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Editora Poisson

Administração Rural
Volume 1

1ª Edição

Belo Horizonte
Poisson
2018
Editor Chefe: Dr. Darly Fernando Andrade

Conselho Editorial
Dr. Antônio Artur de Souza – Universidade Federal de Minas Gerais
Msc. Fabiane dos Santos Toledo
Dr. José Eduardo Ferreira Lopes – Universidade Federal de Uberlândia
Dr. Otaviano Francisco Neves – Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais
Dr. Luiz Cláudio de Lima – Universidade FUMEC
Dr. Nelson Ferreira Filho – Faculdades Kennedy
Ms. Valdiney Alves de Oliveira – Universidade Federal de Uberlândia

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)


A238
Administração Rural – Volume 1/ Organização
Editora Poisson – Belo Horizonte - MG:
Poisson, 2018
352p

Formato: PDF
ISBN: 978-85-7042-029-9
DOI: 10.5935/978-85-7042-029-9.2018B001

Modo de acesso: World Wide Web


Inclui bibliografia

1. Administração 2. Rural. I. Título

CDD-658

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Sumário
Capítulo 1: Integração avícola: importância socioeconômica da atividade
para os produtores da mesorregião oeste paranaense ................................................................
7

Ivanete Daga Cielo, Weimar Freire da Rocha Júnior, Fernanda Cristina Sanches

Capítulo 2: Os mercados institucionais na agricultora familiar: desempenho


do programa nacional de alimentação escolar entre 2009 a 2014 ...............................................
23
Josiane Castro Pereira, Alessandra Troian, Edenilson T. Lencina Machado

Capítulo 3: Lavanderias comunitárias em Rio Branco - AC: alternativa de


trabalho para mulheres com vulnerabilidade econômica .............................................................
39
Oleides Francisca de Oliveira, Josefa Estevo de Souza Araújo, Jean Marcos da Silva

Capítulo 4: Uma análise cross-section do avanço do desmatamento na


região da amazônia ocidental .......................................................................................................
50

Meyrianny Santana Reis, Elane Conceição de Oliveira, Neuler André Soares de Almeida

Capítulo 5: Índice de desenvolvimento rural dos municípios do estado do


Pará ...............................................................................................................................................
63
Marcus Vinicius Mendonça, Adriano Nascimento da Paixão, Nilton Marques de Oliveira,
Rodolfo Alves da Luz

Capítulo 6: Comércio internacional e desenvolvimento regional: as


exportações dos setores de uva e de manga do estado de Pernambuco ...................................
83
Maria Raíza Vicente da Silva, Maria Gilca Pinto Xavier

Capítulo 7: Pronaf, capital social e empreendedorismo rural: modelo


conceitual para o desenvolvimento da agricultuta familiar ...........................................................
91
Leonardo Guimarães Medeiros

Capítulo 8: A armazenagem de grãos no Brasil: evolução e perspectivas ..................................


102

Tatiana Silva Fontoura de Barcellos Giacobbo,Junior Giacobbo


Sumário
Capítulo 9: Nível de eficiência do programa bolsa floresta nas unidades de
conservação do Amazonas: uma análise envoltória de dados. ....................................................
109
Loiseane Santos Correia Pinto, Elane Conceição de Oliveira, Neuler André Soares de
Almeida

122
Capítulo 10: Os impactos da seca na economia familiar nordestina ............................................
Maricelia Almeida da Silva, Lucas Ferreira Lima

Capítulo 11: O sistema agroindustrial do urucum na microrregião de


Dracena-SP ...................................................................................................................................
136
Wagner Luiz Lourenzani, Evandro Jardim dos Santos, Ana Elisa Bressan Smith Lourenzani

Capítulo 12: A ocupação das terras agricultáveis nos estados do MATOPIBA ............................
153
José de Ribamar Sá Silva, Ilnar Fernandes Feitoza, Benjamin Alvino de Mesquita

Capítulo 13: A formação do preço das commodities arroz, milho e soja no


Brasil .............................................................................................................................................
166
Elizangela Beckmann, Antônio Cordeiro de Santana

Capítulo 14: Caroço de algodão integral na dieta de cordeiros confinados:


Uma análise produtiva e econômica na região sudeste do Mato Grosso,
Brasil .............................................................................................................................................
180
Miller de Jesus Teodoro, Henrique Leal Perez, Geovanne Ferreira Rebouças, Matheus
Sodré Ferreira, Poliana Fernandes de Almeida, Affonso Amaral Dalla Libera

Capítulo 15: Determinantes do tempo total de aprovação de Eventos GM de


algodão, milho e soja na união europeia ......................................................................................
192
Maurício Benedeti Rosa, Diego Sarti de Souza, Dallas Kelson Francisco de Souza, Rosane
Nunes de Faria

Capítulo 16: Análise da viabilidade do retorno econômico-financeiro das


atividades leiteira e avícola ...........................................................................................................
202
Silvana Dalmutt Kruger, Mauricio Antônio Bottini, Fabio José Diel, Vanderlei Gollo

Capítulo 17: Pós-graduação lato sensu na modalidade de educação a


distância: um estudo de caso em uma parceria público/privada para oferta
do curso de especialização em cooperativismo solidário e crédito rural ..............................................
217
Simão Ternoski, Zoraide da Fonseca Costa, Felipe Polzin Druciaki, Maria Aparecida Crissi
Knuppel
Sumário
Capítulo 18: Café: uma análise do potencial da cadeia produtiva do café no
crescimento econômico da Microrregião de Patos de Minas .......................................................
232
Julienne de Jesus Andrade Widmarck, Áurea Lúcia Silva Andrade, Ravilla de Castro Barbosa,
Deivisson Costa de Carvalho, Vivian Raniere Mendes Silva

Capítulo 19: Pib, produção e emprego dos municípios que compõem a região
do Alto Paranaíba: uma análise a partir da perspectiva do agronegócio .....................................
247
Vivian Raniere Mendes Silva, Fábio André Teixeira, Julienne de Jesus Andrade Widmarck,
Hernani Martins Júnior, Ravilla de Castro Barbosa

Capítulo 20: Aspectos da produção e exportação cafeeira na região do


Triângulo Mineiro/Alto Paranaíba e sul de Minas ..........................................................................
268
Isaac Resende Araújo, Joabe Santos Sousa, Ricardo Freitas Martins da Costa, Fábio André
Teixeira, Julienne de Jesus Andrade

Capítulo 21: Impacto da mecanização na qualidade de emprego na cultura


do café medido a partir dos indicadores de qualidade do emprego (IQE) ..................................
279
Fábio André Teixeira, Antônio Marcos de Queiroz , Ricardo Freitas Martins da Costa, Walter
Luiz dos Santos Júnior, Joabe Santos Sousa

Capítulo 22: Evolução da distribuição da renda domiciliar per capita e sua


decomposição para o setor rural goiano no período 2001-2015 ..................................................
293
Edson Roberto Vieira, Danilo Troncoso Chaves Martines, Antônio Marcos de Queiroz,
Cleidinaldo de Jesus Barbosa

Capítulo 23: Programa Chapéu de Palha: solução ou perpetuação da pobreza


na zona canavieira? ......................................................................................................................
307
Érika Sabrina Felix Azevedo, Tales Wanderley Vital

Capítulo 24: Identificação e análise de vantagens competitivas em empresas


de aquicultura ............................................................................................................................................................
325
Luisa Paseto

Autores ........................................................................................................................................
338
Capítulo 1

Ivanete Daga Cielo


Weimar Freire da Rocha Júnior
Fernanda Cristina Sanches

Resumo: A atividade avícola é um setor em expansão no Brasil, à exemplo, pode-se


apontar o sistema agroindustrial (SAG) avícola do Paraná, que representa 11% do
agronegócio do Estado. Este SAG é também o maior gerador de emprego e renda
do agronegócio paranaense. Dos setores da agroeconomia, a avicultura é o que
tem mais potencial de geração de empregos haja vista que demanda muita mão de
obra para produção e industrialização. Nesse cenário, como objetivo central, esse
estudo buscou investigar os impactos socioeconômicos refletidos no cotidiano dos
produtores avícolas, bem como, identificar a o perfil e características desses
sujeitos. Para tanto, este estudo de cunho qualitativo, reflete os resultados de um
questionário aplicado in loco a 133 avicultores da Mesorregião Oeste do Paraná. A
pesquisa buscou delimitar o perfil dos produtores bem como, a importância
socioeconômica da avicultura para esses atores. Os principais resultados apontam
para um cenário favorável, no qual o sistema de produção é avaliado de forma
positiva pelos agentes envolvidos, no qual os produtores demonstram-se, de modo
geral, satisfeitos, tanto em relação à lucratividade quanto à garantia do retorno
sobre o investimento realizado em suas propriedades.
8

1 INTRODUÇÃO estados do Paraná, Santa Catarina, Rio


Grande do Sul e São Paulo, os quais
O agronegócio no Brasil é responsável por
produziram conjuntamente em 2016, 72,96%
grande parte do desenvolvimento econômico
da produção doméstica, calculada em 12,9
do país. O setor apresenta um papel
mil toneladas. Entre os estados produtores, o
fundamental na balança comercial brasileira,
Paraná detém o título de maior produtor e
além de ser um grande gerador de emprego
exportador nacional, respondendo por
e renda (UBABEF, 2013). Nesse cenário,
33,46% do total produzido nacionalmente e
aponta-se como destaque o setor da
por 35,85% das exportações de carne de
avicultura. A produção de frango de corte tem
frango do país. A carne de frango produzida
impressionado pelo dinamismo e pela
no Paraná é comercializada em mais de 130
competência conquistada nas últimas
países, injeta um valor superior a US$ 2
décadas. O ganho de produtividade
bilhões anuais na economia do Estado.
associado à coordenação da cadeia avícola,
possibilitou ao Brasil conquistar uma posição O sistema agroindustrial (SAG) avícola
de destaque, ocupando a 1ª colocação no paranaense, de acordo com a Secretaria da
ranking dos países exportadores de carne de Agricultura e do Abastecimento do Paraná -
frango e o 3º maior produtor mundial. SEAB-PR (2013), representa 11% do
Atualmente, a carne de frango brasileira é agronegócio do Estado. É também
exportada para mais de 150 países responsável pela geração de 660 mil
(MINISTÉRIO DA AGRICULTURA, PECUÁRIA empregos diretos e indiretos no Estado –
E ABASTECIMENTO - MAPA, 2014). cerca de 7% da população paranaense,
sendo a maior geradora de emprego e renda
No contexto atual, o setor avícola é de
do agronegócio paranaense. Dos setores da
fundamental importância para a economia
agroeconomia, a avicultura é o que tem mais
brasileira. Dados da UBABEF (2013) e do
potencial de geração de empregos porque
MAPA (2014) apontavam para a existência de
demanda muita mão de obra para produção e
aproximadamente 720 mil trabalhadores
industrialização.
atuando nas indústrias de abate e
processamento de frango; e, outros 3,5 Inserida nesse contexto, a Mesorregião Oeste
milhões ocupando vagas geradas direta e Paranaense (MROP) tem uma posição de
indiretamente pelo setor. Além disso, os destaque no cenário avícola estadual,
dados apontam que o setor é responsável por responsável pelo abate de 33,7% do total
uma movimentação financeira de cerca de produzido no estado (IPARDES, 2017). Além
R$ 36 bilhões em negócios, com uma da presença de grandes empresas privadas e
participação de 1,5% no PIB brasileiro. cooperativas agroindustriais de abate e
processamento de frangos, a Mesorregião se
Esse dinamismo e desenvolvimento do setor
destaca pela produção de milho e soja,
resultam de uma série de fatores que
principais matérias primas para fabricação de
contribuíram significativamente para que
ração. Ademais, o agronegócio responde por
fossem alcançados os atuais ganhos de
mais da metade do PIB anual do Oeste do
produtividade e competitividade. Para autores
Paraná. O setor é responsável por R$ 12
como Zilli (2003), MacDonald e Korb (2006) e
bilhões por ano, enquanto que a soma de
Jesus Júnior et al. (2007), entre esses fatores
todas as riquezas dos 50 (cinquenta)
têm destaque as inovações tecnológicas na
municípios que formam a MROP apenas
área de genética, de alimentação, de
chega aos R$ 23 bilhões. Já o SAG do frango
equipamentos e de manejo, aliado à
representa anualmente para a Mesorregião o
implantação do sistema de produção através
equivalente a R$ 4,2 bilhões do PIB, ou seja,
de contratos de integração entre produtores
18,2% do total das riquezas produzidas e
rurais e agroindústria. Esse sistema de
35% do total do agronegócio regional
produção de frangos é conhecido no
(IPARDES, 2017).
mercado e, mais recentemente, por
pesquisadores da área como “sistema de Nesse contexto, considera-se relevante
integração” e será discutido com maior conhecer o perfil dos avicultores vinculados
profundidade no decorrer dos próximos contratualmente a agroindústrias da
capítulos. Mesorregião Oeste Paranaense. Isto posto,
apresenta-se uma questão central a ser
Apesar de vários estados brasileiros
respondida: Qual é a importância
produzirem frango, segundo dados da ABPA
socioeconômica da atividade avícola para os
(2017), a produção está concentrada nos
produtores? Para a obtenção de respostas a

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esse questionamento, esse estudo tem como avícola de frango de corte, impulsionado
objetivo central investigar os impactos pelas transformações no aparato produtivo da
socioeconômicos refletidos no cotidiano dos economia brasileira, passou por um processo
produtores avícolas, bem como, identificar a o de mudanças na base técnica de produção,
perfil e características desses sujeitos. modernização e, consequente aumento no
número de indústrias processadoras em
Compreender esses aspectos se faz
diversos estados, principalmente na Região
relevante, tendo em vista a importância
Sul.
econômica da atividade para a MROP e o fato
de que os produtores são peça fundamental Assim, a atividade antes praticamente restrita
para o êxito do sistema agroindustrial do à Região Sudeste, desloca-se para o Sul do
frango de corte. A pesquisa também se faz país, principalmente para o estado de Santa
proeminente para auxiliar no estabelecimento Catarina e começa uma nova fase de
de políticas públicas mais afetivas para o exponencial crescimento, modernização e
setor. expansão (BARCZSZ; LIMA FILHO, 2009).
Para atingir o objetivo proposto, o presente Autores como Rizzi (1993) e Canaver et al.
estudo está estruturado em cinco partes (1997) afirmam que a expansão das
centrais. Além desta introdução, a segunda agroindústrias processadoras de carne de
parte tece considerações acerca do setor frango, sobretudo, na Região Sul, foi
avícola brasileiro. Na terceira parte, os viabilizada pela política agrícola, fortemente
procedimentos metodológicos aqui adotados, vinculada pelas condições de liquidez
são explicitados. A quarta parte apresenta os financeira internacional e pela política de
principais resultados encontrados. As crédito que subsidiou a instalação de
considerações finais e as sugestões para frigoríficos e de aviários. Nesse mesmo
pesquisas futuras compõem a quinta parte. período, intensificaram-se as importações de
Por fim, as referências encerram este estudo. tecnologias genéticas e técnicas ambientais,
sanitárias, nutricionais, de abate e de
processamento, modificando, assim, o
2 O SETOR AVÍCOLA BRASILEIRO sistema produtivo da avicultura.
A agroindústria avícola brasileira tem Aliado a isso, o setor foi favorecido por
merecido posição de destaque no cenário do contribuições advindas do avanço
agronegócio nacional e internacional, tecnológico, a exemplo da biotecnologia,
constituindo-se dentro do complexo de microeletrônica e automação. A evolução
carnes, a atividade mais dinâmica. tecnológica na avicultura resultou, sobretudo,
Historicamente, o desenvolvimento dessa em ganhos de eficiência na produtividade
atividade em escala comercial, surge com propiciando melhorias na conversão alimentar
maior intensidade ao final da década de (consumo de ração do animal em um período
1950, nos estados de São Paulo e Minas de tempo, dividido pelo seu ganho de peso
Gerais, a partir da importação dos Estados em um período de tempo) e progressiva
Unidos de linhagens híbridas de frango de redução no tempo necessário para o abate.
corte (RIZZI, 1993). Esse ganho de eficiência pode ser
comprovado através dos dados do Quadro 1.
Nos anos subsequentes, principalmente a
partir de 1970, o complexo agroindustrial

Quadro 1 - Evolução média dos coeficientes de produção de frango de corte no Brasil.


Ano Peso frango vivo (g) Conversão alimentar Idade de abate – dias
1930 1500 3,50 105 dias
1940 1550 3,00 98 dias
1950 1580 2,50 70 dias
1960 1600 2,25 56 dias
1970 1700 2,15 49 dias
1980 1800 2,05 49 dias
1985 1900 2,00 49 dias
1990 1940 2,00 47 dias
1995 2050 1,98 45 dias
2000 2250 1,88 43 dias
2005 2300 1,82 42 dias
2010 2300 1,76 41 dias
Fonte: Elaborado pelos autores a partir dos dados da UBABEF (2011).

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Embora os dados disponíveis datam de 2011 padronização da matéria-prima, redução de


e referem-se a média nacional, cabe destacar custos industriais nas operações de abate,
que em 2018, na avicultura da MROP, há padronização de carcaças, abastecimento
registros de conversão alimentar na ordem constante, dentre outras. O sistema
1,69, batendo recorde nos índices de integração permitiu, ainda, a rápida
eficiência nacional para o no setor transferência tecnológica, principalmente
(AGROEMDIA, 2018). Entretanto, é importante através dos serviços de assistência técnica e
destacar que, dependendo da destinação da consequente melhoria nos níveis de
carne, tanto o peso quanto o tempo médio de produtividade.
engorda podem sofrer modificações. De
Se, por um lado, o avanço tecnológico e as
acordo com Salviano (2011, p. 38), “algumas
mudanças no processo produtivo foram
agroindústrias estão produzindo para
responsáveis pelo aumento da produção de
mercados altamente exigentes em termos de
frangos de corte, por outro lado, o acelerado
qualidade do produto e faixa específica de
processo de urbanização em função dos
peso que acarreta conversões alimentares
processos migratórios rural-urbano e da
variáveis”.
inserção com maior intensidade da mulher no
Além dos fatores tecnológicos, as alterações mercado de trabalho ampliaram as bases
na forma de produção, passando de industriais de bens de consumo; e,
processo produtivo autônomo para a consequentemente o tamanho do mercado.
integração entre agroindústrias e produtores, Assim, o consumo de carne de frango evoluiu
foram fundamentais para o desenvolvimento rapidamente e, em poucas décadas, passou
da atividade no Brasil. Para autores como a ser a principal fonte proteica da população
Rizzi (2004), Pereira, Melo e Santos (2007) e (RIZZI, 1993). O crescimento e a evolução do
Salviano (2011) essa estratégia de integração consumo de carne de frango no Brasil podem
possibilitou às empresas ganhos de eficiência ser melhor visualizados através do Gráfico 1.
obtida através da qualidade em termos de

Gráfico 1 - Evolução do consumo brasileiro de carne de frango (Kg/hab.)

50
45
40
35
30
25
20
15
10
5
0
1965 1970 1975 1980 1985 1990 1995 2000 2005 2010 2015

Fonte: Elaborado pelos autores a partir dos dados da Embrapa (2003), UBABEF (2014) e ABPA (2017).

Desde o início da produção em escala do atual EU, aliada à recessão econômica do


frango de corte, na década de 1960, ocorreu país, afetando o desempenho do mercado
significativo crescimento do consumo da interno e, por consequência, do consumo per
carne de frango no País. No entanto, ao longo capita. Porém, não se tratou apenas de
do período, percebe-se ligeira desaceleração retração de consumo interno, mas, de
de consumo na primeira parte da década de redução de produção, consumo interno e
1980. De acordo com Wilkinson (1993), esta exportação.
retração foi resultado da forte concorrência
A partir de 1985, o consumo de carne de
das exportações subsidiadas dos EUA e da
frango apresentou um exponencial
Comunidade Econômica Europeia (CEE),
crescimento, impulsionado principalmente

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pelas mudanças no estilo de vida e de necessidades de praticidade e conveniência


hábitos alimentares do brasileiro, passando a não só para o mercado interno, mas
utilizar cada vez mais a carne de frango como exportando parte de sua produção para
base da sua alimentação. Para Lima Filho et distintos países.
al. (2005) o fator saúde é um dos elementos
No entanto, a importância da avicultura vai
considerados determinantes na compra da
além da produção de proteína animal, é um
carne de frango, uma vez que, ao longo dos
dos setores que mais emprega no país,
anos, os consumidores foram convencidos
contribuindo para o aumento significativo da
através de inúmeras estratégias de marketing,
economia. Considerando sua importância
que a carne branca de frango é de melhor
econômica, o setor avícola, tornou-se
qualidade, comparativamente às carnes
essencial em regiões como Sudeste e
bovinas e suínas.
principalmente na região Sul, onde está
A tendência de elevação do consumo de concentrada a maior parte da produção
carne frango continuou ao longo das décadas nacional.
de 1990 e 2000, superando em 2006 a carne
Em estados como Paraná e Santa Catarina,
bovina, mais consumida no país até aquele
primeiro e segundo maiores produtores de
ano. Em 2013, o consumo médio por
carne de frango no país, respectivamente, a
habitante de carne bovina foi de 36,2 kg,
avicultura assume papel de maior relevância.
contra 41,8 kg de carne de frango (MAPA,
A importância do setor não reside apenas na
2014).
geração direta de empregos e renda, mas na
Paralelamente ao crescimento do consumo, economia indireta gerada pelo setor, a
as características do mercado de aves exemplo da produção agrícola,
também vêm mudando. No início da década empreendimentos rurais, logística, máquinas
de 1960, a maior parte da produção era e equipamentos, alimentação animal, varejo
composta de frango “standard”, vendido a entre outras (IPARDES, 2002).
preços baixos sem muitos requisitos em
De acordo com Rizzi (1993) a concentração
relação à qualidade. Com as alterações nos
da atividade na região Sul e consequente
hábitos alimentares e nos padrões culturais
instalação de inúmeras agroindústrias, foi
da população, as indústrias passaram a focar
impulsionada pelo processo de modernização
ações em relação à qualidade adaptando-se
agrícola acorrida a partir de 1970 e pelas
às necessidades dos consumidores.
próprias características da região como polo
Nesse sentido, intensificou-se a produção e de atração de capitais tanto nacionais como
comercialização de produtos certificados, de estrangeiros. Além disso, empresas que
origem regional controlada, além de produtos possuíam negócios na produção de suínos e
com maior valor agregado a exemplo dos de cereais, principalmente na região Sul,
cortes diferenciados de frangos temperados, passam a atuar também no setor avícola,
embutidos e defumados. Tais estratégias deslocando a atividade inicialmente
utilizadas, além de ampliar a oferta e atender implantada na região Sudeste para o Sul do
às demandas do novo público consumidor Brasil.
alavancaram ainda mais o setor, que já estava
O Gráfico 2 apresenta a atual distribuição da
em franco desenvolvimento (RIZZI, 1993).
produção avícola brasileira por Unidade
Atualmente, a avicultura brasileira oferece Federativa, bem como, a evolução e a
uma gama de produtos destinados para as participação ao longo dos últimos anos.
mais distintas faixas de renda, atendendo às

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Gráfico 2 - Evolução na participação dos Estados nos abates - Brasil - 2003-2017.

35

30 Distrito Federal
Goiás
25
Mato Grosso
Minas Gerais
20
Mato Grosso do Sul
%

15 Paraná
Rio Grande do Sul
10 Santa Catarina
São Paulo
5
Outros estados

0
2003 2005 2007 2009 2011 2013 2015 2017

Fonte: Elaborado pela autora a partir dos dados da ABPA (2017).

De acordo com o Gráfico 2, é perceptível a participação na produção total do país. Esse


evolução na participação dos Estados no crescimento é atribuído principalmente pela
abate de frango, denotando a supremacia da oferta de grãos no estado aliado ao sistema
capacidade produtiva no setor de frango de integrado de produção.
corte do Estado do Paraná. O Estado ocupa
Por outro lado, estados com tradição na
ao longo da década o posto de maior
avicultura de corte, a exemplo de Santa
produtor de frango, distanciando-se de
Catarina, Rio Grande do Sul e São Paulo, não
demais Estados produtores como Santa
obtiveram o mesmo desempenho, mantendo
Catarina, Rio Grande do Sul e São Paulo.
os índices de produção nos mesmos
Durante o período avaliado, a atividade
patamares ao longo da década. A
apresentou significativo crescimento,
participação dos estados no abate de frango
passando de 21,9% para mais de 30% de
é apresentada através da Figura 1.

Figura 1 - Participação dos Estados no abate de frango em 2017 (%).

Fonte: ABPA (2017).

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13

Em relação à distribuição da produção pesquisadores a respeito de sua investigação


avícola nos distintos Estados brasileiros, como parte do processo de produção de
destaca-se a concentração da atividade na conhecimento.
Região Sul, líder histórica na produção
Quanto aos objetivos, a pesquisa pode ser
nacional e responsável por 63,63% da
caracterizada como de cunho exploratório,
produção total de aves abatidas em 2017.
descritivo e explicativo. Inicialmente, o estudo
Embora a atividade tenha se expandido para
se desenvolve através de uma pesquisa
outras regiões, a dimensão que assumiu na
exploratória baseada em dados secundários,
Região Sul, dificilmente será obtida nas
a exemplo de bibliografias acerca do tema
demais fronteiras, em função do
em questão, relatórios técnicos e demais
encadeamento e estruturação do SAG avícola
documentos pertinentes. Essa etapa buscou
estabelecido nestes estados. Lima (1984), já
identificar a existência de agroindústrias
chamava a atenção para o processo de
avícolas e seus sistemas de integração, na
concentração na região Sul ainda nos seus
região de investigação.
primórdios da expansão da avicultura
brasileira e apregoava que dificilmente em Posteriormente, com o intuito de elucidar as
outras regiões do Brasil haveria atividades no especificidades da investigação proposta e,
mesmo nível de desempenho. consequentemente, aumento do
conhecimento acerca do objeto de estudo,
A justificativa do ponto de vista do autor se
realizou-se uma pesquisa de caráter
baseava em fatores como características
descritivo. Gil (2009, p. 42) menciona que a
culturais da população, estrutura fundiária
pesquisa descritiva, “têm como objetivo
dos estados embasada no processo de
primordial a descrição das características de
emigração estrangeira e a concentração da
determinadas populações ou fenômenos ou,
produção dos insumos básicos da avicultura
então, o estabelecimento de relações entre
(soja e milho), como fatores que propiciam a
variáveis”.
performance positiva do setor. Em relação à
produção dos insumos básicos, o autor O universo da pesquisa foi composto por
destaca que a proximidade da atividade 3013 estabelecimentos produtores de frango
avícola aos centros de produção de grãos de corte instalados na Mesorregião Oeste
implica menores custos globais e melhor Paranaense. Para a delimitação da amostra,
desempenho do setor, mesmo que se tenha fez-se uso da amostragem estratificada não
que transportar posteriormente o produto final proporcional, uma vez que foram
para um mercado consumidor distante (LIMA, selecionados elementos em cada subgrupo
1984). da população, obtendo uma amostra com
distribuição equilibrada de produtores de
frangos integrados a cada uma das sete
3. PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS agroindústrias. Em relação a essa forma de
amostragem, Gil (2009, p.123) postula que
Este estudo objetiva analisar características
“há situações em que esse procedimento é o
do sistema de produção de frango de corte
mais adequado, particularmente naquela em
na Mesorregião Oeste Paranaense.
que se tem interesse na comparação entre os
Especificamente, busca-se compreender a
vários estratos”. Cabe ressaltar que essa
importância socioeconômica da avicultura
forma amostral foi utilizada em função do
para os produtores de frango da região em
objetivo central da presente tese.
estudo. Nesse sentido e, no intuito de buscar
respostas à questão de pesquisa, a Considerando o caráter qualitativo da
abordagem qualitativa fundamenta o pesquisa, o fechamento amostral ocorreu pelo
arcabouço metodológico predominante no processo intitulado saturação teórica, que
estudo, tanto em função da natureza do suspende a inclusão de novos participantes
problema quanto pelo nível de quando os dados obtidos, passam a
aprofundamento desejado. apresentar, na avaliação do pesquisador,
uma certa redundância ou repetição, não
Para tanto, as ideias centrais da pesquisa são
mais contribuindo significativamente ao
fundamentadas em Richardson (1999), o qual
aperfeiçoamento da reflexão teórica
cita que o recurso qualitativo se apresenta
fundamentada nos dados que estão sendo
como forma adequada para a compreensão
coletados. Ou seja, as informações fornecidas
dos fenômenos sociais, justo porque se
pelos novos participantes da pesquisa pouco
fundamenta na análise de diferentes
perspectivas e nas reflexões dos

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acrescentariam ao material já obtido mensagem, permitindo a sua manipulação


(FONTANELLA; RICAS; TURATO, 2008). tanto do teor, quanto de expressões deste
conteúdo. Nesse enfoque, evidenciam-se,
Assim sendo, a quantidade de entrevistas
assim, indicadores que permitam inferir sobre
com os produtores não foi definida com
uma outra realidade que não da mensagem
exatidão a priori, mas sim, estabelecida à
(RICHARDSON, 1999; BARDIN, 2004).
medida que a pesquisa foi se desenvolvendo.
Ao final, foram obtidas 133 entrevistas com Por fim, cabe destacar que esta pesquisa se
avicultores. Estes foram investigados, acerca trata de um recorte de um estudo mais amplo,
do sistema de integração avícola do qual desenvolvido como tese doutoral de um dos
fazem parte. Para tanto, aplicou-se um roteiro autores deste artigo.
de questões realizadas in loco nas
propriedades, localizadas em distintos
municípios da Mesorregião Oeste do Paraná. 4. RESULTADOS E DISCUSSÕES
O questionário buscou delimitar o perfil dos
4.1 PERFIL DOS PRODUTORES DE FRANGO
produtores a partir de questões envolvendo:
DE CORTE VINCULADOS AO SISTEMA DE
faixa etária; gênero; grau de instrução; mão
INTEGRAÇÃO AVÍCOLA
de obra e tamanho das propriedades;
capacidade produtiva e quantidade de Para uma análise sistêmica da integração
granjas. Ademais, investigou questões avícola, considerada como um modelo exitoso
relacionadas à importância socioeconômica para a produção de aves, faz-se necessário
da avicultura para os atores envolvidos, por conhecer a percepção daqueles que estão
meio dos aspectos: motivações que em sua base, ou seja, os produtores de aves.
impulsionaram o investimento na área; tempo Assim, o presente estudo dedica-se a
de atuação na avicultura; forma de custeio apresentar as opiniões dos 133 produtores
para implantação das granjas e por fim, o investigados acerca do sistema de integração
apontamento de existência de políticas avícola do qual fazem parte.
públicas de fomento à atividade.
Os produtores avícolas investigados na
Os dados coletados, foram interpretados pesquisa estão espacialmente distribuídos em
utilizando-se da análise de conteúdo. Tal distintos municípios da Mesorregião Oeste
proposição metodológica justifica-se porque a Paranaense, como pode ser observado na
análise de conteúdo conduz à descrição Figura 2, cuja coloração apresenta com quais
objetiva e sistemática do conteúdo de agroindústrias se relacionam contratualmente.

Figura 2 - Quantitativo de entrevistas realizadas por município e por agroindústria.

Fonte: dados da pesquisa.

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O Município de Cascavel detém o maior frequentemente desenvolvida por homens,


número de produtores entrevistados, compreendendo 77,45% dos respondentes.
justamente por contar com duas Já a presença feminina, representa apenas
agroindústrias instaladas. Entretanto, 22,55%.
constatou-se a presença de diversos
Entretanto, cabe destacar que a participação
produtores que residem nesse município, mas
das mulheres nessa etapa da produção tende
que produzem aves para empresas com sede
a um crescimento significativo, impulsionado,
em outros municípios, a exemplo da Copacol
por um lado, pelos avanços tecnológicos que
e da BRF. Esse fato denota a existência de
facilitaram o trabalho nas granjas e, por outro,
flexibilidade das agroindústrias em relação à
pela própria natureza da atividade. O cuidado
delimitação da fronteira territorial de atuação.
com as aves em granjas automatizadas
Muito embora, a redução da área de atuação demanda mais de aspectos subjetivos,
é uma política, explicitada nos discursos dos características físicas e comportamentais
gestores das agroindústrias, a atividade ainda mais comuns e atinentes às mulheres, do que
é desenvolvida em um número significativo de da força física.
municípios e, em muitos casos, distantes das
A pesquisa revelou ainda que as mulheres
agroindústrias. Essa distância geográfica
estão mais satisfeitas com a atividade e
gera custos em logística e dificuldades para a
conseguem obter melhores resultados nos
concentração da atividade. Por outro lado, um
lotes produzidos, comparativamente aos
maior distanciamento entre as granjas
homens. Cientes dessa nova realidade
possibilita maior controle em relação à
positiva, as agroindústrias têm desenvolvido
biossegurança, reduzindo o risco de
ações visando incentivar a participação
contaminação entre granjas e aumentando a
feminina na atividade, não apenas como
qualidade sanitária dos plantéis. Ou seja, em
gestoras dos negócios, mas como mão de
uma eventual epidemia, este distanciamento
obra responsável pelo manejo das granjas.
pode gerar uma externalidade positiva.
Além das questões de gênero, a pesquisa
Em relação ao perfil do produtor, o primeiro
investigou também a faixa etária dos
aspecto considerado está relacionado ao
produtores de frango da MROP. Dados
gênero dos avicultores. Contatou-se que a
detalhados da idade dos produtores podem
produção de aves é uma atividade mais
ser visualizados no Gráfico 3.

Gráfico 3 - Faixa etária dos produtores de frango da MROP.

Fonte: dados da pesquisa.

A faixa etária predominante entre os menos que 30 anos. Em contrapartida,


produtores entrevistados situa-se entre os 41 15,05% possuem idade superior a 60 anos.
a 50 anos e, portanto, formada por pessoas
Esses dados comprovam a preocupação dos
com capacidade produtiva para o
gestores das agroindústrias de que a
desempenho da função. Chama a atenção,
avicultura tem pouca atratividade entre os
porém, o fato da pouca inserção de jovens na
mais jovens, uma vez que a sucessão
atividade. Apenas 4% dos entrevistados têm
geracional nesta atividade não tem

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acompanhado as exigências de aumento de mudanças positivas no perfil do produtor de


produção de matéria-prima para as aves da MROP. Para além da imagem simples
agroindústrias. Assim, o envelhecimento da de homem do campo, o avicultor apresenta-
população aliada à baixa inserção dos jovens se como um empresário rural, que investe
na atividade avícola pode se constituir em um constantemente em novas tecnologias e em
dos gargalos da avicultura moderna. desenvolvimento profissional. O perfil dos
avicultores aponta para profissionais
Por outro lado, os avanços tecnológicos no
especializados, com visão empresarial e com
sistema de produção de aves e os novos
níveis educacionais superiores à média
paradigmas de gestão difundidos nas
nacional para populações urbanas. Isso pode
agroindústrias do setor têm promovido
ser visualizado no gráfico a seguir.

Gráfico 4 - Grau de instrução dos produtores avícolas comparativamente à população urbana e rural
brasileira.

Fonte: IBGE (2010); Dados da pesquisa de campo.

Os produtores investigados possuem sensu. Ou seja, o percentual de produtores


melhores níveis de escolaridade, tanto com especialização na MROP é superior à
comparativamente à população urbana média nacional da população rural que
quanto rural do Brasil. Entretanto, se concluiu a graduação.
comparados a apenas dados da população
Esses índices de qualificação implicam em
rural, as diferenças ficam ainda mais
vantagens competitivas do SAG avícola da
evidentes. Observa-se, por exemplo, que
MROP frente a outras regiões do Estado e do
79,60% da população rural acima de 25 anos
Brasil. Pessoas com grau de instrução mais
é composta por pessoas sem instrução e com
elevado possuem maior capacidade de
ensino fundamental incompleto, enquanto
absorver as informações, de acessar as
que, para os avicultores da MRO esse índice
novas tecnologias e, por consequência, obter
é de apenas 30,93%.
maior produtividade em sua área de atuação.
Há que se destacar também que o percentual
Outra característica peculiar do sistema
de produtores com ensino superior completo
integração na MROP diz respeito ao tamanho
é maior do que aquele apresentado pela
das propriedades rurais em que a atividade
população residente na área urbana (14,43%
avícola é desenvolvida. O Gráfico 5 classifica
e 12,90% respectivamente) e que 3,75% dos
esses imóveis rurais de acordo com a sua
produtores possuem especialização lato
dimensão em hectares.

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Gráfico 5 - Dimensão das propriedades rurais em hectares.

Fonte: dados da pesquisa.

De acordo com o que estabelece a Lei nº 50% de um módulo fiscal. Sete por cento das
8.629, de 25 de fevereiro de 1993, pequena propriedades investigadas são consideradas
propriedade é o imóvel rural cuja área de médio porte a apenas um por cento das
compreendida tem de um a quatro módulos propriedades pode ser considerada de
fiscais; média propriedade é imóvel rural cuja grande porte, ou seja, possui área superior a
área é superior a quatro e até 15 módulos 15 módulos fiscais. Portanto, pode-se inferir
fiscais; e, por fim, a grande propriedade é que a produção de aves na região de
aquela com mais de 15 módulos fiscais. abrangência da pesquisa caracteriza-se por
ser uma atividade desenvolvida, em sua
Ressalta-se que a dimensão dos módulos
maioria, de pequenas propriedades rurais.
fiscais é variável, sendo fixada para cada
município, levando em conta o tipo de A pesquisa revela também que paralelamente
exploração predominante na área, a renda às questões de dimensão das propriedades
obtida com tal exploração, bem como outras rurais, e até mesmo como consequência da
explorações existentes no município que, pequena dimensão das propriedades, a
embora não predominantes, sejam atividade avícola é desenvolvida,
significativas em função da renda ou da área prioritariamente, a partir do uso de mão de
utilizada. Para a maior parte, (86%) dos obra familiar, realidade presente em 71% das
municípios da Mesorregião Oeste, de acordo propriedades investigadas. Em 29% das
com o Sistema Nacional de Cadastro Rural – propriedades, o trabalho de cuidados das
INCRA (2014) um módulo fiscal compreende aves é desenvolvido utilizando-se de mão de
uma área de 18 hectares, já para os demais obra contratada. No entanto, é relevante
municípios (14%) um modulo fiscal é mencionar que, mesmo com a contratação de
composto por 20 hectares. funcionário, em muitos casos, o trabalho é
desenvolvido de forma conjunta, tanto com o
É perceptível, através do Gráfico 5, constatar
uso de mão de obra familiar quanto com a
que 92% das propriedades são classificadas
contratação de funcionários.
como de pequeno porte. Deste total, 63% são
considerados minifúndio, ou seja, aquelas Outro dado levantado pela pesquisa refere-se
propriedades rurais com área de até um ao quantitativo de granjas por propriedades e
módulo fiscal e, do total, 25% possuem área a capacidade de alojamento dessas granjas.
que varia de um a nove hectares ou seja até

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Gráfico 6 - Quantitativo de granjas por propriedade e capacidade de alojamento por granjas.

Fonte: dados da pesquisa.

Os dados apresentados no Gráfico 6 4.2 IMPORTÂNCIA SOCIOECONÔMICA DA


corroboram com as informações já AVICULTURA DE CORTE PARA OS
mencionadas referente ao delineamento do PRODUTORES
perfil da atividade avícola, ou seja, uma
É relevante o fato apontado na literatura
atividade desenvolvida por pequenos
existente que a avicultura de corte se constitui
produtores rurais. Isso porque 69% dos
numa importante atividade econômica para a
produtores possuem até duas granjas em
MROP, tanto em relação ao volume de carne
suas propriedades; 21% possuem três
produzida quanto no número de empregos
granjas e, apenas 10% dos entrevistados
diretos e indiretos gerados ao longo de todo o
possuem quatro granjas ou mais em suas
SAG. Entretanto, para o produtor de aves, os
propriedades. Paralelamente ao quantitativo
ganhos vão além da geração de empregos ou
de granjas, está sua capacidade produtiva.
mesmo do auto emprego e da permanência
Os dados da pesquisa apontam também que
da família no campo. Representam, para 60%
42% das granjas são de pequeno porte, com
dos produtores entrevistados, a principal
capacidade para alojar de 15.000 a 19.000
fonte de renda da propriedade rural. Para
aves e que apenas 9% das granjas têm
40%, a atividade apresenta-se como fonte de
capacidade de alojar um número igual ou
renda secundária na propriedade, sendo
superior a 30.000 aves.
desenvolvida em consonância com a
Ponderando sobre o perfil delineado para o produção de grãos (principal fonte de renda
avicultor da MROP, é possível inferir que para 79,85% dessas propriedades), produção
assumir a tendência de concentração de de leite, de suínos e peixes. Para os demais,
atividade em um número menor de 11,36% dessa parcela, a principal fonte de
propriedades, com granjas cada vez mais renda advém de atividades não
automatizadas e com maior capacidade de agropecuárias.
produção, coloca à margem do sistema a
Quanto aos motivos que impulsionaram os
maior parcela dos atuais produtores. Assim
produtores agrícolas a investir na avicultura, a
sendo, os aspectos apresentados apontam
possibilidade de uma renda extra às
que a avicultura é uma atividade
atividades agropecuárias desenvolvidas,
predominantemente familiar e desenvolvida
aparece como principal propulsor para
por pequenos produtores rurais, portanto com
57,42% dos produtores. As principais
reduzida capacidade para investir em
motivações elencadas pelos produtores para
modernização das granjas, como requer o
a implantação dos aviários estão expostas no
novo sistema desejado pelas agroindústrias.
Quadro 2.

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Quadro 2 - Principais motivos para instalação das granjas de aves de corte.


Ocorrência nas
Principais motivos para instalação das granjas entrevistas realizadas
Nº %
Renda extra 76 57,42
Viabilizar a pequena propriedade 18 13,53
Diversificação da propriedade 17 12,78
Renda em menor tempo 12 9,02
Renda mais estável 12 9,02
Segurança maior de renda em relação à lavoura 11 8,27
Utilizar a cama de aviário como adubo para a lavoura 8 6,01
Gosto pela atividade 7 5,26
Manter a família no campo 6 4,51
Aposentadoria 5 3,75
Compra da propriedade com a granja já instalada 3 2,25
Herança 2 1,03
Fonte: dados da pesquisa.

Além da possibilidade de uma renda extra às grãos. Dentre esses produtores, estão
atividades agropecuárias desempenhadas, a aqueles com maiores áreas cultiváveis e que
avicultura representa uma forma de viabilizar não têm na avicultura a principal fonte de
a pequena propriedade e diversificar a renda da propriedade rural.
produção, permitindo ao produtor condições
Independentemente dos objetivos para o
de obter renda em menor espaço de tempo,
ingresso na atividade avícola, a possibilidade
comparativamente às demais atividades
de financiamentos para instalação dos
agropecuárias. Com a avicultura, em média, o
galpões e do aparato tecnológico necessário
produtor tem entrada de recursos financeiros
ao funcionamento das granjas é um dos
para gerir a propriedade a cada dois meses,
fatores que impacta positivamente na decisão
tempo significativamente menor em relação à
de investir na avicultura. A pesquisa aponta
suinocultura (seis meses) e à produção de
que dos 133 produtores entrevistados, 88%
soja e milho, com safras anuais.
recorreram a financiamentos para a
Ainda, é conveniente destacar que a opção implantação das granjas. Portanto, apenas
do produtor pela avicultura pode representar 12% implantaram suas granjas com recursos
uma possibilidade de renda mais estável e próprios.
maior segurança em relação à produtividade,
Dado o perfil do produtor de aves, composto
principalmente se comparada à produção de
em sua maioria, (92%), por pequenos
grãos. Na avicultura, os resultados estão
produtores e o montante necessário para a
diretamente relacionados às boas práticas de
construção das granjas, (valor médio de R$
manejo e demais variáveis passíveis de
500.000,00), o elevado índice de produtores
controle, enquanto que na produção de grãos
que recorrem a financiamentos para o
esses resultados sofrem interferência de
ingresso na atividade é plenamente
aspectos que fogem do controle do produtor,
justificável. Todavia, é interessante destacar
a exemplo das intempéries climáticas.
que a obtenção de financiamentos a esses
Entretanto, para uma parcela dos produtores
pequenos produtores realiza-se através de
entrevistados, a atividade não possibilita
parcerias entre agentes financeiros,
ganhos diretos. Para eles, a motivação para
integradoras e produtores, que possibilitam a
ingressar no setor deu-se em função da
contratação de recursos com flexibilidade no
possibilidade de utilizar a cama dos aviários
pagamento e menor exigência de garantias
como adubo para o cultivo de diversas
por parte do produtor.
culturas, principalmente para a produção de

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20

O modelo de parceria para financiamento Brasil, responsável por 20% dos


adotado no setor avícola, é diretamente financiamentos.
intermediado pelas empresas integradoras,
Outras instituições financeiras também foram
que se responsabilizam pela elaboração dos
apontadas como agentes responsáveis pelos
projetos de viabilidade, agilizam a parte
financiamentos, a exemplo do Banco Itaú,
documental para os produtores, além de
Unibanco e Real. Além dessas instituições
auxiliá-los na escolha da linha de crédito mais
financeiras, programas do governo estadual,
viável, de acordo com sua capacidade de
a exemplo do “Panela Cheia”, fomentaram a
pagamento.
construção de aviários, principalmente na
Para a construção das granjas, as linhas de década de 1990. Esse programa foi
crédito do Banco Nacional de responsável pelo financiamento das granjas
Desenvolvimento Econômico e Social de 8% dos entrevistados.
(BNDES) são as mais buscadas pelos
As facilidades de acesso ao crédito, as
produtores de frango. Além do BNDES, o
formas e prazos flexíveis de pagamento dos
Banco Regional de Desenvolvimento do
financiamentos não se restringem à
Extremo Sul (BRDE) também possui linhas de
construção de novas granjas, mas a reformas
crédito específicas para a expansão da
e atualização de padrão tecnológico. Essa
atividade avícola. No entanto, o BNDES e o
possibilidade de obtenção de recursos para
BRDE não financiam diretamente ao produtor
melhorias nas granjas impulsiona os
e a liberação dos recursos é realizada por
produtores para investir e, por consequência,
intermédio de um agente financeiro (banco ou
manter-se na atividade, mesmo em período
cooperativa de crédito). Na MROP, o SICREDI
de crises no setor e baixa lucratividade, o que
é o agente financeiro que mais realiza essas
pode ser visualizado através do Gráfico 7.
operações (57%), seguido pelo Banco do

Gráfico 7 - Tempo de atuação dos produtores de frango da MROP.

Fonte: dados da pesquisa.

Os dados referentes ao tempo de atuação (34,16% atuam há mais de 20 anos na


dos produtores da MROP apontam, por um avicultura).
lado, para um cenário de crescimento do
Confrontando os dados atinentes ao tempo de
setor, despertando grande interesse entre os
atuação dos produtores com a questão do
proprietários rurais da região de abrangência
financiamento da atividade, constatou-se que
da pesquisa. Prova disso é que 34,11% do
um número considerável de produtores ainda
total dos entrevistados ingressaram na
possui parcelas a serem pagas aos agentes
avicultura nos últimos 10 anos; destes,
financeiros referentes à construção das
18,82% atuam há menos de cinco anos. A
granjas.
pesquisa revela também baixo índice de
desistência da atividade, evidenciado pelo Os resultados revelam que aproximadamente
significativo tempo de atuação dos produtores um terço dos aviários da MROP foi construído
na última década e que o tempo médio de

Administração Rural - Volume 1


21

contratação dos financiamentos do setor é Esse cenário de contentamento das partes


para um prazo de 10 anos. Esse cenário aponta para a permanência do modelo de
aponta para a necessidade de cautela em produção vigente e manutenção das atuais
todos os elos do SAG avícola, a fim de evitar regras estabelecidas contratualmente. O que
eventuais crises do setor que podem pode sofrer alteração é apenas o modus
comprometer a competitividade do SAG. operandi, e transformar a configuração de
atividade desenvolvida por pequenos
avicultores com o uso de mão obra familiar
5. CONSIDERAÇÕES FINAIS para médias e grandes propriedades rurais,
com capacidade para concentrar e aumentar
A relação de trabalho conferida pelo sistema
a escala de produção. Mudanças dessa
em estudo, propicia, sobretudo, aos
natureza possibilitariam ganhos às
pequenos produtores a possibilidade de
agroindústrias e competitividade ao SAG.
obtenção de renda em um menor período de
tempo, comparativamente à produção de Ao mesmo tempo, podem gerar problemas
grãos, e do aproveitamento da mão de obra socioeconômicos para uma parcela de
familiar, principalmente do trabalho feminino. produtores que, em detrimento à baixa
Entretanto, o trabalho nas granjas submete os capacidade de investimentos, ficariam à
avicultores a extenuantes jornadas de margem do novo sistema, e com ativos
trabalho, não obtendo, praticamente, tempo específicos inutilizados em suas
para as suas relações familiares e convívio propriedades. Entretanto, visto sob outra
social. Além disso, a execução dessas ótica, a mudança no perfil do produtor poderá
atividades favorece o desenvolvimento de impor às agroindústrias novas formas de
problemas de saúde para o produtor, em atuação e coordenação do sistema. Na
função dos fatores de risco aos quais estão medida em que se reduz a quantidade de
expostos. avicultores, estes passam a atuar com uma
maior escala de produção;
Faz-se mister afirmar que, mesmo
consequentemente, o poder de barganha dos
apresentando percalços, sobretudo em
produtores se potencializa, aumentando os
função de que os pressupostos
conflitos de interesses entre os agentes.
comportamentais e as dimensões das
transações afetam de maneira distinta os Por fim, sugere-se como discussões para
agentes da relação, o sistema de produção é novas pesquisas, estudos mais aprofundados
avaliado de forma positiva pelos agentes dos possíveis impactos regionais da
envolvidos. A pesquisa aponta ainda para a concentração da atividade e exclusão dos
existência de parcela expressiva de pequenos produtores de frango da região.
produtores satisfeitos, tanto em relação à
lucratividade quanto à garantia do retorno
sobre o investimento.

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23

Capítulo 2

Josiane Castro Pereira


Alessandra Troian
Edenilson T. Lencina Machado

Resumo: No Brasil, somente nas últimas décadas é que os olhares se voltam para
os agricultores familiares, no entanto, mesmo dentro de um cenário que guia ao
desenvolvimento, a agricultura familiar enfrenta vários entraves e desafios no
acesso aos mercados. Reconhecendo as dificuldades de escoar a produção, o
governo brasileiro, a partir de 2003 passou a criar medidas que fomentam a
aquisição e a comercialização de produtos alimentícios diretamente da agricultura
familiar, como os mercados institucionais. Neste sentido, o presente estudo objetiva
analisar a dinâmica do Programa Nacional de Alimentação Escolar. Como objetivos
secundários tem-se: a) descrever o PNAE desde sua criação até as modificações
recentes; b) verificar a evolução na disponibilidade de crédito e o número de
acesso no período de 2009 a 2014 e; c) identificar os entraves e desafios no
acesso ao programa. Para tanto, metodologicamente a pesquisa caracteriza-se
como qualitativa e exploratória, a partir da técnica da revisão bibliográfica a da
análise de dados secundários obtidos no site do Fundo Nacional de
Desenvolvimento da Educação. Como principais resultados que há evolução
crescente nos valores repassados pelo programa, mesmo que o número de alunos
tenha se estagnado durante o período. Em relação aos entraves e desafios sofridos
pela agricultura familiar no acesso ao PNAE destaca-se a falta de planejamento e a
logística.
Palavras chave: Agricultura Familiar. Mercado Institucional. Alimentação Escolar.
Desenvolvimento.

