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LIVRO DIDÁTICO: AS PRÁTICAS DE LEITURA E A NECESSIDADE DE ADAPTAÇÃO

DA CULTURA DOS LIVROS DE PAPEL À CULTURA DIGITAL

TEXTBOOK: PRACTICES OF READING AND THE NEED FOR ADAPTATION OF THE


CULTURE OF PAPER BOOKS TO THE DIGITAL CULTURE

Lauro Roberto Lostada1*, Hélio Camilo Rosa2

1. Doutorando em Educação na Universidade Federal de Santa Catarina - UFSC, Florianópolis-SC, Brasil.


2. Professor de Filosofia do Colégio de Aplicação da Universidade Federal do Acre – CAp/UFAC.

*Autor correspondente: lostada25@yahoo.com.br

Recebido: 22/02/2017; Aceito 03/07/2017

RESUMO
Segundo dados estatísticos disponibilizados no site do Fundo Nacional de Desenvolvimento da
Educação, o governo brasileiro gastou o equivalente a R$ 1.330.150.337,36 no ano de 2014 no
controle de qualidade, aquisição e distribuição de 140.681.994 livros para o PNLD 2015, resultando
no total de 28.919.143 alunos beneficiados. Apesar do todo este investimento, porém, os livros não
chegam a muitas escolas, enquanto que em outras eles sobram. Da mesma forma, é importante
ressaltar que a cada três anos todos esses livros são substituídos, embora, em geral, mudem apenas a
capa e algumas imagens no interior dos mesmos, sua arte gráfica, por assim dizer, permanecendo os
textos iguais aos dos anos anteriores. O PNLD, da forma com a qual é praticado atualmente,
contribui para o desperdício do dinheiro público e enriquecimento de determinadas editoras que
disputam interesses financeiros em torno do lucrativo mercado de livros didáticos. Assim, o
objetivo deste texto, segundo as bases teóricas da TAR (teoria ator-rede), é, a partir dos novos
dispositivos de leitura, fazer uma discussão sobre a visão instrumental dos artefatos tecnológicos
contemporâneos, questionando sua visão como ferramenta, e trazendo ao debate questões como a
materialidade, a mobilidade, a originalidade e a cópia. Constrói-se neste trabalho, portanto, uma
análise sobre as práticas de leitura e a necessidade de adaptação da cultura dos livros de papel à
cultura digital.
Palavras-chave: Livro Didático, Programa Nacional do Livro Didático, Dispositivos de Leitura.

ABSTRACT
According to statistical data available on the website of the National Fund for Education
Development, the Brazilian government spent the equivalent of R $ 1,330,150,337.36 in 2014 on
quality control, acquisition and distribution of 140,681,994 books for PNLD 2015, Resulting in a
total of 28,919,143 students benefiting. Despite all this investment, however, books do not reach
many schools, while in others they remain. Likewise, it is important to emphasize that every three
years all these books are replaced, although, in general, they change only the cover and some
images inside them, their graphic art, so to speak, remaining the same texts as the years Above. The
PNLD, in the way it is practiced today, contributes to the waste of public money and the enrichment
of certain publishers disputing financial interests around the lucrative textbook market. Thus, the
objective of this text, based on the theoretical bases of TAR (actor-network theory), is, from the
new reading devices, to discuss the instrumental view of contemporary technological artifacts,
questioning their vision as a tool, and bringing Issues such as materiality, mobility, originality and
copying. Therefore, an analysis of reading practices and the need to adapt the culture of paper books
to the digital culture is constructed.
Keywords: Didactic Book, National Textbook Program, Reading Devices.
1. INTRODUÇÃO linguagem e a realidade se
prendemdinamicamente. Acompreensão do
texto a ser alcançado por sua leitura crítica
Vivemos um processo de modernização implica apercepção das relações entre o texto e
contínua desde a revolução industrial que o contexto [4].

