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REITORA

Berenice Quinzani Jordão

VICE REITOR

Ludoviko Carnasciali dos Santos

REALIZAÇÃO

LUTAS Londrina – Projeto integrado de extensão,

pesquisa e ensino nº 2053

PROEX/UEL

Departamento de Direito Público

Centro de Estudos Sociais Aplicados – CESA

UEL – Universidade Estadual de Londrina

COORDENAÇÃO

Érika Juliana Dmitruk

COMISSÃO CIENTÍFICA

César Bessa

Deíse Camargo Maito

Eliana Cristina dos Santos

Érika Juliana Dmitruk

Fabio Henrique Araújo Martins

Guilherme Cavicchioli Uchimura

Manoel Dourado Bastos

Ricardo Prestes Pazello

COMISSÃO ORGANIZADORA

Ana Clara Torrichelle Martins

Ana Flávia Couto Vilela de Andrade

Ana Teresa Corzanego Khatounian

Eliana Cristina dos Santos

Gabriel Vinícius da Silva

Guilherme Cavicchioli Uchimura

Julia Vieira

Manuela Geraldo Gimenez

Marilia Coletti Scarafiz

Murilo Cruz Pajolla

Renato Rack de Almeida

Rodolfo Carvalho Neves dos Santos

Victória Quaglia Morato

Catalogação Elaborada pela Divisão de Processos Técnicos da Biblioteca Central da Universidade Estadual de Londrina Dados Internacionais de Catalogação-na-Publicação (CIP)

C749 Congresso Direito Vivo (2. : 2017 : Londrina, PR). Anais do II Congresso Direito
C749
Congresso Direito Vivo (2. : 2017 : Londrina, PR).
Anais do II Congresso Direito Vivo [livro eletrônico] /
Coordenadora: Érika Juliana Dmitruk; organizadores: Ana Clara
Torrichelle Martins
1 Livro digital.
[et al.] – Londrina : UEL, 2017
Vários autores.
Disponível em:
lutas-londrina.blogspot.com/?m=1
ISBN 978-85-7846-532-2
Bibliotecária: Ivana de Fátima Peres de Oliveira – CRB- 9/1018

PROGRAMAÇÃO II CONGRESSO DIREITO VIVO

03/05/2017

Direito em tempos de barbárie. Coordenadora: Erika Juliana Dmitruk

Manhã

CONFERÊNCIA DE ABERTURA Conferencista: Marildo Menegat

Justiça de transição e o direito à memória, verdade e justiça no Brasil. Coordenador: Fabio Henrique Araújo Martins.

Militarização do cotidiano, grande encarceramento e o combate à pobreza em tempos de barbárie.

Retrocesso social e resistência. Coordenador: Cesar Bessa.

Tarde

Direito e Gênero Coordenadora: Deíse Camargo Maíto.

OFICINA:

Memória, comunicação e expressão: a produção áudio-visual como ferramenta de luta. Coordenador: Renato Rack

Assessoria jurídica popular, educação jurídica e educação popular. Coordenadores: Ricardo Prestes Pazello e Guilherme Cavicchioli Uchimura.

RODA DE CONVERSA: A face repressora do

Noite

Noite

Estado tem limite? Articuladores: Marildo Menegat e Ricardo

RODA DE CONVERSA:

Prestes Pazello.

A Advocacia e o Direito como formas de resistência – conversas sobre a prática com advogados populares e defensores públicos

CONFERÊNCIA:

que assumem a linha de frente jurídica pela garantia de direitos. Grande Roda de

Conferencista: Ricardo Prestes Pazello

Conversa coordenada por advogados

É

possível um Direito Vivo no capitalismo?

populares e defensores públicos, debatendo

04/05/2017

estratégias jurídicas e o que fazer do Direito, suas dificuldades e horizontes.

 

Manhã

05/05/2017

CONFERÊNCIA

Manhã

Conferencista: Marildo Menegat

OFICINA:

A Organização do Sujeito Coletivo em tempos

de barbárie.

Teatro do Oprimido e Direitos Humanos Coordenador: Fabio Henrique Araújo Martins.

RODA DE CONVERSA:

Tarde

O

que é barbárie?

Articuladores: Marildo Menegat, Ricardo

Tarde

OFICINA:

Prestes Pazello, Marco A. Rossi.

Microcrédito, negócios sociais e empreendedorismo social em áreas de vulnerabilidade social urbanas. Coordenador: Ítalo Ferreira da Conceição.

GRUPOS DE TRABALHO Juventudes e direito: expressões de resistência e (re)conhecimento. Coordenadora: Eliana Cristina dos Santos

Democratização e socialização dos meios de comunicação: a mídia, entre a regulação e as lutas sociais. Coordenador: Manoel Dourado Bastos

Noite

APRESENTAÇÃO DO PRODUTO DAS OFICINAS E ENCERRAMENTO

APOIO

APOIO

SUMÁRIO

GRUPO DE TRABALHO 1

 

10

JUVENTUDES

E

DIREITO:

EXPRESSÕES

DE

RESISTÊNCIA

E

(RE)CONHECIMENTO

 

10

AS OCUPAÇÕES DAS ESCOLAS PÚBLICAS DE LONDRINA PELOS ALUNOS SECUNDARISTAS: UMA RELAÇÃO ENTRE DIREITO, DEMOCRACIA E PODER 11

ESTADO VERSUS ALUNOS: OS “VALORES” EM CONFLITO NAS “OCUPAÇÕES”

DE

ESCOLAS PÚBLICAS POR ESTUDANTES

 

22

O

DIREITO

DE

PARTICIPAÇÃO

DOS

ESTUDANTES

NA

UNIVERSIDADE:

ANÁLISE DA LEI ESTADUAL PARANAENSE N. 14.808/2005 E DA ADI 3757

31

O MOVIMENTO AMBIENTALISTA NO CONTEXTO DOS NOVOS MOVIMENTOS

SOCIAIS

46

OCUPAR

E RESISTIR (Canção)

58

OCUPAR

OU RESISTIR?

59

RELATO DE EXPERIENCIA DA OKUPAÇÃO DO MARL (Movimento dos Artistas de

Rua de Londrina)

60

SLAM RESISTÊNCIA: A POESIA COMO ARTE DE RESISTÊNCIA

65

GRUPO DE TRABALHO 2

79

DEMOCRATIZAÇÃO E SOCIALIZAÇÃO DOS MEIOS DE COMUNICAÇÃO: A

MÍDIA, ENTRE A REGULAÇÃO E AS LUTAS SOCIAIS

79

A ESPETACULARIZAÇÃO DO MOVIMENTO BRASIL LIVRE: UMA ANÁLISE

80

COMPARATIVA COM A SOCIEDADE DO ESPETÁCULO DE

AGITAÇÃO E PROPAGANDA EM LENIN: O JORNAL POLÍTICO COMO ARMA

REVOLUCIONÁRIA

89

FOTOGRAFIA POLÍTICO-DOCUMENTAL COMO PRÁTICA COMPLEMENTAR À ADVOCACIA EM DIREITOS HUMANOS NA OCUPAÇÃO URBANA MORRO DOS

CARRAPATOS

102

MÍDIA NINJA: EXPERIÊNCIA, ATIVISMO E CASOS ENVOLVENDO O AMBIENTE

JURÍDICO

107

O DETERMINISMO TECNOLÓGICO NO SÉCULO XXI: REGULAMENTAÇÃO E

110

SOCIALIZAÇÃO DAS REDES SOCIAIS

O PAPEL SOCIAL E A INFLUÊNCIA DA MÍDIA NA CONDENAÇÃO DE ACUSADOS

NO DIREITO PENAL BRASILEIRO

127

GRUPO DE TRABALHO 3

146

DIREITO EM TEMPOS DE BARBÁRIE

146

A APLICAÇÃO DA LEGISLAÇÃO ANTITERRORISTA E A CRIMINALIZAÇÃO DE

MOVIMENTOS SOCIAIS LATINO-AMERICANOS PÓS 11 DE SETEMBRO

147

NIETZSCHE: JUSFILOSOFIA DA VIOLÊNCIA

166

A IMPORTÂNCIA DA TEORIA CRÍTICA DOS DIREITOS HUMANOS EM HERRERA

FLORES

181

NEM CENTRO, NEM CÍVICO: NARRATIVA VIVA E POPULAR DA COMUNIDADE

195

ESTUDANTIL SOBRE A SEMANA DO DIA 29 DE ABRIL

COMPLEXO INDUSTRIAL-PRISIONAL E ENCARCERAMENTO EM MASSA: A

RESISTÊNCIA DOS TRABALHADORES À ONDA PUNITIVA

215

CRÍTICA AO PROJETO DE EXTERMÍNIO DOS POVOS INDÍGENAS: UMA

ANÁLISE DAS CHARGES DE CARLOS LATUFF SOBRE A PEC 215

238

GRUPO DE TRABALHO 4

240

JUSTIÇA DE TRANSIÇÃO E O DIREITO À MEMÓRIA, VERDADE E JUSTIÇA NO

BRASIL

240

COMUNICAÇÃO NÃO VIOLENTA APLICADA AO DIREITO

241

APONTAMENTOS SOBRE A JUSTIÇA DE TRANSIÇÃO E O DIREITO À

MEMÓRIA, VERDADE E JUSTIÇA NO BRASIL

242

O RESPEITO AOS DIREITOS HUMANOS E A TOLERÂNCIA RAZOÁVEL ENTRE

POVOS EM UMA ORDEM MUNDIAL PACÍFICA EM RAWLS

260

GRUPO DE TRABALHO 5

262

RETROCESSO SOCIAL

E RESISTÊNCIA

262

ENSAIO SOBRE A TENDÊNCIA À EXTRAÇÃO DE MAIS-VALIA ABSOLUTA NAS

RELAÇÕES DE TRABALHO CONTEMPORÂNEAS

263

TERCEIRIZAÇÃO E REFORMA DA LEGISLAÇÃO TRABALHISTA

 

277

TERCEIRIZAÇÃO

E

REFORMA

TRABALHISTA:

REFLEXOS

NA

REPRESENTAÇÃO SINDICAL

 

286

NEGOCIADO SOBRE LEGISLADO: FORMA JURÍDICA E DIREITO VIVO NAS

304

RELAÇÕES DE TRABALHO

POSITIVAÇÃO DOS DIREITOS SOCIAIS E TRABALHISTAS COMO FATOR DE

CONSOLIDAÇÃO DA DEMOCRACIA: UMA ANÁLISE HISTÓRICA E CRÍTICA DA

LUTA POR DIREITOS

317

GRUPO DE TRABALHO 6

333

DIREITO E GÊNERO

333

LIMITES E POSSIBILIDADES DA UTILIZAÇÃO DO PODER DISCIPLINAR DE UNIVERSIDADES PÚBLICAS BRASILEIRAS NA RESPOSTA À VIOLÊNCIA DE

334

GÊNERO OCORRIDA EM SEUS ÂMBITOS

PATOLOGIA OU IDENTIDADE: ANÁLISE SOBRE A COMPREENSÃO DO DIREITO

349

ACERCA DA TRANSEXUALIDADE

RAÇA, RACISMO E A NEGAÇAO DE DIREITOS ÀS MULHERES NEGRAS E

PERIFÉRICAS

 

361

VIOLÊNCIA

VIRTUAL

CONTRA

ADOLESCENTES:

ATÉ AONDE

ISSO PODE

CHEGAR?

370

DIREITOS FUNDAMENTAIS E MULHERES: UM OLHAR NA PERSPECTIVA DE

ISABEL ALLENDE

 

382

GRUPO DE TRABALHO 7

394

ASSESSORIA

JURÍDICA

POPULAR,

EDUCAÇÃO

JURÍDICA

E

EDUCAÇÃO

POPULAR

394

O PROJETO DE UMA EDUCAÇÃO EMANCIPATÓRIA POR MEIO DAS ASSESSORIAS JURÍDICAS UNIVERSITÁRIAS POPULARES: uma análise a partir da práxis do Núcleo de Assessoria Jurídica Alternativa no curso de Direito da UESB

395

EMANCIPAÇÃO HUMANA E ORGANIZAÇÃO POPULAR COMO INSTRUMENTOS

DE BUSCA POR DIREITOS FUNDAMENTAIS

413

OCUPAÇÃO JARDIM BELA VISTA: A CONSTRUÇÃO POPULAR E A EXTENSÃO

UNIVERSITÁRIA

414

EU, MORADOR DA OCUPAÇÃO JARDIM BELA VISTA

427

UM OLHAR NO JARDIM BELA VISTA

431

APRESENTAÇÃO

O II Congresso Direito Vivo, com objetivo de propor a integração entre as

diferentes áreas e formas de conhecimento, inaugura espaço de comunicação oral de trabalho e outras formas de registro de experiência e conhecimento para debate em Grupos de Trabalho. Com intuito de possibilitar a interdisciplinaridade e a expansão de metodologias, oferecendo também à comunidade externa ambiente de identidade com a própria universidade, os grupos de trabalho seguirão a proposta de construir um evento científico acessível, plural, com inclusão social pautado na ampla participação. Deste modo, como inovação, abre-se oportunidade para submissão e apresentação de trabalhos não apenas na forma de resumos e artigos científicos escritos, mas, também, poderão ser submetidos relatos de experiência, poesia,

música, registro audiovisual, fotográficos, e outras formas de expressões científico- cultural-popular que pretendam investigar, discutir e provocar a formação e participação jurídica frente à atual conjuntura política e social vivenciada.

O II CONGRESSO DIREITO VIVO emerge no horizonte da atual conjuntura

política, social e jurídica – esta, em seu recorte específico e limitado - propondo-se a questionar o mesmo Direito “morto” (vivo?) de outrora com uma nova perspectiva.

A temática do evento possui dois eixos centrais como problemática: (i)

“Barbárie e Direito”, pretendendo-se analisar se o direito legitima ou não os processos de barbárie em nossa sociedade e, (ii) “Reforma ou revolução”, fomentando o debate sobre a necessidade de transformação do atual cenário com questionamentos acerca de quão profunda deve ser (e se deve haver) tal mudança e qual o sentido ela deve tomar.

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GRUPO DE TRABALHO 1

JUVENTUDES E DIREITO: EXPRESSÕES DE RESISTÊNCIA E (RE)CONHECIMENTO

Ementa: Políticas Sociais para adolescência e juventude; Arte, esporte e cultura como elementos de resistência; Redução da Maioridade Penal; Repressão x Direitos humanos; Violência criminalização da juventude; Espaços de luta e participação (ocupações de escolas, grêmios estudantis, movimento estudantil, conselhos deliberativos, movimentos culturais, artísticos, esportivos e sociais).

Coordenadora: Eliana Cristina dos Santos (elianacristinasantos@outlook.com).

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AS OCUPAÇÕES DAS ESCOLAS PÚBLICAS DE LONDRINA PELOS ALUNOS SECUNDARISTAS: UMA RELAÇÃO ENTRE DIREITO, DEMOCRACIA E PODER

Luana Angelica Merlis Pereira 1

Resumo: O presente trabalho tem por objetivo propor um olhar sobre as ocupações das escolas públicas de Londrina/PR pelos alunos secundaristas, que ocorreram no ano de 2016, que as veja como expressão do Movimento Estudantil, na busca da concretização da democracia e dos valores e direitos fundamentais consolidados na Carta Constitucional Brasileira de 1988, em consonância com o Estado Democrático de Direito e com a democracia participativa. Palavras-chave: Democracia; Direito; Poder.

Abstract: The present work has the purpose of proposing a look at the occupations of the public schools of Londrina/PR by the secondary students, which occurred in the year of 2016, that sees them as expression of the Student Movement, in the search of the concretization of the democracy and of the values and the Fundamental rights consolidated in the Brazilian Constitutional Charter of 1988, in consonance with the Democratic State of Law and with participatory democracy. Keywords: Democracy; Law; Power.

Introdução

Ao final de 2016, mais precisamente em outubro, as escolas públicas de Londrina/PR viveram dias agitados. Eram os alunos secundaristas destas escolas que, aderindo a um movimento que já se alastrara pelo Estado do Paraná, ocuparam seus colégios, reivindicando participação nos processos decisórios da política, anseio que pode ser traduzido, sobretudo, como reação à conjuntura política do país, e como forma de se contrapor às propostas legislativas então apresentadas pelo governo federal, que seriam a Proposta de Emenda Constitucional n° 241/2016,

1 Luana Angelica Merlis Pereira, Universidade Estadual de Londrina, luanamerlis@hotmail.com, graduanda do 5º ano do Curso de Direito.

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de limitação dos gastos públicos, e a Medida Provisória n° 746/2016, que propunha uma reforma nas estruturas do Ensino Médio. Estas propostas legislativas causaram um furor social que ultrapassou bem mais do que os portões das escolas. Por todo o país, movimentações sociais agitaram o noticiário, servidores públicos se mostravam preocupados com seus direitos adquiridos, universidades públicas entraram em greve, a saber a própria Universidade Estadual de Londrina, após a realização de Assembleias entre as classes dos Servidores e Docentes, as categorias optaram pela paralisação como forma encontrada de tentar, de algum modo, fazer com que o poder público voltasse seus olhos para a população. A instabilidade política, as notícias de corrupção, de rombos orçamentários, foram fatores que auxiliaram a criação de um cenário de insegurança, e a falta de confiança naqueles que estão a cargo de dirigir um Estado, é desestabilizadora. Neste ínterim, mais do que fechar escolas, os alunos secundaristas se organizaram. Fecharam os portões para o desrespeito para com suas vontades e opiniões, e os abriram para uma nova lição sobre Democracia e participação. Realizaram Assembleias entre os alunos, promoveram aulas, oficinas, debates, aprenderam a dividir tarefas, a respeitar opiniões, matérias que dificilmente se encontram na grade curricular das escolas. Procuro iniciar o tema tratando de Democracia, assunto em voga diante de tantas manifestações populares. Isso porque, quando inseridos em um sistema normativo que, conforme dispõe o Artigo 1º da Constituição Federal de 1988, é Democrático de Direito, a Democracia deixa de ser mera contabilidade, não se trata apenas de atender aos anseios da maioria, mas de garantir os direitos também da minoria, para que, em paridade de condições, possam vir a se tornar maioria. Esta ideia vai de encontro com a ascensão dos Direitos Fundamentais, consolidados na Carta Constitucional de 1988 e, neste contexto, as ocupações poderiam ser entendidas como forma de denúncia em relação à democracia tal qual vem sendo exercida, à falta de expressão pública, à crise da representação nas estruturas de poder, e como desrespeito aos direitos fundamentais, fatores que, por si, atentam contra o Estado que busca ser Democrático de Direito. Para melhor delinearmos o assunto, se faz necessário um breve histórico de como se deram as ocupações, quem foram seus atores, quais foram seus frutos, para, posteriormente, relacioná-las à Democracia, ao Direito e ao Poder.

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1 Breve Histórico sobre as Ocupações das Escolas Públicas em Londrina/PR

Os protagonistas das ocupações das escolas públicas em Londrina foram os alunos secundaristas, motivo pelo qual, pelo fato de ter sido um movimento engrenado por estudantes, entendemos neste trabalho que as ocupações foram uma expressão do Movimento Estudantil, que se apresenta ao longo da história do Brasil em momentos conjunturais. Sobre este assunto, o Movimento Estudantil – ME, se relaciona com a participação política dos estudantes. Como demonstrado por autores como Antônio Mendes Junior (1981) que tratam da transitoriedade dos atores do movimento – a condição de estudante em regra não é permanente, mas sim temporária – o que poderia levar à ideia de incapacidade de que este movimento cause, de fato, alguma transformação, desde seus primórdios, possível observar a preocupação do ME com questões políticas. Por vezes, essa preocupação proporcionou mudanças políticas significativas, como quando os estudantes se fizeram presentes na campanha pelas “Diretas Já”, e no movimento dos caras pintadas. É inegável a participação estudantil no processo de redemocratização pelo qual passou o estado brasileiro pós Ditadura Militar (1964- 1985), culminando na elaboração da Constituição Federal de 1988 que, por seu caráter social, foi até mesmo chamada de “Constituição Cidadã” pelo Deputado Ulysses Guimarães na Assembleia Nacional Constituinte. A atuação organizada de estudantes veio com a formação da União Nacional dos Estudantes (UNE), que se deu em meio ao regime ditatorial getulista, como luta pela democracia. O Movimento Estudantil, assim como o foram as ocupações das escolas públicas de Londrina/PR, mostraram que são capazes de realizar mudanças sociais, ainda que restritas ao âmbito daqueles que do movimento participaram. Contudo, é imperioso ressaltar que as manifestações estudantis dos secundaristas se mostraram apartidárias e também desvinculadas de órgãos estudantis. As ocupações mais recentes de escolas públicas por alunos das redes estaduais de educação do país que chamaram a atenção e que, de certa forma, serviram como paradigma para as ocupações paranaenses, foram as que ocorreram no Estado de São Paulo na segunda metade de 2015. Referidas ocupações se deram em razão da contrariedade à precarização da educação, e como protesto frente ao projeto de reorganização escolar proposta pelo então governador Geraldo

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Alckmin, que fecharia 94 escolas e remanejaria seus alunos. O argumento utilizado pelo governo era a baixa na demanda escolar e o necessário corte de gastos. Equivocado, o governador não se ateve aos motivos que levam à evasão dos alunos e, a contrassenso e sem ouvir a classe escolar, propôs a reorganização.

A classe escolar não aceitou, assim, inspirados em manifestações estudantis

que ocorreram no Chile, em um movimento que ficou conhecido como “Revolta dos Pinguins”, e que se deu em moldes e sob fundamentos parecidos com os do Brasil, os estudantes optaram pela via direta, pela ação concreta de ocupação. Assim, os estudantes chilenos inspiraram os estudantes paulistas, que, por sua vez, deram a ideia aos paranaenses. No Paraná as ocupações tiveram início no Município de São José dos Pinhais, e, após, se alastraram pelo restante do Estado. Em Londrina, o primeiro colégio a ser ocupado foi o Colégio Albino Feijó Sanches, localizado na região norte, mas o movimento alcançou colégios tanto periféricos, quanto das partes centrais da cidade. Durante as ocupações os alunos procuraram desenvolver atividades, promover “aulões” e zelar pelas estruturas do colégio. Entretanto, o sistema jurídico posto levou as ocupações a serem judicializadas, o Estado do Paraná, no uso de suas atribuições e, em cumprimento ao disposto na legislação vigente, impetrou ações de Reintegração de Posse em face dos ocupantes, que, após a ordem judicial de desocupação, deixaram os colégios. Quanto aos efeitos das ocupações, muito se questiona a efetividade desta

forma de movimento. Apesar de um aparente “fracasso” do movimento, quando não se alcança o objeto daquilo que se pleiteia, temos que esta seria uma visão

imediatista. Os efeitos das ocupações podem não ter alcançado os objetivos principais, de barrar a aprovação das propostas legislativas supracitadas, contudo as lições deixadas pelos alunos, de força e resistência, hão de reverberar na sociedade, a força jovem mostrou que não aceita calada e obediente os desmandos governamentais. Ademais, os próprios alunos fizeram “o dever de casa”: exercer seus direitos e, mais do que isso, buscá-los.

A estudante que aqui vos fala, juntamente a mais alguns estudantes da UEL,

participamos de forma indireta de algumas ocupações. Convidados pelos ocupantes

de alguns dos colégios, realizamos oficinas interativas com os alunos e a

experiência foi, no mínimo, enriquecedora, para secundaristas e universitários.

A atividade desenvolvida com os alunos consistiu em uma dinâmica, os que

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estavam presentes se dividiram em grupos, a cada grupo foi dado um papel cartolina, neste papel os alunos deveriam escrever o que, na visão deles, estava faltando na escola, cada grupo contava com um universitário para auxiliar nas decisões, e assim foi feito. Após, mas ainda durante a dinâmica, os universitários trocaram de grupos e começaram a opinar nas escolhas dos estudantes secundaristas, tentando remover algumas das ideias e colocar outras. A ideia inicial era fazer com que os alunos, primeiramente entendessem o que estavam fazendo ali, as suas reivindicações, que ultrapassam a esfera do debate contra as propostas legislativas, e repousa, sobretudo, no anseio por uma educação pública acessível e de qualidade. Depois, como o aparente poder de alguém de fora pode intervir nas opiniões e escolhas daqueles que estão, de fato, no movimento. A desconfiança nos novos “governantes”, que se faziam na rodada de alunos universitários entre os grupos, gerava um clima de insegurança, pois como poderiam opinar nas ideias dos alunos, aqueles que nem estiveram presentes durante a construção? Ao final, sentaram-se todos em roda para discutir o assunto, e o resultado foi que, ficou demonstrado, ao menos para aquele pequeno grupo universitário, que os alunos sabiam sim o que estavam fazendo e o que queriam. Pouco permitiram que as ideias lhe fossem tomadas, e demonstraram uma capacidade dialógica que não se vê nas assembleias legislativas. Coloco este breve relato como informação e conteúdo neste artigo, e não a título de amostragem, para que o leitor possa, desde já, se familiarizar com o assunto e conhecer uma visão de participação no movimento. As nossas visões sobre o mundo fenomênico dificilmente são imunes às convicções pessoais, contudo, procuro neste breve relato, fornecer uma informação factual, e não axiológica. Dito isto, passemos ao estudo de como as ocupações se relacionam com a democracia, com o direito e com o poder.

2 Democracia, Direito e Poder

Por que é tão importante falar sobre democracia? Esta é como um motor, um instrumento que tem a capacidade de provocar os indivíduos na sua mais profunda subjetividade e os levar à racionalidade de que, uma vez inserida em um Estado

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Democrático de Direito (CF/88, Art. 1º), a pessoa humana emana poder, sendo detentora do direito e do dever de participação nas decisões políticas que serão tomadas, vez que estas quando transformadas em normas jurídicas, produzirão reflexos e implicarão em imposições na vida dos indivíduos. A Constituição da República Federativa do Brasil de 1988 traz em seu preâmbulo a instituição de um Estado Democrático, destinado a assegurar o

exercício dos direitos sociais e individuais, como a liberdade, a segurança, o bem- estar, o desenvolvimento, a igualdade e a justiça, tendo-os como valores supremos de uma sociedade fraterna, pluralista e sem preconceitos, fundada na harmonia social e comprometida com a solução pacífica das controvérsias. Ocorre que, a democracia tal qual vem sendo exercida, dá sinais de cansaço, e as manifestações sociais, aqui com recorte no movimento estudantil, mais especificamente sobre o caso das ocupações das escolas públicas, são uma forma de reação a esta situação.

O conceito e o entendimento sobre o que é Democracia pode se modificar ao

longo do tempo. Temos que, esta se perfaz em meio e instrumento de realização de valores essenciais de convivência humana, é um processo de afirmação do povo e forma de garantir os direitos por estes conquistados (SILVA, 2012). Com o fim do século XIX, marcado pela Revolução Industrial, a democracia até então meramente política se mostrou insuficiente, tendo em vista a necessidade de implantação de um Estado Social que se voltasse ao indivíduo e suas necessidades.

A sociedade purgava por um direito que lhe voltasse os olhos, neste sentido veio a

atual Carta Magna brasileira, que busca consubstanciar um Estado Democrático de

Direito.

Neste cenário a lei tem papel de destaque, devendo-se observar os anseios sociais quando da sua elaboração, sobretudo em um Estado Democrático de Direito

e em consonância com a Constituição Federal de 1988, que coloca em destaque a

busca pela concretização de direitos fundamentais e a soberania popular. Assim é que o governo deve ser executor das leis que emanam do povo, o governante tem o

poder de agir, mas de forma a fazer valer a vontade soberana, ou seja, a vontade geral do povo.

