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EDUCAÇÃO,

COMUNICAÇÃO
E MULTIMÍDIA

APOSTILA
2017
Sumário

MÍDIA, EDUCAÇÃO E CIDADANIA: CONSIDERAÇÕES SOBRE A IMPORTÂNCIA DA


ALFABETIZAÇÃO TECNOLÓGICA AUDIOVISUAL NA SOCIEDADE DA INFORMAÇÃO........... 5
Introdução.....................................................................................................................................................6
Referências................................................................................................................................................. 10

MÍDIA E EDUCAÇÃO: O USO DAS NOVAS TECNOLOGIASNO ESPAÇO ESCOLAR............... 11


Introdução.................................................................................................................................................. 11
Elementos históricos sobre a mídia..................................................................................................... 12
Mídia e escola............................................................................................................................................ 14
O uso pedagógico da Internet............................................................................................................... 17
Considerações finais................................................................................................................................ 18
Referências................................................................................................................................................. 20

MÍDIA E EDUCAÇÃO: REFLEXÕES, RELATOS E ATUAÇÕES............................................. 21


Resumo........................................................................................................................................................ 21
Abstract....................................................................................................................................................... 21
Mídias e Educação: algumas considerações....................................................................................... 22
A Educação na linha do tempo.............................................................................................................. 22
As Mídias: na linha do tempo................................................................................................................. 23
Mídia e Educação: a interação e a relevância de políticas pedagógicas...................................... 25
Outras considerações.............................................................................................................................. 26
Referências................................................................................................................................................. 28

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EDUCAÇÃO, COMUNICAÇÃO E MULTIMÍDIA

FACULDADE

Esta apostila contém excertos de textos, artigos e pesquisas dos


respectivos autores para fins de leitura e estudos na área da
Educação.

2017


3
MÍDIA, EDUCAÇÃO E CIDADANIA:
CONSIDERAÇÕES SOBRE A IMPORTÂNCIA
DA ALFABETIZAÇÃO TECNOLÓGICA
AUDIOVISUAL NA SOCIEDADE DA
INFORMAÇÃO1

MÍDIA, EDUCAÇÃO E CIDADANIA: CONSIDERAÇÕES SOBRE A IMPORTÂNCIA DA ALFABETIZAÇÃO TECNOLÓGICA AUDIOVISUAL NA SOCIEDADE DA INFORMAÇÃO
Isabela Ruberti Aldo
Nascimento Pontes

“A comunicação - entendida em sua acepção


mais vasta, como utilização dos mass media,
como co- municação escrita, falada, cantada,
recitada, vi- sual, auditiva e figurativa - está
sem dúvida, na base de todas as nossas relações
intersubjetivas e constitui o verdadeiro ponto
de apoio de toda a nossa atividade pensante”.
(Gillo Dorfles)

Resumo: O presente artigo, a partir de três


concepções sobre o papel da escola na socie-
dade: funcionalista, reprodutivista e dialé-
tica, das exigências sociais da Sociedade da
Informação e dos temas que constantemen-
te emergem das mídias de massa. Apresenta
um olhar educacional sobre a importância da
alfabetização audiovisual crítica - na escola -
para a formação do cida- dão globalizado.

Palavras-chave: Educação; Mídia; Cidadania

Abstract: The present article, starting from


three conceptions about paper of the scho-
ol in the society: functionalist, reproductive
and dialectics, of the social demands of the
Information So- ciety and of the themes that
constantly emerge of the mass medias. It pre-
sents an critici- ze/constructive glance on the
importance of the critical audiovisual litera-
cy - in the school - for the formation of the
global citizen.

Key words: Education; Media; Citizenship


1  Artigo elaborado a partir de estudos realizados na disciplina “Estudos em Educação e Tecnologias da Informação e Comunicação” do Programa
de Pós-graduação em Educação da UNICAMP, realizada no 2º semestre de 2001 sob a orientação do Prof. Dr. Sérgio Amaral.

5
Introdução

A
o longo dos tempos, muitos foram os índice claro desse interesse é o fato das lite-
que se empenharam em compreen- raturas especializadas apontarem para o fato
der o papel da instituição Escola na de que para os brasileiros a tv é muito mais
sociedade. Aventurando-nos em uma ten- importante em seus lares do que a geladeira.
tativa de síntese dos resultados de algu-
mas dessas investigações, verificamos que, Lembramo-nos nesse momento do relato de
segundo pensa- dores da educação como uma professora de uma escola municipal da
Durkhein, Bourdieu e Gadotti, a Escola de- periferia de nossa cidade (Campi- nas-SP):
sempenhou basicamente três papéis dis- “As crianças perguntaram para mim: “Profes-
tintos. Inicial- mente fora concebida como sora, vai ter guerra?” Enquanto formulava
redentora, responsável por grandes trans- uma resposta coerente e com uma linguagem
formações individuais e sociais, nessa con- acessível a eles, fui bombardeada por uma
cepção “representou”, não mais que isso, nova questão, dessa vez vinda de uma meni-
a salvação da classe dominada das garras na de 7 anos: “Professora, o que vai aconte-
exploradoras da classe dominante; com o cer com a gente se tiver guerra?” E continua,
passar dos anos, dessa condição, passou “ainda bem que minha mãe vai levar a gen-
a ser vista enquanto reprodutora das de- te embora para Minas”.3 Diante dessas falas
sigualdades sociais e da aceitação delas nos perguntamos: Como os professores com
como uma espécie de predestinação; e por suas excessivas horas de trabalho: 20, 30...
último, a Escola de hoje, que ao ser conce- horas/aula estão trabalhando os assuntos
bida como tão contraditória quanto o meio emergentes das mídias de massa em suas sa-
social em que está inserida, é capaz tan- las de aula? E a escola, com seus tradicionais
to de reproduzir quanto de transformar ao problemas do dia-a-dia, como se manifesta
mesmo tempo.2 diante destas questões?

Na perspectiva transformadora, a escola Temos enquanto alunos do Programa de Pós-


que antes limitava-se a refletir/discutir te- -graduação em Educação na área “Educação,
mas estritamente ligados às disciplinas do Ciência e Tecnologia” da Unicamp nos ocupado
currículo: matemática, português, geogra- em buscar respostas a essas questões e o que
fia, história... Vê-se agora obrigada a abrir temos verificado é que tanto a Escola como os
suas portas (salas de aula) para temas cada Professores, em relação a esses temas, transi-
vez mais ligados aos interesses da comu- tam entre a total omissão até a assídua/engaja-
nidade, mais especificamente, de crianças, da discussão/reflexão sobre esses. Por um lado,
adolescentes, jovens, e por que não, adul- para olhos ingênuos, isso não parece tão noci-
tos, alunos de nossas escolas. vo aos nossos alunos, porém ao lançarmos um
olhar mais crítico, logo compreendemos que
“O ambiente escolar deixa de ser o lugar privi- esse fato evidencia a existência de dois tipos de
legiado, sacralizado de acesso à informação e escola, dois tipos de professores, dois tipos de
ao conhecimento e passa a ser um espaço onde alunos, dois tipos de educação e, consequen-
o aprendente desenvolve a capa- cidade de in- temente, a geração de dois tipos de cidadão:
terrelacionar informações construindo e recons- um que, apesar das informações nem sempre
truindo conhecimentos”. (Bacegga,1997). confiáveis e até mesmo desencontradas vei-
culadas pelas mídias de massa, tem na escola
Dentre os assuntos que mais instigam nos- um espaço de articulação das informações que
sos educandos, aqueles massificados pelas se apropria no cotidiano e acaba aprendendo
mídias de massa, na maioria das vezes sensa- a construir uma visão mais ampla e coerente
cionalismo puro com pouquíssimo interesse sobre os fatos, exercendo/incorporando sua
informacional/educacional, acabam se tor- pluralidade/globalização enquanto cidadão. E
nando os despertam mais a curiosidade. Um outro que é aviltado, limitado apenas ao aces-
2  A esse respeito, ver: Émile Durkheim, Pierre Bourdieu, Moacir Gadotti.
3  Em referência às possíveis retaliações ao Afeganistão, sede do regime Taliban chefiado por Osama Bin Laben acusado pelo atentado terrorista ao
World Trade Center - Nova York - Esta- dos Unidos, 11/09/ 2001.

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EDUCAÇÃO, COMUNICAÇÃO E MULTIMÍDIA

so, e isso quando tem, às notícias-flash, como


já nos referimos nesse texto, muitas vezes ten- “O recebimento da imagem, sobretudo via co-
denciosas, veiculadas pelas mídias de massa municação de massa, pode levar à alienação
diariamente sem nenhuma articulação entre causada, por sua vez, pelo embotamento da sen-
elas, que somente se apropria de uma história sibilidade e da capacidade reflexiva. A frag-
que não tem começo nem fim, apenas o meio mentação dos discursos e sua proliferação con-
sem nenhuma ligação, nenhuma cadeia lógica. duzem à recepção acrítica do texto, que se faz
objeto de consumo imediato. Ocorre, nesse sen-
Segundo Bacegga (1997), aqui reside o grande tido, uma forma de controle, pois o cidadão que
desafio da educação desse novo milênio, pois se pensa livre, acha-se subordinado a uma rede
num momento em que as mídias de massa de- de informações controladas por grupos. Mesmo
sempenham um papel crucial na formação dos que a imagem não seja virtualmente fabricada,
indivíduos, a alfabetização tecnológica audiovi- seu uso indiscriminado é uma forma de manipu-
sual desses para a sobrevivência na Sociedade lação de dados da realidade. (...) Na verdade ele

