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iveviiui ao Museu ae nrqueoiogia e Etnobgia, São Paulo, Anais da I Sem ana de Arqueologia, Suplemento 8: 11-20, 2009

A pintura tupiguarani em cerâmica

André Prous*

PRO US. A . A pintura tupiguarani em cerâmica. Revista do Museu de Arqueologia e Etnobgia, São Paulo, Suplemento 8: 11-20,
2009.

R esum o: Analisamos o código decorativo de vários grupos regionais portadores de cerâmica


tupiguarani. Verificamos a utilização das cores, as fórmulas de decoração das diversas partes das
vasilhas. Identificamos padrões figurativos em desenhos até então considerados geométricos. A pintura
em cerâmica evidencia a existência de estilos regionais e a participação feminina nos rituais da sua
sociedade.

Palavras-chave: Tupiguarani - Pintura em cerâmica - Pré-história brasileira - Iconografia.

Introdução
exceção de raros trabalhos pioneiros (Aytai
1991, Scatamacchia 1991), os principais estudos
A equipe do Setor de Arqueologia da UFMG
sobre a cultura tupiguarani tinham privilegiado
e da Missão Arqueológica Franco-brasileira de
as técnicas de fabricação e não a decoração
Minas Gerais dedicou boa parte dos últimos sete
em si. Pareceu-nos necessário dedicar parte do
anos à pesquisa das manifestações da cultura
nosso esforço ao levantamento das técnicas e
tupiguarani. Inicialmente, tratava-se apenas de
dos temas decorativos. Montamos então, em
estudá-las no Estado e pretendíamos abordar,
colaboração com T. A. Lima, uma parceria com
sobretudo, a organização interna dos sítios e
mais de 30 pesquisadores do Brasil, da Argentina
a tecnologia lítica. Para tanto precisávamos
e do Uruguai, para preparar uma síntese sobre
remontar os fragmentos cerâmicos para ter
uma visão da quantidade e dos tipos de vasilhas os ceramistas Tupiguarani, que abrisse também
utilizadas nas habitações ou fora delas, bem como novas perspectivas para o estudo dessa tradição
comparar sua distribuição com a das diversas arqueológica (Prous; Lima, no prelo). Nesta obra
categorias de vestígios líticos. coletiva, minha participação foi dirigida para três
No entanto, verificamos logo que seria temas: a tecnologia lítica, a estruturação dos sítios
difícil estabelecer comparações sistemáticas com e a pintura em cerâmica.
outras regiões do Brasil, pois não havia síntese Enquanto estamos esperando a liberação da
recente dos conhecimentos, e que raras eram as verba para serem publicados os três volumes (na
publicações apresentando sítios tupiguarani de editora há dois anos), apresentamos, de forma
forma completa. Por outro lado, ao ver o material preliminar, vários artigos - no Brasil e no exterior
de um enterramento encontrado no município - sobre o terceiro tema, que foi também o da
de Conceição dos Ouros (MG), percebemos palestra solicitada para o presente evento. Para
a excepcional qualidade dos desenhos feitos não atropelar os textos ainda inéditos dos nossos
em cerâmica. Ora, até então, raros trabalhos colegas, apenas utilizaremos aqui o material já
tinham-se interessado pelo estudo da pintura publicado, ou que pesquisamos pessoalmente.
dessa tradição, devido ao fato de que, com Há tempo sabe-se que as cerâmicas
tupiguarani são caracterizadas pela presença de
decoração plástica ou pintada, tratando-se da
(*) Setor de Arqueologia da Universidade Federal de Minas única tradição brasileira a usar a policromia fora
Gerais - Pesquisador do C N Pq - Mission Archéologique de da Bacia Amazônica. Para inserir as ocorrências
Minas Gerais. pintadas que observamos no Estado de Minas