É sabido que na democracia representativa, vivenciada, em partes, no Brasil,

visto que a Constituição contém alguns mecanismos de democracia participativa, a exemplo do plebiscito, referendo e iniciativa popular, existe uma delegação de

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representatividade do eleitor para com o eleito, logo, aquele que é investido da função de representar a outrem, concomitantemente adquire uma forma de poder, o poder de representar, de tomar decisões, propor leis, sempre com vistas ao atendimento do interesse público, ou mais precisamente, daquele que lhe outorgou a representação. Ocorre, contudo, que é possível observar um distanciamento entre representantes e representados, as casas legislativas se tornam uma realidade deveras longínqua daquela vivida no cotidiano da população. O poder que é então emanado da soberania popular e, através do exercício democrático, é conferido ao representante, não pode ser utilizado de forma indiscriminada, mas sim de forma que não se perca o nexo entre os anseios dos que delegam o poder e os atos dos que podem corresponder a estes anseios. Etimologicamente, ‘poder’ nos remete ao verbo latino posse, infere dominação

e avoca influência, capacidade, imposição de vontade. Forma-se uma relação de

imposição e obediência. Gurvitch explica a pluridimensionalidade do poder pelas bases axiológicas, desta maneira, em um esquema que delineia perfeitamente as relações de poder, nomina as partes como Ego, que seria aquele que dispõe de poder e que emanará uma imposição de vontade, e Alter, como aquele que se relaciona com o primeiro e reagirá à ação de se contrapor a ela, ou seja, vai emitir um posicionamento positivo ou negativo diante da imposição, e isto se dará de acordo com a confirmação da expectativa ou não-confirmação da expectativa, que

irá se confirmar ou negar pelo sentido de valor norteador das relações. Neste sistema ambas as partes são plurais, ou seja, formadas por um conjunto

de seres, aqui podemos inserir uma contribuição fundamental de Jurgem Habermas, para quem a comunicação só tem sentido se objetivar o entendimento. Para que Alter entenda a mensagem é necessário que este atinja a ideia, caso contrário, pode haver distorção e, consequentemente, uma reação negativa, ainda que a ideia possa ser boa ou vantajosa para Alter. Exemplificando e tomando como exemplo a questão das ocupações, poderíamos entender o Congresso Nacional como Ego e os estudantes secundaristas como Alter, uma vez imposta uma vontade, como a Reforma do Ensino Médio, o Alter emitirá um posicionamento positivo ou negativo de acordo com

a confirmação ou não das expectativas. Em um estado que se diz democrático de

direito, é até mesmo previsível que Alter não aceite uma norma que aparentemente

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não atendeu ao caminho dialético, não ouviu discutiu com Alter, e assim, não está em consonância com o que garante a carta constitucional. Segundo Roberto Lyra Filho (1982, pg. 8), “A lei sempre emana do Estado e permanece, em última análise, ligada à classe dominante”, e se liga à classe dominante porque o seu processo de formulação não foi dialógico, mas fruto das estruturas de poder. Esta falibilidade nas comunicações, são fruto da contaminação das decisões

coletivas por interesses particulares e da racionalização instrumental, por isto se faz necessário que, para que o poder dos cidadãos possa refletir nos atos que regulam suas vidas, haja o entendimento entre as partes, de forma que se possa garantir força aos anseios populares, executando-se, então, a razão comunicativa no lugar

da instrumental (HABERMAS, 2003). Razão instrumental seria aquela que leva à desumanização do homem e à

manipulação das relações sociais, as ações humanas são tomadas com fins predeterminados, o que vai de encontro com o sistema econômico capitalista, seria

a mecanização do homem, que pode ser manipulado para que se atinjam

determinados fins. A seu turno, a razão comunicativa, se baseia no mútuo respeito e na solidariedade, viabiliza a participação democrática dos sujeitos envolvidos no diálogo, estimulando um sentimento de pertencimento, visto que os sujeitos têm o mesmo poder de fala, ligando-se assim à integração social. O produto da discussão não será coincidência, nem fruto de poder ou violência, mas sim um consenso. Conduz a um processo interativo de ideias. O momento da construção seria delineado na forma discursiva, ou seja, por meio da comunicação, com a produção de debates públicos e abertos aos interessados, este seria um meio fértil, conforme o pensamento habermasiano, para a busca do entendimento, vez que figuraria entre indivíduos que possuem uma identidade cultural (Habermas, 2003). O direito é mediador das relações de poder, atuando para se fazer realizar esta comunicação. Mas, como o poder se legitimaria então? As teorias foram se modificando ao longo do tempo, Aristóteles ainda na Grécia Antiga, indicou a “Teoria da Naturalidade da Hierarquia e Predestinação”. Em seguida, na Idade Média a religião era o grande motor da vida humana, e na Idade Moderna aparecem os iluministas, carregados de cientificismo, onde a religião não mais bastava para as explicações dos fatos da vida humana. Nos séculos XVI ao XVII, com os contratualistas, a origem do poder seria convencionada pelos homens em algum

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momento entendido como pacto entre estes, utilizado para gerar um poder político. Habermas, na busca da explicação do poder político e reconstrução da relação interna entre direito e política, apesar de crítico dos contratualistas, não consegue afastar-se da doutrina contratual no que tange à legitimação do poder, considerando que este emana de um pacto, ou seja, de um momento de racionalidade, quando se exerce um agir comunicativo, não existe apenas dominação, mas um procedimento em que se faz possível encontrar um processo democrático, em que se encontra opinião e vontade, condicionando o pacto à união dos homens. Desta feita, o poder possui algumas facetas, podendo ser visto como domínio ou como força da soberania dos indivíduos, dependendo do modo como se dará seu exercício e no que estará fundado. Uma vez entendido que o direito é mediador das relações de poder, o que seria então o Direito? O Direito, apesar da norma positivada, também apresenta uma interface dinâmica, visto que busca se amoldar às novas realidades e demandas, justamente para que cumpra seu papel de proporcionar uma convivência humana. As reflexões socialistas mais modernas têm buscado uma relação dialética do Direito, o que o tiraria do extremismo de ser encarado como mera ideologia jurídica ou positivista ou jus naturalista, tendente a buscar assim uma maior flexibilidade “que o liberte daquela noção de Direito como, antes de tudo, direito estatal, ordem estatal, leis e controle incontrolado” (FILHO, 1982, pg. 37). Para atingir o fim de acabar com contradições socioeconômicas e a utilização do direito pelas estruturas de poder, há de se caminhar para a democracia. Desta maneira, um direito mais dialógico seria emancipatório e não meramente descritivo, incorporando reflexões sociológicas na construção do Direito, para que este não seja apenas instrumento de controle social.

Conclusão

Buscamos neste trabalho entender um pouco sobre os motivos pelos quais os alunos secundaristas optaram pela ação direta de ocupar seus colégios. Com os apontamentos do tópico acima, de forma conclusiva, temos que tanto as ocupações como quaisquer outras formas de manifestação social, estão inseridas em um sistema democrático em crise. Esta crise ou falibilidade, se dá pelas relações sociais que não se comunicam,

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ou, ao menos, não visam o entendimento e a construção coletiva de ideias. Isto faz

com que os indivíduos se questionem em seus direitos e deveres participativos.

Assim é que, deve-se prezar pelo entendimento sobre o mundo factual através

da axiologia de seus atos. As ocupações são uma reação ao exercício do poder,

que, sobre o leito do Direito, se exerce de forma antidemocrática.

Fechar portões neste caso, pode significar abrir muitas janelas, para uma

reflexão geral, não só dos participantes dos movimentos ou do poder público, mas

de toda a comunidade.

Referências

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MELLO, Káthia. Governo não promoveu debate sobre reforma do ensino, diz conselheiro do CNE. 2016. Disponível em: <

http://g1.globo.com/educacao/noticia/governo-nao-promoveu-debate-sobre-reforma-

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MENDES JUNIOR, Antônio. Movimento Estudantil no Brasil. Editora Brasiliense:

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PRONZATO, Carlos. Acabou a paz! Isto aqui vai virar o Chile! Escolas ocupadas em SP. Disponível em:

< https://www.youtube.com/watch?v=LK9Ri2prfNw&list=WL&index=4>. Acesso em

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19.nov.2016.

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<http://legis.senado.leg.br/legislacao/DetalhaSigen.action?id=602639>. Acesso em:

27.abr.2017

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SILVA, José Afonso da. Curso de Direito Constitucional Positivo. 35ª Edição. Malheiros Editores: 2012.

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ESTADO VERSUS ALUNOS: OS “VALORES” EM CONFLITO NAS “OCUPAÇÕES” DE ESCOLAS PÚBLICAS POR ESTUDANTES

Flávio Bento 2 Marcia Hiromi Cavalcanti 3

Resumo: Em 2016, a proposta de reforma do ensino médio apresentada pelo Governo Michel Temer gerou uma onda de ocupações de escolas públicas por estudantes. O clima político tenso, especialmente após o impeachment de Dilma Rousseff, e tantas outras questões econômicas, políticas, sociais, jurídicas e educacionais levou a esse tipo de conflito direto entre estudantes e Governo, envolvendo também, direta ou indiretamente, associações estudantis, professores, demais trabalhadores da área do ensino, pais de alunos, enfim, toda a sociedade. Esse conflito, Estado versus Alunos, ganhou espaço nas mídias, seja pelos “problemas” causados, seja no contexto da discussão da pertinência e “validade” da reforma proposta em momento político tão conturbado. O objetivo desse estudo é analisar os argumentos invocados pelas “partes” envolvidas, inclusive os que foram apresentados em alguns processos judiciais em trâmite perante o Poder Judiciário, em ações ajuizadas em razão da “ocupação” de escolas públicas por estudantes, e apresentar os principais “valores” e “direitos” que são apontados pelas partes envolvidas em defesa de seus interesses. No final, o que se espera é contribuir para a necessária reflexão sobre os direitos e valores em conflito. Palavras-chave: Conflito. Movimentos estudantis. Reforma do ensino médio. Ocupação. Direito.

Introdução

Em 2016, a proposta de “reforma do ensino médio” apresentada pelo Governo Michel Temer gerou uma onda de ocupações de escolas públicas por estudantes. A Lei n. 13.415, editada em 16 de fevereiro de 2017, antes tramitando como Medida Provisória, alterou a Lei de diretrizes e bases da educação nacional e outros textos

2 Universidade Estadual do Norte do Paraná, campus de Cornélio Procópio. Doutor em Educação. prof.flaviobento@gmail.com

3 Universidade Estadual de Londrina. Especialista em Filosofia Política e Jurídica. marciacavalcantibento@gmail.com

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normativos vigentes.

O clima político tenso, especialmente após o impeachment de Dilma Rousseff,

e tantas outras questões educacionais, políticas, sociais, econômicas e jurídicas

levou a esse tipo de conflito direto entre estudantes e Governos, envolvendo

também, direta ou indiretamente, associações estudantis, professores, demais trabalhadores da área do ensino, pais de alunos, enfim, toda a sociedade.

O objetivo desse estudo é analisar os argumentos invocados pelas “partes”

envolvidas, inclusive os que foram apresentados em alguns processos judiciais em trâmite perante o Poder Judiciário do Estado do Paraná, ajuizados em razão da “ocupação” de escolas públicas por estudantes, e apresentar os principais “valores” e “direitos” que são invocados pelas partes envolvidas em defesa de seus interesses. Alertamos que a questão trazida ao debate é bastante complexa, com repercussões em direitos e obrigações previstos na ordem civil, constitucional e até mesmo no Estatuto da Criança e do Adolescente, pela “ocupação” envolver adolescentes. O termo “ocupação” significa, como regra, apoderar-se de alguma coisa, apropriar-se de um bem, tomar o controle de alguma coisa, invadir um lugar ou espaço e lá permanecer de modo arbitrário. É certo que, para os estudantes, o mais adequado para a situação tratada neste artigo seria apenas “estar em um espaço”, ou mesmo até mesmo persistir ou insistir na defesa de seus valores e interesses.

Neste estudo, por uma questão de opção terminológica, utilizaremos a expressão “ocupação”.

1 Dos “direitos” do Estado

Nas ações que envolvem “ocupação” de escolas públicas por estudantes, a iniciativa em buscar a intervenção do Poder Judiciário é sempre do Estado, diante de o fato – a simples “ocupação” dos prédios públicos – em tese, desrespeitar direitos.

O ato considerado agressivo, como regra, é formalizado em um boletim de

ocorrência lavrado junto à Polícia Civil. Em processo que tramitou na Comarca de Paranavaí, Estado do Paraná, consta no boletim de ocorrência que:

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1) os alunos haviam passado correntes com cadeados nos três - portões que dão acesso ao estabelecimento de ensino; 2) tal movimento surgiu em virtude da organização aparentemente iniciada pela greve estudantil, no entanto, por volta das 07h30min, foi observada presença de pessoas estranhas à escola, as quais estavam fazendo uso de uma caixa de som com microfone, fazendo uso da palavra; 3) por volta das 07h45 min os alunos abriram um dos cadeados e adentraram ao estabelecimento, vindo a tomar por completo a primeira parte do prédio; 4) por duas vezes tentou-se estabelecer contato com o pessoal do grêmio na tentativa de alertá-los quanto ao risco de motivação para depredação e quanto a presença de alunos mais novos que os pais haviam deixado no colégio para as aulas. (PARANÁ, 2017a)

O principal direito invocado pelo Governo é o direito à posse, e o direito ao

exercício dos poderes conferidos pela posse, no que se refere aos edifícios e

prédios públicos.

O Código Civil estabelece que “considera-se possuidor todo aquele que tem de

fato o exercício, pleno ou não, de algum dos poderes inerentes à propriedade”

[artigo 1.196] (BRASIL, 2017a)

A posse representa “um poder direto ou imediato sobre a coisa e também

absoluto ou erga omnes 4 ” (COSTA, 1998, p. 109).

O Código Civil estabelece ainda que “o possuidor tem direito a ser mantido na

posse em caso de turbação, restituído no de esbulho, e segurado de violência

iminente, se tiver justo receio de ser molestado” [artigo 1.210] (BRASIL, 2017a).

A legislação prevê, ainda, o direito a “atos de defesa” por quem tem a posse

perturbada [artigo 1.210, parágrafo 1º 5 ] (BRASIL, 2017a), direito que não foi exercido pelo Estado nas ocupações das escolas públicas – até porque seria inviável e até

mesmo impossível devido às circunstâncias. Esse direito a “atos de defesa” demonstra que tais ocupações podem chegar a situações de fato extremamente graves, com confronto entre proprietários/possuidores e “invasores”, como ocorre nos conflitos agrários. Além de afetarem o direito a posse, as ocupações interrompem o curso normal das aulas, interferindo no “direito à educação”, direito de todos os alunos (ocupantes ou não) e dever do Estado, e interferem no direito de se manterem as atividades educacionais para os alunos que não concordam, por qualquer motivo, com as

4 Que tem efeito ou vale para todos.

5 “O possuidor turbado, ou esbulhado, poderá manter-se ou restituir-se por sua própria força, contanto que o faça logo; os atos de defesa, ou de desforço, não podem ir além do indispensável à manutenção, ou restituição da posse”.

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ocupações 6 . O Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo já decidiu que: “PROCESSO. Bem público. Escola. Reintegração. Posse. Alunos. Ocupação. Legitimidade passiva. É esbulho a ocupação de prédio público impeditiva do uso normal para o qual está legalmente destinado” (SÃO PAULO, 2017).

2 Dos “direitos” dos estudantes

Os alunos, por sua vez, invocam os direitos constitucionais à livre manifestação e expressão, assegurados na Constituição Federal, mediante a utilização de protestos e ocupações. Estabelece a Constituição Federal que:

Art. 5º. Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade, nos termos seguintes: [ ]

IV - é livre a manifestação do pensamento, sendo vedado o anonimato; [ ]

VIII - ninguém será privado de direitos por motivo de crença religiosa ou de

convicção filosófica ou política, salvo se as invocar para eximir-se de

obrigação legal a todos imposta e recusar-se a cumprir prestação alternativa, fixada em lei;

IX - é livre a expressão da atividade intelectual, artística, científica e de

comunicação, independentemente de censura ou licença; (BRASIL, 2017b)

Em uma das ações pesquisadas (PARANÁ, 2017b), o Poder Judiciário do Estado do Paraná, em decisão preliminar que depois foi revogada, fundamentou que:

Com efeito, a liberdade de expressão, consagrada no artigo 5º, incisos IV,

VIII e IX da Constituição Federal, configura-se como condição indispensável

para a democracia, pois assegura a participação livre e igual no processo

de discussão e tomada de decisões e também se presta à proteção das

minorias que não serão submetidas à decisão majoritária sem livremente

expressar seu ponto de vista e o dissenso.

Outro direito invocado pelos estudantes é o “direito de reunião”, previsto no inciso XVI, artigo 5º, da Constituição Federal: “todos podem reunir-se pacificamente, sem armas, em locais abertos ao público, independentemente de autorização, desde

6 “A educação, direito de todos e dever do Estado e da família, será promovida e incentivada com a colaboração da sociedade, visando ao pleno desenvolvimento da pessoa, seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho” [Constituição Federal, artigo 205] (BRASIL,

2017b).

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que não frustrem outra reunião anteriormente convocada para o mesmo local, sendo apenas exigido prévio aviso à autoridade competente” (BRASIL, 2017b). Entidades estudantis criticaram a falta de tempo para um debate mais amplo sofre a reforma do ensino médio. Em nota publicada sobre o adiamento do Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM) a União Brasileira dos Estudantes Secundaristas (UBES), a União Nacional dos Estudantes (UNE) e a Associação Nacional dos Pós-graduandos (ANPG) assim se manifestaram:

Reafirmamos com a presente nota a luta contra a MP 746 porque achamos que a Reforma do Ensino Médio não cabe numa medida provisória, queremos ser ouvidos para a necessária reforma, queremos o envolvimento de toda a comunidade acadêmica nesse processo. Queremos que pare a PEC 241 (agora PEC 55 no senado), pois ela congela os investimentos em educação e junto inviabilizam o Plano Nacional de Educação. (2017).

Em síntese, a crítica dos estudantes foi pela necessidade de um diálogo mais prolongado e amplo sobre as reformas, especialmente quanto às mudanças no “currículo” escolar.

Considerações conclusivas sobre os valores em jogo nas “ocupações” de escolas públicas

Entendemos que um questionamento deve ser apresentado em favor dos estudantes no caso em análise: a “ocupação” de escolas públicas deve ser tratada como uma simples questão de “posse”? Pensamos que não, porque para os alunos o que está em jogo é a livre manifestação e o protesto contra as mudanças na legislação federal de ensino – que eles entendem inapropriadas no momento. O objetivo dos estudantes não é o de exercer o direito de posse sobre um bem do Estado, nem de questionar esse direito que o Estado detém. Tratar as “ocupações” de escolas públicas como um simples conflito possessório é desconsiderar, sem razão, todos os aspectos jurídicos que motivaram a “ocupação”, especialmente o direito de resistência, de protesto, de livre manifestação, dentre outros que podem ser invocados. Em decisão preliminar, o Poder Judiciário do Estado de Goiás, em questão de âmbito estadual (decisão do Governo Estadual de transferir a gestão das escolas públicas estaduais para as organizações sociais), considerou a “ocupação” de

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escolas por estudantes como um legítimo movimento de protesto, desde que pacífica:

A comunidade brasileira vive novos tempos democráticos. As manifestações

de 2013 que se prolongaram até os dias atuais obriga o Poder Público (inclusive o Judiciário) ao reconhecimento da legitimidade dos movimentos

sociais e de protesto, com sua pauta e voz.

Querer transformar o movimento de ocupação das escolas em questão jurídica é, com absoluto respeito, uma forma incorreta de compreender a dimensão do problema. [ ]

A judicialização é fato relevante e atualmente o Poder Judiciário tem sido

protagonista dos maiores embates éticos da nação, mas não é a judicialização a única nem a principal forma de manifestação da sociedade.

Protestos pacíficos, passeatas e ocupações de prédios públicos também devem ser reconhecidos como meios de manifestação legítimos que devem levar ao diálogo e à interpretação de que todo o poder emana do povo e para ele deve ser exercido. (GOIÁS, 2017).

É importante destacar, entretanto, que “ocupações” em edifícios estaduais ou municipais, quando o protesto se refere à medida a ser adotada na esfera federal, mostram-se pouco eficazes e até mesmo sem razoabilidade. Tanto que no caso em análise, a Lei n. 13.415, de 16 de fevereiro de 2017, foi sancionada, e o Governo do Estado nada pôde fazer quanto a isso, porque se trata de ato (edição de lei de competência federal) que não está dentro da sua competência fixada na Constituição Federal. Outro aspecto seria a aplicação de lei editada pelo Congresso Nacional, naquilo que pode ser decidido pelas políticas educacionais estaduais. Nesse contexto, editada a lei federal, os estudantes poderiam reivindicar um diálogo mais amplo com o Governo Estadual, e apresentar suas propostas e reivindicações. Ainda em favor dos alunos, pesa a postura destes em defender o direito à educação de forma ampla. A “ocupação” das escolas pode ter tido como motivo atual o desconforto causado pela “apressada” proposta de “reforma do ensino médio”, mas a luta pelo direito à educação é mais ampla e envolve vários aspectos. Essa perspectiva já foi observada por Carmen Sylvia Vidigal Moraes e Salomão Barros Ximenes, nos debates, no final de 2015, entre estudantes Rede Estadual de São Paulo contra a “Reorganização Escolar” imposta pelo governo estadual de Geraldo Alckmin:

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nas escolas - mantêm uma relação positiva com a escola pública, nela reconhecem um fundamental espaço de aprendizagem e de sociabilidade, e por isso se mobilizaram para salvá-la. Lutaram contra a precarização do ensino; contra a falta de bibliotecas, de laboratórios destinados ao ensino das ciências e das artes, de espaços para desenvolvimento do esporte e das atividades artísticas; mobilizaram-se contra a jornada excessiva e o baixo salário de seus professores, a ausência de tempo destinado às atividades lúdicas e culturais; denunciaram a baixa qualidade da alimentação que lhes é servida. Enfim, reinvindicaram o direito constitucional à universalidade de uma educação de base de igual qualidade, comum a todos os brasileiros, com respeito à diversidade de posições e de interesses de estudantes, professores e comunidades.

(2016)

7

Em favor do Estado – não de suas ações – surge a ideia do abuso de direito:

“também comete ato ilícito o titular de um direito que, ao exercê-lo, excede manifestamente os limites impostos pelo seu fim econômico ou social, pela boa-fé ou pelos bons costumes” [artigo 187, Código Civil] (BRASIL, 2017a). Na doutrina, destacamos a lição de Silvio Rodrigues:

o abuso de direito ocorre quando o agente, atuando dentro das prerrogativas que o ordenamento jurídico lhe concede, deixa de considerar a finalidade social do direito subjetivo, e, ao utilizá-lo desconsideradamente, causa dano a outrem. Aquele que exorbita no exercício de seu direito, causando prejuízo a outrem, pratica ato ilícito, ficando obrigado a reparar. Ele não viola os limites objetivos da lei, mas, embora os obedeça, desvia-se dos fins sociais a que esta se destina, do espírito que a norteia. (1994)

Os estudantes possuem o direito à livre manifestação, o direito de se reunirem pacificamente para protestarem. A questão é considerar se esse direito justifica a “ocupação” de prédios públicos, com a interrupção das aulas que prejudica outros alunos que não concordam com as manifestações e que preferem prosseguir com seus estudos sem interrupção. Em muitas situações as “ocupações” ocorrem com danos ao patrimônio público, geralmente danos de pequena monta. E existem os danos relacionados com o atraso nas atividades educacionais pela ausência das aulas regulares, o atraso no calendário acadêmico etc. Consideramos, ainda, que ante as características desse conflito, a melhor solução na esfera judicial – e obviamente na esfera social e política – seria a

7 Nesse artigo os autores indicam dois outros trabalhos que estudaram o conflito de ocupação de escolas públicas por alunos no Estado de São Paulo: “Ocupar e resistir: a insurreição dos estudantes paulistas”, de Ana Paula Corti, Maria Carla Corrochano e José Alves da Silva, e “Escolas de luta, educação política: reflexões sobre o sentido da ocupação das escolas públicas no Estado de São Paulo”, elaborado por Carolina Catini e Gustavo Mello (MORAES, XIMENES, 2016).

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negociação entre as partes envolvidas, e essa é uma das opções que o Poder

Judiciário pode adotar desde o início, antes de decidir por qualquer medida de força,

como a reintegração imediata, geralmente conduzida com apoio policial. A busca da

conciliação é um dos princípios do direito processual moderno.

Nesse contexto, cabe ao Poder Judiciário traçar orientações justas para a

solução do embate, considerando que estamos diante de um evidente conflito de

direitos, no qual deve prevalecer o princípio da razoabilidade.

As poucas ações judiciais pesquisadas neste estudo, entretanto, não nos

permitem apresentar uma posição segura como solução do problema. Há evidente

divergência em decisões de primeiro e segundo graus (juízes das comarcas e

desembargadores dos tribunais), ora a favor da reintegração de posse, ora

considerando válida a “ocupação” como exercício do direito de livre manifestação de

parcela da sociedade. Essa divergência entre decisões do Poder Judiciário também

ocorreu no Estado de São Paulo no ano de 2015, quando das “ocupações” que

combatiam a reorganização da rede de escolas que previa o fechamento de 94

unidades e o remanejamento de alunos de outras 754 unidades:

A reação do governo estadual não tardou, com intensa mobilização de seu aparato judicial e policial. Os pronunciamentos oficiais sobre o movimento e a primeira decisão judicial - que concedeu o pedido de reintegração de posse na noite do dia 12 de novembro [

Um conjunto de decisões no âmbito do Judiciário acabou acarretando a suspensão da reintegração de posse das escolas ocupadas, o que também contribuiu para fortalecer o processo de ocupações. E, finalmente, no dia 04 de dezembro, o governador suspendeu a reorganização. (CORTI, CORROCHANO, SILVA, 2016).

Mais do que jurídica, a questão é social e política, e comungamos que decorre

do “perfil conservador e autoritário das recentes propostas de reformas

educacionais” (MORAES, XIMENES, 2016).

Fica aqui, entretanto, a importância do diálogo e dos debates sobre esse

evidente conflito de direitos.

Referências

BRASIL. Lei n. 10.406, de 10 de janeiro de 2002. Código Civil. Disponível em:

<http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/2002/L10406.htm>. Acesso em: 19 jun.

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30

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<http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/constituicaocompilado.htm>.

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MORAES, Carmen Sylvia Vidigal; XIMENES, Salomão Barros. Políticas educacionais e a resistência estudantil. Educação & Sociedade, v. 37, n. 137, Campinas, out./dez. 2016. Disponível em:

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PARANÁ. Poder Judiciário do Estado do Paraná. Comarca de Paranavaí. Autos n. 0016829-77.2016.8.16.0130. Ação de reintegração de posse. 2017a.

PARANÁ. Poder Judiciário do Estado do Paraná. Comarca de Ponta Grossa. Autos n. 0027027-21.2016.8.16.0019. Ação de reintegração de posse. 2017b.

RODRIGUES, Silvio. Direito Civil: parte geral. 24 ed. v. 1. São Paulo: Saraiva,

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SÃO PAULO. Poder Judiciário do Estado de São Paulo. Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo. 10ª Câmara de Direito Público, 29/01/2016, Agravo de Instrumento, AI 2005129-93.2016.8.26.0000, Relatora Teresa Ramos Marques. Disponível em:

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DE+PR%C3%89DIO+P%C3%9ABLICO>. Acesso em: 19 jun. 2017.

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O DIREITO DE PARTICIPAÇÃO DOS ESTUDANTES NA UNIVERSIDADE:

ANÁLISE DA LEI ESTADUAL PARANAENSE N. 14.808/2005 E DA ADI 3757

Caroline Rocha Delmonico 8 Isabella Alonso Panho 9

Resumo: Trata-se, o presente artigo, de discussão a respeito da iminente ameaça à permanência no mundo jurídico da lei estadual paranaense n. 14.808/2005, que protege as representações estudantis nas instituições de ensino superior do estado do Paraná. A Confederação de Instituições Privadas de Ensino superior ajuizou, perante a Corte Constitucional, Ação Declaratória de Inconstitucionalidade da Lei, o que implica algumas discussões sobre qual a realidade da representação estudantil nos cursos de direito de Londrina e região, bem com a importância da legalidade em tal circunstância. Palavras-chave: movimento estudantil, Lei n. 14.808/2008, ADI 3757

Abstract: The presente essay approaches about the imminet threat above the existence of the n. 14.808/2005 Parana’s state law, wich protects the student’s representatios rights in all the universities of the state. The Private Universities Confederation proposed to the Constitucional Court a direct action of unconstitutionality, whats brings some important discussions about the reality of the student’s representation in the law graduations in Londrina and above, just as the legacy in this situation. Key words: student’s representation, Law n. 14.808/05, ADI 3757

Introdução

A participação estudantil nos espaços institucionais das instituições de ensino superior, bem como a existência dos órgãos de representação da categoria, no Estado do Paraná, encontra-se positivada na Lei n. 14.808/2008. Contudo, como

8 Acadêmica do 5º ano do curso de Direito da Universidade Estadual de Londrina. E-mail:

caroline.delmonico@hotmail.com
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Advogada, formada em direito pela Universidade Estadual de Londrina; pós-graduanda do curso de Especialização em Direito do Estado da Universidade Estadual de Londrina. E-mail:

isabella.alonso17@gmail.com

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todas as concessões estatais para a proteção de direitos, tal disposição esbarra na propositura de Ação Direta de Inconstitucionalidade por meio do setor privado de educação. Em momentos de crise política e barbárie institucionalizada, o cenário de representação estudantil não é dos melhores. Analisando-se o panorama institucional das representações no âmbito dos cursos de direito de Londrina e região, o que se observa é que, ainda que sob a égide da lei, a maioria das instituições ainda não possui representação discente organizada dentre os cursos de direito – recorte com o qual trabalha o presente estudo –, sobretudo nas instituições privadas. Tal análise permite uma série de problematizações, a começar pela crise que a retirada da proteção conferida pela Lei n. 14.808/08 pode causar, até o questionamento acerca da sua real efetividade na legitimação e na construção do movimento estudantil – por meio de um paralelo com a institucionalização dos movimentos sociais, cuja autonomia e autenticidade muitas vezes é cassada pelos atos de legalização e institucionalidade.

