho do dia a dia como
ferramenta de melhoria dos resultados de uma empresa do ramo comercial
varejista localizada em fortaleza, fazendo uso de indicadores reais de vendas na
mensuração do desempenho e utilizando métodos de padronização de gestão
como o ciclo pdca e o 5w1h para solucionar os problemas de gerenciamento no
varejo nacional. A metodologia utilizada foi um estudo de caso caracterizado como
uma pesquisa aplicada de caráter qualitativo e, de acordo com os objetivos,
classifica-se como uma pesquisa exploratória. Os resultados mostraram que o
gerenciamento da rotina diária, através de ações e verificações diárias, provocou
mudanças que conduziram a uma maior organização do ambiente de trabalho e a
uma melhoria no desempenho da organização no que diz respeito ao seu
faturamento.
Palavras-chave: gerenciamento da rotina; indicadores; desempenho; varejO.

Gestão da Produção em Foco - Volume 12


47

1 INTRODUÇÃO O gerenciamento da rotina de trabalho do dia


a dia consiste em uma série de atividades
Com as mudanças ocorridas nos últimos anos
diárias exercidas pela organização com o
o nível de competitividade entre as empresas
intuito de garantir o melhor cumprimento das
vem aumentando cada vez mais uma vez que
obrigações de cada envolvido, ou seja, a
o grau de exigência por produtos e serviços
melhoria do gerenciamento é a base para a
de qualidade por parte do consumidor
melhoraria dos resultados, servindo como
também está mais elevado. Deste modo é
alicerce para a administração gerencial.
fácil perceber que ambientes dinâmicos e de
extrema competição requerem uma liderança Entretanto, para que o colaborador possa
forte e de qualidade significativa, a atuação exercer sua função com perfeição, autoridade
dos gerentes é, portanto, de fundamental e cumprindo todas as suas obrigações é
importância para a conquista de diferenciais necessário que ele conheça quais são seus
que garantam a sobrevivência de uma responsabilidades. Juran (1989) afirma que,
empresa frente à guerra comercial. para que um operador exerça suas atividades
e controle seus próprios resultados, ele deve
Para a conquista desse diferencial faz-se
conhecer os padrões e metas do processo,
necessário que os gestores das empresas
saber qual é o desempenho real e fazer
trabalhem de maneira que envolva todos os
modificações caso os resultados não estejam
funcionários nas atividades diárias da
de acordo com as metas.
organização, mantendo assim uma rotina que
contribua para melhorar os resultados da O gerenciamento da rotina do trabalho do dia
empresa e se destacar no mercado. A a dia, segundo Campos (1992b), consiste no
aplicação do Gerenciamento da Rotina Diária grupo de atividades executadas para
advém dos conceitos da gestão da qualidade alcançar os objetivos delegados a cada
e identifica-se como instrumento significativo processo. Campos (2013) considera ainda
para a viabilização de melhorias nos que o método de gerenciamento utilizado
processos adotados nas instituições para planejar e solucionar problemas na
comerciais. filosofia do Gerenciamento da Rotina Diária é
o PDCA (do inglês: Plan-Do-Check-Act), ou
O varejo tem importância significativa no
seja, planejar, executar, checar e agir.
cenário mercadológico, pois traz consigo
papéis fundamentais como a comercialização A aplicação do ciclo PDCA é composta por
de produtos diretamente aos consumidores quatro etapas básicas:
finais, representando um canal de distribuição
entre as empresas e os clientes. Segundo
 - Planejamento (P): consiste no
estabelecimento de metas sobre os itens que
Hillmann (2013, p. 70), “o varejo e o serviço
serão controlados e no estabelecimento do
estão atualmente liderando o volume de
meio para se atingir as metas propostas. O
negócios no mundo”. Nesse contexto, definir
planejamento é responsável pela definição do
um método de gerenciamento da rotina do
caminho que deve ser percorrido para
trabalho do dia a dia que contribua para o
alcançar um alvo determinado.
crescimento de uma empresa comercial
varejista é essencial.  - Execução (D): consiste na execução
de atividades de acordo com o que foi
previsto no plano e coleta de dados para
2 DESENVOLVIMENTO verificação do processo, sendo estritamente
necessário que haja treinamento das pessoas
O gerenciamento da rotina se baseia no
sobre tais atividades.
método e no humanismo e é centrado na
definição da autoridade e da  - Verificação (C): consiste na
responsabilidade de cada indivíduo, na comparação do resultado alcançado com a
padronização de produtos, processos e meta planejada, baseando-se nos dados
operações, na monitoração dos resultados, na coletados na execução.
comparação com as metas, na ação corretiva
 - Atuação corretiva (A): consiste na
nas operações e processos, em um bom
detecção de desvios e na atuação a fim de
ambiente de trabalho, na máxima utilização
corrigir as anomalias, de modo que o
do potencial das pessoas e, por fim, na busca
problema não volte a acontecer.
contínua pela perfeição (CAMPOS, 2013).

Gestão da Produção em Foco - Volume 12


48

FIGURA 1 – PDCA: Método de gerenciamento de processos.

Fonte: Campos (2013, p.174).

O PDCA é um ciclo de melhorias que almeja  Identificação de tarefas críticas no


obter competitividade na empresa através da processo;
melhoria contínua dos resultados. Tais
 Elaboração ou revisão dos padrões e
melhorias são alcançadas pela análise de
procedimentos de rotina com os
processos, bom desempenho operacional e
envolvidos;
gerencial de todos os participantes do
processo e adoção de novos meios de  Instrução dos operadores a respeito
trabalho (SALADA, 2002). da importância do cumprimento dos
padrões.
A padronização em empresas funciona como
forma de consolidar as práticas atuais e Com o cumprimento da padronização faz-se
solucionar problemas decorrentes da falta de necessário o uso de uma ferramenta para
unificação das tarefas. De acordo com Salada representar o plano de ação que considera
(2002), a padronização faz-se fundamental todas as tarefas a serem executadas,
em três situações básicas. A primeira é Segundo Campos (1992a, p. 87), “o 5W1H é
quando a falta de padrões causa problemas um check-list utilizado para garantir que a
no processo, outra situação seria quando se operação seja conduzida sem nenhuma
deseja garantir a melhoria de um processo dúvida por parte da chefia ou dos
para garantir a qualidade de um produto ou subordinados”. Partindo desse principio
serviço e, por fim, quando os resultados de devem ser feitos os seguintes
um processo são tão significantes que suas questionamentos:
variações influenciam em indicadores críticos
 What (o que): O que será feito? Qual é
ou estratégicos.
a operação?
(CAMPOS, 1992a). Considera que a
 Who (quem): Quem é o responsável
padronização de processo segue as
por esta operação? Qual é o
seguintes etapas:
departamento?
 Treinamento dos facilitadores e
 Where (onde): Onde a operação
elaboração de padrões;
ocorre? Em que local?
 Elaboração do fluxo do processo;
 When (quando): Quando a operação
 Definição de uma meta para a será conduzida?
padronização a partir da identificação de
um problema;

Gestão da Produção em Foco - Volume 12


49

 Why (porque): Por que a operação é final. Uma abordagem generalizada do


necessária? comércio varejista consiste em fornecer uma
solução que atenda ao maior número de
 How (como): Como conduzir a
necessidades dos consumidores possível.
operação? Com que método?
Considera-se que, ao identificar as
Para mensurar e alinhar todos as temas necessidades que surgem mais
exposto torna-se necessário a criação de frequentemente pelos clientes, e que são mais
métricas de desempenho ou indicadores. facilmente satisfeitas, é possível descobrir
Segundo Nunes (2008, p. 43), “indicador é um uma quantidade suficiente de produtos a
instrumento de medida de desempenho serem ofertados que irá satisfazer a um
sendo utilizado para mensurar e analisar os grande número de pessoas. Atualmente, as
resultados obtidos em determinados tendências do mercado varejista requerem da
períodos”. A medição do desempenho vai equipe comercial cada vez mais foco no
além de apenas um processo de coleta de gerenciamento, uma vez que há uma maior
dados associado a um objetivo pré-definido, amplitude de controle sobre a força de
ela se define como um sistema de alerta com vendas e ela precisa se relacionar com
o intuito de direcionar o gestor à obtenção da praticamente todos os departamentos de uma
melhor adequação em relação ao uso dos organização.
recursos disponíveis pela entidade em
Portanto é preciso definir quais são os
questão (OLIVEIRA, 2006).
atributos mais importantes da medição de
Neely apud Pelaquim (2013) afirma que o desempenho de uma empresa para avaliá-los
objetivo dos sistemas de desempenho é dar e compará-los com as características
apoio a um time de gestão a fim de estimular consideradas importantes em relação ao
a melhoria contínua dos processos e dos objetivo que se pretende atingir. Esses
resultados esperados. Para isso, deve-se atributos variam de acordo com a realidade
possuir um mix balanceado de indicadores da empresa, a partir disso surge o papel do
monetários e não monetários, tentar entender gerente para conhecer as variáveis e definir
o passado, predizer o futuro do negócio e quais indicadores irão melhor atender ao
instruir os executivos para as tomadas de monitoramento de seus processos.
decisão.
Custódio (2015) divide esses indicadores em
3 METODOLOGIA
classes a fim de facilitar sua compreensão,
algumas dessas classes são: No que diz respeito à sua finalidade, este
trabalho pode ser considerado como uma
Indicadores estratégicos: indicam se as ações
pesquisa aplicada, pois, segundo Ganga
organizacionais estão direcionadas com a
(2012, p. 207), “a pesquisa aplicada procura
visão estratégica da empresa.
gerar conhecimentos para aplicação prática,
Indicadores de produtividade (eficiência): dirigidos à solução de problemas específicos”
indicam o uso de recursos para a produção e ainda, porque, segundo Gil (2010), este tipo
de um bem ou serviço. de pesquisa tem a finalidade de solucionar
problemas identificados no ambiente social
Indicadores de qualidade (eficácia): indicam
dos pesquisadores.
o nível de aceitação produzida.
Quanto aos propósitos do problema, a
Indicadores de capacidade: indicam a
pesquisa classifica-se como exploratória,
capacidade de um processo em relação à
dado que, de acordo com Prodanov e Freitas
produção por unidade de tempo.
(2013), tem como objetivo proporcionar mais
No caso do setor comercial varejista, a informações sobre o assunto a ser investigado
aplicação de indicadores de desempenho e possui planejamento flexível, de forma que
como estratégia é fundamental para o permite o pesquisador estudar o tema em
conhecimento dos gestores acerca de sua diversos ângulos e aspectos.
atuação e permanência no mercado, uma vez
O método proposto para o estudo foi dividido
que o varejo compreende todas as atividades
em cinco etapas a fim de facilitar a aplicação
do processo de venda de produtos e
e compreensão do modelo, conforme mostra
serviços, diretamente ligados ao consumidor
a Figura 2 abaixo:

Gestão da Produção em Foco - Volume 12


50

FIGURA 2 – Esquema de etapas do método proposto.

Fonte: Elaborado pelos autores.

Na primeira etapa, será descrita a empresa A empresa opera com uma estrutura de
onde o estudo foi executado e qual o cenário autoatendimento e apresenta dois formatos de
em que a mesma se enquadra, analisando o lojas físicas. O modelo tradicional possui área
tipo de mercado ao qual pertence e o média de vendas de 1.200m² e oferece
processo produtivo a ser estudado, aproximadamente 60 mil itens. O modelo
destacando-se as principais atividades express segue o conceito de lojas menores,
realizadas diariamente. com área média de 400m² e sortimento em
torno de 15 mil itens.
Na segunda etapa, serão definidos os
objetivos estratégicos, os indicadores de Todas as lojas do grupo seguem os mesmos
desempenho utilizados pela empresa, e eles processos de forma padronizada. Portanto, foi
serão relacionados. escolhida como objeto de estudo para essa
pesquisa uma loja do modelo tradicional,
Em seguida, a terceira e principal etapa fará a
localizada em Fortaleza, Ceará, intitulada de
implantação da metodologia do
Loja XYZ.
Gerenciamento da Rotina, baseando-se nos
conceitos apresentados no segundo capítulo A loja conta com um Gerente Geral de Loja
e seguindo a lógica do ciclo PDCA, (GGL), um Gerente Comercial (GC), dois
ferramenta de gerenciamento da qualidade. Auxiliares Administrativos, seis Supervisores
de Loja (SDL), dois Fiscais de Caixa, oito
Na quarta etapa, serão analisados os
Operadores de Loja, um Estagiário e dois
indicadores previamente discutidos e o
Menores Aprendizes.
desempenho do processo será mensurado.
Por fim, na quinta e última etapa serão
propostas e realizadas ações estratégicas a
4.2 DEFININDO OS OBJETIVOS
fim de garantir a melhoria dos processos
ESTRATÉGICOS E OS RESPECTIVOS
observados no decorrer do estudo.
INDICADORES DE DESEMPENHO
As principais atividades da empresa giram em
4 APLICAÇÃO DO MÉTODO torno das vendas das lojas e os principais
objetivos, portanto, estão relacionados com a
4.1 DESCREVENDO A ORGANIZAÇÃO E OS
capacidade de vender os produtos certos na
PROCESSOS ORGANIZACIONAIS
hora certa, a fim de obter o maior volume de
A empresa em análise faz parte de uma vendas possível, é possível identificar alguns
tradicional rede de varejo do Brasil. Fundada pontos chave que, se incorporados na rotina
em 1929 no Rio de Janeiro, conta hoje com da Loja XYZ, causarão algum impacto nas
mais de 1.127 lojas em todo o território vendas, e que servirão como objetivos
nacional, tem sua sede localizada no Rio de estratégicos para a empresa, são esses:
Janeiro e conta com quatro centros de
 Fazer o acompanhamento diário de
distribuição, em São Paulo, Rio de Janeiro,
itens com o objetivo de diminuir o
Recife e Uberlândia. A rede comercializa mais
valor do estoque parado;
de 60.000 itens de 2.000 fornecedores
diferentes e detém grande participação do  Fazer o acompanhamento dos itens
comércio brasileiro de brinquedos, mais vendidos da companhia com o
bombonière, lingerie, CDs, DVDs, jogos, objetivo de tê-los sempre em
higiene, beleza e utilidades domésticas. exposição e em quantidade
suficiente, alavancando as vendas;

Gestão da Produção em Foco - Volume 12


51

 Fazer a identificação dos melhores e mensurar o desempenho da loja, com a


piores departamentos dentro da loja, seleção desses será necessário entendê-los e
a partir do faturamento de cada um, relacioná-los com os objetivos estratégicos
com o objetivo de identificar definidos anteriormente.
estratégias de melhoria;
Neste relatório, é possível analisar o
 Fazer o acompanhamento da desempenho de uma loja em comparação
evolução mensal das vendas da loja, com outras da companhia em vários
com o objetivo de alcançar as metas aspectos. Foram selecionadas algumas lojas
mensais; e foi extraído o relatório diário de vendas de
um dia para servir como exemplo, o relatório
 Fazer o acompanhamento da
foi adaptado para manter o sigilo da empresa,
evolução mensal das vendas da loja
assim as lojas selecionadas foram intituladas
com o objetivo de crescer venda nos
por letras de “A” a “L”, enquanto a Loja XYZ
meses.
aparece no final.
Na empresa, existe uma ferramenta chamada
A figura 4 apresenta o significado de cada
RDV (Relatório Diário de Vendas), disponível
indicador presente no relatório.
na Intranet, que servirá para conduzir o
acompanhamento dos indicadores e

FIGURA 3 – Relatório de Vendas: Visão do mês.

Fonte: Elaborado pelos autores.

Gestão da Produção em Foco - Volume 12


52

FIGURA 4 – Indicadores do Relatório Diário de Vendas.

Fonte: Elaborado pelos autores.

Uma vez que as variáveis disponibilizadas empresa e funcionarão como indicadores


pela empresa são conhecidas, é possível comparativos no estudo. Portanto, a Figura 5
observar que, apesar de serem apresentadas associa os objetivos estratégicos com seus
como valores absolutos, essas variáveis respectivos indicadores de desempenho que
possuem relação com os objetivos da serão avaliados no presente trabalho.

FIGURA 5 – Objetivos estratégicos e respectivos indicadores de desempenho.

Fonte: Elaborado pelos autores.

4.3 IMPLANTAÇÃO DA METODOLOGIA DE para o item e, por fim, a grade do item no


GERENCIAMENTO DA ROTINA SEGUNDO A relatório.
LÓGICA DO CICLO PDCA
A partir disso, foram analisadas as ações que
A análise dos relatórios visa a identificação de devem ser feitas para resolver esses possíveis
possíveis desvios através da verificação da problemas. Existe um esquema em que para
presença ou ausência de mercadorias. O cada etapa de verificação de itens da rotina
processo de verificação de itens já é existe uma ocorrência identificada, que pode
conhecido pelos supervisores e consiste em, ser a causa para as vendas estarem baixas,
item por item, verificar o estoque físico na loja, com uma respectiva proposta de ação de
o estoque do item no relatório, a presença do bloqueio referente para ela, como forma de
item no salão de vendas, a exposição e padronizar a verificação de itens e aplicá-la
precificação do item na loja, o abastecimento na rotina comercial, representado pelo quadro
do item na loja ao longo do dia, a presença de 1.
vendedores com atendimento personalizado

Gestão da Produção em Foco - Volume 12


53

QUADRO 1 – Esquema de verificação de itens da rotina.

Verificação Ocorrência Ações Tomadas

Verificar estoque físico do item na Existe saldo em sistema, porém Solicitar ajuste do estoque no
Loja. saldo físico = 0. sistema.

Solicitar ajuste do estoque no


Verificar estoque do item no relatório. Estoque está negativo.
sistema.

Verificar estoque do item presente Todo o saldo encontra-se em Trazer item para o salão de
no salão de vendas. estoque. vendas e expô-lo.

Aumentar exposição do item,


Verificar exposição e precificação do
Exposição ou precificação ruim. checar preço nas gôndolas e
item na Loja.
sinalizar com papeleta.

Exposição do item desabastecida


Verificar exposição do item na Loja. Abastecer item ao longo do dia.
ao longo do dia.

Imprimir condições de
Verificar sinalização das promoções
Falta sinalização das promoções parcelamento e promoções no
e condições de parcelamento na
e condições de parcelamento. sistema e expor no salão de
Loja.
vendas.

Discutir com o gerente a


Verificar a presença de vendedores
Falta de atendimento possibilidade de focar no
com atendimento personalizado para
personalizado. atendimento ou contratar um
o item.
promotor.

Item não tem grade, grade baixa Enviar e-mail para equipe de
Verificar grade do item no relatório.
ou sem reposição. abastecimento.

Fonte: Elaborado pelos autores.

Sendo assim, a partir do que foi observado na Gerenciamento da Rotina e se deu por meio
rotina da loja e dos objetivos almejados, foi da observação dos processos que ocorrem
elaborado juntamente com os envolvidos um no salão de vendas após a execução do
plano de ação que contém: ação, plano de ação.
responsável, data para a execução, local da
No decorrer do projeto foram feitas algumas
execução, razão e procedimento para a
sugestões para melhorar o desempenho do
execução de medidas que pretendem
processo e a qualidade dos serviços
melhorar o desempenho da loja.
prestados na Loja XYZ que foram atribuídas
A execução do plano de ação é a segunda como ações de correção assim como
etapa da aplicação da metodologia e de planejado na metodologia do estudo.
acordo com o que foi previsto na etapa
Foi identificado que a rotina de processos
anterior será aplicado os planos previstos
diretamente ligados aos consumidores
descritos na figura 6.
deveria ser priorizada, uma vez que a Loja
A etapa de Verificação se deu pela XYZ se localiza em uma área nobre da cidade
mensuração e controle do desempenho na qual o perfil do cliente apresenta um ticket
operacional do processo mediante a análise médio elevado e requer atenção e
dos valores fornecidos pelos relatórios de atendimento especial, pois sua satisfação e
vendas da loja. O acompanhamento ocorreu fidelização gera normalmente um impacto
de forma constante durante a implantação do grande no faturamento da loja.

Gestão da Produção em Foco - Volume 12


54

FIGURA 6 – Planos de ação corretiva para aplicação do Gerenciamento da rotina diária.

Fonte: Elaborado pelos autores

Gestão da Produção em Foco - Volume 12


55

4.4 ANALISANDO OS INDICADORES E dos objetivos estratégicos da empresa.


MENSURAR O DESEMPENHO DO Portanto, para esta etapa, foram reunidos os
PROCESSO dados de venda e estoque coletados
referentes ao mês que antecederam o plano
Durante o processo de Gerenciamento da
Mês 1, ao mês da implantação Mês 2 e ao
Rotina da Loja XYZ houve um
mês seguinte Mês 3. Os valores encontrados
acompanhamento contínuo dos indicadores
estão presentes na forma resumida na Figura
dentro da loja a fim de avaliar o cumprimento
7 e serão comentados a seguir.

FIGURA 7 – Resumo do desempenho da Loja XYZ.

Fonte: Elaborado pelos autores

O comportamento das vendas nos meses de relacionamento entre as pessoas da equipe


análise não seguiu um padrão, pois apesar de melhorou, havendo um forte
a loja ter alcançado um aumento considerável comprometimento e transparência entre as
no volume de vendas bruto, os indicadores de partes envolvidas.
atingimento e crescimento de vendas não
A primeira ação estratégica corretiva diz
seguiram a mesma linha. Além disso, houve
respeito ao atendimento personalizado de
dias em que a loja conseguiu atingir a meta
supervisores nos piores departamentos e em
orçada e crescer venda, porém não foi o
outros em que houver a necessidade, com o
suficiente para obter um desempenho
intuito de melhorar as vendas. É interessante
satisfatório no total de todos os dias do mês.
que os funcionários sejam treinados não
De toda forma, em valores absolutos a apenas em como devem tratar o cliente, mas
execução do plano de ação se mostrou eles devem também ser treinados acerca do
eficiente e eficaz, pois houve uma melhoria funcionamento dos itens que estão vendendo,
nos números de venda nos meses seguintes para poder assim dar informações técnicas
ao plano, que pôde ser atribuída às sobre os produtos e se propor a testá-los e
mudanças estratégicas incorporadas na loja. tirar possíveis dúvidas. Uma vez que o
caminho para a melhoria deve ser focado no
cliente, foi observada também a falta de
4.5 PROPONDO AÇÕES ESTRATÉGICAS alguns produtos que os clientes procuram
PARA A MELHORIA DO PROCESSO frequentemente na loja. Sendo assim, é
importante que os gestores estejam atentos
Após ser implantada uma gestão voltada para
às metas estabelecidas no mês como
medir e melhorar o desempenho da Loja XYZ,
principal direcionador de suas atividades.
conduzida pelas funções gerenciais, foram
identificados alguns pontos positivos Por fim, o tratamento de itens críticos na rotina
advindos do projeto e alguns pontos que comercial deve continuar, bem como o
devem ser melhorados na rotina da loja. abastecimento e a precificação de itens
diariamente. Os indicadores de desempenho
Dentre os pontos positivos, foi visto que a loja
também devem continuar sendo
se manteve mais limpa e organizada,
acompanhados regularmente e servir como
garantindo um ambiente mais harmônico para
norte para as ações diárias.
todos. Além disso, com a consolidação do
gerenciamento da rotina, percebeu-se que o

Gestão da Produção em Foco - Volume 12


56

5 CONCLUSÕES vez que todos os funcionários puderam


enxergar a importância do gerenciamento da
O presente trabalho teve como objetivo o
rotina do trabalho no dia a dia e o impacto de
desenvolvimento de um método de
suas tarefas para a empresa como um todo.
gerenciamento da rotina do dia a dia que
Além disso, ao final do projeto foi possível
contribuísse para a maximização de
também obter um aumento no volume de
indicadores de eficiência e eficácia no que diz
vendas, aumento no número de transações
respeito ao faturamento de uma empresa do
realizadas no período, um valor de ticket
ramo comercial varejista. O gerenciamento
médio mais elevado e uma diminuição do
dos processos da loja passou a ocorrer de
estoque de itens parados.
maneira mais controlada e organizada e os
indicadores demonstraram resultados O projeto mostrou-se proveitoso, pois se
palpáveis. obteve uma loja mais organizada, limpa e com
uma melhor comunicação entre as pessoas
Foi possível observar que é fundamental, para
envolvidas, além de mostrar-se muito eficaz e
o alcance de resultados significativos, uma
de fácil utilização. As alterações no método
boa gestão e um bom entendimento dos
podem ser aplicadas dependendo das
processos operacionais da empresa, assim
necessidades e da área em que for
como o acompanhamento de seu
empregado, podendo ser também aplicado
desempenho, a análise de indicadores e de
às demais lojas do grupo organizacional, uma
fatores que influenciam as vendas e a
vez que todas elas seguem o mesmo modelo
implementação de planos de ação que
de gerenciamento, com seus processos
incidam na melhoria de sua performance.
padronizados.
Por fim, foi possível perceber uma melhoria
considerável nos processos da Loja XYZ, uma

REFERÊNCIAS
[1]. CAMPOS, V. F. Gerenciamento da rotina [7]. GIL, A. C. Como elaborar projetos de
do trabalho do dia-a-dia. 9. ed. Nova Lima: pesquisa. 5 ed. São Paulo: Atlas, 2010.
FALCONI Editora, 2013.
[8]. HILLMANN, R. Administração de vendas,
[2]. CAMPOS, V. F. Qualidade Total. varejo e serviços. Curitiba: InterSaberes, 2013
Padronização de Empresas. 2 ed. Belo Horizonte:
[9]. JURAN, J.M. Juran na liderança pela
Fundação Christiano Ottoni, 1992.
qualidade. São Paulo: Pioneira, 1989.
[3]. CAMPOS, V. F. TQC: Controle da
[10]. OLIVEIRA, C. R. I. Um estudo sobre a
Qualidade Total (no estilo japonês). Belo Horizonte:
medição de desempenho organizacional nas
Fundação Christiano Ottoni, 1992.
concessionárias de veículos automotores
[4]. NUNES, A. V. S. Indicadores de localizadas na região metropolitana do Recife.
desempenho para as micro e pequenas empresas: 2006. 122 f. Dissertação (Mestrado em Ciências
uma pesquisa com as MPE`s associadas a Contábeis) – Programa Multiinstitucional e Inter-
Microempa de Caxias do Sul/RS. 2008. 107 f. Regional de Pós-Graduação em Ciências
Dissertação (Mestrado) – Programa de Pós- Contábeis, Recife. 2006. Disponível em: <
Graduação em Administração, Universidade de http://repositorio.unb.br/handle/10482/3725>.
Caxias do Sul, 2008. Disponível em: < Acesso em: 12 jun. 2017.
https://repositorio.ucs.br/handle/11338/326> .
[11]. SALADA, M. O. S. O gerenciamento da
Acesso em: 12 jun. 2017.
rotina através do método de estabilização de
[5]. CUSTÓDIO, M. F. Gestão da qualidade e processos. 2002. Dissertação (Mestrado
produtividade. São Paulo: Pearson Education do Profissionalizante em Engenharia de Produção) –
Brasil, 2015. Departamento de Engenharia de Produção,
Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto
[6]. GANGA, G.M.D. Trabalho de Conclusão
Alegre, Brasil, 2002. Disponível em: <
de Curso (TCC) na engenharia de produção: um
http://hdl.handle.net/10183/2607>. Acesso em: 12
guia prático de conteúdo e forma. São Paulo: Atlas,
jun. 2017.
2012.

Gestão da Produção em Foco - Volume 12


57

[12]. PELAQUIM, A. R. Implementação de Técnicas da Pesquisa e do Trabalho Acadêmico.


indicadores de desempenho em uma rede de 2a ed. Novo Hamburgo: Universidade FEEVALE,
varejo na perspectiva intervencionista. 2013. 106 f. 2013. Disponível em:
Dissertação (Mestrado em Controladoria <http://www.faatensino.com.br/wp-
Empresarial) – Universidade Presbiteriana content/uploads/2014/11/2.1-E-book-Metodologia-
Mackenzie, São Paulo, 2013. do-Trabalho-Cientifico-2.pdf>. Acesso em: 12 jun.
2017.
[13]. PRODANOV, C. C.; FREITAS, E. C.
Metodologia do Trabalho Científico: Métodos e

Gestão da Produção em Foco - Volume 12


58

Capítulo 6
Irene Dobarrio Machado Ciccarino
Ana Beatriz Gomes De Mello Moraes

Resumo: A gestão do conhecimento [GC] ocorre em nível estratégico ao passo que


o gerenciamento de projetos [GP] atua no nível operacional, traduzindo a estratégia
da empresa em resultados. Aparentemente esses dois campos se materializariam
em estágios diferentes: a GC gera resultados perceptíveis em longo prazo, à
medida que a cultura e as práticas da empresa se orientam por seus paradigmas.
O GP tende a acontecer dentro da transitoriedade planejada para eles. Optou-se
pela Visão Baseada no Conhecimento [KBV] como vinculação teórica para analisar
o fenômeno. Foi aplicada a Tècnica Delphi a um grupo de especialistas em GP com
o intuito de comparar consensos e divergências em torno do relacionamento entre
os dois campos. Esta pesquisa demonstra que a GC representa uma alternativa
válida para suplantar os desafios impostos tanto pela definição de projetos – único,
temporário e progressivamente elaborado – quanto pela complexidade de integrar
sua execução e seus resultados à estrutura da empresa sem perder de vista o
alinhamento estratégico. Espera-se ter contribuído para o conhecimento do campo
de administração ao utilizar a KBV para estudar um aspecto de aprendizado
vinculado ao GP. Em geral, apenas construtos que compõem a KBV, mas não
restritos a ela, são incorporados ao estudo das lições aprendidas, um aspecto do
GP.

Palavras-chave: Gestão do Conhecimento, Gerenciamento de Projetos, Técnica


Delphi, Visão Baseada no Conhecimento

Gestão da Produção em Foco - Volume 12


59

1. INTRODUÇÃO do conhecimento beneficia o gerenciamento


de projetos.
A gestão do conhecimento ocorre em nível de
eficiência organizacional, mais próximo das
orientações estratégicas (EISENHARDT e
2. REVISÃO DA LITERATURA
SANTOS, 2000; LIEBESKIND, 1996; GRANT,
1996) ao passo que o gerenciamento de Toda empresa funciona de certa forma como
projetos atua no nível operacional, traduzindo uma integradora do conhecimento, sendo
a estratégia da empresa em resultados que influenciada por sua estrutura hierárquica e
devem acontecer dentro de limites pré- por seu processo de tomada de decisão. O
estabelecidos de produtividade e efetividade desafio, independente de sua estrutura
(SHERNHAR e DVIR, 2007; KERZNER, 2006 hierárquica, é gerar um alinhamento de
VARGAS, 2005). Aparentemente os resultados objetivos que mitigue os conflitos de interesse
desses dois campos se materializariam em e promova a cooperação no intuito de cumprir
estágios diferentes (PADOVANI e o seu propósito social e gerar resultado
CARVALHO, 2010; SABHERWAL e BECERRA- econômico. O desafio da tomada de decisão
FERNANDEZ, 2003). A gestão do é coordenar as diversas competências e
conhecimento, rica em complexidade social, comportamentos em prol desses objetivos
gera resultados perceptíveis em longo prazo, (GRANT, 1996; LIEBESKIND, 1996; CHOO,
à medida que a cultura e as práticas da 1996).
empresa se orientam por seus paradigmas
Uma forma de mitigar o risco do processo
(SPENDER, 1994, 1996; LEVINTHAL e
decisório, aumentando a eficiência e eficácia
MARCH, 1993). Já os resultados do
operacional, é a especialização. A empresa
gerenciamento de projetos tendem a ser mais
se especializa na medida em que
objetivos e acontecem dentro da
competências empresarias são desenvolvidas
temporalidade planejada para eles (PMBOK,
e se cristalizam sob a forma de rotinas que
2014).
potencializam a execução das atividades –
Essa questão de sincronização entre os core competences - (PRALAHAD e HAMEL,
efeitos de ambas as partes e as 1990). Em longo prazo, porém, elas limitarão a
particularidades da estratégia, quando o capacidade da empresa assimilar novas
conhecimento é observado como um recurso informações e inovar, inclusive ficando
estratégico, conduziu às suposições que exposta à mudanças negativas no mercado
orientaram a pesquisa. Para delimitar o formando as core rigidities (LEONARD-
campo da gestão do conhecimento, BARTON, 1992; FOSS e FELIN, 2004). Desse
posicionando-a no âmbito estratégico onde modo a rigidez é um efeito da especialização.
melhor se enquadra e assim fugir dos A característica transversal dos projetos
gerencialismos insuflados pela moda favorece essa circulação de informações
(GRANT, 2011; WILSON, 2002), a (SZULANSKI, 1996).
investigação do tema remontou a pesquisa
Segundo Kerzner (2006), um projeto é um
estratégica, que visa explicar a
empreendimento com um objetivo claro, que
heterogeneidade das empresas segundo sua
consome recursos e também sofre pressões
estrutura de recursos e a forma como as
de prazos, custos e qualidade. Ao contrário
empresas fazem uso deles. Optou-se pela
das operações compostas pelas rotinas, seu
Visão Baseada no Conhecimento [KBV -
gerenciamento não está vinculado às
Knowledge Based View] como suporte
atividades repetitivas baseadas em padrões
teórico, que coloca o conhecimento como
históricos, mas na gestão de eventos nunca
principal recurso estratégico devido à sua
realizados e que podem nunca mais se
capacidade incessante de disseminação e
repetir. Zekié e Sumarzija (2012) defendem o
renovação, e por suas características serem
potencial do gerenciamento de projetos na
aderentes ao modelo VRIO que estabelece
promoção da “harmonia dinâmica das
que esse tipo de recurso deve ser valioso,
operações da empresa” por meio da extensão
raro, inimitável e operacionalmente
da demanda de inovação, não só aos
aproveitável por meio da estrutura da
produtos e serviços oferecidos no mercado,
empresa (BARNEY, 1991; BARNEY,
como também ao processo gerencial em si.
HESTERLY e WILLIANS; 2011).
Tal definição salienta a importância dos
A seguir apresentaremos como a KBV foi projetos no âmbito da inovação interna, dos
empregada para identificar quando a gestão

Gestão da Produção em Foco - Volume 12


60

processos gerenciais e da própria renovação são adequadamente preservados (TRENTIN,


da estrutura da empresa (CAMILLERI, 2012). 2013).
Os projetos, ainda que sejam flexibilizações Na KBV o conhecimento é considerado o
estruturais que agregam recursos multi- recurso mais estratégico (KOGUT e ZANDER,
setoriais em prol de um resultado estratégico, 1992, SPENDER, 1994, 1996; GRANT, 1996;
se organizam em práticas, processos e LIEBESKIND, 1996; CHOO, 1996). O
métodos. A forma como a empresa executa conhecimento é visto como recurso quando
os seus projetos pode ser vista como uma ele é parte integrante do resultado produzido
rotina, mesmo que projeto por definição pela empresa, além de participar de seu
consista em algo novo. Muitas vezes, ao processo produtivo, e seria seu principal
flexibilizar a estrutura para facilitar a produção recurso quando é possível atribuir a ele a
do resultado almejado, cria-se um fonte de vantagem competitiva.
distanciamento entre a estrutura do projeto e
Empresas com estruturas parecidas,
a estrutura da empresa, tornando a
proprietárias de recursos semelhantes,
comunicação e a tomada de decisões
submetida às mesmas oportunidades e com
complexas (CAMILLERI, 2012; KERZNER,
trajetória similares, deveriam ter desempenho
2006 VARGAS, 2005). Isso é particularmente
parecidos, porém o conhecimento
grave porque boa parte do conhecimento
pertencente aos indivíduos e cristalizado nas
gerado no projeto advém de sua execução
rotinas, processos e cultura da empresa
(TRENTIM, 2013). Os desvios entre o que foi
permite a heterogeneidade. Sendo assim,
planejado e o que está de fato acontecendo
ainda que uma empresa, nessas condições,
demonstram erros e acertos, ameaças e
buscasse imitar a fonte de vantagem
oportunidades e todo um conjunto de fatores
competitiva da outra, ela passaria por
que provocam mudanças substanciais no
algumas dificuldades, podendo o esforço,
resultado final. O planejamento deve funcionar
custo e tempo empregados serem maiores do
como um fio condutor que permite identificar
que o benefício esperado (MARCH, 1991;
esses desvios e fazer deles oportunidades de
ZACK, 1999).
aprendizado, incorporando os resultados das
ações executadas no histórico do projeto. Outra forma de analisá-lo está em reconhecer
Essas informações, para além de um simples seu potencial multiplicador, pois quanto maior
histórico, se tornam úteis quando conseguem o arcabouço de conhecimento disponível
ser incorporadas à rotina de gerenciamento mais se é capaz de aprender (LEVINTHAL e
de projetos e colaborar com a rotina MARCH, 1993, SIMON, 1991). Quanto mais
organizacional (YANG e HUANG, 2013; um conhecimento é utilizado, mais ele é
SCHINDLER E EPPLER, 2003). incorporado o que aumenta o domínio sobre
ele (curva de aprendizagem). Com isso, as
Essa sistematização da experiência já está
operações que exigem sua utilização são
incorporada aos processos de gerenciamento
executadas com maior eficiência e eficácia,
de projetos por intermédio do registro de
logo seus retornos são crescentes, ao passo
lições aprendidas (DUFFIELD e WHITTY,
que estratégias baseadas em estruturas e
2016; LOVE et all, 2016; YANG e HUANG,
recursos físicos tendem a prover retornos
2013 SCHINDLER E EPPLER, 2003). Embora
decrescentes devido ao desgaste natural de
isso ajude tanto a diminuir a incerteza no
sua utilização. Ele também representa uma
planejamento de projetos semelhantes quanto
fonte eficiente já que sua produtividade não
a evitar que velhos erros perdurem, não basta
diminui, mesmo que o conhecimento esteja
para uma real integração entre o
sendo usado ao mesmo tempo por diversos
conhecimento gerado no projeto e o
atores (ZACK, 1999; LIEBESKIND, 1996).
conhecimento no nível empresarial.
Cabe à própria organização identificar,
Não é possível registrar todo o conhecimento
conseguir, integrar, adaptar, proteger,
desenvolvido em um projeto por meio da
armazenar e utilizar o conhecimento
atualização do plano de gerenciamento do
estratégico. Resumindo: ela precisa conhecê-
projeto e do registro de suas lições
lo, saber onde encontrá-lo e saber o que fazer
aprendidas. A rotina diária de tomada de
com ele (KOGUT e ZANDER, 1992;
decisões, por vezes imprevistas, envolvendo
SZULANSKI, 1996). É um desafio muitas
diversas partes interessadas, provoca
vezes negligenciado por falta de olhar
desenvolvimento de fluxos de novos
estratégico sobre o tema, mas trata-se de
conhecimentos relevantes que nem sempre
uma análise crucial para competição,

Gestão da Produção em Foco - Volume 12


61

principalmente em ambientes instáveis temas. Foram utilizadas múltiplas escolhas


(MILLER e SHAMSIE, 1996). Essa dinâmica já com conceitos retirados do referencial teórico,
é complexa analisando os negócios da questões que solicitavam a enumeração de
empresa e tende a se tornar ainda mais frágil elementos de acordo com a importância e
à medida que o conhecimento é fragmentado escala de Likert de cinco pontos para avaliar
e utilizado em frentes menos integradas, tais a opinião.
quais os projetos (YANG e HUANG, 2013).
A Delphi realizada pela Internet conserva as
mesmas premissas características de uma
pesquisa tradicional, no entanto promove
2. METODOLOGIA
agilidade e redução de custos ao substituir a
O presente trabalho busca responder a utilização dos correios ou outros serviços de
questão: quando o conhecimento beneficia o entrega, automatiza a tabulação dos dados e
gerenciamento de projetos? Devido à amplia a gama de recursos utilizados para
natureza dos seus construtos – conhecimento despertar o interesse e gerar melhor
e projetos - a metodologia se desenvolve por entendimento da questão pesquisada
meio de análise qualitativa, ideal quando o (GIOVINAZZO, 2001). Os desafios da técnica,
fenômeno a ser observado existe devido à independente do meio utilizado, permanecem
relação dinâmica entre dimensões objetivas e os mesmos: 1) tratamento dos resultados
subjetivas (GIL, 2008). estatisticamente não aceitáveis, 2)
possibilidade de introdução de viés pela
A pesquisa foi operacionalizada pela
escolha dos respondentes (EYNDE e BURR,
aplicação da técnica Delphi. Esta técnica é
2011).
aplicada em etapas, no caso foram realizadas
duas. A primeira etapa baseia-se no uso Os questionários foram testados previamente
estruturado do conhecimento e da com três voluntários a fim de testar avaliar a
experiência dos especialistas consultados de simplicidade, objetividade e coerência do
forma que suas opiniões sejam separadas em instrumento (SUE e RITTER, 2012).
consensos e divergências. Os resultados são
Os especialistas participantes foram
agrupados sem a identificação dos
selecionados de acordo com três critérios: 1)
respondentes e devolvidos a todos os
experiência em gerenciamento de projetos
especialistas. De posse dos resultados da
comprovada pelo cargo ocupado (acima de
etapa anterior, é realizada uma nova consulta
coordenador, consultor e / ou docente); 2)
individual. A intenção é que as opiniões
experiência em gerenciamento de projetos
evoluam em direção a um consenso devido à
comprovada pelo tempo de exercício da
ponderação entre a opinião pessoal e a
profissão (acima de 6 anos de exercício); 3)
opinião do grupo. O resultado final da técnica
grau superior a graduação e especialização
representa uma consolidação do julgamento
na área, preferencialmente a certificação PMP
coletivo. (GIOVINAZZO, 2001). Por consultar
(Project Management Professional). Todos os
cada especialista de forma isolada,
especialistas entrevistados atendiam ao
apresentando os resultados coletivos de
menos dois desses três critérios (HARDESTY
forma anônima e agrupada, impede que o
e BEARDEN, 2004).
consenso aconteça por outros motivos que
não a concordância técnica, inibindo O intuito da seleção de profissionais da área
possíveis efeitos de intimidações, persuasão, de gerenciamento de projetos era captar a
retórica, timidez, etc (EYNDE e BURR, 2011). percepção que tinham sobre a gestão do
conhecimento na sua área de domínio,
Os dados da pesquisa foram obtidos nas
valendo-se da premissa de terem pouco ou
duas etapas por meio de questionário
nenhum conhecimento específico sobre
eletrônico utilizando a plataforma de pesquisa
gestão do conhecimento. Dessa forma,
Survey Monkey (https://pt.surveymonkey.net).
esperava-se obter um relato mais preciso do
As pesquisas deste tipo se caracterizam pela
efeito de ordem prática, sob a interpretação
interrogação direta das pessoas cujo
de profissionais que conhecem e vivenciam
comportamento se deseja conhecer (SUE e
os meandros e as dificuldades da execução
RITTER, 2012; GIL, 2008). Cada etapa utilizou
de projetos.
um questionário distinto. Na primeira um mais
generalista e abrangente, na segunda um Para conferir abrangência ao estudo foram
com maior enforque nos consensos e convidados profissionais de diversas
divergências, abordando mais diretamente os localidades, que atuam em projetos de

Gestão da Produção em Foco - Volume 12


62

escopos distintos, em empresas que atuam conduz a empresa a dificuldades de


em indústrias diferentes. reconhecimento, inovação, integração e
resgate de conhecimentos necessários para
Foram encaminhados 20 convites por e-mail
se manter competitiva, sendo esses efeitos
entre os dias 18 de novembro e 1 de
perceptíveis no sucesso de seus projetos.
dezembro de 2014. Seis especialistas
aceitaram participar da pesquisa, lembrando O gerenciamento de projetos tende a ser uma
que o convite solicitava o comprometimento atividade de nível tático, embora haja uma
com a pesquisa em duas etapas. declarada e desejada necessidade de
alinhamento estratégico. Sendo assim, é
totalmente afetado pela estrutura, cultura da
3. DESCRIÇÃO DO MODELO empresa e suas decisões estratégicas (S2). O
fato da própria definição de projeto ser uma
Era necessário captar as necessidade de
limitação para que haja benefício de ações,
informação para avaliar o conhecimento como
cujo efeito se dá em longo prazo (PADOVANI
recurso considerando uma ampla gama de
e CARVALHO, 2010) é o tema da terceira
possibilidade, haja visto já que projetos
suposição dessa pesquisa (S3): Toda ação
podem ser de diversos tipos. Ao considerar a
com resultados em longo prazo tende a não
gestão do conhecimento como um ato
afetar os projetos já existentes que findariam
estratégico, o cenário onde o projeto atua é
antes de se beneficiar deles, isso engloba
relevante. Miller e Shamsie (1996)
atividades recentes no campo da gestão do
pesquisaram em que cenários as estratégias
conhecimento e integração de conhecimentos
de conhecimento são mais efetivas chegando
advindos de exploração.
à conclusão que a competição, quando
fortemente galgada em recursos físicos e E quarta suposição (S4): Como projetos são
posicionamento de mercado - cenários atividades transitórias o nível da gestão do
estáveis - demandam investimentos em conhecimento praticada na empresa pode
estratégias de conhecimento no sentido de afetar sua capacidade de utilizar a memória
atualização e predição de possíveis riscos, o existente para diminuir as incertezas em
que não necessariamente colocaria a gestão ocasião do planejamento e de integrar novos
do conhecimento como um fator de vantagem conhecimentos gerados durante sua
competitiva. Em cenários mais dinâmicos a execução ao arcabouço da empresa.
ênfase cai sobre flexibilidade, capacidade
A gestão do conhecimento demanda custo e
rápida de respostas, adaptação e inovação.
deve prover resultados superiores a ele para
Indústrias que apresentam características
justificar um investimento significativo. A ação
voláteis podem se posicionar como intensivas
de gerenciamento de projetos mais próxima à
em conhecimento, demandando estratégias
gestão do conhecimento é o registro e
que favoreçam a aquisição, produção,
disseminação de lições aprendidas. Por isso,
utilização e proteção desse recurso que
a existência e a eficiência das ações
proporciona vantagem competitiva. Desse
relacionadas a lições aprendidas também
aspecto emana a primeira suposição (S1): se
serão consideradas no modelo (DUFFIELD e
nem toda empresa necessita de altos
WHITTY, 2016; LOVE et all, 2016; SCHINDLER
investimentos em gestão do conhecimento,
E EPPLER, 2003).
nem todo investimento em gestão do
conhecimento influencia os resultados dos
projetos.
4. APRESENTAÇÃO DOS RESULTADOS
A gestão do conhecimento tende a produzir
As duas rodadas de questionários aplicados
pouco efeito quando adotada de forma
por meio da técnica Delphi foram
pontual, pois processos, principalmente os
caracterizadas por grande consenso.
subjetivos, tendem a retornar a normalidade
anterior assim que o estímulo de mudança A questão que teve maior variação de
cessa (PADOVANI e CARVALHO, 2010; respostas foi em relação ao conhecimento
SABHERWAL e BECERRA-FERNANDEZ, como recurso. Dois especialistas consideram
2003). Assim, ações jovens, pouco o conhecimento um recurso estratégico - fonte
amadurecidas ou superficiais, tendem a não de vantagem competitiva (KOGUT e ZANDER,
produzir efeitos em longo prazo. Desse 1992, SPENDER, 1994, 1996; GRANT, 1996;
aspecto emana a segunda suposição (S2): LIEBESKIND, 1996; CHOO, 1996), três
não investir em gestão do conhecimento consideram-no ao menos um recurso

