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HISTÓRIA
DA VIDA PRIVADA
1
NO BRASIL {)

CONDIÇÕES DA PRIVACIDADE
1 NA COLÔNIA

Fernando A. Navais

Cotidiano e vida privada


na América portuguesa:
Coordenador-geral da coleção:
FERNANDO A. NOVAIS

Organizadora de volume:
LAURA DE MELLO E SOUZA

8~reimpressào

COMPANHIA DAS LETRAS


CONDICÓES DA PRIVACIDADE NA COIÓNIA • 15
14 • HISTÓRIA DA VIDA PRIVADANO BRASil 1

Atentemos, portanto, por um momento, e como ponto


de partida, para esses passos do cronista coevo. Eles nos reme-
tem, como indicamos acima, para dois aspectos essenciais de
nosso objeto: de um lado, sua inserção nos quadros da civili-
. I
zação ocidental; de outro, a sua maneira peculiar de integrar- Cr: f.ltC TGAlS1 J(;?,J
se naquele universo. No primeiro aspecto (isto é, a imbricação
das esferas), revela-se o que a Colônia tinha de comum com o !v\4 fL (.-< r'JE..l
mundo metropolitano; no segundo (isto é, a sua inversão),
talvez resida a sua peculiaridade, pois o referencial de nosso i» c'~" c/:,
frade, que provocava sua estranheza, era, naturalmente, o l\ t:')~c, 1\ rJ 4

mundo europeu. I
E, de fato, a imbricação das esferas do público e do privado- I
V
é uma das características marcantes da Época Moderna, do Re- ~
Notava as coisas e via que mandava comprar um [rangão, nascimento às Luzes,como transparece praticamente em todo
o volume organizado por Reger Chartier,' Entre a Idade Média
.i. fYl.Nt MG 1): I'l
quatro ovos e um peixe para comer, e nadlllhe traziam, porque
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não se achava na praça, nem no açougue, e, se mandava pedir as feudal, quando no Ocidente cristão se configura propriamente
ditas coisas e outras mais às casas particulares, lhas mandavam. uma "sociedade sagrada': e o mundo contemporâneo burguês e
\
Então disse o bispo: verdadeiramente '(Jtle/lésta terra andam as racionalista que se expressa na laicização do Estado, estende-se
essa zona incerta e por isso mesmo fascinante, já não feudal, /~ V
coisas troca das, porque toda ela não é república, sendo-o cada Oc ; \)(,~I(j l/I ·,.ll ':;.:J
casa. , ainda não capitalista, não por acaso denominada de "transição':
Frei Vicente do Salvador, História do Brasil (1500-1627) 1 Encarado em conjunto, esse período da nossa história - a
~
história do Ocidente - revelasempre essa posição intermediá- '.so c', e:, ~~
ria; em todas as instâncias, de todos os ângulos, é sempre essa a ,\

sua característica definidora. No plano econômico, por exem- >h\\'lM-~


mblemático, o trecho de nosso primeiro historiador

E parece-nos simplesmente perfeito como ponto de par-


tida de nossas indagações. Trata-se de tentar nada menos
que uma como que arqueologia (no sentido de «condições de
plo, defrontamo-nos com uma produção dominantemente
mercantil (pelo menos, é o setor mercantil que imprime a di-
nâmica ao conjunto), e portanto não mais a economia "natu-
ral" dominante no feudalismo; mas ainda não capitalista, pois a
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f3 ..!tL4 v(,~ G ~ Ú o .J 1 \..-JJH
possibilidade") das manifestações da vida .privada nos quadros
da colonização portuguesa no Novo Mundo; noutros termos, força do trabalho ainda não se mercantilizara, ou, noutros ter- ')
. tentaremos desbravar aquelas sendas de'mediações entre as es- mos, o salariato não é o regime de trabalho dominante (nem a (
servidão, em franco declínio; o que parece dominar é o produ- \ J
truturas mais gerais do universo colonial e as expressões do
privado no seu cotidiano. Ora, escre'.::endona ter.ceira d~ tor independente). Se nos voltarmos para o nível político, o
do século XVII, esse incrível frei Vicente do Salvador já nos poder não se encontra mais diluído na teia das relações vassáli- ,

!
aponta suas características essenciais: em primeiro lugar, a pro-. cas, como na sociedade feudal; mas a monarquia absolutista, \ Lt; c..; LI;
funda imbricação das duas esferas da eiist~nciá, aqui na Colô- primeira fase do Estado moderno em formação, ainda vai
ma, e Isto, que já não sena pouco, arn a.não e tu, o. 01S, em abrindo caminho, como mostrou Eli F. Heckscher em análise (, ~ T ~~ c

J
.do lugar, o arguto cronista deixa Claro que os níveis do clássica, entre as forças universalistas e particularistas. Sejá não
puõhco e o privado, para além de: inextricavelmente ligados, vige mais a fusão do espiritual com o temporal (fusão, aliás,
apresentavam-se a mesma orma curiõ!amen e iiWêrtidos. dificílima, que deu lugar, na Idade Média, às lutas entre o Sacer-
dócio e o Império), o monarca de direito divino não pode ...J
Pois, como terá de imediato nota' o atento leitor.a inversão é
também uma forma de articulação -. prescindir da "religião de Estado", que se expressa na fórmula rLt.~: MG 0G- '-;-fU;~W'i

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16 • HISTÓRIA DA VIDA PRIVADA NO BRASIL I CONDIÇOES DA PRIVACIDADE NA COLONIA • 17

