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Ronald Dworkin
Seis ideais de Dworkin sobre a Teoria da Igualdade
1. Desde Kant, toda teoria social normativa depende de uma variante do princípio de
igual consideração e respeito.
2. A igualdade de bem-estar é uma conceção errada deste princípio.
3. A igualdade de recursos é a conceção correta.
4. A igualdade de recursos implica duas exigências:
(1) a distribuição deve ser sensível à escolha (2) deve ser insensível à sorte bruta.
5. Contra Isaiah Berlin, é possível conciliar a liberdade e a igualdade.
6. Os governos devem respeitar o princípio de igual consideração e respeito.

Diferenças com John Rawls


1. Neutralidade vs perfecionismo: Rawls defende princípios para uma sociedade que
procura a cooperação na vantagem mútua de todos. Dworkin procura a verdadeira
comunidade política.
2. Liberdade e igualdade: Para Rawls, em caso de conflito, a liberdade tem prioridade
sobre a igualdade. Para Dworkin o conflito é apenas aparente.

3. Sobre as vantagens naturais: São injustas, mas para Rawls, o princípio de diferença corrige
essas injustiças. Para Dworkin, o mercado de seguros é uma correção mais justa, pois é
mais sensível à responsabilidade individual.
Diferenças com Robert Nozick
Dworkin rejeita a teoria da titularidade de Nozick por duas razões:
 Os primeiros a chegar não devem ficar com tudo o que quiserem;
 As desigualdades devidas aos talentos naturais não devem ser legítimas.
Dworkin pretende conciliar a direita com a esquerda graças à importância da
responsabilidade individual na sua teoria.

3 tipos de desacordos sobre a justiça distributiva


1. Os lugares de justiça distributiva: que tipos de coisas são adequadamente regidas por
princípios de justiça? Regras, instituições, práticas coletivas, ações individuais?
2. O objetivo da justiça distributiva: resolver conflitos, permitir formas mais avançadas de
cooperação ou realizar outros tipos de comunidade possível?
3. O conteúdo de justiça distributiva: quais são os princípios de justiça? Liberdade, igualdade,
suficiência ou algo totalmente diferente?

“Nenhum governo é legítimo que não demonstre igualdade de consideração pelo destino de
todos os cidadãos sobre os quais tem domínio e, dos quais demanda fidelidade. A igualdade
de consideração é a virtude soberana das comunidades políticas - sem ela o governo não
passa de tirania […].”
Dworkin, Virtude Soberana, 2005, p. IX.

A ideia de igual consideração e respeito

Ana Vieira 2018/2019


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Que princípios proporcionam a melhor interpretação da “virtude soberana”, do direito


abstrato a uma igual consideração e respeito?
(1) Igual consideração: o princípio da “igualdade de importância” ou de “valor intrínseco”:
todos as vidas humanas têm valor intrínseco = princípio político: A igual importância tem
em vista um ponto de vista objetivo, o de que a vida humana seja bem-sucedida ao invés
de desperdiçada. Assim, os políticos devem tratar os cidadãos objetivamente com igual
consideração, que é a virtude soberana e indispensável à vida política.
(2) Respeito: o princípio da "responsabilidade pessoal”: cada indivíduo tem a
responsabilidade de identificar e perceber o valor da sua vida = princípio ético (individualismo
ético): Admite que justiça na distribuição dos bens em uma sociedade deve refletir a escolha
de cada um. Assim, contanto que as pessoas tenham tido liberdade de fazer o que quiseram de
suas vidas devem assumir a responsabilidade pelo que delas fizeram. Dworkin (2005)
considera injusto retirar recurso de quem escolheu trabalhar e repassá-los a outra pessoa que
preferiu uma vida sem maiores esforços (Fábula da Cigarra e da Formiga).
A distinção entre escolha responsável e circunstâncias
A igualdade distributiva estrita não é uma interpretação plausível do ideal abstrato da
igualdade de consideração.
No entanto o argumento neoliberal de que o mercado é mecanismo justo para a distribuição
de riquezas também não é plausível.
Em ambas as teorias, o princípio de igual consideração e respeito não é exercido.
Por que razão? Em ambas as teorias, a distinção entre escolha responsável e circunstâncias
não é tida em conta.
DWORKIN CONTRA A IGUALDADE DE BEM-ESTAR (WELFARE)
Igualdade de quê?
John Rawls
Não chega conseguirmos formular princípios de justiça que nos dizem como devemos
distribuir as riquezas. Também precisamos de saber que tipo de coisas devemos distribuir:
Igualdade de bens primários? Rawls é contra a maximização do bem-estar geral mas a favor da
maximização dos bens primários dos menos favorecidos.
Para Rawls as desigualdades naturais e sociais são moralmente arbitrárias. Ora os mais
talentosos não são moralmente responsáveis pelos seus talentos. Logo as desigualdades
provocadas pelos mais talentosos apenas se justificam se favorecem os mais pobres.
É certo que em Rawls, as pessoas são responsáveis pelas suas próprias concepções do bem.