MÍDIA, EDUCAÇÃO E CIDADANIA: CONSIDERAÇÕES SOBRE A IMPORTÂNCIA DA ALFABETIZAÇÃO TECNOLÓGICA AUDIOVISUAL NA SOCIEDADE DA INFORMAÇÃO
da Informação torna-se indispensável. pensa que controla, mas é controlado. (Walty,
2000)
“A tecnologia chegou para ficar. No campo da
educação, o desafio maior é a busca da incorpo-A televisão é hoje em dia um membro da
ração dessa tecnologia na dimensão sócio cultu-família e as imagens e informações que são
transmitidas configuram e condicionam gra-
ral, de tal modo que se equilibrem dois polos tão
dualmente as opiniões e os gostos de nos-
distantes entre si: o cidadão do mundo e o homem
degredado em seu meio, impossibilita- do não desas crianças e adolescentes de uma maneira
quase inconsciente. Isso justifica-se se consi-
ver reconhecidos seus direitos, mas de saber que
tem direitos. O cidadão da globalização, aquelederarmos que segundo pesquisas realizadas,
que emerge do conhecimento pleno, e o homem no Brasil as crianças permanecem em média
aviltado, aquele que não come, não lê, não tem 4,12 horas diárias diante da televisão, os jo-
vens 3,01 horas, os adultos 3,27 horas (Gru-
condições míni- mas de usufruir os benefícios do
mundo”. (Bacegga, 1997) po de Mídia, 1991). Diante desses dados, a
pergunta que devemos fazer a escolas e aos
Nesse sentido, e considerando os significativos professores é se seus alunos estão prepara-
avanços das tecnologias de informação e co- dos para entender essa gama de imagens re-
municação, à escola de nosso tempo compete cebidas diariamente, definindo “entender”
o árduo trabalho de incorporar em suas práticas como a capacidade para interpretar tudo, in-
e teorias uma nova forma de ensino-aprendiza- clusive as ideologias que ficam subjacentes,
gem, um processo voltado para a potencializa- atrás de cada imagem.
ção de competências para o uso de múltiplas
linguagens que convergem, além disso, a des- (...) a família, a escola e as igrejas se burocrati-
treza para se auto gerenciar em situações de zam, em consonância com as determinações da
comunicação que constroem as novas redes te- economia e da política vigentes na sociedade
lemáticas multimídia. local, regional, nacional, mundial. O que signi-
Sobre essa necessidade, existem numerosos fica dizer que há uma tendência generalizada à
argumentos, altamente convincentes, que evi- acomodação, transferindo-se para um poder ex-
denciam a necessidade de alfabetizar profes- terno e invisível as decisões que determinarão a
sores para a linguagem audiovisual. Nas últi- vida das pessoas e grupos humanos. Diante da
mas décadas inúmeras publicações confirmam, sonolência das maiorias burocraticamente com-
de uma maneira rigorosa, a importância que portadas, o sistema de meios de informação ga-
as mensagens audiovisuais estão adquirindo nha terreno livre para apresentar-se em momen-
na configuração da cultura e nos modelos de tos de conflitos ou de angústias coletivas como
comporta- mento da sociedade atual. De fato, o verdadeiro e natural representante dos desejos
as imagens formam parte da escola e do mun- da população, deslegitimando os esforços arti-
do quotidiano e desde muito cedo invadem o culados de pessoas e organizações preocupadas
imaginário infantil. Desta forma, é preciso con- com interesses coletivos. (Soares, 1996)
siderar que não se deve ignorar a urgência da
alfabetização tecnológica audiovisual.

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Atentos a esta situação e tentando uma res- Partindo dos pressupostos acima fica evidente
posta para a pergunta acima, é curioso veri- que diante dessa nova configuração do pro-
ficarmos que a escola, com seus professores, cesso de ensino-aprendizagem e do grande
nem sempre incorpora no seu ambiente edu- desafio imposto, a formação do cidadão para
cativo o estudo das linguagens audiovisuais a sobrevivência na sociedade da informação
de uma maneira mais sistematizada e crítica depende diretamente da qualidade da forma-
como acontece com as outras matérias. Pou- ção dos professores. Nessa perspectiva, para
cas são as experiências na escola que utilizam atender a esse novo enfoque, é necessária uma
os meios de comunicação não apenas como maior atenção tanto com a formação inicial
um mero suporte de transmissão e, quando dos novos educadores, quanto com a formação
isso acontece, são iniciativas isoladas toma- continuada daqueles que já estão no exercício
das por inquietos professores sensibilizados da profissão. Pois:
e interessados pela dinâmica dos meios. O
desafio aqui apontado aos educadores é o de Embora tenha havido uma verdadeira revolução
como poderemos desenvolver com os alunos, nesse campo nos últimos vinte anos, a formação
em um futuro imediato, uma leitura crítica que ainda deixa muito a desejar. Existe uma certa inca-
possa ser aplicada a linguagem audiovisual. pacidade para colocar em prática concepções e
modelos inovadores. As instituições ficam fechadas
O tipo de trabalho convencional do professor está em si mesmas, ora por um academicismo excessivo
mudando em decorrência das transformações do ora por um empirismo tradicional. (Nóvoa, 2001)
mundo do trabalho, na tecnologia, nos meios de
comunicação e in- formação, nos paradigmas do Sob essa ótica, para o desenvolvimen-
conhecimento, nas formas de exercício da cida- to dessa outra alfabetização: tecnológica
dania, nos objetivos de formação geral que hoje audiovisual, o investimento da escola na
incluem com mais força a sensibilidade, a cria- formação continuada em serviço de seus
tividade, a solidariedade social, a qualidade de professores poderia dinamizar a criação de
vida, o reconhecimento da diversidade cultural e projetos que os ajudassem a descobrir as
das diferenças, a preservação do meio ambiente. múltiplas possibilidades que a linguagem
(Libâneo, 1998) audiovisual pode oferecer para cada ciclo
educativo, o que seria o caminho mais acer-
Apesar dos muitos encontros e desencontros tado para educar os alunos para o mundo
quando o assunto é a influência dos meios das mensagens midiáticas, familiarizando-
de comunicação nos principais setores da so- -os assim com as diferentes técnicas au-
ciedade, em especial na educação. Para nós diovisuais. Enfim, as crianças de cada ciclo,
é certo que os meios tiveram e têm um pa- poderiam aprender a consumir essas men-
pel relevante na construção de novas cultu- sagens e o mais importante ser capazes de
ras educacionais. Sobre isso Lévy (2001) nos criar suas próprias mensagens. Por isso, se-
alerta: ria imprescindível que o ambiente escolar,
especialmente o ambiente da classe, pro-
Devemos aprender a ter confiança em nós mes- porcionasse uma grande variedade de ma-
mos: somos perfeitamente capazes de avançar teriais e de instrumentos para que as capa-
rumo a uma sociedade de aprendizagem e de cidades expressivas dos alunos pudessem
criação permanente, uma cultura na qual cada ser despertadas, estimuladas, provocadas.
um estará continua- mente atento ao aperfei-
Por outro lado, a introdução de artefatos
çoa- mento da cooperação e do serviço mútuo.
tecnológicos na sala de aula, sem uma con-
Dessa maneira pensamos que uma alfabeti- cepção crítica/construtiva dos docentes,
zação tecnológica audiovisual abriria para também não mudaria em nada a situação de
a escola um outro caminho para exploração passividade atual. O importante é desen-
de novas temáticas, possibilitando o aces- volver nos alunos competências que lhes
so a outros modelos de conhecimento e possibilitem desconstruir as mensagens
adquirindo novas dinâmicas que poderiam advindas dos diversos meios e a construir
estreitar o seu encontro com a sociedade novas mensagens e que entendam o pro-
atual. cesso de produção de textos audiovisuais

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EDUCAÇÃO, COMUNICAÇÃO E MULTIMÍDIA

nas suas várias perspectivas: social, econô- dadãos globalizados x Cidadãos aviltados.
mica, política, cultural ou estética. O aluno De acordo com Castells (1999): Na era da
não está mais reduzido a olhar, ouvir, copiar informação, a educação é elemento de pro-
e prestar contas. Ele cria, modifica, constrói, gresso e de exclusão social. Assim, diante
aumenta e, assim, torna- se coautor, já que da crescente força das mídias de massa e
o professor configura os conhecimentos em sua importância cultural, social, econômi-
estados potencias (Silva, 2000). ca e tecnológica em nossas sociedades a
escola precisa abrir caminhos para a essa
Em última análise, faz-se importante con- outra alfabetização (tecnológica audio-
siderar que a dinamização de práticas que visual). Resistir a essa nova competência
viabilizem a alfabetização tecnológica au- comunicativa só irá deixar a escola e seus
diovisual na escola, além de um desafio, alunos ainda mais hipnotizados e seduzi-
é também uma utopia. Pois que se de um dos pela alienação iconosférica. A escola,
lado, a sociedade da informação ora ins- ao rejeitar os meios, está reconhecendo a

MÍDIA, EDUCAÇÃO E CIDADANIA: CONSIDERAÇÕES SOBRE A IMPORTÂNCIA DA ALFABETIZAÇÃO TECNOLÓGICA AUDIOVISUAL NA SOCIEDADE DA INFORMAÇÃO
taurada no mundo globalizado, exige um sua incapacidade de entender o homem de
cidadão competente na articulação de in- hoje (...) (Moran, 1993). É preciso evitar
formações, de um outro, o próprio modelo essa alienação, promovendo uma urgente
de acumulação de nossa sociedade perpe- e sensata aproximação entre os meios e o
tua antigas formas de exclusão social: Ci- ambiente educativo.

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REFERÊNCIAS
BACEGGA, M. A. Educação e Tecnologia: diminuindo as distâncias. In: KUPSTAS, M. (Org.).
Comunicação em debate. São Paulo, Moderna, 1997.

DIAZ BORDENAVE, J. E. Além dos meio e mensagens: introdução à comunicação como


processo, tecnologia, sistema e ciência. 4.ed. Petrópolis: Vozes, 1987.

FREIRE, P. Pedagogia da autonomia: saberes necessários a prática educativa. São Paulo: Paz
e Terra, 1997.

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docente. 4.ed. São Paulo: Cortez, 2000.

MORAN, J.M. Leitura dos meios de comunicação. São Paulo: Pancast, 1993.