Administração Rural - Volume 1


24

1 INTRODUÇÃO eleger a agricultura familiar como


protagonista central do abastecimento dos
A década de 1990 marca o reconhecimento
mercados institucionais apresenta-se como
do Estado brasileiro à agricultura familiar com
opção estratégica na indução de nova
a criação do Programa Nacional de
dinâmica de desenvolvimento.
Fortalecimento da Agricultura Familiar
(PRONAF). A formulação da política O marco do mercado institucional no Brasil é
obedeceu às reivindicações dos movimentos 2003, quando surgem programas de governo,
sociais rurais, apoiada também em definições como o Programa de Aquisição de Alimentos
conceituais da comunidade acadêmica (PAA) criado através da Lei Federal nº 10.696
nacional. Desde então, o debate sobre a e o Programa Nacional de Alimentação
atuação e a importância da agricultura familiar Escolar (PNAE) criado a partir da Lei Federal
no desenvolvimento brasileiro vem recebendo nº 11.947, em 2009. Os programas se
força, estimulado, sobretudo, pelas noções de tornaram um meio de aproximar produtor e
desenvolvimento sustentável, segurança consumidor, ampliando a participação dos
alimentar e geração de emprego e renda agricultores familiares. Tais programas
(SCHNEIDER, 2006). buscam a redução da fome, estimulando
hábitos saudáveis, fortalecendo a agricultura
A agricultura familiar brasileira é diversa em
familiar no âmbito de economias regionais
relação à situação dos produtores, aos modos
(GRISA, 2012).
de vida, ao meio ambiente e à aptidão das
terras, não apenas entre as regiões, mas O Programa de Aquisição de Alimentos (PAA)
também dentro de cada região. Ela também surgiu em 2003, como proposta integrante do
está relacionada diretamente às questões programa Fome Zero, carro-chefe das ações
culturais, à segurança alimentar, à do governo Luís Inácio Lula da Silva para o
diversidade na produção, à valorização do combate à fome e à miséria. Já o Programa
ambiente em que está inserida e, Nacional de Alimentação Escolar caracteriza-
consequentemente, ao desenvolvimento local. se como uma ferramenta essencial no
Mesmo dentro de um cenário que guia ao desenvolvimento de agricultores familiares,
desenvolvimento, a agricultura familiar pois possibilita o acesso a mercados locais. A
enfrenta vários entraves e desafios no acesso política da merenda escolar foi implementado
aos mercados. no Brasil no ano de 1955 passando por
diversas reestruturações, de uma política de
O desafio fundamental para a pequena
suplementação alimentar transformou-se em
propriedade, conforme Wilkinson (1999), é a
uma importante política pública de
agroindustrialização autônoma, à agregação
desenvolvimento.
de valor e à inserção dinâmica nos mercados.
Neste sentido, o mercado pode ser definido O PNAE passou por reformulações
como um conjunto de instituições sociais em importantes no ano de 2009, além de atuar
que se verifica normalmente um grande pela segurança alimentar e nutricional dos
número de trocas de mercadorias de um tipo estudantes, visa fomentar os preceitos do
específico, sendo essas trocas facilitadas e desenvolvimento sustentável, valorização da
estruturadas por essas instituições cultura alimentar, alimentação saudável e
(HODGSON, 1994). Já os mercados alocação dos sistemas agroalimentares. O
institucionais, onde as esferas de governo programa promove o desenvolvimento local e
utilizam o poder de compra do estado para cria estratégias para a comercialização de
apoiar a agricultura familiar, são uma produtos não visados pelo mercado
ferramenta importante de valorização da convencional, criando possibilidades para
produção da agricultura familiar. desenvolver sistemas agroalimentares
alternativos para a agricultura familiar (FNDE,
Os mercados institucionais podem ser
2017; GRISA, 2014; MALINA, 2012).
definidos como uma configuração específica
de mercado em que as redes de troca Os agricultores familiares têm no PNAE uma
assumem estrutura particular, previamente ferramenta de incentivo para a produção
determinada por normas e convenções alimentícia. A oferta de alimentos com
negociadas por um conjunto de atores e qualidade e a valorização da produção
organizações, em que o Estado geralmente familiar potencializa a afirmação de
assume papel central, notadamente através identidade desses agricultores, fortalecendo o
de compras públicas (GRISA, 2009). Ainda tecido social e a dinamização das economias
conforme Grisa (2009), a política pública ao locais. Neste sentido, presente estudo

Administração Rural - Volume 1


25

objetiva analisar a dinâmica do Programa onde a dinâmica social ocorre (SANTOS,


Nacional de Alimentação Escolar. Os 2008).
objetivos específicos são: a) descrever o
A partir deste cenário, insere-se o papel dos
Programa Nacional de Alimentação Escolar
mercados nas estratégias da agricultura
desde sua criação até as modificações
familiar de desenvolvimento rural. As
recentes; b) verificar a evolução na
transformações que afetam a vida e as
disponibilidade de crédito e o número de
atividades econômicas dos agricultores,
acesso no período de 2009 a 2014 e; c)
assim como de outros atores do espaço rural,
identificar os entraves e desafios no acesso
estão permeadas por formas de interação,
do Programa Nacional de Alimentação
trocas e construção de circuitos de comércio
Escolar. Metodologicamente a pesquisa
(CONTERATO et al., 2013).
caracteriza-se como qualitativa e exploratória,
a partir da técnica da revisão bibliográfica a A inserção em cadeias curtas de
da análise de dados secundários obtidos no comercialização, em mercados de
site do Fundo Nacional de Desenvolvimento proximidade entre agricultores e
da Educação (FNDE). consumidores, com a diversidade de valores
e saberes trocados social, cultural e
economicamente, traz uma nova perspectiva
2 AGRICULTURA FAMILIAR E OS para agricultores familiares. Conforme Ploeg
MERCADOS: A IMPORTÂNCIA DE UMA (2008), os circuitos curtos entre produção e
POLÍTICA ALIMENTAR NA consumo têm importância no fomento e
COMERCIALIZAÇÃO construção social de economias locais e
podem contribuir para os segmentos sociais
A seguir será apresentado um panorama
que historicamente foram marginalizados e
geral da agricultura familiar no Brasil, sua
excluídos pela lógica da modernização.
definição e especificidades. Também será
discutido o conceito de mercado, voltando-se Neste contexto, uma mudança nas últimas
para a inserção do agricultor familiar no décadas no acesso aos mercados foi à
mercado institucional. Em seguida é criação dos mercados institucionais. Através
apresentado o Programa Nacional de de políticas públicas do governo federal,
Alimentação Escolar como uma política de foram criadas oportunidades para a
comercialização para a agricultura familiar. comercialização da produção de alimentos
oriundos da agricultura familiar através do
Programa de Aquisição de Alimentos (PAA) e
2.1 AGRICULTURA FAMILIAR E MERCADOS do Programa Nacional de Alimentação
Escolar (PNAE). Segundo Silva et al., (2014),
A agricultura familiar ao adquirir seu espaço e
os mercados institucionais surgem como uma
valorização nas últimas duas décadas,
forma do Estado proteger, de alguma forma,
passou a fazer parte da agenda política do
as populações excluídas, nessa perspectiva,
Brasil como estratégia de desenvolvimento
os mercados institucionais passam a ter um
rural. Conforme a FAO:
duplo propósito, por um lado, suprir com
A agricultura familiar inclui todas as atividades alimentos populações vulneráveis e, por
agrícolas de base familiar e está ligada a outro, auxiliar no escoamento de
diversas áreas do desenvolvimento rural [...]. determinados produtos agrícolas.
Tanto em países desenvolvidos quanto em
O acesso aos mercados institucionais pela
países em desenvolvimento, a agricultura
agricultura familiar representa benefícios tanto
familiar é a forma predominante de agricultura
para os agricultores, que se beneficiam com o
no setor de produção de alimentos. (FAO,
escoamento de sua produção, mas também
2014, p. 2).
possibilita aos indivíduos uma maior
Assumindo uma identidade diferente do diversidade e oferta de alimentos de
capitalismo, que se caracteriza pela qualidade. Ao ingressar no mercado, a
exploração da mais valia através do trabalho agricultura familiar fortalece o tecido social e
assalariado e pela busca da maximização do produtivo do desenvolvimento local, mesmo
lucro, a produção dos agricultores familiares enfrentando entraves e desafios para escoar
vai ao encontro da satisfação das suas a sua produção, os agricultores familiares
necessidades e da reprodução social da encontram no acesso aos mercados a
família. Nesse sentido, os agricultores estratégia fundamental de comercializar seus
familiares são os protagonistas do processo produtos (SCHNEIDER; ESCHER, 2011).

Administração Rural - Volume 1


26

2.2 A ALIMENTAÇÃO ESCOLAR: DE UMA Art. 14. Do total dos recursos financeiros
POLÍTICA EDUCACIONAL PARA UM repassados pelo FNDE, no âmbito do PNAE,
MERCADO GOVERNAMENTAL no mínimo 30% (trinta por cento) deverão ser
utilizados na aquisição de gêneros
A educação alimentar nas escolas brasileiras
alimentícios diretamente da agricultura
surge entre os anos de 1930 e 1940, através
familiar e do empreendedor familiar rural ou
das reinvindicações dos movimentos sociais.
de suas organizações, priorizando-se os
Reconhecia-se por parte do Governo Federal
assentamentos da reforma agrária, as
a importância da alimentação nas escolas
comunidades tradicionais indígenas e
como maneira de promover a permanência
comunidades quilombolas (BRASIL/FNDE,
dos alunos e também a diminuição da
2009, p.02).
desnutrição infantil no país, contudo o
governo não possuía recursos financeiros As modificações nas regulamentações do
para esta iniciativa, esses desafios mantêm- PNAE confirmam importantes alterações na
se até o ano de 1979 (MEC, 2006). forma de desenvolvimento do país. De acordo
com Triches e Schneider (2010, p.933-945) a
Na década de 1950 a alimentação escolar
atual configuração do PNAE caracteriza-se
começa a ser pensada como um programa
como decorrente de “[...] um modelo de
público, um dos marcos dessa mudança foi o
desenvolvimento que promove não só
surgimento do Plano Nacional de Alimentação
crescimento econômico como também justiça
e Nutrição, denominado Conjuntura Alimentar
social, conservação ambiental e saúde
e o Problema da Nutrição no Brasil, o qual
pública. ”
representava o primeiro programa de
merenda escolar sob responsabilidade A comercialização dos produtos da
pública (FNDE, 2017). agricultura familiar via PNAE, permite aos
agricultores o aumento da biodiversidade nas
Em 31 de março de 1955, Juscelino
propriedades familiares; estimulando circuitos
Kubitscheck de Oliveira assinou o Decreto n.
curtos de comercialização, proporcionando
37.106, criando a Campanha da Merenda
renda as famílias e o desenvolvimento da
Escolar (CME). O nome dessa campanha foi
economia local. As compras institucionais
se modificando até, em 1979, foi denominado
garantem que a identidade regional da
Programa Nacional de Alimentação Escolar
agricultura familiar prevaleça, contribuindo
(PNAE), conhecido popularmente por
para maior integração entre o mercado e os
“merenda escolar” (MEC, 2006, p.16).
agricultores (SABOURIN; XAVIER;
Desde a criação, o PNAE passou por diversas TRIOMPHE, 2009).
reestruturações, de uma política de
Assim, as compras institucionais assumem
suplementação alimentar transformou-se em
uma das mais importantes políticas públicas
uma importante política pública de
para a agricultura familiar, se tornando um
desenvolvimento. Dentro deste contexto,
instrumento de fortalecimento da categoria,
destaca-se a influência do Programa de
promovendo, consequentemente, o
Aquisição de Alimentos (PAA), criado em
desenvolvimento da economia local com o
2003 e que veio fomentar a revisão dos
escoamento de sua produção, bem como
Programas Alimentares, especialmente o da
proporcionando uma alimentação segura e
Alimentação Escolar. A partir do sucesso do
saudável para os estudantes. No entanto,
PAA o PNAE, existente desde a década de
ainda se depara com alguns entraves, tanto
1940, ganha nova forma e passa a ser
no acesso, por parte dos agricultores
discutido como instrumento de segurança
familiares, quanto no número de alunos
alimentar e desenvolvimento sustentável por
atendidos. Temas que serão discutidos na
meio das compras públicas de pequenos
discussão dos resultados.
agricultores locais (BRASIL, 2009).
A renovação do Programa Nacional de
Alimentação Escolar, a partir da Lei n. 11.947 3 METODOLOGIA
de 16 de junho de 2009, além dos benefícios
O estudo caracteriza-se como qualitativo, a
para os estudantes, constitui-se como um
partir do método dedutivo. Segundo Denzin e
passo significativo em prol da agricultura
Lincoln (2006, p. 88) a pesquisa qualitativa
familiar. A Lei determinou que pelo menos
“[...] envolve uma abordagem interpretativa
30% do valor destinado à alimentação escolar
do mundo, o que significa que seus
brasileira deve ser investido na compra direta
pesquisadores estudam as coisas em seus
de produtos oriundos da agricultura familiar.

Administração Rural - Volume 1


27

cenários naturais, tentando entender os Segundo Gerhardt e Silveira (2009), a análise


fenômenos em termos dos significados que tem como objetivo organizar os dados de
as pessoas a eles conferem”. Já o método forma que fique possível o fornecimento de
dedutivo, de acordo com Munhoz (1982), respostas para o problema proposto. Assim,
consiste no caminho de investigação que os principais resultados serão apresentados
tacitamente admite para casos particulares a no item a seguir.
validade de conclusões geradas a partir de
regras de comportamentos gerais,
naturalmente válidas numa avaliação global. 4 PNAE: ANÁLISE DA EVOLUÇÃO NA
DISPONIBILIDADE DE CRÉDITO E O
Como técnicas de pesquisa foram usadas a
NÚMERO DE ACESSOS DE 2009 A 2014.
revisão bibliográfica e a coleta e análise de
dados secundários. De acordo com Gil A seção visa verificar a evolução na
(2008), a revisão de literatura caracteriza-se disponibilidade de crédito e o número de
como um estudo exploratório, por meio de alunos atendidos pelo PNAE. Neste sentido,
uma pesquisa bibliográfica, estabelecida com quanto ao valor repassado pelo FNDE ao
base em materiais já elaborados, livros e PNAE e o número de alunos atendidos pelo
artigos científicos. programa durante o período de 2009 a 2014,
é possível visualizar que houve aumentos
Os dados secundários utilizados no presente
consideráveis ano a ano nos recursos
estudo foram obtidos nos sítios oficiais a
repassados. A quantidade de alunos
saber: Fundo Nacional de Desenvolvimento
beneficiados teve sua maior participação no
da Educação (FNDE); Instituto de Pesquisa
ano de 2009, quando atinge 47 milhões de
Econômica Aplicada (IPEA); Instituto
alunos atendidos pelo programa.
Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
Também foram utilizados dados de relatórios A partir da análise dos dados é possível
da Secretária da Agricultura Familiar e do perceber a trajetória do programa em relação
Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA- ao seu desenvolvimento em termos de
BRASIL). Ressaltasse que foi realizada a recursos investidos e alunos atendidos. Essa
correção monetária dos valores através do evolução de recursos destinadas ao PNAE,
corretor de valores do Banco Central do Brasil revelam a importância do programa para o
com a utilização do Índice Geral de Preços- cenário nacional, tanto na relação de
Disponibilidade Interna (IGP-DI) - base segurança alimentar oferecidas aos alunos
novembro de 2017. como também ao desenvolvimento da
agricultura familiar, que passa a se beneficiar
Salienta-se que o período de análise é de
desse mercado. Neste sentido, o gráfico 01,
2009 a 2014 em função da disponibilidade de
abaixo, é uma representação dos valores
dados no site do Fundo Nacional de
repassados pelo FNDE ao Programa Nacional
Desenvolvimento da Educação no momento
de Alimentação Escolar e aos alunos
da realização da pesquisa. A análise dos
atendidos no período de 2009 a 2014.
dados se deu por meio do método analítico.

Gráfico 1 - Recursos repassados (em bilhões de R$) e alunos atendidos pelo PNAE no período de
2009 a 2014
47 45,6 8
44,4
Recursos Financeiros

43,1 43,3
Alunos atendidos

45 42,2 7
6
40
5
4,922 4
35 4,446 4,588 4,547 4,492
3
3,218
30 2
2009 2010 2011 2012 2013 2014

ALUNOS ATENDIDOS RECURSOS FINANCEIROS

Fonte: Elaboração própria com base nos dados do FNDE (2015).

Administração Rural - Volume 1


28

Através do gráfico 01 é possível observar a direitos humanos, cultura e artes, cultura


evolução crescente dos recursos financeiros digital, prevenção e promoção da saúde,
a partir da implementação da Lei nº educação científica e educação econômica.
11.947/2009. Os recursos tiveram aumentos Com isso o PNAE passou a repassar um per
consideráveis ao longo dos anos, porém o capita maior para os alunos que aderem ao
mais significativo acontece entre 2009 e 2010, programa, com a exigência de que as
em 2009 o valor repassado passa de entidades executoras devem ofertar três
R$ 3,218 bilhões para R$ 4,922 bilhões em refeições ao dia para esses alunos
2010. Ou seja, há um aumento de 52,95% no (FNDE/MEC, 2015).
valor repassado neste período. Os anos
Destaca-se que as mudanças ocorridas no
posteriores seguem apresentando elevação,
PNAE proporcionam maiores oportunidades
porém constantes, oscilando de 4,446 (2011)
de comercialização, dentre essas
a 4,492 bilhões (2014) de reais.
modificações para o agricultor familiar, a sua
Uma das explicações para o aumento no adesão ao programa, também sofreu
repasse dos recursos nos anos de 2009 a mudanças. No início, com a resolução do
2010, é o reajuste dos valores repassados FNDE nº 38 de 2009 (BRASIL, 2009), previa-
pela União aos estados e municípios, além de se que cada agricultor poderia vender no
inclusão de novas categorias nos anos máximo até R$ 9 mil reais por ano, valor que
seguintes. Em 2009 a União repassava passou para R$ 20 mil a partir da resolução
R$ 0,22 por aluno, por dia letivo, com do FNDE nº 25 de 2012 (FNDE, 2017)
exceção dos estudantes das escolas considerando-se o conjunto de entes públicos
indígenas, para os quais o valor per capita executores da alimentação escolar.
era de R$ 0,44 (FNDE, 2009). Em 2010, esses
Ressalta-se que há prefeituras no Brasil em
valores passam para R$ 0,30 por dia para
que a situação dos mercados institucionais
cada aluno matriculado em turmas de pré-
chegou a um nível que se pode definir como
escola, ensino fundamental, ensino médio e
de amadurecimento, no qual se tem a compra
Educação de Jovens e Adultos (EJA). As
de 100% dos produtos da agricultura familiar
creches e as escolas indígenas e quilombolas
local ou regional para o abastecimento das
passaram a receber R$ 0,60, e as escolas
escolas e creches do município, enquanto
que oferecem ensino integral por meio do
outras municipalidades apenas deram os
Programa Mais Educação, R$ 0,90 por dia
primeiros passos no sentido de adequarem-
(FNDE, 2014).
se à nova realidade do PNAE. Essa mudança
Outro destaque para o período é que o ano de mentalidade trouxe consigo a
de 2010 foi o primeiro ano de obrigatoriedade possibilidade de que a agricultura familiar
da compra da agricultura familiar. Saraiva et tivesse acesso a recursos que em 2013
al., (2010) apontam que no Brasil 47,4% dos alcançaram a marca de R$ 4,547 bilhões de
municípios adquiriram alimentos da reais. Houve ainda uma evolução ininterrupta
agricultura familiar para o PNAE e o dos recursos aplicados através do PNAE,
percentual de compra nestes municípios foi, assim como o número de alunos atendidos,
em média, de 22,7%. A região Sul do país que em 2013, alcançou um máximo histórico
apresentou o maior percentual de compra de de 43,3 milhões (DOS ANJOS; BECKER,
alimentos da agricultura familiar (71,3%) e o 2017).
Centro-Oeste apresentou o menor (35,3%).
Segundo dados do FNDE (2013), sobre a
Ainda, outra mudança significativa foi a
evolução dos investimentos em alimentação
inclusão do atendimento, em 2013, para os
escolar de 2000 a 2013, destaca-se que, em
alunos que frequentam o Atendimento
2000, o PNAE atendia cerca de 37,1 milhões
Educacional Especializado – AEE, para os da
de alunos com um investimento de R$ 901,7
Educação de Jovens e Adultos (EJA)
milhões. Em 2013, foram atendidos
semipresencial e para aqueles matriculados
aproximadamente 43 milhões de alunos com
em escolas de tempo integral, atendendo
um investimento de cerca de R$ 4,547
mais de 20% da população brasileira (PAZ et
bilhões, esse aumento vultuoso tanto nos
al., 2009).
investimentos quanto nos alunos atendidos,
A inserção do Programa Mais Educação em demonstra a contribuição que este mercado
2009 aumentou a oferta educativa nas institucional pode trazer para a reprodução
escolas públicas por meio de atividades social dos agricultores familiares.
optativas como acompanhamento
pedagógico, meio ambiente, esporte e lazer,

Administração Rural - Volume 1


29

Em relação a elevação do recurso financeiro a variável/número de alunos atendidos é


dedicado ao PNAE, um dos eixos de apoio foi possível notar que o mesmo não apresenta
política econômica adotada pelo governo no aumento contínuo durante o período
período, ações foram implementadas pelo analisado. O período o qual o número de
governo petista de Luís Inácio Lula da Silva alunos apresentou acesso significativo, foi no
(2003 - 2006), em primeiro e Dilma Vana ano de 2009, com o total de 47 milhões de
Rousseff, em seu segundo mandato (2011 - alunos recebendo pelo menos uma refeição
2016) (IPEA, 2012; MATTEI, 2012). A diária, nesse mesmo ano a alimentação
plataforma do governo Lula em seu primeiro escolar ganha novos ares, assumindo em seu
mandato teve a alimentação fortemente cardápio produtos frescos e de qualidade
vinculada ao fortalecimento da agricultura adquiridos através da agricultura familiar.
familiar, segurança alimentar e nutricional
Ao enxergarmos a redução de alunos
ganharam um novo ímpeto e estes atores
atendidos durante os anos de 2010 a 2014
encontraram possibilidades para
temos que relacionar que esse número é
institucionalizarem suas ideias.
repassado conforme matriculas que são
O segundo mandato do Luís Inácio Lula da efetuadas nas escolas públicas que
Silva (2007 a 2011) se caracterizou pelo eixo participam do PNAE. De acordo com Rocha
desenvolvimento com distribuição de renda e et al., (2014), que pesquisou os fatores que
educação de qualidade, um importante incidem na qualidade da implementação do
intelectual que teve papel decisivo na PNAE nos municípios brasileiros, muitas
formulação e implementação do projeto Fome vezes o número repassado não é o mesmo de
Zero, foi o professor José Graziano da Silva. alunos matriculados e atendidos.
Segundo Menezes (2010, p.247), esse projeto
O número real de alunos atendidos é uma
“representou a culminância de todo um
importante ferramenta de controle e de
processo anterior de formulações e práticas
avaliação da implementação do PNAE, mas
na luta contra a fome e pela segurança
infelizmente é um dado que não está
alimentar e nutricional no Brasil
disponível na maior parte das prefeituras. É
experimentadas por governos (nos níveis
com base no número de alunos matriculados
municipal e estadual) e organizações sociais”.
que o governo federal calcula o valor a ser
Ainda com relação aos valores repassados repassado aos municípios para a compra de
para o PNAE, no período de 2014 podemos gêneros alimentícios para o PNAE. (ROCHA et
observar que o valor repassado atinge os al., 2014).
4,492 bilhões de reais, contemplando 42,2
Pode-se perceber que apesar do número de
milhões de estudantes. Segundo dados do
alunos ter estagnado e até mesmo ter sofrido
FNDE, R$1,08 bilhões foi adquirido de
reduções ao longo do período apresentado, o
produtos oriundos de agricultores familiares,
volume de recursos aplicados vem
obedecendo a lei que obriga os 30%. (FNDE,
continuamente crescendo, principalmente em
2017). Ao verificarmos a evolução desses
função dos reajustes do valor per capita.
investimentos, verifica-se um crescimento de
Outro dado relevante para a análise é que
39,58% nos recursos financeiros despendidos
nem todas as categorias do programa são
durante o período de 2009 a 2014, em relação
atendidas desde o começo do período
ao número de alunos atendidos pelo
analisado, um exemplo são os alunos da
programa durante o mesmo período observa-
modalidade do ensino médio e Educação de
se uma queda de 10,21%, em nível nacional.
Jovens e Adultos (EJA), os quais são
Diante desses dados, mesmo havendo uma
comtemplados com a participação no
queda no atendimento de estudantes, o
programa a partir do ano de 2010 (FNDE,
programa é considerado não apenas um
2017).
direito dos estudantes, mas também uma das
estratégias de Segurança Alimentar e A merenda escolar representa um atrativo
Nutricional. para a frequência de considerada
porcentagem de alunos matriculados nas
Ainda com relação ao gráfico 01, pode-se
escolas públicas, consistindo numa atividade
observar que o programa vem ganhando
integrada ao ensino. O PNAE ganha uma
força e impulsionado por mudanças foi
dimensão social maior, à medida que em face
adquirindo confiança dos governos, que
da pobreza de significativas parcelas da
passam a ter como prioridade a alimentação
população brasileira, cresce o número de
escolar, redução da pobreza e da fome, e luta
crianças que vão à escola em jejum e/ou que
por justiça social. No entanto, ao analisarmos

Administração Rural - Volume 1


30

se alimentam em casa de maneira Segundo Triches e Baccarin (2016), o PNAE é


inadequada. Para muitos alunos das escolas potencial em auxiliar na reversão dos quadros
brasileiras, a merenda é sua única refeição alimentares e nutricionais vigentes no país,
diária (FLÁVIO et al., 2004). além de promover a reprodução da
agricultura familiar.
De acordo com os estudos de Castro (2010),
sobre o financiamento da educação pública De acordo com Martins (2015), a partir de
no Brasil, a população brasileira na faixa pesquisas com agricultores orgânicos e
etária atendida pela educação básica vem agroecológicos do Paraná, os principais
decrescendo e tende a seguir esse ritmo nos resultados do ponto de vista dos agricultores
próximos anos. Segundo dados do após participação na chamada pública
MEC/2016, mais de três milhões de alunos eletrônica, são: 100% dos pesquisados
entre a idade de quatro a dezessete anos acreditam que houve aumento da
estão fora da escola, esse resultado também organização, estímulo ao cooperativismo e à
é uma das variáveis que explica a diminuição participação de mulheres, aumento na
de alunos atendidos pelo PNAE. Os dados do aceitação da alimentação escolar e elevação
Censo Escolar de 2015 mostram que as da autoestima dos agricultores; para 95,5%
matrículas diminuíram em todas as etapas de houve aumento no faturamento da
ensino, menos na creche, que atende as cooperativa; 86,6% atestam estímulo à
crianças até os três anos de idade. produção orgânica; 81,8% confirmam
aumento da participação de jovens e retorno
O ensino médio, que já reduzia as matrículas
de familiares à propriedade rural; 79,5%
pelo menos desde 2010, teve, desde então, a
informam maior inclusão digital dos
maior queda, entre 2014 e 2015, de 2,7%. O
agricultores; e 75% declaram ter ocorrido
número de estudantes passou de 8,3 milhões
maior diversificação da produção e maior
para 8,1 milhões. Os cenários da educação
aproximação entre produtores e
infantil e do ensino médio são diferentes.
consumidores.
Enquanto no ensino médio, a falta de
atratividade, a busca por trabalho, a gravidez Ainda, Carvalho (2009), lembra que a
na adolescência faz com que estudantes alimentação escolar movimenta bilhões de
abandonem os estudos, no ensino infantil reais por ano na compra de bens e serviços
faltam salas de aula para incluir todas as pelos estados e municípios. Ao mesmo
crianças. No ensino médio, a maior parte dos tempo, tem-se revelado como potencial
jovens está na cidade e, na pré-escola, está mercado institucional de fomento às
no campo (INEP/MEC, 2016). Dessa forma, de economias locais e regionais, de inclusão
acordo com Castro (2010), faz-se necessário social e de respeito à cultura local e ao meio
a política de alimentação escolar atentar-se ambiente.
para a evolução das matrículas na educação
Neste sentido, Villa Real (2011), descreve
básica, a fim de otimizar a distribuição de
experiências nos municípios de Rolante (RS),
recursos de acordo com a modalidade de
Belo Horizonte (MG), Fernandes Pinheiro (PR),
ensino e, por conseguinte, melhor atender o
Nova Iorque e Roma, que através da compra
alunado. Ressaltando que a diminuição
de gêneros alimentícios de pequenos
quantitativa por acesso à educação pode
produtores locais puderam oferecer aos
implicar aumento da demanda qualitativa
escolares uma alimentação de qualidade,
desse acesso e também pela permanência na
além de proporcionar novas oportunidades
escola.
aos produtores locais, contribuindo para o
A alimentação escolar é de suma importância desenvolvimento com sustentabilidade.
para o desenvolvimento dos escolares, a
Por fim, Belik e Souza (2009), estudando
permanência destes na escola, além de
programas de alimentação escolar na
garantir a educação garante a formação de
América Latina, concluíram que os municípios
hábitos alimentares saudáveis. Apesar de
que fizeram localmente as compras
haver uma redução do número de estudantes
conseguiram ampliar a renda da população e
atendidos pelo PNAE nos últimos anos,
dinamizaram o comércio regional. No entanto,
destaca-se alguns resultados positivos do
o estudo mostrou que são poucos os
programa, sobretudo para a agricultura
programas descentralizados e geridos
familiar que passa a se inserir em novos
democraticamente. Existem inúmeras
mercados, proporciona a valorização cultural
conquistas a serem celebradas no âmbito do
dos alimentos, além de se tornar um
programa, porém muitas barreiras e desafios
instrumento concreto de desenvolvimento.

Administração Rural - Volume 1


31

ainda precisam ser enfrentados pela tempo, os agricultores precisam realizar um


agricultura familiar no acesso ao PNAE, os planejamento da produção dos alimentos, de
quais serão abordados no 4.1 a seguir. acordo com a demanda para reduzir as
oscilações e garantir uma oferta estável do
produto (SARAIVA et al., 2013, p.933)
4.1 ENTRAVES E DESAFIOS DO PROGRAMA
Para Aroucha (2012), ampliação e a
NACIONAL DE ALIMENTAÇÃO ESCOLAR
regularidade continuada de oferta de gêneros
As políticas públicas como o PNAE alimentícios para o atendimento das
contribuem para a transformação social e demandas crescentes do mercado
econômica, tanto para os contextos locais de institucional da alimentação escolar
sua implementação, quanto para o cenário apresentam também o problema a ser
nacional e de emancipação para grupos e resolvido que são as variações decorrentes
indivíduos espalhados por todo o país das condições climáticas e agroecológicas,
(ROZENDO; BASTOS; MOLINA, 2014). No que levam a sazonalidades de produção de
entanto, apesar das inúmeras conquistas, a parte da diversidade de espécies alimentares,
implementação e operacionalização local das com as suas respectivas variedades e raças.
compras institucionais, enfrentam alguns
Outro fator que se caracteriza como um
obstáculos. Ainda são muitos os entraves e os
entrave no acesso ao PNAE é a programação
desafios a serem superados pelo Programa
dos cardápios, muitas vezes o cardápio é
Nacional de Alimentação Escolar, dentre eles
preparado sem a presença das cooperativas.
destaca-se: a) falta de planejamento
Diante disso, surge a ligação dessa
(sazonalidade na produção, e elaboração de
dificuldade com outra já citada, a
cardápios); b) chamada pública; c) excesso
sazonalidade dos alimentos. Quem prepara o
de formalidade/burocracia; d) repasse dos
cardápio precisa conhecer a cadeia produtiva
recursos; e) dificuldade para manter uma
dos alimentos, pois do contrário pode inserir
escala de produção;/atravessadores f)
um alimento que não está em fase final de
logística e transporte.
comercialização, portanto os obstáculos
Um dos principais entraves para a compra de criam uma “teia”, onde cada dificuldade se
agricultura familiar é a falta de planejamento, relaciona com outras (PAIVA, 2011).
ou planejamento inadequado, do gestor para
O processo de aquisição dos gêneros
a execução da compra. Conforme Carvalho
alimentícios para a alimentação escolar pelo
(2009), deve-se conhecer a realidade local
programa deve ser formalizado por meio da
dos agricultores para que o gestor possa
chamada pública e celebrado por contrato
planejar sua compra respeitando
entre as entidades executoras do PNAE e os
sazonalidades, vocação produtiva, entre
agricultores familiares, com a finalidade de
outras. As especificidades da agricultura,
garantir o cumprimento dos princípios
como a sazonalidade, o fato de alguns
constitucionais da administração pública e as
alimentos necessitarem de períodos mais
leis específicas que regulamentam a dispensa
longos para sua produção, outros de
de licitação para a aquisição desses itens
condições climáticas diferenciadas, exige um
(BRASIL, 2009; 2017). Neste sentido, as
eficiente planejamento. Neste sentido, muitos
barreiras relativas ao sucesso da
agricultores têm dificuldades em cumprir com
implementação das chamadas públicas para
a entrega dos alimentos.
o mercado institucional estão ligadas a
Conforme Saraiva et al., (2013), o não maneira que os editais são divulgados, mais
atendimento dos 30% de compra da especificamente no que se referem à
agricultura familiar se dá pela inviabilidade de participação e à integração dos agricultores
fornecimento regular e constante dos para o fornecimento pelo PNAE. É de suma
alimentos. Ou seja, os agricultores não importância que exista a conexão entre os
conseguem fornecer constantemente para a agricultores, Conselho de Alimentação
alimentação escolar. Escolar (CAE), a EMATER e as escolas. Ou
seja, é necessário que todos os participantes
O planejamento requer a verificação das
do programa tenham o conhecimento
características dos diferentes produtos, pois
necessário do processo, para que assim seja
alguns alimentos possuem ciclos produtivos
compartilhado entre todos anseios e
mais longos, outros são mais sensíveis as
preocupações a serem resolvidos. O
alterações climáticas (sazonalidade),
compartilhamento culmina em uma ação
interferindo no abastecimento. Ao mesmo
educativa, constituindo um espaço social

Administração Rural - Volume 1


32

para promoção de valores e atitudes que tem se tornado uma pedra de tropeço para
buscam o desenvolvimento da autonomia e agricultores familiares dificultando o acesso
do senso de responsabilidade individual aos programas e políticas públicas de
desses agentes (VILLAR et al., 2013). fortalecimento da agricultura familiar. Isso
porque, existe a ideia de que o processo de
Entre os documentos exigidos para o
aquisições públicas de alimentos para o
fornecimento ao PNAE, estão o Extrato da
PNAE fere os princípios da legalidade, da
Declaração de Aptidão ao Pronaf (DAP),
racionalidade, da concorrência, da
CPF/CNPJ, projeto de venda e declaração de
democracia, abrindo precedentes para
que os gêneros alimentícios a serem
corrupção. Segundo os autores o
entregues são produzidos pelo agricultor ou
endurecimento das regras para o
associados relacionados no projeto de venda,
funcionamento público, faz-se necessário.
a documentação exigida faz com que muitos
agricultores desistam de comercializar com o Ainda com relação aos entraves no acesso ao
PNAE, destacando-se as limitações de PNAE, Carvalho (2009), destaca a questão de
acesso a DAP (FNDE, 2013; MDA, 2017). alocação dos recursos. A proposta do PNAE
é destinar os recursos para os municípios,
Outra dificuldade encontrada no acesso ao
conforme o número de alunos matriculados
programa é o valor de referência das
nas instituições participantes do programa.
chamadas públicas, pois muitas vezes esses
Assim, as grandes metrópoles são as
valores são menores que os preços de
principais destinatárias desses recursos, o
mercado, desmotivando o agricultor, que vai
entrave aqui encontrado é que muitas vezes
optar em vender nas feiras livres do que
essas regiões não são beneficiadas com
escoar sua produção para a alimentação
agricultores familiares próximos ao local, com
escolar (TRICHES; BACCARIN, 2016). Para
isso o programa não é acessado,
Triches e Schneider (2010), além de estruturar
ocasionando em uma grande perda para os
a demanda, é preciso que o Estado invista na
agricultores que estão aptos para a
oferta e interfira no mercado, ou seja, que dê
comercialização.
meios para que os agricultores possam
efetivamente comercializar seus produtos Em relação a produção, segundo Reinach et
para o PNAE. al., (2012), os agricultores apontam que a
falta de capital de giro para investir na
Os agricultores antes de se inserirem no
compra de equipamentos que auxiliariam na
mercado institucional, escoavam sua
produção, tais como colheitadeiras, tratores,
produção sem passar por processos
galpões de armazenagem, faz com que haja
burocráticos, eram considerados produtores
uma redução na produtividade, tornando o
de alimentos, e a relação existente era
valor agregado dos alimentos mais altos,
unicamente direta entre consumidor e
devido à baixa produção e elevada perda.
produtor. De acordo com Ramos (2011), a
Assim, os agricultores defendem que as
oportunidade de entrega de produtos
incertezas do mercado os desmotivam a fazer
oriundos da agricultura familiar para a
tais investimentos.
alimentação escolar veio interligada com
diversas alterações e, em razão delas, os Segundo Triches e Schneider (2010), os
agricultores encontram dificuldades para agricultores familiares faziam suas transações
participar do programa, dentre as quais, a comerciais via venda direta ou por
obrigatoriedade de licitar todos os recursos atravessadores, ao haver a necessidade de
utilizados para as compras e a adequação se firmar contratos públicos para poder
das formalidades para comprovação de comercializar, esse fornecimento tem uma
padrões de qualidade dos produtos. ruptura, o qual necessita se adequar aos
novos parâmetros para escoar sua produção.
Para Belik (2012), o aperfeiçoamento do
Tem ainda a padronização dos produtos
PNAE termina por gerar uma situação de
fornecidos, os alimentos necessitam estar em
contrassenso em que as conquistas levam a
padrão de qualidade, higienização, tais como
um aumento de expectativas, o que torna a
possuir embalagem. Ao descrever essas
implementação mais complexa e, por
mudanças, percebe-se que essas são
conseguinte, mais difícil de ser realizada de
necessárias para o controle de qualidade,
acordo com padrões definidos.
porém o agricultor que não possui amparo de
Conforme Triches e Grisa (2015), o excesso cooperativas ou associações para se
de formalidade, que em sua essência visa enquadrar nessas novas exigências, acaba
diminuir o favorecimento e a impessoalidade, desistindo de acessar o programa.

Administração Rural - Volume 1


33

Ainda com relação aos entreves do programa, Assim, torna-se oneroso para o produtor o
Prado et al., (2013), destacam o problema de fornecimento no PNAE, principalmente no
adequação dos agricultores familiares á caso da produção de hortaliças e frutas para
essas exigências de comercialização via serem comercializados in natura, produtos
PNAE, ao afirmar que a produção em com preço mais baixo, sem valor agregado e
pequena escala dos produtores não de transporte mais delicado devido a
consegue atender a demanda necessária de perecibilidade. Outro fator importante no
gêneros alimentícios. A logística de PNAE é garantia da qualidade dos alimentos,
abastecimento na aquisição de alimentos é segundo Schneider (2013), é necessário que
fundamental para manter o adequado valor a logística em relação à coleta e à distribuição
nutricional da alimentação escolar. No dos alimentos seja eficaz para que os
entanto, a logística é um dos grandes produtos sejam consumidos em tempo
“gargalos” enfrentados pelos agricultores, adequado.
nem todos os municípios têm condições de
Diante do que foi exposto verifica-se
oferecer o frete ou o transporte desses
resultados semelhantes aos encontrados por
produtos para o local de destino. Assim, os
Soares (2011) e Baccarin et al., (2012), que
agricultores fazem as entregas utilizando seus
apontam algumas dificuldades para a
próprios veículos, já que terceirizar um frete é
operacionalização do PNAE. Dentre os
uma solução inviável, contudo, isso se torna
principais gargalos apresentados, estão: falta
mais uma despesa para o agricultor, que ao
de planejamento, dificuldades de acesso e
passar o valor final de seu produto, vê a
entendimento das chamadas públicas,
renda diminuir cada vez mais (BARBOSA;
excesso de normatização/burocracia no
ALMEIDA, 2013). Para Prado et al., (2013), a
programa, dificuldades de logística e
falta de treinamento técnico dos agricultores é
adequação com a padronização dos
um fator importante, que dificulta todo o
alimentos. Esses obstáculos enfrentados
processo logístico desde a colheita até a
criam lacunas entre os interlocutores do
entrega.
programa dificultando o desenvolvimento da
Souza (2012), aborda o entrave da logística economia local e regional. Visando tornar
salientando que em grande parte das mais claro visualmente os entraves, desafios e
negociações os agricultores acabam arcando as conquistas do PNAE, o quadro 01 abaixo
sozinhos com custos que vão além daqueles apresenta as principais discussões realizadas
específicos da produção agropecuária. ao longo da seção.

Quadro 01 - Síntese dos entraves, desafios e conquistas do PNAE


ENTRAVES DESAFIOS CONQUISTAS AUTORES
- Sazonalidade na produção.
-Inserir-se em
- Elaboração de cardápios.
cooperativas e - Saraiva et al.,
- Vocação produtiva. associações. (2013).
-Dificuldades de -Contar com maior número - Aroucha (2012)
Falta de planejamento.
fornecimento regular e de profissionais na
constante dos alimentos. elaboração de cardápios. -Carvalho (2009)

-Diálogo com os autores - Suporte tecnológico aos -Paiva (2011)


envolvidos na nutricionistas.
comercialização.
-Villar et al., 2013
- Divulgação dos editais. - O processo licitatório Triches e Baccarin,
Chamadas públicas. - Integração e participação passa a extinguir-se a 2016)
dos agricultores. partir da lei 11.947/2009.
-Triches e
Schneider (2010)
- Excesso de
-Formulação mais simples - Triches e Grisa
Excesso de formalidade/ regulamentação
na implementação das (2015).
burocracia. - Limitações na leis.
documentação necessária.

Administração Rural - Volume 1


34

(continuação...)
ENTRAVES DESAFIOS CONQUISTAS AUTORES
- O valor repassado por
aluno ainda é considerado - No ano de 2017, o
muito baixo. governo atual anunciou
aumento de 20% nos - Carvalho (2009).
-Valores dos alimentos nas
valores repassados, para
Repasse de Recursos. chamadas públicas, - Reinach et al.,
alunos de ensino
menores que os preços de (2012).
fundamental e médio, já
mercado.
para as demais categorias
- Falta de capital de giro o reajuste foi de 7%.
para investir na produção.
- Atravessadores.
- Registros de inspeção
sanitária e outras -Redução de - Triches e
certificações. atravessadores. Schneider (2010).
Dificuldade para manter
uma escala de - Planejamento das entregas - Criação de marcas - Wilkinson (2008).
produção;/atravessadores. de acordo com os prazos coletivas das - Reinach et al.,
estabelecidos. cooperativas. (2012).
- Padronização dos
alimentos.
- Estratégias para vendas de
- Melhor relação campo- - Barbosa e
alimento.
cidade. Almeida, (2013)
- Manter o valor nutricional
Transporte, logística, - Estimulo a economia - Schneider (2013).
do alimento.
sazonalidade. local.
- Lucro do produtor fica mais - Prado (2013).
- Melhor alimentação das
baixo, ao ter que arcar com o - Saraiva (2013).
crianças.
transporte.
Fonte: Elaboração própria com base na literatura consultada.

A discussão realizada nesta seção apresenta ser a peça-chave na organização dessa


os principais entraves encontrados pelos categoria tão importante para o
agricultores familiares para escoar a sua desenvolvimento local.
produção via PNAE. Dentre eles destaca-se
as dificuldades operacionais como grande
obstáculo para a inserção dos produtores no 5 CONSIDERAÇÕES FINAIS
programa. Segundo Triches e Baccarin
O Programa Nacional de Alimentação Escolar
(2016), a adesão às compras locais e a
ao longo de sua trajetória passou por
estruturação da oferta de produtos da
sucessivas mudanças em sua concepção e
agricultura familiar local dependem muito da
elaboração, quando implementado no Brasil
disponibilidade e da vontade política dos
caracterizava-se como uma política
gestores locais.
assistencialista de complementação
Apesar das diversas dificuldades citadas ao alimentar, no decorrer de suas
longo do estudo é evidente a contribuição do reestruturações transformou-se em uma
PNAE para a agricultura familiar, um dos política pública de desenvolvimento. Tais
marcos desse desenvolvimento é sem dúvida modificações foram fundamentais para
a obrigatoriedade da Lei nº 11.947/2009, que garantir um continuo processo de
estabelece que 30% dos alimentos adquiridos aprimoramento do programa. A principal e
sejam oriundos da produção dos agricultores mais inovadora alteração do PNAE ocorreu a
familiares. Muitas barreiras são impostas no partir da implementação da Lei n°
acesso a esse mercado institucional, porém, o 11.947/2009, a qual garantiu avanços
agricultor precisa “lutar” por esse acesso, de significativos tanto em âmbito econômico
maneira que as questões burocráticas sejam como social, a partir da obrigatoriedade de
solucionadas, a logística tenha apoio dos compra de alimentos oriundos da agricultura
municípios, e que as cooperativas passem a familiar.

Administração Rural - Volume 1


35

A partir da análise realizada no presente Dentre as dificuldades observadas


estudo pode-se observar que desde a encontram-se falta de planejamento, a
implementação da Lei nº 11.947/2099 os divulgação das chamadas públicas, o
recursos repassados pelo FNDE excesso de burocracia, a questão de
apresentaram evolução crescente (2009 a transporte e sazonalidade dos alimentos,
2014). As explicações encontradas através dentre outros. Esses gargalos a serem
dos dados e de pesquisas, apontam variáveis enfrentados pelos agricultores familiares se
como inserção de novas categorias atendidas tornam um desafio para os mesmos
pelo programa e políticas de governo a qual permanecerem exercendo suas atividades
priorizavam programas de segurança vinculadas ao programa. Desse modo, uma
alimentar como o PNAE. das estratégias seria o agricultor participar de
cooperativas e associações para que possa
Em relação ao número de alunos atendidos, o
dialogar com os autores envolvidos e sanar
ano que mais teve participação foi em 2009.
suas dúvidas e dificuldades.
Nesse ano é inserido o Programa mais
Educação, o qual aumentou a oferta de Por fim, o Programa Nacional de Alimentação
alunos atendidos. Um indicador que ajudou Escolar através de sucessivas mudanças,
na compreensão dessa análise, é o fator de possibilitou um continuo processo de
que o número de escolas atendidas não afeta aprimoramento o qual contribui ao oferecer
na mesma proporção de alunos atendidos, ou alimentos de qualidade aos alunos de rede
seja, existem especificidades em cada região pública e auxilia no desenvolvimento da
atendida pelo PNAE, como o recurso é agricultura familiar ao escoar a produção
direcionado conforme a categoria de ensino, desses agricultores.
algumas regiões apresentam maiores índices
de recursos pois atendem categorias que
recebem um valor mais elevado do FNDE, NOTAS
mesmo que a mesma apresenta menos 1 - A pesquisa é resultado do trabalho de
alunos matriculados. conclusão de curso da primeira autora.
É possível observar que os recursos Monografia apresentada em novembro de
destinados ao PNAE, revelam a importância 2017.
que o programa conquistou desde sua 2 - Aliado ao Partido dos Trabalhadores (PT).
implementação. O aumento crescente das Coligação: Partido Liberal (PL), Partido
verbas destinadas à alimentação escolar Comunista do Brasil (PCdoB), Partido da
expressa que o mercado institucional se Mobilização Nacional (PMN), Partido
tornou um potencial meio de desenvolvimento Comunista Brasileiro (PCB).
através da qualidade dos alimentos
oferecidos. Mesmo havendo uma queda no 3 - Aliada ao Partido dos Trabalhadores (PT).
número de alunos atendidos, os recursos Coligação: Partido do Movimento
destinados ao programa tiveram aumentos Democrático Brasileiro (PMDB), Partido
significativos. Destarte, o PNAE contribui no Democrático Trabalhista (PDT), Partido
aprendizado das crianças e na valorização da Comunista do Brasil (PCdoB), Partido
cultura local, através dos alimentos Socialista Brasileiro (PSB), Partido da
oferecidos; proporcionando um República (PR), Partido Republicano
desenvolvimento na economia através da Brasileiro (PRB), Partido Social Cristão (PSC),
inserção do agricultor familiar no mercado Partido Trabalhista Cristão (PTC) e Partido
institucional. Trabalhista Nacional (PTN).

No entanto, apesar da relevância do 4 - Declaração de Aptidão ao Pronaf:


programa, ainda se encontra muitos entraves Documento comprobatório de que a unidade
e desafios encontrados pela agricultura de produção é familiar. (MDA, 2017).
familiar para conseguir acessar o PNAE.

Administração Rural - Volume 1


36

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Administração Rural - Volume 1


39

Capítulo 3

Oleides Francisca de Oliveira


Josefa Estevo de Souza Araújo
Jean Marcos da Silva

Resumo: Na década de 1970, o estado do Acre foi marcado pelo processo de


imigração dos povos que viviam na floresta. Sob o olhar Político, visava-se o
desenvolvimento da Amazônia. Com isso, muitas famílias que habitavam as
florestas, foram obrigadas a migrarem para a cidade de Rio Branco - AC. O objetivo
deste trabalho é identificar as relações interpessoais, econômicas e trabalhistas de
lavanderias comunitárias em Rio Branco - AC como alternativa de trabalho para
mulheres com vulnerabilidade econômica. O presente artigo trata-se de uma
abordagem qualitativa e um estudo de campo. Os dados foram analisados por
meio da técnica de análise de discurso. Observou-se que a estrutura econômica
está na organização social local, uma vez que se entende a força das tradições e
dominações culturais, é possível compreender a necessidade e viabilidade
econômica regional.

Palavras-chave: Trabalho. Classe. Lavadeiras. Economia.

Administração Rural - Volume 1


40

1 INTRODUÇÃO econômicas decorrentes da década de 1970,


na chegada das famílias dos seringueiros
O movimento migratório no estado do Acre na
para a cidade, o que gera uma série de
década de 1970 foi marcado pela saída dos
problemas, entre estes aborda-se o
povos que viviam na floresta para as cidades,
desemprego e o trabalho informal, trazendo
principalmente para o município de Rio
para a atualidade essa relação, no processo
Branco, em consequência da venda de
histórico e social das lavadeiras,
seringais para grupos econômicos de outros
compreendendo neste, a criação de uma
estados. Nesse processo de transição, foram
nova força de trabalho e desigualdade social.
notórias as mudanças: além do espaço
Essas mudanças econômicas e sociais fazem
geográfico, as relações culturais, sociais e
parte do sistema capitalista, com constantes
econômicas. Para as mulheres que até então
crises, que levam o ser humano a adaptar-se
eram apenas auxiliares de seus maridos ou
e criar novas condições e alternativas de
de seus pais nos seringais, essas mudanças
trabalho.
foram ainda maiores.
O primeiro capítulo aborda os procedimentos
Diante das necessidades econômicas destas
metodológicos. O segundo capítulo trata de
mulheres, devido à falta de emprego e
um esboço histórico, da cultura e do trabalho
preparo para o mercado de trabalho, na
da mulher amazônica, com bases na
década 1990 foram inauguradas as
dominação tradicional, fundamentadas nas
lavanderias comunitárias, promovidas pelo
tradições e costumes, de uma cultura
poder público, cuja proposta era oferecer
machista. Busca-se compreender as
uma alternativa de trabalho para as mulheres
mudanças culturais e familiares relacionadas
sem profissão e estudo.
ao trabalho dessas mulheres por meio das
Neste contexto, estudou-se as lavadeiras de mudanças impostas pelo capitalismo, no
duas lavanderias comunitárias de Rio Branco: processo de imigração.
Lavanderia Maria Barbosa do Nascimento,
Em seguida, relata-se o aspecto histórico das
localizada no bairro Cidade Nova e a
lavanderias comunitárias de Rio Branco.
Lavanderia Maria Júlia da Conceição no
Apresenta-se forma de funcionamento, desde
bairro Novo Horizonte, afim de compreender o
a sua primeira inauguração em 1990, até o
modo de trabalho, relações interpessoais e
modo de funcionamento atual, afim de
perfil sócio econômico dessa classe de
mostrar as mudanças políticas das
trabalhadoras.
lavanderias comunitárias e as mudanças na
A priori, fez-se um esboço histórico da cultura sua estrutura física e sua gestão.
e do trabalho da mulher amazônica.
Entendendo a importância do conhecimento
cultural e social, e sua relevância para 2 MULHER, CULTURA E TRABALHO
possíveis avanços econômicos. O objetivo
Neste capítulo, fez-se um recorte da história
deste trabalho é identificar as relações
das lavadeiras da Lavanderia Comunitária de
interpessoais, econômicas e trabalhistas de
Rio Branco, através de relatos históricos e da
lavanderias comunitárias em Rio Branco - AC
memória coletiva, que retratam a construção
como alternativa de trabalho para mulheres
social, baseada nas tradições e culturas.
com vulnerabilidade econômica.
Como o assunto específico de abordagem
Nesse sentido, esta pesquisa é importante são as mulheres no exercício do seu trabalho
por compreender as alternativas de trabalho por meio das Lavanderias Comunitárias, que
para mulheres de baixa renda, dentro das é uma iniciativa da Prefeitura Municipal de Rio
Lavanderias Comunitárias de Rio Branco, pelo Branco. Neste capítulo buscou-se entender as
viés socioeconômico por meio da práxis origens sociais, culturais e históricos
política e social, Estado e alternativas de relacionadas às trabalhadoras destas
trabalho assim como, investigar, quais os lavanderias.
motivos que levam as trabalhadoras das
Na maioria das culturas a mulher é totalmente
lavanderias comunitárias de Rio Branco, a
excluída do preparo para o mercado de
optar por esta forma de trabalho, avaliando
trabalho através de costumes impostos pela
também as vantagens e desvantagem para as
sociedade, no Acre não é diferente, desde os
lavadeiras.
Seringais, as mulheres foram educadas
A justificativa desse trabalho leva em dentro de uma cultura machista, e
consideração ainda, as necessidades dominadora, com muita influência dos

Administração Rural - Volume 1


41

nordestinos, principalmente originários do estavam prometidas em casamento para


estado do Ceará para os seringais acreanos, algum conhecido ou parente de seus pais.
na época da colonização da borracha. No
A cultura e as tradições sociais não lhes
entanto, o trabalho sempre esteve presente
davam direito de escolha, pois as normas já
na vida das mulheres, elas ajudavam no corte
estavam pré-estabelecidas e impostas. Eram
de seringa, no roçado, e o trabalho da casa e
regras que, por muitos anos, as mulheres
o cuidado dos filhos eram exclusivamente
foram reféns desses costumes. No entanto, o
delas, sem nenhuma ajuda do gênero
trabalho sempre esteve aliado a figura
masculino. Muitas vezes fazendo o mesmo
feminina, não com a finalidade de emancipá-
serviço que os homens, e ainda tendo que
la e sim de escravizá-la. As marcas da
arcar com as suas obrigações de casa.
dominação tradicional
Segundo Weber (1999) há três tipos puros de
foram enraizadas na cultura acreana, uma
dominação: A de caráter racional; de caráter
construção social, que mesmo com o passar
tradicional e de caráter carismático. Aqui
dos anos ainda se faz presente, e seus
destaca-se a dominação tradicional,
prejuízos foram inúmeros. “As mulheres índias
“Baseada na crença cotidiana na santidade
eram capturadas com dupla finalidade: para o
das tradições vigentes desde sempre e na
trabalho no seringal e para serem esposas e
legitimidade daqueles que, em virtude dessas
escravas” (PESSOA, 2007, p. 87).
tradições, representam a autoridade”
(WEBER, 1999, p. 141). O Sistema Econômico Capitalista sempre
esteve presente nas civilizações que foram
Eram poucas as profissões que elas podiam
surgindo e progredindo de alguma maneira
exercer, entre as mais comuns, estavam as
devido a sua própria natureza, em um
de: costureira, bordadeira, lavadeira, e para
determinado momento construindo e em outro
as que tinham uma posição social mais
determinado momento destruindo, inclusive
elevada, a de professora.
as condições da sua existência em seu
A Priori, a dominação vinha por parte do pai, próprio habitat, e em nome desse Capitalismo
depois o domínio era repassado para seu defende-se um “progresso” que leva ao
marido. A cultura e tradições ditam regras crescimento, sem um desenvolvimento que
bem explicadas em relação ao beneficie a todos sem distinção de gênero e
comportamento do homem e da mulher, tendo com uma distribuição de renda mais
liberdade quando se sujeitam aos padrões igualitária.
sociais, a quebra desses padrões implica em
Harvey (2011), afirma que, o sistema
uma série de consequência, é nesse contexto
econômico capitalista, trouxe mudanças em
social que muitas lavadeiras identificam a
todas as esferas da sociedade,
história de suas avós e mães. Segundo
transformando também o modo de vida das
Pessoa (2007, p. 73), “As manifestações
pessoas até mesmos nas relações culturais,
culturais estão sempre relacionadas à
envolvendo gênero e trabalho. No Acre
consciência de valores dos grupos que ditam
esse ¨progresso¨ chega na década de 70, em
as normas de conduta social, isto é, os
consequência da venda dos seringais para
grupos de referência de determinados
fazendeiros vindo principalmente do sul e
lugares e épocas”.
sudeste do país. ¨Até meados dos anos 1970,
A questão cultural e social sempre foi o nota-se políticas regionais Top-Down, com
grande divisor em relação ao gênero ênfase na demanda e na correção das
masculino e gênero feminino, principalmente disparidades inter- regionais¨ (DINIZ e
em relação ao trabalho. CROCCO 2006).
Pessoa (2007), retrata muito bem a questão Embora distintas de suas derivações de
de gênero e trabalho. Por volta de 1920 e política econômica, as teorias mencionadas
1930, no Acre, essa questão era mais latente. partilhavam o entendimento de que não era
Para as mulheres eram destinados os garantido automaticamente pelas forças de
trabalhos domésticos e o cuidado dos filhos. mercado, sendo necessária a intervenção
Sem exercerem nenhum tipo de direito estatal para que os desequilíbrios regionais
político, e muitas vezes, nem mesmo o direito fossem superados. (DINIZ e CROCCO, 2007,
de escolherem seus companheiros, sendo p. 11).
que muitas delas antes mesmo de nascer já
As famílias migradas dos seringais para a
capital em Rio Branco/Acre, não tinham

Administração Rural - Volume 1


42

estudos e nem profissão, porém o contexto familiar, como uma modalidade de trabalho,
social agora é outro, não estavam mais nas cada vez mais frequente, por mulheres que
matas, não tinham os seringais, enquanto nas de alguma maneira tinham que garantir o
florestas, tinham os peixes e caças, faziam a sustento de suas famílias.
coleta de castanha e praticavam a agricultura
O desenvolvimento dessa atividade foi
familiar. Contexto esse propício a inúmeros
identificada por várias mulheres, que
problemas sociais. Nasce aqui a necessidade
compartilhavam o mesmo espaço, trocando
do desenvolvimento de nova atividade para o
experiências criando uma relação de
sustento da família.
trabalho, com o mesmo objetivo de renda
para o sustento da família. Com o passar do
tempo foram se organizando, com apoio de
2.1 ATIVIDADE COMUNITÁRIA
representação comunitária junto a prefeitura,
Diferente do seringal, o dinheiro tinha que ser adquirindo espaço, tecnologia de maquinas e
usado diariamente, para ajudar no sustento equipamentos tornando uma simples
da casa, as mulheres passaram a atividade comunitária em economia
trabalhavam em casas de família, outras em sustentável.
feiras, trazendo recurso financeiro para casa,
O número de mulheres lavadeiras vai se
iniciando a quebra da cultura machista, de
tornando cada vez maior, decorrente a uma
que só o homem, poderia ser o provedor
situação de mercado, considerando o cenário
principal da casa, agora na grande maioria
econômico vivido por elas, o que antes era
dessas famílias a mulher passa de ajudadora
um grupo de mulheres que lavavam roupa na
a provedora do lar.
beira do rio, aos poucos vai ganhando forma,
A lavagem de roupa também fazia parte decorrente a um grupo e pessoas que vivem
dessa escala de trabalho, sendo preferida por na mesma situação, essa classe de
muitas mulheres, pela flexibilidade de horário lavadeiras, tinham em comum a necessidade
de trabalho, o que dava para conciliar com de sobreviver dentro do Sistema Econômico
suas obrigações de casa, e o cuidado com as Capitalista.
crianças, e marido.
Para Weber 1999, p.176 as classes são
Segundo Vieira e Ximenes (2012) é na determinadas por:
atividade comunitária que percebemos no
As "classes" não são comunidades sentido
trabalho as dimensões instrumental e
aqui adotado, mas representam apenas
comunicativa que o envolvem, visto que a
fundamentos possíveis (e frequentes) de uma
decomposição da atividade em determinadas
ação social. Falamos de uma "classe" quando
ações pressupõe que elas se liguem,
1) uma pluralidade de pessoas tem em
mediante a relação entre o indivíduo e os
comum um componente causal específico de
membros da coletividade.
suas oportunidades de vida, na medida em
O grande salto que a humanidade dá em que 2) este componente está representado,
relação aos outros animais e que possibilita exclusivamente, por interesses econômicos,
essa ação planejada do homem sobre a de posse de bens e aquisitivos, e isto 3) em
natureza é a criação de instrumentos. A condições determinadas pelo mercado de
utilização de um instrumento está bens ou de trabalho "situação de classe"
estreitamente vinculada à consciência do fim (WEBER, 1999, p. 176).
da ação. Assim, ele deixa de ser um mero
A classe de lavadeiras foi assim identificada,
objeto e passa a carregar consigo conceitos
por exercer de forma rotineira o desempenho
que ultrapassem uma condição natural
laboral que recebiam um certo valor
(VIEIRA e XIMENES, 2012).
combinado entre as partes pelo exercício de
O aprendizado da atividade de lavadeiras foi lavagem de roupa. A correlação existente
desenvolvida de ensinamento de mãe para entre a lavadeira e o contratado era informal,
filha, que à acompanhava quando do valia- se pela consciência do indivíduo pelo
exercício dessa atividade lavando roupas pagamento.
para fora, na beira do Rio Acre. Essas
Segundo Góis (2005) apud Vieira e Ximenes
mulheres, movida pela necessidade
(2012) apesar de apontar a correlação
econômica, passam a trabalhar como
existente entre o modo de participação em
lavadeiras, serviço que nos seringais era no
atividades comunitárias e o tipo de
âmbito familiar, que agora sai da esfera
consciência dos indivíduos.