produziu, além da revolução tecnológica,


Esse panorama que se instaura
também a “modernização” da própria
possibilita pensar sobre aimportância do
humanidade, e que, segundo as perspectivas
complexo, afinal, amodernidade, através do
críticas, pode ter levado ao empobrecimento
positivismo científico, dissecou o objeto do
da linguagem e da comunicação [1].
conhecimento em partes incomunicáveis que
Conforme a perspectiva de
passama ser de responsabilidade de
Luckesi[2],embora a escola, como parte desse
especialistas, cada vezmais inconscientes do
cenário histórico,tenha privilegiado em sua
todo de seuobjeto. Os sujeitos não são partes,
trajetória a leitura da palavra escrita em seus
masum todo de um complexo comunicável,
processospedagógicos, faz-se necessário,
onde cada elemento contribui para
diante das recentes tecnologias, aprender a ler
umaorganicidade vital da estrutura como um
todas as possibilidades performáticas de
todo. Assim, a mudança de paradigma não
linguagem (oral, escrita, sonora e
pode ocorrer de maneiravolátil, mas sob o
imagética),pois os novos processos de
impulso de uma tensão entre a ordem e a
comunicação exigem cada vez mais um
desordem, na iminência do caos.
sujeito crítico eágil em seu raciocínio, com
De qualquer maneira, essa possibilidade
posturas claras, capaz de fazer escolhas e
de mudança passa também pela educação e
proposições – construir conceitos [3].
pela promoção de novos valores, resultando
Essa tal capacidade de leitura de que
na necessidade dese avaliar e rever as práticas
falava Luckesi[2], contudo, não é
pedagógicas tradicionais, muitas delas
simplesmente identificar signos, mas é
pautadas no livro didático, para que gerem um
também a compreensão e a apropriação
novo modelode educação e, por consequência,
dosignificado da mensagem, que implica, por
também de sociedade e de indivíduo. Deste
sua vez, num emaranhado de
modo éque a escola deveria possibilitar aos
operaçõescognitivas que possibilitam ao
indivíduos, como parte de um
sujeito selecionar, organizar, interpretar e
processopedagógico maior, um caráter crítico
reelaborar asmensagens que recebe sob
diante do cotidiano, para que se possa
diversos tipos de linguagem. Ler naatualidade
relativizar oconhecimento científico,
é, pois, compreender o mundo e compreender-
identificando as ideologias nele constantes,
se no mundo.
numa análise darazão instrumental e das
A leitura do mundo precede a leitura da palavra,
daí que aposterior leitura desta não possa possibilidades advindas desse processo
prescindir da continuidade da leituradaquele. A
emancipatório àconstrução do saber e, tendências contemporâneas e aspossibilidades
destarte, do próprio ser. efetivas que as tecnologias podem fornecer
De outro modo, as considerações para a formação das novasgerações.
levantadas até o presente momento Assim, este trabalho visa elaborar uma
permitemaproximar o debate da figura do revisão dos suportes didáticos inerentes à
professor, a quem cabe parcela significativa prática pedagógica tradicional, em especial o
nesseprocesso de melhoria da educação. Do livro didático, propondo uma aproximação
ponto de vista metodológico, torna- com as tecnologias disponíveis atualmente,
seimportante que o professor possa saber em vista de um fazer pedagógico mais
equilibrar processos de “organização” e eficiente e com maior potencial educativo.
de“provocação” na sala de aula, visando
promover uma lógica dentro do caos
deinformações que as tecnologias 2. MATERIAL E MÉTODOS
proporcionam aos indivíduos. É preciso
fornecer aosalunos formas para que possam A pesquisa teve como fundamentação
reagir a seu meio e construir suas noções inicial o levantamento patrimonial de uma
próprias eautônomas para seu escola pública do município de Palhoça, em
desenvolvimento cognitivo. O ensinar passa a Santa Catarina, em relação ao seu acervo
ter maior sentidoquando, mais do que ocioso de livros didáticos, cujo período de uso
palavras, tanto professor quanto aluno estava no fim, embora ainda estivessem novos
comunguem das mesmasvivências, numa e embalados. A constatação do elevado
relação dinâmica e afetiva onde se promova número de livros que deveriam ser
um companheirismopedagógico intermitente “descartados” para a chegada dos “novos”
[5]. livros motivou uma pesquisa mais detalhada
Em todo o caso, o mundo vive uma sobre o Programa Nacional do Livro Didático
época em que a gestão do conhecimento e (PNLD), suas matizes e o impacto que causa
asua produção se promove, em grande parte, na tessitura da educação nacional, visto que,
através das tecnologias, portanto, é preciso apesar do volume excedente em uma escola,
fazeruso destas ferramentas para a formação outras acabam não recebendo o material.
do professor, como também para a Os dados quantitativos oriundos desse
formaçãodas novas gerações. Énecessário levantamento preliminar motivaram um
conscientizar os professores através de uma segundo momento de análise, para o qual
formaçãode qualidade sobre a importância da foram consultados sites governamentais do
educação para o mundo moderno e de como Ministério da Educação onde estavam
eleprecisa verificar em sua prática docente as disponíveis informações sobre o PNLD em
relação à tiragem, valores, entre outros. Da perder seu caráter evidente de opressão e
mesma maneira, foram consultados também exploração, sem que com isso deixe de
sites de vendason-line, para que fosse possível exercer a dominação. A dominação se
estipular o valor comercial do material mantém com o interesse na manutenção do
disponibilizado pelo Programa de Livro aparelho no seu conjunto, bem como com a
Didático do Ministério da Educação e aquele sua ampliação. Conforme vemos em
relativo aos e-readers. Habermas:
Um terceiro momento da pesquisa se O método científico, que levava sempre a uma
dominação cada vez mais eficaz da natureza,
deu a partir da análise de alguns livros proporcionou depois também os conceitos puros
e os instrumentos para uma dominação cada vez
didáticos referentes à disciplina de Filosofia mais eficiente do homem sobre os homens,
através da dominação da natureza... Hoje a
com o objetivo de vislumbrar as diferenças dominação eterniza-se e amplia-se não só
entre as edições disponibilizadas em cada mediante a tecnologia, mas como tecnologia; e
esta proporciona a grande legitimação ao poder
edição do Programa, seus avanços, melhorias político expansivo, que assume em si todas as
esferas da cultura. Neste universo, a tecnologia
e adaptações. proporciona igualmente a grande racionalização
da falta de liberdade do homem e demonstra a
Por último, acabamos buscando um impossibilidade “técnica” de ser autônomo, de
determinar pessoalmente a sua vida. Com efeito,
referencial teórico que auxiliasse na esta falta de liberdade não surge nem irracional
compreensão de novas possibilidades com nem como política, mas antes como sujeição ao
aparelho técnico que amplia a comodidade da
relação ao livro didático e seus suportes. vida e intensifica a produtividade do trabalho.
[7]
Neste sentido, foram fundamentos da
pesquisa as concepções inerentes à Teoria O modelo teórico do agir
Ator-Rede (TAR). comunicacional de Habermasespera resgatar o