Gestão da Produção em Foco - Volume 12


63

essencial - fonte de paridade competitiva e experiências que acontecem de modo


um considera-o apenas mais um dos recursos isolado, aumentando o aprendizado coletivo
operacionais da empresa. Houve ainda pouca (FERENHOF e FORCELLINI, 2013; PEMSEL e
clareza em relação a definição do que seria MÜLLER, 2012; RABECHINI, 2005)
um recurso estratégico ou como a empresa
A necessidade de acesso e compartilhamento
emprega o conhecimento na sua operação.
do conhecimento é unânime, a diferenciação
Essa falta de definição não permitiu
está na necessidade de barreiras de proteção
compreender a primeira suposição (S1).
para os conhecimentos estratégicos em
Isso pode ter ocorrido devido a algumas alguns casos. No entanto, na declaração
características do grupo pesquisado: sobre a realidade encontrada na rotina das
variedade em relação a sua forma de empresas, os casos de retenção do
estruturação (4 com matriciais, 1 funcional e 1 conhecimento não são aderentes às práticas
projetizada), porte (4 de grande porte, 1 de colaborativas da cultura, diferindo nesse
médio e 1 microempresa), percepção do tipo ponto da teoria (LIEBESKIND, 1996; ZACK,
de mercados onde atuam (4 das 6 empresas 1999; SABHERWAL e BECERRA-
afirmaram estar em mercados estáveis). Em FERNANDEZ, 2003; ERIKSSON, 2013).
geral isso significa: baixa rivalidade, pouca
Além da circulação do conhecimento em si, a
concorrência, ciclo moderado a lento - baixo
forma como a empresa lida com a solução de
nível de inovação, barreira à entrada baseada
problemas gerados através de erros e a
em bens de produção - maquinário, patentes,
postura que ela adota em relação à riscos,
indústria madura, padrão da indústria
influencia totalmente seu processo de
estabelecido (BARNEY, HESTERLY e
aprendizado (Nonaka e Takeuchi, 2008).
WILLIAM, 2011; HAAS e HANSEN, 2007;
Interessante notar que a maioria dos pontos
HAAS e HANSEN, 2005).
de vistas demonstrou satisfação com o
A maior parte dos especialistas considerava a formato atual adotado pelas empresas.
cultura da empresa colaborativa e Apenas uma resposta apontou o desejo de
participativa o suficiente para ser propicia a maior flexibilidade na atitude em relação aos
gestão do conhecimento, apresentando erros. O divergente veio de uma empresas
elementos como: Incentivo à aprendizagem, que operava em ambiente menos estável,
tolerante à riscos, com ambiente colaborativo, onde flexibilidade e maior abertura aos riscos
boa comunicação (sistemas eficientes e boa eram requeridos. Essa postura é aderente ao
escuta), incentivo à participação, boa tipo de estrutura organizacional e está de
ambiência, rotatividade saudável de acordo com a literatura de Nonaka e Takeuchi
colaboradores (SIMON, 1991; SPENDER, (2008); Sabherwal e Becerra-Fernandez
1992, 1996; CHOO, 1996; SZULANSKI, 1996; (2003), Haas e Hansen, (2007).
EISENHARDT e SANTOS, 2000; SABHERWAL
Segundo a opinião exposta na pesquisa as
e BECERRA-FERNANDEZ, 2003;
empresas tendem a não divulgar de forma
GONÇALO,2005; NONAKA e TAKEUSHI,
clara suas estratégias de conhecimento
2008).
(PADOVANI e CARVALHO, 2010;
Os pontos consensuais de problemas seriam SABHERWAL e BECERRA-FERNANDEZ,
dificuldade em relação a circulação de 2003), isso impede uma prática sistêmica e
informações (retenção de conhecimento) e mais efetiva. Essa dificuldade dá suporte à
uma definição clara da metodologia de percepção de que a maioria das ações
gerenciamento de projetos. A escolha clara voltadas à gestão do conhecimento é
da estratégia de gestão do conhecimento classificada como isolada ou pontual. O que
utilizada na empresa é fundamental para que poderia se esperar que seus efeitos fossem
as pessoas saibam o que se espera delas e facilmente anulados pela tendência da cultura
possam convergir esforços para isso retornar a sua normalidade quando o agente
(NONAKA e TAKEUSHI, 2008). Ela ajuda a de mudança cessa seu impacto (LEVINTHAL
definir as metodologias importantes para e MARCH, 1993; SIMON, 1991)
execução do trabalho na empresa, entre elas representando também pouco efeito nos
a de gestão de projetos. Uma boa resultados dos projetos(s3).
metodologia de gestão de projetos, clara e
As opiniões dos especialistas, porém,
devidamente divulgada, ajuda a apoia a
divergem da teoria nesse ponto. Embora
incorporação de lições aprendidas de modo
denotem dificuldade em especificar a relação
que mais projetos se beneficiem de
estratégica da gestão do conhecimento, eles

Gestão da Produção em Foco - Volume 12


64

defendem a existência da prática e seus execução do projeto, próximo à ocorrência da


efeitos positivos nos projetos e na empresa. circunstância que gerou a lição.
Defenderam especificamente em suas
Para os especialistas o resultado geral nos
opiniões a validade dos efeitos da gestão do
projetos, mais impactados pelas ações de
conhecimento mesmo com a limitação
gestão do conhecimento, é a capacidade de
imposta pela definição de projetos, que faria
preparação para o futuro. Essa é uma questão
que seus resultados fossem assíncronos.
que mescla elementos internos e externos. A
Houve clara defesa da prática de gestão do
influência também é considerável nas
conhecimento, ainda que em estágios mais
dimensões de impacto na equipe e eficiência,
embrionários ou de menor abrangência como
ambas concentradas em aspecto internos da
iniciativas pontuais, isoladas ou
empresa.
departamentalizadas (S4).
Por fim, eles concluíram que a gestão do
Dificuldades em identificar qual é o
conhecimento representa uma alternativa
conhecimento estratégico e o tipo de
válida para suplantar os desafios impostos
estratégia adequada para aplicá-lo de forma
tanto pela definição de projetos, restrita por
otimizada, além da forte tendência de
sua transitoriedade, quanto pela relação
departamentalizar a prática de gestão do
complexa vivenciada com a interação de
conhecimento, dificultam a criação de
diversos aspectos, tais quais: cultura
resultados mais objetivos e de fácil
organizacional, ambiente externo,
identificação, porém, ao contrário do previsto,
materialização da estratégia, preparação para
eles são considerados relevantes. Portanto,
o futuro, percepção de sucesso e eficiência.
níveis altos de maturidade e abrangência de
gestão do conhecimento são desejáveis, A definição do escopo da pesquisa é em si
porém não imprescindíveis para gerar uma limitação, pois se concentra no plano do
resultados no gerenciamento de projetos (S4). desempenho operacional e especifica como
unidade de análise os resultados dos
Esses efeitos intermediários podem ser
projetos. A escolha dos parâmetros e modelos
evidenciados pela concordância com a
na qual a pesquisa se baseou também
segunda suposição, embora não possam ser
estabelecem limitações, haja vista que
comprovados. Por unanimidade de opiniões,
existem outras referências além do PMBOK.
mesmo quando não é possível identificar a
Nessa pesquisa, adotou-se como foco a
relação de influência positiva das ações de
opinião dos especialistas em gerenciamento
gestão do conhecimento nos resultados dos
de projetos. Outros pontos de vista podem
projetos, a percepção de sua influência fica a
agregar maior compreensão ao tema. Para
cargo de situações negativas geradas pela
mitigar as limitações da metodologia, buscou-
sua ausência (S2). Essa deficiência conduz a
se variedade nos convites, mas ainda assim,
empresa à dificuldades de reconhecimento,
apresentou uma concentração em relação a
inovação, integração e resgate de
sua forma de estruturação, porte e percepção
conhecimentos necessários para manter-se
da atuação em mercados estáveis. Replicar o
competitiva, sendo esses efeitos perceptíveis
estudo com mais respondentes também seria
no sucesso de seus projetos (LOVE, TEO,
aconselhável.
DAVIDSON, CUMMING e MORRISON, 2016;
ZACK, 1999; LEVINTHAL e MARCH, 1993). Ainda que a imparcialidade gerada pelo meio
eletrônico previna questões de influência e
Ao analisar a prática de lições aprendidas nos
comportamento, ela torna o questionário mais
projetos, ficou claro que a prática real não
sensível às interpretações pessoais. Seria
reflete o ideal, e que esse fato é percebido
interessante abordar os temas aqui tratados
pelos especialistas consultados. Se o registro
ou até mesmo as suposições levantadas,
não é realizado oportunamente e seu
através de outras modalidades de pesquisa, o
compartilhamento pode não ocorrer por
que possibilitaria o confronto das conclusões.
inúmeros fatores, que variam do medo de
uma exposição de erros à limitação de tempo A relevância desse estudo está na
(DUFFIELD e WHITTY, 2016; LOVE et all, abordagem da gestão do conhecimento no
2016). Mesmo com a identificação dessa campo do gerenciamento de projetos
oportunidade de melhoria, a opinião dos adotando como embasamento teórico da
especialistas convergiu no que tange a KBV, algo pouco usual. A base de dados
importância da prática e seu ideal de scopus reporta apenas um artigo que aborda
execução, preferencialmente ao longo da esses dois temas em conjunto, relacionado ao

Gestão da Produção em Foco - Volume 12


65

processo de tomada de decisão e solução de Aumentar a compreensão sobre a influência


problemas (https://www.scopus.com da gestão do conhecimento no
consultado em 24/06/2017). Em geral gerenciamento de projetos, caracterizando-a,
construtos que compõem a KBV, mas não ajudaria a entender como a limitação da
restritos a ela, são incorporados ao estudo transitoriedade dos projetos é suplantada e
das lições aprendidas tais como capacidade como o conhecimento desenvolvido ao longo
de absorção e curva de aprendizado da execução do projeto pode incorporar o
(DUFFIELD e WHITTY, 2016; LOVE et all, aprendizado organizacional.
2016; LEVINTHAL e MARCH, 1993).

REFERÊNCIAS
[1]. BARNEY, Jay B; HESTERLY, WILLIAM S; Fashion”; Ryerson University, Toronto, Canada,
“Administração estratégica e vantagem competitiva 2011
– Conceitos e casos”; Ed. Pearson; 3ª edição; São
[12]. GRANT, Robert M.; “Toward a knowledge-
Paulo; 2011
based theory of the firm”; Strategic Management
[2]. BARNEY, Jay.“Firm resources and Journal; vol 17; p 109-122; 1996
sustained competitive advantage”;Journal of
[13]. HAAS, Martiner R; HANSEN, Morten T;
Management,vol.17;1991
“Different knowledge, different benefits: Toward a
[3]. CAMILLERI, Dr Emanuel; “Beyond Project productivity perspective on knowledge sharing in
Management”; IN: PM World Today; vol 14; organizations”; Strategic Management Journal; vol
fevereiro/2012 28; p 1133-1153; 2007
[4]. CHOO, C. W; “The knowing organization: [14]. HAAS, Martiner R; HANSEN, Morten T;
how organizations use information to construct “When Using Knowledge Can Hurt Performance:
meaning, create knowledge and make decisions”; The Value of Organizational Capabilities in a
International Journal of Information Management, Management Consulting Company”;
Vol. 16, Nº. 5, P. 329-340, 1996 DigitalCommons@ILR;
http://digitalcommons.ilr.cornell.edu/articles/40;
[5]. DUFFIELD, S. M., WHITTY, S. J.
2005
“Application of the Systemic Lessons Learned
Knowledge model for Organisational Learning [15]. HARDESTY, David M; BEARDEN, William
through Projects.” International Journal of Project O. “The use of expert judges in scale development:
Management, 34(7), 1280–1293. 2016 Implications for improving face validity of measures
of unobservable constructs”. Journal of Business
[6]. EISENHARDT, Kathleen; SANTOS, Filipe;
Research N°57, p. 98– 107, 2004
“Knoledge-based view: a new theory of strategy?”;
Handbook of strategy and management; Sege [16]. KERZNER, H; "Gestão de projetos: as
Publications; 27/07/2000. melhores práticas"; 2ª ed. Porto Alegre: Bookman,
2006.
[7]. EYNDE, Donald F. Van; BURR, Richard M;
“Human Resource Knowledge and Skills Needed [17]. KOGUT, B; ZANDER, U; “Knowledge of
by Non-HR Managers: Recommendations From the Firm, Combinative Capabilities, and the
Leading Senior HR Executives”; Organization Replication of Technology”; Organization Science;
Development Journal; Vol.29 ; Nº 4; 2011 vol. 3; p. 383-397; 1992

[8]. FOSS, Nicolai J; FELIN, Teppo; [18]. LEONARD-BARTON, Dororthy; “Core


“Organizational Routines: a sceptical look”; DRUID Capabilities and Core Rigidities: A Paradox in
Working Paper; Nº 04; 2004 Managing New Product Development”; Strategic
Management Journal, Vol. 13, Special Issue:
[9]. GIOVINAZZO, Renata A; “Modelo de
Strategy Process: Managing Corporate Self-
Aplicação da Metodologia Delphi pela Internet –
Renewal; p. 111-125; 1992
Vantagens e Ressalvas”; Fundação Escola de
Comércio Álvares Penteado FECAP - Revista da [19]. LEVINTHAL, Daniel A; MARCH, James G;
administração online – Vol. 2; Nº2; 2001 “The Myopia oF learning”; Strategic management
Journal; Vol. 14; p. 95-112; 1993
[10]. GIL, Antonio Carlos. “Métodos e técnicas
de pesquisa social”. São Paulo: Atlas, 2008. [20]. LIEBESKIND, Julia Porter; “Knowledge,
strategy and theory of the firm”; Strategic
[11]. GRANT, Kenneth; “An Examination of
Management Journal; vol 17; p. 93-107; 1996
Knowledge Management as a Management

Gestão da Produção em Foco - Volume 12


66

[21]. LOVE, P. E. D., Teo, P., DAVIDSON, M., [29]. SIMON, H.A; “Bounded rationality and
CUMMING, S., MORRISON, J. “Building absorptive organization learning”; Organization Science, vol. 2;
capacity in an alliance: Process improvement p. 125-134; 1991
through lessons learned.” International Journal of
[30]. SZULANSKI, Gabriel; “Exploring Internal
Project Management, 34(7), 1123–1137. 2016
Stickiness: Impediments to the Transfer of Best
[22]. MILLER, Danny; SHAMSIE, Jamal; “The Practice Within the Firm”; Strategic Management
resource-based view of the firm in two Journal; Vol. 17; P. 27-43; 1996
environments: the Hollywood film studios from 1936
[31]. SPENDER, J.C; “Making knowledge the
to 1965”; Academy of Management Journal, vol 39,
basis of a dynamic theory of the firm”; Strategic
n° 3, p: 519-543, 1996
Management Journal; Vol. 17; P. 45-62; 1996
[23]. NONAKA, I.; TAKEUCHI, H. “Gestão do
[32]. SUE, Valerie M; RITTER, Lois A.
Conhecimento”; Rio de Janeiro; editora Bookman;
“ Conducting Online Surveys”. SAGE Publications.
2008.
2ª edição; California State University, East
[24]. PADOVANI, Marisa; CARVALHO, Marly Bay. 2012
Monteiro de; “O impacto da gestão do
[33]. TRENTIM, Mario; “Identificando projetos
conhecimento e recursos na gestão”; Revista de
problemáticos”;
Gestão e Projetos - GeP, São Paulo, v. 1, n. 1, p.
HTTP://blog.mundopm.com.br/2013/01/28/identifica
04-25; 2010
ndo-projetos-problematicos/; 2013.
[25]. PRALAHAD, C. K; HAMEL, G; “The Core
[34]. WILSON; T.D; “The nonsense of
Competence of the Organization”; Harvard
'knowledge management'”; Information Research,
Business Review; p.79-90; 1990
Vol. 8 N. 1, 2002
[26]. SABHERWAL, Rajiv; BECERRA-
[35]. VARGAS, Ricardo Viana; “Gerenciamento
FERNANDEZ, Irma; “An Empirical Study of the
de projetos: Estabelecendo diferenciais
Effect of Knowledge Management Processes at
competitivos”; 5. ed. Rio de Janeiro: Brasport,
Individual, Group, and Organizational Levels”;
2005.
Decision Sciences; Vol. 34; N. 2; 2003
[36]. YANG, Li-Ren; HUANG, Chung-Fah; HSU,
[27]. SCHINDLER M; EPPLER, M. J. “Harvesting
Ting-Jui; “Knowledge leadership to improve project
project knowledge: a review of project learning
and organizational performance”; International
methods and success factors”; International
Journal of Project Management; 2013
Journal of Project Management, v. 21, p. 219-228,
2003. [37]. ZACK, Michael H; “Developing a
knowledge strategy”; California Management
[28]. SHERNHAR, A. J. ; DVIR Dov;
Review; Vol. 41; Nº. 3; 1999
“Reinventando o Gerenciamento de Projetos. A
abordagem diamante – Crescimento e inovação [38]. ZEKIÉ, Zdravko; SUMARZIJA, Luka;
bem sucedidos”; Harvard Business School Press, “Project management of dynamics optimization of
2007 business”; International Business Research; vol 5;
n° 12; 2012

Gestão da Produção em Foco - Volume 12


67

Capítulo 7

Rodrigo Duarte Soliani


Ana Rita Tiradentes Terra Argoud
Lineia Jollembeck Lopes

Resumo: O sistema de transporte rodoviário de carga tem significativa representatividade no cenário


econômico brasileiro. As empresas dependem do transporte para receber insumos de seus
fornecedores e levar seus produtos até os consumidores. Este modal também é o grande
consumidor de derivados de petróleo no setor de transportes. Dessa forma, torna-se necessário
atuar com direcionamento para a sustentabilidade, considerando os aspectos econômico, social e
ambiental. Por esta perspectiva, este estudo tem como objetivo apresentar a sustentabilidade no
setor de transporte rodoviário de carga brasileiro, com destaque para consumo de energia e
emissão de gases poluentes. Utilizou-se da abordagem de pesquisa qualitativa com a técnica de
pesquisa bibliográfica, de forma a embasar a discussão sobre sustentabilidade no transporte de
cargas. Os resultados apontam que o setor de transportes rodoviário de carga é relevante para o
país e busca cumprir seu papel social e ser economicamente viável. Entretanto, o setor deve voltar
atenção para a consciência ambiental e ecoeficiência e envidar esforços na utilização de
alternativas para melhorar a qualidade do ar e evitar danos ao meio ambiente. Além disso, a atuação
de modo sustentável envolve também o atendimento à legislação ambiental e a aplicação de
tecnologias para reduzir a emissão de poluentes.
Palavras-chave: Consumo de energia; Gases poluentes; Logística; Sustentabilidade; Transporte
rodoviário de carga.

Gestão da Produção em Foco - Volume 12


68

1 INTRODUÇÃO a questão de como empreender


sustentabilidade no transporte rodoviário de
Nas mais diversas organizações, o debate a
cargas. Por essa visão, este estudo objetiva
respeito da sustentabilidade tem marcado
apresentar a sustentabilidade no setor de
presença de forma intensa num desafio
transporte rodoviário de carga brasileiro, com
constante ao potencial de geração de valor
destaque para consumo de energia e emissão
para clientes, acionistas e sociedade. A
de gases poluentes.
sustentabilidade constituiu-se em tema
fundamental, com evidência para o cuidado Além desta introdução, o artigo aborda
com os impactos negativos das atividades, aspectos da sustentabilidade em suas
também reflexo do avanço tecnológico, do dimensões econômica, social e ambiental, o
aumento populacional e do consumo. panorama do transporte rodoviário de cargas
Empresas públicas e privadas, além dos no Brasil, a importância da sustentabilidade
aspectos econômico e social, devem cuidar no transporte rodoviário de carga e as
de forma especial do meio ambiente para que considerações finais.
suas atividades sejam sustentáveis.
Geralmente, a sustentabilidade é utilizada
como estratégia comercial e de marketing, 2 SUSTENTABILIDADE
revertida em vantagem competitiva para a
A postura organizacional com foco na
organização (WELTER; VIONE; FERNANDES,
sustentabilidade tem sido cada vez mais
2016).
valorizada pelos stakeholders (acionistas,
Essa visão abrangente da importância de a funcionários, clientes e a própria
sustentabilidade ser empreendida nas comunidade). O conceito de sustentabilidade
empresas também tem sua validade para o fundamenta-se no conceito do Triple Bottom
setor de transporte de cargas, nesse caso Line (TBL), apresentado por John Elkington
específico, no modal rodoviário, que é o mais em 1994, composto pelas dimensões
representativo no cenário de movimentação econômica, social e ambiental, formando o
de cargas no Brasil. A preferência pelo tripé da sustentabilidade empresarial
transporte rodoviário em comparação aos (ELKINGTON, 1994). A interação e integração
demais sistemas de transporte é demarcada entre esses três pilares trazem benefícios
por fatores como: maior flexibilidade e para o meio ambiente e para a sociedade, e
facilidade de acesso pelos caminhões aos contribuem em longo-prazo para o bom
mais diferentes locais; capacidade de desempenho econômico e diferencial
transportar mercadorias porta-a-porta; competitivo das empresas (CARTER;
simplificação do envio da documentação em ROGERS, 2008; RAMOS; CARDOSO; CRUZ,
relação ao modal ferroviário; e maior rapidez 2014).
na entrega do produto. As operações de
A sustentabilidade evoluiu a partir de duas
transporte de mercadorias entre municípios e
origens: a primeira, na biologia, com ênfase
estados, bem como entre o produtor e os
na ecologia, com destaque para o potencial
centros de distribuição e destes com o
de recuperação e reprodução dos
mercado final, sinalizam relevante importância
ecossistemas (resiliência), diante das ações
econômica. No entanto, essa atividade, em
antrópicas; a segunda, na economia, como
função do grande número de caminhões,
fator do desenvolvimento, pela constatação
observada a necessidade de operações de
do crescimento da produção e consumo no
carga e descarga, causa impactos, tanto nas
transcorrer do século XX e que sinaliza
cidades quanto nas estradas (RAMOS;
continuidade desse ritmo (NASCIMENTO,
CARDOSO; CRUZ, 2014).
2012).
Essa dinâmica das operações de transporte
Silva et al. (2016) consideram a
rodoviário de cargas tem sua parcela de
sustentabilidade como uma estratégia que
contribuição no processo de desenvolvimento
compõe o desenvolvimento, resultando na
do país, porém, em contrapartida, evidencia a
melhoria da qualidade de vida. Por esta
utilização intensa de um padrão energético
perspectiva, projeta-se uma gestão integrada
fundamentado em combustíveis fósseis que
contemplando aspectos do desenvolvimento
fortalece a relação com a elevação das
social, crescimento econômico e proteção
emissões de gases do efeito estufa (GEE) de
ambiental.
origem antrópica (ANDRADE; MATTEI, 2011).
Trata-se, contudo, de um aspecto que levanta

Gestão da Produção em Foco - Volume 12


69

Quanto à dimensão econômica da com reduzidos impactos ambientais, a gestão


sustentabilidade, as empresas precisam de resíduos líquidos e sólidos, aplicação de
disponibilizar produtos para o consumo, no tecnologias limpas, reciclagem e educação
entanto, esse processo deve trazer retorno ambiental. De forma resumida, todas essas
financeiro frente ao investimento realizado. No determinações convergem para o termo
que tange à dimensão social, a organização ecoeficiência (WELTER; VIONE; FERNANDES,
precisa oferecer boas condições de trabalho, 2016).
geração de empregos, inclusão social para
combate à desigualdade. No aspecto
ambiental, a empresa deve ter suas atuações 2.3 DIMENSÃO SOCIAL
balizadas pela ecoeficiência, preocupando-se
A dimensão social representa a preocupação
com os impactos causados pela utilização
em proporcionar à sociedade condições de
dos recursos naturais e pelas emissões de
viver adequadamente. Uma sociedade
poluentes (DIAS, 2011). As três dimensões da
sustentável se ampara na teoria de que todos
sustentabilidade são discutidas a seguir.
os seus membros tenham o mínimo
necessário para viver dignamente e que
ninguém pratique atos que possam prejudicar
2.1 DIMENSÃO AMBIENTAL
a outros (NASCIMENTO, 2012).
Normalmente, a primeira dimensão da
Para Gomes e Moretti (2007, p. 9),
sustentabilidade citada é a ambiental, que
“responsabilidade social é a capacidade de
concentra pressupostos de que ações de
dar respostas ou de buscá-las”. Os autores
produção e comportamento de consumo
destacam que responsabilidade social é um
tenham compatibilidade com a base material
dos elementos atuantes na relação entre as
em que se ampara a economia, como
organizações e os stakeholders, assim, as
subsistema do meio natural. Constitui-se nos
empresas envolvidas nesta proposta
processos de produzir e consumir de modo a
trabalham para oferecer respostas às
assegurar que os ecossistemas possam
necessidades sociais.
evoluir em sua autorreparação ou potencial de
resiliência (NASCIMENTO, 2012). O conceito sociocultural ressalta
procedimentos de sustentabilidade inseridos
A dimensão ambiental da sustentabilidade
no desempenho e no lucro, no entanto, com
enfatiza a preservação dos processos
atenção aos impactos sociais e ambientais
ecológicos, com atenção para a capacidade
das ações, com foco na qualidade de vida
dos sistemas físico e biológico de suportar as
das comunidades, na memória cultural e
adversidades e conseguir manter sua
crescimento econômico. A sustentabilidade
estrutura e funções. A sustentabilidade
sob a visão social tem suas atividades
ambiental aponta para os impactos das ações
direcionadas para as pessoas, com cuidado
provocadas pelas pessoas em relação ao
para seu bem-estar e qualidade de vida
meio ambiente. É um processo que
(PEREIRA; SILVA; CARBONARI, 2011).
estabelece as políticas de conservação de
energia e recursos naturais, diminui a
utilização de combustíveis fósseis e a emissão
2.4 DIMENSÃO ECONÔMICA
de substâncias poluentes e substitui produtos
não renováveis por renováveis (PEREIRA; A dimensão econômica pressupõe aumentar
SILVA; CARBONARI, 2011). a produção e o consumo com melhor uso dos
recursos naturais, especialmente as fontes
O conceito de responsabilidade ambiental
fósseis de energia, a água e os recursos
ultrapassa o mero cumprimento de
minerais (NASCIMENTO, 2012). A
obrigações legais. Contempla as crenças e
sustentabilidade fundada no aspecto
valores da organização e seu compromisso
econômico avalia custos e benefícios das
com funcionários e com a comunidade
políticas de desenvolvimento e ambientais de
(SCHMIDT et al., 2016). Da sustentabilidade
forma a sustentar a proteção ambiental e
ambiental evoluem duas ações: o equilíbrio
elevar os níveis de bem-estar. Por esta
ecológico que assegure condições de vida
perspectiva, a sustentabilidade contempla a
para as pessoas, fauna e flora, e o uso
alocação e gestão de recursos com mais
sustentável dos recursos naturais por parte
eficiência e um fluxo regular de investimento
das organizações. Envolve o cumprimento
público e privado. Objetiva suas atividades
das leis ambientais, a elaboração de projetos
para a maximização do lucro, porém, procura

Gestão da Produção em Foco - Volume 12


70

sustentar a competividade no mercado e caminhões está nas regiões Sul e Sudeste


manter-se consciente quanto aos aspectos devido à maior atividade econômica, mas
ambientais e sociais (PEREIRA; SILVA; operam em todo território nacional em vias
CARBONARI, 2011). urbanas e interurbanas de qualidade variável.
Os negócios demandam uma perspectiva O setor de transportes consome cerca de
abrangente e holística do empreendedor para 30% da energia total do país, sendo que 92%
manter-se atuante e competitivo no segmento desse consumo acontece no transporte
e no mercado. Requerem adoção de um rodoviário. O transporte consome 51% dos
modelo de gestão que tenha identificação derivados de petróleo gastos no Brasil
com o mercado em que atua, procurando (CASTRO, 2013).
gerar lucratividade para os acionistas e
O transporte rodoviário de carga tem sua
respeito e compromisso com a cidadania e
tipicidade de carroceria estabelecida na
preservação ambiental. Trata-se, contudo, de
Portaria 96/2015. Trata-se de uma grande
uma imposição do mercado aplicar a gestão
variedade de tipos de carrocerias definidas
socialmente responsável e sustentável, assim
para atender a diferentes mercadorias. As
como uma vantagem para obtenção de lucro,
carrocerias são: aberta, basculante, chassi,
que é o fator de garantia de longevidade do
fechada, furgão, prancha, tanque, entre
negócio (DUMKE; ANAZCO; PAUL, 2011).
outras (BRASIL, 2015).
O transporte de cargas integra o sistema
3 PANORAMA DO TRANSPORTE logístico de distribuição de produtos de uma
RODOVIÁRIO DE CARGA NO BRASIL organização e é representado por três atores.
O primeiro ator é o usuário: unidades dos
O transporte rodoviário é um modal
setores industrial, comércio e agronegócio. O
complementar por excelência em diversas
segundo são as empresas que atuam de
situações de transposições de carga, pois é
forma cooperada tais como: Transporte
por meio de caminhões que diversos
Rodoviário de Cargas (TRC), Operadores
carregamentos saem da fonte produtora e
Logísticos (OL), Operadores de Transporte
chegam até as ferrovias, aeroportos ou portos
Multimodal (OTM) e Quarteirizadores de
(RAMOS; CARDOSO; CRUZ, 2014).
Serviços Logísticos (4PL). O terceiro ator é o
A estatística da Confederação Nacional do governo que proporciona grande parte da
Transporte (CNT, 2016a) mostra o modal infraestrutura, juntamente com as autoridades
rodoviário com uma composição de mais de que fiscalizam e regulam os serviços e
2,6 milhões de caminhões, 600 mil cavalos processos (SCHLÜTER, 2013).
mecânicos, 1,3 milhão de reboques e 900 mil
Assim, o transporte rodoviário de cargas é
semirreboques. Essa estrutura movimentou
representativo na economia do país e com
485 milhões de toneladas quilômetro útil
grande significado histórico e atual no
(TKU), representando 61,1% do total de carga
desenvolvimento. Integra de maneira
transportada. Vale destacar que a frota
relevante o cenário de transportes brasileiro,
nacional tem mais de 63 mil motoristas
no entanto, necessita de melhorias, tanto em
autônomos. Entretanto, a CNT (2016b) aponta
equipamentos como infraestrutura.
que dos 103.259 km de rodovias analisados,
58,2% apresentam algum tipo de problema,
seja nas condições do pavimento, da
4 ASPECTOS METODOLÓGICOS
sinalização ou da geometria da via. Em
relação ao pavimento, 48,3% dos trechos A metodologia adotada para o
avaliados receberam classificação regular, desenvolvimento deste estudo, de acordo
ruim ou péssimo. com Prodanov e Freitas (2013), é: pela
abordagem do problema, qualitativa, uma vez
Segundo a Agência Nacional de Transportes
que tem uma relação dinâmica entre o mundo
Terrestres (ANTT, 2016), a idade média da
real e o sujeito, por meio de interpretação sem
frota brasileira é 13 anos, sendo 16,8 anos
a representação numérica; pelo seu objetivo,
para os veículos dos autônomos, 9,5 para os
exploratória, visto que tem a intenção de
das empresas e 12,6 anos para os que
familiarizar-se com o problema e apresentar
pertencem às cooperativas. A idade do
hipóteses; e pelos procedimentos técnicos,
veículo é um fator importante e tem reflexo no
bibliográfica, quando sua elaboração utiliza-
tipo do motor e tecnologia de controle de
emissões instalado. A maior concentração de

Gestão da Produção em Foco - Volume 12


71

se de material já publicado nos mais variados marketing, vendas e a relação com os clientes
meios. são embasadas pela opinião e tendências do
consumidor (BURG et al., 2014).
No pensamento de Gil (2007, p. 64) a
“pesquisa bibliográfica é desenvolvida a partir A capacidade de uma organização crescer
de material já elaborado, constituído em um cenário de forte concorrência tem
principalmente de livros e artigos científicos”. associação direta com a habilidade em
Na pesquisa qualitativa, o ambiente natural é desenvolver algum tipo de diferencial. Este
a fonte direta para a busca de informações. O fator representa, acima de tudo, o
pesquisador tem contato direto com o desenvolvimento e a adoção de inovações
ambiente e o objeto de estudo em pauta. Os para o melhor relacionamento com o cliente,
dados são observados em seu ambiente de para gerar novos produtos ou para conseguir
estudos, sem a necessidade de manipulação, estabelecer processos mais eficientes. Nesse
nem aplicação de métodos ou técnicas panorama de atuação do transporte rodoviário
estatísticas. As informações coletadas são de cargas, destacam-se as inovações de
descritivas, representando o maior repertório caráter sustentável, responsáveis pelo
possível de elementos existentes na realidade direcionamento de ações para a preservação
estudada (PRODANOV; FREITAS, 2013). do meio ambiente, e também suficiente para
otimização dos recursos e redução de custos
(BURG et al., 2014).
5 ANÁLISE E DISCUSSÃO
A configuração e desempenho do sistema de
O transporte sustentável tem motivação em transporte e a implementação de ações
três considerações: 1) a preocupação com o eficientemente sustentáveis requerem
transporte de carga e o direcionamento para embasamento no TBL: no aspecto econômico,
estrutura operacional, principalmente, com com ênfase na eficiência do desempenho das
relação às estradas; 2) o reconhecimento atividades, custos de interiorização e preço
para a redução de veículos em circulação; e compatível; no ambiental, com observação
3) o crescimento da consciência de para a prevenção da poluição, proteção e
sustentabilidade. São conotações que conservação dos recursos naturais e gestão
buscam evidenciar a sustentabilidade para ambiental; e no social, com atenção para a
garantir os negócios (RAMOS; CARDOSO; segurança, saúde e qualidade de vida das
CRUZ, 2014). pessoas (RAMOS; CARDOSO; CRUZ, 2014).
De acordo com CST (2002), transporte
sustentável é aquele que: permite que as
5.1 ASPECTO ECONÔMICO
demandas básicas de acesso da sociedade
em geral sejam realizadas com segurança e O aspecto econômico do transporte rodoviário
sem danos à saúde humana e os de carga, além de enfocar a obtenção de
ecossistemas, e com equilíbrio; se consolida lucros, evidencia alguns fatores significativos:
como acessível, atua de maneira eficiente, a configuração de infraestrutura para
dispõe opções de tipo de transporte e operacionalização, oportunidades de acesso,
sustenta uma economia crescente; limita as otimização de carga e uso adequado do solo.
emissões e os resíduos dentro da capacidade Estes determinantes visam melhor
de absorção do planeta, reduzindo o organização e distribuição de carga,
consumo de recursos não renováveis, e limita principalmente na movimentação em centros
o consumo de recursos renováveis aos urbanos, com definições de áreas para carga
patamares de rendimento sustentável, com e descarga. Com relação ao acesso, tem-se o
reciclagem e reuso de seus componentes. estabelecimento de restrições espaciais e
temporais. A questão de infraestrutura pública
As empresas que atuam com transporte de
indica a instalação de pontos de
cargas, seguindo a lógica de competitividade
transferências para otimizar a carga dos
estão cada vez mais empenhadas em
veículos (RAMOS; CARDOSO; CRUZ, 2014).
incorporar inovações tecnológicas como
alternativa para se diferenciar dos A utilização de sistemas de transportes
concorrentes e melhorar o atendimento aos inteligentes (STI) possibilita otimizar o
clientes. Colocar em prática novas planejamento das movimentações, com
tecnologias constitui uma situação endógena melhor gestão do tráfego e maior facilidade
ao sistema capitalista e globalizado, em que de rastreabilidade das cargas. Torna-se
as determinações de consumo e ações de importante a flexibilidade na infraestrutura,

Gestão da Produção em Foco - Volume 12


72

apropriando-se de recursos da informática rodoviário, consequente da velocidade


para obter agilidade e eficiência na realização empreendida, que emite ruídos mediante a
das operações de transporte de cargas propulsão (motor), pneumático e
(RAMOS; CARDOSO; CRUZ, 2014). aerodinâmico (RAMOS; CARDOSO; CRUZ,
2014).

5.2 ASPECTO SOCIAL


5.3.1 CONSUMO DE ENERGIA
Destacam-se, neste estudo, dois pontos
importantes no aspecto social do transporte Para a Confederação Nacional do Transporte
rodoviário de carga: acidentes e (CNT, 2011), a infraestrutura utilizada para o
congestionamentos. Os acidentes podem transporte no Brasil é inadequada. Em função
causar mortes e ferimentos nos envolvidos, da grande área territorial do país, o uso do
além de transtornos aos demais motoristas modal rodoviária causa ineficiência, visto que
nas estradas. De modo geral, o número de este modo não é o mais indicado para cargas
acidentes com participação de veículos de baixo valor agregado e longas distâncias.
pesados considerando a distância percorrida Pela visão econômica, a falta de eficiência na
é menor quando comparado com os logística de transportes brasileira diminui a
automóveis, no entanto, a probabilidade de competitividade do país (CNT, 2011).
um caminhão estar envolvido em um acidente
No Brasil, em 2010, o setor de transporte
fatal é grande (CASTRO, 2013). O
gastou 31% da energia total, destes, 91,7%
congestionamento urbano é um dos principais
foram consumidos pelo modo rodoviário. A
problemas gerados pelo uso do modal
fonte de energia do transporte de cargas
rodoviário para transporte de mercadorias,
brasileiro constitui-se em grande maioria de
uma vez a velocidade é relativamente baixa,
combustíveis de origem fóssil, evidenciando o
comprometendo o fluxo de veículos pelas
potencial de impactos ambientais do setor
ruas e avenidas. Esta situação interfere na
(BRASIL, 2012a). Entretanto, de acordo com a
rotina da cidade de modo significativo
Agência Nacional do Petróleo (ANP), fontes
(CASTRO, 2013). É, portanto, um grande
renováveis, em especial biocombustíveis,
desafio a ser solucionado, assegurar o
cada vez mais estão sendo aprimoradas com
desenvolvimento econômico das cidades e
a proposta de aumentar o abastecimento.
diminuir os impactos negativos dos
Biocombustíveis têm origem de biomassa
congestionamentos (RAMOS; CARDOSO;
renovável, com potencial para substituir os
CRUZ, 2014).
combustíveis provenientes do petróleo e gás
natural em motores de combustão (LEAL
JÚNIOR et al., 2015).
5.3 ASPECTO AMBIENTAL
O óleo diesel representa elevado índice de
Quanto ao aspecto ambiental do transporte
consumo da matriz energética que atende ao
rodoviário de carga, destacam-se dois
setor de transporte de carga no Brasil. No
fenômenos: poluição atmosférica e poluição
entanto, seu uso como combustível constitui
sonora. O transporte rodoviário de carga é um
em significativo elemento de emissão de
dos grandes causadores de poluição do ar. A
material particulado e gases poluentes que
emissão de gases interfere negativamente na
afetam a atmosfera (FERNANDES et al.,
qualidade do ar e na saúde das pessoas e
2016). O processo de combustão do óleo
animais. O nível de toxicidade da emissão de
diesel libera centenas de compostos químicos
gases depende do combustível usado. Muito
tanto na forma líquida como na gasosa. Na
embora já existam combustíveis alternativos
exaustão, os principais elementos liberados
como o biodiesel, o principal combustível em
são: dióxido de carbono, oxigênio, nitrogênio,
uso no Brasil para transporte de mercadorias
vapor de água, monóxido de carbono,
ainda é o diesel. Esta fonte energética é
material particulado e os compostos
insustentável, pois trata-se de um recurso
orgânicos voláteis, como os hidrocarbonetos,
finito, e com potencial de danos à saúde
este último de alta toxidade, dentre eles os
pública e ao meio ambiente, através de
mais nocivos à saúde humana são benzeno,
emissões de partículas, monóxido de carbono
tolueno, etilbenzeno, xileno e os
(CO), óxido de azoto (NOx), compostos
hidrocarbonetos policíclicos aromáticos
orgânicos voláteis (COVs) e gases
(HPAs) (BARROS, 2007; VISCONDI; SILVA;
provocadores do efeito estufa. A poluição
CUNHA, 2016).
sonora vem pela operacionalidade do tráfego

Gestão da Produção em Foco - Volume 12


73

Adensamento da Cadeia Produtiva de


Veículos Automotores - INOVAR-AUTO - que
5.3.2 EMISSÃO DE CO2
“tem como objetivo apoiar o desenvolvimento
Diante do consumo energético com nível tecnológico, a inovação, a segurança, a
acima da média mundial, o setor de proteção ao meio ambiente, a eficiência
transporte do Brasil destaca-se como um energética e a qualidade dos veículos e das
problema quanto às emissões GEE, autopeças” (BRASIL, 2012c). O Programa
principalmente, do gás CO2. Pelas estatísticas concede benefícios fiscais a empresas que
da ANP, o setor de transporte é o grande investirem em tecnologias para produção de
emissor de CO2 da matriz energética, veículos, seus componentes e peças mais
correspondendo a cerca de 40% de todas as econômicos e eficientes energeticamente,
emissões do gás derivado do setor de energia mediante o cumprimento de metas
(ANDRADE; MATTEI, 2011). estabelecidas.
A emissão de CO2 tem sido alvo de
preocupação e ações para sua redução, tanto
6 CONSIDERAÇÕES FINAIS
que a Resolução CONAMA n. 18/1986 criou o
Programa de Controle da Poluição do Ar por O setor de transporte rodoviário de cargas
Veículos Automotores (PROCONVE) com os tem sua representatividade no cenário
objetivos de: reduzir os níveis de emissão de econômico do país e, no entanto, para se
poluentes automotores; promover o obter ganhos sustentáveis é preciso atenção
desenvolvimento tecnológico nacional; criar aos reflexos negativos que podem causar ao
programas de inspeção e manutenção para meio ambiente e estabelecer diminuição nos
veículos; promover a conscientização da níveis de emissões de CO2. Isto se dá por
população com relação à questão da poluição meio de planejamento logístico e da escolha
do ar por veículos automotores; estabelecer de modais mais ecoeficientes, ou seja, menos
condições de avaliação dos resultados poluentes, como a ferrovia. Os
conquistados; e promover a melhoria das biocombustíveis poderão também ajudar a
características técnicas dos combustíveis reduzir os aspectos ambientais gerados pelo
líquidos (BRASIL, 2012b). transporte rodoviário no país.
O incentivo ao uso de biocombustível pelo A alta dependência do modal rodoviário no
transporte rodoviário de cargas no Brasil vem Brasil potencializa os problemas ambientais e
sendo uma das recomendações para redução afeta negativamente a qualidade de vida das
de emissão de CO2. Outra observação refere- pessoas. Dessa forma, entende-se que a
se à readequação da frota e modelos de melhoria dos resultados econômicos e
veículos visando elevar a eficiência das ambientais do país, assim como o aumento da
operações, reduzir os gastos de energia e competitividade brasileira frente ao mercado
aumentar a competitividade do Brasil (LEAL externo estão diretamente relacionados às
JÚNIOR et al., 2015). As políticas para o mudanças no setor de transportes.
controle de GEE, em específico a diminuição
Assim, este estudo, demonstrou sua
de emissões de carbono, o uso de novas
contribuição em apresentar informações e
tecnologias para motores mais eficientes e
abordagens para a compreensão e discussão
menos poluentes, têm sido objetivos dos
da sustentabilidade frente ao transporte
fabricantes e veículos, com significativas
rodoviário de cargas. Ressalta-se a
mudanças nos padrões de produção. O limite
importância do transporte rodoviário de
de emissões mais restritivo tem contribuído
cargas, porém, que seja pautado pelos
para a consciência ambiental com eficiência
conceitos de sustentabilidade. Visando
energética (BRASIL, 2016).
complementar o estudo realizado, sugere-se
Outro fator decisivo para a redução dos como pesquisa futura a discussão sobre uso
limites de emissões e aumento da eficiência de recursos renováveis como o hidrogênio
energética foi a criação do Programa de produzido com energia solar para o transporte
Incentivo à Inovação Tecnológica e rodoviário de cargas.

Gestão da Produção em Foco - Volume 12


74

REFERÊNCIAS
[1]. ANDRADE, André Luiz Campos de; [9]. BURG, Fernando et al. A perspectiva da
MATTEI, Lauro. Consumo energético e emissões sustentabilidade no setor do transporte rodoviário.
de CO2: uma análise do setor de transportes Revista Educação Ambiental em Ação, Novo
brasileiro. 2011. In: ENCONTRO NACIONAL DE Hamburgo, RS, v. 12, n. 46, pp. 1-10, fev. 2014.
ECONOMIA, 39.; 2011, Foz do Iguaçu, PR, Anais...
[10]. CARTER, Craig R.; ROGERS, Dale S. A
Foz do Iguaçu, 2011.
framework of sustainable supply chain
[2]. ANTT - AGÊNCIA NACIONAL DE management: moving toward new theory.
TRANSPORTES TERRESTRES. Idade média dos International Journal of Physical Distribution and
veículos. 2016. Disponível em: Logistics Management, v. 38, n. 5, p. 360-38, 2008.
<http://portal.antt.gov.br/index.php/content/view/
[11]. CASTRO, Newton de. Mensuração de
20272/Idade_Media_dos_Veiculos.html>. Acesso
externalidades do transporte de carga brasileiro.
em: 17 dez. 2016.
Journal of Transport Literature, Manaus, v. 7, n. 1,
[3]. BARROS, Marcia Aparecida Tezan pp. 163-181, jan. 2013.
Moraes. Emissões atmosféricas de grupos
[12]. CNT - CONFEDERAÇÃO NACIONAL DO
motogeradores na Região Metropolitana de São
TRANSPORTE. Transportes de cargas no Brasil:
Paulo. 2007. 135f. Dissertação (Mestrado em
ameaças e oportunidades para o desenvolvimento
Energia)–Universidade de São Paulo, São Paulo,
do país. Relatório Executivo. Brasília: CNT, 2011.
2007.
[13]. ______. Boletim estatístico – CNT - outubro
[4]. BRASIL. Ministério de Minas e Energia.
2016. Brasília: CNT, 2016a.
Estudo associado ao plano decenal de energia –
PDE 2021: consolidação de bases de dados do [14]. ______. Pesquisa CNT de rodovias 2016:
setor de transporte: 1970-2010. Nota técnica SDB- relatório gerencial. Brasília: CNT, SEST, SENAT,
Abast No 1/2012. Brasília: MME, 2012a. 2016b.

[5]. ______. Ministério do Meio Ambiente, [15]. CST. THE CENTRE FOR SUSTAINABLE
Conselho Nacional de Meio Ambiente. Resoluções TRANSPORTATION. Defining Sustainable
CONAMA: resoluções vigentes publicadas entre Transportation. Canada. 2002. Disponível em: <
setembro de 1984 e janeiro de 2012. Brasília: http://cst.uwinnipeg.ca/about.html>. Acesso em 30
MMA, 2012b. jun. 2017.