famosa: "Cujus regio, ejus religio". Assim, aos conflitos entre os Para explicitar as condições da vida privada na América
papas e os imperadores (do "Sacro Império") sucedem as guer- portuguesa, numa tentativa de procurar as articulações do
ras de religião ou a permanente tensão entre o poder real e o sistema com as manifestações da intimidade que ocorrem no
papado romano. ' . , . , . seu interior, a fim de esboçar o que seriam como que as estru-
Se dirigimos, agora, o olhar para as formas deintimida-
de, a paisagem com que deparamos não é mais a de quase
total indistinção, na Alta Idade Média, ,que Michel Rouche
turas do cotidiano na Colônia, levemos em linha de conta,
sempre, essa ambigüidade básica da situação, tão vivamente
apanhada por dois protagonistas particularmente sensíveis, o
1 M6 To 1J0 (1,'
pôde descrever como a conquista, pela vida privada: do Esta- poeta e o cronista. Havemos de retomar a esse ponto no final
do e da sociedade; mas também não podemos Vislumbrar de nossa trajetória, mas por ora convém adiantar que, se na
aquela clara e distinta separação .das esferas, que J. Habermas Europa da Época Moderna as manifestações da intimidade
analisa para o nosso tempo.' Entre a indistinção feudal da vão se definindo em relação à formação dos Estados, na Colô-
Primeira Idade Média e a separação formal' que se lllstaura nia (no mesmo período) elas estão associadas ainda mais à
com as revoluções i eralS, aor - '? e-mnt, um peno o em passagem da colônia para a nação, ou melhor, à própria gesta-
que as esferas do pú ico e o privado já não estão indistintas, ção da nação no interior da colônia. E isso talvez tenha algo a
mas ainda não estão separadas - estâõímbricããas. econsti- ver com aquela peculiaridade configurada na inversão do pú-
tuir as manl estaçôeSda mtimidade nesse período trata-se de blico e do privado.
~~r- r-!I",!) tarefa difícil: há que apanhar tais práticas in fieri, isto é, no Reconstituir, portanto, a "história da vida privada no
próprio processo de definição de, espaço do privado, o qual Brasil Colônia" implica tentar surpreender um processo em
(~ Q 'C c corre paralelo ao da constituição do Estado moderno, que gestação, na sua própria constituição e especificidade. O título
c L; delimita o território do público. E isso não escapou ao nosso que se preferiu para este volume - Cotidiano e vida privada
P !d l\.Jê' \ C 1./1 ~ c o/?- historiador seiscentista.
Mas, como frisamos antes, ele .não se detém aí. Ao acen-
na América portuguesa - não é, pois, apenas uma questão de
modéstia ou de prudência. É que desejamos, desde logo, pa- fL~ .I} ~h~' (. ()
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tuar a inversão das esferas, frei Vicente parece indicar que, tentear nossa preocupação de evitar o anacronismo subjacen-
/: ç o ~-'\O tCJ ~ rJD além de conectadas, as duas faces do público e do privado te a expressões como "Brasil Colônia", "período colonial da fo kv:
surgem-nos como invertidas, e isso'é apresentado como espe- história do Brasil" ete. Pois não podemos fazer a história desse )4- : .lJ'~I\.'/?I ~.{l.
, ~ r, O cífico "desta terra", isto é, da Colônia'. Fixemos, portanto, nos- período como se os protagonistas que a viveram soubessem
.J~ 9« ( sa atenção na observação do cronista: .no mundo' colonial, as que a Colônia iria se constituir, no século XIX, num Estado :/J
I
coisas aparecem "trocadas", e isso causa estranheza; e se cau-

.,
• fi '-r (. " nacional. Nesse sentido, se procuramos reconstituir as mani- .. ~~
/"
LI
í sam estranheza, é porque não "deviam" aparecer desse modo. festações da intimidade articuladas num quadro mais geral, a
I

\ /
~o \' } (?I.\ ) J E assim vamos tocando, nas pegadas do cronista, numa das definição, ou melhor, o recorte desse quadro não pode ser ~, .,~ r ,,/1 ~
dimensões mais essenciais da colonização moderna. Isso nos "Brasil", e sim a colonização moderna em geral, situando-se a
lembra os versos em que Gregório -de Matos desvelava "a ilu- colonização portuguesa no Novo Mundo dentro desse con- <' ;1 lê y/.~) \\)1.
são ideológica que transforma a colônianuma perfeita réplica texto. Em suma, o antigo sistema colonial. No contexto da ( IJ
N~( '4- Hj
da metrópole":' ' colonização, portanto, a privacidade vai abrindo caminho não !

Do que passeia fa'rfante


só em contraponto com a formação do Estado, mas ainda
mui prezado de amante,
com a gestação da nacionalidade.
por fora, luvas, galõés, Fixado este ponto básico, tentemos um primeiro passo
insígnias, armas, bastões, nessa aproximação, na busca das correlações entre as estrutu-
por dentro pão bolorento: ras da colonização e as manifestações da intimidade. Na estei-
Anjo Bento.'
ra de Braudel, comecemos pela base, isto é, pelas gentes - a
demografia. A colonização moderna não foi um fenômeno
18 :. HISTÓRIA DA VIDA PRIVADA NO BRASIL I CONDIÇÓES DA PRIVACIDADE NA COlÓNIA • 19

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MQ\" ,0\.,.1... ,.JI'~Q (f) I essencialmente dernográfico, mas'por certo tinha uma dimen-
são demográfica muito importante: Não foi essencialmente
demo gráfico no sentido de que 6' movimento colonizador
não foi impulsionado por pressões demográficas (como, na
Antiguidade, a colonização grega); mas, tem dimensão de-
'I í"'rIJl-S\1) rr.V~ p i Q, ~J -:\ mográfica no sentido de que envolve 'amplos deslocamentos
~~

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populacionais. Fora a colonização, mo:derna um fenômeno


f:::G~.I\ c li .I\.A ( ,l4 s ). essencialmente demo gráfico, os países mais densamente po-
pulosos teriam montado as maiores colônias, Ora, é quase o
oposto que se dá, Portugal, pioneiro da expansão, contava
no século XVI com no máximo 1 milhão de almas; a França o
to
dispunha à mesma época de 15 'milhões de habitantes, e só s;"-
mais tarde constituiu pequenas colônias, e os populosos Esta- ~
dos alemães e italianos não participaram do processo de ex- ••..
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pansão colonial. A colonização moderna foi um fenômeno
O
global. no sentido de envolver todas as 'esferas da existência. ~
mas seu eixo propulsor situa-se nosplanos político e econô- (,
",'"
mico, Quer dizer, a colonização do Novo Mundo articula-se O

de maneira direta aos processos correlatos de formação dos


Estados e de expansão do comércio que marcam a abertura da
20 . rllS lORIA DA VID/, PRIVADA NO BRASIL I
CONDIÇÓES DA PRIVACIDADE NA COIONIA • 21