1 Aspectos jurídicos da lei estadual n. 14.808/2005 e da adi 3757

1.1 A lei estadual paranaense n. 14.808/2005

O Projeto de Lei Estadual n. 48/2005, que, aprovado, culminou com a Lei

14.808/2005 (PARANÀ, 2005), é de autoria do ex-Deputado Estadual Natálio Stica

(à época filiado ao Partido dos Trabalhadores – PT) e foi proposto em 24 de fevereiro de 2005, sob a justificativa de garantir ao movimento estudantil a livre organização política dentro da Universidade.

O projeto foi aprovado sem modificações pela Comissão de Constituição e

Justiça; Comissão de Educação, Cultura, Esportes, Ciência e Tecnologia e Comissão de Redação. Ao final, no dia 21 de junho de 2005, foi aprovado em sua

redação final, sendo a lei publicada em 28 de julho de 2005.

É importante salientar que, em termos de leis que protegem o movimento

estudantil, especificamente, há apenas a Lei federal n. 7395 de 1985 (BRASIL, 1985), que reconhece e institucionaliza a UNE – União Nacional dos Estudantes como representação máxima dos estudantes a nível nacional, as UEEs – Uniões

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Estaduais dos Estudantes como representação a nível estadual e, a nível das Universidades, o DCE – Diretório Central dos Estudantes, como representação discente geral, e os Centros ou Diretórios Acadêmicos como representação de curso. Frise-se que, na época do regime militar, a UNE foi considerada ilegal (SANTOS, 2009). Contudo, a referida lei traz disposições generalizadas, não sendo, ainda, suficiente para garantir e assegurar a participação dos estudantes nas instituições de ensino superior. Assim, a Lei Estadual n. 14.808/05 do Paraná apresenta-se como uma medida de prestação positiva do Estado 10 que garante aos estudantes tanto o espaço físico quanto o espaço nos Conselhos Consultivos e Fiscais (art. 3º, III) nas suas respectivas instituições de ensino superior. Em seus dispositivos, estabelece o direito à livre organização aos órgãos de representação estudantil – Centros Acadêmicos (CAs), Diretórios Acadêmicos (DAs) e Diretórios Centrais dos Estudantes (DCEs) –, na incumbência de representar os interesses e expressar os pleitos dos alunos (art. 1º), sendo a definição de suas formas, critérios de organização, estatutos e demais questões de competência exclusiva discente (art. 2º). Protege, ademais, o direito a que cada uma dessas entidades possua um espaço físico nas dependências da instituição (art. 3º), preferencialmente junto ao prédio correspondente ao curso (art. 4º), de modo que seja possibilitado o fácil acesso dos alunos ao seu Centro Acadêmico correspondente (UNE, 2017) 11 . Em termos de liberdade de expressão, a Lei 14.808/05 estabelece também que os CAs, DAs e DCEs tenham direito à livre divulgação de seus jornais e publicações, bem como acesso às salas de aulas e demais espaços frequentados pelos estudantes. Além dos espaços nos Conselhos Consultivos e Fiscais, também garante aos órgãos representativos estudantis acesso à metodologia da elaboração das planilhas de custos das instituições, de modo que se possa acessar a forma como se

10 Nota explicativa: Há direitos que, para que se concretizem, pressupõe que o Estado se abstenha, a passo que, há outros que necessitam que o Estado de alguma forma aja para que possam ser respeitados. Oportunamente, tratar-se-á desse assunto neste trabalho.

Nota explicativa: Apenas a título de esclarecimento, as diferenças entre Centro Acadêmico (CA), Diretório Acadêmico (DA) e Diretório Central dos Estudantes (DCE) residem na quantidade de cursos que representam. O CA representa os alunos de apenas um curso, o DA representa os alunos de dois cursos ou mais de uma mesma área (por exemplo, um DA poderia abranger os cursos de jornalismo e relações públicas, ambos da área de comunicação social) e o DCE representa todos os estudantes de uma instituição de ensino superior.

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conduzem financeiramente. Por fim, em seu penúltimo artigo (art. 5º), estabelece a Lei que as instituições privadas de ensino superior, descumprindo as disposições legais então estabelecidas, sujeitam-se à aplicação de multa cujo valor reside entre R$ 5.000,00 (cinco mil reais) e R$ 50.000,00 (cinquenta mil reais).

1.2 A ADI 37572

Diante dos preceitos estabelecidos pela vigência da Lei Estadual n. 14.808/05, a Confederação Nacional dos Estabelecimentos Privados de Ensino – CONFENEN ajuizou, perante a Corte Constitucional, a Ação Direta de Inconstitucionalidade (ADI) n. 3757, visando obter a sua completa retirada do mundo jurídico.

Primeiramente, a CONFENEN inicia sua tese fundamentando-a na ideia de que seria próprio do movimento estudantil – em que pese, por um lado, reconhecer seu relevante papel nas lutas da história brasileira – surgir pela iniciativa dos estudantes e contra a vontade das autoridades respectivas. Ademais, ressalta que, com a tutela prevista pela Lei paranaense 14.808/05, o movimento “deixa de ser estudantil, para se tornar uma iniciativa do Estado”.

Em seguida, evoca que a Lei questionada legisla sobre matérias que não seriam de competência do Estado do Paraná. Assim aduz, fundamentando-se nos artigos 22, inciso XXIV e 211, parágrafos 1º e 3º da Magna Carta (BRASIL, 1988), segundo os quais a competência para legislar sobre diretrizes e bases da educação é privativa da União, bem como seria de atribuição desse mesmo ente a organização do sistema federal de ensino, ao qual as instituições privadas pertencem – o que respalda também com fundamento no art. 16 da Lei de Diretrizes e Bases da Educação (BRASIL, 1996). Conforme traz a Confederação, a Lei n. 14.808/05 seria eivada de vício de competência quando da sua elaboração, vez que o legislador paranaense estaria invadindo a competência de outro ente federativo.

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Em consequência, evoca o art. 207 12 da Constituição a fim de trazer à baila o princípio da autonomia universitária, o qual, ao que argumenta, seria ferido pela Lei questionada em sede de ADI, uma vez que as disposições normativas que obrigam as instituições de ensino a fornecer espaço físico e acesso à metodologia de elaboração de planilhas de custos seria uma ofensa à autonomia das instituições de ensino superior em se autogerir. A CONFENEN também sustenta sua tese argumentando que a Lei paranaense n.14.808/05 vai de encontro ao princípio da livre iniciativa, disposto tanto no texto constitucional (artigos 1º, IV; 170 e 209 da Constituição), quanto na Lei de Diretrizes e Bases da Educação (art. 7º, o qual assim versa: “O ensino é livre

I – cumprimento das

à inciativa privada, atendidas as seguintes condições: [

normas gerais da educação nacional e do respectivo sistema de ensino” 13 ). Finaliza arguindo que a Lei Estadual 14.808/05 do Paraná afronta os princípios da razoabilidade e da igualdade 14 . No que diz respeito ao primeiro, é oportuno o seguinte excerto, que resume os argumentos utilizados:

]

Com efeito, há instituições de ensino superior que oferecem quase uma centena de cursos, propiciando a criação de Centros Acadêmicos e Diretórios Acadêmicos na mesma quantidade. O que está a se impor, portanto, é que os conselhos fiscais e consultivos de algumas instituições de ensino sejam formados até por centenas de pessoas, transformando-os em verdadeiras

assembleias. [

A obrigatoriedade do fornecimento de salas nesta quantidade acarretará

] [

o mesmo se diga para a instalação dos Centros Acadêmicos

]

um aumento de cursos que certamente serão repassados para as

mensalidades.

No que tange, por vez, à questão de que haveria ofensa ao princípio da igualdade, fundamenta-se na distinção que traz o artigo 5º da Lei 14.808/05: a multa de cinco a cinquenta mil reais quando do descumprimento de qualquer disposição

12 Art. 207. As universidades gozam de autonomia didático-científica, administrativa e de gestão financeira e patrimonial, e obedecerão ao princípio de indissociabilidade entre ensino, pesquisa e extensão.

13 Importante ressaltar demais incisos do art. 7º da Lei de Diretrizes e Bases:

Art. 7º O ensino é livre à iniciativa privada, atendidas as seguintes condições:

I - cumprimento das normas gerais da educação nacional e do respectivo sistema de ensino; II - autorização de funcionamento e avaliação de qualidade pelo Poder Público; III - capacidade de autofinanciamento, ressalvado o previsto no art. 213 da Constituição

Federal. 14 Nota explicativa: A igualdade é um princípio constitucional previsto como um dos fundamentos da República Federativa do Brasil (art. 2º da Constituição Federal. O princípio da razoabilidade, por sua vez, não encontra previsão constitucional expressa, sendo uma construção doutrinária e jurisprudencial em face da prática de atos autoritários pelo Estado.

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da referida norma caberia apenas às instituições privadas de ensino superior. Seguindo-se o regular trâmite processual da ADI, nos autos foi dado vista ao Governador e a Assembleia Legislativa do Estado do Paraná (ALEP) a fim de que prestassem suas declarações, uma vez que foram os órgãos prolatores da lei questionada. Ambas posicionam-se pela sua constitucionalidade, tendo em vista, sobretudo, que as entidades estudantis, além da função representativa, exercem significativo papel de fiscalização das instituições, aduzindo ser notório que muitas instituições, sobretudo as privadas, além de não oferecerem amparo para as instituições político- representativas estudantis, frequentemente obstam, dificultam e até mesmo proíbem a sua formação. Tal é a posição, ipsis litteris, adotada pela ALEP quanto à questão da necessidade ou da prescindibilidade de tutela do movimento estudantil por ações estatais:

Quer nos parecer que a adoção do presente remédio processual foi eleita como medida de precaução na eventualidade de virem a ser descumpridas normas advindas justamente para propiciar um amparo ao movimento estudantil, luta travada igualmente há longa data, permitindo uma participação absolutamente democrática nas decisões que lhe afetam diretamente, como incentivo ao exercício da cidadania, amparado constitucionalmente.

Sobre a questão da livre iniciativa ao setor privado, princípio constitucionalmente protegido 15 , sustenta que seria um pressuposto que as entidades privadas se adequem às normas e requisitos estabelecidos pelo Estado, o que em nada feriria a sua liberdade de exercício. Frisa, ademais, a ALEP, que a Lei n. 14.808 seria uma forma de assegurar o exercício democrático e de garantir a livre organização política do movimento estudantil, ponto que seria fundamental para o devido exercício do direito à educação. Em contrapartida, o Advogado Geral da União, o Ministério Público Federal (MPF) e o Ministro Relator da ADI, Dias Toffoli, posicionam-se no mesmo patamar,

15 Art. 209. O ensino é livre à iniciativa privada, atendidas as seguintes condições:

I - cumprimento das normas gerais da educação nacional; II - autorização e avaliação de qualidade pelo Poder Público. (BRASIL, 1988)

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pela procedência dos pedidos contidos na exordial da ação. Desta forma, o Advogado-Geral da União concluiu que o ideal seria o julgamento pela inconstitucionalidade parcial da lei, apenas no que tange à inclusão das instituições particulares, mantendo-se a vigência da Lei Estadual paranaense n. 14.808/05 em relação às instituições de ensino superior públicas do Estado do Paraná, a passo que o MPF, por sua vez, fundamenta-se primordialmente no fato de que a Lei n. 14.808/05 feriria, em tese, a iniciativa privada e a autonomia universitária, pugnando pela integral procedência dos pedidos da ADI.

1.2.1 Voto Min. Relator Dias Toffoli

Na primeira sessão de julgamento da ADI, o Ministro Relator Dias Toffoli prolatou voto, ainda não publicado, de procedência do pedido liminar de suspensão da Lei n. 14.808/05, anuindo, desta forma, com todos os argumentos postulados pela CONFENEN na petição inicial. Finalizando seu voto, Dias Toffoli teria argumentado que a Lei Estadual 14.808 é materialmente inconstitucional, por ferir a autonomia administrativa e financeira das instituições de ensino superior. Ademais, qualifica a participação dos órgãos político-representativos dos estudantes nos conselhos consultivos e fiscais de “intromissão indevida” e qualifica o direito à voz em sala de aula como “impróprio”. Afirma, ainda, que seu entendimento não seria denegatório da liberdade de expressão. Em que pese o voto do Min. Relator Dias Toffolli, no sentido de julgar integralmente procedente o pedido, a medida cautelar de suspensão da lei só pode ser julgada pela maioria absoluta dos membros do STF, nos termos do art. 10 da Lei n. 9868/99 (Lei da ADC e ADIn) (BRASIL, 1999), razão pela qual a Lei Estadual n. 14.808/05 permanece vigente enquanto não houver decisão na ADI 3757 que determine o contrário. Tendo em vista que a sessão foi interrompida por pedido de vista dos autos pelo Min. Luiz Roberto Barroso – com quem os autos, ainda físicos, estão desde 15/02/2015 –, o voto do Relator não foi ainda publicado. É possível, contudo, ter acesso ao conteúdo do voto, disponibilizado nas notícias do site do STF (SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL, 2015).

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2 Considerações sobre o mérito da questão

A região de Londrina, no norte do Paraná, possui ao todo 9 (nove) instituições

de ensino superior que ofertam cursos de direito. A única pública é a Universidade Estadual de Londrina. As demais instituições, todas privadas, são: Pontifícia Universidade Católica do Paraná – campus Londrina; Faculdade Pitágoras (pertencente ao Grupo Kroton); Universidade Norte do Paraná (Unopar), também pertencente ao Grupo Kroton; Faculdade Arthur Thomas – FAAT; Faculdade Norte Paranaense – Uninorte (hoje Unilondrina); Faculdade Catuaí; Faculdade Paranaense de Rolândia – Faccar; e Universidade Filadéldia – Unifil. No intuito de se obter um panorama ilustrativo de como tem sido exercido o direito de representação dos estudantes das instituições de ensino superior de Londrina e região foi fixado um parâmetro objetivo para possibilitar a comparação entre as universidades: a existência de órgão representativo estudantil (centro acadêmico). Poder-se-ia pesquisar a presença ou não de órgãos representativos estudantis em todos os cursos e à nível de instituição. Contudo, de modo a delimitar a discussão e afunilá-la em torno da realidade do ramo ao qual pertence esse trabalho, optou-se por tratar tão somente da representação estudantil nos cursos de Direito. Apenas excluiu-se desta pesquisa a Universidade Estadual de Londrina,

instituição à qual pertencem as autoras deste trabalho, cuja representação discente será abordada mais a frente dessa discussão.

A primeira tentativa de contato foi realizada em 25 de agosto de 2015. Foi feito

contato telefônico com todas as instituições de ensino superior acima listadas. Uma

vez explicado objetivo da coleta de informações, foi solicitado algum contato com o coordenador do curso de Direito. Apenas PUC, FAAT, Unifil e Uninorte forneceram os contatos (e-mails) de seus coordenadores e apenas a Unifil permitiu contato telefônico direto com o coordenador do curso. As demais instituições (Faculdade Pitágoras, Unopar, Faculdade Catuaí e Faccar) alegaram a ausência da coordenação no momento. Aos coordenadores que forneceram seus contatos, foi enviado um e-mail simples, questionando se na instituição haveria ou não centro acadêmico ativo no curso de Direito. Nessa primeira tentativa, apenas a Unifil respondeu, no dia seguinte, 26 de agosto de 2015, informando que existe Centro Acadêmico ativo, com

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participação nas reuniões de colegiado de curso, programadas para ocorrer 6 (seis) vezes ao ano. Não foi possível, até a conclusão deste trabalho, obter mais informações quanto ao CA de Direito dessa instituição. Em seguida, foi realizado novo contato com as instituições das quais não se obteve resposta (Faculdade Pitágoras, Unopar, Faculdade Catuaí, Faccar, PUC, FAAT, e Uninorte) no dia 28 de setembro de 2015. Novamente, foi primeiro realizado contato telefônico, sendo que forneceram o contato dos coordenadores do curso de direito as seguintes instituições: PUC, Faculdade Pitágoras, FAAT, Faculdade Catuaí e Faccar. Apenas na Faculdade Catuaí, nesta data, foi possível contato direto com o coordenador do curso. Não foi possível obter nenhum contato das instituições Unopar e Uninorte. Feito esse segundo contato, foram enviados e-mails às coordenações dos cursos de direito da PUC, Pitágoras, FAAT, Faculdade Catuaí e Faccar. As instituições PUC e Faculdade Pitágoras não responderam até a conclusão do trabalho de conclusão de curso apresentado por uma das autoras. A FAAT respondeu no mesmo dia, informando que a instituição não possui centro acadêmico ativo no curso de direito, mas que, contudo, existe uma articulação entre os estudantes para que houvesse, no futuro, um CA. No mais, a faculdade informou que existe participação discente no colegiado de curso, cujos estudantes que dele participam o fazem por meio dos representantes de sala. Contudo, uma das autoras deste trabalho, na qualidade de ex-diretora do Centro Acadêmico 7 de Março, do curso de Direito da UEL, já foi procurada por alunos do curso de Direito da FAAT que intencionam fundar um CA na instituição. Por sua vez, a Faculdade Catuaí respondeu no dia seguinte, 29 de setembro de 2015, informando que não há, ainda, órgão representativo estudantil do curso de direito na instituição, mas que, como forma de garantir de alguma forma a participação dos discentes, viabiliza reuniões mensais dos representantes de turma com a coordenação do curso para que sejam discutidos assuntos de ordem acadêmica. Contudo, uma das autoras deste trabalho, na qualidade de ex-diretora do Centro Acadêmico 7 de Março, do curso de Direito da UEL, já foi procurada por alunos da Faculdade Catuaí que intencionam fundar um CA na instituição. A coordenação do curso de direito da FACCAR também respondeu no mesmo dia, informando sobre a existência do Centro Acadêmico Treze de Março, que exerce a função representativa dos estudantes de curso. Em algumas visitas

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realizadas à instituição, novamente em função das atividades de uma das autoras relacionadas ao CA de direito da UEL, foi possível observar que o centro acadêmico da FACCAR frequentemente realiza campanhas de arrecadação, palestras, viagens acadêmicas para os alunos, agindo com amparo e ao lado da coordenação. A respeito das instituições Faculdade Pitágoras e PUC, quanto à primeira não foi possível obter nenhuma notícia de que haja alguma espécie de articulação dos

discentes. Já a respeito da PUC, em que pese a ausência de resposta de sua coordenação, sabe-se que o curso de direito possui, a título de órgão representativo,

o Centro Acadêmico Seis de Dezembro. Não foi possível obter informações a

respeito do seu exercício de representação nos conselhos e órgãos deliberativos da PUC, contudo, é uma instituição bastante ativa, que frequentemente promove debates, atividades acadêmicas, semanas jurídicas, etc 16 .

Por fim, quanto às instituições com as quais não foi possível estabelecer contato (Uninorte e Unopar), não tiveram as autoras acesso a nenhum indício de que haja alguma organização estudantil. Sabe-se que o curso de Direito da Universidade Estadual de Londrina conta com o Centro Acadêmico 7 de Março (CASM), fundando na década de 60 junto com

a graduação. O CASM, apesar de todas as dificuldades que enfrenta, ainda vive

uma realidade privilegiada em relação às demais instituições: possui uma sala ampla, na entrada do Centro de Estudos Sociais Aplicados (CESA), prédio em que se localizam as salas de aula do curso de Direito. A legislação da UEL prevê, em seu Regimento Geral, que os estudantes devem ocupar, no mínimo, 15% das cadeiras nos departamentos e colegiados. Desta forma, o Centro Acadêmico 7 de Março ocupa 7 (sete) cadeiras no departamento de direito público, 3 (três) cadeiras no departamento de direito privado e 2 (duas) cadeiras no colegiado do curso, espaços nos quais tem direito a voz e voto, podendo influir e participar das decisões atinentes à rotina do curso de direito da instituição. Desta forma, das 8 (oito) instituições privadas de ensino superior de Londrina e região, foi possível estabelecer contato com a coordenação de curso de 6 (seis) instituições (PUC, Faculdade Pitágoras, FAAT, Faculdade Catuaí, FACCAR e Unifil)

16 Interessante observar a página do facebook do Centro Acadêmico de Direito da PUC Londrina. Em que pese ser um meio informal de comunicação, é um espaço onde suas atividades são divulgadas. https://www.facebook.com/casd.puc

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sendo que, destas, 4 (quatro) responderam (FAAT, Faculdade Catuaí, FACCAR e Unifil). No total, pode-se concluir que possuem centro acadêmico ativo apenas três das oito instituições: PUC, FACCAR e Unifil. A FAAT e a Faculdade Catuaí, em que pese a inexistência de órgão representativo estudantil, de alguma forma viabilizam a participação de estudantes nos seus órgãos colegiados. A instituição que mais se aproxima do que estabelece a Lei Estadual n. 14.808/05 é a Universidade Estadual de Londrina, única pública da região.

2.1 Considerações jurídicas sobre a eficácia e a validade da Lei n. 14.808/05

Em que pese haja dados prejudicados, tendo em vista o ideal que a Lei Estadual paranaense n. 14.808/05 prevê e a realidade que se apresenta, é bastante claro que o movimento estudantil nas universidades carece de maior fomento. Frise- se, ademais, que o quadro que se apresenta é demasiado deficitário diante da vigência da Lei 14.808/05 – verifica-se que a lei é válida e vigente mas carece de eficácia. Apenas a título de reflexão, a validade é o vínculo estabelecido entre a proposição jurídica e o sistema de Direito posto, a passo que a vigência representa a obrigatoriedade de observância da norma (COUTO, 2014, p. 7-12). Assim, a Lei 14.808/05 é válida e vigente. Contudo, por que se observa que ainda há instituições de ensino superior que não possuem Centro Acadêmico ativo e institucionalizado? Assim se explica – dentre vários outros fatores que também corroboram para tal quadro – pela ausência de eficácia da norma, que se traduz na sua “idoneidade

as reações prescritas no seu consequente ou no ordenamento

para provocar [

jurídico” (COUTO, 2014, p. 7-12). A Lei em apreço, vigente e válida, carece de mecanismos que a tornem mais eficaz, a fim de que, um dia, todas as instituições de ensino superior, públicas e privadas, possam ter uma representação discente forte e operante.

A universidade, em decorrência das crescentes privatizações – que acabam também por influenciar as instituições públicas – e do crescente desvio de sua finalidade, vem transformando-se em organização social em vez de instituição social, conceito trazido pela professora Marilena Chaui (CHAUI, 2003) em seus estudos sobre a função da Universidade. As organizações são práticas sociais

]

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determinadas de acordo com sua instrumentalidade, sendo que não se ocupam de responder às contradições, mas sim de atingir metas e dados de produção para formar profissionais aptos ao mercado e ao próprio mercado poderem melhor atender.

Ao contrário, as universidades, conforme traz, deveriam manter-se como instituições sociais – que têm a sociedade como seu princípio e referência normativa e valorativa. Na instituição social é fundamental que haja o debate sobre a sua própria existência, sobre planejamento, gestão, autonomia, seu lugar na luta de classes. Esses debates, para as organizações (que são, como coloca Marilena Chaui, administrações, no sentido mercadológico da expressão), não existem, pois são dados de fato, informações prontas e já colocadas sobre a qual não cabe reforma ou discussão (CHAUI, 2003).

O direito à participação, por outro lado, é uma decorrência dos direitos

fundamentais de segunda dimensão, o qual, quanto mais influente se torna o poderio econômico nas decisões políticas e sociais, mais tem necessidade de ser exercido. Sua consolidação plena pressupõe a satisfação de uma série de “pressupostos de índole econômica, política e jurídica” (MENDES; BRANCO, 2012,

p. 756), por meio de ações positivas do Estado – quais sejam, medidas que visem garantir pressupostos materiais que criem condições do exercício do direito em apreço.

A garantia da participação nas instituições de ensino superior é medida

fundamental para que se não absorvam, aos poucos, as características das organizações sociais, sob pena de reproduzir dentro de si ambientes em que “Quem

sabe comanda quem não sabe. Quem sabe comanda e quem não sabe obedece, não tem voz, não pode manifestar sua opinião, mesmo quando o assunto diz respeito à qualidade de suas vidas.” (GADOTTI, 2014). A Lei Estadual n. 14.808/05 do Paraná é um mecanismo estatal, uma espécie de ação positiva, que obriga ao respeito do princípio democrático e da participação popular – consubstanciada na institucionalização de uma categoria mais específica, no caso, dos estudantes – dentro do ambiente das instituições de ensino superior. As universidades, instituições de ensino superior, devem ser locais que priorizem a construção democrática, que fomentem a “inclusão social, a cidadania,

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A importância destes apontamentos ultrapassam as questões meramente formais do academicismo. Eles tocam em uma pedagogia ideologicamente pautada no modelo capitalista, que tende a preterir os direitos sociais conquistados a altos custos 17, no intuito de impedir o debate e reflexão para que comportamentos contrários a este sejam adotados e os direitos fundamentais sejam realmente efetivados.

A representação discente possibilita o enriquecimento intelectual e social em

razão da participação do alunado na estrutura acadêmica – âmbitos de Ensino, Pesquisa e Extensão – por exemplo, através dos debates da estrutura curricular de um curso de nível superior, nas políticas de estágios, iniciação científica, ensino a distância, projeto político pedagógico dos cursos, acesso e permanência dos próprios alunos na instituição.

Conclusão

O que se vê, pela Lei Estadual do Paraná n. 14.808/05, é uma módica tentativa

de concretizar valores constitucionais como democracia, participação e acesso à administração pública, ao institucionalizar e proteger a representação discente nas instituições de ensino superior. Por ora, não é possível saber qual desfecho Luis Roberto Barroso. Contudo, deve-se pensar: se na vigência da Lei n. 14.808/05 já se observa, ao

menos na amostra dos cursos de Direito de Londrina e região, que a maioria dos cursos não possui representação legal institucionalizada, a retirada da lei do mundo jurídico por meio do julgamento procedente da ADI extinguiria de vez a representação estudantil/? Os movimentos sociais, em que pesem alguns fiquem sob a égide do estado legal, não nascem dele, e não deveriam deste depender para existir. Assim também é o movimento estudantil.

A legalidade não esgota o direito – muito pelo contrário, frequentemente se

mostra como instrumento de dominação, na exata contrapartida do que é justo. Em que pese a existência da Lei n. 14.808/05 acarrete alguns ganhos reais

17 Nota explicativa: Assim se coloca porque os direitos sociais, vez que dependem de uma prestação estatal positiva, geram ônus , gastos, para a sua efetivação. O exercício do ensino pela iniciativa privada, posto que se mantém como serviço público, não escapa a essas incumbências, das quais muitas instituições buscam esquivar-se no intuito de manter seus lucros.

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para o corpo estudantil, as bases do movimento não refletem, necessariamente, as

suas disposições, tendo em vista que são afetadas por inúmeras outras variantes de

ordem social e política – as quais devem ser aprimoradas, mais do que a própria lei,

para que possa se dizer que há eficácia no exercício dos direitos

constitucionalmente protegidos.

Ainda assim, no cenário de graves retrocessos após o golpe de estado de

2016, espera-se ao menos um futuro de permanência da Lei n. 14.808/05 no mundo

jurídico, porquanto afirmação mínima dos direitos dos estudantes. O que não se

pode, todavia, é dependermos dela para nos mobilizarmos.