[6]. ______. Ministério das Cidades. Conselho [16]. DIAS, R. Gestão ambiental
Nacional de Trânsito. Departamento Nacional de responsabilidade social e sustentabilidade. 2. ed.
Trânsito. Portaria n. 96, de 28 de julho de 2015. São Paulo: Atlas, 2011.
Estabelece a Tabela I – Classificação de
[17]. DUMKE, Edimir; ANAZCO, Juan I. Koffler;
Veículos conforme Tipo/Marca/Espécie e a
PAUL, Nilmar. Central de negócios: um caminho
Tabela II – Transformações de Veículos sujeitos a
para a sustentabilidade de seus negócios. Rio de
homologação compulsória da Resolução
Janeiro: Elsevier, 2011.
CONTRAN nº 291/2008. Brasília: MC/CNT, 2015.
Disponível em: [18]. ELKINGTON, John. Towards the
<http://www.denatran.gov.br/images/ sustainable corporation: win-win-win business
Portarias/2015/Portaria0962015.pdf>. Acesso em: strategies for sustainable development. California
11 jun. 2017. Management Review, v. 36, n. 2, p. 90-100, 1994.

[7]. ______. Ministério do Meio Ambiente. [19]. FERNANDES, Bruno Alisson et al. Estudo
Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos da emissão de gases da combustão do diesel S10
Recursos Naturais Renováveis. Avaliação dos e blendas de butanol. In: CONGRESSO
impactos econômicos e dos benefícios BRASILEIRO DE ENGENHARIA QUÍMICA, 21.;
socioambientais do Proconve. Brasília: Edições 2016, Fortaleza. Anais... São Paulo: ABEQ, 2016.
Ibama, 2016.
[20]. GIL, Antonio Carlos. Métodos e técnicas
[8]. ______. Presidência da República. Casa de pesquisa social. 5. ed. São Paulo: Atlas, 2007.
Civil. Decreto nº 7.819 de 3 de outubro de 2012.
[21]. GOMES, Adriano; MORETTI, Sérgio. A
Dispõe sobre o Programa de Incentivo à Inovação
responsabilidade e o social: uma discussão sobre
Tecnológica e Adensamento da Cadeia Produtiva
o papel das empresas. São Paulo: Saraiva, 2007.
de Veículos Automotores - INOVAR-AUTO. Brasília:
Presidência da Republica, 2012c. [22]. KATO, Cristiano Arns. Arquitetura e
sustentabilidade: projetar com ciência da energia.

Gestão da Produção em Foco - Volume 12


75

2008. 107 p. Dissertação (Mestrado em Arquitetura TRANSPORTES, 28.; 2014, Curitiba. Anais...
e Urbanismo) - Universidade Presbiteriana Curitiba: ANPET, 2014.
Mackenzie, São Paulo, 2008.
[28]. SCHMIDT, Adrieli Berleze et al. Dimensões
[23]. LEAL JÚNIOR, Ilton Curty et al. Análise da da sustentabilidade. In: FÓRUM INTERNACIONAL
matriz de transporte brasileira: consumo de energia ECOINOVAR, 5.; Santa Maria, RS. Anais...
e emissão de CO2. Revista UNIABEU, Belford ECOINOVAR, Santa Maria, RS: ECOINOVAR, 2016.
Roxo, RJ, v. 8, n. 18, jan.-abr. 2015.
[29]. SCHLÜTER, Mauro Roberto. Sistemas
[24]. NASCIMENTO, Elimar Pinheiro do. logísticos de transportes. Curitiba: InterSaberes,
Trajetória da sustentabilidade: do ambiental ao 2013.
social, do social ao econômico. Estudos
[30]. SILVA, Daniela da et al. A importância da
avançados, São Paulo, v. 26, n. 74, 2012.
sustentabilidade para a sobrevivência das
[25]. PEREIRA, Adriana Camargo; SILVA, empresas. Empreendedorismo, Gestão e
Gibson Zucca das; CARBONARI, Maria Elisa Negócios, Pirassununga, SP, v. 5, n. 5, p. 74-79,
Ehrhardt. Sustentabilidade, responsabilidade social mar. 2016.
e meio ambiente. São Paulo: Saraiva, 2011.
[31]. VISCONDI, Gabriel de Freitas; SILVA,
[26]. PRODANOV, Cleber Cristiano; FREITAS, Aline Fernandes da; CUNHA, Kamyla Borges.
Ernani Cesar de. Metodologia do trabalho Geração termoelétrica e emissões atmosféricas:
científico: métodos e técnicas da pesquisa e do poluentes e sistemas de controle. São Paulo: IEMA,
trabalho acadêmico. 2. ed. Novo Hamburgo, RS: 2016.
Feevale, 2013.
[32]. WELTER, Clarice do Nascimento, VIONE,
[27]. RAMOS, Samantha Avance Pereira; Cristiane, FERNANDES, Sandra Beatriz Vicenci.
CARDOSO, Patrícia Alcântara; CRUZ, Marta Sustentabilidade empresarial: uma forma de
Monteiro da Costa. Atributos considerados sobre obtenção de vantagem competitiva. In:
sustentabilidade no transporte rodoviário de carga. SEMINÁRIO DE INICIAÇÃO CIENTÍFICA, 34., Ijuí,
In: CONGRESSO DE PESQUISA E ENSINO EM RS. Anais... Ijuí, RS: UNIJUI, 2016.

Gestão da Produção em Foco - Volume 12


76

Capítulo 8

Francisco Krieger Abrunhoza


Jairo José de Oliveira Andrade

Resumo: Atualmente, para se manterem competitivas no mercado, as organizações


têm investido na melhoria contínua de seus processos, para conseguirem atender a
demanda e reduzir seus custos em geral. O presente trabalho tem como objetivo a
utilização de técnicas de análise de falhas para identificar o principal modo de falha
que afeta o processo produtivo em estudo, reduzir a ocorrência de paradas
inesperadas para manutenção e aumentar a eficiência do mesmo, medida pelo
indicador OEE. Com a análise dos dados de falha obtidos no sistema da empresa,
foi possível elaborar um FMEA com uma equipe mista, composta por membros da
manutenção e produção e desenvolver um plano de ação para sanar os problemas.
Após a implementação das melhorias propostas, foi notada uma diferença dos
valores de MTBF e MTTR do equipamento em estudo e uma melhora significativa no
indicador de OEE.

Gestão da Produção em Foco - Volume 12


77

1 INTRODUÇÃO pontos de vista. Considerando a empresa,


tem-se que a mesma não está conseguindo
No atual ambiente corporativo, as empresas
suprir a demanda do mercado, tendo em vista
estão se esforçando cada vez mais para
as constantes paradas para manutenções
manterem um padrão de qualidade em seus
corretivas inesperadas, resultando assim em
produtos e serviços. A competitividade do
uma eficiência abaixo da meta interna, de
mercado exige que elas mantenham uma
85%, para as linhas de produção. A empresa
constante busca por melhorias em todos os
em estudo possui planos de manutenção
seus aspectos, tanto administrativos como
preventiva, entretanto, mesmo com esses
fabris. Com esse propósito em mente, muitas
planos existe um percentual muito grande de
abordagens vêm sendo colocadas em prática
falha nos equipamentos. O equipamento no
como: Produção Enxuta, Sistema Toyota de
qual o estudo será realizado possui um
Produção (STP) e Lean Six Sigma. Contudo,
Tempo Médio entre Falhas (Mean time
ainda tem se observado uma falta de sinergia,
Between Failures – MTBF) de 3,8 dias, ou
entre os níveis gerencial e industrial, com
seja, aproximadamente a cada 4 dias, o
relação às estratégias para melhora da
equipamento quebra. Atualmente os gastos
qualidade e a gestão da manutenção, o que
com manutenções corretivas são
traz elevados custos à organização
substancialmente mais altos do que com
(CHIARINI; VAGNONI, 2014).
preventivas (em torno de quatro vezes mais),
No início dos anos 70 surgiu no Japão a além da parada para manutenção corretiva
metodologia Total Productive Maintenance – também incluir as perdas por não
Manutenção Produtiva Total (TPM) como uma produtividade.
alternativa à manutenção corretiva tradicional,
Desta forma, o presente trabalho tem como
adequando-se perfeitamente às exigências de
objetivo principal utilizar a análise de falhas no
maior disponibilidade do maquinário com
equipamento gargalo de uma das linhas de
melhor eficácia nas atividades de
produção para reduzir o número de paradas
manutenção. De acordo com Nakajima (1989)
não programadas para manutenção e
e Takahashi (2010), pode-se dizer que sem a
aumentar a eficiência do processo. Como
TPM não é possível tornar realidade a filosofia
objetivos secundários podem ser citados: (i)
do Sistema Toyota de Produção. Ainda
coletar os tempos entre falhas do
segundo Nakajima (1989), a TPM representa
equipamento em estudo, para que sejam
uma forma de revolução e de inovação, pois
elencadas as mais frequentes; (ii) investigar o
promove a integração total entre homem,
modo de falha mais crítico do equipamento;
máquina e empresa. A manutenção dos meios
(iii) implementar uma melhoria na máquina,
de produção passa, então, a envolver a
visando eliminar o modo de falha mais crítico;
preocupação e a ação de todos. O método
(iv) verificar, através da análise de
busca maximizar o ciclo de vida da máquina,
indicadores específicos, a efetividade das
aproveitando todos os recursos existentes e
ações de melhoria implementadas.
busca a perda zero, ou próximo de zero.
Em um trabalho dessa natureza algumas
O objetivo principal da TPM é a redução das
delimitações devem ser salientadas. Será
seis grandes perdas dos equipamentos, que
abordado apenas o equipamento gargalo da
é vista como requisito necessário para a
linha de produção em estudo, que se trata da
sobrevivência da organização. Tais perdas
máquina Enchedora. Também deve ser
podem ser classificadas em seis grandes
salientado que o presente trabalho não
grupos: (i) perdas por quebras; (ii) perdas por
abordará a parte de custos que foram
setup e ajustes; (iii) perdas por ociosidade e
despendidos para a implementação das
pequenas paradas; (iv) perdas por velocidade
melhorias no equipamento em estudo.
reduzida; (v) perdas por qualidade
insatisfatória e retrabalhos; e (vi) perdas por A Figura 1 mostra um resumo de alguns dos
queda de rendimento (KASIM et al., 2015). trabalhos desenvolvidos sobre os temas
abordados no presente trabalho,
Dentro desse contexto, o presente trabalho
apresentando as suas principais conclusões.
pode ser justificado considerando alguns

Gestão da Produção em Foco - Volume 12


78

Figura 1 - Trabalhos realizados sobre TPM, Manutenção Planejada e FMEA.

Fonte: elaborado pelos autores (2017).

2 MÉTODO DE TRABALHO (2015) e Silva e Andrade (2016), que


realizaram trabalhos similares. A Figura 2
O método de trabalho proposto para este
ilustra o fluxograma do método.
estudo é adaptado de Minuzzo e Andrade

Gestão da Produção em Foco - Volume 12


79

Figura 2 – Fluxograma do método de trabalho.

Fonte: adaptado de Silva e Andrade (2016); Minuzzo e Andrade (2015)

2.1 ETAPA DE ANÁLISE Na linha em estudo o equipamento Enchedora


é a que possui menor capacidade, sendo que
A etapa de análise começa com a definição
as máquinas anterior e posterior a ela
do equipamento gargalo da linha de
possuem uma capacidade 15% maior e as
produção. Segundo Barbosa (2015), a
demais 30% maior. O processo é definido
capacidade produtiva de uma linha de envase
desta forma para garantir que o gargalo não
é definida de acordo com um Gráfico em
pare por falta de insumos do equipamento
formato de “V”. Cada máquina do processo
anterior e nem por um acumulo de produtos
possui uma determinada velocidade nominal,
na saída da mesma. A Figura 3 apresenta o
para que seja possível manter a produção
Gráfico V da linha em estudo.
total a partir de sobrevelocidades em relação
ao equipamento gargalo da linha.

Figura 3 – Gráfico V: capacidade teórica da linha.

Fonte: elaborado pelos autores (2017)

Gestão da Produção em Foco - Volume 12


80

Na sequência foram levantados os dados de


falha do equipamento desde que o mesmo foi
3 APLICAÇÃO PRÁTICA
instalado (dados desde julho de 2005 até
setembro de 2016). Todos estes dados foram O trabalho foi realizado em uma organização
extraídos do sistema Enterprise Resource do ramo de envase de bebidas localizada na
Planning (ERP) da empresa. Com as cidade de Porto Alegre. A empresa possui
informações coletadas, membros da equipe seis linhas de produção e mais um setor à
de manutenção se reuniram com a equipe de parte denominado de Sopro, que alimenta três
operação para elaborar um FMEA (Failure destas seis linhas. O estudo foi realizado na
Mode and Effect Analysis) do equipamento Linha 4, pois é a segunda linha que mais
em estudo, visando determinar qual o modo produz na empresa e a que mais estava
de falha mais crítico. apresentando problemas relativos à
manutenção.

2.2 ETAPA DE APLICAÇÃO


3.1 DESCRIÇÃO DO PROCESSO
Com base nos resultados do FMEA foram
PRODUTIVO
elaborados um plano de ação e
implementadas melhorias sugeridas. A A linha em estudo é formada por seis
elaboração do plano de ação consistiu em equipamentos principais: a Sopradora,
sistematizar e definir, com base nos dados Rotuladora, Enchedora, Embaladora,
que foram coletados, quais os procedimentos Paletizadora e Envolvedora. A Sopradora é
a serem adotados visando reduzir a abastecida com a matéria-prima denominada
ocorrência do modo de falha mais crítico. de pré-forma, a qual ela transforma na garrafa
Para a implementação foi contratada uma PET. Na sequência a garrafa é enviada para a
empresa terceirizada, que é a fabricante do Rotuladora, que é responsável pela colagem
equipamento, para que pudesse dizer quanto do rótulo do produto que está sendo
tempo seria necessário para a realização das fabricado na garrafa. A garrafa então já com o
modificações na máquina. rótulo colado é enviada para a Enchedora,
onde a bebida já pronta e gelada é colocada
na garrafa e a mesma é fechada com a rolha.
2.3 ETAPA DE CONTROLE As garrafas prontas vão para a Embaladora,
que espera juntar a quantidade de quatro ou
Na sequência realizou-se o monitoramento do
oito garrafas, passa um filme encolhível em
modo de falha tratado, através dos novos
volta delas, aquece o mesmo para que ele se
apontamentos de paradas lançados no
fixe e prenda as garrafas juntas e forme os
sistema, com o objetivo de verificar se o
packs de produtos. Os packs vão então para
mesmo foi minimizado e/ou resolvido. Com os
a Paletizadora, que monta um pallet com
novos dados de falha que eram lançados
cinco camadas dos produtos, separados por
diariamente pela equipe da produção, foi
uma chapa de papelão chamada de chapatex
possível calcular os novos indicadores de
e o envia para a Envolvedora, que irá passar
MTBF e MTTR do equipamento, a fim de
um filme esticável de cima a baixo na volta
verificar se ocorreu uma diminuição na
dos produtos para que os mesmos não caiam
quantidade de quebras e as consequências
quando forem levados pela empilhadeira para
na eficiência da linha, que é determinada pela
dentro do armazém. A Figura 4 ilustra o
correta utilização dos recursos disponíveis
processo produtivo em estudo.
para produção dentro do tempo estimado e
com qualidade, representado pelo indicador
OEE.

Gestão da Produção em Foco - Volume 12


81

Figura 4 – Processo produtivo da Linha 4.

Fonte: elaborado pelos autores (2017)

3.2 DEFINIÇÃO DO PROBLEMA 85% da empresa e com isso dificultava a


empresa em suprir as demandas do mercado.
Através de coleta de dados e análises
realizadas verificou-se que a maior parte dos Desta forma, foram coletados dados de falha
problemas da Linha de Produção 4 estavam desde julho de 2005 (data de instalação do
relacionados ao equipamento Enchedora, que equipamento Enchedora na linha) até
é o equipamento que dita o ritmo da linha, setembro de 2016 no sistema da empresa.
pois é o gargalo da mesma (conforme Com isso foram encontrados os principais
observado na Figura 3). A capacidade modos de falha presentes no equipamento. A
nominal da máquina é de 21000 garrafas por Figura 5 mostra o gráfico de Pareto com os
hora; contudo, com as constantes paradas, a modos de falha mais frequentes encontrados.
eficiência da linha estava abaixo da meta de

Gestão da Produção em Foco - Volume 12


82

Figura 5 – Pareto da quantidade de falhas da Enchedora.


Fonte: elaborado pelos autores (2017)

Também foram coletados dados em um e rotuladas, são levadas através de um


período de seis meses antes do início do transporte aéreo, que segura a garrafa pelo
estudo, que se deu em setembro de 2016. pescoço até o Rinser. O mesmo então vira as
Desta forma foi possível calcular os valores de garrafas de cabeça para baixo e um jato de
MTBF e MTTR do equipamento, que água é lançado para o interior das garrafas, a
totalizaram, respectivamente, 3,8 dias e 47 fim de higienizar as mesmas. Após esse
minutos. Com estes valores foi possível processo elas são novamente viradas para
verificar a disponibilidade do equipamento, baixo e são transferidas através de estrelas
que antes das ações estava em 99,14%. mecânicas para serem enchidas (as estrelas
Tendo em vista a melhora no desempenho da são componentes da máquina que servem
linha, foi formada uma equipe com integrantes para realizar a transferência dos produtos
da manutenção e da produção (supervisores entre os subequipamentos); entretanto, estas
de manutenção e produção, técnicos e estrelas seguravam as garrafas pelo meio
operadores do equipamento em estudo). O delas, que é a parte mais frágil da mesma,
time analisou os seis modos de falhas mais desta forma facilitando que a garrafa fosse
frequentes que foram identificados e utilizou a amassada ou mesmo trancasse na hora da
ferramenta FMEA para determinar qual o mais passagem do Rinser para a Enchedora,
crítico. causando a parada do equipamento e
consequentemente da linha inteira.
Considerando a frequência de ocorrência das
quebras, o gráfico de Pareto com os modos Quando não ocorria esta falha na
de falha já havia dado um indício de que um transferência ainda era possível ocorrer um
problema importante era o de garrafas problema após a passagem das garrafas para
trancadas/amassadas na enchedora, o que a Enchedora, pois após ela receber as
ficou ratificado após a análise do FMEA pela garrafas a mesma precisa elevá-las até os
equipe. De acordo com os supervisores da bicos de enchimento e isso era feito através
linha de produção em análise, o problema se de um sistema que puxa as garrafas para
dava em uma etapa de transferência nas cima, o que muitas vezes também acabava
garrafas. A máquina Enchedora é formada por amassando as garrafas, caso as mesmas
três subequipamentos: o Rinser, a Enchedora estivessem levemente deslocadas. A Figura 6
em si (parte que enche as bebidas) e o mostra uma máquina Enchedora com os seus
Capsulador. As garrafas, depois de sopradas subequipamentos identificados.
Figura 6 – Máquina Enchedora completa.

Gestão da Produção em Foco - Volume 12


83

Fonte: www.directindustry.com (Acesso em junho de 2017)

Após a realização do FMEA e com o foco do Após os estudos realizados, e sabendo-se a


trabalho já direcionado para o modo de falha real causa do problema, a equipe chegou à
de garrafas trancadas/amassadas, foram conclusão de que a melhor forma de sanar
levantados novamente os dados de falha, mas e/ou minimizar o problema seria a substituição
desta vez filtrando somente este problema. das estrelas de transferência atuais e a troca
Considerando novamente um período de seis do sistema de elevação das garrafas na
meses (dados coletados de 01/04/2016 até Enchedora. Estas recomendações foram
30/09/2016) foram calculados o MTBF e MTTR apresentadas no FMEA, relacionadas ao
somente do modo de falha em estudo e os modo de falha de garrafas
valores encontrados foram respectivamente trancadas/amassadas, conforme mostra a
de 28 dias e 55 minutos. Figura 7.
Ações de melhoria implementadas

Figura 7 – Extrato do FMEA com ações recomendadas.

Fonte: elaborado pelos autores (2017)

Gestão da Produção em Foco - Volume 12


84

As novas estrelas de transferência do Rinser para posicionar as garrafas na hora que forem
para a Enchedora seguram as garrafas pelo transferidas para o Rinser, para que as
pescoço, que é a parte mais firme da mesma, mesmas não entrem tortas. A Figura 8 mostra
desta forma evita que elas amassem. A parte a nova estrela de transferência com os pontos
de baixo das estrelas é mais larga apenas de fixação da garrafa identificados.

Figura 8 – Estrela de transferência.

Fonte: os autores (2017)

A outra melhoria foi a modificação do sistema O sistema novo eleva as garrafas de baixo
de elevação da garrafa na enchedora até o para cima através de um pistão, desta forma a
bico de enchimento. O sistema antigo puxava garrafa não é levantada de forma tão brusca.
as garrafas para cima, o que muitas vezes as A Figura 9 mostra o novo sistema de
amassava ou fazia com que ficassem elevação.
trancadas caso estivessem mal posicionadas.
Figura 9 – Sistema de elevação de garrafas.

Fonte: os autores (2017)

Gestão da Produção em Foco - Volume 12


85

3.4 ANÁLISE E DISCUSSÃO DAS nos problemas identificados no decorrer do


MELHORIAS IMPLEMENTADAS processo. Com os componentes novos
instalados foi necessário regular o restante
As melhorias foram implementadas na
dos equipamentos da linha, cujas regulagens
máquina no mês de outubro de 2016. A partir
alteram conforme o produto que está
daí, com o sistema novo instalado, a equipe
rodando. Este período de readequação (em
continuou monitorando o comportamento do
torno de duas semanas) foi desconsiderado
equipamento até abril de 2017. Nos primeiros
na análise dos resultados por ser um tempo
dias de operação após as melhorias
de adaptação.
ocorreram alguns problemas devido a ajustes
no equipamento. Por ser um sistema novo, a De novembro de 2016 a abril de 2017 ainda
equipe da operação e manutenção teve que ocorreram algumas ocorrências do modo de
se adaptar à máquina e aos novos ajustes falha tratado, porém com uma frequência
necessários em toda a linha, visando uma muito baixa. A Tabela 1 mostra uma
adequada continuidade do processo. Nesse comparação entre os indicadores de MTBF e
processo em particular os operadores que MTTR somente do modo de falha tratado no
controlam a velocidade do equipamento, estudo seis meses antes da melhoria e seis
cujos mesmos identificam quando a meses depois.
velocidade pode ser aumentada com base

Tabela 1 – Comparação MTBF/MTTR garrafas amassadas

Fonte: elaborado pelos autores (2017)

Como este era um dos principais problemas geral do equipamento, considerando todos os
que causava quebra na linha, com a melhora modos de falha da máquina Enchedora. A
do mesmo, também foi possível notar uma Tabela 2 ilustra essa diferença.
diferença nos indicadores de MTBF e MTTR

Tabela 2 – Comparação MTBF/MTTR geral da Enchedora

Fonte: elaborado pelos autores (2017)

O valor de MTBF do equipamento no geral Todas as linhas de produção da empresa


apresentou um aumento de 45%, enquanto o possuem uma meta de 85%, que é baseada
de MTTR, uma diminuição de 46%. Também na demanda do mercado, e esta deve ser
foi possível notar uma diferença no valor da atingida ao final de cada mês. A Figura 10
disponibilidade do equipamento, que passou mostra a eficiência mensal da linha no
de 99,14% para 99,59%, desta forma decorrer do tempo em que a mesma esteve
aumentando o tempo em que a máquina está em estudo.
disponível para produzir.

Gestão da Produção em Foco - Volume 12


86

Figura 10 – Eficiência da linha de produção.

Fonte: elaborado pelos autores (2017)

Considerando que a melhoria foi tomada de decisão de qual estratégia a


implementada em outubro de 2016, é possível empresa deveria seguir para reduzir o número
observar que em nenhum dos seis meses de falhas. Através do FMEA, foi possível
anteriores, a linha atingiu a meta de 85% compreender melhor o comportamento do
estabelecida pela empresa. Dessa forma as equipamento, a causa de suas falhas e
outras linhas acabavam ficando efeitos, visando identificar qual o modo de
sobrecarregadas. Após as mudanças falha era o mais crítico no equipamento, e o
realizadas na Enchedora foi possível observar que mais estava afetando a eficiência do
que em todos os meses seguintes a linha processo.
atingiu a meta de eficiência, com exceção do
Dessa forma, conclui-se que as técnicas
mês de novembro, que foi o primeiro mês logo
utilizadas foram de suma importância para o
após as mudanças. Isto ainda pode ser
desenvolvimento desse trabalho e para a
explicado devido ao período de adaptação e
obtenção do objetivo esperado, pois são
ajustes do sistema novo e da regulagem do
ferramentas de apoio à decisão, de forma que
restante dos equipamentos para cada produto
indicam onde está o problema e como o
envasado na linha de produção.
mesmo deve ser tratado. Para trabalhos
futuros, sugere-se a aplicação da análise de
falhas, do uso de indicadores de
4 CONSIDERAÇÕES FINAIS
confiabilidade e de ferramentas como FMEA
O objetivo principal deste trabalho foi analisar no restante dos equipamentos da linha de
os principais modos de falha incidentes em produção e também nas demais linhas da
um equipamento gargalo de uma instalação fábrica. Com a melhora nos indicadores de
industrial, para tentar reduzir o número de MTBF e MTTR gerais da fábrica, o custo com
paradas não programadas para manutenções manutenções não programadas diminui
e aumentar a eficiência da linha. As técnicas substancialmente e em consequência disso a
de análise de falhas, os indicadores e a eficiência geral da fábrica aumenta.
ferramenta FMEA foram importantes para a

Gestão da Produção em Foco - Volume 12


87

REFERÊNCIAS
[1]. BARBOSA, A.L. Redução de tempos de [6]. MENDES, A.A.; RIBEIRO, J.L.D.
setup: aplicação de troca rápida de ferramentas Estabelecimento de um plano de manutenção
em indústria de bebidas. 2015. Dissertação baseado em análises quantitativas no contexto da
(Graduação em Engenharia de Materiais) – MCC em um cenário de produção JIT. Revista
Faculdade de Engenharia, UNESP, Guaratinguetá, Produção, v.24, n.3, p.675-686, 2014.
2015.
[7]. MINUZZO, G.S.; ANDRADE, J.J.O.
[2]. CHIARINI, A.; VAGNONI, E. World-class Estratégias de manutenção baseadas em análise
manufacturing by Fiat. Comparison with Toyota de confiabilidade: aplicação em uma máquina
Production System from a Strategic Management, automática de montagem de capacitores. Revista
Management Accounting, Operations Management Ingeniería Industrial, v.14, n.3, p.105-120, 2015.
and Performance Measurement dimension.
[8]. NAKAJIMA, S. TPM Development
International Journal of Production Research, 2014.
Program: Implementing Total Productive
[3]. DA CRUZ, L.C. Manutenção Produtiva Maintenance. Cambridge: Productivity Press, 1989.
Total: implementação numa fundição de alumínio.
[9]. SELLITTO, M.A. Formulação estratégica
2009. Dissertação (Mestrado em Engenharia e
da manutenção industrial com base na
Gestão Industrial) - Departamento de Economia,
confiabilidade dos equipamentos. Revista
Universidade de Aveiro, Aveiro, 2009.
Produção, v.15, n.1, p.44-59, 2005.
[4]. KASIM, N. I.; MUSA, M. A.; RAZALI, A.;
[10]. SILVA, F.G.; ANDRADE, J.J.O. Análise de
SAIDIN, W. A. Improvement of Overall Equipment
falhas de equipamentos da indústria metal-
Effectiveness (OEE) Through Implementation of
mecânica como subsídio para estabelecimento de
Total Productive Maintenance (TPM) in
atividades de manutenção. Espacios, v. 36, n. 12,
Manufacturing Industries. Applied Mechanics and
p. 17, 2016.
Materials, v. 761, p. 180-185, 2015.
[11]. TAKAHASHI, Y.; OSADA, T. Manutenção
[5]. LEAL, F.; DE PINHO, A.F.; DE ALMEIDA,
Produtiva Total. São Paulo: Instituto Iman, 2010.
D.A. Análise de falhas através da aplicação do
FMEA e da Teoria de Grey. Revista Gestão
Industrial, v.2, n.1, p.78-88, 2006.

Gestão da Produção em Foco - Volume 12


88

Capítulo 9

Francynara Matos Da Cruz De Almeida


Tássia Nayellen Costa Santos
Weslley Saullo Pereira Rodrigues
Bruno De Castro Silva

Resumo: a gestão ambiental é um assunto cada vez mais discutido nas


organizações que buscam competitividade no mercado. Mas a adesão de uma
estratégia ambiental e, por conseguinte, a vantagem competitiva só é gerada
quando o produto possuir um atributo que seja de interesse do consumidor. Devido
à necessidade do consumidor de avaliar um conjunto de alternativas para realizar
uma escolha ou decisão entre os produtos “verdes” oferecidos no mercado, este
trabalho possui como objetivo principal mensurar a influência de cada atributo do
produto “verde” na intenção de compra do mesmo, e como objetivos específicos
contextualizar a definição de estratégias ambientais e vantagem competitiva e
conceituar o método de análise multicritério de apoio à decisão - ahp. A pesquisa
foi feita com estudantes do curso de engenharia de produção da universidade
estadual do maranhão e mostrou uma ligeira inclinação pelo critério preço.

Palavras-chave: produtos “verdes”; vantagem competitiva; apoio à decisão; ahp.

Gestão da Produção em Foco - Volume 12


89

1. INTRODUÇÃO população quanto aos atributos de produtos


“verdes” que mais influenciam na intenção de
A gestão ambiental é um assunto cada vez
compra. E para isso realiza-se um estudo de
mais discutido nas organizações que buscam
caso por meio de coleta de informações feita
competitividade no mercado. Segundo
com questionários, que foram aplicados com
Jabbour e Santos (2006), o assunto foi
estudantes do curso de engenharia de
inserido nas organizações em três estágios: o
produção regularmente matriculado na
primeiro representa a atuação das empresas
Universidade Estadual do Maranhão no
na proteção ao meio ambiente, com o objetivo
primeiro semestre do ano de 2016.
de controlar a poluição e, muitas vezes, com o
objetivo de evitar multas. No segundo, a
gestão ambiental já atende a objetivos
2. REFERENCIAL TEÓRICO
específicos de determinadas divisões, que
passam a exigir uma participação mais efetiva 2.1 EVOLUÇÃO DA GESTÃO AMBIENTAL
da função ambiental. No último, a função a
A gestão ambiental tornou-se um tema muito
gestão ambiental já é integrada a estratégia
discutido por muitos autores, entre eles
da empresa e é vista como uma oportunidade
citamos Ramos (2013) e Jabbour e Santos
de negócio.
(2006). Os autores dizem que a gestão
Na intenção de permanecerem competitivas, ambiental tem por objetivo a proteção
as empresas passaram a adotar estratégias ambiental e segurança e saúde dos
ambientais para gerar vantagem competitiva empregados, clientes e comunidade, fazendo
em relação aos seus concorrentes. Santos e isso por meio de processo suportado por
Porto (2006) cita três estratégias ambientais, a políticas e práticas administrativas e
saber: produtividade dos recursos, negócios operacionais que estabelecem metas e
sustentáveis e reputação corporativa. objetivos para eliminar ou mitigar os impactos
e danos ambientais gerados pelas atividades
As empresas passaram a adotar estratégias
das empresas.
ambientais, porém a simples adoção não
significa um elemento capaz de proporcionar Ao longo dos anos, a gestão ambiental
vantagem competitiva para empresa. A evoluiu e passou por estágios característicos
vantagem competitiva só é gerada quando o (JABBOUR e SANTOS, 2006; ARAÚJO,
produto possui um atributo que seja de COHEN e SILVA, 2014). Segundo Jabbour e
interesse do consumidor, pois os atributos Santos (2006), existiram três estágios
ambientais devem proporcionar benefícios ao evolutivos da integração da questão
consumidor, à sociedade ou ao meio ambiental na organização, a saber:
ambiente. especialização funcional da gestão ambiental,
integração interna da dimensão ecológica e
Os produtos possuem atributos que refletem
integração externa da variável ecológica.
os benefícios proporcionados para o
consumidor, sociedade e meio ambiente. No primeiro estágio a preocupação das
Estes atributos são preço, procedência, empresas com a gestão ambiental tem como
disponibilidade no mercado, embalagem e objetivo o controle da poluição para atender a
design, o objetivo desta pesquisa é legislação e evitar o pagamento de multas. Na
responder: “qual dos atributos de produtos integração interna, a presença da gestão
“verdes” mais influenciam na intenção de ambiental não é mais pontual e passa a ser
compra do consumidor?”. observada em projetos específicos, somando
o atendimento da legislação as exigências do
Desta forma, o trabalho possui como objetivo
mercado. A gestão ambiental passa a ser
principal mensurar a influência de cada
observada como oportunidade de negócio no
atributo do produto “verde” na intenção de
terceiro estágio, quando as empresas mudam
compra do consumidor, e como objetivos
o foco do problema a ser resolvido para a
específicos contextualizar a evolução da
geração de vantagem competitiva, seja
gestão ambiental, definir estratégias
econômica ou estratégica. (Corazza, 2003;
ambientais e vantagem competitiva e
Maimon, 1994; Barbiere, 2004; Rosen, 2001;
conceituar o método de análise multicritério
Jabbour e Santos, 2006; Seiffert, 2005; Zutshi
de apoio à decisão AHP.
e Sohal, 2004; Porter e Van Der Linde, 1995).
A pesquisa possui característica descritiva e
estudo de caso, pois busca descrever as
características de preferência de uma

Gestão da Produção em Foco - Volume 12


90

2.2 ESTRATÉGIAS AMBIENTAIS E químicas da Alemanha Ocidental verificaram


VANTAGEM COMPETITIVA que as despesas realizadas com a gestão
ambiental se transformavam em vantagem
Desde a primeira citação no antigo
competitiva. Para Orsato (2002), a adoção de
testamento, o conceito de estratégia foi
estratégias ambientais deve ser motivada pela
largamente utilizado e pesquisado por muitos
geração de vantagem competitiva para a
autores. De origem grega, a palavra
empresa, porém, segundo Maimon (1994), o
estratégia deriva de “stratego” (tradução: o
que define a forma como elas serão
general), que significa planejar a destruição
incorporadas nas organizações é a
do inimigo por meio do uso eficaz de
percepção e influencia dos stakeholders.
recursos. Neste contexto, a estratégia
empresarial apresenta o termo vantagem Hart (1995, apud. Santos e Porto, 2006), em
competitiva, que representa a vantagem que seu modelo para analisar o potencial de
uma empresa possui em relação ao seu geração de vantagem competitiva por meio
concorrente, o que proporciona mais vendas de recursos naturais, aponta três estratégias
ou margens e maior retenção de clientes ambientais, que são aperfeiçoadas por Santos
(BRACKER, 1980; BODART, 1996). e Porto (2006) e chamadas de produtividade
dos recursos, negócios sustentáveis e
As variáveis ambientais, segundo Donaire
reputação corporativa, conforme demonstrada
(1999), começaram a ser utilizadas de forma
na figura 1.
estratégica, quando grandes empresas

FIGURA 1 – Três estratégias ambientais.

Fonte: Elaborado pelo próprio autor com base em Santos e Porto (2006).

A estratégia de produtividade dos recursos um consumidor não significa adesão aos


diz respeito a eficiência e efetividade com que demais comportamentos favoráveis ao meio
as empresas usam seus recursos, resultando ambiente. Portanto, a adesão de uma
na melhoria da produtividade e redução de estratégia ambiental só gera vantagem
custos. A estratégia de negócios sustentáveis competitiva quando o produto possuir um
consiste na entrega de produto que atributo ambiental desejado pelo consumidor.
apresentem benefícios ao meio ambiente e ao
Segundo Santos e Porto (2006), os atributos
consumidor, por meio da eliminação de
podem ser direcionados ao próprio
impactos ou fornecimento de benefícios. Já a
consumidor, ao meio ambiente ou à
estratégia de reputação corporativa, são
sociedade. O autor cita como exemplos de
iniciativas ambientais direcionadas para o
atributos direcionados ao consumidor, a
aumento da reputação da empresa, buscando
utilização de materiais orgânicos na
maximizar o prestígio da empresa na
composição do produto (mais saudáveis ao
sociedade (SANTOS e PORTO, 2006).
ser humano), o menor consumo de energia
Apesar da adoção das estratégias elétrica (redução de despesas) ou o aumento
ambientais, Coyne (1986, apud. Santos e do seu ciclo de vida (maior perecibilidade do
Porto, 2006) diz que um “produto verde” só produto). Já as duas últimas opções podem
possui vantagem competitiva no mercado, se ser exemplificadas como consumo de mais
o seu atributo ambiental estiver no repertório materiais sustentáveis (menor consumo de
de critérios chave de escolha do consumidor. recursos naturais), redução da emissão de
Laroche, Bergeron e Barbaro-Forleo (2001) gás carbônico na atmosfera ou doação de
reforçam na conclusão da sua pesquisa que o parte de receita para preservação ambiental.
comportamento ecologicamente correto de

Gestão da Produção em Foco - Volume 12


91

De forma geral, pode-se associar os quantitativos um problema de decisão,


benefícios citados nos exemplos de Santos e incorporando aspectos essencialmente
Porto (2006), características dos produtos, a subjetivos de forma a estabelecer claramente
saber: preço, procedência, disponibilidade no prioridades nas questões envolvidas,
mercado, embalagem e design. tornando essa técnica a mais indicada para o
propósito deste estudo.
2.3 Análise Multicritério de Apoio à Decisão
2.4 Método de Análise Hierárquica de
Andrade (2004) explica que “uma decisão é
Processos - AHP
um curso de ação escolhido pela pessoa,
como o meio mais efetivo à sua disposição O objetivo do AHP é a seleção/escolha de
para alcançar os objetivos procurados, ou alternativas em um processo que abrange
seja, para resolver o problema que a diferentes critérios de avalição. Na construção
incomoda”. Para Costa (2002), a principal de um modelo de estabelecimento de
característica de uma situação de decisão é a prioridades fundamentado na aplicação do
necessidade de avaliar um conjunto de método AHP, são desenvolvidas as seguintes
alternativas para então, realizar uma escolha etapas (COSTA, 2002):
ou decisão.
Construção de hierarquias: No AHP o
Segundo o mesmo autor, diversas problema é estruturado em níveis
metodologias têm sido desenvolvidas para a hierárquicos, como forma de buscar uma
construção de modelos no contexto da melhor compreensão e avaliação do mesmo.
tomada de decisão, entre elas encontra-se Nesta etapa fundamental do processo, são
uma vertente recente caracterizada por incluir identificados os elementos-chave para a
vários critérios na solução de problemas tomada de decisão (foco principal;
decisórios. Essas metodologias têm como alternativas; critérios e subcritérios, quando
função dar suporte ao processo da tomada de existirem), os quais são alocados em
decisão e são designadas Análise Multicritério camadas específicas dentro da hierarquia.
de Apoio à Decisão (COSTA, 2002).
Definição de prioridades e julgamentos: O
Durante a etapa de estudos relacionados, ajuste das prioridades no AHP fundamenta-se
foram encontradas várias metodologias na habilidade do ser humano de perceber o
pertencentes à análise multicritério. No relacionamento entre objetos e situações
entanto, após análise criteriosa, a lista se observadas, comparando pares em relação à
reduziu aos dois métodos mais conhecidos e luz de um determinado foco ou critério
utilizados: MACBETH (Measuring (julgamentos paritários) – essa comparação
Attractiveness by a Categorical Based entre pares de critérios é feita por meio da
Evaluation Technique) e Método de Análise construção de uma série de matrizes
Hieráquica (Analytic Hierarchic Process, quadradas. Os julgamentos obtidos, são
AHP). Em seguida, decidiu-se pelo segundo, convertidos para matrizes de julgamentos
cuja principal vantagem consiste na com o auxílio da escala de conversão
possibilidade de se modelar com dados apresentada no quadro 1.

QUADRO 1 – Escala fundamental de conversão. Fonte: Adaptado de Costa (2002).


Escala Numérica Escala Verbal

1 Igualmente importante

3 Moderadamente mais importante

5 Muito mais importante

7 Muitíssimo mais importante

9 Absolutamente mais importante

Consistência lógica: No AHP, é possível 3. METODOLOGIA


avaliar o modelo de priorização construído em
Segundo Gil (2002), Prodanov e Freitas (2009)
busca da sua consistência.
e Silva (2004), a pesquisa é classificada de

Gestão da Produção em Foco - Volume 12


92

acordo com o seu objetivo geral e quantificadas foi o questionário, que, segundo
procedimentos técnicos utilizados. Quanto ao Marconi e Lakatos (2003), é um instrumento
seu objetivo, o presente trabalho é de coleta de dados constituído por uma série
classificado como pesquisa descritiva, pois de perguntas, que devem ser respondidas
possui o objetivo de descrever as por escrito e sem a presença do
características de preferência de uma entrevistador. O questionário utilizado na
população quanto aos atributos de produtos pesquisa é de autoria própria e foi
“verdes” que mais influenciam na intenção de desenvolvido com base no método AHP, que
compra. Em relação ao procedimento técnico, busca representar e quantificar elementos de
a pesquisa é classificada como estudo de um problema para relacioná-los com as metas
caso, pois, segundo Gil (2008), o estudo de globais, oferecendo suporte para a tomada de
caso consiste no estudo profundo e detalhado decisão. Para análise e tabulação dos dados
de objetos para conhecê-los de forma ampla foi utilizado o software Microsoft Excel.
e detalhada.
A abordagem quantitativa e qualitativa foi
4. RESULTADOS E DISCUSSÕES
utilizada nesta pesquisa, pois ela quantifica as
opiniões qualitativas da população estudada A padronização do formato a ser utilizado nos
sobre a intenção de compra de produtos artigos é essencial para a correta edição dos
“verdes”. Segundo Gil (2008), população é o anais do evento. Este documento descreve os
conjunto de elementos que possuem aspectos da formatação do modelo de
determinadas características; a população artigos, portanto serve como referência.
considerada no trabalho é formada somente
Para desenvolver o Método AHP, foi
por estudantes do curso de Engenharia de
necessária a elaboração de critérios, que
Produção devidamente matriculados no
foram utilizados para o questionário e em
primeiro semestre de 2016 na Universidade
seguida adequados para a Matriz
Estadual do Maranhão.
Comparação. A tabela 1 mostra os critérios
O instrumento utilizado para levantar as analisados no estudo.
opiniões da população para serem

TABELA 1 - Critérios do questionário.


E1 Preço

E2 Procedência

E3 Disponibilidade no Mercado

E4 Embalagem

E5 Design do Produto

O questionário foi construído com um conjunto critérios apresentados e as respostas


de perguntas que objetivaram conhecer quais adquiridas nos questionários, lembrando que
são os principais critérios utilizados da para os valores considerados na tabela foram
decisão de compra de produtos verdes. Para utilizados os valores mais frequentes no
o questionário, foram considerados 48 alunos questionário, dessa forma a Matriz de
do Curso de Engenharia de Produção. Comparação é apresentada na tabela 2.
Após a coleta dos dados, foi possível montar
a Matriz de Comparação baseado nos

Gestão da Produção em Foco - Volume 12


93

TABELA 2 - Matriz de comparação.


Disponibilidade no Design do
Custo Procedência Embalagem
Mercado Produto

Custo 1 3 3 5 7

Procedência 1/3 1 5 3 5

Disponibilidade no
1/3 1/5 1 3 5
Mercado

Embalagem 1/5 1/3 1/3 1 5

Design do Produto 1/7 1/5 1/5 1/5 1

Após o desenvolvimento da Matriz foram valores encontrados para Cálculos do


realizados os Cálculos do Autovalor (lmáximo) Autovalor (lmáximo) Máximos. E com esses
Máximos, dos Índices de Consistência (IC) e valores também podemos determinar o peso
Consistência Randônica (IR), e a Razão de de cada critério.
Consistência (RC). A tabela 3 mostra os

TABELA 3 - Cálculos do autovalor (lmáximo) máximo.

Normalizado com
Ei E1 E2 E3 E4 E5 Auto Vetor Normalizado
Porcentagem

E1 1,00 3,00 3,00 5,00 7,00 3,16 0,45 45%

E2 0,33 1,00 5,00 3,00 5,00 1,90 0,27 27%

E3 0,33 0,20 1,00 3,00 5,00 1,00 0,14 14%

E4 0,20 0,33 0,33 1,00 5,00 0,64 0,09 8%

E5 0,14 0,20 0,20 0,20 1,00 0,26 0,04 4%

Soma 2,01 4,73 9,53 12,20 23,00 6,96 1,00 100%

Em relação aos pesos de cada critério, seguida (tabela 4), é feita a média aritmética
calculamos esses valores dividindo o valor de de cada linha com o seu respectivo valor.
cada coluna, com o seu somatório e em

TABELA 4 – Pesos por critério.


E1 E2 E3 E4 E5 Pesos

E1 0,50 0,63 0,31 0,41 0,30 0,432

E2 0,17 0,21 0,52 0,25 0,22 0,273

E3 0,16 0,04 0,10 0,25 0,22 0,155

E4 0,10 0,07 0,03 0,08 0,22 0,101

E5 0,07 0,04 0,02 0,02 0,04 0,039

Assim, pela ordem de importância, a tabela 5


mostra os pesos para cada critério:

Gestão da Produção em Foco - Volume 12


94

TABELA 5 – Total de pesos para cada critério.


Critérios Pesos

E1 Preço 0.432

E2 Procedência 0.273

E3 Disponibilidade no Mercado 0.155

E4 Embalagem 0.101

E5 Design do Produto 0.039

Em relação à Análise de Consistência, Realizados todos esses cálculos preliminares,


inicialmente calculou-se o valor dos auto- foi verificada a análise de Consistência da
vetores de cada critério, para isso foi Matriz. Em relação ao valor de lmáximo, o
realizado a média geométrica de cada linha cálculo é obtido através da matriz múltipla
de cada critério. Após isso, para encontrar os entre o somatório das colunas dos critérios,
valores normalizados foi feita a divisão do juntamente com o valor normalizado em
valor encontrado anteriormente, para cada porcentagem, assim obtemos o valor de 5,41.
critério, pelo somatório de cada auto-vetor Com esse valor podemos agora realizar os
calculado. Consequentemente, encontrado o cálculos subsequentes. Na sequência, foi
valor normalizado, multiplicou-se o valor calculado o Índice de Consistência com a
normalizado por 100 e encontrou-se o valor seguinte fórmula:
em porcentagem.

𝑙𝑚á𝑥𝑖𝑚𝑜 − 𝑛
𝐼𝐶 =
𝑛−1
Assim o valor de IC é:
5,41 − 5
𝐼𝐶 = = 0,10
4

O valor do IR (índice randômico médio) é um número de critérios. A tabela 6 faz a


valor tabelado, que varia de acordo com o identificação deste índice.

TABELA 6 – Identificação do índice randômico médio.

Ordem da
1 2 3 4 5 6 7 8 9 10
matriz

E1 0,00 0,00 0,58 0,90 1,12 1,24 1,32 1,41 1,45 1,49

Fonte: Saaty (1991).

Como foram definidos 05 critérios, então Em relação à Razão de Consistência, foi


segundo a tabela, o valor será igual a 1,12. obtido o seguinte resultado:

𝐼𝐶 0,10
𝑅𝐶 = = = 0,09
𝐼𝑅 1,12

Feito isso, o valor encontrado para a Razão de


Consistência foi 0,09 (ou 9%) como mostra a
tabela 7.

Gestão da Produção em Foco - Volume 12


95

TABELA 7 – Análise de consistência.