indivíduo da reificação impingida pelo
sistema, conscientizando-o do processo de
3. RESULTADOS E DISCUSSÃO dominação através da denúncia, resistência e
ação concreta. Seria preciso, segundo o autor,
A kulturindustrie, expressa
buscar outra forma de uso da razão, onde o
principalmente pelos mass media (meios de
homem ocuparia um lugar privilegiado pela
comunicação), desencoraja o exercício do
comunicação, que, para ele, teria a capacidade
espírito crítico desenvolvido no iluminismo,
de corrigir as distorções de uma consciência
bem como promove a massificação da
tecnocrática, sempre suficiente em si mesma,
humanidade sobre a liberdade individual,
fazendo com que se estabeleça um diálogo
serializando e padronizando a cultura como
sobre a racionalização e, portanto, sobre a
um todo, em vistas da “alienação”, do
própria identidade do sujeito na época da
“conformismo político” e da “passividade
telepresença [6].
mental” [6]. A sociedade capitalista passa a
Em sua pesquisa Habermasbuscou levantar o questionamento sobre a perda de
analisar a relação existente entre o saber identidade do sujeito moderno e como seria
especializado e o uso político que dele se faz possível, nesse contexto, a sua emancipação.
quanto à sua qualidade ideológica. Assim, o Sobre essa perspectiva, pode-se verificar
que se coloca em jogo nessa teoria é uma então uma visão de mundo que passa a
ética que orienta as escolhas práticas dos considerar a pós-modernidade, em suas
indivíduos dentro de uma esfera pública onde especificidades e contradições, como um
os interesses estatais e das economias tempo em que as circunstâncias ocasionaram
capitalistas se faziam “onipotentes” através um estado de fusão tal na sociedade humana
dos meios de comunicação, que eram “vistos que, de acordo com Bauman [9], houve uma
como agentes desse processo não só pelo transformação radical do estado sólido para o
capital que os criava e mantinha, ou pela líquido, numa paráfrase ao célebre conceito
tecnologia de que se serviam, ou mesmo pelos marxista de que “tudo o que é sólido se
produtos que veiculavam, mas pela lógica de desmancha no ar”.
concepção de vida que alimentava e pelo A revolução tecnológica acabou
lugar que passavam a ocupar na vida entrando no cotidiano das pessoas por tantos
cotidiana das pessoas” [8]. lados, que elas nem sequer se deram conta da
Essa ética discursiva, de maneira geral, enormidade das mudanças. Hoje há uma
institui uma razão baseada na relação entre os obsolescência muita rápida, não só dos
sujeitos, enquanto seres capazes de se aparatos, como também dos conhecimentos,
posicionar criticamente diante das normas, ora das habilidades, das destrezas [10]. E assim é
entendidas como resultado prático do que se concebe que a educação deveria
consenso intersubjetivo e não como uma colaborar para que os professores e os alunos
razão abstrata e universal, independente dos transformem suas vidas em processos
indivíduos. Esse consenso, contudo, não pode permanentes de aprendizagem, na
se dar com a pressão que tipicamente o constituição de um caráter dinâmico em
sistema econômico e político exerce sobre as relação à informação que cada vez mais se
pessoas, de modo que a ação comunicativa torna pública. A educação pode ajudar os
pressupõe o entendimento entre os indivíduos alunos na construção de seu próprio projeto
através do uso de argumentos racionais, onde de vida, no desenvolvimento de suas
se institui, como resultado, uma sociedade de habilidades, a fim de se tornarem cidadãos
cooperação e de diálogo. realizados, autônomos e criativos, capazes de
Oagir comunicacional significa, questionar as implicações da sociedade,
portanto, corrigir as distorções da consciência através de um agir comunicacional construído
tecnocrática e da razão instrumental, fazendo em torno da escola ou das comunidades de
aprendizagem, que são centros de Assim, para a teoria, actante é tudo que
conhecimento instituídos em torno de gera uma ação, que produz movimento e
motivações comuns e fundamentados na diferença. Neste sentido, tanto humanos
concepção do diálogo entre os participantes quanto não-humanos podem ser actantes; mas
(argumentação racional = convencimento). cada actante é sempre resultado de outras
A Teoria Ator-Rede (TAR), enquanto mediações e cada nova associação constituída
uma forma de olhar a tecnologia em sua age também na forma de um actante, afinal, a
relação com os seus usuários, é uma ação nunca é propriedade de um actante, mas
sociologia das associações, da tradução e da sempre de uma rede, como define a própria
mobilidade, que coloca em questão a noção de teoria construtivista. A rede é composta, desta
social e de sociedade, de ator e de rede. Ela se forma, por múltiplos elementos, humanos e
constitui no desenvolvimento das ciências e não-humanos, que agem ora como actantes e
das técnicas, como resultado dos múltiplos ora como intermediários, numa complexa
fatores que permeiam a sociedade e o dinâmica de agenciamentos em operações de
indivíduo (economia, política, técnica, tradução e delegação.
ciência, etc). A rede é considerada como o A controvérsia, por sua vez, é onde se
movimento da associação, por assim dizer, do pode ver o social em sua tensão formadora,
próprio social em formação – sendo, pois, onde as lutas são travadas em vista da
uma sociologia da mobilidade. A novidade estabilização, chamadas de caixas-pretas.
proposta por esta teoria em relação às Assim, a TAR se aproxima da visão de
concepções sociológicas anteriores é que ela ciência que vê a história como resultado de
concebe que o movimento de agenciamentos é um contínuo processo de evolução que se
promovido por múltiplos atores, sendo eles institui entre momentos de crise e
humanos e não-humanos, a partir de uma consolidação de paradigmas, o que permite
simetria generalizada [11]. dizer que toda associação tende a virar uma
A TAR se estrutura basicamente em caixa-preta, a se estabilizar e cessar a
torno de três grandes eixos, a saber: 1) As controvérsia que a gerou.
entidades, sejam elas humanas ou não- O social não é o que abriga as associações, mas
o que é gerado por ela. Ele é uma rede que se
humanas, que criam redes sociotécnicas faz e se desfaz a todo o momento. Os actantes
buscam, com muito esforço, estabilizar essas
através da mediação, tradução ou delegação – redes em organizações, instituições, normas,
hábitos, estruturas, chamadas de “caixas-
os actantes; 2) As redes em sua dinâmica pretas”. Estrutura, norma, hábito não podem ser
particular; 3) A controvérsia, como o tomados como categorias de explicação a priori,
como causas, mas são consequências
elemento que possibilita a construção da temporárias de uma rede de distribuição e de
estabilização de agências [11].
própria rede.
Dentro desta perspectiva, os devem transformar seus hábitos e percepções, e
a dificuldade para entender uma mutação que
dispositivos devem ser entendidos como uma lança um profundo desafio a todas as categorias
que costumamos manejar para descrever o
rede, resultado de múltiplos fatores que mundo dos livros e a cultura escrita [11].
somente uma boa cartografia pode mapear - a
cartografia da controvérsia é a metodologia A evolução das mídias digitais tem

