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Gabriel Fontenelle Micas 13/0009083

Relatório sobre Adolescência, Perspectiva Socio-Histórica,


Drogadição, Família e ECA

O seminário apresentado no dia 15/09 teve a intenção de se discutir o primeiro


módulo da matéria, articulando com outros temas presentes na nossa sociedade. A
perspectiva socio-histórica enxerga o humano de uma maneira que evita um olhar
naturalizante e ahistórico. Anteriormente, procurava-se entender o ser humano em elementos
básicos do seu psiquismo, analisar o que ocorria interiormente, via-se ele separadamente da
sociedade. Se considera a relação dialética, de duas vias, entre o homem e seu contexto socio-
histórico. A ideia é que o ser humano não nasce pronto, o meio social tem forte influência em
seu desenvolvimento. No entanto, não se descarta a influência do biológico. Dessa forma,
procura-se superar um reducionismo do ser humano em ambos âmbitos, seja no biológico ou
social.
Sendo assim, adolescência é tratada na disciplina da mesma forma, como uma
representação social. Algo que é construído socialmente. Cada época, região e contexto social
em que o ser humano viveu possuiu diferentes formas de ver o adolescente, mesmo que as
diferenças sejam tênues. Aqui no Brasil, por exemplo, existe uma grande diferença do que é
ser adolescente em um contexto de miséria, aonde o indivíduo tem de trabalhar desde criança
para sustentar a família, e no contexto da classe média. Muitas vezes, temos um discurso
naturalizante no qual entendemos o adolescente sempre como um ser que vive um momento
conturbado, de crises. O conhecido aborrecente. Apesar de tais formulações são baseadas em
pesquisas quantitativas e em uma base biológica hormonal que, de fato, acontece em todos
adolecentes, existem diferenças individuais e sociais. Caso não as consideremos, estaremos
perdendo um grande espectro da adolescência ou qualquer outro fenômeno humano. Ainda,
muitas vezes acabamos realizando um processo de ipseidade da adolescência, banalizando os
conflitos reais que o jovem está enfrentando, porque pensamos: “é só uma fase”.
O ECA dá corpo para os dispositivos da Constituição Brasileira de 1988 que garantem
às crianças e adolescentes direitos relativos as todas dimensões do desenvolvimento humano.
Eles se tornam, assim, cidadãos de direitos. Muda-se o enfoque. Não se procura mais proteger
a sociedade dos infratores, mas garantir proteção à criança e ao adolescente. Outro fato
interessante do ECA é a participação da sociedade e responsabilização da mesma em relação
aos adolescentes. Sendo assim, cabe ao Estado, família e sociedade a participação na proteção
integral da infância e adolescência. Um dispositivo para abarcar o âmbito da sociedade é o
próprio Conselho Tutelar, que elege os conselheiros da própria comunidade para garantir os
direitos das crianças e adolescentes. Existe também uma ênfase prevenção e promoção social
em lugar da sanção. As medidas de proteção tem por objetivo prevenir o desrespeito aos
direitos, indo da orientação e acompanhamento das famílias, envolvimento de programas
comuntários de apoio à família, até o abrigo em entidades ou colocação em famílias
substitutivas. As medidas socioeducativas são dadas quando se verifica uma prática de ato
infracional pelo adolescente. Elas variam desde a advertência, com medidas em liberdade,
semi-liberdade e até internação. Isso dependerá de muitos fatores, assim como a gravidade do
ato cometido pelo adolescente, seu comportamento no geral, do próprio técnico que o
acompanha e do juiz que o julgará. O ECA, assim como qualquer dispositivo do nosso
Estado, deve acompanhar as mudanças em nossa sociedade, dentro, assim, da perspectiva
socio-histórica. Quando o contexto for outro, as contigências em que o adolescente e a
criança se situam mudarem, as bases legais que os protegem também terão que se ajustar.
Atualmente, os novos paradigmas e políticas públicas brasileiras procuram entender o
jovem usuário de droga não como um deliquente ou traficante, mas como doente, alguém que
precisa de ajuda e orientação.
Assim, será tratado brevemente o texto abordado no seminário. Ele aborda a questão