Administração Rural - Volume 1


43

Vieira e Ximenes (2008a) relacionam os de água era frequente, e que não tinham
conceitos de conscientização e atividade nenhum apoio por parte da Prefeitura, apenas
comunitária. Os autores enfatizam a usavam o espaço público que ficou
imbricação entre psiquismo e realidade praticamente nas mãos delas, sem nenhuma
material, na qual ambos possuem a gestão por parte do poder Público. Na Gestão
necessidade da presença do diálogo; do Prefeito Raimundo Angelim, as lavanderias
afirmam ainda a superação de uma passam por reformas e ganha maquinário
apreensão espontânea na relação industrial.
consciência e mundo. Assim, os autores
A lavadeira X relata um pouco da sua
defendem que
experiência na lavanderia.
conscientização e atividade comunitária
Conheci a lavanderia através de uma
fazem parte de um mesmo processo, pois
cunhada, para mim foi uma grande
“[...] a interação com a realidade, por meio de
oportunidade de trabalho, pois podia
suas dimensões instrumental e comunicativa,
trabalhar e cuidar dos meus filhos. Dentro da
produz mudanças na forma de o indivíduo se
lavanderia tenho muitas amizades, tanto com
relacionar consigo, com o outro e com o
as amigas de trabalho como com os clientes
mundo” Isso aponta para o fato de que
[...] nesses anos tivemos fazes boas e ruins
mudanças nas formas de interação com o
na lavanderia, mas a pior época foi em 97,
outro implicam necessariamente novas formas
quando tivemos a nossa água cortada, e para
de apreensão da ação sobre a realidade
lavar roupa tínhamos que pegar água da
(LURIA, 2005 apud VIEIRA e XIMENES, 2012).
vizinha, além das péssimas condições que a
Para realizar seu trabalho essas mulheres gente trabalhava.
disponibilizavam, do recurso natural: Rio, sua
A lavanderia relatada pela Lavandeira X são
força de trabalho, ou, tipo de serviço
também, uma maneira da Prefeitura dá
oferecido no mercado, além do saber
resposta a uma a necessidade de um grupo
adquirido na experiência do trabalho do
de mulheres que já sobrevivia desse trabalho.
cotidiano. A classe de lavadeiras foi
A classe de lavadeiras, composta por
constituída nesse espírito de luta pela
mulheres na sua maioria vindas dos seringais,
sobrevivência dentro de um sistema que por
que outrora não tinha nenhum ambiente
si só já às tinha excluído, ou aberto
adequado para realizar seu trabalho a não ser
precedentes para uma nova modalidade de
os rios, igarapés e trapiches improvisados, a
trabalho.
partir daí passa e a ter um endereço.

2.2 HISTÓRIA DAS LAVANDERIAS


3 PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS
COMUNITÁRIAS EM RIO BRANCO/AC
O presente trabalho trata-se de uma pesquisa
Em 30 de Julho de 1990, na gestão do
bibliográfica e um estudo de campo, pela
Prefeito Jorge Kalume, foram inauguradas as
coleta de dados através de entrevista,
Lavanderias Comunitárias: Maria Barbosa do
questionário semiestruturado. O enfoque que
Nascimento, localizada na rua Nossa Senhora
conectará as teorias abordadas é qualitativo,
da Conceição no bairro Cidade Nova. E a
tendo em vista as próprias qualificações do
Lavanderia Comunitária Maria Julia da
objetivo que se pretende atingir, qual seja:
conceição, está localizada na rua Luiz Galvez,
identificar as relações interpessoais,
conjunto, Novo Horizonte Bairro Sobral.
econômicas e trabalhistas de lavanderias
Essas lavanderias representavam uma comunitárias em Rio Branco – AC, como
alternativa de trabalho para as mulheres de alternativa de trabalho para mulheres com
baixa renda, vindas geralmente dos seringais, vulnerabilidade econômica.
desprovidas de qualquer capacitação para o
Creswell (2010) destaca que na pesquisa
mercado de trabalho. Sem nenhuma
qualitativa os dados de documentos podem
qualificação educacional e profissional,
ser abundantemente utilizados e recomenda
disponibilizando apenas a sua força de
que em uma pesquisa qualitativa a questão
trabalho.
de pesquisa assume duas formas, uma
Com a mudança de Prefeito, essas questão central e as subquestões.
Lavanderias ficaram esquecidas por mais de
uma década, as lavadeiras relatam que a falta

Administração Rural - Volume 1


44

Diante disto, a presente investigação Cidade Nova e cinco na Lavanderia Maria


classifica-se como sendo um estudo com Júlia da Conceição no bairro Novo Horizonte.
abordagem qualitativa.
A opção pela abordagem qualitativa de
4 DOS RESULTADOS: PERFIL
pesquisa deve-se preponderantemente à
SOCIOECONOMICO DAS LAVADEIRAS
concepção filosófica que se adotou nesta
investigação. Levando-se em consideração a Com base na pesquisa feita com as
concepção pragmática, pode-se lavadeiras das lavanderias comunitárias de
compreender a adoção desta. Rio Branco, muitas delas vindas para Rio
Branco com seus pais nessa época. As
Segundo Creswell (2010) essa concepção é
lavadeiras com mais de 50 anos relatam que
também chamada de paradigma, lembrando
seus pais eram Seringueiros, suas mães,
ainda que o pesquisador na concepção
eram ajudadoras nos seringais, e
pragmática, centra-se no problema de
responsáveis pela casa e filhos, essas
investigação. Permitindo-se utilizar diversas
mulheres vindas juntamente com as suas
abordagens metodológicas desde que sejam
famílias dos Seringais, para Rio Branco, em
úteis para se trabalhar o problema de
busca de melhores condições, porém, sem
investigação, permanecendo-se livres para
nenhum tipo de preparo profissional, ou
optar pelos métodos e estratégias de
amparo de políticas por parte do Estado.
pesquisa que melhor se adequem aos seus
propósitos de pesquisa. No estado do acre o êxodo populacional teve
incentivo do governador acreano Francisco
Nessa pesquisa, torna-se necessária a
Wanderlei Dantas, afinado com as diretrizes
abordagem de método qualitativo, sobretudo,
de modernização do governo federal,
em virtude da intenção em descobrir a
facilitando a compra das terras vendidas por
existência de coisas novas no ramo de
seringalistas falidos, querendo incentivar a
estudo. Os instrumentos de pesquisas
agropecuária no estado. Esses incentivos
quantitativos, embora sejam úteis para testar
buscavam o crescimento econômico, no
as teorias de análise, não conseguiriam ou
entanto uma parte significante dos povos
permitiriam a descoberta de novos
acreanos não se enquadravam nessa nova
conhecimentos como os métodos qualitativos
política econômica.
propiciam.
Mais de dois terços das terras acreanas foram
Assim, o instrumento de coletas de dados
ocupadas, resultando na expulsão de mais de
qualitativo aparece como uma possibilidade.
40 mil seringueiros, posseiros, e índios para
Somando-se a esta constatação, nota-se que
Rio Branco e outras cidades do estado. Com
a coleta de dados qualitativos ocorreu
essa migração gerada pelo poder do
dispensando grandes custos e tempo
capitalismo, houve mudanças não somente
adicionais. Por outro lado, reconhece-se que
geográfica, mas também nas relações
a análise de tais dados exigirá tempo
interpessoais, no modo de vida dessas
adicional.
pessoas, nas relações familiares e
Como estratégias para a análise dos dados trabalhistas.
coletados e construção dos resultados,
A síntese da metodologia é apresentada na
adotou-se a seguinte técnica de análise:
figura nº. 01, refere-se a divisão de faixa etária
Análise do discurso.
de idade, renda e escolaridade das senhoras
A análise do discurso foi empregada para lavadeiras das duas lavanderias.
observar os argumentos e posicionamentos
Na Lavanderia Maria Barbosa do Nascimento,
dos entrevistados. Com isto, analisou-se as
podemos identificar pela letra “X” com idade
entrevistas por meio da identificação de
acima de 40 anos três lavadeiras, a letras “Y”
passagens e de partes importantes destas
idade de 30 a 40 anos duas e pela letra “J”
entrevistas, incluindo-as em categorias.
também duas entre 25 a 30 anos. Na
A pesquisa foi aplicada em duas lavanderias Lavanderia Maria Júlia da Conceição, as
comunitárias de Rio Branco, entrevistando lavadeiras foram identificadas: duas com
doze lavadeiras: sete na Lavanderia Maria idade acima de 40 anos letra “A”, duas na
Barbosa do Nascimento, localizada no bairro faixa etária de 30 a 40, letra “B” e uma de 28
anos letra “C”.

Administração Rural - Volume 1


45

Figura 1 - Abordagens para a análise e coleta de dados, lavadeiras entrevistadas

Fonte: elaboração dos autores, a figura da máquina de lavar foi retirada do domínio
público da rede mundial de computares, 2017.

Ainda que apresentada de forma sintética a regulamenta o funcionamento, as relações


metodologia desse trabalho pode-se verificar comerciais com os clientes e as relações
a essência do conteúdo pela análise do interpessoais entre as integrantes do grupo.
discurso nas entrevistas realizadas com as
Com base em relatórios da Prefeitura
senhoras das duas lavanderias.
Municipal de Rio Branco, em julho de 2008
Com os dados aplicados na entrevista com as houve a reforma da Lavanderia Maria Barbosa
doze lavadeiras obteve-se o seguinte do Nascimento, e em Agosto de 2010 a da
resultado: Lavanderia Maria Julia da Conceição,
instalando encanação, bem como
infraestrutura de agua e esgoto, além de
4.1 FUNCIONAMENTO E INVESTIMENTOS instalação de máquinas industriais.
DAS LAVANDERIAS
No entanto em um mundo cada vez mais
A idade predominante das duas lavanderias e competitivo, tanto a modernização ou
na faixa etária de acima de 40 anos, com expansão das atividades existentes quanto ao
escolaridade, analfabetas e desenvolvimento de novas atividades tem
semialfabetizadas, observa-se também que como pré–requisito a implementação, privada
as lavadeiras de faixa etária de 25 a 30 anos e pública. (DINIZ, SANTOS e CROCCO, 2007,
estão presentes nas duas lavanderias, com p. 94).
escolaridade de ensino fundamental e médio.
O espaço de trabalho continua sendo dá da
A omissão de renda, deve-se a falta de Prefeitura Municipal de Rio Branco, assim
instrução, controle e da necessidade de como a responsabilidade da água e luz do
utilização do valor recebido para suprir suas local, a Prefeitura em decorrência de muitos
necessidades imediatas. Já nos últimos dez furtos no local também disponibiliza 4 vigias,
anos esse controle se dá pela coordenação dois para cada lavanderia, a fim de garantir a
das lavanderias. segurança do local no período noturno, o
espaço é de uso coletivo, tendo a capacidade
A Prefeitura de Rio Branco, através da
receber 16 lavadeiras em cada lavanderia. A
Coordenadoria Municipal do Trabalho e
lavanderia possui uma pequena recepção,
Economia Solidária (COMTES), vem desde
uma copa, área de utilização das máquinas
2005, realizando o acompanhamento das
industriais, área de ocupação das pias
lavadeiras, através da implantação de um
tanquinhos e centrífugas, espaço para passar
conjunto de ações, visando a organização
as roupas e um banheiro.
administrativa das lavanderias, por meio da
elaboração de um regimento interno, o qual

Administração Rural - Volume 1


46

Para ingressar na lavanderia, é feito um O compartilhamento dos mesmos valores


cadastro pela COMTES, atual responsável culturais, mesmas rotinas, mesmas
pelo acompanhamento das lavanderias. organizações, mesma comunidade, mesma
vida social geram uma atmosfera de relações
O uso dos equipamentos (lavadora industrial
sociais e um conjunto de conhecimentos
e secadora) é feito de modo coletivo, todas as
tácitos que não podem ser transferidos por
lavadeiras, tem acesso, respeitando uma
códigos formais. O compartilhamento e a
rotatividade de uso entre elas, já os demais
absorção desses exigem um contato face a
equipamentos como tanquinho e centrifuga,
face, só possível através da proximidade. A
cada lavadeira é responsável pela compra e
interação local gera externalidades,
manutenção, sendo de uso particular. A
realimenta os fluxos de conhecimento,
limpeza do local é feita pelas lavadeiras,
aprendizado e inovação, reduz os custos de
obedecendo uma escala acordada pelas
circulação e coleta de informações, socializa
mesmas. A maioria das lavadeiras fazem suas
o aprendizado, a cooperação, a socialização
principais refeições como café da manhã e
dos riscos, o contato face a face (RALLET e
almoço na lavanderia neste caso a compra de
TORRE, 1999) tradução nossa.
gás, água, copos descartáveis, material de
limpeza, e alimento perecível para consumo, Em julho deste ano, a Lavanderia Comunitária
também é de responsabilidade das Maria Julia da Conceição foi revitalizada, o
lavadeiras. espaço comunitário ganhou uma secadora
indústria que tem capacidade para secar 50
As embalagens descartáveis dos materiais
kg de roupas.
industriais utilizados nas lavagens de roupas
são armazenados em sacos apropriados de As lavanderias contam hoje com 23 mulheres
lixo, e levados pela coleta de lixo. cadastradas pela Coordenadoria do Trabalho
e Economia Solidária, (COMTES), sendo que
Na reforma de 2008 as lavanderias foram
16 delas estão cadastradas na lavanderia
equipadas com maquinário industrial. A
Maria Barbosa do Nascimento, bairro Cidade
Lavanderia Maria Barbosa do nascimento no
Nova e 07 lavadeiras na lavanderia Maria
bairro Cidade Nova recebeu os seguintes
Julia da Conceição, bairro Novo Horizonte.
equipamentos:
Foi criado pela Coordenadoria Municipal do
 01 Lavadora de roupas industrial, 06
Trabalho e Economia Solidaria, (COMTES),
ferros industriais e 06 mesas de passar.
atual responsável pelas lavanderias
 01 secadora de roupas industrial com comunitárias, um Regimento Interno para as
capacidade de lavagem de 50 kl. A lavanderias, afim de estabelecer regras e
Lavanderia Maia Julia Barbosa no bairro novo ordem para manter o bom funcionamento das
horizonte recebeu: lavanderias. O que antes era apenas um
espaço público aberto para qualquer pessoa
 01 Lavadora de roupas industrial, 06
que tivesse interesse em lavar roupa, agora
ferros industriais no valor e 06 mesas de
nesse espaço existe um controle com regras
passar roupa.
que segue um modo de comportamento
Esses recursos foram adquiridos para dá estabelecido pela Prefeitura de Rio Branco,
melhores condições de trabalho para as com base nos princípios da economia
lavadeiras, no entanto alguns equipamentos, solidária, no que se diz no regimento interno
com mesas e ferro de passar não foram muito “Com base em outros princípios em que o
bem aceitos pelas lavadeiras de ambas objetivo não é simplesmente o lucro, mas,
lavanderias, elas acham a mesa muito alta e o acima de tudo resgatar a autoestima dos
ferro muito pesado, preferindo utilizar a participantes, o desejo de viver,
própria mesa e seu próprio ferro de passar. proporcionando a inserção social e
econômica no seio da sociedade”.
Inovação não é somente tecnologia de ponta,
é considerada também, reorganização no Neste regimento estão estabelecidas regras
conceito de empreender, e busca constante entre elas algumas como: Horário de
em capacitação. Neste sentido podemos nos funcionamento; Escala de limpeza para as
perguntar, quais são os critérios avaliados lavadeiras, Eleição de uma representante
para compra de equipamentos, já que alguns para representar a classe de lavadeiras junto
dele não atendem de fato a necessidade a Prefeitura, importante dizer que a
dessa classe trabalhadora. representante, segundo o regimento vai
trabalhar em parceria com a Prefeitura

Administração Rural - Volume 1


47

Municipal de Rio Branco; Criação de um de 1994, aos 41 anos de idade. Seu marido
conselho; Advertência pela COMTES em caso não tinha trabalho fixo. Ela conta que, a base
de: discussão entre integrantes da lavanderia, da economia de casa vinha das suas
discussão na frente de cliente, falta lavagens de roupa, e a oportunidade que
injustificada ao serviço, descumprimento de encontro para manter economicamente sua
regras de boa convivência e manutenção da família foi a lavanderia comunitária. Hoje aos
lavanderia como limpeza do prédio, luta 62 anos de idade ainda lava roupa, conta que
corporal ente membros da lavanderia. pretende parar de trabalhar, que ainda não
parou porque o único benefício que recebe é
As lavanderias possuem uma tabela de preço
um auxílio doença por consequência de uma
padrão para as duas lavanderias,
gastrite, no entanto, mesmo já cansada ainda
estabelecida pelas lavadeiras, a tabela de
enfrenta o trabalho como lavadeira
preço fica no mural na recepção da
diariamente.
lavanderia para que os clientes possam ver e
comparar preços. Roupas mensais tem valor A outra lavadeira, nascida em 14 de janeiro
diferenciados. de 1959, estudou até a quarta série do ensino
fundamental, seu pai era soldado da
A partir daí percebemos que a estrutura
borracha. Teve três filhos entrou na lavanderia
administrativa das lavanderias comunitárias,
em maio de 1994, aos 35 anos de idade. Seu
começam a mudar, o que antes era apenas
marido trabalha até hoje como pintor. Ela
um espaço de trabalho para lavadeiras, agora
conta que antes de ser lavadeira trabalhava
existem regras, embasadas em um regimento
como feirante nas feiras de Rio Branco.
interno e uma ideologia nos princípios da
Abandonou o trabalho de feirante para ser
economia solidária.
lavadeira, porque podia levar seus filhos que
ainda era pequeno para lavanderia. Hoje aos
57 anos de idade ainda trabalha como
5 ANÁLISE DOS RESULTADOS
lavadeira. Ela relata que deu a seus, filho
Ao longo de duas décadas é possível aquilo que ela não teve, trabalhou muito para
perceber no perfil social e econômico das que eles pudessem ir à escola. Fala que uma
lavadeiras, algumas mudanças, nas relações de suas filhas também é lavadeira, porém não
sociais, na forma de vida cotidiana e maneira quer que a filha permaneça na lavanderia,
de pensar. No primeiro momento foi-se que diferente dela a filha tem estudo, e tem a
avaliado, o perfil das lavadeiras da capacidade de ter um emprego que possa
ingressada na década de 1990, na garantir um melhor futuro, e que possa
continuidade as lavadeiras remanescentes a garantir uma aposentadoria.
partir dessa década, equivale lembrar que
Nas lavanderias temos 06 lavadeiras que
temos nas lavanderias mulheres que estão
ingressaram na década de 1990. 04 delas
desde a primeira inauguração até os dias de
sabem ler, e duas não sabem ler nem
hoje.
escrever.
Podemos dizer que nas Lavanderias
Estado civil: 03 delas são casadas, 02 viúvas
Comunitárias passou duas gerações, a
e 01 separada. Essas mulheres nunca tinham
primeira geração, na década de 1990, era
tido nenhum contato com o mercado de
composta por mulheres, em faixa etária de 25
trabalho, não buscarão outra modalidade de
a 45 anos, em sua grande maioria vinda dos
trabalho, continuando como lavadeiras até os
seringais, semianalfabetas, tinham em média
dias de hoje. Nenhuma delas contribui com a
de quatro a seis filhos, não tinham outra
previdência social. Situação que preocupa
opção de trabalho a não ser doméstica ou
principalmente as lavadeiras de mais idade,
lavadeira.
pois sabem que não poderão receber
Conforme a pesquisa realizada na Lavanderia aposentadoria.
Comunitária: Maria Julia da Conceição foi
As lavadeiras mais novas têm outro perfil. A
possível conversar com duas lavadeiras que
faixa etária dessas mulheres é de 18 a 40
ingressaram na lavanderia na década de
anos; 05 delas tem o ensino médio completo,
1990, e permaneceram até os dias de hoje.
03 delas estão estudando, as demais não
Uma, nascida em 18 de novembro de 1953,
estudam. 02 delas faz cursos técnicos, 01
estudou até a segunda série do ensino
delas trabalha meio período na lavanderia e
fundamental, seu pai era seringueiro. Ela teve
no outro trabalha como auxiliar de limpeza em
quatro filhos, entrou na lavanderia em janeiro
um Hospital da rede pública.

Administração Rural - Volume 1


48

Todas elas são mães de família (são juntas As primeiras lavadeiras eram
com seus maridos). Essas têm em média de semianalfabetas, tinham a lavanderia como
um a três filhos, tendo em comum com as grande oportunidade de trabalho, gastaram
lavadeiras da década de 1990 apenas a todo o seu tempo e força como lavadeira,
profissão que exerciam antes de serem muitas delas hoje muitas delas apresentam
lavadeiras, que era o trabalho como problemas de saúde, como reumatismo,
doméstica, porém afirmam deixar o trabalho problemas de coluna, deformação das unhas,
de doméstica, pelo fato de estar presa a um e problemas de pele, decorrente a grande
horário de trabalho, de não ter perspectiva de exposição a frieza, pois passam praticamente
aumento de salarial, e a irregularidade o dia todo molhadas e também no sol.
trabalhista, em sua grande maioria os patrões
Na década de 1990, as lavanderias contavam
não queriam assinar suas carteiras de
com o apoio da prefeitura Municipal de Rio
trabalho. Nenhuma delas contribui com a
Branco, em relação ao espaço construído, a
previdência social. Percebeu-se na fala das
água e a energia, as regras nesse ambiente
lavadeiras o orgulho, quando elas afirmam
de trabalho era regida pelas próprias
que trabalham para elas mesmas, sem terem
trabalhadoras, assim como negociação
patrão.
valores de lavagem, e regras de
Foi possível observar também dentro das funcionamento, as regras estabelecidas era
lavanderias, o grau de parentescos entre elas, na ordem pessoal.
sendo que muitas dessas mulheres que lavam
Nesta segunda fase as lavanderias passam
roupas hoje são filhas de lavadeiras que
por várias mudanças administrativas,
ingressaram na lavanderia na década de
baseadas em leis, estatutos, incorporando
1990.
uma nova filosofia de trabalho, segundo
Há uma relação familiar dentro do âmbito de Weber (2003) a dominação de caráter
trabalho das lavanderias. A maioria dessas racional ou legal:
mulheres ingressaram na lavanderia por
Toda dominação organizada que pretende
intermédio do chamado de uma parente, que
manter certa continuidade administrativa
lhe apresentou as lavanderias. Essa relação
requer uma conduta humana direcionada à
nem sempre é harmônica, sendo que em
obediência aqueles que pretendem ser
alguns casos os conflitos entre parentes se
depositários do poder legitimo. Por outro lado,
tornam ainda maior.
em virtude desse tipo de obediência, a
Segundo o relatório de gestão da dominação organizada pressupõe o controle
Coordenadoria Municipal do Trabalho e daqueles recursos materiais necessários em
Economia Solidária, do ano de 2016 a caso de utilização da violência física.
lavanderia Maria Julia da Conceição, que Portanto, a dominação organizada requer um
conta hoje com 7 lavadeiras fixas as quais controle do pessoal burocrático e da
são responsáveis pelo sustento das famílias existência de instrumentos materiais de
das mesmas. A família beneficiada dessa administração (WEBER, 2003, p.14).
lavanderia gerou em média um volume de
Como vimos nos capítulos anteriores, as
entrada de R$ 16.800,00 (dezesseis mil e
lavanderias comunitárias nasceram em
oitocentos reais), com divisão igualitária para
consequência da necessidade
as famílias. Já a Lavanderia Maria Barbosa do
socioeconômica iniciada na década de 1970,
Nascimento que conta hoje com 16 lavadeiras
tentando das respostas ao desemprego em
fixas, gerou em média um volume de entrada
1990, e em 2005 constrói sua forma social
de R$ 38.400,00 (quarenta e oito mil e
alternativa, pautada no sistema administrativo.
quatrocentos reais), com divisão igualitária
Segundo Harvey, 2011, “As tendências de
para as famílias.
crises no capitalismo não resolvidas e sim,
A maneira de pensar dessas lavadeiras, ao contornadas”.
longo do tempo também mudou, as novas
A economia solidária é, então, vislumbrada
lavadeiras, estão nas lavanderias mas não
como a formação de um novo modo de
querem permanecer lá, elas dizem que estão
produção socialista, mas um tanto diferente
lá por questões financeiras, porém encaram o
do socialismo real que vigorou até agora.
trabalho de lavadeira como um trabalho
Para Singer, é preciso admitir que é
alternativo.
necessário conservar o mercado,
regularizado e dirigido por entidades extra

Administração Rural - Volume 1


49

mercado, isso depende da radicalização da trabalhista trazidas pelo sistema econômico


experiência democrática. (LECHAT, 2004, p. capitalista.
215).
Na segunda parte descreveu-se a história das
Nesse sentido, é preciso um Lavanderias Comunitárias, apontando a
comprometimento dos gestores, que vai além necessidade econômica da década de 1990,
das questões eleitorais, na busca de e o fortalecimento da classe de lavadeiras.
implementação de Políticas Públicas que Procurou-se mostrar as mudanças no espaço
fomentem uma economia de emancipação físico das lavanderias e gestão. Foram
social. Levando em consideração a história e apresentados dados socioeconômicos das
cultura de cada território, baseado no lavadeiras, e mudanças nas concepções
conhecimento e na aprendizagem. metais das lavadeiras da década de 1990 até
o ano de 2016.
A pretensão deste trabalho foi mostrar as
6 CONSIDERAÇÕES FINAIS
consequências de uma política top-down, que
Esse estudo enfocou as lavanderias não levam em consideração a história e
comunitárias de Rio Branco, sua forma de cultura de um povo. Consequências estas
trabalho, como políticas públicas, para que trazem marcas por longos anos, e que
mulheres de baixa renda, buscando entender acarretam prejuízos na esfera social e
na história e na cultura, as relações sociais e econômica da sociedade. Também chamar
econômicas e políticas. atenção para gestão das políticas públicas,
que mais do que nunca precisam ser
Na primeira parte desse projeto procurou-se
fortalecidas, para valorizar a geração de
chamar atenção, para a influencias das
emprego e renda para mulheres de baixa
tradições e culturas do Estado do Acre, nas
renda. Principalmente nos dias atuais, haja
relações entre gêneros, que implicam na
visto a crise econômica que se instala no
relação de trabalho. Culturas e tradições, que
país.
foram se perdendo com a força das
mudanças nas relações sociais, familiar e

REFERÊNCIAS
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métodos qualitativo, quantitativo e misto. 2. ed. BRANCO. Coordenadoria do Trabalho e Economia
Porto Alegre: Bookman, 2010. Solidaria. Relatório de Gestão das lavanderias
comunitárias 2016. Rio Branco. 2016.
[2]. DINIZ, Clélio; CROCCO, Marcos.
Economia Regional e Urbana Contribuições [10]. RALLET, Alain e TORRE, André. (1999) Is
teóricas recentes. Belo Horizonte: UFMG, 2006. geographical proximity necessary in the innovation
networks in the era of global economy, GeoJournal,
[3]. GÓIS, C. W. L. Psicologia Comunitária:
49, 373-380.
atividade e vivência. Fortaleza: Publicações
Instituto Paulo Freire de Estudos Psicossociais, [11]. VIEIRA, E. M.; XIMENES, V. M. Atividade
2005. Comunitária e Conscientização: Uma Investigação
a Partir da Participação Social. Barbarói, Santa
[4]. HARVEY, David. O Enigma do Capital: e
Cruz do Sul, n.36, p.91-112, jan./jun. 2012.
as crises do capitalismo. Tradução de João
Alexandre Peschanski. São Paulo: Boitempo, 2011. [12]. VIEIRA, E. M.; XIMENES, V. M.
Conscientização: em que interessa este conceito à
[5]. LECHAT, Noelle Marie Paule. Trajetórias
Psicologia? Psicologia Argumento. v. 26, n. 52,
intelectuais e o campo da Economia Solidária no
2008a, p. 23-33.
Brasil. Tese de Doutorado. Campinas, 2004.
[13]. WEBER, Max. Economia e Sociedade:
[6]. LURIA, A. Desenvolvimento Cognitivo. São
Fundamentos da Sociologia Compreensiva. 3º
Paulo: Ícone, 2005.
edição. Tradução de Regis Barbosa e Karen
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da Floresta do Alto Juruá: Cultura e Cidadania na
[14]. . Economia e sociedade: Fundamentos da
Amazônia. 2º edição. Rio Branco: Edufac, 2007.
Sociologia Compreensiva. Tradução de Regis
[8]. PREFEITURA MUNICIPAL DE RIO Barbosa e Karen Elsabe Barbosa; Brasília, UNB,
BRANCO. Coordenadoria do Trabalho e Economia 1999.
Solidaria. Relatório anual das lavanderias
[15]. . A Política como Vocação. Brasília: Ed.
comunitárias 2011. Rio Branco. 2011.
UNB, 2003.

Administração Rural - Volume 1


50

Capítulo 4

Meyrianny Santana Reis


Elane Conceição de Oliveira
Neuler André Soares de Almeida

Resumo: A região Amazônica em especial a Amazônia Ocidental que possui quatro


estados a saber Amazonas, Acre, Rondônia e Roraima, têm sido motivos de
preocupação por parte do governo brasileiro que sofre pressão internacional em
virtude do crescente desmatamento da floresta e da adoção de politicas de
desenvolvimento voltadas para a exploração intensiva da terra e orientação de sua
produção para o mercado externo. Diante do exposto este estudo em questão se
propôs a analisar quais as variáveis que influenciam o aumento da taxa de
desmatamento de forma mais específica medir o grau de influência das variáveis
PIB per capita; Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) e produção de gado
sobre as taxas de desmatamento na região. Adotou-se o modelo de regressão com
dados em corte transversal utilizando o método dos Mínimos Quadrados Ordinários
(MQO). Os resultados mostram que a variável IDH foi a mais significativa sendo que
uma variação de 1% desta variável impacta a taxa de desmatamento nos
municípios da Amazônia Ocidental em 2,27%. Conclui-se que o modelo corrobora o
resultado de outros estudos, porém a análise carece de mais variáveis e a
utilização de outros modelos, mais dinâmicas com um período maior tempo.

Palavras-chave: Amazônia ocidental; Corte transversal; Desmatamento; Regressão;


Floresta

Administração Rural - Volume 1


51

1 INTRODUÇÃO orientada para estabelecer “polos de


desenvolvimento” e grupos de populações
As estratégias geopolíticas de ocupação,
estáveis e autossuficientes; além de objetivar
integração e segurança da Amazônia
estimular a migração, proporcionar incentivos
culminaram em uma série de políticas
ao capital privado, desenvolver a
públicas para o desenvolvimento da região
infraestrutura e pesquisar o potencial de
nos moldes do modelo capitalista. No entanto,
recursos naturais (MAHAR, 1978, p. 21-22).
as primeiras tentativas abrangentes de
Sem embargos, a gênese dessa política
planejamento socioeconômico para a região
adotada pelo governo federal para a região
começaram apenas na década de 1950,
estava ancorada na teoria da polarização
intensificando-se, nas décadas de 1960 e
econômica de Perroux, de 1960. Benchimol
1970, o processo de desenvolvimento e
(1977, p. 469) relata que a noção de espaço
ocupação como meta de alta prioridade para
econômico exposta por Perroux, na França,
o país (MAHAR, 1978, p.3).
trouxe uma nova contribuição para a
Assim, com o novo governo estabelecido em economia; permitindo a Perroux, com base na
1964, o planejamento do desenvolvimento segunda noção de espaço econômico
para a Amazônia começou a tomar novo rumo (campo de atuação de forças), formular sua
por meio de uma maior eficiência no teoria de pólos de crescimento , em torno dos
mecanismo de planejamento regional e um quais surgem os centros dinâmicos de uma
papel mais importante da iniciativa privada economia.
(MAHAR, 1978, p. 21), sendo nas décadas de
Para Ianni (1986, p. 60-61), essas
1960 e 1970 que o Governo Federal apoiou
transformações decorrentes da Operação
intensamente o desenvolvimento capitalista
Amazônia se intensificaram na região com a
na Amazônia, acentuando assim as
criação (a) da Superintendência de
transformações econômicas e sociais na
Desenvolvimento da Amazônia (SUDAM), em
região (IANNI, 1986, p. 55). Principalmente
1966, cujo objetivo era atrair investidores
nos anos de 1964 a 1978, o que ocorreu na
privados, nacionais e estrangeiros e
Amazônia foi um desenvolvimento extensivo
dinamizar os setores agrícolas, pecuários,
do capitalismo. Isto é, no extrativismo, na
minerais e a indústria na região; (b) do Banco
agricultura e na pecuária, desenvolveram-se
da Amazônia (BASA), no mesmo ano de 1966
as relações capitalistas de produção,
e (c) da Superintendência da Zona Franca de
juntamente com as forças produtivas,
Manaus (SUFRAMA), em 1967, responsável
esclarece Ianni (1986).
pelos incentivos fiscais da Zona Franca de
O mesmo autor relata ainda que além do Manaus (ZFM).
desenvolvimento extensivo e intensivo do
Esta última foi criada pela Lei nº 3.173/57,
capitalismo na Amazônia ter sido dinamizado
durante o governo desenvolvimentista de
nos moldes do modelo de “economia aberta”
Juscelino Kubitschek; alterada, após 10 anos,
adotado pela ditadura militar, a economia
pelo Decreto-Lei nº 288/67; e, regulamentada
Amazônica ingressou na etapa da grande
pelo Decreto nº 61.244/67. A ZFM é
empresa privada, nacional e estrangeira. Isso
disciplinada como uma área de livre comércio
não significa que antes de 1964 as atividades
de importação e exportação e de incentivos
econômicas da região não estivessem
fiscais especiais, destinada a criar no interior
articuladas, em maior ou menor grau, com o
da Amazônia um centro industrial, comercial e
mercado nacional e estrangeiro. O fato é que
agropecuário, dotado de condições
tanto a Superintendência do Plano de
econômicas para promover o
Valorização Econômica da Amazônia
desenvolvimento regional. Mas, sem
(SPVEA), criada em 1953, quanto o Banco de
desmerecer a forte influência da teoria de
Crédito da Amazônia, que vinha do Banco da
Perroux na constituição dessa política, o
Borracha, não exerceram influências notáveis
grande argumento para sua
nas atividades econômicas da região; em
institucionalização, esclarece Benchimol
geral, até 1964, o máximo que se fez foi
(1977, p. 741), foi de caráter geopolítico,
preservar as atividades produtivas
dentro de uma estratégia de segurança e
predominantes, como o extrativismo da
desenvolvimento: criar no centro da Amazônia
borracha, relata Ianni.
um polo dinâmico comercial, industrial,
Surge então a “Operação Amazônia”, cuja agrícola e de serviços para servir de apoio
pedra angular foi a Lei nº. 5.173/1966. A logístico à ocupação do mediterrâneo e do
futura política regional traçada pela Lei seria grande arco de fronteira cisandina e

Administração Rural - Volume 1


52

subguiana, em equivalência à ação coadunadas com as estratégias geopolíticas


observada nas outras amazônias não do modelo capitalista de produção foram o
brasileiras. carro chefe para o processo de ocupação,
integração e desenvolvimento da região.
O chegar o “milagre brasileiro”, década de
Supõe-se que a verdadeira intenção de tornar
1970, esse período foi marcado pela
a região de fronteira capitalista de recursos
agressiva política econômica do I Plano
em uma região produtiva era modernizar a
Nacional de Desenvolvimento (I PND)
economia primária exportadora, de modo a
direcionada, em geral, para o crescimento
aumentar a sua capacidade para produzir
econômico do País e, em especial, para o
para os mercados internos e externos.
processo de integração da Amazônia. O
objetivo da atuação do Governo Federal na Uma das consequências disso foi a mudança
região era realizar a “integração nacional” no uso e ocupação do solo seguida de perda
através do ambicioso programa de de biodiversidade em regiões florestais, entre
construção rodoviária, em conjunto com as quais, a floresta amazônica. Segundo
assentamentos rurais ao longo das vias Fearnside (2003, p. 45), o uso da terra e a
principais. Esse processo de integração e mudança do uso da terra na Amazônia
ocupação da região foi ancorado no PIN contribuem para mudanças climáticas globais
(Programa Nacional de Desenvolvimento – de diversas maneiras; no período de 1981-
1970), no PROTERRA (Programa de 1990, a emissão comprometida líquida
Redistribuição de Terras – 1971) e, globais de gases causadores do efeito estufa
posteriormente, no II PND e POLAMAZÔNIA na Amazônia brasileira somaram 6,6% da
(Programa de Polos Agropecuários e emissão total antropogênica global, incluindo
Agrominerais da Amazônia – 1974). Essas combustíveis fósseis e mudanças do uso da
políticas federais para a região reconheceram terra.
que a Amazônia não era uma região
Com relação às mudanças do uso da terra na
deprimida como o Nordeste, mas uma
região, Alencar et. al. (2004, p. 25) e Higuchi
potencial fronteira de recursos. As fronteiras
et al. (2009, p. 38) relatam que os principais
de recursos, de acordo com Becker (1982),
usos do solo amazônico são voltados para
são zonas de povoamento novo, em que o
agropecuária, produção de madeira,
território virgem é ocupado e tornado
produção de energia (hidrelétricas, petróleo e
produtivo, sendo caracterizada pela grande
gás natural) e exploração mineral; sendo que
distância dos centros de população,
estes diferentes usos de solo já provocaram
indicando que no passado não eram
desmatamento total na Amazônia Legal (até
consideradas excelentes para ocupação e
2007) de, aproximadamente, 70 milhões
cultivo. Becker explica ainda que por seu
hectares ou 697.838 km2, que correspondem
valor estratégico e pelo alto valor de seus
a 14,1% da cobertura florestal da região.
recursos naturais, a região é capaz de atrair
inovações e efeitos difusores do O desmatamento médio anual, segundo
desenvolvimento, tais como capital, Higuchi et. al. (2009, p. 39), de 1978 a 2007,
tecnologia, população – tanto de centros foi de 17.821 km2, ou seja, 1.782600
nacionais como de centros mundiais, hectares. A emissão anual de carbono
tornando-se verdadeiro campo de atração de (equivalente) desde 1978 é de 223 milhões de
forças externas. t C (78%) enquanto que a emissão brasileira
via queima de combustível fóssil em seu
Portanto, nessas décadas acentuaram-se as
primeiro inventário nacional de emissões foi
transformações econômicas e sociais na
de 64 milhões de t C (22%), explica o autor.
Amazônia. Segundo Mahar (1978), o que
ocorreu na Amazônia foi o desenvolvimento Acrescenta ainda Higuchi que a emissão total
extensivo e intensivo do capitalismo, sendo do Brasil pode ser estimada em 287 milhões t
dinamizadas relações capitalistas de C ou 1 milhão t CO2; esta emissão o coloca
produção no extrativismo, na agricultura e na em 5º lugar na lista dos maiores emissões do
pecuária nos moldes do modelo de mundo, perdendo apenas para China, EUA,
“economia aberta” adotada pela ditadura Índia, Rússia e Japão.
militar. O autor expõe que a economia
Mas, um dos grandes questionamentos que
Amazônica ingressou na etapa da grande
se levanta em relação a essa região é se de
empresa privada, nacional e estrangeira.
fato ela é fonte ou sumidouro de dióxido de
Logo, as políticas federais baseadas em um
carbono para atmosfera global (NOBRE,
modelo de economia dependente e
2001, p. 197-224). A questão é que esta

Administração Rural - Volume 1


53

importante indagação ainda permanece em Entretanto, Diniz expõe que, em relação às


aberto. Isto porque por muitas décadas, variáveis população, matrícula de crianças e
imaginou-se que a emissão devida aos PIB per capita, o efeito da causalidade foi
desmatamentos e queimadas de crescentes unidirecional no sentido das mesmas para o
áreas da floresta tropical inevitavelmente desmatamento, muito embora não exista um
significaria que a região deveria ser fonte de efeito do direcionamento do desmatamento
CO2 para a atmosfera. Mas já há evidências sobre o PIB per capita. De fato, o aumento do
científicas sobre o balanço de carbono da desmatamento pode não ser capaz de
floresta não perturbada tem mostrado que incentivar novos investimentos, capaz de
estas florestas tropicais podem estar manter o ritmo crescente da economia, a
acumulando carbono por fotossíntese mais do despeito de um efeito sobre a atividade
que perdendo por meio de respiração das agropecuária. Diniz conclui que o
plantas e decomposição da matéria orgânica, comportamento da variável PIM denota que
isto é, poderiam estar retirando este tem a influência de diminuir o
(sequestrando) carbono da atmosfera, explica desmatamento.
o autor.
Para tanto, o objetivo deste trabalho é realizar
Em contrapartida, estudos têm demonstrado uma análise com dados em painel (painel
que o Polo Industrial de Manaus (PIM) não é data) para verificar quais as variáveis mais
um fator que influencia no desmatamento do influenciam o desmatamento na Amazônia
Amazonas. Freitas e Nascimento (2009, p. Ocidental. E de forma mais específica medir o
114), ao realizarem uma análise de grau de influência das variáveis PIB per
correspondência do desmatamento no Estado capita; IDH e produção de gado sobre as
do Amazonas, identificou entre os resultados taxas de desmatamento na região.
que o desmatamento apresenta baixa relação
com o PIB per capita; e, todos os municípios,
com exceção de Manaus, com alto 1.2 A AMAZÔNIA OCIDENTAL: BREVE
desmatamento apresentam PIB per capita CONTEXTUALIZAÇÃO
baixo. Da mesma forma, Diniz e Oliveira
A Amazônia Ocidental localiza-se no centro
(2009, p. 115) realizaram um estudo que, na
geográfico da Amazônia, criada pelo Decreto
sua primeira etapa, ao testar a hipótese de
de Lei 356/68, é composta pelos estados do
causalidade de Granger entre o
Amazonas, Acre, Rondônia e Roraima. Ocupa
desmatamento e as principais variáveis que o
cerca de 2.194.599 km² e detém 42,97% da
explicam, observou que: há uma causalidade
extensão territorial da Amazônia Legal,
bi- direcional de Granger entre o
abrigando aproximadamente 57% das áreas
desmatamento e as variáveis, área ocupada,
de florestas da região, consolida-se como a
culturas permanentes e temporárias, rebanho
parte mais preservada da Amazônia.
bovino, educação de adultos e crédito
agrícola, ou seja, há um efeito dinâmico nas
duas direções.

Figura 1. Amazônia Ocidental

Fonte: www.ruralpecuaria.com.br (2018)

Administração Rural - Volume 1


54

O Amazonas se destaca como o maior Estado extrativistas, a introdução da pecuária e


do Brasil e sua capital Manaus tornou-se a 6º agricultura. A forma de ocupação do território
cidade mais rica do país. A base da e a organização de atividades econômicas no
economia do estado é o Polo Industrial de Acre não foram capazes de criar um modelo
Manaus (PIM), que abriga inúmeras empresas de desenvolvimento duradouro, apesar dos
nacionais e internacionais, gerando emprego, últimos dados evidenciarem o Acre como um
renda e arrecadação de tributos. Com dos estados que mais crescem em termos de
aproximadamente 600 indústrias, gera cerca PIB, apresenta um dos piores desempenhos
de meio milhão de empregos diretos e quando comparado aos demais estados do
indiretos. O PIM é o principal mecanismo de país juntamente com Roraima e Amapá.
atuação da Zona Franca de Manaus (ZFM),
Segundo dados do IBGE, o PIB estadual em
um modelo de desenvolvimento econômico
2015 foi de 13,6 bilhões, representando
que representa a mais importante política
0,23% do Produto Interno Bruto a preços
pública implementada pelo Governo na
correntes no Brasil, ocupando o 26º entre os
região. Teve seu início de fato, através do
maiores do país, estando a frente somente de
Decreto Lei 288 de 28 de fevereiro de 1967,
Roraima, que apresentou um PIB de 10,4
quando passa a conceder incentivos fiscais e
bilhões, representando 0,17% do PIB
extrafiscais às empresas interessadas em
brasileiro.
instalar-se na área de atuação da ZFM,
tornando-a atrativa para as grandes Rondônia é o 3º estado mais rico da região
indústrias. Dessa forma, o projeto entra norte, a economia do estado de Rondônia tem
definitivamente em funcionamento, tendo como principais atividades a agricultura,
como objetivo impulsionar o desenvolvimento a pecuária, a indústria alimentícia e o
da Amazônia Ocidental, uma região extrativismo vegetal. A expansão da fronteira
considerada extremamente estratégica. agrícola em Rondônia teve grande
importância para o desenvolvimento
Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e
agropecuário no estado, e
Estatística (IBGE), o Produto Interno Bruto
consequentemente, a destruição de grandes
(PIB) do Amazonas alcançou, em 2015,
áreas de floresta. O estado se destaca por ser
R$86,6 bilhões, o 15ª maior do país. A
grande exportador de carne bovina,
participação do Produto Interno Bruto a
possuindo ainda alta produtividade no setor
preços correntes do estado no Produto
agropecuário leiteiro nacional. De acordo com
Interno Bruto a preços correntes do Brasil foi
dados da Empresa Brasileira de Pesquisa
de 1,44%.
Agropecuária (Embrapa), de 2009, o estado
O Estado do Acre tem como uma das foi responsável pela produção anual de 747
principais atividade econômicas e modelo de milhões de litros de leite.
ocupação o extrativismo vegetal,
Em 2015, de acordo com o IBGE, o PIB do
especificamente a borracha, castanha e
estado foi de 36,56 bilhões.
madeira e, a partir da década de 70, com o
declínio da borracha e o agravamento da Representando 0,61% do PIB nacional a
situação econômica nas comunidades preços correntes.

Quadro 1. PIB Amazônia Legal – 2015

Participação no PIB
Estado PIB
brasileiro (%)

Amazonas 86.560.496 1,44

Acre 13.622.323 0,23

Rondônia 36.562.837 0,61

Roraima 10.354.355 0,17

Total 147.100.011 2,45

Fonte: Elaboração própria a partir dos dados do IBGE, 2015.

Administração Rural - Volume 1


55

1.3 A REGIÃO DA AMAZÔNIA OCIDENTAL E estados apresentaram aumento nas taxas de


O DESMATAMENTO ACUMULADO desmatamento. O estado que mais desmata
na taxa acumulada é Rondônia, juntamente
Os últimos dados referentes ao
com Pará e Mato grosso, os estados são
desmatamento acumulado na região
responsáveis por 75% do total desmatado em
amazônica publicadas pelo INPE, a partir do
números absolutos. Porém, o desmatamento
Projeto de Monitoramento do
nos estados do Acre e Amazonas
Desflorestamento da Amazônia Legal -
apresentaram taxas altas em relação ao
PRODES, foi da ordem de 777.170,6 km² até
período anterior, no Amazonas houve um
2016, um aumento de 29% em relação a
aumento de 54% enquanto o Acre apresentou
2015. Na Amazônia Ocidental, todos os
um aumento de 47%.

Quadro 2. Comparativo da taxa de desmatamento entre 2015 e 2016 nos estados da Amazônia
Ocidental
Estados PRODES 2015 (km2) PRODES 2016 (km2)
Acre 264 389
Amazonas 712 1099
Rondônia 1.030 1394
Roraima 156 209
Am. Ocidental 2.162 3091
Fonte: INPE – PRODES (2016)

O Sul do Amazonas, onde encontra-se o Arco Franca (Rivas et al. 2008). O Amazonas
do desmatamento, foi a região que teve a responsável por preservar 98% da floresta,
maior área desmatada no estado, de acordo destaca-se por desmatar 35% do total
com o Prodes 2016, com destaque para os observado no ano de 2016 (Gráfico 1). O
municípios de Lábrea, Boca do Acre, Apuí e avanço do Arco do desmatamento pelo sul do
Manicoré. E o sudeste do Acre, onde também Amazonas e sudeste do Acre torna-se
há o avanço da fronteira, passam há algumas preocupante a medida que põe em risco o
décadas por esse processo de modificação avanço obtido na redução do desmatamento
das suas paisagens devido, principalmente o entre 2005 e 2012.
avanço das atividades agropecuárias na
O desmatamento na Amazônia brasileira tem
região. O desmatamento e a queima da
como principais causas diretas a pecuária, a
vegetação por atividades humanas foram as
agricultura de larga escala e a agricultura de
grandes transformadoras das paisagens
corte e queima. Dessas causas, a expansão
acreanas e continuam a crescer muito nas
da pecuária bovina é a mais importante
últimas décadas (Silva e Ribeiro, 2004).
(Rivero et al, 2009). A criação bovina destaca-
O aumento na taxa de desmatamento no se como umas das principais formas de uso
Amazonas contrapõe pesquisadores da área do solo na região, tal fato evidencia-se no
ao afirmarem que a existência do Polo estado Rondônia, que possui o maior rebanho
Industrial de Manaus (PIM) é determinante da Amazônia Ocidental e consequentemente,
para a preservação no estado, ou seja, o apresenta as maiores taxas de desmatamento
custo ambiental em termos de desmatamento na região, sendo responsável por 45% do
seria menor em decorrência do Modelo Zona total desmatado.

Administração Rural - Volume 1


56

Gráfico 1. Participação por estado no total do desmatamento na Amazônia Ocidental

Fonte: INPE – PRODES (2016) – elaboração própria

A forte presença da bancada ruralista no Pearson (r). De acordo com a fórmula do


congresso também contribui para o avanço calculo do coeficiente de Person, se r é
do desmatamento, a exemplo da aprovação próximo de +1, dizemos que há correlação
do novo Código Florestal, que anistiou positiva, o que indica que os pontos estão
aqueles que desmataram ilegalmente até muito próximos da reta e/ou que as variáveis
2008. A dificuldade de fiscalização e caminham em um mesmo sentido. Se r é
fortalecimento das políticas de comando e próximo de -1, dizemos há entre as variáveis
controle diante do grande território em que a uma forte correlação linear negativa, o que
região se encontra dificulta a inibição do indica que os pontos também estão muito
desmatamento ilegal. próximos da reta, porém as variáveis
caminham em sentido oposto. Por fim se r se
Dentre as principais consequências do
aproxima de 0 (zero), dizemos que há entre
desmatamento na região está a perda de
as variáveis uma fraca correlação linear e se r
biodiversidade e processos de esgotamento
for igual a 0 (zero) dizemos que não existe
do solo, Segundo Fearnside (2003, p. 45), o
correlação linear.
uso da terra e a mudança do uso da terra na
Amazônia contribuem para mudanças
climáticas globais de diversas maneiras, em
2.2 O MODELO DE REGRESSÃO LINEAR
especial pelo aumento na emissão de gás
POR MÍNIMOS QUADRADOS ORDINÁRIOS
carbônico oriundos das queimadas, que
(MQO).
intensifica processos como o Efeito Estufa e
causa sérias mudanças nos regimes de O modelo de regressão linear assim como o
chuva. coeficiente linear, possui a preocupação de
medir o grau de associação entre as
variáveis, porém é uma técnica de análise
2 PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS mais robusta, já que, além de medir a inter-
relação entre as variáveis, também estima o
2.1 CORRELAÇÃO LINEAR
padrão de causalidade entre as mesmas.
O primeiro passo, em qualquer análise
O modelo de regressão linear tem como
empírica é a formulação cuidadosa da
exigência a determinação da forma funcional
questão de interesse, a qual pode ser a de
a qual pretende-se trabalhar a relação entre
testar efeitos de uma política governamental
as variáveis. Para este estudo, a escolha
ou, até mesmo, de testar hipóteses e teorias.
recaiu sobre o modelo log → log pela
Em sua maioria, tem-se como procedimento
facilidade de interpretação (em termos
inicial, testar o grau de correlação entre as
percentuais) e pelo melhor ajuste das
variáveis para verificar se existe alguma
variáveis.
relação forte ou fraca entre as mesmas. Para
tanto usa-se o calculo do coeficiente linear de

Administração Rural - Volume 1


57

No que tange o método dos Mínimos tal análise será utilizada o modelo proposto a
Quadrados Ordinários (MQO) optou-se por seguir:
esta técnica, visto que boa parte dos
ln(TXD)ij = α + β1ln(PPij) + β2 ln(IDHij) + β3
trabalhos na área de econometria, adotam
ln(GADij) + ε (1)
este modelo por ser mais prático e por
otimizar o ajuste do modelo através da Onde:
minimização da soma dos quadrados das
ln(TXD)ij = logaritmo natural da taxa de
diferenças entre o valor estimado e os dados
desmatamento do município (i) no Estado (j);
observados.
ln(PPij) = logaritmo natural do PIB per capta
do município (i) no Estado (j);
2.3 MODELO TEÓRICO DE ANÁLISE
ln(IDHij) = logaritmo natural do Índice de
Um conjunto de dados de corte transversal Desenvolvimento Humano do município (i) no
consiste em uma amostra de uma unidade de Estado (j);
análise, tomada em um determinado ponto no
ln(GADij) = logaritmo natural da produção de
tempo. Esses dados são muito utilizados em
gado do município (i) no Estado (j);
economia e por outras ciências como a
biologia e a medicina. Analisar dados em um α = coeficiente linear;
determinado ponto no tempo para testar e
ε = termo de erro estocástico.
avaliar politicas e/ou verificar o
comportamento de certas variáveis em um Na maioria dos casos, a análise econométrica
determinado momento no tempo. começa pela especificação de um modelo
econométrico, sem consideração de detalhes
Para tento, adotou-se a análise cross-section
da criação de um modelo econômico.
(dados em corte transversal), que consiste em
Entretanto, para este estudo em questão
mostrar uma “fotografia” do fenômeno
testamos a correlação entre as variáveis, PIB
estudado (o desmatamento) a partir de uma
per capita, Índice de Desenvolvimento
amostra de variáveis socioeconômicas
Humano (IDH) e produção de gado como
tomada em um determinado ponto no tempo.
variáveis explicativas do desmatamento na
Isto é relevante porque permitirá testar as
região Amazônica. O modelo de dados de
prováveis hipóteses causadoras do
corte transversal (croos section) foi preferível
desmatamento, em curso, na região da
em virtude da dificuldade de obtenção dos
Amazônia Ocidental. Para o presente estudo
dados e por dispor de menos rigor estatístico
pretende-se utilizar um modelo de regressão
que modelos mais robustos como o de dados
para estimar o comportamento da taxa de
em painel e série temporal. A seguir no
desmatamento em relação às variáveis
Quadro 1 as variáveis que pretende-se
selecionadas com a utilização do método de
trabalhar neste estudo.
MQO (Mínimos Quadrados Ordinários). Para

Quadro 3. Descrição das variáveis utilizadas.