Análise de Consistência

Lmáximo 5,41

Índice de Consistência (IC) 0,10

Índice de Consistência Randonica (IR) 1,12

Razão de Consistência (RC) 0,09 ou 9%

5. CONSIDERAÇÕES FINAIS avaliar o grau de consistência dos


julgamentos. Como o valor encontrado para a
O método de Análise Hierárquica de
Razão de Consistência foi 0,09 (ou 9%) logo
Processos (AHP) se mostrou uma metodologia
inferior a 10%, podemos considerar os
eficaz para transformar aspectos
resultados muito consistentes. Dessa forma, o
essencialmente subjetivos em dados
modelo se mostrou confiável, de fácil
quantitativos, permitindo avaliar a escolha do
aplicação, atingindo os objetivos que foram
atributo de produto “verde” que melhor
propostos de maneira rápida e eficiente.
atende o foco principal, através do uso de
termos de fácil entendimento. Os resultados da quantificação dos atributos
que mais influenciam a decisão de compra do
Com base na opinião dos estudantes, o
consumidor mostram que o critério E1 (preço),
atributo E1 (preço) é o que melhor atende o
merece atenção por parte dos especialistas,
objetivo principal. Com intuito de assegurar a
portanto, podem ser utilizados pelos mesmos
qualidade dos resultados obtidos, bem como
como forma de vantagem competitiva sobre
da modelagem e das avaliações envolvidas,
os concorrentes.
utilizou-se a análise de consistência para

REFERÊNCIAS
[1]. ANDRADE, E. L. de. Introdução à [5]. COSTA, H. G. Introdução ao método de
pesquisa operacional. 3. ed. Rio de Janeiro: LTC análise hierárquica: análise multicritério no auxílio à
Editora, 2004. decisão. Rio de Janeiro: 2002.

[2]. ARAUJO, Gabriel Aguiar de. COHEN, [6]. DE ARAÚJO, Gabriel Aguiar; COHEN,
Marcos. SILVA, Jorge Ferreira de. Avaliação do Marcos; DA SILVA, Jorge Ferreira. Avaliação do
efeito das estratégias de gestão ambiental sobre o Efeito das Estratégias de Gestão Ambiental Sobre
desempenho financeiro de empresas brasileiras. o Desempenho Financeiro de Empresas
Disponível em: < Brasileiras. Revista de Gestão Ambiental e
http://www.revistageas.org.br/ojs/index.php/geas/ar Sustentabilidade-GeAS, v. 3, n. 2, p. 16-38, 2014.
ticle/view/93> Acesso em: 05 abr. 2015.
[7]. GIL, Antônio Carlos. Métodos e técnicas
[3]. BARBOSA, Maria de Fátima Nóbrega. de pesquisa social. 6. ed. São Paulo: Atlas, 2008.
CANDIDO, Gesinaldo Ataíde. Práticas ambientais e
[8]. GIL, Antônio Carlos. Como elaborar
suas relações com a competitividade e a
projetos de pesquisa. 4. ed. São Paulo: Atlas, 2008.
sustentabilidade: um estudo de caso em empresa
agroindustrial. Disponível em: < [9]. GOLDRATT, Eliyahu M. Não é sorte.
http://www.anpad.org.br/admin/pdf/2012_ESO1325 Tradução de Thomas Corbett Neto. São Paulo:
.pdf > Acesso em: 05 abr. 2015. Nobel, 2004.

[4]. BESANKO, David et al. A economia da [10]. JABBOUR, Charbel José Chiappetta;
estratégia. Bookman, 2007. SANTOS, Fernando César Almada. Evolução da
gestão ambiental na empresa: uma taxonomia
integrada à gestão da produção e de recursos

Gestão da Produção em Foco - Volume 12


96

humanos. Gestão & Produção, v.13, n.3, p.435- [14]. MINTZBERG, Henry et al. Safári de
448, set.-dez. 2006. estratégia: um roteiro pela selva do planejamento
estratégico. Porto Alegre: Bookman, 2010.
[11]. MARCONI, M. A. de; LAKATOS, E.M.
Fundamentos de metodologia científica. 5. ed. São [15]. PORTER, Michael. Estratégia competitiva:
Paulo: Atlas, 2003. técnicas para análise de indústrias e da
concorrência. Tradução de Elizabeth Maria de
[12]. MARCONI, M. A. de; LAKATOS, E.M.
Pinho Braga. – 2. Ed. – Rio de Janeiro: Elsevier,
Técnicas de pesquisa. 5. ed. São Paulo: Atlas,
2004 – 12° reimpressão.
2002.
[16]. BINDER, Marcelo P. Estratégias genéricas:
[13]. MAUBORGNE, Renée; KIM, W. Chan. A
posições discretas ou contínuas? Disponível em:
estratégia do oceano azul: como criar novos
<www.anpad.org.br/diversos/trabalhos/3Es/3es_20
mercados e tornar a concorrência irrelevante. Rio
03/2003_3ES56.pdf> Último acesso em: 20 mar.
de Janeiro: Elsevier, 2005.
2015.

Gestão da Produção em Foco - Volume 12


97

ANEXO A – QUESTIONÁRIO APLICADO PARA COLETA DA PESQUISA DESCRITIVA

Gestão da Produção em Foco - Volume 12


98

Capítulo 10

Débora Paula Borges de Oliveira Cechin


Adriano Cechin

Resumo: Este trabalho tem por objetivo analisar o grau de envolvimento de uma
empresa quanto a utilização da filosofia leansigma. Tal análise é realizada através
do uso de um modelo de avaliação das ferramentas do sistema de produção
enxuta que busca demonstrar onde e quais ações podem ser tomadas para uma
maior utilização na prática do conceito e das ferramentas da filosofia leansigma.
Para tanto, foram estabelecidos 10 elementos essenciais da filosofia leansigma,
atribuindo peso para cada pergunta e o peso de cada elemento. No final da
avaliação é gerado um gráfico de radar para uma maior compreensão dos
resultados, para verificar o grau de envolvimento da implementação da filosofia
leansigma. Através deste estudo espera-se que os resultados sirvam como base
para um plano de ação visando a melhor e maior utilização das ferramentas do
leansigma para um aumento da disseminação desta filosofia dentro das
organizações. Como resultado a avaliação qualitativa das ferramentas leansigma
auxiliaria na manutenção e sustentação da filosofia leansigma que demonstraria
onde as ferramentas desta filosofia estão sendo utilizadas com maior frequência na
empresa e saberíamos os pontos onde se podem melhorar os elementos que
apresentarem resultados inferiores.
Palavras-chave: Lean; Six Sigma; Leansigma; Avaliação Qualitativa.

Gestão da Produção em Foco - Volume 12


99

1. INTRODUÇÃO Produção, adotando critérios de peso e notas


para dez elementos julgados essenciais para
Em um cenário de transformações
implantação deste processo, através da
econômicas, onde as empresas não podem
utilização de pesquisas de modelos já
permanecer iguais por muito tempo, sua
utilizados em outras empresas (TBM,
sobrevivência depende de habilidade,
Daimlerchrysler e outras).
flexibilidade e busca de melhoria contínua. A
melhoria contínua se destaca por demandar Para melhor compreensão deste trabalho,
baixo investimento e proporcionar a elevação este texto está organizado do seguinte modo.
da qualidade e produtividade em seus Na seção 1 foram apresentados os objetivos e
processos. metodologia do trabalho. Na seção 2 é
apresentada uma revisão teórica sobre a
Na busca pela excelência de seus processos
filosofia lean, six sigma e leansigma bem
e sustentação de seu crescimento em longo
como a estrutura de apoio utilizada para
prazo, os objetivos estratégicos das empresas
análise neste estudo. Á seção 3 é
são focalizados no alcance do sucesso em
apresentado o modelo de avaliação
processos produtivos, proporcionando
qualitativa das ferramentas leansigma e
crescimento quantitativo e qualitativo.
aplicação do mesmo em uma empresa do
Para enfrentar este desafio, as organizações setor automobilístico localizada fora da
vêm buscando novas ferramentas para suprir grande São Paulo. E ainda, na seção 4 são
o aumento brusco nos custos, excesso de feitas as considerações finais.
produção, perdas com estoque, a perda
devido desperdícios de processo, redução do
retrabalho e controle da qualidade para 2. LEANSIGMA
alcançar uma real lucratividade e garantir sua
2.1 LEAN
sobrevivência. Uma prática que tem sido
amplamente utilizada para enfrentar este Métodos lean de produção (lean production),
cenário é a filosofia leansigma. segundo Sharma e Moody (2003), são
baseados em uma produção de fluxo unitário,
Neste sentido, este trabalho realiza uma
de acordo com a demanda real de produção,
avaliação qualitativa do grau de envolvimento
tornando um processo enxuto onde trabalham
da empresa com os programas leansigma e
para atender a demanda ao sinal do cliente. O
sua aderência na organização, através da
processo lean oferece aos fabricantes a
metodologia de avaliação desenvolvida pela
oportunidade de trabalhar de maneira mais
autora deste estudo.
inteligente, com menos operadores, material
Em geral o objetivo deste estudo é que os e, principalmente, menos custos.
resultados dessa avaliação sirvam como base
De acordo com Sharma e Moody (2003, p.74):
para um plano de ação visando a melhor e
maior utilização da filosofia leansigma para Os praticantes da metodologia lean relatam
um aumento da disseminação da mesma. Isso que a maior mudança alcançada por todas as
auxiliaria na manutenção e sustentação da áreas de operações é a passagem dos
filosofia leansigma que demonstraria onde as métodos de ‘empurrar’ para os métodos de
ferramentas da filosofia lean estão sendo ‘puxar’ a produção baseados na demanda ou
utilizadas com maior freqüência na empresa e necessidade do cliente.
saberíamos os pontos a melhorar os
A produção lean tem foco centrado no cliente,
elementos que apresentarem resultados
oferecendo serviços e produtos de qualidade
inferiores.
com rapidez de resposta delegando poder ao
A metodologia utilizada para elaboração funcionário tendo concorrência intensiva
deste trabalho foi a pesquisa teórico-empírica. sempre com o foco na eliminação de
Quanto a parte teórica, foi realizada revisão desperdícios, mantendo ações e orientações
bibliográfica em revistas, livros, jornais, sites nos resultados de forma rápida visando
que tratam do tema e um instrumento de acabar com imperfeições na busca da
avaliação elaborada por Oliveira (2009), a “produção perfeita”.
autora deste estudo. Quanto a parte empírica,
Após a primeira guerra mundial, Alfred Sloan
entrevistas, questionários, pesquisa e
da General Motors e Henry Ford conduziram a
aplicação da avaliação proposta. Além disso,
fabricação mundial de séculos de produção
a criação de um checklist baseado nos
em massa, lideradas pelas industrias
princípios e ferramentas do Sistema Toyota de

Gestão da Produção em Foco - Volume 12


100

européias. Logo após a Segunda Grande japonês estava inteiramente exausto e as


Guerra, o Japão se encontrava em uma condições econômicas, afetadas pela
situação socioeconômica de desaceleração depressão. Devido às condições econômicas
de seu crescimento, crise e baixa demanda. no Japão, a Toyota passou por uma crise na
Este cenário fez com que as indústrias administração, mas não desistiu da ambição
japonesas buscassem melhorias em seus de vencer na indústria automobilística.
processos produtivos que reduzissem seus
Teve de aumentar a produtividade oito vezes.
custos e ao mesmo tempo em que atendesse
O poder de compra seria limitado se
as oscilações de demanda; precisavam de
continuassem a produzir 1000 caminhões
um sistema que fosse mais eficiente, flexível,
através da produção diversificada em
ágil e inovador em comparação ao sistema de
pequena quantidade. Embora já houvesse
produção em massa.
sido desenvolvido o método de produção em
Segundo Womach & Jones & Ross (1992), em massa nos EUA a Toyota não podia adotar
1950 um jovem engenheiro japonês Eiji Toyota esse sistema.
saiu para estudar a fabrica Rouge da Ford
Então a empresa teve que desenvolver um
(maior e eficiente complexo fabril do mundo).
sistema próprio para produzir veículos a baixo
Após ter estudado a fabrica da Ford, ele
custo, a única possibilidade de sobrevivência
observou que precisava copiar ou melhorar o
era desenvolver um sistema único de
sistema de produção da Ford em sua
produção por eles mesmo da Toyota.
empresa - a Toyota. Quando voltou para sua
cidade, Eiji Toyota e seu gênio de produção,
Taiichi Ohno, chegaram à conclusão que a
2.1.1 PRINCÍPIOS PARA IMPLANTAÇÃO DO
produção em massa jamais funcionaria no
PROCESSO LEAN (SISTEMA TOYOTA DE
Japão. Depois de repetidas tentativas e erros
PRODUÇÃO)
nasceu o que a Toyota veio a chamar de
Sistema Toyota de Produção (STP) ou Sistema Conforme aponta Shingo (1996), o objetivo
de Produção Enxuta (lean production). central do Sistema Toyota de Produção (STP)
consiste em capacitar as organizações para
Womach & Jones & Ross (1992) descrevem
responder com rapidez a demanda do
que o sistema de produção enxuta em alguns
mercado através do alcance das principais
segmentos industriais se apresenta superior
dimensões da competitividade: flexibilidade,
ao sistema de produção em massa, pois os
custo, qualidade, atendimento e inovação.
produtos enxutos almejam abertamente a
perfeição levando a busca de custos sempre Na Toyota, o principal princípio para o
declinantes, ausência de itens defeituosos, funcionamento do STP é a busca constante
nenhum estoque e uma miríade de novos pela redução dos custos através da
produtos. eliminação das perdas de produção,
atividades desnecessárias que geram custos
De acordo com Taiichi Ohno (1997): O
e que não agregam valor ao cliente.
Sistema Toyota de Produção desenvolveu-se
a partir de uma necessidade. Certas Taiichi Ohno, o grande idealizador do Sistema
restrições no mercado tornaram necessária a Toyota de Produção, propôs que as perdas
produção de pequena quantidade de muitas fossem identificadas e agrupadas em sete
variedades (de produtos) sob condições de categorias: perda por superprodução; perda
baixa demanda; foi esse o destino da por espera; perda por transporte; perda no
indústria automobilística japonesa no período processamento; perda por estoque; perda por
pós-guerra. movimentação; perda na produção de
produtos defeituosos.
Segundo Moura (1999), depois da II Guerra
Mundial, a Toyota recebeu uma autorização Segundo Liker (2006), o Sistema Toyota de
do exército americano para fabricar Produção segue 14 princípios para
caminhões. O propósito era reconstruir a implementação deste sistema o qual é
empresa. baseado em decisões administrativas em uma
filosofia de longo prazo, criação de um fluxo
Naquela época, a Toyota tinha apenas
de processo continuo, usar sistemas puxados
máquinas e instalações para uso em tempo
(adoção do just-in-time), nivelar a carga de
de guerra e a produtividade era bastante
trabalho, construir uma cultura de parar e
baixa, ou seja, existia uma elevada
resolver problemas (Jidoka), estabelecer
capacidade ociosa. O mundo industrial
tarefas padronizadas, usar controle visual,

Gestão da Produção em Foco - Volume 12


101

utilizar somente tecnologia confiavel e Segundo Werkema (2008), o six sigma®


completamente testada, desenvolver lideres nasceu na Motorola, em 15 de janeiro de
que compreendam e vivam a filosofia da 1987, com o objetivo de tornar a empresa
empresa, desenvolver pessoas e equipes com o valor competitivo maior que seus
excepcionais que sigam a filosofia da concorrentes, que na época fabricavam
empresa (kaizen), respeitar e criar parceria produtos de qualidade superior a preços
com os stakeholders, praticar ações menores. Este programa foi lançado em uma
preventivas para resolver problemas e palestra por Bob Galvin, mas o criador dos
melhorar processos atraves da origem do conceitos e métodos do seis sigma ou six
problema (diagrama de Ishikawa), tomar sigma® foi Bill Smith, um engenheiro e
decisões lentamente por consenso, cientista que trabalhava no negócio de
considerando completamente todas as produtos de comunicação da Motorola. A
opções e implementá-las com rapidez, partir de 1988, quando a Motorola recebeu o
criando um processo (kaizen), tornar-se uma prêmio Nacional de Qualidade Malcolm
organização de aprendizagem através da Baldrige, por obter ganhos de 2,2 bilhões de
reflexão incansável (hansei) e da melhoria dólares com o programa, o six sigma®
contínua (kaizen). tornou-se conhecido como o programa
responsável pelo sucesso da organização.
Com isso várias outras empresas começaram
2.2 METOLOGIA SIX SIGMA® a implementar este programa e a divulgarem
os enormes ganhos alcançados por elas.
CONFORME WERKEMA (2008, P.11):
A meta do six sigma® é chegar o mais
O Seis Sigma é uma estratégia gerencial
próximo a zero defeito no máximo 3,4 defeitos
disciplinada e altamente quantitativa, que tem
para cada milhão de operações realizadas. A
como objetivo aumentar drasticamente a
Tabela 1 demonstra a escala six sigma® no
lucratividade das empresas, por meio da
alcance dos padrões six sigma®, onde
melhoria da qualidade de produtos e
mostra os defeitos dos produtos por milhão e
processos e do aumento da satisfação de
o faturamento da empresa a cada nível six
clientes e consumidores.
sigma® implementado, onde quanto maior o
O objetivo do six sigma® é medir a valor alcançado no nível six sigma® menor
variabilidade do processo através de será sua quantidade de defeitos e maior será
ferramentas estatísticas, para que diminua ou seu faturamento.
acabe com os defeitos de produção.

TABELA 1: Nível Six Sigma


Tradução do nivel da qualidade para a linguagem financeira

Custudo da não-qualidade (percentual do


Nivel da qualdiade Defeitos por milhão
faturamento da empresa)

Dois sigma 308.537 Não se aplica

Três sigma 66.807 25 a 40%

Quatro sigma 6.210 15 a 25%

Cinco sigma 233 5 a 15%

Seis sigma 3,4 <1%

Fonte: Werkema (2004, p. 17).

Alguns estudiosos, empresarios e uma nova filosofia de trabalho o leansigma o


acadêmicos têm utilizado a filosofia lean qual estará sendo abordado a seguir.
juntamente com o six sigma, trazendo assim

Gestão da Produção em Foco - Volume 12


102

2.3 LEANSIGMA® A COMBINAÇÃO ENTRE


LEAN E SIX SIGMA®
3. ESTUDO DE CASO
Para Sharma e Moody (2003) à medida que a
3.1 AVALIAÇÃO QUALITATIVA DAS
empresa vai se tornando cada vez mais
FERRAMENTAS LEANSIGMA
enxuta (lean), os aprimoramentos intuitivos
tornam-se difíceis, e é quando as empresas Oliveira (2009), a autora deste estudo,
exigem ferramentas estatísticas mais elaborou um projeto de avaliação qualitativa
avançadas para corrigir anomalias na causa das ferramentas leansigma baseado nas
raiz. É neste momento, que se torna normas SAE J4000 e SAE J4001 e na
necessário acrescentar algumas ferramentas concepção teórica do leansigma, com a
sofisticadas do six sigma®. Quando as finalidade de avaliar a absorção dos
ferramentas six sigma® de análise estatística princípios e ferramentas leansigma pela
são combinadas com o lean tem-se a origem cultura organizacional de trabalho e suas
ao leansigma, levando a empresa a níveis de respectivas mudanças geradas com a
excelência avançada. implementação deste processo.
De forma simples o leansigma é um sistema O presente estudo consiste em um trabalho
de produção com uma estratégia de técnico de uma metodologia para se avaliar a
gerenciamento com o foco de reduzir o prazo aplicação das ferramentas da filosofia
de entrega em todas as fases do processo, leansigma, voltado para a transformação
melhorar a qualidade, o custo e a entrega do cultural de uma empresa.
produto final estabelecendo capacidade de
Para tanto, a metodologia utilizada foi a
resposta de vantagem competitiva permitindo
aplicação de um checklist baseado nos
o crescimento da lucratividade; construindo
princípios da produção enxuta, apresentados
uma cultura de envolvimento que encoraja a
neste artigo, como ferramenta de diagnóstico
melhoria continua. Em poucas palavras, o
para uma empresa do setor automobilístico
leansigma tem foco no que agrega ou não
localizada fora da grande São Paulo.
valor na cadeia produtiva para o cliente,
Procurou-se demonstrar as boas práticas das
gerando vantagem competitiva.
ferramentas do processo leansigma no qual a
Sharma e Moody (2003, p.13) afirmam que “o empresa terá como resultado, indicadores de
leansigma® é um processo que transforma as onde ela esta efetivamente utilizando a
organizações, mas não as leva a um ferramenta certa no lugar certo, onde esta
determinado destino. Isto quer dizer que se sendo empregado efetivamente os conceitos
você parar, estará fora do jogo”. leansigma destacando o grau de aderência
da empresa em relação a implementação das
Segundo Sharma e Moody (2003), a TBM
ferramentas leansigma.
Consulting Group – Time Based Management,
utiliza uma própria técnica “transformação A aplicação deste checklist, portanto, tem
leansigma” com o objetivo de superar os como finalidade verificar a consistência da
efeitos que o sistema sofre, causados pelas aderência das pessoas ao processo de
mudanças rápidas pela aplicação da melhoria continua. Além disso, foram
metodologia kaizen. O leansigma mantém os estabelecidos 10 elementos essências da
resultados utilizando a filosofia kaizen filosofia leansigma atribuindo peso para cada
tornando o processo sólido onde combina as pergunta e o peso de cada elemento,
melhores ferramentas do six sigma® com os demonstrado abaixo na Figura 1.
conceitos de transformação para a
manufatura lean, que utiliza a rapidez da
metodologia kaizen.

Gestão da Produção em Foco - Volume 12


103

FIGURA 1 – Parametros.

Fonte: própria autora

Os niveis de avaliação para cada uma das Elemento 4: Balanceamento da Produção


perguntas de cada elemento são:
Elemento 5: Controle de Qualidade Zero
Fraco: O componente não está Defeitos (CQZD)
completamente implementado ou existem
Elemento 6: Gerenciamento Visual
grandes inconsistências na sua
implementação. Elemento 7: Just - in - Time
Forte: O componente está implementado e Elemento 8: Manutenção Produtiva Total
apresenta resultados efetivos até 50% de
Elemento 9: Mapeamento do Fluxo de Valor
resultados.
Elemento 10: Nivelamento da Produção
Muito Forte: O componente está efetivamente
implementado e apresentou melhorias de O peso de cada elemento foi proposto de
resultados durante o último ano. acordo com o impacto deste elemento na
implantação da filosofia leansigma.
O estágio de implementação de cada
componente é associado aos principios A pontuação fraco, forte e muito forte foi
básicos para implantação da filosofia estabelecida para cada uma das perguntas
leansigma, citados a seguir: de cada elemento desta filosofia, onde é feita
uma avaliação em campo respondendo a um
Elemento 1: Ética e Organização
checklist composto por várias perguntas de
Elemento 2: Transformação Cultural - Melhoria cada elemento, como o exemplo demonstrado
Contínua na Figura 2.
Elemento 3: Autonomação (JIDOKA)

FIGURA 2 – Elemento 03 – Autonomação (Jidoka).

Elemento 3 - Autonomação (JIDOKA)


DESCRIÇÃO DO ITEM AVALIADO CLASSIFICAÇÃO PONTUAÇÃO ANALISE DA PONTUAÇÃO
3.1: As máquinas são dotadas de dispositivos que detectam anormalidades (Ex.: peças defeituosas,
FORTE 16
quebra de máquina, etc.)?

3.2: As máquinas param automaticamente quando alguma anormalidade é detectada? FORTE 16

3.3: Os funcionários têm autonomia de paralisar a linha quando alguma anormalidade é detectada? FORTE 16

3.4: Há painéis sinalizadores para indicar os postos paralisados ( Ex.: painéis andon)? FRACA 8

IMPLEMENTAÇÃO
Classificação Geral do Elemento Nota 14
FORTE

Fonte: própria autora

Gestão da Produção em Foco - Volume 12


104

O procedimento para avaliação de uma a empresa ainda não possui six sigma, mas
organização segundo os elementos e estará começando sua implantação em breve.
requisitos da avaliação qualitativa das Em uma visão geral dos resultados desta
ferramentas leansigma, segue a seguinte avaliação podemos observar que o elemento
lógica seqüencial: mais fraco dentro da empresa é a
transformação cultural, ou seja, a mudança e
incorporação da filosofia leansigma em seus
1. Cada componente necessitará de um funcionários e o elemento que apresentou
conjunto característico de atributos da maior índice é o controle de qualidade zero
organização; defeitos, pois a empresa investe fortemente
na identificação e controle de causa-raiz de
2. O avaliador deverá determinar quais as
defeitos, há baixo índice de retrabalhos onde
características específicas que devem ser
existem vários documentos sobre qualidade,
avaliadas;
procedimentos de auditorias como observado
3. Cada elemento usa critérios gerais; na empresa em praticamente todos os postos
de trabalho e também é utilizada inspeção na
4. Depois de definir as características
fonte onde caso haja alguma anomalia dentro
especificas a serem avaliadas para cada
do processo produtivo é feito uma
pergunta e obter as informações
identificação e controle dos erros gerados de
necessárias, o elemento é analisado.
defeitos. Existe ainda na empresa, como
5. A análise do avaliador é documentada, observado, indicadores de processo e
através de relatórios e da descrição dos resultados relativos à qualidade em todos os
atributos que definem os resultados obtidos. postos de trabalho, são frequentes as
combinações de poka-yoke e a empresa
6. E então é descrito na avaliação a analise
apresenta inspeção de qualidade em 100%
da pontuação, ou seja, em que foi baseada
dos itens fabricados.
a pontuação ou resposta de cada pergunta.
A seguir são relatadas as observações e
análise do resultado de cada elemento desta
No final da avaliação é gerado um gráfico de ferramenta avaliativa de forma isolada.
radar para uma maior compreensão dos
Podemos analisar que no elemento 01 há uma
resultados e a meta proposta pela
diferença de 06 pontos em seu resultado
organização, se a implementação da filosofia
geral em relação à meta pretendida de 18
leansigma esta fraca, forte ou muito forte.
pontos. Alguns investimentos que a empresa
poderá estar elaborando engloba uma maior
comunicação das metas leansigma, um maior
3.2 APLICAÇÃO DA AVALIAÇÃO
discernimento das mesmas, incentivos aos
QUALITATIVA DAS FERRAMENTAS
funcionários para recompensar os progressos
LEANSIGMA
desta filosofia na empresa. Destaca-se ainda
A Figura 3 demonstra a aplicação da neste elemento que nenhum funcionário é
avaliação qualitativa da filosofia leansigma, “obrigado” ou coagido a participar dos
em uma empresa no setor automobilístico programas leansigma (kaizen) nesta empresa.
localizada fora da grande São Paulo. Esta
O elemento 02 relacionado à transformação
aplicação foi realizada in loco, na qual a
cultural, o item de maior peso desta avaliação
autora visitou a empresa, durante um período
ainda se encontra defasado e com um índice
de 04 horas, acompanhada com o gestor da
baixo dentro da organização, por referir-se ao
área de qualidade e engenheiros. Foi
item mais importante para a implantação da
realizado essa pesquisa através de
filosofia leansigma. Para aumentar sua
observações em campo feita pela autora,
pontuação neste elemento a empresa pode
analises de dados demonstrados pelo
optar por um maior envolvimento e
gerente, analistas e engenheiros do setor de
desenvolvimento dos conhecimentos sobre a
qualidade da empresa estudada. O resultado
filosofia leansigma aos seus funcionários.
como se pode observar que a empresa em
Além disto, estar disponibilizando premiações
questão ainda esta começando o processo de
aos empregados para o avanço da filosofia.
implantação da filosofia leansigma e não esta
fortemente implantada. Certamente um dos No elemento 03 há uma diferenciação a
fatores que afeta o baixo resultado geral da menos de 10 pontos em relação à meta, onde
implantação desta filosofia está no fato de que para elevação deste resultado a empresa

Gestão da Produção em Foco - Volume 12


105

poderá investir em seus mecanismos e gerenciamento da ferramenta just-in-time. É


tecnológicos para a automação de seus um elemento que esta muito bem
processos produtivos. desenvolvido na empresa e há uma grande
sustentação e utilização da ferramenta just-in-
Em relação ao balanceamento da produção
time na empresa.
demonstrado no elemento 04 há uma
diferenciação a menos que 08 pontos em O elemento 08 é um elemento que esta muito
relação à meta pretendida, mas é bem consolidado na empresa, e é de grande
considerado um índice bom por ser importância para a prevenção de paradas de
considerado um elemento muito flexível. produção e consequentemente a diminuição
de possíveis custos para a empresa caso haja
Como já ressaltado o elemento 05 referente
paradas na produção. Existe planejamento,
ao controle de qualidade zero defeitos é o
verificação, programação e manutenção
elemento da filosofia leansigma mais forte
sistêmica/autônoma relacionado à
dentro da empresa, pois a empresa apresenta
manutenção produtiva total.
um alto nível de controle relacionado a
anomalias em todas as etapas do processo Quanto ao mapeamento do fluxo de valor
produtivo. abordado no elemento 09 a uma
diferenciação de 10 pontos a menos em
O gerenciamento visual abordado no
relação à meta. A empresa apresenta
elemento 06 apresenta que a empresa em
mapeamento do fluxo de valor, mas
questão possui indicadores visuais como
posteriormente poderá estar investindo em
placas de segurança, indicadores e locais de
diminuição do seu fluxo, já que a filosofia
trânsito permitido ou não, em toda a empresa,
leansigma se baseia em enxugar a produção.
o que demonstra o quanto a empresa investe
e se preocupa com a segurança de seus O nivelamento de produção no elemento 10
funcionários e produtos. Mas ainda poderá apresenta uma diferenciação baixa do
ser melhorado o gerenciamento visual quanto descrito da meta proposta, pois, como
à ferramenta 5S, poka-yokes e placas de ritmo observado à empresa possui um alto nível de
e fluxo de produção. planejamento e programação.
Há uma diferenciação a menos de 07 pontos Abaixo é demonstrado o resultado final da
no elemento 07 relacionado à meta. É uma aplicação da avaliação qualitativa das
diferenciação pequena já que o elemento ferramentas leansigma na empresa relatada
exige varias considerações para implantação neste estudo.

FIGURA 3 – Aplicação da avaliação qualitativa das ferramentas lean.

Fonte: própria autora

Gestão da Produção em Foco - Volume 12


106

3. CONSIDERAÇÕES FINAIS para a empresa a qual foi aplicada ou


qualquer outra empresa que esteja em
A aplicação da avaliação qualitativa das
processo de implantação da filosofia
ferramentas leansigma através da análise de
leansigma para uma maior utilização das
evidências documentais, das entrevistas com
ferramentas leansigma nos elementos que
os responsáveis da área na empresa em
tiverem menor pontuação.
questão e observação em campo tem o
objetivo de demonstrar, como foi inicialmente Como plano de ação espera-se que a
proposto, resultados consistentes sobre o empresa melhore a disseminação da filosofia
grau de envolvimento da empresa da filosofia leansigma, pois é um elemento o qual é
leansigma, diagnóstico da transformação considero de muito impacto para se implantar
cultural das pessoas e da difusão da filosofia esta filosofia. Espera-se ainda a implantação
leansigma, criar indicadores dos locais onde da ferramenta six sigma a qual poderá auxiliar
a empresa automobilistica em questão está na implantação e melhor utilização das
efetivamente utilizando as ferramentas da ferramentas da filosofia leansigma.
filosofia leansigma e ser uma base para um
Assim sendo este estudo contribui aos
plano de ação visando a melhor e maior
gestores e acadêmicos estarem analisando o
utilização dessas ferramentas.
progresso da implantação da filosofia
Com a aplicação da avaliação qualitativa das leansigma nas empresas que optarem pela
ferramentas leansigma podemos verificar a incorporação e desenvolvimento da mesma.
eficiencia da ferramenta a qual pode cotribuir

REFERÊNCIAS
[1]. LIKER, J.K. O modelo Toyota. Porto [8]. SHARMA, A. MOODY, P. E. A Máquina
Alegre: Bookman, 2005. Perfeita; Como vencer na nova economia
produzindo com menos recursos. Trad. Maria Lúcia
[2]. LIKER, JEFFREY K. O modelo Toyota: 14
G. Leite Rosa. 1. ed. São Paulo : Prentice Hall,
princípios de gestão do maior fabricante do
2003.
mundo. 2 ed. Porto Alegre: Bookman, 2006.
[9]. SHINGO, S. O Sistema Toyota de
[3]. MOURA, A. Reinaldo. Kanban: A
Produção: Do Ponto de Vista da Engenharia de
simplicidade do Controle da Produção. 5. ed. São
Produção. Trad. Eduardo Schaan. 2. ed. Porto
Paulo: Instituto IMAM, 1999.
Alegre: Bookman, 1996.
[4]. OLIVEIRA, DÉBORA P. BORGES. A busca
[10]. TBM CONSUNTING GROUP. Disponível
de resultados através do kaixen: Um estudo de
em: http://www.tbmcg.com Acesso em 05 de junho
caso na empresa Fosfertil S/A. Goiás: Cesuc, 2009.
de 2017.
[5]. OHNO, T. O Sistema Toyota de Produção;
[11]. WERKEMA, C. Perguntas e respostas
Além da produção em larga escala. Trad. Cristina
sobre o Lean Seis Sigma. Nova Lima: Werkema,
Schumacher. Porto Alegre: Bookman, 1997.
2008.
[6]. SAE BRASIL. Disponível em:
[12]. WERKEMA, C. Criando a Cultura Seis
http://www.saebrasil.org.br/imprensa/descritivo_ba
Sigma. Nova Lima: Werkema, 2004.
sico.htm Acesso em 05 de junho de 2017.
[13]. WOMACH, J. P.; JONES, D. T. ; ROSS, D.
[7]. SAE INTERNATIONAL. Disponível em:
A máquina que Mudou o Mundo. 5. ed. Rio de
http://www.sae.org. Acesso em 05 de junho de
Janeiro: Campus, 1992.
2017.

Gestão da Produção em Foco - Volume 12


107

Capítulo 11

Letícia Joana Ferreira Gualberto


Sandra Miranda Neves
Henrique Duarte Carvalho
Carlos Henrique de Oliveira
Márcio Dimas Ramos

Resumo: Avaliar a qualidade na prestação dos serviços é uma importante


estratégia empresarial, uma vez que conhecer as percepções dos clientes
possibilita melhorias e facilita o processo de tomada de decisão. Nesse sentido, a
ferramenta SERVQUAL é uma das mais utilizadas para a avaliação da qualidade
em serviços permitindo identificar lacunas (gaps) entre as expectativas e
percepções dos clientes. O objetivo desta pesquisa foi avaliar a percepção da
qualidade dos serviços prestados por uma rede de artigos de óptica em sua
unidade matriz. Para tanto, foi adotado o estudo de caso como método de
pesquisa, por meio da aplicação de questionários a clientes da empresa. Os dados
obtidos indicaram que a unidade matriz apresenta apenas dois gaps negativos
relativos a entregas no prazo prometido e segurança nas transações. Os
colaboradores acreditam que a terceirização de lentes é a causa para o efeito
insatisfatório e melhorias foram identificadas.
Palavras-chave: Avaliação da qualidade em serviços. SERVQUAL. Comércio
varejista.

Gestão da Produção em Foco - Volume 12


108

1. INTRODUÇÃO específicas da qualidade e propor sugestões


de melhoria. Espera-se, assim, que a
No Brasil, o setor terciário tem demonstrado
pesquisa possa, ao seu final, responder à
crescente relevância na economia brasileira,
questão sobre qual o nível de satisfação dos
ao evoluir junto com o aumento da renda e o
clientes de uma rede varejista de artigos de
desenvolvimento econômico e social, bem
óptica considerando as diferentes dimensões
como ao constituir setor fundamental de
da qualidade.
expansão das atividades empresariais. A
evolução do Produto Interno Bruto (PIB) A seguinte proposição (P) foi estabelecida:
brasileiro continua recebendo influência P1- A menor lacuna existente será relativa à
significativa do setor terciário (MDIC, 2014). empatia com o cliente. Essa proposição foi
estabelecida devido aos seis treinamentos
A Pesquisa Mensal do Comércio, do IBGE
anuais fornecidos aos funcionários referentes
(2015), apontou elevação de 4,3% no volume
ao atendimento ao cliente, além das
de vendas no varejo em 2013, registrando a
orientações semanais da supervisora de
10ª alta anual consecutiva na série histórica
vendas. Essa proposição será confirmada ou
(iniciada em 2000). A evolução mensal do
refutada ao final da pesquisa.
índice de volume de vendas, com ajuste
sazonal, sinaliza essa dinâmica significativa Este artigo está estruturado da seguinte
de expansão. forma: a Seção 1 apresenta a introdução,
justificativa, a problemática e os objetivos da
A elaboração ou adaptação de um modelo de
pesquisa. A Seção 2 contempla o referencial
avaliação da qualidade que seja compatível
teórico sobre conceitos que envolvem
ao serviço e ao porte da empresa é o passo
qualidade em serviços, comércio varejista e a
principal para uma coleta de dados com
ferramenta SERVQUAL. A Seção 3 apresenta
confiabilidade para tomadas de decisões
o método de pesquisa utilizado e a Seção 4
dentro da organização (NETTO; FREITAS,
apresenta os resultados e discussões. E,
2015). Diante desse cenário, o comércio
finalmente, a Seção 5 apresenta as
varejista procura atender ao cliente
conclusões.
adequadamente, uma vez que conhecer o
comportamento do consumidor é um dos
maiores interesses para alcançar a
2. QUALIDADE EM SERVIÇOS E O
excelência, já que o mesmo é capaz de
COMÉRCIO VAREJISTA
modificar e direcionar as estratégias de uma
empresa (MEDRANO et al., 2016). O que As formas como interagem o prestador do
agrega valor para uma empresa é a qualidade serviço e o consumidor afetam diretamente
do serviço prestado e a sua manutenção por sobre a percepção do serviço. A expectativa
meio de um gerenciamento constante e eficaz do cliente envolvido na prestação do serviço
(JUNIOR et al., 2015). está intimamente ligada à precaução com os
recursos e aos meios usados para alcançar a
A atenção individualizada e/ou personalizada
satisfação pessoal (NETTO; FREITAS, 2015).
no setor comercial é valorizada o suficiente
Outro aspecto importante é o atendimento
para suprir as expectativas, obtendo a
personalizado, fundamental para a criação de
lealdade e fidelização dos consumidores,
valor de um determinado serviço,
permitindo assim o aumento da qualidade do
possibilitando uma melhor expectativa
serviço (MEDRANO et al., 2016). Por isso, a
(OLIVEIRA, GOSLING, RESENDE, 2015).
satisfação, e um consequente
comprometimento do cliente com um O varejo fundamenta-se nas atividades que
determinado produto ou serviço que lhe é englobam o processo de venda de produtos
ofertado, podem ser despertados pela e/ou serviços para atender uma necessidade
sinergia de elementos tais como: confiança, do consumidor final e que sua utilização ou
satisfação e percepção de valor agregado consumo seja pessoal, familiar ou residencial
(BARBOZA et al., 2015). (MATTAR, 2011). No âmbito do comércio
varejista de loja, devem-se adotar meios
Dessa forma, este artigo tem como objetivo
diferenciados de ações eficientes e eficazes
analisar a percepção da qualidade dos
que possibilitem aos clientes terem
serviços prestados por uma rede varejista de
experiências agradáveis e com diferenciais
artigos de óptica em sua unidade matriz. Para
competitivos (HÖPNER et al., 2015).
se alcançar o objetivo proposto pretende-se
avaliar as percepções dos clientes da Conforme Ramos, Costa e Mazza (2012), em
empresa de acordo com dimensões termos práticos e acadêmicos são

Gestão da Produção em Foco - Volume 12


109

importantes os fatores da experiência de a ferramenta SERVQUAL é a mais utilizada


compra dentro da loja: uma interação que para a avaliação da qualidade em serviços.
possibilite harmonização, e
consequentemente uma percepção
diferenciada dos clientes com relação à loja; 2.1. A FERRAMENTA SERVQUAL
os estímulos à preferência de algumas
Parasuraman, Zeithaml e Berry (1985)
particularidades que se transformam em
desenvolveram a ferramenta SERVQUAL a
aquisição de produtos e/ou serviços. O
partir de uma pesquisa exploratória, utilizando
consequente retorno às lojas é uma
entrevistas com executivos de empresas de
informação bastante relevante tanto para a
serviços diferentes, com objetivo de investigar
administração das organizações, quanto para
a qualidade do serviço prestado. O
o aprimoramento dos conhecimentos de
conhecimento mais relevante e rápido obtido
varejo e de comportamento do consumidor
na análise das entrevistas foi o conjunto de
(RAMOS; COSTA; MAZZA, 2012).
lacunas ou gaps existentes entre a percepção
A qualidade do serviço promove, além do de qualidade de serviço e a prestação de
aumento da satisfação do cliente, também a serviços aos consumidores, ou seja, a
fidelização e consequente diminuição do expectativa e o que realmente é oferecido.
afastamento de clientes (NAJAFI; SAATI; Essas lacunas (ou gaps) de fato dificultam a
TAVANA, 2015). A qualidade percebida do entrega de serviços de alta qualidade
serviço prestado pode ser definida como o (PARASURAMAN; ZEITHAML; BERRY, 1985).
resultado de uma avaliação do consumidor O questionário proposto por esses autores é
onde são comparadas suas expectativas e o composto por 44 questões, 22 referentes às
serviço oferecido. “A qualidade do serviço é a expectativas e 22 às percepções. As
união de duas variáveis: serviço esperado e questões são divididas entre 5 dimensões
serviço percebido” (GRÖNROOS, 1984). A específicas da qualidade. O Quadro 1
partir de uma revisão bibliográfica, com contempla as cinco dimensões e suas
artigos publicados entre os anos de 2015 e definições.
2016, Gualberto et al. (2017) identificaram que

QUADRO 1 - Dimensões da Qualidade

Dimensão Definição/Características

Tangibilidade Engloba a aparência física das instalações, equipamentos, funcionários e


outros materiais usados na prestação do serviço.
Confiabilidade É a capacidade de execução do serviço proposto, de forma que seja confiável
e preciso.
Responsividade Caracteriza o serviço executado de forma rápida, onde os funcionários
apresentam disposição para auxiliar o cliente.
Segurança Capacidade de transmitir segurança através da cortesia aos clientes.

Empatia É o serviço executado com cortesia e atenção individualizada


Fonte: Adaptado de Zeithaml, Parasuraman e Berry (1990)

Segundo Miguel e Salomi (2004), o gap não


se caracteriza somente pela diferença entre a
3. PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS
expectativa e percepção do cliente, ele
também ressalta a medição da qualidade Considerando os procedimentos técnicos ou
baseada em dimensões específicas. Esses meios utilizou-se o estudo de caso, que tem
gaps podem assumir valores positivos ou por costume a representação de um conjunto
negativos. Os positivos revelam que o cliente de sintomas e sinais raros quanto como
está satisfeito com algum aspecto do serviço, primeiro estudo para elucidar o campo da
já os negativos demonstram a insatisfação do pesquisa em seus inúmeros aspectos (GIL,
mesmo (LUPO, 2016). 2002). Segundo Miguel (2007), o estudo de
caso é uma análise prática que objetiva a

Gestão da Produção em Foco - Volume 12


110

investigação de um fenômeno, normalmente II será a aplicação da ferramenta às filiais e a


atual, dentro de situação verdadeira, quando análise quantitativa das diferenças de
os limites que demarcam o contexto e o percepção entre clientes e colaboradores,
fenômeno não são explicitamente definidos. resultando em uma importante contribuição
Para tanto, os seguintes macroprocessos acadêmica.
devem ser seguidos: “definir estrutura teórica
A coleta de dados foi realizada por meio da
e conceitual” que abrange a definição do
aplicação de um questionário estruturado,
tema, indagação de pesquisa, objetivos e
proposto na ferramenta SERVQUAL por
referencial teórico. O segundo processo
Zeithaml, Parasuraman e Berry (1990). O
consiste em planejar o caso, definir o objeto
questionário foi impresso e aplicado
de estudo, o questionário estruturado e o
pessoalmente. A escala de mensuração
procedimento de coleta. O processo seguinte
usada foi a escala Likert (LIKERT, 1932)
é a condução do teste piloto permitindo
adaptada em cinco pontos, sendo eles: (1)
possíveis adaptações ao questionário. A
Discordo totalmente, (2) Discordo
etapa de coleta de dados consiste no envio e
parcialmente, (3) Indiferente, (4) Concordo
recebimento de questionários e na formação
parcialmente, (5) Concordo totalmente. A
banco de dados, posteriormente a análise dos
ferramenta SERVQUAL foi aplicada para 30
dados por meio da tabulação e gráficos. Por
clientes na unidade matriz. Para analisar a
fim, o último macroprocesso é a elaboração
confiabilidade dos dados utilizou-se o Alfa de
de relatórios, com as devidas conclusões da
Cronbach (MALHOTRA, 2012).
pesquisa.
O objeto de estudo desta pesquisa são os
clientes da matriz de uma rede varejista de 4. RESULTADOS E DISCUSSÕES
artigos de óptica atuante em Itabira e região
A Fase I da aplicação do questionário iniciou-
do Médio Piracicaba e situada no estado de
se com o teste piloto realizado com alguns
Minas Gerais. A rede possui uma ampla
dos clientes da unidade matriz. O objetivo do
cartela de produtos para óculos de grau e
teste foi esclarecer quaisquer dúvidas em
óculos de sol, além disso, oferece serviços de
relação às perguntas desenvolvidas por
reparo e manutenção desses objetos
Parasuraman, Zeithaml e Berry (1985), como
pessoais. Atualmente, a rede possui nove
forma de facilitar o processo de coleta de
lojas em seis cidades. A empresa conta com
dados. O resultado do teste revelou que o
cerca de 30 colaboradores entre eles, nove
questionário estava adequado para a
gerentes, uma supervisora, um gestor e dois
aplicação, realizada nos meses de agosto e
diretores e possui mais de 36 mil clientes. Em
setembro de 2016.
Itabira e região representa a maior e a mais
consolidada empresa do ramo. Sua expansão
foi rápida e a adesão de clientes é
4.1 RESULTADOS DA UNIDADE MATRIZ
significativa, além disso, a reputação da
mesma é bastante positiva. A rede foi A aplicação do questionário com os 30
premiada pela Câmara de Dirigentes Lojista clientes da loja matriz possibilitou a tabulação
(CDL) de Itabira como a melhor empresa do dos dados para o cálculo de médias,
setor no ano de 2015, o prêmio é o resultado frequência de respostas de cada item do
de uma votação realizada pela população questionário e o gap (diferença ente as
local. Outro título importante é o de percepções e expectativas) de cada
especialista “ouro” em 2016, dado por um de dimensão específica da qualidade. O Gráfico
seus principais fornecedores. A empresa 1 apresenta os resultados referentes à
possui o título há 10 anos e a cada ano passa dimensão Tangibilidade, apresentando a
por uma avaliação para mantê-lo. frequência de respostas das percepções dos
clientes, assim como a média dessas
Esta pesquisa abrangerá duas fases, a Fase I,
percepções e o gap.
contemplada neste artigo, será direcionada
aos clientes da loja matriz em Itabira e a Fase

Gestão da Produção em Foco - Volume 12


111

GRÁFICO1 – Dimensão Tangibilidade na Matriz

Fonte: Elaborado pelos autores

Conforme observado na dimensão gap positivo, caracterizando um dos seus


Tangibilidade com relação aos 4 quesitos pontos fortes. Na média das percepções
aplicados e analisados, todos pode-se considerar que os valores são
possuem gaps positivos, porém no quesito próximos, sendo que 78% estão no nível de
“instalações físicas atraentes” em que o gap é concordância total, dando um pouco mais de
nulo demonstra que as instalações atendem, relevância à aparência dos funcionários, sem
mas não superam as expectativas dos detrimento das instalações e equipamentos.
clientes. O gap nulo apresenta uma Observa-se que 95% estão nos níveis 4 e 5, o
oportunidade de melhoria, a fim de melhorar a que demonstra que na totalidade desta
percepção e garantir a fidelização do cliente. dimensão a unidade matriz está superando as
Por outro lado, com relação à atração dos expectativas dos clientes.
materiais visuais, a empresa possui o maior

GRÁFICO 2 – Dimensão Confiabilidade da Unidade Matriz

Fonte: Elaborado pelos autores

Nota-se que na dimensão Confiabilidade o cliente. Não obstante, existe a manutenção


(Gráfico 2) um gap negativo indica que a do interesse em resolver os problemas e
percepção sobre as entregas no prazo executar os serviços no prazo, demonstrados
prometido estão abaixo das expectativas (- pelos gaps nulos. No entanto, os serviços
0,23), identificando falhas do serviço que entregues estão isentos de erros devido ao
estão gerando um resultado insatisfatório para maior gap positivo nessa dimensão. Dentre os

Gestão da Produção em Foco - Volume 12


112

níveis pesquisados, 98% estão nos níveis 4 e capacidade de resolução do gap negativo e
5, uma média alta que demonstra a uma superação das expectativas dos clientes.

