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O que leva um estudante a levantar a mão


ISABEL LUCAS (Texto) e RUI
quando o professor
GAUDÊNCIO lhe fala de um tema que
(Fotografia)
o intimida? Como
5 de Novembro de reagirão
2017, 8:15 as gerações que

cresceram com as redes sociais, quando


precisarem de tempo, mais tempo, do que o
imediato? Estamos a viver uma crise na
actual condição humana diz António
Damásio no seu mais recente livro, A
Estranha Ordem das Coisas, que dá
prioridade aos sentimentos. Na vida, na
ciência, na cultura. Horas depois de aterrar
em Lisboa não esconde a emoção perante a
edição portuguesa da Temas e Debates.
Sorri. Pega no livro de quase 400 páginas,
olha a contracapa e retrai a vontade
imediata de ver tudo ali. Mais tarde
confessará que é um chato com o
português. Escreve em inglês, pensa em
inglês, mas o português é a sua língua.
Quando, ao longo da conversa, na
oralidade, lhe sai um vocábulo em inglês
trata de arranjar a tradução certa,
sobretudo se for para descrever um
sentimento. É que são os sentimentos o que
está antes de tudo no livro que dedica à sua
mulher, Hanna Damásio, e na conversa
onde haverá de dizer, já desligado o
gravador, que também fala alemão e
namora em italiano. "É a língua do amor",
refere. Como aprendeu? "A ouvir as óperas
de Verdi."

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Começa este livro, que vem na


continuidade dos anteriores, por
esclarecer o que chama de uma “ideia
simples”, “como usamos os
sentimentos para construir a nossa
personalidade”. Peço-lhe que
descreva, brevemente, o protagonista
deste A Estranha Ordem das Coisas,
os sentimentos?
Há a realidade científica daquilo que penso
que são os sentimentos, mas há também
uma mais alargada ligada a um tema que
estamos [com a mulher, Hanna Damásio] a
tratar por estes dias para uma conferência
sobre ética. Parte dos sentimentos que
temos como experiência têm a ver com as
coisas mais valiosas da nossa vida; com
todas as coisas sobre as quais podemos ter
uma valência, as que verdadeiramente
contam: vida, doença, dor, sofrimento,
morte, desejo, amor, cuidado com o outros
[to care]. E, ao mesmo tempo, crimes,
medos, raivas, ódios, que têm a ver com o
contrário das boas coisas da vida e que
podem levar à perda [da vida], e, se não à
perda da vida, ao sofrimento. Praticamente
todas as coisas que governam ou
desgovernam a nossa vida são
normalmente transmitidas por uma
valência de bom ou mau; de agradável ou
desagradável, de recompensa ou punição.
São essas que constituem o grande
personagem dos sentimentos. Os
sentimentos são representações do estado

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da nossa vida, mas representações


qualificadas. Um dos problemas que mais
me inquietam é essa impossibilidade que as
pessoas têm tido de perceber que a
inteligência – ou a nossa mente – vai só até
um certo ponto e a partir daí tem de ter
uma qualificação. Essa qualificação aparece
em termos de agradável ou desagradável,
de bom ou de mau, e é isso que faz a grande
distinção entre a inteligência humana no
sentido mais completo e a mente humana.
À inteligência artificial, por exemplo, falta
isso. Infelizmente as pessoas não se têm
dado conta. Sou um adepto de inteligência
artificial e tudo o que esse campo de
tecnologia e de ciência nos tem trazido, mas
é pena que poucas pessoas dentro desse
mundo tenham compreendido que a
inteligência artificial tal como é
compreendida é uma pálida ideia daquilo
que é a inteligência humana no seu real.