Referências

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COUTO, Reinaldo. Considerações sobre a validade, vigência e eficácia das normas jurídicas. Revista do Centro de Estudos Judiciários (CEJ) do Conselho de Justiça Federal (CFJ), Brasília, ano XVIII, n. 64, set-dez/2014. p. 7-12. Disponível em: < http://www.jf.jus.br/ojs2/index.php/revcej/article/viewFile/1933/1858 >. Acesso em 01.out.2015.

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O MOVIMENTO AMBIENTALISTA NO CONTEXTO DOS NOVOS MOVIMENTOS SOCIAIS

THE ENVIROMENTAL MOVEMENT IN THE CONTEXT OF THE NEW SOCIAL MOVEMENTS

Jussara Romero Sanches 18

Resumo: Os movimentos sociais são importantes atores políticos na contemporaneidade. O movimento ambientalista se destaca em relação às propostas de proteção do meio ambiente. Propõem-se a discutir a localização deste movimento no contexto dos novos movimentos sociais. A partir de revisão bibliográfica sobre a temática se observou que, analisando teoricamente os movimentos sociais, é possível que algumas características sejam atribuídas aos novos movimentos sociais. Porém, também se percebe que algumas dessas características, consideradas novas, já poderiam ser encontradas nos antigos movimentos sociais. Dessa forma, poucos movimentos sociais “novos” poderiam ser, de fato, considerados como novos, como é o caso do movimento ambientalista. Palavras-chave: Movimentos Sociais; Novos Movimentos Sociais; Movimento Ambientalista;

Abstract: The social movements are important political actors in the contemporary world. The environmental movement stands out in relation to the proposals to protect the environment. It’s proposed a discussion about the location of this movement in the context of the new social movements. From a bibliographical review about this subject, it was observed that analyzing theoretically the social movements it’s possible that some of these characteristics are attributed to the new social movements. However, it can also be seen that some of these characteristics that are considered new, could already be found in the old social movements. That way, few

18 Mestranda do Programa de Direito Negocial da Universidade Estadual de Londrina. Bolsista CAPES. Especialista em Direito do Estado, área de concentração em Direito Constitucional e em Gestão, Licenciamento e Auditoria ambiental. Graduada em Direito e em Ciências Sociais. Pesquisadora vinculada aos projetos de pesquisa: “A aplicação da Justiça Ambiental nos Negócios Jurídicos Urbanos e Rurais” e “A Propriedade Privada e sua Proteção Ambiental”. E-mail:

jussararomerosanches@gmail.com

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“new” social movements could be considered as new, as is the case with the environmental movement. Keywords: Social Movements; New Social Movemenets; Enviromental Movement.

Considerações Introdutórias

No contexto da teoria dos movimentos sociais, se busca refletir se, de fato, os movimentos ambientalistas podem ser classificados como novos movimentos sociais. A hipótese levantada como norte da presente pesquisa é a de que os movimentos que envolvem questões ambientais são verdadeiramente novos, pois representam preocupações com o meio ambiente surgidas recentemente na história da humanidade. Enquanto os elementos que caracterizam os tidos como novos movimentos sociais, como questões que envolvem a melhoria da qualidade de vida, as diferentes formas de organização, as diferentes formas de ação ou dos novos componentes sociais, como os movimentos étnicos, nacionalistas, de gênero, religiosos, camponeses, podem, em certa medida, ser encontrados também nos movimentos sociais considerados clássicos. Para tanto, se recorreu à pesquisa bibliográfica e, na primeira seção, a discussão levantada, de forma breve, será a respeito do que se compreende teoricamente quanto aos movimentos sociais, seus principais elementos e como se caracterizam. A segunda seção aborda o desenvolvimento teórico sobre os novos movimento sociais e suas principais características. A terceira seção, por sua vez, cuida de apontar algumas considerações quanto ao surgimento do pensamento ambientalista.

1 Breves reflexões sobre a teoria dos movimentos sociais

O conceito de movimento social não possui uma definição única, em função de diversas interpretações e formas distintas de manifestação. No geral, os movimentos sociais são compreendidos como ações coletivas de cunho social e político, compostos por elementos de diferentes classes e camadas sociais. Sendo suas ações desenvolvidas em torno de temas, problemas e situações de conflitos compartilhados, que constroem entre seus integrantes, uma identidade

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compartilhada.

É o que se compreende das palavras de Maria da Glória Gohn (2003, p. 13) ao

afirmar que os movimentos sociais são “ações sociais coletivas de caráter sociopolítico e cultural que viabilizam distintas formas da população se organizar e

expressar suas demandas”. Ainda de acordo com a autora, esses movimentos sempre existiram e, provavelmente, sempre existirão.

Anthony Giddens (2013, p. 1151) analisa os movimentos sociais a partir do seu local de atuação e afirma que eles “são esforços coletivos para promover um interesse comum ou defender um objetivo comum fora da esfera das instituições estabelecidas”, a saber o Estado e os partidos políticos.

A partir das análises desenvolvidas na Europa sobre os movimentos sociais,

principalmente as que tiveram como inspiração os estudos de Marx, se convencionou classificar os movimentos sociais da classe trabalhadora e os sindicais, surgidos principalmente no século XIX, concentrados nos conflitos da produção e da distribuição das riquezas, como clássicos. A análise teórica desenvolvida se fundamenta, essencialmente, na perspectiva do conflito, e tem em Marx sua principal referência. No entanto, Maria da Glória Gohn (2004, p. 176) adverte que “Marx não se preocupou em criar uma teoria específica sobre os movimentos sociais, sobre a classe operária, o Estado ou qualquer outro ponto específico”. Dessa forma, a análise dos movimentos sociais se embasam em proposições teóricas que não se referem, especificamente, aos movimentos sociais. De acordo com a autora, as principais categorias que podem se relacionar com os movimentos sociais são as categorias de práxis: a práxis significativa, que se refere à práxis transformadora do social, realizada através da conexão entre atividade teórica (relacionada à crítica, interpretação e ao desenvolvimento de projetos de transformação), e a atividade produtiva/política (relacionada fundamentalmente com o mundo do trabalho) (GOHN, 2004). Maria da Glória Gohn (2004, p. 177) afirma que Marx explorou mais intensamente a questão da práxis política dos movimentos, que “surge como articulação entre a práxis teórica e a práxis produtiva propriamente dita, mediada pelas condições estruturais de desenvolvimento do processo social”. De acordo com a autora, para Marx não existe movimento político que não seja, ao mesmo tempo, social.

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Nos Estados Unidos, a Escola de Chicago pode ser apontada como uma das principais referências nos estudos sobre os movimentos sociais desde a década de 1920. De acordo com Anthony Giddens (2013, p. 1153), para os membros da Escola de Chicago, de forma geral, “os movimentos sociais são agentes da mudança social e não meramente os seus produtos”, uma das questões centrais dos movimentos sociais para essa abordagem seria a inquietação social, ou seja, a base de desenvolvimento deles estaria assentada em uma insatisfação social. Diante do exposto, é possível perceber que não existe um consenso entre os autores em torno de uma definição única de movimentos sociais. Dada a diversidade na qual os movimentos se desenvolvem, a teoria, em certa medida, reflete essa diversidade. Sendo que, para cada teórico, determinados aspectos dos movimentos se tornarão mais ou menos significativos, fazendo com que cada um deles traga elementos distintos para sua caracterização. Porém, ainda é possível pensar em movimentos sociais como formas de ação coletiva que buscam algum tipo de transformação social.

2 Aproximações iniciais acerca dos novos movimentos sociais

A partir do final década de 1960 e início da década 1970, tanto nos Estados Unidos quanto na Europa, as sociedades viveram uma ebulição social. Ângela Alonso (2009, p. 51) afirma que, inicialmente, os teóricos pensaram em tratar de um ressurgimento dos movimentos operários, porém estes “não se baseavam em classe, mas sobretudo em etnia (o movimento pelos direitos civis), gênero (o feminismo) e estilo de vida (o pacifismo e o ambientalismo) para focar nos mais proeminentes”. Estes movimentos sociais, surgidos no contexto de um mundo globalizado, que abarcam questões de reconhecimento, de etnia, de gênero, de nacionalidade, ambientais, entre outras, são classificados como novos movimentos sociais, uma vez que se deslocam da esfera da produção para a esfera da cultura, bem como por, supostamente, possuírem características novas que os antigos movimentos não possuíam. Neste sentido, Ângela Alonso (2009, p. 51) aponta que se tratavam de:

Jovens, mulheres, estudantes, profissionais liberais, sobretudo de classe média, empunhando bandeiras em princípio também novas: não mais

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voltadas para as condições de vida, ou para a redistribuição de recursos, mas para a qualidade de vida, e para afirmação da diversidade de estilos de vivê-la.

Para analisá-los a autora aponta o desenvolvimento de três vertentes de teorias dos movimentos sociais. A primeira delas é a Teoria de Mobilização de Recursos. Para essa corrente, o mais importante era a explicação do processo de mobilização desses movimentos. Neste sentido, Anthony Giddens (2013, p. 1158) afirma que, para a teoria da mobilização de recurso, “a insatisfação política não é suficiente para explicar a mudança social, uma vez que, na ausência de recursos, tal insatisfação não se transforma em força activa na sociedade”. Ângela Alonso (2009, p. 54) aponta ainda, quanto as Teoria do Processo Político – TPP e Teoria dos Novos Movimentos Sociais – TNMS, que “as duas constroem explicações macro-históricas que repelem a economia como chave explicativa e combinam política e cultura na explicação dos movimentos sociais”, porém, “a TPP investe numa teoria da mobilização política enquanto a TNMS se alicerça numa teoria da mudança social”. Para Maria da Glória Gohn (2004, p. 121), a teoria dos novos movimentos sociais surgiucomo uma reação em relação ao paradigma tradicional marxista, considerada inadequada por alguns teóricos: entre eles Touraine, Offe, Melucci, Laclau e Moufe, pois “partiram para a criação de esquemas interpretativos que enfatizavam a cultura, a ideologia, as lutas sociais cotidianas, a solidariedade entre as pessoas de um grupo ou movimento social e o processo de identidade criado”. A autora aponta algumas características que estão presentes nos novos movimentos sociais. A primeira delas é a centralidade da cultura, e a cultura aqui é compreendida como ideologia, mas não como representação falsa da realidade. A segunda característica, de acordo com Maria da Glória Gohn (2004, p. 122), seria de “negação do marxismo, como campo teórico capaz de dar conta da explicação da ação dos indivíduos e, por conseguinte, da ação coletiva da sociedade contemporânea”, o marxismo negado aqui, explica a autora, “refere-se a sua corrente clássica, tradicional, vista como ortodoxa”. A terceira característica se relaciona com a perspectiva sob a qual o indivíduo atuante dentro dos movimentos sociais é analisado. Anteriormente visto como sujeito predeterminado pelas contradições do capitalismo, a partir dessa nova abordagem, os integrantes das ações coletivas são vistos como atores sociais. A

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quarta característica está relacionada àesfera política que, de acordo com Maria da Glória Gohn (2004, p. 123), ganha centralidade e é significativamente redefinida, “deixa de ser um nível numa escala em que há hierarquias e determinações e passa a ser uma dimensão da vida social, abarcando todas as práticas sociais”. Com relação às teorias que analisam os movimentos sociais nas sociedades contemporâneas, Andréia Galvão (2011, p. 108) afirma que elas surgiram “buscando negar a relevância da dimensão de classe e a centralidade da luta de classes: quer seja a teoria dos novos movimentos sociais, da mobilização de recursos, da mobilização política (em menor medida) e do reconhecimento”. O objetivo se torna cultural, pós-materialista, no sentido de colocar em foco as identidades, o reconhecimento, de maneira que não é possível vincular essas questões ao pertencimento de classe dos atores. Anthony Giddens (2013) também aponta alguns elementos que caracterizariam os novos movimentos sociais. O primeiro se refere à introdução de novas questões nos sistemas políticos, questões que, como já foi apontado, fogem da esfera puramente material, questões essas que envolvem a qualidade de vida, conforme já mencionado. Outra característica apontada pelo autor, são as novas formas de organização, ou seja, muitos deles se organizam informalmente e recusam organização formal, elemento que os teóricos da mobilização de recursos identificavam como essencial para o sucesso (GIDDENS, 2013). A forma de ação também é apontada pelo autor como uma das características inéditas dos novos movimentos sociais. A adoção de posturas pacifistas em suas ações diretas e a utilização ostensiva dos meios de comunicação para angariar apoio. Outra característica apontada por Anthony Giddens (2013, p. 1161), a partir de estudos realizados sobre os membros desses novos movimentos sociais que revelam “a predominância da <<nova>> classe média no seu seio, desde funcionários do aparelho burocrático do Estado-Providência do pós-guerra a profissionais nos domínios da criação, da arte e da educação, incluindo ainda muitos estudantes”. No entanto, o próprio autor já identifica algumas críticas em relação à teoria dos novos movimentos sociais, pautada nas novas características que foram elencadas acima. Anthony Giddens (2013, p. 1165) afirma que “todas as supostas características ‘novas’ acima identificadas foram encontradas nos ‘antigos’ movimentos sociais”. E o autor elenca algumas dessas constatações.

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A primeira, referente aos valores pós-materialistas, que já podiam ser

encontrados em movimentos de pequenas comunas do século XIX. A questão concernente à identidade também era possível de ser identificadanos movimentos nacionalistas e nos primeiros movimentos das mulheres. Em relação à organização,

muitos dos novos movimentos sociais, de acordo com Anthony Giddens (2013, p. 1165), “desenvolveram organizações formais que se tornaram mais burocráticas do que a própria teoria permitiria conceber”. É neste sentido que vai a análise desenvolvida por André Gunder Frank e

Marta Fuentes (1989, p. 19), no ensaio “Dez teses acerca dos movimentos sociais”, a primeira tese desenvolvida pelos autores, além de afirmar que os movimentos sociais “clássicos” são relativamente novos, aponta que “os ‘novos’ movimentos sociais não são novos, ainda que tenham algumas características novas”.

Ao desdobrarem esta primeira tese, os autores afirmam que os movimentos

operários, da classe trabalhadora, que foram classificados como “clássicos”,ese desenvolveram, principalmenteno século XIX, aparecem mais como um fenômeno transitório. Por outro lado, André Gunder Frank e Marta Fuentes (1989, p. 21) afirmam que “os movimentos camponeses, de comunidades locais, étnicos/nacionalistas, religiosos e até de mulheres/feministas existiram durante séculos e até milênios em muitos lugares do mundo”. Dessa forma, de acordo com os autores, os “novos” movimentos sociais aparecem de forma numerosa, ao longo da história europeia, por exemplo.

Alguns dos exemplos que os autores utilizam são: as revoltas de escravos em Roma; movimentos e guerras camponesas do século XVI na Alemanha; conflitos

étnicos e nacionais em todo o continente europeu; caça às bruxas e repressões contra mulheres no século XII, e o movimento das Beguinas.

O movimento das Beguinas, por exemplo, se constituiu enquanto um

movimento questionador dos dogmas da Igreja e do modo de vida que era imposto às mulheres. As primeiras comunidades de Beguinas apareceram entre o século XII e XIII nos países baixos. De acordo com Amanda Oliveira da Silva Pontes (2015, p.

6), o movimento possuía um “aspecto profundamente emancipatório, as beguinarias constituíam uma alternativa de vida religiosa leiga no qual as mulheres, não querendo se vincular à vida monástica, nem tampouco adquirir matrimônio, faziam dessas comunidades uma opção de vida”. Dessa forma é possível perceber um caráter forte de contestação e de afirmação de uma identidade feminina e de

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emancipação do papel social atribuído à mulher da época. Lieve Troch (2013, p. 7), em relação ao movimento das Beguinas, afirma que “até o século XVI na Europa Ocidental, este foi um movimento muito influente no âmbito religioso”, sendo possível encontrar resquícios do movimento na Bélgica, Alemanha e França. O que demonstra que, guardadas as devidas proporções e considerando as limitações físicas da época, caracteriza-se por um movimento que se difundiu pela região da Europa Ocidental. Diante dos exemplos utilizados pelos autores, André Gunder Frank e Marta Fuentes (1989, p. 21) afirmam que “só os movimentos ecológicos/verdes e os pacifistas podem ser chamados de ‘novos’, e isto porque respondem a necessidades sociais que foram geradas mais recentemente pelo desenvolvimento mundial”. Diante dessa afirmação a seção seguinte levantará, não de forma exaustiva, alguns apontamentos a respeito do desenvolvimento desses movimentos considerados ecológico ou verdes.

3 Movimento ambientalista no contexto dos novos movimentos sociais

Durante muito tempo, a natureza não foi compreendida pelo homem como uma questão que viesse a ser núcleo de grandes questionamentos práticos. Filosoficamente, como afirma Paulo de Bessa Antunes (2002, p. 6), ela “foi uma parceira constante na longa e emocionante epopeia do pensamento helênico, em todas as suas múltiplas dimensões”. Mas não foi objeto de preocupações que demandavam cuidados especiais, uma vez que “os recursos ambientais não eram escassos”. A modernidade marca sensivelmente uma mudança no modo como o homem se relaciona com natureza, e diante da insustentabilidade que essa relação demonstra ter, desperta na humanidade a percepção de que ela deve ser alterada. Paulo de Bessa Antunes (2002) aponta alguns pensadores que foram precursores dos movimentos que se preocuparam com a natureza e o primeiro deles é Jean- Jacques Rousseau. Paulo de Bessa Antunes (2002, p. 34) afirma que Rousseau “foi, certamente, um dos críticos mais acerbados do processo de construção do mundo moderno que se verificou a partir do Século XVI e das grandes navegações, da construção dos estados nacionais e da paulatina e constante construção da ordem individualista”.

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Rousseau, como afirma o autor, buscava estabelecer a supremacia da vontade geral, que, por se tratar da expressão legitima dos interesses da comunidade, deixa de lado o individualismo e busca o bem comum (ANTUNES, 2002). É com base no pensamento de Rousseau, que Henry David Thoureau desenvolveu seu pensamento. Thoureau, para Paulo de Bessa Antunes (2002, p. 38), “é seguramente o principal inspirador do pensamento ecológico moderno”, que se materializa em movimentos de defesa da natureza e do meio ambiente. A natureza, bem como a vida selvagem, constituía a base para a preservação da vida humana e do mundo, e, de acordo com o pensamento de Thoureau, a civilização e a vida urbana eram os responsáveis pela degradação e pela decadência da vida (ANTUNES, 2002). Thoureau aponta que a vontade da maioria não pode ser o método de tomada de decisões, uma vez que o princípio majoritário se utiliza muitas vezes da força, oprimindo e submetendo as minorias discordantes. Dessa forma, apesar de reconhecer o princípio majoritário desenvolvido por Rousseau, Thoureau aponta que ele somente será legítimo se respeitar as minorias, garantindo sua liberdade de oposição em caso de discordância com o pensamento majoritário (ANTUNES,

2002).

Para sintetizar o pensamento do autor, em relação à necessidade de respeito às minorias, inspirado na natureza, Paulo de Bessa Antunes (2002, p. 44) afirma que “as diferentes formas de vida harmonizam-se baseadas em um princípio que não é o da maioria, mas, isto sim, o do equilíbrio”. Em relação ao surgimento do pensamento ambientalista, Selene Herculano (1992, p. 3) aponta para sua origem no século XVIII e coloca como características comuns “a crítica à ciência moderna e a um ser humano que, via conhecimento, se arroga o direito de domar a natureza, dela pretendendo ser independente”. A natureza, na modernidade, passa ser compreendida como fonte de recursos a serem utilizados para a satisfação das necessidades humanas. No século XX, o pensamento ambientalista preserva a crítica em relação ao mundo moderno e sua ciência, principalmente diante da utilização de bombas atômicas. Ao final da 2ª Guerra Mundial, Selene Herculano (1992, p. 4) afirma que “os habitantes do planeta deram-se conta de que o conhecimento humano acabava de atingir uma etapa pela qual tornava-se capaz de destruir o mundo todo”. Esses questionamentos, conjugados com o enaltecimento de concepções de vida orientais,

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resultaram no movimento hippie, caracterizado pela recusa ao mundo moderno e por uma visão crítica em relação ao Estado, ao industrialismo totalitário (HERCULANO,

1992).

Outra vertente do pensamento ambientalista destacada pela autora é conhecida como neo-malthusiana, que tem como núcleo a proposta de limitar a população terrestre, com objetivo de evitar a degradação ambiental e, consequentemente, da qualidade de vida (HERCULANO, 1992). Outras correntes ambientalistas são abordadas pela autora, como as perspectivas denominadas zerista e marxista. A perspectiva zerista, com inspiração no Relatório intitulado “Limites do Crescimento”, publicado em 1972, que propunha um crescimento zero. As perspectivas estabelecidas no documento não eram otimistas. Conforme é possível verificar nas palavras de Donella H. Meadows et al. (1978, p. 188), “estamos unanimemente convencidos de que uma emenda rápida e radical na situação mundial, atualmente desequilibrada e em perigosa deterioração, é a tarefa fundamental com que se defronta a humanidade”, porém a perspectiva de crescimento zero, dada sua radicalidade, não convenceu alguns países, principalmente os que ainda buscavam ou buscam desenvolver-se. No mesmo período de 1972, Selene Herculano (1989, p. 6) aponta para a contribuição da perspectiva marxista, que questionava o consumismo extremo fomentado pelos interesses da indústria capitalista e o responsabilizando pela degradação ambiental, a “forma de combatê-lo seria combatendo o capitalismo e não fazendo campanhas anticonsumistas dirigidas aos indivíduos”. Apesar de terem sido apontadas algumas tendências ambientalistas, a riqueza e a diversidade do movimento são incalculáveis. No entanto, o que se destaca é a compressão recente de que a própria sobrevivência do homem depende das escolhas de como ele se portará diante de um meio do qual ele faz parte.

Considerações Finais

Os novos movimentos sociais possuem algumas características que, supostamente, tornam possível falar em “novos movimentos sociais”. No entanto, verifica-se que essas características que os tornariam novos, já existiam no movimentos sociais considerados antigos. Dessa forma, os que se compreendem

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como “novos movimentos sociais” não seriam tão novos assim. Apenas alguns deles

poderiam receber de forma adequada essa rotulação e o movimento ambientalista é

um deles.

Os movimentos que se voltam para questões ambientais refletem as

preocupações que surgem no contexto de expansão e consolidação da

industrialização e intenso desenvolvimento tecnológico. Colocam-se como

preocupações recentes na história do homem, marcadas principalmente a partir da

modernidade e intensificadas de forma significativa a partir da década de 1970.

Dessa forma, aspectos que classificariam os “novos movimentos sociais” como

novos, destacando-se o aspecto cultural, questionamentos de gênero e etnia, novas

formas de organização e apelo a novos meios de comunicação, não

necessariamente podem ser utilizados como meios de caracterização de novidade,

uma vez que esses aspectos, em menor ou maior grau, já poderiam ser identificados

nos movimentos sociais considerados como antigos.

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OCUPAR E RESISTIR (CANÇÃO)

Eu ocupei uma escola Mas queria ocupar, o seu coração Ficarei na sua cola na espera de uma integração

Integração de amor querendo você flor venha comigo pra onde for Sinta comigo esse calor

Vooooou, Ocupar e Resistir! Seu coração vou ocupar E você não vai resistir

Mesmo com reintegração daqui não vou sair Vou, ocupar e resistir.

19 Contato: wellingtonlima85@gmail.com

Wellington Tiago 19

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OCUPAR OU RESISTIR?

Wellington Tiago 20

Sem dúvida alguma, as ocupações no estado do Paraná e em todo o Brasil entraram para a história. Todavia, os muitos casos específicos compõem um quadro heterogêneo. Assim, sem dúvida alguma, as ocupações de Campo Largo. Dos 24 colégios do município, 12 foram ocupados, todos na mesma semana e alguns no mesmo dia. Era esse o assunto na capa do jornal da cidade, era sobre isso que as instâncias municipais comentavam. Mas qual era o nosso objetivo? Ocupar? Ou ocupar, lutar e resistir? Tudo isso tinha um tom de loucura, de intensidade, onde a todo momento chegavam mensagens no seu celular, fotos dos colégios sendo ocupados. Eu, na ocasião presente de grêmio estudantil, fui muito pressionado a realizar a ocupação. Decidimos fazer uma assembleia, na qual o resultado foi negativo para uma possível ocupação, então fomos às ruas. Queríamos demonstrar que estávamos na luta. Participei de quase todas as ocupações de Campo Largo, e vi de perto os problemas com drogas, sexo, brigas etc. Eu gostaria muito de escrever esse texto feliz, por saber que os 18 dias na luta valeram a pena, porque a PEC e a MP não passaram, mas infelizmente não foi esse o resultado, e a nossa luta árdua, sem apoio da maioria da população, fez com que a nossa vontade de lutar fosse engolida pela vontade de chorar. E choramos, talvez não com lágrimas, mas com suor, pelo fato de não sabermos se ocupávamos ou resistíamos. Talvez as duas coisas.

20 Contato: wellingtonlima85@gmail.com

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RELATO DE EXPERIENCIA DA OKUPAÇÃO DO MARL (MOVIMENTO DOS ARTISTAS

DE RUA DE LONDRINA)

Danilo do Amaral Santos Lagoeiro Lucas Godoy Fagner Souza Herbert Proença Pedro José Rafael Avansini Ruthe Oliveira Valéria Barreiros Melissa Campus Edilson Oliveira João Paulo Poças Dayane Anhaia Fábio José Sandra Regina Luis Mioto Vinicius Kafo Ana Paula Berehulka Cláudia Silva Jaqueline Vieira Lucas Turino Ezequiel Solliban 21

O texto abaixo é o texto-manifesto da okupação do prédio da Avenida Duque de Caxias 3241 realizada como estratégia de mobilização popular do Movimento dos Artistas de Rua de Londrina (MARL). No contexto do II Congresso de Direito Vivo este manifesto servirá como disparador para o debate, assim como os vídeos:

“Lugar das vivências”, Vídeo-documentário do projeto cultural a Maré, e “Ecoh na Okupa” produzidos durante os dez meses de okupação no local.