Variável Descrição Sinal esperado Fonte

Taxa de Desmatamento Ln(TXD) - INPE(2016)

Produto Interno Bruto IBGE(2015)


Ln(PP) +
População IBGE(2015)
Índice de Desenvolvimento Humano Ln(IDH) + IBGE(2010)
Produção de Gado Ln(GAD) + IBGE(2016)
Fonte: elaboração própria.

Os dados da pesquisa são microdados compõem a região da Amazônia Ocidental:


secundários provenientes do Instituto Amazonas, Acre, Rondônia e Roraima.
Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), Também trabalhou-se com os dados de
Departamento de Contas Regionais. Os desmatamento do Sistema Prodes (INPE).
dados são relativos aos estados que

Administração Rural - Volume 1


58

3 RESULTADOS E DISCUSSÕES para as atividades econômicas na região


(REYDON, 1997) e, numa escala mais ampla,
Para alguns autores o desenvolvimento da
que propõem o zoneamento ecológico
Região Amazônica e a expansão de
econômico da região (HOMMA, 2006). Para
atividades produtivas e não sustentáveis
este estudo adotou-se a análise em corte
provocaram o desmatamento de sua floresta.
transversal para se obter uma fotografia do
Pode-se dizer que um dos trabalhos
momento do desmatamento na Amazônia
precursores e específico sobre o
Ocidental, através de modelagem
desmatamento é o de Tardin et al. (1979).
econométrica testando como variável
Após este trabalho, surgiram outros,
dependente as taxas de desmatamento de
indicando as razões para o desmatamento.
2016 e variáveis independente o PIB per
Embora alguns apontem enfaticamente para
capta (2015); Índice de Desenvolvimento
fatores específicos, como a construção e
Humano (IDH, 2010) e quantidade produzida
pavimentação de estradas ou outras
de cabeças de gado (2016) nos Estados do
melhorias em infraestrutura (LAURANCE et al.,
Amazonas, Acre, Rondônia e Roraima que
2004; SOARES FILHO et al., 2005;
compõem a Amazônia Ocidental.
WEINHOLD; REIS, 2003), o avanço da
pecuária (MARGULIS, 2003) para atender os Inicialmente testou-se o grau de correlação
mercados internacionais (KAIMOWITZ et al., entre as variáveis para analisar a relação
2004) e da soja (BRANDÃO; REZENDE; linear entre seus valores de forma que sempre
MARQUES, 2005; FEARNSIDE, 2006) ou até serão entre +1 e -1. O sinal indica a direção,
mesmo o crescimento populacional, pode-se se a correlação é positiva ou negativa, e o
constatar que todos estão plenamente tamanho da variável indica a força da
relacionados ao desmatamento. correlação (Tabela 1). Cabe observar que,
como o coeficiente é concebido a partir do
Diante de problemas que o desmatamento
ajuste linear, então a fórmula não contém
traz ao meio ambiente, surgem trabalhos que
informações do ajuste, ou seja, é composta
visam oferecer sustentabilidade ambiental
apenas dos dados.

Tabela 1. Resultados do teste de correlação de Pearson com variáveis em nível.


TXD PP IDH GAD
TXD 1
PP 0,3013 1
IDH 0,3438 0,6842 1
GAD 0,280 0,3118 0,3321 1
Fonte: elaborado a partir dos dados da pesquisa.

Inicialmente testou-se a correlação das referentes a estimação do modelo de corte


variáveis em nível. Podemos perceber que as transversal por MQO com variáveis em nível
variáveis apresentaram correlação linear (Tabela 1).
fraca. A seguir apresentaremos os dados

Tabela 2. Resultado da análise de regressão com dados em corte transversal e variáveis em nível.
TXD Coef. t p > │t│ Número de observações 151
PP 25,34366 0,91 37% f(3, 147) 8,94
IDH 5448,242 2,09 4% Prob. > f 0,0000
GAD 0,001785 2,18 3% R2 0,1544
- - - - R2 - Ajustado 0,1371
Fonte: elaborado a partir dos dados da pesquisa.

Administração Rural - Volume 1


59

O modelo adotado foi o de corte transversal No que tange as variáveis, podemos


(cross-section) para o ano de 2016 pois foi o evidenciar que apenas as variáveis Índice de
ano mais recente com dados de taxa de Desenvolvimento Humano (IDH) e produção
desmatamento para os Estados da Amazônia de gado (GAD) foram significativas a 4% e as
Ocidental. Podemos notar que utilizou 151 3%, a variável Pib per capta (PP) não foi
observações, a estatística F foi de 8,94 significativa. Diante do resultado apresentado,
superior a 5 e pelo teste F (prob. > f) logaritimizou-se as variáveis, e mais uma vez
rejeitamos estatisticamente a hipótese de que testou-se a correlação de Person. Os
todos os coeficientes são estatisticamente resultados do modelo estão apresentados na
iguais a 0 (zero) a 1% de significância. O Tabela 3 a seguir.
teste R2 mostra que 15,44% das variações
Os resultados da Tabela 3 mostram que as
da Taxa de Desmatamento (TXD) são
variáveis apresentaram novos resultados,
explicados pelas variáveis conjuntamente e o
sendo que a variável ln(GAD) apresentou
R2 – Ajustado foi de 13,71%. Ambos os testes
maior grau de correlação linear (0,6277) e as
mostram que as variáveis são fracas para
demais variáveis apresentaram valores
explicar o modelo, carecendo de mais
maiores e positivos.
variáveis explicativas ou um melhor
ajustamento do modelo de regressão.

Tabela 3. Resultados do teste de correlação de Pearson com variáveis logaritimizadas.


ln(TXD) ln(PP) ln(IDH) ln(GAD)
ln(TXD) 1
ln(PP) 0,4673 1
ln(IDH) 0,5135 0,6834 1
ln(GAD) 0,6277 0,5491 0,5194 1
Fonte: elaborado a partir dos dados da pesquisa.

Um coeficiente de correlação mede o grau resultado da análise de regressão do modelo


pelo qual duas variáveis tendem a mudar empírico proposto com variáveis em logaritmo
juntas. O coeficiente descreve a força e a (Tabela 4).
direção da relação. Agora veremos o

Tabela 4. Resultado da análise de regressão com dados em corte transversal com variáveis em
logaritmo.
ln(TXD) Coef. t p > │t│ Número de observações 151
ln(PP) 11% 0,48 0,6% f(3, 147) 38,97
ln(IDH) 248% 2,69 0,8% Prob. > f 0,0000
ln(GAD) 24% 6,37 0,01% R2 0,4430
- - - - R2 - Ajustado 0,4316
Fonte: elaborado a partir dos dados da pesquisa.

O resultado do modelo mostra que as No que tange a estatística T de Student as


variáveis obtiveram um melhor ajustamento. A variáveis ln(IDH) e ln(GAD) foram
1% de confiança rejeitamos a hipótese de que significativas a 1% de significância, porém a
todos os coeficientes são iguais a 0 (zero) variável ln(PP) não foi significativa. A seguir
(Prob. > f). A estatística R2 foi de 44,30% bem apresentaremos os resultados de alguns
maior que do modelo anterior e a estatística testes normalidade do modelo.
R2 – Ajustado foi de 43,16% igualmente maior
que no modelo anterior.

Administração Rural - Volume 1


60

3.1 TESTE DE MULTICOLINEARIDADE (VIF) regressão do modelo estatístico se encontra


inflado em relação à situação em que as
Uma estatística pouco usual para detecção
variáveis independentes não estão
da presença de multicolinearidade, mas de
correlacionadas (Tabela 5).
fácil cálculo e interpretação, é o Fator de
Inflação de Variância (FIV), que mede o
quanto da variância de cada coeficiente de

Tabela 5. Resultado do teste do Fator de Inflação de Variância (VIF)

Variável VIF 1/VIF

ln(PP) 2,08 0,481293

ln(IDH) 1,99 0,503193

ln(GAD) 1,52 0,659521

Fonte: elaborado a partir dos dados da pesquisa.

De acordo com os dados presentados na la a 1% de significância (1,13% > 1%) logo o


Tabela 5, podemos notar que as variáveis não modelo não apresenta Heterocedasticidade.
apresentam multicolinearidade, pois os
valores da estatística VIF são inferiores a 10 e
a estatística TOL que é o inverso do VIF 3.3 TESTE DE HETEROCEDASTICIDADE
apresentam valores próximos de 1. Logo o (BREUSCH-PAGAN)
modelo não apresenta multicolinearidade.
O teste de Breusch-Pagan (BP) é um dos
Veremos a seguir o resultado dos testes de
testes mais comuns para
Heterocedasticidade.
heterocedasticidade. Começa-se por permitir
que o processo heterocedasticidade para ser
uma função de uma ou mais das suas
3.2 TESTE DE HETEROCEDASTICIDADE
variáveis independentes, e é normalmente
(WHITE)
aplicada por heterocedasticidade assumindo
Em econometria, um teste extremamente que pode ser uma função linear de todas as
comum para heterocedasticidade é o teste variáveis independentes do modelo.
branco (White), o qual começa por verificar se
Os graus de liberdade para o F-teste são
o processo de heterocedasticidade ocorre em
iguais a 1 e no numerador n - 2 no
uma função de uma ou mais, das suas
denominador. Os graus de liberdade para o
variáveis independentes. É semelhante ao
teste qui-quadrado é igual a 1. Se qualquer
teste de Breusch-Pagan, mas o teste White
uma dessas estatísticas de teste é
permite que a variável independente para ter
significativo, então você tem evidências de
um efeito não- linear e interativa sobre a
heteroscedasticidade. Se não, você não
variância do erro.
rejeitar a hipótese nula de
Normalmente, você aplicar o teste de White, homocedasticidade.
assumindo que heterocedasticidade pode ser
O resultado do teste para o modelo em
uma função linear de todas as variáveis
análise mostra que a estatística Breusch-
independentes, em função dos seus valores
Pagan foi de Prob > chi2 = 0,9718 ou seja
quadrados, e uma função de seus produtos
aceitamos a 97,18% a hipótese nula de que o
transversais.
modelo apresenta homocedasticidade, e
No modelo em análise podemos verificar que rejeitamos a hipótese alternativa de
o resultado do teste mostra que a estatística heterocedasticidade logo o modelo não
P-value = 0,0113, ou seja o teste de White foi possui heterocedasticidade.
de 1,13% logo aceitamos a hipótese nula de
homocedasticidade pois não podemos rejeitá-

Administração Rural - Volume 1


61

3.4 INTERPRETAÇÃO DOS RESULTADOS per capta, IDH e Produção de Gado, através
do método de MQO (Mínimos Quadrados
Após o resultado dos testes de normalidade
Ordinários).
do modelo, podemos agora então apresentar
a forma funcional do modelo proposto e sua Os resultados aferidos mostram que as
interpretação: variáveis IDH e produção de gado foram
altamente significativas (1% de significância),
ln(TXD) = α + β22,47% + β30,24% + ε (2)
porém a variável PIB per capta não foi
De acordo com o modelo matemático, uma significativa e sobre ela nada se pode dizer.
variação de 1% no IDH dos municípios da Quando o IDH aumenta em 1% a taxa de
Amazônia Ocidental, provoca um aumento de desmatamento cresce 2,47% e quando a
2,47% na Taxa de Desmatamento. Se a produção de gado aumenta em 1% a taxa de
produção de gado aumentar em 1% a Taxa desmatamento cresce 0,24%, sendo assim
de Desmatamento anual aumenta em 0,24%. pode-se concluir que o aumento no nível da
No que tange a variável PIB per capta (PP) qualidade de vida das pessoas que vivem
ela não foi estatisticamente significativa neste nos municípios da Amazônia Ocidental
modelo sendo que sobre ela nada podemos impacta muito mais a taxa de desmatamento
inferir. do que a produção de gado.
Vale ressaltar que o modelo em questão
carece de mais variáveis por apresentar uma
4 CONCLUSÃO
estatística R2 inferior a 50%. Outro fato
A Amazônia sempre foi motivo de grande importante a ser ressaltado é que o estudo
preocupação sendo assim projetos e politicas utilizou um modelo estático que é na verdade
desenvolvidas para alavancar o crescimento um corte temporal, requerendo
econômico da região aumentaram a posteriormente um aprofundamento com um
devastação ambiental e a degradação de modelo mais robusto e que utiliza um espaço
suas florestas. Diante desta situação, temporal maior para tornar a análise mais
problemática este estudo se propôs a estimar dinâmica. Porém os resultados corroboram os
um modelo de regressão em corte transversal obtidos por outros autores que estudam as
(cross-section) para testar algumas variáveis relações entre o crescimento econômico e o
e suas influencias sobre as taxas de desmatamento na Amazônia.
desmatamento na Amazônia Ocidental.
No que tange a metodologia, adotou-se a
NOTAS
análise de dados em corte transversal, que
consiste em mostrar uma “fotografia” do 1 - Análise de correspondência é uma técnica
fenômeno estudado (o desmatamento) a partir de análise exploratória de dados adequada
de uma amostra de variáveis já testadas em para analisar tabelas de duas entradas ou
outros estudos que obtiveram um resultado tabelas de múltiplas entradas, levando em
positivo para a variável de interesse, tomada conta algumas medidas de correspondência
em um determinado ponto no tempo. entre linhas e colunas; mostra como as
Acredita-se que o modelo é relevante porque variáveis dispostas em linhas e colunas estão
permitiu testar as prováveis hipóteses relacionadas e não somente se a relação
causadoras do desmatamento, em curso, na existe.
região da Amazônia Ocidental.
2 - O autor explica que o conceito de
Desta forma este estudo utilizou um modelo causalidade do sentido de Granger está
de regressão em corte transversal, para relacionado com a capacidade de uma
estimar o comportamento da taxa de variável ajudar na previsão do comportamento
desmatamento em relação às variáveis PIB de outra variável de interesse

REFERÊNCIAS
[1]. ALENCAR, Ane. et. al. Desmatamento na [2]. BECKER, Bertha K. Geopolítica da
Amazônia: indo além da emergência crônica. Amazônia: a nova fronteira de recursos. Rio de
Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia Janeiro: Zahar Editores, 1982.
(IPAM): Belém, 2004.
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pouco-antes e além-depois. Editora Umberto
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Administração Rural - Volume 1


63

Capítulo 5

Marcus Vinicius Mendonça


Adriano Nascimento da Paixão
Nilton Marques de Oliveira
Rodolfo Alves da Luz

Resumo: O artigo tem o objetivo de construir um índice de desenvolvimento rural


para os municípios do estado do Pará. Para o cálculo do índice utilizou-se o método
de análise fatorial. As variáveis utilizadas foram obtidas junto aos Censos
Demográficos do IBGE (2000 e 2010), Atlas do Desenvolvimento Humano no Brasil
do PNUD (2013) e Censo Agropecuário do IBGE (2006). Os resultados revelam
uma prevalência de municípios com baixos índices de desenvolvimento rural no
estado. A infraestrutura das áreas rurais dos municípios do interior do estado é mais
precária quanto maior é a dificuldade de acesso e o grau de isolamento destas
áreas. A colonização de regiões distantes não foi acompanhada de investimentos
em obras e serviços adequados ao provimento de qualidade de vida tanto de
populações tradicionais quanto da população migrante que se instalou nas áreas
rurais do estado.

Palavras-chave: análise fatorial; desenvolvimento local; desenvolvimento territorial;


desenvolvimento regional; Amazônia.

Administração Rural - Volume 1


64

1. INTRODUÇÃO sempre integrada a uma cidade, e a


economia regional é o contexto adequado
Este artigo tem o objetivo de construir um
para compreender o desenvolvimento rural.
índice de desenvolvimento rural para os
municípios do estado do Pará e desta forma De acordo com Kageyama (2004), há um
conhecer as diferenças locais e regionais que certo consenso sobre a definição de rural:
determinam este desenvolvimento a partir de rural não é sinônimo de e nem tem
variáveis que possam dimensionar causas, exclusividade sobre o agrícola; o rural é
características e possíveis consequências de multissetorial (pluriatividade) e multifuncional
um desenvolvimento desigual. (funções produtiva, ambiental, ecológica,
social); as áreas rurais têm densidade
De acordo com Delgado (2001), o
populacional relativamente baixa; não há um
desenvolvimento do setor agropecuário
isolamento absoluto entre os espaços rurais e
brasileiro passou por três fases distintas.
as áreas urbanas.
Após a segunda guerra e, principalmente
entre 1964 e 1980, conhecido como Isto posto, este artigo está divido em cinco
“modernização conservadora”, por um lado partes. Além desta introdução, a segunda
estimulou-se a adoção de pacotes aborda resumidamente algumas
tecnológicos da “Revolução Verde” e o considerações sobre o desenvolvimento rural.
aumento da produção a partir de A terceira, a metodologia, assim como a área
financiamento ao latifúndio e, por outro lado, o de estudo, análise fatorial e as descrições das
aprofundamento da heterogeneidade da variáveis. Na quarta, discute-se os principais
agricultura brasileira. Após o fim do regime resultados, e por fim, as considerações finais
militar ocorre o retorno da questão agrária ao sumarizam o artigo.
debate político e econômico na década de
1980, assim como uma relativa estagnação
industrial. 2. BREVE CONSIDERAÇÃO SOBRE O
DESENVOLVIMENTO RURAL
A expressão desenvolvimento rural e a
melhoria do bem-estar das populações rurais Para Van der Ploeg et al. (2000) o paradigma
mais pobres, surge na década de 1970, da modernização da agricultura, que dominou
associando o aumento da renda familiar a teoria, as práticas e as políticas, como a
resultado de mudança do processo produtivo principal ferramenta para elevar a renda e
na agricultura, com o desenvolvimento rural levar o desenvolvimento as comunidade
(NAVARRO, 2001). rurais, vem sendo substituído por um novo
paradigma, o do desenvolvimento rural,
Na década de 1990 estudiosos do tema
buscando um novo modelo para o setor
redimensionam o significado do que é o
agrícola, com novos objetivos, como a
“rural”. O rural deixou de ser um espaço
produção de bens públicos (paisagem),
exclusivamente agrícola. Segundo Wanderley
sinergias com os ecossistemas locais, a maior
(2000), a crise produtivista de modernização
valorização das economias de escopo em
agrícola e transformações recentes no meio
relação às economias de escala, e a
rural nos países avançados apontam para a
pluriatividade das famílias rurais.
“emergência de uma nova ruralidade”. Isso se
deve a descentralização econômica de Ploeg et al. (2000) consideram o
atividades industriais e comerciais para desenvolvimento rural em cinco níveis: o
espaços rurais, a “paridade” econômica e crescente inter-relacionamento da agricultura
social entre a população rural que obteve com a sociedade, fazendo com que esta
acesso tanto a bens e serviços modernos perceba que o rural pode fornecer muito mais
quanto a níveis de renda mais próximos aos do que alimentos e matérias-primas; uma
dos habitats das cidades, o crescimento necessidade urgente em definir um novo
demográfico em razão da redução dos fluxos modelo agrícola, capaz de valorizar as
migratórios do campo para as cidades e a sinergias e a coesão no meio rural entre
atração para o meio rural de outras categorias atividades agrícolas e não-agrícolas,
sociais. ecossistemas locais e regionais, permitindo
convivência de iniciativas e atividades
Segundo Veiga (2000), não existe o
diversificadas; um desenvolvimento rural
desenvolvimento rural como fenômeno
capaz de redefinir as relações entre
concreto e separado do desenvolvimento
indivíduos, famílias e suas identidades,
urbano. Para Figueroa (1997 apud
atribuindo um novo papel aos centros
KAGEYAMA, 2008) a economia rural está

Administração Rural - Volume 1


65

urbanos e a combinação de atividades 14,66% do território nacional (PARÁ, 2010).


multiocupacionais; um modelo que redefina o De acordo com o Censo do IBGE de 2010 são
sentido de comunidade rural e as relações 7.581.051 habitantes, sendo 31,5 %
entre os atores locais; um desenvolvimento residentes na zona rural. O estado possui 144
rural que leve em conta a necessidade de municípios distribuídos em 12 regiões de
novas ações de políticas públicas e o papel integração (PARÁ, 2010).
das instituições.
Segundo Castro (1993) e Hébbet (2004),
Schneider (2004) acrescenta um sexto nível: é citados por Silva (2012), a política de
preciso um novo modelo que leve em Integração Nacional implementada na
consideração as múltiplas facetas ambientais, Amazônia após a década de 1970 levou o
buscando garantir o uso sustentável e o Pará a tornar-se o principal território de
manejo adequado dos recursos. exploração de recursos naturais não
renováveis, com o objetivo de integração das
Segundo Ploeg et al. (2000), o cenário
principais áreas mineradoras à economia
complexo das instituições participantes do
internacional como forma de aumentar a
desenvolvimento rural torna esse processo
pauta de exportações (COSTA, 1987 apud
dependente de múltiplos atores, os quais
ibid., p. 116). Grandes projetos como a
estão envolvidos em relações locais e entre
construção da Usina Hidrelétrica de Tucuruí,
as localidades e a economia global. Para os
a Mineração Rio do Norte, a Albrás e Alunorte
autores, o desenvolvimento é ainda
e o Projeto Ferro Carajás geraram novas
multifacetado, pois se desdobra em uma
regiões no Estado (CASTRO, 2009 apud
grande variedade de novas atividades, como
SANTOS, 2015).
administração da paisagem, conservação da
natureza, agroturismo, agricultura orgânica, Silva (2012) revela as mudanças de
produção de especialidades regionais, características da dinâmica regional no
vendas diretas, etc. estado do Pará. Esses investimentos
produziram o crescimento econômico
Conforme aponta Veiga (2001), na
estadual e promoveram o deslocamento da
perspectiva de expansão das capacidades
dinâmica socioeconômica estadual da
individuais e melhoria dos funcionamentos,
mesorregião Metropolitana de Belém para
preconizado na definição de Sen (2000) sobre
outros subespaços regionais, a partir da
o desenvolvimento, os elementos
década de 1980. Algumas cidades passaram
fundamentais do processo de
a compartilhar com Belém a dinâmica
desenvolvimento rural sustentável do Brasil
socioeconômica estadual como Ananindeua,
são a valorização e o fortalecimento da
Barcarena, Marabá, Parauapebas, Tucuruí e
agricultura familiar, a diversificação das
Redenção.
economias dos territórios, o estímulo ao
empreendedorismo local, o “empurrão” que É preciso verificar quais os impactos que
viria do Estado para a formação de arranjos estas diferentes trajetórias regionais tiveram
institucionais locais, além da menor para o mundo rural do estado do Pará, tendo
desigualdade do acesso à terra e à em vista a importância que o campo tem para
educação. a economia do estado. O uso de um índice de
desenvolvimento rural é uma forma
O desenvolvimento rural é visto, portanto,
encontrada para comparar a realidade em
como um processo que envolve a dimensões
diferentes municípios, de maneira a apontar
econômica, sociocultural, político-institucional
similaridades e distorções nos processos de
e ambiental (KAGEYAMA, 2004 e 2008;
desenvolvimento.
CONTERATO, 2008; STEGE; PARRÉ, 2011) e
não apenas como um processo de
crescimento econômico medido unicamente
3.2 ÍNDICE DE DESENVOLVIMENTO RURAL
pelo produto ou renda per capita.
Um indicador é um instrumento que possibilita
medir aspectos de um determinado conceito,
3 METODOLOGIA certa realidade, fenômeno ou um problema, e
seu objetivo principal é “… traduzir de forma
3.1 ÁREA DE ESTUDO
mensurável determinado aspecto de uma
O Estado do Pará é o segundo maior estado realidade dada (situação social) ou construída
do país com extensão territorial de (ação de governo)” (Brasil, 2010 apud
1.247.689,515 quilômetros quadrados ou STEGE; PARRÉ, 2011, p. 4).

Administração Rural - Volume 1


66

Neste sentido, os trabalhos de Kageyama estatística multivariada. Destaca-se que


(2004 e 2008), Melo e Parré (2007), Waquil et outros trabalhos foram realizados no estado
al. (2010), Conterato (2008), Stege e Parré do Pará com o mesmo intuito, utilizando, no
(2011) propõem um indicador para unidades entanto, a metodologia adotada por
e focos diferentes. Kageyama (2004) e Melo e Kageyama (2004), como o de Souza (2014)
Parré (2007), possuem como unidade de que caracteriza os municípios do estado e
análise o rural municipal e elaboram um Santos (2015) que faz a abordagem a partir
Índice de Desenvolvimento Rural para os das diferentes regiões do estado.
municípios de São Paulo e Paraná,
respectivamente. Waquil et al. (2007)
desenvolveu um Indicador de 3.3 A ANÁLISE FATORIAL
Desenvolvimento Sustentável para quatro
A análise fatorial se refere a uma variedade
territórios rurais, definidos pelo Ministério do
de técnicas da estatística multivariada cujo
Desenvolvimento Agrário. Kageyama (2008)
objetivo é representar um conjunto de
elabora um Índice de Desenvolvimento Rural
variáveis em termos de um menor número de
para os estados brasileiros, enquanto Stege e
variáveis hipotéticas (KIM; MUELLER, 1978
Parré (2011) constroem um Índice de
apud STEGE; PARRÉ, 2011). As variáveis
Desenvolvimento Rural sintético para todas as
hipotéticas recebem o nome de fatores
microrregiões brasileiras.
comuns e vão estar relacionadas com as
Muitos trabalhos foram realizados procurando variáveis originais através de um modelo
construir índices de desenvolvimento rural linear (MINGOTI, 2005). De acordo com
municipal para diferentes estados da Rezende e Parré (2004 apud MELO; PARRÉ,
federação. Nestes trabalhos são utilizados 2007) esta técnica permite extrair um número
dois métodos principais, sendo um baseado reduzido de fatores, que são combinações
em média ponderada utilizado por Kageyama lineares das variáveis originais, perdendo o
(2004), e o outro, em estatística multivariada mínimo de informações.
desenvolvido por Melo e Parré (2007).
O método de análise fatorial pode ser
Neste artigo pretende-se apresentar um expresso na forma matemática através de
Índice de Desenvolvimento Rural dos uma combinação linear entre as variáveis (𝑋𝑖 )
municípios do estado do Pará, utilizando-se e K fatores comuns (𝐹):

𝑋𝑖 = 𝐴𝑖1 𝐹1 + 𝐴𝑖2 𝐹2 + ⋯ + 𝐴𝑖𝑘 𝐹𝑘 + 𝑈𝑖 + 𝐸𝑖 (1)

Onde: 𝐴𝑖𝑘 - Cargas fatoriais, usadas para de observação, de mensuração ou de


combinar linearmente os fatores comuns. especificação do modelo.
𝐹1 , 𝐹2 , ..., 𝐹𝑘 - Fatores comuns. A medida denominada de autovalor, ou raiz
característica, expressa a variância total do
𝑈𝑖 - Fator único
modelo explicada por cada fator. De acordo
𝐸𝑖 - Fator de erro com Ferreira Junior, Baptista e Lima (2003
apud MELO; PARRÉ, 2007, p. 336), o seu
As cargas fatoriais indicam a intensidade das
valor é o somatório dos quadrados das
relações entre as variáveis normalizadas Xi e
cargas fatoriais de cada variável associada
os fatores. Quanto maior uma carga fatorial,
ao fator específico e refletem a importância
mais associada com o fator se encontra a
relativa de cada fator, bem como a variância
variável. A variância comum hi2, ou
de cada um deles. É através desse valor que
comunalidade, representa quanto da
se define quantos fatores serão retidos. A
variância total de Xi é reproduzida pelos
quantidade de fatores retidos será igual ao
fatores comuns, sendo calculada a partir do
número de autovalores maiores ou igual a 1, a
somatório ao quadrado das cargas fatoriais. A
fim de manter no sistema novas dimensões
variância única Ui é a parte da variância total
que representem pelo menos a informação de
que não se associa com a variância das
variância de uma variável original (MINGOTI,
outras variáveis. O termo Ei representa o erro
2005). O autovalor divido pelo número de
variáveis (Xi) determina a proporção da

Administração Rural - Volume 1


67

variância total explicada pelo fator. Esse valor selecionados os que apresentaram valores
irá revelar o quanto cada fator consegue maiores que 1. Identificados os fatores, é feita
captar da variabilidade original das variáveis. a estimação do escore fatorial, por meio do
método semelhante ao da regressão. O
Para facilitar a interpretação destes fatores é
escore para cada observação (município) é
realizada uma rotação ortogonal pelo método
resultado da multiplicação do valor
varimax, que procura minimizar o número de
(padronizado) das variáveis pelo coeficiente
variáveis fortemente relacionadas com cada
do escore fatorial correspondente, sendo a
fator, permitindo, assim, obter fatores mais
expressão geral para estimação do j-ésimo
facilmente interpretáveis (MELO; PARRÉ, op.
fator 𝐹𝑗 dada por:
cit., p. 336).
Através da utilização do software Stata
(versão MP 13), foram obtidos os fatores e

𝐹𝑗 = 𝑊𝑗1 𝑋1 + 𝑊𝑗2 𝑋2 + 𝑊𝑗3 𝑋3 + ⋯ + 𝑊𝑗𝑝 𝑋𝑝 (2)

em que os W_ij são os coeficientes dos escores fatoriais e p é o número de variáveis.

Os escores fatoriais de cada fator possuem meio do cálculo da média dos fatores
distribuição normal, com média zero e (ponderada pela variância) pertencentes a
variância unitária e, desse modo, podem ser cada município. Como procedeu-se à análise
utilizadas para indicar a posição relativa de fatorial pelo método de componentes
cada observação relativamente ao conceito principais (que faz com que o primeiro fator
expresso pelo fator. Assim, a partir da matriz contenha o maior percentual de explicação
dos escores fatoriais, é possível construir um da variância total das variáveis da amostra, o
índice para hierarquizar as observações segundo fator contenha o segundo maior
(MONTEIRO; PINHEIRO, 2004 apud ibid., p. percentual, e assim por diante) (FERREIRA
337). JUNIOR; BAPTISTA; LIMA, 2003 apud ibid, p.
338), a ponderação pela proporção de
A verificação do grau de desenvolvimento de
explicação da variância total exprime a
cada município paraense foi feita através dos
importância relativa de cada fator (MELO;
escores fatoriais, ou seja, dos valores dos
PARRÉ, loc. cit.). A análise dos valores de
fatores para cada uma das 143 observações
cada um dos fatores que compõem o índice
(municípios). Através da equação 3, obteve-
(Tabela 4 – Anexo) pode contribuir para focar
se o Índice Bruto de Desenvolvimento, por
alguma característica específica.

∑5𝑖=1(𝑤𝑖 𝐹𝑖 )
𝐼𝐵 = (3)
∑5𝑖=1 𝑤𝑖
Sendo: IB = Índice bruto (média ponderada dos escores fatoriais)
𝑤𝑖 = Proporção da variância explicada por cada fator
𝐹𝑖 = Escores fatoriais

A partir daí, interpola-se os resultados, alto (MA) aqueles com resultados entre dois e
considerando-se o maior valor como 100 e o três desvios-padrão acima da média; alto (A),
menor como zero, obtendo o Índice de aqueles com valores entre um e dois desvios-
Desenvolvimento Rural (IDR) para cada padrão acima da média; médio (M), os que
município. Foram considerados como grau de apresentaram resultado entre a média e um
desenvolvimento muitíssimo alto (MMA) desvio-padrão acima da média; baixo (B),
aqueles que apresentaram resultados com aqueles com resultados no intervalo entre a
três desvios-padrão acima da média; muito média e um desvio-padrão abaixo da média;

Administração Rural - Volume 1


68

muito baixo (MB), aqueles que tiveram identificado pelo progresso econômico.
resultados entre um e dois desvios-padrão Engloba um conjunto de indicadores que
abaixo da média; muitíssimo baixo (MMB), os interagem entre si, reunindo aspectos sociais,
que tiveram resultados no intervalo entre dois demográficos, econômicos e ambientais, ou
e três desvios-padrão abaixo da média seja, trata-se de um fenômeno
(MELO; PARRÉ, loc. cit.). multidimensional. Utilizando estas quatro
dimensões é possível encontrar variáveis que
Para verificar a adequabilidade do modelo é
podem ser utilizadas para tentar explicar a
utilizada a estatística de Kaiser-Meyer-Olkin
“causa” do desenvolvimento.
(KMO) e o teste de esfericidade de Barlett.
As variáveis utilizadas neste trabalho foram
extraídas da dissertação de Santos (2015).
3.4 DESCRIÇÃO DAS VARIÁVEIS Segue Quadro 1 com cada uma das variáveis
e suas fontes de dados.
A análise do desenvolvimento rural como um
todo vai além do domínio da economia,

Quadro 1. Variáveis selecionadas para o cálculo do IDR.


Variável e sua relação com o
Dimensão desenvolvimento: positiva (+) ou Forma de Cálculo Unidade Fonte de Dados
negativa (-)

hab/ Censo
X1) Densidade demográfica Proporção de habitantes (total) do
Demográfico IBGE
(padronizada)* (+) município em relação a sua área km2 (2010)

Taxa de crescimento da Censo


X2) Variação da população rural
população rural entre os anos de % Demográfico IBGE
Demográfica

(padronizada)* (+)
2010 e 2000 (2000 e 2010)

Censo
X3) Proporção de população Proporção da população rural do
% Demográfico IBGE
rural do município (+) município pela sua população total
(2010)

Proporção da população que não Censo


X4) Proporção de população de
morou sempre no município pela % demográfico IBGE
migrantes (+)
sua população total (2010)

ADH – Atlas do
X5) Índice de Desenvolvimento
Desenvolvimento
Humano (IDH) – Longevidade Esperança de vida ao nascer Escala (0-1)
Humano no Brasil
(+)
(2013)

Censo
População rural alfabetizada em
X6) Taxa de alfabetização (+) % Demográfico IBGE
relação à população rural
(2010)

Distância que separa a renda


domiciliar per capita média dos ADH – Atlas de
indivíduos pobres do valor da Desenvolvimento
X7) Intensidade de pobreza** (-) %
linha de pobreza, medida em Humano no Brasil
termos de percentual do valor (2013)
Social

dessa linha de pobreza

Proporção dos domicílios rurais


X8) Domicílios rurais com Censo
servido de água proveniente de
abastecimento de água % Demográfico IBGE
uma rede geral de abastecimento
proveniente da rede geral (+) (2010)
pelo total de domicílios rurais

X9) Domicílios rurais com Proporção dos domicílios rurais Censo


instalação de energia elétrica que possuem energia elétrica pelo % Demográfico IBGE
de companhia distribuidora (+) total de domicílios rurais (2010)

Proporção de domicílios rurais


X10) Domicílios rurais com Censo
com esgoto sanitário – fossa
esgoto sanitário – fossa séptica % Demográfico IBGE
séptica pelo total de domicílios
(+) (2010)
rurais

Administração Rural - Volume 1


69

(continuação...)
Variável e sua relação com o
Dimensão desenvolvimento: positiva (+) ou Forma de Cálculo Unidade Fonte de Dados
negativa (-)

Soma da renda de todos os ADH – Atlas do


X11) Índice de Desenvolvimento residentes dividido pelo número Desenvolvimento
Escala (0-1)
Humano (IDH) – Renda (+) de pessoas que moram no Humano no Brasil
município (2013)

X12) Valor bruto de produção


Econômica

Valor bruto da produção Censo


por estabelecimento
agropecuária pelo número de R$ Agropecuário
agropecuário (padronizado)*
estabelecimentos agropecuários IBGE (2006)
(+)

X13) Valor bruto de produção Valor bruto da produção


Censo
por pessoa ocupada na agropecuária pelo número de
R$ Agropecuário
agropecuária (padronizado)* pessoas ocupadas nos
IBGE (2006)
(+) estabelecimentos agropecuários

Proporção de estabelecimentos
Censo
X14) Estabelecimentos com que praticam a conservação do
% Agropecuário
práticas de conservação (+) solo somado aos que não fazem
IBGE (2006)
queimadas pelo total

Censo
X15) Matas naturais e plantadas Proporção de matas naturais e
% Agropecuário
(+) plantadas pela área total
IBGE (2006)

Proporção de estabelecimentos Censo


Ambiental

X16) Estabelecimentos que


rurais que fazem uso de % Agropecuário
utilizam agrotóxico** (-)
agrotóxicos pelo total IBGE (2006)

Proporção de estabelecimentos Censo


X17) Estabelecimentos com uso
rurais que fazem uso de adubação %% Agropecuário
de adubação orgânica (+)
orgânica pelo total IBGE (2006)

X18) Proporção de domicílios


rurais com coleta de lixo – Proporção dos domicílios rurais Censo
coletado por serviço de limpeza que possuem lixo coletado pelo %% Demográfico IBGE
e caçamba de serviço de total de domicílios rurais (2010)
limpeza (+)

Fonte: Elaboração própria.


* Segundo Kageyama (2004) a padronização consiste em uma transformação algébrica para que o índice varie
no intervalo de zero a um. Essa transformação é feita da seguinte forma: (valor da variável – mínimo) / (máximo
– mínimo).
** Quando uma variável é negativa (-) em relação ao desenvolvimento, ela é invertida, ou seja, é subtraída uma
unidade do resultado.

Os indicadores demográficos (X1 a X4) não. A variável Índice de Desenvolvimento


procuram medir o dinamismo populacional Humano (IDH) – Longevidade representa a
que deveria favorecer o desenvolvimento esperança de vida ao nascer para o
rural. Segundo Kageyama (2004 e 2008), uma município como um todo, refletindo assim as
densidade demográfica elevada indica menor condições de saúde e de salubridade no
isolamento das áreas rurais, o que significa local. Quanto a taxa de alfabetização rural, é
maior diversificação, multifuncionalidade e um indicador educacional que tem
progresso social; uma grande população rural correspondência positiva com o IDR.
e seu crescimento na década indica maior
A intensidade de pobreza é um indicador que
capacidade da área rural de reter população;
permite obter informações pelo desvio médio
a migração de pessoas de outros municípios
entre a renda dos pobres e o valor da linha de
reforça a capacidade de atração daquele
pobreza e que mede a distribuição média da
município na região.
renda dos pobres no que se refere à linha de
As variáveis X5 a X10 são indicadores sociais pobreza, ou seja, auxilia a identificar os mais
de bem-estar dos residentes nas áreas rurais pobres dos pobres (MELO, 2005). A variável
e demonstram se as pessoas ali residentes tem uma correspondência negativa com o
desfrutam de melhor qualidade de vida ou IDR e, portanto, utilizou-se um índice de

Administração Rural - Volume 1


70

intensidade de não-pobreza. As variáveis efeitos nocivos do modelo de modernização


relacionadas às condições de infraestrutura agrícola com os efeitos compensadores de
dos domicílios rurais (instalação sanitária, práticas de conservação do solo.
água encanada e energia elétrica) estão
O uso de agrotóxicos possui uma relação
ligadas a qualidade de vida e afetam
negativa com o IDR e este indicador é
positivamente o IDR (STEGE; PARRÉ, 2011).
transformado em não uso de agrotóxicos. A
As variáveis X11 a X13 são indicadores de existência de matas naturais ou plantadas é
desempenho econômico relacionados ao um atributo importante para que, através da
valor do setor agropecuário no município. A conservação da natureza, as áreas rurais
variável Índice de Desenvolvimento Humano cumpram a função de provedora de serviços
(IDH) – Renda revela melhoria no sistema e ambientais e de bens públicos.
tem relação positiva com o desenvolvimento
rural (CONTERATO et al., 2009).
4. RESULTADOS E DISCUSSÃO
As variáveis relacionadas a produtividade dos
fatores de produção afetam de forma positiva A análise aplicada ao modelo possibilitou a
o desenvolvimento rural (STEGE; PARRÉ, extração de seis fatores com raiz
2011). A produtividade do trabalho na característica maior que a unidade e que
agricultura é medida pelo quociente entre o sintetizam as contidas nas 18 variáveis
Valor Bruto da Produção Agropecuária (VBP) originais. Após a rotação, os seis fatores
e o pessoal ocupado na agropecuária selecionados explicam, em conjunto, 68,77%
(população ocupada na agricultura, pecuária, da variância total das variáveis selecionadas,
silvicultura, exploração florestal e pesca). conforme Tabela 1. O uso da variância de
68,77% é justificado por Hair et al. (2009),
As variáveis X14 a X18 destacam a influência
pois, segundo o autor, obter uma variância
das questões ambientais na conservação do
acumulada de 60% é satisfatório nas ciências
meio rural e seu desenvolvimento. Segundo
sociais.
Kageyama (2004), os indicadores de meio
ambiente procuram contrapor a presença dos

Tabela 1 - Raiz característica, percentual explicado por cada fator e variância acumulada
Variância explicada pelo
Fator Raiz característica Variância acumulada (%)
fator (%)
F1 3,10379 17,24 17,24
F2 3,03841 16,88 34,12
F3 2,08767 11,60 45,72
F4 1,63675 9,09 54,81
F5 1,33650 7,43 62,24
F6 1,17482 6,53 68,77
Fonte: Resultados da pesquisa

O teste de Bartlett mostrou-se significativo, Para sua interpretação foram consideradas


rejeitando a hipótese nula de que a matriz de apenas as cargas fatoriais com valores
correlação é uma matriz identidade. O teste superiores a 0,50 (em negrito), buscando
de KMO, para análise da adequabilidade da evidenciar os indicadores mais fortemente
amostra apresentou valor de 0,6981, associados a determinado fator. Os valores
indicando que a amostra é passível de ser encontrados para as comunalidades revelam
analisada pelas técnicas de análise fatorial. que praticamente todas as variáveis têm sua
variabilidade captada e representada pelos
A Tabela 2 apresenta as cargas fatoriais e as
seis fatores.
comunalidades para os fatores considerados.

Administração Rural - Volume 1


71

Tabela 2 – Cargas fatoriais e comunalidades


Cargas Fatoriais
Indicadores Comunalidades
F1 F2 F3 F4 F5 F6

X1 -0,0358 0,6194 -0,1681 0,3461 0,3584 -0,0334 0,6626

X2 0,1968 -0,1141 0,4174 0,5798 -0,1309 -0,0279 0,5801

X3 -0,0903 -0,7978 -0,0711 0,1988 -0,1435 -0,0023 0,7098

X4 0,0476 0,4602 0,1659 -0,5625 -0,0391 0,2136 0,6052

X5 0,0384 0,6906 -0,0136 0,0149 -0,3818 -0,1139 0,6375

X6 0,6589 0,2774 -0,0459 0,1708 -0,0551 0,0594 0,5489

X7 0,3747 0,6397 0,1686 -0,0821 0,2755 -0,1983 0,6999

X8 0,7954 -0,1858 -0,0003 0,0907 0,1814 -0,0894 0,7162

X9 0,7208 0,1674 0,0352 -0,2660 0,2921 -0,0112 0,7049

X10 0,6563 0,0417 -0,1034 -0,1167 -0,0939 0,0870 0,4732

X11 0,2147 0,8238 0,2220 -0,2605 -0,0220 0,1228 0,8574

X12 -0,0189 0,0838 0,9288 -0,0149 0,0513 0,0431 0,8748

X13 -0,0408 0,1338 0,9148 -0,0994 0,0948 -0,0563 0,8785

X14 0,1145 0,0558 0,1191 -0,1776 0,7913 0,0669 0,6925

X15 -0,0909 -0,0501 -0,1538 0,7147 -0,1170 0,2444 0,6186

X16 -0,0501 -0,0260 -0,0082 0,1024 0,0645 0,9189 0,8622

X17 0,5297 0,1323 -0,0106 0,2554 0,4012 -0,3314 0,6342

X18 0,7362 0,1969 0,1518 -0,0095 -0,0110 -0,1314 0,6213

Fonte: Resultados da pesquisa

Percebe-se que o fator F1 está positiva e revelar municípios com maior qualidade de
fortemente relacionado com o indicador X6, vida. Além disso, pode demonstrar que
que expressa a taxa de alfabetização rural; municípios com maior crescimento urbano, de
com as variáveis X8, X9 e X10, proporção de maior densidade demográfica, proporcionam
domicílios rurais com abastecimento de água, maior desenvolvimento rural e, por outro lado,
com energia elétrica e com esgoto municípios com maior população rural
sanitário/fossa séptica, respectivamente, ou comparada a urbana, estão negativamente
seja, variáveis ligadas a infraestrutura no meio associados aos indicadores sociais. Este fator
rural; com a variável X17, estabelecimento responde por 16,88% da variância acumulada
com o uso de adubação orgânica; e X18, que e corresponde a condicionantes
refere-se a domicílios rurais com coleta de demográficas que podem explicar a relação
lixo, ligado a serviço fornecido ao meio rural; intrínseca entre crescimento urbano e
ambos relacionados a qualidade ambiental. O indicadores sociais de desenvolvimento.
fator 1 explica 17,24% do total da variância
O fator F3 possui uma relação forte com as
acumulada e está ligado as instalações e
variáveis X12 e X13, ou seja, o valor bruto da
serviços fornecidos as populações e aos
produção por estabelecimento agropecuário
domicílios rurais, o que Kageyama (2008)
e por pessoa ocupada na agropecuária,
trata como condições de bem estar nos
respectivamente. É um fator ligado aos
domicílios rurais.
indicadores de desempenho econômico
O fator F2 é positivamente relacionado com derivados da produção e produtividade
as variáveis X1, de densidade demográfica; agropecuária, característicos do modelo de
X5, X11 e X7, ou seja, IDH – Longevidade, produção agropecuário moderno.
IDH – Renda e intensidade de não pobres,
O fator F4 está relacionado com as variáveis
respectivamente. Entretanto, o fator F2 é
X2 e X15 que correspondem ao crescimento
negativamente relacionado a variável X3, a
da população rural no período medido e a
proporção de população rural no município. O
cobertura de matas naturais ou plantadas,
fator dá ênfase a indicadores de ordem social
respectivamente. Por outro lado, há uma
para o município como um todo, que podem
relação negativa com a variável X4, a

Administração Rural - Volume 1


72

população de migrantes. Ou seja, este fator Uma vez verificadas as cargas fatoriais, o
revela uma forte relação do crescimento passo seguinte é observar os escores
populacional rural naqueles municípios de fatoriais, ou seja, o valor do fator para cada
maior riqueza de recursos naturais, o que município do estado. A análise do fator deve
revela uma correlação entre o ser feita levando em conta que seus escores
desenvolvimento rural e a abundância de originais, quando considerados todos os
recursos naturais. Por outro lado, há uma municípios em conjunto, são variáveis com
correspondência entre este desenvolvimento média e desvio padrão igual a 1. Portanto,
e a característica da população local pode-se interpretar que os escores com
(migrante ou nativa). O aumento da taxa de valores próximos de zero indicam nível de
crescimento da população rural medido neste desenvolvimento médio e, quanto maior em
período está associado aos municípios com relação a zero for o fator, mais avançado será
menor população migrante, e vice-versa. o município, no que se refere ao significado
do fator em consideração. A Tabela 4, em
O fator F5 possui uma relação com a variável
anexo, apresenta os resultados por município.
X14, que abrange os estabelecimentos com
práticas de conservação. É um fator que leva O IDR médio situou-se em 41,64. A partir daí,
em consideração exclusivamente o aspecto foram definidas as categorias de
ambiental do modelo de produção. desenvolvimento rural. Pode-se então
construir um mapa que melhor visualiza como
O fator F6 também possui uma relação com
está a distribuição do desenvolvimento rural
outro indicador ambiental relativo ao modelo
dentro do estado, apresentado na Figura 1.
de produção, a variável X16, indicador
ambiental que revela estabelecimentos que
não utilizam agrotóxico.

Figura 1 – Mapa do Índice de Desenvolvimento Rural dos municípios do Pará

Fonte: Elaboração própria, 2017, a partir dos dados obtidos

Os municípios do estado são agrupados de divisão administrativa que adota 12 regiões


acordo com a sua localização através da de integração, conforme a Figura 2.

Administração Rural - Volume 1


73

Figura 2 – Mapa das Regiões de Integração do Estado do Pará

Fonte: Elaboração própria, 2018.