proposta pela TAR para desenhar a gerado, pelo que vimos discutindo, a

distribuição das ações, de seguir os actantes, necessidade de se avaliar as experiências

de visualizar os diagramas de mediação, passadas, cujos hábitos se baseavam em

agenciamentos e revelar os cosmogramas, ou modelos culturais estabelecidos ou

seja, é a forma com que podemos abrir as consagrados. Nesse sentido, o livro didático,

caixas-pretas e revelar como elas foram enquanto uma experiência analógica, acaba

constituídas, mapeando assim os diagramas sendo também alvo de nossas considerações,

de relações de força que a compuseram [11]. afinal, o formato digital possibilita grandes

Só há, por assim dizer, aquilo que é inovações na produção do conteúdo, no

produzido por múltiplos olhares, diferentes compartilhamento das informações e na

visões e pontos de vista que emergem do criação de redes sociais. O material impresso,

sujeito-objeto, do objeto-sujeito, dos quase- como o jornal, por exemplo, possui uma

objetos ou dos quase-sujeitos. temporalidade muito própria e exige uma

Resumidamente, não há sujeito sem o objeto, corporalidade também específica daquele que

nem objeto sem sujeito e quanto mais se tem o utiliza. Esse material é, basicamente,

um deles, mais se tem o outro. O humano é descartável, portátil e, quase sempre,

constituído, desde sua origem, como homo- acessível. A diferença com o material

habilis, pela relação forte e intricada, disponibilizado de forma aberta na internet,

certamente híbrida, com os objetos e as por exemplo, passa a ser os hiperlinks, que

coisas. Não há humano, portanto, sem a são artifícios que oferecem ao leitor

dimensão artificiosa da técnica, da linguagem, possibilidades de conexões que o material

das instituições, das normas, da arte, do impresso não permite. Esse material é

pensamento mágico e religioso – somos fruto permanentemente atualizado e, portanto, os

de relações de força, de redes de conteúdos não se fecham e não se constituem

agenciamentos. como descartáveis – eles estão sempre lá,

Assim, podemos ler que: “linkados”, “relinkados” e “hiperlinkados”.