PONTES, A.P. Alfabetização digital de educadores: uma chave para a inclusão do cidadão
no mundo digital. In: SEMINÁ- RIO DE ACESSIBILIDADE, NOVAS TECNOLOGIAS E INCLUSÃO
SOCIAL,
1., 2001, São Paulo. Caderno de resumos. São Paulo: Faculdade de Ciências Médicas-USP,
2001.

RUBERTI, I. Internet e Intranet en la escuela e Televisión Educativa. In: CON- GRESSO


INTERNACIONAL DE EDUCAÇÃO, 1., 2000, San Miguel de Tucumán. Anais... San Miguel de
Tucumán (Argentina): Instituto Herman Hollerith, 2000.

SAMPAIO, M.N. ; LEITE, L.S. Alfabetização tecnológica do professor. Petrópolis, RJ: Vozes,
1999.

SOARES, I. de O. Sociedade da informação ou da comunicação? São Paulo: Cidade Nova, 1996.

WALTY, I.L.C. et al. Palavra e imagem: leituras cruzadas. Belo Horizonte: Autêntica, 2000.

SILVA, M. Sala de aula interativa. Rio de Janeiro: Quartet, 2000.

Isabela Ruberti Jornalista;


Jornalista; Mestre em e Educação pela Uni-
versidad Autònoma de Barcelona - Espanha;
Mestranda em Educação Comunicação na
área “Educação, Ciência e Tecnologia” pela
UNICAMP

Aldo Pontes
Professor de língua portuguesa e literaturas
luso-brasileira; Mestrando em Educação na
área "Educação, Ciência e Tecnologia" pela
UNICAMP
aldopontes@hotmail.com

ETD – Educação Temática digital, Campinas, v.3, n.1, p.21-27, dez.2001

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MÍDIA E EDUCAÇÃO:
O USO DAS NOVAS TECNOLOGIASNO
ESPAÇO ESCOLAR

Gilza Maria Leite Dorigoni1


João Carlos da Silva2

Introdução

A
s reflexões em torno do assunto mí- desde os anos de 1970 no mundo inteiro
dia e educação vem sendo aprofun- com o objetivo de formar usuários ativos,
dadas há várias décadas dado a cons- criativos, críticos de todas as tecnologias
tatação de sua influência na formação do de informação e comunicação.
sujeito contemporâneo e da necessidade
em explorar o assunto diante do rápido No que se refere à área educacional, a mí-
desenvolvimento das novas tecnologias dia esteve sempre presente na educação
de informação e comunicação. Ao falarmos formal, porém, não raras vezes, sofreu cer-
propriamente sobre mídia, faz-se necessá- ta resistência, em relação a sua aplicação
rio reportar- se à sua complexidade, ao si- na escola. Porém, o impacto social causado
tuá-la como produto que se desenvolveu a pela penetração da tecnologia de informa-
partir dos anos de 1940, no contexto da or- ção e comunicação (TIC) nos últimos anos,

MÍDIA E EDUCAÇÃO: O USO DAS NOVAS TECNOLOGIASNO ESPAÇO ESCOLAR


dem industrial. Nesta época, a concentra- ocasionou intensas transformações nas
ção econômica e administrativa aliada ao principais instituições sociais. A família foi
desenvolvimento tecnológico estabelecia invadida pela programação televisiva em
semelhança estrutural ao cinema, rádio e seu cotidiano, a Igreja se rendeu ao cará-
revistas. ter de espetáculo da TV, a escola que pres-
sionada pelo mercado utiliza a informática
Tradicionalmente a sociedade atribuiu a com um fim em si, e a essas influências se
instituições escolares à responsabilidade associa à Internet, com intensa possibili-
na formação da personalidade do indiví- dade de uso.
duo tendo em vista a transmissão cultural
e do conhecimento acumulado historica- Mediante esse quadro caberia uma indaga-
mente. A educação para as mídias como ção: a escola pública deveria incorporar as
perspectivas de um novo campo de saber tecnologias de informação e comunicação em
e de intervenção vem se desenvolvendo suas práticas pedagógicas? Porém, torna-se

1  Licenciada em pedagogia pela UNIOESTE-PR. Pós-graduada em administração e planejamento de sistemas educacionais e de instituições educacionais/
UNIPAR. Professora do programa do desenvolvimento educ. PDE/SEED–Pr. E-mail: gilzadorigoni@seed.pr.gov.br.
2  Doutor em História, filosofia da educação/UNICAMP. Professor UNIOESTE, Campus Cascavel. Doutorando em Educação pela Faculdade de Educação
UNICAMP. Membro do Grupo de Pesquisa HISTEDBR – História, Sociedade e Educação – GT – Cascavel – PR E-mail: jcsilva05@terra.com.br

11
relevante acrescentar que a abordagem aqui do de esclarecer se a falta de direcionamen-
discorrida, não trata da negação dos suportes to para a utilização dos meios de comunicação
midiáticos, ao contrário, enfoca entre outros pode influenciar negativamente na aprendiza-
contrapontos suas influências e necessidades gem da criança e do adolescente. Assim, o que
de inserção no processo pedagógico. Desta prende é compreender a influência dos meios
forma, a partir do objeto em estudo, preten- de comunicação sobre o trabalho escolar a
de-se suscitar discussões sobre o processo partir das relações entre mídia e educação.
ensino/aprendizagem, também no senti-

Elementos históricos sobre a mídia

A
o longo do século XX, especialmente e a avaliação das mídias como artes plásticas
entre os anos de 1940 e 1970, o telefo- e técnicas, analisando como estão situados
ne, o cinema, o rádio, as revistas e a te- na sociedade, seu impacto social, suas im-
levisão constituíam-se em um sistema, que o plicações, a participação e a modificação do
desenvolver-se, transformou-se em aparato modo de percepção que elas condicionam o
de última geração ao integrar outros avanços papel do trabalho criador e o acesso às mí-
tecnológicos mais recentes como telefones dias.
celulares, TV interativa e a Internet. Tais apa- Para aplicação dessa forma de ensino/apren-
ratos foram sendo produzidos e vinculados dizagem abordando a mídia, é necessário evi-
com a totalidade, estabelecendo uma intima tar o deslumbramento, assumir a criticidade,
relação com os objetivos da industrialização. abandonar práticas meramente instrumen-
O avanço tecnológico se colocou presen- tais, excluir a visão apocalíptica que favorece
tes em todos os setores da vida social, e na o conformismo e não a reflexão.
educação não poderia ser diferente, pois o
impacto desse avanço se efetiva como pro- Desde a década de 1950, teóricos chamam a
cesso social atingindo todas as instituições, atenção para a caracterização da sociedade
invadindo a vida do homem no interior de pela tecnificação crescente nos mais varia-
sua casa, na rua onde mora, nas salas de aulas dos setores sociais. Já havia preocupações
com os alunos, etc. Desta forma, os aparelhos no sentido de que os meios de comunica-
tecnológicos dirigem suas atividades e con- ção constituíam uma escola paralela onde as
dicionam seu pensar, seu agir, seu sentir, seu crianças e os adultos estariam encantados e
raciocínio e sua relação com as pessoas. atraídos em conhecer conteúdos diferentes
da escola convencional. Desta forma foram
Diante dessa realidade, delineiam os desa- sendo analisados os efeitos do impacto da
fios da escola sobre esse tema na tentativa tecnologia na sociedade e na educação. A
de responder como ela poderá contribuir partir desses impactos, alguns autores como
para que crianças e jovens se tornem usuá- Friedmann e Pocher (1977) apontam que as
rios criativos e críticos dessas ferramentas, tecnologias são mais do que meras ferramen-
evitando que se tornem meros consumido- tas a serviço do ser humano, elas modificam
res compulsivos de representações novas de o próprio ser, interferindo no modo de perce-
velhos clichês (BELLONI, 2005, p.8). Contan- ber o mundo, de se expressar sobre ele e de
to que essa atuação ocorresse no sentido de transformá-lo, podendo também levá-lo em
amenizar ou até mesmo eliminar as desigual- direções não exploradas encaminhando a hu-
dades sociais que o acesso desigual a essas manidade para rumos perigosos.
máquinas estão gerando, tal fato poderia se
tornar um dos principais objetivos da educa- Adorno e Hokheimer teorizam sobre os
ção. meios de comunicação ao considerarem que
esses passam a ser apenas negócios com fins
No tocante ao ensino, uma das formas a se comerciais programados para a exploração
contemplar, dentre muitas sugeridas para a de bens considerados culturais, denominan-
educação para as mídias, seria estudar, apren- do-os “Indústria Cultural”. O termo “indústria
der e ensinar a história, a criação, a utilização cultural” foi explicado como mais propício

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EDUCAÇÃO, COMUNICAÇÃO E MULTIMÍDIA

que o termo “cultura de massa”, disseminado tos sociais e do homem consigo mesmo.
pelos donos dos veículos de comunicação, ao Antes, os fetiches estavam sob a lei da igual-
justificarem que a cultura surge de forma es- dade. Agora, a própria igualdade se converte
pontânea, brota das massas, do povo. em fetiche (ADORNO, 1999, p.33).