21 Movimento dos Artistas de Rua de Londrina (MARL). Contato: artistasderuadelondrina@gmail.com

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Okupação permanente e cultural da antiga sede da ULES em Londrina

O Movimento dos Artistas de Rua de Londrina (MARL), junto aos coletivos e movimentos sociais listados abaixo, comunica à comunidade e aos órgãos públicos de Londrina que, a partir de agora, dia 27 de junho de 2016 – dia nacional de luta do teatro de rua – passa a ocupar pacificamente, permanentemente e poeticamente o barracão da antiga sede da ULES, localizado na Avenida Duque de Caxias, n. 3241. O MARL surge em 2012, reunindo vários coletivos de teatro, circo, artes visuais, cinema, música, hip-hop e artesanato, na luta pela ocupação dos espaços públicos, pela garantia do direito à livre expressão artística, por políticas públicas para as artes públicas e pela democratização e descentralização do acesso e produção culturais. As primeiras pautas do Movimento foram a “Lei do Artista de Rua” – que conseguimos aprovar no final de 2014 – e a cessão de um espaço público que servisse de sede para os coletivos e como equipamento cultural comunitário para usufruto da população. Desde 2012, exigimos da prefeitura uma listagem dos espaços públicos ociosos que poderiam passar a cumprir sua função social através de uma ocupação cultural. Nunca obtivemos essa lista, nem qualquer resposta por parte da burocracia municipal. Mesmo assim, nesse período, houve diversas concessões de terrenos da prefeitura para empresas privadas. Londrina é reconhecida por uma intensa atividade artística, por uma grande profusão de festivais, mostras e grupos de diversas linguagens. Por outro lado, é extremamente deficiente em equipamentos culturais. Existem poucos e os que existem estão aos cacos. A situação é ainda pior nas periferias, onde praticamente não existem. É que o forte da cidade não é a arte, mas a especulação imobiliária. Sendo assim, um shopping fica pronto em 6 meses e um teatro municipal não fica pronto em 50 anos, e acaba sendo engolido pelo shopping. Diversos espaços ociosos, que poderiam abrigar coletivos artísticos, ensaios, oficinas, apresentações, bibliotecas, exibições de cinema, etc., correm o risco de serem arrebatados por algum empreendimento megalomaníaco, dando muito lucro para poucos, e erguendo barreiras a quase todos. Por aqui temos desde 2002 a política de Vilas Culturais, financiadas através do Programa Municipal de Incentivo a Cultura, que atende uma pequena parte da demanda de manutenção de grupos e atividades culturais. Entretanto, além do baixo

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orçamento destinado a essas políticas, as 7 vilas que mantém convênio com a prefeitura atualmente funcionam em espaços privados alugados. O que faz com que aproximadamente 70% das verbas de custeio desses projetos seja consumido em pagamento de aluguel. Não concordamos com essa transferência dos cofres públicos para a iniciativa privada, uma vez que as Vilas Culturais poderia funcionar em imóveis públicos cedidos pela prefeitura, garantindo maior estabilidade e continuidade às suas atividades. Nesse sentido elaboramos um projeto de ocupação para o prédio em questão, que vem sendo pensado desde 2014, a partir de reverberações do 14ª Encontro da Rede Brasileira de Teatro de Rua, sediado em Londrina. Nos inspiramos em várias experiências semelhantes, recentes e duradoras, que têm dado certo em São Paulo, Acre, Rio de Janeiro, Pernambuco e outros lugares do Brasil e do mundo. Uma das experiências mais emblemáticas é da sede do Instituto Pombas Urbanas, que há mais de 12 anos ocupa o espaço de um supermercado abandonado na Cidade Tiradentes, Zona Leste de São Paulo. Quando o grupo entrou no barracão, só haviam as paredes e entulho, em pouco tempo, havia uma sede. Hoje o prédio abriga uma biblioteca, um teatro, sala de ensaios e sedia vários grupos independentes formados a partir de oficinas de teatro com a comunidade. O espaço que estamos ocupando durante muito tempo foi gerido pela entidade estudantil dos secundaristas, a ULES. Mas está há mais de 10 anos abandonado e com vários problemas estruturais. O MARL junto aos coletivos parceiros se compromete a realizar a reforma do barracão de modo a deixá-lo em condições de abrigar as atividades de ensaio dos grupos, oficinas para a população, eventos, reuniões, uma biblioteca e uma horta comunitária. O espaço também servirá como sede para o próximo Encontro Nacional da Rede Brasileira de Teatro de Rua que acontecerá entre os dias 01 e 10 de dezembro desse ano. Exigimos imediatamente a cessão oficial do imóvel público ao Movimento dos Artistas de Rua de Londrina, bem como a imediata ligação de água e energia, para que possamos dar início às atividades programadas. Exigimos que a Prefeitura divulgue a listagem de espaços públicos que não cumprem função social para que outros coletivos culturais, artísticos e educativos tenham onde realizar seus trabalhos. Exigimos a permanência e a manutenção, com condições dignas de estrutura, do Centro Cultural Wãre, que abriga atualmente 30 famílias da comunidade indígena

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Kaingang, povo originário desta terra, que vem sendo boicotada e pressionada a deixar o local. Exigimos a imediata revisão do projeto de reforma da Praça Pedro Bezzarini, no Jardim Igapó e a apuração das irregularidades que permeiam todo o processo. Exigimos que as periferias deixem de ser palco de chacinas e violência do Estado. Defendemos que a violência seja combatida através de políticas pública de cultura, educação e saúde e não de repressão. Arte pública é saúde pública, educação pública e segurança pública. Convidamos todos os fazedores e militantes da Cultura a unir esforços na garantia da ocupação para que ela se torne um ponto público e autogerido de fomentação e trocas artísticas. Convidamos também as autoridades do Município para conhecerem nosso projeto e abrirmos um canal de diálogo.

“Se não nos deixam sonhar, não os deixaremos dormir em paz”. Ocupa eu, ocupa tu, ocupa todo mundo. Evoé.

MARL - Movimento dos Artistas de Rua de Londrina Coletivo Cão sem Plumas Movimento Cultura Londrina contra o Retrocesso Cia. Teatro de Garagem Núcleo Ás de Paus Cia. Palhaços de Rua Cia. Curumim Açu Cia. Boi Voador Fábrica de Teatro do Oprimido Maracatu Semente de Angola Teatro Kaos Comitê Passe Livre Frente Anti-Fascista Comunidade Kaingang MACUL - Movimento Artesanato é Cultura Clã Pé Vermelho- Permacultura e Bio-construção Movimento Punk

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Fábrica do Teatro do Oprimido

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SLAM RESISTÊNCIA: A POESIA COMO ARTE DE RESISTÊNCIA

Ana Cláudia Duarte Pinheiro 22 Nádilla Marques da Silva 23

Resumo: A partir de uma pesquisa qualitativa e exploratória, o estudo pretende demonstrar o papel da arte, mais especificamente a poesia, como sendo um instrumento capaz de resistência social. A poesia é aquilo que inspira, comove, sensibiliza e desperta sentimentos. Nessa perspectiva, a pesquisa abordou versos divulgados pelos poetas e poetisas do grupo Slam Resistência que utilizam os espaços públicos com a intenção de debater e divulgar a poesia falada. As letras autorais retratam diversos problemas sociais, como machismo, homofobia, falta de políticas públicas, racismo, intolerância às religiões de matriz africana, entre outros. Os encontros são marcados pela diversidade, todo o segmento da sociedade civil está convidado a participar, seja criança, idoso, jovem, rico ou pobre. O palco é livre, portanto, o microfone é aberto para toda e qualquer pessoa que queira participar, isso demonstra que todo indivíduo é capaz de opinar sobre a arte, independentemente de seu grau acadêmico, convicção política ou filosófica, gênero, origem ou classe social. Além dessa atividade, os encontros oportunizam discussões sobre possíveis intervenções políticas, sociais e culturais. Sendo assim, ao longo do estudo será possível traçar um paralelo entre as poesias do Slam Resistência, com o poder da arte em transformar e resistir, seja expondo realidades, criticando, proporcionando uma reflexão sobre o cotidiano ou sugerindo mudanças. Palavras-chave: Slam Resistência. Arte. Ferramenta Social. Transformação.

Introdução

O germe desse trabalho nasce da observação do poder da arte, seja expressa por meio da dança, pintura, música, escultura, teatro ou poesia, em proporcionar

22 Docente do Curso de Graduação em Direito da Universidade Estadual de Londrina, doutoranda em Geografia Dinâmica Socioambiental da Universidade Estadual de Londrina. Email:

acdphs@yahoo.com.br.

23 Aluna do quinto ano do Curso de Direito da Universidade Estadual de Londrina-UEL e colaboradora no projeto “Dissemina Ambiental”, vinculado ao Programa de Formação Complementar Disseminação de trabalhos de conclusão do curso de graduação em Direito: processo de integração da comunidade acadêmica interna e externa. Email: nadilla-marques@hotmail.com

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liberdade e resistência a seus atores. Além do que, espelha as realidades tendo o poder de atrair os olhares de outros e estimular a reflexão, mesmo que seja à distância. A arte é uma forma de refúgio em que muitos encontram abrigo. A arte é um grito promissor que tem ganhado espaço em meio a tantos muros sociais “invisíveis”, que se baseiam no individualismo, materialismo e tantos outros “ismos”, gerando divisões e o fim da convivência. Neste cenário, boa parte da sociedade continua indiferente. Frente a essa inércia, o presente trabalho objetiva colocar em foco a discussão sobre a arte de resistência e ressaltar a importância da poesia, como uma verdadeira ferramenta de transformação social que promove a reflexão e estimula a participação. Escolheu-se o trabalho da equipe de poetas e poetisas do Slam Resistência, grupo conhecido por suas letras de forte cunho social, que proporcionam por meio da poesia falada uma reflexão sobre o cotidiano de uma parcela da sociedade, considerada invisível. As letras retratam diversos problemas sociais, sendo os mais recorrentes:

(ausência de políticas públicas, estigmas preconceituosos, desemprego, machismo, homofobia, intolerância às religiões de matriz africana, classismo, naturalidade do estupro e guetofobia). Deste modo, ao longo da pesquisa será explicitada a contribuição da poesia ativista difundida pelos apresentadores do Slam Resistência, como um verdadeiro remédio cognitivo capaz de revolucionar, transformar e resistir.

1 O que é slam

Slam ou poetry slam (batida de poesia) são encontros gratuitos que ocupam teatros, praças, escolas, presídios, ruas ou centro culturais com a finalidade de divulgar a poesia falada (spoken word). Assim sendo, “o Slam tem jogado fora as algemas que dizem quando e como a poesia deve ser apresentada, além de trazer de volta a prática da arte de ouvir, e da apreciação da riqueza da língua”, (ZAP, 2010, p. 02). Nesses encontros ocorrem batalhas de poesia com o microfone aberto para quem quiser participar, não há público-alvo, fazendo-se presentes crianças, jovens e idosos, com diferentes crenças, orientações filosóficas e posicionamentos políticos,

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que se reúnem em comunhão para ouvir e divulgar a poesia. Destarte, a diversidade é uma característica marcante desses encontros. Nas apresentações não é permitido o uso de adereços, fantasias, acompanhamento musical, objetos e qualquer outro auxílio visual, isto porque, o foco está nas palavras e no alcance de sua propagação. As letras dos poemas podem versar sobre qualquer assunto e estilo, desde que sejam originais e de autoria do apresentador. Lembrando-se que os poetas podem citar trechos de obras de outros autores. Ainda, a repetição de poemas não é possível dentro da mesma competição e, o tempo de duração de cada apresentação é de três minutos, sendo que depois desse período existe um tempo de “graça” contabilizando dez segundos, após esse tempo serão aplicadas penalidades consoante os minutosultrapassados. As poesias e performances são apresentadas e, logo em seguida, submetidas ao crivo do júri popular que avaliará, basicamente, dois aspectos: a poesia e o desempenho da interpretação. As notas variam de zero a dez. Idealizado na década de 80, em Chicago, Estados Unidos, o Slam trouxe uma nova cara para os monótonos encontros de leitura de poesias.

Criado por Marc Kelly Smith, trabalhador da construção civil, em Chicago, nos anos 80, o Slam trouxe uma renovação para a poesia oral e valorizou a arte da performance poética, crescendo rapidamente e se propagando por todo mundo. Estima-se hoje que existam pelo menos 500 comunidades de Slam em países como Irlanda, Inglaterra, Austrália, Zimbabwe, Madagascar, Israel, Singapura, Polônia, Itália e até mesmo no Pólo Sul, no Hawaí e agora no Brasil, sendo que as maiores comunidades fora dos EUA estão na França e na Alemanha. (ZAP, 2010, p. 01).

Na França, esse movimento ganhou força nos anos 90, com a missão de “promouvoir les performances et les créations de poésie, en cultivant la créativité, d'ouvrir les esprits, de renforcer l'éducation, d'encourager les artistes, et d'engager les communautés du monde entier dans l'art du langage”. (FFDSP, 2015, p. 01). 24 Embora não tenha sido tema de reflexão do autor Milton Santos, o movimento se fortalece na descrição por ele apresentada quando discute a mundialização perversa das transformações do espaço, onde por inferência, se inclui o cenário urbano com sua carga de opressão e desigualdade que levam a manifestações de tal natureza:

24 Fédération Française de Slam Poésie

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Concentração e centralização da economia e do poder político, cultura de massa, cientificização da burocracia, tudo isso forma a base de um acirramento das desigualdades entre países e classes sociais, assim como

da opressão e desintegração do indivíduo (

)

(SANTOS, 2014, p. 21).

Além das competições, o Slam tem caráter comunitário e inclusivo, representando uma simbólica e importante ocupação dos espaços públicos, em especial, urbanos, por meio da resistência e da arte.

2 História do slam resistência

Segundo informações retiradas do site Cidade Lúdica, o Slam Resistência surgiu em 2014 para fortalecer os movimentos sociais e o enfrentamento político na busca de justiça, investimentos em questões socioculturais e igualdade, tendo como precursor e idealizador o artista e poeta slammer Del Chaves. Desde a infância Chaves demonstrou possuir facilidades em compor rimas e redações, apaixonado pela poesia, cresceu fazendo paródias de músicas brasileiras e escutando artistas e bandas como Chico Science, Gabriel o Pensador, Rage Against the Machine e Racionais MC's. Antes da criação do Slam Resistência, o poeta frequentava outros Slams como o ZAP – Zona Autônoma da Palavra, o primeiro do Brasil, fundado no ano de 2008 com o objetivo de celebrar a palavra. Frequentou também o Slam da Guilhermina, criado no final de fevereiro de 2012, com a proposta de fazer batalhas de poesias e recitais livres. O nome Slam Resistência faz alusão à reunião entre movimentos sociais e advogados ativistas denominados de “Quinta Resistência”, que depois de repressões do governo por meio de policiais militares coibiu a realização de manifestações, debates e outros atos públicos na Praça Franklin Roosevelt, área central de São Paulo. Diante disso, esse movimento convocou a todos para fazer parte da “Quinta Geração”, desde então, esse coletivo promove encontros na Praça Roosevelt com o objetivo de ocupar esse espaço público, para assim alcançar a finalidade para a qual foi criado, isto é, conhecer pessoas, socializar, manifestar, divulgar a arte, praticar esporte, fazer reuniões e debates, intervenções, trazer vida à cidade e uma nova concepção sobre a vida comunitária. Celebrando a ocupação cultural e artística pela

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resistência. Segundo a página do Slam Resistência nas redes sociais:

Slam Resistência surgiu no fogo da poesia envolvida nas lutas sociais! Rimando fatos que não rolam no fantástico, mandando ideias de #FOGO contra esses papos de plástico. Podemos considerar as revoltas sociais que concorrem para a mudança do panorama social como uma cirurgia necessária, a fim de depor os regimes totalitários e seus representantes e, em esfera mais ampla, extinguir o tipo de politica que engendra o padrão atual de governos e governantes. Trata-se de uma cirurgia de erradicação de políticos de baixo nível, nocivos as coletividades e ao nosso nível evolutivo. O Slam Resistência surgiu desse abençoado fluxo humanitarista de ativistas e de enfrentamento.político.(DEL CHAVES, 2016, p. 01).

Consoante ao que foi dito, a jornalista Bartira Fortes diz:

As vozes das ruas ecoam através dos muros, que embora altos não são surdos. […] O que resta de gosto das tantas bocas famintas é a fome de transformação. Mesmo desgostosa, a palavra grita, cria, vocifera o anseio por libertação. As vozes das ruas podem soar estridentes para os ouvidos

indiferentes. Para os que são silenciados cotidianamente não há grito agudo

suficiente. Poetizar é ação! [

Slam Resistência é esse ato expurgante,

que transforma por um instante a voz oprimida em palavra ressoante. (FORTES, 2016, p. 01).

]

Atualmente, o encontro entre o público e os poetas acontece às 19:00, toda primeira segunda-feira do mês, na escadaria da Praça Franklin Roosevelt com a Rua Augusta, na área central da cidade de São Paulo.

O encontro oportuniza a competição de batalhas de poesias autorais no

modelo “spoken word”, isto é, poesias faladas, na qual o poeta apresenta suas letras num período máximo de três minutos com a proibição de utilização de objetos

cênicos ou acompanhamento musical.

A competição é gratuita e não precisa de inscrição prévia, então o microfone é

livre a todos aqueles que queiram participar, seja mulher, criança, jovem ou idoso, “É só chegar”.

As notas recebidas pelas letras e performances são dadas por um júri popular

formado espontaneamente por cinco pessoas da plateia, minutos antes das

apresentações.

O valor atribuído aos recitais varia de zero a dez, sendo que a maior e menor

nota são descartadas. Importante destacar que o grupo preconiza o lema: “seja mídia”, ou seja, informe, comunique, solte a voz, não importa como, desde que não se cale. É necessário ser resistência, defendendo e divulgando a realidade sobre a cultura

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urbana contra os ataques classistas e repressivos. Os vencedores das batalhas finais reúnem-se numa grande competição, o Campeonato Brasileiro de Poesia Falada, que acontece no mês de dezembro, promovido pelo Slam-BR. O poeta ou poetisa consagrado campeão participa da Copa do Mundo de Slam, na França, entre slammers de todo o mundo. Além das batalhas de poesias os encontros oportunizam oficinas, eventos e discussões sobre possíveis “intervenções sócio-culturais no meio da babylônia de concreto”. Palavras retiradas da página oficial do grupo, no Facebook.

O

Slam Resistência vem na sintonia dos protestos, dos movimentos sociais

e

do enfrentamento político ativo em defesas culturais/sociais, sócio-

ambientais e contra truculência do Estado para com os manifestantes! (SLAM RESISTÊNCIA, 2016, p. 01).

Ressalta-se que o foco do “Slam” não está nas batalhas, mas sim na poesia, na mensagem passada, na troca de experiências e no aprendizado, “A poesia é mais importante que a competição e a batalha em si. A poesia sempre vence”, (CHAVES, 2016, p. 03). Nessa perspectiva, o Slam Resistência lançou o livro intitulado “Vandalismo Lírico”, a primeira obra da equipe que reúne as poesias vitoriosas mais importantes de vinte autores. Diversos são os temas abordados nas composições: violência policial, igualdade de gênero, machismo, desigualdade social, racismo e política, sendo os temas mais recorrentes. Por meio das composições os apresentadores criticam, sugerem, levantam denúncias, opinam e criam uma atmosfera reflexiva indicando que as poesias ali faladas possuem o poder de transformar o mundo.

Imagem 1 - Apresentação na Praça Franklin Roosevelt

que as poesias ali faladas possuem o poder de transformar o mundo. Imagem 1 - Apresentação

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Fonte: http://cidadeludica.com.br/2016/08/13/slam-resistencia-batalha-de-poesia-conecta- publico-a-poetas-na-praca-roosevelt/

Imagem 2 - Apresentação na Praça Franklin Roosevelt

Imagem 2 - Apresentação na Praça Franklin Roosevelt . Fonte:

.

Fonte: http://cidadeludica.com.br/2016/08/01/e-dia-de-slam-resistencia-na-roosevelt/

Essas fotografias retratam com fidelidade os encontros de divulgação de poesias realizados pelo u Resistência, na Praça Franklin Roosevelt, localizada na área central de São Paulo. O espaço reúne em sua grande maioria jovens, mas todos são bem-vindos.

3 A poesia como ferramenta de transformação social

A arte é uma manifestação pela qual o ser humano transparece suas impressões pessoais, emoções, ideias, sugestões com o fito de estimular mudanças e realizar transferências de conhecimento. Desde o seu surgimento, a arte tem ganhado importantíssimo espaço na vida em sociedade. Pensar em arte é pensar em diversidade, inclusão social, saúde, educação, meio ambiente e participação. É pensar na vida e na existência, na dignidade, no passado e no futuro. Diversas são as formas de expressar-se pela arte: dança, poesia, pintura, música, literatura, cinema, escultura. Porém, o presente trabalho optou pelo estudo da arte manifestada pela poesia. Antes de definir ou conceituar a palavra, importante destacar que para o

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movimento, a poesia é um momento de encarar as incontáveis crises civilizacionais de humanidade que o cenário da vida apresenta cotidianamente a cada um dos indivíduos que reagem de formas tão díspares. A poesia é uma reação dentre as muitas possibilidades. Quanto às crises da vida contemporânea, Plauto Faraco de Azevedo contribui:

O desconcerto de nosso tempo reflete uma crise de civilização sem

precedentes, pela sua extensão e profundidade. O que a caracteriza é a perda de rumos, a falta de perspectivas, sensíveis nas diversas dimensões do inter-relacionamento humano e nas várias concepções em que assentam. Vivemos em um mundo dilacerado pela desigualdade e pela injustiça, em que uma dentre cada quatro pessoas sobrevive abaixo das

condições mínimas indispensáveis à dignidade humana. (

)Tudo evidencia

a insofismável crise civilizacional presente, a tudo permeando – a política, a economia, o direito, a democracia, a ética, a ciência –, tudo indicando um

paradigma científico superado, em meio à difícil emergência de um outro, capaz de abranger e compreender a multiplicidade e a interligação de todas

as dimensões da vida. (AZEVEDO, 2014, p. 13).

O vocábulo “poesia” originou-se do latim “poetize”, gênero literário,

caracterizado, em sentido figurado como aquilo que comove, encanta, sensibiliza. É uma manifestação artística de beleza e estética retratada por meio de palavras.

A poesia é a tradução em palavras do universo desconhecido das

emoções, é uma esfera pouco compreendida, que tenta muitas vezes transmitir significados nas entrelinhas dos versos. Este edifício constituído pela magia das palavras revestidas de sonoridades, estruturas rítmicas e

visuais, por significações latentes, desvela a alma humana, dá espaço para que ela expresse suas inquietações e anseios interiores. Os poemas pulsam e vibram com uma vitalidade específica, comunicando ao leitor a própria essência da linguagem. Neles as palavras se combinam compondo sintaxes, ou seja, um quebra-cabeça onde cada peça se encaixa perfeitamente, mas sempre pode ser combinada de outra forma, criando e recriando novas possibilidades. (SANTANA, 2016, p. 01, grifo do autor).

Ao longo do tempo, a poesia foi usada como instrumento para expressar os

mais diferentes sentimentos: tristeza, amor, angústia, saudade, alegria, etc. Atualmente, além de expressar esses sentimentos, a poesia aborda também, temas

de cunho social, imprimindo a aproximação da realidade e do cotidiano de cada indivíduo. Assim sendo, a humanidade imprime seus anseios, preocupações, percepções e emoções por intermédio da poesia. Contudo, essa manifestação de arte durante um período permaneceu estrita a determinados grupos e aos poucos está se

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expandindo. Combatendo esse pensamento restritivo, a spoken word surgiu numa tentativa de divulgar a poesia além dos muros que a separavam de toda a coletividade. Assim, a poesia falada foi criada:

Numa tentativa de resgatar a tradição oral da literatura e, ao mesmo tempo, de levar a poesia para além dos limites das universidades, bibliotecas e instituições que a tornavam sacra, os beats produziram uma literatura para ser recitada e ouvida, como música, e não para ficar restrita aos limites da folha de papel do livro empoeirado na estante. O costume de ler poesia em público cresceu muito nos Estados Unidos depois que esses poetas introduziram essa prática de grande valor social e de enorme potencial transformador, em razão de sua função coesiva. […] A leitura de poesia em público nos ajuda a entender a grande repercussão e abalo social causado pela beat generation. Pensaram que era possível aprofundar a autonomia da arte e ao mesmo tempo reintegrá-la à vida, generalizar as experiências e transformá-las em fenômenos coletivos. (SANTOS, 2004, p. 03).

Principiando que a poesia é linguagem universal e também uma ferramenta de transformação social, percebe-se que o trabalho do grupo Slam Resistência dá voz a todos, partindo da ideia que toda pessoa é capaz de opinar sobre arte. Cada obra é rica e possui suas peculiaridades, tendo significado único, o que pode ser observado a partir das apresentações na Praça Roosevelt. Deste modo, os Slams são uma grande rede que promove transformação de pensamentos, atitudes e conceitos, com a missão de fortalecer os coletivos artísticos e resgatar a integração da sociedade. Portanto, o Slam – não apenas o Slam Resistência, bem como os demais – democratizou a poesia promovendo encontros gratuitos em espaços públicos, praças, bares, ruas e centro culturais, realizando verdadeiras ocupações desses espaços.

4 Poesias

A seguir será exposto a letra de poemas autorais de três participantes dos recitais proporcionados pelo Slam Resistência, esses poemas encontram-se publicados em redes sociais. Segundo Paulo Leminski o “vídeo-poesia é o futuro da poesia, um suporte material importantíssimo […] É um poema vivo”, partindo desse pensamento, o Slam Resistência elaborou uma página nas redes sociais para divulgar os vídeo-poemas e informar também sobre acontecimentos no Brasil e mundo.

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Essa ocupação nos espaços virtuais faz com que a poesia ganhe cada vez mais repercussão, publicidade e força de comunicação, apresentando realidades esquecidas, por intermédio de mensagens refletivas. O primeiro poema é da poetisa Jade Fanny, ganhadora das batalhas do mês de novembro/2016.

Então cença aqui, eles vivem dizendo que sou folgada, mas Ó, hoje até licença eu pedi. Já ouvi vários deles rimar sobre poder pras minas, mas me intriga, por que após vem sempre aquela frase … "Ela poderia ser sua filha” mãe, esposa, irmã, prima. Parece ser algo de 50 anos atrás, mas não, ainda hoje se estivermos sozinhas no espaço público ou privado, sem que um homem nos acompanhe, há algo de errado. Até que ponto é inconsciente seu psiu na rua? Até que ponto é considerada normal sua conduta? Atração? Imposição, socialização? Impulso? Abuso! Me recuso. Ma tenho que sair de casa todos os dias traçando rotas mentais mais seguras, tendo que calcular segundos, minutos, horas. Pra que dê tempo de chegar em casa ao final do dia sem ter sido violentada FISICAMENTE. Porque no primeiro passo que dou pra fora, sou bombardeada por agressões, as faladas, as olhadas, as silenciadas… Mas ok, de acordo com a poesia se eu não for da sua família, MERECIA. Afinal quem mandou sair de casa sozinha? Normalmente eu não presto, mas prestei atenção no seu verso que dizia, se ela quer dar, deixe que dê mesmo, sem dó, sem medo e entendi nas entrelinhas que você só é à favor disso se também estiver comendo e cês adora dizer que deve se respeitar uma mulher por ela poder ser mãe se na real quem merece palmas são vocês que podem ser pais. Que se não quiser assumir tem liberdade de mete o pé e sai vazado em paz. Se não fosse trágico, seria engraçado. Chegou no sarau, em uma mão o mic na outra ergueu o punho serrado, gritou pra todo mundo ouvir que era pelo "FIM DO PATRIARCADO". Falou de primavera feminista na camiseta? escrito #ficaquerida. Mas conhece, um cara que quando bebê fica agressivo já bateu na companheira duas vezes, mas fazer oque se ele é seu amigo Faz now pow, deixou a barba crescer, acredita na luta de classes. E pra lavar uma louça? Os bonito num tem coragem. Já leu Simone de Beauvoir, admira Dandara, fala de Maria Bonita acredita em Iemanja e não tem vergonha na cara. Não admite receber não de mulheres e alimenta a disputa, se é contrariado sai chorando e diz que é tudo puta. Seus relacionamentos são a base do amor livre Magnetiza mulheres de baixa alto estima pro ranking. Usa como desculpa pra manter sua masculinidade aflorada e perfeita, se a proposta dela for com outra mulher tem fetiche e se for com outro homem não aceita? É, a sua máscara caiu, a sua atuação de desconstruído faliu, a sua construção te destruiu, tu viu? Que não adianta querer ganhar biscoito por ser o melhor do coito, pica das galáxias, o rei delas, porque a gente sabe, o autor do seu livro sobre feminismo é conhecido como Dado Dolabella. (FANNY, 2016).

Em uma linguagem coloquial a poetisa expressa a angústia diária que tantas mulheres vivenciam no seu dia a dia e que resultam de uma cultura de valorização do masculino e que se dissemina por todas as classes sociais. Ao destacar mulheres que são consideradas expoentes lembra que seus exemplos pouco valem na cultura de desvalorização do feminino. A próxima poesia citada pertence ao secundarista, Lucas Penteado Kóka,

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morador de São Paulo, vencedor da edição dezembro de 2016.

Era uma vez… Não, para! Que isso aqui não é conto de fadas! E a história que vai ser relatada é só realidade. Conta as memórias de uma vida pacata que esmagou a maldade. 1996, quatro horas da manhã, dilatação de 4 dedos, mas não tinha parteiros. A saúde onde eu moro me dá nos nervos. Nome da mãe? Andréia, preta, nesse mundo é treta. Quando madura via que a vida era dura, parecia que Deus olhava e dizia: - Poucas ideias. Prazer! Sou sim o desgraçado, como o engravatado tinha me falado. É, mas ele ficou impressionado, porque além de ser negro drama também sou um negro estudado. Porém na academia da hipocrisia, a matéria que eu não entendia eles querem tirar, mas um dia, um dia eu chego na universidade. Eles nem tão ligado que a vida serviu de faculdade, tinha apenas três matérias: Miséria, Escravatura e Infelicidade, pois é Brasil, eu nunca tive um “but” de mil, mas no sistema eu vou tentar dar uma bota, por que eu quero ver meu bem, quando no ENEM eu tirar 100 eles falarem que foi cota. (KÓGA, 2016).