Esse produto pode ser considerado, portanto,
É ao mesmo tempo uma revolução da
modalidade técnica da produção do escrito, uma como multimidiático e interativo. Além de
revolução da percepção das entidades textuais e
uma revolução das estruturas e formas mais tudo, todo esse material passa a constituir
fundamentais dos suportes da cultura escrita. uma memória informacional sempre
Daí a razão do desassossego dos leitores, que
disponível, diferente do que acontece com o informações, fotos, músicas, além de permitir
material impresso, logo descartado. É certo, a formação de comunidades de conhecimento.
porém, que o leitor é exigido no ambiente Além do mais, muitos desses equipamentos
virtual de forma diferente do que era quando ainda permitem uma série de recursos para
lia um material impresso. O leitor precisa ter ampliar ou melhorar a experiência com o
uma nova postura, novos hábitos, interagindo material.
com o dispositivo (computador, tablet, e- O que não se pode deixar de lembrar,
reader, celular, etc). porém, é que estes dispositivos fazem parte de
Há dispositivos que simulam os hábitos uma rede, onde se encontram produtores de
culturais consagrados, como no caso de textos, vídeos e imagens, distribuidores,
tablets ou e-readers, que possibilitam o programadores, empresas, fornecedores,
manuseio da tela como se fosse um livro, usuários, entre outros. Essa rede tem um papel
além de imitar a luminosidade/opacidade fundamental nessa nova tessitura, pois
características do papel impresso. Neste caso, colabora na constituição da mobilidade dos
os dispositivos disponibilizam também processos de informação. Muitos podem até
versões fechadas para o leitor (sem links), duvidar de tais mudanças, mas é importante
para que ele utilize o recurso como se ter em mente que o processo de comunicação
realmente estivesse lendo seu jornal ou livro. já sofreu radicais transformações ao longo da
De qualquer forma, esses aparelhos ampliam nossa história. Desde a invenção da escrita, os
sensivelmente as possibilidades dos leitores pergaminhos, os livros, a internet, os celulares
ao permitir o acesso à informação em e o surgimento das tecnologias móveis, muita
qualquer lugar e a qualquer tempo coisa já mudou e certamente ainda muitas
(ubiquidade e mobilidade), fazendo com que mais mudarão quanto aos suportes da leitura e
se viabilize o acúmulo de grande quantidade da escrita.
de informação, que pode facilmente ser O que essas novas trajetórias deixam
revisitada sempre que necessário. Esses claro no momento é a dificuldade quanto a
dispositivos também emulam o material transição das materialidades dos dispositivos,
impresso na corporalidade que exigem, principalmente em relação à concepção de
aproximando as experiências, sem trazer originalidade e cópia. Os materiais impressos
grandes rupturas. são comumente considerados originais,
Os dispositivos de leitura digital podem, enquanto os materiais digitais tendem a serem
portanto, imitar os dispositivos analógicos em considerados apenas cópias, simulacros. “O
suas especificidades ou criar novas papel formou e conformou nosso pensamento
experiências de leitura com a inclusão de links ao moldar formas de escrita e leitura” [11].A
com outros conteúdos similares, vídeos, nova configuração oferecida pelos
dispositivos digitais ao leitor faz com que ele legislar sobre as políticas do setor.Assim, em
se transforme de alguma maneira no editor da 1938 é instituída uma comissão,
obra e, em muitos casos, também o seu estabelecendo sua primeira política de
distribuidor. O leitor pode, em maior ou legislação e controle de produção e circulação
menor grau, interagir com a obra, reconfigurá- do livro didático no País. Em 1945, por sua
la, editá-la e até repassá-la adiante. vez, é consolidada a legislação sobre as
A TAR trata dessa relação entre a condições de produção, importação e
originalidade e a cópia com o auxílio da ideia utilização do livro didático no país,
de “aura”, pois entende que a cópia é boa se restringindo ao professor a escolha do livro a
ela mantém a “aura” do seu original. Assim, o ser utilizado pelos alunos. O programa passou
original permanece enquanto tal se continua a daí em diante por diversas mudanças, até se
existir em suas reproduções e a reprodução constituir, em 1985, com o formato atual
garantiria, portanto, a originalidade daquilo onde: o professor é quem indica o livro que
que lhe dá origem, iniciando sua trajetória. usará; o livro passa a ser reutilizado, em
Como diz Lemos[11]: “no fundo, as letras e detrimento dos antigos livros descartáveis; as
os dispositivos são sempre móveis e são técnicas de produção passam por
sempre trajetórias de um original”. E mais: aperfeiçoamento para oferecer maior
durabilidade ao material. Em 1992,
