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Joana Açucena

Amor Tropical
Novela

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Título: Amor Tropical


Autor:Joana Açucena
2003 Edimpresa-Editora, Lda.
Direitos reservados. Nenhuma parte deste livro poderá ser
reproduzida, por qualquer meio e em qualquer forma, sem
autorização prévia e escrita do editor.
Capa: Alexandra Belmonte
Foto da capa: Edimpresa
Paginação: Rita Branco
Produção gráfica: Pedro Guilhermino
Data de impressão: Julho 2003

Capitulo I
Quando Teresa recebeu o telefonema do chefe, pensou Qque
estava no meio de um pesadelo. Daí a duas semanas partiria
para Cuba, um sítio que sempre desejara conhecer, e onde
ficaria pelo menos dez dias para tratar de um novo contrato
de serviços para o escritório. Pelo meio das reuniões, teria
certamente tempo para conhecer a paisagem, passear ao sol,
tomar banho nas águas mornas daquelas maravilhosas praias.
Era um serviço que qualquer colega seu desejaria. Só havia
um senão: o chefe iria consigo. E isso era sinal de dez dias
de pesadelo! Há quatro meses que António Brandão, chefe dos
escritórios da multinacional onde trabalhava, mantinha um
caso forçado com Teresa. Primeiro começou por lançar alguns
piropos, mas logo avançou para o assédio físico e acabou por
levar a melhor. Foi numa noite para esquecer, depois de um
jantar de trabalho com os alemães que tinham vindo de
propósito a Lisboa para tratar de negócios, que António
Brandão insistiu em levá-la a casa. Ela não quis, mas acabou
por aceitar. Estava cansada, cheia de sono, e tinha bebido
mais do que aguentava. Foi talvez por isso que não resistiu
muito, quando ele lhe colocou a mão na perna e a fez
deslizar por debaixo da saia. Apesar da sensação de repulsa
que o chefe sempre lhe causara, não teve forças para reagir
e acabou a nóite assim mesmo, dentro do carro da empresa, ao
lado de António Brandão. Ele foi bruto como qualquer homem
que apenas procura uma mulher com quem ter relações sexuais;
ela nem sequer se lembra muito bem do que aconteceu, mas foi
o início de uma vida atribulada e cheia de medos.
Teresa desistira do sonho de Faculdade ainda nos primeiros
anos. Nascera e vivera em Lisboa mas, quando saíram os
resultados das candidaturas ao ensino superior, duas
míseras décimas de valor colocavam-na em Coimbra e não em
Lisboa, como sempre desejara. O curso, esse era o de
eleição, e Teresa preparava-se para ser terapeuta da fala,
isso mesmo, ensinar a melhor dicção a jovens e velhos,
resolver problemas que, por vezes, incomodam e retraem as
pessoas:
Com dezassete anos apenas, Teresa subiu para o comboio, uma
mala em cada mão, uma mochila às costas e partiu para
Coimbra. Os primeiros meses correram voando, as notas eram
boas e os pais, em Lisboa, viviam sedentos de notícias da
filha e nem mesmo as classificações os sossegavam.
Um dia, porém, quando Teresa chegava à faculdade, recebeu um
recado, pedindo-lhe que se dirigisse ao telefone.
mal chegou, pegou no telefone. Do outro lado, a mãe,
chorosa, informava-a damorte do pai, vítima de uma mota
desenfreada que não parara na passadeira.
De súbito, ainda as lágrimas não lhe cobriam a cara,
Teresa enfiou-se num táxi e rumou a Lisboa. Nem o preço da
longa viagem lhe interessava. Ao chegar a Lisboa, a mãe,
recebeu-a num pranto. "O que uma senhora de idade, inválida,
iria
fazer
agora?", perguntava- se Teresa.
No meio do turbilhão, decidíu abandonar os estudos. Não
podia imaginar a mãe sozinha, sem dinheiro, enquanto ela
estudava em Coimbra, cidade boémia. Entretanto, conseguiu
arranjar um emprego como secretária numa grandemultinacional
alemã e, em subida firme mas segura, chegou a assistente de
direcção na empresa.
- Sabes, acho que vou a Cuba com o António!
- Isso é fantástic o... Praia, sol, noitadas. Mas o
António... Isso é que é pior!
Sandra é uma das colegas de trabalho de Teresa e sabe bem
dos problemas que a relação com António têm trazido
à amiga. Como se não bastasse as constantes solicitações do
chefe, agora os colegas já comentavam a sua ascensão na
empresa...
- Acho que, mesmo assim, deves ir. Dá-lhe uma última
oportunidade. Talvez fora do escritório ele seja diferente e
os trópicos... Ah, os trópicos, consta que nos dão a volta à
cabeça!
- Não sei... Mas também não tenho muito por onde escolher.
Aqueles dias até à partida foram sufocantes para Teresa.
António, o chefe, não passava uma hora sequer sem lhe lançar
um comentário, sem a chamar ao gabinete onde lhe colocaria a
mão nas pernas, lhe forçaria um beijo. À noite, como se não
fosse suficiente o dia, ainda a convidava para jantar e
Teresa respondia-lhe sempre que tinha de preparar as coisas
para a viagem.
A mala, de resto, fora cuidadosamente cheia com roupa de
Verão, dois fantásticos biquinis brasileiros que António lhe
oferecera, sandálias, calções, t-shirts e alguma roupa de
trabalho porque, mesmo ao sol de Cuba, tinha de representar
a empresa ao mais alto nível.
No dia da partida, António foi buscar Teresa a casa e
partiram para o aeroporto. Em primeiro lugar, seguiriam para
Madrid e, só então, apanhariam o voo para Havana.
Foi neste voo, de mais de sete horas, que Teresa e António
conjugaram a estratégia para os contactos com os
representantes cubanos. O objectivo da viagem era, no
essencial, encontrar um fornecedor de açúcar cubano que
tivesse capacidade de exportar para Portugal. Isto implicava
contactar com o governo e agricultores locais, mas o que
estava planeado era não terem que sair de Havana. Isso não
era bem o que Teresa tinhaprevisto, esperando, no meio das
reuniões, aproveitar para conhecer um pouco o país. Até
tinha recolhido uns quantos catálogos turísticos sobre Cuba
e, já que lá estava, porque não visitar a ilha, tomar
contacto com os costumes, a gastronomia, as pessoas?
A conversa profissional não demorou mais de duas horas e,
logo a seguir à refeição, António, que nunca entendera a
sensibilidade de Teresa, começa a disparar uma série de
perguntas.
-Não pareces contente com esta viagem a Cuba... Mordeu-te
algum bicho? O que é que se passa?
- Não... Só achava que podíamos ver um pouco do país. Dizem
que Cuba é tão linda!
- Oh, Teresa! Nós viemos para trabalhar. A diversão pode
esperar.
Para António, o trabalho vinha sempre primeiro, acima de
qualquer outra coisa. Teresa não era muito diferente, mas
sempre achara que o trabalho não se devia sobrepor ao resto,
em especial o lazer e a cultura. Mesmo no avião, enquanto
relaxava a ler um livro - nunca gostara muito de andar de
avião -, António não tirava os olhos dos jornais, dos
relatórios e, para se descontrair, só os olhares e os
piropos a uma hospedeira espanhola.
Teresa, incomodada, reclama.
- Pára com isso, António! Até a moça já não está a achar
piada.
- O quê? O quê?
Logo de seguida, disfarçando, António passa a mão direita
pelo rosto de Teresa, oferece-lhe um beijo fugidio e volta
para os apontamentos.
A chegada a Havana é feita calmamente e mesmo Teresa, que
geralmente entra em pânico nas aterragens, não teve, desta
vez, nenhum medo, tirando o momento exacto em que as rodas
tocaram o asfalto da pista e, por instantes, agarrou a mão
de António.

Capitulo II
No aeroporto, findo o ritual de espera pelas bagagens e
os cumprimentos de circunstância a quem se conheceu
durante o voo, Teresa e António preparavam-se para apanhar
um táxi quando, de súbito, repararam num sujeito com um
cartão onde estavam escritos os seus nomes.
- Buenos días, senors.
