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PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DO PARANÁ (PUC-PR)

ESCOLA DE EDUCAÇÃO E HUMANIDADES


PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EMTEOLOGIA (PPGT)

JOSÉ CARLO CRUQUI

REPENSAR A RESSURREIÇÃO – CAP 4


NASCIMENTO E SIGNIFICADO DA FÉ NA RESSURREIÇÃO

CURITIBA
2017
JOSÉ CARLOS CRUQUI

REPENSAR A RESSURREIÇÃO – CAP 4


NASCIMENTO E SIGNIFICADO DA FÉ NA RESSURREIÇÃO

Trabalho apresentado como requisito de


conclusão e avaliação referente ao Seminário
Internacional realizado sob o tema: “La Teología
em clave decolonial: una reflexión a partir de las
resistências epistêmicas y espirituales de los
sobreviventes en el contexto de violência global”,
ministrado pelo Prof. Dr. Carlos Mendoza Alvaréz
do México.

CURITIBA
2017
CAP.4
NASCIMENTO E SIGNIFICADO DA FÉ NA RESSURREIÇÃO

Repensando a ressurreição, um advento significante de sentido ante aos


desafios humanos de nossa sociedade pós-moderna, buscando luz nesse advento
que nos ajude a superar nossos traumas enquanto sociedade.
Segundo o autor, é necessário superar a leitura fundamentalista dos textos
pascais, afim de que cheguemos a uma nova interpretação atual, o próprio autor
neste capítulo reconhece que foi necessário uma abordagem de desconstrução da
visão tradicional, a fim de prevalecer uma construção positiva.

A VIDA PARA ALÉM DA MORTE NAS RELIGIÕES


A morte é entre todos os flagelos humanos visto como um evento de finitude,
onde tudo se encerra sendo que determina o ser ao esquecimento e condenado ao
“nada”.
Conforme o autor ressalta que entre todas as religiões há uma matriz comum,
essa crença numa sobrevivência para além da morte representa o primeiro dado da
atividade religiosa da humanidade.
A esperança de uma continuidade é traduzida na crença da ressurreição, a
continuidade da vida mesmo no pós-morte é uma esperança aludida entre quase
todas as religiões, e nossa escolha por uma dessas religiões advém em suma de
nossa esperança particular de continuidade.

O CARÁTER TRANSCENDENTE E IMANENTE DA RESSURREIÇÃO.


Mesmo não tendo como aceitar a corporeidade de cristo, segundo o autor
precisamos entender a ressurreição como uma experiência, feita no seio de toda
uma situação concreta na qual se encontram e dentro de uma cultura judaica.
Mas o caráter transcendente da ressurreição nos impede de buscar sua
novidade não pode ser buscada em acontecimentos empíricos.
Mesmo estando o ressuscitado em forma invisível e intangível, ele se deixa
tocar de maneira “especial e misteriosa”, através do olhar da fé.
A presença dele entre eles era tão real que muitos julgavam vê-lo real e
fisicamente, chegando ao ponto de tocá-lo, a sua presença era real ainda que não
tangível, seu “espirito” estava ali em seus discípulos a comunidade que o recebeu, e
tudo que havia antes, continuava agora existindo após Jesus, mas agora com uma
figura representativa o Cristo Ressuscitado.
Essa presença de Cristo com sua comunidade se dá agora de forma nova,
reavivando a fé, chamando para uma missão e estabelecendo a esperança no
futuro. A morte não poderia parar essa missão, era uma questão de fé.
A presença ainda que não tangível do ressuscitado através da fé de seus
discípulos, convida a todos a entrarem na dinâmica do Reino, seguindo os passos
do mestre, onde nos leva a crença de que se Cristo ressuscitou, também nós
ressuscitaremos. (I Cor 15.20).

JESUS RESSUSCITA EM PESSOA, E COM ELE SUA CAUSA.