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Gerais, dentro do contexto mais amplo da dos mortos, eram também pintadas, mas, podiam
tradição, decidimos estudar algumas das principais ser deixadas sem ornamentação.
coleções do país (Museu Nacional, M ARSUL, N o litoral central e nordeste do Brasil (onde
U FBA, Museu Câmara Cascudo, etc.). Em historicamente dominavam as tribos de língua
seguida, propusemos aos nossos colegas de outras tupi), verificamos que as formas globulares
instituições que preparassem um catálogo coletivo fechadas poderiam ficar sem decoração, enquanto
das pinturas, que deverá ser publicado em CD as panelas de tamanho médio dividem-se em
(Jácome; Prous, no prelo). dois grupos: as que têm boca e bojo circular
A partir do levantamento de mais de 200 são corrugadas ou espatuladas; as de boca e
vasilhas e de quase mil fragmentos pintados, diâmetro máximo elípticos são sempre unguladas.
verificamos que a pintura em cerâmica não Os grandes recipientes para cauim (igaçaba,
somente diferenciava os portadores da Tradição equivalentes dos cambuchi meridionais) são
Tupiguarani dos demais grupos ceramistas, mas pintados. Não há registros de caguabá nesta
que sua realização obedecia a padrões rígidos. Por região; em compensação, são numerosas as
outro lado, detalhes técnicos, certos motivos e grandes vasilhas abertas (acreditamos tratar-
a sua organização, particularizavam os diversos se das vasilhas denominadas tenhãe em certos
grupos regionais. vocabulários jesuíticos), de boca e contorno
Nesta palestra, mostrarei quais categorias circular, elíptico ou quadrangular, praticamente
de vasilha foram pintadas, a localização dos ausentes no Sul do país. E possível que tenham
elementos decorativos nas diversas partes dos sido utilizadas na preparação da farinha de
recipientes; mencionarei de forma muito resumida mandioca, e todas estão pintadas internamente.
o “código de cores” das pinturas, os elementos As gravuras dos cronistas dos séculos XVI-XVII
gráficos, os temas (alguns dos quais sugerem mostram-nas recebendo os órgãos internos dos
representações naturalistas) e a estruturação sacrificados durante as festas canibais.
do espaço pictural. Resumiremos a seguir as Os trabalhos do PRONAPA realizados na
principais diferenças regionais já reconhecidas Amazônia evidenciaram a presença, na Bacia
dentro do território brasileiro. Finalmente, do Tocantins, de sítios atribuídos à Tradição
mencionaremos as marcas da transmissão do saber Tupiguarani, que apresentam formas peculiares.
gráfico de uma geração para outra. As pesquisas ainda em curso, realizadas pela
Scientia e a Casa de Cultura de Marabá, assim
como as de E. Pereira devem trazer novas
Form as e decoração informações sobre essas ocorrências.

Várias categorias de vasilhas são comuns


a toda a área tupiguarani, enquanto outras A s cores e seu uso
são regionais. Diversos autores levantaram a
variedade morfológica dos recipientes; entre eles, Os termos tupi-guarani referentes às
La Salvia e Brochado (1989) relacionaram as cores, coletados pelos jesuítas e por etnógrafos
formas do Brasil meridional com os termos guarani contemporâneos, podem ser correlacionados com
mencionados pelos missionários jesuítas. Essas as tonalidades da pintura tupiguarani. O preto e o
categorias recebem um tratamento decorativo marrom escuro têm uso equivalente, sendo todos
diferenciado. Enquanto as panelas meridionais os desenhos de pontos feitos com estas cores,
(yapepó) - cujas paredes apresentam várias cujo conceito corresponde a “muito escuras” O
inflexões - costumam ser corrugadas, verificamos vermelho e o preto (principalmente no litoral
que as tigelas menores (caguabá) são sempre central, nordeste e centro-oeste) foram utilizados
pintadas. Elas eram usadas, provavelmente, para traçar as linhas. Exclusivamente o vermelho
para a ingestão das bebidas fermentadas (cauim) forte (parece-nos que é mais claro nas regiões
e costumam acompanhar os mortos nas umas meridionais do que nas setentrionais) foi utilizado
funerárias desde o Rio Grande do Sul até o Vale para pintar o lábio das vasilhas e as bandas que
do Rio Paranapanema, na fronteira entre os atuais ressaltam as inflexões das paredes e das bordas
Estados de São Paulo e do Paraná. Muitas grandes reforçadas. A categoria tupi-guarani que agrupa
umas (cambuchi, em guarani), utilizadas para cores muito claras (branco, bege claro, branco
preparar a cerveja de milho e receber os corpos levemente rosado ou acinzentado) foi reservada