Ao expor questões como saúde e educação, o poeta “coloca o dedo na ferida” da desigualdade econômica e social além de destacar o preconceito de raça, muitas vezes velado, mas sempre cruel. Traz a realidade vivenciada por grande parte da população que se encontra em condição de marginalidade sem o direito de ter e de usufruir direitos. Ainda, destaca-se a poesia recitada pelo slammer Rafael Carnevali, que abordou o tema opressão no Brasil.

Extra, extra, extra, extra

o povo mais chocado do que a distribuição gratuita de balas por

desconhecidos fardados. O outro lado, o lado que é menos visto, o lado que é mais julgado. Desse lado mais um jovem se foi executado, por falar o que

não devia, mas será que não devia? Se falava o que sentia, o que vivia…

Diz ai como pode julgar ostentação, quem sempre teve brinquedo, os panos, refeição. Como pode julgar o rancor com os homi, quem nunca se sentiu oprimido em becos que qualquer neguinho é fácil confundido com bandido. O muleque iniciava sua caminhada e começava a brilhar. O brilho

suas ideias, seus anseios,

suas dores, a verdade cantou. O cano da ponto 40 em meio a seu show POW POW… Daniel Pelegrine pelegrinou para o outro lado, pelo tráfico, pelas drogas, pelo destiLADO, por um grupo de extermínio que caça, que

afronta o currupto ligado, foram para o outro lado, por cantarem, por gritarem os anseios do outro lado do muro. Do Mc boladão, primo, careca, Amarildo, claúdios, os pixadores, o camelô, eduardo de 10 anos, seres da oeste, da norte, da sul, da leste. Difícil de entender não é pobre burguês, você que legitima esses atos, que apoia e ri do outro lado. Alá o gatela falando tem que matar mesmo, mata mesmo esse tudo neguinho de favela, vagabundo. Burguês, você não sabe o que é favela, você que nunca pegou transporte lotado, nunca tomou enquadro abusivo, vice com um copo de whisky na mão. Você do outro lado dos muros, das grades de condomínios,

nos olhos transmitia que só queria

por ingestão de 25 doses de vodka, deixou

morte

CANTAR,

da

televisão, com medo de andar pela rua e que todos os negros do mundo

te

agridam. Mas desse lado as lágrimas caiem, os corações humanos, os

corações iguais que nutrem a terra com a semente da revolta, pois não há mais volta. Levaram pai, o amigo, o irmão, por mãos que se intitulam a LEI,

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mas eu sei, vocês sabem quem são. Um salve a todos que nuca deixarão de cantar ou gritar o que vivem. Contra o genocídio da população preta, pobre e periférica. Movimento rock, rap, funk, afroreggae, skate, poesia, porque por mais que não satisfaça, se tem amor, que tenha quem faça. São mais guerreiros que ficaram na memória e esse é só o outro lado da história, o que a porra da Globo nunca nos mostra. (CARNEVALI, 2015).

As indicações apresentadas pelo poeta expressam a opressão das grandes diferenças sociais que colocam seres humanos em lados opostos dos muros. Ao mencionar o beco escuro e o condomínio, nada mais faz do que demonstrar as grandes desigualdades que enveredam pela violência fazendo do pobre o bandido e do rico a vítima, ideia que se dissemina e alcança todos os seguimentos sociais e se perpetua mantendo a ordem ou desordem vigente.

A intenção desse tópico é demonstrar o poder da palavra rimada e a fertilidade

das poesias levadas em discussão pelos apresentadores, retratando suas lutas, esperanças, críticas e percepções. Em espaços urbanos os pensadores da vida e do

cotidiano, expressam a sociedade para a sociedade e por meio do conhecimento disseminado nos encontros, cria-se e estimula-se o respeito e a tolerância, instrumentos de combate e resistência social.

Conclusão

A arte pode ser expressa nas mais diversificadas formas de manifestação, porém, mais precisamente por meio da poesia, é uma rica contribuição de transformação e revolução social, uma vez que trabalha sob os pilares da diversidade, participação e inclusão, integrando indivíduos que compartilham pensamentos nem sempre comuns que resultam de experiências suas ou não, mas que lhes impactam fortemente.

A poética política, por exemplo, é uma verdadeira bandeira de resistência e de

ativismo, é uma poesia que causa impacto social por apontar problemas e discutir

soluções diante da inércia do poder público e da própria sociedade. Além da ideia de resistir, há também o objetivo de articular novos

pensamentos, visando esclarecer e empoderar o coletivo para promover a permanência e a integração da diversidade.

A arte de guerrilha retrata a luta e o fortalecimento das manifestações que cada

vez mais se utilizam de espaços públicos, permitindo que a sociedade contribua, participe e saiba quais são as necessidades, interesses e reivindicações e chegue

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aos poderes instituídos.

Portanto, o coletivo Slam Resistência, por meio da poesia, como um protesto

pacífico nas atitudes e combativo nas palavras é muito criativo. Além do que,

oportuniza e estimulaum espaço de interação entre diversos segmentos da

sociedade civil e, ainda, possibilita um campo de construção mental onde se

percebe que todos, independentemente de quem seja, têm muito para contribuir com

a coletividade.

Referências

AZEVEDO, Plauto Faraco. Ecocivilização. 3.ed. rev. atual. e ampl. São Paulo:

Editora Revista dos Tribunais. 2014. ISBN 978-85-203-5287-8

CIDADE LÚDICA. Slam Resistência ocupa a Praça Roosevelt. 2016. Disponível em: <http://cidadeludica.com.br/2016/07/03/slam-resistencia-ocupa-a-praca- roosevelt/>. Acesso em: 10 mar. 2017.

CIDADE LÚDICA. É dia de Slam Resistência na Roosevelt!. 2016. Disponível em:

<http://cidadeludica.com.br/2016/08/01/e-dia-de-slam-resistencia-na-roosevelt/>

Acesso em: 20 mar. 2017.

FFDSP. Fédération Française de Slam Poésie. 2015. Disponível em:

<http://www.ffdsp.com/>. Acesso em: 13 mar. 2017.

FORTES, Bartira. O Ativismo Poético do Slam Resistência: Entrevista com Del Chaves. 2016. Disponível em: <https://caliban.pt/o-ativismo-po%C3%A9tico-do- slam-resist%C3%AAncia-cb23c4d01234#.opamdljch> Acesso em: 17 mar. 2017.

MIRANDA. Fernanda. Slam Resistência: batalha de poesia conecta público a poetas na Praça Roosevelt. 2016. Disponível em:

<http://cidadeludica.com.br/2016/08/13/slam-resistencia-batalha-de-poesia-conecta-

publico-a-poetas-na-praca-roosevelt/>Acesso em: 10 mar. 2017.

Outras Rimas. Paulo Leminski Fala Sobre A Poesia do Futuro – Fragmentos 1. 2014. Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=Sku9F9KPLRE> Acesso em: 20 mar. 2017.

SANTANA, Ana Lucia. Poesia. [2016]. Disponível em:

<http://www.infoescola.com/literatura/poesia/>. Acesso em: 14 mar. 2017.

SANTOS, Lucas Moreira. 2004. Beat Bat Bump! Bebop! Dig it?? Ensaiando com Beatniks: A Musicalidade Jazzística de uma Poética Espontânea.

SANTOS, Milton. Metamorfoses do Espaço Habitado: Fundamentos teóricos e metodológicos da Geografia. Em colaboração com Denise Elias. 6 ed. 2 reimp.

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São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo. 2014. ISBN 978-85-314-1044-4

SLAM RESISTÊNCIA. 2016. Disponível em:

<https://www.facebook.com/slamresistencia/>. Acesso 10 mar. 2017.

Slam Resistência –Poeta Rafael Carnevalli falando sobre a realidade opressora brasileira. 2015. Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=P3gzwY- WECo>. Acesso em: 15 mar. 2017.

Sociedade dos Poetas Livres. Slam Resistência – Lucas Penteado Kóka (Vencedor edição de Dezembro). 2016. Disponível em:

<https://www.youtube.com/watch?v=zRD81DYoMcQ>. Acesso em: 15 mar. 2017.

Sociedade dos Poetas Livres. Slam Resistência – Jade Fanny ganhadora de Novembro. 2016. Disponível em:

<https://www.youtube.com/watch?v=lgyn9UwYByE>. Acesso em: 15 mar. 2017.

ZAP um Slam Brasileiro. Mas que Raios é SLAM?!? 2010. Disponível em:

<http://zapslam.blogspot.com.br/2009/05/mas-que-raios-e-slam.html> Acesso em: 20 mar. 2017.

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GRUPO DE TRABALHO 2

DEMOCRATIZAÇÃO E SOCIALIZAÇÃO DOS MEIOS DE COMUNICAÇÃO: A MÍDIA, ENTRE A REGULAÇÃO E AS LUTAS SOCIAIS

Ementa: O GT está aberto para receber trabalhos em diversos formatos que coloquem em questão o papel dos meios de comunicação na sociedade contemporânea. Interessa particularmente o debate urgente sobre a democratização dos meios de comunicação. Numa época de crise e lutas sociais tão fortes, será a regulação o caminho eficiente para inviabilizar o uso da mídia para a manutenção da dominação e desigualdade sociais? Ou estamos diante de experiências que apontam para outros caminhos, pautados pela efetiva socialização dos meios de comunicação? Serão muito bem vindas apresentações que trabalhem com temáticas relativas ao debate jurídico sobre mídia, mas também aqueles que comentem a prática de uma outra comunicação.

Coordenador: Manoel Dourado Bastos (manoel.bastos@gmail.com).

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A ESPETACULARIZAÇÃO DO MOVIMENTO BRASIL LIVRE: UMA ANÁLISE COMPARATIVA COM A SOCIEDADE DO ESPETÁCULO DE DEBORD 25 .

Júlia Frank de Moura 26

Resumo: O presente trabalho tem como objetivo um estudo comparativo do discurso do Movimento Brasil Livre (MBL) com o livro “Sociedade do espetáculo” de Debord. Utiliza-se como base e corpus da pesquisa o vídeo de divulgação do canal do MBL no YouTube, denominado ‘filie-se ao MBL!’. Justifica-se a importância da pesquisa para auxiliar na compreensão da tamanha dimensão que o coletivo tomou em pouco tempo, recrutando um público formado principalmente por jovens brasileiros, os levando a pensamentos e ideais muitas vezes caracterizados por pontos neoliberais. Utiliza-se a definição de discurso dada por Orlandi, de que com o discurso se observa o homem falando. Palavras-chave: Movimento Brasil Livre, sociedade do espetáculo, análise comparativa.

Introdução

O Movimento Brasil Livre (MBL) surgiu no final de 2014 como um coletivo que se autodenominava apartidário e a solução para os problemas políticos brasileiros, pregando pela “liberdade” do país que, segundo os líderes do movimento, estaria preso pelo governo do PT. O objetivo deste trabalho é fazer uma análise comparativa do discurso deste coletivo com a sociedade do espetáculo, descrita no livro “A sociedade do espetáculo” de Guy Debord, apontando as semelhanças dos mesmos, utilizando como corpus da pesquisa o vídeo de divulgação do canal do Movimento no YouTube, “filie-se ao mbl!”. Segundo Debord, o espetáculo seria a relação social de pessoas mediatizadas por imagens e, tendo em vista que o principal canal de comunicação entre o MBL e seus seguidores é a internet, o movimento utiliza imagens e vídeos como sua principal fonte de informação e disseminação de conteúdo, criando assim sua própria sociedade mediatizada, ou

25 Trabalho orientado pelo professor Dr. Manoel Dourado Bastos, Departamento de comunicação da UEL. 26 Universidade Estadual de Londrina (UEL). juliafdmoura@gmail.com.

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seja, uma sociedade do espetáculo própria do coletivo. Com mais de 2 milhões de curtidas no Facebook e mais de 41 mil inscritos no YouTube em menos de 2 anos e meio, é importante compreender a espetacularização desse movimento para que se possa entender, até mesmo, o comportamento desta grande fatia jovem do Brasil que se forma moldada nestas ideologias. Debord aborda na análise de seu livro que o espetáculo “reúne o separado, mas reúne-o enquanto separado”, o que traz à discussão o consumo deste modelo espetacularizado de coletivo enquanto modo de diferenciação social. Com isso surgem perguntas como: consumiria o jovem a ideologia do MBL para fazer parte de uma fatia diferenciada da população?

Metodologia e corpus da pesquisa.

Como método de pesquisa, e também para uma melhor organização do texto, será utilizado o estudo comparativo, apontando as semelhanças entre o texto de Debord e o discurso do Movimento Brasil Livre. John Stuart Mill, em sua obra “Sistema de lógica dedutiva e indutiva” propõe duas maneiras de comparação:

Os métodos mais simples e familiares de escolher entre as circunstâncias que precedem ou seguem um fenômeno, aquelas às quais esse fenômeno está realmente ligado por uma lei invariável são dois: um consiste em comparar os diferentes casos em que o fenômeno ocorre; o outro, em comparar casos em que o fenômeno não ocorre. Esses dois métodos podem ser respectivamente denominados o método de concordância e o método de diferença. (MILL, 1984, p. 196)

No seguinte trabalho será utilizado o método de concordância do estudo comparativo, ou seja, analisa-se os diferentes casos em que o fenômeno da espetacularização ocorre (no livro, no discurso do MBL), apontando no discurso do vídeo do MBL semelhanças com o livro de Guy Debord. Aqui, utiliza-se discurso como Eni Orlandi o descreve em seu livro “Análise de Discurso: princípios e procedimentos”, etimologicamente definindo “discurso” como “palavra em movimento, prática de linguagem: com o estudo do discurso observa-se o homem

falando” (ORLANDI, 2002, p.15). Ainda segundo Orlandi “[

o discurso é o lugar em

que se pode observar essa relação entre língua e ideologia, compreendendo-se como a língua produz sentidos por/para os sujeitos” (ORLANDI, 2002, p. 17). Importante destacar que nenhum discurso é completamente livre de expor ideologias, mesmo quando um grupo se coloca e se autodefine como apartidário. O Movimento Brasil Livre surgiu no Brasil no final de 2014, em um momento

]

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conturbado politicamente, logo após a reeleição da presidenta Dilma Rousseff com 51,6% dos votos e a intensificação das movimentações para os pedidos de impeachment da presidenta. Neste momento manifestações de grupos como o MBL, “Vem pra Rua” e “Revoltados Online” se intensificava e ganhava mais visibilidade. Em 2015, o coletivo promoveu uma caminhada de São Paulo a Brasília e encaminhou um dos pedidos de impeachment. Em 2016 o impeachment aconteceu de fato, afastando Dilma do poder. Mesmo depois da destituição de Dilma do poder o movimento continuou a ganhar força, utilizando a ideia de que o Brasil estaria cada vez mais perto da liberdade, sendo preciso agora focar nas eleições de 2018 e, segundo o movimento, se afastar cada vez mais de ser uma “nova Venezuela”. O vídeo escolhido como corpus da pesquisa é o utilizado como divulgação do canal do MBL no YouTube e tem como título ‘filie-se ao MBL 27 ’. Justifica-se a escolha deste vídeo pelo fato de ser o mais destacado dentre todos os envios do canal no momento, e de ser utilizado como propaganda principal do MBL dentro de seu canal no YouTube. Filie-se ao MBL tem mais de 15 mil visualizações 28 em dois meses de divulgação, foi publicado no dia 1 de fevereiro de 2017 e tem 1 minuto e 38 segundos de duração. Figura 1 - Print do vídeo escolhido como corpus da pesquisa

1 - Print do vídeo escolhido como corpus da pesquisa 2 7 https://www.youtube.com/watch?v=yf5JRNdaew4 2 8

27 https://www.youtube.com/watch?v=yf5JRNdaew4

28 Dado coletado no dia 21 de abril de 2017

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O vídeo começa com a marca d’água do movimento em frente ao congresso, com time lapses do dia que o MBL acampou em Brasília, provavelmente após uma marcha promovida pelo movimento no ano de 2015 29 . Em seguida, o vídeo explora notícias de fatos políticos ocorridos no Brasil, como o impeachment, que segundo o coletivo foram mudanças positivas que o MBL ajudou a causar no país: “novos líderes passam a defender ideias liberais e o respeito ao dinheiro das pessoas passa a ser o centro do debate nacional” é uma das frases proferidas pelo narrador do vídeo. “Mudamos o país para melhor, mas não paramos por aqui”, “queremos desmascarar candidaturas que possam levar tudo a perder em 2018”,“queremos contrapor a imprensa esquerdista”, essas frases são seguidas do pedido para que os seguidores se filiem e contribuam com o movimento, e então são apresentados os planos que o filiado pode ter, que variam de R$30,00 a R$250,00 por mês, este último incluindo jantares com os líderes do coletivo. Todas essas informações são ilustradas com uma série de imagens, que incluem vídeos de discursos do movimento em manifestações e líderes do movimento convidando seguidores com as mãos (figura abaixo).

Figura 2 - líderes do MBL convidam seguidores a se filiarem

2 - líderes do MBL convidam seguidores a se filiarem 2 9

29

http://tv.estadao.com.br/politica,movimento-brasil-livre-inicia-marcha-de-sao-paulo-a-

brasilia,398794

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Análise comparativa

Sociedade do espetáculo é um livro de Guy Debord, publicado em 1967. Mais tarde a obra também virou um filme 30 dirigido pelo próprio autor. Neste trabalho, Debord aborda que toda vida das sociedades que são comandadas pelas condições modernas de produção é um conjunto de espetáculos e tudo que antes era vivido diretamente pelas pessoas, agora é representação. No filme, o autor cita que “sob todas suas formas particulares, informação ou propaganda, publicidade ou consumo direto de divertimentos, o espetáculo constitui o modelo presente da vida socialmente dominante” (Filme Sociedade do Espetáculo, Guy Debord 1973, 4’ 39’’). E complementa: “Considerado segundo seus próprios termos, o espetáculo é a afirmação da aparência e a afirmação de toda a vida humana, isto é, social, como simples aparência” (Filme Sociedade do Espetáculo, Guy Debord 1973, 5’ 34’’). Uma das reflexões de Debord no livro Sociedade do espetáculo é a de que:

O espetáculo se apresenta como uma enorme positividade, indiscutível e inacessível. Não diz nada além de “o que aparece é bom, o que é bom aparece”. A atitude que por princípio ele exige é a da aceitação passiva que, de fato, ele já obteve por seu modo de aparecer sem réplica, por seu monopólio da aparência. (DEBORD, p. 16)

Para os pesquisadores do MBL, e mesmo para quem já tenha algum repertório sobre o coletivo, não é difícil comparar o seu discurso com o trecho acima de Debord. Sempre apresentado como um movimento grandioso, que ganha cada vez mais espaço e seguidores, com ideologias positivas, segundo seus líderes, o MBL traz a mensagem de que seus ideais são bons, se colocam como o lado certo indiscutivelmente. Tal colocação do movimento é percebida desde seu slogan, que atualmente é “faça parte do movimento que está mudando o Brasil”. O MBL se coloca como algo grandioso, positivo e indiscutível, como o espetáculo de Debord, ao se auto afirmar como o movimento que está mudando o país. Não é só com frases que o movimento se afirma grandioso, os frames utilizados nos vídeos também são escolhidos para transmitirem essa grandiosidade do espetáculo.

30 https://www.youtube.com/watch?v=q0AJ66Rb-1o

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Figura 3 - Frame do vídeo destaca um dos líderes do movimento na multidão

do vídeo destaca um dos líderes do movimento na multidão Sobre a figura apresentada acima, cabe-se

Sobre a figura apresentada acima, cabe-se destacar a posição do líder, Fernando Holiday, em relação à multidão de seguidores do MBL. No vídeo, Fernando se ajoelha perante a manifestação, mas continua ocupando lugar de destaque, o local de líder, quase como um Messias levando a mensagem do movimento. Se observado como espécie de messias, o MBL também pode ser comparado com o seguinte trecho de Debord: “O espetáculo é a reconstrução material da ilusão religiosa. A técnica espetacular não dissipou as nuvens religiosas onde os homens tinham colocado os seus próprios poderes desligados de si: ela ligou-os somente a uma base terrestre.” (DEBORD, p.20). No vídeo analisado, trechos como “Mudamos o país para melhor, mas não paramos por aqui. O MBL precisa da sua ajuda para completar sua missão” e “queremos tornar o Brasil, enfim, livre” carregam certo teor messiânico. Marilena Chauí, uma das autoras brasileiras que trata do nacionalismo, chama a ideologia nacionalista dentro do Brasil de verdeamarelismo e, segundo ela, o mito fundador que forma este verdeamarelismo é dividido em três vertentes. Uma das vertentes é chamada pela autora de a “vontade de Deus”. A “vontade de Deus”, trata do poder teocrático, a escolha de um líder pela vontade divina, ou seja, a vontade de Deus. Segundo Chauí: “De acordo com essa teoria, se algum homem possuir poder é porque o terá recebido de Deus, que, por uma decisão misteriosa e incompreensível, o concede a alguém, por uma graça ou favor especial” (CHAUÍ, 2000, p.82). Assim, nos momentos em que o MBL usa mensagens messiânicas e palavras como “missão”, tratando da libertação de um país (Brasil) e de um povo

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(brasileiro), pode-se analisar seu discurso segundo esse poder teocrático que torna o movimento uma espécie de messias. Como dito anteriormente, o discurso também é o local onde se observa a relação de ideologia com a língua. Pensando na transmissão de ideologias através de discursos, pode-se destacar o trecho do livro onde Debord expõe que:

O espetáculo na sociedade corresponde uma fabricação concreta da

alienação. A expansão econômica é sobretudo a expansão dessa produção

industrial específica. O que cresce com a economia que se move por si mesma só pode ser a alienação que estava em seu núcleo original. (DEBORD, p.24).

Pode-se pensar este trecho como a produção massiva de conteúdo que a internet traz. Uma forma de expansão da produção industrial, voltada para conteúdos. A partir do momento em que o seguidor de um movimento dá atenção a um conteúdo sem ter referenciais externos, de política e economia por exemplo, esses textos podem se tornar também uma forma de alienação. A internet traz muitas informações, verídicas e não verídicas, cabe ao leitor filtrá-las para que não ocorra a alienação que constitui o núcleo original do crescimento econômico citado por Debord. Para ter conseguido este destaque e ganhado todos os seguidores, o MBL fez uso do ciberativismo 31 nas redes sociais, contando com os likes e compartilhamentos de seus seguidores e simpatizantes para que suas ideias e manifestações atingissem um maior número de pessoas. Seu principal meio de transmissão de ideias e manifestação sempre foi a internet. A internet é um meio de comunicação cada vez mais abrangente, mas ela ainda não está a disposição de todos, excluindo uma fatia da população (por idade e por renda). O acesso à internet e a ideias transmitidos por ela já é uma forma hierárquica de transmissão de informações.

Assim, o espetáculo é uma atividade especializada que responde por todas

as

outras. É a representação diplomática da sociedade hierárquica diante

de

si mesma, na qual toda outra fala é banida. No caso o mais moderno é

também o mais arcaico. (DEBORD, p.20).

Pode-se pensar o trecho acima no sentido de que o momento do espetáculo em si é uma atividade que fala pelo conjunto de todas as outras do movimento. É,

31 “por ciberativismo podemos denominar um conjunto de práticas em defesa de causas políticas, socioambientais, sociotecnológicas e culturais, realizadas nas redes cibernéticas, principalmente na Internet”. (SILVEIRA, 2010, p.31).

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também, representação da sociedade hierárquica a partir do momento que utiliza canais que não são acessíveis a todos; palcos e líderes, espaços e locais de fala que também não dão acesso a todos os interessados. É moderno, porém arcaico, assim como coloca Debord. Entende-se sociedade do espetáculo como relação de pessoas mediatizadas por imagens, pode-se compreender o MBL também como um espetáculo propriamente dito. Em um outro momento, no livro, Debord aborda o espetáculo sob o ponto de vista da mercadoria. Pode-se pensar coletivos e movimentos como MBL também como mercadorias. O autor afirma que “O espetáculo é o momento em que a mercadoria ocupou totalmente a vida social. Não apenas a relação com a mercadoria é visível, mas não se consegue ver nada além dela: o mundo que se vê é o seu mundo.” (DEBORD, 2003, p.30).

Considerações finais

Segundo Debord a sociedade do espetáculo é a relação de pessoas mediatizadas por imagens. Movimentos como o MBL, que utilizam imagens e a internet como principais formas de comunicação e transmissão de ideias são também um formato de espetáculos próprios que acabam formando um conjunto e criando a sociedade descrita pelo autor. Durante a análise ficam evidentes diversos momentos em que o discurso do movimento é compatível com as ideias de espetáculo do livro de Debord, como sua apresentação como algo grandioso, positivo e indiscutível ao público e a sua reconstrução da ilusão como a utilizada na religião, ao se colocar como o Messias que traria a liberdade ao Brasil. O movimento faz parte deste mundo alienado e hierarquizado descrito pelo autor, e ao ter a autoridade e atenção necessárias para transmitir seus ideais, e utilizar meios de comunicação massivos, como a internet, acaba criando espetáculos e contribuindo para a fortificação deste modelo onde, segundo Debord, o mais moderno é também o mais arcaico. Outro ponto de destaque sobre o MBL, é o fato de seus líderes terem se tornado verdadeiras celebridades. Isto é evidente quando, por exemplo, um dos pacotes para se filiar ao coletivo inclui jantares com seus líderes. Isso é característica também do espetáculo, transformando os líderes do movimento em atores sociais. O movimento já chegou até a ser comparado, por meios de

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comunicação, uma banda indie 32 .

Referências

CHAUÍ, Marilena. Brasil, mito fundador e sociedade autoritária. São Paulo:

Fundação Perseu Abramo, 2000.

DEBORD, Guy. A sociedade do espetáculo. São Paulo: Gallimard, 1992.

ORLANDI, Eni P. Análise de discurso: princípios e procedimentos. Campinas:

Ponte editores, 2002.

32 http://brasil.elpais.com/brasil/2014/12/12/politica/1418403638_389650.html

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AGITAÇÃO E PROPAGANDA EM LENIN: O JORNAL POLÍTICO COMO ARMA REVOLUCIONÁRIA

Willian Casagrande Fusaro 33

Resumo: Este artigo analisa a teoria da agitação e propaganda (agitprop), em Vladimir Ilitch Ulianov (Lenin), como ferramenta política, na figura do jornal do Partido Operário Social Democrata Russo (POSDR), para a organização do movimento operário e camponês durante o período pré-revolucionário na Rússia. O presente trabalho concentra-se em textos germinais da obra lenineana –Por Onde Começar? (1901), Que Fazer? (1902) e Carta a um Camarada (1902) – para discorrer a respeito dos conceitos de agitação e de propaganda, centrais para a teoria elaborada por Lenin a respeito da organização do partido operário, o qual era considerado, pelo revolucionário russo, como a “vanguarda da revolução” e “a fração mais adiantada e esclarecida do movimento comunista e operário”. A metodologia utilizada nesta pesquisa é a consulta bibliográfica. Serão utilizados, também, textos de intérpretes e críticos da obra de Lenin, que tanto avaliaram quanto desdobraram sua teoria da organização partidária através da imprensa do partido. O artigo tem o objetivo de refletir sobre essa concepção de comunicação radicalmente alinhada aos interesses dos trabalhadores e, em específico, do proletariado, como ferramenta ideológica e política para o avanço rumo ao socialismo. Palavras-chave: agitação e propaganda, agitprop, Lenin

Introdução

A comunicação como ferramenta política do movimento revolucionário dos trabalhadores tem particular importância para uma das maiores lideranças revolucionárias da história, Vladimir Ilitch Ulianov, ou, simplesmente, Lenin. Em sua teoria da formação do partido revolucionário, esboçada nos textos expostos e analisados a seguir neste artigo, o dirigente bolchevique delineou de forma clara e precisa o campo de atuação de agitadores e propagandistas na concepção do jornal

33 Especialista em Comunicação Popular e Comunitária pela UEL e graduado em Comunicação Social – Habilitação em Jornalismo pela mesma universidade. Membro do Comitê pelo Passe Livre de Londrina. E-mail: williancfusaro@gmail.com

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revolucionário único para toda a Rússia, que seria produzido pelas mãos dos militantes mais qualificados para atuarem como agitadores e propagandistas pelo partido. Mesmo que de forma não intencional, Lenin lançou as primeiras bases para uma comunicação voltada aos trabalhadores, sistematizada e afinada com a ideologia do comunismo. Esse fato torna a concepção lenineana de agitação e propaganda (agitprop) muito relevante para os estudos e práticas de comunicação que disputam hegemonia com a comunicação burguesa, pois foi uma das teorias que embasaram uma tradição de jornalismo militante nas esquerdas em todo o mundo, durante todo o século XX. Propor uma análise mais acurada com o objetivo de utilizar-se da agitprop na atualidade, seja como arcabouço teórico ou como práxis política, traz um duplo

desafio a esta pesquisa, já iniciada pelo autor durante o curso de Especialização em Comunicação Popular e Comunitária, da Universidade Estadual de Londrina (UEL). Na ocasião, a agitação e a propaganda em Lenin foram instrumentos de análise e arcabouço teórico para a construção da monografia de conclusão de curso. Este trabalho é um excerto da referida pesquisa.