Amartya Sem
Em “equality of what?” (1980), Amartya Sen critica a igualdade de bem-estar (maximização das
preferências subjetivas de todos), distinguindo-a da igualdade de bens primários de Rawls.
Mas segundo Sen, a igualdade de bens primários não tem em conta as necessidades especiais
das pessoas com handicaps genéticos.
A igualdade de bem-estar sim, mas permite dar mais recursos às pessoas com gostos caros.
Contra ambas as teorias, Amartya Sen defendeu a “igualdade das capacidades” e não a
igualdade de recursos, nem a igualdade de bem-estar.
Pode existir uma igualdade de bens sociais primários ou de recursos materiais sem que exista
igual capacidade para os colocar ao serviço das liberdades, devido às diferenças no contexto

Ana Vieira 2018/2019


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cultural e ambiental dos indivíduos, a diferença de género, exposição a doenças, etc. Assim a
questão fundamental é a da capacidade de transformar os bens sociais primários ou os
recursos em efetiva liberdade de escolha. A noção de capabilidades indica precisamente essa
transformação.
O mais importante é igualizar o conjunto de capabilidades básicas dos indivíduos e não
simplesmente os instrumentos que podem estar ao serviço dessas capabilidades, como os
recursos ou os bens sociais primários.
Ronald Dworkin
Dworkin, desenvolve a crítica da igualdade de bem-estar e afina a igualdade de recursos (ou de
bens primários de Rawls), tendo em conta as críticas de Amartya Sen.
Para Dworkin devemos dar mais recursos às pessoas com necessidades genéticas mas não
queremos dar mais recursos às pessoas com gostos caros.

Igualdade de bem-estar e lotaria genética e social


O nível de bem-estar que cada pessoa alcança com a mesma quantidade de recursos pode
variar significativamente em virtude das capacidades que cada pessoa possui para “converter
recursos em bem-estar”.
Ora as capacidades variam em função da lotaria genética e social.
Por exemplo, as pessoas com má sorte genética alcançam um nível de bem-estar inferior às
pessoas saudáveis, com a mesma quantidade de recursos materiais.
Logo, a igualdade de bem-estar exige que a sociedade justa deve distribuir recursos adicionais
às pessoas com deficiências.
Até aqui tudo bem com a igualdade de bem-estar.
Objeções de Dworkin à igualdade de bem-estar

1. Subjectividade do conceito de bem-estar: as pessoas diferem naquilo que lhes


proporciona bem-estar. Por exemplo se matar alguém faz essa pessoa feliz devemos contar
igualmente essa preferência em relação a outras preferências que respeitam as pessoas? Não,
claro.
2. Dificuldade de comparar os níveis de bem-estar entre as pessoas para efeito de
equalização.
3. Problema das deficiências graves: qual o nível máximo de compensação? Certas
deficiências não permitem uma igualdade de bem-estar, mesmo transferindo o máximo de
recursos.
4. Problema dos gostos caros (expensive tastes): se o bem-estar de uma pessoa depende
da satisfação da sua preferência por champagne, enquanto o de outra pessoa depende da
satisfação de seu gosto por cerveja, a teoria da igualdade de bem-estar requer que mais
recursos sejam alocados à primeira.