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para servir de fundo, ressaltando os desenhos ou cruciformes de traços ortogonais concêntricos,
vermelhos e pretos. etc. As linhas onduladas paralelas são também
Nota-se que o amarelo (que poderia ser numerosas e acreditamos que possam ser uma
facilmente conseguido a partir das crostas evocação da cobra (de forma que pode ser
ferruginosas) não aparece em nenhum registro bastante realista em alguns casos, como ocorre em
de cerámica tupiguarani; cabe dizer que a cor duas vasilhas do M ARSUL), enquanto as formas
amarela é frequentemente mencionada nos mitos cruciformes poderiam aludir aos dois bastões
e que um enfeite protetor muito importante para sobre os quais se apoiou a Terra no momento
os guarani ostenta esta coloração; sua ausência da criação do mundo. Tal interpretação já tinha
nas cerâmicas é, portanto, muito significativa. sido proposta (Tochetto 1996) para uma vasilha
Também não se encontram o verde e o azul (que do Rio Grande do Sul. Em duas vasilhas do Rio
parecem formar uma única grande categoria Grande do Sul (um grande cambuchi e um caguaba
nas línguas tupi-guarani), embora pudessem ser depositado no MARSUL) encontramos estes
obtidos a partir de pigmentos vegetais, e com dois temas da cruz e da cobra reunidos no mesmo
argilas verdes (como aquelas utilizadas pelo suporte.
Kaduweu) na falta de sais de cobre. No Nordeste do país, algumas vasilhas abertas
A s análises de pigmento realizadas em também têm seu espaço interno preenchido
vasilhas de Minas Gerais mostram que nelas, por retângulos e triângulos alternados. Em
tanto o preto quanto o vermelho dessas certos casos, esses elementos geométricos são
bacias foram obtidos a partir de pigmentos de preenchidos por traços que, vistos em conjunto
ferro, contrariando nossa expectativa de que formam faces antropomórficas. Essa composição
fossem utilizados fuligem, carvões ou óxido de gráfica é recorrente em cerâmicas pintadas e
manganês (Jácome 2006). No entanto, o número incisas da vizinha Amazônia.
reduzido de análises feitas até agora não permite Nas formas abertas do centro-leste e parte do
generalizações. litoral nordestino, são freqüentes os elementos em
forma de palmeira (um “tronco” terminado por um
palmeta - é escusado dizer que esta denominação
O s elementos gráficos e os temas não pretende identificar o tema como sendo um
vegetal). Numerosas também são figuras parecidas,
Os desenhos tupiguarani utilizavam, porém com as duas extremidades bífidas; ou uma
sobretudo, linhas onduladas ou retas. As primeiras parte central quadrangular, de cujas quinas saem
costumam formar feixes paralelos, nos quais estão apêndices curvos. Interpretamos estas últimas
agrupados aos pares (que denominamos “fitas”), como representações esquematizadas do corpo
materializados por “elementos de reforço”, que humano; esta leitura é reforçada pela pintura de
são pontos, traços ou triângulos. Os pontos, tanto uma vasilha na qual esta forma apresenta um
podem preencher o espaço interno das “fitas”, pescoço (a cabeça está praticamente apagada),
quanto os vazios entre elas. Os traços costumam uma coluna vertebral interna e fitas que fazem
ser pequenos e unem as “fitas” aos pares. Triângulos uma evocação aos intestinos. As bacias de
podem marcar as quinas e os ângulos. Em raríssimas cerâmica lembram formas encontradas em pinturas
peças (do Sul e Centro-Oeste do País), pequenas de cronistas do século XVI, que mostram essas
superfícies preenchidas de tinta, geralmente nos vasilhas cheias de intestinos humanos. Em algumas
ângulos internos, contrastam com a delicadeza tenhãe do Rio de Janeiro, feixes de linhas retas
das finas linhas. Em certas partes do Nordeste dobradas evocam, por sua vez, circunvoluções
(particularmente no Estado de Pernambuco e cerebrais ou do tubo intestinal. No Nordeste (e,
regiões circunvizinhas), essas superfícies pretas particularmente, no Rio Grande do Norte), há
cobrem áreas importantes nos espaços que separam representações muito claras de rosto humano, e
temas ou bandas. O contraste entre as superfícies acreditamos que algumas vasilhas do Nordeste e
pretas e as linhas vermelhas lembra, então, do Norte evoquem uma cabeça de onça (Prous
certos procedimentos das cerâmicas policromas 2003, 2004a,b 2005).
amazônicas (Lima 2005). Certos temas “geométricos”, que
Os temas principais em vasilhas com abertura denominamos “rosetas”, em algumas vasilhas
levemente fechada são construções geométricas: abertas, encontradas nos Estados de São Paulo,
triângulos hachurados, arranjos quadrangulares Minas Gerais, Bahia e Pernambuco sugerem