modernidade européia. É fácil observar' que a seqüência dos


"revolução vital", acompanhou no geral o crescimento popu-
países colonizadores (Portugal, Espanha, Inglaterra, França,
lacional europeu médio.
Províncias Unidas dos Países Baixos) é a mesma da formação
Já se vê a importância decisiva dessa primeira caracteri-
dos Estados e expansão mercantil e marítima. O pioneirismo
zação para descrever e compreender as formas que foram
de Portugal deve-se, assim, à precocidade da centralização polí-
assumindo aqui as relações íntimas - essa constante neces-
tica (acelerada a partir dos Avis), e não, como é costume dizer-
sidade de integrar novas personagens nos círculos de intimi-
se, à posição geográfica no extremo ocidental da Europa (o "jar-
dade por certo que imprimia uma grande fluidez em tais
dim à beira-mar plantado"), pois sempre esteve lá e somente no
relações que por assim dizer não tinham tempo de se sedi-
século xv realiza as grandes navegações. .
mentar. E isso é tanto mais decisivo quando lembramos que,
I Encarada no conjunto, na dimensão demográfica, a co-
para além do crescimento pela agregação de novas levas, a
V lonização revela já aquela ambigüidade e contr~dição que é o
I .
mobilidade se expressa também e intensamente de forma ho-
seu traço distintivo, marcado com.' tanta acuidade por frei
~ (\,~ Gl (\ 1'•• rizontal, isto é, nos contínuos deslocamentos no espaço. Bas-
Vicente do Salvador no trecho com . que iniciamos nossas
• r;" ta olhar para os mapas das linhas de povoamento" (ver p. 18 a
, ( rll l.,\.
•.. ~ reflexões, e ao qual voltaremos permanentemente. A colônia
20) para constatar essa permanente mobilidade; ou reler o
é vista como prolongamento, alargamento da metrópole (a
capítulo "Correntes de povoamento" de Formação do Brasil
mãe-pátria), mas é, ao mesmo tempo, a sua negação',Assim, a
contemporâneo de Caio Prado Iúnior para experimentar a
f) i~'b
~ ,ti}" C~ população da colônia na perspectivametropolitana e e~Ulva-
mesma sensação:" a movimentação tumultuária que devia
lente à da metrópole, porém a metrópole é uma reglao de
permear a vida cotidiana, no universo da Colônia. Antonil, já
(<::: Co ,.:.'\ fy} \)')<rr.{C , onde as pessoas saem (região de emigração) e a colônia é uma
em 1711, comparava os deslocamentos dos primeir~s povoa-
região para onde as pessoas vão (deimigraçã~). Falamos de
dores das Minas ao dos "filhos de Israel no deserto': 10
(ç '1"\ O '1- íV-- \t t) demografia na visão metropolitana porque, eVldentem:nte, a
Móbil, instável, e mais ainda dispersa, a população na
mentalidade dos ameríndios não contemplava esse tipo de
b~S 1"! .-li"" \)<0, preocupação: o que, aliás, aponta a complexidade do fenôrr:e-
Colônia devia provavelmente angustiar-se diante da dificul-
dade de sedimentar os laços primários. E note-se que essa
no colonial, que envolvia um confronto de culturas. E esta e a
dispersão decorre diretamente dos mecanismos básicos da
primeira e importantíssima característica que de~emos ressal-
colonização de tipo plantation que prevaleceu na.América
tar para iniciar a demarcação, no plano demografico, das es-
portuguesa: da sua dimensão econômica (exploração para
truturas do cotidiano na colônia: a contínua chegada de no-
desenvolvimento da Metrópole) resulta a montagem de uma
vos contingentes populacionais. A intensa mobilidade aparece,
economia predatória que, esgotando a natureza, tende para
portanto, como a mais geral característica da pop.~lação no
a itinerância. A extraordinária fertilidade do massapé do Nor-
mundo colonial, em contraposição à relativa estabilidade ca-
deste, garantindo a consolidação e a permanência multissecu-
racterística do Velho Mundo. E a primeira face dessa mobili-
lar da lavoura canavieira, é claramente uma exceção no mun-
dade é o crescimento rápido; no final do século xvui a Colônia
do colonial, e mais adiante iremos indicar os desdobramentos
tem uma população semelhante à de Portugal, entre 3 mie
desse padrão para o nosso tema. No geral, a economia colo-
lhões e 4 milhões de almas." Para Portugal, estudos relativa-
nial predatória, com seu baixo grau de reinvestimento, apre-
mente recentes de demografia histórica' indicam, para o iní-
senta uma forma de crescimento puramente extensivo, que
cio do século XIX, uma população semelhante à da Colônia
tende para a itinerância, e isso é que lastreia a contínua dis-
(um pouco menor, na realidade: 2931000 para 1801). Em
persão das populações a que nos referimos. Por outro lado, da
todo o caso, é possível constatar, para o século XVIlI portu-
sua dimensão política (fortalecimento dos Estados), decorre
guês, uma taxa de crescimento demográfico que não discrepa
um permanente esforço metropolitano no sentido de expan-
da média européia. É digno de nota,portanto, que, pequena
dir o território da dominação colonial, para além das possibi-
metrópole de imensa colônia, Portugal, ao longo da época da
lidades de exploração econômica; é que os Estados modernos
CONDiÇÕES DA PRIVACIDADE NA COIÕNIA • 23
22 ; HIS10RIA DA VIDA PRIVADA NO BRASil I

4, 5. o EI/gel/ho de Seril/lraéll1,
plantation típica. (4. Seril/haélll.
século XVII; 5. Fábrica de ellgel/lJO.
século XVll)

em gestação na Europa estão se formando uns contra os ou- Mundo os contingentes africanos. Se nos lembrarmos de que
tros, de aí essa furiosa competição para garantir espaços na tanto ameríndios como africanos tinham também grande di-
exploração colonial. No caso português, esse processo é leva- versidade interna, começaremos a entender a complexidade do (- O ctM4 ç ,fi i:i I) I}

do ao limite, e é O que explica a enorme desproporção entre a melting-pot colonial. E do convívio e das inter-relações desse j N!",l,~ t&
caos foi emergindo, no cotidiano, essa categoria de colonos que,
pequenez da Metrópole e a imensidão da Colônia. E é tam-
bém de aí que resulta a enorme dispersão e .rarefação das depois, foi se descobrindo como "brasileiros". "Brasileiros",
como se sabe, no começo e durante muito tempo designava
!! ~
populações coloniais; esse perfil devia aparecer aos olhos dos
protagonistas da colonização como. Uma.incômoda e mesmo apenas os comerciantes de pau-brasil, A percepção de tal meta-
I ~ r 1 ((' i' ,10}
angustiante sensação de descontigúidade; sensação tanto mais morfose, ou melhor, essa tomada de consciência -, isto é, os
intensa se nos lembrarmos quea descontigüidade contrastava colonos descobrindo-se como "paulistas', "pemambucanos', O~j(j)tll ,4~ - ~G
rudemente com a experiência de vida na Metrópole. "mineiros" etc., para afinal identificarem-se como "brasileiros" //
- constitui, evidentemente, o que há de mais importante na to!},,\..· ':.i lã J"
Mobilidade, dispersão, instabilidade enfim, são caracterís- ~ )
ticas da população nas colônias, que vão demarcando o quadro história da Colônia, porque situa-se no cerne da constituição
de nossa identidade. Precisamente, isso decorre lentamente nos f Cs P "'1>:1'", I,\J(A"~\ ,\
dentro do qual se engajaram os laços primários e se foi desen-
rolando a vida do dia-a-dia. Para compormos ainda mais expli- domínios da intimidade e do cotidiano, o que mostra, aliás, que -,I'" "I.'
"
(v<:.·
.;.
G. j' r\.,.
J '
citamente esse quadro é preciso agregar-lhe outra característica, longe de ser uma história de nemigalhas e futilidades, estamos
que, aliás, vai na mesma direção: refiro-fie à necessária diversi- aqui no núcleo fundamental de nossa trajetória, visamos então ; ~Sin)( >(40~

dade das populações na Colônia. Por definição, .as gentes na ao 120ntocentral de nossa constituiç~ uanto ROVó e na~ão, 5(-
Colônia se dividem entre os colonizadores e os nativos: mas na abrimos a possibilidades de compreender algo do nosso modo ~->('; " \ , L. '. I ("'.f
colonização do Antigo Regime, nas áreas em que a compulsão de ser. Estudar, portanto, as manifestações da privacidade e do
do trabalho foi levada ao limite da escravidão, essa diversidade cotidiano, neste caso, significa sondar o processo mais íntimo
se acentuou com o tráfico negreiro, que (arreou para o Novo de nossa emergência na história.
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• I

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24 • HISTÓRIA DA VIDA PRIVADA NO BRASil I CONDiÇÕES DA PRIVACIDADE NA C01ÕNIA • 25