Ou seja, o humano, muito por via dos


sentimentos, não pode ser replicado
artificialmente.
De certeza que não pode ser nem simulado!
Há uma grande diferença entre simulação e
duplicação. O que a inteligência artificial
faz, e muito bem, é uma simulação, e com
capacidades extraordinárias, muito
superiores àquelas que temos. A capacidade
de inteligência no sentido mais directo e
algorítmico que temos hoje em dia em
matéria de memória, de estratégias de

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raciocínio é extraordinária. Faltam é essas


outras qualidades que temos na nossa
inteligência e que são absolutamente
necessárias e extremamente realistas,
porque têm a ver com aquilo que a vida é.
Enquanto a vida concebida no sentido da
inteligência artificial não tem nada a ver
com aquilo que a vida é. A vida é outra
coisa.

E o que é a vida?
É uma coisa venerável, confusa, efusiva.
A grande arte dá-nos isso e a grande
literatura dá isso extraordinariamente.
Quando não se inclui essa componente de
confusão, efusividade, aquilo que pode ser
qualificável de bom ou de mau, perde-se
uma grande parte do que é a vida. Por isso,
e para acrescentar uma nota à sua pergunta
anterior, os sentimentos como personagem
são as representações, aquilo que está na
nossa experiência mental quando estamos a
viver uma vida real. E ao mesmo tempo
uma forma de nos alertarem para aquilo
que está a correr bem ou mal no sentido
mais amplo do termo: a vida dentro de um
organismo. Um organismo vivo, que tem
bons momentos e maus momentos, que
tem todas as variações e flutuações que vêm
do seu metabolismo e que, porque tem
mente e tem consciência – que é uma coisa
que nós temos e as bactérias não – vai
poder ter acesso a esse relato daquilo que
está a correr bem ou mal.

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No livro, fala da consciência da morte


como definidor dessa humanidade, o
sentimento de fim, que faz com que o
homem encare a dor de outra
maneira. A consciência da finitude é,
desse modo, formadora não apenas
de uma maneira de estar
socialmente, como também criadora
de uma linguagem. Como é que se
transpõe esse saber da morte, muito
vezes olhado como transcendência,
para a ciência e muito concretamente
para a biologia?
Tem sido difícil tratar essa questão. Uma
das grandes barreiras é que a ciência, com a
sua natural preocupação com a
objectividade, teve enorme dificuldade em
aceitar coisas que parecem extremamente
subjectivas e confusas, com muitas
variações, que é difícil de agarrar no
sentido mais objectivo do termo. O facto de
que os sentimentos são naturalmente
subjectivos.

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Isso tem sido matéria dos seus livros.


Sim, ando há 20 anos a explicar que
sentimentos não são emoções. Mas é
extraordinária a resistência. As coisas
espantosas que dizem... falam de hearts
and minds! Esperem um pouco: hearts and
minds? O coração é a emoção, mas querem
mesmo dizer coração? E querem mesmo
dizer mente sem coração? As confusões são
extraordinárias. Mas talvez o ponto mais
importante é que as emoções são públicas.
Quando está contente e se ri, ou quando
está triste, quando está irritada tudo isso
aparece na sua máscara. Aparece no rosto e
no corpo. Quando se sente irritada ou triste
ou alegre isso aparece unicamente em si.
Você é a única pessoa que tem acesso a essa
informação no sentido real. É uma
experiência privada. Você pode simular a
representação pública, mas essa distinção
explica em grande parte porque é que as
pessoas estão muito mais confortáveis
quando falam de emoção: porque é público,
porque é observável, enquanto os
sentimentos têm de ser observáveis por
dentro. Mas não estão de forma alguma
fora do campo da ciência. É possível a cada
um de nós fazer as observações, fazer o
resumo dessas observações que é um
campo científico e filosófico a que se chama
fenomenologia. Portanto, temos a

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possibilidade de fazer as nossas próprias


observações, partilhá-las com os outros,
fazer comparações e fazer descrições o mais
completas possível. Não há qualquer
limitação do ponto de vista científico. Não
há limitação da objectividade com que se
pode estudar a subjectividade. E é isso que
as pessoas não compreendem.