A objeção dos gostos caros


O Pedro adquire e cultiva um gosto caro como tomar caviar e champagne ao pequeno almoço.
Por essa razão não vai ter tanto bem-estar a não ser que adquira mais recursos. Duas
alternativas:

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1. Se lhe forem negados mais recursos, retirados dos que têm gostos menos caros, isto
contradiz a igualdade de bem-estar, já que será impossível atingi-la.
2. Se lhe forem dados mais recursos isto mostra que a igualdade de bem-estar é injusta, já que
é chocante atribuir mais recursos a alguém só porque tem gostos caros.

O argumento ético contra a compensação dos gostos caros


Segundo Dworkin, a objeção dos gostos caros refuta a igualdade de bem-estar pois não parece
ético compensar os gostos caros.
Para Dworkin não devemos compensar os gostos caros pelas quatro razões seguintes:
1. Na nossa experiência ética identificamo-nos com as nossas preferências pessoais,
mas não com as circunstâncias.
Personalidade: define os nossos fins. Assumimos os nossos gostos (embora não as nossas
obsessões, etc., com essas somos críticos)
Circunstâncias: meios para os nossos fins. Sentimos que poderiam ser melhores.
2. Isso implica que temos responsabilidade pelas consequências da nossa
personalidade, mas não das nossas circunstâncias.
 As pessoas adaptam os seus fins aos meios que têm. E trabalham duro para poder pagar
gostos caros, sem esperar que o Estado os compense por esses gostos = observação
empírica, não é normativa.
 Podemos imaginar um mundo em que nos identificamos com os nossos gostos sem nos
sentirmos responsáveis por eles mas esse não é o nosso mundo. (Dworkin
conservador?)
3. Deve haver uma continuidade entre princípios políticos distributivos e vida ética.
Exemplo do desemprego: uma sociedade utilitarista redistribui a riqueza sem ter em conta se os
desempregados são responsáveis pela sua situação.
Utilitarismo = ‘is discontinuous because it makes no room, at the ultimate level of assessment,
for any distinction between choice and circumstance’ (Dworkin, 2000: 324).
4. Gostos caros =
traços da nossa personalidade e não das circunstâncias.
Nós assumimos responsabilidade pelas nossas escolhas de variadas maneiras. Quando essas
escolhas são feitas livremente, e não ditadas ou manipuladas por outros, nós culpamo-nos se
concluímos que deveríamos ter escolhido de modo diverso. [… ]

As nossas circunstâncias são outra história: não faz sentido assumir responsabilidade por elas
a não ser que sejam o resultado de nossas escolhas. Ao contrário, se estamos insatisfeitos com
os nossos recursos impessoais e não nos culpamos por nenhuma escolha que afetou a nossa
parcela nesses recursos, é natural que reclamemos que outros— geralmente os oficiais de
nossa comunidade — foram injustos connosco.
A distinção entre escolha e circunstância é não só familiar, mas fundamental em ética de
primeira pessoa. [… ] Não podemos planejar ou julgar as nossas vidas senão pela distinção
entre aquilo sobre o que devemos assumir responsabilidade, porque o escolhemos, e aquilo
sobre o que não devemos porque estava além de nosso controle. (Dworkin, Virtude
soberana, 2005, p. 455.)
Sobre o valor da responsabilidade individual