E já que vamos, a pouco e pouco, nos acercando do "caso


Brasil" no quadro geral da colonização moderna, convém mar-
car que aquela diversidade acimaIndicada aqui extrernava-se
na imensidão do território e na variedade de formas que o
povoamento ia necessariamente assumindo; a essa variedade
correspondiam, por certo, diferentes e rnutáveis modos de con-
vívio. Para descrever tal espectro, temos de partir dos extremos:
de um lado o Nordeste açucareiro, a exceção a que' antes aludi-
mos - exceção muito especial porque forma o eixo mesmo da
colonização portuguesa. Aqui, como vimos, o povoamento ten-
7. O mapa seisccntisui atesta
deu para a permanência, fixidez e uma certa estabilidade; e, em
o isolamento, a desolação e ti
6. O trabalho e li natureza decorrência, formas de convívio mais sedimentadas e profun- descontigiutlade da vida ./lI Colônia.
se interpenetram, 05 homells
das - o patriarcado revivido por Gilberto Freyre, em Casa- (At/tls de JOtlO 7e;xeim A/bemaz,
se dispersam: a descontigiiidadc
acha-se presente 1/as representações
grande & senzala. No pólo oposto, na-periferia do sistema, uma 1631)

cartográficas. (foi", Blaeu, Mapa, paisagem social como a de São Paulo, com um povoamento
Holanda, século XVII) rarefeito, em permanente mobilidade. as "bandeiras" já foram caracterizadas como uma "sociedade em movimento", e abri- Co ,.)}M..116 <:,., lU:,
ram os caminhos para atingir as fronteiras, no) dizer de Sérgio
Buarque de Holanda. E note-se o paradoxo: 1 sociedade mais
O L-A oil/tC (Á\ yVCA~I~

estável, permanente, enraizada, está voltada para fora - a eco- ~ O I rlrGn ,I'lll (.1/.1~
nomia açucareira organiza-se para a exportação; e a economia
de subsistência (como a de São Paulo, ou a pecuária nordesti-
r 1{\iL.O\

na), que está voltada para dentro, dá lugar a uma formação


social instável, móvel, sem implantação. De outro ângulo, o
contraponto entre o caráter profundamente rural da sociedade
litorânea, e marcadamente urbano das Minas, realça a diversi-
dade até o paradoxo: o mais estável, permanente, é o setor
litorâneo, voltado para fora, nas bordas; o mais fluido e super-
ficial é o setor interiorizado e urbano. Se nos lembrarmos agora
das pequenas aglomerações estrategicamente implantadas nas
fronteiras distantes, ou mesmo das populações das guarnições
fortificadas, os "presídios" no antemural da Colônia, podemos
imaginar o sentimento de isolamento e sobretudo de solidão
que devia atravessar a vida no dia-a-dia nos confins do Novo
Mundo. E somos tentados a falar em confinarnento para carac-
terizar esse quadro. Podemos, então, entender como um obser-
vador arguto como Roger Bastide pode falar em "terra de con- -) SG,..t"i : '''1( ..r+e M
trastes", II para nos caracterizar.
É levando tudo isso em conta que podemos pressentir as
i \'J~ hfNi~
)

dificuldades do processo de tomada de consciência da si- Co,J FI rJ '" M(,..J'l-1,)


tuação colonial por parte dos colonos - ou a tortuosidade
das veredas de nosso percurso. Lento, dificultoso, penoso per-

\ J
26 . HISTÓRIA DA VIDA PRIVADA NO BRASIL I
CONDIC6ES DA PRIVACIDADE
NA cOl6NIA • 27

curso de gestação dessa "comunidade imaginária" que, na termediárias que enquadram as manifestações do privado e
definição de B. Aríderson," constitui a nação, Nas Índias do cotidiano, modelando-lhe o perfil. Talvez ainda mais rele-
de Castela, parece ter sido mais intensa essa tomada de vante é a clivagem das populações coloniais que importa ago-

r
consciência; lá, os colonos se norninavarn crio/los. Mazom- ra destacar na montagem desse quadro. A implantação da
bo, que entre nós seria o termo correspondente, nunca teve exploração colonial da Época Moderna, em função de seus

4- ~~ a mesma difusão ou generalização. Na América portugue-


sa, o mais comum era chamar teináis aos nascidos na Me-'
trópole. Quer dizer: os colonos hispanos identificavam-se
determinantes políticos e econômicos, trazia no seu bojo a
compulsão do trabalho como um de seus componentes estru-
turais; e a América portuguesa foi, como se sabe, uma daque-
ç(\" rv-/J (. 1lS positivamente pelo que eram ou acreditavam ser ("nós so- las áreas onde esse componente foi levado ao limite, configu-
mos criollos"); os luso-brasileiros identificávamo-nos ne- rando o escravismo. As populações aparecem, pois, clivadas
gativamente ("nós não somos reinóis"), pelo que sabíamos em dois estratos: os que são compelidos ao trabalho e aqueles
{ VI.:; t. (€ f t '- ,) não ser. Nos tempos de frei Vicerite, a percepção dessa dife- que os compelem, os dominadores e os dominados, os senho-
rença era apenas nascente; afloranas entrelinhas dos Diá- res e os escravos. Entre os dois pólos, toda uma imensa gama
\'0 1t'("1 r-f' \ \)4- \)(, logos das grandezas do Brasil (1618), e o nosso cronista re- de situações intermediárias. A clivagem intransponível entre
fere-se aos povoadores não só COlÍ10 "os que de lá vieram, as gentes é, pois, uma das categorias essenciais a definir o
mas ainda aos que cá nasceram". Distantes, portanto, está- quadro no qual se desenrolam as vivências do dia-a-dia. A
vamos ainda daquela clareza com que se expressava, em organização familial, por exemplo, bem como as formas de
1803, Luís dos Santos Vilhena: "Não é das inenores desgra- moradia são diretamente afetadas por essa c1ivagem funda-
ças o viver em colônia". J3 '.. .
mental; os tipos de família e as formas de moradia configu-
Pois é, exatamente, esse "viver ~mcolônias" que forma o' ram-se diferentemente nas áreas e nas situações em que do-
objeto deste estudo. Os vários capítulosirão descrever, anali- minam os extremos (senhor/escravo) ou em que predominam
sar, esmiuçar as várias faces e de diversosângulos esse fugidio as formas intermediárias de homens livres pobres, pequenos
objeto. Neste capítulo, procuramosapenas indicar os nexos produtores ete. A criação de zonas intermediárias ou momen-
que articulam tais manifestações da intimidade cotidiana com tos de aproximação (amaciarnento, diria Gilberto Freyre) pas-
as estruturas básicas da formação social ria Colônia. Diversi-
dade, fluidez, dispersão, aparecem então como categorias in-