Segundo Adorno (1999, p.8), a indústria cul- Assim, o homem é condicionado ao sentido
tural ao aspirar à integração vertical de seus econômico que dá as mercadorias valores
consumidores, não apenas adapta seus pro- que interferem e decidem a sua existência,
dutos ao consumo das massas, mas, em lar- estabelecendo o caráter de fetiche sobre a
ga medida, determina o próprio consumo. vida em sociedade. Desta forma são inculca-
Sendo assim, o interesse da indústria cultural dos no indivíduo normas e comportamentos
nos homens é mantê-los como consumidores considerados únicos, decentes e racionais
ou empregados reduzindo sua humanidade, pela cultura de massa ou indústria cultural.
confirmando desta forma seu papel de porta-
dora da ideologia dominante. Desta maneira, Portanto, é o princípio do si mesmo que evi-
sendo aliada da ideologia capitalista, falsifi- dencia o trabalho social do indivíduo na so-
ca as relações entre os homens e do homem ciedade burguesa que restitui a uns o capital
com a natureza, contribuindo para o que acrescido, a outros a força para o mais traba-
Adorno trata como antiiluminismo, contrário lho. Assim, o indivíduo vai se moldando cada
ao Iluminismo que objetivava a liberdade, o vez mais ao processo de autoconservação
abandono do medo e a exclusão do mundo decorrente da divisão burguesa do trabalho,
da magia e dos mitos. concomitante com o envolvimento ao apara-
to técnico. Sobre essa questão, vale reportar
Com o iluminismo esperava-se a instauração às reflexões de Paolo Nosella (2006), emba-
da soberania do homem sobre a técnica e a sado nos métodos de Marx que salienta que o
ciência, mas o progresso da dominação téc- trabalho burguês é historicamente determi-
nica tornou-se o novo engano, vitimando o nado sendo interação dos homens entre si e
homem mesmo depois de ter sido liberto do com a natureza, assim, o trabalho que deveria
medo mágico que o acompanhava. Sabe- ser a manifestação de si tornou-se perdição
mos que o poder da técnica pelo homem não de si. Assim, faz-se necessário que se inverta
o levou a libertação do medo, somente trans- esse processo recuperando o trabalho com o
feriu sua ansiedade e apreensão do mágico, sentido de libertação plena do homem.
do mítico, para o medo do novo, do avanço O processo de dominação imbicado na histó-
desenfreado da ciência e dos efeitos em sua ria em seu aspecto cíclico, perpassa por um
vida, perpetuando sua insatisfação no senti- retrocesso antropológico em suas etapas pri-

MÍDIA E EDUCAÇÃO: O USO DAS NOVAS TECNOLOGIASNO ESPAÇO ESCOLAR


do humanitário. mitivas, condicionando os instintos por uma
Bacon (1979) difundia ideias que divergiam opressão maior. A força que perfaz a domina-
das diretrizes do Iluminismo, ele despreza- ção sobre os sentidos proporciona a unifor-
va os adeptos da tradição, da credulidade, a mização da função intelectual, a resignação
omissão da dúvida, o receio de contradizer do pensar à produção da humanidade, de-
e a tendência de se satisfazer com conheci- sencadeia um processo de empobrecimento
mentos parciais. Para Bacon, poder e conhe- do pensar e da experiência.
cimento são sinônimos. O que importa não
é aquela satisfação que os homens chamam Desta forma, quanto mais o aparato social
de verdade, mas sim, o proceder eficaz, no econômico e científico for refinado e comple-
desempenho e no trabalho, nas descobertas xo a serviço do qual o corpo fora destinado
dos fatos particulares anteriormente desco- pelo sistema de produção, ocorre o empo-
nhecidos que possam equipar melhor a vida. brecimento das vivências que esse corpo é
capaz.
No mundo do iluminismo, a mitologia foi su-
cumbida, mas a dominação se apresenta sob Portanto, esse regredir das massas hoje
forma de alienação do homem com respeito pode ser traduzido sob o olhar do novo, é a
aos objetos dominados e com o enfeitiça- ciência elaborada em alta tecnologia ou tec-
mento dos homens em seus relacionamen- nologia de ponta, que incapacita o homem

13
de ouvir o que nunca foi ouvido, de palpar Mediante o que foi exposto, reflexões acer-
com as próprias mãos o que nunca foi toca- ca do assunto devem ser implementadas,
do; uma nova forma de opressão, que supera contudo, o potencial educacional que as TIC
a opressão mítica já vencida. No transcorrer oferecem não pode ser negado, mas preci-
do caminho que vai da mitologia à logísti- sa ser integrado efetivamente na escola,
ca, o pensar perdeu o elemento da reflexão principalmente na rede pública de escola-
sobre si e hoje a maquinaria estropia os ho- rização, já que pode servir como mais uma
mens mesmo quando os alimenta (Adorno & possibilidade para a construção da cidada-
Horkheimer, 1999, p.56). nia plena. Para tanto, faz-se necessário esta-
belecer como propósito a utilização da pro-
A rapidez da disseminação da Internet pelo mundo, dução multimídia de forma a desenvolver o
em relação a outras mídias. Enquanto o rádio levou potencial crítico sem negar o papel de con-
38 anos para atingir um público de 50 milhões nos sumidores que somos, mas sob forma cons-
Estados Unidos, o computador levou 16 anos, a tele- ciente, salientar a nossa função de emisso-
visão, 13 anos e a Internet levou apenas quatro anos res e receptores do saber e da informação.
para alcançar a marca de 50 milhões de Internautas.

Mídia e escola

P
ara efetivar a aplicação das tecnologias e igualitária, necessitando abordar aspectos
de informação e comunicação na escola, sobre as condições sociais, políticas e eco-
após a constatação de sua importância e nômicas da vida e do trabalho, entrelaçados
necessidade, é preciso criar conhecimentos e com as condições culturais.
mecanismos que possibilitem sua integração
à educação evitando o deslumbramento ou Contudo, escolas públicas vêm sendo equi-
o uso indiscriminado da tecnologia por si e padas com computadores conectados à Inter-
em si. Portanto, é imprescindível enfatizar o net através de Programas do governo federal
cunho pedagógico em detrimento das virtua- e estadual. Porém, somente esse fato garan-
lidades técnicas, fugindo do discurso ideoló- tiria a melhoria de qualidade no processo de
gico procedente da indústria cultural. ensino/aprendizagem? Pedroso (2002) afir-
ma que enquanto não forem criadas possi-
Entretanto, a perspectiva que se abre no cam- bilidades através de substancial mudança na
po educacional, indo do livro e do quadro de estrutura do ensino continuaremos na situa-
giz à sala de aula informatizada ou on-line, ção de dependência e servidão. No entanto,
leva o professor a uma perplexidade, desper- o computador e sua capacidade técnica po-
tando insegurança frente aos desafios que dem sob forma contraditória, ser usado no
representa a incorporação dos TIC ao cotidia- sentido da democratização, humanização,
no escolar. Talvez sejamos ainda os mesmos transformando as desigualdades existentes
educadores, mas certamente, nossos alunos na sociedade.
já não são os mesmos, “estão em outra” (BA- Mas a utilização da informática é vista como
BIN, 1989). reacionária e conservadora tendo em vista
o desemprego tecnológico e o descompro-
Neste cenário de constante e acelerado pro- metimento dos educadores com a democra-
cesso tecnológico que desde os anos 80 cia. Em razão da péssima remuneração dos
tomou novas proporções com equipamen- professores, duvidosas formações, da baixa
tos projetados para armazenar, processar e qualidade de ensino no ensino fundamental
transmitir informações de forma mais rápida e médio e a semialfabetizarão dos alunos, in-
e cada vez mais acessível em termo de cus- cluindo em países considerados 1º do mun-
tos, vislumbrando uma maior possibilidade do, levam a crer que esse fenômeno de des-
de utilização para todos, presencia-se ques- comprometimento coma educação seja um
tões sobre a informatização e o acesso à In- fenômeno mundial.
ternet permeando ainda as discussões dos Enfatizando a importância dos meios de co-
que acreditam em uma sociedade mais justa municação e das tecnologias de informação

14
EDUCAÇÃO, COMUNICAÇÃO E MULTIMÍDIA

que se concretiza fortemente em todos os lados pelas gerações antecessoras, desen-


âmbitos da vida social, trazendo consequên- volvendo habilidades para adaptação ao
cias para os processos culturais, comunica- sistema social econômico.
cionais e educacionais, vale lembrar que uma
das instituições que demonstra grande difi- Dessa maneira, essas características vão mo-
culdade em absorver as transformações nos delando o processo de socialização, a for-
modos de aprender em decorrência do avan- mação de novas gerações e a transmissão
ço tecnológico atual é a escola, que devido cultural. Neste contexto, a formação da per-
à rapidez desses avanços e ter intrínseco sonalidade do indivíduo passa a ser tarefa de
em seu bojo dependências com instituições instituições e de especialistas como: psicó-
maiores, não assimilou outras formas tecno- logos, orientadores educacionais, médicos,
lógicas comunicacionais e já se depara com a assistentes sociais. E a escola divide com a
informatização, suas linguagens multimídias mídia a responsabilidade na socialização dos
e suas potencialidades interativas. jovens e crianças.
A sociedade contemporânea sob a forma
de produção industrial tem sua base na ra- Portanto, o controle social é exercido sob múl-
cionalidade instrumental regida por regras tiplas formas e através de instituições entre as
técnicas operacionais em que tudo é plane- quais a escola e a mídia. A escola perpetua as-
jado, medido, racionalizado. Assim organiza- sim sua função como Aparelho Ideológico do
da essa sociedade tomou proporção tal que Estado, dividindo agora esse intento com a mí-
atingiu todos os setores da vida do indivíduo, dia que assume a liderança sobre essa função.
se adentrando no espaço e no tempo livre do Nesse cenário atual, escola é vista apenas como
trabalhador, atingindo-o até mesmo em sua mais uma entre as muitas agências especializa-
consciência sujeita às regras provenientes das na produção e disseminação da cultura. No
das exigências técnicas da produção indus- processo geral de transmissão da cultura e no
trial. processo de socialização das novas gerações,
a escola vem perdendo terreno e prestígio em
Com suas regras clássicas e científicas, o Ca- concorrência com as diferentes mídias.
pitalismo estabelece em seu discurso tecno-
crático uma ideologia que insistentemente Enquanto o mundo se apresenta cada vez mais
tenta legitimar uma falsa consciência do aberto e com máquinas que lidam com o saber
mundo. Essa ideologia dominante influencia e com o imaginário, a escola ainda se estrutura
comportamentos humanos, acabando por le- em tempos e espaços pré-determinados, fe-
gitimá-la. chada ignorando as inovações. Em decorrên-
cia da velocidade dos avanços tecnológicos