E, se Cristo não ressuscitou, logo é vã a nossa pregação, e também é vã a
vossa fé.
E assim somos também considerados como falsas testemunhas de Deus,
pois testificamos de Deus, que ressuscitou a Cristo, ao qual, porém, não
ressuscitou, se, na verdade, os mortos não ressuscitam.
Porque, se os mortos não ressuscitam, também Cristo não ressuscitou.
E, se Cristo não ressuscitou, é vã a vossa fé, e ainda permaneceis nos
vossos pecados. (1 Coríntios 15:14-17)

Estes textos da carta aos Coríntios demonstram-nos que bem provavelmente


essa discussão acerca da ressurreição como fato, já era um assunto que dominava
as rodas de conversa e discussões entre eles, quando os relatos eram apenas na
fala dos discípulos, alguns devem ter questionado e duvidado da questão.
Outro aspecto dessa discussão é o fato de não podermos separar de Cristo
sua causa, a causa depende dele, e ele vive nela. Paulo questiona e coloca em
xeque toda a crença no messias, libertador dos pecados, se de fato ele não
ressuscitou.
Segundo a fala do apóstolo, para continuar sua causa é necessário um ato de
fé em sua ressurreição, pois do contrário é um trabalho vazio e sem sentido,
continuar a causa de um messias defunto, é preciso crer na tumba vazia, desprovida
de corpo, assim esse símbolo fortalece a continuidade da causa do messias.
Nesse aspecto, comungo das palavras de QUEIRUGA, que diz necessitamos
de duas coisas: interpretar a realidade que confessamos na ressurreição de Cristo e
ser conscientes de que nunca obteremos uma interpretação plenamente satisfatória.
A RESSURREIÇÃO e AS VITÍMAS DE VIOLÊNCIAS
As narrativas das aparições segundo o autor já mostra um problema de
aceitação, ele questiona:
“Algo absurdo, se admitirmos um mínimo de literalidade: se era visível e
palpável, como não iriam reconhecer alguém com quem viveram até alguns
dias antes, mesmo depois de caminharem juntos uns dez quilômetros, como
os discípulos de Emaús (Lc 24,13)? Por isso, também o ressuscitado pode
aparecer sem que para ele sejam obstáculos as portas ou as paredes (Jo
20.19); algo não menos absurdo, caso se tratasse de um corpo visível e
palpável. Quanto ao tempo, nem precisaria indicar que o mesmo autor,
Lucas, que na primeira parte de sua obra faz com que tudo aconteça na
tarde de Domingo (Lc 24), na imediata continuação da mesma, prolonga
durante quarenta dias a estada do Ressuscitado na terra (At.1,3)”.
(QUEIRUGA, 2005, p 148)
Pelo relato acima percebemos que o autor, não acredita numa ressurreição
corpórea de Jesus, o mesmo defende uma ressurreição diferenciada, ou seja, de
modo invisível e logo após sua morte, o autor fala que destas aparições não como
uma visão ocular do ressuscitado, mas de uma manifestação de identidade
misteriosa.
Segundo ele os discípulos recuperaram sua fé em Cristo, a quem haviam
traído na crucificação, e aqui diante das aparições os mesmos recuperam sua fé no
Cristo. Cita inclusive que os relatos das aparições podem ser utilizadas como
recurso apologético dizendo que : “algo deve ter ocorrido entre a falta de fé, que
levou à fuga covarde, e a fé viva que converteu os discípulos em heraldos valentes e
audazes.”(QUEIRUGA)
Penso que devemos entender e interpretar a ressurreição de Jesus como
uma marca de continuidade, o assassinado injustamente, não permanece
aniquilado, e continua vivo apesar da derrota aparente.
De uma forma nova, torna-se presente reavivando a fé, chamando para a
missão e sustentando a esperança no futuro.
Ter fé na ressurreição de Jesus não é proclamar a sua memória, mas incluir
em seu seguimento. Entrar no dinamismo do Reino.
A Ressurreição pode soar como uma esperança, futura para alguns, que
mesmo sabendo da morte, preferem acreditar numa ressurreição futura, sendo a
ressurreição de Cristo “como um consolo” ou “modelo”, se ele ressuscitou, então há
esperança de ressurreição.
A luz da ressurreição pode-se fazer uma leitura confortadora e consoladora,
aos vitimados de violência, que tiveram amigos e familiares assassinados como fruto
dessa violência sistêmica que presenciamos hoje.
O HORIZONTE ESCATOLÓGICO COMO CONTEXTO.
Uma abordagem interessante vem dos escritos de Queiruga, no âmbito do
Reino e da escatologia, a redescoberta da impregnação escatológica dos
evangelhos discutidos na teologia dialética, e conforme diz nosso autor, sem esse
horizonte escatológico presente, não seria possível pensar na ressurreição de
Jesus.
Em Jesus conforme anunciado nos evangelhos, era chegado o reino de Deus,
e a chegada acabaria com o tempo de maldade, porém diferente de outras figuras
messiânicas, essa mudança não se daria por armas, e força militar, mas seria antes
por sofrimento, seu destino implicava em sua morte. E a reinvindicação por parte de
Deus que aconteceu na ressurreição.
Convém retomar uma explicação dada sobre escatologia e apocalíptica.
Algo que vem insistindo John Dominic Crossan, que na segunda uma
contração da primeira, “escatológico” é o conceito mais fundamental e
genérico: significa o estádio radical e definitivo, contracultural e superador
do mundo, operado por Deus e não simplesmente derivado das forças
humanas. Mas, em concreto, o gênero escatológico divide-se, em três
espécies: “ascético”, “ético” e “apocalíptico”. [...] apocalíptico, supõe algum
tipo de intervenção sobrenatural de Deus que põe fim à
história.(QUEIRUGA, 2005, p.162)