8. 9. "O sertão. em que se vão


achando as pedras acima ditas
é vastissimo, e convém fazer-se nele
um exame muito particular [... 1.
porém o gentio é milito. e agora que
estlÍ escandalizado se mostra cada vez
mais feroz .;.": as legendas que
acompanhavam os mapas de flovas
lavras descobertas evidenciam o
confronto sempre presente nas regiões
remotas sobre as qllais avançava
a colonização. (Mapa de lavras
em Minas Gerais. século XVIIf)
28 • HISTÓRIA DA VIDA PRIVADA NO BRASil I CONDIÇÓES DA PRIVACIDADE NA COlÓNIA • 29

sa a constituir um traço marcante da vida de relações na Co- mada intermediária de sensações - distanciamento, desconti-
lônia. A miscigenação foi o principal e mais importante desses nuidade, clivagem etc, - que iam balizando as manifestações
~sp.aç~s de encontro (as festas foram outros), e Gilberto Freyre do cotidiano, em meio às quais ia se formando algo que pode-
msisnu, corretamente, nesse aspecto. Mas, ao mesmo tempo, ríamos pensar como uma mentalidade colonial, esboço de
era também uma forma de dominação" pois o intercurso era, uma fugidia identidade nacional em gestação.
evidentemente, entre o dominadorbranco ea negra escrava; e Aqui, o ponto fundamental: a escravidão como relação
, v

l(~
o mestiço resultante nascia escravo. Poraí-se vê a complexidade social dominante (embora não exclusiva) repercute na esfera ~."
das relações levada até o paradoxo. A miscigenação foi, assim, do cotidiano e da intimidade de maneira decisiva; delineiam-
G ,.
ao mesmo tempo, um canal de aproximação e uma forma de se três tipos básicos no sistema de relações primárias (cotidia- /'

dominação, um espaço de arnaciamento e um, território de nidade, intimidade, individualidade, vida familial ete.) - as J
enrijecimento do sistema. relações intraclasse senhorial, as relações internas ao univer- ~' '~
Do fundo das estruturas básicas da colonização emer- so de vida dos escravos, as relações intermediárias entre se-
gem, portanto, situações de vida fnuito características, e que nhores e escravos. No curso dos acontecimentos cotidianos,
10. J I. Na puisagem íongínoun,
enquadram as manifestações do cotidiano e da intimidade essas esferas, permanente e recorrentemente, interpenetra-
o isolamento em que viviam os
das populações coloniais; como que uma camada intermediá- vam-se criando situações e momentos de aproximação, dis-
colonos. (/O. Frans Post, paisagem
ria, pela qual se àrticulavam aquelas estruturas fundantes e a tanciamento e conflito. Mas a divagem, básica, permanecia rural; I I. Frans Post, paisagem com
recorrência dos acontecimentos. Delineava-se, assim, uma ca- irredutível. É, evidentemente, difícil determinar na reconsti- rio e floresta, século XVII)

