Você está na página 1de 4

Abordagem centrada na pessoa e políticas públicas de saúde brasileiras

do século XXI: uma aproximação possível

As autoras resgatam o histórico das atuais políticas públicas de saúde no


Brasil, destacando o nascimento do SUS e desafios ainda enfrentados pelo
sistema que vão desde aspectos de administração de recursos e organização
operacional, até as relações profissionais e práticas de atendimento.

É apontada também a necessidade de uma readaptação dos profissionais, não


apenas no quesito teórico/prático, mas nas suas habilidades relacionais de
modo a se aproximarem da compreensão e cuidado integral das pessoas.
Nesse sentido, as autoras afirmam que a Abordagem Centrada na Pessoa
(ACP) convergem com as diretrizes propostas pelas políticas públicas de
saúde brasileiras.

Nesse sentido é trazido também um histórico dos conceitos de saúde e das


políticas públicas a ela voltados, desde políticas voltadas para a medicalização
a partir de um conceito de saúde como ausência de doença; a ampliação desse
conceito para o bem-estar físico, mental e social, implicando em ações que
contemplem também esses aspectos; até o advento da Reforma Sanitária
Brasileira, trazendo um novo conceito de saúde como uma busca ativa por
equilíbrio, um processo de transformação constante e, além de tudo, um direito.

Para a efetivação desse conceito e acesso à toda a população, as estratégias


de ação foram organizadas em três níveis de atenção: básica, média e alta
complexidade. Esses três níveis de atenção visam oferecer aos usuários um
serviço de saúde ampliado que contemple as necessidades particulares dos
indivíduos, apoiando-se também na Política Nacional de Humanização. O
psicólogo entra aí como o agente que compreende os elementos psicossociais
atuantes na instalação da doença ou nas condições de agravo à saúde.

A problemática da multidisciplinaridade é levantada quando se resgata a


inclusão de outros profissionais no cuidado à saúde pública, as autoras
salientam que o acesso a diferentes profissionais não basta para garantir um
cuidado integral, e ressaltam a necessidade da construção de relações
interpessoais que facilitem o processo de atendimento a todos os envolvidos,
ou seja, ações interdisciplinares.

Essa perspectiva deve, segundo as autoras, considerar a realidade do


indivíduo em suas relações, dinâmicas e singularidade, enxergando o humano
em cada um e, a partir desse olhar, ter uma prática que possibilite o
desenvolvimento do protagonismo e corresponsabilidade de todos os
envolvidos na atenção à saúde.

No contexto da inserção do psicólogo na saúde pública, a partir do advento da


Psicologia da Saúde, se reconhece a psicologia nessa área como uma
disciplina cuja prática contemple a historicidade do paciente, articular a
compreensão do sofrimento apresentado por este com sua realidade,
perpassando pela perspectiva clínica, social, hospitalar e institucional e que, a
partir dessas compreensões, possua uma prática que se insira na realidade
institucional de forma transformadora.

Nesse contexto, a ACP coloca o indivíduo com protagonista da


atutoatualização de suas potencialidades e traz uma visão de mundo
possibilitadora de uma relação aceitadora e permissiva, de modo a favorecer o
desenvolvimento dos indivíduos, concretizando um processo de crescimento.
Assim, a proposta da ACP é promover relações interpessoais autônomas e
humanizadas, com atitudes de consideração positiva incondicional, empatia e
autenticidade, implicando num cuidado não-possessivo com os indivíduos, mas
de uma visão das pessoas em sua individualidade. Essa relação necessita da
presença por inteiro de todas as partes no processo.

As autoras apresentam como convergências entre a ACP e as políticas


públicas de saúde brasileiras a premissa de Rogers da tendência natural
humana ao crescimento, de forma dinâmica, interativa e relacional, o que as
autoras consideram como um conceito importante para a fundamentação do
conceito de saúde atual.

Aspectos como a integração, prevenção, interdisciplinaridade, relações de


vínculo e responsabilização também ser articulam com a ideia da ACP de uma
visão integral do indivíduo, compreendendo sua independência enquanto tal, e
o foco no auxílio em seu crescimento para que possa enfrentar seus
problemas, implicando na responsabilização do indivíduo pela promoção da
própria saúde e prevenção de prejuízos a ela. Assim, os profissionais também
devem considerar a potência das pessoas que atendem.

Outro aspecto trazido pelas autoras são os esforços para garantir uma visão
mais integral dos indivíduos na saúde e uma postura mais interdisciplinar, o
que se alinha com a visão integral do indivíduo preconizada pela ACP. No
entanto são apresentados desafios para isso, cujos principais são provenientes
das relações interpessoais.

Nesse sentido, a efetiva aplicação da humanização não é possível, pois não é


uma técnica. A proposta de práticas humanizadas considera também resgata,
assim, os profissionais de saúde como seres humanos integrais e
interrelacionais. Os problemas na efetiva aplicação da interdisciplinares são,
desse modo, interrelacionais.

Assim, a ACP não se restringe à psicologia, sendo uma forma de abordagem a


ser absorvida por todos os profissionais. As autoras, no entanto, apontam
dificuldades que são institucionais, como, por exemplo, a insalubridade nas
relações de trabalho, que dificultam uma abordagem centrada na pessoa. Sem
condições que facilitem uma compreensão interpessoal e sob pressão para
concretizar um cuidado integral, os profissionais podem se ver em situações
conflitantes.

As autoras afirmam que atitudes consideradoras positivas incondicionais,


empáticas e autênticas possibilitam compreender e interagir com o outro,
construindo relações permeadas pela escuta incondicional, promovendo a
abertura entre os profissionais, uma comunicação clara e, portanto a solução
de conflitos, facilitando, assim, o trabalho interdisciplinar.

Afirmam ainda que, adotando atitudes da ACP, os profissionais desenvolverão


interesse pela atuação dos outros profissionais, possibilitando uma troca de
conhecimentos que possibilitam uma verdadeira interdisciplinaridade. Adotar
essa maneira de ser, implica em mudanças nas relações profissionais e
pessoais dos agentes da saúde.
As autoras concluem, assim, que a proposta de mudança de paradigma
propostas pelas políticas públicas brasileiras apresenta a necessidade do
desenvolvimento da consideração positiva da ACP. Ressaltam ainda a
necessidade de que a ACP não se restrinja aos ambientes acolhedores, deve
também adentrar ambientes hostis, como instrumento de transformação. Por
fim, afirmam que a ACP oferece amparo aos profissionais ainda presos a um
modelo remediativo de saúde para que ampliem suas atuações, por meio da
interação entre profissionais e suas respectivas áreas de conhecimento.