Os dispositivos não são apenas ferramentas, mas entretanto, a distribuição dos livros foi
mediadores importantes. O mesmo podemos
dizer dos demais artefatos técnicos: eles não são comprometida pelas limitações orçamentárias
ferramentas, meios, por um lado, ou agentes,
mediadores por outro. Se abandonamos a e houve um recuo na abrangência da
perspectiva essencialista, podemos ver nas
associações e as redes em formação e afirmar distribuição, restringindo-se o atendimento até
que os artefatos não são uma coisa ou outra, não a 4ª série do ensino fundamental. Assim, o
estão na dimensão micro ou macro, mas se
definem nas associações, em espaços planos e Fundo Nacional do Desenvolvimento da
em dimensões que colocam em tradução
humanos e não-humanos. Assim é com os Educação (FNDE), através da Resolução nº 6,
dispositivos de leitura eletrônicos, assim é com
a internet e as redes sociais [11]. vinculou recursos para a aquisição dos livros
didáticos destinados aos alunos das redes
O Plano Nacional do Livro Didático é, públicas de ensino, estabelecendo, assim, um
segundo informações do próprio Ministério da fluxo regular de verbas para a aquisição e
Educação distribuição do livro didático. Neste mesmo
(http://www.fnde.gov.br/programas/livro- ano, em 1992, também são definidos critérios
didatico), o mais antigo programa de para avaliação dos livros didáticos, com a
distribuição de obras didáticas aos estudantes publicação “Definição de Critérios para
brasileiros, tendo suas atividades iniciadas em Avaliação dos Livros Didáticos”
1929, quando um órgão foi criado para MEC/FAE/UNESCO. Em 2001, pela primeira
vez na história do programa, os livros estruturação e a operação de serviço virtual
didáticos passam a ser entregues no ano para disponibilização de obras digitais e
anterior ao ano letivo de sua utilização. outros conteúdos educacionais digitais para
Também em 2001, o PNLD amplia, de forma professores, estudantes e outros usuários da
gradativa, o atendimento aos alunos com rede pública de ensino brasileira, com ênfase
deficiência visual, com livros didáticos em nos títulos do Programa Nacional do Livro
braille.Em 2013 é publicada a Resolução CD Didático (PNLD), do Programa Nacional
FNDE nº. 38, de 15/10/2003, que institui o Biblioteca da Escola (PNBE) e de outras
Programa Nacional do Livro Didático para o ações governamentais na área de material
Ensino Médio (PNLEM). Além disso, em escolar, por meio de tecnologia que assegure
2004 é criado o SISCORT, que visa registrar o atendimento em escala nacional e proteja os
e controlar o remanejamento de livros e a direitos autorais digitais e a propriedade
distribuição da reserva técnica dos estados intelectual dos acervos. Também em 2012 as
para as turmas de 1ª a 4ª série. Em 2005 editores puderam inscrever no PNLD objetos
foram incluídas no sistema SISCORT as educacionais digitais complementares aos
turmas de 5ª a 8ª série.Somente em 2015, dez livros impressos. Esse novo material
anos após a criação do sistema de multimídia, que inclui jogos educativos,
gerenciamento dos livros didáticos, é que o simuladores e infográficos animados, seria
SISCORT passa a incluir as turmas do ensino enviado para as escolas em DVD,
médio em sua base de dados. E desde 2004 o constituindo assim um recurso adicional para
PNLEM seguiu uma progressiva as escolas que ainda não tinham internet. Os
universalização do material com a inclusão novos livros didáticos trariam também
gradativa das disciplinas, ano a ano, na grade endereços on-line e os chamados “QR Code”
de livros distribuídos, o que ainda não se para que os estudantes pudessem acessar ao
completou, apesar de já terem se passado dez material multimídia, complementando o
anos desde o início deste processo. assunto estudado, além de tornar as aulas
Quanto aos avanços tecnológicos do mais “modernas” e “interessantes”.
programa cabe ressaltar que em 2012 foi Em 2015 as editoras puderam
publicado um edital para a formação de apresentar obras multimídia, reunindo livro
parcerias para estruturação e operação de impresso e livro digital. A versão digital
serviço público e gratuito de disponibilização deveria trazer o mesmo conteúdo do material
de materiais digitais a usuários da educação impresso mais os objetos educacionais
nacional. Esse edital tem por objetivo a digitais, como vídeos, animações,
constituição de acordos de cooperação entre o simuladores, imagens, jogos, textos, entre
FNDE e instituições interessadas para a outros itens para auxiliar na aprendizagem.
Contudo, para este ano, o FNDE ainda participação das editoras que ainda não
permitiu a apresentação de obras somente na dominavam as novas tecnologias.
versão impressa, pois pretendia viabilizar a Abaixo podemos visualizar alguns
dados sobre o PNLD no último triênio:

