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UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO GRANDE DO SUL Commented [I1]: Total na avaliação: 30.

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INSTITUTO DE FILOSOFIA E CIÊNCIAS HUMANAS
FACULDADE Departamento DE HISTÓRIA

Matheus Menezes Marçal


História da Idade Média Ocidental A
Prof. Igor Salomão Teixeira

1. As crônicas de Fernão Lopes e a legitimação da casa de Avis:


É possível argumentar, a partir da historiografia contemporânea, que as crônicas
medievais escritas por Fernão Lopes (1390? – 1460?) foram fundamentais para a legitimação
da casa de Avis, pois, como argumenta Zierer (2012, p. 272), as crônicas do portuguêes
serviam para a construção de um “imaginário político” em torno da Dinastia de Avis. Fernão
Lopes foi um cronista que trabalhava de escrivão para Dom Duarte, sucessor de Dom João I,
tendo como tarefa principal a escrita da história do reinado instituído por Dom João I. Commented [I2]: Respondeu a questão.

Como uma ferramenta política do período em estudo, as crônicas eram elaboradas


para construir a “verdadeira história” sobre um determinado episódio, períodos históricos,
personalidade política ou conjunto de personalidades. Como os estudos contemporâneos
historiográficos salientam, toda construção da história constitui-se como uma narrativa,
possuindo, portanto, uma carga subjetiva de seu produtor e, também, que a escolha dos
eventos que serão narrados partem de um critério de relevância/irrelevância estabelecido pelo
produtor do texto historiográfico e, também, pelas relações de poder vigentes na sociedade da
qual esse produtor participa.
A partir dessa compreensão contemporânea sobre a escrita histórica, podemos
compreender que a crônica, em seu tempo, produzia um determinado “efeito de verdade
histórica” e que, como uma narrativa, utilizava determinados recursos para produzir seus
efeitos de verdade. Sobre a produção da história na crônica de Fernão Lopes, pontua França
(2003, p. 170) que “É ela que leva Fernão Lopes, no final de uma das narrativas de
confrontos entre Portugal e Castela, a afirmar que ninguém deve supor que o que narra é para
louvor dos portugueses e para denegrir seus contrários, mas porque assim aconteceu “de fato”
(Lopes, 1977, cap. CVIII, p. 226). Da reflexão de França, podemos observar que Fernão
Lopes, em sua narrativa, argumenta que o seu texto expõe a “verdade” sobre oa narrativa Formatted: Font: Bold
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histórica, demonstrando que, em sua escrita, havia a crença da narração dos fatos com total
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verossimilhança, não havendo nenhum tipo de parcialidade em sua narrativa. Commented [I3]: Observe quantas vezes a palavra
aparece na frase.
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Pontuamos, anteriormente, a parcialidade do texto de Fernão Lopes pois
compreendemos que, a partir do momento que há o entendimento de que toda narrativa
história passa por uma seleção de fatos que seleciona alguns e silencia sobre outros, é
possível compreender que, também, toda escrita histórica aparece interligada com um projeto
de sociedade. Na escrita de Fernão Lopes, dando continuidade a nosso raciocínio, há uma
ligação direta entre a sua forma de produção da narrativa histórica e os seus serviços para a
nobreza portuguesa.
Fernão Lopes, em vida, foi contratado por Dom Duarte para produzir as crônicas
sobre a ascençãoascensão e a vida de Dom João I, pai do monarca. A ascençãoascensão de
Dom João I precisava ser narrada, pois, no processo que acarretou na coroação daquele que
veio a ser o pai de Dom Duarte, houveram diversos conflitos políticos que poderiam, no
futuro, servir para deslegitimar a Dinastia dos Avíis.
Dentre esses diferentes processos, destacaremos dois: 1. A bastardia de Dom João e a
produção de si como o messias. Commented [I4]: Qual é o segundo processo?

