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O analista poeta*

Alexandre Stevens

A psicanálise é filha da ciência. De fato, Freud buscou incansavelmente inseri-la


no campo científico. Numerosas passagens de seus textos testemunham isso, não sem um
certo cientificismo certamente, mas com uma exigência epistêmica, tal como sua
referência a Darwin.
A releitura de Freud com o estruturalismo linguístico que Lacan opera, parece dar
mais rigor a essa referência científica. Num segundo tempo, Lacan irá considerar que se
a psicanálise é filha da ciência, é porque em seu advento reside a condição de sua
invenção: é pelo fato de que a ciência forclui o sujeito, que a psicanálise pôde nascer,
vindo restaurar o valor da singularidade do caso, sempre único. A evolução da ciência em
direção ao matematizável, e hoje em direção à estatística – nem sempre com bastante
rigor – reforça essa posição. Lá onde a ciência se orienta em direção ao universal, a
psicanálise se interessa pelo particular, pelo mais íntimo, pelo que não depende de
nenhuma condição geral, mas somente da insondável decisão do ser.
Certamente todo um lado da psicanálise mantém um pé na ciência: se trata de
transmitir, construir, logificar. É a vertente do matema, tal como elaborado no ensino de
Lacan. Mas há também aquela parte de insondável que escapa a ela, e que torna a ligação
à poesia não apenas metafórica, e muito menos uma aplicação da psicanálise à poesia,
no sentido de uma interpretação de texto. A ligação da psicanálise à poesia é mais
íntima. É isso que faz com que Lacan diga que o psicanalista deve ser poeta, ou que os
psicanalistas não são suficientemente poetas. Há para os psicanalistas um
“esforço de poesia” necessário para a interpretação [1].
Em seu Seminário V, Lacan mostra que existem dois modos de invenção: o da
ciência, da dedução lógica, que tem seu valor fora das condições subjetivas singulares
daquele que produz a invenção, e aquele do chiste (Witz), que possui condições bem
particulares. Assim, se retomarmos um chiste longamente estudado por Freud e por
Lacan, aquele que Henri Heine coloca na boca de Hirsch Hyacinthe ao falar de suas
relações com Rothschild: “Ele me tratou de uma forma muito familionária”[2], essa
palavra “familionário” produz um chiste. Ele é construído como uma condensação entre
as palavras “familiar” e “milionário”. Lacan diz também que o chiste é “uma criação
poética plena de significação”, uma criação de sentido no não-sentido. A palavra
“familionário” não está no código, ela é sem-sentido, e são os processos da metáfora e da
metonímia que provocam aqui o não-sentido, um novo passo dado no sentido. É nisso
que Lacan diz que a poética deveria incluir a técnica do chiste.
Desse ponto de vista, há uma semelhança perfeita entre a criação do chiste, do
poema, das formações do inconsciente e do sintoma. As formações do inconsciente, isto
é, os lapsos, os esquecimentos de palavra, o ato falho, são todos produzidos através do
mesmo processo, assim como Freud o demonstra: condensação e deslocamento,