O cubano que os esperava era um senhor alto, magro, com o
cabelo completamente branco e que lhes explicou
estar ali para os levar até ao hotel, bem no coração de
Havana. Teresa e António entraram no carro e seguiram
viagem.
Nopercurso, o motorista, Marcos, ia-lhes explicando o que
viam e, quando uma trovoada surgiu de repente, pediu-lhes
que se acalmassem.
- É muito comum estatrovoada. Vão ver, daqui a meia-hora
volta a estar sol.
Assim foi, de facto. Na realidade, o Verão cubano é muito
quente, mas não deixa de ser húmido e, nesses dias, só
apetece rumar a uma praia e molhar o corpo. Era nisso que
Teresa pensava enquanto percorriam uma estrada
larguíssima, enorme. Pelo caminho, foram passando por uma
sequência de bairros de habitação, de indústrias com
modelo antiquado, de estádios e escolas. É então que, de
súbito, o motorista lança uma frase mais emocionada:
Olhem... Lá está ela, a bela Havana!
Antes de chegarem à cidade propriamente dita, o carro seguiu
um enorme túnel. Durante uns minutos percorreram-no numa
quase escuridão; quando dele saíram, estavam em plena
cidade.
Havana surgiu aos olhos de Teresa como uma cidade que, em
decadência, conserva grande parte do seu esplendor.
As casas na marginal, carcomidas pelo sal e pela falta de
manutenção, não deixavam, mesmo assim, de ser das mais belas
alguma vez captadas pelo seu olhar. E depois havia toda a
arquitectura de estilo colonial, e as igrejas, e os murais
pintados com dizeres políticos, as pessoas nas ruas, a
música em cada virar de esquina, os carros antigos, tudo
numa combinação inimaginável de cores e cheiros. Mesmo o
trânsito parece amavelmente lento e, embora caótico,
imagina-se que o tempo ali não conta.
- Havemos de chegar! Aqui a opção é buzinar. - O motorista
cubano, na chegada ao centro de Havana, disparou
freneticamente nabuzina e começou a conduzir com movimentos
bruscos. Nem nas passadeiras parava.
- Nas passadeiras, só paramos quando os peões já lá estão.
Mas tenham cuidado... Há muitos turistas que não sabem
isso...
Naviagem, enquanto António reclamava, ora com o trânsito,
ora com o motorista, Teresa, absorta em pensamentos, não
parava de imaginar a vida em Cuba, as incríveis mudanças do
tempo. Tudo aquilo a intrigava.
À chegada ao hotel, despediram-se de Marcos e entraram no
hall. O hotel era uma construção antiga, com mais de cem
anos, fazendo lembrar aqueles belos palacetes coloniais
espanhóis com influências da arquitectura árabe. Na
realidade, se não soubéssemos, este hotel poderia bem ficar
no Sul de Espanha ou até em Marrocos.
O hall era um espaço gigante, muito mais que o necessário
para os poucos quartos que o hotel tinha. De um lado,
misturavam-se grandes cadeirões de verga e sofás de aspecto
delicioso, daqueles em que apetece deitar. No outro, um
simpático restaurante-bar, de onde era possível entrever
alguns turistas experimentando as especialidades locais. Ao
centro, encontrava-se a recepção.
O chão do hall continha belos azulejos minúsculos de
variadas cores, já gastos pelo passar de tanta gente. No
tecto, para além dos baixos-relevos em gesso originais,
havia agora fantásticas gaiolas recheadas de papagaios de
múltiplas cores. Teresa, que nem gostava muito de ver os
pássaros engaiolados, não deixava, contudo, de apreciar
o estranho concerto que eles lhe ofereciam. Ali, sentia- se
em plenos trópicos, como sempre os tinha imaginado e,
ainda por cima, uns trópicos luxuosos, plenos de cor, de
vivacidade, de alegria.
No hall, as janelas estão sempre abertas e, sentando-nos
num dos cadeirões, é possível contemplar o movimento dos
carros, das pessoas e de uma igreja muito pequenina, mais
parecendo uma ermida ou um santuário.
Foi num desses cadeirões que Teresa se sentou, enquanto
António tratava da burocracia na recepção. Enquanto
esperou, começou a imaginar a sua estadia em Havana, os
passeios românticos na marginal, as saídas nocturnas com
António em busca da boa música cubana, as conversas de
rua com os populares.
- Anda, já está tudo tratado. Ficamos no quarto 303, no
terceiro andar... Parece que tem vista para o mar.
O quarto em que iriam ficar naqueles dias era, tal como o
resto do hotel, uma recriação do ambiente colonial cubano.
Ali, tudo lembrava o luxo e a ostentação dos antigos
senhores
da ilha, desde as sumptuosas camas de madeira aos dourados
que bordejavam os espelhos e os magníficos tecidos da
colcha e dos cortinados. Ao canto, uma pequena mesa, ladeada
de dois cadeirões idênticos aos do hall e, em cima
dela, uma lindíssima cesta com frutas, sumos, uma garrafa
de champanhe e dois elegantes flutes, cortesia do hotel.
- António... Meu Deus! Isto é maravilhoso. Acho que nunca
estive num sítio destes...
Teresa estava deslumbrada com o ambiente do hotel, a
riqueza e elegância da decoração e, sobretudo, delirava com
o romantismo à volta daquele espaço único. "Talvez aqui seja
possível reencontrar me com o António", pensava em voz
baixinha.
António, por seu turno, às vezes resmungava por
insignificâncias, outras mostrava-se tão perplexo como
Teresa. No entanto, para ele nada disto era novidade.
Conhecera os grandes hotéis europeus, americanos e
asiáticos. Este era, muito simplesmente, mais um deles,
embora não o esperasse à partida. António sempre achou Cuba
um país atrasado, retrógrado e onde seria difícil encontrar
uma boa estadia.
Acercaram-se os dois da cesta e, enquanto António abria o
champanhe, Teresa tomava uns gomos de laranja e abria um
maracujá. Depois, brindaram com o borbulhante néctar e
espreitaram pela janela.
- Meu Deus... Como é bonita a vista - exclamou Teresa. Do
quarto do hotel era possível ver quase toda a marginal de
Havana e uma extensão imensa de mar e ondas. Pelo outro lado
da vista, entrevia-se, com menor nitidez, uma praça enorme,
repleta de turistas e de onde se ouvia uma música muito
mexida, convidativa à dança.
Como estavam ambos um pouco cansados da viagem, Teresa e
António decidiram parar por um instante. Ainda antes de
desfazerem as malas, já eles estavam deitados sobre a cama.
Quando acordaram, abriram as malas, colocaram o indis
pensável no armário e deixaram tudo o mais lá dentro.
- Vamos dar uma voltinha?
À pergunta de Teresa, António respondeu que sim, mas num tom
tão baixinho que mais parecia não querer sair do hotel.
Vestiram umas roupas mais frescas e partiram em busca
de Havana. Teresa queria visitar aquela pequena igreja
que vira do hall do hotel e, num ápice, lá estavam eles,
contemplando o pequeno edifício de pedra, muito bem
trabalhado, com uma série de minúsculas esculturas de
santos, anjos e diabretes. A porta da igreja, que estava
semi-cerrada, era de uma madeira escura, grossa, e, sobre
ela, observava-se um pórtico monumental em
forma de ogiva.
Lá dentro, no maior silêncio, uns poúcos fiéis iam rezando
as suas orações e dezenas de turistas conversavam,
sentados nos bancos, sem o mínimo respeito por quem ali
estava. Teresa, chocada com o que via, decidiu dar uma
ligeira volta pela igreja e, numa das naves laterais, parou
demoradamente, contemplando o que via.
Era um pequeno oratório, dedicado a São João, certamente
de uma antiga família ilustre da cidade e que, neste
momento, estava num total estado de abandono. Teresa,
desolada, não conseguia desviar o olhar do oratório,
pasmada com a degradação que, no entanto, não retirava
a beleza daquele lugar de culto.
Já do lado de fora, a praça monumental enchia-se de
gente e, no seu centro, um grupo de cubanos retirava
instrumentos musicais de grandes caixas e preparava-se
para oferecer um concerto.
- Vamos ficar um bocadinho?