O primeiro desafio é se propor a avaliar uma das teorias que serviram de

embasamento teórico a uma das experiências revolucionárias mais marcantes da história, a Revolução Russa de 1917, justamente neste momento de rebaixamento dos horizontes políticos da esquerda socialista, evidenciado por partidos,

movimentos sociais, sindicatos e organizações em todo o mundo. Os socialistas sabem que são tempos difíceis.

O segundo desafio é propor uma continuidade a essa teoria, utilizando-se da

dialética para esse fim. A agitação e propaganda concebidas por Lenin no início do século XX não podem e não devem ser replicadas tal qual o revolucionário as concebeu na época, afinal os marxismos necessitam de contextualização histórica. Propor uma atualização da agitação e propaganda como alternativa à comunicação da esquerda socialista significa, portanto, superar dialeticamente as experiências políticas fracassadas sem ignorar as virtudes da teoria revolucionária. Este artigo se concentrará, no entanto, somente no ponto de partida: a definição sistematizada dos conceitos de “agitação” e “propaganda”, tal como concebidos pelo dirigente do Partido Bolchevique. Para tanto, será preciso recorrer a autores, além do próprio Lenin, que refletiram criticamente o pensamento lenineano

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a fim de aperfeiçoá-lo e pô-lo à prova. Antes, contudo, será necessário contextualizar historicamente a Rússia pré-revolucionária e algumas das etapas cruciais que desembocaram no processo revolucionário de 1917.

1 A Rússia pré-revolucionária

É na passagem do século XIX para o século XX que se inicia, na Rússia, de

forma mais intensa, a organização de uma comunicação para as classes trabalhadoras. Nessa época, o país vivia sob o julgo do czarismo, regime de características feudais em franca decadência e que perdurava por séculos, e do imperialismo, principalmente francês e japonês. Segundo Victor Serge, no início do século, a miséria da zona rural levou dez milhões de camponeses russos a abandonarem os campos rumo às cidades, por conta da intensificação do plantio de cereais, destinados à exportação. Esse campesinato encontra empregos em indústrias a salários miseráveis. A carga horária chegava a até 14 horas diárias de trabalho (SERGE, 1993). As primeiras organizações operárias socialistas surgem nesse contexto, com duas frentes opostas: os narodnikis (socialistas populistas, com bases assentadas no campesinato mais conservador) e os marxistas, que posteriormente dariam origem aos partidos da social-democracia, tanto bolchevique quanto menchevique e socialista-revolucionário (SERGE, 1993). Essas organizações, assim como o recém-

criado Conselho de São Petersburgo (Soviet de São Petersburgo), tiveram ativa participação na Revolução de 1905, uma insurreição fracassada de operários que terminou em um massacre promovido pela guarda do czar Nicolau II.

A sublevação foi geral, em mais de cem cidades do país, mas o baixo nível de

organização dos operários e dos camponeses, assim como das vanguardas, não foi suficiente para que a organização tomasse o poder, mesmo com a crise instalada no Palácio de Inverno, sede da aristocracia czarista. O saldo da revolução foi de 15 mil mortos, 18 mil feridos e quase 80 mil presos (SERGE, 1993, p. 46). Apesar disso,

Lenin chegou a classificá-la como um “ensaio geral da Revolução de 1917”, sem o qual esta não poderia ter ocorrido. Os anos posteriores, até 1914, podem ser resumidos pela expansão do imperialismo franco-russo. Boa parte dos capitais investidos na Rússia vinha da França – 60,7% da indústria de fundição e mais de 50% da produção de carvão

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eram dos franceses (SERGE, 1993, p. 50). Entretanto, as organizações operárias também apresentavam evolução. A partir de 1910, encampam campanhas de aumento salarial, diminuição de jornada de trabalho, além da fundação de jornais e revistas, como o Pravda, criado em 1912, principal órgão da imprensa clandestina operária russa. Após o início da Primeira Guerra Mundial, em 1914, as organizações operárias divergem sobre a ideia de apoiar ou não a entrada do país no conflito. Os bolcheviques, à época uma ala do Partido Operário Social Democrata Russo (POSDR), posicionam-se contrários, o que os distancia de todos os partidos de esquerda da época, os quais não concordavam que a guerra prejudicaria enormemente o proletariado de todos os países envolvidos (SERGE, 1993, p. 54). Sob esse contexto – uma Rússia empobrecida pela guerra e por forças internas intencionadas em tomar o poder czarista, enfraquecido ano a ano desde 1905 –, ocorre a Revolução de Fevereiro de 1917. Nesse episódio, uma coalizão entre a burguesia e o proletariado derrubou a autocracia czarista em 27 de fevereiro, segundo o calendário gregoriano (12 de março, no calendário ocidental). A coalização decidiu por instalar dois organismos de governo, a Duma e o Soviete. A Duma, o parlamento da monarquia czarista, reunia basicamente a burguesia e a aristocracia feudal russas, desejosas de uma constituinte e um governo democrático, que privilegiassem seus interesses de classe e freasse o avanço constante do movimento revolucionário, crescente desde 1912; os sovietes, vários conselhos operários distribuídos em municípios russos, reuniam o proletariado e os trabalhadores em geral, em suas frações partidárias e grupos anarquistas, além de setores das classes médias comprometidos com a revolução (SERGE, 1993, p. 52). Em outubro do mesmo ano, ocorreria a Revolução Russa, que depôs o czar e colocou o Partido Bolchevique (fração bolchevique do Partido Operário Social Democrata Russo) no poder, dando início a uma guerra civil entre a burguesia e as nações imperialistas, Exército Branco, e o proletariado na figura do Partido Bolchevique e dos sovietes, Exército Vermelho. A guerra civil estendeu-se até 1921, quando o Exército Branco, capitaneado pelas nações imperialistas (França, Inglaterra, entre outras) e a burguesia e a nobreza russas, foi derrotado. A partir desse episódio, o governo revolucionário conseguiu estabilizar-se no poder. Não é necessário a este estudo discorrer minuciosamente a respeito desse

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período para entender o desenvolvimento da teoria lenineana sobre a comunicação. Feitos os primeiros apontamentos históricos sobre a Rússia pré-revolucionária, passemos à exposição e à análise da teoria da agitação e propaganda em Lenin.

2 A comunicação como eixo central: o agitprop russo

A concepção de Lenin a respeito da comunicação como eixo central da atividade política organizativa do partido revolucionário inaugurou a interpretação sistemática da comunicação como instrumento político da classe trabalhadora. Para Lenin (1902), a agitação e propaganda (agitprop), por meios de comunicação como jornal, panfletos, revistas, peças teatrais, entre outros, deveria ser uma das principais preocupações do partido durante sua organização, o que confere grande importância à comunicação na temática da organização partidária lenineana. De acordo com o autor, “somente com o jornal o trabalho do partido com as massas deixaria de ser artesanal, ou seja, amador, ocasional e sem abrangência” (LENIN, 1978c, p. 22 apud VENANCIO, 2010, p. 39). Composto por uma rede de militantes que produziriam coletivamente um jornal único para toda a Rússia, divididos em várias regiões, esse veículo de comunicação serviria não só como “propagandista e agitador coletivo, mas como organizador coletivo” (LENIN, 1978b, p. 44 apud VENANCIO, 2010, p. 38) do partido revolucionário. A agitprop russa tem suas origens nos textos Por Onde Começar? (1901)e Que Fazer (1902), escritos por Lenin durante discussões com integrantes do POSDR. Nesses textos, o dirigente delineou as primeiras bases do que seria uma comunicação feita por militantes do partido, pela organização revolucionária, no sentido de esclarecer às massas o conflito ideológico entre a burguesia decadente e o proletariado, o que foi classificado pelo dirigente como agitação e propaganda. Em Por Onde Começar?, texto publicado no jornal do Partido Bolchevique Iskra (Fagulha, em russo) em 1901, Lenin estabelece as primeiras diretrizes do que seria a base do pensamento da esquerda marxista a respeito do papel da imprensa como “um instrumento de agitação e propaganda dos valores socialistas e revolucionários e também como um fio condutor na organização política dos trabalhadores” (CASSOL, 2010, p. 53). O jornal, nesse contexto, estabelece-se como um instrumento de organização política coletiva, criado e mantido pelo Partido Operário Social-Democrata Russo (POSDR), principalmente durante os períodos de

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organização

revolucionárias.

coletiva

da

esquerda,

ou

seja,

anteriormente

às

irrupções

Questionar se se deve trabalhar por criar uma organização combativa e realizar uma agitação política em qualquer situação, em períodos “cinzentos”, “pacíficos”, em períodos de “declínio do espírito revolucionário”, quando ao contrário, exatamente nessas situações e nesses períodos é particularmente necessário esse trabalho, porque nos momentos de explosões sociais não há tempo hábil para criar uma organização, que nesses momentos já deve estar pronta para poder desenvolver imediatamente sua atividade. (LENIN, 1901)

O projeto lenineano de “jornal político para toda a Rússia” exigiria que cada região do país tivesse um número satisfatório de militantes profissionalizados, que reservassem uma parte de seu tempo na construção de um periódico para todo o país. A partir da organização do jornal, uma organização política de vanguarda surgiria, no interior do partido, com a intenção de realizar a revolução socialista e de oferecer ao proletariado uma tribuna à qual pudesse falar e ser ouvido. Sobre isso, escreve Lenin que

Se unirmos nossas forças para desaguar em um jornal de escala nacional, tal trabalho fará surgir e formará não somente os propagandistas mais hábeis, mas também os organizadores mais provados, os chefes políticos mais capazes de saberem lançar no momento exato a palavra de ordem da luta decisiva e dirigir essa luta. (LENIN, 1901)

Em “Carta a Um Camarada” (1902), Lenin dá prosseguimento à sua teoria partidária ao debater com um interlocutor – não identificado no texto – sobre a organização das massas de forma hierárquica em subcomitês de fábrica, comitês gerais e, por fim, um Comitê Central (CC) e um Órgão Central (OC), que dirigiriam, respectivamente, a prática política e a ideologia do partido (1902). Todos esses níveis hierárquicos de organização seriam guiados pela figura do jornal político e único, o qual seria feito, como foi dito anteriormente, pelos militantes profissionais dispersos em organizações locais, porém centralizadas no partido (1902). Toda a divisão hierárquica de que se ocupa Lenin tem um propósito muito claro, segundo autor. Por ser um movimento totalmente clandestino, devido à censura czarista, o partido e suas ramificações necessitavam de uma direção clara e objetiva que, “pela força da autoridade e não pela força do poder”, saibam dirigir a organização conspirativa (1902). Por outro lado, o autor chega a reconhecer a

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possibilidade de que uma direção inábil possa destruir o trabalho da organização devido à centralização. Para evitar isso, propõe que essas lideranças sejam provadas, capazes e experientes, além de constantemente fiscalizadas pelas bases do movimento (1902). Sobre a função primordial do jornal na organização russa, Lenin responde ao interlocutor, em um trecho da carta, que o jornal deveria ser o “dirigente ideológico do partido, desenvolvendo as verdades teóricas, as situações táticas, as ideias organizacionais gerais, as tarefas gerais de todo o partido” (1902). Dessa forma, a propaganda do partido deve ser direcionada de forma uníssona aos seus comitês e subcomitês de fábrica por um grupo de propagandistas, escolhidos pelo Comitê Central para essa atividade (1902). A distribuição desse trabalho propagandístico, em jornais ou panfletos, de acordo com Lenin, deveria cobrir todas as regiões fabris, articuladas entre si por meio de seus comitês. Tal trabalho, na opinião de Lenin (1902),

realizaria mais da metade da tarefa de preparação de futuras manifestações

e da insurreição. Em momentos de sublevação, de greves, de agitação, é

tarde para iniciar a distribuição de literatura, pois isso só pode ser aprendido pouco a pouco, sendo feito necessariamente duas a três vezes por mês. Não existindo jornal pode-se e deve-se fazer isso com volantes, mas sem

permitir, de modo algum, que o aparelho de distribuição permaneça inativo.

É necessário o esforço de aperfeiçoar a um tal grau esse aparelho de modo

que numa só noite toda a população operária de São Petersburgo possa ser

informada e mobilizada.

Um dos principais objetivos de Lenin, ao propor a unificação de uma imprensa política para toda a Rússia, era acabar com o “fracionamento” pelo qual a esquerda organizada passava na época. As divisões entre várias frentes partidárias que realizavam trabalhos localizados não eram vistas como exitosas. De acordo com Venancio (2010, p. 50), essa tendência começou a se materializar em 1896, quando os dirigentes do POSDR unem-se na criação de um jornal único para toda a Rússia, o Rabótchaia Gazeta. Entretanto, em 1898, apesar do grande salto organizativo, o movimento se concentra na criação de órgãos de imprensa localizados, os quais apresentam baixíssimo desempenho durante os dois primeiros anos de criação, segundo análises do próprio Lenin (VENANCIO, 2010). Em Que Fazer?, tal questionamento é discutido de forma mais acirrada como resposta às críticas de outro dirigente político russo, L. Nadejdine, naquele momento integrante do periódico Rabótcheie Dielo (A Causa Operária, em russo), da União

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dos Sociais-Democratas Russos. Nesse texto, Lenin, na sessão “Plano de um jornal político para toda a Rússia”, rebate as críticas de Nadejdine, que acusou o líder bolchevique de centralismo e autoritarismo ao propor a criação de um órgão de imprensa único para todo o país, em vez de continuar com os jornais locais, e submeter a criação e direção do Partido a um órgão de imprensa nacional. Nesse texto, Lenin prossegue na explicação da importância de um jornal

político regular, profissionalizado e mantido pelo próprio partido. Sobre isso, chega a sugerir que cada célula local “imediatamente reserve um quarto de suas forças para a participação ativa na obra comum” (1902). Ao exercitar regularmente o ofício, os revolucionários profissionais manteriam a circulação periódica do jornal político comum, de forma a preparar o proletariado para a insurreição “mesmo nos períodos de calma absoluta” (1902).

A

respeito da visão lenineana da imprensa política, Cassol escreve que

[…] seria o fio condutor para a ampliação da organização revolucionária, assim como fazem os pedreiros que constroem um edifício: esticam um fio que os ajuda a encontrar o “lugar justo” das pedras. Lenin vai dizer que o partido possuía muitas pedras e pedreiros, faltando-lhe justamente o fio que fosse visível para todos. (CASSOL, 2010, p. 53)

O

jornal enquanto “revelador das verdades ao proletariado”, segundo Cassol, é

uma das características presentes na visão lenineana sobre o jornal. Essa noção de imprensa como um dos componentes da vanguarda do partido (ou seja, da organização proletária) está relacionada à capacidade exclusiva destes instrumentos de luta (o partido, o jornal) de “revelarem as opressões a um auditório de ignorantes” (CASSOL, 2010, p. 55). Lenin chega a afirmar reiteradas vezes, segundo o autor, que somente essas revelações poderiam formar a consciência política e suscitar a atividade revolucionária das massas (2010, p. 56). De acordo com Venancio, Lenin afirmava que somente com o jornal, o trabalho do partido com as massas deixaria de ser “artesanal”, ou seja, amador, ocasional e sem abrangência (2010, 39). O autor também lembra que para a social-democracia russa eram vedadas todas as formas de interação com as massas, desde a propaganda nas ruas até a atividade parlamentar, já que estava totalmente na ilegalidade durante o czarismo. Sobre isso, Lenin explica que

a necessidade de concentrar todas as forças na criação de um órgão do partido, publicado e distribuído regularmente, está condicionada a situação particular da social-democracia russa, tão diferente da social-democracia de

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outros países europeus ou de velhos partidos revolucionários russos. Os trabalhadores da Alemanha, França e outros países têm, além dos jornais, uma quantidade de outros meios para organizar o movimento: a atividade parlamentar, a agitação eleitoral, as assembléias populares, a participação em instituições locais (no campo e na cidade), o livre funcionamento dos sindicatos (profissionais e grêmios) etc. Para nós, enquanto não tivermos nossa liberdade política assegurada, nada menos que totalmente, devemos usar o jornal revolucionário, sem o qual não nos será possível nenhuma organização ampla do movimento dos trabalhadores (LENIN apud VENANCIO, 2010, p. 40).

A insistência de Lenin em usar jornais impressos como forma de propaganda e agitação revolucionária, mais do que indicar que, para o dirigente, a comunicação tinha um papel central na estrutura partidária, sinalizava que a agitação e a propaganda mantinham estreita relação com a concepção de partido revolucionário em Lenin, que diferia fundamentalmente da concepção marxiana, como veremos a seguir. Para Lenin, a consciência política revolucionária do proletariado deveria ser trazida de fora do movimento, dos sindicatos, pela intelectualidade comunista, a fração mais adiantada do movimento revolucionário, a vanguarda do proletariado. Segundo Fernando Claudín, a tese lenineana, apresentada pela primeira vez em Que Fazer?, baseou-se nos escritos do alemão Karl Kautsky, à época um dirigente revolucionário bastante influente no debate da social-democracia europeia. Kautsky foi o primeiro a formular a ideia de que “a consciência socialista é algo introduzido do exterior na luta de classes do proletariado, não algo que surge espontaneamente do seu interior” (2013, p. 714). Isso se corroborava com a experiência prática dos dirigentes políticos russos, pelo menos para os que aceitaram a tese de Lenin. Quando o marxismo começou a penetrar na Rússia, no último quarto do século XIX, as organizações revolucionárias clandestinas que agiam por meio do terrorismo, compostas em sua maioria por jovens militantes oriundos das camadas mais intelectualizadas, não encontravam êxito em suas ações diretas. Essa juventude, então, abandonou as fileiras de organizações como a Terra e Liberdade e partiu para as organizações comunistas. Porém, durante esse período, o proletariado russo ainda era incipiente e não havia entrado em cena. As maiores insurreições do período só ocorreriam em 1896, durante um extenso período de greves nas fábricas (CLAUDÍN, 2013, p. 715). Ou seja, a “arma material” do movimento comunista russo pouco existia durante o período em que iniciava a assimilação do marxismo no país. Somado a

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isso, esse proletariado não tinha experiência alguma na luta de classes, diferente do proletariado francês ou alemão, que já havia se incursionado por diversos levantes revolucionários durante o século XIX. Lenin comprovou de forma empírica sua tese ao confirmar que havia a necessidade de a inteligentsia do movimento revolucionário

– os intelectuais – “elevarem a consciência” do proletariado. Tal concepção assume outra perspectiva nas formulações de Marx sobre o

partido operário. A figura de um “partido comunista” não aparece como possível:

para Marx, os comunistas são somente “a fração mais adiantada do partido operário,

o setor mais decidido, que conta com uma vantagem teórica de sua clara visão dos

cursos e dos resultados gerais do movimento operário” (CLAUDÍN, 2013, p. 713). Além disso, e o que é mais importante para estabelecer a diferença entre as duas visões a respeito do partido operário revolucionário, os comunistas não devem, segundo Marx, “tentar moldar o movimento operário conforme suas visões e perspectivas” ou “estabelecer uma ditadura de lideranças antidemocrática”, aproveitando-se do fato de ter acesso à teoria do socialismo científico (2013, p. 713). Para Marx, por fim, a consciência de classe proletária se forma no curso das várias formas de luta, enquanto o partido é só mais uma das formatações da luta de classes, a mais vital para a tomada do poder político do proletariado e instauração da sua ditadura de classe como primeiro passo para o comunismo. Tanto que o autor não chega a formular a ideia de um “partido único”, assumindo que o partido operário deve, inclusive, dissolver-se sem demora ao constatar que está

“antecipando a revolução”. O partido é, para Marx, uma realização do movimento comunista, e não o contrário. Diante disso, estabelecidas as diferenças entre as duas concepções de partido, marxiana e lenineana, é sintomático que a comunicação tome, para Lenin, uma função tão importante: como instrumento político centralizado do partido operário e revolucionário, no sentido de fazer a agitação e a propaganda revolucionária.

3 Definição de agitação e propaganda

E. M. Kuznetsov categoriza a agitação e propaganda como componentes da atividade político-ideológica do partido comunista, junto do estudo da teoria revolucionária. O autor ainda traça as diferenças fundamentais das duas atividades, as quais chegam a ser consideradas, pela falta de rigor metodológico, como

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sinônimos.

Naqueles trabalhos científicos e populares nos quais se analisa a correlação dos diferentes aspectos da atividade político-ideológica do partido, não há uma análise profunda da unidade e das diferenças específicas da propaganda e da agitação. Inclusive, esboça-se uma integração entre esses dois tipos de influência ideológica sobre as massas, sem diferenciá-los (1979, p. 109)

O autor caracteriza a atividade teórica como “o fundamento do trabalho político-ideológico do partido” (KUZNETSOV, 1979, p. 110). No entanto, para que essa teoria atinja as massas, é necessário, segundo o autor, que o partido eduque politicamente os seus membros e as classes trabalhadoras, para que esses ensinamentos atinjam as massas. Quanto à diferenciação entre agitação e propaganda, o autor utiliza-se dos conceitos desenvolvidos por Lenin, para quem as duas contêm diferenças objetivas. A propaganda explica a essência do socialismo científico, os objetivos e as tarefas da luta do socialismo e da democracia da classe trabalhadora; já a agitação está intimamente unida à luta corrente do trabalhador, utilizando-se dos fenômenos da vida social (KUZNETSOV, 1979, p. 118). Ambos os meios de comunicação das ideias do partido se completariam: enquanto a propaganda desenvolveria as ideias do partido, a agitação as propagaria às massas. A propaganda, ainda segundo Kuznetsov, seria o ensinamento da teoria a um número reduzido de revolucionários do partido, os quais adotariam a plataforma política do partido, ao passo que a agitação seria a difusão desses ensinamentos às massas. Um trecho de uma correspondência do secretariado do Comitê Central do Partido Operário Social Democrata Russo (POSDR), de 1917, exemplifica, dessa forma, a diferenciação entre as duas atividades do partido:

Nossa tarefa fundamental consiste, por uma parte, em atrair o maior número possível de seguidores e, por outra, em aprofundar as informações e os conhecimentos daqueles camaradas que adotaram com firmeza nossa plataforma. Para o primeiro objetivo, é necessário realizar a agitação, tanto oral quanto mediante a distribuição de literatura e periódicos do partido, e, para o segundo, é necessário criar um grupo propagandístico para o estudo das verdades marxistas (1979, p. 119)

Enquanto a propaganda estaria relacionada à explicação da teoria do partido, de forma estratégica e tática, a agitação se relacionaria como uma tática do partido

100

para a propagação de sua teoria às massas, utilizando-se inclusive de recursos

artísticos e emocionais para cativá-las (KUZNETSOV, 1979, p. 123). Ambas, no

entanto, por serem atividades complementares ao partido, perseguiriam um objetivo

em comum, aliadas ao desenvolvimento da teoria socialista: o desenvolvimento da

consciência do proletariado e de todas as massas trabalhadoras, educadas

politicamente (KUZNETSOV, 1979, p. 124).

Conclusão

Esta pesquisa se propôs a sistematizar o pensamento de Lenin a respeito da

agitação e propaganda como ferramentas da comunicação do movimento

comunista. Para tanto, utilizou-se do arcabouço teórico lenineano e, também, de

reflexões de outros autores e comentadores, como as definições precisas e

sistematizadas de agitação e propaganda para Kusnetsov.

O presente trabalho não é mais do que um ponto de partida para os estudos da obra

lenineana a respeito da comunicação dos trabalhadores, sob uma perspectiva

comunista e revolucionária. Em um contexto de ofensivas reacionárias, tanto nos

plano artístico quanto político, a atualização da teoria lenineana pode trazer à tona

um gosto amargo para quem não vê possibilidades de a utopia estar, novamente, na

ordem do dia. No entanto, para os comunistas, o estudo do legado intelectual de

Lenin, inclusive de seus textos a respeito da comunicação revolucionária, são de

vital importância para o fortalecimento das organizações dos trabalhadores.

Referências

CASSOL, Daniel Barbosa. Brasil de Fato: A imprensa popular alternativa em tempos de crise. 2010. 159 f. Dissertação (Mestrado em Ciências da Comunicação) – Universidade do Vale do Rio dos Sinos, São Leopoldo.

CLAUDÍN, Fernando. A Crise do Movimento Comunista. São Paulo: Expressão Popular, 2013. 736 p.

KUSNETSOV, E. M. La Agitacion Politica. Havana: Orbe, 1979. 297 p.

LENIN, Vladimir Ilitch. Por Onde Começar.1901. Disponível em:

<http://estudosvermelhos.blogspot.com.br/2012/10/por-onde-comecar-1901-

lenin.html> Acesso em: 6 mar 2016.

101

Que Fazer? Questões Palpitantes do Nosso Movimento. 1902. Disponível

em: <https://www.marxists.org/portugues/lenin/1902/quefazer/> Acesso em: 10 mar

2016.

Carta a Um Camarada. 1902. Disponível em: < https://www.marxists.org/portugues/lenin/1902/09/carta.htm> Acesso em: 5 mar

2016.

SERGE, Victor. O Ano I da Revolução Russa. São Paulo: Ensaio, 1993. 479 p.

VENANCIO, Rafael Duarte Oliveira. Lenin e o Jornalismo Soviético: imprensa como vanguarda política. São Paulo: Baraúna, 2010. 184 p.

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FOTOGRAFIA POLÍTICO-DOCUMENTAL COMO PRÁTICA COMPLEMENTAR À ADVOCACIA EM DIREITOS HUMANOS NA OCUPAÇÃO URBANA MORRO DOS CARRAPATOS

Ana Teresa Corzanego Khatounian 34

Este trabalho é fruto de um estudo sobre a luta pela terra protagonizada

pelosocupantes do Morro dos Carrapatos, ocupação urbana no leste do município

de Londrina, Paraná. A contribuição da fotografia, no contexto da assessoria jurídica

popular,se concretizou por meio da conexão humana entre as partes envolvidas e da

utilização de fotografias no processo judicial frente auma ordem de reintegração de

posse, bem comoatravésdas evidências cronológicas criadas pelas imagens. Ainda

que a fotografiapolítico-documental tenha seu componente artístico, tão essencial

quanto inevitável, o limite editorial e de composição artificial de cenas as diferencia

das fotografias puramente artísticas, motivo pelo qual aplicou-se poucaedição às

imagens. Os registros expostos neste trabalho abrangem oprocesso humano

reivindicatório vivido pelo Morro dos Carrapatos desde a chegada da demandaà

AJUP LUTAS, em agosto de 2014, até fevereiro de 2017. Figuram, em pé de

humana igualdade, ocupantes do Morro, estudantes membros da AJUP LUTAS,e

advogados populares como partes integrantes de um intento de educação popular

no contexto da luta social pela regularização terras ocupadas. Na primeira foto,

Lutando é que lutamos”,ocupantes e assessores populares se juntam para registrar

o fôlego que acompanhou a manifestação de maio de 2016, no Fórum Estadual de

Londrina. Em “Pra onde foi todo mundo?”, moradora do Morro exige intervenção do

poder municipal eleito na resolução da violação ao direito constitucional à moradia. A

frase escrita no cartaz, criada pelos próprios moradores, representa o descaso

histórico dos políticos em relação à suas promessas pré-eleitorais feitas à

comunidade. “Mas não é bem assim, meus amigos”,por meio do gesto expressivo do

então prefeito da cidade de Londrina, é alegoria aos representantes do Estado;

naquela tarde, manifestantes foram ouvidos pelo prefeito, que quando escutou o

barulho dos tambores pediu que todos subissem para uma conversa.“Te dou aquilo

que eu comeria”materializou a gratidão de um pai de família da ocupação, que

34 Integrante do projeto de extensão LUTAS: Formação e Assessoria em Direitos Humanos. E-mail:

anateresack@gmail.com

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presenteou os assessores populares com peixe que havia pescado. A conexãoque aflora entre os humanos, que por insistência da vida, lutam juntos, se fez especialmente presente nesta ocasião. Por fim, “Estrada larga, chão de terra” representa ummorador caminhando pelos escombros do que foi seu bairro em busca de tábuas para montar uma nova casa, resumindo a situação não só atual como também histórica dos ocupantes, que constroem e logo são obrigados a mudar novamente. Hoje, por violência e por medo,estes ocupantes estão em diáspora em diversos pontos da cidade, em busca de um lar e sem nenhum amparopor parte do poder público. A fotografia, enquanto instrumento isolado, não é capaz de garantir o acesso de todos aos Direitos Humanos. No entanto, no contexto de um processo integrado de inciativas convergentes na luta pela terra, a fotografia contribuiu para dar coesão ao movimento em seus aspectos humanos, jurídicos, históricos e educativos. As fotografias materializaram o sentido de pertencimento aquela luta, identificando indivíduos que foram o coletivo do Morro dos Carrapatos, e permitindo a esse coletivo contar sua história à sociedade.

