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inquisição no brasil

Sua excelência, o
caçador de
hereges
No Brasil, a perseguição religiosa ocorreu em um contexto muito diferente do
europeu. Em uma sociedade dominada pelo trabalho escravo, o Santo Ofício
contribuiu para reforçar as diferenças entre os brancos na colônia

por Bruno Feitler


Biblioteca Nacional, Paris / © The Bridgeman Art Library/Keystone
história viva

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N
o dia 9 de julho de 1713 foi celebrado na praça Assim como em Portugal, o alvo prioritário dos inqui-
do Rossio de Lisboa, bem em frente ao palácio sidores na América eram os cristãos-novos, descendentes
da Inquisição, um auto de fé como havia muito dos judeus convertidos à força ao catolicismo no fim do
tempo não se via na capital portuguesa. Membros do século XV. No Brasil, assim como na Europa, o Santo Ofício
alto clero, frades das ordens religiosas, juízes dos tribunais agia como um instrumento de perseguição à heresia,
régios, ministros e oficiais do Santo Ofício tinham lugar mas também de promoção social. As funções eram basi-
de honra no evento, mas os atores principais da terrível camente as mesmas, mas o contexto no qual atuava era
cerimônia eram os penitenciados. Julgados pelos inquisi- diferente: em uma terra de fronteira, onde predominavam
dores por delitos de fé, 141 réus aguardavam a leitura de a população masculina e o trabalho escravo, a perseguição
suas sentenças. Destes, 79 haviam sido presos no Brasil, religiosa reforçou a grande cisão que havia no interior da
sobretudo no Rio de Janeiro. Naqueles primeiros anos do comunidade branca residente na colônia: de um lado, es-
século XVIII, era cada vez mais comum encontrar gente tavam os cristãos-velhos, representantes legítimos do mui
vinda da colônia entre os réus do Santo Ofício em Lisboa. católico reino de Portugal; de outro, os cristãos-novos, ou
Vivia-se o auge da atividade seja, os descendentes dos judeus convertidos, que mesmo
da Inquisição no Brasil. sendo brancos, e muitas vezes bem inseridos socialmente,

Condenados
pela Inquisição
são queimados
em praça
pública
na capital
portuguesa no
século XVIII,
época em que
a perseguição
aos pecadores
na América
atingiu o ápice

Auto de fé em
Lisboa, gravura
colorida, escola
francesa, século
XVIII

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Edital da fé não podiam se livrar de suas origens meio de visitadores envia-


publicado maculadas pelo sangue judeu. dos às capitanias com po-
em 1694 em A Inquisição que atuou no Brasil deres para prender e julgar
Coimbra.
Documentos era a portuguesa, que surgiu no localmente alguns casos.
como este século XVI. O primeiro tribunal do A primeira dessas expe-
listavam os
delitos que
Santo Ofício lusitano foi o de Évora, dições passou por Bahia,
estavam sob fundado em 1536 pelo rei Dom João Pernambuco, Itamaracá e
jurisdição do III para combater a heresia judaizante. Paraíba entre 1595 e 1598.
Santo Ofício
Ele deu continuidade a uma política Em 1618 foi organizada
iniciada por seu pai, Dom Manuel, uma nova visita à Bahia, e
que em 1496 baixara um decreto ba- quatro anos mais tarde os
nindo o judaísmo de seus domínios. inquisidores percorreram
Impedidos de sair do reino, os segui- Rio de Janeiro, São Paulo e
dores dessa religião foram obrigados Espírito Santo. Finalmen-
a se converter ao catolicismo, mas te, em 1760, Maranhão e
muitos deles, apesar de batizados, Pará receberam as últimas
continuaram a praticar seus ritos visitas inquisitoriais da
ancestrais, o que era inadmissível história do Brasil.
aos olhos da Igreja e do monarca. O No entanto, esse mo-
Acervo do autor