António não queria, mas Teresa tanto insistiu que ambos
ouviram a música e, na verdade, até dançaram um pouco.
Depois, rumaram até à marginal, o célebre Malecón.
Ali, nos dias mais tumultuosos, as ondas batem na calçada e
na estrada, oferecendo um espectáculo grandioso. Naquele
dia, porém, o mar estava estranhamente calmo e uma
enorme aglomeração de gente ia-se encostando ao muro,
ao longo da avenida. Uns conversavam, outros namoravam,
outros vendiam relógios, malas, artesanato, comida. Teresa e
António, já cansados, decidiram sentar-se no muro e
conversaram demoradamente.
- Estou tão feliz, António... Este lugar é mágico. António
também o achava, embora não o dissesse tão frontalmente.
Como homem de negócios, sabia manter segredos, dizer só o
bastante e nas alturas adequadas, sempre num misto de
desconfiança e formalidade. Naquele muro baixo, à altura
dosjoelhos, António e Teresa deram as mãos, trocaram beijos
e carícias, provas de paixão. O amor, porém, ainda estava
bem longe dali.
Quando escureceu, jantaram num pequeno restaurante da
marginal. A gastronomia cubana não agradou muito a nenhum
dos dois mas, mesmo assim, há que provar sempre um pouco de
tudo e, dessa forma, comeram carne e peixe, mariscos,
beberam vinho e, antes de mais nada, um saboroso e
refrescante mojito, a bebida tradicional de Cuba, mistura de
rum, sumo de lima, água gasosa, hortelã e açúcar.
Depois do jantar, foram ainda à Bodeguita del Medio, muito
célebre nos percursos turísticos cubanos, ou não fora aquele
o poiso preferido do escritor Hemingway quando vivera em
Havana. Naquele bar, repleto de inscrições na parede, ela
escreveu uma mensagem de esperança: "Paixão à solta em
Havana. Teresa " Depois, pediram mais uns mojitos e, já meio
alegres, seguiram para o hotel. Os corpos cansados, meio
embriagados, despiram-se de roupas e reclinaram-se nos
lençóis de um imaculado branco. Teresa, que bebera menos que
António, entrava num estranho jogo de sedução, como que
fugindo de cada investida do amante que, por sua vez,
tentava por todas as formas agarrá-la. Passado algum tempo,
ela, já
cansada, deixou-se prender e ele, com as mãos quentes,
percòrreu-lhe o corpo. Depois fizeram amor como nunca tinha
acontecido. Os corpos moldaram-se um no outro e, naquele
instante, Teresa provou, pela primeira vez, um amor
autêntico.

Capitulo III
É certo que já estava meio embriagada - mas, naquela
noite, António não a forçara a nada, fora mesmo
bastante carinhoso, cortejando-a, enchendo-a de beijos
quentes, oferecendo-lheprazeres inimagináveis. Depois,
dormiram até de manhã. O dia seguinte seria extenuante, com
uma série de reuniões de trabalho.
Aquela manhã, antes de saírem para a rua, foi muito
estranha. Teresa acordara com um sorriso enorme, assim como
uma criança. António, por outro lado, agia
como se nada tivesse acontecido, voltando a desprezar
a amante.
Àporta do hotel, esperava-os um magnífico carro preto que,
prontamente, os levou até ao Ministério do Comércio, onde
reuniriam para tentar assinar um contrato de exportação
de açúcar cubano para toda a Europa.
A reunião não foi difícil e, embora demoradamente, lá
conseguiram fechar o contrato. O adjunto do ministro, algo
desconfiado, queria saber todos os pormenores, mesmo
os mais insignificantes, da multinacional e, só quando
percebeu tratar-se de uma grande empresa, declarou a
felicidade por poder contactar com ela. Depois, foi só
encontrar as explorações agrícolas adequadas e telefonar
para arranjar forma de Teresa e António as visitarem.
Ainda antes de acabarem, o adjunto ofereceu-lhes charutos
cubanos para fumarem ali mesmo, como sinal de confiança.
Teresa, que não fuma, recusou, ao passo que António pegou
num deles e, em conjunto com o cubano, fumou-o em sinal de
agradecimento. Teresa, por seu turno, quedou-se por um chá
de ervas, quase gelado.
Entre os três ficou combinado que, dali a dois dias, Teresa
e António seguiriam para Trinidad, a região que produz o
melhor açúcar cubano.
- Não era isso que estava programado. Não temos reservas
para Trinidad.
António, num estilo executivo, reclamava contra a mudança e
Teresa achava aquilo maravilhoso. Trinidad era, sem dúvida,
uma das cidades que mais desejava conhecer. O adjunto do
ministro, apresentando desculpas, dizia que era a única
hipótese e que enviara um memorando para Portugal,
explicando todo o percurso, incluindo uma possível estadia
em Trinidad.
Combinaram então que, dali a dois dias, um carro leválos-ia
até Trinidad, onde ficariam seis dias num hotel junto ao
mar.
António estava furioso com aquilo tudo e, no resto do dia,
apoderou-se dele um mal-estar insuportável. Teresa, que
nunca gostara dos maus humores de António, via estragado o
resto da viagem, mas, a custo, lá se imaginava nas belas
praias de Trinidad, recebendo as correntes quentes do mar
das Caraíbas.
O resto do dia foi um verdadeiro desastre e António só
perguntava pelo hotel, pela hora de regresso. Ainda antes do
jantar, Teresa, incomodada com aquilo tudo, concordou com
António e seguiram caminho para o hotel. Jantaram no
restaurante-bar e, ainda antes das dez da noite, já se
preparavam para o descanso. A noite não prometia paixão,
romance, sexo.
O dia seguinte foi uma cópia autêntica do anterior,
exceptuando as reuniões. Embora tenham visitado
museus, monumentos, igrejas, palácios, passeado pelas
grandes avenidas, comprado belas recordações, pouco
conversaram e, nem por uma única vez, houve um sinal
de afecto, um carinho, um beijo. Ao invés, cada um
seguia o seu caminho, como se não se conhecessem.
A viagem, de repente, transformara-se num verdadeiro
inferno.
- Olha, António... Assim é complicado! Estou farta das
tuas indisposições. !
- O que é que queres? Não estava nos planos sairmos
de Havana.
- Pois não, pois não... Mas vamos à mesma, quer queiras, ou
não...
A relação amorosa entre os dois precipitava-se para o
abismo, um beco sem saída a milhares de quilómetros de
casa. Não fora isto, decerto, que Teresa imaginara. Sabia,
há muito, que António não era o homem dos seus sonhos
mas ia-se acomodando à ideia e raramente pensava
em mudar de vida. Agora, ali mesmo em Havana, a
situação tornara-se verdadeiramente insuportável e as
raras conversas entre ambos acabavam sempre de igual
maneira, discutindo.
"Aguenta só mais esta semana", dizia para si própria.
Pensava Teresa que, mal chegasse a Lisboa, acabaria
tudo com António. Não o queria fazer agora porque sabia
que teria de estar com ele o resto da semana.
Naquela noite, contudo, ao chegarem ao hotel, Teresa
seguiu para o quarto e António ficou na recepção, a
fazer uns telefonemas para Lisboa. Quando chegou,
visivelmente embriagado, Teresa, já deitada na cama,
perguntou-lhe por onde andara.
- Estive no bar do hotel. Porquê? Tens algum problema com
isso?
- Não... Só gostava de saber o que se passou. É que
resolveste deixar-me aqui sozinha...
António, cada vez mais irritado, entrou na casa de banho e
saiu de lá meio despido, pronunciando palavras
imperceptíveis. Depois, despiu-se por completo e entrou na
cama. Teresa afastou-se para uma ponta da cama, o que não
impediu António de a procurar.
As mãos de António, excepcionalmente frias, buscavam o corpo
de Teresa que, a custo, se procurava desprender - mas, num
gesto mais violento, António agarrou a amante com toda a
força que lhe restava. Depois, num gesto repentino, colocou
uma das mãos no sexo de Teresa e mordiscou-lhe um dos seios,
depois o pescoço, depois um beijo. António sabia que Teresa
nunca resistira ao seu toque. No entanto, naquela noite,
nada foi como antes.