Sintetizando, fala de sentimentos e


consciência, de emoções, de
sensações.
Três coisas diferentes. Sensação é o que
permite detectar a presença de um estímulo
– e que as bactérias e as plantas também
têm – e que gera uma resposta. Depois há
certas respostas mais complexas. Em
organismos simples, se tocar na criatura ela
retrai-se. É a mesma reacção que terá se
alguém a assustar, uma reacção emocional.
Há reacções conservadas ao longo de
biliões de anos e que são emocionais,
reacções de movimento. O centro da
palavra emotion é motion. Se alguém lhe
perguntar a diferença entre emoção e
sentimento agarre-se à palavra motion; o
movimento está do lado das emoções e se
está do lado das emoções está-se do lado
daquilo que é visível para os outros.
Sensação, no seu básico, não tem nada a ver
com a emoção propriamente dita. A emoção
é uma reposta complexa de movimento em
relação a um estímulo que foi sentido e
depois há o sentimento, que é a experiência

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mental daquilo que se passou no organismo


quando houve sensação e emoção. São três
graus. Um é extremamente simples, outro
já é mais complexo, em que há uma
resposta, e ainda um outro em que há o
apreender consciente e mental daquilo que
foi a resposta e que se passou no
organismo. São mundos diferentes.

Podemos dizer que estamos no


campo da subjectividade. É isso que o
estimula do ponto de vista científico?
Sim, é extremamente importante. O que eu
quero é dar objectividade científica àquilo
que é uma coisa subjectiva, que é no fundo
a definição da consciência. Grande parte do
problema da consciência é o problema da

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subjectividade. É por isso, aliás, que é tão


extraordinariamente difícil de perceber; é
por isso que as pessoas têm enormes
conflitos e desacordos sobre o que é a
consciência. Cada vez mais estou
absolutamente convencido que não é
possível distinguir tecnicamente
sentimento e consciência. O sentimento,
muito possivelmente, foi o princípio da
consciência do ponto de vista evolutivo.
O sentimento com a sua natural
subjectividade e tudo isso se estendeu a
outras subjectividades: subjectividade do
que está no exterior – eu tenho
subjectividade em relação a si neste
momento, mas também tenho
subjectividade em relação ao meu interior.
Por exemplo, sei neste momento que estou
um bocado cansado, fiz uma viagem de 15
horas e estou fora da hora em que deveria
estar. Tenho essa subjectividade. E tenho a
subjectividade em relação a si, às paredes
desta sala, ao que estou a ouvir atrás de
mim. O que temos é uma grande
possibilidade, muito rica, de juntar
subjectividades dentro da nossa mente. A
nossa mente é toda feita de
subjectividades.

Esse é também o campo da arte.


Sim. E eu sou um apaixonado da literatura.
A literatura é o modo mais rico, de todos os
que temos, de entrar dentro da
subjectividade de outra pessoa e de nos

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fazer perceber o que pode ser a outra


pessoa, muito mais do que o cinema, do
que o teatro, porque a situação em que
estamos a ler é... devemos estar sozinhos e
com um texto que podemos parar a
qualquer altura. Pode ler um parágrafo e
parar e pensar e retomar e reler. Não pode
fazer isso com um filme a não ser que
estrague tudo. Tecnicamente pode, mas
ninguém vê um filme dessa maneira. A
parte da experiência de ver um filme é vê-lo
na continuidade de um determinado
período de tempo.

Como cientista, a literatura pode ser-


lhe útil – pese a ambiguidade da
palavra – neste estudo?
Absolutamente. Tudo é útil, umas coisas
mais do que outras, mas a literatura é
extraordinariamente útil porque é uma
entrada muito rica na mente, uma entrada
que utiliza a vida subjectiva, os
sentimentos. É muito curioso, quando se
olha para as humanidades de uma forma
geral, e para as artes vê-se como têm sido
laboratórios de estudos. As pessoas não se
aperceberam ainda de que uma boa parte
do que se passa no mundo da grande arte é
uma espécie de prefácio para o estudo
científico dos seres humanos. Quando não
havia uma estrutura laboratorial científica,
as pessoas já estavam a...