l>
.r.,
30 • HISfOR IA DA VIDA PRIVADA NO BRASil I CONDICÔES DA PRIVACIDADE NA COlÔNIA • 31

tuição desta história os dois momentos de interpenetração e sobre os homens (escravidão) e a posse de terras (ainda mais
de manutenção das distâncias. Para dar um exemplo: a atitu- recebidas por doação) imprimiam-lhes na mentalidade uma
de em face do trabalho, decisiva em qualquer formação social, configuração fortemente senhorial; mas, agentes de uma produ-
fica marcada pelo estigma insuperável que identifica trabalho ção mercantilizada em extremo, defrontavam-se no dia-a-dia
com servidão, lazer com dominação. Por mais que os espaços com o mercado, o que lhes exigia um comportamento funda-
de "amaciamento" e os momentos de aproximação possam mentalmente burguês. Mais ainda: era através do mercado que
C:'--( j) > O <- atenuar os pólos dessa clivagern, ela remanesce irredutível. obtinham os escravos, isto é, a condição senhorial. Essa inextricá-
C I ~ol.(-(L'" O
Se aproximarmos, agora, as duas observações sobre as con-
dições da intimidade e do cotidiano na Colônia, tal como
vel ambigüidade está por certo na base do padrão de relaciona-
mento que tendiam a praticar no cotidiano de sua intimidade.
01L~J Il\; emanam das estruturas da colonização, podemos começar a
vislumbrar o perfil dessa esfera da existência colonial, na sua
maior complexidade. De um lado, notamos que o tipo de ex- Esse conjunto de sensações contraditórias, advindas dire-
ploração econômica que se desenvolvia no Novo Mundo impu- tamente das estruturas básicas da colonização, formavam
nha uma constante e grande mobilidade às populações; de ou- como que a camada intermediária de enquadramento do co-
tro, a compulsão do trabalho,exigidapela mesma exploração tidiano e do íntimo do "viver em colônias': Mas eram todas
da Colônia, levava à c1ivagem radical entre os dois estratos bá- elas - as sensações - dominadas pela mais abrangente de
sicos da sociedade. De fato, gestando-se no processo de expan- todas, que dirnanava do próprio sentido mais geral da coloni-
são mercantil da época dos descobrimentos e articulando-se ao zação. Referimo-nos, evidentemente, ao caráter da extroversão
não menos importante processo de formação dos Estados, a da economia colonial, montada para acumular externamente.
faina colonizadora tendeu sempre a ampliar a área de domina- A partir das análises clássicas de Caio Prado Iúnior ("Sentido
ção (competição entre os Estados) e a montar uma empresa de da colonização"), procuramos, em trabalho anterior," articular
exploração predatória, itinerante, compelindo o trabalho para a exploração das colônias ao processo de formação do capitalis-
intensificar a acumulação de capital nos centros metropolita- mo; disso resultava que a colonização tinha um caráter essen-
nos. Disso resultava, como vimos, ao mesmo tempo, uma per- cialmente comercial, voltada para fora, mas, para além disso,
manente mobilidade das populações e uma clivagem entre os compunha um mecanismo de estímulo à acumulação primi-
f
,
C!J ~ ,7\-" ~S; vários estratos sociais. E a ill reside; precisamente, o ponto es- tiva de capital mercantil autônomo no centro do sistema." A
sencial: é que as sociedades de estamentos, em: geral, apresen- externalidade da acumulação aparece, pois, nesta análise,
\)~ :SO" G ('\/7t.fj tam uma mobilidade mínima, tanto horizontal quanto vertical. como a estrutura básica, no plano econômico, definidora da
A sociedade colonial, ao contrário, configura uma sociedade colonização. Ora, ao mesmo tempo, é essa estrutura fundante
~~~ ~ ~G rl'l~l. fJ e
estamental com grande mobilidade; é essa conjunção surpreen- que lastreia o por assim dizer sentimento dominante do viver
dente e mesmo paradoxal de clivagem .com movimentação que em colônias, ou seja, essa sensação intensa e permanente de
marca a sua Q.tigl!!alidade. E isso precisa ser levado em conta instabilidade, precariedade, provisoriedade, que se expressa por
para se desenhar o quadro das condições em que se manifesta- todos os poros de nossa vida de relações. É tal sensação pro-
va a vida privada colonial: a sociedade da Colônia, ao mesmo funda e duradoura que, ao que parece, integra e articula as
tempo, estratificava-se de forma estamental e apresentava in- demais que vimos até aqui descrevendo; e quando nos lem-
tensa mobilidade; o que, provavelmente, criava uma sensação bramos de que a outra face da externalidade da acumulação
de ambigüidade, pois a junção dessas duas características envol- era, como mostrou L. F. de Alencastro," a extraterritorialida-
via, simultaneamente, tendência de aproximação e distancia- de do aprovisionamento da mão-de-obra, começamos a per-
mento das pessoas. Essa mesma ambigüidade, aliás, aparece ceber os fundamentos daquele sentido de "desterro" tão bem
quando consideramos em particular o estrato superior dos co- .assinalado por Sérgio Buarque de Holanda na primeira pági-
lonos, os senhores de terra e de -escravos: a dominação direta na de Raízes do Brasil. E, mais uma vez, vão pouco a pouco
'f
,t

32 • HIS10RIA DA VIDA PRIVADANO BRASil I CONDICÓES DA PRIVACIDADENA COlÓNIA • 33

revelando-se os nexos entre as estruturas fundantes e o nosso para a sensação de ambigüidade e desconforto que atravessa a
modo de vida íntimo e cotidiano: vida social da Colônia de lés a lés, e que derivava, também ela,
Curioso ainda notar que, se 'os historiadores levamos das condições básicas da colonização. Já nos referimos ante-
muito tempo para assinalar esse "sentido" profundo da colo- riormente a que as colônias eram vistas como o prolonga-
nização e analisar seus mecanismos estruturais, e alguns ainda mento das metrópoles, o Novo Mundo só se distinguindo do
recalcitram em adrniti-lo, não assim nosso insuperável cronis- Velho pela sua recentidade; daí a toponímia: Nova Inglaterra,
ta-historiador pioneiro; implacável na sua capacidade de pe- Nova Espanha, Nova Granada, Nova Lusitânia ... Ora, a tal
netração da realidade históricaescreveu frei Vicente do Sal- visão contrapunha-se a realidade da colonização, que ia confi-
vador (Livro I, capo 11): "E deste modo se hão os povoadores, gurando formas sociais muito diferentes e em certos sentidos
os quais, por mais arraigados que na terra estejam, e mais negadoras da Europa moderna. De fato, a colônia é tão diver-
ricos que sejam, tudo pretendem levar a Portugal, e, se as sa da metrópole, quanto a região dependente o é da domina-
fazendas e bens que possuem souberam falar, também Ihes dora; contrastemos, por exemplo, a evolução da organização
houveram de ensinar a dizer como os papagaios, aos quais a do trabalho num e noutro pólo do sistema: enquanto na Eu-
primeira coisa que ensinam é: papagaio real pera Portugal, ropa se transita da servidão feudal para o salariato através do
porque tudo querem para lá. E isto não tem só os que de lá trabalho independente de camponeses e artesãos, no mundo
vieram, mas ainda os que cá nasceram, que uns e outros usam colonial acentuava-se a dominância do trabalho compulsório
da terra, não como senhores, mas como usufrutuários, só e, no limite, a escravidão. O núcleo desse descompasso situa-
para a desfrutarem e a deixarem destruída"
Realmente, não podemos evitar urna certa melancolia ao
constatar que, depois de muito meditar e analisar, tudo quan-
to logramos foi caracterizar a "externalidade da acumulação
primitiva de capital comercial autônomo" no mundo colonial
se, com certeza, na contradição, no plano mais geral da colo-
nização do Antigo Regime, entre a ideologia (catequese) e a
prática (exploração) dos colonizadores. Nem poderia ser de
outra forma: a religião (por meio da catequese do gentio)
aparece desde o início como o discurso legitimador da expan-
)
I
da Época Moderna; quanto a frei Vicente, dizia, na terceira são que era vista, assim, como "conquista espiritual"; é junto
(,.1('1 Y
década do século XVll simplesmente: "tudo querem para lá". É ao papado que os reinos ibéricos, pioneiros da colonização e
claro que essa frase, límpida e direta, contém todo o conceito exp~nsão, buscam autoridade para dirimir as disputas pela ~t r rf~~~)