O corpo de Teresa resvalou para fora da cama, caindo no
chão, e ela, ali imóvel, disparou contra António.
- Deixa-me!... Não vês que não quero nada?
O álcool no corpo de António toldava-lhe o pensamento e da
sua boca saíam palavras esquisitas. O corpo, esse,
demonstrava uma excitação total e, em movimentos cada vez
mais agressivos, aproximava-se do da amante. De repente,
António, na procura de Teresa, caiu ao chão e não mais se
levantou.
Ela, com medo, chegou-se a António, pôs-lhe a mão no corpo e
tapou-o com uma manta, deitando-se, em seguida, na cama.
Na manhã seguinte, quando Teresa acordou, António ainda
estava deitado no chão, imóvel como uma estátua de pedra.
"Nunca mais" eram as palavras que Teresa murmurava
repetidamente. "Nunca mais!".

Capitulo iv
Quando António acordou, Teresa tomava banho e, por
medo, trancara a porta que dava acesso à casa
de banho.
- Então... Estás com medo de mim?
Aquelas palavras foram a gota de água. Quando Teresa saiu,
não dizendo palavra, esperou que António fosse, também ele,
à casa de banho, para se vestir. Não mais desejava despir-se
em frente dele, não mais desnudar-se defronte do homem que
quase a violentara.
Enquanto faziam as malas para seguirviagem para
Trinidad, nem poruma vez trocaram os olhares, uma palavra
sequer. Mesmo António parecia entender o que se passava ali.
A relação entre os dois estava acabada, seria impossível
pedir desculpa, recomeçar.
Quando o telefone tocou, avisando-os da chegada do carro,
pegaram ambos nas malas e desceram. Ao entrar no carro, o
mal-estar era tão indisfarçável que até o motorista reparou.
- Sentem-se bem?... Precisam de alguma coisa?
- Não, obrigado. Sigamosjá para Trinidad!
A viagem até Trinidad foi uma das mais difíceis da vida de
Teresa. Durante quase quatro horas, nem por uma vez olhou
para António, muito menos soltou uma palavra. Limitava-se a
olhar pela janela as belezas naturais da ilha: o verde
incomensurável, as enormes plantações de cana de açúcar, os
remotos povoados por onde passavam.
Depois, a chegada a Trinidad mudou tudo por completo. Da sua
boca, soltou-se um pequeno espanto, como quem chega a um
paraíso perdido, uma velha cidade distante de tudo,
recipiente das maravilhas do mundo.
Trinidad é uma cidade antiga, repleta de casas baixas de
mil feitios e cores, de pequenos mercados onde se pode
comprar de tudo, quase sem trânsito. Em Trinidad as pessoas
são mais dóceis que em Havana e é bem possível que nos
convidem para entrar em suas casas ou, ao menos, nos
ofereçam uma bebida à soleira das portas.
O hotel onde ficariam era uma pequena casa de luxo de dois
andares, com um grandioso pátio central descoberto. Ali, os
pássaros encontravam um poiso de sombra e o chilrear dava-
lhe um ambiente tropical fantástico. Era isto, de resto, que
Teresa sempre ansiara visitar.
António e Teresa, sem dizer nada um ao outro, optaram por
escolher dois quartos, consumando ali, no silêncio, a sua
separação.
Quando Teresa chegou ao quarto, um sentimento de alívio
apoderou-se-lhe do corpo. Pela primeira vez, desde há muito
tempo, estava sozinha no mundo e isso, que sempre a
incomodara, não lhe importava mais. A sua vida, a partir
daquele momento, iniciava uma nova etapa, por certo mais
feliz.
Não ficou ali mais do que o tempo suficiente parapousar a
mala e refrescar se, partindo, de imediato, para a
descoberta das ruas da cidade. Queria vaguear o mais
possível, entrar na primeira porta que visse entreaberta,
conversar com gente nova e velha, conhecer, de facto,
Trinidad, e não apenas visitá-la como qualquer turista.
O hotel não ficava longe do centro e, depois de se informar
na recepção, caminhou até uma praça quadrada, não muito
larga mas, decerto, a mais importante da cidade. No centro
encontrava-se umjardim muito cuidado, cheio de flores, e um
pequeno lago onde havia o costume de largar uma moeda e
pedir um desejo. Teresa assim fez - mas, no momento de
desejar, não pediu nada, entregando-se ao destino. Defronte
do lago, sentou-se num banco de pedra e, ao ler um livro de
poesia, foi pensando na vida, no futuro, na mudança súbita
que acabara de sofrer.
"Não vale a pena sofrer mais", pensava. "A vida é para
ser vivida, não sofrida " E, conjugando tristeza e alegria,
Teresa sabia bem que o que havia a fazer era aproveitar a
estadia em Cuba e divertir-se ao máximo.
Num dos lados da praça, estava uma riquíssima igreja
barroca; tão grande que, quando Teresa a quis fotografar,
teve de sair da praça e caminhar em sentido contrário, até
ganhar o ângulo certo. Aí, a visão era magnífica e a
igreja mais parecia uma catedral. No alto, dois grandes
sinos iam encadeando as horas dos dias em movimentos
tão frenéticos que o som percorria mesmo as ruas mais
distantes de Trinidad.
Enquanto olhava para a igreja, Teresa apercebeu-se de
uma excursão turística que entrava para uma casa nessa
mesma rua. Decidiu ir espreitar o que se passava e, para
seu espanto, aquela casa era, na realidade, o museu colonial
de Trinidad. Ninguém diria, por fora, que ali estava um
museu, o melhor e mais importante da cidade.
Lá dentro, numa atmosfera que mais parecia saída do
século XVII ou XVIII, Teresa apercebeu-se do que era
viver em Cuba naquele tempo, tanto do lado dos colonos
como dos escravos. Na mesma casa, podiam ver-se os
atposentos dos senhores, plenos de opulência e riqueza, e,
do outro lado, as habitações dos trabalhadores. No meio
de tudo, uma gigantesca máquina, um engenho de açúcar, onde
se colocava a cana para extrair o sumo.
No entanto, o que mais a impressionou foi a voz suave do
guia que acompanhava os turistas naquele museu. Desde
os tempos de Coimbra que Teresa tinha os ouvidos bem
atentos para as vozes das pessoas, imaginando sempre as
estratégias a utilizar para corrigir os defeitos de cada um.
No caso daquele guia, a suavidade davoz, o tom solene com
que ia mostrando cada peça, deixaram-na boquiaberta. Nunca
antes ouvira alguém assim. É certo que apronúncia cubana,
muito musical e vagarosa, propiciava-o, mas, mesmo em Cuba,
ainda não ouvira nada como aquilo.
Depois de sair do museu, decidiu-se a fazer compras e, num
mercado típico, adquiriu objectos de concha, de vime,
apaixonou-se por umas sandálias de couro tradicionais e
ainda levou uma pequena figura de cerâmica, representando
uma mulher cubana fumando um grosso charuto.
Ao fundo do mercado, já cansada, sentou-se numa laje rente
ao chão e ali permaneceu, quase estática, contemplando o
doce movimento da passarada no horizonte, a gritaria do
mercado, as carroças que passavam cobertas de produtos
frescos. Na mão, um sumo de lima com gelo, muito amargo mas
refrescante, ideal para aquele Verão escaldante e húmido.
De repente, ouve uma voz, cercando-a.
- Está aqui sozinha?
Reconhecia aquela pronúncia cubana, mas não sabia de onde e,
enquanto se virava, lembrou-se do guia do museu. Sim, tinha
de ser ele.
- Está aqui sozinha?
- Sim... Não... Quer dizer, sim.
O guia era um sujeito baixo, magríssimo, com umas calças de
sarja largas e uma camisa branca descaída. A cara estava
sarapintada de uma barba preta rala e dela sobressaíam uns
óculos velhos meio requebrados. O cabelo era igualmente
preto, desalinhado em caracóis.
Antes de adiantar mais alguma coisa, o guia desculpou-se,
dizendo não a querer assustar. Pelo contrário, estava
surpreendido por ver um turista sozinho em Trinidad.
- Sabe, via-a no museu e reparei que não vinha com o
grupo galego.
- Sim, sou de Portugal... Venho em trabalho.
O guia apresentou-se.