Durante o processo de sucessão do rei D. Fernando I, houveram três diferentes


candidatos, sendo eles D. Beatriz, única filha de D. Fernando I, que estava casada com João I
de Castela (ascensão que significaria a perda da independência de Portugual), D. João,
príncipe de Portugual, filho de D. Pedro I e D. Inês de Castro, e D. João, filho de D. Pedro I e
de Teresa Lourenço. A partir de um longo processo de disputas política, o último D. João,
filho de D. Pedro e de Teresa Lourenço, ascendeu ao trono, satisfazendo os desejos de parte
da população portuguesa. A sua ascensão, no entanto, ocorre em meio a diversos fatos que
contradiziam a sua possibilidade de exercer o poder. A principal dessas contradições era o
fato de Dom João I ser um filho bastardo de D. Pedro, o que o tornaria ilegítimo para o trono.
Outra contradição, interligada à da bastardia, era a legitimidade que D. Beatriz e o
João I de Castela possuiampossuíam para ocupar o trono de Portugal. A partir da decisão das
cortes portugueses de entregarem o poder a Dom João I, a guerra com Castela, que já havia se
iniciado, aprofundava-se, pois, para além dos motivos prévios, as cortes portuguesas
demonstravam seu desprezo por Castela ao desconsiderar D. Beatriz.
Esses dois episódios destacados, nas crônicas de Fernão Lopes, serviram de mote para
a produção de uma narrativa messiânica sobre D. João I, para que, assim, ao povo português e
ao legado da Dinastia de Avís fosse legitimado o reinado de D. João I. Como afirmamos
anteriormente, Fernão Lopes foi contratado por Dom Duarte como escreviãoescrivão e,
segundo a bibliografia consultada (França, 2003 e Ziezer, 2012), a sua escrita tinha como
objetivo a produção de uma crônica que destacasse os grandes feitos de D. João I, essa
escrita, posteriormente, seria compartilhada com a nobreza e lida em praças públicas,
construindo o que Ziezer (2012) intitula de “imaginário político” sobre a figura do monarca.
Cabe destacar, de tal forma, a necessidade que Fernão Lopes possuiapossuía de
construir uma imagem positiva de Dom João I, em especial sobre sua bastardia, pois, como
destaca Ziezer (2012, p. 275 – 276)“A ilegitimidade manchava a nova dinastia. Daí a
necessidade da mesma basear-se principalmente nos sinais divinos expressos no messianismo
régio para justificar o novo governo”. (Ziezer, p. 275 - 276)”. Como o reino português, como
os outros reinos ocidentais de tal período, aliava-se à Igreja Católica para fundamentar a sua
legimidadelegitimidade, a ferramenta que Fernão Lopes encontrou para demonstrar a
legitimidade de Dom João I foi utilizar o messianismo como uma ferramenta para demonstrar
o caráter divido e predestinado que significou a ascensão de Dom João I e o seu predomínio
como rei1.
Essa produção de um imaginário positivo sobre o monarca não se iniciou-se, no
entanto, apenas a partir da publicação da CrónicaCrônica, pois, como demonstra Ziezer
(2012, p. 273):
De fato, uma imagem positiva colou-se à figura do Formatted: Justified
primeiro monarca avisino, o que mostra que a
“propaganda” acerca das ações do rei já existia durante o
período em que estava vivo. A confirmação desta
imagem positiva na época fica clara porque além do
epíteto de rei da “Boa Memória”, poucos anos após a
morte de D. João I documentos da corte o intitulavam
como “Pai dos Portugueses” (SOUSA, s/d, p. 497).
(Ziezer, p. 273)

Essa imagem positiva, portanto, significou o fortalecimento da figura de D. João I.


Essa legitimação e fortalecimento funcionam, também, porque Fernão Lopes utiliza
diferentes recursos retóricos para produzir a narrativa sobre o monarca, como destaca França
(2003), os textos de Fernão Lopes são, hoje, considerados também literatura por conta de
seus diferentes recursos narrativos. Estes mesmo recursos narrativos, no entanto, são
utilizados por Fernão Lopes para fundamentar a verrosimilhança verossimilhança de seus
textos, os relatos dos portugueses pobres e não pertencentes à corte, os textos e documentos
oficiais consultados, a citação à pessoas que teriam concedido “verdade aos fatos” por terem
vivenciado os fatos narrados, todas essas ferramentas servem para fundamentar o texto de
Fernão Lopes.

1
“Apesar dessa vitória política, iniciando uma nova dinastia no poder, era necessário a legitimação simbólica do
governante e dos seus descendentes, ação na qual a Crónica de D. João I tem papel importante.” (Ziezer, 2012,
p. 273)
A utilização desses recursos se torna, assim “uma estratégia discursiva que não
poderia ser contestada no campo simbólico”, pois:
dos milagres que o cronista descreve acerca das ações
bélicas de D. João e D. Nuno, mostrando a preferência
de Deus pelo Messias e o consagrando no poder. Embora
bastardo, palavra nunca mencionada pelo cronista, D.
João foi rei pela “vontade divina” e por ser “filho de rei”,
já que era filho do rei anterior a D. Fernando, o monarca
D. Pedro (1357-1367). (Ziezer, p. 274)