longa mente elaborado. Mais ainda: liga este fundamento geral partilha ~os mundos a descobrir; e, a partir daí, a legitimação
com os comportamentos, as práticas, esse "modo" com que da conquista pela catequese. Na própria gênese do processo, já
"se hão" os colonizadores; e não SÓ Os reinóis, como também deparamos, portanto, com o discurso legitimado r da cateque-
os nativos. E isso sem comentar a última frase, para não nos se cristã; ele acompanha toda a colonização moderna, varian-
distanciarmos muito do assunto, em que se contrapõem a do evidentemente de intensidade de um momento para ou-
posse senhorial da terra (o senhorio feudal produtor de valo- tro, e de uma região para outra. Mas nos países ibéricos
. res de uso), que era o seu referencial, ao uso mercantil, des- pioneiros a sua presença é levada ao máximo, e isso nos afeta
trutivo, que se implantava no Novo Mundo. E depois vieram diretamente, muito de perto.
~ alguns historiadores a falar no caráter feudal da colonização ... Mais uma vez, aqui, deparamos, portanto, com as co-
\C(; 1~' 4 o
__ > Instabilidade, precariedade, provisoriedadeparecem pois lônias exacerbando os traços da metrópole. Na Europa mo.
II formar o núcleo dessa "camada 'de sensações" que, provindo derna, efetivamente, a religião mantinha-se imprescindível à
C /.)
I
(..r ordem social hierárquica e ao Estado absolutista, ambos
(1..1 .{ 4. ·I'í,..· das estruturas mais profundasda',colonização, enquadram as
demais, dando o tom de conjunto na vida de relações nessa fundados no privilégio. Esse peso da religião acentuava-se
parte do Novo Mundo na Época Moderna; mas, para irmos nas colônias como legítimação da conquista. Para bem en-
até o fim nessa tentativa de descrever e analisar as condições tender estas conexões será preciso ter sempre em conta que,
da intimidade e do cotidiano colonial, temos de voltar-nos se distinguimos analiticamente, para melhor compreendê-
CONDICÓES DA PRIVACIDADE NA COlÓNIA • 35
34 • HISTÓRIA DA VIDA PRIVADA NO BRASil I

giosa: o Estado absolutista recisa controlar a I reja, e ao


rÍ1esmo te I2 d.ep.endia de sua legítlmação. Todo o movi-
mento liás associa-se a uma re ativa laicização a cul ora,
e cruza com a uebra da unidade da cnstan ademê<he-
vai, com o advento das Igrejas reformadas; o manismo 01
a primeira heresia triunfante, no compasso da ruptura das
hierarquias do feudalismo. As transformações religiosas, nas
suas duas vertentes - a Reforma heterodoxa protestante e a
Reforma ortodoxa católica -, encaminham conflituosa-
mente o processo, confluindo no princípio do "cujus regio,
ejus religio", pelo qual se expressa a insuperável necessidade
de o Estado absolutista manter a unidade religiosa. É nesse
contexto que se pode entender o estabelecimento da Inquisi-
ção nos países ibéricos, precoces na centralização e pioneiros
na expansão colonial. Portugal foi, aliás, o primeiro país a
homologar de maneira integral as decisões do Concílio Tri-
dentino. O Santo Ofício que, como se sabe, atuaria rigida-
mente na perseguição dos mouriscos e marranos (cristãos-
novos) estenderia seus tentáculos para o Novo Mundo.
Extremavam-se, no mundo colonial, as tensões do mun-
do metropolitano; assim, nas colônias ibéricas, será na di-
mensão de Contra-Reforma que a Reforma católica marcará
sua presença. O empenho da Igreja se concentra na "con-
quista" do gentio para o seio da cristandade e na manuten-
A. i~:J:taJ( ••.
~.:..... ção dos colonos na mais estrita ortodoxia. Missionação e
B.:a....t- .•. ;r..~n:",,;,~
c: (••~:E __ :#.-.•.. :r·c:...!.Iu'"rh,.~. Inquisição, em suma, cifram o processo de colonização das
almas; em contrapartida, em toda a parte e por todo o tem-
po, uns e outros opunham desesperada resistência a essa
12. A illlagem da pequena los, OS vários processos da transição para a modernidade - forma de dominação. Ainda que, sob esse último aspecto,
cidade perdida na imensidão formação dos Estados, expansão mercantil, reformas religio- tenha havido certa diferença entre a América portuguesa e
do território reforçava sas, mutação cultural ete. -, eles; na realidade, ocorrem ao as Índias de Castela, pois nestas instalaram-se os Tribunais
a sensação de isolamento. mesmo tempo e irrextr icavelrnerrte .inrerligadós. A coloniza- da Fé, enquanto na América Portuguesa tivemos apenas as
(Olinda, século XVII)
ção acontece nesse contexto, movida ao mesmo tempo por famosas visitações - pode-se dizer que a presença da Inquisi-
"fatores" político-econômicos e religiosos, radicalizando suas ção era constante (através da rede de "familiares" que pene-
tensões, mostrando suas entranhas. Com efeito, a formação trava por todos os desvãos da sociedade colonial, no seu afã
dos Estados relaciona-se com a-crise religiosa na medida em de engendrar delações e apresentar denúncias) o suficiente
que a ruptura da hierarquia feudal encimada pela suserania para criar esse ambiente de insegurança, apreensão e temor, que
dupla do Sacerdócio e do Império.envolvia em certa medida a por sua vez encontrava, reforçando-o, aquele sentimento de
"nacionalização" das Igrejas, ouurnacerta autonomia em instabilidade e precariedade que vimos analisando até aqui."
relação ao papado; em sentido contrário, o poder absoluto A famigerada instituição (o Santo Ofício) comparecerá, as-
de direito divino não podia prescindir da legitimação reli- sim, nos capítulos seqüentes como uma das principais fontes
36 • HISTORIA DA VIDA PRIVADA NO BRASil I
CONDIÇÓES DA PRIVACIDADE NA COlÓNIA • 37

comportamentos, engendrando conflitos - e, mais uma vez,


reiterando a sensação de desconforto e desterro que domina a
ambiência do cotidiano e do privado em nossa América. Pois
foi essa contradição básica da formação colonial que nosso
cronista frei Vicente do Salvador apreendeu claramente na
abertura desse notável segundo capítulo do livro primeiro de
sua História:

o dia que o capitão-mor Pedro Álvares Cabrallevantou a


cruz, que no capítulo atrás dissemos, era a 3 de maio,
quando se celebra a invenção da santa cruz em que Cristo
Nosso Redentor morreu por nós, e por esta causa pôs
nome à terra que havia descoberto de Santa Cruz e por
REGIMENTO esse nome foi conhecida muitos anos. Porém, como o de-
mônio com o sinal-da-cruz perdeu todo o domínio que
DO SANTOOFricio tinha sobre os homens, receando perder também o muito
DA INQvisiç ÃO que tinha em os desta terra, trabalhou que se esquecesse o
DOS REYNOS DÉ PORTVGAL primeiro nome e lhe ficasse o de Brasil, por causa de um
pau assim chamado de cor abrasada e vermelha com que
tingem os panos, que o daquele divino pau, que deu tinta e
virtude a todos os sacramentos da Igreja, e sobre que ela
foi edificada e ficou tão firme e bem fundada como sabe-
mos. E porventura por isso, ainda que ao nome de Brasil
ajuntaram de estado e lhe chamam estado do Brasil, ficou
ele tão pouco estável que, com não haver hoje cem anos,
quando isto escrevo, que se começou a povoar, já se hão
despovoados alguns lugares, e sendo a terra tão grande e
fértil como ao diante veremos nem por isso vai em aumen-
to, antes em diminuição.
Realmente, nesse capítulo que vimos glosando desde o
13. Frontispício do Regimellto do início, frei Vicente do Salvador, na esteira de Zurara, João de
Santo Ofício da lnquisição de 1640. Barros e Gandavo," aponta de maneira iluminada para as
(Portugal) estruturas básicas da colonização moderna em geral e da
da documentação que permite devassar a intimidade e o coti- colonização portuguesa em especial; e ao mesmo tempo re-
diano da Colônia. mete para as práticas, os comportamentos, ao dia-a-dia do
viver em colônias ... Neste último passo, com que vamos
E assim cruzavam-se as duas vertentes estruturais da co-
também encerrando nosso capítulo, através da metáfora re-
lonização, os seus móveis político-econômico e religioso. Mas
ligiosa do combate entre Deus e o diabo no intertrópico, o
esse entrelaçamento não se expressava apenas na confluência
que ressalta é o contraste e mesmo o conflito entre as duas
acima apontada; num nível mais estrutural, as duas vertentes