A Tabela 3 mostra que, de acordo com a registrados municípios de todas as regiões,
classificação, as regiões Metropolitana e Rio com exceção da Metropolitana. Na categoria
Capim possuem quatro municípios com grau de desenvolvimento muito baixo (MB) há
de IDR muitíssimo alto e muito alto (MMA e municípios das regiões do Araguaia, Baixo
MA). Na categoria de alto desenvolvimento Amazonas, Carajás, Marajó, Rio Capim,
(A) não há municípios das regiões Lago de Tapajós e Xingu. A região Marajó tem três
Tucuruí, Marajó, Tapajós e Xingu. Tanto na municípios na mais baixa categoria de
categoria de médio desenvolvimento (M) desenvolvimento (MMB).
quanto na de baixo desenvolvimento (B) são

Tabela 3 – Grau de desenvolvimento rural dos municípios paraenses


Região Número do Municípios por grau de desenvolvimento
MMA MA A M B MB MMB
Araguaia 0 0 2 5 7 1 0
Baixo Amazonas 0 0 1 5 5 1 0
Carajás 0 0 1 2 7 2 0
Guamá 0 0 6 9 3 0 0
Lago de Tucuruí 0 0 0 1 6 0 0
Marajó 0 0 0 2 5 6 3
Metropolitana 2 1 2 0 0 0 0
Rio Caeté 0 0 1 6 8 0 0
Rio Capim 1 0 1 5 8 1 0
Tapajós 0 0 0 2 3 1 0
Tocantins 0 0 2 3 6 0 0
Xingu 0 0 0 4 5 1 0
Fonte: Resultados da pesquisa
Somando-se os municípios abaixo da linha de urbana proporciona maior mercado
médio desenvolvimento chega-se ao total de consumidor para os produtos provenientes
79 ou 55,24% dos municípios, ou seja, mais das áreas rurais, estimulando a diversificação
da metade dos municípios do estado do Pará da produção. Belém, Ananindeua e Marituba
encontra-se com baixo grau de apresentam melhores indicadores sociais.
desenvolvimento. Benevides, Marituba e Santa Bárbara do Pará
apresentam maior acesso a infraestrutura e
A região Metropolitana é a única que
serviços no meio rural. Há um aumento da
apresenta todos os municípios classificados
população rural em municípios de grande
entre graus de desenvolvimento alto e
porte como Belém e Ananindeua. Conforme
muitíssimo alto. A região ainda concentrava
explica Silva (1997), nas regiões
45% do PIB estadual no ano de 2005 (SILVA,
metropolitanas as populações são atraídas
2012). A elevada concentração de população

Administração Rural - Volume 1


74

por empregos gerados por indústrias e serviços pela população rural, mas baixos
agroindústrias instaladas nas áreas rurais, a indicadores sociais. O município de Nova
expansão de condomínios rurais e zonas Esperança do Piriá é o de mais baixo
suburbanas e atividades ligadas a desenvolvimento na região. Entretanto há um
preservação ambiental. município com grau de desenvolvimento
muito alto, Ulianópolis, e outro com grau de
O Guamá é a segunda região em proporção
desenvolvimento alto, Paragominas.
de municípios com maior desenvolvimento
rural. A região beneficia-se da proximidade Ulianópolis e Paragominas destacam-se com
com a área metropolitana e o acesso ao seu índices econômicos de produção por
mercado consumidor. O principal município estabelecimento e por pessoa ocupada na
da região é Castanhal que, segundo o Atlas agropecuária. Em Ulianópolis desenvolve-se
de Integração Regional do Estado do Pará uma agricultura altamente tecnificada através
(PARÁ, 2010), possui uma importante do plantio de cana para produção de açúcar.
produção industrial e funciona como um Este município, porém, apresenta
centro comercial fornecedor de insumos e infraestrutura e indicadores sociais piores que
equipamentos para a agricultura. A vários municípios da região. O município de
população rural é beneficiada pelo acesso a Paragominas apresenta maior destaque na
infraestrutura e serviços em todos os região, constituindo-se como um provedor de
municípios. Os indicadores sociais, todavia, serviços, máquinas e equipamentos. No setor
ainda são desiguais entre os municípios. O agropecuário também destaca-se através da
município de São João da Ponta destaca-se produção de grãos e pecuária.
pela alta produção por estabelecimento e por
Na região Tocantins ocorre uma característica
pessoa ocupada na agropecuária, sendo o
que diferencia estes municípios entre si que é
seu principal produto a mandioca.
o meio de transporte. Parte deles são
Conforme Costa (2000) e Hébette (2004), atravessados pelo rio Tocantins e os
citados por Silva (2012), os municípios da principais acessos são pelos rios. Em outros
região Rio Caeté estão em sua maioria os acessos principais são por estradas.
classificados com IDR abaixo da média do Municípios como Barcarena e Tailândia
estado. A maior parte dos municípios desta apresentam um alto IDR, com bons resultados
região, conhecida anteriormente como para infraestrutura e serviços na área rural e
Bragantina, teve grande participação na indicadores sociais. Em Barcarena está
riqueza estadual nos séculos passados, presente o projeto Albrás-Alunorte onde ficam
porém se distanciou da rota dos as maiores fábricas de alumínio do país,
investimentos dos interesses do capital constituindo-se em um polo na região. Moju e
privado e dos interesses governamentais, em Tailândia apresentaram alta produtividade
especial, porque tinha uma produção mais rural, sendo municípios produtores de óleo de
restrita à capital Belém. dendê. Porém, os indicadores sociais de Moju
são baixos. Os municípios atravessados por
Em geral, a maioria dos municípios do Rio
rios mantêm uma boa cobertura florestal e
Caeté apresentou melhorias nos indicadores
apresentam um aumento da população rural.
de acesso a infraestrutura e serviços pelos
Estes municípios possuem baixa quantidade
domicílios rurais. Entretanto, os indicadores
de população migrante, o que pode associar
sociais da grande maioria são baixos.
o desenvolvimento rural a característica
Destacam-se os municípios de Salinópolis,
cultural da população nativa. Ou seja, a
que possui o turismo como importante
população nativa amazônica explora os
atividade econômica, e Capanema com bons
recursos naturais de forma menos destrutiva.
indicadores sociais. Bragança é o município
Por outro lado, os indicadores sociais e de
mais populoso da região (PARÁ, 2010).
infraestrutura e serviços para o meio rural
A região Rio Capim, chamada anteriormente para esses municípios são baixos.
de Guajarina, começou a ser colonizada entre
Os municípios da região Marajó são aqueles
a década de 1940 e 1950, com orientação ao
que apresentam os piores indicadores de
abastecimento do mercado de Belém (SILVA,
desenvolvimento rural. Sete municípios da
2012). Apresenta maior variabilidade na
região figuram entre os dez piores IDR do
classificação dos municípios quanto ao IDR. A
estado. A região apresenta baixa densidade
maioria dos municípios está entre médio e
demográfica, com elevada proporção de
baixo IDR. Em geral, apresentam indicadores
população rural, o que traduz pouco
razoáveis de acesso a infraestrutura e
desenvolvimento urbano e indicadores sociais

Administração Rural - Volume 1


75

baixos. Os indicadores de bem estar dos José Porfírio apresentou o IDR mais baixo da
domicílios rurais são os piores do estado, região.
devido à pouca infraestrutura e serviços
Os municípios da região do Lago do Tucuruí
fornecidos a população rural. Soure e
em geral apresentaram baixo IDR. Apenas
Salvaterra apresentaram IDR dentro da média
Breu Branco apresentou IDR médio. Tucuruí,
estadual, com melhores indicadores de
onde está implantada a hidrelétrica de
infraestrutura para o meio rural. Breves é o
Tucuruí, apresenta os melhores indicadores
município mais populoso da região (PARÁ,
sociais. Entretanto, praticamente todos os
2010). A ausência de dados para alguns
municípios da região apresentam indicadores
indicadores ambientais de alguns desses
de infraestrutura e serviços para a área rural
municípios (como pode ser observado na
baixos.
Tabela 4) pode ter rebaixado um pouco o
índice final do IDR, sem entretanto alterar Na região Carajás ocorre um município com
substancialmente a tabela de classificação. alto IDR, Parauapebas, onde está instalado o
Melgaço é o município com o pior IDR do projeto de extração de minério de ferro de
estado, o que tem correspondência com a Carajás desde a década de 1980. Marabá,
classificação de pior IDH do país em 2010 município que centraliza equipamentos e
(PNUD, 2013), com destaque para as altas serviços na região, apresenta somente um
taxas de analfabetismo. médio IDR. Canaã dos Carajás, onde está
instalado outro grande projeto de mineração
Na região Baixo Amazonas destaca-se o
também apresenta médio IDR. Os demais
município de Terra Santa com alto IDR, com
municípios apresentam baixos indicadores
bons indicadores de bem estar para os
sociais e de infraestrutura para o
domicílios rurais. Santarém possui os
desenvolvimento rural. Nota-se uma redução
melhores indicadores sociais e é o município
generalizada da população rural nos
mais populoso da região e provedor de
municípios desta região durante o período
serviços administrativos, educacionais e de
estudado. Uma das hipóteses é que estes
outras ordens na região. Os municípios de
municípios tenham perdido população rural
Oriximiná e Alenquer, onde se encontra
para áreas urbanas dos municípios
instalado o projeto de mineração de bauxita
mineradores dentro da própria região, tendo
Rio do Norte, apresentaram médio e baixo
em vista a grande expansão populacional
IDR. Ou seja, a implantação de grandes
nestes últimos.
projetos minerais na região não trouxeram
impactos muito positivos nas áreas rurais. Pode ser verificada uma correlação entre a
Faro possui o mais baixo IDR na região. redução da população rural e a reduzida
proporção de áreas de mata nativa nesta
Os municípios da região Tapajós apresentam
região (F4). Isto pode ser explicado devido a
baixo IDR em geral. A densidade demográfica
atividade pecuária bovina ser a principal
é baixa, com elevada proporção de
forma de exploração agropecuária na região.
população rural. Os melhores indicadores
A expansão da pecuária ocorre com o avanço
sociais encontram-se em Novo Progresso e
em áreas de floresta e, em pequenas áreas,
Itaituba que apresentam IDR médio. Itaituba é
isso leva ao que é chamado de “crise da
o município mais populoso da região (PARÁ,
capoeira”, devido ao aumento
2010). Entretanto, os indicadores de bem
desproporcional das pastagens e a uma
estar para os domicílios rurais são baixos.
“crise técnica” da pecuária devido à
Jacareacanga é o município com mais baixo
sobrelotação (HURTIENNE, 2005). As áreas
IDR na região, com indicadores de cobertura
antigas tornam-se improdutivas e com a
de infraestrutura e serviços rurais muito
redução das áreas florestais, o agricultor não
baixos.
encontra novas reservas para dar
Na região Xingu, Altamira é o município polo. continuidade a sua produção e a “estratégia
A região apresenta bons indicadores sociais, de fronteira”, descrita por REYNAL et al. (1996
entretanto, com indicadores baixos de bem apud HURTIENNE, 2005), pode estar sendo
estar para os domicílios rurais, assim como prejudicada.
todos os demais municípios da região. Assim
Na região Araguaia o município de Sapucaia
como a região Tapajós, esta é uma região de
apresentou alto IDR, devido aos componentes
ocupação mais recente, a partir da
econômicos produtividade por
implantação da rodovia Transamazônica na
estabelecimento e por pessoa ocupada na
década de 1970, e com precária
agropecuária. No município há grandes
infraestrutura rural. O município de Senador

Administração Rural - Volume 1


76

fazendas de criação de rebanho bovino com indicadores sociais melhoraram


maior uso de tecnologia. Com bons especialmente naqueles municípios onde se
indicadores sociais, Redenção também instalaram. Este comportamento dos
apresenta alto IDR, destacando-se como um indicadores é replicado também para o rural.
provedor de serviços para o setor Não houve uma política de regionalização dos
agropecuário na região, apesar de não se benefícios oriundos da mineração, o que
destacar tanto pela concentração contribui para um fluxo interno dentro destas
populacional. Em geral, os municípios da regiões em direção aos municípios
região apresentam bons indicadores sociais, mineradores.
porém com baixos indicadores de bem estar
A infraestrutura das áreas rurais dos
para os domicílios rurais. O pior IDR foi
municípios do interior do estado é mais
registrado para o município de Pau D’Arco.
precária de acordo com a dificuldade de
Boa parte destes municípios apresentou o
acesso e grau de isolamento destas áreas. A
mesmo fenômeno de redução da população
ilha do Marajó, onde concentram os
rural que a região de Carajás. Neste caso, a
municípios com os piores índices de
pecuária também é um componente muito
desenvolvimento rural, sofre com o isolamento
importante no crescimento do PIB nesta
apesar da maior proximidade geográfica com
região (SILVA, 2012). Tanto a região de
a capital. A região Tapajós é impactada pela
Carajás quanto a Araguaia possuem grande
dificuldade de acesso, principalmente em
população migrante, o que pode associar as
determinadas épocas do ano, devido a
características do desenvolvimento rural a
precariedade da rodovia Transamazônica,
cultura local.
cujo asfaltamento não foi concluído.
O desenvolvimento regional mostra-se um
5. CONSIDERAÇÕES FINAIS desafio para um estado das dimensões do
Pará. A colonização de regiões distantes não
O desenvolvimento rural é um fator
foi acompanhada de investimentos em obras
relacionado a múltiplos aspectos da vida no
e serviços adequados ao provimento de
campo. O estado do Pará destaca-se na
qualidade de vida as populações tradicionais
região Amazônica pela marcante presença de
que já habitavam e aquelas que migraram
populações rurais. Os grandes projetos na
com o objetivo de possuir um pedaço de
Amazônia e as políticas de colonização da
chão para cultivar.
região levaram a ocupação de praticamente
todo território paraense. Este fluxo em tão Destaca-se que o modelo de desenvolvimento
pouco espaço de tempo foi feito de forma adotado nas regiões de maior crescimento
desordenada, tendo impactos sociais e baseado na exploração mineral e na pecuária
ambientais. Procurando dimensionar as extensiva pode levar a um colapso das
diferenças nas áreas rurais, classificou-se os riquezas naturais em um curto espaço de
municípios do estado em diferentes graus de tempo, o que deve ser alvo de preocupação
desenvolvimento, a partir da análise fatorial. para a implantação de políticas públicas que
revertam esta tendência e garantam um
A região Metropolitana aparece ainda como a
presente e um futuro para a população
maior propulsora de desenvolvimento e o
paraense.
maior número de municípios com alto
desenvolvimento rural nas suas proximidades. Consideramos importante a continuidade das
Nela concentram-se investimentos estaduais, análises a respeito dos indicadores de
infraestruturas administrativas e serviços que desenvolvimento rural para que seja
atraem a população e geram melhores observado se as tendências encontradas na
condições de vida, apesar do crescimento de última década estão sendo mantidas ou se
áreas periféricas com moradias precárias em sofreram alguma alteração. Sugerimos a
áreas urbanas. captação de variáveis ambientais mais
adequadas que possam também estabelecer
Os grandes projetos levaram a
uma melhor análise entre o modelo de
descentralização econômica na geração de
desenvolvimento agrário e agrícola com a
riqueza dentro do estado. Entretanto, essa
qualidade do uso dos recursos naturais, como
descentralização privilegiou mais
por exemplo, a quantidade de agrotóxico
determinadas regiões do estado em
consumido no município.
detrimento de outras. Mesmo no interior das
regiões marcadas pelos projetos minerais, os

Administração Rural - Volume 1


77

NOTAS estabelecimentos que não praticam atos de


conservação do solo com os que praticam
1 - Não foi incluído o município de Mojuí dos
queimadas, e subtraiu do total de
Campos nesta análise, pois no período de
estabelecimentos.
pesquisas realizadas pelo IBGE, de 2000 a
2010, o mesmo ainda pertencia ao município 6 - Para a variável matas naturais e plantadas
de Santarém. foram consideradas as áreas de matas e/ou
florestas naturais destinadas à preservação
2 - Mais informações ver Mingoti (2005, p.
permanente ou reserva legal; as áreas de
137).
matas e/ou florestas naturais (exclusive área
3 Mais informações ver Mingoti (2005, p. 138). de preservação permanente e as áreas em
sistemas agroflorestais) e a área cultivada
4 - O Atlas de Desenvolvimento Humano
com espécies florestais também usadas para
considerou para o ano de 2010 a linha de
lavouras e pastejo de animais.
pobreza no valor de R$ 140,00 de renda
familiar per capita de pobres. O cálculo da 7 - Foram considerados como
Intensidade de Pobreza também considerou estabelecimentos que utilizam agrotóxico a
este mesmo valor de linha de pobreza soma dos que utilizam, mais os que utilizam
(R$ 140,00). Portanto, a Intensidade de mas não precisaram utilizar em 2006.
Pobreza é a diferença da renda domiciliar per
8 - Estabelecimentos com uso de adubação
capita média dos indivíduos pobres (renda
orgânica é o resultado da soma de esterco
domiciliar per capita inferior à R$ 140,00) do
e/ou urina animal + adubação verde +
valor de R$ 140,00, dividido por R$ 140,00 e
vinhaça + húmus de minhoca +
multiplicado por 100.
biofertilizantes + inoculantes + composto
5 - Para determinar os estabelecimentos com orgânico
práticas de conservação somaram-se os

REFERÊNCIAS
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Administração Rural - Volume 1


79

ANEXO
Tabela 4 – Fatores (F), índice de desenvolvimento rural (IDR) e grau de desenvolvimento (GD) dos
municípios paranaenses, por ordem de classificação no Estado.
Municípios Região F1 F2 F3 F4 F5 F6 IDR GD

Ulianópolis Rio Capim -0,32593 -0,07600 8,83565 1,03194 0,38853 1,15588 100,00 MMA

Ananindeua Metropolitana -2,21164 5,34514 -1,60807 3,49059 4,23609 0,00246 90,52 MMA

Belém Metropolitana 0,23124 4,13734 -0,81500 2,96506 0,26667 0,02843 88,92 MMA

Benevides Metropolitana 2,38342 0,94713 1,16288 0,76669 1,15383 -1,46530 80,35 MA

Salinópolis Rio Caeté 1,68895 1,44428 -0,59376 1,19751 -1,29013 1,36676 70,38 A

Tailândia Tocantins 0,96962 0,69743 1,39782 1,31085 -0,82166 0,46216 68,71 A

Santa Isabel do Pará Guamá 0,76080 1,11893 1,09720 0,83803 1,38031 -1,44398 68,53 A

Barcarena Tocantins 2,09518 0,47607 0,61532 0,29409 -0,84157 0,78509 68,36 A

Marituba Metropolitana 1,58978 2,51639 -1,06584 -0,90569 0,68958 -0,40564 67,81 A

Curuçá Guamá 2,42848 -0,93968 0,16888 1,55834 1,01105 -0,39909 65,42 A

Paragominas Rio Capim 0,96585 0,91478 1,51815 -0,31128 0,31506 -0,36428 65,32 A

Castanhal Guamá 1,15120 1,43141 0,21976 0,41225 1,01014 -2,07935 64,01 A

Parauapebas Carajás 1,90327 1,45802 0,04058 -1,27165 -0,54396 0,17975 63,62 A

Santa Maria do Pará Guamá 1,33010 -0,25085 0,57746 0,37429 2,25211 -0,77533 62,10 A

Sapucaia Araguaia 0,35365 0,83199 2,14643 -0,42832 -0,84193 0,32315 60,35 A

São João da Ponta Guamá -0,85387 -0,15303 3,92032 -0,43102 1,77911 -0,71267 58,23 A

Santa Bárbara do Pará Metropolitana 1,94587 -0,18134 0,57640 0,20237 -0,20140 -0,73681 58,18 A

Terra Santa B. Amazonas 1,21353 0,10754 0,55830 1,11252 -1,05662 0,17329 58,13 A

Redenção Araguaia -0,49704 1,74853 0,95451 -0,63698 0,79290 -0,12489 57,47 A

Terra Alta Guamá 1,17587 0,16714 -0,19547 0,17321 1,45283 -0,43329 56,99 A

Novo Progresso Tapajós 0,19423 2,15739 0,35930 -1,20354 -1,41772 0,76776 55,53 M

São Miguel do Guamá Guamá 1,55999 -0,71471 -0,24724 0,57746 1,43922 -0,13454 55,30 M

Magalhães Barata Guamá 1,94756 -0,48865 -0,95848 0,93051 -0,48983 1,14146 55,03 M

Vigia Guamá 0,89650 0,17976 0,17434 0,14138 0,63058 -0,43138 53,61 M

Dom Eliseu Rio Capim 0,85629 0,18824 0,51932 -0,75035 0,36761 0,29191 52,65 M

Santo Antônio do Tauá Guamá 1,09245 -0,38500 -0,55698 0,65712 1,35689 -0,05586 52,54 M

Xinguara Araguaia 0,86577 1,43002 0,46327 -1,48114 -1,24084 -0,28418 51,70 M

Marabá Carajás 0,57003 0,94006 0,47534 -0,77670 -1,09144 0,14167 50,22 M

Santarém B. Amazonas 0,23303 1,12450 -0,46451 0,66140 -1,14821 0,28302 50,20 M

Itaituba Tapajós 0,45175 1,07497 -0,43401 -0,27434 -1,02973 0,88921 50,01 M

São Domingos do Capim Guamá 1,85266 -0,25548 -0,40907 -0,10488 -0,13320 -0,71298 49,87 M

Canaã dos Carajás Carajás 0,79364 1,07051 0,32115 -2,26349 0,30478 -0,24773 49,50 M

São Francisco do Pará Guamá 2,60624 -1,32024 0,19517 0,26278 -0,98776 -0,79962 49,09 M

Salvaterra Marajó 0,81408 -0,09431 -0,24130 -0,19810 0,64154 0,31873 49,07 M

Mãe do Rio Rio Capim 1,66809 0,30054 -0,84636 -1,41280 -0,32085 0,75870 48,59 M

Moju Tocantins -0,43120 -0,60349 1,50791 0,29426 0,93495 0,62836 48,51 M

Capanema Rio Caeté 0,67518 0,66059 -0,64287 -0,30929 0,16559 -0,07707 48,34 M

São Félix do Xingu Araguaia -0,22587 0,40948 0,46185 1,12111 -1,44888 0,66402 47,78 M

Marapanim Guamá 1,06991 -0,51712 -0,54245 -0,04788 1,27156 -0,06519 47,71 M

Santana do Araguaia Araguaia 0,10421 0,29676 0,61168 0,58802 -1,33942 0,40011 47,66 M

Tomé-Açu Rio Capim 0,16101 0,78096 -0,25366 0,82189 -0,14188 -1,17108 47,60 M

Concórdia do Pará Rio Capim -0,15088 -0,27271 0,06037 0,50274 1,59587 0,25225 47,49 M

Administração Rural - Volume 1


80

(continuação...)
Municípios Região F1 F2 F3 F4 F5 F6 IDR GD

Baião Tocantins 0,31148 -0,34721 -0,04917 1,74395 0,72607 -1,32306 47,48 M

Belterra B. Amazonas 0,80990 -0,33652 -0,52881 0,89863 -0,86216 1,15231 47,42 M

Igarapé-Açu Guamá 0,51353 -0,38908 0,10065 0,03037 1,40141 -0,60050 46,81 M

Maracanã Guamá 1,22002 -0,68002 -0,74741 0,85077 -0,23631 0,47647 46,68 M

Juruti B. Amazonas 0,63081 -0,80088 -0,20218 1,14143 -0,12738 0,80714 46,55 M

Soure Marajó 0,63633 0,23474 0,11736 -0,88372 -0,07701 0,16128 46,06 M

Ourilândia do Norte Araguaia -0,05414 1,14352 0,17228 -0,99292 -1,11404 0,84256 45,97 M

Mocajuba Tocantins -0,23855 0,00445 -0,21431 1,01605 1,18591 -0,46249 45,94 M

Tucumã Araguaia -0,30701 1,58509 0,00556 -1,72045 -0,05664 0,44304 45,87 M

Santarém Novo Rio Caeté 2,26255 -1,09511 -0,36801 0,09717 -0,00607 -1,58181 45,06 M

Placas Xingu -0,04974 -0,31005 0,19805 1,37143 -0,89454 0,62548 44,73 M

Almeirim B. Amazonas -0,18579 1,06604 -0,49520 0,53541 -1,57869 0,56182 44,60 M

Vitória do Xingu Xingu 0,09473 0,10215 -0,25388 -0,42325 0,90914 0,13966 43,78 M

Bragança Rio Caeté -0,14612 -0,05464 -0,41017 -0,19359 1,41206 0,56195 43,76 M

Altamira Xingu -0,84579 1,57649 -0,32331 0,21668 -1,09705 0,25947 43,56 M

Oriximiná B. Amazonas -0,46532 0,32237 -0,31055 0,88107 -0,16408 0,43872 43,39 M

São João de Pirabas Rio Caeté 0,13988 -0,68347 -0,38331 0,63217 0,90483 0,65349 43,24 M

Quatipuru Rio Caeté 1,11692 -1,10952 -0,30391 -0,87816 1,04932 0,96335 43,21 M

Breu Branco L. de Tucuruí 0,14507 0,13913 0,00064 -0,25684 -0,60039 0,48173 42,25 M

Bonito Rio Caeté 0,81277 -0,84569 -0,26771 0,34353 -0,06657 0,27581 42,17 M

Anapu Xingu -0,56446 0,35432 0,19171 0,82213 -1,49103 0,92565 42,10 M

Ipixuna do Pará Rio Capim 0,89636 -1,52303 0,29820 0,70681 -0,15671 0,24011 41,65 M

Rio Maria Araguaia -0,69434 1,39838 0,64204 -1,32502 -0,17411 -0,92355 41,49 B

Ourém Rio Capim 0,74004 -1,05942 -0,30173 -0,30621 0,84603 0,72330 41,44 B

Abel Figueiredo Rio Capim -0,67701 1,52314 0,18500 -1,40247 -0,66167 0,16037 41,42 B

Nova Timboteua Rio Caeté 0,96591 -0,26314 -0,32911 0,24473 -0,86288 -0,81500 41,07 B

Colares Guamá 0,84442 -0,85282 -0,65359 0,25658 -0,03678 0,63304 41,02 B

Bom Jesus do Tocantins Carajás 0,21056 0,29484 -0,08035 -1,05080 -0,35594 0,26634 40,23 B

Trairão Tapajós -0,32537 -0,01957 -0,17638 0,39521 -0,77375 1,12378 40,22 B

Inhangapi Guamá 0,54124 -0,89717 0,04225 0,16451 0,16394 -0,07411 40,07 B

Palestina do Pará Carajás -0,60502 -0,41312 -0,30655 -1,76924 3,52679 1,12218 39,86 B

Abaetetuba Tocantins -0,60414 0,70286 -0,46081 0,61836 -0,65122 -0,08999 39,77 B

Rondon do Pará Rio Capim -0,83155 0,79342 0,09406 -0,26054 -0,66342 0,31984 39,08 B

Rurópolis Tapajós -0,56008 -0,13724 -0,12096 1,04425 -0,75943 0,64771 38,96 B

Bujaru Rio Capim -0,24342 -0,44761 -0,51349 1,49526 -0,75829 0,64903 38,85 B

Irituia Rio Capim 0,35531 -1,13640 0,28100 0,00764 0,11111 0,23668 37,92 B

Óbidos B. Amazonas -0,48446 -0,34439 -0,42060 0,53983 0,39893 0,46610 37,53 B

São Sebastião da Boa Vista Marajó -1,11503 -0,07784 -0,48685 1,98707 -0,62672 0,70296 37,50 B

Curionópolis Carajás -0,64183 0,81420 1,36862 -1,36709 -0,92970 -1,14149 37,47 B

Cametá Tocantins -0,30724 -0,47420 -0,52631 0,93608 -0,06197 0,29404 36,86 B

Brejo Grande do Araguaia Carajás -0,11182 -0,42843 0,11499 -1,49130 0,81798 0,89369 36,85 B

Bagre Marajó -1,74675 -0,49543 1,67317 0,83721 0,34701 -0,25325 36,31 B

Tracuateua Rio Caeté -0,15071 -0,75948 -0,64519 0,68546 1,79551 -1,11656 36,27 B

Cumaru do Norte Araguaia -0,89711 0,06206 0,78367 0,06406 -1,37255 0,65838 36,25 B

Jacundá L. de Tucuruí -0,67474 0,78759 -0,39026 -1,21157 0,25811 0,15473 36,10 B

Administração Rural - Volume 1


81

(continuação...)
Municípios Região F1 F2 F3 F4 F5 F6 IDR GD

Porto de Moz Xingu -1,19773 -0,43062 -0,18242 1,68620 -0,10391 0,62354 35,87 B

Novo Repartimento L. de Tucuruí -0,17599 -0,60085 -0,10777 -0,44793 0,09649 0,97531 35,87 B

Primavera Rio Caeté 0,47533 -0,56048 -0,54408 -0,55634 -0,15798 0,34516 35,79 B

Tucuruí L. de Tucuruí -0,89965 1,89763 -0,82027 -1,34366 0,14863 -1,17926 35,67 B

Capitão Poço Rio Capim 0,03681 -0,77612 -0,02476 -0,48048 1,37855 -0,77155 35,61 B

Conceição do Araguaia Araguaia -0,60391 0,68528 -0,41773 -1,02182 0,08028 0,06110 35,58 B

Aveiro Tapajós -0,22096 -1,23676 -0,70217 1,31844 0,17721 1,11595 35,45 B

Medicilândia Xingu -0,11602 0,26633 -0,33591 -0,27617 -1,36153 0,15418 35,05 B

Augusto Corrêa Rio Caeté 0,02808 -0,87436 -0,75390 0,97258 -0,15145 0,31729 34,95 B

Curuá B. Amazonas -0,25856 -0,59171 -0,71718 0,22374 0,41507 0,63535 34,81 B

Peixe-Boi Rio Caeté 0,27065 -0,80100 -0,31615 -0,32019 0,12413 0,12782 34,72 B

Oeiras do Pará Tocantins -0,78820 -0,56035 -0,39630 1,30648 -0,30110 0,61227 34,55 B

Goianésia do Pará L. de Tucuruí -0,67504 -0,06194 -0,03255 -0,93770 0,34763 0,75221 34,51 B

Muaná Marajó -0,83476 -0,04587 -0,47413 0,77283 -0,32834 0,26069 34,37 B

Bannach Araguaia -0,56614 0,43307 0,43083 -1,37703 -1,08094 0,45337 34,03 B

Água Azul do Norte Araguaia 0,40971 -0,37519 -0,09198 -0,82564 -1,37639 0,27133 33,40 B

Uruará Xingu -0,80470 0,74500 -0,59393 -0,35588 -1,16730 0,54372 33,27 B

Alenquer B. Amazonas -0,74821 -0,22739 -0,27449 0,89146 -0,69623 0,04714 33,20 B

Monte Alegre B. Amazonas -0,08012 -0,59559 -0,89151 0,04009 0,34236 0,32823 33,18 B

Brasil Novo Xingu -0,49250 0,61812 -0,46976 -0,80379 -1,36770 0,39239 32,33 B

São Domingos do Araguaia Carajás -0,40564 0,13147 -0,28358 -1,49193 0,59445 -0,20000 32,27 B

Acará Tocantins -0,57392 -0,88077 -0,32981 0,39423 0,76004 0,07252 32,09 B

Prainha B. Amazonas -0,40717 -0,61672 -0,61442 0,89765 -0,75909 0,44092 31,95 B

Santa Maria das Barreiras Araguaia -0,17445 -0,18756 -0,08791 -1,10501 -1,11366 0,92927 31,80 B

São Caetano de Odivelas Guamá -0,07410 -1,04470 -0,29915 0,13577 0,04636 0,20527 31,79 B

Viseu Rio Caeté 0,02183 -1,18299 -0,18810 -0,14738 0,03905 0,37214 31,32 B

Portel Marajó -1,89628 -0,77658 1,36970 0,89943 -0,07927 0,17213 30,92 B

Floresta do Araguaia Araguaia -1,07958 0,14825 -0,11003 -1,15911 0,80700 0,07227 30,79 B

Nova Ipixuna L. de Tucuruí -0,55970 0,34230 -0,23597 -1,38197 -0,34353 -0,01561 30,60 B

São Geraldo do Araguaia Carajás -0,23693 0,54405 -0,19769 -1,65501 -0,06857 -1,45842 30,37 B

Pacajá Xingu -0,51330 -0,81967 -0,17627 -0,26711 -0,33342 1,10750 30,31 B

Cachoeira do Arari Marajó 0,33950 -0,89881 -0,49222 -0,39004 -1,10843 0,48077 29,67 B

Igarapé-Miri Tocantins -1,10510 -0,53501 -0,04086 -0,00508 0,68828 -0,03982 29,63 B

Eldorado dos Carajás Carajás -0,49433 -0,16332 -0,36041 -1,69837 0,51872 0,48048 29,55 B

Itupiranga L. de Tucuruí -0,43784 -0,81886 -0,30933 -1,24794 0,97628 0,75965 29,46 B

Limoeiro do Ajuru Tocantins -0,93439 -0,75929 -0,53915 1,29840 -0,66515 0,52562 29,05 B

Aurora do Pará Rio Capim -0,04202 -1,00320 -0,18226 -0,05458 -0,40486 -0,25809 29,01 B

Santa Luzia do Pará Rio Caeté -0,41123 -1,24482 -0,40573 -1,32776 2,06244 0,32996 27,78 B

Cachoeira do Piriá Rio Caeté -1,06130 -1,04184 0,60309 0,95626 -0,93851 -0,03641 27,78 B

Garrafão do Norte Rio Capim -0,61773 -0,60968 -0,42218 -0,52943 0,67226 -0,54496 26,86 B

São João do Araguaia Carajás -0,23916 -1,27557 0,07181 -1,23473 0,49973 0,33769 26,40 MB

Senador José Porfírio Xingu -1,59795 -0,23164 -0,67210 -0,70419 1,84095 0,10789 25,82 MB

Pau D'Arco Araguaia -0,92458 -0,24278 -0,46967 -1,64581 0,80743 0,34598 25,36 MB

Breves Marajó -1,67981 -0,23437 -0,21036 0,45655 -0,14854 -0,06658 25,08 MB

Piçarra Carajás -0,48106 -0,15455 -0,12531 -1,58944 -0,51738 -0,42841 24,72 MB

Administração Rural - Volume 1


82

(continuação...)
Municípios Região F1 F2 F3 F4 F5 F6 IDR GD

Gurupá Marajó -1,40974 -0,55775 -0,26134 0,82450 -0,85328 0,05687 23,82 MB

Nova Esperança do Piriá Rio Capim -0,75119 -0,95306 -0,13068 -0,64553 0,34748 -0,42497 23,12 MB

Faro B. Amazonas -0,92473 -0,24810 -1,14126 -0,63182 -0,31209 0,09979 21,02 MB

Afuá Marajó -1,67532 -1,05972 0,07020 0,38858 -0,10486 0,16963 20,35 MB

Santa Cruz do Arari Marajó 1,25977 -0,94322 -0,10312 -0,56279 -1,34609 -4,95602 19,95 MB

Anajás Marajó -1,93176 -0,81289 0,40719 -0,12490 0,09762 -0,30132 19,04 MB

Chaves Marajó -1,19045 -1,28565 -0,18550 0,09435 -0,77182 0,00683 16,75 MB

Jacareacanga Tapajós -1,66209 -0,55445 -0,45652 -1,32311 0,16765 0,00311 14,29 MB

Ponta de Pedras Marajó -0,56565 -0,32788 -0,39224 -0,03024 -1,65308 -4,30467 11,04 MMB

Curralinho Marajó -1,69571 -0,38560 -0,45166 0,84607 -1,21555 -4,31379 5,99 MMB

Melgaço Marajó -2,24824 -0,84885 0,00558 0,78661 -0,89289 -4,56772 0,00 MMB

Administração Rural - Volume 1


83

Capítulo 6

Maria Raíza Vicente da Silva


Maria Gilca Pinto Xavier

Resumo: Devido às políticas de desenvolvimento regional implementadas desde a


metade do século XX, o Vale do São Francisco experimentou nos últimos anos
expressivo crescimento de sua fruticultura, sendo hoje um grande exportador de
manga e uva, abrangendo os estados de Pernambuco e Bahia. O objetivo deste
trabalho consiste em analisar a ocorrência de vantagens comparativas nos setores
de exportação de uva e de manga na economia de Pernambuco frente a outros
setores exportadores e sua importância no crescimento nos municípios
pernambucanos da região no período entre 2010 e 2017. A concepção de
vantagem comparativa aqui trabalhada compara as vantagens de diferentes
produtos numa mesma região. O método utilizado para medi-la foi o cálculo do
Índice de Contribuição ao Saldo Comercial que busca identificar a especialização
das exportações de uma região ou país. Para medir o crescimento econômico,
foram estudados os principais indicadores socioeconômicos. Os resultados
mostraram que tanto o setor de uvas como o de mangas tem vantagens
comparativas e apesar da uva ter perdido espaço para outros setores exportadores
do estado, ambos os setores permanecem como importantes fatores de geração de
crescimento da economia regional.

Palavras-chave: Desenvolvimento Regional, Vantagens Comparativas; Exportação;


Uvas; Manga.

*Artigo apresentado no 56º Congresso da Sociedade Brasileira de Economia, Administração e


Sociologia Rural (SOBER), ocorrido na UNICAMP de 29/07 a 01/08 de 2018

Administração Rural - Volume 1


84

1. INTRODUÇÃO trabalhos experimentais com videiras. Já em


1975, foi criado o Centro de Pesquisa
Abrangendo municípios do sertão dos
Agropecuária do Trópico Semiárido, da
Estados da Bahia e de Pernambuco, o Vale
Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária
do São Francisco é hoje uma das regiões
(Embrapa/CPATSA) que fundamentou a base
frutícolas mais importantes para a economia
técnica para melhoria na qualidade e
dos dois Estados, com cerca de 90% de sua
aumento na produção de uva e manga na
produção exportada para outros países
região (SOARES & LEÃO, 2009).
(Araújo & Silva, 2013). Suas maiores cidades,
Petrolina (PE) e Juazeiro (BA), A tecnologia introduzida pelas organizações
experimentaram expressivo desenvolvimento, públicas, como a Embrapa e os Campos
passando respectivamente de um Índice de Experimentais da SUDENE, possibilitou
Desenvolvimento Humano Municipal (IDHM) melhorias nas técnicas de irrigação, manejo e
de 0,471 e 0,396 em 1991, para 0,697 e 0,677 cultivo de novas variedades, levando a uma
em 2010, ou seja, passando de um IDHM produção de melhor qualidade. Desse modo,
muito baixo para médio em 19 anos, de a produção de uva e manga ganhou
acordo com o Atlas de Desenvolvimento destaque na região, e muitos produtores
Humano do Brasil (2010). começaram a produzir safras aptas a
satisfazer as exigências do mercado externo.
Apesar de semiárida, a região do Vale do São
Francisco cultiva manga e uva durante todo o A política de desenvolvimento do Vale
ano. Isso ocorre devido a um processo também atuou no escoamento dessa
histórico de políticas públicas focadas no produção, com a construção da ponte
desenvolvimento da região (ZUZA, 2008) que, Presidente Dutra entre Petrolina e Juazeiro, o
dentre outras ações, implantou diversos asfaltamento de rodovias e a inauguração do
perímetros irrigados e promoveu outros Aeroporto Nilo Coelho, que facilitou o envio
estímulos, como concessão de crédito e dessa produção para fora do país. Hoje, o
financiamentos para o setor agropecuário aeroporto é o principal modal para
(CORREIA, ARAUJO & CAVALCANTI, 2001). exportação, que também segue pelos portos
de Salvador (BA) e Pecém (CE) para os
As articulações sociais e políticas para
Estados Unidos e países da Europa e Ásia
desenvolvimento da região não são recentes,
(JC ONLINE, 1015).
iniciaram-se com a criação da estatal
Companhia Hidrelétrica do São Francisco Em consequência, o comércio internacional
(CHESF) em 1945, cujo objetivo era fornecer vem provocando ganhos de escala para a
energia elétrica para o Nordeste e, com a região, ampliando seu crescimento
Constituição de 1946, que determinou que 1% econômico. Na verdade, o acesso a um
do orçamento da União seria destinado à mercado mais amplo pode estimular a
integração dos mercados internos e externos produtividade e trazer vantagens competitivas
do Vale por 20 anos (ZUZA, 2008). para a economia (ARAUJO & SOARES, 2011).
Diante do exposto, este artigo tem como
Nos anos seguintes vieram os primeiros
objetivo analisar a ocorrência de vantagem
empreendimentos públicos voltados para os
comparativa nos setores de exportação de
pequenos e médios produtores da região. A
uva e da manga de Pernambuco frente a
Comissão do Vale do São Francisco (CVSF),
outros setores exportadores e verificar sua
em 1948, foi criada para promover o
importância no crescimento nos municípios
aproveitamento dos recursos naturais da
pernambucanos da região do Vale Submédio
região. Substituída pela Superintendência do
São Francisco, no período entre 2010 a 2017.
Vale São Francisco em 1967, posteriormente,
Como método, foi utilizado o Índice de
denominada Companhia de Desenvolvimento
Contribuição ao Saldo Comercial (ICSC), que
dos Vales do São Francisco e do Parnaíba
busca identificar a especialização das
(CODEVASF) em 1974, foi responsável pelas
exportações de uma região ou país.
primeiras práticas de cultivo, fornecendo
suporte técnico para produtores e Este artigo foi dividido em cinco sessões: a
comerciantes (HORA, 2014). primeira contextualiza as principais políticas
de desenvolvimento da região do Vale do São
A Superintendência de Desenvolvimento do
Francisco, enquanto a segunda parte traz
Nordeste (SUDENE) também deu grande
uma revisão de literatura sobre a correlação
impulso à economia local, instalando na
do comércio internacional com o crescimento
região entre os anos de 1968 a 1971, os
regional. A terceira sessão traz o método
Campos Experimentais, que iniciaram

Administração Rural - Volume 1


85

utilizado e as fontes dos dados, já a quarta Ao considerar que a concorrência é perfeita,


traz os resultados da pesquisa e por fim, a as tecnologias são constantes e não levam
quinta sessão traz as considerações finais do em conta as economias de escala, essas
trabalho. teorias não conseguem explicar o mercado
atual. Esses fatores foram abordados por
Michael Porter, cuja teoria diz que a vantagem
2. REVISÃO DE LITERATURA competitiva era uma questão como as
empresas e países melhoram a qualidade dos
Entre os séculos XVI e XVIII, o comércio
fatores e aumentam a produtividade. O
internacional é marcado pelo pensamento
aspecto qualitativo é mais importante que o
mercantilista, que defende que o principal
quantitativo (PORTER, 1993).
meio de enriquecimento das nações é a
acumulação de metais preciosos, e por isso Ao estudar as relações entre duas regiões,
as importações não seriam benéficas à devemos ainda clarear as diferenças entre
economia por representarem saída de competitividade e vantagens comparativas.
recursos, resultando em fortes medidas Lafay (1990 apud XAVIER, 2013) diz que a
protecionistas (XAVIER, 2013). primeira compara os custos de um mesmo
produto em diferentes mercados, enquanto a
Já a teoria econômica clássica surgiu nos
última compara diferentes produtos numa
séculos XVIII e XIX. Seus principais
mesma região.
representantes, Adam Smith e David Ricardo,
defendiam que o comércio internacional, ao Com base nos estudos de David Ricardo,
contrário da visão mercantilista anterior, Balassa foi um dos escritores que mais
poderia ser benéfico para as nações. contribuíram na elaboração de índices mais
Enquanto Adam Smith se baseou no conceito precisos acerca do tema, afirmando que o
de vantagens absolutas, David Ricardo mercado externo seria capaz de revelar as
desenvolveu o conceito das Vantagens vantagens comparativas de uma região. Para
Comparativas, que foi a base para diversas ele, quanto melhor o desempenho de uma
vertentes de teorias de comércio região no mercado mundial, maiores as suas
internacional. Seu pensamento baseava-se vantagens comparativas. Assim, em 1965
nos custos de produção dos vinhos de propôs o Índice de Vantagem Comparativa
Portugal e tecidos da Inglaterra levando em Revelada (VCR), que buscava identificar
conta o fator mão de obra. Segundo a teoria, quais produtos os países ou estados
Portugal possuía menores custos na possuíam vantagem comparativa (XAVIER,
fabricação do vinho em relação ao tecido, 2013). Do mesmo modo, Lafay propôs em
enquanto a Inglaterra possuía menores custos 1990 o Índice de Contribuição ao Saldo
na produção de tecidos do que de vinhos. Comercial (ICSC), que propunha identificar a
Isso levaria a uma especialização dos países especialização das exportações de uma
nos produtos de maior vantagem comparativa região (SILVA, LERMAN, SILVA, & CORONEL,
interna (XAVIER, 2013, RICARDO, 1817). 2016).
Porém outros fatores de produção, A relação causal entre comércio internacional
protecionismo e o elevado custo de transporte sobre o crescimento econômico ainda não é
de mercadorias que podem levar um país à um consenso pelos pesquisadores, tendo em
autossuficiência interna, eram fatores não vista que o contrário também pode ocorrer.
considerados no modelo de Ricardo. Mais Para Metzdorff (2015), países com maior
tarde surgiu a Teoria de Heckscher-Ohlin, que atividade externa conseguem maiores ganhos
difere do modelo de Ricardo em dois pontos e consecutivamente exibem maior
principais: os dois únicos fatores de produção crescimento. Para Guan e Hong (2012, apud
eram o capital e o trabalho e as tecnologias METZDORFF, 2015), existe uma relação
de produção dos dois países da transação bidirecional entre exportações e PIB, mas não
eram iguais (KOSHIYAMA, 2008). Nesse para importações e PIB, ou seja, as
modelo, o comércio internacional se exportações podem gerar crescimento
desenvolvia devido às diferenças de recursos econômico, mas restringir as importações não
entre os países, ou seja, o país tende a tem o mesmo efeito.
exportar o fator de produção mais abundante
Uma das primeiras teorias correlacionando
e importar as mercadorias cujo fator de
comércio internacional e crescimento regional
produção é menos abundante (KRUGMAN &
foi a Teoria da Base Exportadora, em que o
OBSTELD, 2005).
produto e emprego regional cresce com a

Administração Rural - Volume 1


86

demanda pelas exportações dessa região. influenciam os tipos de indústria que a região
Nela o crescimento não decorre somente das atrai (KOSHIYAMA, 2008). Porém, apesar de
vendas diretas. O crescimento das ser válida em economias menores, é
exportações gera um aumento da renda importante salientar que, sem determinados
resultando num aumento adicional das serviços e uma infraestrutura urbana e
demandas locais, que por consequência leva logística básica, não é possível desenvolver
a um crescimento adicional na renda regional. nenhuma atividade de exportação.
Porém essa teoria recebeu críticas por
pressupor que é a exportação que induz às
atividades do mercado interno, e por não 3. METODOLOGIA
explicar o crescimento econômico quando a
Para medir a vantagem comparativa do setor
região se industrializa e cresce de tamanho
da uva em relação aos outros setores
(KOSHIYAMA, 2008).
exportadores da economia de Pernambuco,
A teoria de base exportadora tem mais foi utilizado o Índice de Contribuição ao Saldo
influência em pequenas economias regionais Comercial (ICSC) proposto por Lafay em 1990
dominada por poucos setores e é válida em (apud GONÇALVEZ & PAULILLO, 2016), que
um curto prazo. Em regiões maiores e de compara a balança comercial de um produto
economia diversificada, os setores não com o saldo comercial teórico desse mesmo
exportadores são mais importantes para o produto. O índice é obtido de acordo com a
crescimento regional, pois seriam esses que equação a seguir:

100 (𝑋𝑣 + 𝑀𝑣)


𝐼𝐶𝑆𝐶 = { } {[(𝑋𝑣 − 𝑀𝑣) − (𝑋𝑔 − 𝑀𝑔) ]}
(𝑋𝑔 + 𝑀𝑔) (𝑋𝑔 + 𝑀𝑔)
2
Em que:
ICSC é o Índice de Contribuição ao Saldo Comercial;
Xv é a exportação de um produto i numa região;
Mv é a importação de um produto i numa região;
Xg é exportação total da região;
e Mg é a importação total da região.

O primeiro termo da equação, entre Sul(NCM) pelo código 08061000 e o de


colchetes, representa a balança comercial da mangas frescas ou secas pelo código
uva e da manga (produto i), enquanto o 08045020, a periodicidade das variáveis é
segundo termo representa a balança anual. Os dados foram rodados no programa
comercial teórica. Quando o saldo comercial Matlab.
é maior que o saldo comercial teórico
Para medir o crescimento econômico
(ICSC>0), o produto possui vantagem
regional, foram utilizadas as variáveis Produto
comparativa revelada, caso contrário, para
Interno Bruto (PIB) per capita e o Índice de
valores negativos (ICSC<0), o produto
Desenvolvimento Humano Municipal (IDHM)
apresenta desvantagem (SOARES & SILVA,
para as cidades pernambucanas de Petrolina,
2013).
Lagoa Grande, Santa Maria e Orocó. O IDHM
Em relação aos dados utilizados, a é um indicador socioeconômico que leva em
exportação de uva, de manga e a exportação consideração no seu cálculo, três dimensões:
total do estado de Pernambuco foram longevidade, educação e renda (ATLAS,
coletadas no Sistema de Análise das 2010). Os dados do PIB per capita se referem
Informações de Comércio Exterior (ALICE aos anos de 2010 e 2014 e foram coletados
Web) em valores FreeonBoard (FOB), no IBGE Cidades, enquanto os valores do
abrangeram o período de 2010 a 2017. Os IDHM se referem aos anos de 2000 e 2010 e
dados referentes ao setor de uvas frescas são foram coletados no Atlas do Desenvolvimento
representados na Nomenclatura Comum do Humano no Brasil.

Administração Rural - Volume 1


87

4. ANÁLISE DOS RESULTADOS período estudado, sofrendo oscilações nos


primeiros anos e passando a crescer a partir
No período estudado, a exportação de uvas
de 2013, como mostra o Gráfico 1 em valores
pernambucanas teve forte queda, atingindo
FOB.
seu pico em 2011 e só voltando a crescer em
2017. Já os números de exportação da
manga começaram mais modestos no

Gráfico 1: Exportações de Manga e Uva de 2010 a 2017.

Fonte: AliceWeb

Dentre as variedades de videiras cultivadas valores deram positivos para ambas culturas,
no perímetro irrigado da região do Vale do indicando que tanto o setor de uvas como o
São Francisco, estão a Benitaka, Benitaka de mangas possuem destaque na economia
Brasil, Itália comum, Itália melhorada, Patrícia, pernambucana, com vantagem comparativa
Ribier, RedGlobe, Crimssom, Festival e em relação aos outros setores exportadores.
Thompsom (EMBRAPA, 2010). Quanto a
Porém percebe-se que o ICSC da uva
manga as principais variedades na região são
apresentou considerável queda no período
a Espada, Rosa, Haden, Keitt, Kent, Tommy
estudado, passando de 2,21 em 2010 para
Atkins, Palmer, Van dyke (EMBRAPA, 2004).
0,56 em 2016, indicando que o setor diminuiu
Os principais produtores de uva são os
suas exportações pernambucanas ao longo
municípios de Petrolina e Lagoa Grande,
do período, embora permaneça com
enquanto os de manga são os municípios de
vantagens comparativas em relação a outros
Petrolina e Santa Maria da Boa vista
setores exportadores.
respectivamente.
Já o setor de mangas apresentou uma
Para identificar se os setores de uvas e de
pequena queda nos primeiros anos, voltando
manga tiveram vantagem comparativa entre
a crescer a partir de 2013, tendo inclusive,
os outros setores de exportação do estado de
passado o setor de uvas em
Pernambuco, foi calculado o Índice de
representatividade dentro das exportações
Contribuição para o Saldo Comercial de cada
pernambucanas no ano seguinte e
setor, representados visualmente no Gráfico
permanecendo com o ICSC maior que a uva
2. Nele é possível visualizar que todos os
desde então.

Administração Rural - Volume 1


88

Gráfico 2: Índice de Contribuição ao Saldo Comercial da Manga e da Uva de 2010 a 2017.

Fonte: Dados da pesquisa.

Segundo Isabella Ornellas (2014), a queda das frutas, com uma maior concentração de
nas exportações de uva ocorreu porque o brix, que a faz mais doce, dá preferência aos
valor da fruta no mercado interno estava mais consumidores de fora. O preço médio de uma
atrativo do que o do mercado externo. Com o caixa de 5kg da variedade Seibel, cujo sabor
dólar baixo, o preço praticado no Brasil era é bastante apreciado por europeus, pode sair
bem parecido com o praticado fora, e como por até 10 euros, tornando a exportação mais
exportar envolve vários riscos, os produtores vantajosa para o produtor (G1 PETROLINA,
preferiram vender a produção dentro do país. 2016).
A região sudeste é a maior consumidora de
Já a manga apresentou crescimento contínuo
uvas de mesa, absorvendo cerca de 46% da
das exportações ao longo dos últimos anos.
produção nacional e tendo o estado de São
Tal fato ocorreu devido principalmente a
Paulo como principal mercado consumidor.
cotação favorável do dólar, os novos
Já o Nordeste, apesar de ser uma importante
mercados dentro dos Estados Unidos e os
região produtora, corresponde a apenas
preços favoráveis para exportação, cuja caixa
23,7% do consumo nacional (EMBRAPA,
de manga chegou a ser vendida a US$ 12,00
2010).
em 2016, enquanto que em anos anteriores
O período entre 2014 e 2015 também não chegava nem a US$ 10,00 (JC ONLINE,
experimentou uma queda na produção de 2016).
uvas, gerando consecutivamente uma
A manga do Vale do São Francisco também
diminuição dos valores exportados. Edis
ganhou novos mercados na Ásia, mas
Matsumoto em entrevista ao jornal G1
especificamente Seul, capital da Coreia do
Petrolina (2014), apontou como principal
Sul. Fruto de uma negociação que já vinha há
causa da diminuição da produção, uma baixa
alguns anos, cerca de duas mil toneladas da
na fertilidade das plantas devido ao clima do
fruta foram exportadas para o país no final de
ciclo anterior, o que ocasionou uma
2017, ampliando os mercados consumidores.
diminuição de cachos. Já Freddo (2015)
Para o país seguiram três variedades: Tommy,
pontua o aumento nos juros das linhas de
Palmer e Kent, com a caixa de quatro quilos
crédito, o que dificultou o custeio da safra
sendo vendida a 29 dólares (G1 PETROLINA,
pelos viticultores da região.
2017).
Mas, já no segundo semestre de 2016, os
O crescimento do PIB per capita dos
produtores começaram a esperar uma
municípios produtores indica que a economia
melhora das exportações. A alta do dólar em
da região também cresceu nos últimos anos.
relação aos últimos quatro anos e a qualidade
Na Tabela 2, nota-se que a maior alteração

Administração Rural - Volume 1


89

positiva de PIB per capita ocorreu em atenção é o município de Petrolândia, que, ao


Petrolina, sendo ela a maior cidade contrário dos outros, teve uma queda em seu
pernambucana da região. O crescimento PIB per capita, mas mesmo assim, continuou
menos expressivo nesse indicador foi o do com o maior índice entre os municípios.
município de Orocó. Outro dado que chama

Tabela 1 Produto Interno Bruto per capita (R$)


Produto Interno Bruto per capita (R$)

Lagoa Belém do São


PIB Petrolina Santa Maria Orocó Petrolândia
Grande Francisco

2010 11.677,58 7.982,39 7.232,83 8.512,36 4.932,80 28.700,80


2014 16.043,56 11.853,39 11.130,02 10.574,72 7.936,93 16.595,53

Fonte: IBGE Cidades.

Ao analisar o IDHM, indicador possuíam IDHM Muito Baixo, enquanto


socioeconômico que leva em consideração Petrolina e Petrolândia IDHM Baixo. Num
aspectos da longevidade, educação e renda, espaço de tempo de dez anos, o IDHM das
percebe-se que houve significativa mudança cidades evoluiu, enquanto Lagoa Grande e
na qualidade de vida dos municípios da Santa Maria ficaram na faixa Baixo, todas as
região. Na Tabela 3 pode-se notar que no ano outras passaram para a faixa Médio, sendo
2000 as cidades de Lagoa Grande, Santa que Petrolina está bem próxima de passar
Maria, Orocó e Belém do São Francisco para a próxima faixa.

Tabela 2 Índice de Desenvolvimento Humano Municipal


Índice de Desenvolvimento Humano Municipal

Belém do São
IDHM Petrolina Lagoa Grande Santa Maria Orocó Petrolândia
Francisco

2000 0,580 0,441 0,468 0,474 0,482 0,527


2010 0,697 0,597 0,590 0,610 0,642 0,623
Fonte: Atlas Brasil
5. CONSIDERAÇÕES FINAIS expansão da região, seu desenvolvimento
social e econômico.
A história da fruticultura no Vale do São
Francisco mostra que, através do empenho Apesar dos mercados da uva e da manga
entre governo e sociedade, é possível vencer terem vantagens comparativas reveladas em
barreiras geográficas e históricas, como a relação a outros setores exportadores do
seca, e prosperar uma região. O crescimento estado de Pernambuco, houve uma
do mercado da uva e da manga nesse polo expressiva diminuição nas exportações de
se mostrou importante não só para a uva nos últimos anos, consequência de uma
economia local, mas para toda a economia do taxa cambial pouco atrativa frente aos riscos
estado de Pernambuco. de exportação, mostrando as influências do
câmbio nas transações comerciais entre
A política de desenvolvimento regional
países. Porém, alta do dólar dos últimos anos
iniciada ainda na década de 40, e que ao
e alta dos preços tem aumentado o interesse
longo dos anos envolveu ações de
do produtor de uva de voltar a exportar.
investimento em inovações tecnológicas,
Enquanto isso, a manga teve crescimento
implementação de órgãos técnicos e de
constante, com preços mais vantajosos e
articulação com empresas privadas,
atingindo novos mercados nos Estados
melhorias de infraestrutura e concessão de
Unidos e na Ásia, devido principalmente a
créditos e financiamentos, possibilitou a
qualidade da sua produção.

Administração Rural - Volume 1


90

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Comércio Internacional entre 1997 e 2014. Anais 2008.
do 54º Congresso da Sociedade de Economia,

Administração Rural - Volume 1


91

Capítulo 7

Leonardo Guimarães Medeiros

Resumo: O desenvolvimento rural pode ser entendido como ações articuladas


previamente pretendendo induzir mudanças em um determinado ambiente rural.
Destaca-se a melhoria do bem-estar das populações rurais como objetivo final
desse desenvolvimento. Recentemente, políticas públicas para a agricultura familiar
têm sido encaradas como o fator estratégico para se alcançar esse propósito. Após
revisão da literatura e verificação do estado da arte, este artigo teórico apresenta
um modelo conceitual composto por quatro dimensões que devem estar alinhadas
para o alcance do desenvolvimento rural: PRONAF, capital social, perfil do
empreendedor rural e formação do empreendedorismo rural. Com isso, são
apresentadas proposições de pesquisa para serem testadas por futuros estudos
empíricos que desejem responder a seguinte questão: quais as relações existentes
entre PRONAF, capital social e empreendedorismo para desenvolvimento rural da
agricultura familiar? O teste das proposições sugeridas neste texto pode revelar,
dentre outros resultados, aspectos intrínsecos e possíveis falhas que o PRONAF
apresenta em relação a sua contribuição à formação do empreendedorismo rural
no Brasil, as principais dificuldades encontradas quanto a formação do capital
social nos territórios e as características peculiares da agricultura familiar que
podem ser fator chave no processo empreendedor.

Palavras-chave: Desenvolvimento rural, agricultura familiar, PRONAF, capital social,


empreendedorismo rural.