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Elaborar?
A elaborar. E a literatura tem sido um
grande contributo. Quando me perguntam
qual é o maior cientista de sempre
respondo: na minha área, é Shakespeare.

Está lá tudo?
Praticamente tudo. Pelo menos esboçado. O
que se tem é de desenvolver. Quer sejam as
peças históricas, as tragédias ou as
comédias, a própria poesia. Praticamente
tudo aquilo que interessa, todos os grandes
temas, estão lá. Entre as milhares de coisas
que gostaria de escrever – se calhar não
terei tempo –, seria fazer qualquer coisa
com a neurociência ou a neurobiologia
cognitiva vistas através do Hamlet e
do Otelo. O Hamlet é praticamente
suficiente. É tão rico e está tão cheio
daquilo que conta... E talvez meter o
Falstaff pelo meio para ficar mais completo.
[risos]

Um dos capítulos do livro é sobre a


crise do actual, “a actual condição
humana”. Escreve: “Considerar os

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nossos dias como sendo os melhores


de sempre seria preciso que
estivéssemos muito distraídos”. Esta
“crise” também é causa de uma certa
resistência de parte de muitos
cientistas em incluir as humanidades
nas suas investigações?
A resposta é que há essa resistência, mas
não da parte de todos. Há também quem
adopte, quem veja o valor, o interesse,
muitas vezes talvez porque na sua própria
vida pessoal percebem que é importante e
acabam por ser seduzidos por essas
possibilidades. Se as pessoas trabalham em
áreas muito microscópicas daquilo que é a
ciência, mesmo que seja ciência humana, é
mais difícil fazer a passagem directa. E não
é uma coisa que se deva sequer criticar. É
perfeitamente compreensível. Mas certas
pessoas da minha geração, e até de algumas
gerações a seguir, têm um enorme apreço
pelas humanidades dentro da ciência. Não
se devem fazer generalizações, mas é
verdade que tem havido uma certa
resistência e também alguma resistência
militante. Em certas áreas, quando pessoas
das humanidades olham para o contributo
da teoria da evolução ou da genética... há
tantos erros, tanta complicação, por
exemplo a forma como parte desses
conhecimentos levou a teorias sobre os
seres humanos, da eugenia até aos
extremos piores da exploração racista.
Claro que há razões para as pessoas terem

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tido durante algum tempo uma certa


rejeição e depois muitas vezes também têm
o pavor do reducionismo. É um grande
pavor também da parte das humanidades e,
portanto, rejeitam que a ciência possa
trazer alguma coisa de tão importante como
aquilo que as humanidades têm trazido em
matéria de compreender o que são os seres
humanos.

Neste livro levanta duas ou três vezes


esse problema...
Porque eu não tenho qualquer espécie de
desejo de reduzir aquilo que são os seres
humanos no seu mais sublime à ciência
abstracta. Pelo contrário. Aquilo que acho,
e cada vez acho mais e neste livro é a
primeira vez que me apercebo, é isto:
quando se ligam sentimentos à cultura, por
um lado, e sentimentos à homeostasia e aos
princípios da vida, o que estamos a fazer é a
enriquecer a ligação entre a cultura e a vida.
Ao contrário de reduzir, estamos a
aumentar, a fazer com que esse fio seja
mais visível.

A palavra homeostasia cruza todo o


livro. Ela é completamente
definidora do que é o humano?
É completamente definidora do que é um
ser vivo.O ser humano precisa de ter não só
os imperativos da homeostasia nos seus
aspectos mais complexos, mas também
desenvolvimentos que vêm com

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a multicelularidade, o aparecimento dos


sistemas nervosos e depois o extraordinário
desenvolvimento da capacidade dos
sentimentos, consciência de mente com
imagens...