vertentes básicas: o impulso salvífico (os móveis religiosos, a
contrastavam fortemente nas suas práticas, tensionando os
catequese) e os mecanismos de produção mercantil (explo-

1'1
38 • HISrORIA DA VIDA PRIVADA NO BRASIL i
r
..
i:
.~
CONDICOES DA PRiVACIDADE NA COLONIA • 39

doutro lado, naspráticas sociais, o que transparece é o inver-


so, isto é, a exploração instrumentalizando a missionação
para garantir o domínio. E essa ambigüidade, que de espalha
por toda a parte e atravessa todo o período, expressa-se de
forma candente na questão da compulsão do trabalho: sem
compelir os nativos ao trabalho produtivo (isto é, produtor
de mercadorias), a colônia não se mantéin nem floresce;
mas a compulsão do trabalho (no limite, a escravidão)
pode levar ao seu deperecimento, isto é, dos nativos. A tor-
tuosa procura de um meio-termo nesse dilema levou ao
longo debate que Lewis Hanke chamaria de "luta pela jus-
tiça";" mas é o mesmo conflito e debate que se desenrola
também na América portuguesa, nos atritos recorrentes
entre jesuítas e colonos, e nos debates intensos, no Velho e
Novo Mundo, em torno da legitimidade da servidão ou da
escravidão não, só dos aborígines americanos como dos
negros africanos. Expressão contundente de tal dilema é a
consciência dilacerada de um padre Antônio Vieira. E é
essa mesma ambigüidade que envolve o ambiente de des-
contiguidade, desconforto, instabilidade, provisoriedade, des-
terro enfim, que vai configurando o clima de nossa vida de
relações, marcando o específico da cotidianidade e da inti-
midade no viver colonial. Por causa dessa mesma obsessão
pela especificidade, este primeiro volume, que trata da vida
privada na América portuguesa, onde e quando se gestou
nossa formação social, inicia-se com o estudo da solidão
dos colonos na imensidão do território, e se encerra com o
14. A capitania do Sergipe vista por ração) do Novo Mundo; sendo que a primeira dimensão (a da" dimensão "privada" da percepção dessa nossa fugidia
olhos europeus" (Frans Post, Ceará catequese do gentio) dominava o-universo ideológico, confi- identidade de colonos imersos na exploração - tomada de
e Sergipe dei Rey, século XVIl)
gurando o projeto, e a segunda (dominação política, explo- consciência que se exprimiu nas inconfidências. Se esta
primeira aproximação, ainda que sucintamente, pôde deli-
ração econômica) definia as necessidades de riqueza e po-
mitar os percursos, no espaço e no tempo, podemos agora
der. Ao lamentar a vitória do demônio nestas terras de
iniciar a travessia.
perdição, o que o cronista está apontando, na realidade, é
para as imposições da vida material em detrimento do uni-
verso espiritual, isto é, do mundo da cultura. As duas ver-
tentes coexistiam e inextricavelmente se articulavam de for-
ma conflituosa, pois o conflito é. também uma forma de
articulação. De um lado (ideológico), pensava-se a explora-
ção para a cristianização, isto é, a exploração como uma
necessidade para chegar à ~vangelização, que era o objetivo;
448 • HISTÓRIA DA VIDA PRIVADANO BRASil 1
NOTAS • 449
I. eONDlçoES DA PRIVACIDADE NA eOLqNIA (Pl" 13-39)
heresia dos Indi?s. Para wna visão das tendências mais recentes destes estudos, veja-se:
(1) Frei Vi",nt' do Salvador. Hist6ria dó·Brasil. 1500-1627. Livro I. cap. 11. 1'1'.42-3. lnquisição. EnsaIOS sobre menkllükules, heresUu. artes, org. Novinsky e Carneiro.
(2) Cf. IR}Q Rsnalssanc« aux Lumiues, org. Reger Chartier, L 111da Histoire de la vi. (18) Cf. Laura de MeUo e Souza. Inferno atlAntico .•.• pp. 21-46.
privk, org. Philippe Àriê$ e Gecrge Duby. .' . (19) Lcwis U. Henke, 110. SpaniJh struggk for justice in America.
(3) Cf. Michel Reuche, "A1t.ldade M~dia o<identál~ capo 4 de Do Império romano ao
ano mil; org. Paul Veyne. t. I da Hist6ria da vida privada. org. Ph. Ari~ e G. Duby: IUrgen
Habermas, Mudança estrutural da esfera púb/.iaJ. pp. 13-41. .
f •
(4) Luis Koshiba, "A divina colõníai contribuição 1 história social da literatura", p. 25.
(5) Gregório de Matos. Obras completai. org. lames Amado. 11. p. 443.
(6) Cf Dauril A1den, "The population of Brazil in the nightccnth century: a prelimí.
nary survey" Hispanic Ameri",n Historica/ &vi",'-1963; vol. XLIII,pp. 173-206.
(7) Cf. Iosé Gentil da Silva, Au Portugal:. 5truclu~e dtltlographique et dtve/oppcmtnl
économique, separata de Studi ;11 onore di A,minrore: Fa,,,fani. vol. 11; Ioel Serrão, Fontes da
demografia portuguesn. pp. 67·90.
(8} Cf MA marcha do povoamento e a urbanização", séc. XVIII, mapas de Aroldo de
Azevedo. Vi/as e cidades do Brasil Colollial. E/lSaio de geografia ••rball" retrospectiva. Boletim
n: 208, Geografia 11. São Paulo, FFLCH'USP, 1956.·.·
(9) Caio Prado lúnior, Formação do Brasil contemporâneo, pp. 65·79.'
(10) Cultum e opulbrda no Brasil (l7iJf.-p. 264. .
(11) Reger Bastide, Brasil. terra de contrastes.
(12) Bcnedict,Anderson,lmagined communítíes.
(13) Luís dos SantosVilhena. R«opiJaçilo,de notícias soteropolitanas e brasííicos,
(/802). p. 289.
(14) Femando A. Novais, Estrutura t,di"tlmi~a do alltigo 'si~ttma colonial.
(15) Este não é, obviamente, o locus apropriado para polemizar com os eriticos deste
esquema interprttativo. Mas, como estou reiterando-o no texto (aliás, estas reflexões mos-
tram, quanto a mim, a fecundidade do esquema),. não .posso furtar- me a algumas observa-
ções muito sucintas a respeito das criticas. Quando falamos da exploração. estamos deslin-
dando mecanismos de conjunto do sistema colonial, isto é, ,das relações entre o conjunto
do mundo colonial e o mundo metropolitano em seu .conjunto; o fato de que uma deter-
minada metrópole não lenha assimilado as vantagens da exploração colonial em seu de-
senvolvimento não prova a inexistência dessa exploração, quer dizer apenas que perdeu a
competição intermetropolitana. Acumulação para fora, externa, refere-se à tendência do-
minante do processo de acumulação, não evidentemente 1 sua exclusividade; é claro que
alguma porção do excedente devia permanecer ("qpiial residente") na Colônia, do contrâ-
rio não haveria reprodução do sistema. Não se trata, desde logo, de uma formação social
capitalista que se elabora sem acumulação originária; mas com um nível baixo dessa acu-
mulação. Extcrnalidade de acumuJação origiri.ária de capital comercial autônomo refere-se
à área de produção (as colônias) em direção ~ metrópoles: nada .tem que ver com um
processo externo ao sistema. que envolve pOf, definição metrópoles e colônias. Não cabe,
portanto, a increpação de obsessão com as relações 'externas (porque não estamos falando
de nada externo ao sistema). nem de desprezo. pelas 'articulações internas, pois estas não
são incompatíveis com aquelas; trata-se, simplesmente, de enfatizar um ou outro lado, de
acordo com os objetivos da análise. Nesta mesma linha. os trabalhos recentes e de grande
mérito sobre o mercado interno no fim do período colonial não refutam (como seus
autores se inclinam a acreditar) de maneira nenhuma aquele esquema que gostam de
apodar de "tradicional"; o crescimento do merCado interno ·t. pelo contrário, uma decor-
rência do funcionamento do sistema, ou, se quiserem, a sua dialénca negadora estrutural,
Uma questão que sempre me ocorre diante desses argtimentos é esta: se não são essas as
características (extroversâo, externalidade da acumulação etc.) fundamentais e definidoras
de uma economia colonial, o que, então, as define? Ou será que se não definem? Será que
nada de essencial as distingue das demais formações econômicas? Não creio que seja esse o
objetivo dos revisionistas. ',
(16) Luiz Filipe de Alencastro, '0 aprendizado da colonização", Economia e Socieda·
de, Campinas. Revista do Instituto de Economia da Unicamp, ago. 1992. n: I, pp. 135-63.
(17) Na abundante bibliografia sobre '0 assunto destaquemos, para a Europa. o
estudo recente de Francisco Bethencourt, Histó,w das Iuquisições. Para o Brasil: Sónia A.
Siqueira, A Inquísíção portuguesa e a sociedade,coloni~l; José Gonçalves Salvador. Cristãos-
novos, jesuítas e inquisição; Anita Novisnky, c;fÍJtàos.novos na Bahia; Ronaldo Vainfas, A

I r-

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