GRÁFICO 3 – Dimensão Responsividade da Unidade Matriz

Fonte: Elaborado pelos autores

Quanto às respostas, ou seja, na dimensão pronto atendimento e na disposição em ajudar


Responsividade (Gráfico 3), os gaps são os clientes. Pode-se concluir, portanto, que é
todos positivos, 95% enquadram-se também a dimensão de destaque da unidade.
nos níveis 4 e 5, as respostas indicam ponto
O Gráfico 4 apresenta os resultados relativos
de satisfação dos clientes. Há coerência no
à dimensão Segurança da Unidade Matriz.

GRÁFICO 4 – Dimensão Segurança da Unidade Matriz

Fonte: Elaborado pelos autores

A dimensão Segurança apresenta 99% das conhecimento técnico são atendidas ou


respostas nos níveis 4 e 5, esse percentual superadas. Não obstante, nota-se um gap
demonstra que os clientes compreendem que negativo com relação à segurança nas
suas expectativas em termos de segurança transações (-0,17), presumindo-se como
com relação ao comportamento dos causa uma possível falta de treinamento
empregados, bem como cortesia e nessa área.

Gestão da Produção em Foco - Volume 12


113

GRÁFICO 5 – Dimensão Empatia da Unidade Matriz

Fonte: Elaborado pelos autores

Com relação à dimensão Empatia (Gráfico 5) As médias dos gaps entre percepções e
os gaps são todos positivos, onde os expectativas possibilitaram uma análise geral
empregados demonstram preparação no das dimensões (Gráfico 6).
atendimento e maior proximidade com os
clientes. O gap positivo com maior destaque é
“horários de funcionamentos convenientes”.

GRÁFICO 6 – Gaps Gerais da empresa (Matriz)

Fonte: Elaborado pelos autores


Destaca-se a atenção necessária às realizadas, presume-se que estes fatores
dimensões “Confiabilidade” e “Segurança”, estejam relacionados à morosidade do
que, apesar de apresentarem média geral fornecimento de produtos pela fábrica,
positiva, consistem nos maiores gaps da atrasos devido a questões logísticas e falta de
empresa (Figura 1). A partir das entrevistas conhecimento adequado do produto.

Gestão da Produção em Foco - Volume 12


114

FIGURA 1 – Comparação entre as dimensões na matriz

Fonte: Elaborada pelos autores


Nota-se na dimensão Tangibilidade que as segurança das transações da empresa. A
expectativas com relação a materiais visuais dimensão Empatia reforça a satisfação dos
atraentes, funcionários com boa aparência e clientes com os horários de funcionamento.
quanto à modernidade dos equipamentos são As dimensões tangibilidade e empatia são os
atendidos por parte da matriz. Observa-se na pontos fortes da empresa. Acredita-se que a
dimensão Confiabilidade que existe uma proximidade do diretor com a unidade matriz
expectativa maior com relação à entrega no também possa colaborar para o melhor
prazo prometido, problema pontuado pelos desempenho dos colaboradores.
gestores e funcionários antes mesmo da
O Quadro 2 apresenta algumas sugestões de
aplicação do questionário. O problema refere-
melhoria de acordo com as dimensões da
se, principalmente, à fabricação das lentes
ferramenta SERVQUAL. As melhorias
realizada por um laboratório terceirizado.
propostas foram elaboradas com o auxílio dos
Nota-se na dimensão Segurança uma colaboradores e gestores da empresa durante
oportunidade de melhoria com relação à a aplicação do questionário.

Gestão da Produção em Foco - Volume 12


115

QUADRO 2 – Sugestões de melhoria


Dimensão Sugestão de melhoria

Uma melhoria sugerida pelos clientes foi a refrigeração das lojas, o que
Tangibilidade
proporcionaria maior conforto e poderia ocasionar o aumento da satisfação.
Confiabilidade Sugere-se um estudo de viabilidade para a implantação de um laboratório de
e Segurança pequeno porte na empresa para lentes com maior rotatividade.
Apesar de treinamento equalizado para todos os funcionários, observou-se as
seguintes necessidades: avaliações pós-treinamentos e implantar treinamentos
online e presenciais.
Verificar a existência de alta rotatividade de colaboradores e suas causas para que
sejam minimizadas.
Empatia e
Verificar e implantar ferramentas para a medição do nível de motivação e atuação
Segurança
dos funcionários.
Verificar se os posicionamentos gerenciais são muito diferenciados, caso sejam,
promover rodízio.
Estimular e requerer dos funcionários o conhecimento detalhado de todos os
produtos.
Sugere-se a utilização de ferramentas como brainstorming, diagrama de Pareto,
diagrama de árvore, matriz GUT, diagrama de Ishikawa, para a identificação e
Empatia
priorização das deficiências e oportunidades de melhoria, e promover treinamento
específico.
Fonte: Elaborado pelos autores.

Para analisar a confiabilidade dos para as amostras (matriz), considerando as


questionários, calculou-se o Alfa de Cronbach expectativas e percepções (Tabela 1).

TABELA 1 – Resultado do Alfa de Cronbach (Matriz)

Amostra Expectativas (α) Percepções (α)

Matriz 0,877 0,883


Fonte: Elaborada pelos autores

Pode-se concluir que, a confiabilidade dos de acordo com cada dimensão da qualidade,
questionários é aceitável, uma vez que os o nível de satisfação dos clientes. Os
coeficientes possuem valores superiores a resultados evidenciaram que uma mesma
0,6. empresa pode apresentar níveis de satisfação
diferentes de acordo com as dimensões
avaliadas.
5. CONCLUSÕES
A aplicação da ferramenta possibilitou a
O objetivo central do trabalho foi analisar a visualização de pontos fortes e fracos,
percepção da qualidade dos serviços destacando-se como ponto forte os horários
prestados por uma rede varejista de artigos de funcionamento, e como pontos fracos a
de óptica atuante em Itabira e região. Pode-se segurança nas transações e entregas no
afirmar que o objetivo proposto foi alcançado prazo, que podem ser priorizadas em ações
ao se aplicar a ferramenta SERVQUAL aos futuras. Com relação à proposição
clientes da unidade matriz e ao analisar os estabelecida, o menor gap encontra-se, de
resultados em busca de melhorias. A questão fato, na dimensão empatia, o que permite
de pesquisa foi respondida ao se identificar, concluir que este é o ponto forte da empresa.

Gestão da Produção em Foco - Volume 12


116

Os resultados gerais reforçam a imagem percepções dos clientes em cada filial e,


positiva que a empresa possui na região, posteriormente, avaliar as diferenças de
devido à porcentagem alta de gaps positivos. percepção entre os clientes e os
gestores/colaboradores da empresa por meio
Como sugestões de melhorias, destaca-se a
de análises quantitativas.
importância do uso de outras ferramentas da
qualidade em conjunto com a SERVQUAL, Como pesquisa futura, sugere-se uma
como brainstorming, diagrama de Pareto, comparação entre a rede e as filiais, assim
diagrama de árvore, matriz GUT, diagrama de como com empresas do mesmo segmento, a
Ishikawa, a fim de identificar e priorizar os fim de identificar a posição de Benchmarking
pontos críticos e as necessidades e estabelecer estratégias para alcançar os
específicas, bem como a causa raiz. Outra mesmos resultados ou resultados superiores.
sugestão apresentada foi um estudo de
viabilidade para possíveis alterações nos
processos. 7. AGRADECIMENTOS
Os resultados obtidos fornecerão dados à Os autores gostariam de expressar sua
rede de empresas para definir, de forma gratidão à CNPq, Capes, FAPEMIG,
eficaz, alguns dos seus objetivos estratégicos, DPPG/Unifei e ao Grupo de Estudos em
sendo essa uma importante contribuição Qualidade e Produtividade - GEQProd, pelo
tecnológica. Em andamento, a Fase II desta seu apoio.
pesquisa que consiste em avaliar as

REFERÊNCIAS [8]. LIKERT, R. A technique for the


measurement of attitudes. Archives of Psychology,
[1]. BARBOZA, S. I. S.; MEDEIROS, F. G.; v.22, n. 140, p. 44-53, 1932.
FARIAS, H. C. A.; COSTA, F. J. Determinantes do
Comportamento de Consumdores no Contexto do [9]. LUPO, T. A fuzzy framework to evaluate
Varejo Virtual. Revista Brasileira de Marketing, v. service quality in the healthcare industry: An
14, n. 1, p. 72–83, 2015. empirical case of public hospital service evaluation
in Sicily. Applied Soft Computing, v. 40, n. 40, p.
[2]. GIL, A.C.; Como elaborar projetos de 468-478, 2016.
pesquisa. 4ª. ed. São Paulo: Atlas, 2002. 176 p.
[10]. MALHOTRA, N. K. Pesquisa de marketing:
[3]. GRÖNROOS, C. A service quality model uma orientação aplicada. 6ª ed. Bookman Editora,
and its marketing implications. European Journal of 2012. p. 230.
Marketing, v. 18, n. 4, p. 36-44, 1984.
[11]. MATTAR, F. N. Administração de Varejo.
[4]. GUALBERTO, L. J. F.; NEVES, S. M.; Rio de Janeiro: Elseiver, p.2, 2011.
CARVALHO, H. D.; OLIVEIRA, C. H. Ferramentas
utilizadas para a avaliação da qualidade em [12]. MDIC, Dados Anuais do Comércio. Rio de
serviços. In: Rudy de Barros Ahrens. (Org.). Janeiro: Ministério do Desenvolvimento, da
Coletânea nacional sobre Engenharia de Produção Indústria e Comércio Exterior, 2014. Anual.
4: Gestão da Qualidade. 1ed.Curitiba (PR): Atena Disponível em: http://aliceweb2.mdic.gov.br/.
Editora, 2017, v. 4, p. 447-461. Acesso em: abril de 2016.

[5]. HÖPNER, A.; GANZER, P.P.; CHAIS, C.; [13]. MEDRANO, N.; PASCUAL, C.O.;
OLEA, P.M. Experiência do Consumidor no Varejo: BORONDO, J.P.; MURILLO, Y.S. Consumer
Um Estudo Bibliométrico. Revista Brasileira de Behavior in Shopping Streets: The Importance of
Marketing, v. 14, n. 4, p. 513-528, 2015. the Salesperson's Professional Personal
Attention. Frontiers in psychology, v. 7, n. 125, p. 1-
[6]. IBGE – 39, 2016.
Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística.
Pesquisa Mensal de Comércio. Junho, 2015. [14]. MIGUEL, P. Estudo de caso na engenharia
Disponível em: de produção: estruturação e recomendações para
http://www.ibge.gov.br/home/estatistica/indicadore sua condução. Revista Produção, v. 17, n. 1, p.
s/comercio/pmc/. Acesso em: 24 de março de 216-229, 2007.
2016.
[15]. MIGUEL, P.; SALOMI, G.. Uma revisão dos
[7]. JUNIOR, R.J.C.C; FIGUEREDO, T.D.; modelos para medição da qualidade em serviços.
NAGATA, V.M.N; REIS, A.P.C.M. Avaliação da Revista Produção, v. 14, n. 1, p. 12-30, 2004.
Qualidade de serviços utilizando o SERVQUAL em
[16]. NAJAFI, S.; SAATI, S.; TAVANA, M. Data
uma empresa atacadista. Gestão e Saúde, v. 1, n.
envelopment analysis in service quality evaluation:
1, p. 1073-1086, 2015.
an empirical study. Journal of Industrial

Gestão da Produção em Foco - Volume 12


117

Engineering International, v. 11, n. 3, p. 319–330, [19]. PARASURAMAN, A.; ZEITHAML, V. A.;


2015. BERRY, L. L. A conceptual model of service quality
and its implications for future research. Journal of
[17]. NETTO, M.S; FREITAS, A.L.P. Proposta de
Marketing, v.49, n.3, p. 41–50, 1985.
modelo para mensuração da qualidade dos
serviços prestados por pequenas empresas de [20]. RAMOS, R.R.; COSTA, F. J.; MAZZA, I.
usinagem e manutenção industrial. Revista Experiência do cliente no ponto de venda varejista:
Produção Online, v.15, n.1, p. 78-100, 2015. Desenvolvimento de uma escala de
mensuração. Revista de Negócios, v. 17, n. 2, p.
[18]. OLIVEIRA, P; GOSLING, M. S.; RESENDE,
20-36, 2012.
M. P. D. L. O Gerenciamento do Funcionário de
Linha de Frente sob a Ótica da Qualidade de [21]. ZEITHAML, V.A.; PARASURAMAN, A.;
Serviços–Um Estudo de Caso em um Centro BERRY, L.L. Delivering quality service: Balancing
Automotivo. Sistemas & Gestão, v. 10, n. 1, p. 42- customer perceptions and expectations. Simon and
57, 2015. Schuster, 1990.

Gestão da Produção em Foco - Volume 12


118

Capítulo 12
Vinícius Martins Garcia
Letícia de Souza Siqueira
Raquel Cymrot

Resumo: No mercado de varejo nacional, o ramo de vendas diretas tem crescido


desde a década de 2000 em um ritmo acelerado e superior ao setor varejista como
um todo. Portanto qualquer vantagem competitiva é relevante para que negócios
do ramo acompanhem tal crescimento. Para uma operacionalidade eficiente é
necessário um rápido atendimento, porém a flutuação da demanda, devido a
fatores internos e externos à organização, prejudica a acurácia das previsões. Um
estudo de previsão de demanda, pode auxiliar na estimação, com antecedência,
da quantidade que será absorvida pelo mercado. Devido a características próprias
do mercado de venda direta, as previsões são feitas por família de produto. O
objetivo deste estudo foi construir um modelo de regressão linear múltipla que
auxilie na previsão de demanda para família de produtos de uma empresa de
vendas diretas. Para os testes foram utilizados dados de vendas de uma família de
produtos, desde o ano de 2011 até 2016. A análise de regressão múltipla foi
realizada com o auxílio do software Minitab® v.17. Os modelos foram analisados e
ajustados até que todas as suposições de adequação fossem atendidas, sendo em
seguida comparadas as assertividades das previsões feitas com as das previsões
usadas na empresa.

Palavras chave: Previsão de demanda; Vendas diretas; Regressão linear múltipla;


Família de produto.

Gestão da Produção em Foco - Volume 12


119

1 INTRODUÇÃO Define-se venda direta como “[...] um sistema


de comercialização de bens de consumo e
Devido à vida atribulada decorrente de
serviços baseado no contato pessoal entre
trabalho ou estudo, a busca por meios que
vendedores e compradores, fora de um
tragam mais praticidade e melhor qualidade
estabelecimento comercial fixo”
de vida é cada vez maior. No início da
(ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE EMPRESAS
década de 2010 já se constatava o
DE VENDAS DIRETAS, 2015a, não paginado).
surgimento no Brasil de consumidores, tanto
O princípio básico dessa forma de
homens como mulheres, preocupados com a
comercialização está na existência de um
praticidade e que consomem ou podem vir a
contrato comercial entre a indústria e o
consumir produtos relacionados com
revendedor autônomo, o qual possui um
características como vaidade, beleza e bem-
retorno financeiro propiciado pela aquisição
estar. Para atendê-los os produtos devem
de produtos com desconto (MIYATA; SUZUKI,
estar disponibilizados de forma rápida,
2012).
adequada, podendo estar acessíveis por meio
de diversos canais de vendas levando as A venda direta chega como uma estratégia
organizações a alterarem suas estratégias consagrada de comercialização para os mais
(SOUZA; SERRENTINO, 2002 apud PRATTE diversos tipos de produtos, promovendo a
et al., 2011, p. 4). venda de produtos ou serviços por meio do
contato direto com o consumidor final
O varejo tem como premissa inicial de sua
(GIULIANI; KEPPLER; CASADEI, 2005).
prática a comercialização de serviços ou
produtos aos consumidores finais, São comercializados, por meio da venda
independentemente da natureza da direta, artigos das mais diversas categorias,
organização que o faz e do local em que é como linha de cama-mesa-banho, calçados,
praticada. (LAS CASAS; GARCIA, 2007). A livros, joalheria e brinquedos e em grande
função principal do varejo é fornecer, ao proporção produtos do setor de higiene
consumidor final um produto ou serviço, pessoal, perfumaria e cosméticos (MIYATA,
estando na cadeia de suprimentos um nível a 2011).
frente do fabricante ou do distribuidor.
Dados do World Federation of Direct Selling
No mercado de varejo, nota-se que as Associations (2016) apresentam os principais
empresas têm buscado novas formas de segmentos de produtos comercializados por
venda para seus produtos e serviços, essa forma de varejo. Como mostra o Gráfico
destacando-se entre elas loja virtual, 1, artigos de cuidado pessoal, cosméticos e
catálogos, quiosques e franquias (PRATTE et bem-estar representam juntos 66% de todos
al., 2011). os produtos comercializados no mundo.

Gráfico 1 – Vendas Globais por Categorias de Produtos.

Fonte: Adaptado de World Federation of Direct Selling Associations (2016, p. 1)

Gestão da Produção em Foco - Volume 12


120

Por trás da facilidade que a venda direta podem ser entendidas como características
propõe ao consumidor existe todo o trabalho do setor de vendas questões como: superar
que as empresas realizam para que o produto expectativas em suas atividades aumentando
chegue até o cliente de forma eficaz, e um o número de clientes satisfeitos por meio de
dos grandes desafios das empresas é prever benefícios solicitados.
a demanda destes bens. Sendo assim, na
Para empresas de venda direta, a redução no
maioria das decisões de negócios está o
prazo de entrega apresenta-se como uma
desafio de prever a demanda do cliente
vantagem competitiva, pois a redução nos
(KRAJEWSKI; RITZMAN; MALHOTRA, 2009).
custos operacionais e um alto giro das
O ganho de vantagens de negócio por meio mercadorias corroboram para a criação de
de disponibilidade adequada de produtos e o novo espaço para aumento dos lucros
rápido atendimento faz com que as empresas (HARVEY, 2005). A fim de atingir esse
possam de diferenciar de seus concorrentes objetivo, um diferencial estratégico para
perante seus consumidores. O nível de empresas de venda direta é a previsão de
serviço apresenta-se como um diferencial demanda em longo prazo para seus produtos.
competitivo, e considerado algumas vezes
Devido ao avanço de técnicas de previsão
estratégico, em função da presença de
sofisticadas em paralelo com a oferta de
diversos fatores como custo, tecnologia
computadores e outras tecnologias de coleta,
disponível e cultura organizacional
manipulação e disponibilização de dados, é
(CARDOSO et al. 2014).
cada vez maior o interesse pelo processo de
Para que uma empresa perdure é essencial previsão da demanda por parte das
que consiga atender às exigências cada vez empresas.
maiores dos consumidores com relação aos
A previsão de vendas, quando
produtos e marcas oferecidas, alinhando o
adequadamente realizada, auxilia em grande
mix de marketing com o desejo dos
parte das atividades do processo industrial.
consumidores (KOTLER; ARMSTRONG;
Apesar dos esforços, essas previsões podem
2012).
trazer erros, por isso é preciso que se escolha
As vantagens de se utilizar a venda direta são bem o modelo de previsão para diminuir tais
inúmeras. Dentre elas destacam-se a problemas.
abordagem pessoal e o atendimento
No setor de serviços, planejar a capacidade
personalizado, que permitem o
de seu sistema operacional é de extrema
estabelecimento de um relacionamento
importância. A falta de capacidade pode
duradouro com consumidor, tornando-o um
causas um problema nos níveis de serviço
cliente fiel (GUIRRO, 2007 apud apud
prestados ao cliente.
PRATTE et al., 2011, p. 4).
A previsão da demanda em empresas de
O setor de vendas diretas se apresenta com
venda direta pode ser dar tanto por unidades
crescimento consistente frente ao mercado.
vendidas quanto por faturamento advindo da
No intervalo de 2010 a 2014, o setor de
venda dos produtos menos seus custos,
vendas diretas cresceu a uma taxa anual de
sendo a última a mais relevante para a
crescimento de 6,8% e um acumulado de
organização. As metas a serem atingidas
30%. Em 2015, mesmo com uma economia
dizem tanto respeito ao faturamento como às
em crise, houve estabilidade em comparação
quantidades vendidas.
com o período anterior, ocorrendo, neste ano,
uma leve contração de 0,8%. Já em 2016 a Os métodos de previsão podem ser baseados
contração foi de 2,2%, embora a venda direta em modelos matemáticos que usam dados
tenha se apresentado melhor que outros históricos disponíveis, em métodos
canais ao longo do ano (ASSOCIAÇÃO qualitativos, que são planejados de acordo
BRASILEIRA DE VENDAS DIRETAS, 2015b, com a experiência administrativa e com as
2016, 2017). avaliações do cliente, ou podem ser
baseados em uma combinação de ambos.
Por meio do estudo sobre a venda direta e
resultados obtidos com uma pesquisa de As previsões quando estimadas em números
campo, Vitorino et al. (2010) destacaram que muito acima da demanda geram grandes
o setor de vendas é responsável pelo estoques e desperdício de matéria prima, o
escoamento da produção das organizações, que pode implicar em contribuição para a
independentemente de sua natureza, e que poluição do meio ambiente, além de custos

Gestão da Produção em Foco - Volume 12


121

adicionais devido ao processo de descarte. afetando os resultados de atendimento da


Quando a estimativa é feita abaixo do número companhia, controle de estoque e inventário.
a demanda o cliente pode não receber o
Devido à possibilidade de se considerar duas
produto que esperava ou esperar por muito
ou mais variáveis dentro de um modelo,
mais tempo que o previsto, prejudicando a
visando um resultado mais adequado, ao se
reputação e a economia da empresa,
utilizar uma abordagem quantitativa, optou-se
refletindo na estabilidade e na carreira dos
pela construção de um modelo de regressão
funcionários.
linear múltipla.
Desta forma, a utilização de ferramentas
Para a obtenção de um modelo que melhor
estatísticas para modelagem de dados de
explicasse a variação do faturamento advindo
demanda têm se tornado cada vez mais o
da demanda de uma determinada família de
foco de engenheiros de produção
produtos, foi construído um banco de dados
(PELLEGRINI, 2000). A utilização do método
contendo os principais indicadores externos e
de regressão linear múltipla para previsão da
internos do setor no período de 2011 a 2016,
demanda em longo prazo pode auxiliar na
e com o auxílio do Minitab® Statiscal Software
identificação de falhas nas previsões,
v. 17, foram construídos e testados vários
minimizando prejuízos econômicos e
modelos de regressão linear múltipla,
ambientais e evitando a frustração do cliente.
buscando-se correlacionar as variáveis
É uma característica comum nos produtos explicativas que fazem parte do banco de
comercializados por vendas diretas um ciclo dados com a variável dependente, variação
de vida curto. Devido às mudanças na moda do faturamento advindo da demanda.
e no mercado, muitos deles são
Analisando-se as suposições necessárias
descontinuados das linhas de produção. Com
para a construção de um modelo de
isso, o número de observações utilizadas nos
regressão múltipla adequado, vários modelos
estudos estatísticos de previsão de demanda
foram descartados até se chegar a um
por produto é pequeno, dificultando a
modelo final.
construção de modelos de previsão. Para
evitar esse problema, as empresas se utilizam Após escolhido o modelo de regressão linear
do agrupamento por famílias de produtos. múltipla mais adequado, a assertividade de
Dentro das famílias, os produtos são suas previsões foram comparadas com as
parecidos e suas vendas se comportam de assertividades do modelo adotado na
forma similar. Além do mais, realizar as empresa.
primeiras estimativas com um conjunto de
Todos os testes de hipótese foram efetuados
produtos de uma mesma categoria aumenta a
considerando-se um nível de significância α
eficiência da previsão e facilita a análise e
igual a 0,05, sendo rejeitadas as hipóteses
comparação da demanda entre os períodos.
com nível descritivo (valor-p) inferir a α.
Sendo assim, o objetivo geral do presente
trabalho é construir um modelo de previsão
do faturamento da demanda com uso do 2.1 A EMPRESA
método de regressão linear múltipla para uma
Para o teste de aplicação da metodologia de
família de produtos de uma empresa de
regressão múltipla, foi usada a base de dados
vendas diretas. Como objetivos específicos
de uma empresa de vendas diretas atuante
têm-se: identificar variáveis de influência nas
em diversos ramos.
vendas dos produtos e verificar a eficiência
da previsão, comparado ao método já A abordagem comercial da empresa é
utilizado pela empresa. baseada quase em sua totalidade em vendas
diretas. Os representantes oferecem uma
gama de produtos vendidos pela empresa na
2. METODOLOGIA forma de catálogos impressos, nos quais os
clientes escolhem os itens de seu interesse.
O foco desta pesquisa é exploratório,
buscando a escolha das principais variáveis A empresa trabalha com catálogos
que explicam o faturamento advindo da periódicos, divididos em diversos períodos
demanda de uma determinada família de anuais, com um mix de produtos específicos
produtos de venda direta, bem como de para cada período. Os representantes
fatores externos que podem interferir efetuam seus pedidos com as quantidades
diretamente na previsão deste faturamento,

Gestão da Produção em Foco - Volume 12


122

requisitadas e, após alguns dias, recebem os categorias de produto, de forma que se faz
produtos em sua residência. necessária uma análise crítica dos atributos
por parte do estimador. Existem várias
O sistema produtivo é empurrado, sendo os
características relevantes que devem ser
produtos produzidos antecipadamente, a
levadas em conta no momento de realizar o
partir de uma previsão de demanda realizada
fechamento do número previsto. No Quadro 1,
em várias etapas. A primeira etapa é realizada
foram relacionadas algumas dessas
com base em análises históricas de venda,
características, bem como seu grau de
cerca de oito meses antes do lançamento do
relevância na análise. Algumas proporcionam
catálogo. A importância dessa previsão inicial
um grande aumento nas vendas, enquanto
está relacionada aos prazos de atendimento
outras as aumentam de uma forma moderada.
dos produtos, de acordo com o Lead Time.
Portanto, a previsão inicial proporciona para a Devido essa primeira estimativa ser realizada
área de planejamento uma ideia antecipada com muita antecedência, fatos que ocorrem
do faturamento, com uma folga suficiente para após sua finalização, e que não foram
que tanto todas as entregas dos contemplados nas primeiras análises, podem
fornecedores, como a produção interna, dar algum direcionamento quanto à reação
aconteçam a tempo para o lançamento do real do mercado. Portanto, a empresa realiza
catálogo. algumas revisões periódicas dos números,
com outros métodos qualitativos, a fim de
Quanto ao processo de estimação, no início
reagir, para evitar grandes variações entre os
define-se o mix de produtos que irão compor
números estimados e o demandado.
o catálogo de vendas do ciclo corrente, bem
como suas formas de exposição e ofertas. A Como etapa final do processo, a área
partir do modelo do catálogo, é estimada a comercial observa o faturamento dos
demanda por meio de uma base de dados primeiros dias após o lançamento do ciclo.
das vendas anteriores disponível no sistema Com os dados inicias, os dados são
integrado da empresa. Um software é extrapolados para todos os dias, até o
utilizado como ferramenta na estimação de fechamento do ciclo e o valor acumulado é
diversos itens por meio de análise de séries chamado de resultado projetado. Nesse
históricas de venda. Para produtos novos é momento qualquer ação reativa não possui
realizada uma análise com produtos similares grande efetividade, pois o tempo de resposta
previamente lançados. da rede não é curto o suficiente para atender
à variação entre a demanda estimada e o
O processo de previsão nesse software não é
resultado projetado.
automático e generalizável a todas as

Gestão da Produção em Foco - Volume 12


123

Quadro 1 – Principais características consideradas na previsão


Característica Relevância Descrição

Período do ciclo Alta Datas do ano em que as vendas são alavancadas.


Exemplo: Natal e Dia dos Namorados

Ciclo de vida do produto Alta O estágio do ciclo de vida do produto influencia


em sua performance no mercado. Exemplo: um
produto na fase de Maturidade possui vendas
estáveis e maiores que na fase de declínio.

Segmento Média Classes de produtos que possuem um


desempenho e aceitação melhores em
determinados mercados. Exemplo: na região
sudeste, consome-se mais tênis de corrida do que
modelos casuais.

Oferta Alta Faixa de desconto dado sobre o valor inicial do


produto.

Faixa de preço Alta Valor cobrado pelo produto. Itens de preço mais
elevado tendem a vender menos que os mais
acessíveis.

Layout de Exposição Média Formato e tamanho da exposição do produto no


catálogo.

Inovação Média Presença de características no produto diferentes


dos similares do mercado. Produtos inovadores
despertam o interesse dos consumidores

Tendência de moda Média Influência da mídia sobre o uso de determinados


produtos.

Canibalização Média Quantidade de produtos com características


parecidas no mesmo ciclo. Muitos produtos
presentes no mesmo ciclo, faz com que a
demanda do mercado seja dividida entre eles.

Paginação Baixa Localização do produto no catálogo. Exemplo:


produtos de capa atraem mais atenção que outras
páginas

Fonte: Os autores (2016)

3. ANÁLISE DOS DADOS multiplicados por uma constante conhecida


apenas pela concedente.
O produto escolhido para o estudo realizado
foi do segmento de livros em 107 ciclos de As bases utilizadas se encontravam em
vendas. Os dados foram fornecidos pela tabelas do Microsoft® Excel®. Cada atributo
empresa após a assinatura do Termo de dos dados coletados foi apresentado em uma
Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE). coluna distinta. Estes foram tabulados para
Nesse termo os pesquisadores se que fosse possível a análise de regressão,
comprometem a não divulgar o nome da utilizando o Minitab® Statistical Software. As
empresa e os dados primários fornecidos, variáveis escolhidas foram: número do ciclo,
sendo informado que a empresa tem o direito ano (ANO), proporção de produtos em linha
de retirar-se da pesquisa a qualquer (PROD_LINHA%), proporção de produtos fora
momento. Os dados fornecidos foram de linha e em estoque (PROD_ESTOQUE%),

Gestão da Produção em Foco - Volume 12


124

proporção de produtos novos (LANC%), parcelados em duas ou mais vezes, o valor da


preço médio dos produtos (PRECO_MEDIO), variável PARCELAM% será 0,75.
produtos com condição de parcelamento
Para explicar a variável dependente (FATR$),
(PARCELAM%), proporção de produtos com
o primeiro modelo contendo todas as
desconto (DESCONTO%) e número total de
variáveis explicativas foi:
produtos (TOTAL_PROD). A variável
dependente escolhida foi o faturamento da
família de produtos livro no ciclo (FAT$), em
unidades monetárias.
FAT$1 = 3,41E+09 + 1272596 TRI1 +
Para a variável “ciclo”, foram utilizadas
1494924 TRI2 + 961941 TRI4 – 1697863
variáveis Dummy, na qual cada valor foi
ANO + 3554169 PROD_LINHA% +
classificado qualitativamente com 1 ou 0.
1967352 PROD_ESTOQUE% + 13154363
Foram agrupados os ciclos de cada trimestre,
LANC% – 22094290 PARCELAM% +
a fim de reduzir o número de variáveis (TRI1,
267399 PRECO_MEDIO + 6558875
TRI2 e TRI4) para respectivamente o 1º, 2º e
DESCONTO% + 25599 TOTAL_PROD
4º semestre respectivamente, proporção de
produtos em linha (PROD_LINHA%),
proporção de produtos fora de linha e em
estoque (PROD_ESTOQUE%), proporção de
produtos novos (LANC%), Produtos com A Tabela 1 apresenta duas variáveis não
condição de parcelamento (PARCELAM%) e significantes (PROD_LINHA% E
proporção de produtos com desconto PROD_ESTOQUE%) e a Tabela 2 indica que a
(DESCONTO%) foram convertidos para a regressão foi significativa, com um valor p
porcentagem de itens de determinado ciclo inferior a 0,05.
que possuem as ditas características. Por
exemplo, se em um ciclo existem 50 produtos
sendo vendidos e 3/4 deles podem ser

Tabela 1– Significância das variáveis preditoras – Primeiro modelo


Preditor Coef EP Coef T p FIV

Constant 3,41E+09 4,24E+08 8,05 0,000

TRI1 1,27E+06 4,19E+05 3,04 0,003 2,5

TRI2 1,49E+06 3,55E+05 4,21 0,000 1,8

TRI4 9,62E+05 4,14E+05 2,32 0,022 1,8

ANO -1,70E+06 2,11E+05 -8,04 0,000 8,1

PROD_LINHA% 3,55E+06 3,26E+06 1,09 0,278 15,5

PROD_ESTOQUE% 1,97E+06 3,27E+06 0,6 0,549 5,7

LANC% 1,32E+07 3,28E+06 4,01 0,000 10,8

PARCELAM% -2,21E+07 1,01E+07 -2,18 0,032 2,1

PRECO_MEDIO 2,67E+05 1,07E+05 2,49 0,014 3,5

DESCONTO% 6,56E+06 1,56E+06 4,2 0,000 6,4

TOTAL_PROD 2,56E+04 9,13E+03 2,8 0,006 2,1

Fonte: Elaborado pelos autores (2016)

Gestão da Produção em Foco - Volume 12


125

Tabela 2 – Análise de variância (ANOVA) – Primeiro modelo


Fonte de Var. GL SQ QM F p

Regressão 11 3,84E+21 3,49E+20 26,02 0,000

Resíduo 95 1,27E+21 1,34E+19

Total 106 5,11E+21

Fonte: Elaborado pelos autores (2016)

Os resultados obtidos a partir da análise probabilidade Normal (observações 20 e 40).


apresentam um R² ajustado igual a 74,2%. A Estas duas observações são referentes ao
análise dos resíduos ilustrada no Gráfico 2 ciclo 8 de 2011 e 5 de 2015, respectivamente.
mostra um valor-p para o teste de Anderson- Os valores possuem distancia de COOK de
Darling inferior a 0,05, não apresentando 0,086 e 0,294, abaixo de 1, não indicando
distribuição Normal. serem influentes no modelo.
Podem-se perceber também dois pontos não
alinhados aos demais no gráfico de

Gráfico 2 – Gráfico de resíduos - Primeiro modelo

Fonte: Elaborado pelos autores (2016)

Ao se buscar os motivos dos altos resíduos representou para a empresa um faturamento


nos dois pontos, foram encontrados títulos de mais que 32% advinda de livros naquele
famosos que alavancaram consideravelmente ciclo.
as vendas no período. O primeiro ponto
Já no ciclo do segundo trimestre de 2015,
corresponde a um ciclo do terceiro trimestre
houve o lançamento de uma coletânea de
de 2011. Nela houve um lançamento
livros de receita de uma famosa
importante no país: um livro religioso o qual
personalidade nacional. Os títulos podiam ser
recebeu inúmeras campanhas de marketing
adquiridos em um pack com desconto. As
em todos os veículos de comunicação. No
vendas desses livros obtiveram tanto sucesso
Brasil, livros religiosos possuem grande
receptividade do público. O título sozinho

Gestão da Produção em Foco - Volume 12


126

que representou cerca de 25% do 1673960 PROD_LINHA% + 280666


faturamento total do ciclo. PROD_ESTOQUE% + 12102058 LANC% -
7733513 PARCELAM% + 152362
A partir dessas análises, foi decidido que as
PRECO_MEDIO + 6001525 DESCONTO% +
duas amostras deveriam ser retiradas da base
29309 TOTAL_PROD
de dados, pois estes dados poderiam ser a
causa de inviabilizar o modelo de regressão
por não atender a suposição de normalidade
A Tabela 3 mostra que há três variáveis não
dos resíduos. Após a retirada dos dados, foi
significantes (PROD_LINHA%,
gerado um novo modelo, a saber:
PROD_ESTOQUE% E PARCELAM%). Já a
FATR$2 = 2,94E+09 + 901902 TRI1 + 987080 Tabela 4 indica que este modelo de regressão
TRI2 + 952221 TRI4 - 1461218 ANO + é significante.

Tabela 3 – Significância das variáveis preditoras – Segundo modelo


Variável Coef EP Coef T p FIV

Constante 2,94E+09 2,96E+08 9,92 0,000

TRI1 9,02E+05 2,97E+05 3,04 0,003 2,6

TRI2 9,87E+05 2,52E+05 3,92 0,000 1,8

TRI4 9,52E+05 2,86E+05 3,33 0,001 1,8

ANO -1,46E+06 1,48E+05 -9,9 0,000 7,9

PROD_LINHA% 1,67E+06 2,26E+06 0,74 0,460 15,5

PROD_ESTOQUE% 2,81E+05 2,27E+06 0,12 0,902 5,8

LANC% 1,21E+07 2,27E+06 5,33 0,000 10,7

PARCELAM% -7,73E+06 7,13E+06 -1,08 0,281 2,1

PRECO_MEDIO 1,52E+05 7,50E+04 2,03 0,045 3,6

DESCONTO% 6,00E+06 1,10E+06 5,44 0,000 6,2

TOTAL_PROD 2,93E+04 6,42E+03 4,57 0,000 2,2

Fonte: Elaborado pelos autores (2016)

Tabela 4 – Análise de variância (ANOVA) – Segundo modelo


Fonte de Var. GL SQ QM F p

Regressão 11 3,57E+21 3,24E+20 50,72 0,000

Resíduo 93 5,95E+20 6,40E+18

Total 104 4,16E+21

Fonte: Elaborado pelos autores (2016)

Gestão da Produção em Foco - Volume 12


127

Ao se observar o Gráfico 3, relativo aos distribuição Normal, com o valor-p do teste de


resíduos do segundo modelo, observa-se que Anderson-Darling igual a 0,961.
a distribuição dos resíduos adere à

Gráfico 3– Gráfico de resíduos - Segundo modelo

Fonte: Elaborado pelos autores (2016)

Ao se analisar o Cp de Mallow na Tabela 5, FAT$ = 2,83E+09 + 759247 TRI1 + 981220


nota-se que a combinação de variáveis que TRI2 + 940599 TRI4 - 1403921 ANO +
retorna o valor mais próximo do ideal que 10614155 LANC% + 91898 PRECO_MEDIO +
deve ser igual a número de variáveis 5634469 DESCONTO% + 25919
acrescido de uma unidade, é a combinação TOTAL_PROD
sem as três variáveis em questão.
Então, após a retirada das três variáveis, foi
A Tabela 6 mostra que somente a variável
gerado mais um relatório de regressão
PRECO_MEDIO não foi significante e a Tabela
múltipla. A nova equação de regressão foi:
7 indica a significância deste modelo de
regressão.

Gestão da Produção em Foco - Volume 12


128

Tabela 5– Análise de melhores subconjuntos pelo Cp de Mallow

Fonte: Elaborado pelos autores (2016)

Tabela 6– Significância das variáveis preditoras – Terceiro modelo


Preditor Coef EP Coef T p FIV

Constante 2,83E+09 2,62E+08 10,78 0,000

TRI1 7,59E+05 2,83E+05 2,68 0,010 2,3

TRI2 9,81E+05 2,47E+05 3,97 0,008 1,7

TRI4 9,41E+05 2,85E+05 3,3 0,008 1,8

ANO -1,40E+06 1,31E+05 -10,75 0,000 6,2

LANC% 1,06E+07 8,19E+05 12,96 0,000 1,4

PRECO_MEDIO 9,19E+04 5,66E+04 1,62 0,120 2,0

DESCONTO% 5,63E+06 1,05E+06 5,39 0,000 5,6

TOTAL_PROD 2,59E+04 6,11E+03 4,24 0,000 2,0

Fonte: Elaborado pelos autores (2016)

Gestão da Produção em Foco - Volume 12


129

Tabela 7– Análise de variância (ANOVA) – Terceiro modelo


Fonte de Var. GL SQ QM F p

Regressão 8 3,55E+21 4,44E+20 69,24 0,000

Resíduo 96 6,15E+20 6,41E+18

Total 104 4,16E+21

Fonte: Elaborado pelos autores (2016)

Observou-se que, com exceção da variável análise do Cp de Mallow com todas as


Preço médio, todas as variáveis são variáveis, exceto a variável DESCONTO%.
significativas, porém ainda persistia a
Observando os valores da Tabela 8, o Cp que
multicolinearidade nas variáveis ANO e
apresenta um modelo com menor vício é o
DESCONTO% pois o valor do Fator de
com seis regressores, que exclui as variáveis
Inflação da Variância (FIV) não deve
PROD_LINHA%, PROD_ESTOQUE%,
ultrapassar 4. Para evitar a multicolinearidade
PARCELAM% e PRECO_MEDIO.
entre as duas variáveis, optou-se por refazer a

Tabela 8 - Análise de melhores subconjuntos pelo sem a variável DESCONTO%

Fonte: Elaborado pelos autores (2016)

O quarto modelo de regressão obtido foi: A Tabela 9 mostra que todas as variáveis
foram significantes e possuem valores de FIV
abaixo de 4, indicando não haver
multicolinearidade. Na Tabela 10 sinaliza-se a
significância deste modelo de regressão. O
FAT$ = 1,60E+09 + 222234 TRI1 + 966746
valor de R² ajustado obtido foi de 78,6%.
TRI2 + 1051026 TRI3 - 791701 ANO +
10520856 LANC% + 18392 TOTAL_PROD

Gestão da Produção em Foco - Volume 12


130

Tabela 9– Significância das variáveis preditoras – Quarto modelo


Preditor Coef EP Coef T p FIV

Constant 1,60E+09 1,47E+08 10,84 0,000

TRI1 2,22E+05 3,05E+05 2,04 0,045 2

TRI2 9,67E+05 2,81E+05 3,45 0,001 1,7

TRI4 1,05E+06 2,99E+05 3,52 0,001 1,5

ANO -7,92E+05 7,31E+04 -10,83 0,000 1,5

LANC% 1,05E+07 9,26E+05 11,36 0,000 1,3

TOTAL_PROD 1,84E+04 6,33E+03 2,91 0,005 1,6

Fonte: Elaborado pelos autores (2016)

Tabela 10– Análise de variância (ANOVA) – Quarto modelo


Fonte de Var. GL SQ QM F p

Regressão 6 3,17E+21 5,29E+20 62,60 0,000

Resíduo 98 8,27+20 8,44E+18

Total 104 4,16E+21

Fonte: Elaborado pelos autores (2016)

O Gráfico 4 indica que a suposição de média variância constante, distribuição Normal e


aproximadamente zero para os resíduos, com independência foram respeitadas.
Gráfico 4 – Gráfico de resíduos - Quarto modelo

Fonte: Elaborado pelos autores (2016)

Gestão da Produção em Foco - Volume 12


131

Para verificação dos resultados, foram Erro Médio Quadrático (MSE) se encontram
utilizados três ciclos do terceiro semestre de no Quadro 2. Foi também realizado o teste
2016, os quais não haviam sido inseridos no com a previsão inicial realizada pela própria
modelo. Os resultados obtidos a partir das empresa.
técnicas Desvio Absoluto Médio (MAD) e (ii)

Quadro 2 – Comparação de resultados pelos métodos MAD e MSE


MAD MSE

Modelo de Previsão da Modelo de Previsão da


regressão empresa regressão empresa

155.585 849.820 4,24E+10 1,37E+12

Fonte: Elaborado pelos autores (2016)

Na comparação dos valores de MAD, o históricos. O modelo de regressão linear


modelo de regressão linear apresentou um múltipla poderá ser usado como um
desvio médio de 155.585 unidades, enquanto argumento em uma discussão gerencial,
a previsão inicial da empresa gerou um erro apresentando valores que reafirmem o valor
médio de 849.820, denotando que o modelo do plano estipulado, ou com justifique sua
de regressão se mostrou mais acurado em alteração. Os métodos qualitativos usados
relação à previsão de longo prazo da atualmente não devem ser descontinuados ou
empresa. substituídos pelo método novo, mas sim
complementados a fim de se obter uma
melhor acurácia nas previsões realizadas.
4. CONSIDERAÇÕES FINAIS
Considerando as variáveis do modelo,
O estudo atingiu seu objetivo geral de algumas considerações podem ser feitas: o
construção de um modelo de regressão linear total de produtos disponíveis no ciclo e a
múltipla adequado, aplicado à previsão do proporção de produtos com desconto se
faturamento advindo da demanda de uma mostraram significativas. É possível que esses
família de produtos da empresa de vendas atributos também sejam significantes para
diretas. Os objetivos secundários de outras famílias de produtos, porém necessita-
identificar variáveis de influência nas vendas se de mais estudos para confirmar esta
dos produtos e da verificação da eficiência da afirmação.
previsão, comparado ao método já utilizado
Algumas variáveis, de outra maneira,
pela empresa, também foram atingidos.
influenciam as vendas de cada categoria de
Ao analisar os resultados do modelo proposto, forma diferente. Algumas variáveis não foram
observa-se um desempenho melhor ao prever consideradas significativas. A empresa, com
o faturamento da família de produtos no ciclo conhecimento dessa informação, pode utilizá-
do que o método quantitativo utilizado pela la no desenvolvimento de perguntas de uma
empresa. pesquisa de mercado, a fim de se traçar o
perfil do consumidor desses itens. Um
Antes de cada ciclo, o setor de previsão de
exemplo seria a hipótese de o consumidor de
demanda recebe uma diretriz da diretoria que
determinada família de produtos levar mais
estipula o faturamento esperado naquele
em consideração o lançamento de novos
período. Após a estimativa que foi realizada
produtos do que as suas condições de
produto a produto, compara-se seu valor total
pagamento.
com o plano elaborado pela diretoria. Muitas
vezes, existe uma diferença considerável Outro aspecto expressivo em relação às
entre os números, sendo a expectativa da alta variáveis explicativas são as variáveis dummy
direção super ou subestimada. Com a relativas aos trimestres dos ciclos. Por meio
presença do modelo de regressão linear, a da comparação entre seus coeficientes é
equipe de previsão terá mais uma ferramenta possível presumir em quais trimestres
para verificar a coerência de sua projeção, determinados produtos possuem maiores
em conjunto com estudos de dados

Gestão da Produção em Foco - Volume 12


132

procuras, observando assim a sazonalidade Estudo de impacto no lucro operacional do


das vendas dentro de um ano. negócio por redução de excedentes ou perda
de venda por falta de produtos.
O principal cuidado que se deve tomar em
relação à previsão utilizando famílias de No processo de previsão de demanda, toda e
produtos é o chamado risk pooling, nos quais qualquer ferramenta que contribua para a
os pequenos erros de previsão de cada mensuração dos valores de forma eficaz
produto dentro da família se anulam quando auxiliando a estimação é relevante. As
chega-se ao número final de previsto versus técnicas devem ser revistas constantemente e
realizado, gerando uma falsa conclusão de avaliadas quanto aos seus erros, com intuído
acerto. Porém nas fases iniciais do processo de se construir um sistema de previsão cada
de estimação de produtos de venda direta, o vez melhor. Vale ressaltar que as técnicas
modelo ainda se mostra muito útil. Utilizando o quantitativas devem ser utilizadas como base,
número aproximado de previsão é possível ganhando consistência e capacidade quando
iniciar um próximo trabalho de previsão mais combinadas com análises qualitativas dos
refinado, abrindo cada família e prevendo a profissionais de marketing.
demanda dos produtos um a um.
Os gestores mais eficientes na estimação de
Como sugestões para trabalhos futuros vendas são aqueles que, a partir da união
elencam-se os seguintes pontos: entre dados quantitativos, experiência prática
e as limitações de capacidade presentes no
O estudo das variáveis significantes no
setor produtivo, conseguem estimar um
modelo de regressão linear, e seus impactos
volume que seja o mais próximo possível do
nas estratégias de marketing na empresa;
que será absorvido pelo mercado.
Estratégias e políticas de gestão de estoques
com base na previsão de vendas;

REFERÊNCIAS
[1]. ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE 2014. Disponível em:
EMPRESAS DE VENDAS DIRETAS – ABEVD. <https://producaoonline.org.br/rpo/article/view/165
Venda Direta. São Paulo, 2015a. Disponível em: < 7/1219>. Acesso em: 29 nov. 2016.
http://www.abevd.org.br/venda-direta/>. Acesso
[6]. GIULIANI, A. C.; KEPPLER, E. V.;
em: 22 jun. 2017.
CASADEI, M. C. B. O sistema de marketing da
[2]. _____. Indicadores do setor. São Paulo, empresa varejista no Brasil. In: GIULIANI, A. C.
2015b. Disponível em: (org.). Gestão de Marketing no Varejo II. Itu: Ottoni,
<http://www.abevd.org.br/imprensa/indicadores- 2005. Disponível em:
do-setor/vendas-diretas-atingem-r-4166-bilhoes- <https://www.researchgate.net/publication/2650661
em-volume-de-negocios-em-2014/>. Acesso em: 12_O_sistema_de_marketing_da_empresa_varejist
23 set. 2016. a_no_Brasil>. Acesso em: 10 out. 2016
[3]. _____. Números da ABEVD mostram [7]. GUIRRO, R. Marketing: uma boa agenda é
estabilidade no volume de negócios nas vendas fundamental. Revista Valor Setorial: Especial de
diretas em 2015. São Paulo, 2016. Disponível em: vendas diretas. São Paulo: Associação Brasileira
<http://www.abevd.org.br/noticias- de Empresas de Vendas Diretas, 2007.
publicacoes/numeros-da-abevd-mostram-
[8]. HARVEY, D. A produção capitalista do
estabilidade-no-volume-de-negocios-nas-vendas-
espaço. São Paulo: Anablume, 2005.
diretas-em-2015/>. Acesso em 22 jun. 2017.
[9]. KOTLER, P.; ARMSTRONG, G. Princípios
[4]. _____. Vendas diretas movimentam mais
de marketing. 12. ed. São Paulo: Pearson, 2012.
de R$ 40 bilhões em 2016. São Paulo, 2016.
Disponível em: <http://www.abevd.org.br/noticias- [10]. KRAJEWSKI, L.; RITZMAN, L.;
publicacoes/vendas-diretas-movimentam-mais-de- MALHOTRA, M. Administração de Produção e
r-40-bilhoes-em-2016/>. Acesso em 22 jun. 2017. Operações. 8. ed. São Paulo: Pearson, 2009.