Percebe-se, assim, como alinham-sese alinham, nos textos de Fernão Lopes, a função
narrativa do texto com e a sua função política. Os elementos narrativos, no entanto,
provinham também do imaginário cristão que alimentava a sociedade lusitana:
Fernão Lopes se apropria da expectativa de alguns
elementos da sociedade portuguesa sobre a vinda do
salvador ou messias que lutaria contra o Anticristo, que
no seu relato é representado pelo rei de Castela. A
ascensão de D. João ao poder é vista como um combate
entre o bem e o mal. Pelo fato de D. João apoiar o papa
de Roma, tido pelo cronista como o papa legítimo, e de
D. Juan de Castela apoiar o papa de Avignon, este
monarca será intitulado pelo cronista como “herético e
cismático” e suas ações apresentadas como condenáveis.
Já as de D. João de Portugal terão a proteção de Deus o
que é mostrado em vários momentos da crônica através
dos chamados “milagres” e “sinais” apontados pelo
cronista, em especial a vitória de D. João nos conflitos
bélicos. (Ziezer, p. 283)

Observa-se, assim, que a produção do imaginário messiânico sobre D. João


correlaciona-se diretamente com o imaginário portuguesportuguês vigente na época. É
correto afirmar, tendo em vista os elementos citados anteriormente, que as crônicas de Fernão
Lopes tiveram importante função na legitimação da Dinastia de Avis, considerando-se que a
narrativa histórica e a produção do imaginário messiânico em torno da figura de Dom João
serviram para diminuir as contradições possíveis de serem apontadas em torno da figura do
monarca e para alimentar a aceitação social que a sua Casa receberia em Portugal.

Correção: 20.0 Precisa ter cuidado com a revisão do texto e acentuação de palavras

Respondeu a questão: 10.0

Bibliografia: 9.0

ABNT: 1,0
2. Pesquisa bibliográfica sobre crônicas medievais:
Os textos selecionados como referências bibliográficas para o estudo das crônicas
medievais foram os seguintes:

● FRANÇA, S. S. L. A história portuguesa medieval preservação, ordenação e


esquecimento. Varia História, Belo Horizonte, vol. 23, nº 38, p. 490 - 499, Jul/Dez
2007.
● GUIMARÃES, J. S. Memória e Retórica: Mouros e Negros na “Crônica de Guiné”
(Século XV). In: Simpósio Nacional de História - ANPUH, 2011, São Paulo. São
Paulo: ANPUH-SP, 16 p. Commented [I5]: Indicar sempre o site no qual o texto foi
acessado. Indicar também ao menos o mês de acesso.
● BERTOLI, A. L. Guerra, Legitimação e Poder no norte da África. As fontes
portuguesas (1415-1471). Roda da Fortuna, vol. 2, número 1-1, p. 335-353, 2013.
● ORTA, D. A. A. Novos ramos de velho tronco. Relações de poder na Península
Ibérica e no norte de África a partir da escrita cronística e chancelar (Séc. XV).
Diálogos Mediterrânicos, número 5, p. 177 - 193, 2013.
● CUNHA, V. B. A religiosidade etíope à luz da crônica Verdadera informaçam das
terras do Preste Joam (século XVI). 2018. 53 p. Trabalho de conclusão de graduação.
UFRGS, Porto Alegre, 2018. Disponível online em: xxxxx Consultado em: xxxx Commented [I6]: Em ordem alfabética por sobrenome do
autor.
3. Ficha de leitura do texto “Memória e Retórica: Mouros e Negros na ‘Crônica de
Guiné’”, de Jerry Santos Guimarães.
Ok. Cumpriu com o os objetivos da questão (Levantamento bibliográfico + ficha de leitura): 10.0
Jerry Santos Guimarães é Doutorando em Memória: Linguagem e Sociedade, pela
Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia, no qual produz uma dissertação sobre o
cronista português Gomes Eanes de Zurara. Possui Mestrado em Memória: Linguagem e
Sociedade, pela Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia em pareria com a Universidade
Nacional de Litoral (ARG), tendo produzido a dissertação “Memória e Retórica: Mouros e
negros na Crônica da Guiné (século XV). Possui, ainda, especialização em Teoria e História
Literária, tendo produzido o texto “Ad Regem - As relações entre retórica e história no
prólogo da dedicatória da Crônica da Guiné”, na UESBA. A partir dessa exposição, podemos
constatar que o autor é um especialista no tema, considerando que tem se dedicado aos
estudos sobre a “Crônica da Guimé” desde a sua especialização. As informações sobre o
autor foram retiradas de: <https://www.escavador.com/sobre/1527535/jerry-santos-
guimaraes>.