O Autor nos diz que não podemos negar na vida do Jesus histórico o
elemento apocalíptico, visto que sua pregação agrega elementos de passado e
futuro.

UM RESUMO DAS PROPOSTAS DO AUTOR EM NESSE CAPÍTULO


• Uma leitura bíblica desprovida do literalismo, e utilização de uma nova
hermenêutica das narrações pascais, deixando de lado a visão mitológica.
• Segundo sua proposta, esse repensar a ressurreição garante um olhar
libertário da fé, e da tradição evitando uma teologia ultrapassada.
• Ler as narrativas das aparições e da ressurreição do ponto de vista de um
novo horizonte cultural diferente daqueles que em que se gestaram.
• Não contar com o tumulo vazio não implica negar a realidade da ressurreição.
CONCLUSÃO, TEOLOGIA HOJE
Assim como no pós-iluminismo, que provocou uma mudança tão profunda na
teologia tradicional, que a teologia nunca mais pode voltar para suas formas
tradicionais, seus sistemas ortodoxos de crença foram questionados e colocados em
xeque, da mesma forma acontece com a pós-modernidade, que vem apresentar a
nossa teologia uma nova indagação, como podemos fazer a teologia hoje?
Nesse seminário nossas bases foram questionadas, nossas estruturas
teologais foram desmanteladas, então o que resta da tradicional teologia? Quase
nada, ou nada deveria restar.
Precisamos buscar um novo olhar, um olhar influenciado a partir das
perspectivas do “sul” e não mais do “norte”, um olhar de baixo para cima e não o
inverso, nossa teologia deve buscar olhar da perspectiva das vítimas, dos
vulneráveis, daqueles que não possuem rosto ou voz, devemos emprestar a eles
nosso ser teológico, afim de, encontrar novamente uma fonte de sentido para o fazer
teologia nesse tempo pós moderno.
Não podemos negar os avanços racionais existentes até o presente tempo, e
é bem por não poder negá-los que não podemos voltar a uma teologia medieval
ignorando tais avanços, nossas bases foram em certa forma abaladas, e que esse
abalo não nos sirva de destruição, mas de construção de uma teologia que receba e
transforme-se ante ao mundo pós-moderno que vivemos.
Penso que a fé hoje não deve mais se prestar ao sistema tradicional, como
uma estratégia de convencimento e aprisionamento entre muros, porém ela deve
estar do outro lado do muro, buscando significado e sentido no outro, e não
devemos viver a fé sem a esperança, mas ela deve ser a esperança de um mundo
melhor hoje e agora, como uma experiência escatológica vivida no hoje, o paraíso
hoje, não para um, mas para todos.
Devemos viver hoje nas ranhuras do tempo, nas rupturas do tempo, como
figura apresentada pela exposição do professor MENDOZA. Que ouso denominar de
“tempo oportuno”.
Sejamos transformadores, aproveitando essas brechas no tempo, o “tempo
oportuno” que a nós se apresenta, onde houver um clamor indagador, que sejamos
a resposta.
REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA

QUEIRUGA, Andrés Torres, REPENSAR A RESSURREIÇÃO: diferença cristã na


continuidade das religiões e da cultura. São Paulo: Paulinas, 2005. p. 117-183.