MÍDIA E EDUCAÇÃO: O USO DAS NOVAS TECNOLOGIASNO ESPAÇO ESCOLAR


Assim, já no século XIX, pensadores como e sua interferência no trabalho e na vida de
Durkheim e Marx convergiam suas constata- todos, a escola se encontra em crise. A escola
ções de que o homem e sua consciência são que tem como ideal preparar as pessoas para
produtos da sociedade. Por ser o homem um vida, para cidadania e para o trabalho, deve-se
ser social é fruto de sua sociedade, é o resul- então questionar, sobre qual contexto social se
tado desta sociedade. Desta forma, o homem reportar já que este está em permanente mo-
é considerado criador e criatura, pois ao lon- dificação.
go de sua evolução, foi criando e adaptando Desta forma a escola e todo sistema educacio-
instrumentos para facilitar suas relações com nal tende a funcionar com outros tempos e em
os homens e com a natureza, desenvolvendo múltiplos espaços diferenciados, com a presen-
seus sentidos, sua ação e aquilo que é espe- ça de todos os novos elementos tecnológicos
cífico do homem, a capacidade de criar. da informação e comunicação. Assim, sobre a
resistência e a não completude em relação às
Impregnados pela ideologia do poder, tan- tecnologias na educação, Pretto e Pinto (2006),
to a família quanto a escola e outras insti- consideram como sendo uma das característi-
tuições sociais, influenciam para a confor- cas peculiares do momento contemporâneo.
mação e adaptação às normas dominantes, Segundo os autores, é a busca pela a estabi-
ao mesmo tempo em que transmite aos lidade e do equilíbrio, tendo a instabilidade
homens os conhecimentos técnicos acumu- como elemento fundante.

15
Diferentemente de tempos não muito dis- Os avanços tecnológicos estão sendo utilizados
tantes, hoje os educandos dispõem de mui- praticamente por todos os ramos do conheci-
tos meios de informação. O aluno hoje tem mento. As descobertas são extremamente rápi-
acesso muito mais rápido e fácil às infor- das e estão a nossa disposição com uma velo-
mações do que nós e nossos pais. Para es- cidade nunca antes imaginada. A Internet, os
tabelecer um parâmetro de analise, basta canais de televisão a cabo e aberta, os recursos
lembrar que a televisão brasileira começou de multimídia estão presentes e disponíveis na
no ano de 1950, mais precisamente em 18 sociedade. Estamos sempre a um passo de qual-
de setembro. Foi nesse dia histórico que a quer novidade. Em contrapartida, a realidade
TV Tupi fez sua primeira transmissão. Os mundial faz com que nossos alunos estejam
computadores são mais recentes. Foi em cada vez mais informados, atualizados, e parti-
julho de 1980 que a IBM lançou o primeiro cipantes deste mundo globalizado (1999, p.15).
PC (abreviação em inglês de computador
pessoal). A Internet já existia desde a déca- Entretanto, no limiar deste século, as gran-
da de 1970 para fins militares, migrando a des maiorias dos profissionais da educa-
seguir para grandes universidades. No en- ção ainda não se veem preparados para o
tanto, foi entre 1989 e 1991 que o inglês enfrentamento de metodologias que utili-
Tim Berners-Lee inventou a World Wide zem esses recursos tecnológicos.
Web (WWW) e popularizou a rede. (BUSSA-
CARINI, 2005). Desta forma, muitas explicações têm sido
dadas para justificar esta resistência, no
Torna-se evidente e compreensivo através entanto, tornam-se premente que o pro-
desse paralelo o sentido de resistência ge- fessor propicie aos alunos elementos de
rado pela imtabilidade que acelerado pro- emancipação com a utilização destes apa-
cesso tecnológico ocasiona no meio edu- ratos como ferramentas pedagógicas.
cacional.
A dificuldade escolar está hoje entre os
Desta maneira, os meios de comunicação de problemas mais estudados e discutidos
massa, e em especial a televisão, que penetra do sistema educacional. Porém, às vezes,
nos mais recônditos cantos da geografia, ofe- a busca pelo culpado do fracasso se torna
recem de modo atrativo e ao alcance da maio- mais relevante do que a causa do mesmo.
ria dos cidadãos uma abundante bagagem de Sob a ótica da Psicopedagogia o ser hu-
informações nos mais variados âmbitos da mano é cognitivo, afetivo e social e sua
realidade. Os fragmentos aparentemente sem autonomia é estabelecida à medida que
conexão e assépticos de informação variada, se compromete com o seu social em re-
que a criança recebe por meio dos poderosos e des relacionais. Segundo Bossa (1994), a
atrativos meios de comunicação, vão criando, Psicopedagogia, inicialmente teve como
de modo sutil e imperceptível para ela, inci- pressuposto, que as pessoas que não
pientes, mas arraigadas concepções ideoló- aprendiam tinham um distúrbio qualquer.
gicas, que utiliza para explicar e interpretar
a realidade cotidiana e para tomar decisões Hoje, o que se propõe é investigar e enten-
quanto a seu modo de intervir e reagir (SA- der a aprendizagem com base no diálogo
CRISTÁN; GÓMEZ, 1996, p.25). entre várias disciplinas. Os profissio-
nais que atendiam essas pessoas eram os
médicos, em primeira instância, e em se-
Nesse sentido, é que se torna imprescin- gunda instância, psicólogos e pedagogos
dível a utilização destes meios na escola, que pudessem diagnosticar os déficits. Os
para oportunizar uma reflexão das ideolo- fatores orgânicos eram responsabilizados
gias que servem a cultura dominante, sen- pelas dificuldades de aprendizagem, na
do que as relações sociais, bem como chamada época “patologizante”. A crian-
os meios de comunicação que transmitem ça ficava rotulada, e a escola e o sistema
informações, estão a serviço desta cultura. a que ela pertencia se eximiam de suas
Segundo Kalinke: responsabilidades, jogando o foco do pro-
blema na criança. Concebendo esse rótulo

16
EDUCAÇÃO, COMUNICAÇÃO E MULTIMÍDIA

à criança, passa-se a não perceber em que O caráter informativo da educação também


circunstâncias ela apresenta tais dificulda- se apresenta na utilização do livro didático,
des. quando o aluno é levado a memorizar conte-
A sociedade do êxito educa e doméstica. údos e não a pensá-los. Assim afirma Fernán-
Seus valores e mitos relativos à aprendi- des: “É preciso distinguir aquilo que é pró-
zagem muitas vezes levam muitos ao fra- prio da criança, em termos de dificuldades,
casso. Segundo Fernandes (2001), em nos- daquilo que ela reflete em termos do sistema
so sistema educacional, o conhecimento é em que se insere” (FERNANDES, 2001, p.91).
considerado conteúdo, uma informação a
Assim, considerando as variedades de fatores
ser transmitida. As atividades visam à assi-
milação da realidade, e não possibilitam o que interferem no processo ensino-aprendi-
processo de autoria do pensamento. zagem, e que esta ocorre num vínculo entre
subjetividades, propõe-se compreender tais
Alicia Fernándes define como “autoria”, o fatores na tentativa de amenizar os problemas
processo e o ato de produção de sentidos e enfatizando a utilização dos meios tecnológi-
de reconhecimento de si mesmo como pro- cos como mais uma possibilidade de suporte
tagonista ou participante de tal produção. metodológico.

O uso pedagógico da Internet

A
origem da Internet se deu a partir de A vantagem é que as redes trabalham com
1969 com a Guerra Fria quando os Es- grande volume de armazenamento de da-
tados Unidos solicitou a Advanced dos e transportam grandes quantidades de
Research Projects Agency (ARPA) uma rede informação em qualquer tempo e espaço e
de computadores que pudessem ter seu em diferentes formatos.
funcionamento mesmo com a quebra de co-
nexão. Surgiu então a rede das redes. Os professores estão sendo convocados
Desde 1980, os computadores pessoais e o para entrar neste novo processo de ensi-
desenvolvimento de técnicas computacio- no e aprendizagem, nesta nova cultura
nais como os jogos simulados fazem surgir educacional, onde os meios eletrônicos de
o computador como extensão das capacida- comunicação são a base para o comparti-
des cognitivas humanas que ativam o pen- lhamento de ideias e ideais em projetos
sar, ao criar e o memorizar. Segundo Pretto e colaborativos. A utilização pedagógica da

MÍDIA E EDUCAÇÃO: O USO DAS NOVAS TECNOLOGIASNO ESPAÇO ESCOLAR


Costa Pinto, essas máquinas não estão mais Internet é um desafio que os professores
apenas a serviço do homem, mas interagin- e as escolas estarão enfrentando neste sé-
do com ele, formando um conjunto pleno culo, que pode apresentar uma concepção
de significado. A partir de 1995, a Internet socializadora da informação.
se expandiu com um grandioso poder de A Internet tem cada vez mais atingido o
expressão a nível individual e coletivo am- sistema educacional e as escolas. As redes
pliando em larga escala o número de usuá- são utilizadas no processo pedagógico
rios. para romper as paredes da escola, bem
como para que aluno e professor possam
A Internet é um meio que poderá conduzir- conhecer o mundo, novas realidades, cul-
-nos a uma crescente homogeneização da turas diferentes, desenvolvendo a aprendi-
cultura de forma geral e é, ainda, um canal zagem através do intercâmbio e aprendiza-
de construção do conhecimento a partir da do colaborativo.
transformação das informações pelos alunos
e professores. As redes eletrônicas estão es- Com o rápido crescimento do processo de
tabelecendo novas formas de comunicação e globalização, vários problemas estão afetan-
de interação onde a troca de ideias grupais, do muitos países ao mesmo tempo. Questões
essencialmente interativas, não leva em con- como inflação, meio-ambiente, têm preocupa-
sideração as distâncias físicas e temporais. do diferentes autoridades em todo o mundo. E

17
também, com o assustador crescimento do co- entender e perceber novas e diferentes visões
nhecimento, torna-se impossível para o aluno e
de mundo, ampliando, assim, seu conhecimen-
o professor dominarem tudo. Assim, o trabalhoto. Os estudantes trabalhando como colabora-
em equipe e a Internet oferecem uma das mais dores em projetos dentro ou fora das escolas
excitantes e efetivas formas para capacitar os
podem medir coletar, avaliar, escrever, ler, pu-
estudantes ao processo colaborativo e coope- blicar, simular, comparar, debater, examinar, in-
rativo e, ainda, desenvolver a habilidade de co-
vestigar, organizar, dividir ou relatar os dados
municação. de forma cooperativa com outros estudantes.
Porém, é importante lembrar que os professo-
Aprendizagem colaborativa é muito mais sig- res devem trabalhar com metas comuns e que a
nificativa quando os estudantes podem traba- colaboração em sala de aula é o primeiro passo
lhar com alunos de outras culturas, podendo em direção à cooperação global.