Tabela 1: Estatísticas PNLD 2012-2014


Ano do
Ano de Alunos Escolas
PNLD Exemplares Investimento* Atendimento
Aquisição Beneficiados Beneficiadas
(letivo)
Reposição
Ensino
11.032.122 47.225 25.454.102 203.899.968,88
Fundamental:
1º ao 5º ano
Reposição
PNLD Ensino
2014 10.774.529 51.762 27.605.870 227.303.04,19
2015 Fundamental:
6º ao 9º ano
Aquisição
7.112.492 19.363 87.622.022 898.947.328,29 completa
Ensino Médio
28.919.143 - 140.681.994 1.330.150.337,36 Total
Reposição
Ensino
46.962
Fundamental:
1º ao 5º ano
23.452.834 103.229.007 879.828.144,04 Aquisição
PNLD completa
2013
2014 50.619 Ensino
Fundamental:
6º ao 9º ano
Reposição
7.649.794 19.243 34.629.051 333.116.928,96
Ensino Médio
31.102.628 116.824 137.858.058 1.212.945.073,00 Total
Reposição
Ensino
47.056 91.785.373 751.725.168,04
Fundamental:
1º ao 5º ano
24.304.067
Reposição
PNLD
2012 Ensino
2013 50.343
Fundamental:
6º ao 9º ano
Reposição
8.780.436 21.288 40.884.935 364.162.178,57
Ensino Médio
33.084.503 - 132.670.307 1.115.887.346,61 Total
* Valor gasto com aquisição, distribuição, controle de qualidade e etc.
FONTE: http://www.fnde.gov.br/programas/livro-didatico/livro-didatico-dados-estatisticos

Consideremos, pois, que no último ano didáticos, em média, para o ano de 2015, com
foram investidos R$ 1.330.150.337,36para a o custo aproximado de R$ 9,46 por exemplar,
compra de 140.681.994 exemplaresque incluindo despesas de produção, impostos,
beneficiariam 28.919.143 alunos. Esses dados distribuição, controle de qualidade, entre
permitem dizer que cada um dos 28.919.143 outros. Note-se, contudo, que este mesmo
alunos do país receberam menos de 5 livros material é comercializado no mercado
nacional com valores muito maiores do que os exemplos de valores dos livros integrantes do
apresentados pelo FNDE. Seguem alguns PNLEM nas livrarias do país:

Tabela 2: Valores comerciais de exemplares do PNLD


Título Editora Volume Preço Médio
Português vozes do mundo: literatura e produção de texto Saraiva 1 R$ 138,00
Matemática ciência e aplicações Saraiva 1 R$ 159,60
Ser protagonista química SM 1 R$ 129,20
Fundamentos da filosofia Saraiva Único R$ 143,00
Enlaces – español para jóvenes brasileiros Macmillan Único R$ 81,20
Dados da pesquisa