- O meu nome é Juan... Juan Torres. Sou guia do museu
de Trinidad.
- Muito prazer. Eu sou a Teresa.
Feitas as apresentações, Juan e Teresa ficaram durante
algum tempo à conversa. Juan foi-lhe falando sobre a
história da cidade, polvilhada, aqui e ali, com partes
da história cubana, e ainda lhe indicou alguns sítios
interessantes que devia visitar. Teresa estava fascinada
com a cultura daquele homem tímido, que mais parecia
esconder-se por detrás dos óculos e, agradecendo-lhe os
conselhos, despediu-se.
A conversa, no entanto, foi-lhe ecoando cada vez mais
forte. Aquela voz, aquela pronúncia e, em contraponto,
aquele ar frágil, tímido... A cada esquina que cruzava,
Teresa olhava os homens que por ela passavam, cortejava-os,
imaginava romances de amor, via-se transposta para
as histórias que lera em livros.
À noite, já perto do hotel, parou parajantar. O restaurante
mais parecia um velho botequim, mas decidiu arriscar. Era
asseado e, de dentro, saíam odores fantásticos a comida,
como que a convidar a entrar. Sentou-se numa das mesas,
pediu um mojito e um prato de peixe assado. No final da
refeição, quando iapagar, reparou em Juan, sentado, sozinho,
numa das mesas do restaurante. Na realidade, e embora não se
lembrasse, fora ele quem lhe recomendara aquele sítio.
"Vou...
Não vou. . ". Teresa não sabia o que fazer e, na indecisão,
pagou a conta e saiu disparada rumo ao hotel.
Já no quarto, despiu-se por completo, deitou-se na cama
e pegou num romance que queria ler há muito. Naquela
noite, as páginas foram lidas em catadupa e, quando os olhos
de Teresa começaram a ficar pequeninos, imaginou-se numa rua
de Trinidad, fazendo amor com um cubano de pele morena
ressequida do sol, o corpo musculado. Enquanto imaginava a
cena, o coração começou a bater mais forte, mais
descompassado, a pele humedeceu com os pensamentos e, antes
de fazer algo mais, largou o livro, refreou os sentimentos e
deixou-se adormecer.

Capitulo V
Logo pela manhã seguinte sentia-se uma mulher
diferente. Agora já não andava à deriva e alheia de tudo; a
partir de hoje, era uma mulher livre, liberta para encontrar
novos amores, para se apaixonar. "Que importa o que digam?
Não quero saber"
Andou por toda a cidade até se encontrar, de novo, na praça
da igreja, muito próximo do museu onde Juan trabalhava.
Pesou se entraria ou não e, depois de muito equacionar,
decidiu-se pelo sim. Encontrou o guia a meio de uma visita
e, no fim, foi ao seu encontro.
- Olá; como está?
- Oh... Olá, não queria acreditar quando a vi aqui de novo.
É a primeira pessoa que repete uma visita.
- Foi ainda melhor que a primeira. Queria agradecer-lhe a
conversa de ontem... Fui jantar onde me indicou e foi
maravilhoso.
- Eu via-a lá... Mas não quis incomodar.
Naquele instante, Teresa retraiu-se, soluçou e disse:
- Eu também o vi... Mas não quis incomodar.
Os dois riram-se da figura que haviam feito na noite
anterior, nenhum querendo incomodar o outro.
- Estou quase a sair para o almoço. Se quiser, convido-a
para almoçar... Mas compreendo que não aceite.
- Aceito... Parece-me perfeito.
Teresa não se sentia bem consciente do que estava a fazer.
Ela, sempre distante dos homens, pronta a sacrificar-se por
António, parecia agora mais decidida, mais frontal. "Vais e
pronto... Ele parece simpático", pensava com os seus botões.
Não foi preciso esperar muito tempo até que Juan voltasse.
- O restaurante fica já ali, no próximo quarteirão.
- Podemos tratar-nos por tu?
- Sim... Bom... Sabe... Sabes, não estou habituado. Mas,
sim... Claro que sim.
Juan era, de facto, muito tímido. Nem mesmo o contacto
diário com dezenas de pessoas lhe diminuíra a timidez. Pelo
contrário, sempre que um grupo chegava ao museu, entrava em
pânico.
- Já devia controlar isto melhor, mas sabe... Sabes como é!
Fico vermelho e, nas primeiras frases, até gaguejo... Depois
passa.
- Deixa isso... Tens uma voz tão bonita.
- Achas mesmo? - Juan corava sempre que o elogiavam.
- Claro que sim. Estive quase a ser terapeuta da fala. Sabes
o que é?
Sim... Ajudar as pessoas a falar melhor!
A conversa até ao restaurante foi muito circunstancial, mas,
mal se sentaram, Juan começou a falar de Cuba, das
dificuldades de manutenção do museu e da incompreensão
dos turistas:
Às vezes ainda reclamam connosco!
Foi Juan que pediu a comida, mas antes perguntou a Teresa se
gostava de marisco, de manga e de banana. E, quando
os pratos chegaram, veio também um cheiro que misturava " o
marisco grelhado com as frutas. Ao aspecto delicioso da
lagosta, juntou-se o paladar e, no meio daquela festa dos
sentidos, Juan e Teresa foram soltando-se:
- Tu és muito tímido. Não és?
- Sim... Nem sabes como foi difícil convidar-te!
As mesas do restaurante estavam numa espécie de pátio ao
ar livre,
cobertas porum fino manto de trepadeiras que, nas pontas,
deixavam cair cachos de flores vermelhas e roxas. Num dos
cantos do pátio, uma senhora de idade, que ali também
almoçava, levantou-se e começou a cantar.
- Já
começou - disse Juan, apontando para a velhinha. Este é o
maior espectáculo de Trinidad. Foi por isto que te trouxe
aqui.
- Mas quem é?
- Sh... Sh... Depois digo-te... Agora ouve!
A senhora
tinha uma voz única e não precisava de acom panhamento
musical para criar melodias. Foi cantando até se cansar e,
só aí, recebeu as palmas da audiência. Depois Juan explicou
a Teresa que a senhora, Maria, ia ali todas as tardes e
cantava para pagar o almoço. Fora uma das maiores cantoras
cubanas, conhecida por toda a ilha, mas, ainda najuventude,
conseguira gastar todo o dinheiro que amealhara e agora, não
perdendo a boa disposição, fazia isto por gosto e por
necessidade.
No fim do
almoço, Juan pediu um cocktail de rum para cada um e, nuns
copos altos, serviram-lhes uma bebida de rum e menta. O
néctar deslizou calmamente pelas bocas e pediram outro. Pela
primeira vez, Teresa sentia na pele a vivência dos cubanos,
compreendia as dificuldades, as alegrias e estava muito
contente por isso.
- Esta é a melhor forma de conhecer um país - dizia. Juan,
por seu turno, estava radiante com a forma como
Teresa recebia os seus conselhos, como o ouvia. No museu,
muitas das vezes, sentia que o que dizia não tinha eco nos
visitantes, mais interessados em fazer compras e passear que
em compreender a história e a cultura do povo. Nos seus
olhos, por detrás dos óculos, começava a surgir um brilho
novo, mais confiante em si próprio do que nunca.
- Esta terra é maravilhosa. Sabes, em Portugal, fazemos uma
ideia muito diferente.
- O que é que acham de Cuba?
- Que isto é atrasado... Que só vale a praia. Mas acho que
há muito mais.
Aí por volta das três da tarde, Juan impacientou-se com a
necessidade de regressar ao museu, mas, quando lá chegaram,
avisaram-no de que podia sair mais cedo. Não havia mais
nenhuma visita marcada para aquele dia. De súbito, a cara de
Juan ganhou outra vida, iluminou-se, virando-se para Teresa.
- Já conheces a praia de Trinidad?
-Não... Masjá ouvi falar.
-Teresa parou um instante, pensou bem e disse:
- Se me deres um segundo, vou buscar um fato de banho e
convido-te para irmos à praia.