[5]. CARDOSO, F. G.; VIEIRA, F. G. V.; SILVA, [11]. LAS CASAS, A. L.; GARCIA, T. M.
J. E. A. R.; FIGUEIREDO, A. M. Avaliação do nível Estratégias de marketing para varejo. Inovações e
de serviço logístico de uma empresa distribuidora Diferenciações Estratégicas que Fazem a
de autopeças. Revista Produção Online. Sorocaba, Diferença no Marketing de Varejo. São Paulo:

Gestão da Produção em Foco - Volume 12


133

Novatec, 2007. Disponível em: demanda. Porto Alegre: UFRGS, 2000. Disponível
<http://www.martinsfontespaulista.com.br/anexos/p em:
rodutos/capitulos/250037.pdf >. Acesso em <http://www.producao.ufrgs.br/arquivos/publicacoe
Acesso em: 30 out. 2015. s/Fernando%20R%20Pellegrini.pdf>. Acesso em:
05 out. 2016.
[12]. MIYATA, H. Trabalho, redes e territórios
nos circuitos da economia urbana: uma análise da [16]. PRATTE, A. G., A.; GALLY, L.; GIULIANI,
venda direta em Jundiaí e Região Metropolitana de A. C.; PIZZINATO, N. Adequação das estratégias
São Paulo. Tese (doutorado em Geografia de venda direta ao comportamento do consumidor
Humana)- Departamento de Geografia da no setor de cosméticos: Estudo de caso PH6
Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas Cosméticos. Piracicaba, Caderno Profissional de
da Universidade de São Paulo, São Paulo: 2011. Administração da UNIMEP, v. 1, n. 1, Piracicaba,
Disponível em: 2011. Disponível em:
<http://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/8/8136/t <http://www.cadtecmpa.com.br/ojs/index.php/http
de-31052011-152113/pt-br.php>. Acesso em: 03 wwwcadtecmpacombrojsindexphp/article/view/5/17
mar. 2015. >. Acesso em: 04 mar. 2015.

[13]. MIYATA, H.; SUZUKI, J. O crescimento da [17]. VITORINO et al. Venda Direta: Uma
venda direta no Brasil: Um caso de inserção Análise com Produtos Profissionais de Saúde e
precária da mulher no mercado de trabalho. Belo Beleza. Piracicaba, 2010. Disponível em:
Horizonte, 2012. Disponível em: <www.convibra.com.br/upload/paper/adm/adm_28
<www.geoginfo.pro.br/geog/publicacoes/Miyata- 45.pdf>. Acesso em: 19 abr. 2015.
Suzuki-2012-07-22.doc>. Acesso em: 03 mar.
[18]. WORLD FEDERATION OF DIRECT
2015.
SELLING ASSOCIATION, WFDSA. Sales by
[14]. MONTGOMERY, D. C.; RUNGER, G. C. Product Category Report. Washington, DC. 2016.
Estatística Aplicada e Probabilidade para Disponível em: <http://wfdsa.org/wp-
Engenheiros. 6. ed. Rio de Janeiro: LTC, 2016. content/uploads/2016/02/FINAL-Product-Report-
2015-5-31-2016.pdf> Acesso em: 18 out. 2016.
[15]. PELLEGRINI, F. R. Metodologia para
implementação de sistemas de previsão de

Gestão da Produção em Foco - Volume 12


134

Capítulo 13

Marcito Ribeiro Madeira Campos


Ronaldo Rodrigues Pacheco
Gustavo Silveira
Isabel Gosaves
Mateus Melchior

Resumo: O objetivo deste trabalho é elencar critérios sustentáveis presentes em


eco labels internacionais que possam ser aplicados a alguns produtos prioritários
consumidos pelo governo do distrito federal. Foi verificado o cenário atual da
organização quanto aos critérios adotados na aquisição e licitações de produtos de
consumo, posteriormente foi proposto a inserção de critérios sustentáveis em
produtos presentes em normas e licitações, que possam vir a melhorar a qualidade
das compras públicas. A presente pesquisa caracteriza - se como exploratória por
se tratar de um tema ainda pouco explorado. Quanto ao procedimento de coleta
dos dados, se deu por meio de dados secundários com enfoque em documentos e
normas dos membros associados à global ecolabelling network e por meios de
reuniões diretas com o cliente. A estratégia de análise dos dados se deu pela
análise de conteúdo. Espera-se que os critérios elencados neste trabalho, sejam
utilizados em futuras licitações de modo que as compras governamentais passem a
levar em conta todo o ciclo de vida do produto e se tornem mais sustentáveis.

Palavras – chave: eco - label; critérios sustentáveis; sustentabilidade; compras


públicas; licitação.

Gestão da Produção em Foco - Volume 12


135

1. INTRODUÇÃO eficaz para a promoção de um novo modelo


de desenvolvimento sustentável, devido a
O tema do desenvolvimento sustentável
significância do poder de compras dos
começou a ser mais fortemente discutido nos
Estados nacionais serem bastante
anos 1980 quando a Organização das
significativo. No Brasil, por exemplo, as
Nações Unidas (ONU) criou a Comissão
compras governamentais movimentam
Brundtland para tratar da crescente
recursos estimados entre 10 e 15% do PIB
preocupação mundial com a deterioração do
(Silva e Barki, 2012). Se esse importante
meio ambiente.
poder de compra for usado para promover a
Foi elaborado o relatório Nosso Futuro Comum produção de bens e serviços mais
da ONU (1987), com o intuito de alertar sobre sustentáveis, poder-se-ão esperar melhorias e
os padrões de consumo e de produção de mudanças consideráveis nas estruturas do
bens atuais são incompatíveis com a noção mercado. Diante do exposto, surge a
de desenvolvimento sustentável, em função pergunta norteadora da pesquisa: como
da degradação ambiental, das desigualdades contribuir para que as compras do GDF
sócias, do desenvolvimento insustentável. atendam a critérios definidos de
sustentabilidade?
Na Rio 92, conhecida com a Cúpula da Terra,
foi adotada a Agenda 21 Global, documento Diante do problema apresentado, este artigo
que consolida um amplo programa de tem como objetivo elencar critérios
sustentabilidade ambiental, visando promover sustentáveis presentes nos Eco-Label que
um novo padrão de desenvolvimento que leve possam ser aplicados a alguns dos produtos
em consideração não apenas a eficiência prioritários de consumo do GDF. Permitindo a
econômica, mas também a preservação do proposição de recomendações de critérios
meio ambiente. que possam serem implementadas em
normas e licitações pelo GDF, contribuindo
Uma das mensagens mais importantes da Rio
assim com o desenvolvimento sustentável, ao
92 foi a de que o desenvolvimento sustentável
mobilizar o seu poder de compra para
e uma melhor qualidade de vida somente
estimular novos mercados e padrões mais
poderão ser alcançados se as nações
sustentáveis de consumo.
reduzirem consideravelmente ou eliminar
padrões insustentáveis de consumo.
Seguindo tal raciocínio, na Cúpula Mundial 2. REFERENCIAL TEÓRICO
sobre Desenvolvimento Sustentável de
Nos últimos tempos a discussão sobre
Joanesburgo, em 2002, surgiu de forma
sustentabilidade tem se voltado para a cultura
proeminente o conceito de compras verdes,
de consumo. Segundo Portilho (2003), na
com enfoque na promoção de políticas
economia neoclássica, é atribuído ao
públicas que beneficiem o desenvolvimento e
consumidor uma soberania, que o caracteriza
a difusão de produtos e serviços favoráveis ao
como um indivíduo racional, que busca
meio ambiente, (United Nations, 2002: p.103).
maximizar sua satisfação através dum amplo
Posteriormente esse conceito foi expandido
cálculo, utilizando como parâmetro mérito,
para considerar os fatores sociais e
limitação e preço dos produtos. Portilho
financeiros nas tomadas de decisão de
(2003) discute ainda o deslocamento no
compras, chegando-se à concepção das
discurso sobre a questão ambiental, que de
compras públicas sustentáveis (Betiol et al.,
maneira geral sai da esfera da produção e
2012).
adentra a esfera do consumo e em conjunto
Segundo o Ministério do Meio Ambiente, 50% com as contribuições de Prahalad (2005) e
do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro Hart (2006), sugere que o problema da
depende da biodiversidade, o que demanda compra sustentável seja tratado em duas
a inserção de novos padrões de consumo, esferas: a esfera da produção e a esfera do
bem como a busca por novas formas de consumo, realçando, que para se tornarem
pensar o desenvolvimento, preservando os viáveis as novas práticas produtivas precisam
recursos naturais, dos quais dependem a de um mercado consumidor politizado e
nossa economia e o crescimento sustentável consciente.
do país¹.
Nesse contexto, o estado como consumidor
De tal modo, as compras públicas desempenha um papel importante no
sustentáveis podem se tornar um instrumento incentivo ao consumo de forma consciente,

Gestão da Produção em Foco - Volume 12


136

além de agir como um catalisador de de vida e verificadas por esse ou outro


sustentabilidade dado que força as empresas terceiro qualificado.
fornecedoras a se adequarem às normas com
A certificação através de eco-label de
responsabilidade social, ambiental e
organizações independentes, ou mesmo a
econômica, contemplando todo o transcurso
adequação de critérios sustentáveis, são
dos bens.
processos caros (Ibanez e Grolleau, 2007), os
De acordo com Monteiro (2006), a 5ª era da custos, sobretudo quando se analisa o ciclo
produção tem como um dos seus de vida do produto, são altos (Piotrowski e
fundamentos a preocupação com toda a Kratz, 1999). Recursos financeiros podem ser
cadeia produtiva do produto, que devem um agravante também para abrangência do
considerar critérios sustentáveis desde a selo, visto que orçamentos menores tendem a
extração de matéria-prima até a destinação reduzir as operações necessárias para a
final dos resíduos. criação (Banerjee e Solomon, 2003).
Horne (2009) diz que existe um aumento na No entanto, diversos estudos apontam que os
demanda por produtos que possuem algum usos de eco-label são benéficos, tanto
tipo de rotulagem ecológica, além disso, Teisl economicamente, quanto ecologicamente.
et al (2002) diz que a presença de eco-label Teisl et al (2002) evidenciou que
pode alterar o comportamento da demanda consumidores respondem positivamente a
de produtos, se mais pessoas compram produtos que possuem selos que garantam
produtos com selos, mais o mercado vai algum benefício ecológico.
providenciá-los.
Somente a existência do selo ecológico pode
Assim, este trabalho aborda eco-label os não ser o suficiente para garantir que seus
selos de tipo I usados pela GEN e definidos requisitos sejam atendidos, sendo a
na ISO, emitidos por organizações participação e/ou apoio do governo
independentes e usadas voluntariamente por fundamental para obtenção de maior
empresas que submetem seus produtos para credibilidade; além do reconhecimento em
inspeções ou de outra maneira atendem aos relação ao suporte jurídico, financeiro e
requisitos propostos (Wynne, 1994). viabilidade serem maior ao longo prazo
(Banerjee e Solomon, 2003).

2.1 SELOS ECOLÓGICOS (ECO-LABELS)


3 PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS
Os selos ecológicos (eco-labels) são selos ou
certificados que empresas buscam de forma O presente estudo caracteriza-se por ser
voluntária para seus produtos ou serviços, são exploratório e transversal. Segundo Gil (2012),
usados para identificar preferências pesquisas dessa característica são
ambientais que este produto ou serviço desenvolvidas com o objetivo de proporcionar
possui (Global Ecolabelling Network (GEN), uma visão geral a acerca de um determinado
2004). fenômeno, de modo particular, quando o tema
abordado é pouco explorado, possibilitando
Os selos ecológicos possuem em suma 3
que o pesquisador possa torná-lo notório ou
tipos (ISO 14020, 2002):
desenvolver critérios precisos. Acerca do
Tipo I: Um programa voluntário, com base em recorte temporal, o estudo é tido como
critérios múltiplos, que concede uma licença transversal, pois, conforme Cooper e
que autoriza o uso de rótulos ambientais em Schindler (2003), o mesmo é único e
produtos que indiquem a preferência compreende um instante de determinado
ambiental geral de um produto em uma momento para coleta de dados, descrição e
determinada categoria de produtos com base avaliação do fenômeno.
em considerações de ciclo de vida.
Com o intuito de atender aos objetivos da
Tipo II: Informações ambientais presente pesquisa, no decorrer do estudo
autodeclaradas; foram realizadas reuniões com o GDF, a fim
de coletar dados e informações primárias
Tipo III: Programas voluntários que fornecem
acerca das operações e procedimentos com
dados ambientais quantificados de um
o gerente responsável pelo setor de compras.
produto, em categorias pré-definidas de
Foram feitos questionamentos pertinentes às
parâmetros estabelecidas por um terceiro
atividades de compras, que de acordo com
qualificado e com base na avaliação do ciclo

Gestão da Produção em Foco - Volume 12


137

Goode e Hatt (1969), contribui para a produtos considerados os mais demandados


precisão, focalização e validade. e que melhor se adequam à proposta do
estudo de acordo com opiniões e experiência
dos responsáveis pelas compras da
3.1 COLETA E ANÁLISE DOS DADOS Subsecretaria de Compras Governamentais e
em dados da Secretaria de Planejamento,
Após a definição do escopo da pesquisa, foi
Orçamento e Gestão (SEPLAG), que são:
solicitado para o cliente dados sobre os
papel para impressão, lâmpadas, produtos
produtos de consumo, a fim de identificar
para limpeza, mobiliário, equipamentos de
quais são os produtos que demandam maior
representação gráfica, produtos têxteis e
recursos financeiros no processo de
informática. Abaixo é apresentado no gráfico
aquisição. Por não ter os dados demandados
1 dos pregões já finalizados até março de
de todos os produtos, o cliente disponibilizou
2017, que mostra a relação de alguns
uma lista de compras dos produtos
produtos e seus valores monetários.
consumidos, da qual foram selecionados sete

GRÁFICO 1- Pregões Finalizados em 2017 na Secretaria de Compras Governamentais.

Fonte: Adaptada da SEPLAG (2017).

Após definidos os produtos a serem Ecolabel (União Europeia) e Good


explorados, as coletas de dados relacionados Environment Choice Australia (Austrália), a
aos critérios sustentáveis foram realizadas por escolha de tais selos se deu por uma análise
meio da base de dados secundários com foco de comparação entre os produtos propostos e
nos documentos dos membros da Global os produtos que os membros do GEN
Ecolabelling Network (GEN), associação que abrangiam, os 4 selos escolhidos foram os
contém 25 países membros que desenvolvem que, juntos, abordavam de forma adequada
rotulagens ecológicas (selos) para diversos todos os produtos sugeridos pelo cliente,
produtos. Dentre essas rotulagens, foram facilitando assim a realização do quadro
selecionados quatro diferentes Eco-Labels, comparativo dos critérios de cada um dos
Green Council (Hong Kong), Eco Mark do selos para os produtos. Também foram
Japan Environment Association (Japão), EU obtidos dados primários relevantes em

Gestão da Produção em Foco - Volume 12


138

reuniões diretamente com o cliente. Após média até três vezes maior que a nacional, o
coletados, os dados foram organizados em que evidencia um grande potencial de
planilhas, visando facilitar a visualização e desenvolvimento. A maioria da população
exploração dos mesmos. economicamente ativa da cidade (71,8%)
trabalha na área de serviços, sendo que 15%
Quanto ao procedimento de análise dos
é servidor da administração pública, defesa
dados, utilizou-se a Análise de Conteúdo
ou seguridade social, de acordo com dados
referente aos 4 selos, com a finalidade de
de 2015 da Companhia de Planejamento do
identificar a máxima compatibilidade entre os
DF (Codeplan).
critérios sustentáveis exigidos para os
produtos definidos por funcionários O atual cenário da organização, no que se
considerados experientes no setor, como refere às compras públicas tem como único
sendo os mais importantes para o GDF, para critério a economicidade, ao estabelecer
então nortear as exigências a serem feitas nas contratos com empresas que oferecem o
licitações. menor preço, não havendo qualquer critério
sobre a sustentabilidade do produto a ser
comprado. As descrições dos produtos nas
3.2 ETAPAS DA PESQUISA licitações apresentam somente características
físicas dos produtos, o que permite a
Para detalhamento das etapas e escopo da
aquisição de bens que não atendem de forma
pesquisa, os tópicos a seguir mostram o
satisfatória as necessidades do cliente, por
sequenciamento regido para o cumprimento
não apresentarem critérios definidos de
do estudo.
sustentabilidade.
A primeira fase basicamente consistiu em
definir objetivo, escopo, planejamento e
entregas do projeto; 5 RESULTADOS E ANÁLISE
Elaborar pesquisas em bases Com a análise e comparação dos critérios
bibliográficas/pesquisas de escala elencados nos selos adotados, foram
elaborados comparativos que visam orientar
Documentar critérios de sustentabilidade
os tomadores de decisões na hora de
aplicados a determinados produtos;
selecionar critérios para a realização das
Selecionar critérios documentados mais licitações, para tanto cada produto foi
comuns entre os modelos dos membros; analisado utilizando-se de 3 a 4 diferentes
selos.
Documentar critérios selecionados de Eco
rotulagem dos produtos que atendam ao Como resultado, para os setes produtos
GDF; estudados, foram obtidos alguns requisitos a
serem atendidos nas diversas fases do
processo de fabricação, desde a extração da
4 ESTUDO DE CASO matéria-prima até a destinação final dos
resíduos, a fim de minimizar os impactos
4.1 CARACTERIZAÇÕES DA ORGANIZAÇÃO
ocasionados durante todo o ciclo de vida do
O Governo do Distrito Federal (GDF) produto, além de considerar normas vigentes
atualmente é composto por 82 órgãos no Brasil sobre fabricação, que envolvem
executivos, sendo 18 secretarias, 31 diversos parâmetros, tais quais ruídos,
administrações regionais e o restante são poluição do ar e contaminações.
autarquias e empresas públicas, onde todos
Apesar dos selos apresentarem diferentes
possuem orçamento próprio. O Distrito
abordagens no tocante a definição dos
Federal faz parte do Centro-Oeste do Brasil,
critérios sustentáveis a serem atendidos para
localizado a 15°47’ de latitude sul e a 47°56′
cada produto, foi possível fazer um
de longitude oeste.
comparativo entre alguns deles, como
Possui um expressivo mercado consumidor, evidenciado no Quadro 1..
com 2,9 milhões de pessoas com renda

Gestão da Produção em Foco - Volume 12


139

QUADRO 1- Comparativo entre critérios sustentáveis dos produtos - papel, mobiliário e produtos
têxteis. Fonte: Elaborado pelos autores.
Good
Hong Kong Japan Environment
Critérios EU Ecolabel Environment
Green Council Association
Choice

Ao menos 50% As fibras usadas


de fibras podem ser
recicladas, recicladas ou
Fibras recicladas de 70
incluindo 20% de virgens; as fibras
a 100%
conteúdo de pós- virgens devem
Papel para Fibras de madeira
consumo; ou prover de florestas -
impressão certificada até 30%
fibras virgens sustentáveis
O brilho do papel deve
originárias de contendo a
ser ≤ 70%
fontes certificação do
sustentáveis com FSC, PEFC ou
certificação equivalente.

Matéria prima
principal é o
plástico;
15% ou mais de
50% do plástico
material plástico de pré As fibras de
deve ser
ou pós-consumo; 30% madeira devem
recliclado;
Mobiliáro ou mais de materiais - prover de fontes
Reutilizar mais de
de reuso; 70% ou mais com certificação
15% do plástico;
de polpa de papel FSC ou AFS
90% do peso dos
reciclado
materiais de
metal devem ser
reciclados

As aminas à base
Fibra de algodão
de anilina não
Papel O polímero reiclado Teor orgânico
devem ser
Têxteis Reciclado >70% como resina deve superior a 50%
adicionadas ao
Reutilizar >15% ser>=50% Teor PI superior a
material de
70%
preenchimento

O produto
sanitário não
deve agentes de
branqueamento Substâncias e
de cloro e conter misturas excluídas
Total de
em um nível ou limitadas
compostos
limitado: incluindo biocidas,
orgânicos
Produto de corantes e agentes
- Nitrilo-Tri- - voláteis (COV)
limpeza perfumantes, e
Acetato (NTA) =< =< 3% (em peso)
quaisquer
10% a ser diluído em
misturas > 0,010%
água
- Fosfato =< do peso total do
0,5% produto

- Fosfonato =<
0,4%

Tais produtos possuem selos com foco no legalidade da fonte. Caso exista uma prévia
controle das matérias-primas e identificação da violação dos critérios
responsabilidade com a origem dos recursos, ambientais em vigor, a empresa é submetida
exigindo documentação que comprove a à obrigatoriedade de apresentar um plano de

Gestão da Produção em Foco - Volume 12


140

reparação e ainda de medidas de prevenção Mundial de Saúde) são os mais recorrentes e


para evitar a reincidência. estão em todos os selos, o que indica um
ponto essencial na implementação dos novos
A biodegradabilidade dos compostos
requisitos de compras. Chumbo, mercúrio,
aparece reiteradas vezes, por exemplo, nos
cádmio e outros metais pesados também
produtos de limpeza a capacidade do
figuram entre as proibições. O uso de
material de ser decomposto pelos micro-
retardadores de chamas e plásticos CFC são
organismos usuais no meio ambiente após o
igualmente desaconselhados.
seu uso é cobrada nos tensoativos.
Quanto aos produtos eletrônicos, como os de
A proibição de substâncias tóxicas está
representação gráfica, lâmpadas e materiais
presente em todos os critérios a depender do
de informática, os critérios em comum são os
produto, entre elas incluem substâncias R26-
de eficiência energética presentes no Quadro
28, substâncias R50-59 e segurança
2. No Brasil o mais usado é o selo PROCEL,
ocupacional, nos quais irritantes e agentes
que toma como base os resultados dos
sensibilizantes incluem substâncias R36-38 e
ensaios realizados para o Programa Brasileiro
R 42-43, carcinogênicos, teratogênicos e
de Etiquetagem (PBE), coordenado pelo
mutagênicos, ou quaisquer substâncias R45-
Instituto Nacional de Metrologia, Normalização
49, O IARC grupo 1 ou 2A de substâncias. Os
e Qualidade Industrial (Inmetro).
pesticidas 1a e 1b da OMS (Organização

QUADRO 2- Comparativo entre critérios sustentáveis.


Produto Hong Kong Green Council Japan Enviroment EU Ecolabel
Association

Lâmpada Produto certificado pelo Produto certificado pelo Classe A na Definição mais
selo Energy Star selo Energy Star recente de classe de eficiência
energética

A média mínima de vida A vida útil do produto A média mínima deve ser de
útil de ser ≥ 8.000 horas deve ser ≥ 40.000 horas 10.000 horas

Representação Produto certificado pelo Produto certificado pelo Produto certificado pelo selo
Gráfica selo Energy Star selo Energy Star Energy Star

Produtos de Desktop ≤ 3 Watts Produto deve estar em Produto certificado pelo selo
Informática conformidade com o selo Energy Star
Notebook ≤ 4Watts
Energy Star
O produto deve fornecer ao
Monitores devem attender
cliente, no mínimo, 7 horas de
ao Energy Efficiency
utilização da bateria após a
Labelling Scheme (EELS).
primeira carga plena.

Fonte: Elaborado pelos autores

Por fim há a exigência de garantia mínima 5 CONSIDERAÇÕES FINAIS


necessária nos selos ecológicos por parte dos
O presente estudo atinge o objetivo proposto,
fabricantes/fornecedores e a destinação dos
visto que teve como entrega ao GDF um
resíduos dos produtos, desmonte e descarte
conjunto de critérios sustentáveis referentes
devem ser orientadas pelo fabricante, no qual,
aos produtos elencados. No entanto, os
normalmente, a indicação é que seja
padrões de consumo e de produção de bens
apontado um centro de reciclagem para o
atuais do GDF, incompatíveis com a noção de
qual os produtos devem ser enviados.
desenvolvimento sustentável, sinalizam para a
necessidade de uma mudança de paradigma
em direção a um modelo de desenvolvimento
que seja economicamente viável a longo
prazo, socialmente justo e, sobretudo,

Gestão da Produção em Foco - Volume 12


141

ambientalmente correto. Assim cabe ao GDF, proposto um estudo para priorização dos
um papel de liderança nesse processo, por critérios sustentáveis e suas implementações
possuir mais condições e recursos se em normas e licitações, contribuindo assim
tratando de produção, mercado e consumo, para compras com maior qualidade. Dado
uma vez que ele possui dispositivos como, que o governo é um dos principais
por exemplo, instrumentos legais, através dos compradores do Distrito Federal e levando em
quais podem regular as atividades consideração a sua influência nos padrões de
econômicas e o mercado por meio de normas fabricação e especificações de uma ampla
e licitações, além de um poder de compra gama de produtos, espera-se mudanças
relevante, que o torna capaz de influenciar ambientalmente corretas nos padrões de
mercados. fabricação e consumo.
Como recomendações para trabalhos futuros
relacionados a compras públicas do GDF, é

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
[1]. Anders. The importance of beliefs and [10]. HORNE, Ralph E. Limits to labels: The role
purchase criteria in the choice of eco-labeled food of eco‐labels in the assessment of product
products. Journal of Environmental Psychology, v. sustainability and routes to sustainable
21, n. 4, p. 405-410, 2001. consumption. International Journal of Consumer
Studies, v. 33, n. 2, p. 175-182, 2009.
[2]. BANERJEE, Abhijit. SOLOMON, Barry D.
Eco-labeling for energy efficiency and [11]. IBANEZ, Lisette; GROLLEAU, Gilles. Can
sustainability: a meta-evaluation of US ecolabeling schemes preserve the
programs. Energy Policy, v. 31, n. 2, p. 109-123, environment? Environmental and Resource
2003. Economics, v. 40, n. 2, p. 233-249, 2008.
[3]. COOPER, Donald R.; SCHINDLER, Pamela [12]. MEIO AMBIENTE, Ministério. Agenda
S. Métodos de pesquisa em administração. 7.ed. ambiental na Administração Pública. 5. ed.,
Porto Alegre: Bookman, 2003. revisada e atualizada. Brasília, 2009.
[4]. ECONOMIA. Economia de Brasília. [13]. PESQUISA DE EMPREGO E
Disponível em: DESEMPREGO. Mercado de trabalho no Distrito
<http://www.brasilia.df.gov.br/index.php/2015/10/2 Federal em 2015. Disponível em:
1/economia/> Acesso em: 22 jun.2017. <http://www.codeplan.df.gov.br/images/CODEPLA
N/PDF/pesquisa_socioeconomica/ped/2015/PED-
[5]. FUERST, Franz; MCALLISTER, Pat. Eco-
DF_Anual_2015.pdf> Acesso em: 22 jun. 2017.
labeling in commercial office markets: Do LEED
GRANKVIST, Gunne; BIEL, PRAHALAD, C. K. A
and Energy Star offices obtain multiple
riqueza na base da pirâmide: como erradicar a
premiums? Ecological Economics, v. 70, n. 6, p.
pobreza com o lucro. Porto Alegre: Bookman,
1220-1230, 2011.
2005.
[6]. GIL, Antônio Carlos. Métodos e técnicas
[14]. PIOTROWSKI, Ralph; KRATZ, Stefan. Eco-
de pesquisa social. 6. ed. São Paulo: Atlas, 2012.
labelling in the Globalised Economy. Challenges of
[7]. GOODE, William J.; HATT, Paul K. globalization: new trends in international politics
Métodos em pesquisa social. 3. Ed. São Paulo: and society. New Jersey: Transaction Publishers, p.
Nacional, 1969. 217-37, 2005.

[8]. GRANKVIST, Gunne; BIEL, Anders. The [15]. PORTILHO, F. O discurso internacional
importance of beliefs and purchase criteria in the sobre consumo sustentável: possibilidades de
choice of eco-labeled food products. Journal of ambientalização e politização da esfera privada.
Environmental Psychology, v. 21, n. 4, p. 405-410, Tese (Doutorado). Campinas, SP: 2003.
2001. PORTILHO, F. Sustentabilidade Ambiental,
Consumo e Cidadania. São Paulo: Cortez, 2005.
[9]. HART, Stuart L. O Capitalismo na
Encruzilhada: as inúmeras oportunidades de [16]. TEISL, Mario F.; ROE, Brian; HICKS,
negócios na solução dos problemas mais difíceis Robert L. Can eco-labels tune a market? Evidence
do mundo. Porto Alegre: Bookman, 2006. from dolphin-safe labeling. Journal of

Gestão da Produção em Foco - Volume 12


142

Environmental Economics and Management, v. 43, system’s environmental report card and the green
n. 3, p. 339-359, 2002. seal certification mark programs. Virginia Environ
Law J 14:51–149
[17]. Wynne RD (1994) The emperor’s new eco-
logos? A critical review of the scientific certification

Gestão da Produção em Foco - Volume 12


143

Capítulo 14

Marcilon Fonseca De Lima


Joao Felipe Bicalho Prado
Priscilla Borges De Freitas Rodrigues
Clarimar J Coelho

Resumo: A construção enxuta já está consolidada como uma filosofia de gestão


eficiente para uma construtora que busca melhorar seus resultados, porém a
disseminação prática desta filosofia no mercado ainda é escassa. O mercado da
construção no brassil ainda carece de informações e treinamentos para aplicação
efetiva da construção enxuta em sua gestão, mas muitos de seus princípios já
estão sendo aplicados, mesmo que de maneira não estruturada. O objetivo deste
trabalho foi fazer uma revisão bibliográfica buscando estudos anteriores acerca da
aplicação dos onze princípios da construção enxuta de Koskela (1992),
examinando o desempenho da aplicação prática da filosofia enxuta no brasil. Vinte
e uma construtoras de diferentes regiões do país foram analisadas e um panorama
geral da construção enxuta no Brasil foi apresentado. Foi mostrado que muitos
destes onze princípios já estão sendo parcialmente utilizados, seja pelo
atendimento às normas de controle de qualidade ou por procedimentos internos,
mas ainda há a necessidade de muito mais investimento para a disseminação da
construção enxuta no país.

Gestão da Produção em Foco - Volume 12


144

1. INTRODUÇÃO 2. FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA


Através de um estudo detalhado ao modelo 2.1 CONSTRUÇÃO ENXUTA
Fordista, Ohno via desperdício em cada etapa
Em 1992 o Centro Integrado de Engenharia
de um processo que era considerado
da Universidade de Stanford publicou o
extremamente eficiente. Para ele, a busca
Relatório Técnico nº 72 – Aplicação da Nova
incessante por máxima e ininterrupta
Filosofia de Produção a Construção, escrito
produção deixava defeitos na linha de
por Lauri Koskela. Conforme Formoso (2002)
montagem Ford e entregava produtos finais
neste relatório o engenheiro desafia os
que não atendiam as expectativas dos
profissionais de construção a quebrar
clientes finais, o que ele classificou como o
paradigmas de gestão e adaptar as técnicas
desperdício por excesso de produção
e ferramentas desenvolvidas com sucesso no
(Howell, 1999).
STP, lançando assim as bases desta nova
Ohno concluiu então que mudanças no filosofia por meio de adaptação dos conceitos
processo produtivo Toyotista poderiam de fluxo e geração de valor presentes no
otimizar a produção. Com a adequação de Pensamento Enxuto à construção civil, a qual
dois princípios básicos, Gestão da Qualidade foi chamada de Construção Enxuta.
Total (Total Quality Manegement – TQM) e
Tradicionalmente, podemos definir o processo
Just in Time (JIT), conceito para a produção
de produção de edificações em dois grandes
por demanda (Formoso, 2002), o SPT evolui
ramos de atividades:
para a consolidação de um novo sistema de
produção, a Lean Production, com objetivo de a) Atividades de Conversão: processam e
redução/eliminação de desperdícios no transformam materiais (matérias primas) em
processo produtivo. produtos acabados, como por exemplo
blocos cerâmicos e argamassa em alvenaria;
O mercado da construção civil necessita de
um esforço constante por técnicas que b) Atividades de Fluxo: estão entre as
aumentem a produção e reduzam custos, de atividades de conversão, como fluxo de
maneira a atender as exigências dos materiais e de mão de obra.
consumidores. Assim, a busca por inovação
As atividades de conversão são as que
de métodos e processos é uma necessidade
realmente geram valor para a obra, pois são
do mercado.
as que obtém interesse do cliente por se
Logo, a incorporação de diretrizes e conceitos trataram do produto acabado. Assim, a
de um modelo produtivo que se mostrou incorporação do novo modelo construtivo visa
extremamente eficiente no setor a otimização dessas atividades geradoras de
automobilístico para a construção civil se valor e a eliminação de custos
destaca pelo grande potencial de geração de desnecessários relativos as atividades de
resultados, como o aumento da produtividade fluxo.
e redução de custos.
Segundo Koskela (1992), o modelo tradicional
O presente artigo tem como objetivo analisar de conversão apresenta três características
o desempenho de cada um dos onze básicas, listadas a seguir: a) O processo de
princípios da Construção Enxuta conversão pode ser subdividido em
apresentados por Lauri Koskela (1992) no subprocessos, que também são atividades de
Brasil. Assim, foi feita uma análise através de conversão. A execução de pilares pode ser
revisão bibliográfica de empresas subdividida, por exemplo, em execução de
construtoras que utilizam preceitos enxutos, formas, corte, dobragem e montagem de
demonstrando a eficiência com a qual cada armaduras e lançamento do concreto; b) O
um dos princípios está sendo utilizado. Desta custo total do processo pode ser minimizado
maneira foi possível identificar em quais reduzindo o custo de cada subprocesso; c) O
princípios da Construção Enxuta estão os valor do produto final é associado ao custo
maiores e menores índices de aplicação, dos materiais (matéria prima) utilizados.
assim como um uma visão geral do
Porém, quando analisado pelo ponto de vista
desenvolvimento da técnica no Brasil.
da Construção Enxuta, este modelo apresenta
deficiências. Para Formoso (2002), a primeira
é que grande parte das atividades que geram
custos em uma obra não são consideradas
por representarem fluxos físicos, como o

Gestão da Produção em Foco - Volume 12


145

transporte, espera por material, retrabalho etc. selecionados aqueles que mais se
Além disso, para o autor, o modelo tradicional encaixaram no objetivo proposto.
tende a focar suas melhorias nos
Os bancos de dados usados para a pesquisa
subprocessos individuais, e não no sistema
foram o IGLC Papers (Grupo Internacional da
de produção como um todo. Assim as
Construção Enxuta) e Google Acadêmico,
melhorias, principalmente tecnológicas, nas
com palavras chaves buscando “Construção
atividades de conversão podem deteriorar a
Enxuta”, “Estudos de Caso” e “Lean
eficiência dos fluxos e outras atividades de
Construction”. Além destes, não houve filtros
conversão, o que pode limitar a melhoria da
relacionados a ano, região ou temática, e
eficiência global do processo.
todos os artigos relacionados na pesquisa
Assim, para Koskela (1992), a nova filosofia foram baixados e analisados, de formas que
construtiva deve ser analisada como uma os com mais contribuição para o objetivo
rede de fluxo, desde a matéria prima até o foram usados para esta revisão.
produto acabado, de modo que seja
O foco da busca foi por projetos que
constituído por atividades de transporte,
mostrassem o desenvolvimento da
espera, processamento (conversão) e
Construção Enxuta e a aplicação dos onze
inspeção. Então, para otimização dessa rede
princípios de Koskela (1992), abordando
de fluxo, se faz necessário diminuir a parcela
como seus processos construtivos e
de atividades de fluxo que não geram valor
administrativos foram adequados para se
(transporte, espera e inspeção), e aumentar a
encaixar nesta filosofia.
produtividade das atividades de conversão
através do uso de tecnologias, motivação, Devido a diferentes metodologias de medição
treinamentos etc. utilizadas em cada estudo analisado, neste
artigo foi feito o uso da escala de Likert para a
adequação nesta pesquisa, e os critérios
2.2 PRINCÍPIOS DE GESTÃO E EXECUÇÃO utilizados foram de “atendimento”,
“atendimento parcial”, ou “não atendimento”
Lauri Koskela (1992) define 11 princípios para
para cada um dos onze princípios de Koskela
a gestão de processos, que são usados como
(1992). Subsequentemente estes critérios
ponto de partida para a aplicação da
foram valorados numericamente de 0 a 2 para
Construção Enxuta:
cada princípio. A aplicação da escala é
1. Reduzir a parcela de atividades que não atribuída da seguinte forma: à empresa que
geram valor; atende ao princípio citado recebe 2 pontos.
Caso haja o atendimento parcial 1 ponto, e
2. Aumentar o valor do produto através da
caso não haja atendimento nenhum ponto
consideração dos requisitos dos clientes;
será atribuído.
3. Reduzir a variabilidade;
Posteriormente foi feita a soma dos pesos
4. Reduzir o tempo de ciclo; relativos a cada princípio, e através de regra
de três simples foi determinada a
5. Simplificar o processo através da redução
porcentagem efetiva de utilização de cada um
do número de passos e partes;
desses princípios. Com o uso destes dados
6. Aumentar a flexibilidade de saída; de porcentagem foi apresentado ao final dos
resultados um gráfico relativo a porcentagem
7. Aumentar a transparência do processo;
de utilização de cada princípio enxuto no
8. Focar o controle no processo global; Brasil.
9. Introduzir melhoria contínua no processo; 4. Resultados e discussões
10. Manter um balanço entre melhorias nas Quatro artigos e uma dissertação foram
atividades de fluxo e atividades de conversão; selecionados. Ao todo, estes trabalhos tratam
da análise de 21 empresas construtoras
11. Fazer Benchmark.
quanto aos seus aspectos administrativos e
construtivos relacionados aos onze princípios
da Construção Enxuta.
3. MATERIAIS E MÉTODOS
Para uma melhor análise dos resultados os
Baseado na exploração de artigos e
estudos foram denominados “A”, “B”, “C”, “D”
dissertações publicados em bancos de dados
e “E”.
relacionados ao tema, foram filtrados e

Gestão da Produção em Foco - Volume 12


146

Estudo “A” - Aplicação dos Princípios da enquanto as outras duas são de médio e
Construção Enxuta em Construtoras Verticais: grande porte e trabalham com sistemas de
Estudo de Casos Múltiplos na Região gestão de processos e garantia de qualidade.
Metropolitana de São Paulo (PERETTI et al,
Os resultados foram convertidos para escala
2013) - trata da análise de três construtoras.
utilizada neste presente artigo, valorados e
Uma delas é uma construtora de pequeno
apresentados graficamente a seguir na figura
porte e não tem certificações de qualidade,
1:

Figura 1 – Nível de Aplicação aos Princípios da Construção Enxuta no Estudo “A”

A empresa B, sendo a de médio porte, aplica uso de fluxogramas verificar e identificar as


princípios enxutos efetivos na maioria de seus etapas e possíveis melhorias.
processos, destacando-se dentre as outras
Tratar cada cliente e seu projeto de forma
duas. Por este motivo, as descrições da maior
única e diferenciada foi a atitude que se
parte das práticas para a aplicação da
destacou quanto a flexibilidade de saída. O
filosofia enxuta virão desta empresa.
sétimo princípio não obteve aplicação efetiva
Para o primeiro princípio foi identificado em nenhuma das empresas avaliadas.
investimento no treinamento e capacitação de
A empresa com maior grau de sucesso na
engenheiros e mestres de obra. O segundo
aplicação do oitavo princípio faz o uso de
princípio mostra que a consideração dos
sistemas de qualidade. A mesma empresa,
requisitos do cliente vem com estudos de
através de um departamento de pesquisa,
mercado e avaliação da satisfação dos
facilita seus planejadores a buscar novos
clientes, seguindo rigorosos padrões de
produtos e parcerias.
qualidade.
Para o décimo princípio, a empresa com
No terceiro princípio as empresas que se
melhor grau de aplicação pratica o equilíbrio
encaixaram na aplicação dos preceitos
de fluxo e conversões. Em relação ao
enxutos entendem que a redução da
Benchmarking somente uma empresa o
variabilidade vem através de rigoroso controle
pratica efetivamente, disponibilizando seus
através de normas de qualidade, controlando
processos.
assim perdas e desperdícios. Para o quarto
princípio, a melhor aplicação seu deu por Estudo “B” - Aplicação da Lean Construction
meio da empresa que utiliza um sistema de em Empresas da Região Metropolitana de
trabalhos padronizados. Belo Horizonte (OLIVEIRA et al, 2014) - trata
do estudo de aplicação de princípios enxutos
O quinto princípio destaca-se com a utilização
por colaboradores (engenheiros e gestores)
de produtos de inovação como o Dry Wall e o
de 7 empresas.

Gestão da Produção em Foco - Volume 12


147

Figura 2 – Nível de Aplicação aos Princípios da Construção Enxuta no Estudo “B”

Vinte profissionais responderam este entre seus funcionários as metas, resultados e


questionário, e os resultados já convertidos expectativas. Esta mesma porcentagem foi
para a escala deste presente artigo foram obtida quanto as empresas que possuem
apresentados na figura 2: indicadores de desempenho. Quanto ao
oitavo princípio, a maior deficiência apontada
O primeiro princípio obteve um nível de
foi quanto ao controle de produtividade dos
aplicação mediano entre os questionamentos.
operários dentro da obra.
No segundo princípio foi apontado uma forte
deficiência referente a conscientização entre A maior dificuldade quanto a melhoria
clientes internos e externos dentro da obra. contínua no processo foi apontada como a
Isso mostra que o foco está em atender os falta de incentivo ou promoção ao treinamento
clientes externos, deixando de lado as vezes de colabores, principalmente na parte
os requisitos internos. operária da obra. O décimo princípio mostrou
dificuldades quanto ao controle do fluxo de
Destaques vão para o terceiro e o quarto
informações dentro da obra, assim como o
princípio, que tiveram o maior e o menor
controle sobre as compras e entregas de
índice de aplicação, respectivamente. Para o
materiais. E, no ultimo princípio, referente ao
terceiro princípio, notou-se que o fator de
Benchmarking, as empresas mostraram
sucesso de sua aplicação se deve ao fato que
baixos índices de adequação.
42% dos questionados responderam que há
procedimentos padronizados para a maioria Estudo “C” - A Medição de Desempenho da
das atividades na empresa. Paralelo a isso, Construção Enxuta: Estudos de Caso
80% responderam que o tempo de ciclo na (LORENZON, 2008) - esta dissertação trata da
empresa não é conhecido. análise de cinco empresas quanto a
aplicação dos princípios enxutos em sua
Visando a adequação ao quinto princípio, a
gestão. Dentre eles estão uma construtora de
maioria das empresas utilizam produtos pré-
edifícios residenciais, duas construtoras de
moldados, “kits” e gabaritos para reduzir o
obras industriais e residenciais, e duas
seu tempo de ciclo. Para o sexto princípio, o
fabricantes de pré-moldados de concreto.
questionário mostrou que somente 30% das
empresas dão opções de flexibilização de Os resultados obtidos pelo autor foram
layout de acordo com as determinações dos convertidos para a escala presente neste
clientes. artigo e apresentados na figura 3.
Quanto a transparência no processo, somente
55% responderam que a empresa divulga

Gestão da Produção em Foco - Volume 12


148

Figura 6 – Nível de Aplicação aos Princípios da Construção Enxuta no Estudo “C”

No primeiro princípio todas as empresas Duas empresas aplicaram efetivamente o


mostraram preocupação em sua aplicação, sétimo princípio, se destacando pela
decorrente da adoção a práticas como a eficiência da comunicação dentro da obra e
melhoria do layout de canteiro, processos de pelo uso de dispositivos de sinalização como
produção bem definidos e elevado nível de o Andon.
padronização. Assim como no primeiro
A única empresa que aplicou efetivamente
princípio, o segundo também apresentou
melhorias em seu processo o faz através de
elevado grau de preocupação e aplicação.
uso de ferramentas de gestão, como 5S e
Na aplicação do terceiro princípio, somente elaboração de manual para padronização de
uma empresa conseguiu atender projetos. Atitudes como analisar o número de
efetivamente. O diferencial está no melhor paradas do Andon e propor soluções para
controle sobre seus processos através de estas também foram identificadas. No nono e
uma linha de produção padronizada. Na no décimo princípio níveis de aplicação
redução do tempo de ciclo duas empresas se medianos foram identificados.
destacaram pela sua adequação. Foi
Estudo “D” - Investigação dos Princípios Lean
observado que a execução correta de
Construction em Obras de Habitação Popular
atividades repetitivas favorecem este
no Município de Campo Mourão (Paraná): Um
princípio.
Estudo Teórico-Empírico (COSTA et al 2015) -
No quinto princípio foram identificadas falhas trata-se de um artigo realizado investigando
em processos como a polivalência de mão- duas construtoras quanto a ações relativas à
de-obra para reduzir a segmentação entre as aplicação dos onze princípios da Construção
atividades. Pontos de destaque foram para Enxuta.
soluções tecnológicas, como o chapisco
Os resultados relativos a aplicação efetiva dos
mecanizado. No sexto princípio, somente uma
onze princípios da Construção Enxuta obtidos
empresa se destaca na aplicação, isso pela
pelos autores foram convertidos para a escala
participação ativa de clientes durante o
presente neste artigo e apresentados a seguir
processo de concepção do projeto e
na figura 4:
execução da obra.