Considerações finais

D
iante das reflexões que permeiam o os mais variados setores da convivência hu-
assunto caracterizado, evidencia-se a mana, o que se propõe é uma escola contex-
urgência em se efetivar a implemen- tualizada, que se situe na dinâmica dos novos
tação das novas tecnologias no bojo da es- processos de ensino e aprendizagem colabo-
cola pública incorporando-as aos recursos rativa, com o uso da Internet como mecanis-
metodológicos que propiciam a aprendiza- mo de desenvolvimento, de criticidade, de
gem. colaboração mútua que transforma as infor-
mações em conhecimentos sistematizados.
Com esse fim, busca-se assegurar que a es-
cola se remeta a sua necessária função no Para que esse intento se concretize, os edu-
mundo do capitalismo que é garantir a cadores precisam coordenar este processo,
apreensão da totalidade de pensamento incorporando as mídias aos encaminhamen-
através do domínio teórico, utilizando-se dos
tos pedagógicos deixando de defender-se da
aparatos tecnológicos como ferramentas de inovação. Com o intuito de colocar o homem
emancipação, proposta pelo surgimento da no centro da história, analisando o impacto
mídia no século XVIII, mas que no século XXque as novas tecnologias vêm causando na
tornou-se um meio de dominação e controle sociedade, e a evidência que a mídia é im-
social. prescindível aos rumos educacionais ofere-
cendo valiosas perspectivas para atingir o
Considerando a importância do fenômeno conhecimento satisfatório, insere esse estu-
comunicacional na sociedade mundial e o do como pretensa contribuição ao desenvol-
acelerado processo tecnológico que abrange vimento da educação.

18
EDUCAÇÃO, COMUNICAÇÃO E MULTIMÍDIA

Para refletir:

1. O que entendemos por mídia e educação e indústria cultural?

2. Qual é a importância que nós professores atribuímos ao uso do computador na


escola?

3. Qual a relação que podemos estabelecer entre indústria cultural e escola?

4. Que influência que a mídia exerce no meio educacional?

5. Qual a sua opinião sobre o acesso indiscriminado a Internet por crianças e


adolescentes sem encaminhamento ou acompanhamento de pais e (ou) professores?

6. Qual o seu ponto de vista sobre a inserção da Internet nos encaminhamentos


pedagógicos?

7. Quais fatores você considera importante para a incorporação da mídia e suas


tecnologias na realização do trabalho didático?

MÍDIA E EDUCAÇÃO: O USO DAS NOVAS TECNOLOGIASNO ESPAÇO ESCOLAR

19
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20
MÍDIA E EDUCAÇÃO: REFLEXÕES, RELATOS
E ATUAÇÕES

Profa. Dra. Jussara Bittencourt de Sá1


Profa. Dra. Heloisa Juncklaus Preis Moraes2

Resumo

N
este estudo propomos reflexões so- a relevância de políticas educacionais que
bre o papel das mídias na educação. justapõem as mídias e a escola. Acredita-
Analisamos como as mídias podem mos na potencialidade das mídias na pro-
atuar, direta ou indiretamente, no contexto pagação do conhecimento, divulgação dos
educacional. Tencionamos problematizar valores do contexto escolar, como também
a contribuição das mídias na integração na interação, sintonia e integração entre
das sociedades; refletir sobre o contexto diferentes tempos, lugares e culturas.
escolar em face da “Sociedade do espetá-
culo”; apresentar exemplos que tematizam Mídia. Educação. Cultura.

Abstract

I
n this study we propose reflections on of educational politics that juxtapose the
MÍDIA E EDUCAÇÃO: REFLEXÕES, RELATOS E ATUAÇÕES

the role of media in education. We analy- media and school. We believe in the poten-
ze how the media can act, directly or tial of media to spread awareness, disse-
indirectly, in the educational context. We minating the values of the school context,
intend to discuss the contribution of the but also in the interaction, harmony and in-
integration of media companies; reflect tegration between different times, places
on the school environment in the face of and cultures.
the “Sociedade do Espetáculo”, presen-
ting examples thematizing the relevance Media. Education. Culture.

1  Doutora em Letras/Literatura, professora do Programa de Pós-Graduação em Ciências da Linguagem e professora e Coordenadora do Curso de
Letras UNISUL.
2  2 Doutora em Comunicação Social, professora do Programa de Pós-Graduação em Ciências da
Linguagem e do Curso de Comunicação Social - UNISUL

21
Mídias e Educação: algumas considerações

T
rabalhar com categorias como Mídia Segundo, que a educação atua em três
e Educação é, paradoxalmente, fácil e espaços: família (espaço privado), a cultura (es-
difícil. Fácil porque faz parte da nossa paço social) e aprendizagens práticas do fazer
vivência enquanto comunicadores que so- (espaço profissional). Sendo assim, observamos
mos inseridos numa cultura e integrantes que nesses três espaços, sem exceção, está pre-
de um sistema educativo como privilegia- sente a comunicação e seus meios (ou mídias).
dos. Como também, por estarmos lendo e Fora esses três, como espaço legítimo do saber,
discutindo estes temas. Entretanto, torna- entra a escola, que fornece a aprendizagem via
-se também difícil devido à complexidade ensino (BRAGA e CALAZANS, 2001). É o lugar das
do tema, justamente pela multiplicidade expectativas sociais. Quando se aposta num fu-
olhares e divergência de opiniões que en- turo promissor, imagina-se a escola como o ca-
volvem o assunto. minho inicial. Observa-se, assim, que a educação
envolve um processo de interação, de troca, que
Assim sendo, provocadas por essa dico- tem por finalidade o aprimoramento, logo deve
tomia que se enseja do referido, pretendemos, ocorrer/acontecer a partir dos processos comu-
neste estudo, problematizar o papel das mídias nicativos.
na educação. Nosso objetivo é analisar como as A relação entre as mídias e a educação
mídias podem atuar, direta ou indiretamente, estabeleceu-se historicamente. Como nos diz
no contexto educacional. Especificamente, a Freitas (2002, p. 31), “a história da Educação, as-
contribuição das mídias na integração das so- sim, funde-se com o mesmo processo no campo
ciedades; refletir sobre o contexto escolar em midiático”.
face da sociedade do espetáculo; apresentar Sobre a palavra comunicação, Martino
exemplos que tematizam a relevância de polí- comenta que
ticas educacionais que justapõem as mídias e a
escola. vem do latim communicatio do qual distingui-
mos três elementos: uma raiz munis, que sig-
Partimos de dois pressupostos, primeiro, de nifica “estar encarregado de” que acrescido ao
que a comunicação, através das mídias, acaba sufixo co, o qual expressa simultaneidade, reu-
sendo a ação propiciadora do vínculo social, nião, temos a ideia de “uma atividade realizada
ou seja, insere o indivíduo na socialidade, in- conjuntamente” completada pela terminação
cluindo-o na conversação social. No entanto, tio que por sua vez reforça a ideia de atividade.
chamamos a atenção para o fato de que não (MARTINO, 2005 p. 12-13)
basta estudar os meios em si, mas como as
pessoas interagem com eles. Os resultados Pode-se afirmar que conceito de edu-
dependerão do tipo de interação, significa- cação encontra eco, entrelaça-se na concep-
ção e apropriação que os receptores farão ção de comunicação e seus meios, pois ambos
dos conteúdos, conforme as múltiplas me- devem acontecer através da interação com
diações possíveis. outrem.

1. A Educação na linha do tempo

H
istoricamente os modelos escolares gização do conhecimento e também a neces-
estiveram pautados em hierarquia, sidade de separar crianças e adultos, o que
exclusão e coerção. Para Foucault, por provocaria novas formas de educação. Esse
exemplo, a escola tem papel no crescimen- processo de pedagogização dos saberes, prin-
to do poder disciplinar. O poder através da cipalmente pela participação jesuíta, implicou
visibilidade (ser visto). É a autorregulação a “natureza moralizada e moralizante”: subor-
ou autodisciplina do estudante. dinação aos mestres detentores do poder, sa-
A educação primitiva estava ligada às beres verdadeiros em consonância com a Igre-
práticas do dia-a-dia, principalmente à reli- ja Católica e a penalização e moralização dos
gião. O Renascimento provoca uma pedago- colegiais (VARELA in SILVA, 1994, p. 88).