favor divino dependia da pureza da fé delo baseado em uma


cristã de todos os súditos. Para acabar ação extraordinária das
com os vestígios do credo proscrito, autoridades metropolita-
os inquisidores portugueses celebra-
ram seu primeiro auto de fé em 1541,
na cidade de Lisboa.
Não demorou para que o Santo
Ofício começasse a agir também nas
diversas colônias do Império Portu-
guês. Em 1560 foi fundado em Goa,
na Índia, o único tribunal do Santo
Ofício criado em território ultramarino
(no total existiram quatro tribunais:
em Lisboa, Coimbra, Évora e Goa). A
Inquisição demorou mais tempo para
começar a atuar no Brasil. Inicialmen-
te, a América serviu de refúgio para
os cristãos-novos que escapavam
da perseguição na metrópole, e por
muito tempo a região serviu como
lugar de degredo, para onde eram
enviados os réus acusados de heresia
e outros delitos. Foi sobretudo no fim
do século XVI que os moradores dessa
parte do império passaram a ser pre-
sos e julgados por delitos de fé.
Como o Brasil nunca teve um
tribunal permanente do Santo Ofício,
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apesar de algumas tentativas régias


nas décadas de 1620 e 1630, a Inqui-
sição começou a atuar na colônia por

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nas não vingou. As visitas custavam lista dos delitos que
caro, davam margem a alguns ex- estavam sob jurisdi-
cessos cometidos pelos visitadores ção inquisitorial.
e rendiam pouquíssimos resultados, Esse texto, que
como foi o caso nas capitanias do incitava as pes-
Sul. Diante dessas dificuldades, e do soas a se delatar e, Medalha de familiar da Inquisição. A
contexto de guerra contra os holan- sobretudo, a denun- distinção, conferida aos colaboradores
leigos do Santo Ofício na colônia,
deses, o que tornava a navegação no ciar hereges e pecadores, funcionava como um certificado de
Atlântico perigosa, a partir de meados devia ser lido em todas as “limpeza de sangue”
do século XVII a ação da Inquisição paróquias uma vez por ano, na
no Brasil passou a se apoiar cada vez época da Páscoa. muito mais homens (778) que mulhe-
mais em agentes locais, como os As denúncias recolhidas eram en- res (298), o que denota um território
comissários nomeados pelo Santo viadas a Lisboa, onde eram analisadas de fronteira, onde as mulheres bran-
Ofício na colônia, membros do clero pelos inquisidores. Estes, após algumas cas eram pouco numerosas. Em Minas
que atuava na região e voluntários verificações, mandavam os mandados Gerais, por exemplo, durante o século
leigos, os chamados “familiares” da In- de prisão para seus correspondentes XVIII, para 60 homens presos contam-
quisição. Esse aparato foi responsável locais. Com a ajuda dos familiares do se apenas cinco mulheres!
pela maioria das prisões por delitos de Santo Ofício, os réus eram presos e Outra característica interessante
fé realizadas no Brasil. enviados a Lisboa. Muitas vezes, os é que, enquanto em Portugal os ar-
Os inquisidores de Portugal man- acusados tinham os bens sequestra-
davam para seus representantes dos e, depois do julgamento, confis- o principal delito dos réus da
locais exemplares do edital da fé: uma cados. Foi desse modo, e também
américa portuguesa foi a heresia
por meio das denúncias feitas pelos
réus já encarcerados em Portugal, que judaizante, seguido por
se efetuou a maioria das mais de mil
proposições heréticas e bigamia
prisões ocorridas no Brasil.
O principal delito dos réus da tesãos foram as principais vítimas da
América portuguesa, registrado em Inquisição, seguidos dos profissionais
cerca da metade dos casos até agora do comércio, surgindo só então os
contabilizados, foi a heresia judaizante, homens que viviam da terra, no Brasil
vindo depois empatados os casos de a ordem se inverte. A importância da
proposições heréticas e de bigamia, mão de obra escrava fez com que
com cerca de 80 casos cada um. Vêm o trabalho manual fosse malvisto.
em seguida as 50 corrências de sodo- Isso fez com que os artesãos livres
mia (a penetração pelo“vaso traseiro”). fossem pouco numerosos entre os
Logo depois aparecem os casos de réus da Inquisição, como também O número
de mulheres
Coleção particular (ao lado) / Coleção Roberto Bachmann – Lisboa (acima)