Administração Rural - Volume 1


92

1. INTRODUÇÃO públicas voltadas para o desenvolvimento do


meio rural e do meio urbano em relação a sua
No Brasil, o setor agropecuário se apresenta
importância no contexto nacional. Em
de forma bastante dinâmica, mostrando
consequência disso, a pobreza no campo
grupos de produtores que diferem muito entre
ainda continua alta.
si. Fatores como posse de terra, capital, mão
de obra e destino da produção são bastante O PRONAF é a principal política pública
heterogêneos. Diante disso, em um contexto destinada a este segmento de agricultores.
macro, existem no Brasil basicamente dois Iniciado no ano de 1995, o PRONAF se
tipos de unidades produtivas: a agricultura constitui no fornecimento de crédito
patronal e a agricultura familiar (FAUTH, subsidiado. Segundo Guanziroli (2007), o
2008). principal argumento para sua criação, era de
que os agricultores familiares,
A agricultura familiar, contudo, se define
descapitalizados e com baixa produtividade,
como uma unidade produtiva possuindo a
não estariam em condições de tomar recursos
utilização da mão de obra familiar, a moradia
a taxas de mercado para realizar
é no próprio estabelecimento e sua renda
investimentos em modernização e elevação
advém das atividades desenvolvidas por
da produtividade. Vinte e dois anos se
estes agricultores, podendo ser agrícola ou
passaram desde sua criação, e mesmo
não, independente da sua extensão de terra
assim, os índices pobreza no campo ainda
(FAUTH, 2008). Porém, a Lei 11.326/2006,
continuam relativamente altos, colocando em
que estabelece conceito e princípios para a
discussão a efetividade do PRONAF.
agricultura familiar, veio limitar a extensão de
terras do empreendimento familiar rural em No entanto, considerando que as relações em
quatro módulos fiscais. comunidades de agricultores familiares são
tecidas coletivamente e baseadas na
A agricultura familiar possui grande
reciprocidade (ABRAMOVAY, 1998), o crédito
importância na produção agrícola brasileira,
fornecido pelo PRONAF pode não ser
produzindo grande diversidade de produtos
eficientemente empregado caso não haja a
agropecuários (LEITE et al, 2004). Nesse
existência de um outro recurso, o capital
sentido, todos esses produtos vão colaborar,
social. Esse recurso compreende a
seja para alimentação da própria família, seja
sociabilidade de um grupo humano, com os
para obtenção de renda (através da
aspectos que permitem a colaboração e o
comercialização). Entretanto, percebe-se que
seu uso. Os sociólogos sublinham que o
essas famílias possuem características
capital social é formado pelas redes sociais,
essenciais que as proporcionam ter um perfil
pela confiança mútua e pelas normas
empreendedor.
internas. De um modo geral, essa
É fato que o principal responsável pela sociabilidade assume o termo capital por ser
comida que chega às mesas das famílias considerada um recurso que contribui para
brasileiras advém da agricultura familiar, a aumentar a eficiência da sociedade,
qual, responde por boa parte da produção facilitando as ações coordenadas
dos alimentos consumidos em todo o país (ABRAMOVAY, 2000). O capital social dentro
(BRASIL, 2015). Diante dessa das abordagens modernas sobre
responsabilidade, esses estabelecimentos empreendedorismo pode ser considerado um
familiares se diferenciam muito da agricultura ativo essencial para a solidificação do
comercial (constituída principalmente de processo empreendedor.
médios e grandes fundiários). A agricultura
O empreendedorismo rural pode ser
familiar vem ganhando notoriedade no
entendido como o envolvimento de pessoas e
espaço econômico e sendo encarada como
processos que, em conjunto leva a
um setor estratégico da economia.
transformação de ideias e oportunidades em
Neste sentido, surge a questão sobre o negócios de sucesso no meio rural. E o
desenvolvimento rural, objeto de estudo de empreendedor é o sujeito que detecta essa
várias pesquisas (ABRAMOVAY, 2000; oportunidade e cria um negócio para
NAVARRO, 2001; SCHNEIDER, 2010; VEIGA, capitalizar sobre ela, assumindo assim, riscos
2001; WANDERLEY, 2001), gerando calculados e inovando continuamente
volumosos debates à medida que há o (DORNELAS, 2012).
crescimento populacional e aumento das
A importância de se estudar este tema se
práticas agrícolas. No Brasil, porém, percebe-
deve ao fato de existir estudos isolados que
se uma desproporcionalidade de políticas

Administração Rural - Volume 1


93

abordam tais subtemas e inexistir estudos, Conforme Mattei (2005, p.2):


que abordam de forma relacionada na
Com a criação do PRONAF atendeu-se a uma
agricultura familiar, o PRONAF, o capital
antiga reivindicação dos trabalhadores rurais,
social e o empreendedorismo rural para o
que colocava a necessidade da formulação e
alcance do desenvolvimento rural.
implementação de políticas de
Nesse contexto, após revisão da literatura, desenvolvimento rural especificas para o
esse texto tem por objetivo apresentar um segmento numericamente mais importante,
modelo teórico composto por proposições de porém o mais fragilizado a agricultura
pesquisa para serem testados por futuros brasileira, tanto em termos de capacidade
estudos empíricos que desejem responder à técnica como de inserção nos mercados
seguinte questão: quais as relações agropecuários.
existentes entre PRONAF, capital social e
Contudo, destaca-se a contribuição de dois
empreendedorismo para desenvolvimento
fatores importantes que impulsionaram a
rural da agricultura familiar? Espera-se que os
criação do programa. O primeiro deles se
testes das proposições sugeridas neste texto
deve ao fato do reconhecimento institucional
possam revelar, dentre outros resultados, a
da agricultura familiar, originarias a partir de
efetividade do PRONAF, o nível do capital
estudos da Food And Agriculture Organization
social e a importância da formação do perfil
(FAO) e do Instituto de Colonização e
empreendedor no meio rural.
Reforma Agrária (INCRA) no início da década
de 1990. A partir desse momento, o segmento
de agricultores familiares ganhou visibilidade
2. FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA
e importância no contexto nacional
2.1 PRONAF (AZEVEDO; PESSÔA, 2011).
Antes da década de 1990 as políticas Segundo Mattei (2015), outro fator que
públicas para o meio rural estavam voltadas contribuiu para isso são os movimentos
principalmente para a modernização e sindicais, principalmente, através das
desenvolvimento de novas tecnologias para o reivindicações dos trabalhadores rurais, onde
campo. Isso privilegiaria somente os médios e ganharam destaque nas chamadas “Jornadas
grandes fundiários, principais produtores de Nacionais de Luta” na primeira metade da
commodities para exportação (WANDERLEY, década de 1990, nos estados da região sul
2014). do Brasil.
Nesse sentido, a figura do agricultor familiar O programa como se conhece hoje é
estava marginalizada frente aos benefícios resultado de diversas modificações
decorrentes da política agrícola na época, institucionais no decorrer dos anos.
contidas essencialmente no crédito rural, nos Cronologicamente, o embrião do PRONAF foi
preços mínimos, e no seguro agrícola. o Programa de Valorização da Pequena
Juntando se a isso os agricultores familiares Produção Rural (PROVAP), criado no então
estavam descapitalizados e com baixa governo do presidente Itamar Franco. O
produtividade advinda de processos arcaicos PROVAP operava basicamente com recursos
de produção. Esses agricultores muitas vezes oriundos do Banco Nacional de
estavam passando por situação de pobreza Desenvolvimento (BNDES), vale destacar que
extrema, gerando assim, o êxodo rural esse programa obteve resultados tímidos do
(MATTEI, 2015). ponto de vista dos recursos destinados aos
agricultores, entretanto foi o precursor de uma
Um dos acontecimentos mais marcantes no
transição de políticas públicas diferenciadas
que diz respeito às políticas públicas para o
destinadas a agricultores familiares. Já em
meio rural foi a criação do Programa Nacional
1995, no governo de Fernando Henrique
de Fortalecimento da Agricultura Familiar
Cardoso, o PROVAP foi totalmente
(PRONAF). A criação desse programa veio
reformulado, dando origem em 1996 ao
reconhecer e legitimar o papel do Estado
PRONAF, cuja institucionalização ocorreu
para especificidades de uma nova categoria
através do Decreto presidencial nº 1.996,
social, os agricultores familiares, que até esse
datado de 28/07/1996. Desse momento em
momento eram designados como pequenos
diante o PRONAF é tido como a principal
produtores, produtores familiares, produtores
política pública do Governo Federal para os
de baixa renda ou agricultores de
agricultores familiares (SCHNEIDER et al,
subsistência (SCHNEIDER et al. 2004).
2004).

Administração Rural - Volume 1


94

De acordo com Brasil (1996), o programa visa características da organização social, como
o fortalecimento da agricultura familiar confiança, normas e sistemas, que
mediante o apoio técnico e financeiro, para contribuem para aumentar a eficiência da
promover o desenvolvimento rural sustentável, sociedade, facilitando as ações coordenadas”
possuindo como objetivo central fortalecer a (ABRAMOVAY, 2000).
capacidade produtiva da agricultura familiar,
Capital social emergiu como um dos
contribuir para a geração de emprego e
conceitos mais salientes das ciências sociais
renda nas áreas rurais e melhorar a qualidade
e é visto a partir de pontos de vista
de vida dos agricultores familiares. O
divergentes, sendo os estudos utilizando a
programa possui diferentes categorias de
perspectiva teórica impulsionada com base
beneficiários, onde estão organizados em
na publicação dos trabalhos de Coleman
grupos de acordo com suas características
(1988) e Putnam (1996.). Para Coleman
sociais, econômicas e culturais.
(1988), capital social pode ser definido como
Nesses 20 anos de existência do PRONAF o conjunto de aspectos da estrutura social,
seus números são animadores, foram que facilitam certas ações comuns dos
aplicados aproximadamente R$ 160 bilhões agentes dentro de uma estrutura. Nesse
em mais de 26 milhões de contratos, nas suas ponto de vista, a ausência de capital social
diferentes modalidades e para diferentes impossibilita certas ações e o alcance de
tipologias de agricultores familiares. Para se objetivos que estariam acessíveis com a sua
ter uma noção dessa dimensão, somente na presença. Por sua vez, Putnam (1993)
linha “Mais Alimentos” foram financiados apresenta o capital social como um conjunto
50.000 tratores nos últimos 7 anos e R$ 5,6 de aspectos das organizações sociais. Dentre
bilhões foram destinados em investimentos esses aspectos, tem-se: redes de
em agricultores situavam-se abaixo da linha relacionamento, normas e confiança que
da pobreza. Em função da magnitude e permitem a ação e a cooperação para o
importância desse programa ele é referência benefício mútuo.
para o mundo em se tratando de política
Para Putnam (1993), o capital social gera
pública para agricultores familiares
condições para a instalação e fortalecimento
(BIANCHINI, 2015).
da democracia e melhores resultados
De acordo com Guanziroli (2007), para que o econômicos. O capital social aumenta a
PRONAF não perca sua característica original participação popular em todo o processo
de proteger esse segmento de agricultores político, promove relações horizontais de
duramente castigados antes da década de reciprocidade e cooperação - ao invés de
1990, é necessário que o programa seja relações verticais de autoridade e
permanentemente revisto, avaliado e dependência – cria redes de solidariedade,
aperfeiçoado sob a perspectiva de que esses confiança e tolerância, e possibilita elevados
recursos sejam usados de maneira eficiente, níveis de participação nas associações.
produzindo resultados efetivos para o
Em sua perspectiva, o cerne do capital social
desenvolvimento rural.
são as relações de confiança e cooperação
existentes entre os indivíduos de determinada
região. As relações de confiança objetivam a
2.2 CAPITAL SOCIAL
promoção da cooperação ou atuam
Em torno do desenvolvimento rural, não se ampliando a probabilidade de maior
deve ater ao apontamento de vantagens ou ocorrência. O estoque de capital social é
obstáculos geográficos de localização e sim, criado a partir de um ciclo virtuoso de
estudar a montagem das “redes”, das confiança e cooperação entre os indivíduos
“convenções”, ou seja, das instituições que (PUTNAM, 1996).
permitem ações cooperativas - que incluem,
Putnam (1993,1996) levanta a hipótese de
evidentemente, a conquista de bens públicos
que os níveis de engajamento cívico e do
como educação, saúde, informação –
associativismo poderiam proporcionar
capazes de enriquecer o tecido social de uma
condições de melhoria do bem-estar da
certa localidade. Este processo de
comunidade. O associativismo horizontal,
enriquecimento, - muito influente nas
fruto de confiança, normas e redes de
organizações internacionais de
solidariedade, produziria relações cívicas
desenvolvimento – chamado, com base nos
virtuosas. Enquanto que o associativismo
trabalhos de Coleman (1988) e Putmam
vertical, no qual predominaria a desconfiança,
(1996), de capital social, refere-se às “[...]

Administração Rural - Volume 1


95

ausência de normas transparentes, Segundo Fillion (1999) embora tenha sido


faccionismo, isolamento etc., produziria estudado vários séculos antes, foi somente no
obstrução da ação coletiva. século XX que o empreendedorismo recebeu
atenção especial. Várias vertentes de estudo
se originaram nesse século, dentre elas, se
2.3 EMPREENDEDORISMO RURAL destaca a vertente comportamentalista, na
qual será utilizada mais adiante para
Em um primeiro momento parece impossível
estabelecer uma relação entre o
relacionar à palavra empreendedorismo a
comportamento da família assentada e sua
agricultura familiar, pois se imagina no senso
capacidade de empreender utilizando
comum, que este agricultor não possua uma
recursos do PRONAF.
visão inovadora, devido principalmente a sua
infraestrutura inadequada, baixo nível de A escola comportamentalista (behavorista)
escolaridade, baixa qualificação, baixa renda assim como foi chamada, tinha o objetivo de
e uma cultura que não incentiva a capacidade definir basicamente o que significava ser um
de assumir riscos em suas atividades (TOMEI; empreendedor e quais características o
LIMA, 2014). mesmo deveria possuir (McCLELLAND,
1971).
Entretanto, o que se observa na prática
contradiz isso, observa-se cada vez mais que Vários são os fatores que influenciam o
a família assentada está agregando valor a comportamento do empreendedor. Sobre isso
sua produção com processos de produção Fillion (1999, p.10) descreve:
eficientes, além do beneficiamento e
Uma amostragem de empreendedores que
embalagem de seus produtos, se utilizando
entraram no mercado há dois anos não dará o
de ideias inovadoras. Com isso, Veiga (2002)
mesmo perfil de outros empreendedores que
afirma que as chances de desenvolvimento
se lançaram 20 anos atrás. Treinamento e
rural brasileiro estão estritamente
emprego anteriores também terão certo
relacionadas à capacidade de
impacto, assim como religião, valores da
empreendedorismo da população local, na
comunidade educacional e cultura familiar,
qual, possibilita a geração de emprego e
entre outros.
renda.
Ao se fazer uma pesquisa na literatura sobre
O termo empreendedorismo muito difundido
o termo empreendedorismo rural, pouco se
nos dias atuais é visto por muitos autores
encontra sobre esse assunto seja no Brasil ou
como uma transformação que mudará a forma
em outros lugares no mundo. O que pode ser
das organizações no mundo, assim como foi
visto, porém, são alguns artigos, dissertações,
a Primeira Revolução Industrial ocorrida no
estudos de caso, cartilhas e alguns
século XVIII e Segunda Revolução Industrial
programas voltados para essa vertente
no Século XIX. No Brasil e nos países em
advindas de organizações como o Serviço
desenvolvimento, esse termo muitas vezes
Brasileiro de Apoio ás Micro e Pequenas
está estritamente relacionando a momentos
Empresas (SEBRAE), Serviço Nacional de
de crise na economia, uma vez que, é nesse
Aprendizagem Rural (SENAR) e Fundação
momento onde encontra se as melhores
Educacional para o Desenvolvimento Rural
oportunidades de negócio e há um aumento
(FUNAR) e, mesmo assim, somente em
do chamado empreendedorismo de
alguns estados brasileiros.
necessidade devidos aos altos índices de
desemprego (DORNELAS, 2012). Percebe-se que, ao demonstrar anteriormente
o conceito de empreendedorismo que, o
Não há uma definição absoluta de
mesmo não possui uma definição absoluta.
empreendedorismo, vários autores o
Diante disso Tomei; Lima (2014, p.110)
atribuíam a diferentes abordagens, contudo,
discorrem sobre o empreendedorismo rural:
define-se genericamente empreendedorismo
sendo o envolvimento das pessoas e Essa falta de convergência sobre quem seria
processos que, no contexto geral, levam a o empreendedor e o que seria rural talvez
transformação de ideias em oportunidades. E seja um indicativo da razão de se ter uma
o empreendedor é o sujeito que detecta essa literatura tão escassa sobre quem seria,
oportunidade e cria um negócio para portanto, o empreendedor rural. Combinar
capitalizar sobre ela, assumindo assim, riscos dois temas polêmicos não é uma tarefa
calculados (DORNELAS, 2012). simples e poderá suscitar uma discussão
ainda maior.

Administração Rural - Volume 1


96

Entretanto, apesar dessas discussões, é décadas de 1950 e 1980, o crescimento


possível identificar a importância do demonstrado no espaço rural era orientado
empreendedorismo no meio rural, através de políticas públicas que favoreciam
especialmente para a agricultura familiar e a modernização da agricultura e a aplicação
sua contribuição para o desenvolvimento de novas tecnologias no campo, nas quais,
rural. Sobre isso, Veiga (2002) afirma que as tinham como alvo os médios e grandes
chances de desenvolvimento rural brasileira fundiários. Isso acarretou no aumento da
estão estritamente relacionadas à capacidade pobreza no campo e êxodo rural, diante da
de empreendedorismo da população local, na crise desse modelo de desenvolvimento, na
qual, possibilita a geração de emprego e década de 1990 houve uma reformulação das
renda. políticas públicas para o desenvolvimento
rural. A partir desse momento, o agricultor
familiar que antes estava marginalizado,
2.4 DESENVOLVIMENTO RURAL passou a ser o foco de políticas públicas
especificas (GRACIANO, 2016).
Pretende-se propor neste estudo,
proposições de estudo de como ocorre o Outro aspecto que também deve ser
desenvolvimento rural em um local que possui considerado como parte do contexto
hipoteticamente população empreendedora, emergente do desenvolvimento rural na
capital social e recursos disponibilizados pelo década de 1990, é o fato de ter ressurgidos
PRONAF. Para isso, se faz necessário sua organizações e movimentos sociais que
compreensão. De acordo com Schneider et al haviam sido oprimidos durante o período da
(2004), a definição de desenvolvimento rural ditadura militar. Esses movimentos sociais e
pode ser encarada semelhante a de organizações passaram a exercer uma atitude
desenvolvimento econômico apenas com o proativa e propositiva, fazendo com que a
viés voltado para o meio rural, ou seja, são sociedade civil ampliasse a diversidade de
ações articuladas visando induzir mudanças formas de expressões. Nesse contexto, houve
socioeconômicas e ambientais no ambiente um aumento significativo de organizações não
rural para melhorar a renda, a qualidade de governamentais (ONGs), associações,
vida e o bem estar dessas populações. cooperativas, entre outras (SCHNEIDER,
2010).
Diante dessa perspectiva, se em um
determinado espaço rural ocorrer um Entretanto, desenvolvimento rural não se
aumento substancial da produção restringe tão somente população rural, mas
agropecuária devido a utilização de compreende todas as mudanças sociais, as
tecnologias e melhoramento do processo, quais se tem por limite o município, pois
entretanto se esse mesmo crescimento não podem se estender para horizontes territoriais
vier acompanhado de aumento de renda, mais extensos (NAVARRO, 2001).
qualidade de vida e bem estar, pode se dizer
Contudo, Graciano (2016) afirma que o meio
que houve apenas o crescimento desse setor,
rural deve ser interpretado de modo geral,
mas não o desenvolvimento do espaço rural.
pois há uma diversidade enorme de atores,
Veiga (2001) ao analisar os estudos da instituições, funções, perspectivas culturais,
professora Joan Robison da Universidade de sociais e ambientais. E para que haja um
Cambridge, complementa essa definição desenvolvimento rural de forma efetiva é
abordando a ampliação das liberdades. O necessário equilibrar todos esses atores em
desenvolvimento corresponde ampliação das consonância com o desenvolvimento
possibilidades de escolha diante de mais econômico e proteção ambiental.
opções, sobretudo das oportunidades de
expansão das potencialidades humanas que,
nesse momento depende dos fatores 3 PROPOSIÇÕES DE PESQUISA E MODELO
descritos anteriormente que garantam a CONCEITUAL
qualidade de vida e bem estar como saúde,
As proposições de pesquisas estão
educação, comunicação, direito e liberdade.
agrupadas para cada uma das dimensões
Dessa forma, em países desenvolvidos, as
propostas neste estudo.
pessoas possuem muito mais chances e
opções do que no restante do mundo. 3.1 PROPOSIÇÕES LIGADAS AO PRONAF
O desenvolvimento rural no Brasil se O Pronaf foi um marco na história das
apresenta de forma dinâmica entre as políticas públicas brasileiras exatamente por

Administração Rural - Volume 1


97

associar o acesso do agricultor familiar a um seu uso não condizente com a principal
ativo fundamental para empreender na sua finalidade da linha de crédito.
propriedade: o crédito. (ABRAMOVAY;
No estudo realizado por Mera e Didonet
VEIGA, 1999).
(2010), para descrever a aplicação dos
Tendo em vista que Marioni et al. (2016) recursos do PRONAF no município de Cruz
apontam que a região sul recebeu o maior Alta – RS, chegou-se à conclusão que 39,35%
volume de recursos do PRONAF entre 2000 e dos agricultores familiares utilizam o
2012, e que essa região tem alto índice de financiamento para quitar dívidas fora do
desenvolvimento em termos de PRONAF e adquirir bens de consumo
empreendimento rural (Miyazaki at al, 2008; duráveis e não duráveis. Considerando tais
Weber et al, 2016), é plausível supor que evidencias, formula-se a terceira proposição:
existe relação direta entre volume de crédito
Proposição 3: O uso dos recursos do Pronaf
do Pronaf e a formação do empreendedor
na prática não condiz com a obtenção do
rural no Brasil, levando à primeira proposição
crédito inicialmente, prejudicando a formação
deste estudo:
do empreendedor rural.
Proposição 1: Quanto maior o volume de
crédito obtido pelo agricultor familiar, maior a
influencia na formação do empreendedor 3.2 PROPOSIÇÕES LIGADAS AO CAPITAL
rural. SOCIAL
Medina (2016) aborda sobre o número de Pesquisas (ABRAMOVAY, 2000; COSTA;
contratos efetivados pelo PRONAF, GALINA, 2016; MIYAZAKI et al. 2008)
concluindo que, embora o valor defendem o fortalecimento do capital como
disponibilizado pelo Plano Safra da mecanismo de desenvolvimento de territórios.
Agricultura Familiar aumente a cada ano, o Informações chave no processo
número de agricultores familiares empreendedor são transmitidas por pessoas
beneficiados com o PRONAF, permanece o de confiança do empreendedor, como amigos
mesmo, aumentando, consequentemente, a de longa data e familiares próximos
concentração dos recursos para uma parcela (GRANOVETTER, 1973; JULIEN, 2000). A
distinta de produtores familiares, confiança torna essas pessoas fontes de
possivelmente agricultores mais consulta da maior parte dos empreendedores
desenvolvidos. No contexto nacional, a quanto à avaliação e decisão de aproveitar ou
expansão do crédito vem se baseando não oportunidades de negócios
exclusivamente no aumento do tamanho (DAVIDSSON; HONIG, 2003). Considerando
médio dos contratos e na crescente que confiança é um elemento central do
participação de estados com agricultura mais capital social (VEIGA, 2005), isto é, a ideia
capitalizada em sua distribuição, segunda a qual é a existência de um mínimo
principalmente a região sul do Brasil (SOUZA de confiança coletiva que condiciona a
et al, 2013). Diante dessas evidencias reação de um território ao esgotamento de
empírica, é apresentada a segunda atividades lucrativas que até então garantiam
proposição: seu progresso, formula-se a quarta
proposição:
Proposição 2: A frequência com que o
agricultor familiar recorre aos recursos do Proposição 4: O capital social proporciona ao
PRONAF afeta positivamente a formação do agricultor familiar acesso a informações e
empreendedor rural. ideias com potencial de serem oportunidades
de negócio.
Em relação ao uso dos recursos do PRONAF,
foi observado que no estado de Goiás a Proposição 5: Capital social afeta
liberação do crédito é realizada de forma positivamente a formação do empreendedor
concentrada para as atividades tradicionais. rural.
Conforme Medina (2016), as instituições
financeiras facilitam a liberação de recursos
para financiar atividades já consolidadas na 3.3 PROPOSIÇÕES LIGADA AO PERFIL
região, como é o caso da bovinocultura de EMPREENDEDOR
leite em Goiás. Mesmo que o programa
Empreendedorismo rural é constituído pelo
possua linhas de crédito para outras
envolvimento de pessoas e processos que,
atividades, o agricultor é forçado requerer o
em conjunto, transformam ideias e
crédito para atividades tradicionais, sendo

Administração Rural - Volume 1


98

oportunidades em negócios de sucesso no (GREATTI, 205). No entanto, no contexto da


meio rural. Machado et al. (2003), em estudo agricultura familiar, Weber et al. (2016)
que investiga o perfil gerencial de mulheres mostram que esse aspecto é um ponto fraco,
empreendedoras no Brasil, Canadá e França, pois, muitas vezes, a distância de centros
indicam que, em média, o tempo de urbanos e o baixo acesso aos meios de
experiência profissional é de nove anos. comunicação, são barreiras a um maior nível
Adicionalmente, Faia et al. (2014), em estudo de informações mercadológicas de
com empreendedores de vários segmentos agricultores familiares. Conforme esses
econômicos brasileiros, mostram que a argumentos, formula-se a oitava proposição:
experiência profissional, geradora
Proposição 8: Agricultores familiares com
conhecimentos tácitos que facilitam a
maior conhecimento de mercado possuem
integração e acumulação de novos
melhor formação em termos de
conhecimentos, também concorre para a
empreendedorismo rural do que aqueles em
adaptação às novas situações. Considerando
situação contrária.
estes argumentos, a quinta proposição é
formulada:
Proposição 6: A experiência na atividade 3.4 PROPOSIÇÃO LIGADA AO
produtiva de agricultores familiares afeta DESENVOLVIMENTO RURAL
positivamente a formação do empreendedor
Sugere-se que um procedimento mais
rural.
adequado para testar a teoria proposta aqui
Outro aspecto fundamental são as seria analisar se as dimensões estão
características do perfil empreendedor que o corretamente selecionadas de acordo com a
agricultor familiar deve possuir. O estudo de teoria, e, então, comparar o nível de
Tomei e Lima (2014) evidenciou que as desenvolvimento rural dos agricultores
barreiras para a formação do familiares.
empreendedorismo rural estavam associadas
O conceito de desenvolvimento rural depende
à ausência de liderança e capacidade de
da melhoria de variáveis socioculturais, como
assumir riscos; e enfatizou a importância da
saúde, educação, qualidade de vida e bem-
família, redes sociais e da educação formal
estar, mas sobretudo, na ampliação das
no desenvolvimento da agricultura familiar.
possibilidades de escolha (VEIGA, 2001). As
Weber et al (2016) abordam que os
variáveis descritas apresentam o nível de
agricultores familiares costumam preservar a
desenvolvimento rural que determinada
cultura nos métodos de produção não
família possui. Diante do exposto e das
buscando inovação. Neste sentido, a sétima
abordagens teóricas utilizadas, formula-se a
proposição é estabelecida:
seguinte proposição:
Proposição 7: Características presentes no
Proposição 9: As famílias cuja formação do
agricultor familiar como liderança,
empreendedor rural está alinhada ao modelo
capacidade de assumir riscos e inovação
teórico proposto neste estudo, terão, em
afeta positivamente a sua formação de
média, melhor desenvolvimento do que as
empreendedor rural.
famílias cuja formação do empreendedor rural
O conhecimento do mercado é um dos não esteja alinhada com o modelo.
aspectos formativos do perfil empreendedor,
relacionando-se com o nível de informações
que o empreendedor possui do mercado em 3.5 MODELO CONCEITUAL
que atua. Greatti (2005) identificou que o
O modelo conceitual tem como finalidade
conhecimento do ramo é um dos aspectos
criar um sistema coerente de objetos,
que mais influenciam o sucesso do negócio
propriedades e relações claramente
no início de suas atividades em micro e
mapeados para o domínio da tarefa que se
pequenas empresas da cidade de
propõe, neste caso o alcance do objetivo
Maringá/PR. Conhecimento do mercado e do
geral do estudo. Após a formulação das
ramo em que se pretende atuar é essencial
proposições de pesquisa, apresenta-se o
para se perceber as chances de sucessos e
modelo conceitual na Figura 1 a seguir:
prevenir-se em relação aos imprevistos

Administração Rural - Volume 1


99

Figura 1: Modelo conceitual com as proposições

Fonte: elaboração do autor, 2017.

4 DISCUSSÕES E NOTAS FINAIS desenvolve-los. Costa e Galina (2016) e


Miyazaki et al. (2008) continuaram nessa linha
Visando contribuir com o avanço da literatura
acerca desta relação. Testando as
que tem examinado as relações entre
proposições 4 e 5, futuros estudos podem
PRONAF, capital social e empreendedorismo
identificar as principais dificuldades
rural, este texto teve por objetivo apresentar
encontradas quanto a formação do capital
um modelo conceitual composto por
social nos territórios.
proposições de pesquisas para serem
testados por futuros trabalhos empíricos que Acerca do perfil do empreendedor rural,
desejem explorar o fenômeno na agricultura grande parte dos estudos observados
familiar brasileira. dedicou-se a apresentar as características
empreendedoras presentes (ou faltantes) no
Baseado em trabalhos anteriores, foi proposto
agricultor familiar, bem como as barreiras que
que o desenvolvimento rural seja mensurado
dificultam o desenvolvimento de um perfil
através de níveis de saúde, educação, renda,
empreendedor adequado. É o caso, por
qualidade de vida e ampliação das
exemplo dos estudos de Tomei e Lima (2014),
liberdades. Testando a proposição 9, será
Villanueva et al. (2012) e Weber et al. (2016).
possível identificar se realmente o modelo
Testando as proposições 6, 7 e 8 será
conceitual proposto, estando todas suas
possível verificar, que além das
dimensões alinhadas, alcança o
características básicas identificadas por
desenvolvimento da agricultura familiar.
autores clássicos do tema
No Brasil, a criação do Pronaf teve o empreendedorismo, há características
propósito de fornecer acesso do agricultor peculiares da agricultura familiar que podem
familiar a um ativo essencial ao processo ser fatores chaves no processo
empreendedor: o crédito. Diante disso, empreendedor.
vislumbra-se a necessidade de estudar o
Trabalhos empíricos ao testar as proposições
papel deste crédito para a formação do
aqui sugeridas podem expandir a articulação
empreendedor rural. O teste das proposições
teórica incorporando discussões relativas ao
1, 2 e 3 poderão demonstrar aspectos
desenvolvimento rural. Isso o enriquecerá do
intrínsecos e possíveis falhas que o programa
ponto de vista conceitual, além de permitir
apresenta em relação a sua contribuição à
discussões teóricas mais aprofundadas dos
formação do empreendedorismo rural no
resultados.
Brasil.
Este artigo descreveu relações entre
Outra questão bem consolidada é a relação
construtos teóricos a partir de uma revisão de
existente entre empreendedorismo rural e
literatura sistematizada acerca dos subtemas
capital social. Não resta dúvida de que existe
abordados. Consequentemente, possui como
uma relação virtuosa entre estes termos.
limitação, a impossibilidade de estender os
Abramovay (2000) e Veiga (2002),
resultados obtidos para todos os agricultores
percussores do estudo do empreendedorismo
familiares localizadas em todo território
no meio rural, já defendia o fortalecimento do
brasileiro, ou para outros tipos de
capital social dos territórios como forma de
organização.

Administração Rural - Volume 1


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v. 2, n. 2, p. 250-269, 2009. resistência. Revista de Economia e Sociologia
Rural. Brasília, v.52, n.2, 2014.

Administração Rural - Volume 1


102

Capítulo 8

Tatiana Silva Fontoura de Barcellos Giacobbo


Junior Giacobbo

Resumo: Este artigo apresenta a recente evolução da capacidade de


armazenagem de grãos no Brasil visando a verificar se há efetividade nas políticas
de incentivos governamentais para o setor, feitas através do Banco Nacional de
Desenvolvimento Econômico e Social, atualmente (2013-2018) realizadas por meio
do programa de fomento à construção e ampliação de armazéns (PCA Armazéns).
A partir de uma análise conjuntural e empírica, pretende-se detectar se o país terá
capacidade para suprir demanda de estocagem nos próximos anos (2018-2026).
Para realizar tal análise, parte-se da contextualização da importância do setor de
grãos na economia brasileira e sua evolução a partir de 2000, para, então, elaborar
uma estimativa de demanda por estocagem para o mercado brasileiro, realizada
através de um estudo de séries temporais, com dados do Ministério da Agricultura,
Pecuária e Abastecimento (MAPA) e da Companhia Nacional de Abastecimento
(CONAB). Os resultados sugeriram que a política governamental de fomento ao
setor de grãos é efetivamente necessária e importante para o Brasil ter
competitividade no mercado internacional e precisará ser ampliada para os anos
2018-2026, uma vez que a produção de grãos se expandirá ainda mais ao longo
dos anos analisados, gerando uma carência de estocagem ainda maior do que a já
existente.

Palavras-chave: armazenagem de grãos, políticas de desenvolvimento econômico,


agronegócio.

Administração Rural - Volume 1


103

1. INTRODUÇÃO produtores financiamentos de longo prazo


com taxas inferiores à taxa básica de juros
O Brasil é destaque no comércio internacional
(taxa Selic) para a aquisição de silos e
como exportador de commodities agrícolas,
infraestrutura para a estocagem. No ano de
sendo um dos países mais competitivos do
2018 tal programa de fomento à construção e
mundo na produção de commodities. (JANK
ampliação de armazéns (PCA), está operando
et al, 2005). A concorrência no mercado
com taxas de juros de 6,5% ao ano e prazo
internacional requer, entretanto, que os
para amortização de até 15 anos para
produtos brasileiros exportados sejam de alta
aquisição de silos.
qualidade e com preços competitivos.
Salienta-se, porém, que o preço precisa Diante desse contexto, o objetivo desse
cobrir os custos de toda a cadeia produtiva estudo é realizar uma análise da linha de
do setor, o que não ocorre quando o produtor financiamento à armazenagem do BNDES –
precisa escoar a produção rapidamente, por PCA Armazéns e sua efetividade enquanto
não ter local para estocá-la. Nesse contexto, a política governamental de fomento ao setor
capacidade instalada de armazenamento nas primário, tendo em vista a relação da
zonas de produção de grãos é fundamental, produtividade brasileira de grãos com a
devido às peculiaridades da produção capacidade de armazenamento necessária
agrícola, como sazonalidade e dependência para que o país possa negociar preços no
de fatores climáticos. mercado internacional.
Dentre os estados brasileiros que mais O argumento fundamental deste trabalho é o
produzem grãos, segundo dados da de que o BNDES atua com uma política de
Companhia Nacional de Abastecimento subsídios adequada para o setor de
(Conab, 2018), destacam-se Mato Grosso, armazenagem de grãos, podendo ser
Goiás, Rio Grande do Sul e Paraná, sendo propulsor do desenvolvimento econômico do
que os dois primeiros apresentam maior setor agrícola. A hipótese principal que se
déficit em capacidade de armazenamento e busca investigar e testar é se a adoção das
estão em áreas distantes dos portos, taxas de juros subsidiadas auxilia o Brasil a
dificultando sua comercialização imediata. ter a sua capacidade de armazenagem de
grãos mais elevada.
A produção de grãos vem crescendo desde o
início do período analisado nesse estudo, que Assim, este artigo tratará de uma análise
abrange o período de 2000 a 2018, além de temporal e conjuntural do setor de
estar aumentando a área plantada, tendência armazenagem de grãos e, como desfecho,
que tem como consequência que a cada ano verificará a possibilidade ou não de eficácia
tem-se uma safra recorde no país. Em do programa lançado pelo governo, na
contrapartida, a capacidade instalada para tentativa de ampliar a capacidade instalada
estocagem que já era aquém do necessário, do país, de acordo com a necessidade de tal
embora esteja crescendo, permanece mercado.
bastante inferior à necessidade do setor.
Segundo orientação da Organização das
2. A ARMAZENAGEM DE GRÃOS: O
Nações Unidas para a Alimentação e a
MERCADO E A EVOLUÇÃO NO BRASIL DE
Agricultura (FAO), o ideal é que a capacidade
2000 A 2017
estática de um país seja 1,2 vez a produção
de grãos. Para atender a esse requisito a Para Aguiar (1992), o armazenamento é uma
capacidade estática de armazenagem atividade empresarial e que está inserida
brasileira deveria ser, em 2017, de 285 dentro do conjunto de atividades econômicas,
milhões de toneladas, porém na última safra, com custo e receitas associadas, podendo
2016/2017, foi de 162 milhões de toneladas, assim ser analisada sob o enfoque da teoria
correspondendo a uma relação de 0,68 vez a econômica. Para melhor compreender este
produção de grãos, ou seja, está 43,3% ramo de atividade e inseri-lo na análise
abaixo do patamar desejado. econômica, é importante compreender o
funcionamento do mercado de armazenagem
Tendo em vista esse cenário, o governo
de grãos.
federal, através do Banco Nacional de
Desenvolvimento Econômico e Social A armazenagem é o processo de guardar o
(BNDES), lançou, em agosto de 2013, um produto, associada a uma sequência de
programa de fomento específico ao setor de operações, tais como limpeza, secagem,
armazenagem de grãos, disponibilizando aos tratamento fitossanitário, transporte e

Administração Rural - Volume 1


104

classificação, com o intuito de preservar as Tendo em vista tais especificidades deste


qualidades físicas e químicas da colheita, até setor agrícola, evidencia-se a indispensável
o abastecimento. Após essas operações, os necessidade da armazenagem para o
grãos devem obter uma série de qualidades mercado de grãos, pois ao cumprir os
desejáveis como baixo teor de umidade, alto requisitos de qualidade o valor do produto
peso específico, baixa degradação de será majorado, aumentando lucro e receita da
componentes nutritivos, baixa atividade. No mercado mundial, o Brasil tem
susceptibilidade à quebra, baixa vantagens comparativas na produção de soja
porcentagem de grãos danificados, alta em relação aos outros produtores mundiais,
viabilidade de sementes e ausência de contudo perde em aspectos logísticos.
pragas, fungos ou bactérias. (ELIAS, 2003). (PONTES et al., 2009).
Segundo Elias (2003) a rede de armazéns é O mercado de grãos está em constante
composta por unidades armazenadoras que ascensão no Brasil, conforme mostram os
possuem estrutura adequada às suas dados da produção estática de grãos no
finalidades especificas e devem ser gráfico 1 demonstrado a seguir. Nessa
localizadas e dimensionadas de acordo com medida, tornam-se necessárias melhorias na
as características de operação, infraestrutura, tendo em vista que algumas
estabelecendo um fluxo lógico, tal qual das maiores empresas exportadoras da soja
sugere a logística, de atendimento ao brasileira indicam que suas principais
escoamento da safra, com preservação da restrições para aumento do volume exportado
qualidade dos grãos, até que esses produtos estão relacionadas aos custos e às incertezas
cheguem ao consumidor final, conservando a inerentes ao processo de escoamento da
qualidade, controlando perdas e estocando o produção da soja (MEREGE e ASSUMPÇÃO,
excedente que não foi comercializado. 2002).

Gráfico 1: Evolução da produção agrícola de grãos e capacidade de armazenamento no Brasil

250

200
Milhões de Toneladas

150

100

50 Produção Agrícola Capacidade de Armazenamento


0

Ano Safra

Fonte: elaboração própria, dados CONAB (2018) e MAPA (2018).


A produção estática de grãos no Brasil, aumento extremamente significativo ao longo
conforme demonstrado no gráfico 1, cresceu do período analisado.
81,% entre as safras 1999/2000 e 2012/2013,
A partir da análise do gráfico 1, verifica-se,
passando de 100,5 milhões toneladas para
também, que entre os anos de 2013 e 2017, a
182 milhões de toneladas. Em alguns anos-
capacidade estática de armazenagem
safra (2001/02, 2004/05, 2008/09) houve uma
cresceu 11,5%, ao passo que a produção de
pequena queda em relação ao ano-safra
grãos avançou 30,6% no mesmo intervalo. Em
anterior, decorrentes de quebra de safra, por
face deste crescimento da produção
motivos climáticos que impediram o
brasileira de grãos, está o crescimento da
aproveitamento dos grãos plantados. Apesar
capacidade estática de estocagem do país. O
disso, a tendência evidenciada é a de
Brasil aumentou significativamente a

Administração Rural - Volume 1


105

capacidade estática para armazenar sua programa de financiamento do Banco


produção no período entre 2000 e 2017, Nacional de Desenvolvimento Econômico e
passando de 82,9 milhões de toneladas em Social, com a finalidade de fomentar
2000 para 162,3 milhões de toneladas em investimentos individuais ou coletivos,
2017. referentes exclusivamente a projetos para
ampliação, modernização, reforma e
Apesar do crescimento dos armazéns
construção de armazéns destinados à guarda
verificado pela capacidade estática de
de grãos, frutas, tubérculos, bulbos,
estocagem, os dados apresentados
hortaliças, fibras e açúcar.
evidenciam que a produção de grãos está
crescendo mais do que a estrutura de Assim, segundo dados do BNDES, verifica-se
armazenagem. Portanto, o setor de que o programa está efetivamente
estocagem, que tem capacidade aquém da fomentando o setor, pois entre o período de
produção de grãos brasileira está se tornando 2013 e fevereiro de 2018, foram registradas
cada vez menos capaz de suprir a demanda 1.420 operações, para as quais o BNDES
de armazenamento. desembolsou aproximadamente R$ 3,3
bilhões, conforme a evolução destacada na
tabela 1.
3. A ARMAZENAGEM DE GRÃOS NO BRASIL
De acordo com o preço médio praticado no
APÓS A IMPLANTAÇÃO DO PROGRAMA DO
mercado brasileiro para a construção de uma
BNDES PCA ARMAZÉNS: CONJUNTURA DE
planta de armazenagem, de R$ 400,00 por
2013 A 2018 E PERSPECTIVAS PARA O
tonelada, o BNDES fomentou, desde 2013 até
FUTURO.
fevereiro de 2018, pelo PCA 844,3 mil
Tendo em vista o descompasso entre oferta e toneladas de capacidade de armazenagem.
demanda de grãos, que gera um sistema de Tendo em vista que a capacidade estática
escoamento fortemente centrado em aumentou cerca de 13 milhões de toneladas
caminhões para tal finalidade, o governo nesse período, é possível inferir que o BNDES
federal criou em 2013 um programa de esteve presente menos de 7% dos
incentivo ao setor. O PCA Armazéns é um investimentos.

Tabela 1: Número de desembolsos e valores desembolsados anualmente pelo PCA- Armazéns

Ano Liberações PCA (R$) N° de operações aprovadas PCA

2013 38.475.754 100


2014 725.982.752 363
2015 917.154.116 240
2016 824.427.398 352
2017 803.976.245 351
2018 67.140.837 14

Soma: 3.377.157.102 1.420

Fonte: elaboração própria, dados BNDES (2018).

Segundo Souza e Veríssimo (2013), a década de commodities brasileiras, uma vez que é
de 2000 foi caracterizada por um possível armazenar grãos e negociar
desempenho expressivo das exportações melhores preços de venda, sem a
brasileiras de commodities, fato que necessidade de escoar a produção
configurou um ambiente favorável à um imediatamente.
processo de especialização no manejo e
Salienta-se, não obstante aos incentivos
cultivo de grãos. Dessa forma, se a
governamentais, que há entraves
capacidade de armazenagem de grãos
governamentais neste mercado. Para que o
crescer no país, a tendência é que melhore
produtor rural consiga instituir a infraestrutura
ainda mais o desempenho das exportações

Administração Rural - Volume 1


106

de armazenagem em suas terras, é de uma política governamental de subsídios


necessário ter licença ambiental e tal licença no setor de armazenagem, realizou-se uma
é condição indispensável para a obtenção de previsão de demanda dos níveis de produção
financiamento junto ao BNDES e demais de grãos nacional e do crescimento da
instituições financeiras que repassam seus capacidade de estocagem. Para realizar tal
recursos. Tendo em vista que as concessões previsão, utilizaram-se as séries temporais do
de licenças deste tipo são de difícil obtenção período da safra 1999/2000 a 2016/2017 e
e normalmente bastante demoradas, este se fez-se uma previsão até 2025/2026, cujo
torna um entrave significante neste mercado. resultado está apresentado no gráfico 2,
abaixo.
Apesar desse contexto, a fim de se verificar
empiricamente a necessidade e efetividade

Gráfico 2: Projeção da produção agrícola de grãos e capacidade de armazenamento no Brasil para


os próximos anos safra.

350
300
Milhões de Toneladas

250
200
150
100
Produção Agrícola
50
Capacidade de Armazenamento
0
1999/2000
2000/2001
2001/2002
2002/2003
2003/2004
2004/2005
2005/2006
2006/2007
2007/2008
2008/2009
2009/2010
2010/2011
2011/2012
2012/2013
2013/2014
2014/2015
2015/2016
2016/2017
2017/2018
2018/2019
2019/2020
2020/2021
2021/2022
2022/2023
2023/2024
2024/2025
2025/2026
2026/2027
Ano Safra
Fonte: elaboração própria, dados MAPA (2018)

O crescimento da capacidade de 4. CONSIDERAÇÕES FINAIS


armazenamento foi projetado pela
O objetivo desse estudo foi realizar uma
aproximação linear baseado nos dados
análise da linha de financiamento à
históricos (série), através da técnica de
armazenagem do BNDES – PCA Armazéns e
previsão de média móvel. A estimativa da
sua efetividade enquanto política
produção de grãos levou em conta dados do
governamental de fomento ao setor primário,
MAPA (2018).
tendo em vista a relação da produtividade
A insuficiência da armazenagem no Brasil já brasileira de grãos com a capacidade de
existente desde a safra 2008/2009 fica ainda armazenamento necessária para que o país
mais evidente ano a ano ao projetarmos até a possa negociar preços no mercado
safra 2025/2026, levando em conta internacional. O fato de que há carência no
expectativa média nas projeções e mantendo setor primário brasileiro para a estocagem
o ritmo histórico no avanço da capacidade dos grãos produzidos foi verificado, tanto pela
estática de armazenagem. Dessa forma, fica revisão da literatura realizada, como através
evidenciada a assertividade de uma política da análise de dados da capacidade brasileira
de fomento ao setor e necessidade de um de armazenagem, disponibilizados pelo
aporte de recursos ainda maior, para que MAPA e pela Conab, para o período
esse distanciamento entre as duas curvas analisado, de 2000 a 2017.
diminua e, consequentemente, o Brasil possa
Para analisar a capacidade de
ser mais competitivo no mercado externo.
armazenamento do mercado de grãos
brasileiro, partiu-se de uma perspectiva
histórica, demonstrando a evolução da

Administração Rural - Volume 1


107

capacidade de armazenamento desde o ano taxas de juros subsidiadas auxilia o Brasil a


de 2000 até o ano de 2017. Através dessa ter a sua capacidade de armazenagem de
análise, verificou-se que o Brasil aumentou grãos mais elevada, o que de fato pôde ser
significativamente a capacidade estática para inferido através dos resultados obtidos pela
armazenar sua produção no período entre previsão de demanda realizada através da
2000 e 2017, passando de 82,9 milhões de utilização do instrumento estatístico de séries
toneladas em 2000 para 162,3 milhões de temporais.
toneladas em 2017.
Sob o ponto de vista das exigências
A seguir, apresentou-se o programa de governamentais, como foi mencionado, há
fomento governamental ao setor de muitos entraves para que o produtor de
armazenagem de grãos, PCA Armazéns, cereais consiga o financiamento para a
operacionalizado pelo BNDES desde julho de aquisição de silos e equipamentos de
2013 e ainda vigente, em que foram infraestrutura, sendo o mais relevante a
registradas 1.420 operações, para as quais o dificuldade e o tempo de espera para a
BNDES desembolsou aproximadamente 3,3 obtenção de licença ambiental. Dessa forma,
bilhões de reais. Em seguida, fez-se uma cabe enfatizar que para que os programas de
previsão de demanda para as safras de grãos incentivos sejam ainda mais efetivos, é
e capacidade de estocagem dos próximos necessário melhorar os processos
anos, levando-se em conta o crescimento da administrativos e burocráticos do setor
capacidade de armazenamento estática público.
desde 2000 até 2017 e projetando-se o
Dito isso, percebe-se que a tendência que se
mesmo crescimento para 2025/2026. O
apresenta é a de que o país continue em um
resultado projetado apresenta um déficit
processo de crescimento na atividade de
absoluto de 76 milhões de toneladas para a
produção de grãos e aumento de
safra 2025/2026, verificando-se que para se
produtividade em seus processos, permitindo
adequar à capacidade sugerida pela FAO, o
um avanço ainda maior neste mercado, salvo
Brasil deveria aumentar em 183 milhões de
fatores exógenos, como variações climáticas.
toneladas a capacidade de armazenagem na
Assim, maiores investimentos em estocagem
próxima década.
de grãos também devem ser consequência
Nesse sentido, a política de fomento ao setor natural deste processo de crescimento do
de armazenagem de grãos instituída pelo setor.
governo federal, através do BNDES, está
Destaca-se, dessa forma, que o programa de
sendo executada em um mercado que
fomento ao estoque de grãos do setor
realmente precisa crescer, e se não fosse o
primário, PCA Armazéns, operado pelo Banco
subsídio da linha a situação poderia estaria
Nacional de Desenvolvimento Econômico e
ainda mais agravada.
Social se mostrou uma política acertada e
O argumento fundamental deste trabalho foi o efetiva e pela tendência projetada, o governo
de que o BNDES atua com uma política de federal deve fomentar ainda mais esse setor
subsídios adequada para o setor de nos próximos anos. Observa-se, porém, que o
armazenagem de grãos, podendo ser setor carece de incentivos ainda maiores do
propulsor do desenvolvimento econômico do que os atuais para que seja possível escoar a
setor agrícola. A hipótese principal que se produção brasileira de grãos.
buscou investigar e testar é se a adoção das

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Administração Rural - Volume 1


108

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Administração Rural - Volume 1


109

Capítulo 9

Loiseane Santos Correia Pinto


Elane Conceição de Oliveira
Neuler André Soares de Almeida

Resumo: Este trabalho tem como objetivo analisar a eficiência socioeconômica do


Programa Bolsa Floresta (PBF) desenvolvida nas Unidades de Conservação (UC’s)
do estado do Amazonas, no período de 2014 a 2017. E para isto utiliza-se o método
Análise Envoltória de Dados (Data Envelopment Analysis – DEA) com retornos
constantes de escala. Entende que a escolha do modelo é porque qualquer
variação nas entradas (inputs) produzirá variação proporcional nas saídas
(outputs). Isto porque um dos resultados esperados pelo PBF é promover o
desenvolvimento sustentável e o bem-estar dos homens da florestal de forma
proporcional aos recursos empregados nas UC’s. Os resultados mostraram que
das 11 UC’s do tipo Reserva de desenvolvimento Sustentável (RDS) analisadas
apenas 5 obtiveram 100% de eficiência no sentido de pareto. Ademais, apesar de 4
UC´s apresentaram resultados satisfatórios no sentido de reduzir o desmatamento,
apenas 2 delas apresentaram 100% de eficiência ou fronteira de pareto eficiente
(RDS Piagaçu-Purus e Uatumã). O PBF representa uma política potente para
promover a conservação das florestas e o desenvolvimento sustentável no AM, mas
somente seguido de uma gestão eficiente.

Palavras-chave: Programa Bolsa Floresta; Análise Envoltória de Dados; Amazonas.