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1. Se ninguém se sente responsável por pagar os custos das suas ambições, então todos vão
viver frustrados já que os recursos são limitados.
2. Eu poder pagar o custo das minhas ambições é uma fonte de expressão pessoal importante:
se tudo fosse dado a minha vida teria menos sentido.
3. O Estado não trata todos com igual consideração e respeito se considerar as preferências de
uns mais importantes. Viola a neutralidade sobre o bem.
4. Aceitar as consequências dos nossos gostos é central para o exercício da responsabilidade.
Implicações práticas
No seu livro A virtude soberana, Dworkin defende as implicações práticas da igualdade de
recursos em diversos campos, como por exemplo:
- a ação afirmativa nas universidades americanas
- os direitos dos homossexuais
- a questão da eutanásia
- a igualdade política e a liberdade
- a justiça na saúde
“Dworkin na realidade prestou um serviço considerável ao igualitarismo ao incorporar a
ideia mais poderosa do arsenal da direita anti-igualitária: a ideia da escolha e da
responsabilidade”.

Alternativa de Dworkin
A igualdade de recursos requer:
- Uma distribuição que permite desigualdades derivadas das escolhas responsáveis que as
pessoas realizam,
- Uma distribuição que não permite desigualdades que derivam das circunstâncias pelas quais
as pessoas não são responsáveis (a lotaria social e genética)
3. DWORKIN A FAVOR DA IGUALDADE DE RECURSOS

Dworkin e Nozick
De acordo com Nozick, Dworkin mantém que:
1. As pessoas são responsáveis e devem ser responsabilizadas pelos resultados das suas
escolhas.
Contra Nozick, Dworkin mantém que:
2. As pessoas não são responsáveis e não devem ser responsabilizadas pelas circunstâncias
(não escolhidas) em que fazem escolhas.
Conciliar responsabilidade e circunstâncias
Dworkin pensa que se criarmos um quadro justo para uma economia de mercado, então, graças
a uma distribuição inicial justa dos recursos que corrige as desigualdades de circunstâncias
(naturais e sociais): as pessoas poderão livremente fazer as suas escolhas responsáveis sem
necessidade de redistribuições posteriores durante as suas vidas.
Uma restrição à igualdade
Uma distribuição de recursos é justa apenas se for sensível à ambição (ambition-sensitive) e
insensível às dotações naturais e sociais (endowment-insensitive).
Sensível à ambição: devemos ser recompensados em função dos nossos esforços e objetivos.

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Insensível às dotações: refere-se aos nossos talentos inatos e naturais, e à nossa posição social
na sociedade - coisas que não escolhemos e que não controlamos. As desigualdades que
decorrem destas diferenças nas dotações devem ser corrigidas.

Leilão numa ilha deserta (hipotético) e teste da inveja para uma distribuição
justa

Uns sobreviventes dum barco naufragado chegam a uma ilha deserta e partilham os recursos
de maneira igual:
Suponhamos que todos temos os mesmos talentos naturais e que todos os recursos da
sociedade estão à venda num leilão gigante.
Suponhamos que todos temos a mesma quantidade de dinheiro para gastar, 100.

No leilão, cada bem será entregue ao indivíduo que der maior lance. Ao final do leilão, que
ocorrerá quantas vezes forem necessárias até que todos restem satisfeitos, cada indivíduo terá
sua cesta diferenciada de produtos, adequada ao plano de vida e interesses de cada um.

O teste da inveja para uma distribuição justa diz o seguinte: a distribuição dos pacotes de
bens no fim do leilão é justa apenas se ninguém sentir inveja pelo pacote de outra pessoa.
A ideia central é que a exigência de justiça fica satisfeita quando ninguém se pode queixar
sobre as posses que tem, já que todos tinham a opção de leiloar todos os recursos.
 Este leilão do Dworkin é uma variante da posição original do Rawls (mas sem o véu de
ignorância)
Um exemplo de teste de inveja
Suponhamos que a Joana quer ser surfista e a Andreia quer ser banqueira.
A Joana gasta todo o seu dinheiro numa formação para ser surfista e viver perto da praia. A
Andreia gasta todo o seu dinheiro para obter um MBA e ser uma grande banqueira.
No final do leilão, se nem a Joana nem a Andreia sentem inveja pelo pacote da outra, a
distribuição é justa.
A razão pela qual a distribuição é justa é porque ambas têm uma oportunidade igual de
licitação no pacote da outra, graças à distribuição igual de recursos.
Se a Joana realmente quisesse ser banqueira, poderia ter leiloado o pacote da Andreia.
Se a Andreia realmente quisesse ser uma surfista, poderia ter leiloado o pacote da Joana.