22
EDUCAÇÃO, COMUNICAÇÃO E MULTIMÍDIA

“O Iluminismo e a centralidade da ra- 20, por influência norte-americana, surge o


zão dotaram a sociedade de uma forte valora- conceito da Escola Nova. Nos anos 60, têm iní-
ção do aprender como processo de formação/ cio os movimentos de educação popular, Pau-
modificação do indivíduo”. Na modernidade, lo Freire dissemina suas ideias de educação
veio o sentido de formar para a mudança, até para a liberdade, e é criado o Plano Nacional
pela intenção burguesa de ultrapassar a socie- de Alfabetização.
dade aristocrática pela sociedade capitalista. Os anos 70 foram marcados por incen-
A grande linha de tensão da história da edu- tivo ao consumo e ao milagre econômico. “A
cação foi a educação para todos e uma forma- visão da educação é tecnicista e utilitária, de
ção de qualidade para a elite (BRAGA e CALA- preparação do homem para o mercado de tra-
ZANS, 2001, p.47). balho” (Idem, p. 250). O militarismo busca na
No Brasil, os jesuítas foram os respon- educação um fator de desenvolvimento, o Bra-
sáveis pela “civilização dos nativos”. Portugal, sil-potência, por isso, investe no ensino supe-
fiel às instituições medievais, principalmente rior e técnico. Em 1971, é criada a LDBEN – Lei
à Igreja Católica, manteve-se menos adepto de Diretrizes e Bases da Educação Nacional,
a Reforma, Renascimento e Iluminismo, pre- que estabelece o conteúdo comum obrigató-
gando um ensino universalista. Os seminários rio (para uma universalização do ensino) em
passaram a ser instituições de ensino (XAVIER, todo o país. Quatro anos mais tarde, o presi-
RIBEIRO e NORONHA, 1994). dente Geisel municipaliza o ensino primário.
No século XVIII, Marquês de Pombal, Em 1982, o MEC, através da Secretaria
com o que ficou conhecida como a Reforma Especial de Informática, e o CNPq já falavam
Pombalina, expulsou os jesuítas, desmontan- na informatização da Educação. No ano se-
do o sistema de ensino implantado. Vieram as guinte, criou-se o Projeto Educom (Educação
aulas régias. Com a Proclamação da Indepen- por Computador) com algumas experiências
dência, foi instituído o Sistema Nacional de nas escolas de 2º grau, monitoradas por uni-
Instrução Pública, que não era um projeto versidades. Em 1988, começaram as discus-
de educação popular, mas voltado às eli- sões sobre uma nova LDBEN, como alguns
tes. Nesse Sistema, o ensino primário se redu- princípios básicos: gratuidade, laicidade, de-
zia às primeiras letras; o secundário e liceus, mocratização, qualidade e recursos financei-
espaços para a iniciativa, pois agregavam os ros. (XAVIER, RIBEIRO e NORONHA, 1994).
filhos da elite. As escolas normais formavam Atualmente, estão em vigor, desde
professores, e o ensino técnico/profissionali- 1996, a Lei de Diretrizes e Bases e os Parâme-
zante veio como alternativa aos marginaliza- tros Curriculares Nacionais, e a Proposta Cur-
dos (mão-de-obra excedente) (XAVIER, RIBEI- ricular de Santa Catarina, que dispõem sobre
RO e NORONHA, 1994). as políticas de educação no país, no estado e
Também com a Proclamação da Repú- os conteúdos mínimos a serem desenvolvidos
blica, instalou-se um entusiasmo pela educa- nas disciplinas, respectivamente.
ção. O analfabetismo passou a ser visto como A educação sempre esteve a serviço
um dado negativo. Várias reformas foram ins- da sociedade, acompanhando seu desenvol-
tituídas. Pelo contexto da industrialização e vimento histórico e social. Com o passar dos
MÍDIA E EDUCAÇÃO: REFLEXÕES, RELATOS E ATUAÇÕES

da urbanização, a educação escolar torna-se tempos, a escolar foi chamada a formar e


cada vez mais necessária. Entre 1910 e 1960, socializar os estudantes para uma sociedade
houve o crescimento da organização escolar midiatizada, uma vez que já chegam até ela
em seus três graus. Especificamente nos anos assim.

2. As Mídias: na linha do tempo

N
o âmbito dessas reflexões, pontuamos tam- nologia moderna de massa. A partir de Gutemberg,
bém alguns momentos na história da comu- o modo de comunicação iria promover mudanças
nicação e suas mídias. e até transformações na vida de muitas as pes-
Nesta perspectiva, convém destacar que a soas. Essa invenção possibilitou o surgimento de
impressora tipográfica de Gutemberg - inventada jornais e de livros impressos, muito mais baratos
no século XV, pode ser considerada a primeira tec- do que os pergaminhos e os livros manuscritos.

23
O livro proporcionaria a educação sua entrada na Todas as inovações despertaram o inte-
modernidade, pois seria o primeiro recurso, ou a resse pela sua exploração comercial. Com a pro-
tecnologia de ensino a distância. Os conhecimen- liferação das mídias e a competição econômica
tos poderiam ser partilhados de maneira irrestrita, entre as mesmas, surgem as críticas à “Indústria
em diferentes lugares e a qualquer momento. Cultural pela mercantilização da informação e
Benjamim Franklin, em 1753, com a eletri- da cultura promovida pela mídia” (SANTAELLA,
cidade, deu início às duas grandes descobertas: o 2003, p. 36).
telégrafo e o telefone. Já em 1894, o britânico Oli- Por isso, Thompson (2002, p. 73-77) fala
ver Lodge demonstra a possibilidade de transmitir que, no final do século XIX, havia três tendên-
e receber ondas eletromagnéticas possibilitando cias, em se tratando de comunicação: a transfor-
o surgimento da radiotelegrafia. Tempos depois, mação das instituições da mídia em interesses
viria o rádio. De acordo com Ferraretto, “Sarnoff comerciais de grande escala; a globalização da
inventou o conceito do meio de comunicação rá- comunicação; e o desenvolvimento das formas
dio, Conrad lançou as bases da emissora comer- de comunicação eletronicamente mediadas.
cial. Caberia, nessa linha de raciocínio, a Gugliel- De acordo com Johnson (2001, p. 9), “a
mo Marconi o pioneirismo em termos de indústria explosão de tipos de meios de comunicação no
eletroeletrônica. (FERRARETTO, 2001,p. 89). O rá- século XX nos permite, pela primeira vez, apre-
dio ganharia popularidade e transformaria em um ender a relação entre a forma e o conteúdo, en-
importante meio de comunicação. Na sequência, tre o meio e a mensagem, entre a engenharia e
o tubo iconoscópio de Vladimir Zworkin, em 1923, a arte”. Essa explosão e a velocidade das mu-
possibilitaria o surgimento da televisão eletrôni- danças é que permitem percebermos como os
ca, que teve sua grande difusão depois da Segun- meios de comunicação moldam nossos hábitos
da Guerra Mundial. Também foi na Segunda Guer- de pensamento.
ra Mundial, que a Marinha América juntamente Pensando na transição entre a comuni-
com a Universidade de Harvard desenvolveriam o cação de massa e as tecnologias surgidas nos
Havard Mark I, precursor dos atuais computadores. últimos anos, Santaella (2003) propõe a ex-
Com a chegada dos rádios e sua massifi- pressão cultura das mídias. Se aquela é corres-
cação, surge o termo Comunicação de Massa, já pondente a “meios de produção que estão sob
que seus produtos passam a estar disponíveis, em poder político de uma minoria economicamente
princípio, a uma “grande pluralidade de destina- privilegiada, sendo suas mensagens produzidas
tários” (THOMPSON, 2002, p. 30). A comunicação por poucos para serem recebidas por uma massa
de massa veio modificar os intercâmbios e as in- de consumidores que não participa da escolha
terações simbólicas. Apesar de os indivíduos ne- das mensagens que lhes são dirigidas”, a nova
cessariamente não receberem as mensagens de expressão faz pensar a convivência dos meios
maneira acrítica, o fluxo é de mão única. Thomp- existentes com outras mídias que não de massa.
son (2002, p. 31) esclarece este processo: Isso indicaria, “em primeiro lugar, que elas (no-
vas mídias) proliferam através do reaproveita-
As mensagens são produzidas por um grupo de mento das mídias já existentes” (p. 49).
indivíduos e transmitidas para outros situados em O desenvolvimento e o aprimoramen-
circunstâncias espaciais e temporais muito diferen- to das mídias disseminaram o processo comu-
tes das encontradas no contexto original de produ- nicativo e a conexão entre os povos. As mídias
ção. Por isso os receptores das mensagens da mídia obtêm participação efetiva na educação. Sua
não são parceiros de um processo de intercâmbio penetrabilidade no processo educativo torna-
comunicativo recíproco, mas participantes de uma -se, pois, um acontecimento marcante e irre-
processo estruturado de transmissão simbólica. versível.

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EDUCAÇÃO, COMUNICAÇÃO E MULTIMÍDIA

3. Mídia e Educação: a interação e a relevância de


políticas pedagógicas

A
s considerações apresentadas procu- horário entre 10h e 11h30min, normalmente
raram mostrar a relação entre a mídia na quarta ou quinta-feira, dentro do programa
e a educação. Neste contexto, desta- Revista Maristela. As Unidades Escolares prepa-
camos que, se por um lado “(...) a atração ravam previamente os alunos e a comunidade
dos processos midiáticos” atua de maneira para participar com depoimentos sobre a escola,
contundente em nossa “sociedade mediati- história da comunidade e da Rádio Maristela. As
zada”, conforme apontam Braga e Calazans participações contemplavam trabalhos dos alu-
(2001), por outro lado, faz-se relevante à nos, músicas, teatros e declamação de poemas.
educação apropriar- se de forma crítica e Além disso, as escolas aproveitaram a oportuni-
criativa das mídias (e ou das tecnologias dade para realizar exposições com cartazes so-
midiáticas), de modo a torná-las em multi- bre o tema. A outra etapa do Projeto, desenvol-
plicadores e circuladores dos saberes. vida no segundo semestre de 2008 e primeiro
Salientamos que as convergências e de 2009, procurou promover a integração dos
possibilidades entre os campos da Comuni- alunos das Unidades Escolares à história da Rá-
cação e Educação são variadas. A primeira é a dio Maristela. Elaborou-se um questionário que
reciprocidade, pois as duas áreas podem apro- foi aplicado com os alunos. Este era composto
veitar a construção interior de cada uma. Vemos, por dez (10) perguntas que abordavam a histó-
com frequência, os dois campos em interação, ria da rádio, os apresentadores que mais marca-
ainda mais que a comunicação estimula o pro- ram a história, os programas mais ouvidos, a atu-
cesso simbólico das atividades da sociedade. A al programação, sugestões de novos programas
interface mais comum é a utilização dos meios e a importância da rádio para a comunidade.
de comunicação no processo formal de ensino. Procuramos incentivar, através da Secretaria de
Quanto mais houver essa aproximação, mais Educação, às Unidades Escolares a encaminhar
cada campo desenvolve a competência de inte- as respostas e os materiais fornecidos pelos alu-
ragir com o outro. nos à Rádio Maristela. Ficou também de respon-
Com intuito exemplificar como podem sabilidade das Unidades Escolares a escolha das
ocorrer as convergências, a reciprocidade, a in- repostas e os alunos que atuariam na programa-
teração, apresentamos algumas informações ção da Rádio. Cabe destacar que, além das res-
sobre: postas do questionário, os alunos apresentaram
o Projeto a Rádio na Escola, desenvol- músicas, poesias, jograis e outros.
vido durante pesquisa do mestrando Leonir a) Um outro projeto foi a pesquisa que
Alves,orientado pela Profa. Dra. Jussara Bitten- resultou em tese de doutorado da Profª He-
court de Sá no PPGCL. loisa Juncklaus P. Moraes intitulada “A des-
O “Projeto A Rádio na Escola” contou coberta e a vivência do virtual por crianças
com a participação da Rádio Maristela de Torres. de baixa renda: a esperança da comunica-
O objetivo foi, a partir de uma perspectiva in- ção”.
terdisciplinar e transdisciplinar, criar propostas O referido estudo analisou a significa-
MÍDIA E EDUCAÇÃO: REFLEXÕES, RELATOS E ATUAÇÕES