*Artigo apresentado no 56º Congresso da Sociedade Brasileira de Economia, Administração e


Sociologia Rural (SOBER)

Administração Rural - Volume 1


110

1. INTRODUÇÃO Tanto é que, segundo Viana (2008) o PBF


implementa uma série de atividades pioneiras
Com relação ao crescente aumento no nível
no campo da conservação ambiental e
de desmatamento na Amazônia, Alencar et
desenvolvimento sustentável na Amazônia; e
al.(2004) e Higuchi et al.(2009) apontam
sua concepção se insere no contexto das
diversos fatores responsáveis por esse
mudanças climáticas globais e de redução do
fenômeno na região ocasionado por
desmatamento, com especial ênfase para as
diferentes usos do solo, como: agropecuária,
comunidades tradicionais da "Amazônia
extração madeireira, produção de energia
profunda”. Juridicamente, a criação do PBF
(hidrelétricas, petróleo e gás natural),
foi interposta pela Lei nº 3.135 de 05/06/2007
exploração mineral, incêndios florestais. No
que diz respeito a políticas sobre mudanças
caso do bioma Amazônia, Veríssimo e Pereira
climáticas, conservação ambiental e
(2014) apontam que o desflorestamento, em
desenvolvimento Sustentável no Estado do
meados do ano de 2012, já tinha atingido
Amazonas; e pela Lei Complementar n° 53 de
19% dessa região.
05/06/2007 que se refere à institucionalização
Essa tendência do crescimento das taxas de do Sistema Estadual de Unidades de
desmatamento, no entanto, não é homogênea Conservação (SEUC).
entre os Estados que compõem a região
Hoje, o PBF é um dos maiores programas de
Amazônica. E mais recentemente, Estados
Pagamento por Serviços Ambientais (PSA) do
que não tinham uma tendência alarmante do
mundo, com mais de 35 mil pessoas
crescimento das suas taxas tem tido taxas em
atendidas em 15 UC’s no AM, englobando
crescimento. O estado do Amazonas (AM),
uma área total de 10 milhões de hectares
por exemplo, de acordo com o INPE (2017),
(FAS, 2016). O objetivo do PBF é de
os dados do Prodes Monitoramento da
compensar, por meio de investimentos em
Floresta Amazônica Brasileira por Satélite
geração de renda e desenvolvimento social,
mostram que a taxa de 2016 para 2017
as populações tradicionais pela disposição
desacelerou em -15%, muito embora ela
em conservar as florestas, de forma a garantir
tenha tido um crescimento de 54%, de 2015
a oferta de Serviços Ambientais local e
para 2016.
globalmente, afirma a Fundação Amazônia
Nesse escopo, três questões merecem Sustentável. Sua estrutura dar-se em quatro
destaque: a) o AM pertence à região Norte do bolsas: Renda, Social, Familiar e Associação,
país, possui 62 municípios e uma área nas quais objetivam oferecer suporte
territorial de 1.559 mil km2, o que econômico e social, usando as bolsas como
corresponde a 18,45% da área total brasileira, incentivos, às comunidades ribeirinhas que
40,76% da área da região Norte e 30,87% da residem nas UC do AM por meio da valoração
área territorial da região Amazônica; b) as da floresta, cabendo a este último fator, um
florestas do AM estão quase totalmente benefício ambiental (FAZ, 2015).
preservadas; dados do Sistema de
Em face disto, tornar-se indispensável
Monitoramento da Floresta Amazônica
estudos e análises sobre a eficiência das
Brasileira por Satélite (PRODES) mostram
políticas públicas intergovernamentais
que, até 2011, o Estado tinha desmatado
implementadas na região, cujo fim de
apenas 2,37% de sua cobertura florestal, o
algumas dessas iniciativas, conforme Rivas
que caracteriza um indicador de preservação
(2014), é aliar qualidade de vida e
da ordem de 97,63% de florestas nativas; e,
conservação ambiental. E, nesse particular,
c) o AM é detentor de um dos grandes
avaliar a eficiência da gestão de recursos em
programas brasileiro voltado para a
Unidades de Conservação (UC’s) surge como
disseminação do desenvolvimento sustentável
um objeto ímpar nesse tipo de análise, em
nas comunidades interioranas dos municípios
geral, para a Amazônia e, em especial, para o
amazonenses – o Programa Bolsa Floresta
estado do Amazonas (AM).
(PBF).
Muitos trabalhos tem analisado a eficiência do
Para Oliveira (2008) e Almeida (2015), o
ponto de vista de várias temáticas, como:
surgimento do PBF no AM deveu-se,
programas governamentais, saúde,
sobretudo, à importância da floresta para os
educação, atividades produtivas, comércio,
ribeirinhos na nossa região, uma vez que os
meio ambiente, entre outras temáticas,
recursos provenientes da floresta ainda
utilizando o modelo Análise Envoltória de
constituem um dos principais meios de
Dados (Data Envelopment Analysis – DEA),
sobrevivência para os homens da floresta.
que é uma ferramenta matemática para a

Administração Rural - Volume 1


111

medida de eficiência relativa das unidades unidade de tempo e os insumos utilizados no


tomadoras de decisão (Decision Making Units processo de produção.
– DMU’s), como são chamadas as unidades
Dessa base conceitual deriva-se o
analisadas ou as unidades tomadoras de
desenvolvimento da técnica Data
decisão ou unidades produtivas.
Envelopment Analysis (DEA) para análise de
Brambilla e Carvalho (2017) analisaram a eficiência relativa de unidades. O método
eficiência da gestão do Programa Bolsa DEA é baseado no trabalho proposto por
Família nos municípios do Paraná no ano de Farrell (1957), generalizado por Charnes et al.
2013. Os autores ao utilizarem o modelo DEA, (1978), em que foram incluídos múltiplos
com retornos variáveis à escala orientado a insumos (inputs) e produtos (outputs). Essa
output, tiveram como resultados que três dos técnica permite analisar a eficiência de
399 municípios paranaenses foram eficientes; unidades produtivas (decision making units –
e que o indicador que mais contribui para a DMUs) com múltiplos insumos e múltiplos
gestão do PBF foi o de cobertura de cadastro produtos através da construção de uma
no Cadastro Único. fronteira de eficiência.
Barbosa e Souza (2014) analisaram a De acordo com Mello (2016), para estimar e
eficiência técnica e de escala do setor analisar a eficiência relativa das DMUs, a DEA
agropecuário nos municípios cearenses por utiliza a definição de ótimo de Pareto,
meio do DEA, obtendo como resultados que segundo o qual nenhum produto pode ter sua
os municípios cearenses podem diminuir, em produção aumentada sem que sejam
média, os custos com insumos em 45% e aumentados os seus insumos ou diminuída a
35%, respectivamente, nos modelos com produção de outro produto, e, de forma
retornos constantes e variáveis, sem reduzir o alternativa, quando nenhum insumo pode ser
valor da produção. diminuído sem ter que diminuir a produção de
algum produto. A eficiência é analisada,
Mello et al. (2003) avalia a eficiência das
relativamente, entre as unidades.
companhias aéreas brasileiras, usando o DEA
com os retornos de escala, através da As funções de produção são à base da
comparação de cada companhia com as que análise de eficiência conforme afirma Barbosa
operam em escala semelhante. e Souza (2014). As considerações em torno
dessas funções visam definir uma relação
Quanto a este trabalho, o objetivo é analisar a
entre insumos e produtos. As hipóteses que
eficiência socioeconômica do Programa Bolsa
são consideradas para a relação entre
Floresta desenvolvida nas Unidades de
insumos e produtos determinam que haja
Conservação do estado do Amazonas, no
retornos constantes, crescentes ou
período de 2014 a 2017. E para isto utiliza-se
decrescentes à escala. A função apresenta
o modelo DEA com retornos constantes de
retornos constantes à escala se, ao aumentar
escala. Entende que a escolha do modelo é
os fatores de produção, a produção aumentar
porque qualquer variação nas entradas
na mesma proporção. Haverá retornos
(inputs) produzirá variação proporcional nas
crescentes quando o aumento na produção
saídas (outputs), uma vez que a intensão dos
for mais do que proporcional ao aumento nos
recursos injetados nas comunidades das
fatores; caso contrário, haverá retornos
UC’s onde o bolsa floresta atua é produzir
decrescentes.
benefícios socioeconômicos e ambientais na
mesma proporção ou razoavelmente superior. Para Charnes et al. (1994) a DEA pode ser
definida com orientação-insumo ou
orientação-produto. Com orientação-insumo
2. PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS caracteriza-se a tecnologia de produção pela
minimização proporcional (contração) do
2.1 MODELO TEÓRICO DE ANÁLISE
vetor insumo, dado um vetor de produto,
De acordo com Mello et al. (2016; 2003), enquanto a DEA com orientação-produto
Pindyck e Robisfield (2005), Tupy e caracteriza-se a tecnologia de produção pela
Yamaguchi (1998), o estudo de análise de maximização proporcional do vetor produto,
eficiência produtiva em economia baseia-se dado um vetor de insumo. Ou melhor, pode-
nos princípios da teoria da produção, se usar um modelo orientado a outputs, no
especificamente no conceito de função de qual se obtém o máximo nível de outputs
produção, que indica a relação técnica entre mantendo os inputs fixos (modelo BCC); ou
a produção máxima obtida em determinada usar um modelo orientado a inputs, que visa a

Administração Rural - Volume 1


112

obter um menor uso de inputs dado o nível da divisão entre a soma ponderada das
dos outputs (modelo CCR). Para este estudo saídas (output virtual) e a soma ponderada
adotamos o modelo orientado a inputs. das entradas (input virtual) generalizando,
assim, a definição de Farrel (1957). O modelo
2.2 MODELO CCR (RETORNOS
permite que cada DMU escolha os pesos
CONSTANTES DE ESCALA).
para cada variável (entrada ou saída) da
O modelo CCR, apresentado originalmente forma que lhe for mais benevolente, desde
por Charnes et al. (1978), constrói uma que esses pesos aplicados às outras DMUs
superfície linear por partes, não paramétrica, não gerem uma razão superior a 1.
envolvendo os dados. Trabalha com retornos
Estas condições podem ser observadas nas
constantes de escala, isto é, qualquer
equações (1) abaixo, onde 𝐸𝑓𝑓0 é a eficiência
variação nas entradas (inputs) produz
da 𝐷𝑀𝑈0 em análise; 𝑣𝑖 e 𝑢𝑗 são os pesos de
variação proporcional nas saídas (outputs).
𝑖𝑛𝑝𝑢𝑡𝑠 𝑖,𝑖=1,…,𝑟, e 𝑜𝑢𝑡𝑝𝑢𝑡𝑠 𝑗,𝑗=1,…,𝑠
Esse modelo é igualmente conhecido como
respectivamente; 𝑥𝑖𝑘 e 𝑦j𝑘 são os 𝑖n𝑝𝑢𝑡𝑠 𝑖 e
modelo CRS – Constant Returns to Scale.
𝑜𝑢𝑡𝑝𝑢𝑡𝑠 𝑗 da DMU 𝑘,=𝑘=1,…,𝑛 ; 𝑥𝑖0 e 𝑦𝑗0 são
De acordo com Angulo Meza (2002) Este os 𝑖n 𝑝𝑢𝑡𝑠 𝑖 e 𝑜𝑢𝑡𝑝𝑢𝑡𝑠 𝑗 da DMU 0.
modelo determina a eficiência pela otimização

∑𝑠𝑗=1 𝑢𝑗 𝑦𝑗0
𝑀𝐴𝑋 𝐸𝑓𝑓0 = ( ) (1)
∑𝑟𝑖=1 𝑣𝑖 𝑥𝑖0

Sujeito a:
∑𝑠𝑗=1 𝑢𝑗 𝑦𝑗𝑘
≤ 1, ∀𝑘
∑𝑟𝑖=1 𝑣𝑖 𝑥𝑖𝑘
𝑣𝑖 , 𝑢𝑗 ≥ 0, ∀𝑖, 𝑗
Segundo Lins e Silva (2001) o problema objetivo deva ser igual a uma constante,
apresentado é de programação fracionária, normalmente igual à unidade. A formulação
que deve ser resolvido para cada uma das do modelo CCR é, então, apresentada em (2).
DMUs e pode ser transformado em um Nesse modelo as variáveis de decisão são os
problema de programação linear (PPL). Para pesos 𝑣𝑖 e 𝑢𝑗.
tal, obriga-se que o denominador da função

𝑀𝐴𝑋 𝐸𝑓𝑓0 = ∑ 𝑢𝑗 𝑣𝑗0 (2)


𝑗=1

Sujeito a:
𝑟

∑ 𝑣𝑖 𝑥𝑖0 = 1
𝑖=1
𝑠 𝑟

∑ 𝑢𝑗 𝑣𝑗𝑘 − ∑ 𝑣𝑖 𝑥𝑖𝑘 ≤ 0, ∀𝑘
𝑗=1 𝑖=1

𝑣𝑖 , 𝑢𝑗 ≥ 0, ∀𝑖, 𝑗

Conforme apresentado no modelo anterior, questão foi desconsiderada na avaliação do


podemos evidenciar que a estrutura modelo.
matemática do modelo, permite que uma
A primeira etapa do modelo DEA é definir o
DMU seja considerada eficiente a partir de
que se quer medir com as DMU’s. Nessa
vários conjuntos de pesos. De certa forma
pesquisa, as DMU’s serão:
podemos atribuir peso zero a alguns inputs e
outputs, o que significa que essa variável em DMU’s 1 = UC’s RDS.

Administração Rural - Volume 1


113

DMU’s 2 = comunidades beneficiadas dentro com organizações do setor público ou "sem


dessas UC’s. fins lucrativos", como hospitais, escolas e
outras organizações do setor público
DMU’s 3 = modalidades de bolsas florestas
"baseadas em unidades". A técnica DEA
por comunidades ou por UC’s.
evoluiu no setor público, onde medidas
A eficiência é analisada, relativamente, entre diferentes de medidas puramente financeiras
as unidades das DMU’s. Para avaliar a eram necessárias para avaliar o desempenho.
eficiência, as DMU’s devem realizar tarefas
similares, de modo que a comparação entre
elas faça sentido. Além disso, uma 2.3 ÁREA DE ESTUDO DA PESQUISA
característica da técnica DEA é que os inputs
A área de estudo para essa pesquisa será as
(insumos) e outputs (produtos) sejam iguais,
UCs’ do tipo RDS e RESEX localizadas no
variando apenas na quantidade.
Estado do Amazonas (Figura 1). Uma Reserva
As variáveis necessárias para a pesquisa são de Desenvolvimento Sustentável (RDS)
variáveis de cunho social, econômico e segundo Almeida (2015) é uma área natural
ambiental, geradas em virtude da que abriga populações tradicionais que vivem
implementação do PBF nas comunidades das em sistemas de exploração sustentável dos
UC’s do estado do Amazonas, especialmente recursos naturais.
as RDS:
Ao proteger o uso do ambiente desenvolvido
Input 1: INV UC = valor dos investimentos ao longo de gerações e adaptado às
com infraestrutura e bens por RDS (R$). condições ecológicas locais, esta categoria
de unidade de conservação de uso
Input 2: INV BF = valor dos investimentos
sustentável contribui para a proteção da
totais realizados por tipo de bolsa floresta
natureza e para a manutenção da diversidade
(R$).
biológica.
Input 3: FAT UC = Faturamento bruto médio
De acordo com a FAS (2016), as Reservas de
por família p/ RDS (R$).
Desenvolvimento Sustentável foram criadas
Output 1: FAM ATEN = nº de famílias pela Lei 9.985/00, o Sistema Nacional de
atendidas (un). Unidades de Conservação da Natureza
(SNUC), que, por sua vez, é regulado pelo
Output 2: DESEV COM = taxa de
Decreto nº 4.340/02.
desmatamento evitado por RDS (%).
Segundo o Cadastro Nacional de Unidades
Para o desenvolvimento da análise será
de Conservação – CNUC (MMA, 2018), até o
utilizado o Software Frontier Analyst 4.0 que é
início de março de 2018, existem 39 RDS no
uma ferramenta de análise de eficiência
país: 2 nacionais, 32 estaduais e 5
baseada, que usa a técnica chamada Data
municipais. São exemplos: a Reserva de
Envelopment Analysis (DEA) para examinar o
Desenvolvimento Sustentável Mamirauá (AM),
desempenho relativo das unidades
a Reserva de Desenvolvimento Sustentável
organizacionais, que desempenham funções
Veredas do Acari (MG), a Reserva de
similares. É, portanto, adequado para uso em
Desenvolvimento Sustentável Estadual Ponta
organizações que operam através de um
do Tubarão (RN) e a Reserva de
sistema de pontos de venda (como lojas de
Desenvolvimento Sustentável do Rio Negro
varejo, bancos, franquias, etc.) e para uso
(AM).

Administração Rural - Volume 1


114

Figura 1. Unidades de Conservação do Estado do Amazonas.

Fonte: Fundação Amazonas Sustentável, 2018.

2.4 FLUXOGRAMA OPERACIONAL DA tracejada, para realizar a análise de


PESQUISA. eficiência. Mas, as DMU’s dependem
totalmente das variáveis inputs e outputs que
O Fluxograma 1 mostra o caminho para
são geradas automaticamente, quando das
melhor entender a pesquisa. A partir do
aplicações das bolsas florestas nas
conhecimento do PBF, é delimitado as UC’s
comunidades das RDS. É necessário
que estão localizadas no Estado do
observar que possivelmente uma comunidade
Amazonas que são do tipo RDS. Muito
pode ser beneficiada simultaneamente por
embora exista outras UC’s em regiões, por
todas as modalidades de bolsa floresta como
exemplo, críticas de desmatamento1. As UC’s
também por apenas uma ou duas, e assim
RDS possuem muitas comunidades que são
sucessivamente. À medida que essas
amparadas pelo PBF nas suas diversas
comunidades recebem recursos financeiros,
modalidades de bolsas (renda, social,
com o fim de promover qualidade de vida
familiar, associação). Nesse ponto, a
com proteção ambiental, é gerado diversos
pesquisa se apropria das DMU’s (RDS,
dados como resultados da aplicação desses
comunidades e bolsas florestas), na linha
recursos.

Figura 2. Fluxograma operacional da pesquisa.

Fonte: Elaboração própria.

Administração Rural - Volume 1


115

Visando atender aos objetivos delineados por também informações acerca dos municípios
esta pesquisa, o presente estudo utilizará que fazem parte das referidas unidades de
dados secundários obtidos junto aos conservação através do anuário estatístico do
Relatórios de Gestão da Fundação Amazonas Amazonas e Condensado dos municípios
Sustentável (FAZ) do ano de 2016 em vista relatório este disponibilizado pela Secretaria
deste ter sido o último ano de publicação de Estado de Planejamento, Desenvolvimento,
disponível. Ciência, Tecnologia e Inovação (SEPLAN-
CTI).
Também far-se-á uso de dados obtidos juntos
a Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística
(IBGE) sobre renda, população e produção
3. RESULTADOS E DISCUSSÕES
agropecuária, bem como os dados de
desmatamento de 2015 à 2016 do Sistema de O primeiro passo da pesquisa foi levantar as
Monitoramento da Floresta Amazônica Unidades de Conservação (UCs) do Estado
Brasileira por Satélite (PRODES) do Instituto do Amazonas, conforme apresentado na
Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) e Tabela 1 a seguir.

Tabela 1. Unidades de Conservação do Amazonas, área(há), famílias e localidades

UC Área(ha) Famílias Localidades

RDS Piagaçu-Purus 1.008.167 999 64


RDS do Rio Negro 102.979 693 19
APA do Rio Negro 611.008 220 10
RDS Puranga Conquista 76.936 346 12
RDS do Uatumã 424.430 337 20
Floresta Estadual de Maués 438.440 740 21
RDS Canumã 22.355 316 16
RDS do Rio Madeira 283.117 1.069 52
RDS do Rio Amapá 216.109 411 10
RDS do Juma 589.611 476 38
RDS Mamirauá 1.124.000 2.332 184
RDS Amanã 2.350.000 817 817
Resex Catuá-Ipixuna 217.486 234 13
Resex do Rio Gregório 427.004 210 27
RDS Cujubim 2.450.380 48 2
RDS de Uacari 632.949 349 30

Fonte: Relatório de Gestão da Fundação Amazonas Sustentável (2016).

De acordo com dados apresentados na que apenas estas unidades possuem


Tabela 1, podemos notar que no Amazonas atividade produtiva voltada para o
existem 12 Reservas de Desenvolvimento desenvolvimento local, apesar de que na
Sustentável (RDSs); 2 Reservas Extrativistas Unidade de Conservação Floresta Estadual
(RESEX); 1 Floresta Estadual e 1 Área de de Maués e Reservas Extrativistas, possuírem
Proteção Ambiental (APA). A RDS Cujubim é a atividade econômica voltada para a produção
Unidade de Conservação que possui a maior de guaraná e farinha.
área por hectare (2.450.380). A RDS de
Os dados apresentados na Tabela 2, nos
Mamirauá é a Unidade de Conservação que
mostram que das 12 Unidades de
possui o maior número de famílias (2.332) e
Conservação do tipo RDS a produção de
por fim a RDS de Anamã é a que possui o
farinha é dominante (5 unidades produzem
maior número de localidades (817).
farinha) seguido por 3 unidades que
O segundo passo foi levantar o tipo de produzem pirarucu fresco e 1 unidade cada
produção por unidade de conservação, produz castanha, madeira e banana. Não foi
produção por safra e o faturamento bruto possível obter dados de faturamento bruto
médio das famílias. Nesta etapa, priorizaram- médio por famílias da RDS Puranga
se somente as Unidades de Conservação Conquista.
(UCs) do tipo RDS, pois partimos do princípio

Administração Rural - Volume 1


116

Tabela 2. Reservas de Desenvolvimento Sustentável do Amazonas, produção por safra, faturamento


bruto médio por família.
Fatur. bruto
Produção por
UC Médio p/Família
safra
(R$)
RDS Piagaçu-Purus castanha 2.533
RDS do Rio Negro madeira 6.223
RDS Puranga Conquista Farinha -
RDS do Uatumã Farinha 2.973
RDS Canumã Farinha 1.297
RDS do Rio Madeira cacau 1.375
RDS do Rio Amapá banana 2.735
RDS do Juma Farinha 2.579
RDS Mamirauá pirarucu 2.994
RDS Amanã pirarucu 1.996
RDS Cujubim Farinha 1.098
RDS de Uacari pirarucu 2.095

Fonte: Relatório de Gestão da Fundação Amazonas Sustentável (2016).

Os dados nos mostram que a atividade que referentes a valor dos investimentos totais por
proporciona um maior faturamento bruto bolsa em cada uma das unidades de
médio por família e a produção de madeira conservação em análise.
sustentável (R$ 6.223). A seguir os dados

Gráfico 1. Investimentos totais por bolsa em cada Reserva de Desenvolvimento (RDS) em


R$ 1.000,00.

Fonte: Relatório de Gestão da Fundação Amazonas Sustentável (2016).


(*) Estes valores são as somas dos 4 componentes bolsa floresta (familiar, associação, renda e social).

Os dados do Gráfico 1 fazem referência ao demais. Em parte, este resultado se deve pelo
somatório de todos os valores em Bolsa fato de que esta RDS possuir o maior número
Floresta investidos nas RDS. Podemos notar de famílias beneficiadas pelo programa. No
que a RDS Mamirauá obteve um valor Gráfico 2 a seguir veremos o comportamento
expressivo de investimentos da ordem de das taxas de desmatamento de 2015 a 2016.
R$ 1.759.169 muito superior a todas as

Administração Rural - Volume 1


117

Gráfico 2. Taxa de desmatamento por Reserva de Desenvolvimento (RDS) de 2015 a 2016.

Fonte: PRODES/INPE (2018).

De acordo com os dados do Gráfico 2 3.1 RESULTADO DA ANÁLISE ENVOLTÓRIA


podemos evidenciar que das 11 Unidades de DE DADOS (DEA)
Conservação do tipo RDS apenas 4 obtiveram
Inicialmente tínhamos 12 Reservas de
taxa de desmatamento evitado no período em
Desenvolvimento Sustentável (RDS) para
análise. As demais RDS´s tiveram
analisar, entretanto dados às limitações do
crescimento na taxa de desmatamento, sendo
Software Frontier Analyst 4.0 só poderíamos
a RDS Mamirauá a que obteve a maior taxa
analisar no máximo 11 DMU’s, sendo assim
(0,435%). Agora apresentaremos os dados
optou-se por excluir da análise a RDS
obtidos pelo método DEA utilizando o
Puranga Conquista, pois a mesma não
Software Frontier Analyst 4.0 para verificar o
apresentou dados de faturamento bruto
grau de eficiência obtido pelo Programa Bolsa
médio por famílias segundo a Tabela 2. Desta
Floresta em 2016 nas RDS selecionadas.
forma organizaram-se os dados conforme
Tabela 3 a seguir.
Tabela 3. Tabulações dos dados para análise.
INPUTS OUTPUTS
Fatur. bruto Investimento com Investimentos
UC N de familías
Médio p/Família Infraestrutura e totais por bolsa
benefeciadas
(R$) bens (R$) em cada UC (R$)
RDS Piagaçu-Purus 2.533 208.938 640.435 999
RDS do Rio Negro 6.223 131.787 515.983,55 693
RDS do Uatumã 2.973 55.077 203.920,40 337
RDS Canumã 1.297 72.433 224.025,05 316
RDS do Rio Madeira 1.375 245.057 751.840,92 1069
RDS do Rio Amapá 2.735 105.755 307.684,33 411
RDS do Juma 2.579 50.364 317.396,20 476
RDS Mamirauá 2.994 590.892 1.759.168,54 2332
RDS Amanã 1.996 187.986 558.800,00 817
RDS Cujubim 1.098 43.225 50.935,93 48
RDS de Uacari 2.095 37.591 202.050,00 349

Fonte: Elaboração própria.

Desta forma trabalhou-se apenas com 11 RDS No primeiro momento utilizando as variáveis:
cujo, os dados de eficiência pelo método faturamento bruto médio por família,
CCR (Retornos Constantes de Escala) investimentos com infraestrutura e bens,
apresentam-se na Tabela 4. investimento total por bolsa em cada Unidade
de Conservação do tipo Reserva de

Administração Rural - Volume 1


118

Desenvolvimento Sustentável (UC/RDS) como (PBF) no sentido de melhorar a qualidade de


input e tendo como output o número de vidas das famílias que vivem e dependem do
famílias beneficiadas, tentou-se verificar o programa.
nível de eficiência do Programa Bolsa Floresta

Tabela 4. Resultado da Análise Envoltória de Dados pelo método CCR.


DMU’s Resultados comparados
Descrição Percentual (%) Resultado Condição
RDS Amanã 95,2 - Fracamente eficiente
RDS Canumã 87,7 - Ineficiente
RDS Cujubim 54,6 - Ineficiente
RDS Mamirauá 100,0 Eficiente Pareto eficiente
RDS Piaguaçu-Purus 100,0 Eficiente Pareto eficiente
RDS de Uacari 100,0 Eficiente Pareto eficiente
RDS do Juma 100,0 Eficiente Pareto eficiente
RDS do Rio Amapá 79,1 - Ineficiente
RDS do Rio Madeira 100,0 Eficiente Pareto eficiente
RDS do Rio Negro 77,8 - Ineficiente
RDS do Uatumã 95,7 - Fracamente eficiente
Fonte: Elaboração própria a partir do Software Frontier Analyst 4.0.

De acordo com os dados da Tabela 4 ambientais as pessoas que vivem e


podemos perceber que das 11 RDS´s apenas dependem da floresta para sua
5 obtiveram 100% de eficiência no resultado. sobrevivência, cujo entendimento é que estas
Em outras palavras qualquer variação nas pessoas são os verdadeiros guardiões da
entradas (inputs) produz variação floresta, tendo em vista que o programa,
proporcional nas saídas (outputs). também busca, dotar as famílias atendidas de
uma alternativa econômica que as possibilite
Podemos dizer que as RDS´s que
produzir e gerar renda sem degradar o meio
apresentaram resultados eficientes tiveram
ambiente e destruir a floresta, foi que a
condição eficiente no sentido de pareto ou
pesquisa utilizou as mesmas variáveis para
fortemente eficientes dado que, um aumento
analisar a relação dos inputs (faturamento
de 10% nos insumos provocou um aumento
bruto médio por família, investimentos com
proporcional no produto. Por outro lado, as
infraestrutura e bens e investimento total por
DMU´s que apresentaram resultado sem
bolsa floresta) com as taxas de
caracterização tiveram condição
desmatamento evitado de 2015 a 2016
consideradas fronteira fracamente eficiente e
(outputs).
por fim as DMU´s que apresentaram
percentual ente 70-90% e condição Para esta análise, não se levou em
ineficientes podemos considerar como consideração o total de Reservas de
fronteira não pareto eficiente ou simplesmente Desenvolvimento Sustentável (RDS´s), pois
ineficientes. segundo os dados apresentados no Gráfico 2
apenas 4 unidades obtiveram redução na
Levando em conta que a filosofia do PBF é de
taxa de desmatamento no período de 2015 a
compensar, por meio de investimentos em
2016.
geração de renda e pagamento por serviços

Administração Rural - Volume 1


119

Tabela 5. Organização dos dados tendo como Output a Taxa de desmatamento evitado.
Fatur. bruto Investimento com Investimentos
TX desmatamento
UC Médio p/Família Infraestrutura e totais por bolsa
evitado 2015-2016
(R$) bens (R$) em cada UC (R$)
RDS Piagaçu-Purus 2.533 208.938 640.435 0,06
RDS do Uatumã 2.973 55.077 203.920,40 0,05
RDS do Rio Amapá 2.735 105.755 307.684,33 0,01
RDS de Uacari 2.095 37.591 202.050,00 0,01
Fonte: Elaboração própria.

Sendo assim levou-se em consideração na Uatumã; Rio Amapá e Uacari. O resultado é


análise apenas as RDS´s Piagaçu-Purus; apresentado na Tabela 6.

Tabela 6. Resultado da Análise Envoltória de Dados pelo método CCR tendo como Output a Taxa
de desmatamento evitado.
DMU’s Resultados comparados
Descrição Percentual (%) Resultado Condição
RDS Piaguaçu-Purus 100,0 Eficiente Pareto eficiente
RDS de Uacari 29,3 - Ineficiente
RDS do Rio Amapá 19,8 - Ineficiente
RDS do Uatumã 100,0 Eficiente Pareto eficiente
Fonte: Elaboração própria a partir do Software Frontier Analyst 4.0.

De acordo com os dados apresentados na recursos de todas as ordens, esses impactos


Tabela 6, podemos evidenciar que apesar de serão mais graves e catastrófico.
que 4 Unidades de Conservação (UC´s)
Em termos de bioma Amazônia, o ritmo de
terem apresentado um resultado satisfatório
desmatamento e das queimadas na região
no sentido de reduzir o desmatamento,
causa preocupação em nível mundial e
apenas 2 delas apresentaram 100% de
nacional. Isto porque preservar a floresta é
eficiência, ou como podemos dizer fronteira
importante para todos: o estado de equilíbrio
de pareto eficiente (RDS Piagaçu-Purus e
dinâmico atual da atmosfera sobre a região
Uatumã). As demais foram ineficientes no
amazônica depende do tipo de cobertura
sentido de pareto (isto é, apesar de se dobrar
vegetal existente, ou seja, depende da
os insumos o produto obtido não foi na
floresta. Grandes alterações da cobertura
mesma proporção).
vegetal poderão levar a alterações climáticas.
Recentemente, os Órgãos responsáveis pelo
4. CONSIDERAÇÕES FINAIS controle e monitoramento do desmatamento
da região registraram taxas altíssimas se
Uma das maiores inquietações mundiais a
comparadas aos controles de outrora. Isto
respeito da crise ambiental que se instaurou
caracteriza àquela velha tendência do modelo
são as previsões catastróficas da mudança
de desenvolvimento na região – perda de
climática global, cujos efeitos indicam ser
florestas para produção agropecuária, entre
demasiadamente prejudicial para a
outras atividades.
humanidade, porém de forma diferenciada
em diversas regiões do planeta. O mundo Políticas estratégicas de desenvolvimento –
todo sofrerá com os impactos negativos da que venham simultaneamente oferecer algum
mudança do clima; mas nos países pobres, benefício à sociedade local e ao clima
onde há grande incidência de fome, mundial – em cada sub-região da Amazônia é
guerrilhas, subnutrição e falta geral de o grande desafio do governo brasileiro. E as
políticas ambientais – que defendem recursos

Administração Rural - Volume 1


120

financeiros destinados a fomentar políticas de investimentos com infraestrutura e bens,


desenvolvimento a partir do desmatamento investimento total por bolsa em cada UC do
evitado ou conservação de florestas – tipo RDS como input e tendo como output o
parecem contribuir bastante para um dos número de famílias beneficiadas. E assim,
grandes objetivos da Convenção do Clima, buscou-se verificar o nível de eficiência do
que é a responsabilidade comum, porém PBF no sentido de melhorar a qualidade de
diferenciada dos países. vidas das famílias que vivem e dependem do
programa. Os resultados apontaram que das
Assim, o PBF está inserido na Lei de
11 RDS´s apenas 5 obtiveram 100% de
Mudanças Climáticas, Conservação
eficiência no resultado, ou seja, qualquer
Ambiental e Desenvolvimento Sustentável do
variação nas entradas (inputs) produz
Amazonas, sendo construído de forma
variação proporcional nas saídas (outputs).
participativa, com ampla discussão tanto nas
Pôde-se avaliar que as RDS´s que
comunidades quanto com instituições
apresentaram resultados eficientes tiveram
governamentais e não governamentais em
condição eficiente no sentido de pareto ou
Manaus. Além disso, o PBF é considerado um
fortemente eficientes dado que, um aumento
programa de Governo do Estado do
de 10% nos insumos provocou um aumento
Amazonas, que busca a interiorização do
proporcional no produto. Por outro lado, as
desenvolvimento a partir da compensação, da
DMU´s que apresentaram resultado sem
valorização e do reconhecimento dos povos
caracterização tiveram condição
da floresta como um fator ímpar na luta a
consideradas fronteira fracamente eficiente e
favor do equilíbrio mundial do clima, da
por fim as DMU´s que apresentaram
manutenção da floresta em pé e do
percentual ente 70-90% e condição
desmatamento zero.
ineficientes podemos considerar como
O PBF é um conjunto positivo de ações que fronteira não pareto eficiente ou simplesmente
tem como objetivo oferecer uma ineficientes.
compensação financeira para os serviços
Ao analisar o desmatamento evitados nessas
prestados pelas populações tradicionais e
RDS por conta do PBF, considerou-se apenas
indígenas do Amazonas, ou seja, uma
as RDS´s Piagaçu-Purus; Uatumã; Rio Amapá
recompensa aos guardiões da floresta que se
e Uacari. No resultado, apesar de que 4
comprometem com a conservação ambiental
(UC´s) terem apresentado um resultado
e o desenvolvimento sustentável nas UC’s do
satisfatório no sentido de reduzir o
Estado do Amazonas. É o primeiro programa
desmatamento, apenas 2 delas apresentaram
brasileiro de pagamento de serviços
100% de eficiência, ou como podemos dizer
ambientais feito diretamente para as
fronteira de pareto eficiente (RDS Piagaçu-
comunidades que residem nas UC’s.
Purus e Uatumã). As demais foram
Ao analisar a eficiência socioeconômica e ineficientes no sentido de pareto (isto é,
ambiental do PBF do AM, no primeiro apesar de se dobrar os insumos o produto
momento utilizou-se como variável o obtido não foi na mesma proporção).
faturamento bruto médio por família,

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Administração Rural - Volume 1


122

Capítulo 10

Maricelia Almeida da Silva


Lucas Ferreira Lima

Resumo: Os nordestinos sofrem com grandes períodos de seca, muito já se foi


proposto para resolver os problemas causados pela, a transposição de um dos
mais importantes rios do Brasil, o rio São Francisco. O projeto de transposição do
rio São Francisco vem sendo executado desde 2007 e promete trazer água ao
sertão, atender a população sertaneja que sofre com o difícil acesso a água e
trazer desenvolvimento a região, criando empregos e novas oportunidades para o
aumento da renda do povo nordestino. Porem muitos pesquisadores e especialistas
na área mostra que o projeto, que tem custos muito elevados não cumprirá a
promessa feita por seus idealizadores, além de ser uma ameaça para o rio São
Francisco e seus afluentes, já tem tirado a fonte de renda de famílias que viviam da
agricultura familiar e da criação de animais e que tiveram que sair de suas
propriedades, muitas vezes tirando dela o pouco de água que tem reservada e o
modo como podem reservar melhor essa água. Tirando a esperança dessas
pessoas. A transposição é, segundo seus idealizadores, uma solução para a seca,
mas quem é contra o projeto, cobra do governo a busca por outras soluções
possíveis. A transposição vai beneficiar, principalmente, o agronegócio, deixando
assim de atender a maior parte da população, fortificando ainda mais, a indústria
da seca, formada por grandes empresários do agronegócio que tem posses sobre
as reservas de água que estão no sertão nordestino e não sofrem com a seca como
os sertanejos. A redistribuição dessas reservas é uma das soluções para resolver
os problemas causados pela seca e para acabar com a indústria da seca.

Palavras-chave: transposição, sertão, indústria da seca.

Administração Rural - Volume 1


123

1. INTRODUÇÃO Com grande maioria de economistas


nordestinos, a SUDENE quando criada
A região Nordeste do Brasil sofre com
elaborou um grande estudo com os principais
grandes períodos de seca, onde geralmente
pontos de estrangulamento da economia
ocorrem períodos longos de seca seguidos
nordestina e, elaborou ações em prol do
por períodos muito curtos de chuvas. A
desenvolvimento para esta região. Esse grupo
última grande seca que atingiu o Nordeste
da SUDENE pouco pode fazer pelo Nordeste,
teve inicio no ano de 2011 e já dura sete
devido à conjuntura política e social do
anos. A renda da população mais carente do
período e devido à entraves e disputas com
sertão nordestino é formada principalmente
os latifundiários que lucravam com a indústria
pela agricultura familiar, mas também se dá
da seca.
através da prestação de serviços à grandes
fazendeiros e empresários da região. Muitas ações foram propostas para resolver o
problema a seca no Nordeste, como a criação
Além do grande problema da seca que
de programas sociais que construíam
impacta diretamente na renda do povo
cisternas para a população armazenar água,
nordestino há na região problemas como falta
o Programa Cisternas (O Programa Nacional
de infraestrutura, educação e saúde
de Apoio à Captação de Água de Chuva e
causados, principalmente, pela falta de
outras Tecnologias Sociais), criado pelo
investimentos públicos. É importante salientar
Ministério do Desenvolvimento Social, até
que os problemas causados pela falta de
obras grandiosas, como a transposição do rio
investimento público são encontrados
São Francisco.
também em outras regiões do país, mas
devido à estrutura socioeconômica estão A transposição do rio São Francisco é um
acentuados no Nordeste. projeto que foi proposto inicialmente durante
o segundo reinado, quando Dom Pedro II
A pergunta que se faz importante abordar é: a
apresentou a transposição do rio São
seca é a grande causa dos problemas
Francisco como a solução para a seca no
socioeconômicos do sertão nordestino? Isto é,
Nordeste e, desde então, houve muitos
ao se resolver o problema seca, todos os
projetos de transposição, até que o
outros problemas encontrados no sertão
presidente Lula decidiu tirar o projeto do
serão facilmente resolvidos?
papel e deu inicio em 2007 à essa obra.
Grande parte dos problemas, principalmente
O projeto prometeu levar água para o povo
em relação à renda, são causados pelos
sertanejo que sofre com a seca, mas estudos
longos períodos de seca, entretanto, o grande
sobre o projeto mostram que a maior parte da
problema nordestino é o descaso público e a
água fornecida através da transposição está
presença dos grandes empresários
sendo destinada para o agronegócio
(latifundiários) que se aproveitam da seca
(monocultura e latifúndio) e para a indústria,
para ampliarem seu poder e riqueza, além de
tendo assim uma pequena parte destinada à
se beneficiarem das reservas de água que
produção agrícola familiar e à população.
deveriam ser destinadas à produção familiar
Além da controversa relação da ideia central
para continuarem produzindo e fortalecendo a
do projeto e o destino real (final) da água, a
indústria da seca.
transposição tirou muitos moradores das
Vários projetos e instituições foram criadas regiões onde passa, afetando a vida desses
com o objetivo de resolver o problema da moradores que tiveram que deixar suas
seca no Nordeste, tais como a SUDENE terras, plantações e, em muitos casos,
(Superintendência do Desenvolvimento do perderam a única terra que tinham para
Nordeste) durante o Plano de Metas, no manter suas criações em troca de uma
governo do presidente Juscelino Kubitschek. indenização baixa.
Um dos principais interlocutores e
O assunto transposição é muito discutido
coordenador da SUDENE foi o professor
entre estudiosos que defendem ou não a
Celso Furtado, economista que agia sempre
transposição, mas poucos estudos têm sido
em beneficio do Nordeste, apoiado por outros
feitos sobre os reais impactos para a
economistas nordestinos, tais como Francisco
população nordestina. A possibilidade de ter
de Oliveira e Tânia Barcelar, que
acesso mais facilitado à água pode fazer com
direcionavam seus estudos para superação
que a população mais pobre do sertão, que é
dos entraves socioeconômicos da economia
a maior parte da população, deposite suas
nordestina.
esperanças na transposição mesmo sem

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124

saber se o projeto atenderá a demanda por Nordeste!”, Dom Pedro II já demonstrava que
água. o problema da seca preocupava os
governantes no Brasil desde o Brasil império.
Outras opções para levar água ao sertanejo e
que tivessem um menor impacto social e Autores que dedicaram grande parte de seus
ambiental em relação à transposição já foram estudos para analisar e descrever a vida do
propostas por especialistas, mas os governos povo nordestino, como o mineiro Darcy
continuaram optando pela transposição. Ou Ribeiro (1922 – 1997), que era antropólogo,
seja, há outros meios de reduzir os problemas escritor e político brasileiro, descreveu em
com a seca, principalmente no Nordeste seu livro “O Povo Brasileiro” (1995), que o
brasileiro, a região semiárida com maior Nordeste se caracteriza como uma terra de
reserva de água do mundo. Entretanto, na vegetação pobre, formada por pastos naturais
visão dos autores, os problemas nessa região e ralos. A economia nordestina se caracteriza
vão além da seca. como uma economia pastoril baseada no
fornecimento de carne, couro, que durante o
Este artigo é formado por sete capítulo, este
auge da cana-de-açúcar, eram fornecidos
primeiro capítulo introdutório. Um segundo
principalmente para os engenhos que ficavam
capítulo que apresenta a região do semiárido
no litoral nordestino.
através de grandes autores nordestinos, que
descrevem a região como uma terra seca e A economia pastoril e a agricultura familiar
de gente sofrida, como acontece na obra de são as principais atividades econômicas do
Graciliano Ramos (1892 – 1953), Vida Secas sertão, pois quem trabalhava em grandes
(1938). Já em um terceiro capítulo são fazendas muitas vezes recebia parte do
apresentados alguns números que excedente e produtos de origem secundária à
representam o nordeste com a quantidade de produção (sistema de meeiros), como os
municípios que se encontra em estados de produtos de origem animal como o leite e o
emergência pela seca, e também apresenta couro, além de terem uma pequena parte de
características geográficas da região, como terra para morar e montarem suas próprias
os estados que a formam e sua hidrografia, plantações.
além de mensurar os prejuízos que a seca
Devido à falta de demanda por gado para ser
tem causado na economia nordestina. O
utilizado nas plantações de cana de açúcar
quarto capítulo cita alguns projetos propostos
no litoral e, com o excedente das pequenas
desde o Brasil império para realizar a
criações, começaram a se formar grandes
transposição do rio São Francisco até o
feiras locais que incluíam manifestações
momento em que o projeto sai do papel
culturais, tais como as festas religiosas. Essas
durante o governo do presidente Lula em
características, já citadas neste capitulo, são
2007. Em um quinto capitulo, o projeto é
descritas por Darcy Ribeiro também em “O
descrito com seu orçamento inicial,
Povo Brasileiro” (1995).
mostrando como o projeto impacta a vida do
sertanejo e questionando se vale a pena a O desespero causado pela seca levou por
população pagar um preço tão alto para que várias vezes o povo sertanejo a ter esperança
o projeto seja realizado. O sexto capitulo de que um salvador os tiraria da miséria em
apresenta um pouco do que é falado sobre o que viviam e da seca no sertão. Sendo assim,
projeto transposição, citando algumas há uma tendência ao messianismo, algo muito
personalidades e instituições que defendem o presente na cultura do sertanejo. Um exemplo
projeto e alguns especialistas que dessa tendência ao messianismo foi o
apresentam argumentos contra o projeto. O Massacre de Canudos, onde muitos morreram
sétimo capítulo, que fecha o artigo mostram ao ver nas palavras de um homem a
que outras soluções foram propostas e esperança de sair da miséria e da seca, este
algumas poderiam ter sido estudas pelo homem era “Antonio Conselheiro”. Seus
governo como uma alternativa com menor seguidores se rebelaram contra o governo,
impacto sobre a economia e o ecossistema que ordenou o ataque ao vilarejo, onde cerca
da região em relação ao projeto de de 25 mil pessoas foram mortas, destruindo
transposição. todo o povoado. Esse massacre aconteceu no
dia 06 de outubro de 1897, com a queima de
todo o povoado e o assassinato da população
2. A HISTÓRIA DO NORDESTE de Canudos, no dia anterior Antonio
Conselheiro e mais três defensores de seus
Ao dizer: “venderei até a última joia da coroa,
ideais foram assassinados. Euclides da
mas solucionarei o problema da seca no

Administração Rural - Volume 1


125

Cunha faz relatos sofre a tragédia em acesso a água e pelo alto custo de matérias
Canudos e sobre o fanatismo no vilarejo em primas que muitas vezes tem que vir de
seu livro “Os Sertões” de 1902. longe, há também o problema de logística
que encarece o produto. Assim o empresário
O sofrimento do povo sertanejo era
nordestino que obteve capital na região
apresentado em muitas obras de grandes
nordeste passa a investir na região sudeste,
autores brasileiros, como no livro “Vidas
tendo assim uma transferência de
Secas” (1938), do alagoano Graciliano Ramos
investimentos da região nordeste para a
(1892 – 1953). O livro do alagoano descreve o
região sudeste. O faz com que o multiplicador
sofrimento de um sertanejo solitário que vive
econômico que deveria favorecer a região
no sertão, retratando a vida sofrida do
onde surgiriam essas empresas deixe de dar
sertanejo através de seus personagens. O
dinamismo a economia nordestina e estimule
romance representa a situação social do
a economia do nordeste.
nordestino, onde através de relatos da vida
de um retirante representa o sofrimento com a Para resolver os problemas da seca e evitar
seca e com os abusos de poder dos que problemas envolvendo políticos e
latifundiários. empresários (indústria da seca)
acontecessem, foi criado o DNOCS
Graciliano Ramos, nordestino, viveu grande
(Departamento Nacional de Obras Contra a
parte de sua vida no sofrido sertão ao morar
Seca) em 1909. Órgão que foi corrompido
com seus pais em Buíque, Pernambuco.
pelo clientelismo e, sendo assim, pouco
Sebastião Ramos, seu pai, comprou uma
eficiente para resolver os problemas dos
fazenda, mas teve o gado morto pela seca,
sertanejos, o que favoreceu os grandes
impactando toda a família.
latifundiários.
O que tem em comum nessas obras é a
Com o passar dos anos, foi necessário que
imagem da acentuada desigualdade social no
outro órgão fosse criado para entender e
sertão nordestino. Essa grande desigualdade
executar obras com o objetivo de melhorar a
cresce com a ajuda da indústria da seca,
vida do povo nordestino. Esse novo órgão foi
muitas vezes beneficiada por governantes
a SUDENE (Superintendência do
que aceitam trabalhar para que obras
Desenvolvimento do Nordeste), criada em
públicas e recursos públicos sejam
1959 pelo governo JK, e liderada pelo
direcionados aos grandes empresários da
economista paraibano Celso Furtado (1920 –
região. Grande parte desses políticos utiliza
2004). A SUDENE tinha como principal
de seus cargos públicos para crescimento de
objetivo gerar desenvolvimento para o
suas empresas e de empresas de seus
Nordeste, entretanto grande parte dos
conhecidos.
projetos criados na SUDENE foi interrompida
O pernambucano Francisco de Oliveira, após o Golpe Militar de 1964 por causa dos
integrante do grupo que formou a SUDENE interesses de quem pertencia à indústria da
junto com Celso Furtado, mostra em sua obra seca.
“Critica a razão dualista” (2003), que um
grande problema do nordeste é a relação
centro periferia que há entre a região sudeste 3. O NORDESTE EM NÚMEROS
e a região nordeste. Assim A população
A caatinga é o bioma predominante na região
nordestina além de ter grande parte da sua
Nordeste, predominante em regiões
PEA (população economicamente ativa)
semiáridas como o sertão nordestino.
migrando para região sudeste e assim
Segundo dados da SUDENE, essa região
produzindo e consumindo na região sudeste
possui aproximadamente 53 milhões de
deixando de colaborar com a dinâmica
habitantes, cerca de 57,7% da população
econômica nordestina, a população
nacional.
nordestina passa a consumir muitos produtos
produzidos na região sudeste por não Quatro grandes bacias hidrográficas fazem
encontrar os mesmos produtos de produção parte da região: a bacia do Rio São
local, transferindo assim a renda obtida na Francisco, passando por cinco estados:
região nordeste para a região sudeste. Minas Gerais, Bahia, Pernambuco, Sergipe e
Alagoas; a bacia do Rio Tocantins que passa
O mesmo acontece com algum investimento,
pelo Maranhão e pela Bahia; e os grupos de
quando o empresário nordestino deixa de
bacias do Atlântico Norte/Sul e Atlântico
investir na região nordeste pelo alto custo de
Leste, composto por rios de menor porte.
produção, causado principalmente pelo difícil

Administração Rural - Volume 1


126

O IDHM (Índice de Desenvolvimento Humano semiárido sejam, realmente, destinadas à


Municipal) aponta três importantes dimensões garantia dos direitos básicos dos nordestinos.
do desenvolvimento econômico: a
A SUDENE atualmente é um grupo vinculado
oportunidade de viver uma vida longa e
ao ministério da integração, que acompanha
saudável, o acesso ao conhecimento e um
a região do semiárido, coletando dados,
padrão de vida que garanta as necessidades
agindo como uma autarquia especial,
básicas, representadas pela saúde,
administrativa e financeiramente autônoma,
educação e renda. Antes dos anos 2000, o
integrante do Sistema de Planejamento e de
Nordeste apresentava um IDHM em faixas
Orçamento Federal, assim agindo com base
consideradas muito baixas (0 – 0,499) e
na Lei Complementar nº 125, de 03/01/2007,
baixas (0,500 – 0,599), o que representava as
que descreve onde e como a SUDENE deve
grandes dificuldades de se viver bem e em
atuar.
ter seus direitos preservados, como acesso à
educação. A atuação da SUDENE abrange os estados
Maranhão, Piauí, Ceará, Rio Grande do Norte,
O Nordeste é a região com menor IDHM do
Paraíba, Pernambuco, Alagoas, Sergipe,
país, mas entre os anos 2000 e 2010 a
Bahia, e os municípios: Águas Formosas,
situação do IDHM nordestino passou para o
Angelândia, Aricanduva, Arinos, Ataléia,
nível médio (0,600 – 0,699), representando
Bertópolis, Campanário, Carlos Chagas,
uma pequena melhora no nível de
Catuji, Crisólita, Formoso, Franciscópolis, Frei
desenvolvimento e acesso à educação. A
Gaspar, Fronteira dos Vales, Itaipé,
classificação do IDHM é feita pelo Atlas do
Itambacuri, Jenipapo de Minas, José
Desenvolvimento Humano, elaborado pelo
Gonçalves de Minas, Ladainha, Leme do
PNUD Brasil (Programa das Nações Unidas
Prado, Maxacalis, Monte Formoso, Nanuque,
para o Desenvolvimento no Brasil).
Novo Charlo Oriente de Minas, Ouro Verde de
Um IDHM, ainda em níveis considerados Minas, Pavão, Pescador, Ponto dos Volantes,
baixos, mostra como a região do sertão Poté, Riachinho, Santa Fé de Minas, Santa
nordestino precisa da atenção do governo Helena de Minas, São Romão, Serra dos
para trazer desenvolvimento a região e Aimorés, Setubinha, Teófilo Otoni, Umburatiba
garantir à população direitos básicos como e Veredinha, todos em Minas Gerais, e o
educação, saúde e alimentação. Mas, por município de Governador Lindemberg, no
mais que o governo envie recursos para Espírito Santo. A região do semiárido
serem investidos nessa região, há também a acompanhada pela SUDENE é que sofre
necessidade de uma rigorosa fiscalização muito com a seca está representada no mapa
que garanta que os recursos destinados ao abaixo.

Figura 1 - Área de Atuação da SUDENE

Fonte: SUDENE

Administração Rural - Volume 1


127

Outro índice que mostra uma pequena perdem cada vez mais rápido seus animais.
melhora na região é a Taxa Bruta de Essa população passa a viver de auxílios
mortalidade, que segundo o Ministério da como o Programa Bolsa Família e
Saúde foi decrescente em – 0,7% entre 2010 aposentadorias. Essa população deixa de
e 2011. Além disso, o Ministério da Saúde produzir, o que faz com que a economia
também apresenta dados que demonstram nordestina fique estagnada e que o
que a região apresenta uma redução de 2,1% multiplicador econômico, que poderia
na taxa de natalidade, o que mostra que dinamizar a economia da região através do
mesmo com a queda na mortalidade, aumento de renda e do crescimento no
inclusive a mortalidade infantil, a população comércio seja pouco expressivo.
nordestina tem crescido cada vez menos,
Outro fator que faz com que a economia
grande parte dessa queda na natalidade se
nordestina tenha grande queda é a queda na
dá pela migração de parte da população
indústria que acontece porque muitas
nordestina para as regiões centro-sul do
empresas se vêm obrigadas a sair da região
Brasil em busca de melhores condições de
por ter um aumento significativo no custo de
vida. A migração faz com que novas famílias
produção causado pelo difícil acesso a água,
que deveriam se formar no Nordeste passem
desempregando assim grande parte da
a se formar em outras regiões do Brasil, o que
população, colaborando assim para que não
também faz com que a população
tenha um multiplicador econômico na região.
economicamente ativa se reduza e que seja
cada vez menor também em relação ao Segundo um levantamento feito pela
número de aposentados na região, isto é, há Secretaria Nacional da Defesa Civil, o número
redução da PEA na região. de pessoas afetadas pela seca é de
8.354.092 em 1.089 municípios. Número alto
Grande parte da população nordestina que
de famílias que em grande parte, viviam da
vive, atualmente, de aposentadorias é alta,
agricultura familiar e de pequenas criações e
isto é, muitas famílias têm como principal ou
que perderam tudo e passaram a viver com
única renda uma aposentadoria. Essa
muito pouco, passando muitas vezes, até
situação é cada vez mais comum na região
mesmo fome e sede. Essa população que já
por causa da seca. Com baixa produção, os
sofre com serviços públicos de baixa
agricultores familiares e de pequenas
qualidade e, em muitos casos, tendo que
criações tem que recorrer a pequenos auxílios
esperar muito para ter acesso a um serviço
que o governo dá para a população de baixa
público de direito, aumentando o sofrimento
renda, e assim muitas famílias por não tem
do nordestino.
como cultivar suas pequenas plantações e

Tabela 1 - População afetada pela seca no Nordeste


Pessoas Municípios em
Estado
afetadas* emergência**
AL 458.222 36
BA 2.737.256 254
CE 1.978.232 172
MA - 5
PB 554.222 195
PE 1.150.540 112
PI 871.411 155
RN 500.000 142
SE 104.209 18
NORDESTE 8.354.092 1089
Fonte: * Defesas civis estaduais; ** Secretaria Nacional de Defesa Civil

Administração Rural - Volume 1


128

Segundo dados do IBGE (Instituto Brasileiro Esse prejuízo atingiu os setores da agricultura
de Geografia e Estatística), em 2013, os e pecuária e assim diminui a renda do
prejuízos causados pela seca na agricultura sertanejo que diminui seu consumo,
nordestina já chegavam a R$ 3,6 bilhões, mas causando assim uma queda em cadeia em
com a queda no setor varejista proveniente da outros setores como o varejista e o setor de
continuação do período de seca, entre 2013 e serviços na região. Deixando assim a
2015, o prejuízo passou a ser de R$ 105,3 economia nordestina no vermelho.
bilhões.

Figura 2 - Prejuízos da seca

Fontes: INPE, BNB-Etene, Ministério da Integração Nacional, Caged-MTE, Mdic e


Governo da Bahia, Raís.