O problema da desvantagem natural


O esquema do leilão permite uma sociedade livre de inveja, que é justa. Mas isso só funciona
se ninguém tiver desvantagens naturais.
No entanto, na sociedade real, algumas pessoas são naturalmente desfavorecidas.
Quando o leilão é posto em prática, as pessoas naturalmente desfavorecidas têm que gastar
mais recursos para chegar a um nível de capacidade que lhes permite viver uma vida apenas
normal.
Solução da Igualdade de Bem-estar para o problema da desvantagem natural

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Uma maneira de resolver o problema da desvantagem natural é tomar as riquezas totais da


sociedade, digamos 1000, e redistribuir aos que sofrem de desvantagens naturais uma maior
quantidade de dinheiro. Esta é a solução da igualdade de bem-estar.
Problema com esta aproximação: não pode resolver o problema das desvantagens naturais
extremas:
- E se algumas desvantagens são demasiado caras para permitir a todas as pessoas de viverem
a vida que querem?
- E se algumas desvantagens são tão extremas que nenhuma quantidade de redistribuição vai
ajudar alguma pessoa a chegar a um nível normal de capacidade em viver uma vida valiosa?
Solução de Dworkin- O mercado de seguros como solução ao problema das
desvantagens naturais (Seguro Hipotético)
No leilão igualitário teórico, além de leiloar recursos externos, cada pessoa pode comprar um
seguro contra a possibilidade de que um vai acabar com um talento com pouco valor
comercializável, devido à má sorte bruta (más circunstâncias)
Justificação do sistema de impostos
É impossível equalizar todas as desigualdades materiais atribuíveis às circunstâncias.
Todavia é possível equalizar as oportunidades que as pessoas têm para se proteger dos riscos
de possuir menos riquezas por razões aleatórias
A cobertura que o homem prudente médio contrataria, no mercado de seguros hipotéticos
contra o risco de possuir menos recursos por conta de circunstâncias involuntárias, é a medida
correta para redistribuir na sociedade os recursos entre os que ganham e os que perdem no
jogo desigual do mercado.
Está assim justificado o sistema de impostos.
Aplicação do mecanismo
do seguro hipotético no campo da saúde
Dworkin defende, então, a aplicação do mecanismo do seguro hipotético no campo da saúde:
Uma comunidade deve gastar coletivamente em saúde a cobertura que pessoas médias da
comunidade em questão, de prudência normal, teriam contratado num mercado de seguros
competitivo em igualdade de condições.

O que o mercado de seguros pode e não pode fazer


 Objetivo da igualdade de recursos: uma distribuição de bens que seja sensível à
ambição e insensível às dotações.
 No final, teste da inveja: uma distribuição é justa apenas se no final do leilão ninguém
sente inveja de ninguém.
 Tendo em conta o problema das desvantagens naturais, e a solução do seguro,
devemos reconhecer o seguinte: A igualdade de recursos completa é impossível.
 Algumas desvantagens nunca podem ser acomodadas suficientemente.
 O mercado de seguros permite aproximar-nos de uma distribuição sensível à ambição
e insensível às dotações.
LIBERDADE

Quanto às conceções sobre a vida boa a ser vivida, esta cabe a cada individuo, devendo o
governo isentar-se de qualquer conceção particular a esse respeito, aqui tem lugar a liberdade