Gestão da Produção em Foco - Volume 12


149

Figura 4 – Nível de Aplicação aos Princípios da Construção Enxuta no Estudo “D”

No primeiro princípio foi detectado um bom sétimo princípio ativamente. Ações como de
grau de aplicação, com várias ações reuniões semanais entre os gestores e o
referentes a redução das atividades que não corpo técnico das obras para o
geram valor, como o planejamento logístico acompanhamento de atividades e correções
do canteiro de obras e o uso de maquinários de erros garantem a transparência no
para redução do tempo de transporte. processo.
Para o segundo princípio, somente uma O foco no controle global foi determinado em
empresa obteve sucesso de aplicação. Este ações que visam priorizar todas as etapas do
sucesso é devido a construtora ter cuidado de processo construtivo com igual importância,
desenvolver projetos que atendam às além da revisão constante do planejamento
necessidades dos clientes. Quanto a redução da obra e entrega de materiais. No nono
da variabilidade, ambas as empresas buscam princípio, a empresa que se destacou com
a partir de certificações de controle de sucesso de aplicação mostrou-se atenta para
qualidade PBQP-H e ISO 9000 métodos que identificar aspectos de melhoria para reduzir o
auxiliem neste princípio, porem o nível de tempo de ciclo e agregar mais qualidade,
sucesso maior vem da empresa que sempre eliminando perdas. Ferramentas de
desenvolveu métodos próprios para garantir gestão como o 5S também foram identificadas
que o trabalhador não realize serviços de em ambas as empresas.
maneira inadequada.
No décimo princípio foi identificado que as
No quarto princípio as empresas acreditam empresas não o aplicam, mostrado
que através de bonificações e capacitação o principalmente pela falta de conhecimento
tempo de ciclo pode ser reduzido. Como diante do balanceamento de melhorias entre
existem ações muito mais efetivas para o atividades de fluxo e de conversões. O
controle deste princípio, o seu nível de benchmarking foi identificado somente uma
aplicação foi considerado mediano. Já no empresa.
quinto princípio as empresas citaram o uso de
Estudo “E” - Presencie of Lean Construction
“kits” pré-montados como uma das ações
Principles in the Civil Construction Market in
para simplificar e reduzir o processo, e
the State of Goiás (AMARAL et al 2012) – Três
enfatizaram estar sempre em busca de novos
empresas foram pesquisadas, buscando
métodos que colaborem com este princípio.
identificar princípios enxutos em seus
Quanto a flexibilidade de entrega de produtos processos administrativos e construtivos.
diferenciados, ambas as empregas obtiveram
Os resultados encontrados pelos autores
um nível de aplicação mediano. Em
foram convertidos para a escala presente
contrapartida as construtoras aplicam o
neste artigo, e apresentados na figura 5.

Gestão da Produção em Foco - Volume 12


150

Figura 5 – Nível de Aplicação aos Princípios da Construção Enxuta no Estudo “E”

Somente uma das empresas se destacou no sétimo princípio se mostrou ineficiente pela
uso e aplicação dos princípios da Construção falta de ferramentas de gestão, como o 5S, e
Enxuta. Presente em várias estados e grandes de dispositivos de identificação e instrução
cidades do país, esta empresa foi a única visual.
onde a filosofia enxuta foi ativamente
No oitavo princípio a construtora que se
aplicada, com suporte do seu grupo técnico e
destacou realizou ações como o planejamento
operacional.
de cronograma a curto, médio e longo prazo
No primeiro princípio a gestão correta do de forma a atingir os objetivos estabelecidos,
layout de canteiro obteve destaque, assim assim como o controle de prazos,
como o uso de equipamentos e tecnologias desempenho e fornecedores. Na introdução
que ajudam a diminuir o tempo de espera. de melhorias contínuas no processo todas as
empresas tiveram um nível de aplicação
No segundo princípio a empresa mostrou
mediano.
preocupação com pesquisas de mercado e
pesquisas pós-ocupação, mostrando ser A construtora que se destacou no décimo
importante para avaliar as pretensões e princípio se mostrou preocupada em buscar
expectativas de possíveis clientes, definindo melhorias no fluxo de informações e materiais,
assim seus projetos a serem lançados. Para o assim como fazer melhorias nas atividades de
terceiro princípio a construtora definiu conversão. Para benchmarking esta empresa
padrões para a realização de serviços, assim preocupa-se em desenvolver inovações
como a presença de certificados de tecnológicas na área construtiva e
qualidade de produto e organização do implementar boas práticas.
canteiro de obras.
Após todos os resultados apresentados, foi
Para reduzir o tempo de ciclo a construtora feita uma valoração em conjunto entre eles,
destaque aplicou ações como inspeção com a soma dos seus respectivos pesos
obrigatória dos serviços executados, assim relativos a cada princípio e transformados em
como boa organização no canteiro de obras um gráfico, conforme figura 6. Os valores
para otimizar o deslocamento e facilitar a estão apresentados em porcentagem na
execução de atividades. figura 9, e referem-se a soma de todos os
pesos apresentados anteriormente. O objetivo
Nos princípios 5, 6 e 7 todas as empresas
foi a visualização prática do desempenho e
mostraram deficiências. Para o quinto
da utilização de cada princípio de Koskela
princípio, ações como uso de pré-fabricados
(1992) dentro de empresas do setor da
ou pré-montados e treinamento de células de
construção civil, para que através de um
produção. No sexto princípio não foram
grupo amostral tenha-se noção da situação e
identificadas ações para a modificação tardia
desenvolvimento da filosofia do Brasil.
de layouts de projeto, assim como houve
pouca oferta de produtos diferenciados para
atender as especificações dos clientes. O

Gestão da Produção em Foco - Volume 12


151

Figura 6 – Porcentagem Global de Utilização da Construção Enxuta nas Construtoras Analisadas

A partir dos resultados obtidos, é possível identificadas para assegurar a aplicação


inferir que há um nível mediano de aplicação deste princípio.
efetiva dos onze princípios de Koskela (1992)
No quarto princípio um baixo índice de
no Brasil, visto que a média mais baixa
aplicação, e nas construtoras que se
encontrada foi no décimo primeiro princípio,
destacaram houve ajuste de canteiro de
relativo ao Benchmarking, sendo de 50%.
obras, realização de atividades a partir de
A maioria dos princípios oscila entre 50% e métodos padronizados e busca por
65% de aplicação efetiva, com exceção dos otimização de processos. O uso de “kits” pré-
princípios um e dois, que obtiveram níveis de montados e estruturas pré-moldadas, assim
aplicação acima de 70%. Durante a análise como soluções tecnológicas e produtos de
dos resultados individuais, ficou explicito a inovação foram os destaques para a
disparidade em relação a Construção Enxuta simplificação do processo.
presente em algumas empresas. Enquanto
No sexto princípio também houve um baixo
algumas construtoras faziam a aplicação
índice de aplicação, e somente em duas
quase completa de todos os onze princípios
construtoras foram identificadas atitudes
de Koskela (1992), algumas outras tinham
como a participação ativa dos clientes
pouquíssimo ou nenhum conhecimento
durante o processo de concepção e durante a
acerca da filosofia, com um baixo índice de
fase de execução, visando o aumento da
aplicação dos princípios.
flexibilidade de saída efetivo. Reuniões
As empresas com maior índice apresentaram semanais e eficiência de comunicação
um elevado grau de controle interno, com através de dispositivos visuais, como o
métodos eficientes de gestão e garantia de Andon, obtiveram sucesso para o aumento da
qualidade de produto. Atitudes como transparência do processo.
otimização de layout de canteiro, uso de
Para focar o controle no processo global, as
equipamentos e tecnologias para a redução
empresas com aplicação efetiva realizaram
do tempo de espera, capacitação e
ações como o planejamento de cronograma a
treinamento de colaboradores, de forma que a
curto, médio e longo prazo para atingir
redução da parcela de atividades que não
objetivos estabelecidos, priorizaram todas as
geram valor obteve sucesso.
etapas do processo construtivo com igual
O segundo princípio foi alcançado nas importância e fizeram o uso de sistemas de
construtoras com avaliações pós-ocupações, qualidades próprios de desenvolvimento de
pesquisas de mercado com compradores em projetos. Ferramentas de gestão como o 5S e
potencial e adequação de projetos aos Andon foram identificadas na melhoria
requisitos dos clientes. Para a redução da contínua dos processos, assim como
variabilidade nas obras, atitudes como o incentivos para a busca de novos produtos e
treinamento e capacitação de funcionários, treinamento constantes para melhorar
atendimento ás normas de qualidade ISO capacitação dos colaboradores.
9001 e PBQP-H e tarefas padronizadas foram
O décimo e o décimo primeiro princípio
obtiveram um baixo nível de aplicação nas

Gestão da Produção em Foco - Volume 12


152

construtoras, carecendo de informações Um fato importante é que nem todas as


consistentes para aplicação efetiva. construtoras do plano amostral se
autodenominam utilizadores da filosofia
5. Conclusões
enxuta, sendo que, em algumas delas, esta
Com os resultados obtidos através da análise filosofia nem mesmo é conhecida. Porém,
bibliográfica, mostra-se que princípios da mais notável ainda é que todas utilizam dentro
Construção Enxuta já estão presentes nas de seu sistema de gestão técnicas que
construtoras brasileiras. podem se assemelhar as práticas enxutas.
Isto é, mesmo de forma não estruturada,
Nas 21 empresas onde foram realizados os
muitas empresas fazem a utilização de
estudos de casos múltiplos, por se tratarem
técnicas propostas na Construção Enxuta.
de diferentes regiões do país, portes e áreas
de atuação, foi possível reunir um grupo A pesquisa sugere que a Construção Enxuta
amostral distinto para esta revisão em si ainda é uma filosofia pouco conhecida
bibliográfica, e mesmo assim aplicações dos no país, e com um grau de aplicação menor
princípios foram detectadas em grande parte ainda. Isto é constato pelo baixo número de
dos sistemas de gestão. empresas que conseguem um percentual de
utilização efetivo.

REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA
[1]. AMARAL, T. G.; CELESTINO, P. H. M et al. [4]. KOSKELA, Lauri. Application Of the New
Presence os lean construction principles in the civil Production Philosophy to Construction. Stanford
construction Market in the state of Goiás. Center for Facility Engineering, TECHNICAL
Universidade Federal de Goiás. Goiânia/GO, 2012. REPORT 72, 1992, 75p.

[2]. FORMOSO, Carlos Torres. Lean [5]. LORENZON, Itamar A. A medição de


Construction: princípios básicos e exemplos. desempenho na Construção Enxuta: estudos de
Universidade Federal do Rio Grande do Sul – caso. Universidade Federal de São Carlos. São
NORIE/UFRS. Porto Alegre/RS, 2002. Carlos/SP, 2008.
[3]. HOWELL, Gregory A. What is Lean [6]. PERETTI, Luiz S.; FARIA Ana C; SANTOS,
Construction – 1999. In: CONFERENCE OF THE Isabel. Aplicação dos Princípios da Construção
INTERNATIONAL GROUP FOR LEAN Enxuta em Construtoras Verticais: Estudo de Casos
CONSTRUCTION, 7. 1999, Berkeley. Proceedings Múltiplos na Região Metropolitana de São Paulo. In
Berkeley, 1999. XXXVII ENCONTRO DA ANPAD, ENPED – Rio de
Janeiro/RJ, 2013.

Gestão da Produção em Foco - Volume 12


153

Capítulo 15

Renato Dos Santos


Hugo Martinelli Watanuki
Renato De Oliveira Moraes

Resumo: A comercialização de produtos desmontados (Completely Knocked Down


- CKD) ou semidesmontados (Semi Knocked Down - SKD) é uma estratégia que
visa inserção e permanência de empresas e seus produtos em mercados
internacionais. Contudo, o grande desafio para tais empresas está em conseguir
nivelar internamente sua produção, de modo a atender a demanda CKD e SKD sem
de deixar de atender a linha de montagem principal. Este artigo tem por objetivo a
busca de balanceamento de tais linhas de montagem por meio da metodologia
MTM (do termo em inglês, Methods-Time Measurement). Para isso foi conduzido um
estudo de caso de uma grande indústria automotiva. A partir dos resultados obtidos
foi possível observar que a aplicação da metodologia MTM de maneira estruturada
pode resultar em melhores níveis de balanceamento e produtividade em tais
contextos.

Palavras-Chave: Flexibilidade; Metodologia MTM; Balanceamento de Linha de


Produção; Estudo de caso.

Gestão da Produção em Foco - Volume 12


154

1. INTRODUÇÃO técnica ainda desconhecida pela indústria


nacional, especialmente quando se trata de
Para atender às necessidades dinâmicas do
suas mais recentes aplicações em conjunto
mercado, uma fábrica deve ser capaz de
com a abordagem do modelo enxuto de
produzir rapidamente lotes pequenos e
produção.
diferentes (ANTUNES JÚNIOR; KLIEMANN
NETO; FENTERSEIFER, 1989). Na indústria Frente ao cenário apresentado, o objetivo da
automobilística, isso significa que as fábricas presente pesquisa é analisar a aplicabilidade
precisam atender pedidos de veículos que do método MTM para balanceamento de
podem ser comercializados nas formas linhas de montagem com elevada exigência
completamente montados (completely built-up de flexibilidade. Para essa finalidade é
– CBU), parcialmente desmontados (partially conduzido um estudo de caso de uma
knocked-down – PKD), semidesmontados empresa automotiva que busca soluções
(semi knocked-down – SKD) e completamente viáveis para minimizar o custo da operação
desmontados (completely knocked-down – SKD sem deixar de atender a demanda dos
CKD) (CAVALCANTE; ARAUJO, 2013). produtos CBUs e utilizando-se de ferramentas
já conhecidas em sistemas de produção de
A economia globalizada tem obrigado as
referência.
empresas a utilizarem estratégias de mercado
diversificadas e a venda de produtos no
formato CKD tem sido uma delas. A
2. REVISÃO DA LITERATURA
comercialização de produtos CKD ou SKD é
uma estratégia que visa inserção e 2.1 BALANCEAMENTO DA PRODUÇÃO
permanência de produtos em mercados
internacionais (BONGIOLO; LUCIANO, 2014).
De acordo com Araújo (2009), nesse contexto, Uma linha de produção varia em extensão
o grande desafio está em conseguir nivelar dependendo da quantidade de operações.
internamente a produção, mesmo quando as Geralmente, o comprimento da linha e a
requisições de mercado variam muito. quantidade de postos de trabalho são
expressivos. A sequência da realização das
O balanceamento é uma ferramenta para a
tarefas em uma linha de produção é definida
adequação da mão-de-obra à estratégia da
e imposta pelo produto a ser fabricado.
organização e/ou ao volume da produção.
Trabalhar com este parâmetro faz com que De acordo com Aguiar, Peinado e Graeml
ocorra uma redução de ociosidade dos (2007), o balanceamento da linha de
postos, rebalanceamento da linha, adequação produção consiste na atribuição de tarefas às
do tempo de realização das atividades ao takt estações de trabalho que formam a linha, de
time, redução de desperdícios e do Lead forma que todas as estações demandem
time, proporcionando um melhor equilíbrio na aproximadamente o mesmo tempo para a
divisão das atividades (OLIVEIRA; SILVA; execução das tarefas a elas destinadas. Isto
HELLENO, 2011). minimiza o tempo ocioso de mão-de-obra e
de equipamentos. Como se pode observar na
A fim de auxiliar o processo de
Figura 1, em uma linha de produção, o
balanceamento de linhas de montagem,
trabalho segue um fluxo definido de uma
abordagens clássicas, tais como o MTM (do
estação para outra.
termo em inglês, Methods-Time Measurement)
pretendem suavizar a produção buscando
alcançar um balanceamento perfeito.
Contudo, conforme Sugai (2003), essa é uma

Gestão da Produção em Foco - Volume 12


155

Figura 1 - Fluxo de operações em uma linha de produção.

O tempo de execução da tarefa destinada a humana, caracterizando as perdas por espera


cada um dos operadores em seus centros de (ANTUNES JUNIOR; KLIPPEL, 2002).
trabalho deve ser o mesmo, ou o mais
A fim de facilitar o balanceamento da linha de
próximo possível, para que não exista atraso
produção, algumas medidas tendem a ser
das demais atividades. As linhas com bom
importantes. Deve-se evitar equipamentos
nível de balanceamento apresentam um fluxo
fixos e especializados em favor de
suave e contínuo de trabalho, porque todos os
equipamentos que tenham utilidade geral e
operadores trabalham no mesmo ritmo,
versatilidade. O layout funcional pode ser
obtendo-se, assim, o maior grau de
substituído pelo celular, com o agrupamento
aproveitamento possível da mão-de-obra e
de diferentes máquinas a partir da sequência
dos equipamentos. A principal dificuldade em
de produção. Tal layout facilita o transporte de
balancear uma linha de produção está na
material, utiliza melhor a força de trabalho (um
formação de tarefas, ou conjuntos de tarefas,
operador cuidando de mais de uma máquina),
que tenham o mesmo tempo de duração.
evita estoques, facilita a produção de lotes
Muitas vezes algumas tarefas longas não
pequenos, estimula a comunicação entre os
podem ser divididas e algumas tarefas curtas
trabalhadores e aproveita melhor o espaço.
não podem ser agrupadas, o que dificulta o
Novas tecnologias como robôs e máquinas-
balanceamento. Quando uma tarefa tem seu
ferramentas de comando numérico devem ser
tempo de execução significativamente maior
flexíveis, de modo a serem fácil e rapidamente
ou menor que o tempo médio de execução
programadas para acomodar as mudanças
das demais tarefas da linha de montagem, a
constantes da linha de produtos (FERRO,
linha fica desbalanceada.
1990).
O balanceamento é uma ferramenta para a
adequação da mão-de-obra à estratégia da
organização e/ou ao volume da produção. 2.2 MÉTODO MTM PARA BALANCEAMENTO
Trabalhar com este parâmetro faz com que
O MTM (do termo em inglês, Methods-time
ocorra uma redução de ociosidade dos
measurement) é um sistema de tempos pré-
postos, rebalanceamento da linha, adequação
determinados, ou também chamados tempos
do tempo de realização das atividades ao takt
sintéticos, que procura discernir os micro-
time, redução de desperdícios e do Lead
movimentos do operador e atribui a eles o
time, proporcionando um melhor equilíbrio na
tempo total a uma operação completa (SUGAI
divisão das atividades (OLIVEIRA; SILVA;
et al., 2003). Dito de outra forma, o MTM é um
HELLENO, 2011). Por outro lado, a falta de
procedimento que analisa qualquer operação
balanceamento no processo de produção
manual ou método nos movimentos básicos
ocasiona a paralisação de postos de trabalho,
necessários para executá-la e atribui a cada
resultando em baixa taxa de ocupação de
movimento um tempo padrão pré-
equipamentos e paralisação da atividade
determinado, o qual é estabelecido pela

Gestão da Produção em Foco - Volume 12


156

natureza do movimento e condições sob as áreas e regiões. O resultado desta


quais ele é realizado (MAYNARD, 1970). preocupação foi a fundação, em 1951, da
"US. MTM - Association for Standards and
De acordo com o Sugai (2003), o MTM foi
Research" em Nova York. Em 1953, esta
publicado pela primeira vez em 1948 em um
Associação mudou a sua sede para Ann
livro que leva o nome “Methods-Time
Arbor, Michigan. Rápida também foi a
Measurement”. A primeira aplicação também
propagação do MTM a outros continentes.
foi em 1948. Segundo esse autor, pode-se
Associações congêneres e vinculadas à "US
dividir a evolução do MTM em 3 fases: 1)
MTM Association" surgiram sucessivamente
Elaboração do Método (até 1948); 2)
na Europa e Ásia. Em paralelo à crescente
Disseminação do MTM (1948-1960); e 3)
difusão do MTM entre os países, houve o
Desenvolvimento de novos módulos do MTM
desenvolvimento do MTM em diversos
(1960 – hoje).
módulos que demonstram o dinamismo da
Epic do Brasil (2002) aponta que logo após a Associação MTM. Os novos módulos do MTM
primeira publicação o sistema teve uma surgiram na medida em que as empresas
propagação tão rápida e intensa, a ponto dos verificaram necessidades de aplicações
autores passarem por momentos de específicas do MTM (SUGAI, 2003). O quadro
apreensão, buscando o controle sobre a 1 apresenta um breve histórico sobre a
aplicação correta e uniforme em todas as evolução e módulos do MTM.

Quadro 1 – Módulos do MTM.

Fonte: Sugai (2003).

A metodologia MTM pretende suavizar a homem e a sua relação com custo e tempo.
produção buscando alcançar um Tal metodologia permite a sua aplicação em
balanceamento perfeito, seja através do diversas áreas, como, por exemplo, as
aumento da taxa de produção global ou produções seriadas e não seriadas,
através da diminuição da mão-de-obra ou ergonomia, logística, entre outras, mostrando-
ambos. Ela pode contribuir também com se extremamente eficaz quando existe uma
questões que influenciam a mão de obra e/ou estrutura organizacional na relação da
taxa de produção, podendo apontar postos administração de tempo e dados e
de trabalho que estejam sobrecarregando os enfatizando os pontos a serem gerenciados
operadores ou contribuindo para o no lead time da empresa (OLIVEIRA; SILVA;
estabelecimento de alternativas para corrigir HELLENO, 2011).
tais problemas. Neste contexto, a metodologia
Nota-se na metodologia MTM também a
MTM evidencia os pontos fortes e fracos
presença de conceitos do “Ohnoísmo” ou
dentro do processo produtivo, no que se
Sistema de Produção Toyota. Segundo a
refere às atividades influenciáveis pelo

Gestão da Produção em Foco - Volume 12


157

análise de Ferro (1990), os três alicerces do melhorias a serem consideradas nos postos
“Ohnoísmo” são Just in time (JIT), Muda e de trabalho, com o propósito de melhorar e
Kaizen, que se apoiam e se reforçam adequar os postos aos colaboradores.
mutuamente.
Enquanto o alicerce JIT trata da sincronização
3. METODOLOGIA
da produção, o Muda olha a eliminação de
desperdícios e o Kaizen trabalha em busca O objetivo desse estudo é analisar a
do melhoramento contínuo. aplicabilidade do método MTM para
balanceamento de linhas de montagem com
Segundo Oliveira, Silva e Helleno (2011), um
elevada exigência de flexibilidade. Dessa
dos grandes diferenciais da metodologia MTM
forma, optou-se por utilizar uma abordagem
com as outras ferramentas é que ela contribui
qualitativa, que de acordo com Lüdke e André
em abordar não apenas o tempo, mas
(1986), supõe contato direto do pesquisador
também quais são as atividades (tanto as que
com os sujeitos da pesquisa e com a situação
agregam ou não agregam valor) que somadas
na qual a pesquisa está sendo desenvolvida.
compõem esse tempo para identificação de
O material da pesquisa qualitativa é rico na
potenciais melhorias ou ganhos.
descrição das pessoas, situações e
A metodologia MTM pode ser combinada com acontecimentos (ZANATTA; COSTA, 2012).
outras metodologias e ferramentas, tais como,
O caso selecionado para a condução do
Manufatura enxuta (Lean), Metodologia 5S,
estudo é de um processo de produção de
Ergonomia e TPM (Total Productive
uma indústria automotiva de grande porte. O
Maintenance), facilitando a aplicação em
critério de seleção do caso baseou-se tanto
adequações no processo com foco no
na exigência de flexibilidade do seu processo
balanceamento.
de produção quanto na sua disponibilização
De acordo com Sugai (2003), a aplicação do para a pesquisa, garantindo o acesso do
MTM, sob a perspectiva da melhoria contínua pesquisador ao ambiente a ser investigado.
pode ser feita em um ciclo de seis fases:
O foco da análise concentrou-se em como a
a) selecionar atividade: a alta administração, empresa buscou por soluções viáveis para
ou o setor incumbido por realizar as melhorias minimizar o custo da operação SKD, sem
na fábrica deve estabelecer e indicar em qual deixar de atender a demanda dos produtos
posto de trabalho a aplicação de MTM será CBUs, em um mesmo processo produtivo. A
realizada. Porém, deve-se escolher as coleta de dados para a análise do caso foi
atividades em que os desperdícios estão feita durante o mês de março de 2017 por
presentes ou ainda máquinas que são meio de: i) entrevista semiestruturada com um
consideradas gargalo. membro de uma equipe de produção; ii)
análise de ordens de produção recebidas do
b) sequenciar operações: após a escolha da
Planejamento; e, iii) observações in loco por
atividade, o próximo passo é definir qual o
meio de participação em reuniões de grupo
sistema da metodologia MTM será
com atuação das áreas de Planejamento,
empregado na atividade.
Logística e Produção.
c) identificar movimentos: identificar todos os
movimentos envolvidos na atividade, levando
em consideração o comprimento do
movimento e o grau de dificuldade.
d) associar valores de tempo: após a escolha
do sistema MTM a ser utilizado, deve-se
coletar as tabelas correspondentes
desenvolvidas pela Associação MTM e
associar unidades de tempos para cada
movimento básico de trabalho.
e) definir padrão de tempo: composição do
tempo global das atividades, resultante do
tempo padrão de cada movimento.
f) melhorias nas atividades: durante a análise
dos movimentos são identificadas possíveis

Gestão da Produção em Foco - Volume 12


158

4. RESULTADOS Possui clientes localizados no Brasil, demais


países da América Latina, Europa, África e
4.1 A EMPRESA “S” E O USO DO MTM
Ásia. A maioria dos mercados africanos e
A empresa S é uma indústria automotiva de asiáticos atendidos pela empresa “S” requer
grande porte, uma das principais fabricantes produtos SKD. A Figura 2 apresenta a título de
mundiais de caminhões pesados e exemplo a composição da produção para um
semipesados, ônibus e motores industriais e dia de produção com nove produtos SKD.
marítimos, localizada no estado de São Paulo.

Figura 2 – Mix de Produção do subcomponente painel de instrumentos.

Gestão da Produção em Foco - Volume 12


159

Esse contexto demanda de algumas células impactar a operação CBU, a operação SKD
de alimentação da linha principal de era feita em regime de hora extra com sete
colaboradores e um supervisor, sem o suporte
montagem (CBU) a entrega do
pleno das áreas de Engenharia, Qualidade e
subcomponente em dois pontos distintos, tal
Logística, com maior custo para o transporte
como na célula de pré-montagem do painel
dos colaboradores e com custo adicional dos
de instrumentos retratada na Figura 3. Nessa
recursos de infraestrutura.
linha, à época do estudo e a fim de não

Figura 3 - Fluxo de entrega do subcomponente painel de instrumentos para produção SKD e CBU
(linha de montagem).

A implantação do MTM nessa célula de pré- quantidades necessárias dos produtos


montagem do painel de instrumentos iniciou- demandados sem a necessidade de hora-
se em janeiro de 2017 e demandou a extra, possibilitando focar no tempo de espera
participação dos operadores, supervisores e e tempo de caminhada que estavam
gerentes dos processos de Montagem, presentes nas operações.
Logística (movimentação de materiais e
Ainda, de acordo com o entrevistado, uma
planejamento), Qualidade (inspeção) e do
das alterações fundamentais proporcionadas
engenheiro de processos.
pela iniciativa deu-se com relação ao tempo
O processo transcorreu com desafios, dentre de transporte do subcomponente painel de
os quais pode-se destacar o balanceamento instrumentos. Anteriormente o mesmo era
de produção com necessidade de ganho de conduzido entre os postos de trabalho por um
produtividade, a redução do takt time, o sistema AGV (do termo em inglês Automatic
treinamento de todos os operadores Guided Vehicle) e durante esse transporte o
envolvidos e o sincronismo para atender os operador aguardava a chegada do painel de
pontos de entrega do componente pré- instrumentos do posto anterior (tempo de
montado aos clientes internos sem parada e espera). Contudo, atualmente, enquanto
sem perda de produção. ocorre o transporte do painel de instrumentos
pelo AGV, em todos os postos foi adicionada
De acordo com o entrevistado, para execução
alguma atividade de pré-montagem ou de
do estudo de tempos e métodos, o fato da
preparação fora do posto para evitar o tempo
escolha das atividades dar-se em torno dos
ocioso.
postos de trabalho nos quais os desperdícios
estavam presentes, assim como máquinas O sequenciamento das operações
consideradas gargalo, auxiliou a balancear a executadas pelo operador também auxiliou a
célula de montagem no sentido de produzir as balancear a célula de montagem, definindo

Gestão da Produção em Foco - Volume 12


160

padrão, treinamento, habituando os direto da aplicação de cada etapa do método.


operadores às atividades e garantindo a No caso analisado foi possível notar:
repetitividade das operações.
a) selecionar atividade: Nesse ponto, foi
Por sua vez, a etapa de identificação de todos fundamental a escolha das atividades com
os movimentos envolvidos na atividade notável desperdício, resultando na eliminação
(levando em consideração o comprimento do do tempo de espera e reduzindo a caminhada
movimento e o seu grau de dificuldade) em cada ciclo do processo.
auxiliou a balancear a célula de montagem
b) sequenciar operações: O sequenciamento
por meio da identificação das caminhadas
das operações, visualizando o início e fim de
mais longas dos operadores e
cada tarefa, facilitou a padronização das
disponibilização das peças e ferramentas de
atividades. Pode ser aplicado inclusive para
cada posto de trabalho para um local mais
os postos em que há dois operadores
próximo do operador, com foco do operador
atuando no mesmo produto, pois a
no centro, melhorando a produtividade e,
repetitividade auxiliará no sincronismo entre
consequentemente, diminuindo o takt time.
as funções de cada um.
A atividade de associar valores de tempo
c) identificar movimentos: Permitiu identificar
predeterminados pela associação MTM para
cada movimento básico na operação e
cada movimento básico, assim como a
proporcionou aproximação entre
composição do tempo global da atividade
ferramentas/peças e operadores, reduzindo
pela simples adição dos tempos, foram
desperdícios e mantendo movimentos
fundamentais para balancear as montagens
adequados.
entre as posições de trabalho, pois, segundo
o entrevistado, não teria sido possível atingir o d) associar valores de tempo: Para cada
objetivo sem conhecer o tempo de cada movimento básico foi necessário associar
operação. valores de tempo para alcançar o padrão de
tempo que é referência para cada atividade.
As melhorias observadas no posto de
trabalho, tais como ajustes ergonômicos que e) definir padrão de tempo: Auxiliou no
favoreceram o operador, aproximação de balanceamento das atividades em cada
ferramentas e dispositivos ou ainda mudanças posição de trabalho resultando,
do método de trabalho geraram diminuição do aproximadamente, no mesmo tempo para a
tempo da atividade. Vale ressaltar que execução das tarefas.
atividade sempre foi feita considerando
f) melhoria nas atividades: A cada etapa,
eventuais riscos ergonômicos e os métodos
melhorias foram identificadas e implantadas,
de montagem pré-definidos pela engenharia
proporcionando melhor condição para o
do produto no desenvolvimento de cada
operador e melhorando a produtividade da
componente, garantindo alterações com
célula de montagem.
segurança e preservando a qualidade do
produto. De acordo com Santana (2002), no nível
industrial, o aumento da produtividade pode
A implantação do MTM foi finalizada em
levar à redução dos preços e melhor
março de 2017 e o principais resultados
qualidade dos produtos e,
obtidos foram a eliminação do tempo de
consequentemente, obtenção de uma melhor
espera, a melhor produtividade, a redução do
posição de mercado. No caso descrito, a
takt time e o balanceamento dos postos de
empresa teve como resultado menor custo na
trabalho.
operação analisada. Com a redução do takt
time foi possível também nivelar a produção
para atender a demanda nos dois pontos de
5. DISCUSSÃO
entrega sem hora-extra e, consequentemente,
Conforme sugerido por Sugai (2003), o proporcionar maior lucro e maior poder de
benefício direto do MTM é o ajuste dos competição.
tempos da produção às necessidades de
O quadro 2 apresenta a consolidação dos
atendimento dos clientes. A melhoria do ritmo
dados observados em relação às diretrizes de
de operações proporcionada pelo MTM
implantação do MTM descritas por Sugai
possibilita atender os clientes, conforme suas
(2003).
expectativas e isso se dá como resultado

Gestão da Produção em Foco - Volume 12


161

Quadro 2 – Consolidação dos dados observados.


Etapas do método MTM
Ações tomadas Benefícios observados
(SUGAI, 2003)

Etapa 1: Selecionar Identificação das atividades com Eliminação do tempo de espera em


atividade tempo de espera cada ciclo

Garantia de ferramenta para


treinamento
Etapa 2: Sequenciar
Descrição de padrão de trabalho Garantia de repetitividade das
operações
atividades assegurando melhor
qualidade

Identificação do tempo de
Etapa 3: Identificar caminhada Melhor produtividade
movimentos Peças e equipamentos dispostos Redução do takt time
próximos ao operador

Etapa 4: Associar valores


de tempo Balanceamento dos postos de
Definição de padrão de trabalho
Etapa 5: Definir padrão de trabalho
tempo

Peças e equipamentos dispostos


Etapa 6: Melhorias nas Melhor produtividade
próximos ao operador atendendo a
atividades Satisfação dos operadores
melhor condição ergonômica

6. CONCLUSÃO destacado por Sugai (2003). Do ponto de


vista prático, esse estudo pode auxiliar
O objetivo deste estudo é analisar a
empresas cujos clientes demandando
aplicabilidade do método MTM para
diferentes níveis de entrega do mesmo
balanceamento de linhas de montagem com
produto a balancearem/nivelarem seus
elevada exigência de flexibilidade. Os
processos produtivos.
resultados obtidos a partir de um estudo de
caso de uma grande empresa automotiva É importante destacar que o estudo foi
sugerem que as abordagens propostas na realizado sob o ponto de vista de apenas um
literatura tendem a ser sustentadas, ou seja, caso, dificultando a generalização dos
as seis etapas propostas por Sugai (2003) resultados. O nível de análise desse estudo
para implantação do MTM contribuem para pode ser apontado como uma segunda
melhor produtividade, nivelamento e limitação, pois não avaliou os ganhos
balanceamento de produção em uma detalhados da redução dos custos em regime
manufatura flexível. de hora extra. Oportunidades de pesquisas
podem ser exploradas para processos
Do ponto de vista acadêmico, o estudo auxilia
similares da empresa ou de outros grupos
na consolidação do modelo de
com diferente contexto de valores, princípios
implementação do MTM proposto na literatura
e políticas. Estudos adicionais também
conectando fatores comuns em sistemas de
podem ser feitos em pontos não avaliados
produção, tais como aquelas sugeridas por
nesse trabalho, como, por exemplo, a análise
Ferro (1990), Araújo (2009) e, principalmente,
de viabilidade de uma planta específica ou
Sugai (2003). Também auxilia a preencher a
turno específico para atender o aumento das
lacuna de conhecimento sobre aplicações
variações de mercados que demandam
contemporâneas do método MTM, conforme
componentes SKD.

Gestão da Produção em Foco - Volume 12


162

REFERÊNCIAS
[1]. AGUIAR, G.F.; PEINADO, J.; GRAEML, [9]. LÜDKE, M.; ANDRÉ, M. Pesquisa em
A.R. Simulações de arranjos físicos por produto e educação: abordagens qualitativas. São Paulo:
balanceamento de linha de produção: o estudo de EPU, 1986.
um caso real no ensino para estudantes de
[10]. MAYNARD, H. B. Manual de Engenharia
Engenharia, In: XXXV Congresso Brasileiro de
de Produção: Seção 5 - Padrões de Tempos
Educação em Engenharia – COBENGE, outubro de
Elementares Pré-determinados. Editora Edgard
2007, Curitiba.
Blücher. São Paulo, 1970.
[2]. ANTUNES JÚNIOR, J.A.V.; KLIEMANN
[11]. OLIVEIRA, F.U.N.; SILVA, I.B.; HELLENO,
NETO, F.J.; FENTERSEIFER, J.E. Considerações
A.L. Metodologia em MTM (Methods-Time
críticas sobre a evolução das filosofias de
Measurement) como uma estratégia competitiva
administração da produção: do "just-in-case" ao
para um balanceamento de linha de produção
"just-in-time". Revista de Administração de
mais enxuto. In: XXXI Encontro Nacional de
Empresas, v. 29, n. 3, p. 49-64, 1989.
Engenharia de Produção. Inovação Tecnológica e
[3]. ANTUNES JÚNIOR, J.A.V; KLIPPEL, M. Propriedade Intelectual: Desafios da Engenharia de
Análise crítica do inter-relacionamento das perdas Produção na Consolidação do Brasil no Cenário
e dos subsistemas do Sistema Toyota de Econômico Mundial, outubro de 2011.
Produção, In: XXII Encontro Nacional de
[12]. SANTANA, A.M.C. A produtividade em
Engenharia de Produção, outubro de 2002, Rio de
unidades de alimentação e nutrição: aplicabilidade
Janeiro.
de um sistema de medida e melhoria da
[4]. ARAÚJO, L.E.D. Nivelamento de produtividade integrando a ergonomia. Tese
Capacidade de Produção utilizando Quadros (Doutorado) – Universidade Federal de Santa
Heijunka em Sistemas Híbridos de Coordenação Catarina, Programa de Pós-Graduação em
de Ordens de Produção. Dissertação (Mestrado- Engenharia de Produção, 2002.
Programa de Pós-Graduação e Área de
[13]. SUGAI, M. Avaliação do uso do MTM
Concentração em Engenharia de Produção) –
(Methods-time measurement) em uma empresa de
Escola de Engenharia de São Carlos da
metal-mecânica. Dissertação (Mestrado em
Universidade de São Paulo , p. 14, 2009.
Engenharia Mecânica) – Universidade Estadual de
[5]. BONGIOLO, C.P.; LUCIANO, M.A. Análise Campinas (UNICAMP). Campinas, 2003.
da viabilidade de venda de um produto em CKD.
Revista Espacios, v. 36, n. 3, p. 9, 2014.
[14]. SUGAI, M.; LOBO, C.E.; NOVASKI, O.;
[6]. CAVALCANTE, L.R.; ARAÚJO, B.C.
LIMA, P.C. Utilização do MTM (Methods-time
Liderança de mercado na indústria automobilística
measurement) para diagnóstico e projeto de
brasileira: o caso da Marcopolo. Texto para
células de produção, In: II Congresso Brasileiro de
discussão / Instituto de Pesquisa Econômica
Engenharia de Fabricação – COBEF, maio de
Aplicada - Ipea, p. 23, dezembro de 2013.
2003.
[7]. Epic do Brasil. Apostila de Treinamento
[15]. ZANATTA, J. A.; COSTA, M. L. Algumas
MTM – Básico, p. 236, 2002.
reflexões sobre a pesquisa qualitativa nas ciências
[8]. FERRO, J.R. Aprendendo com o sociais. Estudos e pesquisas em psicologia, v. 12,
"Ohnoísmo" (produção flexível em massa): lições n. 2, p. 344-359, 2012.
para o Brasil. Revista de Administração de
Empresas, v. 30, n. 3, p. 57-68, 1990.

Gestão da Produção em Foco - Volume 12


163

Capítulo 16
Gleyce Aline Veras Pantoja
Carlos Benedito Pereira Da Paixão

Resumo: A satisfação do cliente tornou-se um fator altamente estratégico para


manter uma empresa competitiva. A qualidade deve ser compreendida como
condição básica e não mais uma forma de diferenciação entre empresas. Nesse
contexto, mensurar a satisfação do cliente é de suma importância e deve ser
realizado periodicamente. Este estudo visa apresentar os índices de satisfação dos
clientes em uma academia localizada na região de belém do pará com auxílio da
análise fatorial confirmatória, a qual resumiu as 23 variáveis originais em 7 fatores
determinantes: 1-empatia, 2-equipamentos, 3-conveniência, 4-segurança, 5-
facilidades, 6-qualidade e 7-funcionários. Foi mensurada a satisfação em cada fator
encontrado e após essa etapa, a satisfação geral com o serviço prestado. Para
adequar o modelo amostral e fatorial foram empregadas medidas de ajuste como
os testes alfa de cronbach, esfericidade de bartllet, kaiser-meyer-olkin, matriz de
correlações e rotação de fatores. Foram apresentados de maneira objetiva a
qualidade e seus aspectos e, mais profunda, a técnica estatística de análise
fatorial. Os resultados demonstraram que todos os índices de satisfação
necessitam de melhoria, com ênfase para o fator 1, o qual para a realidade da
academia é o mais importante na visão do cliente, visto que este deseja que os
colaboradores o tratem de maneira mais personalizada.

Palavras-chave: satisfação; qualidade; análise fatorial; serviços; academias.

Gestão da Produção em Foco - Volume 12


164

1. INTRODUÇÃO necessita conhecer como está o desempenho


do serviço prestado ao cliente o mais rápido
O setor de serviços vem se destacando pelo
possível a fim de manter o cliente satisfeito e
dinamismo de suas atividades e pela
utilizando os serviços da empresa. Nesse
crescente participação na economia do Brasil.
contexto, o trabalho realiza a seguinte
Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e
indagação: como a técnica estatística de
Estatística – IBGE (2017), de julho a setembro
Análise Fatorial pode auxiliar na mensuação
de 2017, o Produto Interno Bruto (PIB)
da qualidade dos clientes? O objeto de
brasileiro foi de R$ 1,641 trilhão, e apenas o
interesse deste estudo foi uma academia de
setor de Serviços correspondeu a R$ 1.030,7
ginástica situada na região metropolitana de
bilhão, excetuando os impostos sobre
Belém do Pará.
produtos. Patuzzo (2010) enfatiza sobre o
aumento crescente do setor de serviços em A Análise Fatorial servirá como um meio para
um espaço no qual antes pertencia à identificar um conjunto de variáveis com base
agropecuária e à indústria e cuja dinâmica se em uma matriz de correlações e é uma
generalizou a nível mundial. poderosa ferramenta estatística quando se
deseja compreender mais profundamente
Nessa conjuntura, é perceptível o aumento
uma estrutura de dados e/ou simplificar um
pela prática de atividades físicas no Brasil nos
grande número de variáveis de um estudo em
últimos anos e possui como fator
quantidades menores de fatores (HAIR JR. et
impulsionador a busca pelo bem-estar e pelos
al., 2009).
benefícios relacionados à saúde e à efetiva
prevenção de doenças (SILVA; COSTA JR.,
2011). De acordo com a Associação Brasileira
1.1 OBJETIVOS
de Academias – ACAD (2017), somente em
2014 já existiam 33.157 academias de Objetivo geral
ginástica regulamentadas, movimentando
Mensurar a qualidade por intermédio de
cerca de R$ 2,5 bilhão no país. A maior parte
índices de satisfação obtidos com auxílio da
das empresas que prestam serviços de
Análise Fatorial Confirmatória em uma
atividades físicas são micro ou pequenas
academia de ginástica.
empresas. Para compreender a grande
relevância destas empresas para a economia
do Brasil, em 2016, elas ocupavam em
Objetivos específicos
conjunto com os Microempreendedores
Individuais 37% do setor de serviços, e, Expor a importância da qualidade para
consequentemente, do PIB (SEBRAE, 2017). garantir a satisfação de clientes;
Com a crescente e permanente participação Apresentar a relevância da técnica Análise
do cliente no processo de aprovação ou Fatorial para mensurar a qualidade;
reprovação do serviço prestado ou do
Demonstrar as etapas básicas para a correta
produto adquirido, tornou-se de extrema
aplicação da Análise Fatorial;
relevância mensurar a satisfação dos clientes
periodicamente a fim de se manter, em termos Utilizar os dados da Análise Fatorial para
empresariais, de maneira competitiva. Essa obter os índices de satisfação geral e
configuração se solidificou no cenário mundial específico (por fator).
a partir do momento em que a qualidade
passou a ser compreendida como condição
básica e não mais estratégia de diferenciação 2 REVISÃO BIBLIOGRÁFICA
(SOUZA; GRIEBELER; GODOY, 2007).
Breve contextualização sobre a qualidade, de
Portanto, é imprescindível conhecer as
maneira pontual, abordando os principais
variáveis que afetam diretamente a satisfação
aspectos e implicações e um meio para sua
do cliente, pois estas geram emoções e
mensuração, e, posteriormente, um
comportamentos e, principalmente, estimulam
embasamento mais profundo sobre a técnica
a compra e fidelização para com a empresa.
Análise Fatorial para melhor compreensão de
Quanto mais um serviço ou produto for de
seus objetivos, abrangência e etapas para
qualidade na visão do cliente, maior será a
sua aplicação.
sua satisfação.
O mercado de academias cresce
aceleradamente e o prestador de serviços

Gestão da Produção em Foco - Volume 12


165

2.1 QUALIDADE EM SERVIÇOS


Segundo Fitzsimmons e Fitzsimmons (2011), a 2.2 CICLO DE SERVIÇOS
qualidade é avaliada durante o processo de
É o conjunto de momentos da verdade que
prestação do serviço. Ela é medida pelos
representa qualquer episódio de contato com
clientes através do processo de atendimento
aspectos da organização pelos clientes e
e de seus resultados. A qualidade percebida
formação de suas impressões de qualidade
também pode ser definida como a diferença
do serviço. Os primeiros e últimos momentos
entre expectativas e percepções dos clientes
da verdade são os mais críticos para a
frente a aspectos relacionados com o serviço.
percepção dos clientes. Anteriormente, já são
A qualidade percebida é subdividida em desenvolvidas expectativas em relação à
qualidade técnica e qualidade funcional. qualidade do ciclo de serviços e, a partir do
Enquanto a primeira refere-se à qualidade do contato, forma-se uma primeira impressão. O
resultado do processo de prestação de último momento torna-se o mais decisivo ao
serviços, o que foi adquirido pelo cliente servir como referência na escolha do cliente
durante esse contato com o serviço; a voltar ou não a utilizar o serviço da empresa
segunda está relacionada com a performance (GIANESI; CORRÊA, 2007).
da prestação do serviço experimentada pelo
A figura 1 demonstra um exemplo do ciclo de
cliente (GRÖNROOS, 1984).
serviços de uma academia:

Figura 1 - Ciclo de serviços

Fonte: Adaptado de Linhares e Freitas (2010)

2.3 FALHAS DA QUALIDADE EM SERVIÇOS representam a discrepância entre o que o


cliente esperava e o que recebeu pelo serviço
Em média, um consumidor satisfeito poderá
e devem ser visualizadas como obstáculos a
recomendar o serviço ou seu fornecedor a
serem superados, com o objetivo de ofertar
cinco potenciais consumidores. Porém, se
um serviço que seja percebido como de
insatisfeito, esse mesmo consumidor poderá
qualidade pelos clientes.
influenciar dez pessoas contra o serviço ou
seu fornecedor (GIANESI; CORRÊA, 2007). A figura abaixo faz a relação entre as falhas:
Há cinco falhas (gaps) que levam ao fracasso
no processo de prestação do serviço. Elas

Gestão da Produção em Foco - Volume 12


166

Figura 2 - Falhas da qualidade em serviços

Fonte: Adaptado de Fitzsimmons e Fitzsimmons (2011)

2.4 DIMENSÕES DA QUALIDADE


Existem cinco principais dimensões que os
clientes utilizam para julgar a qualidade dos
serviços:
Quadro 2 - Dimensões da Qualidade
DIMENSÃO DEFINIÇÃO

A capacidade de prestar o serviço prometido com


CONFIABILIDADE
confiança e exatidão.