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PRO US. A. A pintura tupiguarani em cerámica. Revista do Museu de Arqueologia e Etnologia, São Paulo, Suplemento 8:
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representações de flores. Em algumas vasilhas isso figuras, como triângulos hachurados ou linhas
é mais evidente, quando uma única roseta ocupa onduladas paralelas entre si.
todo o campo decorativo; neste caso, um círculo O campo principal das vasilhas fechadas e
central (eventualmente preenchido por pontos), é semifechadas forma quase sempre uma faixa ao
rodeado por elementos que sugerem uma coroa de redor dos potes; para ver o conjunto do desenho
pétalas. As flores desempenham um importante é necessário girar a vasilha. O padrão geral é
papel em mitos guaranis acerca da origem dos um friso de desenhos geométricos modulados e
irmãos gêmeos Sol e Lua, sendo a causa de repetidos. Em raras vasilhas, aparecem fórmulas
uma disputa mortal entre os dois irmãos e sua
distintas, tais como uma evocação de um
mãe; flores são também mencionadas em vários
trançado de cestaria ou alinhamentos verticais
cânticos (Garcia 2003); um importante adorno
e modulares, cujo formato lembra hieróglifos
plumário, suspenso nas costas dos Tupinambá
maias.
durante as danças rituais apresenta também esta
O campo principal das vasilhas abertas
mesma forma.
corresponde ao seu bojo interno e pode ser
visualizado em sua totalidade. A s composições
A organização dos cam pos gráficos mais complexas que encontramos foram
elaboradas sobre esse tipo de recipiente. A mais
Uma das principais características da freqüente consiste em alinhar os motivos ao
pintura tupiguarani (compartilhada por outras longo de eixos longitudinais. Outra forma de
tradições sul-americanas) é ausência do vazio, os composição gráfica consiste em desenvolver
espaços são sistematicamente preenchidos por motivos dispostos de forma concêntrica, com
pequenos elementos como pontos, linhas, partes curvas paralelas ou espiraladas; ou ainda, com
ou miniaturização do padrão principal. Nota-se elementos radiais a partir de um ponto ou de
também uma predominância do conjunto sobre um círculo central. Algumas bacias apresentam
os detalhes, assim como uma fraca hierarquização um arcabouço estruturante, formado por linhas
entre fundo e figura. Nas vasilhas abertas de reforçadas, entre as quais um emaranhado de
certas regiões, parece que a intenção das melhores elementos de preenchimento que parecem
artistas era de embaralhar a visão, obrigando a destinados a disfarçar o tema principal.
um esforço visual e intelectual para descobrir os Uma última forma, mais rara, consiste em
motivos. Temos então a impressão de olhar os contorcer feixes de linhas paralelas, formando
fios tênues de uma teia de aranha, cuja estrutura
circunvoluções.
aparece lentamente no meio do emaranhado dos
elementos secundários.
As composições são abertas, no sentido
A s variações regionais
do que os elementos modulados não são
obrigatoriamente representados inteiros, mas
Como nossos trabalhos pessoais
podem ser cortados no limite do campo gráfico.
concentraram-se nas cerâmicas do sul, do centro
Segundo Polo Muller a pintura da cerâmica
ao norte do Rio Paranapanema (desde a divisa
dos Assurini do Xingu (um grupo tupi-guarani
entre os Estados de São Paulo e do Paraná até
contemporâneo) segue esse mesmo padrão.
o recôncavo baiano) e do Nordeste do Brasil,
Existem dois campos de decoração: o
falaremos essencialmente dessas regiões. A
secundário, na borda, e o principal, nos flancos
das vasilhas (ombros, no caso de formas publicação das pinturas (Prous; Lima, no prelo) de
fechadas como os cambuchi/igaçaba ou semi- coleções provenientes de outras partes do Brasil
fechadas, como os caguabá) ; e a parte interna (Amazônia e extremo Oeste do país), permitirá
do bojo e do fundo, no caso das bacias e tigelas. completar em breve este quadro.
Raras são as vasilhas cujo fundo externo De um modo geral, as peças que pudemos
recebeu pintura. observar sugerem-nos que as oleiras protoguarani
A decoração do campo secundário é formada investiam particularmente na qualidade da
por elementos simples - sobretudo, bastonetes modelagem dos potes, na precisão dos volumes,
(únicos ou duplos, verticais ou oblíquos), ondas enquanto as prototupi teriam, sobretudo, orgulho
ou triângulos. Os bastonetes podem formar da qualidade dos desenhos pintados.