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individual. A política distributiva a ser realizada deve concentrar-se em desenvolver uma


alocação que contemple níveis iguais de bens, recursos e oportunidades de escolhas para
todos os envolvidos.
Dworkin (2005) entende que a liberdade é um dos aspetos mais importantes para a
distribuição igualitária. E a liberdade aqui não é aquela que denota o que é permitido, mas sim
um instrumento pelo qual se pode viabilizar um ideal de igualdade dentro de uma sociedade. A
liberdade deve estar presente antes mesmo do leilão, pois uma distribuição só é justa em
situações onde as pessoas estão livres para agir como desejam. Assim, no caso de deficiências
defende a intervenção para que as pessoas possam estar em pé de igualdade, para esse fim
também existe o seguro.

Dworkin sobre a centralidade de escolha


Um componente importante da visão de Dworkin é a centralidade da escolha livre.
Uma distribuição justa deve identificar:
 Que aspetos da posição económica de qualquer pessoa são efeitos das suas escolhas
 Que vantagens e desvantagens não são efeitos das suas escolhas.

Assim, deve ser verdade que podemos fazer o seguinte:


 Fazer uma demarcação clara metafísica entre vantagens e desvantagens devidas à
natureza.
 Identificar e medir essas características na determinação de uma distribuição justa.

Propostas práticas I: a stakeholder society


A “sociedade das partes interessadas” (stakeholder society) proposta por Bruce Ackerman. A
ideia central é dar a todos um montante fixo de uma só vez de 80.000 ao acabar a escola
secundária, financiado por um imposto da riqueza de 2%. As pessoas poderiam usar este
dinheiro como acharem conveniente.
Ao dar a todos um pagamento duma vez damos a todos a mesma oportunidade de prosseguir
a sua ambição.
O pagamento é insensível às dotações (endowment insensitive), mas iguala as oportunidades
no lado da ambição.
Proposta prática II: o rendimento básico
O rendimento básico é proposto por Philippe Van Parijs. Todos, sejam empregados ou não,
devem obter um rendimento básico de 5.000 por ano.
Objeção: dar 5.000 a todos significaria que algumas pessoas que não fazem nada estão a
explorar as que trabalham.
Recursos versus bem-estar: mais uma vez
Dworkin defende que devemos preocupar-nos com a igualdade na dimensão de recursos. Mas
por que são os recursos importantes?
Todos queremos recursos para perseguir os objetivos que valorizamos. Assim, o que parece
importar não é apenas a distribuição dos recursos, mas o resultado final.
Podemos contrastar a visão de Dworkin com a igualdade de bem-estar, onde “bem-estar” é
entendido como um estado final.

Ana Vieira 2018/2019


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Já vimos como argumentar contra a igualdade de bem-estar, mas é uma alternativa a ter em
conta.
O problema dos gostos caros mais uma vez
O problema dos gostos caros mostra que a igualdade de recursos é uma visão melhor do que a
igualdade de bem-estar.
A Marta gosta de vinho caro, e é apenas feliz com vinho caro. O Pedro gosta de cerveja barata
e é tão feliz com cerveja barata como a Marta o é com vinho caro.
Se a igualdade de bem-estar é o que importa, então a sociedade é obrigada a dar uma maior
proporção de recursos à Marta, uma vez que custa mais para fazê-la feliz do que custa fazer o
Pedro igualmente feliz.
Ora parece injusto dar uma quantidade grande e desigual de recursos à Marta apenas para que
ela seja igualmente feliz ao Pedro.