A disposição para auxiliar os clientes e fornecer o


RESPONSIVIDADE
serviço prontamente.

O conhecimento e a cortesia dos funcionários, bem


SEGURANÇA como a sua capacidade de transmitir confiança e
confidencialidade.

A capacidade de demonstrar interesse e atenção


EMPATIA
personalizada aos clientes

ASPECTOS A aparência das instalações físicas, equipamentos,


TANGÍVEIS pessoal e materiais para comunicação.

Fonte: Adaptado de Fitzsimmons e Fitzsimmons (2011)

Como a avaliação da qualidade de serviços é 2.5 ESCALA LIKERT


bastante complexa devido a característica de
Para realizar avaliações ou mensurações,
intangibilidade do serviço, determinantes da
geralmente, utiliza-se a escala Likert, pois
qualidade (quadro 1) foram adotados para
tornou-se um dos modelos mais mencionados
facilitar o entendimento e nortear como se dá
e empregados por pesquisadores (COSTA;
o processo de percepção de qualidade pelos
SILVA JR., 2014). A escala foi idealizada por
clientes.
Rensis Likert (1932) para mensurar atitudes
no campo das ciências comportamentais.
Portanto, há um ou mais constructos a serem
medidos e é desenvolvida uma quantidade
determinada de afirmações para auferir o
grau de concordância ou discordância frente

Gestão da Produção em Foco - Volume 12


167

a esses constructos pelos respondentes. (2013) e Guedes et al. (2012), a Análise dos
Constructo é um conceito teórico, portanto Componentes Principais é um dos métodos
não palpável, como por exemplo a qualidade mais comuns empregados na análise
para os clientes. multivariada de dados para estimar os pesos
fatoriais. Os autovalores são essenciais na
ACP, pois são responsáveis pela definição da
2.6 ANÁLISE FATORIAL proporção de variância explicada de cada
fator, ou seja, auxiliam na determinação dos
Atribui-se o mérito dos primeiros passos para
pesos fatoriais (LÍRIO, 2004).
o desenvolvimento da Análise Fatorial a
Charles Spearman que, em 1904, publicou o A razão para a utilização do Análise Fatorial,
artigo “General intelligence, objectively independentemente do método de extração
determined and measured” (FÁVERO et al., de fatores selecionado, torna-se mais claro
2009; CORRAR, 2009). Spearman (1904) com a seguinte contextualização:
sugeriu que existia uma “variável invisível” ou
Suponha que x é um vetor de p variáveis
um fator comum de Inteligência, denominado
aleatórias, e que as variâncias das p variáveis
fator “g”, que explicaria e resumiria as
aleatórias e a estrutura das covariâncias e
habilidades mentais: Clássica (Classic),
correlações entre as p variáveis são de
Francês (French), Inglês (English),
interesse. A não ser que p seja pequeno ou a
Matemática (Mathematics), Discriminação de
estrutura seja muito simples, frequentemente
tons (Discrimination of Pitch) e Música
não será muito útil simplesmente olhar para as
(Music).
p variâncias e todas as [...] correlações ou
A análise fatorial (AF) é a principal e mais covariâncias. Uma abordagem alternativa é
antiga técnica de análise multivariada. Esta é olhar para algumas (<< p) variáveis derivadas
caracterizada por ter um grande número de que preservem a maior parte da informação
métodos e técnicas que utilizam todas as dada para essas variâncias e correlações ou
variáveis simultaneamente na interpretação de covariâncias. (JOLLIFFE, 2002, p.1).
um conjunto de dados.
Existem dois tipos de análise fatorial:
Uma descrição clássica para a Análise exploratória e confirmatória (ARANHA;
Fatorial seria que ela é: “[...] ZAMBALDI, 2008). Se o pesquisador não
predominantemente um procedimento de souber previamente quantos fatores comuns
redução de dados; dada uma matriz de estão por trás do conjunto de dados, a AF
intercorrelações entre um conjunto de pode ser utilizada para identificar a
variáveis, a Análise Fatorial irá descrever quantidade mínima de fatores capazes de
essas intercorrelações em termos de um explicar a covariação entre as variáveis
menor número de componentes ou fatores observadas. Essa forma de uso é denominada
que poderão ser interpretados como de análise fatorial exploratória.
dimensões que subjazem a matriz de
Na análise fatorial confirmatória já se parte do
correlações (ZELLER; CARMINES, 1980). Já
pressuposto de que existe um relacionamento
Thomas, Nelson e Silverman (2011, p. 162)
hipotético preconcebido entre um conjunto de
trazem uma descrição mais contemporânea
variáveis e, portanto, possivelmente há alguns
da técnica, a qual não se distancia do escopo
fatores comuns. Por já se possuir
original: “O objetivo da Análise Fatorial é
conhecimento prévio acerca do fenômeno
descobrir os fatores (constructos subjacentes
estudado, a AF é utilizada para testar
ou ocultos) que melhor explicam determinado
hipóteses específicas.
grupo de medidas e descrevem a relação de
cada medida com o fator ou constructo
subjacente”.
2.6.1 MODELO TEÓRICO
A maior vantagem da AF é resumir
As variáveis de um estudo normalmente são
informações contidas de variáveis diretamente
analisadas e tratadas mediante matrizes e/ou
observáveis em um conjunto menor, por
gráficos. Assim, segundo Hongyu, Sandanielo
intermédio da determinação de dimensões
e Oliveira Junior (2015), sejam as variáveis 𝑋1 ,
latentes, também conhecidas como fatores.
𝑋2 , ..., 𝑋𝑝 em cada n indivíduos ou unidades
Dentre os métodos de extração dos fatores,
experimentais, será gerada uma matriz de
geralmente, utiliza-se o de Análise dos
dados X (n x p), a qual poderá ser
Componentes Principais (ACP), que se serve
padronizada com média 0 e variância 1 para
dos autovalores. De acordo com Carvalho

Gestão da Produção em Foco - Volume 12


168

cada unidade de relação n x p, sendo esta Por sua vez, os fatores podem ser estimados
padronização a mais utilizada na prática por combinação linear das variáveis, da
(VICINI, 2005): seguinte forma:

𝑥11 ⋯ 𝑥1𝑝 𝐹𝑚 = 𝑑𝑚1 𝑋1 + 𝑑𝑚2 𝑋2 . . . +𝑑𝑚𝑖 𝑋𝑖 (2)


X=[ ⋮ ⋱ ⋮ ]
𝑥𝑛1 ⋯ 𝑥𝑛𝑝
Onde:

As matrizes de correlação e covariância são a


base para entender a técnica da Análise 𝐹𝑚 : Fator comum;
Fatorial. Enquanto a primeira se refere ao grau
de associação entre variáveis originais e 𝑑𝑚𝑖 : Coeficiente dos escores fatoriais;
fatores comuns, a segunda trata das 𝑋𝑖 : Variável original.
combinações lineares das variáveis originais,
sendo estas descritas por meio dos
autovalores (λ) e dos autovetores (𝑒). Os Os coeficientes de escores fatoriais
autovetores são o meio para a obtenção dos representam a contribuição de cada fator m
fatores, após descobertos os autovalores, a por variável i. Portanto, cada fator pode ser
fim de originar as cargas fatoriais (CRUZ; estimado pela sua representatividade (escore)
TOPA, 2009). Quando os dados estiverem na em todas as variáveis analisadas.
mesma escala de medida, pode-se utilizar a
matriz de covariância, caso contrário, deve-se
utilizar a matriz de correlações, considerando 2.6.2 MEDIDAS DE AJUSTE DO MODELO
o método de Análise dos Componentes
Principais. Para a correta aplicação da Análise Fatorial, o
pesquisador deve no mínimo efetuar os
Corrar, Paulo e Dias Filho (2007) propõem o seguintes passos: analisar a Matriz de
seguinte modelo matemático geral para a Correlações, realizar o teste Alfa de
análise fatorial: Cronbach, verificar as estatísticas Kaiser-
Meyer-Olkin (KMO) e Esfericidade de Bartlett,
analisar a matriz anti-imagem e verificar qual o
𝑋𝑖 = 𝛼𝑖𝑗 𝐹𝑗 + 𝑒𝑖 (1) melhor modelo de rotação para os fatores.
Onde:
2.6.2.1 MATRIZ DE CORRELAÇÕES
𝑋𝑖 : variável i analisada (media 0 e variância 1); Como a Análise Fatorial é baseada nas
𝛼𝑖𝑗 : carga fatorial; correlações entre todas as variáveis
envolvidas em um estudo, deve-se avaliar a
𝐹𝑗 : o fator (média 0 e variância 1); viabilidade da aplicação da técnica a partir da
𝑒𝑖 : o erro. matriz de correlações, pois esta mede a
associação linear entre as variáveis x e y, por
meio do coeficiente de correlação de
A carga fatorial ou loading representa Pearson, obtido por:
o grau de contribuição de cada variável i para
cada fator j. Ela é um coeficiente, positivo ou 𝚺𝐱𝐲−
𝚺𝐱 𝚺𝐲

negativo, geralmente menor que 1 (um). Em 𝒓𝒙𝒚 = 𝒏


(3)
(𝚺𝒙)𝟐 (𝚺𝒚)𝟐
suma, quanto maior for o valor da carga √[𝚺𝒙𝟐 −
𝒏
] [𝚺𝒚𝟐 − 𝒏 ]
fatorial para um fator j, mais a variável i está
relacionada com ele. O erro ou fator
específico corresponde à parcela da variável i O valor do coeficiente de correlação de
que não pode ser explicada por nenhum fator Pearson sempre está entre –1 e 1. Quanto
tampouco por alguma variável, sendo uma mais próximo de 1, indica relação linear
característica específica de cada variável i. perfeita positiva, e –1, relação linear perfeita
negativa; e quando estiver próximo de zero

Gestão da Produção em Foco - Volume 12


169

indica ausência de correlação linear entre as fidedignidade das dimensões do construto.


variáveis (GAZOLA, 2002). Para Hair Jr. et al. (2009), o valor mínimo para
o Alfa de Cronbach é de 0,6. Entretanto, é
O primeiro passo é realizar um exame visual
possível encontrar outros valores mínimos
das correlações entre as variáveis, verificando
menores ou maiores na literatura.
se são estatisticamente significativas.
Segundo Hair Jr. et al. (2005), se a inspeção Hora, Monteiro e Arica (2010) mencionam que
visual não revela um número substancial de a utilização do Alfa contempla três
correlações maiores que 0,30, então a Análise pressupostos:
Fatorial provavelmente não é apropriada.
O questionário deve estar dividido e agrupado
Além disso, é lógico esperar que as variáveis
em dimensões, ou seja, questões que tratam
que apresentam alta correlação entre si
de um mesmo aspecto: Ex.: Modelo ServQual
tendam a compartilhar o mesmo fator
de Parassuraman et al. (1988) baseado nas
(FÁVERO et al., 2009).
cinco dimensões da qualidade;
O questionário deve ser aplicado a uma
2.6.2.2 TESTE ALFA DE CRONBACH amostra significativa e heterogênea:
De acordo com Cortina (1993), o coeficiente A escala já deve estar validada: refere-se à
alfa é certamente uma das mais importantes e verificação de se um instrumento realmente
penetrantes estatísticas em pesquisa mede aquilo que se propõe a mensurar (a
envolvendo construção e utilização de testes. escala Likert é amplamente utilizada).
Ele formaliza uma proposta de estimativa de
consistência interna a partir das variâncias
dos itens e dos totais do teste por sujeito 2.6.2.3 TESTE KAISER-MEYER-OLKIN (KMO)
(MAROCO; MARQUES, 2006). A ideia
De acordo com Fávero et al. (2009), a
principal da medida de consistência interna é
estatística de Kaiser-Meyer-Olkin (KMO) é
que os itens ou indicadores individuas da
outra forma para identificar se o modelo de
escala devem medir o mesmo constructo e,
análise fatorial está adequadamente ajustado
assim, ser altamente intercorrelacionados
aos dados. Isto se dá testando a consistência
(HAIR JR. et al., 2009).
geral dos dados comparando as correlações
Nesse contexto, a confiabilidade é o grau em simples com as correlações parciais
que uma escala produz resultados observadas entre as variáveis. Esta medida é
consistentes entre medidas repetidas ou dada pela seguinte expressão:
equivalentes de um mesmo objeto ou pessoa,
revelando a ausência de erros aleatórios.
Σ 𝑖≠𝑗 Σ r2
KMO = (5)
𝑖𝑗
O teste alfa de Cronbach pode ser obtido Σ 𝑖≠𝑗 Σ r2 2
𝑖𝑗 + Σ 𝑖≠𝑗 Σ 𝑎𝑖𝑗
mediante a seguinte fórmula (CRONBACH,
2004): Onde:
𝑟𝑖𝑗 : coeficiente de correlação entre
𝑘 Σ 𝑠𝑖2
variáveis
( ) (1 − ) (4)
𝑘−1 𝑠𝑡2 𝑎𝑖𝑗 : coeficiente de correlação parcial.

Onde, A estatística KMO, cujos valores variam de 0 a


𝑘: número de itens do instrumento 1, avalia a adequação da amostra quanto ao
(questionário); grau de correlação parcial entre as variáveis,
que deve ser pequeno. O valor de KMO
𝑠𝑖2 : Variância por item; próximo de 0 indica que a AF pode não ser
𝑠𝑡2 : Variância total. adequada, pois existe uma correlação fraca
entre as variáveis. Por outro lado, quanto mais
próximo de 1 o seu valor, mais adequada é a
O valor assumido pelo Alfa está entre 0 e 1 utilização da técnica. Os intervalos de análise
(MAROCO; MARQUES, 2006), e quanto mais dos valores de KMO podem ser observados
próximo de 1 estiver seu valor, maior a no quadro 2 a seguir.

Gestão da Produção em Foco - Volume 12


170

Quadro 3 - Significância do teste KMO


KMO Grau de adequação da amostra

1 - 0,9 Muito boa

0,8 – 0,9 Boa

0,7 – 0,8 Média

0,6 – 0,7 Razoável

0,5 – 0,6 Má

<0,5 Inaceitável

Fonte: Adaptado de Hair Jr. et al. (2005)

Assim, valores para estatística KMO iguais ou 2.6.2.5 MATRIZ ANTI-IMAGEM


inferiores a 0,60 indicam que a análise fatorial
Segundo Fávero et al. (2009), a matriz de
pode ser inadequada (HAIR JR. et al., 2005)
correlações anti-imagem contém os valores
negativos das correlações parciais e é uma
forma de obter indícios acerca da
2.6.2.4 TESTE DE ESFERICIDADE DE
necessidade de eliminação de determinada
BARTLLET
variável do modelo. Pode-se calcular a
O teste de Bartlett é um dos meios de se Medida de Adequação da Amostra ou
verificar a adequação da aplicação da análise Measure of Sampling Adequacy (MSA) para
fatorial e uma forma de examinar a matriz de cada variável de forma similar à estatística
correlação inteira. O teste fornece a KMO a partir de:
probabilidade estatística de que a matriz de
correlação tenha correlações significantes
entre pelo menos algumas variáveis (HAIR et Σ 𝑖≠𝑗 Σ r2
MSA = (6)
𝑖𝑗
al., 2009). Σ 𝑖≠𝑗 Σ r2 2
𝑖𝑗 + Σ 𝑖≠𝑗 Σ 𝑎𝑖𝑗

Fávero et al. (2009) destaca que se utiliza este


teste com o intuito de avaliar a hipótese de
Segundo Hair Jr. et al. (2005), o pesquisador
que a matriz das correlações pode ser a
deve primeiro analisar os valores do MSA
matriz identidade, ou seja, com determinante
para cada variável individualmente e excluir
igual a 1, conforme esquematiza a matriz a
as que se encontram no domínio inaceitável.
seguir:
Quanto maiores forem os valores do MSA,
melhor será a utilização da AF. Ressalta-se
1 0 0 que, conforme Fávero et al. (2009, p. 242), “a
[0 1 0 ] baixa correlação de determinada variável com
0 0 1 as demais não necessariamente implica sua
eliminação, uma vez que esta variável pode
Se a matriz de correlações for igual à matriz representar um fator isoladamente”.
identidade, isso significa que as inter-relações
entre as variáveis são iguais a 0 e, neste caso,
provavelmente deve-se dispensar a utilização 2.6.2.6. MODELOS DE ROTAÇÃO
de análise fatorial. Se a hipótese nula (𝐻0 : a
matriz de correlações é uma matriz Segundo Fávero et al. (2009), normalmente,
identidade) não for rejeitada, isso significa os fatores produzidos na fase de extração
que as variáveis não estão correlacionadas e, nem sempre são facilmente interpretados. A
nesta situação, não é adequada a utilização aplicação de um método de rotação tem
da AF. Por outro lado, se a hipótese nula for como objetivo principal a transformação dos
rejeitada, haverá indícios de que existem coeficientes dos componentes principais
correlações significativas entre as variáveis retidos em uma estrutura simplificada.
originais. A rotação dos fatores é possível, pois as
cargas fatoriais podem ser representadas
como pontos entre eixos (que, neste caso,

Gestão da Produção em Foco - Volume 12


171

são os próprios fatores). Esses eixos podem simplificar as linhas e colunas


ser girados sem alterar a distância entre os simultaneamente (simplificação dos fatores e
pontos. Todavia, as coordenadas do ponto das variáveis).
em relação aos eixos são alteradas, ou seja,
A matriz de componentes, após a rotação,
as cargas fatoriais (relação entre fator e
tem como objetivo associar os valores das
variável) são alteradas na rotação.
cargas fatoriais (loadings) apenas a um fator.
Conforme Scremin (2003), se muitas variáveis A rotação transforma a matriz inicial das
possuem altas cargas fatoriais no mesmo cargas fatoriais em outra mais fácil de ser
fator, deve-se aplicar a rotação dos eixos interpretada. Na Análise Fatorial, as variáveis
fatoriais, o que facilitará na interpretação das com baixas cargas fatoriais devem ser
variáveis latentes (fatores). Soluções com eliminadas (em praxe), de forma que sejam
apenas fatores não-rotacionados extraem utilizadas apenas as variáveis com elevados
fatores por ordem de importância, sendo o loadings. Vale destacar que a rotação não
primeiro o que explicará a quantidade maior afeta a qualidade de ajuste do modelo fatorial,
da variância, e os demais fatores explicarão as comunalidades (associação entre a
porções menores da variância conforme sua variável e o fator extraído) e o total da
ordem. variância explicada pelos fatores. Entretanto,
o percentual da variância explicada em cada
A rotação de fatores é uma técnica que gira
fator muda após a rotação (FÁVERO et al.,
os eixos de referência dos fatores, em torno
2009).
da origem, até alcançar uma posição “ideal”.
O objetivo é facilitar a leitura dos fatores, pois
a rotação deixa pesos fatoriais altos em um
2.7 ÍNDICE DE SATISFAÇÃO DO CLIENTE
fator e baixos em outros, definindo mais
claramente os grupos de variáveis que fazem Segundo Churchill (2000), a importância da
parte de um fator estudado. satisfação está na geração de lucros por meio
da realização das necessidades e desejos
Segundo Hair Jr. et al. (2009), os métodos de
dos consumidores. A satisfação também pode
rotação podem ser ortogonais ou oblíquos. Os
ser compreendida como uma resposta de
métodos ortogonais produzem fatores que
realização do cliente, ao avaliar se as
não estão correlacionados entre si, chamados
características do produto ou serviço atendem
de fatores ortogonais, sendo interpretados a
as suas necessidades, proporcionando um
partir de suas cargas fatoriais (loadings). Na
nível prazeroso de consumo (OLIVER, 1997).
rotação oblíqua, por outro lado, os fatores
Os clientes irão comparar os resultados do
estão correlacionados e, para a interpretação
serviço prestado ou bem adquirido com as
da solução, torna-se necessária a
suas expectativas, tendo como base as
consideração simultânea das correlações e
dimensões da qualidade.
dos loadings. Apenas serão apresentados os
métodos ortogonais por serem mais Para mensurar o índice de satisfação do
comumente empregados. cliente em cada fator extraído pela Análise
Fatorial, a fórmula de Carlos (2012) pode ser
Para os métodos rotacionais ortogonais,
utilizada:
existem o Varimax, o Quartimax e o Equamax.
O Varimax é um método o qual pretende que
exista para cada componente principal 𝑗 𝑗
∑𝑖=1(|𝑝𝑖 | .𝑥𝑖 )−∑𝑖=1 𝑝𝑖
apenas alguns pesos significativos e todos os 𝐼𝑆(𝐹𝑘𝑛 ) = 𝑗 . 100% (7)
(𝐿𝑠 − 𝐿𝑖 ).∑𝑖=1 𝑝𝑖
outros sejam próximos de zero, isto é, o
objetivo é maximizar a variação entre os Onde,
pesos de cada componente principal. Já o
método Quartimax busca simplificar as linhas IS (𝐹𝑘𝑛 ), índice de satisfação do
de uma matriz fatorial (números de fatores), usuário n no fator k;
ou seja, seu objetivo é tornar os pesos de j, número de variáveis no fator k;
cada variável elevados para um pequeno
número de componentes, e próximos de zero |𝑝𝑖 |, módulo da carga fatorial (peso)
para todos os demais componentes buscando da variável i no fator k;
minimizar o número de fatores necessários 𝑥𝑖 , nota média da variável i no fator k;
para explicar uma variável. O método
Equamax congrega características dos 𝐿𝑠 , limite superior da escala de
métodos anteriores, ou seja, seu objetivo é medida;

Gestão da Produção em Foco - Volume 12


172

𝐿𝑖 , limite inferior da escala de medida. 4 METODOLOGIA


Determinação da amostra, classificação da
pesquisa apresentação dos passos seguidos
Para obter o índice de satisfação geral, ou
para auferir os índices de satisfação com
seja, o resultado final de satisfação com as
auxílio da Análise Fatorial.
variáveis relacionadas com o serviço e/ou
produto, pode ser utilizada a seguinte fórmula
sugerida por Cunha, Borges e Fachel (1997):
4.1. TAMANHO DA AMOSTRA
O espaço amostral da academia em estudo é
𝐼𝑆𝐺 (𝑛) =
[λ .𝐼𝑆(𝐹 ) ]
∑𝑘𝑖=1 𝑖 𝑘 𝑘𝑛 (8) constituído de 279 clientes. O tamanho da
∑𝑖=1 λ𝑖
amostra deve ser no mínimo de 50
observações e, preferencialmente, 100 ou
mais. A “regra de bolso” de Hair também
Onde, permite que o número de observações seja
IS (𝐹𝑘𝑛 ), índice de satisfação do igual a 4 ou 5 vezes a quantidade de variáveis
usuário n no fator k; (FARIA, 2006).
𝜆𝑖, é o autovalor do fator k. Desse modo, nesse estudo, como existem 26
afirmativas, o número mínimo da amostra
deve ser 104, resultado de 26 variáveis vezes
3. CARACTERIZAÇÃO DA EMPRESA 4. Foram coletados 106 questionários,
portanto foi atendida a condição da amostra.
A empresa estudada é do ramo de atividades A pesquisa ocorreu em todo o mês de Abril
de condicionamento físico e foi inaugurada de 2017.
em maio de 2015 em Belém do Pará.
Atualmente, oferta os serviços de
musculação, aeróbica e Muay Thai e possui 4.2 CLASSIFICAÇÃO DA PESQUISA
em seu corpo funcional treze colaboradores,
sendo seis professores e dois estagiários, O quadro 3 apresenta a Classificação ou
duas recepcionistas, um auxiliar de serviços Tipologia da Pesquisa mais consensual entre
gerais além dos dois proprietários. É os autores estudados citada por Farias Filho e
considerada uma microempresa, pois a Arruda Filho (2012). A seta pontilhada
receita bruta anual é igual ou inferior a representa a sequência lógica para
R$ 360.000,00 (BRASIL, 2006). compreender uma pesquisa:

Quadro 4 - Tipologia de classificação das pesquisas

Campo da Abrangênci Procedimento Local de


Finalidade Objetivo Natureza Dados
ciência a Temporal Técnico Realização

Monodisciplinar Aplicada Transversal Exploratória Qualitativa Bibliográfica Campo Primários

Interdisciplinar Básica Longitudinal Descritiva Quantitativa Documental Laboratório Secundários

Multidisciplinar Explicativa Experimental

Outros

Fonte: Adaptado de Marconi e Lakatos (1986); Silva e Menezes (2001); Dencker (2004); Gil (2002); e Cooper e
Schindler (2003) apud Farias Filho e Arruda Filho (2012)

Gestão da Produção em Foco - Volume 12


173

Quanto ao Campo da Ciência, a pesquisa é 4.3 PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS


interdisciplinar, pois há uma relação de
Resumidamente, para alcançar o objetivo
integração entre partes constituintes de mais
geral de mensuração do índice de satisfação
de uma disciplina (FARIAS FILHO; ARRUDA
dos clientes da academia, foram seguidas as
FILHO, 2012) da Engenharia de Produção:
etapas:
Controle Estatístico da Qualidade e Qualidade
em Serviços (ABEPRO, 2008). Realização de pesquisa bibliográfica em
monografias, dissertações, teses, artigos e
No que tange à Finalidade, a pesquisa é
livros a fim de compreender os temas
aplicada, uma vez que objetiva gerar
satisfação e qualidade (especialmente em
conhecimentos para aplicação prática,
serviços), bem como a ferramenta estatística
voltados à solução de problemas específicos,
de Análise Fatorial e as medidas de ajuste de
além do notório interesse nas consequências
modelo (fatorial e amostral);
práticas dos conhecimentos (MARCONI;
LAKATOS, 2002). Elaboração de um questionário estruturado
para coleta de dados de qualidade dos
Em relação à Abrangência Temporal,
clientes, através de uma escala Likert de
considera-se como Estudos Transversais, haja
avaliação do serviço de 6 pontos (0-Neutro –
vista que o estudo ocorreu em um período
1-Péssimo – 2-Ruim – 3-Bom – 4-Ótimo – 5-
delimitado e único, ou seja, os resultados
Excelente), contendo 26 afirmativas
demonstraram apenas o momento de
relacionadas com a realidade da empresa e
realização da pesquisa (FARIAS FILHO;
lógica do serviço em academias, baseadas
ARRUDA FILHO, 2012).
nas dimensões da qualidade;
No que concerne ao Objetivo, a pesquisa é
Utilização da Análise Fatorial Confirmatória,
exploratória, pois é aplicada quando se
mediante o programa estatístico SPSS® Nº 22
deseja produzir novos conhecimentos acerca
(Statistical Package for the Social Sciences),
de um tema pouco conhecido com vistas a
para gerar os fatores mais relevantes para a
torná-lo mais explícito (GIL, 2002).
dinâmica do serviço através do método de
Para a Natureza, a pesquisa é quantitativa, Análise dos Componentes Principais com as
uma vez que é caracterizada pelo emprego variáveis (afirmativas) do questionário;
da quantificação no processo de coleta de
Obtenção dos índices de satisfação em cada
informações e tratamento dessas a partir de
fator e o geral;
técnicas estatísticas (RICHARDSON, 1999).
Realização de sugestões de melhoria para
No que se refere ao Procedimento Técnico, a
todos os fatores encontrados.
pesquisa é bibliográfica, pois é desenvolvida
mediante trabalhos já elaborados,
principalmente livros e artigos científicos e
5 RESULTADOS E DISCUSSÕES
também é considerada um estudo de caso,
pois consiste no estudo profundo e exaustivo A seguir são apresentados os resultados após
de um ou poucos objetos, de maneira que a coleta de dados dos 106 clientes da
permita seu amplo e detalhado conhecimento academia.
(GIL, 2002).
Quanto ao Local de Realização, a pesquisa foi
5.1. VALIDAÇÃO DO INSTRUMENTO
realizada em campo, pois foi necessário
conhecer a dinâmica do serviço, suas O alfa de Cronbach foi utilizado para medir a
peculiaridades e especificidades. Ou seja, a confiabilidade das respostas obtidas pelo
coleta de dados e informações ou as questionário, ou seja, se os clientes, em geral,
observações foram realizadas no ambiente compreenderam a essência das afirmativas.
em que está situado o objeto de estudo Dentre o intervalo de valores possíveis que o
(FARIAS FILHO; ARRUDA FILHO, 2012). alfa pode assumir [0,1], nesse estudo foi
adotado o valor mínimo de 0,6 (HAIR et al.,
Quanto à origem dos Dados, eles foram
2006).
coletados diretamente pelo pesquisador, de
forma original (FARIAS FILHO; ARRUDA Foi mediada a confiabilidade das 26 variáveis
FILHO, 2012). Portanto, os dados foram dos 106 clientes da amostra, a qual resultou
apresentados como meios para consecução no valor 0,914. Também foram calculados os
dos objetivos da pesquisa. testes KMO e Bartllet:

Gestão da Produção em Foco - Volume 12


174

Tabela 2 - Teste de KMO e Bartlett para validação do questionário


Teste de KMO e Bartlett

Medida Kaiser-Meyer-Olkin de adequação de amostragem. ,767

Teste de esfericidade de Bartlett Aprox. Qui-quadrado 966,945

gl 325

Sig. ,000

Fonte: Dados da pesquisa (2017)

O teste KMO, que analisa o grau de 5.2. TESTE DE KMO E ESFERICIDADE DE


correlação entre as variáveis, mostra que se BARTLLET
obteve um grau de adequação média (0,767).
Devido às baixas contribuições (percentual de
Através do teste de esfericidade de Bartlett variância) para o modelo, foram retiradas três
obteve-se Sig = 0,000 que valida a utilização variáveis: Instalações Modernas, Horários de
da AF. Portanto, a hipótese nula foi rejeitada Funcionamento Convenientes e
(𝐻0 ) ratificando que existe correlação Relacionamento entre os Profissionais da
significativa entre as variáveis originais, logo Academia. Depois de retiradas as variáveis,
rejeita-se a hipótese nula de que a matriz de ocorreu uma leve redução do teste KMO para
correlações é uma matriz identidade. 0,752, enquanto isso, o teste de Bartllet
continua validando a utilização da Análise
Fatorial (Sig. < 0,05). Apesar da redução do
KMO (≈ 0,019%), os fatores passaram a
representar de 71,83% a 74,24% o modelo
original.
Tabela 3 - Teste de KMO e Bartllet após a retirada de variáveis
Teste de KMO e Bartlett

Medida Kaiser-Meyer-Olkin de adequação de amostragem. ,752

Aprox. Qui-quadrado 832,098

Teste de esfericidade de Bartlett gl 253

Sig. ,000

Fonte: Dados da pesquisa (2017)

5.3. DETERMINAÇÃO DO NÚMERO DE considerou-se inicialmente o critério da raiz


FATORES E INTERPRETAÇÃO latente (não tratado diretamente neste
trabalho), o qual seleciona apenas os fatores
O primeiro passo, para a realização da AF, é
cujos autovalores são superiores a 1.
a Análise dos Componentes Principais no qual
Considerando esse critério, pode-se observar
determinam-se os autovalores, que
que os sete fatores são selecionados
representam a variabilidade de cada
correspondem a 74,24% da variabilidade
componente e o percentual de variância
total. Esse resultado foi satisfatório, pois
explicada de cada autovalor e posteriormente,
sugere que uma explicação mínima de 60%
a extração dos autovalores que irão
da variabilidade para ser suficiente (HAIR et
representar o conjunto de variáveis.
al., 2006). Logo, substituem-se as 23 variáveis
Como critério de decisão do número de originais por apenas sete fatores. A tabela 3
fatores a serem selecionados para apresenta a extração dos fatores pelo método
representar a estrutura latente dos dados, de ACP:

Gestão da Produção em Foco - Volume 12


175

Tabela 4 - Método de Extração: Análise de Componentes Principais


VARIÂNCIA TOTAL EXPLICADA

Somas de extração de Somas de rotação de


Autovalores iniciais
carregamentos ao quadrado carregamentos ao quadrado
Componente % de % de
% % de % %
Total variânci Total Total variânci
cumulativa variância cumulativa cumulativa
a a

1 7,974 34,670 34,670 7,974 34,670 34,670 3,726 16,200 16,200

2 2,249 9,778 44,449 2,249 9,778 44,449 3,206 13,941 30,141

3 1,701 7,396 51,845 1,701 7,396 51,845 2,849 12,385 42,526

4 1,553 6,752 58,597 1,553 6,752 58,597 2,448 10,645 53,171

5 1,418 6,165 64,762 1,418 6,165 64,762 2,288 9,950 63,121

6 1,166 5,068 69,831 1,166 5,068 69,831 1,319 5,737 68,858

7 1,014 4,410 74,241 1,014 4,410 74,241 1,238 5,383 74,241

Fonte: Dados da pesquisa (2017)

Utilizando-se o autovalor (soma rotativa de na quantia residual de variância (HAIR JR. et


carregamento ao quadrado) disposto na al., 2005), foi necessário realizar a rotação de
tabela 3, calculou-se o índice de satisfação fatores. Com o objetivo de redistribuir as
geral. cargas fatoriais por fator para facilitar uma
melhor explicação, aplicou-se o método de
rotação Ortogonal, o Varimax.
5.4. MATRIZ FATORIAL ROTACIONADA
A tabela 4 apresenta as cargas fatorais das
Sabendo que a solução fatorial não- 23 variáveis empregadas para o estudo. As
rotacionada geralmente extrai fatores na cargas fatoriais que estão destacadas
ordem de sua variância extraída, no qual o cumprem a condição de Hair Jr. et al. (2005)
primeiro fator tende a ser um fator geral com e foram distribuídas de acordo com a maior
quase toda variável de carga significante, e contribuição por fator (seja no sentido
explica a quantia maior de variância e o positivo, seja no negativo):
segundo fator e os seguintes são baseados

Gestão da Produção em Foco - Volume 12


176

Tabela 5 - Matriz de análise fatorial rotacionada pelo método Ortogonal Varimax


Variáveis COMPONENTES

FATOR 1 FATOR 2 FATOR 3 FATOR 4 FATOR 5 FATOR 6 FATOR 7

Espelhos 0,238 0,348 0,379 0,303 0,304 0,055 -0,357

ConfTérm 0,259 0,227 0,578 0,008 0,303 -0,378 0,139

LimpReg -0,111 0,176 0,180 0,643 0,241 -0,094 0,149

MatPróx 0,183 0,150 0,057 0,291 0,700 -0,108 0,079

EspAdeq 0,260 0,103 0,374 0,478 -0,028 -0,542 0,101

Som 0,130 0,447 0,626 0,293 -0,108 -0,181 0,056

FácilCom 0,084 0,143 0,776 0,050 0,219 0,083 0,179

Banheiros 0,162 0,004 0,806 0,090 0,092 0,184 -0,157

VarModal 0,190 0,123 0,181 0,093 0,740 0,165 -0,153

OrgEquip -0,139 0,294 0,327 0,190 0,580 0,065 0,415

MedSeg 0,089 0,060 0,231 0,789 0,122 -0,053 -0,073

CompSegProf 0,213 0,215 -0,177 0,808 0,100 0,113 0,086

ProfPrestat 0,796 0,178 0,123 0,250 0,123 0,053 -0,106

RecValAlun 0,802 0,212 0,128 0,014 0,031 0,188 0,006

IntProf 0,805 0,091 0,103 -0,080 0,303 -0,226 0,198

FuncDispon 0,663 0,286 0,327 0,138 -0,263 0,090 0,205

FuncCordAten 0,315 0,051 0,273 0,023 0,101 0,770 0,224

ProfPróx 0,669 0,186 0,031 0,082 0,444 0,020 0,267

EquipApar 0,192 0,826 0,220 0,130 -0,027 -0,143 -0,098

VarEquip 0,091 0,831 0,137 0,138 0,131 0,065 0,139

QuantEquip 0,251 0,765 -0,038 0,074 0,333 0,018 0,087

FuncEquip 0,395 0,647 0,176 0,239 0,254 0,074 0,120

CompSegFunc 0,396 0,134 0,059 0,139 0,039 0,135 0,721

Fonte: Dados da pesquisa (2017)

É importante ressaltar que algumas variáveis Para facilitar os próximos passos no que diz
que não estavam agrupadas (antes da respeito à mensuração dos índices de
rotação dos fatores) se aglomeraram para satisfação, foram dados nomes aos fatores. O
formar novos fatores, ou seja, essas variáveis processo de nomear fatores se baseia
que antes estavam concentradas nos fatores principalmente na opinião subjetiva do
iniciais e outras aparentemente pertencentes pesquisador (HAIR JR. et al., 2009). Sendo
a construtos distintos se agruparam em um assim, no Quadro 3 são apresentados os
único fator. fatores identificados, suas respectivas
variáveis e média dadas pelos clientes,
Não cabe a este trabalho um teor explicativo
através da escala Likert de 6 pontos.
para compreender por que determinadas
variáveis se agruparam com outras que O quadro 4 apresenta um resumo dos fatores:
supostamente não tem correlação entre si
como é o caso do fator 6.

Gestão da Produção em Foco - Volume 12


177

Quadro 5 - Fatores identificados na matriz rotacionada


Fatores Denominação Variáveis Média
Professores Prestativos; 4,45
Reconhecimento e Valorização do Aluno por 4,60
professores e funcionários; 4,41
Interesse do professor em acompanhar o progresso 4,56
1 EMPATIA
do aluno;
Funcionários disponíveis para atender e solucionar
4,22
problemas;
Professores próximos no momento das atividades.
Aparência dos Equipamentos; 3,97
Variedade de Equipamentos; 3,85
2 EQUIPAMENTOS
Quantidade de Equipamentos; 4,01
Funcionamento de Equipamentos. 4,01
Espelhos bem posicionados e de qualidade; 4,09
Conforto térmico; 3,77
3 CONVENIÊNCIA Som (música e volume) apropriado; 4,12
Fácil Comunicação com a empresa; 4,10
Banheiros limpos e com bom cheiro. 4,15
Limpeza regular do espaço das atividades; 3,65
Medidas de segurança; 4,10
4 SEGURANÇA
Competência e Segurança das informações pelos
3,78
professores.
Material de limpeza próximo; 3,39
5 FACILIDADES Variedade de Modalidades; 4,48
Organização dos equipamentos. 3,96
Espaço adequado; 3,85
6 QUALIDADE
Funcionários Cordiais e atenciosos 4,73
Competência e Segurança das informações pelos
7 FUNCIONÁRIOS 4,58
funcionários.
Fonte: Dados da pesquisa (2017)

5.5. CONSTRUÇÃO DOS ÍNDICES DE carga fatorial de cada variável do fator 1 com
SATISFAÇÃO as suas respectivas médias. Esse índice
mostra que o caso analisado apresenta um
Conforme mencionando anteriormente, a base
percentual de 69% de satisfação dos clientes
para a obtenção do índice de satisfação é a
em relação ao fator Empatia.
tabela 4 das cargas fatoriais após a rotação.
Calculou-se o índice para todos os fatores e
Para a obtenção do índice de satisfação do
obtiveram-se os seguintes resultados
fator 1, a fórmula utilizada é a (7) e utiliza-se a
expressos na tabela 5.

Tabela 6 - Índice de satisfação dos clientes em cada fator


FATOR 1 2 3 4 5 6 7
Índice IS (𝑭𝒌𝒏 ) 69,00% 59,18% 60,45% 57,09% 59,04% 67,33% 71,67%
Fonte: Dados da pesquisa (2017).

Gestão da Produção em Foco - Volume 12


178

Pode-se constatar que o Fator 4, Segurança, térmico, som apropriado, facilidade para se
possui o menor nível de satisfação para o comunicar com a empresa e banheiros. A
caso analisado (57,09%). Isto é, os clientes menor média foi a da variável Conforto
estão insatisfeitos no que tange à limpeza do Térmico (3,77), o que indica que a academia
ambiente das atividades físicas, medidas de não está fornecendo um ambiente mais
segurança (sinalizações de segurança e termicamente adequado, fazendo com que os
câmeras) e confiança nas informações clientes tendam a negativar a variável.
transmitidas pelos professores. Por outro lado,
O fator 4, Segurança, apresentou o menor
o Fator Funcionários obteve o maior índice de
índice de satisfação (57,09%). De maneira
satisfação (71,67%).
geral, os clientes estão parcialmente
Para o cálculo do índice de satisfação geral, insatisfeitos com a falta de limpeza regular do
utilizou-se a fórmula (8), a partir das espaço das atividades (3,65) e competência e
informações dos autovalores da tabela 3 e segurança das informações transmitidas
dos índices de satisfação individuais pelos professores (3,78). Esses resultados
calculados anteriormente, e foi de 63,72% demonstram que a academia possui um
com o serviço prestado pela academia de serviço pouco eficiente no que diz respeito à
ginástica. qualidade do espaço de interação para
atividades, bem como a baixa confiança que
O índice sobre Empatia atingiu 69,00% de
o cliente tem com o seu professor. Podendo
satisfação dos clientes. Todas as variáveis
este último ser efeito de contratação de
obtiveram média acima de 4, sendo 5 o limite
professores desqualificados ou ainda falta de
máximo da escala de satisfação. É importante
seriedade deste para com o aluno.
ressaltar que o fator 1 é o mais relevante para
a análise, pois corresponde à maior porção No que concerne ao fator 5, Facilidades, o
de variância do modelo original (34,67%), ou índice de satisfação foi de 59,04%. Apesar de
seja, é o principal fator que influencia a a variável Variedade de Modalidades ter
satisfação. Apesar de as médias das variáveis obtido uma média dita satisfatória (4,48), as
aparentemente estarem satisfatórias, deve-se variáveis Material de limpeza próximo (3,39) e
dar atenção primordial a este fator, pois ainda Organização dos equipamentos (3,96), não
assim o índice é baixo. Portanto, no que diz obtiveram. Estas últimas reduziram a
respeito às relações entre colaborador satisfação geral.
(professores e funcionários) e cliente, deve-se
O fator 6, Qualidade, obteve índice de
buscar melhorias contínuas no atendimento,
satisfação de 67,33%. Enquanto Funcionários
que pode ser demonstrado através de
cordiais e atenciosos receberam alta média
empatia e cortesia para com os clientes, já
(4,73), a variável Espaço adequado
que este é um critério que demonstra o
conseguiu apenas 3,85. A baixa satisfação
quanto é prazerosa a experiência que o
com o espaço pode justificar uma visão que o
cliente tem durante o momento da compra de
cliente tem sobre as instalações físicas e/ou
um produto ou na hora da prestação do
sobre a dimensão da área para praticar as
serviço, devendo o atendimento ser
atividades.
personalizado ao cliente, para que este
perceba que os colaboradores o reconhecem O último fator, Funcionários, apresenta a sua
(KOTLER; KELLER, 2011). única variável Competência e Segurança das
informações pelos funcionários com uma
Para o Fator 2, Equipamentos, foi apontado
média aparentemente satisfatória (4,58). O
índice de satisfação de 59,18%. Portanto, os
índice para este fator foi de 71,67%, o maior
clientes estão parcialmente insatisfeitos com
da análise, o qual demonstra a satisfação com
as questões relacionadas a esse fator. As
os funcionários pelos clientes. Na prática, isso
variáveis Aparência dos Equipamentos e
significa que há uma relação mais próxima
Variedade de Equipamentos obtiveram notas
entre clientes e funcionários.
abaixo de 4, enquanto as demais,
ligeiramente acima. Este fator corresponde a
9,77% de variância, o segundo mais
6. CONSIDERAÇÕES FINAIS
importante para a satisfação.
A Análise Fatorial se mostra uma técnica
O índice do fator 3, Conveniência, obteve
completa e robusta ao demonstrar quais
60,45% de satisfação. Este valor indica
fatores são decisivos na qualidade em
parcial satisfação no que tange ao conjunto
serviços em função de um conjunto de
posição e qualidade de espelhos, conforto

Gestão da Produção em Foco - Volume 12


179

variáveis diretamente observáveis, ou seja, equipamentos em locais estratégicos, ainda


mediante a análise de diversas variáveis que seja necessário adquirir outros, também
simultaneamente de um conjunto amostral não gerarão custos impactantes.
com o intuito de resumir a interpretação do
É importante ressaltar que as instalações
fenômeno estudado. Dessa forma, o trabalho
físicas são uma das maiores fontes da
se preocupou em trazer uma abordagem
qualidade do serviço, pois são as evidências
muito útil, com embasamento teórico
tangíveis as quais estão ao alcance na visão
suficiente, para mensurar a satisfação de
do cliente, podendo ser equipamentos,
clientes, tendo uma academia de ginástica
estrutura e instalações (GIANESI; CORRÊA,
como objeto de estudo.
2007). Os fatores Equipamentos,
Para a correta aplicação da Análise Fatorial, Conveniência, Segurança, Facilidades e
faz-se necessário utilizar medidas de ajuste Qualidade possuem a maior parte de suas
do modelo amostral e fatorial. Por isso, variáveis algum aspecto de tangibilidade, e,
inicialmente, o instrumento de coleta das portanto, em conjunto com os fatores Empatia
amostras (o questionário) precisou ser testado e Funcionários devem ser tratados a partir de
através do teste Alfa de Cronbach para duas abordagens simultâneas: verificando
confirmar se os clientes, em suma, estavam qual fator representa maior porção de
tendo a mesma compreensão acerca das variabilidade e quais variáveis exigem menos
afirmativas que estavam sendo apresentadas. esforços para solução dos problemas da
Após a validação do instrumento (etapa baixa satisfação.
imprescindível e extremamente importante), o
Especificadamente para o caso em estudo, os
software estatístico SPSS foi utilizado para
clientes estão mais interessados em ser
aplicar a Análise Fatorial. Portanto, as 23
recebidos com cortesia e prestatividade e
variáveis originais manipuladas para o estudo
terem a sensação de reconhecimento e
(após eliminação das variáveis com baixa
interesse em sua evolução física por parte dos
contribuição para o modelo fatorial) foram