3.1. Passagens que sintetizam os argumentos do autor e suas justificativas:

A Crônica de Guiné foi escrita especialmente para a


obtenção de uma nova bula papal que ampliasse os
direitos portugueses sobre o “Mar Oceano”. Ao narrar as
descobertas portuguesas, que entre 1434 e 1448 já
haviam ultrapassado o Cabo Bojador e chegado à Guiné,
ou “terra dos Negros”, D. Afonso V requeria do papa
Nicolau V (1397-1455) o reconhecimento das terras que
os portugueses haviam encontrado na costa africana. A
data oficial da Crônica de Guiné é de 1453. A nova bula,
a Romanus Pontifex, veio em janeiro de 1455, e concedia
a Portugal a posse de todas as terras descobertas ou por
descobrir ao sul do Cabo Bojador. (GUIMARÃES, 2011,
p. 5)

Justificativa: A citação apresentada é necessária na medida que, a partir dela, o


interlocutor do texto passa a compreender qual a importância sociopolítica da Crônica da
Guiné e a sua relação com a necessidade do dinastia de Avís de conseguir o apoio simbólico
e estrutural da Igreja Católica para instituir o processo de escravização como uma fórmula de
acumulação de riquezas. Tal narrativa, como veremos na próxima citação, continuava a
produção de um imaginário “bestial” para muçulmanos (africanos) e africanos (negros e de
outras pertenças culturais).
Zurara afirma ter conhecido muitos daqueles que se
converteram, e eles se mostraram “tão bons e tão
verdadeiros Cristãos como se descendessem de começo
da lei de Cristo, por geração, daqueles que primeiro
foram bautizados” (1973: 124). Houve até um guinéu
que, a mando do Infante D. Henrique, foi alfabetizado e
educado nas doutrinas da Igreja, ao ponto de conhecê-las
mais perfeitamente que muitos cristãos velhos de
Portugal (ZURARA, 1973: 258). Assim, a redenção de
mouros e negros de seu estado bestial era possível – bem
como a salvação de suas almas. O meio mais adequado
para isso seria a escravização de tais povos e seu
transporte para o reino cristão de Portugal.
(GUIMARÃES, 2011, p. 12)

Justificativa: A segunda citação, retirada do tópico do texto em que o autor explora as


relações de Zurara com mouros e africanos, destaca a forma como o cronista apresentava os
mouros e africanos como seres em “estado bestial” e que poderiam, possivelmente, serem
salvos a partir do processo de catequização, processo esse que viria, em conjunto, por óbvio,
com o processo de escravização desses povos.

Os feitos narrados na Crônica de Guiné tinham como


protagonistas os cristãos portugueses, a mando ou sob
concessão do Infante D. Henrique. Mas através dos feitos
acessórios de mouros e negros em contato com os
lusitanos, pudemos observar como os africanos foram
representados por Zurara. Ainda que o cronista estivesse,
por assim dizer, seguindo uma receita retórica para a
construção dos “mouros” e “negros da Guiné”, a sua
engenhosidade estaria justamente em atualizar em tais
tipos as tópicas da natureza das personagens prescritas
pela retórica latina em benefício da memória oficial de
Avis e mesmo no reforço de uma identidade “cristã” e
“portugueses”. (GUIMARÃES, 2011, p. 15)

Justificativa: O texto, que conclui o texto, sintetiza o tema do texto (a representação


de mouros e africanos negros) com o seu aporte teórico (as reflexões greco-romanos sobre a
retórica e a escrita da história), demonstrando como Zurara, em sua Crônica, estava
atualizando essas teorias para o “benefício da memória oficial de Avis” para um “reforço de
uma identidade ‘cristã’”. Há, nesse processo, uma relação direta com a temática do texto, na
medida em que a “adaptação” produzida por Zurara tinha como objetivo reforçar o
imaginário anti-mouros e anti-negros que sustentava e continuaria a sustentar, por muitos
outros séculos, o processo de escravização adotado pela Europa.
Referências

FRANÇA, S. S. L. A dimensão narrativa das crônicas de Fernão Lopes. Métis: História &
Cultura, vol. 2, n. 4, p. 167 – 178, 2003.
GUIMARÃES, J. S. Memória e Retórica: Mouros e Negros na “Crônica de Guiné” (Século
XV). In: Simpósio Nacional de História - ANPUH, 2011, São Paulo. São Paulo: ANPUH-SP,
16 p.
ZIEZER, A. M. S. Fernão Lopes e seu papel na construção da imagem de D. João I, o rei da
boa memória. OPSIS, vol. 12, n. 1, p. 269- 293, jan/jun. 2012. Commented [I7]: Podia ter colocado ao final da primeira
questão.