Juan, que não esperava o convite, ficou boquiaberto. A
timidez deixou-lhe a cara completamente vermelha. Não sabia
como responder. Hájá muito tempo que ninguém o convidava
para ir à praia. O que fazer? Sabia que ia mostrar o seu
corpo a uma desconhecida, mas esta desconhecida deixava-o
cada vez mais confiante, mais liberto... Ela parecia não se
importar com a sua aparência frágil, desalinhada.
- Sim... Vamos - disse Juan com um indisfarçável nervosismo,
impossível de esconder.
A praia de Trinidad ficava ainda a uns bons dez minutos da
cidade, mas decidiram percorrer o caminho a pé. No
percurso passaram por uma espécie de sapal, que Juan disse
ser muito rico em caranguejos e, ao avistarem apraia, Teresa
lançou-se numa correria frenética, deixando cair o chapéu.
Juan, depois de o apanhar, correu para Teresa, que lhe deu
um lenço enorme que trazia à cintura.
- Vou aproveitar este mar lindo!
O mar que banha Trinidad tem uma fantástica cor verde e
aqui, ao contrário da costa de Havana, quase não há ondas. A
água, essa, é quentíssima, e Teresa, mal se molhou, não mais
quis sair. Juan ficava pela beira-mar, colhendo conchas,
falando com Teresa e, por vezes, fazendo-lhe companhia no
mar.
Quando Teresa saíu da água, Juan presenteou-a com sete
conchas magníficas, cada uma de seu feitio e cor.
- São para te lembrares de Trinidad... Quando voltares para
Portugal.
Teresa nem queria acreditar. O que fizera ela para merecer
tudo aquilo? Um almoço, a praia, a companhia, agora as
conchas?
- Não te poderei agradecer este presente!
- Não precisas... Para mim é suficiente que gostes deste
país, de Trinidad, deste mar imenso...
Ao ouvir esta frase de Juan, um frio gélido irrompeu pelo
corpo de Teresa; depois, quando veio a si, deu-lhe uma
vontade enorme de beijar Juan. Refreando os ímpetos, acabou
por lhe dar um beijo na cara, sentindo na sua os escassos
pêlos da barba de Juan e cheirando o sal na sua pele.
Guardou as conchas na sacola e pegou na mão trémula de Juan,
convidando-o a dar um passeio pela borda de água.
Enquanto passeavam, Teresa foi vislumbrando o que se
passava. Depois de António, depois da noite passada, estava
aqui, na praia de Trinidad, pronta a apaixonar-se por um
cubano tímido. Já bem longe de todos os olhares; numa
zona deserta da praia, pegou de novo na mão de Juan e
levou-o até dentro de água. Naquele mar verde; tépido,
extraordinariamente salgado, Teresa sentia-se rejuvenescida
e não tardou a roubar um beijo de Juan. Depois outro, e máis
outro, outro ainda, ao passo que Juan, atónito, se deixava
levar para, logo de seguida, ser ele próprio a
envolver Teresa num longo abraço.
De seguida, saíram da água e deitaram-se confortavelmente
na areia quente, envoltos em mil carícias, trocando doces
beijos e falando das respectivas vidas. Ele lembrando o
divórcio; ela, os dias com António. Nas areias da praia de
Trinidad, Juan e Teresa foram-se
conhecendo melhor.
Quando se aperceberam, era quase noite, hora de regressar.
Juan lembrou-se de um pequeno hotel à beira-mar.
- O que achas de jantarmos lá?
- Acho óptimo... Estou morta de fome.
- Estás o quê?
- Ah... Desculpa. É uma expressão portuguesa... Estou
cheia de fome:
O hotel era pequeníssimo, quase sem turistas; que preferiam
sempre ficar no centro da cidade. Juan, que conhecia
o encarregado do hotel, tratou de arranjar forma de
comerem na praia.
Acho que hoje vamos ter um espectáculo natural... Mas
é surpresa!
Teresa não entendia bem o que Juan queria dizer, nem tão
pouco percebia como aquele homem tímido se revelava
mais emocionante a cada frase.
Assim que acabaram de comer e se aprontavam para uma
bebida final, surge no céu, bem ao longe, um enorme
relâmpago e, bastantes segundos depois, um trovão
monumental,
como Teresa nunca ouvira. Assustada, perguntou a Juan se não
seria melhor entrar para o hotel.
- Podemos ficar aqui. Este é o cartão de visita de Trinidad!
De facto,
durante uma meia-hora, as luzes do hotel apagaram-se e o céu
iluminou-se com os tons alaranjados do pôr do sol e
metálicos dos relâmpagos. Teresa, a princípio com medo,
deixou-se levar pela beleza natural e rapidamente desatou a
correr debaixo da chuva mais quente que alguma vez sentira.
Juan seguiu-a à distância, carregando a sacola e os copos.
De
repente, ao som dos últimos trovões, cada vez mais
distantes, Teresa parou perto da água e, num movimento
suave, sentou-se na areia molhada. Juan, que a seguia,
juntou-se- lhe e ficaram a conversar durante uns minutos. O
guia, grande conhecedor da região, explicou a Teresa que nos
dias de grande calor é muito usual esta manifestaç ão da
natureza. Por isso havia pedido parajantar lá fora... Queria
oferecer-lhe o melhor que Trinidad tinha e, acima de tudo,
queria que ela conhecesse os mistérios da natureza. A
conversa, entremeada por beijos e carícias, parou por
completo quando Teresa se reclinouna areia, vislumbrando a
face de Juan recortada pelo luar. Por breves segundos o
silêncio incomodou Juan, não sabendo o que fazer. Depois,
ela pegou-lhe no pescoço e fê-lo descer até si. A partir
desse instante, o destino estava traçado. A paixão, o
romance fogoso que nunca partilhara com ninguém, ia tê-lo
ali, num sonho nocturno, e logo com um cubano. Teresa,
eternamente contida, embora não tanto como Juan, sabia que,
ou era ela a dar o primeiro passo, ou ficariam ali, a olhar
um para o outro, querendo- se.
Juan, perdendo os medos, encheu-lhe o corpo de beijos,
primeiro o pescoço, depois a barriga, acariciou- lhe os
seios que Teresa, num gesto brusco, desnudou. Nessa altura,
Juan mordiscou-lhe os mamilos e Teresa deixou-se levar.
Arrancou a camisa de Juan, fez deslizar-lhe os
calções e ali, deitado na praia, ele não se incomodou com a
sua nudez. Pelo contrário, enquanto Teresa o cobria de
beijos, lhe cofiava os pêlos do peito, Juan despia-a, quase
em loucura.
Na praia, onde ninguém os via, os sexos foram tocados e
tocaram-se, os corpos meio húmidos fundiram-se num só e, por
vezes, recebiam ainda a companhia de uma onda mais afoita
que a eles se conseguiajuntar. Naquele tempo e lugar, Teresa
sorria para Juan como nunca antes o fizera. Talvez nunca
tivesse recebido tanta paixão num mesmo momento, talvez
nunca tivesse estado com um homem que a fizesse sentir tão
desejada. Aqueles dois corpos, em que ninguém mandava,
deixavam-se levar pelo desejo carnal, pelo momento único de
comunhão dos sentidos.
E, só quando os movimentos frenéticos se extinguiram, ambos
perceberam o que haviam feito, como tinham amado naquele
preciso instante. Teresa lembrou-se do que Sandra, a sua
colega de trabalho, lhe havia dito acerca dos trópicos e
suspirou. Juan, extenuado, não conseguia libertar-se de um
sorriso de menino que lhe inundava o rosto. Os dois corpos,
nus, banhados pelo brilho do luar, perdiam a força mas não a
paixão, e Juan, mesmo sem vigor, continuou dentro de Teresa,
como que lhe declarando amor eterno e, em êxtase, deixou-se
cair.
Bem perto deles, as ondas e o seu marulhar abafavam o som
ofegante da respiração e, com o calor do sexo ofereciam-se
para refrescar os dois corpos suados. Lá longe, muito
raramente, ainda se detectava um ou outro trovão, mas só com
os sentidos nesta espiral extasiante! era possível ouvi-los.
Depois, com os ânimos mais refreados, envolveram-se num
longo abraço e voltaram para a cidade. Nos rostos de ambos,
notava-se a felicidade suprema de quem encontra a paixão e o
amor.