da adolescência, família e drogadição (Guimarães, Costa, Pessina & Subdrack, 2009). Em
primeiro lugar, o texto analisa os adolescentes além da esfera individual, tratando de seu
contexto social e familiar. Dessa forma, evita-se novamente o reducionismo anteriormente
mencionado aqui. Em relação ao uso de drogas, o texto compreende a dependência de drogas
como algo que vai contra o que o nosso senso comum entende. É explicitado que a
dependência em relação à droga vai além da esfera fisiológica, existe a dependência afetiva
que a pessoa cria com os familiares, dependência com o fornecedor e provedor da droga, com
as pessoas que consomem a droga junto ao adolescente e à própria crença e sentido que a
droga tem na vida do adolescente.
Ainda, também entende-se a família como um sistema composto por diferentes
elementos processual que move-se através do tempo. Dessa forma, os momentos da vida do
indivíduo influenciam e são influenciados pela família. Dentro dessa família, existe o
paradigma familiar, um modo de operar e lidar com os problemas que a família acredita e
utiliza. De acordo com as mudanças contextuais e individuais passadas pela família, é natural
que tal paradigma entre em crise, para então procurar um que se ajuste melhor às novas
condições. Um exemplo seria punir a criança com agressões físicas. Durante a infância, isso
até pode funcionar, o comportamento provavelmente será reprimido. No entanto, quando o
mesmo paradigma não muda e se usa as punições na adolescência, isso pode não surtir mais
os mesmos efeitos e gerar um crescente afastamento e agressividade por parte dos pais e do
adolescente, criando uma espiral de conflitos. Muitas vezes, a família pode passar por
períodos de crise e mudar seu paradigma sem que nenhum indivíduo desenvolva uma
patologia de certo tipo, no entanto, isso também pode acontecer. Esse indivíduo muitas vezes
é entendido como sintoma de uma questão muito maior que está acontecendo na família. O
mesmo acontece, muitas vezes, com adolescentes em situação de uso abusivo de drogas.
Assim, a família acaba entendendo o indivíduo como problemático por si só, não dando
atenção ao que está provocando sua patologia. Isso acaba gerando um mecanismo
homeostático de agravamento da patologia.
Atualmente, diante do contexto histórico que vivemos, os autores defendem que no
período da adolescência o indivíduo entra num processo de se tornar, de fato, um indivíduo. É
nesse momento que ele procura se separar emocionalmente dos genitores, desenvolver sua
identidade e ganhar certa autonomia. Tal processo é sentido por toda família e,
frequentemente, pode causar sofrimento para seus membros. O uso de drogas pode ser um
meio de procurar conhecer novas pessoas e ter novas experiências, algo bastante presente na
vida de adolescentes. No entanto, quando esse uso se torna abusivo, ele mesmo não serve à
sua primeira intenção. Esse processo é conhecido como a pseudo-individuação, na qual o
jovem acaba por se tornar mais dependente dos pais, pois não ganha autonomia: evade do
sistema escolar, etc, assim como se afasta deles, pois os mesmos geralmente relatam que não
o reconhecem mais.
O processo de exploração da margem também é bastante interessante e útil para
entender toda essa relação. Em nossa sociedade, temos as regras bem delimitadas, que devem
ser seguidas para o convívio social adequado. Dependendo do meio social, tais regras
possuem margens grandes ou pequenas. É nesse espaço entre a margem e a regra que é
permitida a auto-expressão e a criatividade. O adolescente, nesse processo de individuação,
explora o espaço das margens, até onde ele vai. Existe um questionamento sobre os valores da
família, da sociedade, procura-se entender até onde os limites vão. É nesse contato com a
margem que é construída a identidade do adolescente. O mesmo precisa de alguém que tenha
um bom vínculo afetivo para que o auxilie nesse processo que é caracterizado por uma
angústia. Os autores entendem que a função paterna que deve cumprir essa missão, seja ela
pelo pai, mãe ou qualquer outro responsável, podendo até ser a lei, por meio das medidas
socioeducativas. Deve haver uma presença de limites na exploração do adolescente, mas ela
não pode ser excessiva. Caso isso aconteça, ela pode não ser respeitada ou prejudicar o