Palavras-chave: Fotografia Político-documental, Assessoria Jurídica Popular, Ocupação Urbana, Conexão humana

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Imagem 1 - Lutando é que lutamos

104 Imagem 1 - Lutando é que lutamos Fonte: Arquivo pessoal

Fonte: Arquivo pessoal

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Imagem 2 – Pra onde foi todo mundo?

105 Imagem 2 – Pra onde foi todo mundo? Fonte: Arquivo pessoal Imagem 3 – Mas

Fonte: Arquivo pessoal

Imagem 3 – Mas não é bem assim, meus amigos

Pra onde foi todo mundo? Fonte: Arquivo pessoal Imagem 3 – Mas não é bem assim,

Fonte: Arquivo pessoal

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Imagem 4 – Te dou aquilo que eu comeria

106 Imagem 4 – Te dou aquilo que eu comeria Fonte: Arquivo pessoal Imagem 5 –

Fonte: Arquivo pessoal

Imagem 5 – Estrada larga, chão de terra

Te dou aquilo que eu comeria Fonte: Arquivo pessoal Imagem 5 – Estrada larga, chão de

Fonte: Arquivo pessoal

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MÍDIA NINJA: EXPERIÊNCIA, ATIVISMO E CASOS ENVOLVENDO O AMBIENTE JURÍDICO

Gabriel Pansardi Ruiz 35

No Brasil, o surgimento de novas mídias e veículos “midialivristas”, através das redes sociais, da internet e de dispositivos móveis, teve papel fundamental para o aquecimento da discussão sobre cultura digital, representação midiática, política, novas tecnologias e comunicação. No cerne desse debate, durante os protestos de junho e julho de 2013 contra o aumento das tarifas de transporte público e também as reivindicações sobre a Copa do Mundo de 2014, despontam como potências de informação em tempo real, alguns veículos e coletivos de mídia. Foram veículos que narraram e disputaram o sentido das manifestações de forma ativa e inédita no país. E fizeram com que as coberturas fossem realizadas de forma protagonista em relação aos meios de comunicação de massa, que demoraram para compreender o fenômeno das manifestações e seu impacto sobre o processo de construção da notícia. Entre essas novas mídias, algumas emergiram: 12pm, Carranca, Rio na Rua, Voz e a Mídia NINJA (Narrativas Independentes Jornalismo e Ação) – rede “midialivrista” fundada pelo coletivo Fora do Eixo 36 , que se destacou por suas coberturas dinâmicas através das redes sociais e pelas transmissões audiovisuais ao vivo. A Mídia NINJA combinou, originalmente, elementos que potencializaram a viralização de suas mensagens, e criou uma estética que se conectou com o espaço-tempo de sua geração. Naquele momento, quando a Mídia NINJA estourou, as pessoas nas ruas não se identificavam com o padrão e com o noticiário da

35 Jornalista. Discente do curso de especialização em comunicação popular e comunitária na Universidade Estadual de Londrina (UEL). Nos últimos 7 anos participou da rede Fora do Eixo como articulador nacional e internacional. Participou da fundação e desenvolvimento da Mídia NINJA, atuando como produtor e repórter em manifestações em São Paulo, Rio de Janeiro e Belo Horizonte e como ativista e articulador em núcleos de comunicação de frentes, em campanhas nacionais e em movimentos sociais. Contato: mandamailproruiz@gmail.com

36 O Fora do Eixo surge em 2005 conectando produtores de festivais e coletivos culturais de cidades como Londrina (PR), Rio Branco (AC), Uberlândia (MG) e Cuiabá (MT). Durante vários anos atuou de forma plena em festivais independentes, ajudando a desenvolver a cadeia produtiva do mercado médio da música nacional, criando projetos de artes integradas, turnês, shows e redes de alcance internacional, como o Festival Grito Rock e o ELLA. No início de 2013, o Fora do Eixo funda a Mídia NINJA com o objetivo de mesclar o ofício da comunicação e do jornalismo à prática ativista, buscando realizar coberturas sobre movimentos sociais, manifestações e temas ligados aos direitos humanos.

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imprensa corporativa, passando a procurar por outras fontes nas redes sociais e na internet que as representassem, que não apenas as chamasse de “vândalos”. Nessa busca, as publicações em tempo real e a coragem dos ninjas – cinegrafistas, fotógrafos, ativistas e produtores do Fora do Eixo, designados para cobrir as manifestações –, ganharam a empatia do público e preencheram um vácuo de informações sobre os conflitos cada vez maiores. Entre as chamadas “Jornadas de Junho e Julho”, o movimento “Não vai ter Copa”, a Mídia NINJA esteve presente na cobertura dos principais levantes sociais no Brasil e também estabeleceu uma rede e núcleos ninjas em vários outros países. Dentro desse período podemos citar a cobertura das manifestações durante a Copa do Mundo realizada no Brasil em 2014; o debate em torno das eleições presidenciais no mesmo ano; participação na criação dos Jornalistas Livres em São Paulo; cobertura das manifestações – da “direita” e da “esquerda” no primeiro semestre e durante todo o ano de 2015; os protestos nos jogos olímpicos Rio 2016; a cobertura de 1 ano do crime da Samarco, após o rompimento da barragem de rejeitos em Mariana (MG); os atos “Fora Cunha”; as principais mensagens e manifestações tanto nas ruas, como nas redes sociais, no Brasil e no mundo denunciando o golpe midiático e parlamentar que culminou com o impeachment da ex-presidenta Dilma Rousseff; e a cobertura das votações do impeachment na Câmara dos Deputados e Senado; os levantes contra a PEC 51; além de dezenas de pautas sobre violações de direitos humanos e grupos estratégicos, como negros, mulheres, LGBTs, indígenas, etc. Hoje, com a ampliação da rede da Mídia NINJA e com núcleos que se desenvolveram em outros países e em cidades do interior do Brasil, os ninjas são, muitas vezes, ativistas, manifestantes, videomakers, blogueiros, “midialivristas”, jornalistas, atores outros. São pessoas de referência conectadas ao núcleo editorial ninja, que operam pela internet diretamente de suas localidades e amplificam os temas para além de seus municípios, através das timelines e do site da Mídia NINJA. É um método que se aproxima do que o escritor e teórico Manuel Castells denomina de “autocomunicação de massa, baseada em redes horizontais de comunicação multidirecional, interativa, na internet”. Ou ainda uma percepção a qual “podemos trocar a estratégia de dar voz aos que não têm voz pela estratégia de deixar as pessoas falar por si mesmas”, conforme explica o escritor John Downing em seu livro “Mídia Radical”.

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Atualmente a Mídia NINJA possui mais de 1,5 milhão de seguidores no Facebook. E na cobertura dos protestos do último dia 31 de março, contra a reforma da previdência social, os ninjas ficaram à frente de tradicionais veículos corporativos da imprensa nacional como Estadão, Folha de São Paulo e Veja, no que se refere aos números de engajamento do Facebook.

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O DETERMINISMO TECNOLÓGICO NO SÉCULO XXI: REGULAMENTAÇÃO E

SOCIALIZAÇÃO DAS REDES SOCIAIS

TECHNOLOGICAL DETERMINISM IN THE XXI CENTURY: REGULATION AND SOCIALIZATION OF SOCIAL NETWORKS

Marcos Antônio Gonçalves Soleo 37

Rafael Flavio de Moraes 38

Resumo: O cerne deste estudo se caracteriza pela análise das relações que as

inovações tecnológicas, no âmbito da comunicação, possuem com o comportamento

e o cotidiano da sociedade, através do conceito de determinismo tecnológico e do

fenômeno da interação humana pelo ambiente multimídia contido na internet. Desse

modo, sua análise se norteará, portanto, no novo ambiente humano, criado por

inovações tecnológicas dos meios de comunicação, essas consideradas como

extensões do homem, além da capacidade de modificação social contida na ágil

troca de informação pelos usuários, com ênfase nas lutas sociais contemporâneas

impulsionadas pela internet, na socialização da rede e o embate entre as correntes

pró e contra a regulação do meio virtual.

Palavras-chave: Mídia; Redes sociais; Tecnologia; Regulação; Sociedade; Lutas

sociais.

Abstract: The heart of this study is characterized by the analysis of the technological

innovations, about communication, face to demeanor and everyday life of society,

through the concept of technological determinism and the phenomenon of human

interaction through the multimedia environment. Therefore, this study looks for to the

new human environment result of technological innovations, theses considered as

extension of man, besides the social modification capacity being in the nimble

information exchange by the users, with emphasis on the contemporary social fight,

driven by the internet, the network socialization and the discussion between the

regulation of the internet or not.

Keywords: Media; Social networks; Technology; Regulation; Society; Social

37 Universidade Estadual de Londrina; marcossoleo@gmail.com

38 Faculdade Pitágoras; demoraesmazia@gmail.com

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struggles.

Introdução

O presente estudo se norteia nas relações que as inovações tecnológicas possuem com as transformações do comportamento social, sob a ótica do conceito do determinismo tecnológico, levando em conta a expressiva integração humana no ambiente multimídia e o exponencial número de inovações tecnológicas que se fundiram ao cotidiano das pessoas, acarretando num crescimento estrutural da sociedade urbana. Considerando o progressivo fluxo de inovações tecnológicas que motivou o aumento do número de acessos à internet nas residências, através de variados dispositivos eletrônicos, e que proporcionou gradualmente um novo ambiente humano, que, sob a ótica do filósofo determinista Marshall McLuhan em sua obra “Os meios de comunicação como extensões do homem” (1964), introduz consequências psicológicas e sociais na medida em que a mensagem de qualquer meio ou tecnologia se tem como a mudança de escala, cadência ou padrão que

esse meio ou tecnologia introduz nas coisas, já que acaba por configurar e controlar

a proporção e a forma das ações e associações humanas. Essa mudança, proporcionada pelo aumento da tecnologia dos meios de informação, representa o que o filósofo entendia pelo fenômeno do meio (extensões individuais do homem, que o auxiliam de determinada forma – como a lâmpada, ou o rádio) se tornando a própria mensagem, ou seja, é o meio, e não apenas a mensagem que ele transmite, que implica nas consequências sociais que transformam o cotidiano das pessoas envolvidas com essa inovação tecnológica. Dessa forma, os meios de comunicação exercem um papel crucial nas modificações sociais do século XXI, uma vez que se mostram como o cerne da mudança entre diversas relações sociais. Casos como as redes sociais promovendo

o advento da primavera árabe e a batalha contra a guerra na Síria são exemplos

recentes de como os desenvolvimentos tecnológicos dos diversos meios podem se tornar alicerces de revoluções nacionais. Por conseguinte, diante do exponencial alcance das informações através da internet, surgiu a necessidade de analisar as possibilidades de regulamentação e socialização do ambiente virtual, além de, consequentemente, a deflagração de

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teorias e correntes filosóficas acerca do assunto. Desse modo, em primeiro lugar, serão demonstrados os meios de comunicação e suas classificações perante a sociedade, posteriormente, o liame entre os pensamentos difundidos no conceito do Determinismo Tecnológico ligados ao poder de modificação social embutido no ciberespaço, devido sua notória agilidade diante da capacidade de transferência de informação, além de expor as correntes que visam a necessidade de regulamentação da rede, e de socialização desse meio de comunicação.

1 Desenvolvimento

1.1 Meios de Comunicação

A comunicação social visa o contato entre os indivíduos em um organismo

social, propagando ideologias, como análises políticas, sociais, ou seja, é o canal onde há a troca de informação entre os homens, de suas concepções políticas, religiosas e comportamentais.

[…] Segundo Lasswell, o processo de comunicação cumpre três funções principais na sociedade: a) a vigilância do meio, relevando tudo o que poderia ameaçar ou afetar o sistema de valores de uma comunidade ou das partes que a compõem; b) o estabelecimento de relações entre os componentes da sociedade para produzir uma resposta ao meio; c) a transmissão da herança social. (apud MATTELART, 2005, p. 41)

À vista disso, é sabido que os meios de comunicação são, sobretudo, o canal

que distribui os padrões sociais, suas formas simbólicas e, assim, concebendo a concepção estrutural da cultura de um organismo social. Como leciona o sociólogo John Thompson:

[…] o conceito de cultura pode ser adequadamente usado para se referir, de uma maneira geral, ao caráter simbólico da vida social, aos padrões de significado social.

[…] as formas simbólicas estão inseridas em contextos sociais estruturados que envolvem relações de poder, forma de conflito, desigualdades em termos de distribuição de recursos e assim por diante. Essa dupla ênfase define o que eu chamo de “concepção estrutural” da cultura. (THOMPSON, 2000, p. 22)

Desse modo, entende-se que a cultura é responsável pelas modificações

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sociais e essa, por sua vez, é transmitida através da comunicação social. Acerca desse tema, o filósofo McLuhan aduz que “o meio é a mensagem”, ou seja, as concepções transmitidas pelas pessoas, advém de uma nova tecnologia que deve estar necessariamente munida de conteúdo. Desse modo, geram consequências sociais as quais modificam a sociedade como um todo:

[…] o meio é a mensagem. Isto apenas significa que as consequências sociais e pessoais de qualquer meio – ou seja, de qualquer uma das extensões de nós mesmos – constituem o resultado do novo estalão introduzido em nossas vidas por uma nova tecnologia ou extensão de nós mesmos. (MCLUHAN, 1964, p 21)

Portanto, as modificações sociais, no âmbito político, estrutural, cultural, religioso, são transmitidas e aplicadas através dos meios de comunicação, os quais transmitem ideologias possibilitando novas concepções aos pensamentos do indivíduo, o que influencia intimamente no organismo social.

1.2 Classificações dos meios de comunicação

Os meios de comunicação são classificados através dos veículos o qual é dissipado as informações, como é o caso do jornal, televisão e internet. Em vista disso, o professor J. B. Pinho classifica os meios de comunicação em massa por meio do agrupamento das mídias. “[…] essas mídias podem ser agrupadas em três grandes categorias: a) mídia impressa – jornal, revista outdoor, b) mídia eletrônica – rádio, televisão e cinema, c) mídia interativa – internet.” (PINHO, 2001, p. 186) Especificamente, segundo McLuhan, os meios de comunicação são ainda classificados como meios quentes ou frios, à medida que é capaz de proporcionar os sentidos no receptor, criando assim senso crítico ou alienando o usuário. Como bem explicita:

[…] Um meio quente é aquele que prolonga um único de nossos sentidos e em alta definição. Alta definição se refere a um estado de alta saturação de dados.

[…] a fala é um meio frio de baixa definição, porque muito pouco é fornecido e muita coisa deve ser preenchida pelo olvide. De outro lado, os meios quentes não deixam muita coisa a ser preenchida ou completada pela audiência. (MCLUHAN, 1964, p. 38)

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Ao passo que, “segue-se naturalmente que um meio quente. Como o rádio, e um meio frio, como o telefone, tem efeitos bem diferentes sobre seus usuários” (MCLUHAN, 1964, p. 38). Logo, entende-se que os meios quentes correspondem àqueles que prologam um de nossos sentidos em alta definição, correspondendo essa, ao estado de saturação de um sentido, já os meios frios correspondem aos que por transmitirem uma quantidade menor de informação, permitem uma interação maior do indivíduo, como é o caso do telefone. Porém, ao analisar a mídia interativa, internet, sob a ótica de McLuhan, depara- se com um meio tanto quente quanto frio, ao ponto de saturar os pensamentos do usuário ao passo de torná-los frios e incapacitados de interagir ou produzir um senso crítico, ou o oposto, permitindo revoluções de pensamentos e mudar toda uma sociedade, como é o expressivo advento das revoluções sociais. No entanto, apesar da internet ainda possuir elevada desigualdade de acesso entre as camadas sociais, seu mecanismo possibilita grandes mudanças sociais devido a sua forma de rápida expansão de conteúdo, desse modo, considera-se um canal de comunicação com uma expressividade colossal.

1.3 Da proporção ao acesso à internet

As primeiras décadas do século XXI estão marcadas pela integração de inúmeras inovações tecnológicas ao cotidiano das pessoas, consequência direta do crescimento da infraestrutura dos centros urbanos. O estudo do “Acesso à Internet e à Televisão e Posse de Telefone Móvel Celular para Uso Pessoal 2015” realizado pelo IBGE, indicou, no Brasil, o acesso à internet em aproximadamente 57,8% de seus domicílios.

[…] Em 2014, mais da metade dos domicílios passaram a ter acesso à Internet, saindo de 48,0%, em 2013, para 54,9%, naquele ano, o equivalente a 36,8 milhões de domicílios. Em 2015, a expansão continuou ocorrendo, ao alcançar 57,8%, correspondente a 39,3 milhões de domicílios (IBGE, 2016, p.40).

O acesso entre a população mundial e em especial pela população brasileira, acomete-se por meio de diversos aparelhos, como tablets, microcomputador, celular, televisão, relógios. Logo, devido ao expressivo número de plataformas capazes de acessar à internet, e a quantidade de usuários conectados à rede, sua capacidade

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de disseminar os conteúdos, ideias, informações, de forma rápida e com alcance notório é o que transformou esse meio de comunicação em uma ferramenta capaz de gerar revoluções, criar ideologias, e possibilitar maior senso crítico aos seus usuários.

1.4 Determinismo Tecnológico

Os filósofos e pensadores deterministas, no que condiz ao determinismo tecnológico, diante de seus conceitos de que os acontecimentos em seu todo são subordinados a leis naturais, elucidam que a tecnologia seria a responsável pelas futuras mudanças sociais. À vista disso, e devido ao fenômeno da crescente presença do acesso à rede mundial de computadores nas residências, é trazido à tona a criação gradual de um novo ambiente humano, que, conforme o filósofo determinista Marshall McLuhan, em sua obra “Os meios de comunicação como extensões do homem” (1964), introduzirá consequências psicológicas e sociais, na medida em que a mensagem de qualquer meio ou tecnologia é a mudança de escala, cadência ou padrão que esse meio ou tecnologia introduz nas coisas, já que configura e controla a proporção e a forma das ações e associações humanas.

[…]Hoje, se quisermos estabelecer os marcos de nossa própria cultura, permanecendo à margem das tendências e pressões exercidas por qualquer forma técnica de expressão humana, basta que visitemos uma sociedade onde uma certa forma particular ainda não foi sentida ou um período histórico onde ela ainda era desconhecida. (McLuhan, 1964, p. 35)

Desse modo, entende-se que, na medida em que determinada tecnologia dissemina-se em uma sociedade, acometerá mudanças comportamentais notórias, visto que esse contato gera consequências sociais e psicológicas, acarretando nas transformações sociais. Não obstante, Manuel Castells, sociólogo espanhol, apresentou a formulação teórica intitulada de “a cultura da realidade virtual” (Sociedade em rede 1996;2000), que parte do ponto de vista da própria sociedade de que a comunicação eletrônica é a comunicação, e que essa, portanto, possui capacidade de incluir e abranger todas as possíveis expressões culturais, deixando de existir uma efetiva separação entre a própria “realidade” e a representação simbólica.

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Na mesma linha, DiMaggio, em seu artigo “Implicações sociais da internet”, evidencia que a análise das mídias eletrônicas pode se dar conforme seu contexto teórico, ou seja, uma análise sociológica pode demonstrar os diferentes aspectos dos impactos da mídia eletrônica. Cita que para teóricos com base nos estudos de Durkheim, a comunicação direta entre uma pessoa e outra, como telefones ou aplicativos de chat, reforçam uma solidariedade orgânica, enquanto mídias como televisão ou rádio manifestam uma intensa representação de um ideal coletivo. Estudos com foco em Weber seguiriam o rumo de que tais mídias, permitem a interação direta entre as pessoas, logo trariam um avanço da racionalização pela redução dos limites do tempo e do espaço, enquanto aquelas de broadcast (Televisão e rádio) exaltariam os elementos que distinguem os status culturais. O que se encontra em comum entre tais linhas de estudo é o criar de um novo ambiente, humano e que engloba uma noção de interdependência e comutação na resolução de conflitos e de problemas em uma escala cada vez mais global. Essa escala progressiva de resolução conjunta dos conflitos sociais e humanos se dá pela quebra do espaço pelas novas tecnologias através do compartilhar de vídeos, fotos, depoimentos pessoais e transmissões ao vivo que fazem com que o globo passe a perder a noção de fronteiras e ter uma nova visão de proximidade entre seus habitantes.

1.4.1 A comunicação como extensão do homem

Conjuntamente com o advento de novas tecnologias, vem a mutação da sociedade que submete-se a operar as inovações, e, consequentemente, inicia um organismo favorável e outro resistente, segundo o filósofo McLuhan, a implementação de uma nova tecnologia afeta todo o organismo social, visto que este se muda por completo:

[…] Ao se operar uma sociedade com uma nova tecnologia, a área que sofre com a incisão não é a mais afetada. A área da incisão e do impacto fica entorpecida. O sistema inteiro é que muda. O efeito do rádio é visual, o efeito da fotografia é auditivo. Qualquer impacto altera as ratios de todos os sentidos. O que procuramos hoje é controlar esses deslocamentos das proporções sensoriais da visão social psíquica. (McLuhan, 1964, p. 84)

Esse entendimento torna-se palpável ao analisar a evolução dos meios de comunicação, uma vez que o conhecimento, até a revolução ocasionada pela

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invenção de Gutenberg, era transmitido, em sua grande maioria, através da oralidade, ou seja, por meio de contos, lendas e ensinamentos. A criação da prensa por Gutenberg, proporcionou que o conhecimento viesse a ser notoriamente difundido. Porém, empobreceu as formas de conhecimento, uma vez que os ensinamentos limitaram-se à escrita, e não mais às experiências. Acerca disso, há de se destacar o conhecimento transmitido pelos escolásticos gregos, os quais possuíam notável conhecimento filosófico e, inclusive, quanto ao seu organismo social, haja vista que seus ensinamentos eram transmitidos através

da oralidade, uma vez que transmitiam o conhecimento por meio das experiências vividas na própria pólis. Segundo McLuhan, com o advento da prensa de Gutenberg, deveria, a sociedade, ter criado um meio que permitisse a educação escrita e oral, no entanto,

se

submeteu apenas aos ensinamentos contidos na escrita, no visual.

[…] Se persistirmos numa abordagem convencional a estes desenvolvimentos, nossa cultura tradicional será posta de lado, como o foi o escolasticismo no século XVI. Tivessem os Escolásticos, com sua complexa cultura oral, compreendido a tecnologia de Gutemberg, teriam criado uma nova síntese da educação escrita e oral, em lugar de submeter-se à imagem e permitir que à página visual ficasse afeta a missão educacional. Os Escolásticos orais não estiveram à altura do novo desafio visual da imprensa: a expansão ou explosão da tecnologia de Gutenberg daí resultante só serviu para contribuir, em muitos aspectos, para o empobrecimento da cultura…(MCLUHAN, 1964, p. 92)

Desse modo, por essa ótica, o membro do organismo social, o qual submeteu-

se

a usufruir da nova tecnologia, substitui seus sentidos, tornando assim a inovação

uma extensão de seu corpo.

[…] o “fechamento” ou a consequência psicológica mais evidente de uma tecnologia nova seja simplesmente a sua demanda. Ninguém quer um carro até que haja carros, e ninguém está interessado em TV até que existam programas de televisão. Este poder da tecnologia em criar seu próprio mercado de procura não pode ser desvinculado do fato de a tecnologia ser, antes de mais nada, uma extensão de nossos corpos e de nossos sentidos. (MCLUHAN, 1964, p. 88)

Por conseguinte, entende-se que a introdução de uma nova tecnologia é capaz

de

proporcionar novas descobertas e alcançar novos patamares, porém, pode tornar

o

usuário dependente e alienado somente àquele entendimento, tornando-se

prejudicial para a organização social.

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1.4.2 Alienação diante da informação

Hodiernamente, o entendimento aludido pelo determinista McLuhan, não se apresenta como ultrapassado, mas sim como uma forma visionária, ao ponto de que, com o advento da internet, apesar das diversas possibilidades afloradas, o organismo social contemporâneo encontra-se dependente de sua funcionalidade. Desse modo, considerando que o ciberespaço tornou-se extensão dos

homens, os conteúdos que lá se encontram são encarados como verdades absolutas por uma parte dos usuários, visto que estes confiam cegamente nesse meio de comunicação. No entanto, há de se salientar que são os próprios usuários que alimentam esse meio, logo, falácias passam a ser usuais nesse ambiente.

À medida que o desfrutador da internet ignora as fontes e a veracidade dos

conteúdos, esse entranha-se em um universo de invencionices, fato é que essa circunstância torna esse usuário vulnerável e, portanto, alienado ao universo da fantasia midiática. Consequentemente, há de se observar o retrocesso aludido por McLuhan, diante do modo pelo qual determinados indivíduos da sociedade encaram o advento de uma nova tecnologia. No entanto, a criação da rede de comunicação contida no espaço cibernético é revolucionária, uma vez que essa engloba todos os meios de percepção dos conhecimentos e é capaz de proporcionar ao usuário notáveis níveis de conhecimento de maneira instantânea, além de expandir a comunicação entre o organismo global, diante dessas possibilidades, expandindo ideologias, conceitos, conhecimento entre as nações.

1.4.3 Revolução

A primavera árabe se mostrou palco de um fenômeno que marcou o início do

século XXI: a derrubada de líderes ditadores do oriente médio por meio de movimentos sociais que surgiram de forma praticamente espontânea, mas que se demonstraram portadores de intensa coalizão e eficácia participativa. As respostas para tal envolvimento, quer seja político, de manifestação, debate, reuniões diversas de uma grande massa de pessoas em prol de um mesmo

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objetivo, se encontram nas redes sociais. O Twitter, um dos aplicativos mais utilizados pelos manifestantes, conseguiu voltar a atenção do ocidente para os acontecimentos no oriente médio, já que esse possui uma ferramenta chamada de “hashtags”, espécie de código formado por palavras que fazem referência ao assunto da postagem e que reúne na tela as mensagens de todos os usuários no globo que se utilizam do mesmo código ou que simplesmente o pesquisam, além de um “ranking”, que apresenta os códigos mais utilizados no momento. Essa ocorrência de expansão e organização acelerada e efetiva, promovida por um meio, uma expansão do homem, que a utilizou para muito além de seu propósito original, nesse caso, como arma eficiente na luta social contra um líder autoritário. Não obstante a revolução por meio da conexão de movimentos coletivos que agem em prol de objetivos em comum, mas que encontram-se separados por barreiras do espaço e do tempo, bem como por impedimentos políticos, os meios atuais podem ser promovedores de uma intensa expansão da compreensão individual que o ser tem em relação ao planeta em que vive. Ter consciência da situação passada em uma parte do globo, testemunhada por seus próprios viventes e compartilhada pelas mídias sociais, influi diretamente na noção de responsabilidade que a pessoa tem de si sobre o ambiente humano em que vive, seja por meio de comparações dos comportamentos e das regras estruturais sociais, políticas, legislativas e judiciais de outros países, ou pela efetiva intervenção no seu próprio meio através de todas as extensões humanas que puderem ser utilizadas. Assim, o determinismo tecnológico se mostra revolucionário, não somente no cotidiano de cada indivíduo, mas pelas inúmeras possibilidades que o indivíduo poderá se fazer valer dos meios conforme o seu momento histórico e social vivido.

1.5 Regulamentação do ciberespaço

O espaço cibernético proporci