feitiçaria e de solicitação de favores se- foram poucos (mas não inexistentes) presas pelo
xuais pelos confessores. Esses núme- os cativos presos pelo Santo Ofício, tribunal da fé
ros seguem mais ou menos o padrão apesar de sua importância numérica na América
foi baixo, ao
que se verifica no total dos cerca de 40 local. Assim, perto da metade dos contrário da
mil processos abertos pela Inquisição réus estava ligada à agropecuária e Europa, onde
portuguesa. A diferença é que, na ao comércio, e apenas cerca de 10% elas eram um
alvo constante
metrópole, mais de 80% das prisões eram artesãos. da perseguição
foram motivadas por acusações de E o que acontecia com os índios? religiosa
judaísmo, enquanto no Brasil essa por- Mesmo convertidos, os nativos aqui
Punição pública
centagem chegou somente a 50%. presos pelo Santo Ofício foram rarís- de prisioneiros
A ação da Inquisição no Brasil simos. Como eles eram vistos como do tribunal da
também revela importantes diferen- incapazes de assimilar rapidamente Inquisição, gravura
colorida, autor
ças entre as sociedades da colônia e toda a doutrina católica, não podiam desconhecido,
da metrópole. No Brasil foram presos ser cobrados com o mesmo rigor que século XIX

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terror no interior das famílias


A Inquisição, ao proteger a exclusividade católica no diano, a Inquisição exacerbou tensões no interior do grupo
mundo português, causou muito sofrimento e desgraça, de cristãos-novos local que, de outro modo, poderiam
não só para os presos, mas também para seus famíliares, passar despercebidas ou, em todo caso, terminar de modo
que de uma hora para outra podiam se ver na rua (os bens muito mais ameno.
das pessoas condenadas por heresia eram confiscados) Aquela era uma comunidade formada sobretudo por
e difamados por várias gerações. O caso da comunidade plantadores de cana e de mandioca (nenhum era senhor
de cristãos-novos da Paraíba, no início do século XVIII, de engenho), aparentemente bem inseridos socialmente,
ilustra essa situação. que tinham relações de parentesco com membros da
Durante a Qua- pequena elite local. Alguns deles eram judaizantes, mas
resma de 1726, a outros eram bons e devotos católicos. Foram disputas
população da ci- familiares em torno do aprendizado do judaísmo secreto
dade da Paraíba que fizeram com que alguns membros do grupo, depois
(atual João Pessoa) de ouvir a leitura dos editais da fé, denunciassem membros
foi informada dos da própria família por judaísmo: pais, irmãos, primos e so-
delitos sob jurisdi- brinhos e um filho acabaram nas mãos do Santo Ofício.
ção do Santo Ofício As denúncias foram feitas a um missionário francisca-
por meio de leitu- no e ao vigário da Paraíba, que as transmitiram ao bispo
ras dos editais da de Olinda e aos inquisidores de Lisboa. Estes últimos,
fé realizadas nas após mandar confirmar localmente pelos jesuítas as
várias igrejas da denúncias vindas da Paraíba, enviaram uma primeira
cidade e até na na leva de mandados a um familiar do Santo Ofício para
capela de um enge- que efetuasse as prisões.
nho da região. Ao As primeiras pessoas foram capturadas em março ou
irromper no coti- abril de 1729 e deram entrada no palácio inquisitorial de
Lisboa em outubro e novembro do mes-
mo ano. Ao todo, 51 pessoas fizeram o
mesmo caminho até a década de 1740,
em três levas de prisões. Desse total,
três morreram nos navios a caminho de
Lisboa, e outras seis faleceram nos cár-
ceres inquisitoriais, como o velho Diogo
Nunes Tomás, de 83 anos, que morreu
pouco depois de chegar a Portugal.
Várias pessoas foram torturadas, e
duas, por não conseguirem confessar
do modo esperado pelos inquisidores
(o nome das testemunhas e até as
Documentos acusações eram mantidas sob absoluto
do processo
sigilo, e os presos eram até vigiados em
instaurado
pelo Santo segredo dentro dos cárceres!), foram
Acervo do autor – Arquivos Nacionais/Torre do Tombo, Lisboa

Ofício contra julgadas impenitentes e queimadas


os cristãos- na fogueira. Esse foi o caso de Guiomar
novos da Nunes, assassinada depois do auto de
Paraíba. Acima,
fé de 17 de junho de 1731, e de Fer-
mandado
de prisão de nando Henriques Álvares, morto após a
Florença de cerimônia de 20 de setembro de 1733.
Chaves; ao Assim, a Inquisição, com a ajuda do
lado, primeira clero local, obteve o tenebroso sucesso
página da
esperado: desfazer as solidariedades
sentença de
história viva

Dionísio locais e familiares, desbaratando o


da Silva grupo de judaizantes da Paraíba.