processo de individuação.
Frequentemente, também, ser adolescente é reduzir-se a um rótulo. Tal ideia pode
servir demasiadamente no contexto da terapia familiar, na qual a família pode trazer
rotulações que limitam as possibilidades de existência do adolescente. O terapeuta, assim,
deve-se atentar para não adotá-las de antemão e procurar explorar outras possibilidades que
ele pode apresentar. Assim, ele terá até um maior sucesso de criar um vínculo com o
adolescente, pois esse perceberá que o terapeuta não o vê da mesma forma que os outros.
Tendo todo esse arcabouço teórico acima explanado, procuramos associá-los a um
documentário “Meninos do Tráfico” e a duas entrevistas com adolescentes de classe média
que realizamos. Nesse documentário, percebemos que tais pessoas, que vivem no contexto do
tráfico, não se entendem como parte da sociedade. Percebem que vivem em um meio com
suas próprias leis e regras. O documentário aborda a questão de adolescentes no contexto do
tráfico na favela. Enxergamos diferentes aspectos que são dignos de nota nesse documentário.
Os adolescentes, muitas vezes, entram na vida do tráfico por não terem mais outras opções,
sejam escolares ou financeiras. A própria família precisa de um sustento. Nota-se, assim, que
tais indivíduos tem de assumir responsabilidades que não estão prontos ainda. Tornam-se
adultos precocemente, sem possibilidade de, às vezes, até viver a sua infância. Tudo isso indo
totalmente contra aos direitos defendidos pela Constituição de 1988 e respaldados pelo ECA.
Além dos motivos de sustento familiar, o status e respeito ganho ao participar do tráfico
formenta a entrada desses indivíduos ao mesmo. É claramente percebido, até, uma maior
facilidade de se encontrar parceiras na favela, caso esteja-se portando uma arma. O tráfico faz
parte, até, do imaginário das crianças que brincam de traficante. Algo nunca pensado por uma
criança de classe média ao escolher suas brincadeiras com seus amigos. A diferença é, desse
modo, o contexto social que eles estão e foram criados.
Realizamos entrevistas com dois adolescentes de escolas particulares, ou seja, de
classe média. Os conteúdos trazidos por estes são bastante diferentes dos trazidos no
documentário. Tais adolescentes tem uma visão do futuro, do que irão fazer quando adultos.
Não convivem com uma constante consciência de uma provável morte, seja de si ou de outros
importantes. Nota-se um contexto de estudo e uma falta de tempo para si. Ainda, segundo o
relato do outro adolescente, percebe-se uma relação diferente com as drogas de adolescentes
de classe média para adolescentes no contexto do tráfico. Acaba-se, no tráfico, tornando
necessário o uso de drogas para a pessoa se manter em seu posto de trabalho, não tendo o
mesmo significado do que os outros adolescentes. Analisando a fala dos dois adolescentes, a
vivência da realidade é feita de maneira muito mais leve e natural do que a determinística do
ambiente do trafíco, aonde a expectativa de vida muitas vezes é baixíssima.
Dessa forma, entendemos que existem diferentes contextos sociais e, assim, esses
diferentes contextos sociais possuem diferentes representações sociais do que é ser
adolescente. Pode-se entender que o ECA ainda não consegue abranger uma parcela da
sociedade, aonde esses indivíduos presentes no tráfico não possuem seus direitos garantidos.
Existem muitas dependências que é gerada em relação à droga, e principalmente no contexto
do tráfico, notamos que essas dependência vai muito além de uma questão de estímulos.
Também percebe-se no documentário, a importância da família para a entrada ou não de
adolescentes no contexto da drogadição. No relato de muitos traficantes, é verificada uma fala
de ausência de afeto, ou ausência de um pai. Talvez uma falta de limites, ou a própria
necessidade de se cuidar da família. Além desses, muitos outros pontos foram apresentados
no seminário, mas os aqui expostos são os principais.

Referências:
Guimarães, F. L., Costa, L. F., Pessina, L. M., & Sudbrack, M. F. (2009). Famílias,
adolescência e drogadição. In L. C. Osório, & M. E. P. Do Valle. Manual de terapia
familiar (pp, 350-365). Porto Alegre: Artmed.