Sobre a capacidade de criar imagens,


escreve que “todas as imagens do
mundo exterior são processadas de
forma paralela às reações afectivas...
", e depois apela a um exercício:
“pensemos na maravilha alcançada
pelo nosso cérebro ao lidar com
imagens de tantas variedades
sensoriais, de origem externa e
interna, ao ser capaz de as
transformar nos filmes da nossa
mente. Em comparação, a montagem
de um filme é uma simples
brincadeira.”
Exacto. Mas faço essencialmente uma
abordagem crítica. Quando no início de
tudo me falou da genealogia deste livro, há
vários temas que venho a tratar há muitos
anos, mas que agora me parecem, alguns,
perfeitamente claros, e em que também
tenho a coragem de dizer exactamente
aquilo que penso sem estar com rodeios por
poder ofender alguém que achasse que era
pateta e novo de mais para estar a dizer
coisas. Agora já posso dizer tudo o que me
apetece.

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Pode-se dizer que os sentimentos são


fundadores da ciência?
Possivelmente são. São pelo menos
motivadores. Neste livro há três papéis que
dou aos sentimentos, ou ao afecto em geral.
Primeiro, motivadores, depois monitores e
depois negociadores. Os sentimentos
intervêm nesses três pontos. São coisas
diferentes. Uma é motivar, outra é a
monitorização e a outra é a negociação de
quando as coisas correm mal ou bem de
mais. Há constantemente ajustes. Há
pessoas que perante dois advogados a
discutirem um contrato ou dois políticos a
discutirem um tratado são capazes de
pensar que isso está a acontecer num plano
puramente intelectual; não está. Acontece
num plano intelectual e acontece com toda
a miríade de alterações que têm a ver com a
forma como uma das pessoas apresenta o
argumento e como a outra o recebe. Tudo
isso é uma negociação que está a ser feita
não só num plano de conhecimento e razão,
coisas que se podem dizer objectivas e frias,
mas também nesse outro plano que tem a
ver com a forma como a negociação está a
correr do ponto de vista afectivo. Essa é a
realidade. Tem o exemplo espectacular do
que se tem estado a passar nestes últimos
dois anos com movimentos de populismo,
de racismo em toda a parte. Muitas vezes, a
forma como esses problemas são
apresentados gera reacções de zanga e
protesto puramente emocionais. Uma das

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coisas extraordinariamente curiosas é que


quando as pessoas falam de emoções falam
quase sempre do ponto de vista negativo
das emoções. Muitas vezes acham que há o
lado objectivo, o do bom raciocínio, e
depois as emoções, más, que tornam as
coisas irracionais. É um disparate
completo, porque é limitar o âmbito das
emoções ao negativo. Há emoções muito
positivas; ter compaixão, gratidão, desejo
de ajudar, cooperar. O amor! o desejo pelo
amante, o amor pela criança que se está a
criar.

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É desse preconceito que vem a


distinção entre inteligência e
inteligência emocional?
Sim. As emoções muitas vezes ajudam a
tomar a decisão e muitas vezes trazem o
conhecimento, o discernimento, o destilar
de uma série de conhecimentos que temos,
uma vez que foram aplicados e qualificados.
A intuição é uma maneira de fazer linha
recta para a solução do problema sem
andar por todas as fases intermédias. Essa
intuição vem de uma forma emocional.
Tudo isto tem imensa graça. As pessoas que
descobriram o big data falam de como um
grupo de computadores pode ler uma
enorme quantidade de dados e tirar uma
conclusão extremamente nova, verificando
que aquilo é o que se deve fazer. Mas isso
que o computador está a fazer é aquilo que
a intuição humana faz há milhões de anos.
O nosso cérebro é um big data system que
tem imenso conhecimento do que é a nossa
vida interior fisiológica e sobre o que é, e
tem sido, a nossa vida em geral. E esse big
data system está constantemente a dar-nos
um dado institucional que é extremamente
importante para a nossa vida. Tudo isso
vem do lado das emoções e faz parte do que
se poderia chamar inteligência emocional.
Não uso o nome porque não acho que haja
uma inteligência emocional e uma não
emocional. Há inteligência.