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os brancos. Mas isso não impediu que
várias pessoas – brancas e mestiças
– fossem presas por “gentilidade”,
como se verificou sobretudo no re-
côncavo baiano em fins do século XVI,
em torno da santidade de Jaguaripe,
movimento religioso que misturava
elementos de milenarismo tupi ao
catolicismo dominante.
A Inquisição também teve um im-
portante papel de legitimação social
dos cristãos-velhos, ou seja, daqueles
que reivindicavam não ter nenhuma
“origem infecta”, como se dizia, nenhu-
ma origem indígena, africana, cigana,
mas sobretudo judaica. A ligação com
o tribunal do Santo Ofício era fonte
de muita honra e de alguns privilé-
gios, o que levava homens leigos a
Reprodução

se apresentar como voluntários que


ajudavam os inquisidores a efetuar
prisões, além de desempenhar um
papel importante nos autos de fé. sobretudo no século XVIII, e perto de pois foram queimados na fogueira A construção
do bode
O título de familiar funcionava 3.500 conseguiram a tão almejada 2,7% (ou seja, 29 pessoas) do total de expiatório:
como uma espécie de certificado patente, que era uma honraria para sentenciados, o que é muito menos propaganda
de “cristão-velhice”, o que era uma toda a familia. Os familiares ajudaram do que os 12% do total da Inquisição antissemita
mostra judeus
garantia de status social na colônia. A assim a perpetuar, tanto quanto a de Lisboa. A influência do Santo Ofí- do século XV
possibilidade de adquirir uma prova perseguição aos supostos hereges, cio, no entanto, não se mede apenas tirando sangue
de origem pura levou muitos leigos a grande cisão que existia no interior pelo número de réus. A quantidade de uma criança
cristã para
a se submeter ao exame que dava da população branca da colônia de denunciados foi muito maior, o celebrar rituais
acesso ao cargo. Para ser familiar era entre cristãos-novos e velhos. Essa que mostra que a população estava místicos
necessário passar por um minucioso situação só começou a mudar em ciente do papel do santo tribunal, sem Ilustração, autor
inquérito de bons antecedentes, hon- 1773, quando o marquês de Pombal contar o papel de distinção social dos desconhecido,
ra, riqueza e também genealógico, aboliu a distinção. familiares da Inquisição. c. 1754
que se preocupava com a “limpeza Qual foi, então, o impacto da In- Mas, para além disso, quantas fa-
do sangue” dos candidatos, pois a quisição na sociedade colonial? Ora, mílias inteiras foram atingidas pela pri-
instituição queria ter certeza da pure- se partirmos do número de pessoas são de apenas um de seus membros?
za da fé dos seus oficiais, e a origem sentenciadas (pouco mais de mil em A infâmia que recaía sobre todos, por
infecta era vista como um indício de cerca de 300 anos), esse impacto não várias gerações, era implacável. A
possível heresia. parece tão grande. O tribunal tam- confiscação dos bens daqueles con-
No Brasil, mais de 4 mil pessoas bém foi aparentemente menos viru- denados por heresia deixava os pa-
se candidataram ao cargo de familiar, lento com as pessoas presas no Brasil, rentes na miséria e destruía redes de
solidariedade, o que também afetava
para saber mais a vida econômica local. Esses, porém,
Nas malhas da consciência – Igreja e Inquisição no Brasil. Bruno Feitler. Alameda/Phoebus, 2007 são fatores difíceis de contabilizar.
Inquisição – Prisioneiros do Brasil (séculos XVI – XIX). Anita Novinsky. Expressão e Cultura, 2002
Cristãos-novos na Bahia. Anita Novinsky. Perspectiva, 1992
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A Inquisição em xeque – Temas , debates, estudos de caso. Ronaldo Vainfas, Bruno Feitler e Lana Lage (orgs.). Eduerj, 2006 Bruno Feitler é pesquisador 2F do CNPq e
professor de história moderna da Universidade
Trópico dos pecados – Moral, sexualidade e Inquisição no Brasil. Ronaldo Vainfas. Nova Fronteira, 1998 Federal de São Paulo (Unifesp). É autor de Nas
Agentes da fé – Familiares da Inquisição portuguesa no Brasil colonial. Daniela Calainho, Edusc, 2006 malhas da consciência – Igreja e Inquisição no Brasil
(Alameda/ Phoebus, 2007)

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