Capítulo VI
Ao chegar ao hotel, Teresa convidou Juan a ficar e passaram
o resto da noite em descanso. De manhã, Juan, que acordou
primeiro, ficou, por longo tempo, a olhar Teresa. Seguia-
lhe cada movimento, cada sorriso, percorria-lhe o corpo com
as mãos sem lhe tocar e, antes que acordasse, saiu.
Quando Teresa acordou, olhou para o lado da cama e
sobressaltou-se. "Onde está o Juan?" pensou. Olhou à sua
volta e descobriu um pequeno tabuleiro com pão, doce e
sumos, as conchas que Juan lhe dera na praia e um pequeno
bilhete:
Tenho de ir trabalhar.
Espero-te para almoçar no local de sempre, Olhos de mel.
Amor. Juan
Ao ler o bilhete, uma levíssima lágrima saiu dos olhos de
Teresa. "Olhos de mel", pensava, enquanto relia o bilhete.
Releu-o e releu-o vezes sem conta. Aquelas linhas eram, para
ela, das coisas mais bonitas que lhe haviam alguma vez
escrito.
Ainda antes da hora combinada, já Teresa estava no
restaurante onde tinham almoçado no dia anterior. Pediu uma
bebida para se refrescar.
Quando Juan chegou, o rosto de Teresa iluminou-se de
felicidade. Ele, ao vê-la tirar os óculos escuros, só
pensava
nos seus olhos de mel. Por instantes, nenhum sabia muito
bem o que fazer, se se beijavam e, se sim, de que forma.
Teresa, mais decidida, pôs-lhe o braço à volta da cintura,
forçou-o a baixar-se e ofereceu-lhe um beijo quente, com
o sabor do cacau da sua bebida.
Durante o almoço, lembraram-se do dia anterior, mas
ambos reconheceram a impossibilidade do seu amor.
Nem ele podia ir para Portugal, nem ela podia vir para
Cuba - e ainda tinha de resolver tudo com António. No
entanto, não era isso que os impediria de viver cada
momento como a eternidade e combinaram encontrar-se, de
novo, à noite.
essa tarde, Teresa, excitadíssima, decidiu telefonar para
i
Portugal. Tinha de falar com a mãe e com Sandra, a
melhor amiga.
Estou? Mãe? Sou eu, a Teresa.
- Olá, minha rica filha. Está tudo bem por aí ?
Isto é fantástico... Devia cá vir um dia!
Ah... Sabes bem que nunca andei de avião ejá não tenho
idade para tontices.
Deixe-se de disparates.
E o António? Como está o António?
Olhe, nem sei. . Chateei-me com ele e, a bem dizer, não
interessa nada.
Vê lá, filha... Olha que ele é teu patrão... Tu é que sabes!
Depois da conversa com a mãe, telefonema para Sandra:
EStou, Sandra... Sou eu.
Ah, minha querida... Estás bem ?
óptima... Tinhas razão quanto aos trópicos... Dá-nos
voltas à cabeça!
Então, está tudo bem com o António?
- O António é horrível... Mas depois conto. Agora o Juan...
- Qual Juan?... Não me digas...
- O Juan,
sim... Acho que me apaixonei por um cubano... Se o visses...
- Muito bem, rapariga... Finalmente saíste da casca...
Eubem te dizia que esse António não prestava para nada. Faz-
te à vida, linda... Aproveita ao máximo... O que é que ainda
fazes agarrada ao telefone? Agarra-te a esse Juan.
Os telefonemas confirmaram os desejos de Teresa. Até
então,
ainda não estava bem certa sobre o que devia fazer, mas
tanto a mãe, como, em especial, a amiga, pareciam dar-lhe
força nesta aventura. Ela, que fora sempre relativamente
pacata, quase desajeitada nestas coisas do amor, queria
agora abrir-se por completo, mostrar, por uma vez que fosse,
quem realmente era, porque estava ali. À noite, depois de
encontrar Juan, vaguearam desprendidamente pelas ruas de
Trinidad que, àquelas horas e na companhia do amante,
pareciam ainda mais mágicas aos olhos de Teresa.
Encontravam-se ambos na dúvida sobre o que dizer um ao
outro, sabiam bem que estes dias se extinguiriam e que cada
um teria de seguir o seu caminho natural - mas, já que ali
estavam e ninguém impedia, que aproveitassem ao máximo o que
o destino lhes dera. Depois do passeio, em que Juan
explicara toda a história de Trinidad, recolheram-se ao
hotel, onde tiveram mais uma noite mágica. Ali, no aconchego
do quarto, percorreram nus todos os cantos e recantos. Ali,
encontravam-se desprovidos de qualquer preconceito e
ofereciam-se mutuamente. Ali; o amor desmontava barreiras.
Às carícias, sucediam-se beijos, aos beijos, carícias. As
mãos tocavam os sexos; moldavam-nos. Os corpos suados
enrolavam-se um noì outro, perdiam-se no excesso dos
sentidos. Depois, por instantes, Juan penetrava Teresa e os
movimentos dos corpos ganhavam outro ritmo. No fim, uma
explosão de loucura inundava as faces de ambos os amantes, e
das bocas rufavam gemidos quentes.
Na manhã seguinte, Teresa explicou a Juan que tinha de se
encontrar com António. Naquele dia iam visitar as
explorações de açúcar e escolher a mais adequada às
necessidades da empresa. Por alguns momentos, Juan pensou
que aquele sonho terminava ali - mas, ao pressentir o medo
do amante, Teresa reconfortou-o, passando-lhe a mão pela
cara e roubando-lhe um beijo macio. Já no átrio do hotel,
António, sentado numa poltrona, chamou Teresa.
- Tenho-te visto por aí...
- E então... Alguma coisa que não te agrade?
Noutras circunstâncias, Teresa nunca teria dito tal coisa,
mas este era o momento de entrar, definitivamente, em
ruptura com António, tendo agora de substituir o comedimento
abitual por alguma agressividade. O que é certo é que
António, geralmente hábil nas palavras, ao ouvir Teresa,
pestanejou e não disse mais nada, compreendendo a
possibilidade de uma reconciliação entre ambos.
- Mas trabalhamos à mesma... Não é?
Sim. Acho que, como profissionais, sabemos deixar estas
crises para trás.
Em seguida, enfiaram-se num carro que, a toda a velocidade,
rumou para os arredores de Trinidad. Antes, ainda no hotel,
Teresa olhou para ajanela do seu quarto meio escondido,
vislumbrou o rosto de Juan, a quem enviou um beijo.
As explorações que visitaram pareciam perfeitas para o
efeito. Grandes extensões de cultivo da cana, com milhares
de trabalhadores e uma produção média anual que chegava
para as necessidades da empresa. Aquela paisagem, que
António desprezav a, inundava Teresa de alegria, imaginand
o, no entanto, o sofrimento dos trabalhadores.
Nos dias
seguintes, Juan e Teresa envolveram-se cada vez mais e o
amor entre ambos foi- se solidific ando. Mas, à medida que o
tempo passava, também sabiam que se aproximava a hora da
despedida. Os dias de espera alternavam rapidamente entre a
paixão e a saudade, o desejo e a distância, a alegria e a
melancoli a. Teresa prometeu- lhe voltar em breve, mas não
podia precisar datas ou durações.
- Tenho
sempre muito trabalho. .. Não é fácil tirar férias. Mesmo a
música cubana, sempre pronta a espalhar alegria, não parecia
querer, por estes dias, sair dos tons mais tristes - a
guitarra, a voz, o contrabai xo, o piano, nenhum instrumen
to desafinava da melodia nostálgic a. Só os pássaros
continuavam alegres no chilrear.
O último
dia juntos foi um autêntico sufoco e mal o aproveitaram.
Sentaram- se numa esplanada a contemplar o movimento
dominguei ro, a beber refrescos de lima e olhando um para o
outro, serenos, quase sem trocar palavra. Nessa tarde, a
impossibi lidade do amor tornara-se mais óbvia que nunca.
Por muito que trocassem moradas, telefones, fotografi as,
nunca estariam colados um ao outro. Ainda que falassem ao
telefone, isso não era o mesmo que dormirem juntos,
abraçados, nus.