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Começa o capítulo dedicado à crise


actual dizendo que nunca tivemos
tanta informação nem tanta
possibilidade de sermos felizes,
mas... E critica os media públicos e o
seu modelo lucrativo de negócio,
reduzindo a qualidade de
informação; questiona o valor de
entretenimento aplicado à história
jornalística e afirma: "Embora a
literacia científica e técnica nunca
tenha estado tão desenvolvida, o
público dedica muito pouco tempo à
leitura de romances ou de poesia,
que continuam a ser a forma mais
garantida e recompensadora de
penetrar na comédia e no drama da
existência, e de ter oportunidade de
reflectir sobre aquilo que somos ou
podemos vir a ser. Ao que parece não
há tempo a perder com a questão
pouco lucrativa de, pura e
simplesmente, ser.” Que cultura é
esta que parece rejeitar a criação de
pensamento e se fica pela emoção?
Historicamente, quando se vê o que tem
sido a marcha dos seres vivos, há coisas que
são previsíveis e outras que não são. E
depois há certas coisas que acontecem, em
que as pessoas não apreendem nem
prevêem as consequências. O que se está a
passar, por exemplo com a Internet e as
redes sociais, é uma entrada extremamente
larga dentro das mentes. É uma coisa que

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entra dentro de nós e que tem o poder de


modificar a forma como pensamos e nos
comportamos.

A sociabilização.
Exacto. Há uma entrada dentro do que
somos do ponto de vista mental a um nível
completamente diferente de outras
tecnologias. Não é tão somente um
telefone. É o telefone e a possibilidade de
entrar num mundo de conhecimento de
forma imediata. Ter essa informação toda é
extraordinário mas o que temos de pensar é
o que acontece com as pessoas que só têm
vivido com isso e não tiveram a
possibilidade de se desenvolver com mais
distância em relação ao que se está a passar
nessa rapidez de tecnologia. Há também o
problema do que vai acontecer quando as
pessoas ficarem sem tempo para reflectir
sobre o que estão a viver. Vão ter a
possibilidade de ter tudo muito
rapidamente, a quantidade de informação é
enorme e a maneira de resolver os conflitos
tem de ser diferente. E vai ser mais
complicada porque não há tempo para o
discernimento. É possível fazer o contra-
argumento: é o problema que temos por
sermos de uma geração anterior e não
termos crescido com isso, e os cérebros das
pessoas que já cresceram com isso estão
adaptados. Isso é verdade em parte, mas
não quer dizer que essas novas pessoas que
cresceram dessa maneira não tenham ao

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mesmo tempo reduzido a sua possibilidade


de olhar para o mundo de uma forma mais
calma e mais completa e reflectida. É um
problema em aberto, que tem de ser
estudado, e não o tem sido porque tudo está
a acontecer agora.

Usa as expressões “bancarrota


espiritual” e “bancarrota moral” para
classificar o que está a acontecer.
E poderia juntar aqui a trigger
warning, que está ligada a tudo isso. Por
exemplo, numa aula pode haver uma
discussão sobre violência ou sobre sexo e
um aluno levanta a mão a dizer trigger
warning, i dont feel safe anymore. É uma
concepção da vida como se a pessoa
pudesse viver protegida de tudo o que não é
conveniente e, ao mesmo tempo, ficar sem
a possibilidade de perceber o que se está a
passar e de se defender inteligentemente. O
presidente actual da Universidade de
Chicago tem escrito sobre isso e diz que eles
rejeitam isso ao abrigo do trigger
warning e isso é uma remoção da educação
e nós, como universidade, não vamos
deixar que os nossos estudantes sejam
amputados e fiquem sem a possibilidade de
responder inteligentemente às ameaças.
Tudo isto são problemas para serem
estudados. É relativamente fácil olhar para
a situação e reconhecer que o progresso é
extraordinário, as possibilidades são
magníficas e ao mesmo tempo também