O IGUALITARISMO DA RESPONSABILIDADE
O igualitarismo sensível à responsabilidade
 Na literatura anglófona esta corrente igualitária é conhecida por luck egalitarianism.
 Esta corrente tem por base os trabalhos de John Rawls (1971), a crítica ao
igualitarismo de Rawls pelo libertarismo de direita de Robert Nozick (1974) e a
tentativa por Ronald Dworkin (2000) de superar o igualitarismo rawlsiano assim como
o conservadorismo de direita. Esta corrente igualitária tem uma posição dominante
nos debates sobre as teorias da justiça distributiva.
 Esta teoria é uma consequência da teoria da igualdade de recursos de Dworkin e da
sua distinção entre escolhas e circunstâncias.
De acordo com qualquer tipo de igualitarismo sensível à responsabilidade individual, as
desigualdades de riqueza entre indivíduos são justificadas quando resultantes de escolhas
pelas quais os indivíduos podem ser considerados responsáveis.
Inversamente, as desigualdades causadas apenas pelo acaso ou pela má sorte bruta não são
justificadas.
Indivíduos responsáveis /miséria
Se os indivíduos podem e devem ser considerados responsáveis pelos resultados das suas
escolhas então qualquer igualitarismo sensível à responsabilidade deve permitir que os
indivíduos suportem os custos (ou gozem dos ganhos) das suas escolhas.
Porém, por vezes os resultados de certas escolhas podem deixar uma pessoa numa situação
económica e psicológica de sofrimento extremo.
Neste caso, porque responsável pela sua escolha, o indivíduo não poderá contar com o apoio do
Estado, através das suas políticas sociais.

Duas intuições centrais ao igualitarismo


Para um igualitarista não se justifica exigir que os indivíduos suportem os custos das suas
escolhas quando estas os colocam em situações de sofrimento extremo (mesmo quando são
inteiramente responsáveis por elas).
Mas para um igualitarista é também uma intuição comum considerar que um indivíduo deve
suportar os custos das suas escolhas quando feitas em circunstâncias de igualdade de
oportunidades .

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No entanto, estas duas intuições centrais ao igualitarismo nem sempre convergem.


A objeção da dureza
De acordo com a objeção “da dureza”, o igualitarismo da responsabilidade não permite justificar
nenhum auxílio às vítimas da má sorte opcional nas suas escolhas sem entrar em contradição
com o seu igualitarismo sensível à responsabilidade.
 Má sorte bruta /má sorte opcional
 Boa sorte bruta / boa sorte opcional
 Exemplo do tabaco para perceber estas distinções.
Exemplo: o caso duma mãe solteira
Tomemos como exemplo o caso duma mãe solteira que escolhe não trabalhar para poder
tomar conta dos seus filhos. Ela não recebe nenhuma ajuda do Estado, pois essa foi a sua
escolha voluntária. Mas esta escolha coloca-a numa situação desesperante.
O igualitarismo da responsabilidade teria que aceitar que o Estado tem o dever de não ajudá-
la, desde que a sua situação resulte de uma escolha voluntária, e desde que tenha tido uma
genuína igualdade de oportunidades em trabalhar, pois sem esta não se pode falar
corretamente duma escolha responsável.
Mas esta consequência parece demasiado dura.
Três razões para ter em consideração a objeção “da dureza”:
1. O igualitarismo da responsabilidade não é suficientemente sensível à relação entre a
probabilidade de um risco e a severidade do resultado associado ao risco;
2. O igualitarismo da responsabilidade não consegue justificar facilmente que a satisfação de
necessidades e de bens básicos possa ter uma relevância particular dentro de uma teoria da
justiça distributiva;
3. O igualitarismo da responsabilidade parece insensível aos deveres de aliviar os indivíduos do
sofrimento extremo quando este resulta de escolhas cuja responsabilidade possa ser atribuída
aos indivíduos (mesmo quando ajudar as vítimas duma má escolha não representa nenhum
custo para o Estado).
Três respostas à objcção da dureza:
O igualitarismo da responsabilidade pode responder à objeção “da dureza” pelo menos de três
maneiras:
(1) permitir considerações prioritárias, independentemente de considerações da
responsabilidade, na justificação de políticas sociais que dêm prioridade aos mais
desfavorecidos da sociedade ;

(2) introduzir “um nível mínimo de bens” ao qual os indivíduos vítimas dos maus resultados
das suas escolhas tenham sempre acesso (independentemente das considerações ligadas à
responsabilidade) ;
(3) introduzir um esquema de seguro obrigatório de modo a que todos os cidadãos sejam
cobertos contra riscos que afetam a sua capacidade de satisfazer as suas necessidades
(correndo o risco de se transformar numa teoria paternalista).
CRÍTICA DE DWORKIN (IGUALDADE DE RECURSOS) A RAWLS (IGUALDADE
DEMOCRÁTICA)

Ambos defende o liberalismo igualitário, mas com diferenças.