Numa manhã
em que o sol se recusou a acordar, Juan e Teresa trocaram um
longo abraço, milhares de beijos ao ouvido dela, ele
prometeu- lhe amor eterno. Teresa, esperando ouvir tal
declaração de entrega, arrepiou-se e correu para o carro,
onde António a esperava. Pediu de imediato, que o motorista
arrancasse e, abrindo o vidro do carro, acenou a Juan,
também ele emocionado. Provavelmente, nunca mais se veriam e
aquele amor, em conjunto, decerto manter-se-ia aceso no
coração de
cada um por muito tempo.
Aquela viagem até Havana, os dias de espera pelo voo
para a Europa, todo aquele tempo sufocava Teresa, que
se ia lembrando das horas
vividas colada a Juan, de todos os pormenores do seu corpo,
cada ângulo, cada aresta, cada fio de cabelo. Os olhos,
permanentemente escondidos
por uns grandes óculos escuros, enchiam-se de saudade
e lágrimas furtivas, e as mãos, trémulas, recordavam os
dias em que acariciavam o amante.
O regresso a Havana, apossibilidade de visitar mais locais
desta bela cidade - nada a fazia esquecer aqueles dias de
intensidade romântica. Na verdade, enquanto ali esteve, das
poucas vezes que saiu do hotel dirigiu-se sempre para
o Malecón e, na marginal, pensava na praia de Trinidad e
no seu amante. Depois, suspirava e dizia:
- Voltarei um dia!

Capitulo VII
Já em Portugal, Teresa contou tudo à mãe e à amiga, que a
ouviram com alguma tristeza. Como era difícil esta
separação, como um oceano imenso os dividia, mas havia o
desejo de reencontro.
Talvez lá vá no Verão... - alvitrava Teresa. - Se puder, na
Páscoa... E se ele se esquece de mim?... Se, para ele, fui
uma de muitas?...
A dúvida assolava a alma de Teresa e, a pouco e pouco, foi
esquecendo Juan, mantendo, no entanto, um cantinho especial
do coração reservado para ele. Afinal, só com cubano
conhecera o verdadeiro amor e, mesmo que duvidasse,
permaneciam sempre as sensações por que haviam passado
juntos.
Um dia,
porém, chegada ao escritório, deparou com um concurso dentro
da empresa, procurando quadros já a ela ligados e
disponíveis para ir abrir os novos escritórios da firma em
Cuba. Teresa nem vacilou, correu parajunto de Sandra e, com
ela, preencheu um formulário e escreveu uma carta de
intenções. Explicou que já tinha ido a Cuba em serviço, que
conhecia gente no Ministério do Comércio, os agentes locais
de produção e distribuiç ão de açúcar, e que sempre desejara
mergulhar noutras culturas. Na volta do correio interno da
empresa, cerca de uma semana depois, a resposta chegou e
Teresa foi chamada ao gabinete de António.
- Já
recebi os resultados do concurso para Cuba.
- E
então... Eles chamaram- me?
- Olha, Teresa... A princípio eles só queriam gente ligada à
área comercial, mas eu insisti em que era necessário alguém
ligado às burocracias... E sim... Vais para Cuba!
No fim de contas, António até se revelou um amigo de Teresa.
Aliás, após a tumultuosa viagem de ambos, a relação melhorou
muito e ele deixou de implicar com ela. Agora, que a tinha
ajudado neste percurso, Teresa achou que merecia um beijo e
colou os lábios à cara de António. Ele, envergonhado, corou
como nunca acontecera. Teresa saiu disparada do gabinete de
António e correu a contar a boa nova a Sandra, que a abraçou
comovida. O resto da empresa, sem entender nada, julgou que
Teresa tinha sido promovida e foi-lhe dando os parabéns, que
ela, igualmente sem perceber, ia agradecend o.
- E agora, o que é que eu faço?
- Então, é muito simples. Fazes as malas e zarpas!
- E a minha mãe... O que é que eu faço?
A mãe de Teresa sempre fora a sua grande preocupação. Viúva,
muito frágil, não era fácil deixá-la sozinha, mas também não
quereria ir viver para Cuba. Aos setenta anos, a adaptação à
língua, ao clima, à gastronomia, não seria, por certo, a
melhor.
Quando chegou a casa, na mesma tarde, conversou com a mãe.
- Oh, filha... Faz como entenderes melhor.
- Mas só vou se a mãe concordar.
- Não sei... A vida é tua e eu não te quero prejudicar em
nada.
- Quer vir comigo?
- Ah, isso não... Já não era capaz. Mas tu vai, que eu cá me
arranjo. A vizinhança é boa e nada me falta... Já a ti...
Falta-te o Juan... Não é?
Embora disfarçasse, a mãe dissera-lhe o que mais desejava
ouvir e, com alguma tristeza à mistura, lá a informou da
decisão. Iria mesmo para Cuba.
Foram dois longos meses de preparativos até à viagem fimal
para Cuba. Nesse tempo todo, nunca por uma vez ligou a Juan
para saber novidades dele. Mal soube da notícia, pensou em
ligar-lhe, mas pegou no auscultador e, de imediato, pousou-
o... Não o queria pressionar com a sua mudança. Iria para
Cuba, para Trinidad - e se Juan ão estivesse à sua espera,
isso não modificaria em nada a sua decisão.
Ainda havia muito a preparar e Teresa mal tinha tempo
para pensar em Juan. Como já tinha estado em Trinidad, ia-
lhe tratar de todos os preparativos, nomeadamente
hotel e das futuras casas, dos vistos e passaportes, dos
contactos com o Ministério do Comércio.
DEpois, as despedidas. Sandra não se conteve e chorou. sua
amiga ia-se embora de vez. A mãe, mais controlada,
desejou-lhe boa sorte e muita felicidade. Combinaram ainda,
a custo, Que Sandra levaria a mãe de Teresa a visitar Cuba
no próximo Verão. Dessa forma, só ficariam afastadas três
meses e, quem sabe, talvez a mãe gostasse do país e lá
quisesse ficar.
O voo foi mais agradável do que da primeira vez e com ela
seguiam outros colegas, todos rumo a Trinidad. Do grupo, só
Teresa já conhecia a cidade, pelo que lhes ia dando
informações sobre os restaurantes, a praia, os mercados, os
museus. Por instantes, ecoavam-lhe as palavras de Juan,
quando ele lhe explicava o mesmo. Depois, na viagem de carro
de Havana para Trinidad, todo o corpo de Teresa se encheu de
pequenos espasmos nervosos, antecedendo a recepção de Juan.
Estaria ele diferente? Como a receberia? Qual seria o
"clima"? Os colegas, cientes da tensão de Teresa, iam
cantando e tentando descontraí-la, mas nada a demovia dos
seus
pensamentos.
Já em Trinidad, Teresa olhava pelos vidros do carro para
todos os homens que, mesmo remotamente, se parecessem com
Juan. Quando parou à porta do antigo hotel, não se conteve.
Juan estava, ali mesmo, de pé, à sua espera. Teresa correu
para os seus braços e os dois rasgaram os nervos num beijo
único. Durante uns minutos, a rua parou, observando o casal.
Quando eles se deram conta, as suas faces encheram- se de um
vermelho de crianças traquinas.
- Como sabias?
- A tua mãe arranjou o meu telefone... E a tua amiga Sandra
disse-me que vinhas, mas não me explicou tudo... No meio de
tanta algazarra, Juan nem se apercebeu de que Teresa vinha
para trabalhar. Não para passar férias, mas para ficar junto
dele.
- Se quiseres, podes ficar em minha casa... Mas é muito
humilde...
- Queres mesmo?... Olha que eu aceito!
E assim partiram os dois, de malas na mão, para a casa de
Juan, mesmo napraça da igreja matriz. Naqueles primeiros
dias, Juan tirou férias do museu e os dois, completamente
embevecidos, passearam pela cidade, enamoraram-se mais uma
vez e voltaram à praia de Trinidad, onde tinham estreado a
sua união de corpos. Aí, Juan perguntou-lhe pelas conchas.
- Trago-as comigo desde esse dia... Não mais as largarei.
Com esta prova e o céu de Trinidad por testemunha, Juan e
Teresa selaram juras de amor eterno com um beijo.

FIM

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