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temos de reconhecer que precisam de ser


estudadas para ver se podem correr melhor.
As razões pelas quais as coisas não correm
bem serão imensas mas há possibilidades.
A questão que referia há pouco, do ser, é
tão importante e parte do pressuposto de se
conseguir estar consigo próprio e observar
a maravilha da existência sem
preocupações com aquilo que vem antes ou
depois. É uma capacidade unicamente
humana.

Estamos há muito tempo a conversar


e pergunto-lhe o que é que isto tudo
tem a ver com biologia?
Há biologia em variadíssimas áreas. A
biologia no que diz respeito à nossa
violência ancestral. Somos primatas, a
nossa herança é a de animais... e trazemos a
autodestruição connosco. Falo de Freud e
da ideia de auto-destruição. Ele chama a
atenção para uma coisa que é muito real e
que as pessoas muitas vezes querem
esquecer: a ideia de que somos capazes de
violência. E há uma ideia que é
consequente a essa e tem a ver com a
educação, com o facto de que a única
maneira de resolver o problema da nossa
violência natural e de como naturalmente
as pessoas querem estar com aqueles que
são parecidos e não com os diferentes. Tem
de haver um plano de educação
extraordinário, uma espécie de super-plano

https://www.publico.pt/2017/11/05/ciencia/entrevista/antonio-damasio-1791116 20/08/2018
"Quando me perguntam qual é o maior cientista de sempre, respondo: na minha á... Página 23 de 24

de investimento global que não tem sido


feito por razões que são também históricas
e sociopolíticas.

O mundo é dividido, depois há uma crise


económica, uma crise política que leva a
migrações, essas migrações trazem
dificuldades e há reacções contra e não há
possibilidade de coordenar globalmente um
plano educacional. Para mim não é uma
ideia mítica, acho possível. Não é possível
só com as Nações Unidas. Tem sido
possível em certos períodos. Os Estados
Unidos, com todos os seus problemas,
tiveram uma acção extraordinária no pós-
guerra. Há um período que não é de paz
completa, em que houve um investimento
em reconstruir países e permitir que
houvesse um alargamento da educação e da
maneira de compreender outros que são
diferentes. É uma grande projecto que, em
parte, funcionou, tem funcionado, mas que
neste momento está a ser ameaçado.

Já viveu no Iowa, em Chicago, agora


vive em Los Angeles. Da sua
experiência pessoal, as diferenças
acentuaram-se entre esses três
mundos geográficos. Há um país
muito dividido. Um centro que se
sente esquecido e as margens
liberais.
Há muitas semelhanças com as
experiências europeias. Nos EUA é uma

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coisa mais orgânica. Sempre tiveram


enormes divisões geográficas. Há uma
narrativa histórica que conseguiu
compensar e impor um bom
funcionamento em conjunto à volta de
certos mitos e neste momento há uma
fragilidade das relações, há fenómenos
económicos extraordinariamente
importantes e há uma evolução de tempos
diferentes em diversas comunidades. Mas
veja a Europa, encontra exactamente os
mesmos problemas – que na Europa são
muito velhos e um pouco esquecidos. Isso
está dentro do que são os seres humanos;
os seres humanos a criarem um grupo, uma
história com determinados hábitos,
determinadas preferências e a forma como
aceitam, ou não, que isso possa ser
suplantando.

A entrevista encontra-se publicada no P2,


caderno de domingo do PÚBLICO

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