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André Prous

Q uadro 1: diferenças regionais (Sul, Centro, é a grande frequência de um “arcabouço


Nordeste) estruturante”, exclusivo dessa região.

A s pinturas em cerâmica meridionais As pinturas em cerâmica nordeste


caracterizam-se por: apresentam pelo menos dois estilos, caracterizados
Formas pintadas: apenas os caguaba e por:
cambuchi. Por vezes, pequenas vasilhas cujo bojo Formas pintadas: quase exclusivamente
é constrito a meia altura (estas recebem apenas tenhãe; as igaçaba são muito raras ou ausentes; não
um engobo branco e bandas vermelhas, sem há caguaba nem pequenos recipientes constritos.
desenhos). Não existem bacias decoradas (tenhãe). Borda: é muito freqüente o desdobramento
- Bordas: simples, com reforço discreto. da borda, criando dois campos secundários.
Bandas vermelhas: finas. Bandas: espessas (Bahia). Ou substituídas por
Técnica de pintura: traços grossos linhas espessas paralelas (Pernambuco, Serguipe).
(milimétricos). Eventualmente: desenhos feitos Técnica de pintura: traços finos (Bahia) ou
com o dedo, fora dos campos gráficos tradicionais. espessos (um dos estilos presentes em Pernambuco
Pintura do campo secundário: dominância e regiões vizinhas), com elementos de reforço.
das linhas onduladas (localmente: hachurado em Pintura do campo secundário: predominância
xadrez). absoluta de bastonetes duplos.
Temas do campo principal: linhas onduladas Temas do campo principal: vários temas são
paralelas entre si; motivos ortogonais “casinha” compartilhados com o centro, destacando-se os
formando retângulos concêntricos. As linhas retas temas “palmeta” e “bico-de-pato”. Representação
predominam sobre as curvilíneas. de face humana.
- Motivos possivelmente figurativos (raros): cruz Ausência dos motivos ligados, no litoral
e cobra. central, aos “arcabouços estruturantes”
Estruturação do campo principal: friso Estruturação do campo principal das vasilhas
contínuo. abertas: alinhamentos ou estrutura espiralada.
Outras peculiaridades: eventualmente, pintura Motivos figurativos (raros): representação da
com dedos de campos acessórios (parte inferior do cabeça humana (figura 1).
bojo dos cambuchi; interior dos caguaba). Outras peculiaridades: A diferença do que
ocorre na região anterior, o preenchimento
As pinturas em cerâmica do sudeste dos espaços “vazios” entre os motivos pode
caracterizam-se por: ser realizado com elementos retilíneos e não
Formas pintadas: tenhãe, igaçaba. Não curvilíneos. Um estilo do Estado de Pernambuco
há caguaba nem pequenas vasilhas com bojo caracteriza-se pela aplicação de superfícies pretas.
constrito. Bem no limite entre os supostos territórios
Bordas: recebem um reforço acentuado; às prototupi e protoguarani (Estados de São Paulo
vezes, são desdobradas. e do Paraná), nota-se uma maior frequência das
Bandas: espessas. linhas concêntricas que se desenvolvem ao redor
Técnica de pintura: traços finos (décimos de um elemento central simples - possivelmente
de milímetro), sobretudo curvilíneos no campo figurativo (em forma de T duplo, ou de cruz,
principal, com freqüentes elementos de reforços figuras 1 b e 2 a ) ; uma fórmula que D. Aytai (op.
(como triângulos marcando as quinas). cit.) já tinha notado, atribuindo-a ao conjunto da
Pintura do campo secundário: predominância cerâmica tupiguarani. De fato, é bem mais rara
dos bastonetes simples, ou segmentos curvos fora desta região fronteiriça.
paralelos entre si.
Temas do campo principal: variados;
“palmeiras” “fitas”, labirintos, “bico de pato”, etc. A transmissão do saber
- Motivos figurativos (freqüentes): corpo
humano esquematizado (figura 1 e 2), flores? Considerando-se que, na maioria dos grupos
Estruturação do campo principal das vasilhas das terras baixas sul-americanas, as mulheres
abertas: alinhamentos ao longo de eixos paralelos fabricavam e decoravam a cerâmica (inclusive
longitudinais; ou: composição concêntrica entre os Tupis e Guaranis históricos), acreditamos
ou espiralada. O mais específico, no entanto, que as pinturas expressam a participação feminina