Esse quadro demonstra que o valor dos durante a vigência do triênio, o


livros distribuídos pelo FNDE tem um custo remanejamento do material para outras
relativamente alto em relação ao divulgado. O escolas, o que não foi realizado (lembremos
motivo de tamanha diferença entre os valores ainda que o SISCORT não estava em
é desconhecido, mas demonstra ou a funcionamento para o ensino médio ou não é
divulgação incorreta das estatísticas do utilizado pela rede de ensino). Neste caso,
programa ou a gravidade do mercado editorial segundo os dados do FNDE, esses livros, que
brasileiro, que pode estar operando com agora não serão mais utilizados, devendo ser
valores extremamente elevados para o público “descartados”, custaram aos cofres públicos a
leitor. Assim, segundo dados do Ministério da quantia de R$ 24.917,00 enquanto que, na
Educação, um aluno do ensino médio média consultada nas livrarias, custariam
receberia aproximadamente 12 livros ao custo mais de R$ 300.000,00. Se esta situação se
total de cerca de R$ 113,52, enquanto que um repetir, como deve ter acontecido, em muitas
aluno que comprasse os mesmos livros na mais escolas do país, estamos diante de um
livraria de sua preferência teria que verdadeiro exemplo de desperdício de
desembolsar, segundo a média consultada, dinheiro público que demonstra a falta de
aproximadamente R$ 1.500,00. Esse valor regulação no processo de confecção,
não seria, mesmo na perspectiva mais distribuição e redistribuição do livro didático.
extrema, um investimento ruim se não fossem Para pensar um pouco sobre a
os casos que na prática se verificam. possibilidade de uso de alternativas digitais
Uma única escola consultada para a para o material, consultamos também os
construção deste trabalho contabilizava em dados divulgados pelo Ministério da
seus depósitos um montante de mais de 2.634 Educação sobre os tablets educacionais. Esses
livros que ainda estavam ensacados do triênio dispositivos foram oferecidos nos modelos de
2012-2014. Consta que a escola solicitou, 7 ou 10 polegadas, bateria com duração de 6
horas, colorido, peso abaixo de 700 gramas, haveria um revés no modelo de produção
tela multitoque, câmera e microfone para editorial que hoje, conforme posto, tende a
trabalho multimídia, saída de vídeo, favorecer o desmatamento de nossas florestas,
conteúdos pré-instalados. Segundo o portal do embora o inverso devesse ser promovido.
FNDE
(http://www.fnde.gov.br/portaldecompras/ind
ex.php/produtos/tablet-educacional/tablet- 4. CONCLUSÃO
educacional-precos-registrados) esses As tecnologias, por longo tempo, para a
equipamentos foram adquiridos ao custo de educação ou qualquer outro setor da
R$ 253,00 (tablet de 7”) e R$ 520,00 (tablet sociedade, pareceram apenas uma ideologia,
de 10”). Numa pesquisa básica pela internet um sonho. Hoje, no entanto, essas tecnologias
também é possível encontrar e-readers como o estão se difundindo na sociedade e também na
Kindle, por exemplo, com valor de escola de maneira tão rápida, que nem
aproximadamente R$ 300,00 e o Lev pelo sempreé possível acompanhar. A mera
mesmo valor. Note que esses e-readers são presença das mídias na escola não evita,
próprios para emular os tradicionais livros, porém, o fracasso escolar e nem estimula, por
com grande similaridade ao papel impresso, si só, os professores a repensarem seus
mas com capacidade para armazenamento de métodos e os alunos a adotarem novos modos
mais de 2.000 livros. de aprender/pensar. Professores e alunos
Assim, comparando os dois programas é precisam saber tirar vantagens destes novos
possível imaginar a sua unificação, através da artefatos.
disponibilização digital das obras integrantes O uso das mídias proporciona novos
do PNLD. A transposição entre o modelo conhecimentos do objeto, transformando, pela
analógico e o modelo digital do livro didático mediação, a experiência intelectual e afetiva
tende a ser economicamente viável. Essa do ser humano, individualmente ou em
mudança também geraria ganhos na qualidade coletividade, possibilitando interferir,
de saúde dos servidores que atualmente manipular, agir mental ou fisicamente, sob
precisam manusear milhares de livros em suas novas formas, pelo acesso a aspectos até então
escolas. As escolas teriam os imensos desconhecidos do objeto.
volumes de livros reduzidos a poucas caixas Deste modo, o trabalho aqui
com equipamentos eletrônicos. O governo apresentado toma os pressupostos da TAR
passaria a respeitar sua própria como motivação para pensar a integração
regulamentação que proíbe que o aluno entre os modelos analógicos e digitais dos
transporte mais de 15% do seu peso na dispositivos de leitura e escrita para
mochila escolar (PLC 66/2012). E ainda tangenciar a questão dos livros didáticos no
país. Apresentamos um modelo cartográfico do livro impresso é o lucrativo mercado
que rastreou a caixa-preta dos livros didáticos editorial que se constituiu em torno do PNLD.
com o objetivo compreendê-lo em sua
generalidade, apresentando, pois, uma
5. REFERÊNCIAS
reflexão que visa a desestabilização deste
[1] VIRILIO, P. A bomba informática. Trad.
modelo para sua possível transformação.
Luciano Vieira Machado. São Paulo: Estação
Concebemos que existem dispositivos Liberdade, 1999.
digitais que podem emular os livros didáticos [2] LUCKESI, C., et al. O leitor no ato de
estudar a palavra escrita. In: Fazer
assegurando muito daquilo que se consolidou universidade – uma proposta metodológica.
em nosso hábito cultural, mas abrindo muitas São Paulo: Cortez, 1987.
mais possibilidades performáticas. Assim, [3] DELEUZE, G.; GUATTARI, F.O que é
filosofia? Trad. Bento Prado Jr. e Alberto
entendemos que é hora de repensar esse Alonso Muñoz. Rio de Janeiro: Ed. 34, 1992.
programa e exigir que as editoras se adequem
[4] FREIRE, P. A Importância do ato de
aos novos modelos de leitura e escrita. ler: em três artigos que se completam. São
Existem inúmeros benefícios para a promoção Paulo: Cortez,p.10-12, 1988.
dos dispositivos digitais de leitura e escrita [5] MARTON, S. A terceira margem da
interpretação: Müller-Lauter revisita
nas escolas do país, sendo as questões Nietzsche. In: MARTON, S.
técnicas as de menor relevância neste cenário. Extravagâncias: Ensaios sobre a filosofia
de Nietzsche. São Paulo: Discurso Editorial,
É possível adotar, por exemplo, equipamentos 2009.
somente para a leitura, fechados por assim [6] POLISTCHUCK, I. Teorias da
dizer; da mesma forma com que é possível a Comunicação: o pensamento e a prática do
jornalismo. Rio de Janeiro: Elsevier, 2003.
adoção de tecnologias abertas, com recursos
[7] HABERMAS, J. Técnica e ciência como
diversos ao estudante. Portanto, o modelo a “ideologia. Lisboa: Edições 70, 1987.
ser adotado seria resultado direto de um [8] SOUSA, M. W. (org), et al. Sujeito, o
lado oculto do receptor. São Paulo:
estudo diferenciado, prático, por assim dizer Brasiliense, 1995.
(de aplicação assistida de tecnologia [9] BAUMAN, Z. Amor Líquido.São Paulo:
Zahar, 2004.
educacional em escolas-laboratório).
[10] MARTÍN-BARBERO, J. América Latina
O que concluímos com este trabalho é e os anos recentes: o estudo da recepção em
que a tecnologia em si é útil e, no cenário comunicação social. In: SOUSA, Mauro
Wilton de (org), et al. Sujeito, o lado oculto
atual, necessária. Quais os empecilhos para a do receptor. São Paulo: Brasiliense, 1995.
sua adoção imediata é a questão que
[11] LEMOS, A. A comunicação das coisas:
permanece, pois, de todos os dados teoria ator-rede e cibercultura. São Paulo:
apresentados até o momento, o único que gera Annablume, 2013.
uma explicação razoável para a manutenção