4. TRANSPOSIÇÃO DO SÃO FRANCISCO, período do Brasil Império não saíram do


UM PROJETO DESDE O BRASIL IMPÉRIO. papel.
A seca no Nordeste brasileiro tem sido uma Em 1909, o tema transposição do São
preocupação para o governo desde a época Francisco volta a ser discutido durante o
do império. Com uma seca que atingiu a governo do presidente Afonso Pena, com a
região durante o período de 1844 a 1845, o criação da IOCS (Inspetoria de Obras Contra
intendente da comarca do Crato, no Ceará, a Seca), o primeiro órgão especialmente
Marcos Antônio de Macedo propôs a criação criado para estudar os problemas da seca no
de um canal que partiria de Cabrobó, em Brasil. O IOCS tinha a transposição como um
Pernambuco, em direção ao rio Jaguaribe, um de seus principais projetos, mas teve que
dos principais rios do Ceará, levando assim arquiva-lo por causa da elevação de 160
água do São Francisco ao estado. Mas o metros na área da Chapada do Araripe, que
projeto não foi realizado por falta de recursos. interromperia o curso das águas.
Sendo assim, o primeiro projeto de
Já em 1919, durante o governo do presidente
transposição do rio São Francisco se deu em
Epitáfio Pessoa, houve um projeto para a
1847.
criação de açudes que seriam alimentados
Ainda durante o reinado de Dom Pedro II, em pelas águas do São Francisco. Mas, com uma
1856, uma comissão cientifica liderada pelo fiscalização chefiada por Cândido Mariano da
Barão de Capanema, estudou o problema de Silva Rondon, conhecida como ‘Relatório
seca e propôs um canal que levasse água do Rondon’, constatou, em 1922, um desvio de
rio São Francisco para o rio Jaguaribe. Em recursos nas obras e o projeto foi
1886, o engenheiro cearense, Tristão Franklin interrompido.
Alencar retomou o tema, mas os projetos de
Durante o período da ditadura militar, o 1º
um canal que levasse água do rio São
Grupamento de Engenharia, instalados em
Francisco ao rio Jaguaribe sugeridos no
João Pessoal (PB), liderados pelo Coronel

Administração Rural - Volume 1


129

Mário Andreazza, criou um projeto de um hectare de terra, uma casa e uma


transposição que demoraria 40 anos para ser cisterna. Como havia cisterna, Francisco tinha
finalizado, mas devido à problemas climáticos como armazenar água para consumo próprio
e políticos, os militares acabaram desistindo e para seus animais e cultivo agrícola familiar.
do projeto. Entretanto, ao sair de sua propriedade,
Francisco passou a ter que ir buscar água em
Em 1993, durante o governo Itamar Franco,
uma região próxima, com água de qualidade
uma grande seca atingiu o semiárido durante
inferior e lamacenta. Esse foi apenas um dos
dois anos e uma pequena obra emergencial
relatos colhidos por muitas das equipes de
de transposição do São Francisco foi
ONGs e instituições que estão preocupadas
proposta prelo Ministro da Administração e da
em como a transposição afeta a vida dos
Integração Regional, Aluízio Alves, porém a
sertanejos.
seca terminou em 1994 e o projeto não foi
realizado. Além de afetar quem teve de sair de suas
propriedades, as obras também afetaram os
Em 2007 o então presidente Lula, dá inicio às
serviços básicos de alguns municípios e
obras ainda não concluídas, da transposição
povoados, pois alguns desses terrenos a
do Rio São Francisco. Prometendo levar água
serem desapropriados são usados no serviço
ao Nordeste e melhorar a vida do sertanejo.
à população, como postos de saúde. Como é
o caso de um posto de saúde no
assentamento Serra Negra, distante 65 km do
5. TRANSPOSIÇÃO: VALE A PENA PAGAR
centro de Floresta (PE), que está no trajeto da
TÃO CARO POR ELA?
transposição e será destruído pela obra.
A transposição que era a promessa de levar Edilene Alves, uma agente de saúde que
água para o povo nordestino, trouxe vários trabalha no posto, contou a Eduardo Bresciani
problemas causados pela execução e pela e Wilson Pedrosa, enviados especiais do
escolha do trajeto da obra, trazendo prejuízos jornal Estadão, que 400 famílias estão
para a população que estivesse em seu cadastradas no posto saúde e que será um
caminho. caos se o posto tiver que ser transferido da
região.
A obra tirou vários moradores de suas casas,
os indenizando com valores baixos em Além disso, os moradores do assentamento
relação ao valor real de suas propriedades, ainda sofrem como problemas estruturais em
perdendo não só suas casas, mas também suas casas, causados pela obra que passa
suas fontes de renda por haver, em muitas muito perto de suas casas.
dessas propriedades desapropriadas,
Todos esses sertanejos afetados pelas obras
pequenas plantações (agricultura familiar), o
da transposição e muitos outros que sofrem
que em grande parte das vezes não são
com os grandes períodos de seca no
possíveis em alojamentos cedidos pelo
Nordeste, sempre tiveram a esperança de
governo ou nos lugares para onde esses
que a transposição poderia dar um fim ao
moradores são deslocados. Essas ações
problema, mas essa esperança vem se
geraram problemas para quem vivia da
reduzindo, pois, grande parte da população
agricultura familiar e que residia no trecho da
nordestina vê a obra tirando o pouco que têm,
obra, induzindo-os a procurar uma nova fonte
além de começarem a perceber que a água
de renda, em grande parte das vezes menos
que passará pela obra não chegará
rentável.
facilmente às suas torneiras.
Equipes da CPT (Comissão Pastoral da Terra
Pesquisadores nordestinos da Fundação
Nordeste II) de Pernambuco realizaram um
Joaquim Nabuco, como João Suassuna e
encontro sobre impactos dos ‘grandes
Clóvis Cavalcanti, mencionam que essa água
projetos’ nas comunidades camponesas, em
não terá como principal objetivo atender a
uma visita ao lote 12 da transposição do rio
população sertaneja. Segundo Suassuna, as
São Francisco, localizado em Sertânea, no
águas da transposição serão distribuídas de
sertão pernambucano. Nessa visita,
forma que 70% será destinada para irrigação
entrevistaram o sr. Francisco, um trabalhador
do agronegócio, 26% destinado ao setor
rural de 65 anos que vivia desde menino na
industrial e urbano e apenas 4% para
região. Francisco teve que deixar sua
abastecimento humano e da agricultura
propriedade em razão da obra de
familiar. Ou seja, a parcela destinada à
transposição, recebendo R$ 5.000,00 de
população do semiárido é tão pequena,
indenização, sendo que na propriedade havia

Administração Rural - Volume 1


130

atingirá poucas pessoas e terá um preço Bispos do Brasil) em Indaiatuba-SP, Lula


muito alto para grande parte da população do disse:
sertão nordestino.
“eu sempre me recusei a discutir a
Ademais, com relação à questão financeira, o transposição das águas do jeito que muita
preço da água à população nordestina será gente queria discutir, sem antes discutir como
elevado. Segundo Suassuna, enquanto é recuperar o rio São Francisco, como
cobrado cerca de R$0,01 a R$ 0,02 por mil recuperar seus afluentes, como recuperar a
litros de água consumida de outras bacias sua cabeceira. Houve nota de protesto e de
hidrografias no país, para uso da água repúdio contra mim, em plena eleição, na
proveniente da transposição do São Paraíba, no Rio Grande do Norte, no Ceará. E
Francisco será cobrado o valor de R$ 0,13 serei eu – prestem atenção ao que eu estou
por mil litros. Com um valor tão alto, cobrado dizendo, e eu não posso mentir na frente de
de uma população que sofre com grandes tantos bispos e cardeais aqui –, serei
problemas sociais e que tem um dos índices exatamente eu, que nunca assumi um
mais altos de pobreza do país, a compromisso, que vou fazer a transposição
transposição, com certeza, não trará das águas para o Nordeste brasileiro” (Lula,
vantagens. Além disso, é necessário 2007).
conscientizar os entes públicos sobre a
O Professor da área de Recursos Hídricos da
necessidade de políticas destinadas a
UFRN (Universidade Federal do Rio Grande
atender os sertanejos que não possuem
do Norte), José Abner, mostra, através do
recursos para pagar pela água.
exemplo do Mar de Aral, na Ásia Central,
Além do alto valor da água da transposição e como o uso intenso das águas de um rio sem
dos prejuízos sociais e ambientais trazidos que haja um retorno proporcional pode fazer
para a população sertaneja através da com que o rio e seus afluentes enfraqueçam,
desapropriação de suas propriedades e dos como aconteceu no Mar de Aral, um mar que
danos estruturais e sociais causados pela um dia já foi o quarto maior do mundo, que
obra, a transposição tem se mostrado um começou a secar rapidamente e enfraquecer
projeto muito caro. O projeto de transposição assim como seus afluentes. Assim os
do rio São Francisco tinha um orçamento professores José Abner, como outros
inicial de R$ 4,5 bilhões, esse orçamento teve especialistas no assunto, chama atenção para
um crescimento de 113% no decorrer da o mal que a transposição pode fazer ao rio
obra, chegando a R$ 9,6 bilhões, valor que São Francisco e seus afluentes.
deve ser maior ao fim da obra, afinal as obras
O PAC (Programa de Aceleração do
da transposição que se iniciaram em 2007
Crescimento), diz que o projeto de
deveriam ter sido entregues em 2012, mas
transposição vai levar água ao semiárido além
ainda não estão concluídas.
de criar muitos empregos na região e defende
O atraso nas obras, segundo o Ministério da que:
Integração Nacional, é justificado pela
“O empreendimento, além de recuperar 23
grandiosidade da obra. A obra foi e continua
açudes da região, construirá outros 27
sendo interrompida por muito tempo em
reservatórios, além de 4 túneis, 14 aquedutos
muitas regiões.
e 9 estações de bombeamento, em 477
quilômetros de extensão em dois eixos (Norte
e Leste) de transferência de água do rio São
6. O QUE É FALADO SOBRE
Francisco. A obra beneficiará um total
TRANSPOSIÇÃO DO RIO SÃO FRANCISCO
estimado de 12 milhões de pessoas nos
O projeto de transposição do rio São estados de Pernambuco, Ceará, Paraíba e Rio
Francisco foi uma proposta de governo do Grande do Norte. Além de água, a obra leva
presidente Lula, que se iniciou em 2007. O também emprego e renda, promovendo
então presidente tinha com o projeto levar inclusão social às comunidades” (PAC –
água ao sertão nordestino e, assim, gerar Ministério do Planejamento, 2017).
desenvolvimento na região. Lula prometeu
Já o ambientalista Apolo Heringer Lisboa, do
fazer a transposição sem esquecer da
projeto Manuelzão da UFMG (Universidade
preocupação com a recuperação do rio São
Federal de Minas Gerais) e integrante da
Francisco e seus afluentes. Numa visita ao
Caravana do São Francisco, afirma que o
Retiro de Itaci da CNBB (Conferencia dos
projeto de transposição é apenas uma
promessa e que é ineficiente ao dizer que “a

Administração Rural - Volume 1


131

transposição não vai começar; se começar Rasgar a terra só se for para o plantio
não vai continuar; se continuar não vai
A gente não queria ter saído
terminar; se terminar não vai funcionar. Trata-
se de uma grande mentira” (Apolo Lisboa, Dos nossos pedacinhos de terra!
2005)
A gente não queria ter deixado
Muitos pesquisadores como Marco Antonio
Nossas águas e os baixios
Coelho, jornalista do site Observatório da
Imprensa, apontam a transposição como Essa tal transposição foi quem fez isso com a
apenas mais uma propaganda política. gente
Já o compositor Plácido Júnior, da Comissão Como ficam as famílias, as plantações e os
Pastoral da Terra Nordeste II, mostra através bichinhos?
do poema apresentado abaixo como a
Poema de Plácido Júnior, da Comissão
transposição é a promessa de trazer água
Pastoral da Terra Nordeste II
mas que tem tirado as reservas de água do
povo nordestino através da destruição de
muitas cisternas.
Outro ponto forte na luta pelo
DESTRUIÇÃO DAS CISTERNAS desenvolvimento do Nordeste e que deve ser
ressaltado é a atuação dos movimentos que
Como podes nos dar água
lutam pelo povo sertanejo, além do
Se destróis nossas cisternas? posicionamento de instituições de ensino e
religiosas, como a CPT (Comissão Pastoral da
Como trazes benefícios
Terra), a OAB (Ordem dos Advogados do
Se nos aparta dos baixios? Brasil) que mostrou que o projeto pode ser
inconstitucional, a ASA (Articulação no
Rasgar a terra só se for para juntar água
Semiárido Brasileiro), entre outros.

Figura 3 – Os números da transposição

Fonte: Ministério da Integração, Agência de Jornalismo Investigativo

Administração Rural - Volume 1


132

A imagem acima mostra o alto número que o que possam receber algum auxilio do
projeto pretende atender, que segundo os governo, não conseguem retomar a mesma
dados apresentados pelo Ministério da renda e qualidade de vida que tinham antes
Integração, é um número alto em relação ao da passagem da obra em suas terras, além
número de famílias reassentadas, diretamente de receber um valor como indenização que
afetadas, famílias que passam a perder por não corresponde ao valor de suas
muitas vezes suas fontes de renda, que propriedades desapropriadas.
apesar de serem assistidas pelo governos e

Figura 4 – Impactos da transposição do São Francisco

Fonte: Agência de Jornalismo Investigativo.


A imagem acima mostra o grande impacto produtivo, porém essa riqueza potencial é mal
ambiental que a obra trás para a região. Além distribuída, isto é, e uma pequena parte da
de ter um custo altíssimo, a obra irá atingir um população formada por empresários e
grande número de sítios arqueológicos, políticos tem grande poder sobre a região e,
trazendo um grande prejuízo para a através da indústria da seca, barra o
arqueologia brasileira e tornando impossível a desenvolvimento de toda a região.
descoberta de achados arqueológicos
Nessa entrevista, Celso Furtado chama
importantíssimos para a ciência. Além de
atenção para o plano do governo Fernando
colocar em risco um grande número de
Henrique Cardoso de produzir álcool na
espécies de animais silvestres, que podem
região Nordeste para consumo interno e
diminuir suas população ou até mesmos
exportações, e dá o exemplo da Zona da
correm o risco de entrar em processo de
Mata na Bahia, onde a produção para
extinção, por terem seu meio ambiente
exportação foi estimulada, porém muitos
modificado pela obra, reduzindo as regiões
moradores passam fome, nessa região que
de mata ou até mesmo inundando algumas
não sofre tanto com as secas. Ademais,
regiões e afetando não só a vida dos animais
Furtado chama a atenção para a necessidade
silvestres, mas também modificando toda a
de produzir para o consumo interno,
vegetação típica da região, colocando
produzindo alimentos, com o objetivo de
também em risco de extinção espécies de
matar a fome da população da região.
plantas típicas da região por onde a
transposição passar. Mas as sugestões de Celso Furtado, que
ameaçavam os interesses dos grandes
empresários, latifundiários e políticos que se
7. HÁ OUTRA SAÍDA? beneficiam da indústria da seca, não tiveram
forças para serem executadas, por desafiar o
No livro Seca e poder: entrevista com Celso
status quo local.
Furtado (1998), Furtado descreve o Nordeste
como uma região com alto potencial

Administração Rural - Volume 1


133

O pesquisador João Suassuna (1999) mostra terrenos particulares, principalmente de


que o governo prometeu buscar outras grandes fazendeiros. Ou seja, a água hoje
soluções para resolver os problemas presente no sertão nordestino faz parte da
causados pela seca que não fossem tão indústria da seca, onde quem tem acesso à
caros e com tantos impactos negativos para a água é quem possui dinheiro e poder local.
população e o ecossistema local, afinal, as Essa água que deveria ser usada para o
obras além de ameaçarem o rio São consumo humano é utilizada nas criações e
Francisco e seus afluentes, ainda tiraram as cultivos de grandes fazendeiros, isto é, a
pessoas e até mesmo povoados inteiros de água do sertão pertence ao agronegócio,
suas propriedades, excluindo a renda de enquanto a população muito próxima a essas
quem vivia nessas terras. reservas morre de sede e fome, devido à
baixíssima produção agrícola familiar.
João Suassuna chama atenção para o fato de
semiárido brasileiro ter uma oferta de água de O governo deveria estudar e propor outras
37 bilhões de m³, sendo o semiárido que tem saídas para os problemas da seca que não a
o maior volume de água represada no mundo. transposição do rio São Francisco. A
Segundo Manoel Bomfim Ribeiro (2008), utilização da água presente nessas reservas,
engenheiro civil e ex-diretor regional do para grande parte dos especialistas, é a
DNOCS (Departamento Nacional de Obras forma mais viável de resorver o problema no
Contra a Seca), existem 70.000 reservatórios sertão. Porém, isso vai contra os objetivos dos
superficiais na região, tendo um açude a grandes empresários do agronegócio, que
cada 14 km² por toda a superfície do Polígono lucram com a seca, utilizando a água dos
das Secas. Mostrando que o volume de água reservatórios de forma quase exclusiva, além
presente nos açudes do Nordeste é grande de muitas vezes vender água a preços altos
em relação a outras regiões semiáridas do para que não tem acesso.
mundo, a pergunta que se levanta nesse
Com a transposição, a indústria da seca
momento é: porque levar água de um dos
ficará mais forte, pois agora além da água
principais rios do país para regiões onde já há
dos açudes, terão também acesso a maior
água?
parte da água quem vem da transposição.
O problema na verdade não é a falta de água, Portanto, a redistribuição das reservas de
porque estudos da região mostram que há água, além de ser a solução para com os
grandes reservas de água, mas sim o acesso problemas da sede e fome do povo
restrito a água. Afinal, quem tem acesso às nordestino, pode aumentar renda do sertanejo
águas represadas no sertão? O problema é que vive da agricultura familiar.
que a maior parte dessas reservas está em

NOTAS seca com a construção de cisternas de


acordo com a necessidade da população,
1 - O Plano de Metas proposto pelo
construindo cisternas em vilarejos, hospitais e
presidente Juscelino Kubitscheck, eleito em
escolas das regiões mais atingidas pela seca.
1955, tinha como objetivo principal fazer com
que o país se desenvolvesse rapidamente (50 3 - A relação centro periferia é uma relação de
anos em 5). Nesse período, foram executadas dependência entre um centro que fornece
grandes mudanças no país, incluindo a meta produtos e emprego a população da periferia,
síntese de construção de uma nova capital, assim a periferia além de fornecer mão de
Brasília. Além disso, foram elaborados vários obra também transfere renda ao centro,
projetos de desenvolvimento setoriais para o criando assim uma dependência da periferia
país, tais como o incentivo ao setor industrial ao centro, a periferia passa a colaborar com a
e um plano de desenvolvimento para o economia do centro, estagnando sua
Nordeste, criando assim a SUDENE, com o economia e ajudando a dinamizar a economia
professor Celso Furtado à frente deste projeto. do centro.
2 - Programa Nacional de Apoio à Captação 4 - O DNOCS (Departamento Nacional de
de Água de Chuva e outras Tecnologias Obras contra a Seca) foi criado em 1909
Sociais, instituído pela Lei Nº 12.873/2013 e através do Decreto 7.619 de 21 de outubro de
regulamentado pelo Decreto N° 8.038/2013, 1909, durante o governo do presidente Nilo
financiado pelo MDS (Ministério do Peçanha, inicialmente chamada de IOCS
Desenvolvimento Social), que tem como (Inspetoria de Obras Contra a Seca), já em
principal objetivo amenizar os problemas da 1919 recebeu o nome de IFOCS (Inspetoria

Administração Rural - Volume 1


134

Federal de Obras Contra a Seca), até passar PNUD (Programa das Nações Unidas para o
a ser denominado como DNOCS em 1945, se Desenvolvimento), IPEA (Instituto de Pesquisa
transformando em autarquia federal em 1963 Econômica Aplicada) e Fundação João
através da Lei n° 4229, de 01/06/1963. Pinheiro.
5 - A caatinga é um bioma exclusivamente 7 - A PEA (População Economicamente Ativa)
brasileiro, caracterizado pela vegetação indica a população inserida no mercado de
resistente ao clima quente e seco, com longos trabalho, os dados da PEA são colhido pelo
períodos de seca. IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e
Estatística).
6 - O IDHM (Índice de Desenvolvimento
Humano Municipal) considera três dimensões 8 - Entrevista de Celso Furtado feita por
do desenvolvimento humano: longevidade, Manuel Correia de Andrade, Maria da
educação e renda. Variado de 0 a 1. Os Conceição Tavares e Raimundo Pereira,
dados são coletados e o calculo é feito pelo economistas e historiadores.

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Administração Rural - Volume 1


136

Capítulo 11

Wagner Luiz Lourenzani


Evandro Jardim dos Santos
Ana Elisa Bressan Smith Lourenzani

Resumo: Esse trabalho objetivou compreender o Sistema Agroindustrial (SAG) do


urucum na Microrregião de Dracena, estado de São Paulo. A justificativa de estudo
na região se dá pela representatividade geográfica nacional, pela importância
mercadológica e socioeconômica desse objeto de estudo. Por meio de um estudo
exploratório de caráter qualitativo, a metodologia envolveu uma revisão bibliográfica
e uma pesquisa de campo. Foram realizadas 20 entrevistas junto aos agentes
chaves dos SAG do urucum na região em estudo. Os resultados revelam que essa
é uma atividade característica da pequena produção e adotada, em sua maioria,
por produtores caracterizados pela agricultura familiar. Esse trabalho contribui com
informações sobre o mercado e a organização da produção agrícola do urucum,
especialmente na região delimitada.

Palavras-chave: Urucum, Corantes Naturais, Sistema Agroindustrial

*Artigo apresentado no 56º Congresso da Sociedade Brasileira de Economia, Administração e


Sociologia Rural (SOBER – 2018) Campinas SP

Administração Rural - Volume 1


137

1. INTRODUÇÃO A importância e a justificativa desse trabalho


baseiam-se em duas principais dimensões:
O urucum (Bixa orellana) é uma espécie de
uma mercadológica e outra, socioeconômica.
arbusto originário da América Central e da
Enquanto a importância mercadológica diz
América do Sul. Pertencente ao sistema
respeito às tendências de crescimento da
agroflorestal semi-arbóreo, recebe o nome de
demanda do urucum e do aumento dos
urucuzeiro ou urucueiro (Netto, 2009). Seu
critérios de qualidade, a justificativa
nome popular vem da palavra tupi “uru-ku”,
socioeconômica se dá pela importância
que significa “vermelho” devido à cor
dessa atividade na região de análise. Nesse
predominante de suas sementes. Essa cor é
contexto, esse trabalho tem como objetivo
resultado do corante bixina, do grupo dos
analisar o SAG do urucum, caracterizando o
carotenoides, que formam um dos grupos de
mercado e a produção desse produto
pigmentos mais conhecidos na natureza
agrícola na Microrregião de Dracena-SP.
(Corlett et al., 2007).
A classificação botânica do urucum é: a)
Subdivisão: Angiosperma; b) Classe: 2. METODOLOGIA
Dicotiledoneae; c) Ordem: Parietales; d) Sub-
O desenvolvimento dessa pesquisa se deu
ordem: Cistianeae; e) Família: Bixaceae; f)
por meio de um estudo exploratório de caráter
Gênero: Bixa; g) Espécies: Bixa orellana L.,
qualitativo. A pesquisa exploratória envolve
Bixa arborea, Bixa americana, Bixa urucurana,
uma maior familiaridade com o problema,
Bixa upatensis, Bixa tinetoria e Bixa oviedi. A
tornando-o mais explícito para a construção
espécie mais cultivada é a Bixa orellana L.
de hipóteses (Gil, 2002). A flexibilidade é uma
(Franco et al., 2002).
característica fundamental para análise do
As cachopas do urucuzeiro produzem objeto de estudo e, geralmente, envolvem
sementes, que são moídas para a extração de entrevistas com pessoas que tiveram
coloríficos, bem como para a produção dos experiências práticas. Tal tipo de pesquisa
corantes bixina, norbixina e nobixato (Fabri & mostrou-se adequado devido à escassez de
Teramoto, 2015). Tais pigmentos são trabalhos científicos sobre o assunto. Essa
largamente utilizados nas indústrias pesquisa teve uma abordagem qualitativa,
alimentícias (Mendes et al., 2006), mas cuja característica é dar ênfase ao contexto e
também adotados nas indústrias ao comportamento dos indivíduos sobre as
farmacêutica, cosmética, têxtil e de tintas. O experiências vividas (Dalfovo et al., 2008).
urucum ainda é muito cultivado como planta
A coleta de dados envolveu duas etapas.
ornamental, pela beleza e exuberância de
Primeiramente, foi realizada uma pesquisa
suas flores (Anselmo et al., 2008; Torres &
bibliográfica para a obtenção de dados
Bezerra Neto, 2009). Os estudos científicos
secundários em artigos de periódicos,
têm focado nesses aspectos, enquanto são
capítulos de livros, relatórios técnicos,
raros os estudos voltados ao mercado e à
dissertações e teses, entre outros, que
organização do seu Sistema Agroindustrial
tratassem sobre o mercado e a produção do
(SAG) no Brasil.
urucum. Em seguida, esse trabalhou utilizou-
O conceito de SAG está relacionado a uma se de pesquisa de campo para coleta de
abordagem ampla em que a indústria de dados primários. Trata-se de um método
insumos, a produção agropecuária, a focado especificamente em comunidades,
indústrias de processamento e o sistema de seja de trabalho, lazer, estudos ou qualquer
distribuição apresentam relações de outra forma organizacional. A partir da
interdependência (Souza & Avelhan, 2009). O observação direta das atividades do grupo
SAG do urucum, cuja semente é utilizada estudado, e/ou das pesquisas das amostras
para a produção de corante natural e seus selecionadas dentro do universo pesquisado,
derivados industriais, pode ser compreendido objetiva-se buscar informações do que ocorre
a partir de um encadeamento de relações no grupo (Gil, 2002; Lakatos & Marconi,2003).
existentes entres os agentes que o compõem.
Para operacionalizar a pesquisa de campo,
Encontram-se presentes os fornecedores de
foram aplicados formulários na forma de
insumos agrícolas, os produtores de urucum,
entrevista, já que é um eficiente instrumento
os intermediários e as indústrias de
de pesquisa a ser utilizado para coleta de
processamento, as quais comercializam seus
dados em estudos de campo (Duarte, 2004;
produtos em mercados nacionais e
Minayo, 2013).
internacionais.

Administração Rural - Volume 1


138

Ao todo foram realizadas 20 entrevistas, no Para Zylbersztajn (1995), o período pós-


período entre outubro e novembro de 2016, guerra impulsionou a produção de alimentos
envolvendo representantes do setor de processados, que passaram a ser adquiridos
insumos, de produção, um agente via mercado. Isto demandou atividades de
intermediário e de instituições de apoio. A armazenagem, processamento e distribuição
seleção e a definição do número de agentes muito mais complexas que a formatação da
participantes dessa pesquisa se deram de produção e consumo de períodos anteriores.
forma intencional, a partir da indicação de
Nesse contexto, a partir da década de 1950,
agentes envolvidos nesse SAG, bem como
um novo panorama surge por meio de
pelo aceite dos agentes em participar da
trabalhos e estudos de pesquisadores
pesquisa.
dedicados a compreender e explicar a
Esse trabalho parte de um recorte geográfico dinâmica de funcionamento dessa rede
definido pela região denominada de agroalimentar. Surge o conceito de Sistema
Microrregião de Dracena – SP, pois é Agroindustrial (SAG), representando uma
considerada a maior região produtora de importante contribuição para o entendimento
urucum do Brasil em termos de área plantada do setor.
e quantidade produzida. Essa região é
Os estudos de Goldberg em 1957 e Davis e
composta por dez municípios de pequeno
Goldberg em 1968 foram os responsáveis por
porte, com uma população média de cerca
disseminar a abordagem de Agribusiness
de 12.500 habitantes, sendo o setor da
System Approach (ASA) ou Commodity
agricultura uma das principais bases
System Approach (CSA) (MENDES,
econômicas desses municípios (IBGE, 2016a;
FIGUEIREDO e MICHELS, 2009;
ATLAS BRASIL, 2016). Fazem parte dessa
ZYLBERSZTAJN e GIORDANO, 2015).
região os municípios de Monte Castelo, São
Segundo Zylbersztajn e Giordano (2015),
João do Pau d'Alho, Tupi Paulista,
Goldberg rompe com os limites da unidade
Junqueirópolis, Ouro Verde, Nova
de produção agrícola e aborda em seus
Guataporanga, Paulicéia, Dracena, Santa
estudos todos os sistemas envolvidos na
Mercedes e Panorama (IBGE, 2016a). Nessa
produção de produtos agropecuários ou
região, os municípios de Monte Castelo e São
outros produtos a partir deles, chegando até o
João de Pau D’Alho destacam-se na
consumidor final (mercado final).
produção regional, apresentando o maior
número de unidades produtoras, bem com o Nesse contexto, a dinâmica de funcionamento
maior número de plantas de urucum (IBGE, do SAG vai além dos limites da firma.
2016b; CATI, 2008). Considera elementos que envolvem a relação
entre agentes engajados em determinadas
atividades e muito além delas, uma vez que a
3. SISTEMA AGROINDUSTRIAL (SAG) complexidade inerente das atividades
agrícolas pressionam estes agentes a se
A atividade agrícola passou por um intenso
mobilizarem na busca de formas mais
processo de especialização devido aos novos
competitivas.
modelos sociais e econômicos que surgiram a
partir da primeira metade do século 20. Lima, Esceveste e Ribeiro (2014) afirmam que
Acontecimentos como intensificação um dos grandes obstáculos da atividade
tecnológica, êxodo rural e especialização agroindustrial está relacionada com a
produtiva, romperam as barreiras agrícolas de sazonalidade da produção rural. Sua
produção de subsistência, envolvendo os produtividade está intimamente ligada a
agentes agrícolas em modernas e complexas fatores que não podem ser controlados,
formas de produção. Essa nova rede de apenas previstos, atribuindo riscos e
relações comerciais entre firmas se deu pela incertezas ao processo de produção agrícola
limitação de cada uma das partes em e zootécnica. O Quadro 1 apresenta as
produzir e distribuir sua produção de forma principais características das atividades
individual (HOFF et al., 2007). agroindustriais.

Administração Rural - Volume 1


139

Quadro 1: Características da produção agroindustrial


Características da produção rural
O clima é determinante para a realização da maioria das atividades e tratos culturais
Dependência do
como colheita, plantio e adubação. Esses fatores subordinam a produção agrícola às
clima
condições da natureza.
Condições O ciclo de produção é irreversível. Uma vez iniciado, o mesmo completará seu ciclo,
biológicas pois se trata de seres vivos plantas ou animais.
Terra como
Condições químicas, biológicas e topográficas definem a qualidade da terra e
participante da
consequentemente, a qualidade do que é produzido.
produção
A demanda por produtos agropecuários tende a ser regular; entretanto, a oferta não é
Sazonalidade da
estável o ano todo, pois está condicionada às condições climáticas, biológicas e da
produção
própria sazonalidade da produção dos produtos agrícolas.
Estacionalidade da A produção é específica de locais definidos para o cultivo, não havendo a
produção possibilidade de realocação durante a fase de produção.
A vulnerabilidade a que se submete a produção agropecuária, como proliferação de
Incidência de pragas e doenças, atribui altos riscos e incertezas às atividades rurais. A oscilação de
riscos preços decorrentes da sazonalidade da demanda também atribui riscos e incertezas a
uma atividade com mercado futuro.
Produtos não A impossibilidade de padronização dos produtos agrícolas pode remeter certa parcela
uniformes da produção a não aceitação em determinados critérios de classificação.
Os altos investimentos iniciais referentes a certas atividades, ou mesmo a
Barreiras à entrada impossibilidade de realocação de determinados ativos (ativos específicos), podem
e à saída dificultar ou mesmo restringir a entrada, realocação ou saída em determinados
negócios agropecuários.
A perecibilidade exige grande eficiência logística para o acondicionamento da
Perecibilidade produção agrícola e sua distribuição às indústrias de processamento, uma vez que a
impossibilidade de estocagem pode comprometer sua produção.
Fonte: Desenvolvido a partir de Lima, Esceveste e Ribeiro (2014) e Azevedo (2007).

A disponibilidade de matéria-prima é houver possibilidades de realocação ou uso


subordinada a períodos de safra e entressafra na produção de outros produtos.
e tem forte impacto no planejamento e
De acordo com Batalha e Silva (2007), a
controle da produção agroindustrial. A falta
perecibilidade dos produtos finais exige da
de uniformidade e variação na qualidade das
logística uma grande eficiência em sua
matérias-primas também acarreta em
distribuição até os pontos de venda, para que
profundos impactos na qualidade final dos
sejam consumidos dentro dos prazos
produtos transformados (BATALHA e SILVA,
específicos e dentro da qualidade estipulada.
2007; AZEVEDO, 2007).
O baixo valor unitário de determinados
Para os autores, a perecibilidade produtos também dificulta a diluição dos
característica de muitos produtos agrícolas custos associados à sua produção. A
impossibilita sua estocagem. A logística se vigilância acentuada do governo sobre os
torna um instrumento de eficiência no produtos também atribui um maior grau de
processo produtivo, já que o planejamento do complexidade ao gerenciamento dos
transporte e aprovisionamento desses processos de produção agroindustriais.
produtos pode significar perdas financeiras e
O impacto da tecnologia nas fases de
ou de qualidade significantes. As oscilações
produção agropecuária e de produtos
na demanda por determinados produtos
agroindustriais deverá cada vez mais, servir
industrializados durante o ano exigem maior
como instrumento de comunicação e
planejamento e controle da produção
coordenação entre os agentes de um dado
(ZYLBERSZTAJN e GIORDANO, 2015). Certos
sistema agroindustrial (BATALHA e SILVA,
produtos, procurados apenas em datas
2007).
específicas, faz com que plantas industriais
trabalhem com grande ociosidade, se não

Administração Rural - Volume 1


140

Nestes aspectos, a globalização apresentou agroalimentares, distribuição, consumo final,


fortes influências sobre a forma de comércio internacional e indústria e serviço
organização dos agentes. O entendimento de apoio.
dessa nova estrutura pode ser alcançada por
Além da abordagem de encadeamento
meio de dois enfoques de análise: - O
produtivo, o conceito de SAG considera os
primeiro: tendo em Goldberg o principal
elementos do ambiente institucional onde as
expoente e com base na escola americana,
firmas estão inseridas (ZYLBERSZTAJN, 1995;
considerou a coordenação do sistema de
CALEMAN, 2006). Para Neves e Caleman
commodities (de montante a jusante) a partir
(2015), o SAG pode ser caracterizado como
dos conceitos de Agribusiness e Commodity
um complexo sistema entre agentes
System Approach (CSA) (ZYLBERSZTAJN,
econômicos, no qual possui como tema
1995; SOUZA e AVELHAN, 2009;
central a coordenação. Esse novo ambiente
ZYLBERSZTAJN e GIORDANO, 2015); - O
interfere na competitividade das firmas e
segundo: com base na escola francesa e com
exige tomada de decisões com uma visão
ênfase nas relações tecnológicas, conceituou
sistêmica, devido ao caráter somatório das
esse sistema como Filière, ou Cadeia de
relações entre agentes que estreitam
Produção Agroindustrial, a partir de uma
transações com vistas a reduzirem seus
análise de jusante a montante (BATALHA e
custos.
SILVA, 2007; SOUZA e AVELHAN, 2009;
NEVES e CALEMAN, 2015). Sobre o conceito de SAG, Souza e Avelhan
(2009) e Batalha e Silva (2007) atribuíram a
Embora apresentem pontos de partida de
essa abordagem a noção de conjunto, visão
análises diferentes, ambos os conceitos se
de todo, já que nenhuma firma que está
complementam, com o objetivo de explicar as
disputando determinados mercados
relações nos sistemas agroindustriais a partir
desenvolve suas atividades de forma isolada.
da noção de sucessão de etapas produtivas,
Existe uma relação entre os agentes da
assumindo a visão dinâmica do sistema e
indústria de insumos, produção agropecuária,
distanciando-se da análise tradicional de
indústrias de alimentos e os sistemas de
divisão setorial em agricultura, indústria e
distribuição, caracterizando estruturas de
serviços (BATALHA e SILVA, 2007).
governança em suas transações para que
Segundo Batalha e Silva (2007), a abordagem todos possam atingir seus objetivos. Nesse
de SAG permite um enfoque mesoanalítico, o contexto, o SAG pode ser representado por
qual permite preencher a lacuna de firmas que realizam diferentes tipos de
compreensão entre a micro e macro transações. As instituições que compõem o
economia. Entre as principais características ambiente estabelecem relacionamentos entre
analisadas pelas teorias econômicas, existe si na busca de seus objetivos (MENDES,
uma carência de análise que se refere às FIGUEIREDO e MICHELS, 2009).
formas de organização derivadas do trabalho
Para Saab, Neves e Cláudio (2009), o
em equipe e associação entre agentes. O que
agronegócio é composto por vários sistemas
sugere uma abordagem sistêmica para
agroindustriais associados aos principais
compreensão da produção agroindustrial.
produtos. Já o SAG trata-se de um recorte de
Verifica-se, ao longo dos anos, uma um determinado produto dentro do
interpretação distorcida do conceito de Agronegócio. Essas empresas colaboram
agronegócio, sendo este considerado como entre si, buscando objetivos comuns a partir
sinônimo de produção de larga escala com da articulação de ações conjuntas, de forma
uso de capital intensivo (ZYLBERSZTAJN e que todos agentes compreendam as
GIORDANO, 2015). O agronegócio também exigências impetradas pelo mercado sobre
se refere a outras formas de produção, os seus produtos.
quais estão fora dos limites impetrados pelos
Entre essas exigências, destacam-se as
latifundiários, inserindo-se também os
influências e restrições impostas pelo
pequenos produtores e aqueles
ambiente institucional, que é caracterizado
caracterizados pela agricultura familiar
por regras formais como mudanças na
(ZYLBERSZTAJN, 1995; BATALHA e SILVA,
legislação e avanços tecnológicos e regras
2007).
informais como tradições e costumes. As
Segundo Batalha (1995) e Batalha e Silva mudanças impetradas pelo ambiente
(2007), esse sistema complexo é composto institucional irão influenciar no comportamento
pelos setores de agricultura, pesca, indústrias dos agentes, porém não há condições de se

Administração Rural - Volume 1


141

prever como esses irão se comportar frente a outras formas de organização públicas e
tais mudanças (AZEVEDO, 2000; MENDES, privadas (ZYLBERSZTAJN, 2005). Esses
2011). fatores, internos e externos, conferem grande
complexidade na forma organizacional dos
Também exercem influências sobre os
sistemas agroindustriais e seu fluxo de
agentes de um determinado SAG os aspectos
atividades, conforme pode ser visualizado na
relacionados ao ambiente organizacional,
Figura 1.
como comportamento dos concorrentes e

Figura 1: Representação do Sistema Agroindustrial (SAG)

Fonte: baseado de Zylbersztajn (2005).

Verifica-se que os aspectos organizacionais e determinam o grau de competitividade do


institucionais definem os limites das firmas setor devido à eficiência resultante da
envolvidas no sistema. A abordagem economia dos custos alcançados em suas
sistêmica considera o rompimento das transações.
fronteiras agrícolas sugerindo um sistema
Segundo Siffert Filho e Faveret Filho (1998), a
produtivo integrado entre diversos agentes ao
competitividade das firmas se estabelece a
longo da cadeia. A visão isolada não confere
partir de sua capacidade em conquistar e
completude, não fazendo sentido derivar
preservar parcelas de mercado. Para
desse pensamento justificativas para estudos
alcançar esse posicionamento, as firmas
do agronegócio, o qual está inserido a meio a
precisam maximizar as economias de escala
mudanças nos ambientes organizacional e
e de escopo com vistas a minimizar os
institucional de forma contínua. Da mesma
custos. Esses mecanismos de governança
forma, a indústria de processamento deve
têm por finalidade lidar com a perecibilidade
lidar com a heterogeneidade e perecibilidade
e a necessidade de um desenvolvimento
dos insumos de origem agropecuária em seu
harmonioso em todo sistema agroindustrial
processo de transformação. Esses fatores
(BATALHA, 1995; SIFFERT FILHO e FAVERET
aliados aos custos de produção e de
FILHO, 1998).
transação definem a competitividade dos
agentes. Os produtos agroindustriais possuem,
geralmente, natureza de commodity devido
Todas essas etapas da produção
ao seu caráter primário ou semi processado,
agropecuária visam suprir os desejos e
o que exige níveis eficientes de governança
necessidades dos consumidores que,
para se reduzir custos e maximizar
procuram produtos ou serviços que melhor
resultados. Neste aspecto, as economias de
atendam suas expectativas derivadas de seus
escala se apresentam como uma relevante
hábitos, poder aquisitivo e outros fatores que
estratégia na busca de vantagem competitiva,
determinam suas escolhas.
para que a firma assuma posições no
Para Batalha (1995), uma economia forte e mercado e a mantenha níveis seguros de
desenvolvida caracteriza-se pelo diferenciação (SIFFERT FILHO e FAVERET
desenvolvimento harmonioso de todo um FILHO, 1998).
Sistema Agroindustrial. Esse fortalecimento
Os referidos autores também consideram o
está condicionado à eficiência das relações e
preço como fator de competitividade, uma
transações entre os agentes que estão
vez que a fixação de preços de produtos
presentes tanto nas fases de produção,
primários ocorre basicamente de forma
quanto de distribuição. Tais características

Administração Rural - Volume 1


142

exógena em forma de preços de referência compreensão mais detalhada das relações


impetrados via mercado, exigindo das entre agentes envolvidos em um determinado
empresas alternativas de diferenciação de SAG (ZYLBERSZTAJN e GIORDANO, 2015).
produtos com vistas a agregar maior valor e
Para os autores outro aspecto analisado por
influenciar os preços.
Goldberg, dentro da visão de Agribusiness
Para Batalha (1995), administrar todas essas System Approach, é a parcela apropriada
transações econômicas não é uma tarefa pelo setor agrícola em suas relações
simples. A complexidade resultante dos contratuais. Existe um jogo de forças
sistemas agroindustriais se deve ao processo desiguais no setor agrícola, onde a parcela
de integração das indústrias de insumos, proporcional ao setor “dentro da porteira” é
distribuição e armazenamento bem como, inferior aos ganhos de outros agentes
mudança nos hábitos dos consumidores. envolvidos nas transações devido a sua
capacidade de poder de mercado. A
Nesses aspectos, na visão de Hoff et al.
celebração de contratos pode contribuir na
(2007), para se compreender a dinâmica
garantia da apropriação das parcelas
presente nos sistemas agroindustriais é
pertencentes a quem é de direito na disputa
imprescindível reunir diversas áreas do
por mercados a partir de transações entre
conhecimento. Destacam-se disciplinas como
agentes.
biotecnologia, química, engenharia,
veterinária, agronomia, economia, saúde, Os novos estudos institucionais
sociologia, gestão, logística e até mesmo a impulsionados por Ronald Coase, em 1937,
psicologia, com vistas a compreender as complementaram a visão de firma analisada
preferências dos consumidores e alinhar as pela corrente neoclássica. A concepção de
estratégias empresariais às reais mercado era focada no mecanismo de preços
necessidades do mercado. como elementos suficientes para explicar os
problemas de alocação dos recursos. Já essa
Dessa forma, visando a maior compreensão
nova visão produziu estudos necessários
dos fenômenos econômicos a partir da nova
sobre a concepção de teorias de firma que
realidade dos negócios agrícolas, tornou-se
deram ênfase em suas atividades internas e
necessário a formação de quadros de
suas relações contratuais (ZYLBERSZTAJN e
profissionais capacitados para atuar em
GIORDANO, 2015).
abordagens interdisciplinares (HOFF et al.,
2007). A observação se torna mais completa Farina (1999) reforça a presente concepção
quando um objeto de estudos é analisado por de SAG, afirmando que o desempenho não é
mais de um anglo de visão. Faz-se necessário entendido como resultado do esforço de uma
reunir diversos saberes para que se possa firma individual e sim da eficiência dos
entender novos fenômenos e novos agentes evolvidos dentro do sistema e o grau
comportamentos derivados da complexidade de dependência entre eles. Para a autora, é
do agronegócio. nesse ponto que se justifica a aplicação de
teorias, como a Nova Economia Institucional
Os estudos de Zylbersztajn (1995) e de
(NEI) e seus desdobramentos a partir dos
Zylbersztajn e Farina (1999) também
trabalhos de Ronald Coase (1937), para se
consideram que o entendimento da dimensão
entender integração da firma com a indústria
e abrangência do SAG é imprescindível para
(competitividade horizontal) e da indústria
o conhecimento do “mundo real” da
com a cadeia produtiva (competitividade
agricultura e suas relações com a sociedade.
vertical) (FARINA, 1999).
Para os autores, conhecer as diferentes
formas de organizações agrícolas e como se Enaltecendo a importância conferida aos
relacionam pode contribuir para a elaboração contratos, Caleman (2015) relaciona a
de estratégias que visem a maximização de eficiência de um Sistema Agroindustrial à sua
valor ao longo da cadeia e da minimização capacidade de criar, sustentar e distribuir
dos custos envolvidos em suas transações. A valor a partir de mecanismos de
coordenação entre agentes econômicos além coordenação. E que a inovação é o ponto
da fronteira de preços permite abordar a central para a criação e apropriação deste
complexidade dos sistemas agroindustriais valor dentro do SAG. Essa necessidade de
de forma mais ampla, considerando gerenciamento de valor confere aos contratos
elementos como integração vertical, alianças um papel relevante enquanto instrumento de
estratégicas e estudo dos contratos. A incentivo à alocação eficiente de recursos no
abordagem institucional permite uma agronegócio.

Administração Rural - Volume 1


143

Complementando essas proposições, enaltecendo a importância das relações entre


Caleman e Zylbersztajn (2012) buscam agentes econômicos para o alcance do
referências nos estudos de Yoram Barzel, de objetivo de cada um. O ponto de
1997, afirmando que o processo de tomada convergência entre o conceito de SAG e a
de decisão se torna mais seguro e efetivo Nova Economia Institucional, a qual será
numa economia a partir da criação de um discorrida a seguir, se dá pelo papel do
ambiente seguro, protegido por instrumentos ambiente institucional sobre a conduta das
legais que visam reduzir as incertezas. O organizações e a importância das transações
ambiente competitivo criado por nexos de para a eficiência dos SAGs.
contratos confere às firmas maiores
possibilidades de competitividade e
permanência no mercado. 4. CARACTERIZAÇÃO DO SAG DO URUCUM
NA MICRORREGIÃO DE DRACENA
Já Mendes (2011) afirma que na tentativa de
minimizar a dissipação de valor derivada das O Sistema Agroindustrial do Urucum na
falhas contratuais, os agentes recorrem às Microrregião de Dracena, especificamente
garantias para a minimização das nos municípios de Monte Castelo e São João
externalidades geradas pelo processo de do Pau D’Alho, pode ser representado por um
troca. Complementa ainda que a necessidade fluxo de produtos, serviços e informações.
de formas garantidoras advém da existência Desde o fornecimento de insumos agrícolas
de variabilidade e incertezas ou ainda, da até o destino final do urucum, são verificados
dificuldade de mensurar os atributos a baixo relacionamentos de interdependência entre
custo. O Estado tem a função de garantir o diferentes agentes, as quais podem ser
direito à propriedade privada em forma de representadas por um fluxograma (Figura 2).
direito legal, a partir de seu poder coercitivo.
O SAG do Urucum pode ser compreendido a
Este garante que os contratos sejam
partir de um encadeamento de relações
cumpridos, definindo sanções sobre o seu
existentes entres os agentes que o compõem.
não cumprimento. Assim, confere-se ao
Encontram-se presentes nesse SAG os
Estado a permanente justificativa de
fornecedores de insumos agrícolas, os
intervenção na economia, regulamentando o
produtores de urucum, sendo esses
ambiente institucional (MENDES, 2011).
agricultores independentes ou associados, os
Essas são as principais considerações acerca intermediários (aqui representado pela
da concepção de Sistemas Agroindustriais, empresa Urucum do Brasil) e as indústrias de
os quais foram elaboradas a partir de estudos processamento, que comercializam seus
seminais. Buscou-se compreender o produtos em mercados nacionais e
comportamento das firmas diante das internacionais.
mudanças em curso no agronegócio,

Figura 2: Representação do SAG do urucum no estado de São Paulo

Fonte: os autores.

Administração Rural - Volume 1


144

- Insumos específicas como delicadeza e detalhamento.


Nessa etapa inicial é constante o uso da
O setor de insumos agrícolas do SAG do
irrigação e o controle de pragas, que é muito
Urucum envolve aqueles insumos de
frequente na fase de crescimento. As mudas
produção necessários à obtenção da
denominadas “Anão” são pertencentes à
produção vegetal, tais como as mudas de
variedade “Piave” e vendidas à R$ 0,20 a
plantas, as máquinas e os implementos
unidade (dados obtidos em 2016).
agrícolas, bem como os produtos que
garantam a nutrição e proteção das plantas. Após o nascimento da planta, essa é
De acordo com as entrevistas realizadas, submetida a uma técnica de “raleamento” (um
constata-se que, atualmente, não existem profissional treinado pode ralear até 1.000
defensivos certificados e técnicas de mudas/hora), com o objetivo de selecionar a
combate às pragas consideradas planta com melhor desenvolvimento. Não
sistematizadas e de uso aprovado pelo existe formação de estoque, a demanda é
Ministério da Agricultura para a cultura do orientada por encomenda, com um prazo de
urucum. até 90 dias para entrega após o pedido.
Os entrevistados relatam a existência de Em suas atividades cotidianas, esse produtor
esforços conjuntos do governo federal, de mudas recebe frequentemente assistência
estadual e municipal, aliados a iniciativa técnica da Casa da Agricultura, o que
privada, em pesquisas e desenvolvimento de possibilita aprimorar suas ideias e suas
técnicas de manejo e colheita, bem como em técnicas de manejo e desenvolvimento de
investimentos no desenvolvimento de mudas. Frequentemente também recebe
máquinas e implementos, em busca de maior visita de compradores interessados em firmar
eficiência produtiva. acordos e separar lotes de mudas. Uma vez
que não há contratos formais, a frequência
Verifica-se na região em estudo a existência
das visitas e negociações, aliada a
de três produtores de mudas de urucum,
características das mudas (especificidade
sendo um localizado no município de Tupi
dos ativos), estreitam as relações comerciais
Paulista e os outros dois no município de
entre os agentes.
Monte Castelo. Esses são os responsáveis
pelo atendimento da demanda de mudas de Seguindo a constante busca por alternativas
plantios e replantios de tecnificação em todas as fases da cultura,
foi desenvolvida por esse produtor uma
O maior produtor de mudas de urucum da
máquina manual para plantio direto da muda.
região, participante da pesquisa de campo,
A muda é inserida na parte superior do
está localizado no município de Monte
equipamento e desliza até o fechamento na
Castelo. Ele atua nessa atividade de geração
parte inferior. A mesma é inserida no solo
de mudas há cerca de 10 anos, em uma
quando acionado o gatilho de abertura.
propriedade de um alqueire, juntamente com
Segundo o entrevistado, o equipamento ainda
mais três familiares. De acordo com o
está sendo testado por produtores e o
entrevistado, é o responsável direto pela
feedback de seu desempenho é fundamental
padronização de mudas, estabelecida por
para melhorias do projeto, pois não visa
critérios próprios, a partir de informações dos
interesses comerciais, mas sim, facilitar o
produtores, bem como das Casas da
plantio para que os produtores tenham maior
Agricultura de Monte Castelo e de São João
desempenho e rapidez nessa fase da cadeia.
do Pau D’Alho.
De acordo com as entrevistas realizadas,
Esse produtor foi o pioneiro na atividade de
verifica-se que máquinas, implementos e
produção de mudas e, atualmente, produz
técnicas de cultivo vêm sendo desenvolvidas
cerca de 300.000 mudas por ano. Devido a
por produtores da região que procuram
grande demanda, outros produtores se
melhores formas de cultivo e colheita. O
inseriram nessa atividade e, trabalhando em
espaçamento básico para o plantio dos
equipe, somam suas produções para atender
arbustos é de 5x2m (vãos de 5 metros entre
à demanda dos estados de São Paulo, Mato
linhas 2 metros na linha) para a colheita
Grosso e Minas Gerais.
manual. Em seguida é realizada a quebra das
Para a produção da muda de urucum são cachopas e as sementes são levadas por
semeadas aproximadamente seis sementes balaios até as cabeceiras das lavouras para o
por “tubete”. A mão de obra aplicada na beneficiamento em máquina adaptada.
atividade deve possuir características Inicialmente essa máquina era utilizada para

Administração Rural - Volume 1


145

beneficiamento de feijão e de milho, sendo produção estadual, o que corresponde a


alimentada manualmente. cerca de 20% da produção nacional (Figura
3). Constata-se, dessa forma, que é a maior
Recentemente, uma indústria do interior de
região produtora de urucum do estado de São
São Paul fez adaptações na colhedeira de
Paulo e do Brasil, tanto em termos de área
feijão para uso na colheita do urucum. Para
plantada quanto de quantidade produzida
sua utilização, entretanto, foi necessário o
(IBGE, 2016; ATLAS BRASIL, 2016).
plantio com espaçamento específico (7m x
3m), mais largo, para permitir a entrada e Essa região apresentava, em 2008, um total
manobra do equipamento, que é tracionado de 5.058 estabelecimentos voltados para a
por trator. Para essa tarefa as cachopas são agropecuária; sendo, a maioria (84%),
enfileiradas no meio dos vãos da cultura. estabelecimentos característicos da pequena
produção e com menos de 50 ha (Tabela 1).
Pode-se afirmar que há muito espaço para o
Os municípios integrantes dessa microrregião
aperfeiçoamento dos insumos de produção
apresentavam, em 2008, 280
da cultura do urucum. Tais melhorias tendem
estabelecimentos com produção de urucum,
a contribuir com o desempenho técnico dessa
somando cerca de 1.700 hectares com essa
cultura, trazendo benefícios para produtores e
cultura, ocupadas por pouco mais 900 mil
compradores desse produto.
plantas. Esse cenário representava 65,7% dos
estabelecimentos, e 71,92% da área, com
urucum no estado de São Paulo. Nesse
- Produção do Urucum
contexto, percebe-se a grande concentração
No que se refere à produção de urucum, a da produção no oeste do estado e, em
Microrregião de Dracena tem representado, especial, nos municípios de Monte Castelo e
em média, nos últimos anos, 80% da São João do Pau D´Alho (LUPA - CATI, 2008).

Figura 3: Área colhida (hectares) de urucum no estado de São Paulo e na Microrregião de Dracena,
entre 1990 e 2014

3.000

2.500

2.000
hectares

1.500

1.000

500

São Paulo Microrregião de Dracena

Fonte: IBGE (2016).

Dentro do Sistema Agroindustrial, os duas formas de organização desses


produtores de urucum são os agentes produtores. Verificou-se que os mesmos
responsáveis pela produção da matéria- atuam de forma independente ou associada.
prima. Na região estudada, verificaram-se

Administração Rural - Volume 1


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Tabela 1: Características das Unidades Produtivas da Microrregião de Dracena, em 2008


UPAs Total UPAs com Urucum Área com Urucum
Número
Município Até 50
Núm. % Núm. % *
ha % ** Plantas
ha
Monte Castelo 466 393 84% 99 23,2% 786,3 33,17 439.200
São João do Pau
268 245 91% 67 15,7% 384,3 16,21 176.728
d'Alho
Tupi Paulista 925 841 91% 43 10,1% 230,1 9,71 124.471
Junqueirópolis 1.198 1.019 85% 34 8,1% 149,3 6,30 85.316
Ouro Verde 346 267 77% 5 1,2% 61,2 2,58 23.900
Nova
165 152 92% 11 2,6% 49,2 2,08 36.800
Guataporanga
Paulicéia 235 181 77% 16 3,7% 32,1 1,35 11.054
Dracena 1.024 872 85% 3 0,7% 6,6 0,28 4.800
Santa Mercedes 204 143 70% 1 0,2% 5,0 0,21 2.000
Panorama 227 158 70% 1 0,2% 0,7 0,03 350
Total 5.058 4.271 84% 280 65,7% 1.704,8 71,92 904.619
* % de UPAs em relação ao total de UPAs com urucum no estado de São Paulo.
** % da área (ha) com urucum em relação a área total de urucum no estado de São PAulo
Fonte: Secretaria de Agricultura e Abastecimento, CATI/IEA, Projeto LUPA (2008); IBGE, (2016).

A produção independente é característica O plantio de urucum com maior espaçamento


dos produtores do município de Monte (3 x 7m) possibilita a introdução e manobra
Castelo; já em São João do Pau D´Alho, a da colhedeira móvel dentro dos vãos da
predominância é de produtores associados. cultura. Mesmo com a densidade alcançada
Enquanto os produtores associados se pelos arbustos em fase adulta, com a técnica
beneficiam do compartilhamento de de poda superior e lateral, consegue-se
informações, locação de máquinas e manter os pés de urucum em um
implementos agrícolas, os produtores delineamento que permita a colheita
independentes obtêm serviços semelhantes mecanizada, bem como, alta produtividade
por meio da relação com uma empresa por planta.
intermediária – a Urucum do Brasil.
Considerando a nova realidade referente à
Por meio das entrevistas realizadas, verificou- colheita mecanizada móvel, especificamente
se que tanto os produtores independentes de no município de São João do Pau D’Alho, as
Monte Castelo, quanto os produtores culturas mais antigas – com mais de 5 anos –
associados de São João do Pau D´Alho, são arrancadas para que sejam plantadas
recebem assistência técnicas das Casas da com o novo espaçamento. A renovação das
Agricultura dos respectivos municípios. lavouras também se dá pelo fato de que os
Destaca-se que, embora associados, os arbustos apresentam uma queda significativa
produtores de São João do Pau D´Alho de produtividade ao longo do tempo e, a
comercializam suas safras de urucum de partir do quinto ano, percebe-se uma redução
forma individual. significativa de produção por arbusto.
Com relação ao manejo, cultivo e colheita do
urucum, foram identificados junto aos
- Intermediário (Urucum do Brasil)
produtores entrevistados diversos gargalos
que ainda limitam e dificultam a sua cultura. Identificou-se no SAG do Urucum na
Um aspecto é a poda do arbusto do urucum, Microrregião de Dracena a presença de uma
a qual é realizada de forma manual ou com organização que exerce o papel de
uma roçadeira adaptada pelos próprios intermediário, atuando entre os produtores de
produtores. Ainda existem outros implementos urucum e as indústrias processadoras.
destinados a esse manejo, porém devido aos
Presente no município de Monte Castelo, a
custos de aquisição e ou alocação, buscam-
Urucum do Brasil, empresa de iniciativa
se formas alternativas de poda, tanto na parte
privada, é responsável pela aquisição de
superior quanto lateral.
grande parte do urucum daquele município.

Administração Rural - Volume 1


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Ela é responsável pelo beneficiamento mais Tais empresas, por terem dificuldade de
refinado das sementes de urucum e acesso direto aos pequenos produtores de
comercializa, predominantemente, para uma urucum, recorrem a estratégias de
indústria específica de aditivos alimentares – intermediação por meio de representantes.
a