para inserções da comunidade escolar na Rádio ção e a apropriação de conteúdos virtuais por
Maristela e vice-versa. Procurou-se ainda, com crianças de baixa renda. Teoricamente, abor-
o decorrer das atividades, resgatar a trajetória dou as noções de Pós-modernidade, Proxemia,
dessa emissora. A metodologia abrangeu ativi- Barroco e Mundo Imaginal, de Michel Maffesoli;
dades que envolveram contribuições culturais, Educação, de Edgar Morin, e Inteligência Coleti-
artísticas, informativas, conhecimentos gerais, va, de Pierre Lévy. A pesquisa pretendia saber
curiosidades, enfim, apresentações que mos- como se dava a relação da criança com a Inter-
traram e divulgaram os valores da Educação. net, a busca por conteúdos, sua significação e os
Secretaria Municipal de Educação, através das usos que faz dos mesmos, tanto na escola como
equipes diretivas das escolas e dos professores, na cotidianeidade familiar. Pelo método da So-
também apoiaram o “Projeto Rádio na Escola” ciologia Compreensiva, optou-se por um estudo
que conseguiu atingir com o cerca de quatorze de caso do Projeto de Inclusão Digital ofereci-
(14) Unidades Escolares. A Rádio Maristela fez- do pela Universidade do Sul de Santa Catarina a
-se presente na escola, uma vez por semana, no crianças de baixa renda.

25
Como técnica de pesquisa, estabeleceu- Conforme percebemos nesses exem-
-se a observação participante das aulas do proje- plos, a comunicação, nesses termos, pode
to, entrevistas com pais, diretores e professores funcionar como mediadora do vínculo social:
das escolas que frequentavam. O corpus foram a relação entre o eu e o outro. Está pondo em
10 crianças. Da descoberta à vivência do virtual, disponibilidade um meio para a troca, para a
as crianças mostraram-se encantadas, compar- discussão de algo em comum, uma conversação
tilhando informações, complementando as pes- social. Há, porém, uma estreita ligação entre o
quisas do ensino formal e, ainda, divertindo-se. mundo imaginário e o mundo real. É, sem dúvi-
Apropriam-se dos conhecimentos em diferentes da, um lugar de trânsito. A mídia, como modus
momentos (da escola ao ambiente familiar). Os operandi da Sociedade do Espetáculo (DEBORD,
pais reconheciam a significação e a apropriação, 1997), estabelecendo habitus sociais (BOR-
mas veem o projeto com um olhar profissionali- DIEU, 1982), estimulando o Imaginário Coletivo
zante e não educativo no seu sentido amplo. As (SILVA, 2003), e estabelecida como autoridade
escolas públicas analisadas não estavam prepa- discursiva da realidade representada (BUCCI e
radas para incluir o virtual nos currículos, seja por KEHL, 2004; JAGUARIBE, 2007) é formadora. E é
motivos estruturais ou de reflexão pedagógica por isso que se faz necessário o diálogo com a
disseminada, apesar de reconhecerem as mu- Educação.
danças positivas nos alunos que já têm esse aces- Esses projetos, assim como outros, res-
so. Os amigos compartilhavam e reconheciam a saltam que, na medida em que houver um en-
competência com o virtual. Diante da realidade gajamento da Educação para a formação de re-
difícil, a comunicação, através de seus dispositi- ceptores midiáticos mais críticos e reflexivos, os
vos tecnológicos, configurava-se como uma es- campos se complementam.
perança. Esperança de transformação e inclusão.

4. Outras considerações

O
indivíduo busca as informações conforme Morin, em suas obras, defende a complexi-
sua necessidade e carrega em si o potencial dade do pensamento. Não poderia, portanto, deixar
para ser formador de opinião. Os meios de de falar na questão do ensino e, mais do que isso, da
comunicação de massa fornecem material para educação. Defende (2000, p. 11) a necessidade de
a formação de opinião e para o posicionamento um ensino educativo, cuja missão é “transmitir não
diante dos fatos. E essa mídia, aliada às novas téc- o mero saber, mas uma cultura que permita compre-
nicas, facilita a participação e a interação entre as ender nossa condição e nos ajuda a viver, e que fa-
audiências. voreça, ao mesmo tempo, um modo de pensar aber-
Do mesmo modo, a comunicação pode to e livre”. Além disso, argumenta que “a educação
convergir para a educação no momento em pode ajudar a nos tornarmos melhores, se não mais
que possibilita essa estrutura aglutinadora felizes, e nos ensinar a assumir a parte mais prosaica
de saberes que é o ciberespaço. São comple- e viver a parte poética de nossas vidas”.
mentos sadios. Se bem utilizadas, as com- A questão nos dias de hoje, e justamente
petências educativas dos dois campos for- por causa da grande quantidade de outras formas
talecem o imaginário, o simbólico. E, quiçá, de buscar a informação, é que a escola não constitui
isso reflita um maior interesse e motivação o único espaço de aprendizagem. Há outros meios,
para a aprendizagem, pois, hoje, aprender mesmo que não formais, de se adquirir conheci-
mentos. Como fica, então, a escola? Como proce-
é também fazer experiência de ambientes que per- der? Morin (apud FORESTI, 2001, p. 26) dá uma dica:
mitem apropriá-los de diversas [outras] maneiras...
Trata-se portanto de uma aprendizagem que tem o conhecimento progride, principalmente, não
muito de disposição geral (na medida do acesso, por por sofisticação na formalização e na abstra-
muitos, a um mesmo material simbólico) e muito de ção, mas através da capacidade em contex-
experiência singular, vivida (na especificidade das tualizar e em globalizar. Essa capacidade ne-
interações e das interpretações ativadas pelos usu- cessita de uma cultura geral e diversificada, e,
ários) (BRAGA e CALAZANS, 2001, p. 62). estimulada por essa cultura, o pleno emprego
da inteligência geral, isto é, o espírito vivo.

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EDUCAÇÃO, COMUNICAÇÃO E MULTIMÍDIA

Nesse mesmo pensamento, Lévy lução tecnológica introduz em nossas socie-


(1993) analisa as novas tecnologias – téc- dades não é tanto uma quantidade inusita-
nicas – como uma possibilidade de poten- da de novas máquinas, e sim um novo modo
cializar a prática do conhecimento, forman- de relação entre os processos simbólicos –
do uma Inteligência Coletiva. Essas técnicas que constituem o cultural – e as formas de
trazem novas maneiras de conhecer o mun- produção e distribuição de bens e serviços
do, representar e transmitir o conheci- (MARTÍN-BARBERO, 2002, p. 81).
mento, através da linguagem. Todo esse Em contraposto com o próprio pen-
conhecimento fica latente, à espera de ser samento, o sistema escolar (desde a concep-
acessado, capturado, utilizado e reutiliza- ção do livro) foi formatado linearmente, só
do. A formação dessa nova geração passa, que, agora, deve conviver com o saber sem
de forma natural, pelo mundo imaginal. As lugar próprio, único. E, mais do que isso, a
imagens trazem o mito pronto, resumido, disputa dos discursos com as imagens.
sem a necessidade da narrativa. E a suces- Concluindo, salientamos que uma
são de novas imagens é uma imposição do pessoa estrutura e distribui aquilo que ab-
próprio espetáculo. sorve por meio das mídias está diretamen-
Os latino-americanos Jesús Martín- te ligada ao lugar social de origem. Logo,
-Barbero (2002) e Jorge A. Gonzales (1999) o distanciamento das mídias, (como das
discutem a interface entre Comunicação e novas tecnologias) pode também provocar
Educação, cruzando o terreno da Cultura, à certa distância social simbolicamente cons-
luz das novas tecnologias. O primeiro enfa- truída e percebida. Neste sentido, a possibi-
tiza que, mais do que instrumental, a comu- lidade dos saberes construídos através do
nicação na educação passa a ser estrutural, processo educativo em consonância com os
uma vez que remete a novos modos de per- saberes da comunicação, suas mídias, con-
cepção e de linguagem. Há uma nova sen- tribuirão na aquisição do conhecimento,
sibilidade. A tecnologia desloca, segundo o aprimoramento da sensibilidade, para a for-
autor (2002, p. 80), as condições do saber. mação de cidadãos conscientes do exercí-
O que a trama comunicativa da revo- cio pleno de sua cidadania.

MÍDIA E EDUCAÇÃO: REFLEXÕES, RELATOS E ATUAÇÕES

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