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Segundo Dworkin, a conceção Rawlsiana da igualdade democrática falha ao não levar


suficientemente a sério a responsabilidade individual.

A justificação mais intuitiva da igualdade democrática assenta na ideia de que os indivíduos


não são moralmente responsáveis pela lotaria natural e social. Dworkin concorda com este
ponto, mas considera que a conceção de Rawls apresenta dois problemas básicos.

 Por um lado, peca por defeito igualitário ao não ser sensível às desvantagens especiais
de alguns.
 Por outro lado, peca por excesso igualitário ao não ser sensível às ambições e esforços
dos indivíduos.

A teoria Rwalsiana não parece contemplar as desvantagens especiais de alguns quanto aos
seus dotes naturais, nomeadamente a deficiente físicos ou mentais. Uma vez que se centra na
distribuição de bens sociais primários, a teoria visa, de acordo com o princípio da diferença, a
maximização das expectativas daqueles que estão pior ao nível da riqueza. No entanto, os que
estão pior ao nível da riqueza não são necessariamente aqueles que estão pior num sentido
geral.

Se alguém tem uma deficiência grave, com a qual gasta grande parte dos recursos de que pode
dispor, estará certamente pior do que alguém que tem os mesmo recursos mas não os
necessita de gastar para acorrer à sua deficiência em particular. Ora, parece intuitivamente
convincente que a justiça deve também eliminar as desvantagens especiais produzidas pela
pura má sorte- o que não está previsto na formulação de Rawls.

A teoria Rawlsiana é também noutro sentido, indevidamente igualitária, uma vez que não é
suficientemente sensível aos gostos e ambições de cada um. Se alguém decidir dedicar o seu
tempo a atividades de lazer, enquanto outros optam por trabalhos exigentes e extenuantes, o
principio da diferença acabaria por premiar os primeiros. Com efeito, apesar das atividades de
lazer a que se dedicam poderem não ser remuneradas e coloca-los numa posição
especialmente desfavorecida à partida, essa mesma posição deveria ser maximizada à custa
dos que escolheram trabalhos mais difíceis e mais remunerados. De novo, parece
intuitivamente difícil de contestar a ideia de que a justiça deveria ser mais sensível aos
esforços individuais e que, portanto, os que optam pelo lazer em detrimento do trabalho já
estão a ser beneficiados de certa forma e não deveriam sê-lo ainda mais através da função de
transferência do Estado.

Os indivíduos não devem ser responsabilizados pelos fatores em relação aos quais não têm
responsabilidade moral, mas devem ser penalizados no que diz respeito às escolhas pelas
quais são responsáveis.

Dworkin sugere que as pessoas devem ter à partida recursos materiais iguais. Assim, as
pessoas devem ter uma igual possibilidade de se segurar em relação ao risco da má sorte,
como, por exemplo, no caso de nascerem ou se tornarem deficientes. Se este seguro social
permite compensar os indivíduos em relação aos imponderáveis da vida- pelos quais não são
moralmente responsáveis- uma igualdade inicial de recursos materiais também deixa margem
para a influencia de diferentes ambições e gostos individuais. O sistema de transferência do

Ana Vieira 2018/2019


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estado não deve compensar as pessoas com gostos caros ou sem ambição, apenas porque
estão pior do que os outros. Mas deve compensar especialmente aqueles que foram afetados
por elementos de pura má sorte, como a deficiência.

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