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™ A PÍntUra tUP‘gUarani em cerâmica- Revista ào Museu de Arqueologia e Etnologia, São Paulo, Suplemento 8:
1 1-20, 2009.

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PROUS. A. A pintura tupiguarani em cerâmica. Revista do Mus eu de Arqueologia e Etnologia, São Paulo, Suplemento 8:
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no universo mental e ritual dessas populações Conclusão


tupiguarani. Mostrariam os elementos principais
da sua mitologia e evocariam os ritos canibais, em A cerâmica tupiguarani não informa apenas
grupos que os praticavam. Os Tupis e Guaranis sobre a tecnologia. As diferenças entre as formas
históricos são conhecidos historicamente pelos das vasilhas e as modalidades das pinturas pré-
textos dos cronistas (todos homens), e sobretudo, históricas de várias regiões sugerem a existência
por suas práticas canibais (cuja descrição privilegia de verdadeiras fronteiras culturais dentro da
os atores masculinos). Ironicamente, os registros área de dispersão dos seus autores. A mais
nítida delas corresponde geograficamente à
arqueológicos de seus prováveis ancestrais
separação entre os falantes históricos de línguas
aparecem quase exclusivamente por meio das
tupi e os falantes guarani, fato já notado em
mulheres, que tomam a palavra pela obra dos
termos técnicos por outros autores, como J.
modernos pesquisadores.
Brochado, mas agora visualizado nos elementos
Em algumas vasilhas, verificamos que duas
gráficos e na composição das pinturas. Desta
ou até, três pessoas, com vários graus de maestria,
forma, propusemos denominar “protoguarani e
tinham participado do processo de decoração. Em
“prototupi” as manifestações policromas dessas
algumas vasilhas, apenas a borda mostra esta
duas regiões, evitando os termos “Tradição
variação, enquanto o campo principal foi executado Guarani” e “Tradição Tupinambá” utilizados por
apenas pela pessoa mais habilidosa. Em outras, alguns autores (idem). Com efeito, trata-se de
encontramos verdadeiras vasilhas feitas para denominações muito marcadas etnograficamente,
treinamento, por vezes com forma tosca, e na qual que nos parecem inadequadas para designar
uma metade da superficie interna foi pintada com fenômenos cuja origem remonta a pelo menos
habilidade, mostrando a outra uma execução tosca. um milênio antes da existência das “nações”
Ou, ainda, encontram-se linhas finas traçadas por históricas. Pela sua imprecisão, a palavra “proto”
uma mão firme formando um desenho padrão, implica uma certa prudência interpretativa,
complementado por pontos de diâmetro e forma enquanto os termos “tupi” e “guarani” têm
totalmente errática, eventualmente borrados. Vemos, a vantagem de não designar nenhum grupo
nessas ocorrências, o equivalente do caderno escolar específico, à diferença do termo Tupinambá. De
moderno, no qual a professora (a mãe, no caso fato, vimos que talvez seja justificado estabelecer
tupiguarani?) apresenta o modelo, reproduzido depois pela menos mais uma subdivisão, entre as
pela principiante. ocorrências do litoral central e as do nordeste.
Embora a pintura tupiguarani pareça-nos E interessante notar que cerâmicas de
refletir um grande conservantismo em seus princípios, tipo prototupi infiltram-se a oeste do território
ela deixa espaços para criatividade individual. O protoguarani, aparecendo ao longo do Rio Paraná,
contato com os europeus parece, inclusive, ter levado na altura dos Estados de Santa Catarina e do
a esboçar uma síntese entre elementos do novo e do Mato Grosso. A análise estilística da pintura
velho mundo, como sugere a decoração de várias tupiguarani, aliada às datações físicas, poderá ser
vasilhas, uma das quais conservada no MAE- um elemento importante para a discussão sobre as
origens e dispersão da cerâmica tupiguarani.
USP Esta tem a forma de um típico prato europeu
Acreditamos que, em breve, será possível
decorado, cujos relevos são ressaltados por uma banda
propor a diferenciação de uma outra fácies
vermelha(LJchoa, Scatamacchia e Garcia 1984).
regional, mais ocidental (correspondendo
O campo principal é decorado em vermelho e preto,
aos Estados de Goiás e do Tocantins) e de
com elementos vegetais em volutas que se relacionam
outra, amazônica (sudeste paraense e oeste
tanto a motivos tupiguarani quanto aos lacs d’amour
maranhense). As duas regiões, cortadas pelas
renascentistas. Outra vasilha, do Museu Nacional,
Bacias do Araguaia e do Tocantins, compartilham
apresenta elementos decorativos que sugerem os
especificidades nas formas e técnicas de pintura, e
grilhões de metal utilizados pebs europeus; esse objeto muito provavelmente, certos temas também.
de metal poderia ter substituído a corda tradicional, O nosso conhecimento das cerâmicas
no último combate dos cativos antes da execução tupiguarani do Paraguai, das terras baixas da
ritual. Se esta interpretação for correta, seria outro Bolívia e da Argentina é ainda insuficiente para
exemplo de assimilação, por parte dos Tupis - desta que possamos correlacionar as manifestações
vez, históricos - de elementos de origem externa. desses países com as do Brasil. Esperamos que a