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metonímia e metáfora se conjugam para participar de uma invenção de palavra, ato de
fala, que sempre produz um cintilar do sentido. Pensemos no esquecimento de Signorelli
[3] por Freud, onde ele faz ressoar Botticelli e Boltraffio, Herr e Signor, a morte e o medo
da castração.
O sintoma ele mesmo é para Freud coextensivo às formações do inconsciente.
Pelo menos em seu efeito de criação de sentido. Pensemos no pequeno sintoma de dor
no osso sacro (Kreutz em alemão) que uma paciente de Freud apresenta um dia, e que
surge pelo equívoco que Freud o faz ter: “você carrega sua cruz” (também Kreutz em
alemão). Isso mostra como uma invenção significante vem exprimir, através da dor do
sintoma, as dificuldades de sua vida conjugal. Uma invenção com um acréscimo de
sentido, portanto.
Mas o sintoma não é apenas uma invenção de um sentido novo, ele é também
gozo (jouis-sens como escreve Lacan). Ele satisfaz o inconsciente, mas é uma
satisfação paradoxal, uma vez que ela é acompanhada da dor do sintoma.
A poesia também visa um gozo, pelo menos um gozo do cintilar do sentido, ela é
como diz Lacan sens jouit (sentido gozado ou sentido-de-gozo). Mas esse gozo, por ser
elaborado na multiplicidade de sentidos do poema, ao mesmo tempo forra, limita o
domínio das pulsões e o império das paixões. Às vezes com um efeito real sobre os
discursos mantidos no mundo. Assim como a invenção do amor cortês, que culmina com
“A divina comédia de Dante”. Como sublinha Antonio di Cacia “é impensável cantar o
amor fora dessa tradição” [4]. Há aí a invenção não somente de um novo sentido, mas de
um modo de suplência à relação sexual (que não existe, diz Lacan) para toda uma
civilização.
O sintoma também faz suplência para o sujeito a essa não relação. E às vezes ele
utiliza a poesia para isso, quando ele é capaz, como é o caso de Nerval, cuja vida e o
delírio se confundem e se exprimem de uma só vez em seus poemas – sobretudo os para
Aurélia.
Mas mesmo quando não é poesia, o sintoma está no mesmo lugar que essa
suplência. Sendo ao mesmo tempo sentido, gozo e suplência, que limitam e organizam
esse gozo, o sintoma é poema. E “o analista-poeta é aquele que pode dar lugar à
demonstração de que o sintoma é poema, de que em sua articulação entre o gozo e seu
envelope formal, ele dá acesso a efeitos de criação”[5]. O sintoma articula o vivente à
letra, conjuga o mortal e o imortal. Não é exatamente a mesma coisa com o poema?
Um último ponto sobre o qual a poesia e a psicanálise se encontram, é que elas
lidam com a linguagem enquanto não servindo essencialmente à comunicação, mas ao
gozo, como demonstra muito bem o “-lizmente” de Michel Leiris, e o que ele diz aí de
perda de gozo ao passar para o “felizmente” da comunicação[6].
Nesse espaço entre significante e significado, onde o sentido é gozado, se abrem
todas as possibilidades de intepretação. A interpretação do analista-poeta é feita de
equívocos: “a integral dos equívocos”[7][**]. E ele declina os modos no “Aturdito”: pela
homofonia, pela gramática, mas também pela lógica, sem a qual a interpretação seria

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imbecil. A interpretação analítica deve fazer limite ao sintoma-poema demonstrando-o
como tal pela sua formalização contrária ao sentido. Portanto, o objetivo final do analista
não é mais encontrar o sentido último mais verdadeiro do que qualquer outro, mas
encontrar e aceitar o não-sentido, produtor do sentido.
Tradução: Arryson Zenith Jr.

Notas
*Resumo da conferência de Alexandre Stevens em Moscou
[1] Miller, J.-A. “Um esforço de poesia”, Orientação Lacaniana III, 2002-2003, curso
inédito.
[2] Lacan, J. “O seminário, Livro 5” As formações do inconsciente, 1957-1958
[3] Freud, S. Psicopatologia da vida cotidiana
[4] Di Ciaccia A. “Psychanalyse et poésie”, revista Quarto 80/81, 2004
[5] Laurent, É. “La poétique du cas lacanien, conference à Buenos Aires”, Revista Quarto
80/81, 2004
[6] Miller, J.-A. “L’écrit dans la parole”, Les Feuillets du Courtil, 1996, pp 15-16
[7] Lacan J. “O aturdito”, Outros Escritos, Zahar, p. 490.
**Há na expressão em francês “l’integrale des équivoques” um efeito de equívoco.
“L’integral” pode se referir à “íntegra” dos equívocos, no sentido de sua totalidade, ou à
“integral”, que é uma função matemática usada em Cálculo.

Texto original em francês extraído de: Revista Quarto, nº 83, Bélgica, 2005, p. 36-37

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