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André Prous

colaboração, já iniciada com alguns colegas desses estruturais, ou de indícios de uma relação entre as
países, permita em breve completar o panorama duas culturas?
estilístico da cerâmica tupiguarani que apenas Depois de alguns decênios, durante os quais
esboçamos nestes últimos anos. Por outro lado, os ceramistas tupiguarani passaram ao segundo
notamos a presença em vasilhas do Rio Grande plano da arqueologia brasileira, temos a satisfação
do Norte, do Rio de Janeiro e até, do oeste de ver que nossa nova abordagem revelou uma
catarinense, de algumas pinturas cujo tratamento formosa arte e provocou um interesse renovado
gráfico lembra pinturas Marajoara; esta pelas ricas manifestações desta cultura material,
semelhança instigante foi abordada recentemente manifestado pela multiplicação das publicações
por T. A. Lima. Tratar-se-ia de convergências dos últimos anos.

PROUS. A. Tupiguarani painted ceramics vessels. Revista do Museu de Arqueologia e Etnologia, São Paulo, Suplemento 8: 11-20,
2009.

A bstract:This paper analyzes the patterns of decoration on Tupiguarani vessels. The use of colours
and the decoration of different parts of the vessels are rigorously codified. Various figurative elements
have been discovered among designs that were previously considered only geometric. Analysis of
ceramic decoration provides evidence of several regional styles, and the participation of women in rituals
of Tupiguarani society.

Keywords: Tupiguarani - Painted ceramics - Brazilian prehistory - Iconography.

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JÁ C O M E , C.; PRO US, A. organizadores; de Xingo, Aracaju, 35-54-

Catálogo das pinturas tupiguarani em cerâmica. PROUS, A .; LIMA, T. Andrade eds.


A ser publicado em C D anexo ao 3o volume Os ceramistas Tupiguarani. vol. 3, CEOM ,
da obra Os ceramistas tupiguarani (A. Prous Chapecó (no prelo)
& T. A . Lima eds.).(no prelo) PROUS, A.
LA SA LV IA, F., BR O CH A D O , J. E 2005 A pintura em cerâmica Tupiguarani. In:
1989 Cerâmica Guarani. Posenato Arte e Cultura. Ciência Hoje, 36 (213):22-28.
Porto Alegre.

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PROUS. A. A pintura tupiguarani em cerâmica. Revistu do Museu de Arqueologia e Etnologia, São Paulo, Suplemento 8:
11-20, 2009.

PROUS,A. U C H O A , D. P; SC A TA M A CC H IA , M.C.M.; GARCIA,


2004 La Céramique Tupiguaranie - du Brésil à C. dei R.
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Recebido para publicação em setembro de 2007.

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